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UNIVERSIDADE

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SEMIOLOGIA DO CORPO

Jaqueline Ferreira

Este trabalho faz parte de uma etnografia realizada em uma


vila de classe popular, a Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto
Alegre. Seu objetivo é analisar a Semiologia Médica sob uma pers-
pectiva antropológica, aliando assim minha formação em medici-
na com a antropologia (Ferreira, 1994).
A Semiologia Médica é a área da medicina que estuda os
métodos de exame clínico. Estes métodos se relacionam à bus-
ca de sintomas e sinais da doença. O estudo dos sintomas e si-
nais diz respeito à Semiologia Médica, de modo a buscar o cor-
po como gerador de signos, da mesma forma que a Semiologia
Geral preocupa-se com a linguagem como geradora de signos.
É na procura dos sintomas e sinais que o médico coordena to-
dos os elementos para construir o diagnóstico e deduzir o
prognóstico.
O sintoma diz respeito única e exclusivamente ao doente, ;
é o caráter invisível da doença, pois nada mais é do que sensa-
ções que o indivíduo experimenta e só pode expressar por meio
de palavras. Já o sinal, como manifestação objetiva, faz parte
do aspecto visível da doença e diz respeito principalmente ao

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domínio médico, pois se constitui da observação clínica e do A consulta médica é um momento exclusivo com etapas bem
exame físico. definidas, no qual duas representações - a do paciente e a do mé-
Meu objetivo é demonstrar como os sintomas e os sinais fa- dico - se defrontam. O paciente discorre sobre seus sintomas e res-
zem parte de um sistema de representações à medida que a inter- ponde às perguntas de seu médico. O médico, por sua vez, desde o
pretação da doença se faz a partir de categorias cognitivas cons- momento em que o paciente entra no consultório já passa a colher
truídas socialmente. Desse modo, tendo como foco analítico a Se- dados que possam auxiliar na sua interpretação: o andar, o trajar e
miologia Médica, busco as representações sobre sintomas, £orpp a linguagem do paciente são alguns dos elementos que fazem parte
e doença dos pacientes e as representações médicas dos sinais da- dos dados colhidos. Após, parte para as etapas da consulta, os atos
das pela literatura médica e pela minha prática incorporada. para os quais concorrem cenas e falas específicas.
Meu foco etnográfico privilegiado é a consulta médica, con- Uma das etapas da consulta, a entrevista, é de importância
textualizada na vila Lomba do Pinheiro. A apropriação do espaço crucial para a relação médico-paciente, sendo um dos determi-
da consulta médica para a pesquisa antropológica requer uma aná- nantes de sua eficácia. Eficácia, tomada no mesmo sentido dado
lise deste espaço onde a constante relativização de meu olhar mé- por Lévi-Strauss (1989). Neste ato, o paciente discorre sobre as
dico foi de fundamental importância para dar conta da perspectiva sensações corporais que foram por ele interpretadas como sinto-
antropológica. Portanto, se pensarmos a consulta médica como uma mas. Õ médico, por sua vez, procurará interpretar estas sensa-
ação que se desenrola em um tempo e espaço definidos, em que os ções de acordo com seu repertório de conhecimentos. Vários as-
atores sociais - no caso, o médico e o paciente - possuem atosjí pectos envolvem estas representações. As palavras com que o
falas que seguem uma sequência determinada, podemos,entender paciente se dirige ao médico, por exemplo, variam muito de acor-
este contexto como um drama social, na mesma perspectiva de do com as características individuais e do grupo social. Há tam-
Goffman (1985). Goffman, quando se refere ao drama social, o faz bém o que não foi dito, o que o paciente não quis ou não conse-
em analogia a uma peça teatral, em que cada ator tem uma posição, guiu expressar por meio de palavras, mas que pode ser analisado
uma fala e uma ação determinadas, ou seja, um papel a desempe- por comportamentos não-verbais, como a postura corporal, ges-
nhar. O que caracteriza o drama são atores representando um de- tos e expressões faciais, por exemplo, que fornecem informações
terminado papel em que contracenam entre si, de forma que suas tão importantes quanto um relato verbal.
falas e ações adquiram sentido dentro da trama. Goffman procura Dessa forma, o paciente tem que traduzir suas sensações para
mostrar que a realidade social é análoga a uma representação tea- o médico. Este, por sua vez, terá de retraduzir estas sensações de
tral, já que os indivíduos desempenham comportamentos específi- forma que elas possam adquirir significados de doença. Isto impli-
cos, isto é, papéis sociais que são ditados pelas regras sociais. A ca que podem ser entendidos diferentes significados entre médico
consulta médica, portanto, é um espaço de interação simbólica, uma e paciente quanto às interpretações da localização e intensidades
vez que, segundo esta perspectiva, o comportamento humano en- dos sintomas, a natureza das enfermidades e demais representações
volve não somente uma resposta direta às atividades, mas também de corpo envolvidas.
uma resposta às intenções dos outros. Dessa forma, quando os ges- Outro ato da consulta médica diz respeito ao exame físico,
tos de um ser humano adquirem sentido comum, ele passa a com- em que o instrumento básico, instrumento aqui na perspectiva de>
partilhar significados com seu semelhante. Leroi-Gourhan (1985), são os sentidos do médico: visão, tato e au-"

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dição, principalmente. Estes procedimentos fazem parte de uma téc- cer os sintomas que dizem respeito aos efeitos desta droga. Este
nica. Refiro-me à técnica na mesma tradição das técnicas corpo- aprendizado faz parte de um conhecimento que é dado pelo grupo
rais preconizadas por Mauss (1974), que dizem respeito a um con- social e que acaba por influenciar a percepção dos sintomas e a
junto de métodos e conhecimentos práticos essenciais à execução maneira como são interpretados:
de uma atividade.
• [...] e eu acredito que de alcance mais geral, podemos investigar a Soci-
As técnicas de exame físico variam histórica e socialmente, o ologia do funcionamento fisiológico normal: a respiração que está "mais
que é pertinente a todo ato tradicional eficaz em que os homens em curta" do que a normal, o apetite que está "menor" do que o normal, a
diferentes sociedades sabem servir-se de seus corpos. Isto as faz dor que está além da expectativa normal, o movimento dos intestinos que
adquirir sentido como técnicas corporais. Isto implica uma cons- é "pouco comum", e assim por diante. (Becker, 1977, p.203)
trução histórica e social na Semiologia Médica.
Assim, por exemplo, a escola hipocrática se utilizava quase Portanto, a ideia á de que o corpo é um reflexo da sociedade I
que articula significados sociais e não um receptáculo de proces-
que exclusivamente da sintomatologia para chegar ao diagnóstico.
sos exclusivamente biológicos. í
A doença neste contexto nada mais era do que uma coleção dos
sintomas. Nesta perspectiva, o sintoma é o próprio signo da doen- Dessa maneira, desenvolvo neste trabalho a ideia de corpo
ça. Dessa forma, a nosologia da doença podia ser determinada se- enquanto sígnico, partindo da perspectiva da Semiologia Médi-
gundo o órgão atingido: dores no peito, no estômago, no fígado. Os ca. Assim, o corpo doente porta significados sociais, à medida
sinais passaram a ter relevância com a introdução da anatomia pa- que sensações corporais experimentadas pelos indivíduos e as
tológica, como bem observa Foucault (1980) em sua obra O nasci- interpretações médicas dadas a estas sensações são feitas de acor-
mento da clínica. Fundada com base empírica e na observação do com referenciais específicos a estes dois pólos. A capacida-
ordenada pela anatomia patológica, a doença se desloca de uma de de pensar, exprimir e identificar estas mensagens corporais
essência nosológica indo se localizar no corpo do doente. A partir está ligada a uma interpretação que procura determinada signifi-
daí, o sintoma não mais abarca sozinho todo o significado da do- cação. Esta interpretação está na dependência direta da represen-
ença. Esta nova perspectiva não diz respeito a um caráter evoluti- tação de corpo e de doença vigente em cada grupo. Analogamen-
vo da Semiologia Médica, mas sim a uma ruptura epistemológica, te, o corpo pode ser tomado como um texto, passível de leitura e
em que o acesso ao olhar no interior do corpo faz com que a doen- interpretação, tanto pelo doente na expressão dos sintomas como
ça deixe de ser uma entidade nosológica para ser uma realidade pelo médico na busca dos sinais.
existente no corpo. Sendo assim, os fenómenos corporais, no caso os sintomas
Do ponto de vista do doente, a interpretação da doença não se e os sinais, podem ser reconhecidos como tais por outros indiví-
faz apenas com base em sensações fisiológicos, uma vez que a pró- duos do seu grupo. Isto os torna parte de um processo de comuni-
pria leitura destas sensações é uma construção social. Isto signifi- cação, em que ideias são transmitidas e compartilhadas no pro-
ca que a percepção das sensações como alterações faz parte de um cesso interativo entre os indivíduos. Neste caso, as mensagens
aprendizado que diz respeito a significados socialmente comparti- emitidas pelo corpo - os sintomas e os sinais - tornam possível
lhados. Quanto a este fato, Becker (1977) já havia demonstrado que ambas as partes (médico e paciente) realizem uma leitura
como os usuários de marijuana necessitam "aprender" a reconhe- destas mensagens que serão interpretadas como sintomas e sinais
levando a um significado de doença ou à ausência dela. Dessa

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forma, o indivíduo é doente segundo a sua sociedade e de acordo A partiLdaçonsultório, rgalizaviui vi sita às casas, o que
com os critérios e modalidades que ela fixa. era uma oportunidade de aprofundar minhas relações, uma vez
A Lomba do Pinheiro é um bairro territorialmente extenso e que as casas são sempre frequentadas por parentes e amigos, ali-
de grande densidade populacional. O bairro, em toda a sua exten- ada ao fato de que muitas delas são contíguas às dos vizinhos,
são, é cortado por uma estrada principal onde há grande número permitindo que estes também se tornassem colaboradores. Estas
de residências, atividades de comércio variadas, presença de al- visitas eram permeadas por conversas que diziam respeito ao
guns consultórios médicos e dentários. Lateralmente à estrada prin- universo feminino: cotidiano de uma dona de casa ou a crise eco-
cipal, há uma série de núcleos populacionais onde predominam nómica que atingia a organização doméstica. Mas oprincipal as-
moradias do tipo malocas com saneamento básico precário. A po- sunto na minha presença eram as doenças. Assim, eram-me rela-
pulação em geral identifica a Lomba do Pinheiro como periferia, tadas as doenças da família, diagnósticos e tratamentos realiza-
definida assim em relação ao centro urbano. Desta forma é imedi- dos. Todo o trabalho de observação participante a longo prazo
atamente associada à pobreza e, além disso, à violência, uma vez acaba por apresentar as respostas que se procuram sem serem
que há sempre relatos pela imprensa de gangues que assaltam e de- necessárias muitas perguntas. Ali não foi diferente.
predam residências e ônibus no local. O bairro possui cerca de Em meu trabalho na Lomba do Pinheiro, que corrobora com a^
100 mil habitantes e se distancia do centro urbano cerca de vinte os estudos da demanda ambulatorial, dois sintomas estão sempre";
quilómetros, o que faz o percurso de ônibus durar aproximadamente presentes: dor e fraqueza. Devido a esta recorrência, procuro de-
uma hora, numa viagem bastante desconfortável e cansativa. senvolver aspectos por mim observados que estão envolvidos na
Cada parada de ônibus denomina uma região, já que lateralmente representação destes dois sintomas.
à estrada principal há uma série de núcleos populacionais. As casas No que diz respeito à dor, é difícil descrevê-la, pois é uma sen-
localizadas na estrada principal por onde transita o transporte coleti- sação subjetiva, e qualquer informação sobre ela há de provir apenas
vo são, de maneira geral, pequenas casas de alvenaria. A paisagem daquele que a sente. Porém, o fato de ser uma resposta biológica uni-
urbana de casas comerciais e residências é quebrada por áreas verdes versal e individual a estímulos nocivos, advindos do interior do corpo
pertencentes a sítios e chácaras onde pastam bois, vacas, cavalos e ou fora dele, não exclui que sua percepção e tolerância variem con-
carneiros, tornando a travessia por esta paisagem visualmente muito forme o grupo social. A sensação de dor, os comportamentos que a
agradável. Os núcleos de pobreza do bairro não são visíveis desta envolvem, quer verbais ou não até as atitudes que visam remover ou
estrada, pois estão localizados em alguns pontos, cujo acesso se dá não a sua fonte, modificam-se de acordo com o contexto social.
por ruas perpendiculares laterais, e ali sim, predominam malocas. De acordo com a minha observação, a dor é indicada como
Na Lomba do Pinheiro, quanto ao perfil dos moradores que sensação desprazerosa, reportando à ideia de sofrimento. De fato,
buscavam atendimento médico, grande parte provém do interior do alguns não se consideram doentes se não a sentirem. Já um tumor
Estado. A média de renda mensal é de dois salários mínimos, e a indolor, por exemplo, que para o médico é indício de uma possí-
maioria das consultas era feita por mulheres. vel patologia pode ser desprezado pelo paciente simplesmente
Dessa forma, são meus colaboradores tanto pacientes, mora- "porque não dói". Ainda do ponto de vista médico, a dor não é
dores do local, que realizavam a consulta médica, como as pesso- predominantemente negativa, à medida que é um indício de pato-
as com quem estabeleci contato através do trabalho de campo. logias orgânicas.

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As representações de corgo são determinantes na interpretagãó A dor sendo uma sensação desprazerosa torna^sempre im-
deste sintoma, quando, por exemplo, uma dor na perna pode não plícitajãjrelação cpmluma patologia. O fato de as palavras dor e
ser interpretada como grave, tornando-se mais fácil de tolerar. Por doença possuírem uma raiz etimológica comum (no latim dolor e
outro lado uma dor torácica é logo relacionada com a hipótese de dolentia) é por si só bastante expressivo da íntima relação que
uma patologia cardíaca, o que faz com que o paciente procure al- existe entre a experiência da dor e o reconhecimento de um esta-
gum recurso de cura mais prontamente. Há também situações em do mórbido. Assim, da mesma forma que a doença é identificada
que a dor é considerada um fenómeno normal, não implicando o ocupando um espaço no corpo, é fácil entender como referências
sentimento de estar doente, como é o caso da dor que acompanha o do tipo de dor que "cria raiz", "cresce", "se espalha", tornam a
período menstrual em que este fenómeno é encarado naturalmente categoria espaço muito presente neste sintoma.
como fazendo parte da vida da mulher. Porém, o fato de a dor ser representada como constituindo um
Há várias associações, metáforas e jogos simbólicos que os espaço nem sempre significa que este sintoma fique restrito a um
indivíduos utilizam para descrever a sua dor. Muitos a descrevem espaço fixo, uma vez que a ideia de mobilidade e trajetória é muito
de acordo com as suas atividades cotidianas, como, por exemplo, comum na dor. Um exemplo deste aspecto é o relato que segue:
uma dona de casa que descreveu a sua dor como se estivessem "cor-
A dor que eu tenho começa no ouvido esquerdo e caminha para o lado
tando e botando sal e vinagre em cima", ou como um mecânico que direito e vai até a perna. (Francisca, 61 anos, dona de casa)
referia uma dor de ouvido que lhe dava a sensação de um "pneu
esvaziando". A possibilidade de um percurso da dor com início em de-
Também o uso de metáforas como facadas, agulhadas e so- terminado ponto indo findar em outro indica a autonomia desta.
cos são frequentes, representando este sintoma como agressão, Isto nos mostra como a dor pode ser percebida como dotada de
como algo socialmente identificado como violento, o que impli- energia própria, como um agente poderoso e interruptor do es-
ca a representação da dor como uma qualidade de sofrimento, tado de harmonia e da ideia de uma suposta inércia do corpo,
tortura e de algo estranho ao corpo. Particularmente para os mo- do silêncio orgânico significativo de saúde.
radores da Lomba do Pinheiro, a violência faz parte de seu coti- Igualmente a categoria tempo é representada nesse sintoma.
diano. Além das baixas condições socioeconômicas da maioria Dessa maneira, a dor tem o seu tempo de aparecimento e de térmi-
dos moradores, crimes são frequentes, o que faz o bairro ser iden- no que muitas vezes é identificado como o término da doença. En-
tificado como violento pela população em geral. Com a violên- tretanto, a categoria de tempo da dor não se exprime somente em
cia fazendo parte da vida diária e tendo a dor como representa- termos de início e término, como também em termos de sua dura-
ção de agressão, é fácil entender o uso deste tipo de metáfora. O ção, uma vez que tanto a dor como qualquer outra sensação desa-
relato de uma informante é um exemplo deste aspecto: gradável é experenciada como um tempo longo.
A dor também pode representar categorias de quente/frio e
Eu tive uma dor em pontada no peito. Até falei: estão me esfaquean- de diferentes estados de matéria, pois estas são experiências fami-
do. Qualquer dia eu morro do coração por causa desta dor. (Lúcia, 23
anos, dona de casa) liares ao indivíduo. Isto fica claro em relatos que expressam sen-
sação de "queimação" ou de "gelo" nas referências a um fenómeno
doloroso.

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Quanto aos estados de matéria, a dor pode ser representada episódio vem ao encontro do que Montero (1985) refere em rela-
como líquida, dando a ideia de um fluxo fora de lugar e fora de ção à fraqueza, que, segundo ela, exprime ao mesmo tempo "causa
controle, ou sólida como as representações do tipo de "bola na bar- e expressão de uma desordem mais ampla".
riga" ou "bicho que come". A principal referência ao sintoma fraqueza diz respeito, sem
As metáforas para descrever a dor física, muitas vezes, são dúvida, à alimentação. Para muitos moradores da Lomba do Pi-
usadas^ no cotidiano para explicitar qualquer tipo de sofrimento nheiro, a carência de alimentos não é uma experiência desconheci-
moral, em que ela é tomada como o próprio sofrimento em si mes- da. A associação de alimentação forte ou fraca com organismo forte
mo, em expressões do tipo: "tal fato foi muito doloroso". ou fraco é feita de forma direta. Nesta perspectiva de alimentação
O sintoma fraqueza igualmente abrange vários significados relacionada à força muscular, é comum virem à consulta mães em
que vão desde uma constituição física fraca e debilitada, como tam- busca de remédios fortificantes e remédios para "abrir o apetite".
bém sugere desânimo, defeito ou mediocridade, sendo difícil se- Nas representações de forte/fraco está implícita a relação com
parar aspectos físicos e morais pertinentes a esse sintoma. as categorias de magro e gordo. A valorização da "magreza" é re-
Quanto ao aspecto físico, a fraqueza pode sugerir alterações lativa à situação social, uma vez que o meio material de subsistên-
transitórias, correspondendo a hábitos pouco saudáveis como tam- cia das classes populares muitas vezes é a atividade física, onde a
bém a doenças orgânicas mais graves. força muscular é identificada visivelmente pela gordura.
Do ponto de vista antropológico, os autores que abordam São de consenso geral as repercussões de que a carência
fraqueza, Duarte (1986), Boltanski (1984) e Loyola (1984) por alimentar pode acarretar uma fraqueza no organismo, tanto no
exemplo, sempre o fazem referindo-se ao par de oposição for- sentido de fraqueza muscular como na incapacidade de resistir
te/fraco. Compartilho com estes autores a ideia de utilizar a às doenças. Duarte (1986), ao relacionar fraqueza com alimen-
noção de forte/fraco como um princípio norteador das repre- tação, refere-se à carência de comida com um caráter distintivo •
sentações em relação ao corpo, saúde/doença. entre as classes trabalhadoras. Para esse autor, os efeitos da fome
É muito comum a associação de fraqueza com desânimo, falta são determinantes no resultado de uma fraqueza do indivíduo
de disposição. Às vezes, esta referência pode dizer respeito sim- no sentido de um enfraquecimento corporal direto que pode le-
plesmente ao excesso de atividade física como também a um desâ- var a um enfraquecimento moral como, por exemplo, a ideia de
nimo diante das atividades rotineiras. No caso em que o indivíduo "cara revoltado".
se sente "fraco para trabalhar", mais uma vez a fraqueza físicaj^ A associação de organismo forte/fraco também pode se rela-
origem e resultado de uma fraqueza moral no sentido de que uma cionar às medicações, segundo variam a suscetibilidade, a depen-
desorganização económica pode tornar o indivíduo um "fraco" dência e a eficácia. Um corpo fraco é mais suscetível à dependência
perante a sociedade. À medida que o indivíduo se percebe doente de um medicamento mais forte (drogas e psicotrópicos, por exem-
a partir de uma incapacidade de exercer suas tarefas cotidianas, a plo), assim como há ineficácia do medicamento quando este é per-
fraqueza é um sintoma recorrente e também pode ser compreendi- cebido como fraco em relação ao corpo, ideia muito recorrente
da como consequência de um desgaste físico no trabalho. quanto aos anticoncepcionais orais.
A sensação de fraqueza do corpo também pode refletir a fra- Muito mais pode ser explorado sobre fraqueza, pois, conforme
queza que o indivíduo experimenta em um sentido mais geral. Este já referido, este termo abrange muitas representações que vão des-

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de uma simples sensação física até um caráter moral mais abran- limites corporais seja encarada com medo ou repugnância. Dou-
gente no qual pode estar implícita uma falha de comportamento, glas (1976) explica esse fato indicando que qualquer elemento
como em expressões do tipo: "foi uma fraqueza da minha parte". que ultrapassa os limites externos do corpo é considerado peri-
goso. Assim, qualquer orifício corporal elimina materiais margi-
Na semiologia dos órgãos estão relacionadas muitas vezes
nais considerados perigosos: saliva, sangue, leite, urina, fezes
as simbologias que portam esses órgãos e que são compartilhadas
ou lágrimas. Nesta linha de raciocínio, o sangue menstrual é
socialmente. Assim, a cabeça, o coração e o sangue são exem-
extremamente perigoso e poluente.
plos deste aspecto.
A cabeça, sendo o continente das ideias, relacionada ao cé- Os sintomas e sinais percebidos pelo indivíduo e que dizem
rebro subjacente, mostra que a dor nesta região muitas vezes in- respeito ao sangue se referem à ideia de qualidade e quantidade de
dica o temor de uma ameaça à integridade do pensamento, capaz sangue. Assim "fraqueza", "palidez", "magreza" são atribuíveis tan-
de levar a um desequilíbrio gerando a "loucura". Este sintoma é to a uma má qualidade como a uma má quantidade. Duarte (1986)
tão alusivo a sofrimento e desconforto que esta expressão em nosso também relaciona a qualidade do sangue em bom e ruim, em que
cotidiano não configura apenas a sensação física, pois define tam- várias categorias morais são atribuídas ao sangue. Dessa maneira,
bém qualquer perturbação moral desagradável, como bem obser- o sangue é pensado como substância transmissora de qualidades
va Duarte (1986) quando cita a expressão: "este menino só me dá físicas e morais, como constitutivo do corpo e do caráter. Através
dor de cabeça". dele, qualidades morais são transmitidas e perpetuadas e, deste
modo, o indivíduo se identifica com seus consanguíneos, de forma
O coração, nas mais remotas culturas, é o órgão relacio-
que neste sistema não se reconhece no indivíduo uma indivi-
nado às emoções. Nas tradições modernas, o coração tornou-se
dualidade irredutível. Isto vem ao encontro de relatos que obtive
um símbolo de amor profano, de caridade como amor divino,
na Lomba do Pinheiro:
da amizade e da retidão.
Embora atualmente nas civilizações ocidentais haja a racio- Eu sempre vou ser maloqueiro, tá no sangue. (Jorge, 13 anos)
nalização de que o órgão em si não é a sede das emoções, ele con-
tinua sendo representado como o portador dos sentimentos. Assim, Eu tenho sangue ruim de família. Minha família é de gente braba esta-
muitas sensações decorrentes de conflitos emocionais são ricas em mos sempre de guerra. Toda a família é assim. Por isto que eu digo que
é sangue ruim de família. (Luciana, 23 anos, dona de casa)
sintomas como dor no peito atribuível ao coração.
Como as dores na região cardíaca tanto podem significar do- Outra representação diz respeito à viscosidade do sangue no
ença de suma gravidade como também possuir outras causas que que se refere ao "sangue grosso" ou "sangue fino". A estes as-
não cardíacas, o médico sempre procura informações detalhadas pectos se relacionam entidades patológicas definidas. O "sangue
sobre esta dor para interpretar este sintoma. Assim, sabendo ele grosso", por exemplo, popularmente indica "colesterol no san-
que a dor de origem cardíaca é percebida como uma dor constriti- gue", ou seja, a ideia de sangue oleoso, capaz de "entupir veias e
va, relatos de dores que dão esta ideia, como por exemplo "dor em artérias". Já o "sangue fino" ou o "sangue ralo" é relacionado à
aperto", podem ser interpretados como de origem cardíaca. anemia, por meio da qual o sangue torna-se "aguado" e perde seus
O sangue, sendo relativo a um fluxo de vida e sendo sua componentes essenciais. De acordo com estas duas lógicas de
perda excessiva fatal, faz com que a sua visualização fora dos

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oposição (óleo e água) que estão relacionadas às categorias grosso Desse modo, tanto as representações dos pacientes como as
e fino, o sangue perde seu equilíbrio. representações médicas são constituídas de saberes apropriados
Enfim, o corpo pode ser percebido segundo uma pluralidade de ambos os pólos. Isto implica que o processo saúde e doença
de aspectos. Para a Semiologia Médica, o corpo do outro é sujeito não é reduto exclusivo da medicina oficial. As representações so-
a uma emissão de sintomas e sinais engendrada por sua prática es- bre o corpo, saúde e doença populares influenciam diretamente na
pecífica. O indivíduo, porém, também realiza sua interpretação maneira como essa medicina lidará com os seus pacientes tanto na
destes mesmos processos, que segue uma lógica particular, mas nem busca do diagnóstico como da terapêutica. A história da Medicina
por isto menos legítima. nos mostra como o saber médico é uma construção influenciada
Diante dessa perspectiva, a doença é uma constmção_social. por concepções do senso comum como um trânsito de mão dupla
Do ponto de vista do paciente, as representações dos sintomas são entre o saber científico e o saber popular.
influenciadas por vários elementos: como suas representações de
corpo em geral, suas experiências individuais e as compartilhadas
por suas redes de relações. Contribui para as representações dos Referências bibliográficas
pacientes a apropriação do discurso médico, que alia aspectos deste
discurso com suas próprias representações sobre o corpo e a do- BECKER, H. S. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.
ença. O médico, por sua vez, ao interpretar os sintomas do pacien- BOLTANSKI, L. As classes sociais e o corpo. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
DUARTE, L. F. D. Da vida nervosa nas classes trabalhadoras urbanas. Rio
te se utiliza de seu saber legitimado pela ciência, aliado à aquisi- de Janeiro: Zahar, 1986.
ção de um saber sobre o popular, o que se dá através de sua prática FERREIRA, J. O corpo sígnico: representações sobre corpo, sintomas e si-
e que é enfatizado na sua formação médica. nais em uma vila de classe popular. Porto Alegre: PPGAS/UFRGS, 1994.
(Dissertação de mestrado em Antropologia Social)
As metáforas usadas pelos pacientes muitas vezes são in- FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária,
corporadas no próprio discurso médico. Tal fato advém tanto de 1980.
sua formação, e que a literatura médica se esmera em valorizar, GINZBURG, C. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
como também decorre do contato com os pacientes. É o caso do GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vo-
zes, 1985.
termo "pontada", que os médicos empregam para fornecer aos seus LEROI-GOURHAN, A. Os Fundamentos Corporais dos Valores e dos Rit-
pacientes o diagnóstico de pneumonia. Dessa forma, termos como mos. O gesto e a palavra: memória e ritmos, v. 11, cap. XI. Rio de Janei-
"batata da perna", "grão do olho" e outros são apreendidos pelo ro: Edições 70, 1965.
médico à medida que este consegue vislumbrar aspectos do coti- LÉVI-STRAUSS, C. A Eficácia Simbólica. Antropologia estrutural I. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.
diano de seus pacientes e que estão envolvidos nas representa- LOYOLA, M. A. Médicos e curandeiros — conflito social e saúde. São Pau-
ções de corpo. Da mesma forma, a familiarização com termos lo: Difel, 1984.
técnico-científicos de uso clínico e a aquisição de novas catego- MAUSS, M. As Técnicas Corporais. Sociologia e antropologia. São Paulo:
EPU/EDUSP, 1974.
rias de percepção do corpo pelos pacientes são o resultado do MONTERO, P. Da doença à desordem: a magia na umbanda. Rio de Janei-
contato com o médico. Neste sentido me refiro a uma circulari- ro: Graal, 1985.
dade de saberes entre o médico e o paciente, na mesma perspec- ROMEIRO, V. Semiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara, 1980.
tiva~de"Ginzburg (1987).

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