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A Razão (a liberdade, igualdade, etc.) são formas dadas a conteúdos.

O
muçulmano pode subordinar seu conteúdo (seus costumes, rituais, linguagem,
etc.) a essas formas, ser cooptado pela Razão. Qual a visão que um
muçulmano rico na França tem de si e do país?
Zizek: “o verdadeiro muçulmano, que acredita em sua fé (ou seja, o
fundamentalista nem tão fundamentalista: fundamentalismo num significado
quer se impor aos outros, mas em outro significa firmeza na crença e respeito
aos outros fundamentos) não se sentiria ameaçado por “charges bobas”, mas
apenas aqueles muçulmanos que desejam o Ocidente.

Alunos da periferia de Paris


transformam Champs-Elysées em foco
de estudo
Para os estudantes de sociologia, o verdadeiro
‘gueto francês’ não estaria nos subúrbios pobres e
sim nos bairros ricos

POR FERNANDO EICHENBERG


01/02/2015 7:00 / ATUALIZADO 01/02/2015 8:06
Códigos diferentes. Calçada da Champs-Elysées: se no subúrbio véu islâmico
é alvo de preconceito, na área de luxo ele é visto como sinal de riqueza em
potencial vinda do Oriente Médio - MATHIEU WILLCOCKS / NYT/25-8-2012

PARIS - Menos de trinta minutos e uma dezena de estações da linha 13


do metrô parisiense separam a cidade de Saint-Denis, subúrbio
popular no norte da capital, do luxuoso entorno da célebre avenida de
Champs Elysées. Durante três anos, entre 2011 e 2013, o professor de
Sociologia Nicolas Jounin, da Universidade Paris 8-Saint-Denis, levou
uma centena de seus alunos para um estudo de campo nos arredores
do chamado “Triângulo de ouro”, zona delimitada pelos Champs-
Elysées e as avenidas Montaigne e George V. A ideia do projeto era
iniciar os estudantes de primeiro ano de faculdade na metodologia da
investigação sociológica, neste caso invertendo a recorrente escolha da
periferia pobre como objeto de pesquisa. A experiência virou livro,
“Voyage de classes” (“Viagem de classes”, ed. La Découverte) — já na
quarta tiragem da 1ª edição —, reverberou na mídia e suscitou debates
nestes tempos em que o premier Manuel Valls denunciou a existência
de um “apartheid territorial, social e étnico” em uma França formada
por “guetos”. Para estudantes de Saint-Denis, por uma definição
sociológica, o verdadeiro gueto francês não estaria localizado nos
subúrbios pobres, mas nos bairros ricos de Paris.
Jounin defende sua iniciativa no contexto de um aumento das
desigualdades sociais e econômicas nos últimos 40 anos no país,
provocador de uma “segregação espacial” de populações mais pobres
em cidades como Saint-Denis, e da concentração de camadas mais
favorecidas em bairros como Champs-Elysées, correspondente ao 8º
distrito de Paris.

— Essas desigualdades e essa segregação se traduzem por um modo de


vida específico dos frequentadores e, sobretudo, dos habitantes destes
bairros burgueses. E a densidade de sua sociabilidade, pelas escolas,
clubes e rituais comuns, é o que produz uma consciência de classe
provavelmente mais aguda do que em outras classes sociais — sustenta.

‘MAIS GUETO DO QUE SAINT-DENIS’

Números e estatísticas ilustram o abismo entre dois mundos nem tão


distantes no mapa. A média do salário anual no “Triângulo de ouro” é
de € 82 mil, contra € 16 mil em Saint-Denis e € 23 mil no país. A renda
na área de Champs-Elysées depende menos do salário: 20% provêm de
rendas de propriedade, contra 7% na escala do país e 2% em Saint-
Denis.

Jordan Mongongnon, de 23 anos, que mora com os pais numa


habitação popular de Bessancourt, ao norte de Saint-Denis, participou
do primeiro grupo da pesquisa.

— O 8° distrito se constitui muito mais como um gueto do que Saint-


Denis — opina ele. — Saint-Denis está mais próxima da realidade geral
da França do que o 8° distrito. Isto, de algum modo, nos leva a tomar
uma certa consciência de classe, mesmo que hoje não seja algo tão
marcado como no passado. É por meio desta confrontação brutal que
percebemos as desigualdades.

Em seu trabalho universitário, os alunos observaram e fizeram


enquetes em butiques de luxo, hotéis cinco estrelas, bares e cafés, e
interrogaram moradores. Num primeiro contato com a prefeitura do
bairro, Jounin foi alertado de que seus alunos poderiam ser “recebidos
a tiros” pelos habitantes locais se batessem às portas para propor
questionários e pesquisas. Em suas tentativas de observação como
clientes, os estudantes na maioria das vezes não obtiveram sucesso,
segundo eles, por serem tratados de forma diferenciada, seja pelo
desprezo de vendedores ou garçons ou pela vigilância de seguranças.

— Rapidamente éramos catalogados como clientes ilegítimos. Por um


lado, há uma racionalidade nisso, pois identificavam que não iríamos
comprar — admite Jordan. — Mas há um tipo de tratamento constante
de fazer você se dar conta quem é e de onde vem. A lógica implícita por
trás desta interação é deixar claro que você não é bem-vindo. A
Champs-Elyseés e seu comércio querem se manter como um lugar para
privilegiados, e temem que algo possa afugentar seus clientes
prioritários.

Miguel Cerejo, 26 anos, filho de um operário e de uma zeladora de


prédio, mora com os pais no 17° distrito. Para ele, que integrou o
último grupo do estudo, a experiência deixou flagrante a falta de
diversidade social no “Triângulo de ouro”:

— A burguesia rica é hoje na França, do meu ponto de vista, a única


classe social consciente de sê-lo, e que defende com afinco seus
interesses. É um grupo socialmente fechado, que se reproduz
socialmente, e busca assim preservar seu poder.

Para ele, uma das surpresas reveladas pela pesquisa foi a presença do
“sexismo” no bairro rico.

— Há diversos círculos e clubes privados masculinos. Alguns aceitam


mulheres, mas elas não têm direito a voto. A mídia em geral sempre
aponta o sexismo nas classes populares, mas nos damos conta de que
na alta burguesia isto também ocorre. Não esperava, foi algo que me
surpreendeu — confessa.

‘MINORIA DESCONECTADA’
As anotações dos alunos abordam uma variedade de aspectos: alguns
assinalaram mesmo a presença de pombos mais saudáveis em Champs-
Elysées, e outros, a ausência de toaletes públicos (apenas 12, ou três
por km² e seis para cada 100 mil habitantes), o que seria uma maneira
de afastar os mais pobres, sem dinheiro para consumir num café e
utilizar o banheiro. Também foi notada a diferença de tratamento de
mulheres portando o véu: em Saint-Denis, o véu islâmico simboliza e
cristaliza um conflito entre funcionários do Estado, nas escolas
públicas, e parte da população; já na avenida Montaigne, endereço de
lojas de prestígio, mulheres com véu da Arábia Saudita ou do Qatar são
recebidas como clientes afortunadas e especiais, anotaram os alunos.

O 8° distrito conta com menos de 2% de habitações populares em sua


área, índice que sobe para 40% em Saint-Denis e 15% na média do país.
A prefeitura prefere infringir a lei e pagar multas, e justificou sua
atitude ao professor argumentando de que nada adiantam habitações
populares se o comércio ao redor é extremamente caro: há confeitarias
de luxo Hédiard, mas não supermercados.

Jordan diz que a explicação municipal “se sustenta”, mas ressalta:

— Se franceses não podem se instalar e viver em um bairro francês, é


porque algo está errado. É esta minoria que deve compreender que está
desconectada, e isto é uma forma de eles manterem seus privilégios.

Já Abigail Tiecoura, 24, fez parte do segundo ano da prática sociológica


no “Triângulo de ouro”:

— Esta experiência me ensinou que é preciso nos conhecermos melhor,


compreender ainda mais as questões que levam à formação de grupos,
para permitir novas possibilidades de igualdade, pois acredito que são
possíveis.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/alunos-da-


periferia-de-paris-transformam-champs-elysees-em-foco-de-estudo-
15211346#ixzz3QWkyqhnw
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