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O Duplo Negativo do Capital

Giovanni Alves

Em fins da década de 1980, depois de uma década de capitalismo neoliberal em


transição histórica para o capitalismo global, ocorreu a retomada da lucratividade dos
oligopólios industrias que comandavam a economia mundial. Entretanto, o aumento da
lucratividade ficou abaixo do patamar ocorrido nos “trinta anos dourados” do capitalismo
fordista-keynesiano. Apesar da reestruturação produtiva do capital e da reestruturação da
economia capitalista nos países capitalistas centrais, a crise estrutural de lucratividade
persistia. Os lucros cresceram, mas não num patamar capaz de incentivar o aumento do
investimento produtivo.
A superprodução da massa de capital-dinheiro fez com que a maior parte fosse
canalizado para a esfera das finanças. Apesar do aumento da taxa de exploração, por conta
do impulso à precarização estrutural do trabalho, traço constitutivo do capitalismo global,
persistia a pressão exercida pelo aumento da composição orgânica do capital,
impulsionada por duas importantes revoluções tecnológicas no limiar da IV Revolução
Industrial: a (1) revolução informática e a (2) revolução informacional.
Desde o pós-guerra (1945), o capitalismo tardio, por conta do aumento da
concorrência no mercado mundial, incrementou inovações tecnológicas e
organizacionais, impulsionando na esfera produtiva, o aumento do investimento em
capital constante em detrimento do investimento em capital variável, levando ao aumento
da composição orgânica do capital. A Terceira Revolução Industrial, salientada por Ernst
Mandel no seu livro clássico "O capitalismo tardio", impulsionou, após a recessão global
de 1973-1975, um salto qualitativamente novo de mudanças tecnológicas com efeitos
significativos na base técnica da produção de valor, e inclusive na esfera do trabalho
concreto (por exemplo, a maior presença do dito "trabalho imaterial" na composição
técnica do capital). Portanto, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – e estamos
tratando das economias capitalistas que constituem o “centro orgânico” da produção do
capital – ocorreu crescente pressão pela queda da taxa média de lucros por conta do
notável progresso técnico no setor oligopolista da economia e o aumento da composição
orgânica do capital.
O gráfico 1 nos mostra a perspectiva histórica da evolução da lucratividade nos
países capitalistas centrais desde 1855. É visivel a queda histórica da lucratividade do
capital cai desde 1945, o período do capitalismo tardio, embora tenha se estabilizado de
1946 a 1960. A partir de 1960, observamos novamente o movimento de queda da
lucratividade, aprofundada em 1973. Ela prossegue caindo até 1980. A partir daí, com o
capitalismo neoliberal, em transição para o capitalismo global, a taxa de lucros se
estabiliza num patamar rebaixado, tendo um leve crescimento até 2000, quando cai
devido a crise da Nasdaq (“new economy”). Devido aos incentivos da política monetária
do "Federal Reserve" nos EUA para combater a crise de 2001, tivemos a recuperação da
lucratividade do capital de 2002 a 2007, dando origem à bolha especulativa que, ao
estourar em 2007, provocou a queda abrupta da lucratividade para um patamar mais
rebaixado.

Gráfico 1
Taxa de lucratividade nos países capitalistas centrais
(1855-2009)

“Anos dourados” do era do capitalismo neoliberal


capitalismo fordista-
keynesiano

Fonte: Roberts, 2016


No Gráfico 2, que nos apresenta também o movimento de queda histórica da
lucrativdade nos paises caítalistas centrais, percebemos com mais detalhes, três notáveis
inflexões de queda da taxa de lucros: em 1946 (em relação à alta da lucratividade no
decorrer da Segunda Guerra Mundial (1939-1945); em 1973 e em 2008. A dinâmica
descendente da taxa de lucros após a Segunda Guerra Mundial (1945) pode ser explicada
pela pressão estrutural do aumento da composição orgânica do capital devido, em
primeiro lugar, à expansão da Segunda Revolução Industrial no imediato pós-guerra; e,
depois, o impulsionamento da Terceira Revolução Industrial na década de 1970, a partir
da qual ocorreram duas importantes revoluções tecnológicas (a revolução informática e
revolução informacional). Portanto, foi o notável progresso técnico e o aumento da
composição orgânica do capital que caracterizou o capitalismo tardio que explica, apesar
dos movimentos contratendenciais, a queda histórica da lucratividade.

Gráfico 2
Trajetória da Taxa de Lucro no Países Capitalistas Centrais
(1870-2008)

Fonte: Duménil e Lévy (2014)

No interior da afirmação da tendência de queda da taxa média de lucro constituiu-


se, pelo menos desde o pós-Segunda Guera Mundial (1945), movimentos
contratendenciais à queda histórica da lucratividade. O capitalismo tardio é a forma
histórica no interior da qual se constituiu tais movimentos contratendenciais, tais como,
no período de 1945-1975, a expansão dos mercados capitalistas, o complexo industrial-
militar, a desvalorização do capital constante pela aceleração de rotação do capital fixo e
capital circulante; e a o Estado de Bem-Estar Social que, via fundo público, desvalorizou
o capital variável por meio do salário indireto.
De 1946 a 1960, as economias capitalistas centrais tiveram um período de
expansão sustentável do capital, com a hegemonia norte-americana no mercado mundial
no interior do qual operavam os movimentos contratendenciais. Entretanto, o movimento
do capital é contraditório: a concorencia capitalista afirmou no mercado mundial, a lei do
valor, com o aumento da cmposição orgânica do capital pressionando para baixo a
lucratividade:
Por um lado, os oligopólios industriais utilizaram-se do fundo público como
importante elemento contratendencial à queda da taxa de lucratividade, enquanto os
capitais competitivos, sem acesso ao fundo público, recorreram à utilização do trabalho
precário (no caso dos EUA, negros e imigrantes)
Por outro lado, de modo contraditório, o fundo público foi utilizado para financiar
o progresso técnico via complexo industrial-militar, contribuindo deste modo, para o
aumento da composição orgânica do capital.
Ao mesmo tempo, o Estado de Bem-Estar Social sedimentou no plano da luta de
classes, um novo patamar de enfrentamento social, que, nas condições de tendencia
historica de queda da lucratividade, tornou-se explosivo. Assim, apesar do Estado de
Bem-Estar e a utilização do fundo público terem operados como um importante elemento
contratendencial à queda da lucratividade na primeira etapa do capitalismo tardio, sua
constituição histórica (o compromisso fordista) desafiou a "linha de menor resistência”
do capital (Meszaros).
As contradições sociais do capitalismo fordista-keynesiano se manifestaram com
vigor na década de 1960, quando a queda da lucratividade começou a explicitar-se,
principalmente na última metada dos anos 1960. As contingencias historicas da luta de
classes impulsionraam o sistema mundial do capitalismo a um novo patamar de
desenvolvimento com a recessão global de 1973-1975. Tivemos um complexo de
reestruturação capitalista que articulou movimentos contratendenciais à crise histórica
de lucratividade (a reestruturação produtiva do capital com a desvalorização do capital
variável, a desvalorização “problemática” do capital constante, a expansão dos mercados
capitalistas) e, ao mesmo tempo, o deslocamentos de contradições operados pelo Estado
neoliberal no interior da ordem do capital em sua fase de crise estrutural.
A financeirização da riqueza capitalista não é um movimento contratendencial à
crise estrutural de lucratividade do capital, mas sim, um movimento de deslocamento de
contradições operando a "linha de menor resistência" do capital: ela desloca a luta de
classes, no plano política, para a luta contra frações rentistas-parasitárias, ao invés da luta
contra o modo de produção capitalista; além disso, o próprio capital financeiro oculta o
movimento de exploração, ressaltar como elemento “essencial” do sistema, a espoliação
financeira.
Entretanto, além do movimento de deslocamento de contradições do capital, que
não pode ser desprezado no plano da aparencia (e da contingencia histórica) do sistema
do capital, operou-se mudanças estruturais na composição do lucro capitalista, com a
presença cada vez mais decisiva, do “lucro fictício” derivado do movimento de fuga do
capital-dinheiro acumulado com o aumento da taxa de exploração, para os mercados
financeiros (Gomes, 2015). Vários autores salientam a seu modo, o fenômeno da
financeirizacao do capital como importante elemento para explicar o movimento de crise
do capitalismo global.
Com o capitalismo neoliberal, a “corrosão” do Estado de Bem-Estar Social operou
movimentos contratendenciais e operações de deslocamentos de contradições. Por
exemplo, o capitalismo neoliberal comprometeu-se, por um lado, com politicas de
desvalorização do capital variável, respeitando a “linha de menor resistencia” do capital
– assim, ao invés de ampliar o salário indireto e elementos de Anti-valor na ordem do
capital, como ocorreu com o Estado de Bem-Estar Social (o compromisso político-
histórico do Estado de Bem-Estar Social tornou-se inadequado para o capital), o
movimento do capital social total, diante da crise estrutural de lucratividade, capturou o
fundo público para as politicas de precarização estrutural do trabalho, desvalorizando
efetivamente o capital variável (desemprego em massa, enfraquecimento sindical e
formas precárias de trabalho). Ao mesmo tempo, como vimos acima, o capitalismo
neoliberal operou mecanismos de deslocamentos de contradições com a utilização das
finanças para enfrentar a crise da forma-mercadoria.
Formas de operação do capital
(etapa histórica da crise estrutural do capital)

“linha de menor resistencia do capital”

movimentos contratendenciais
aumento da taxa de exploração
(mais-valia relativa + mais-valia absoluta)
novos mercados
desvalorização do capital constante
(novo imperialismo)
(complexo industrial-militar)

Estado neoliberal
Fundo Público

deslocamentos de contradições
financeirização do capital
acumulação por espoliação
barbarie social

Diante da crise estrutural de lucratividade e da crise estrutural do capital, podemos


discriminar dois modos de operações do capital como “sujeito automático” do processo
de valorização e modo estranhado de controle do metabolismo social: (1) movimentos
contratendenciais à crise estrutural de lucratividade e os (2) deslocamentos de
contradições diante da crise estrutural do capital.
Os movimentos contratendenciais à queda da taxa de lucro operam no plano do
movimento de acumulação do capital produtivo e da produção de valor – no limite da
crise do valor devido a sua desmedida. Podemos salientar, num primeiro lugar, o aumento
da taxa de exploração, que se utiliza de um complexo de mecanismos – sob o capitalismo
global destacamos a “fusão” entre mais-valia relativa e mais-valia absoluta; a
desvalorização do capital constante pelo taxa de utilização decrescente do valor de uso,
aceleração do progresso técnico, novo imperialismo com a predação de recursos
estratégicos que compõem o capital circulante; e depois, a abertura de novos mercados,
impulsionado pela concorrência, seja internamente (obsolescencia planejada) ou
externamente (globalização). Por exemplo, o complexo industrial-militar tornou-se
elemento estrutural da dinâmica de desvalorização do capital-mercadoria e inclusive,
capital constante, na etapa de crise estrutural de lucratividade.
Os movimentos de deslocamentos de contradições do capital, não operam no
plano da lei do valor, mas contribuem para a reprodução do capital como sistema de
metabolismo social. Destacamos acima, a financeirização da riqueza capitalista como um
importante movimento de deslocamento de contradições no sentido que opera a crise da
forma-mercadoria e oculta a produção do valor pelo “fetiche do capital-dinheiro”. Ao
deslocar contradições, o capital não as suprime, mas, pelo contrário, as eleva a um
patamar superior. O processo civilizatório da sociedade do emprego paga um alto preço
à lógica da financeirização da riqueza capitalista construida pelo capitalismo neoliberal.
O predomijio do capital financeiro realiza contingencialmente, a afirmação do
fetiche da mercadoria intrínseca ao próprio modo capitalista de produção da vida social.
Ele se origina como fração do capital do próprio desenvolvimento das contradições
estruturais da acumulação de valor. O Estado neoliberal, forma política do capital
financeiro, ao pôr-se à serviço do capital financeiro, compõe-se politicamente com
mecanismos contratendencias à crise estrutural de lucratividade, operando o aumento da
taxa de exploração e o aumento do consumo por meio de mecanismos bancários e
financeiros (existe uma afinidade sistêmica entre toyotismo como novo produtivismo e
financerização da riqueza capitalista).

Capital como contradição viva

No plano da essencia do sistema, a utilização da desvalorização do capital variável


como mecanismo contratendencial de maior eficácia para reduzir a composição orgânica
do capital, possuía uma condição sine qua non: a desvalorização do capital constante
(capital fixo + capital circulante) deveria ocorrer numa velocidade igual ou maior que a
desvalorização do capital variável em termos de valor (na equação abaixo, C é a
composição orgânica do capital, medida em termos de valor).
capital constante

C= ____________________ (em termos de valor)

capital variável

Mas, foi o que não ocorreu: apesar do impulsionamento das revoluções


tecnológicas na nova etapa do capitalismo tardio em transição histórica para o capitalismo
global e o limiar da Quarta Revolução Tecnológica no começo do século XXI, o capital
constante não conseguiu se desvalorizar numa velocidade igual ou superior à
desvalorização do capital variável. O aumento histórico da composição orgânica do
capital pressionou para baixo a taxa média de lucro das corporações industriais, ou pelo
menos impediu que ela aumentasse apesar do crescimento da taxa de exploração num
patamar inédito do capitalismo tardio.
A título de hipóteses explicamos as dificuldades de desvalorização do capital
constante utilziando um argumento oriundo da lógica da desmedida do valor (o que
veremos logo adiante):
(1) Na etapa de crise estrutural da lucratividade e crise estrutural do capital, o
movimento de desvalorização do capital constante tornou-se a variável decisiva no
desenvolvimento contratendencial à queda da taxa média de lucro. A "taxa de
utilização decrescente" (Meszaros), elemento da autoreproducao destrutiva do capital,
precisa generalizar-se pelos departamentos de meios de produção e não apenas pelo
departamento de bens de consumo; eis a funcionalidade do complexo industrial-militar
(Andrew Kliman observou que foi a falta da "destruição de capital" que impediu a
retomada da taxa de lucratividade depois da recessão global de 1973-1975) (Kliman,
2011).
(2) A quase-inércia do movimento de desvalorização do capital constante, além
das dificuldades do movimento de desvalorização do capital constante no
departamento de meios de produção e da ausência da destruição de capital, pode ser
explicada pelo fenômeno da desmedida do valor e pela natureza do progresso técnico,
cada vez mais permeado pelo trabalho imaterial, forma material de trabalho concreto
mais recalcitrante à operação do trabalho abstrato. Portanto, a profunda desvalorização
do capital variável ocorrida nas décadas neoliberais (1980-...) não foi suficiente para
promover por si só, a retomada da lucratividade com taxas iguais ou superiores àquela
da era dourada do capitalismo fordista-keynesiano (1945-1975); e à altura das
expectativas de realização adequada à massa de capital-dinheiro acumulada na década
de 1980. Assim, foi necessário que a desvalorização do capital constante ocorresse
numa velocidade superior – o que não ocorreu.

A desmedida do valor

Enquanto Marx expõe pela ótica de “O Capital - Crítica da Economia Política”


(1867), o movimento contraditório da lei tendencial de queda da taxa média de lucro, por
outro lado, nos Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (em português:
“Elementos fundamentais para a crítica da economia política”, conhecido simplesmente
como Grundrisse) (1858), Marx salientou outra dimensão da maior presença do trabalho
morto (capital fixo) sobre o trabalho vivo: a desmedida do valor. Iremos considerar como
movimento do dupla negativo da relação-capital, por um lado, a tendência estrutural de
queda da lucratividade, que caracteriza o capitalismo global, tendo em vista o aumento
da composição orgânica do capital, que pressiona a taxa média de lucro das corporações
industriais; e por outro lado, o fenômeno da “desmedida de valor”, que iremos descrever
– de modo introdutório - logo abaixo.
O que interessa ressaltar no fenômeno da “desmedida do valor” é a dimensão
“prometeica” do sentido da desmedida – isto é, a explicitação do capital como
“contradição em processo”, que, ao mesmo tempo que afirma a si próprio, cria as
possibilidades concretas para a sua própria negação como relação de valor e portanto,
expõe as bases materiais da emancipação humana.
O duplo negativo do capital é resultado do movimento do valor em processo – a
explicitação da lei tendencial da queda da taxa média de lucro provocada pelo aumento
histórico da composição orgânica do capital. Estamos diante de um fenômeno histórico
que caracteriza o capitalismo monopolista do século XX e que decorre das leis da
concorrência capitalista, mesmo na condição do capital monopolista. Na ânsia de reduzir
os custos de produção visando ocupar novos mercados, nas condições históricas da crise
crônica de superprodução/subconsumo, a concorrência entre os múltiplos capitais,
exacerbada no plano do sistema global, faz as empresas reduzirem investimentos em
capital variável e aumentarem investimento em capital constante (apesar dos movimentos
contratendenciais à queda da lucratividade que percorre o capitalismo do século XX –
como vimos acima - impõe-se hoje, mais do que nunca, a lógica historicamente concreta
do aumento do trabalho morto em detrimento do trabalho vivo - a mercadoria-força de
trabalho, única mercadoria capaz de produzir mais-valor).
Mas o aumento histórico da composição orgânica do capital, no sentido de
aumento do capital constante, principalmente do componente do capital fixo (máquinas
e equipamentos, por exemplo), expressa o “salto mortal” do aumento da produtividade
do trabalho decorrente do desenvolvimento da grande indústria e hoje, com o capitalismo
global, da “pós-grande indústria”, que cria as bases materiais para a terceira forma de
produção do capital (a maquinofatura)1. O aumento da composição orgânica do capital
expressa o aumento das “forças produtivas da sociedade” (Marx).
Com o capitalismo global exacerbou-se efetivamente a principal contradição do
modo de produção capitalista, exposta por Karl Marx em 1859 – portanto, há cerca de
160 anos! -, isto é, a contradição entre as forças produtivas da sociedade e as relações de
produção capitalista. Diz Marx: “De formas evolutivas das forças produtivas, que eram,
essas relações convertem-se em seus entraves. Abre-se então, uma era de revolução
social”.2
O fenômeno da “desmedida de valor” é resultado da característica essencial do
capitalismo tardio, pois expressa o acumulo das mais densas contradições do capital. Ela
é a decorrência lógico-ontológica da evolução do capital como “sujeito automático” da

1
Desenvolvemos o conceito de maquinofatura em Alves (2013). Entendemos por maquinofatura, a
terceira forma de produção do capital, depois da manufatura e grande indústria.
2
Nesta passagem do “Prefácio” ao seu primeiro livro de crítica da economia política - “Contribuição à
Crítica da Economia Política”, de 1858, Karl Marx nos deixa preciosos elementos metodológicos que iriam
fundamentar o materialismo histórico. Prossegue ele: “A transformação que se produziu na base económica
transtorna mais ou menos, lenta ou rapidamente, toda a colossal superestrutura. Quando se consideram tais
transformações, convém distinguir, sempre, a transformação material das condições económicas de
produção — que podem ser verificadas, fielmente, com a ajuda das ciências físicas e naturais — e as formas
jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas, sob as quais os
homens adquirem consciência desse conflito e o levam até ao fim. Do mesmo modo que não se julga o
indivíduo pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de abalos pela consciência
que ela tem de si mesma. Ê preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida
material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma
sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter,
e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais
de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. É preciso, ao
contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as
forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam
desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores
não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido
incubadas no próprio seio da velha sociedade. Eis por que a humanidade não se propõe nunca senão os
problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á, sempre, que o próprio problema
só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir.” (Marx,
1983).
modernização histórica. A explicação marxiana da desmedida do capital parte do
princípio de que, “quanto maior é a força produtiva do trabalho, menor é o tempo de
trabalho requerido para a produção de um artigo, menor a massa de trabalho nele
cristalizada e menor seu valor” (Marx, 1996).
Portanto, de acordo com a teoria do valor-trabalho de Marx, a grandeza de valor
de uma mercadoria varia na razão direta da quantidade de trabalho que nela é realizada e
na razão inversa da força produtiva desse trabalho. Assim, a desmedida do valor possui
como base material a redução progressiva da grandeza de valor cristalizada numa
mercadoria por conta do aumento da força produtiva do trabalho. O "salto mortal" da
força produtiva do trabalho no capitalismo tardio alavancou o fenômeno da desmedida
do valor, produzindo o que denominamos de expansão/negação do valor (Alves, 2018).
O capitalismo tardio se caracterizou, de modo inédito na história humana, pela
ocorrência de duas revoluções industriais em pouco mais de cinquenta anos de
desenvolvimento capitalista: a Terceira Revolução Industrial e a Quarta Revolução
Industrial. Elas promoveram significativas mudanças tecnológicas que impulsionaram o
aumento da força produtiva do trabalho e a redução do tempo de trabalho necessário para
a produção das mercadorias com impactos decisivos na formação do valor. Essa mutação
orgânica da base técnica do sistema produtor de mercadorias, o aumento do capital fixo
na produção de valor e, por conseguinte, a redução do capital variável, ou ainda a maior
presença do trabalho morto em detrimento da redução – em termos relativos, mas não
absolutos – do trabalho vivo na esfera de produção do valor, teve impactos históricos na
composição orgânica do capital, levando à operação de movimentos contratendenciais à
queda da taxa média de lucros (o que verificamos com a crise do capitalismo tardio).
Deste modo, o primeiro elemento do fenomeno da “desmedida do valor” é a
redução do quantum de trabalho utilizado como fator decisivo da produção de riqueza.
Até a grande indústria, a massa de tempo de trabalho, o quantum de trabalho vivo, é o
elemento decisivo na produção da riqueza – o valor econômico. Com o fenomeno da
desmedida do valor, tempo de trabalho deixará de ser a "medida do movimento". Diz
Marx nos Grundrisse:
"[...] Mas à medida em que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza
efetiva se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho
utilizado, do que da força dos agentes (Agentien, agentes materiais - GA) que são postos
em movimento durante o tempo de trabalho (...)" (Marx, 2013)
Extraindo as consequencias lógico-dialéticas dos extratos escritos por Marx nos
“Grundrisse”, Ruy Fausto observa que, nesse caso, a “valorização” não é mais a
cristalização de um tempo posto. Ela se dá no tempo, mas o tempo volta à sua
imediatidade. Enfim, a "valorização" se liberta do tempo de trabalho, mas com isto ela
não será mais valorização. E volta a citar Marx, prosseguindo a passagem acima:

"(,..) [agentes] os quais, eles próprios - sua poderosa efetividade [powerful


effectiveness] por sua vez não tem mais nenhuma relação com o tempo de trabalho
imediato que custa a sua produção, mas [a criação da riqueza efetiva, R.F.] depende antes
da situação geral da ciência, do progresso da tecnologia, ou da utilização da ciência na
produção" (Marx, 2013).

O fenomeno da “desmedida do valor” representa uma possibilidade concreta do


desenvolvimento do capital no interior do modo de produção capitalista, que se põe como
pressuposto negado nas condições históricas do capitalismo tardio.

Enquanto, por um lado, o aumento da força produtiva do trabalho conduz ao


aumento da composição orgânica do capital, pressionando historicamente a queda da taxa
média de lucro e levando à crise estrutural da lucratividade; por outro lado, ela leva ao
fenomeno da desmedida do valor, último desenvolvimento da relação de valor, que se
caracteriza pela drástica redução do quantum de trabalho vivo, a massa de tempo do
trabalho, utilizado como fator decisivo da produção de riqueza.

O fenomeno da desmedida do valor não significa a “extinção” do


desenvovlimento da relação de valor – pelo contrário, ela representa a última etapa de
desenvolvimneto da relação-valor lastreada na relação-capital. Expõe-se dialeticamente
o fenomeno do colapso/exacerbação do valor como relação social (Alves, 2018). A
miséria do presente (a exacerbação das formas derivadas de valor) se contrasta com o
movimento da riqueza do possivel (o “colapso” da relação-valor) como possibilidade
concreta. Existe um candente conflito potencial entre o valor qualitativo medido pelo
tempo de trabalho, (trabalho abstrato cristalizado) e o valor que passa a ser quantitativo,
com a riquea efetiva não sendo mais valor, mas “valor negado”. Ao se libertar do tempo
de trabalho, a “valorização” não será mais valorização. Diz Fausto: “Temos assim um
"poder" que escapa do tempo como medida” (vamos interrogar com Marx: quais formas
ideológicas no século XX sob as quais “os homens adquirem consciência desse conflito
e o levam até o fim”?).
Marx prossegue nos dizendo nos “Grundrisse”: "(...) a riqueza efetiva se
manifesta antes - e isto a grande indústria revela - numa desproporção monstruosa entre
o tempo de trabalho empregado e o seu produto, assim como na desproporção qualitativa
entre o trabalho reduzido a uma pura abstração e o poder (Gewalt) do processo de
produção que que vigia” (Marx, 2013).

Nesse vislumbramento dialético das possibilidades concretas do último


desenvolvimento da relação-valor (maravilhosa especulação dialética!), Marx quis nos
dizer que a riqueza efetiva não é mais proporcional ao tempo de trabalho. Há entre a
riqueza econômica e a riqueza efetiva uma “desproporção qualitativa”. Diz Fausto: “Um
elemento tem um peso ‘maior’ do que o outro, sem que este ‘maior’ possa ser medido
pelo tempo, ou medido em geral. O processo de trabalho é agora essencialmente processo
de produção” (Fausto, 1989). Eis o sentido do feomeno da desmedida do valor.

A contradição em processo desvelada por Marx nos “Grundrisse”, entre a


produção do valor econômico (como movimento da aparência do sistema que expressa
um modo de ser da essencia – a acumulação de capital); e a sua própria “negação” como
possibilidade concreta, manifesta pela “desproporção qualitativa” entre “o trabalho
reduzido a uma pura abstração e o poder do processo de produção que vigia” conduz a
profundas implicações para o mundo social do trabalho vivo e para a própria reprodução
do capital. Não nos interessa tratar neste momento, por exemplo, das mudanças inscritas
na “maquinofatura” como nova forma de produção do capital. Ela representa a última
forma social da produção do capital como produção do “valor negado”. O capital encontra
seus próprios limites: a relação-capital.

O “poder” que escapa do tempo como medida, altera a relação entre tempo de
trabalho-tempo de vida como tempo disponivel (valor humano). Na maquinofatura, as
novas máquinas capitalstas, expressões da força produtiva da sociedade, contém a
possibilidade concreta do homem se relacionar como guardião e regulador do próprio
processo de produção. Entretanto, a relação-capital cristalizada nas relações de produção
capitalistas, como observou o velho Marx, entravam a manifestação da riqueza efetiva.

Deste modo, a título meramente introdutório, apreendermos a natureza da


desmedida do valor como sendo a mudança qualitativamente nova que altera – no plano
das possibilidades concretas do sistema - a medida do valor como fundamento do valor-
trabalho. Com o fenomeno da desmedida do valor, a “valorização” se liberta do tempo de
trabalho que deixará de ser a “medida do movimento” – com isto ela não será mais
valorização (o valor humano escapou do tempo como medida do valor econômico).
Noutra passagem dos Grundrisse, Karl Marx, discutindo o capital fixo e
desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, expressou, de modo sintético, o que
comentamos acima. Diz ele:
“Consequentemente, quanto mais desenvolvido o capital, quanto mais trabalho
excedente criou, tanto mais extraordinariamente tem de desenvolver a força produtiva do
trabalho para valorizar-se em proporção ínfima, i.e., para agregar mais-valor - porque o
seu limite continua sendo a proporção entre a fração da jornada que expressa o trabalho
necessário e a jornada de trabalho total. O capital pode se mover unicamente no interior
dessas fronteiras. Quanto menor é a fração que corresponde ao trabalho necessário,
quanto maior o trabalho excedente, tanto menos pode qualquer aumento da força
produtiva reduzir sensivelmente o trabalho necessário, uma vez que o denominador
cresceu enormemente. A autovalorização do capital devém mais difícil à proporção que
ele já está valorizado. O aumento das forças produtiva deviria indiferente para o capital;
inclusive a valorização, porque suas proporções teriam se tornado mínimas; e o capital
teria deixado de ser capital. Se o trabalho necessário fosse 1/1000 e a força produtiva
triplicasse, o trabalho necessário só cairia 1/3000 ou o trabalho excedente só teria crescido
2/3000. No entanto, isso não ocorre porque cresceu o salário ou a participação do trabalho
no produto, mas porque o salário já caiu muito, considerado em relação ao produto do
trabalho ou à jornada de trabalho vivo. (O trabalho objetivado no trabalhador manifesta-
se aqui como fração de sua própria jornada de trabalho vivo, pois essa fração é a mesma
proporção que há entre o trabalho objetivado que o trabalhador recebe do capital como
salário e a sua jornada de trabalho inteira)” (Marx, 2013).
Deste modo, Marx ressaltou que o capital se move no interior do continuum de
tempo da jornada de trabalho, tendo por um lado, a fração da jornada que expressa o
[tempo de] trabalho necessário e, por outro lado, a fração da jornada de trabalho total. Eis
os dois elementos cruciais para o movimento do capital como “sujeito automático” da
auto-valorização do valor: (1) o tempo de trabalho socialmente necessário para a
produção de uma mercadoria e o (2) o tempo da jornada inteira de trabalho.
Entretanto, com o aumento da força produtiva do trabalho por conta de alterações
na base técnica do sistema de exploração da força de trabalho, propiciado pelas
revoluções industriais, ocorreu a redução do tempo de trabalho socialmente necessário
para a produção das mercadorias.
As alterações na base técnica do sistema produtor de mercadorias podem ocorrer,
não apenas pela introdução de novas tecnologias de produção – por exemplo, máquinas
– mas também pela adoção de novos métodos de organização do trabalho vivo (gestão)
que contribuem para administrar a intensificação do trabalho (o estresse da força física e
espiritual do trabalho vivo).
A redução do tempo de trabalho socialmente necessário provocou a redução da
massa de trabalho cristalizada nas mercadorias; e por conseguinte, reduziu seu valor. Ao
mesmo tempo, ao reduzir-se o tempo de trabalho necessário, mantendo o tempo da
jornada inteira de trabalho, ampliou-se o tempo de trabalho excedente ou tempo de
trabalho não-pago (mais-valia relativa).
É a obsessão do capital extrair mais-valor nas condições históricas da
concorrencia capitalista, que faz com que o capital impulsione as inovações tecnológicas
capazes de reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção das
mercadorias, mesmo mantendo o limite político e histórico-moral da jornada de trabalho.
Entretanto, como salientamos acima, o capital como “contradição viva”, ao reduzir o
tempo de trabalho socialmente necessário e aumentar o tempo de trabalho não-pago (ou
o mais-valor relativo), provoca a redução do valor cristalizado nas mercadorias (a teoria
do valor-trabalho afirma que o capital constante não produz valor – ele apenas o
transfere, sendo por isso que Marx o denominou de capital constante. Só o capital variável
é capaz de produzir mais-valor).
Portanto, Marx expos a contradição radical do capital: quanto mais incorpora
máquinas na produção, mais ele precisa incorpora-las “para valorizar-se em proporção
ínfima”. Por conta da lei da concorrência capitalista, existe quase uma pulsão recorrente
para reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário e, por conseguinte, criar trabalho
excedente, ao mesmo tempo que, o movimento voraz do capital reduz a base material da
própria valorização do valor. Diz ele: “Quanto mais desenvolvido o capital, quanto mais
trabalho excedente criou, tanto mais extraordinariamente tem de desenvolver a força
produtiva do trabalho para valorizar-se em proporção ínfima. ”
Eis a tragédia do capital – diz Marx: “A autovalorização do capital devém mais
difícil à proporção que ele já está valorizado.” Nesse sentido, Marx vislumbrou a
desmedida do valor como limite do capital autovalorizado contraditoriamente. Ele
afirmaria logo a seguir: “O aumento das forças produtiva deviria indiferente para o
capital; inclusive a valorização, porque suas proporções teriam se tornado mínimas; e o
capital teria deixado de ser capital.” (Marx, 2013). Assim, no limite, o aumento da força
produtiva torna-se incapaz de impulsionar a valorização do capital, tornando-se
indiferente para ele mesmo. Pelo contrário - diante do aumento histórico da composição
orgânica do capital, temos a crise estrutural de lucratividade. Na medida em que o valor
do produto-mercadoria se reduziu a uma proporção ínfima de si, tendo em vista a redução
exponencial do trabalho socialmente necessário para produzi-la, o progresso técnico se
descolou ou tornou-se indiferente para a autovalorização do capital. Mesmo sendo
indiferente a si, o desenvolvimento das forças produtivas do capital prossegue
irremediavelmente como uma pulsão obsessiva do capital como processo em contradição,
que opõe o processo tecnológico à totalidade viva do trabalho.
Marx observou – e vale a pena repetir: “O aumento das forças produtiva deviria
indiferente para o capital; inclusive a valorização, porque suas proporções teriam se
tornado mínimas; e o capital teria deixado de ser capital.” [o grifo é nosso].
Portanto, a indiferença do processo tecnológico à valorização do valor acusa a
desmedida do valor provocada pelo aumento das forças produtivas do capital e a redução
quase-infinita do trabalho socialmente necessário na produção das mercadorias. A
transformação do processo de produção do simples processo de trabalho em um processo
científico (Marx, 2013) ou processo de produção do capital, com o capital fixo
subsumindo o trabalho vivo, continha o para-si da “negação da negação” do capital como
processo de valorização.

O « duplo negativo » do capital

Aumento da composição orgânica do capital


a pressão da “lei” tendencial de queda da taxa média de lucro
(mercado mundial)
A crise estrutural de lucratividade

Desmedida do valor
(“negação” do capital no interior do capitalismo)

Noutra passagem dos Grundrisse, Marx expõe a mesma lógica da desmedida do


valor, que faz com que, dialeticamente, o capital deixe de ser capital no sentido do capital
como processo de valorização do valor propriamente dito, à mercê da crise estrutural de
lucratividade. O capitalismo tardio expõe o movimento do capital "afetado de negação":
“Na mesma medida em que o tempo de trabalho – o simples quantum de trabalho
– é posto pelo capital como único elemento determinante de valor, desaparece o trabalho
imediato e sua quantidade como o princípio determinante da produção – a criação de
valores de uso –, e é reduzido tanto quantitativamente a uma proporção insignificante,
quanto qualitativamente como um momento ainda indispensável, mas subalterno frente
ao trabalho científico geral, à aplicação tecnológica das ciências naturais, de um lado,
bem como [à] força produtiva geral resultante da articulação social na produção total –
que aparece como dom natural do trabalho social (embora seja um produto histórico). O
capital trabalha, assim, pela sua própria dissolução como a forma dominante da
produção.”(Marx, 2013) [o grifo é nosso]
O movimento do capital na sua ânsia de substituir trabalho vivo por trabalho
morto, capital variável por capital fixo, faz "desaparecer" o processo de trabalho e o
trabalho imediato e sua quantidade como o princípio determinante da produção. O
processo de trabalho como processo de valorização se interverte em processo científico –
expressão de Marx – ou processo tecnológico na medida em que o processo de produção
do capital torna-se processo de tecnologização da ciência aplicada à produção de
mercadorias. O processo cientifico de produção de mercadorias é um processo
problemático para o modo de produção do capital, na medida em que o tempo de trabalho,
único elemento determinante de valor, se reduz a uma “proporção insignificante”. Como
diz ele, o trabalho é “um momento ainda indispensável, mas subalterno frente ao trabalho
científico geral, à aplicação tecnológica das ciências naturais, de um lado, bem como [à]
força produtiva geral resultante da articulação social na produção total – que aparece
como dom natural do trabalho social (embora seja um produto histórico). Não se trata de
dispensar absolutamente o trabalho vivo, mas torna-lo efetivamente subalterno ao
arcabouço tecnológico do capital, produto histórico da força social de produção do capital
social total.
Na medida em que o tempo de trabalho, único elemento determinante de valor,
“desaparece”, o capital deixa de ser capital ou, noutras palavras, “o capital trabalha,
assim, pela sua própria dissolução como a forma dominante da produção” (Marx, 2013).
Estamos na plenitude da lógica dialética, com a desmedida de valor provocando o
“desaparecimento” do tempo de trabalho como quantum ou medida da riqueza. O
movimento dialético do ser do capital, que existe somente no devir, conduz da qualidade
à quantidade e, logo após, à medida que, na lógica hegeliana, é “a verdade da qualidade
e da quantidade, unidade na qual toda mudança quantitativa indica simultaneamente uma
mudança qualitativa” (Hegel, 1995).
No plano material, ocorrem mudanças qualitativas no movimento da essência do
capital que fazem com que a indiferença da medida chegue ao seu limite – “e, por sua
transgressão através de um mais ou um menos suplementar, as coisas deixem de ser o que
eram. ” (Hegel, 1995). A lógica da dialética hegeliana expõe o “para além do capital” no
plano lógico-ontológico da essência do ser: “Essa determinação-progressiva é, a um
tempo, um pôr-para-fora [Heraussetzen] e portanto um desdobrar-se do conceito em si
essente; e, ao mesmo tempo, o adentrar-se em si [Insichgehen] do ser, um aprofundar-se
do ser em si mesmo.” (Hegel, 1995).

A “negação” do capitalismo no interior do próprio capitalismo

O movimento do capital-que-deixa-de-ser-capital – no plano da inadequação do


conteúdo material - ou, noutras palavras, o movimento do capital que trabalha pela sua
própria dissolução como a forma dominante da produção, é o movimento do capital no
interior do seu duplo negativo: crise estrutural de lucratividade e desmedida do valor.
Trata-se da “negação” do capitalismo no interior do capitalismo, como capitalismo
“negado” (Fausto, 1987).
Como observou Ruy Fausto, a contradição do capital que se assinala aqui, com o
fenômeno da desmedida do valor, não é a que se analisa em “O Capital”, ou, se se quiser,
ela não é considerada no mesmo grau, e por isso muda de caráter. Diz ele:
“Em ‘O Capital’, a contradição consiste em que o desenvolvimento do sistema
(desenvolvimento que só pode se fazer pela substituição crescente da força de trabalho
pela maquinaria), ao aumentar a composição orgânica c/v, tem como resultado, já que a
mais-valia vem de v (e supostas certas condições), a redução da taxa de lucro Pl/C. O
sistema iria à ruina, porque a sua finalidade é acumular mais-valia, e se a taxa de lucro
for muito baixa cai o estímulo (objetivo e subjetivo) para que a acumulação prossiga”
(Fausto, 1989).

Entretanto, “Os ‘Grundrisse’ nos põem diante do mesmo movimento, só que eles
consideram não os efeitos formais imediatos de uma mecanização crescente, mas os
efeitos materiais anunciando revoluções formais, de uma mecanização que deu origem a
uma transfiguração da relação da ciência para com a produção. Estamos, assim, diante de
uma verdadeira transformação - como vimos, o termo se encontra no texto - do processo
produtivo, de uma mutação tecnológica, e os efeitos formais considerados não atingem
apenas o nível, que é afinal, fenomênico, da taxa de lucro, mas os ‘fundamentos’ do
sistema. A mutação tecnológica não produz contradições internas no sistema, ela provoca
a explosão de suas bases. O resultado é a relação do que é a ‘verdadeira riqueza’.” (Fausto,
1989).

Assim, no plano da materialidade histórica, o capitalismo global é o capitalismo


tardio na etapa de crise estrutural do capital que, no plano do ser (e da sua essência) é um
“capitalismo negado” no sentido de que operam em seu interior a crise estrutural da
lucratividade e a desmedida do valor (o duplo negativo do capital).
O capitalismo global é a nova etapa do capitalismo tardio em que o movimento
das leis tendenciais da acumulação de capital operam no interior da "negação" (ou
suprassunção) de sua determinação-progressiva (o tempo de trabalho como único
elemento determinante de valor). A lógica dialética do movimento do capital explicita-se
radicalmente. Na era da desmedida do valor, o movimento do capital “negado” significa,
por um lado, (1) um “pôr-para-fora” – diria Hegel: “um desdobra-se do conceito em si
essente” (Hegel, 1999), ou seja, um desdobrar-se do capital em seus elementos essenciais
mesmo que opere no plano do “capital que deixou de ser capital”. Apesar da desmedida
de valor, o aumento da composição orgânica do capital (em valor) põe para fora
movimentos contratendenciais históricos à queda da taxa média de lucros.
O complexo do “duplo negativo” do capital

“pôr-para-fora” [Heraussetzen] “adentrar-se em si” [Insichgehen]

Processo de produção do capital como “negação” do tempo de trabalho,


processo tecnológico elemento determinante do valor

Aumento da composição orgânica do A desmedida do valor e o movimento da


capital e seus movimentos negação [suprassunção] do capital como
contratendenciais à queda da taxa média capital.
de lucro

[Autocentramento Exótico]
Financeirização da riqueza capitalista

A “desparametrização” do conceito do capital em si, com seus elementos


essenciais, medidos em termos de valor (por exemplo, composição orgânica do capital,
jornada de trabalho, salário, etc), não significa sua invalidação ontológica na
determinação do devir da forma do ser do capital. Pelo contrário, o “passar para outra”
do capital mantém operando, sob a forma exótica, o conceito em si essente do capital (isto
é, o capital em seus elementos essenciais). Por exemplo, consideramos a financeirização
da riqueza capitalista como uma forma exótica que desloca as contradições do sistema
diante à crise estrutural de lucratividade (o “pôr-para-fora” representa o ex-otismo do
capitalismo global).
Por outro lado, na era da desmedida do valor, na perspectiva da lógica dialética, o
movimento do capital “negado” significa (2) o “adentrar-se em si” do ser” – ou como
diria Hegel, “um aprofundar-se do ser em si mesmo” (Hegel, 1999), ou seja, o capital em
sua etapa de crise estrutural, não é apenas ex-ótico, mas autocentrado em si mesmo como
movimento de valorização do valor – hoje, “negado” – mas posto-para-fora como capital
fictício. A dominância do capital especulativo-parasitário é a forma histórica do capital
“aprofundado em si mesmo”, explicitando na totalidade de ser suas determinações
estranhadas.

Desmedida do Valor, Trabalho “Imaterial” e Trabalho Abstrato

Com o capitalismo global, tendo em vista os novos territórios de produção do


capital abertos com a deslocalização industrial, a nova divisão internacional do trabalho
e a mundialização produtiva, o trabaho vivo como força de trabalho, fonte de mais-valor,
cresceu, em termos absolutos, aumentando exponencialmente, o capital variável na
composição orgânica do capital e indiscutivelmente a massa de mais-valia no plano global
(por exemplo, a inserção do Sudeste Asiático, Leste Europeu, Rússia e China no circuito
de produção industrial do capital global).
Ao mesmo tempo, aumentou o capital constante - principalmente seu componente
de capital fixo (máquinas, edifícios, matéria-prima, etc.). O capitalismo global
impulsionou a concorrência capitalista obrigando cada unidade de capital a tentar superar
seu rival, introduzindo meios de produção tecnologicamente mais avançados que lhes
permita reduzir os custos de produção. No plano da lógica do valor, as corporações
monopolistas eliminam setores atrasados que possuem uma composição orgânica baixa
com o objetivo de substituí-los por outros com composição orgânica mais elevada - o que
significa que, embora tenha crescido em termos absolutos, o capital variável, o aumento
do capital constante foi maior, fazendo crescer a composição orgânica do capital em
termos relativos (o que explica a pressão histórica sobre a taxa média de lucro). Assim,
os oligopólios globais promoveram um rápido crescimento dos investimentos em capital
constante.
Apenas as grandes empresas têm a capacidade financeira de acelerar o processo
de obsolescência do capital fixo, acelerando, deste modo, a taxa de rotação do capital
constante. Nas condições das novas revoluções tecnológicas do capitalismo global, o
desenvolvimento das forças produtivas do capital implicou investimentos diretos (e
indiretos) cada vez mais caros, visando reduzir o valor contido no trabalho morto por
conta do aumento da produtividade do trabalho no setor I (o setor de bens de produção).
A desvalorização do capital constante contribuiria para a queda da composição orgânica
do capital.
Entretanto, a natureza do novo capital constante (capital fixo + capital circulante),
as novas máquinas complexas e os novos materiais, que surgiram com as revoluções
tecnológicas, permeados de trabalho imaterial recalcitrante à medida do valor,
“transfiguram” efetivamente o cálculo da produtividade do trabalho no setor I, tendo em
vista o fenômeno da desmedida do valor, tornando mais lento, a redução do valor contido
no trabalho morto.
Portanto, apesar do aumento da aceleração da taxa de rotação do capital constante
por conta das inovações tecnológicas e obsolescência planejada dos meios de produção,
o descenso do valor das novas máquinas e dos novos materiais (capital constante) tornou-
se mais lento do que o descenso do valor da força de trabalho (capital variável),
impedindo a queda mais acelerada da composição orgânica do capital num cenário
histórico de aumento persistente dela por conta da maior presença do trabalho morto no
arcabouço produtivo.
Por isso, acelerou-se a desvalorização da força de trabalho e do trabalho vivo (o
que explica a tendência histórica à precarização estrutural do trabalho na era do
capitalismo global com o crescimento do desemprego em massa e a nova precariedade
salarial). Ao mesmo tempo, a queda do valor da força de trabalho (v) que ocorre por meio
da precarização estrutural do trabalho encontrou um limite histórico-moral, dado pela luta
de classes e a correlação de forças entre capital e trabalho.
É importante salientar outra contradição que dilacera o movimento
contratendencial à queda da taxa média de lucro nas condições do capitalismo global: os
limites do aumento da taxa de exploração são dados não apenas pela luta de classes e a
correlação de forças entre capital e trabalho, mas também pelas condições histórico-
morais de exploração do trabalho vivo no capitalismo do século XXI.
Para que se possa deter efetivamente, em termos relativos, a tendência de descenso
da taxa média de lucro por conta do aumento da composição orgânica do capital, a taxa
de exploração deve aumentar com maior rapidez que a composição orgânica do capital.
Na verdade, à medida que se eleva a composição orgânica do capital, a taxa de lucro se
torna progressivamente menos sensível a variações na taxa de mais-valia.
Embora a precarização estrutural do trabalho seja condição necessária para se
contrapor às tendências criticas de formação (produção/realização) do valor, não é
condição suficiente, tendo em vista que se deve levar em consideração a elevação
tendencial da composição orgânica do capital nas condições históricas de profundas
mudanças técnicas na produção de mercadorias.
Nesse caso, a lenta redução do valor contido no trabalho morto (a desvalorização
do capital constante), opera o complexo de contradições que impede a redução da
composição orgânica do capital, tornando inercial a tendência de queda da taxa média de
lucro (o que explica a financeirização da riqueza capitalista e o predomínio do lucro
fictício na composição da lucratividade capitalista).
No processo de acumulação do capital no plano do mercado global, a vigência da
determinação tendencial do aumento relativo da composição orgânica do capital em
termos de valor, pressiona efetivamente para baixo, a taxa média de lucro no plano do
mercado global. Entretanto, na dimensão do movimento histórico, é importante observar
que, toda determinação tendencial implica um complexo de contratendências históricas
que possuem a mesma legalidade ontológica da determinação tendencial propriamente
dita.
As tendências contrárias à queda da taxa média de lucros, como observou Manuel
Castells, “não são meros fatores de demora dentro do necessário e inexorável processo de
destruição catastrófica da economia capitalista” (Castells, 1979). Pelo contrário, as
determinações tendenciais ao aumento da composição orgânica do capital e ao descenso
da taxa média de lucro e suas contratendências históricas, compõem a “totalidade
concreta” do capitalismo global, a nova etapa do capitalismo tardio da crise estrutural
do capital. A crise estrutural de lucratividade nas condições históricas do capitalismo
global, não significa objetivamente o colapso do modo de produção capitalista, mas sim,
a constituição de uma nova dinâmica de desenvolvimento do capital: o capitalismo global
predominantemente financeirizado.

O fardo do capital

O movimento do capital compõe-se de determinações essenciais que se articulam


contraditoriamente com contratendências e elementos históricos contingenciais. Esta é a
dialética da história humana. Estamos diante da processualidade do real composto pela
essência, aparência e contingência histórica. A dialética histórico-materialista nos
impede de reduzir determinações essenciais a “leis” históricas inexoráveis que agem de
forma mecânica e determinística às costas dos sujeitos humano-sociais. No movimento
da dialética histórico-materialista, ao lado das circunstâncias objetivas, legadas e
transmitidas pelo passado no plano da aparência, e das determinações essenciais das
causalidades essenciais dadas pela dinâmica da acumulação de capital, existem as
contingências históricas, verdadeiros “acidentes” intrínsecos ao curso geral do
desenvolvimento histórico. Como observou Marx a Kugelmann, “a história mundial seria
na verdade muito fácil de fazer-se se a luta fosse empreendida apenas nas condições nas
quais as possibilidades fossem infalivelmente favoráveis. ” E prossegue: “Seria, por outro
lado, coisa muito mística se os “acidentes” não desempenhassem papel algum. Esses
acidentes mesmos caem naturalmente no curso geral do desenvolvimento e são
compensados outra vez por novos acidentes. Mas a aceleração e a demora são muito
dependentes de tais “acidentes”, que incluem o “acidente” do caráter daqueles que de
início ficam à frente do movimento” (Marx, 1986).
Por exemplo, a (de)formação do sujeito histórico de classe por conta do aumento
do poder da manipulação do capital e da barbárie social é, por um lado, elemento
contingencial inscrito no movimento histórico-concreto do capitalismo global; e, por
outro lado, no plano da aparência, opera como “contratendência” histórica efetiva à crise
de lucratividade na medida em que, ao debilitar a capacidade do sujeito histórico de classe
pôr conscientemente obstáculos ao aumento da taxa de exploração, contribui para a
dominação do capital. Enquanto elemento contingencial que opera no plano da aparência
do sistema, não abole a vigência histórica da determinação essencial, mas altera em seu
modo do aparecer (a aparência é uma forma de ser da essência), a efetividade da "lei"
geral.
As duas dimensões do duplo negativo do capital - por um lado, (1) crise estrutural
de lucratividade/desmedida do valor; e por outro lado, (2) a crise de formação (ou
deformação) do sujeito histórico de classe, como unidade contraditória do movimento do
capital em sua fase de crise estrutural, “alargam” a temporalidade histórica de crise de
civilização, constituindo o que podemos considerar o fardo do capital. Deste modo,
perpetua-se ad nauseam, a dominação do capital, que adquire na etapa histórica da crise
estrutural, a forma de barbárie social.
A barbárie social é expressão da corrosão das possibilidades históricas de
“negação da negação” pelo sujeito histórico de classe. O alongamento da temporalidade
histórica da crise estrutural do capital, como unidade contraditória do capital em processo,
deve-se à exacerbação da produção do valor - na medida em que ela é "negada". A
exacerbação das formas derivadas de valor põe imensos desafios para a formação da
consciência de classe necessária, corroendo e debilitando a capacidade histórica do
movimento do proletariado como classe em-si e para-si, em dar resposta efetiva, no plano
histórico-mundial, às novas condições objetivas da luta de classes no capitalismo global.
De forma sintética, apresentamos (como provocação heuristica) a natureza
contraditória do fardo do tempo histórico do capital:
Existem profundas transformações na materialidade concreta do movimento
histórico do valor e do trabalho abstrato. Por exemplo, por um lado, mudanças estruturais
no denominador da equação da composição orgânica do capital (o capital variável), que
devido o “salto mortal” da produtividade do trabalho, decresceu em termos de valor,
implodindo seus parâmetros materiais: jornada de trabalho e forma-salário. Este é o
fenomêno da “desmedida do valor”. A desvalorização da força de trabalho como
mercadoria tende a encontrar seus limites intransponiveis na condição histórico-moral do
capitalismo como processo civilizatório e na própria luta de classes, abrindo uma
profunda crise de legitimação do Estado político do capital. Por outro lado, o numerador
da equação da composição orgânica do capital (o capital constante) incorpora, em si e
para si, uma transfiguração da forma material (trabalho imaterial desmedido) a partir do
qual opera o trabalho abstrato, que provoca a quase-inércia de sua desvalorização.
Enquanto isso, no plano da aparência, nas condições históricas da crise estrutural
de lucratividade, o movimento da superprodução/subconsumo “desanimam” o
investimento produtivo, impulsionando formas ficticias de valorização do capital, que
contraditoriamente não resolvem – mas, pelo contrário, agravam – as dimensões da crise
estrutural da lucratividade. Assim, no interior do movimento de crise estrutural de
lucratividade, existe um problema de realização que bloqueia a reprodução do capital:
"As condições macroeconómicas que determinam o equilíbrio de forças entre capital e
trabalho impedem a realização de todo o ganho de capital produzido no mundo”
(Chesnais, 2016)
Este movimento no plano da essencia e aparencia do desenvolvimento da forma-
valor, expandem a nova precariedade salarial e a precarização das condições
existenciais do trabalho vivo, com a degradação da reprodução social e exacerbação da
manipulação social. Entretanto, a precarização das condições existenciais do trabalho
vivo se apresenta não apenas devido a captura do fundo público pelo capital financeiro,
mas pelo próprio sociometabolismo do capital que, com o capitalismo global, expande o
modo de vida “just-in time” e o fenomeno da “vida reduzida” (eis a materialidade
histórica da barbarie social!). Ao lado do desenvolvimento exacerbado das forças
produtivas do trabalho, ocorre contraditoriamente a expansão silenciosa de carecimentos
radicais do trabalho vivo. A apropriação privada da riqueza humana socialmente
produzida e a manipulação extrema do self pessoal visando a problemática reprodução da
ordem burguesa senil configuram as misérias do fardo histórico do capital.

Formas derivadas de valor e barbárie social

Na era do capitalismo manipulatório e com a vigência da “captura” da


subjetividade do trabalho, com a disseminação do espirito do toyotismo e dos sonhos,
expectativas de mercado e valores-fetiches do capital (Alves, 2011), instaurou-se a crise
de (de)formação do sujeito histórico de classe. Este é um dos aspectos de degradação da
pessoa humana-que-trabalha. A materialidade do salto histórico do estranhamento social
no século XXI deve-se à disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor
na sociedade burguesa tardia, com o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de
fetichismo social impregnando as relações humano-sociais e colocando, deste modo,
obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à
formação da classe social do proletariado.
Em nossas reflexões críticas, temos distinguido formas constitutivas e formas
derivadas do valor. Na ótica da teoria da exploração de Karl Marx, a categoria de
“trabalho abstrato” é uma categoria pertinente ao trabalho produtor de valor ou trabalho
produtivo, sendo, deste modo, a “forma constitutivas” do valor. É o trabalho abstrato que
produz valor, sendo assim, trabalho produtivo no sentido marxiano, elemento constitutivo
da forma-valor.
Entretanto, na medida em que se desenvolve o modo de produção capitalista, a
forma-valor se dissemina por instâncias da totalidade viva do trabalho não-produtivo (ou
improdutivo). Por exemplo, o trabalho no comércio e inclusive, na administração pública
são exemplos de trabalhos improdutivos interiores e exteriores à produção do capital,
respectivamente. Nesse caso, “trabalho abstrato” e “exploração” (entre aspas) aparecem
como “formas derivadas” do valor nas instâncias do trabalho “improdutivo” interior ou
exterior à produção do capital. Tal como o fetichismo da mercadoria se dissemina na
totalidade social, impregnando as relações sociais para além da troca de mercadorias, o
trabalho abstrato impregnou o labor social na esfera do trabalho improdutivo. Enfim, a
lógica do trabalho abstrato penetrou as mais amplas e profundas instâncias da vida social.
Por exemplo, o fenômeno social da “vida reduzida” (Alves, 2014) é resultado da
disseminação das formas derivadas de valor por meio de valores-fetiches operando as
relações sociais. A “exploração” e o “estranhamento” tornam-se elementos compositivos
derivados das relações sociais humanas intervertidas em relações sociais instrumentais.
As formas derivadas de valor são formas ideológicas do capital.
As “formas derivadas” do valor, no plano da produção do valor propriamente dito,
são formas fictícias, no sentido de que não contribuem efetivamente para a valorização
do capital. Portanto, não operam movimentos contratendenciais à crise estrutural de
lucratividade, mas apenas deslocam contradições no interior do sistema. Por isso, no
plano da reprodução social (e hegemonia) do capital e enquanto expressão do capitalismo
manipulatório e do poder da ideologia, contribuem para a deformação do sujeito histórico
de classe.
Na virada para o século XXI, a vigência plena da grande indústria, com a
predominância da mais-valia relativa, instaurou um campo ampliado, intenso e extenso
de “contradições vivas” no interior do sistema mundial produtor de mercadorias. Por
exemplo, na medida em que a categoria de “trabalho abstrato” adquiriu intensidade e
amplitude no interior do movimento do capital, ela disseminou-se, não apenas como
forma constitutiva do valor, mas também, e principalmente, como “forma derivada” do
valor. O salto histórico do trabalho abstrato expressa a contradição viva do capital em
sua etapa de crise estrutural, tendo em vista que a lógica do valor, que constituiu a
formação social capitalista, tornou-se “afetada de negação” no interior do movimento de
sua afirmação plena, transtornando, em si e para si, o sistema produtor de mercadoria.
A crítica da economia política se manifestou, no plano prático-sensível, com a
crise estrutural do capital (universal, global, extensa e rastejante), expondo, na dimensão
do valor, os limites da relação-capital. Por exemplo, a afirmação da “ficticidade” do valor
como capital especulativo-parasitário, é uma das representações materiais da dominância
das formas derivadas de valor na dinâmica do capital. Existe um movimento dialético de
desefetivação persistente do valor no interior do movimento de afirmação plena (e
contraditória) do valor como modus operandi do metabolismo social do capital. Eis o
sentido espectral da “crise do valor” ou crise de valorização produtiva exposta no bojo da
crise estrutural do capital.
CRISE ESTRUTURAL DO CAPITAL

Crise estrutural de lucratividade/desmedida do valor


(“duplo negativo” do capital)

Processo de (de)formação do sujeito histórico de classe


(dessubjetivação de classe)

Entretanto, mesmo imbuído de “ficticidade”, o trabalho abstrato que impregna o


labor improdutivo na totalidade social, tem, no plano da existência humana das
individualidades pessoais de classe, a mesma eficácia ontológica das formas constitutivas
do valor. A distinção “formas constitutivas do valor”, vinculadas às instâncias produtivas
do capital; e “formas derivadas do valor”, compondo o trabalho improdutivo (interior e
exterior) à produção do capital, é uma distinção relevante apenas para entendermos a
dinâmica da acumulação do capital, sendo irrelevante para aferirmos a dinâmica da vida
social, a materialidade efetiva da formação do sujeito histórico de classe e a luta de classe.
Por exemplo, o trabalhador público na era do capitalismo global, está imerso
naquilo que denominamos de “condição de proletariedade”; e embora não produza valor,
é “explorado” pelo capital e afetado pelo trabalho abstrato como forma derivada de valor,
sendo, portanto, capaz de desenvolver, cum grano salis, a consciência de classe
necessária, tanto quanto o operário industrial, explorado e subsumido à lógica primordial
do trabalho abstrato produtor de valor. Deste modo, o capitalismo global como
capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do fetichismo da mercadoria,
expõe a contradição crucial entre, por um lado, a universalização da condição de
proletariedade e, por outro lado, a obstaculização efetiva da consciência de classe de
homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho.
Referências bibliográficas

Referências bibliográficas

ALVES, Giovanni. A Condição de Proletariedade: A Precariedade do Trabalho no


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