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PELA MEMÓRIA DE PELOTAS. COMO SEMPRE!

Andrey Rosenthal Schlee

Doutor em Arquitetura e Professor do Departamento de Teoria e História da Faculdade de Arquitetura e


Urbanismo da Universidade de Brasília

Endereço: SQN 205, Bloco H, Apartamento 206 – Brasília, DF. Fone: (61) 30335438 / andreysc@terra.com.br

I colóquio sobre história e historiografia da arquitetura brasileira


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PELA MEMÓRIA DE PELOTAS. COMO SEMPRE!
Resumo
Em 1987, foi realizado na cidade de Belo Horizonte o importantíssimo II Encontro Nacional de Preservação de
Bens Culturais. Promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil e pela então Secretaria do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional e Fundação Nacional Pró-Memória, o evento buscou discutir e avaliar as bases conceituais
que vinham orientando a ação de preservação do vasto patrimônio brasileiro. Já em seus documentos básicos,
aflorava o debate sobre os conceitos de patrimônio cultural (em substituição ao “histórico”) e imaterial (em
complementação ao “material”). Tal tendência estava explicita também nas inúmeras comunicações
apresentadas, como no modelo de gestão do patrimônio cultural (de Marcelo Brito); na busca da preservação
do patrimônio da imigração japonesa (de Celina Kuniyoshi e Hugo Segawa) ou italiana (de Cleodes Ribeiro); no
reconhecimento da Vila Planalto como patrimônio cultural (do GT Brasília); no resgate da memória da Guerra de
Canudos (de Ana Maria Roland); no projeto do Corredor Cultural (de Augusto Ivan de Freitas Pinheiro); ou na
execução da Casa do Arcebispo de Mariana (de Eolo Maia, Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá). Naquela
oportunidade, apresentamos o trabalho intitulado: Pela Memória de Pelotas. Preservação da área central de
Pelotas. Buscava-se proteger o núcleo histórico da cidade como um todo, “enquanto conjunto integrado ao sítio
físico, valorizando não só a estética da arquitetura como também os marcos e valores perceptivos de orientação
e leitura do espaço urbano” (Arquimemória II, 1987). Baseados no Inventário da Área Central e no Estudo de
Preservação da Área Central, a equipe de arquitetos da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente e
o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade, estudaram cerca de 10 mil imóveis e
cadastraram 1189 (cada um fotografado e descrito através de fichas próprias). Às fichas foram adicionadas
informações históricas (quando possível) e a certidão de propriedade de cada imóvel. Dos 1189 prédios
cadastrados, através de critérios pré-estabelecidos, 637 foram classificados como possuidores de valor de
representação elevada e 333 indicados para tombamento (77 foram tombados provisoriamente em fevereiro e
256 em julho de 1987). Mas o que aconteceu com o vasto patrimônio pelotense? Passados dez anos da
elaboração do trabalho, a presente comunicação tem como objetivo resgatar a história da preservação na
cidade e avaliar criticamente a atuação dos diferentes agentes envolvidos, bem como discutir o destino nos
inúmeros monumentos considerados dignos de preservação.

Abstract
In 1987, the II National Meeting of Preservation of Cultural Property took place in city of Belo Horizonte, MG,
Brazil. Promoted by the Brazilian Institute of Architects and the Department of National Historical and Artistic
Heritage and the Pro-Memory National Foundation, the event aims to discuss and evaluate the conceptual
bases that were guiding the action of preserving the vast Brazilian heritage. Its basic documents showed the
debate on the concepts of cultural heritage (to replace the "historic") and immaterial (in addition to the
"material"). This trend was also explicit in the numerous communications presented, as in the model for the
management of the cultural heritage (Marcelo Brito), in the search for the preservation of the Japanese
immigration heritage (by Celina Kuniyoshi and Hugo Segawa) or Italian (by Cleodes Ribeiro), in the recognition
of the Vila Planalto as cultural heritage (by GT Brasilia); in the ransom of the Guerra dos Canudos memory (by
Ana Maria Roland); in the project of the Cultural Corridor (by Augusto Ivan de Freitas Pinheiro), or in the
implementation of the Casa do Arcebispo de Mariana (by Eolo Maia, Jô Vasconcellos and Sylvio de Podestá). At
that time, we presented the work entitled: For the Memory of Pelotas. Preservation of the central area of
Pelotas, it was intended to protect the historic core of the city as a whole, "while set integrated to the physical
site, highlighting not only the aesthetics of architecture as well as the milestones and perceptive values for
guidance and reading of the urban space" (Arquimemória II, 1987). Based on the inventory of the Central Area
and on the Study for the Preservation of the Area Central, the team of architects from the Municipal Bureau of
Urban Planning and Environment and City Council of Historical and Cultural Heritage studied about 10 thousand
buildings and registered 1,189 (each one photographed and described through registration cards). The cards
were added of historical information (when possible) and the certificate of ownership of each property. From the
1,189 registered buildings, and through pre-established criteria, 637 were classified as of high representation
value and 333 were indicated for listing (77 were provisionally listed in February and 256 in July 1987). But what
has happened about the vast Pelotas heritage? After ten years from the development of the work, this
communication aimed to ransom the history of preservation in the city and critically to evaluate the actions of
different agencies involved and to discuss the destination in many monuments considered worthy of
preservation.

Palavras-chave / Key words: Pelotas, Preservação, Patrimônio Cultural / Pelotas, Preservation, Cultural
Heritage.

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PELA MEMÓRIA DE PELOTAS. COMO SEMPRE!

Introdução1

Ao longo da história de Pelotas2, sua população viu crescer e soube preservar sua cidade, vendo nela
criar-se um dos mais ricos patrimônios culturais e arquitetônicos do Brasil. São inúmeras construções
públicas e privadas, ruas, praças, marcos, paisagens; edificados com os mais variados estilos
arquitetônicos que definiram o espaço da cidade e obedeceram a necessidades profundas de sua
comunidade, passando por circunstâncias espirituais, psicológicas, sociais de toda a ordem,
acrescidas de condições criadas pelo meio físico, clima e paisagem.

Todos esses elementos, durante a vida da cidade, obedeceram a uma concepção unitária que definiu
Pelotas como única – conjunto de espaço físico natural modificado e edificado, e que mantém entre si
uma relação de continuidade, e que correspondeu aos costumes, tradições, sentimentos, atitudes
características de sua população. A cidade, em última e radical instância, tornou-se um ser histórico.

Na convivência entre a cidade e a população, inúmeros signos, pontos de referência e marcos foram
criados e possibilitam a orientação, a percepção e a leitura da cidade por parte de seus moradores.
Desta maneira é que foi sendo criado um sentimento de propriedade, ou seja, a casa, a árvore, a rua,
o bairro e a paisagem passaram a ser parte da história dos cidadãos, sendo um conjunto de tudo
isso, um objeto querido.

A cidade foi construindo e/ou identificando seus monumentos, historicamente determinados; edifícios
que mesmo mudando de função ao longo do tempo, contém a memória de seus habitantes em sua
relação com uma condição histórica precisa.

Como já vimos, desse objeto querido não fazem parte apenas as edificações excepcionais, integram-
se também as construções mais simples e em maior número – configurando o tecido, o fundo, para
os primeiros: as figuras. Quando visamos à cidade como um ser histórico, as construções simples
(que se juntam às centenas de outras em forma expressiva) e as edificações excepcionais, formam
um único conjunto (fundo e figura) que não pode ser separado. Isso seria como retirar uma frase de
seu contexto.

Porém, a partir da década de 40, aproximadamente, o espaço urbano de Pelotas passou a ser
sensivelmente modificado, graças a uma série de fatores sócio-econômicos, e também culturais,
como a introdução de tipologias em altura; a negação dos valores simbólicos e/ou ornamentais nos

1
A presente Introdução resgata parte de trabalhos desenvolvidos por SCHLEE, Andrey e POLIDORI, Maurício (coord.) para
a Assessoria de Projetos Urbanísticos da Prefeitura Municipal de Pelotas. Ver PELOTAS, 1987a e PELOTAS, 1987b.
2
Freguesia de São Francisco de Paula (1812), Vila de São Francisco de Paula (1830) e Cidade de Pelotas (1835). Ver
SCHLEE, 1998.

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edifícios; a elevação do programa de necessidades como única fonte capaz de gerar a forma
arquitetônica; e o próprio planejamento urbano da cidade3. Com os planos, entre outras coisas, foi
instituída a idéia do zoneamento funcional; foram definidos os índices e recuos obrigatórios, que
induziram a edifícios isolados e constituíram ruas “denteadas” e descontínuas; e, indiretamente, foi
estimulada a destruição de boa parte do patrimônio arquitetônico existente (sobretudo na área central
da cidade) e a construção, em seu lugar, de outros prédios que em muito pouco contribuíram para a
melhoria da qualidade de vida local.

A destruição do patrimônio cultural aumentou gradativamente nas duas últimas décadas, o que
comprova que Pelotas não tem sabido enfrentar seu paradoxo: quer ser “moderna” e ao mesmo
tempo não sabe como se manter fiel à sua memória ou ao seu passado. Uma cultura elementar tem
liquidado a tradicional4.

Para compreender melhor a questão da preservação na cidade, vale destacar algumas de suas
principais características urbano-arquitetônicas:

1. Pelotas notabilizou-se por seu grande número de prédios construídos nos mais diferentes
estilos arquitetônicos, havendo predomínio, até a década de 50, de um ecletismo acentuado5.
Esses prédios foram edificados ao longo dos tempos e forneceram ao contexto urbano uma
unidade e harmonia, a partir do respeito entre as diversas arquiteturas e o entorno;

2. Esta unidade e harmonia, como já foi dito, foi obtida pelo somatório de prédios isolados
significativos com os prédios mais simples que em nenhum momento pretendiam concorrer
com os outros;

3. Mesmo os prédios simples possuíam códigos simbólicos e decorativos que, muitas vezes,
reproduziam de maneira mais simplificada os códigos utilizados pelos prédios mais
significativos, portanto não havendo grande ruptura nem mesmo no aspecto simbólico-
ornamental;

4. De um modo geral, a cidade segue um traçado reticulado ortogonal característico, com


quarteirões de dimensões heterogêneas que correspondem aos dois primeiros loteamentos
delimitados (1815 e 1835) e a seus braços de crescimento (em direção ao sul e ao norte);

5. Embora Pelotas seja construída sobre um sítio plano e seguindo um traçado regular básico,
sempre foi garantida uma diferenciação e hierarquização entre os espaços públicos e os

3
Em 1947, sob a coordenação do urbanista Edvaldo Paiva foi elaborado um “plano para Pelotas”. Em 1967, sob
coordenação da arquiteta Lais de Pinho Salengue foi apresentado o chamado “Primeiro Plano Diretor de Pelotas”,
executado pela firma ORPLAN de Porto Alegre. Em 1978, tendo como consultor o arquiteto Demétrio Ribeiro, foi elaborado
o II Plano Diretor.
4
Conforme RICOEUER, 1968. pp.277-291.
5
Ver SCHLEE, 1994.

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privados, principalmente por meio da distribuição dos prédios significativos por diversas
praças (da Prefeitura, do Mercado, da Santa Casa, do Asilo, da Estação, da Catedral, da
Faculdade de Direito, da Alfândega, do Porto);

6. Ao longo da construção de todo esse patrimônio, foi ocorrendo uma espécie de seleção
natural daquelas tipologias que mais se integraram e se apropriaram ao clima, ao solo, ao
relevo, ao traçado, ao parcelamento e às condições culturais da cidade. São tipos que se
repetem e estão carregados de valores essenciais da cidade.

Sendo assim, quer nos parecer que, atualmente, a preservação do patrimônio cultural da cidade de
Pelotas passa pela compreensão de suas qualidades macro, ou seja, pensar no patrimônio como um
todo, preservar o coletivo, proteger as edificações enquanto conjunto integrado ao sítio físico e
reconhecer a importância dos elementos constitutivos do tecido urbano local6 (a rede de vias, os
parcelamentos fundiários e as edificações correspondentes).

Monumentos de valor histórico e a ação abnegada

A primeira manifestação oficial em relação à preservação do patrimônio cultural de Pelotas ocorreu


em 19557, com o tombamento federal do Obelisco Republicano (de 1885), no bairro do Areal. O
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) considerou tratar-se, provavelmente, do
“único monumento erguido ao ideal republicano durante a monarquia”8. É interessante salientar que o
tombamento tenha buscado proteger exatamente um obelisco, ou seja, um marco no verdadeiro
significado da palavra. Baliza fundamental do início do processo de valorização patrimonial na cidade.
Porém esta iniciativa – tudo indica – não foi suficiente para despertar na comunidade local uma
consciência do gigantesco acervo cultural que possuía e do qual era guardiã. O monumento não foi
destruído ou descaracterizado, no entanto, permanece desprestigiado e pouco explorado.

Em 1961, por iniciativa do dr. Paulo Duval, graças ao interesse do então prefeito João Carlos Gastal
(1960-1964) e a gestões populares, foi proposto o tombamento federal do Teatro Sete de Abril, o
que só ocorreu definitivamente em 19729. A cidade buscava resgatar a história de seu mais
importante teatro — que passou a ser valorizado como a “única casa de espetáculos do Brasil em
funcionamento ininterrupto desde a sua fundação em 1831”10.

Durante a administração do prefeito Edmar Fetter (1964-1969), foi elaborado o chamado Primeiro
Plano Diretor de Pelotas (PDP, 1967) que, refletindo o pensamento urbanístico da época, não

6
Conforme definidos por PANERAI, pp.77-108.
7
. SPHAN. 1955.
8
CARRAZZONI, 1980. p.343.
9
. SPHAN. 1972.
10
CARRAZZONI, 1980. p.344.

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avançou no sentido de reconhecer a existência de um patrimônio que teria de ser considerado e
preservado. “Pelo contrário, pode-se dizer que foi um dos componentes de incremento de sua
destruição”11. O I PDP classificou as ruas da cidade como monótonas e caracterizou a arquitetura
pelotense de fraca tipologicamente12. Desta forma, condenou:

“... à renovação por substituição aqueles componentes da paisagem vistos como bidimensionais, valorizando
apenas as paisagens que se ofereciam como portadoras de variadas mensagens tridimensionais. Tal
conceituação (que levou a propostas como a destruição do Mercado Público) é hoje entendida como absurda,
13
inconveniente e inconcebível para Pelotas” .

Sem uma política efetiva de preservação, o patrimônio pelotense continuou dependendo da iniciativa
e luta de alguns poucos abnegados.

Após algum tempo desocupada, a Residência nº 2 da Praça Cel. Pedro Osório foi comprada pela
Associação dos Profissionais Liberais Universitários do Brasil (APLUB), que pretendia destruir o
prédio para, no local, construir um edifício residencial em altura. Mais uma vez, frente à ameaça de
destruição, a população pelotense mobilizou-se e, desta vez, liderada pelo prof. Adail Bento Costa,
solicitou o tombamento federal do monumento.

Juntamente com o imóvel nº 2, em 197714, foram considerados patrimônio nacional as Residências


nº 6 e 8, garantindo a sobrevivência de um dos mais belos conjuntos arquitetônicos do século XIX, do
Brasil. Tal mobilização popular foi fundamental no processo de tombamento, sensibilizando
particularmente os técnicos do SPHAN.

No laudo técnico e parecer sobre os três monumentos preservados, o prof. Adail Bento Costa propôs
a restauração da Casa 2 e sua transformação no Museu de Pelotas, a manutenção da Casa 6 como
residência e a recuperação da nº 8 (então de propriedade privada). Passados trinta e um anos do ato
de tombamento, dois imóveis encontram-se em péssimo estado de conservação e apenas a Casa 2
foi recuperada pelo Programa Monumenta (inaugurada em 29 de novembro de 2005).

A imprensa local assim se manifestava em 1976:

“... nada menos de 180 mil metros quadrados de área construída foram acrescidos à cidade de janeiro a
setembro. É uma prova que a cidade cresce. Mas não é uma prova muito significativa se considerarmos que
no mesmo período foram demolidos aproximadamente 100 mil metros quadrados (...) É toda uma cidade
15
que vem abaixo para que outra surja” . (grifo nosso).

Ou seja, a comunidade, por meio de seus órgãos de imprensa, passava a demonstrar sua
preocupação em relação ao processo que havia se estabelecido — caracterizado pela substituição

11
. POLIDORI, 1989.
12
PELOTAS, 1967.
13
. POLIDORI, 1989.
14
. SPHAN, 1977.
15
. A Gazeta Pelotense, 1976, capa.

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tipológica, pela destruição indiscriminada de construções e pela preservação de poucos monumentos
isolados.

Ainda em 1977, começaram os primeiros trabalhos de restauração da Casa 2 – desapropriada pelo


município –, e que abrigaria o chamado “Museu de Pelotas”. Porém, em 1980, as obras foram
suspensas com a morte de Adail Bento Costa. A atuação sobre e na defesa de apenas monumentos
excepcionais e de prédios isolados (reforçado pelos cinco primeiros tombamentos federais), acabou
gerando uma significativa distorção conceitual (com grande repercussão futura). A população não se
sentia identificada com o patrimônio já preservado ou a preservar. Os monumentos estavam sendo
protegidos porque tinham uma significação e uma importância nacionais — o que justificava a ação
pontual do SPHAN —, enquanto as questões relacionadas com manutenção de uma (ou da)
identidade local não foram corretamente trabalhadas.

De certa maneira, Pelotas foi forçada a assumir um compromisso com a preservação de seu rico
patrimônio cultural através da CARTA DE PELOTAS16, elaborada pelo Instituto de Arquitetos do
Brasil, em 1978. Neste documento reconhecido nacionalmente, os arquitetos do Rio Grande do Sul
estarrecidos com o que diuturnamente assistiam ou eram informados em relação à dilapidação do
patrimônio ambiental e urbano das cidades gaúchas — cujos valores, são impossíveis de serem
substituídos — fincaram posição intransigente em sua defesa. Para registro de sua atitude
escolheram, no tempo, uma das datas mais significativas do calendário brasileiro: 21 de abril, e
optaram espacialmente, por Pelotas, “um dos repositórios maiores das tradições de civilização
material do território riograndense”17.

Monumentos de valor histórico e a ação sistemática

Durante o primeiro governo de Irajá Andara Rodrigues (1977-1982), teve início um novo período
relativo à preservação, pois o patrimônio arquitetônico passou a ser tratado de uma maneira oficial e
sistemática. Profissionais arquitetos (como Gilberto Yunes e Marta Amaral), locados junto ao
Escritório Técnico do Plano Diretor (ETPD), passaram a responsabilizar-se pelos projetos de
restauração do Teatro Sete de Abril, da Chácara da Baronesa (Areal) e das casas n.º 2 e 6. Em 1979,
a Prefeitura Municipal desapropriou o Teatro Sete de Abril, que passou a pertencer à comunidade.

Elaborado durante os dois últimos anos da década de 70, foi implantado em 1980, na forma da Lei nº
2565/80, o II Plano Diretor de Pelotas18. Embora indicando a possibilidade da delimitação de Zonas
de Preservação Paisagística Cultural (o que nunca ocorreu) e admitindo a existência de um acervo

16
. A Carta de Pelotas, 1978.
17
. A Carta de Pelotas, 1978.
18
PELOTAS, 1980.

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digno de ser protegido legalmente (o que representou um significativo avanço em relação ao I Plano),
permitiu coincidir as áreas de maior exploração urbanística com as de maior concentração de
monumentos arquitetônicos (primeiro e segundo loteamentos da cidade); portanto, estimulando a
demolição dos antigos prédios e a sua substituição por edificações novas. Tal incoerência fez com
que o próprio coordenador do ETPD na época da elaboração do Plano, Rogério Gutierrez Filho,
reconhecesse a necessidade da revisão dos índices de aproveitamento e as zonas de preservação
do patrimônio arquitetônico19 (o que também não ocorreu).

Frente a uma legislação, por um lado, tão prejudicial aos interesses do patrimônio cultural, em 1982
foi criada e aprovada a Lei Municipal n.º 270820 (de autoria do advogado Bernardo Olavo de Souza),
que dispôs sobre a proteção do patrimônio histórico de Pelotas, regulamentou o tombamento a nível
municipal e criou o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural (COMPHIC), órgão de
assessoramento ao Prefeito. Tal documento legal correspondia a um antigo anseio de parte da
comunidade pelotense que defendia a necessidade da implementação de uma política local de
preservação, integrada à política nacional, definida em 1970 pelo Compromisso de Brasília.

Em 1983, já durante o governo de Bernardo Olavo de Souza (1983-1987), foi aprovado o regimento
interno do COMPHIC e realizado o Inventário do Patrimônio Arquitetônico e Urbano de Pelotas (numa
parceria da Prefeitura Municipal, da Universidade Federal de Pelotas e do SPHAN). Durante os
primeiros cinco anos de atuação do Conselho, foram adotados os conceitos internacionais de
preservação e continuaram sendo privilegiados os monumentos isolados excepcionais (todos de
indiscutível valor arquitetônico). Sob a presidência dos arquitetos Marta da Costa Amaral e Wilson
Marcelino Miranda foram tombados os seguintes monumentos: o Mercado Público, a Prefeitura
Municipal, o Clube Comercial, o Grande Hotel, o Conservatório de Música, o Instituto de
Ciências Humanas (Escola Eliseu Maciel), o Instituto de Letras e Artes, a Residência da Família
Mendonça, a Residência do Barão da Conceição, o Solar da Baronesa e o Jockey Club.

O governo federal, através do SPHAN, seguindo no seu trabalho de salvaguardar os monumentos de


interesse nacional, tombou, em 198421, a Caixa d´Água da Praça Piratinino de Almeida e deu início
aos estudos de definição do entorno dos monumentos preservados na Praça Cel. Pedro Osório, o
que originou à Portaria IPHAN n.º 9 de 1986.

Baseado em um trabalho sério e criterioso, o COMPHIC — mais uma vez com apoio do Curso de
Arquitetura e Urbanismo da UFPel e do Escritório Técnico da SPHAN/Fundação Nacional Pró-
Memória (especialmente criado em Pelotas, para atender a demanda da zona sul do Estado) —
passou a coordenar todos os trabalhos pertinentes à preservação, manutenção e resgate do

19
. GUTIERREZ, 1989.
20
PELOTAS, 1982.
21
. SPHAN, 1984.

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patrimônio cultural da cidade. No entanto, sua atuação foi seriamente abalada pela destruição
criminosa (durante a madrugada de um domingo) da chamada Residência Rechsteiner (rua Sta. Cruz
esquina Gal. Neto). Seguiu-se a demolição, igualmente sem justificativa, da Residência de Plotino
Duarte (rua Andrade Neves, frente ao Centro Português). Enquanto o Conselho municipal caminhava
lentamente, a destruição deva passos largos...

Monumentos de valor cultural e a ação sistemática

Preocupado com as constantes – e significantes – demolições criminosas, e com a intenção de deixar


definitivamente preservado o núcleo central de Pelotas, o prefeito Bernardo de Souza encomendou,
em 1986, ao Conselho (então sob a presidência do arquiteto Roberto Duarte Martins), um profundo
levantamento dos prédios de interesse cultural pertencentes a essa área.

“Resolveu-se então elaborar um inventário que abraçasse a área central, estudando-a e apontando, com a
antecipação necessária, quais os prédios passíveis de preservação. Concorrentemente ao inventário,
discutem-se os dois instrumentos disponíveis, quais sejam as Zonas de Preservação do Patrimônio Cultural e
o tombamento municipal. A idéia dos técnicos da prefeitura de trabalhar com as ZPPC é desde o início
castrada pela Procuradoria do Município, que reconhecia como único instrumento eficaz o tombamento de
22
prédios isolados, uma vez que esse procedimento estaria ancorado na Lei Federal – Dec. Lei 25/1937” .

O Inventário da Área Central de Pelotas23 ou Estudo de Preservação da Área Central de Pelotas foi
desenvolvido de outubro de 1986 a fevereiro de 1987 e objetivava: (1) identificar e preservar a
imagem urbana produzida até o segundo quarto do século XX no sítio físico e entorno do primeiro e
segundo loteamentos de Pelotas (área compreendida entre as vias Almirante Barroso e Marcílio Dias,
Bento Gonçalves e João Manoel); (2) identificar e preservar as edificações que compõem o
patrimônio cultural do referido sítio; e (3) preservar a memória cultural de Pelotas.

Durante cinco meses, a equipe de arquitetos e estagiários da Assessoria de Projetos Urbanísticos da


Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente – coordenada pelo arquiteto Maurício Couto
Polidori – e o COMPHIC estudaram cerca de 10 mil imóveis e cadastraram 1189. Cada edificação foi
individualmente fotografada e descrita em fichas próprias. Às fichas foram adicionadas informações
históricas e a certidão de propriedade de cada imóvel (fornecidas diretamente pelos Cartórios da
cidade), compondo um dossiê patrimonial organizado por pastas correspondendo às diferentes vias e
espaços públicos da cidade.

O que se pretendia era a criação de uma Zona de Preservação Paisagística Cultural Central (ZPPC-
C, conforme previsto nos artigos 12 e 14 do II Plano Diretor) ou o tombamento do conjunto

22
. POLIDORI, 1989.
23
Trata-se do segundo inventário do patrimônio local, já que um primeiro foi realizado em 1983.

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urbanístico formado e caracterizado pela série de edifícios estudados (conforme sugestão do
SPHAN). No entanto, a Procuradoria Jurídica da Prefeitura Municipal indicou o tombamento individual
de todos os bens. Para tanto, passou-se a revisar os critérios anteriormente estabelecidos –
reduzindo sua abrangência e aprimorando seu entendimento. Dos 1189 prédios cadastrados,
conforme critérios pré-estabelecidos, 637 foram classificados como possuidores de valor de
representação elevada e 333 indicados para tombamento – 77 foram tombados provisoriamente em
fevereiro e 256 em julho de 1987, já durante a administração de José Maria Carvalho da Silva (1987-
1989).

Tal estudo gerou grande polêmica em toda a cidade, o que é louvável, pois pela primeira vez estava
se discutindo, efetivamente, o papel da preservação em Pelotas; de um lado o COMPHIC, a SMUMA,
as Universidades, alguns arquitetos, e grande parte da população pelotense que se manifestou por
meio dos jornais, de abaixo assinados e de atos públicos; de outro lado, parte dos proprietários de
imóveis tombados, seus advogados e suas associações de classe, como a Associação Comercial, o
Centro das Indústrias e a Associação dos Proprietários de Imóveis.

Obtiveram os proprietários, e seus representantes, fundamental apoio junto à Câmara de Vereadores,


que desde o início, liderada pelo vereador Adolfo Antônio Fetter Jr., colocou-se contrária ao Estudo
de Preservação, defendendo os interesses da especulação imobiliária acima dos da comunidade em
geral. Conseguiram uma nova lei de “preservação” (Lei nº 3128/1988), elaborada pelos advogados
dos proprietários de bens tombados e totalmente contrária ao tombamento em Pelotas. Obtiveram,
ainda, o silêncio do então chefe do executivo municipal, prefeito José Maria Carvalho da Silva, e o
seu comprometimento através da retirada de todo o apoio material e pessoal, desestruturando o
COMPHIC.

É necessário que se divida o Estudo de Preservação da Área Central de Pelotas em duas atividades
bastante distintas:

1. O Trabalho Técnico — Foi elaborado pelo COMPHIC e SMUMA, revestido do maior rigor
metodológico, baseado única e exclusivamente na legislação existente e nas mais diversas
Cartas e Documentos internacionais e nacionais sobre preservação patrimonial – o qual foi
alicerçado em critérios rígidos que consideraram, além do exposto na legislação pertinente, os
componentes formais dos monumentos e a valorização de significado e força de representação
de identidade do lugar ou grupo morfológico. O que comprova a excelência do trabalho realizado
e dos critérios adotados é o fato que os proprietários de imóveis tombados e seus advogados,
mesmo alegando não existirem critérios para o tombamento, só conseguiram liquidar com a
proposta de preservação através de modificações radicais (e retroativas) na lei que a regulava.

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Com o título de Pela memória de Pelotas: preservação da área central de Pelotas, o trabalho foi
apresentado e debatido, em Belo Horizonte, durante o II Encontro Nacional de Preservação de
Bens Culturais24, em 1987, evento fundamental no sentido propor leituras mais abrangentes do
que significa o patrimônio cultural de um povo. Promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil e
pela então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Fundação Nacional Pró-
Memória, buscou discutir e avaliar as bases conceituais que vinham orientando a ação de
preservação do vasto patrimônio brasileiro. Já em seus documentos básicos, aflorava o debate
sobre os conceitos de patrimônio cultural (em substituição ao “histórico”) e imaterial (em
complementação ao “material”). Tal tendência estava explícita também nas inúmeras
comunicações apresentadas25, como no modelo de gestão do patrimônio cultural (de Marcelo
Brito); na busca da preservação do patrimônio da imigração japonesa (de Celina Kuniyoshi e
Hugo Segawa) ou italiana (de Cleodes Ribeiro); no reconhecimento da Vila Planalto como
patrimônio cultural (do GT Brasília); no resgate da memória da Guerra de Canudos (de Ana Maria
Roland); no projeto do Corredor Cultural (de Augusto Ivan de Freitas Pinheiro); ou na execução
da Casa do Arcebispo de Mariana (de Eolo Maia, Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá).

2. Trabalho Político — Em fevereiro de 1987 todo o processo de tombamento foi apressado até o
afastamento do então prefeito Bernardo de Souza (que estava assumindo a Secretaria Estadual
de Educação e que não queria deixar a prefeitura pelotense sem cumprir com a promessa
eleitoral de preservar o patrimônio local). No último dia de seu governo, então, deu início ao
tombamento em massa de prédios isolados (ao invés da criação da ZPPC), sem tempo para que
ocorresse uma conscientização prévia da população. Assumiu a prefeitura o vice, José Maria de
Carvalho que, embora do mesmo partido, era como se não fosse. Antagonizava-se com Bernardo
de Souza na esfera administrativa e ideológica. Assim, os processos de tombamento foram
interrompidos (o que não permitiu à maioria da população compreender, como um todo, o
trabalho técnico que vinha sendo realizado). Durante a interrupção dos processos, muitos prédios
indicados para tombamento foram demolidos. Sentindo-se ludibriado, o novo prefeito realizou o
segundo tombamento em massa (256 monumentos), sem ter a verdadeira consciência da
importância do seu ato. Por outro lado, começou o trabalho de esvaziamento e enfraquecimento
do COMPHIC. O executivo municipal não se sentia “responsável” pelo que estava acontecendo.
Acossado, movia-se livremente para a derrubada do projeto preservacionista, contrário aos
interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil. Assim, através de modificações na lei, todos
os imóveis deixaram de ser tombados, ficando livres para a demolição.

24
SCHLEE, 1987. p.82.
25
Ver Arquimemória II, 1987.

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Resultado: até hoje a cidade conta com uma lei de tombamento que é um verdadeiro atentado contra
o patrimônio de Pelotas e uma agressão contra todos aqueles que um dia sonharam com uma
Pelotas melhor, uma “aberração jurídica” como, na época, a considerou o SPHAN.

Monumentos de valor cultural e a ação abnegada

Em 1989, teve início o primeiro governo de José Anselmo Rodrigues (1989-1993) que, frente à
possibilidade de demolição do prédio 516 da rua Barão de Santa Tecla, e novamente com apoio de
população – respaldado pelas manifestações da Faculdade de Arquitetura (UFPel), IAB e SPHAN –
declarou-o de utilidade pública para fins de desapropriação, preservando-o.

A partir de então, os prefeitos que se sucederam preferiram não mais encarar o problema de frente. A
responsabilidade pela preservação do patrimônio pelotense novamente passou do poder público para
a iniciativa particular de alguns poucos abnegados (o que significa um retrocesso a 1955).

Ainda em 1989, buscando reverter o quadro que se configurava, foi organizado o SOS Memória: I
Encontro de Preservação da Memória Cultural da Cidade, tentativa de reagrupar as pessoas e forças
capazes de lutar pelo patrimônio local. Simultaneamente, novos instrumentos de preservação
passaram a ser pensados, como o Estudo de Compatibilização com o Entorno (ECO), mais uma vez
elaborado pelo arq. Maurício Couto Polidori26 (1991).

A década de 90 foi de estagnação e preparação. Estagnação, no sentido de que muito pouco,


efetivamente, foi realizado (apenas o tombamento pela Câmara Municipal da Ponte sobre o arroio
Santa Bárbara e do prédio da Estação Ferroviária). Preparação, no sentido de que, além de um
novo Curso de Arquitetura e Urbanismo (o da Universidade Católica de Pelotas), a cidade passou a
contar com um programa de Especialização em Patrimônio Cultural (UFPel), o que é bastante
significativo27.

Em 1999, dois acontecimentos foram marcantes:

I. O governo estadual assumiu um compromisso de priorizar o patrimônio cultural da zona sul do


Estado. Desta forma, o IPHAE – que conta com legislação específica desde 1978 – realizou o
seu primeiro tombamento em Pelotas: a chamada Casa da Banha (que se encontrava
arruinada28), mas nenhuma outra medida foi tomada. Em 2000, o deputado Bernardo Olavo de

26
POLIDORI, 1991. Ver também: SCHLEE, 1991. pp.187-189.
27
Ver ROIG, 1998.
28
A Casa da Banha foi recuperada pela Prefeitura Municipal e pela iniciativa privada.

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Souza encaminhou projeto de lei declarando seis cidades da “zona sul integrantes do
patrimônio cultural do Rio Grande do Sul”29, mas não incluiu, entre elas, Pelotas.

II. Foi desenvolvido o trabalho Patrimônio cultural, cidade e inventário30, coordenado pelos
arquitetos Maurício Polidori e Carmem Vera Roig – contando com a colaboração de inúmeras
instituições e profissionais da área –, e que pretendia redirecionar a questão preservacionaista
na cidade, apontando para novos caminhos e prevendo a criação de um sistema integrado de
preservação que passaria, necessariamente, pela aceitação do inventário como instrumento
permanente de apreensão do ambiente urbano, e pela definição e um zoneamento patrimonial
(delimitação de áreas que operem como portadoras de bens de interesse cultural).

Em 2000, foi efetivado pelo governo federal o Programa Monumenta, com o objetivo de “preservar
áreas prioritárias do patrimônio histórico e artístico urbano e estimular ações que aumentem a
consciência da população sobre a importância de se preservar o acervo existente”31 Executado pelo
Ministério da Cultura e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) representou
uma oportunidade impar para a elaboração de projetos, até certo ponto, ambiciosos para inúmeras
cidades brasileiras, entre as quais Pelotas.

Durante a administração de Fernando Stephan Marroni (2001-2005), o município apresentou


proposta e, em 2002, assinou o convênio, aderindo ao Programa. Foi então montada uma Unidade
Executora de Projeto local (UEP) que passou a ser coordenada pela arquiteta Carmem Vera Roig,
com a colaboração de inúmeros profissionais e estagiários, entre os quais a arquiteta Simone
Delanoy32. A lista de ações era grande, contemplando obras na Casa 2 (finalizada), Grande Hotel
(finalizada), Teatro Sete de Abril (em andamento), Prefeitura Municipal (finalizada), Praça Coronel
Pedro Osório (em andamento), Fonte das Nereidas (finalizada), entre outras. Foram ainda
financiadas pelo Monumenta as ações especiais: (1) Música Patrimônio Vivo, (2) Qualificação
Profissional para Ofícios de Restauro, (3) Cultura Aberta, (4) Exposição Praça Coronel Pedro Osório
e (5) o Inventário de Referência Cultural: Doces de Pelotas.

Dois fatos surpreendentes marcaram a recente a vida política de Pelotas. Primeiro, em 2004, ocorreu
a eleição da estranha coligação composta pelo prefeito Bernardo Olavo de Souza (com uma trajetória
francamente preservacionista) e pelo vice-prefeito Adolfo Fetter Junior (com uma história contrária à
preservação). Segundo, em 2006, com problemas de saúde, Bernardo de Souza renunciou,
assumindo Fetter Jr. Como conseqüência lógica, a UEP local perdeu sua força original, a equipe

29
Foram indicadas as cidades de Rio Grande, Piratini, Jaguarão, São José do Norte, Mostardas e a Vila de Santa Isabel
(Arroio Grande). Ver SOUZA, 2000.
30
POLIDORI, 1999. Ver também: POLIDORI, 1999.
31
MONUMENTA. Disponível em: < ttp://www.monumenta.gov.br > Acesso em 24 abr. 2007, 19:34:30.
32
Carmem Vera Roig e Simone Delanoy são arquitetas formadas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPel e
que participaram de todos os momentos e trabalhos desenvolvidos pela Prefeitura desde 1986.

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técnica foi reduzida, as decisões (inclusive de projeto) foram transferidas para o Gabinete do Prefeito
ou para outros órgãos da administração municipal, e os profissionais que sempre lutaram pela
construção e consolidação de uma política patrimonial consistente e efetiva para a cidade de Pelotas,
encontram-se isolados e sem voz.

Conclusão

A história demonstra que a questão da preservação do patrimônio pelotense — crucial para o futuro
da cidade — depende fundamentalmente da ação, articulada e coordenada, de todos aqueles que
têm consciência de sua importância e necessidade.

Pelotas merece uma política municipal de preservação, não apenas considerada por órgãos culturais,
ambientais ou afins, mas tratada e formulada por todos os setores da administração municipal, tendo
como referência básica, na montagem dessa política, a discussão e a participação da comunidade
em geral.

Deve-se garantir o pleno funcionamento de um órgão responsável pela preservação no município,


com dotação orçamentária adequada, independência administrativa e com pessoal técnico
especializado lotado neste órgão.

Pelotas merece a atenção do IPHAN. A cidade aguarda a resposta do órgão federal de preservação
sobre o pedido de tombamento nacional encaminhado em 2004.

“Uma utopia? Não, se tivermos uma visão clara dos problemas da cidade e das possibilidades de
mobilização de todos os cidadãos, especialistas ou habitantes ciosos de seus direitos a uma fruição
finalmente cultural do espaço urbano”33. Por fim lembramos que “a permissividade demolidora dentro
da qual vivemos não é decididamente, o modelo de progresso que desejamos para a nossa cidade”34.

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19:34:30.

33
. FABRIS, 1996. p.18.
34
. A Carta de Pelotas, 1978.

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