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Universidades Lusíada

Silva, Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva,


1965-
A primeira escola de Serviço Social em Portugal :
o projeto educativo fundador e a configuração do
campo de conhecimento (1935-1955)
http://hdl.handle.net/11067/2695

Metadados
Data de Publicação 2017-01-25
Resumo O presente trabalho de pesquisa intitulado “A primeira escola de Serviço
Social em Portugal: o projeto educativo fundador e a configuração
do campo de conhecimento (1935-1955)” pretendeu desenvolver um
trabalho de investigação no âmbito do Programa de Doutoramento em
Serviço Social, iniciado em 2010, promovido pela Universidade Lusíada
de Lisboa. Esta pesquisa opta por situar-se no domínio da história do
Serviço Social, centrando-se na história da educação em Serviço Social e
designadamente naqu...
Palavras Chave Serviço Social - História - Portugal, Serviço Social - Estudo e Ensino
- Portugal, Portugal - Política Social - 1933-1974, Instituto de Serviço
Social (Lisboa, Portugal) - História
Tipo doctoralThesis
Revisão de Pares Não
Coleções [ULL-ISSSL] Teses

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http://repositorio.ulusiada.pt
UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa

Doutoramento em Serviço Social

A primeira escola de Serviço Social em Portugal: o projeto


educativo fundador e a configuração do campo de
conhecimento (1935-1955)

V. 1

Realizado por:
Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva
Orientado por:
Prof.ª Doutora Marina Manuela Santos Antunes

Constituição do Júri:

Presidente: Prof. Doutor Afonso Filipe Pereira d'Oliveira Martins


Orientadora: Prof.ª Doutora Marina Manuela Santos Antunes
Arguente: Prof.ª Doutora Alcina Maria de Castro Martins
Arguente: Prof.ª Doutora Helena da Silva Neves dos Santos Almeida
Vogal: Prof.ª Doutora Graça Maria Rolim André Queirós
Vogal: Prof.ª Doutora Maria Júlia Faria Cardoso
Vogal: Prof. Doutor Duarte Gonçalo Rei Vilar

Tese aprovada em: 13 de Janeiro de 2017

Lisboa
2016
U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa

Doutoramento em Serviço Social

A primeira escola de Serviço Social em Portugal:


o projeto educativo fundador e a configuração do
campo de conhecimento (1935-1955)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva

V. 1

Lisboa

Maio 2016
U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa

Doutoramento em Serviço Social

A primeira escola de Serviço Social em Portugal:


o projeto educativo fundador e a configuração do
campo de conhecimento (1935-1955)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva

Lisboa

Maio 2016
Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva

A primeira escola de Serviço Social em Portugal:


o projeto educativo fundador e a configuração do
campo de conhecimento (1935-1955)

Tese apresentada ao Instituto Superior de Serviço


Social de Lisboa da Faculdade de Ciências Humanas e
Sociais da Universidade Lusíada de Lisboa para a
obtenção do grau de Doutora em Serviço Social.

Orientadora:
Prof.ª Doutora Marina Manuela Santos Antunes

Lisboa

Maio 2016
Ficha Técnica
Autora Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva
Orientadora Prof.ª Doutora Marina Manuela Santos Antunes
Título A primeira escola de Serviço Social em Portugal: o projeto educativo
fundador e a configuração do campo de conhecimento (1935-1955)
Local Lisboa
Ano 2016

Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação

SILVA, Teresa Paula Garcia Rodrigues da, 1965-

A primeira escola de Serviço Social em Portugal : o projeto educativo fundador e a configuração do


campo de conhecimento (1935-1955) / Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva ; orientado por
Marina Manuela Santos Antunes. - Lisboa : [s.n.], 2016. - Tese de Doutoramento em Serviço Social,
Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da
Universidade Lusíada de Lisboa.

I - ANTUNES, Marina Manuela Santos, 1951-

LCSH
1. Serviço social - História - Portugal
2. Serviço social - Estudo e ensino - Portugal
3. Portugal - Política social - 1933-1974
4. Instituto de Serviço Social (Lisboa, Portugal) - História
5. Universidade Lusíada de Lisboa. Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa - Teses
6. Teses - Portugal - Lisboa

1. Social service - History - Portugal


2. Social Service - Study and teaching - Portugal
3. Portugal - Social policy - 1933-1974
4. Instituto de Serviço Social (Lisboa, Portugal) - History
5. Universidade Lusíada de Lisboa. Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa - Dissertations
6. Dissertations, Academic - Portugal - Lisbon

LCC
1. HV348.S55 2016
Dedico este trabalho ao Alberto, meu
marido, e aos nossos filhos Sofia e
Henrique, sem eles não se justificaria a
razão deste esforço.

À memória dos meus pais Sara e Eduardo,


que sempre me ensinaram a perseverar.

À memória da Professora Doutora Maria


Augusta Negreiros, que me ensinou a
essência do Serviço Social e o que
representa a dedicação a uma causa.
AGRADECIMENTOS

Com a difícil tarefa de não omitir todos os que de alguma forma contribuíram para a
realização da presente pesquisa, desejo exprimir os meus mais sinceros
agradecimentos à Professora Doutora Mariana Antunes. Foi o seu estímulo,
disponibilidade intelectual, orientação, apoio e as reflexões proporcionadas que me
ajudaram na condução dos trabalhos que resultaram nesta tese, sendo fundamental o
espírito crítico e ponderação na descoberta do objeto de estudo.

Agradeço aos meus colegas docentes do Instituto Superior de Serviço Social –


Universidade Lusíada de Lisboa, por me ouvirem e trocarem comigo ideias sobre o
Serviço Social e em concreto um olhar sobre a sua história e me ajudarem a distinguir
o olhar do essencial e o secundário, pelo estímulo e por acreditarem em todos os
momentos que este trabalho era possível.

Não poderei, deixar de relembrar a importante colaboração que o Dr. Helder Machado
Diretor dos Serviços de Informação, Documentação e Internet, prestou ao longo do
árduo percurso de construção deste relatório científico, desde o esclarecimento da
breve dúvida às longas conversas e partilha de ideias. Agradeço ainda, ao Dr. Paulo
Soares e à Catarina Graça bem como a todos os funcionários da Mediateca da
Universidade Lusíada de Lisboa por toda a disponibilidade e apoio manifestado.
Agradeço, ainda, à Dr.ª Teresa Ponces da Biblioteca do Patriarcado de Lisboa e
Arquivo do Cardeal Cerejeira Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), Cardeal
Patriarca de Lisboa (1929-1971) e da Drª Elvira Silvestre responsável pela Biblioteca
do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, pelo rigor, profissionalismo e
respeito pelo trabalho do investigador.

Agradeço à arquiteta Isabel Pinto Gonçalves, Diretora do Departamento de Habitação


e Desenvolvimento Social (DHS), da Câmara Municipal de Cascais, onde exerço as
funções de assistente social por me proporcionar, nos últimos dias, a possibilidade de
dedicação exclusiva à revisão deste trabalho. Agradeço, ainda aos meus colegas da
Divisão de Promoção da Saúde (DIPS) pela força e por acreditarem em todos os
momentos que este trabalho iria chegar ao fim.

Cabe-me por fim agradecer às colegas que comigo frequentaram o programa doutoral
Paula Ferreira, Helena Rocha e, ainda, Vanda Ramalho e Helena Teles, na discussão
de ideias e na interpretação de alguns dos dados recolhidos. Agradeço à Teresa
Cunha e Carolina Lacerda que enquanto colegas de trabalho na Câmara Municipal de
Cascais, arquivista e assistente social respetivamente, se disponibilizaram a algumas
leituras e a me questionaram sobre a condução do trabalho.

Por último, agradeço profundamente à minha família em especial ao meu marido e aos
meus filhos a quem dediquei esta obra.

A todos o meu mais profundo respeito.


“Nunca se passa para além da história e a
ciência do homem não pode pôr a si mesma
outro fim que não seja o de se reapropriar,
pela tomada de consciência, da
necessidade que está inscrita na história...”

BOURDIEU, Pierre (1989) – O Poder Simbólico. ISBN 972-


29-0014-5.Lisboa: Difel, p 70.
APRESENTAÇÃO

A primeira escola de Serviço Social em Portugal: o projeto educativo


fundador e a configuração do campo de conhecimento (1935-1955)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva

O presente trabalho de pesquisa intitulado “A primeira escola de Serviço Social em


Portugal: o projeto educativo fundador e a configuração do campo de conhecimento
(1935-1955)” pretendeu desenvolver um trabalho de investigação no âmbito do
Programa de Doutoramento em Serviço Social, iniciado em 2010, promovido pela
Universidade Lusíada de Lisboa. Esta pesquisa opta por situar-se no domínio da
história do Serviço Social, centrando-se na história da educação em Serviço Social e
designadamente naquele que foi o projeto educativo fundador da primeira escola de
Serviço Social em Portugal - Instituto de Serviço Social (ISS), no período que
corresponde à sua institucionalização e vigência do primeiro plano de estudos, em
pleno Estado Novo. No plano empírico, envereda pelo estudo de fontes primárias
dispersas por vários arquivos, como sejam, o arquivo do Cardeal Cerejeira no
Patriarcado de Lisboa, Arquivo Salazar na Torre do Tombo e o acervo monográfico
deste Instituto, hoje Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa - Universidade
Lusíada de Lisboa. Esta pesquisa, foi complementada pelo estudo de obras,
documentos e textos que respeitam à memória desta instituição educativa, bem como
de outras referências arquivísticas, hermenêuticas e discursivas em torno da sua
prática educativa.

Este trabalho científico desenvolve-se em dois eixos analíticos fundamentais. Por um


lado, a compreensão da história das primeiras instituições educativas no domínio do
Serviço Social e, por outro, da história do pensamento em Serviço Social. Nesta
assunção, torna-se possível, compreender como se articulam e combinam entre si os
diferentes planos da materialidade, da representação e da apropriação, e estes, com
os planos curriculares, pedagógicos e de agenciamento, estruturados sob a forma de
projeto educativo. Por último, conhecer a essência da matéria educativa, as fronteiras
do campo de conhecimento do Serviço Social enquanto disciplina académica e, nesta
medida, entender as tradições do pensamento e da ação nas quais poderemos,
paralelamente, radicar as raízes do Serviço Social em Portugal.
Palavras-chave: História do Serviço Social; História das instituições educativas;
projecto educativo; Estado Novo; Instituto de Serviço Social.
PRESENTATION

The first school of social work in Portugal: the founder educational


project and the configuration of a field of knowledge (1935-1955)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva

The presente researche “The first school of social work in Portugal: the founder
educational project and the field of knowledge’s configuration (1935-1955)” intends to
develope an investigation project in the field of social services’ phd progame, promoted
by the Universidade Lusíada de Lisboa iniciated in 2010. This research, places it self in
the domain of social work history, focusing in the Social Work Education History and
namely in the one that was the founding educational project of the first school of Social
Work in Portugal- Instituto de Serviço Social, in the period that corresponds to the
institutionalization and validity of the first plan of studies, in the Estado Novo.

In the empiric plan this study of primary sources spread out thru various arquives is the
chosen path, like the arquive of Cardeal Cerejeira in the Patriarcado de Lisboa,
Salazar’s arquive in Torre do Tombo and in the monografic collection of this institute,
the now Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa – Universidade Lusíada de
Lisboa. This research, was complemented by the study of works, pappers and
documents, and others texts that relate to the memory of this educational institution,
as well as other archival, hermeneutics and discursive references around is
educational practice.

This scientific work is developed in two main analytical axes. On the one hand,
understanding the history of the first educational institutions in the field of social work
and, on the other, the history of ideas in social work. In this assumption, it becomes
possible to understand how to articulate and combine together the different levels of
materiality, representation and ownership, and these, with the curriculum, teaching and
agency plans, structured in the form of educational project. Finally, know the essence
of the educational material, the boundaries of the Social Work field of knowledge as
academic discipline and to this extent, understand the traditions of the ideas and action
in which we can at the same time settle the roots of Social Work in Portugal.

Keywords: Social work history, educational institutions history, educational project,


educational pratices, Estado Novo, Instituto de Serviço Social.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Ilustração 1 - Os campos da história das ideias do Trabalho Social. ([Adaptado e


traduzido a partir de:] Haluk Soydan, 2004, p. 193). ................................................... 43
Ilustração 2- Constelação epistémica de natureza objetual e substantiva. ([Adaptado a
partir de: Magalhães, 2004, p. 138 e 139)................................................................... 51
Ilustração 3 - Constelação epistémica de natureza teórico-instrumental. [Adaptado a
partir de: Magalhães, 2004,p. 138 e 139]. ........................................................................ 52
Ilustração 4- Espaços de intercessão dos métodos tradicionais e a dificuldade em
delimitar os fenómenos humanos sobre os quais se intervém. ([Adaptado a partir de:]
Manuel Barbero Garcia (2008, p. 423). ..................................................................... 105
Ilustração 5 – Os deputados D. Domitília Miranda de Carvalho, António Almeida Pinto
da Mota, D. Maria Cândida Parreira e D. Maria do Santos Guardiola na sala da
Assembleia Nacional. S/ Autor. 10 de janeiro de 1935. (Arquivo Fotográfico da
Assembleia da Republica) ........................................................................................ 168
Ilustração 6 - Visita do Dr. Mário Pais de Sousa (Ministro do Interior) ao Instituto de
Serviço Social acompanhado por Dra. Dona Maria Guardiola (à sua direta) e
Condessa de Rilvas (à sua esquerda) a 20-02-1937. (Arquivo da Torre do Tombo
[PT/TT/EPJS/SF/001-001/0042/0158L]).................................................................... 171
Ilustração 7 - Instalações do instituto de Serviço Social, Largo do Mitelo nº 1, 1945.
(Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, 1945) ............................ 173
Ilustração 8 - Conexões do Instituto de Serviço Social com várias entidades.
([Adaptado a partir de:] Instituto de Serviço Social, 1945, p.15 A) ............................ 175
Ilustração 9 – Elizabeth d’Albignac Bandeira de Melo (Condessa de Rilvas), S/ Autor.:
Arquivo da Torre do Tombo [PT/TT/EPJS/SF/001-001/0048/2652L]......................... 180
Ilustração 10 – Ficha da aluna Maria Carlota Magalhães Lobato Guerra. (Arquivo do
Instituto Superior de Serviço Social, 1938). .............................................................. 181
Ilustração 11 - Assistente Social Maria Leonor Botelho e aluna (1943-1944). S/ autor.
(Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, 1943-1944) ................... 195
Ilustração 12 - Alunas do 2º ano em estágio no Instituto Português de Oncologia
(1947-1948)). S/ autor. (Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa,
1947-1948). .............................................................................................................. 200
Ilustração 13 – Aula do Curso de Donas de Casa (1943-1944). S/Autor. (Arquivo do
Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa .......................................................... 209
Ilustração 14- No Instituto de Serviço Social. Algumas alunas procedendo à confeção
de doces em 20-02-1937. S/ Autor. Arquivo da Torre do Tombo [PT/TT/EPJS/SF/001-
001/0042/0160L] ....................................................................................................... 210
Ilustração 15 - Alunas do curso de Serviço Social (1943-1945). S/ Autor. Arquivo do
Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa .......................................................... 211
Ilustração 16 - Alunas na Biblioteca do Instituto de Serviço Social (1943-1944). S/
Autor. Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa .............................. 221
Ilustração 17 – Educadora familiar Lucinda Abrantes (em pé, ao lado da máquina de
costura numa consulta no Centro Social. S/ Autor. Arquivo do Instituto Superior de
Serviço Social de Lisboa ........................................................................................... 227
Ilustração 18 – Assistente Social Maria das Neves Fernandes Duarte recebendo a Sr.ª
Maria Morais na sala do Centro Social (1944-1945). S/ autor. Arquivo do Instituto de
Superior de Serviço Social de Lisboa ....................................................................... 230
Ilustração 19 - Exemplo de organização de um Centro Social: Centro Social “Ponta do
Sol” na Ilha da Madeira (Ferreira, 1944, p. 148 a)..................................................... 279
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Monografias do Instituto de Serviço Social................................................ 64


Tabela 2 – Documentos consultados no arquivo particular do Cardeal Cerejeira [Dom
Manuel Gonçalves Cerejeira (1929-1971)].................................................................. 69
Tabela 3 - Documentos consultados Arquivo Nacional Torre do Tombo ..................... 72
Tabela 4 - Evolução das escolas de Serviço Social no mundo (1958) ........................ 94
Tabela 5 - Escolas de Serviço Social filiadas na União Católica Internacional de
Serviço Social em 1964 .............................................................................................. 95
Tabela 6 - Órgãos da Associação de Serviço Social 1935 ........................................ 167
Tabela 7 - Comparação dos planos de estudo nos anos 1936, 1939 e 1944 ............ 187
Tabela 8 - Plano de estudos do curso de Educadoras Familiares - 2º ano ............... 202
Tabela 9 – Plano de estudos do curso de Educadoras Familiares – 3º ano .............. 203
Tabela 10 - Locais para a realização de visitas de estudo - Curso de educadoras
familiares .................................................................................................................. 205
Tabela 11 - Plano de estudos da Seção B ................................................................ 207
Tabela 12 - As primeiras alunas a frequentar o Instituto de Serviço Social, nos anos
letivos 1935-36 e 1936-37 ........................................................................................ 210
Tabela 13 - Frequência do curso de Donas de Casa ................................................ 212
Tabela 14 - Movimento de alunas no ano de 1950, 1952 e ano letivo 1952/1953 ..... 212
Tabela 15 - Pedidos de Trabalho Social realizados ao Instituto de Serviço Social nos
anos de 1944, 1947, 1949 e 1953............................................................................. 222
Tabela 16 - Atividades desenvolvidas nos Centros Sociais do Instituto de Serviço
Social nos anos de 1943, 1947, 1948 e 1949 ........................................................... 227
Tabela 17 - Movimentos dos Centros Sociais no ano de 1950.................................. 231
Tabela 18 - Movimentos dos Centros Sociais do Instituto de Serviço Social, no ano de
1952 ......................................................................................................................... 232
Tabela 19 - Orçamento do Instituto de Serviço Social para o ano de 1944-45 .......... 237
Tabela 20 - Receitas do Instituto de Serviço Social do ano de 1953 ......................... 239
Tabela 21- Despesas do Instituto de Serviço Social do ano de 1953 ........................ 240
Tabela 22 – Intercâmbios Internacionais realizados de 1944 a 1954 ........................ 242
Tabela 23 - Alunas formadas em 1952 por setores de atividade profissional ............ 253
Tabela 24 - Alunas formada em 1955, por instituições empregadoras ...................... 253
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS

CISS - Conferência Internacional de Serviço Social


COS - Charity Organition Society
CUF - Companhia União Fabril
FAO - Food and Agriculture Organization
FITS - Federação Internacional de Trabalho Social
FNAT - Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho
IPO - Instituto Português de Oncologia
ISS - Instituto de Serviço Social
ISSSL - Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa
JOC - Juventude Operária Católica
JUC - Juventude Universitária Católica
LOC - Liga Operária Católica
MPF - Mocidade Portuguesa Feminina
OMEN - Obra das Mães pela Educação Nacional
SACOR - Sociedade Anónima de Combustíveis e Oleos Refinados
UCISS - União Católica Internacional de Serviço Social
UMOFC - União Mundial dos Organismos Femininos Católicos
UN - União Nacional
SUMÁRIO

Introdução................................................................................................................... 25
1. Matriz teórica, conceptual e metodológica da pesquisa .......................................... 41
1.1. Abordagem teórico - concetual ........................................................................ 41
1.2. Natureza do estudo, metodologia e técnicas de recolha dos dados empíricos 58
2. Origem e evolução inicial do Serviço Social ........................................................... 75
2.1. Alguns antecedentes remotos do Serviço Social ............................................. 75
2.1.1. A “Questão Social” e emergência do Serviço Social ................................. 81
2.1.2. O movimento da Charity Organization Society:o pioneirismo .................... 86
2.2. As primeiras escolas de Serviço Social a nível internacional ........................... 92
2.3. Os Modelos e Métodos do Serviço Social tradicional .................................... 102
2.3.1. Modelos contemporâneos de atuação profissional ................................. 109
2.3.2. Conceções complexas de uma profissão................................................ 122
3. Serviço Social Português: as matrizes em presença ............................................ 127
3.1. A emergência do Serviço Social em Portugal ................................................ 127
3.1.1. As organizações de mulheres e de juventude......................................... 135
3.2. A reorganização da assistência social e a reforma sanitária.......................... 140
3.2.1. Os princípios gerais e os órgãos da assistência ..................................... 147
3.2.2. O conceito de Serviço Social no desenvolvimento do sanitarismo .......... 152
3.3. As primeiras tentativas de formação de Assistentes Sociais ......................... 157
3.4. A influência das ciências sociais - o método monográfico ............................. 160
4. Instituto de Serviço Social: a sua fundação .......................................................... 165
4.1. A Associação de Serviço Social como suporte jurídico .................................. 165
4.2. Os primeiros cargos de direção ..................................................................... 179
4.3. Os primeiros cursos existentes e os planos de estudos ................................ 182
4.3.1. O curso de Assistente Social .................................................................. 186
4.3.2. O curso geral e normal de Educação Familiar ........................................ 202
4.3.3. O curso de Donas de Casa..................................................................... 207
5. Instituto de Serviço Social: a dinâmica da sua atividade ...................................... 215
5.1. A função escolar de ensino ........................................................................... 215
5.2. A Função de apoio documental, de cultura social e difusão de princípios sociais
...................................................................................................................... 220
5.3. O Campo de atuação social direta................................................................. 226
5.4. Suporte financeiro do Instituto de Serviço Social ........................................... 235
5.5. O Intercâmbio internacional - as primeiras organizações internacionais de
Serviço Social ....................................................................................................... 241
6. Instituto de Serviço Social: um compromisso para com a sociedade .................... 251
6.1. Os setores de intervenção e saídas profissionais .......................................... 252
6.2. As áreas e campos de atuação . ................................................................... 255
Conclusão................................................................................................................. 285
Referências .............................................................................................................. 305
Apêndices ................................................................................................................. 341
Lista de apêndices ................................................................................................ 343
Apêndice A........................................................................................................ 345
Apêndice B........................................................................................................ 351
Anexos ..................................................................................................................... 355
Anexo A
Anexo B
Anexo C
Anexo D
Anexo E
Anexo F
Anexo G
Anexo H
Anexo I
Anexo J
Anexo K
Anexo L
Anexo M
Anexo N
Anexo O
Anexo P
Anexo Q
Anexo R
Anexo S
Anexo T
Anexo U
Anexo V
Anexo W
Anexo X
Anexo Y
Anexo Z
Anexo AA
Anexo BA
Anexo CA
Anexo DA
Anexo EA
Anexo FA
Anexo GA
Anexo HA
Anexo IA
Anexo JA
Anexo KA
Anexo LA
Anexo MA
Anexo NA
Anexo OA
Anexo PA
Anexo QA
Anexo RA
Anexo SA
Anexo TA
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

INTRODUÇÃO

A tese doutoral em presença intitulada “ A primeira escola de Serviço Social em


Portugal: o Projecto educativo fundador e a configuração do campo de conhecimento”
é o culminar de um trabalho de investigação no âmbito do Programa de Doutoramento
em Serviço Social, iniciado em Abril de 2010, pela Universidade Lusíada de Lisboa. A
pesquisa realizada enveredou pelo domínio da história do Serviço Social, centrando-se
na história da educação em Serviço Social e designadamente naquele que foi o
projeto educativo fundador da primeira escola de Serviço Social em Portugal - Instituto
de Serviço Social (ISS), no período 1935-1955.

Desde a sua fundação, o Instituto de Serviço Social (ISS), atual Instituto Superior de
Serviço Social de Lisboa (ISSSL), construiu o seu próprio caminho enquanto
instituição educativa no domínio do Serviço Social, acumulando não só um património
de conhecimento em diversas áreas de intervenção social e investigação, construindo
paradigmas que serviram de base à atuação profissional dos assistentes sociais, como
também, reunindo um património específico de técnicas, métodos, conhecimentos,
obras de referência, costumes e práticas profissionais que lhe demarcam um campo
de conhecimento.

Pretende, pois, este trabalho dar um contributo para o aprofundamento do


conhecimento desta instituição educativa que ao longo do tempo, foi desenvolvendo
uma identidade e uma presença na sociedade portuguesa, através de uma experiência
pedagógica singular e cuja história ainda se encontrava por realizar.

Com este intuito, desenvolveram-se em dois eixos analíticos fundamentais. O primeiro,


conducente à compreensão da história da primeira instituição educativa no domínio do
Serviço Social em Portugal e sobretudo ao entendimento de questões suscitadas
sobre qual o papel desempenhado pelo Instituto de Serviço Social no ensino em
Portugal? Qual a identidade desta instituição na sociedade portuguesa? O segundo
desenvolve-se em torno da história do pensamento em Serviço Social, tornando
possível a partir deste, conhecer qual a delimitação das fronteiras do campo de
conhecimento do Serviço Social, enquanto disciplina académica e por conseguinte,
entender qual a essência da matéria educativa e as tradições do pensamento e da
ação, nas quais poderemos radicar as raízes do Serviço Social português. Com que
direito se pode reivindicar uma ligação aos autores designados como clássicos nesta
disciplina científica? Que conexões se poderão traçar face a outras disciplinas na área
das ciências sociais e humanas?

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


25
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Para Castro (2008), atender ao momento da fundação de uma escola de Serviço


Social, como um ponto de partida para uma nova etapa dentro da profissão, pode ser
útil para organizar a memória coletiva no plano ritual e simbólico, propiciando aos
assistentes sociais um marco teórico de referência para as suas comemorações ou,
mesmo, para reivindicarem a sua história, contribuição social ou estatuto profissional
(Castro, 2008). Todavia, a criação de uma escola em si mesma, não equivale à
abertura de um processo que o permita identificar como sendo o início de uma
profissão. A fundação de uma escola releva momentos específicos de um processo de
maturação que atinge um ponto qualitativamente novo, quando a profissão começa a
colocar a sua reprodução de uma forma mais sistemática.

Os estudos sobre a história do pensamento em Serviço Social são efetivamente


estudos que tomam o Serviço Social quase exclusivamente na sua atividade prática.
Em contrapartida, os estudos sobre a história das ideias, tomando o Serviço Social
como uma disciplina científica, são raros e segundo alguns autores, até inexistentes
em Portugal. Deste ponto de vista tornar-se-ia, ainda, mais desafiante se se tomasse,
no processo de pensamento, a atividade prática do Serviço Social, como básica e
fundamental na estruturação do conhecimento.

Para Soydan (2004), este foi o esforço de Mary Richmond ao criar uma base para o
Trabalho Social de casos através de escolas de formação, já que sendo contra a
criação de cursos na universidade, pensava que esse passo iria arruinar o
compromisso natural dos assistentes sociais com o seu trabalho e defendia uma
escola independente. Foi através do Trabalho Social desenvolvido pela Charity
Organization Society (C.O.S) de Nova Iorque, que se fundou a primeira escola de
Serviço Social no mundo a Escola de Filantropia de Nova Iorque, mais tarde
conhecida como a Escola de Serviço Social de Nova Iorque, incorporada na
Universidade da Colômbia em 1940.

Para a realização deste trabalho, a primeira delimitação temporal (1935) resulta do


contexto histórico em que o ensino do Serviço Social é instituído, pela criação do
Instituto de Serviço Social, marcando o modo e o processo da institucionalização do
Serviço Social em Portugal, pois a história do Serviço Social tem entendido o seu
início, no século passado, com a institucionalização académica de agentes
racionalizadores da assistência social tecnificada.

Por outro lado, constitui-se como fronteira temporal o ano de 1955, por coincidir com o
fim de um primeiro ciclo formativo e marcar a fronteira com uma nova etapa de ensino

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


26
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

que coincide com um novo plano de estudos definido pela portaria 15 972 de 18
Setembro de 1956 e uma nova configuração do ensino na conjuntura sociopolítica e
sociocultural que esta pesquisa já não abrange.

Tendo presente a ideia de Durkheim, (1995) pode achar-se estranho que para chegar
a conhecer a humanidade presente seja necessário começar por distanciar-se dela e
transportar-se ao começo da história, remontando às formas mais primitivas e simples,
tentando dar conta das características que definem esse período da sua existência,
para depois mostrar como, pouco a pouco, se desenvolveu, se tornou complexo e
como se chegou ao momento presente.

A escolha deste tema não foi casual. Para além do enunciado decorre, também, da
importância atribuída à preservação do acervo documental desta instituição educativa
com elevada relevância histórica, cultural e científica e, consequentemente, da
preservação da memória coletiva, enquanto elemento constitutivo de uma identidade
profissional.

O objeto de estudo centra-se, portanto, no projeto educativo fundador desenvolvido


pelo Instituto de Serviço Social, no período de 1935 a 1955. Para tanto, foi necessário
recuar no tempo e tentar perceber as circunstâncias que estiveram na base da sua
criação, quais os seus órgãos de suporte, as características dos planos de estudo,
seus docentes e discentes, saberes mobilizados, estrutura e dinâmica da sua
atividade, quais as características do espaço em que se encontrava instalado, qual a
conceção da prática profissional e como evoluiu no decorrer deste período.

Neste sentido, não se pretende que a história desta instituição educativa constitua
meramente uma abordagem descritiva ou justificativa da aplicação de uma
determinada política educativa, nem sequer que se confine à relação com o seu meio
envolvente. Pretende-se de uma forma mais abrangente, compreender e explicar a
sua realidade histórica enquanto instituição educativa e integrá-la no quadro mais
amplo da institucionalização da educação em Serviço Social a nível internacional e
dos contextos e circunstâncias históricas, implicando-a na evolução do pensamento
desta comunidade científica e também de uma região e território, dirigindo-se a
problemáticas, públicos e zonas de influência concretas.

A história de uma instituição educativa, assim construída, não se esgota na


problemática da descoberta de um sentido na orientação e evolução na história das
instituições educativas de Serviço Social, mas envolve-se numa hermenêutica de

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


27
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

aprofundamento e numa descoberta da internalidade institucional, constituindo-se em


si mesma, como um eixo fecundo e determinante no plano epistémico.

Para Magalhães (2004), a construção historiográfica de uma instituição educativa deve


atender à construção do objeto epistémico envolvendo não só a construção do
conhecimento e representação desse mesmo objeto na sua internalidade enquanto
referente de investigação e de ação, como a elaboração/ apresentação da ideia
fundamental que subjaz às práticas do quotidiano e às principais tomadas de decisão
quanto ao futuro, conferindo memória, sentido e projeto ao itinerário histórico de uma
instituição educativa. Para este autor, a narrativa historiográfica articula e combina os
diferentes planos da materialidade, da representação e da apropriação, combinados
entre si e com os planos curricular, pedagógico e de agenciamento, estruturados sob a
forma de modelos educativos.

Neste contexto, as instituições educativas enquanto realidade/objeto assentam


basicamente no cruzamento de três eixos que medeiam entre a teorização, a
normalização e a apropriação. Será pois, no esforço de uma aproximação significativa
à ação esclarecida e autodeterminada dos quadros do exercício docente e de outros
agentes, à normalização da ação pedagógica em sede institucional e aos graus de
liberdade e de confluência dos sujeitos, que se define a história das instituições
educativas como um objeto científico, representativo e válido, colocando a sua
historiografia num patamar desafiante, seja do ponto de vista metodológico, seja de
reconceptualização.

A narrativa histórica corresponderá à estruturação e a apresentação da ideia síntese,


pretendendo em particular uma sistematização dos elementos do seu contexto, ação e
personagens, envolvidos por um enredo e fio condutor, cuja substância traduzirá a
identidade da instituição e o seu desenvolvimento. Em primeiro lugar, como se revela
o pensamento da instituição nos discursos e prescrições utilizadas (programas, textos
oficiais, etc.), em segundo lugar, como atua e lida com o conhecimento de referência
para o Serviço social (conteúdo das disciplinas, o conhecimento didático, o
conhecimento geral da escola e a aprendizagem, especialmente os lugares de
formação) e em terceiro lugar, como esse entendimento se comunica e se reflete na
produção de conhecimento, por parte dos alunos.

Neste domínio, julgou-se pertinente cruzar esta intenção de pesquisa com a história do
pensamento em Serviço Social, encarando a perspetiva do seu desenvolvimento
científico, tomando-o como um conjunto específico de ideias e conceitos, respondendo

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


28
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

à questão de como se definia o Serviço Social, enquanto essência da matéria e


disciplina académica, na tentativa de esclarecer quais são as tradições de pensamento
e de ação em Portugal, qual a área específica enquanto disciplina de conhecimento e,
em concreto, qual o seu status em relação a outras ciências.

Este estudo tem como objetivo central reconstituir a história do Instituto de Serviço
Social, enquanto instituição educativa, exclusivamente feminina neste período e a
forma como contribuiu para a configuração de um campo de conhecimento próprio do
Serviço Social.

Pretende-se especificamente:

- Compreender o debate em torno da institucionalização das primeiras escolas de


Serviço Social no mundo e o desenvolvimento das influências no ensino, na
articulação com a questão social e com as teorias e métodos tradicionais do Serviço
Social, situando os contextos e momentos-chave que se reconhecem à educação do
Serviço Social;

- Contextualizar as matrizes de sustentação e as condições (ideológicas, políticas,


económicas e sociais), de emergência e institucionalização do Serviço Social
português, identificando as funções dos diferentes agentes, bem como analisar os
reflexos das suas estratégias e influências enquanto agentes educativos na criação
das primeiras escolas de Serviço Social e na definição das orientações académicas.

- Entender os contornos da criação da primeira escola de Serviço Social em Portugal,


atendendo à intencionalidade e decisões dos agentes envolvidos, aos meios e
condições materiais de funcionamento dando conta da configuração interna inicial
desta instituição educativa, em concreto quanto aos órgãos administrativos, diretivos e
pedagógicos envolvidas dos cursos promovidos, participação de alunos e professores
e as interações estabelecidas com a sua envolvente.

- Configurar as práticas educativas preconizadas pelo Instituto de Serviço Social no


período em análise, no que concerne à sua representação em modelos normativos,
organizativos e dinâmicos, reconhecendo-lhe eventuais aspetos de singularidade e
inovação;

- Situar o domínio da produção do conhecimento em Serviço Social, numa


aproximação à apropriação da prática educativa pelos alunos, na relação teórico-
prática, esforçando-se por integrar, a sua visão sobre a missão da profissão, o seu

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


29
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

plano de intencionalidade para a ação e o envolvimento dos agentes ativos no seu


encontro reflexivo com as necessidades do exercício profissional da época.

Para Josso (2007), os lugares educativos, sejam eles orientados para o


desenvolvimento pessoal, cultural, de desenvolvimento de competências sociais, ou
mesmo para a formação profissional, acolhem sobretudo pessoas com expectativas e
motivações a respeito da formação e da inerente graduação, encontrando-se
subjacente, não só a questão do seu posicionamento na vida quotidiana, como a ação
e compreensão que pretendem desenvolver de uma sociedade em mutação. Por esta
razão, todo o projeto de formação cruza, à sua maneira, com a temática da
existencialidade, associada à questão subsequente da identidade (identidade para si,
identidade para os outros). Um dispositivo de formação, por menor que seja, integra a
reflexão sobre esse projeto e no centro das preocupações aloja-se a questão do
sentido do ensino e, por consequência, apresenta-se como uma voz de acesso às
questões de identidade e de ideal, que permeiam os atores sociais envolvidos.

Nesse sentido, constituiu-se como fundamental, o estudo da produção do


conhecimento dos alunos no período em análise, através dos elementos existentes no
vasto acervo documental do atual Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. A
ação educativa da primeira escola de Serviço Social em Portugal é, deste modo,
reconstruída integrando a perspetiva dos aprendentes, envolvidos numa experiência
educativa do Instituto de Serviço Social.

O conhecimento historiográfico da relação educativa é, simultaneamente, um percurso


progressivo e regressivo, oscilando dos processos para os produtos e dos produtos
para os processos, sempre integrado em contextos. Esta perspetiva conduz à própria
revisão do conceito de história institucional, na medida em que se produz um
alargamento e complexificação da monografia historiográfica, centralizando o processo
historiográfico na relação das instituições com o meio sociocultural envolvente e na
reconstrução das representações simbólicas das práticas e dos ideários educativos
que imprimem e constituem a identidade histórica de cada instituição.

A construção de uma instituição educativa enquanto objeto epistémico não deve


tomar, todavia, como única entrada fundamental, a instituição educativa tomada como
totalidade em organização e devir. Para Magalhães (2004, p.113) devem ser
consideradas a historiografia da escola e da escolarização, no quadro sistémico, a
análise institucional como a matriz conceitual interdisciplinar e a pedagogia
institucional como modelo científico e orgânico funcional. A matriz teórica que

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


30
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

fundamenta a história das instituições escolares e das práticas educativas, não


circunscreve o conhecimento à internalidade da instituição, à sua descrição, nem à
representação e avaliação curricular processual mas visa, sobretudo, inscrever as
instituições educativas em quadros teóricos e praxeológicos mais amplos, através de
uma modelização. Só assim, o modelo permite uma validação do constructo
investigativo, tanto na sua internalidade, como na sua representatividade, assim como
o aprofundamento da investigação com vista à construção da identidade institucional.

Uma das primeiras dificuldades na abordagem do tema resulta da inexistência de uma


tradição de estudos sobre a dimensão histórica do Serviço Social português e por
consequência, de uma produção teórica e bibliográfica. Por esta razão, entendeu-se
ser necessário o suporte das fontes primárias que, sendo dispersas, obriga a um
esforço de pesquisa acrescido.

Assinala-se, neste ponto, os contributos determinantes da obra de Alcina Martins


(1999) Génese, Emergência e Institucionalização do Serviço Social Português que
apresenta como objeto de estudo a génese, emergência e institucionalização do
Serviço Social português nas últimas décadas do século XIX até ao fim da Segunda
Guerra Mundial. Neste estudo, a autora enquadra as condições de emergência de um
espaço de atuação profissional para os assistentes sociais bem como os movimentos
que levaram à institucionalização das primeiras escolas de Serviço Social no País.

De acordo com a mesma autora, as produções existentes sobre a história do Serviço


Social são contemporâneas da sua institucionalização. Embora admitindo que raras
exceções datem de 30 a 50 do século passado, sublinha que essa escassez continua
a repercutir-se na leitura histórica que se faz da profissão. Na mesma linha, a autora
refere, que

Os escritos sobre a história do Serviço Social, em Portugal pós 25 de Abril de 1974,


apesar de demonstrarem interesse pela abordagem da temática, são escassos,
esparsos, parcelares e com abordagens muito pontualizadas, não chegando a construir
uma “outra” leitura da profissão no nosso país (Martins, 1999, p. 2).

Importa situar nesta sequência que, desde 1993, se encontra construído legalmente o
Centro Português de Investigação em História e Trabalho Social (CPIHTS) no qual
Alcina Martins teve um papel fulcral e determinante na sua criação e produção
científica. Este centro tem como principais objetivos, entre outros, o estudo e a
investigação do Serviço Social e da sua história pelo que se constitui como instância
privilegiada no contacto com publicações especializadas neste domínio.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


31
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

O processo de recriação do Serviço Social prende-se com o objetivo de demonstrar


que a transformação operada na identidade cultural da profissão se iniciou a partir do
momento em que a profissão foi institucionalizada. A desconstrução da sua
emergência torna-se um meio de explicar as características da trajetória de vida; a
reflexão sobre a construção profissional, identitária e cultural para melhor avaliar a
relação que estabeleceu consigo mesma, com a sociedade e com a realidade em que
se foi inserindo; a sistematização da sua produção a autoconfrontação com os efeitos
do desenvolvimento.

Serão, por isso, colocados em evidência os aspetos considerados fundamentais para


se poder entender a capacidade demonstrada por este estabelecimento de ensino em
corresponder aos desafios iniciais que lhe foram colocados no quadro da dinâmica da
gestão do processo educativo, capacidade que faz com que seja qualificada uma
profissão viva, permitindo defender o pressuposto de Mouro (2009, p.147) de que o
Serviço Social é um produto profissional cuja génese resulta, não de uma
reorganização político-social, da ligação entre o catolicismo social e o
conservadorismo, mas sim de uma dinâmica de interferência do racionalismo na
reconstrução dos dispositivos sociais necessários ao desenvolvimento da construção
da sociedade industrial.

Ao optar por uma reflexão sobre a trajetória de vida do Serviço Social, partindo da
matrizes propostas por Helena Mouro (2009) como sendo de teor doutrinário, de base
racionalista laica, de raiz filosófica, pensa-se chegar ao seu discurso identitário
presente na emergência do Serviço Social enquanto profissão1 e dar continuidade à
ideia defendida de que o Serviço Social surgiu como um força anti modernista. Esta
perspetiva reflexiva modernista que pensa o Serviço Social como produto da cultura
moderna é também referenciada por Gustavo Parra (2001) sobre a Argentina2.

Sobre a emergência do Serviço Social em Portugal situam-se, igualmente, as


preocupações de Jorge Ferreira (2008) ao aprofundar a sua trajetória focalizando-se
na importância do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Neste processo,
identifica alguns marcos significativos e a produção do conhecimento fazendo

1Sobre Helena Mouro, considera-se ainda fundamental mencionar o seu artigo, publicado em 1995, na
Revista Interações, em que realiza um Breve apontamento sobre a trajetória sócio-histórica do Instituto
Superior de Serviço Social de Coimbra e onde segue, de forma breve, a linha de pesquisa biográfica no
estudo daquela instituição educativa.
2 Ainda sobre a Argentina chama-se a atenção para o artigo elaborado por Solá e Becerra (2009) em que
estas autoras se propõem recuperar alguns aspetos sobre o processo de profissionalização da
Assistência Social, no seu país, na década de 30 do século XX, centrando a sua atenção nos discursos
dos médicos higienistas que geraram ações tendentes a dotar a Assistência Social de um carater
científico e a imprimir um impulso decisivo da intervenção estatal sobre a “questão social”.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


32
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

referência aos desafios colocados ao Serviço Social na atualidade. Ferreira (2008)


sublinha que a formação em Serviço Social iniciou a sua trajetória direcionando-se
para a intervenção, integrando o domínio das práticas sociais a partir de uma
formação prática bem vincada. Nesta linha de pensamento, sublinha que a formação
dos assistentes sociais sempre respondeu aos diferentes desafios societários e às
mudanças sociais que se colocaram ao longo do tempo e que continua a ser um dos
pilares fundamentais do exercício profissional.

Em 2009, Maria Emília Ferreira, apresenta em artigo, uma proposta de


aprofundamento e análise da construção do Serviço Social como profissão, a partir
das monografias de final de curso dos estudantes do Instituto de Serviço Social, entre
os anos de 1936 e 1972, orientado pela perspetiva metodológica histórico-crítica. O
estudo contextualizaria histórica e politicamente a produção com a intenção de revelar
parte da história social da sociedade portuguesa nesse meio século. Para a autora, a
análise do conteúdo das monografias produzidas pelas alunas em final de curso,
traduzem opções temáticas e metodológicas reveladoras da linha evolutiva da
formação e das preocupações pedagógicas e profissionais.

Num quadro de fundo mais amplo importa referir a abordagem realizada por Maria
Júlia Cardoso (2013) sobre Assistência, a acção social e municípios: apontamentos
históricos e desafios e sobre a evolução da assistência a nível no âmbito local e a
história da instância municipal, através do olhar lançado sobre o período do Estado
Novo, compreendendo-se que a assistência social nunca foi considerada função
prioritária. Esta deteve, no entender da autora, um papel supletivo por parte do Estado
sendo as suas atividades asseguradas por organizações privadas de fins assistenciais
orientadas para o primado da orientação da família e não do indivíduo em si. Entre
estas organizações encontram-se as Misericórdias, tendo-lhes sido conferido um papel
de extrema importância na coordenação da assistência a nível local, designadamente,
no âmbito da assistência materno-infantil e hospitalar.

Numa mesma perspetiva histórico-critica, refira-se a investigação realizada na


Universidade Católica Portuguesa, conduzida por Maria Isabel Santos de onde
resultou a publicação, em 2009, da sua dissertação de mestrado intitulada O discurso
histórico sobre o Serviço Social em Portugal pretendendo analisar o modo de escrita e
reflexão sobre a história do Serviço Social português, recorrendo ao quadro de
produção científica nacional.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A nível internacional salienta-se o estudo realizado por María Victoria Molina Sánchez,
em 1994, intitulado Las enseãnzas del Trabajo Social en España 1932-1983: Estudio
socio educativo, na sequência da sua tese de doutoramento, na Universidade
Pontifícia de Comillas. Este estudo, que pretendeu dar uma visão panorâmica e global
do nascimento das escolas de Trabalho Social em Espanha, abarcando o período
compreendido entre a criação da primeira escola em Espanha, Barcelona em 1932,
até à incorporação das escolas na Universidade em 1983, período em que iniciaram
um novo processo. Sánchez aborda os processos docentes no interior das escolas e
tenta salvar a memória das instituições e pessoas que nelas participaram. Trata-se da
primeira e praticamente a única obra em Espanha que aborda a história das escolas
no seu conjunto e que, partindo do passado, explica o presente do Serviço Social
como disciplina e profissão.

Ainda em Espanha foi desenvolvido o estudo de Amália Morales Villena de Género,


mujeres, trabajo social y sección femenina. História de una profissión feminizada y
com vocación feminista”, na sequência de doutoramento em Antropologia; nele é
abordado o desenvolvimento do ensino da assistência social desde 1932, com recurso
à história oral na recolha de testemunhos privilegiados.

O movimento de criação das primeiras escolas de Serviço Social é também objeto de


interesse do professor Norberto Alayón (2012), da Universidade de Buenos Aires,
autor de obras de referência confirmado pelo artigo intitulado La primera escuela de
Serviço Social (2012) e pelo livro a Hacia la historia del Trabajo Social en Argentina
(1980) .

Apesar da escassez de estudos sistemáticos no domínio da história do Serviço Social,


considera-se como fundamental o trabalho de pesquisa de Haluk Soydan (2004, p.27)
ao pretender iniciar um caminho para a identificação e legitimação do Serviço Social
como disciplina científica. Com o intuito de construir um marco teórico de referência,
Soydan estruturou um quadro conceptual organizado em quatro campos onde incluiu
variáveis que abarcam os principais elementos da evolução da história do pensamento
da ciência social, com especial relevância para o Trabalho Social, não só enquanto
prática mas também como disciplina científica. Este quadro conceptual, será
explanado no primeiro capítulo dedicado à matriz teórico e conceptual e metodológica
da pesquisa.

Olga Restrepo na sua obra Reconfiguranto el Trabajo Social:perspectivas y tendencias


contemporáneas (2003, p. 22), refere-se à teoria tradicional como construção teórica

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


34
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

decorrente de atividade do próprio pensamento, afastada da elaboração de


enunciados e proposições que tenham como finalidade o desenho, leis, modelos
explicativos da sociedade e cuja validade depende da correspondência entre o objeto
construído previamente e de um sujeito que está separado de si próprio. Nesta
perspetiva, o social assume-se como algo externo e cognoscível mediante o sentido
comum ou a experiência, não valorizando o papel histórico que os contextos cumprem
na construção social da realidade. Opera-se através da classificação dos dados,
levantando sistemas conceptuais que simplificam a realidade e elimina as
contradições, porque o seu interesse centra-se na capacidade de resposta e busca de
soluções funcionais segundo os campos específicos de aplicação. A autora concluiu
que o pensamento científico não tem que ocupar-se com o questionamento crítico dos
conflitos nem nas divisões presentes no interior da sociedade.

Nessa linha, Restrepo (2003) considera que o processo de constituição do Trabalho


Social está fortemente marcado por uma relação discursiva de externalidade. Desde
as suas origens que a profissão se viu condenada a estabelecer uma série de vínculos
com práticas, princípios, postulados e valores que não emergem do seio de uma
profissão mas que lhe foram funcionais em termos das mediações e afiliações
estabelecidas com a filantropia, o Estado, o público e com o institucional,
transformando uma situação feliz, numa limitação e uma carência significativa de
revelar, nomear e superar a perspetiva de reconfigurar inclusivamente, um Trabalho
Social contemporâneo.

O sentido de pensar uma profissão na atualidade implica, portanto, transitar pela sua
história reconhecendo e desentranhando limites e possibilidades com o objetivo de a
transcender e não de a repetir. Os métodos do Trabalho Social e consequentemente
os elementos constitutivos da metodologia refletem as diferentes épocas. O seu
surgimento e consolidação tem que ver com as visões, conceções, interesses, pedidos
e necessidades (sociais ou profissionais) prevalentes em cada momento.

Na sua obra, Malcolm Payne, em concreto no seu livro intitulado The origins of Social
Work (2005), remonta às origens e desenvolvimento do Trabalho Social
proporcionando uma síntese ambiciosa de material histórico e internacional; explora as
diferentes facetas do Serviço Social, definido por acontecimentos sociais de política,
de profissionalização e crise da profissão, mudanças no cliente, ou mudanças na
orientação prática. Trata-se de um empreendimento realizado por um autor com uma
forte reputação internacional e constitui uma referência básica na literatura do Serviço
Social.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A institucionalização da educação e da profissão teve início na década de 30 do


século XX com a abertura da primeira escola de Serviço Social em Lisboa, uma
segunda em Coimbra em 1937 – denominada Escola Normal e na década de
cinquenta a Escola do Porto.

É, portanto, em 1935, pela mão do Patriarcado de Lisboa, no desenvolvimento da


Ação Católica, que a Associação de Serviço Social cria a primeira escola de Serviço
Social em Portugal – o Instituto de Serviço Social. Elizabeth d” Albignac Bandeira de
Melo (França, 1871, Lisboa, 23 de Maio de 1945) Condessa de Rilvas, presidente
daquela Associação, toma o lugar de primeira diretora do Instituto. Passados dois
anos é criada em Coimbra a Escola Normal Social pela Congregação “Franciscanas
Missionárias de Maria” com a anuência da Junta da Província da Beira Litoral que
mais tarde veio a deter o alvará. Era presidente deste órgão de administração pública
regional o professor Bissaya Barreto.

O Estado, embora não se responsabilizando diretamente pelas escolas, estabelece


princípios gerais a que estas se terão de submeter, assumindo a fiscalização da
formação com a exigência de valores do Estado Novo e recrutando, posteriormente,
as alunas recém-formadas para os serviços sociais que vai criando.

O surgimento da primeira escola de Serviço Social está associado ao congresso da


União Nacional onde foi debatido o projeto politico-ideológico do denominado Estado
Novo. Este projeto considerava que as instituições de caridade deveriam cuidar da
assistência social organizada e exigia a criação de escolas e formação de profissionais
habilitados para o seu exercício. O apoio dos poderes públicos fez-se notar deste o
primeiro momento, tendo o ato inaugural a 17 de março de 1935 sido assistido pelo
então ministro da instrução Eusébio Tamagnini, como nos refere Martins, (1999, p.
232) e dos professores de universidades manifestando também o apoio dos
organismos culturais. O Governo designa o Instituto de Serviço Social como o futuro
centro de formação das dirigentes e trabalhadoras sociais adjuntas à Obra das Mães
pela Educação Nacional.

Mais tarde, em 1937, o ministro do interior Mário Pais de Sousa, em visita ao Instituto
de Serviço Social, apela ao interesse das jovens para outro projeto do regime que
opera no âmbito do seu ministério, ou seja, a “Defesa da Família”. As diplomadas,
especificamente as “educadoras familiares" poderiam desempenhar uma outra função
de ensino familiar e doméstico instituído nos liceus, no entanto, as educadoras
familiares desempenhavam outras atividades designadamente junto das mulheres

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


36
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

operárias, desde a sua orientação no governo da casa e todas as tarefas que envolve
a orientação dentro dos valores religiosos.

À semelhança do que ocorreu noutros países, para implementação das primeiras


escolas de Serviço Social, também para Portugal vieram expressamente de França
assistentes sociais para estabelecer e organizar este projeto educativo, alimentando a
expectativa que o Serviço Social se tornasse num instrumento de concretização das
ideias de intervenção na “questão social” e do projeto político de educação nacional –
“Deus, Pátria e Família”.

Porém, só em data posterior à criação do Instituto de Serviço Social de Lisboa, em


1939 são estabelecidos publicamente a 14 de Dezembro pelo decreto-Lei 30135, os:

[…] princípios gerais de orientação e coordenação a que se hão-de submeter, em


harmonia com os artigos 42º e 44º da Constituição Política, os estabelecimentos de
educação para o Serviço Social e se aprova o plano geral de estudos e programas,
tudo para a formação de dirigentes idóneas e responsáveis no meio a que se destinam,
ao mesmo tempo conscientes e ativas cooperadoras da Revolução Nacional (Decreto-
Lei nº 30135, 1939).

O curso de Serviço Social era organizado em três anos, requerendo habilitações de


nível secundário. A formação curricular, descrita neste diploma, incluía três grandes
temas: o estudo da vida física e das suas perturbações, estudo da vida mental e
moral, estudo do funcionamento prático do Serviço Social e estágio. O curso versava,
ainda, realização de inquéritos, visitas, relatórios e monografias.

Este plano de estudos, por incluir a realização de estágios ao longo dos três anos,
configura-se como oportunidade de aprendizagem do desempenho profissional,
modelada no terreno, através do contacto com os mais variados serviços de cirurgia,
medicina, pediatria, puericultura, maternidade e consultas pré-natais, dispensários de
profilaxia em higiene social, hospitais, fábricas, centros sociais e instituições
especializadas em ensino familiar e doméstico.

Além destas características, o Serviço Social era essencialmente e “obrigatoriamente”


feminino dirigindo-se a mulheres, com um perfil vocacional e padrões morais
associados à ideologia do Estado Novo

[…] a criação de escolas de formação social onde se habilitem raparigas, até da


melhor condição, para exercerem junto de fábricas, organizações profissionais,
instituições de assistência e de educação coletiva e de obras similares uma ação
persistente e metódica de múltiplos objetivos - higiénicos, morais e intelectuais - em
contacto direto com as famílias de todas as condições. Só poderá trabalhar com
eficiência dentro desse imenso campo de ação quem possua, a par da vocação natural,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


37
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

mentalidade especialmente formada e firme, sentido social, que naquelas escolas se


suscitem e educam (Decreto-lei nº 30 135, 1939, p. 1403)3.

Decorridos vinte anos, será a publicação do Decreto-Lei nº. 40 678, de 10 de Julho de


19564, que anuncia no seu preâmbulo algumas alterações, particularmente a mudança
para quatro anos na duração do Curso, dando sinal de início de um novo projeto
educativo. Mais tarde, através da Portaria nº.15 972, de 18 de setembro do mesmo
ano, o Ministério da Educação Nacional introduz, no 4º Ano a realização uma
monografia social como esboço de trabalho sociológico. Nos anos seguintes,
poderemos assistir a dois novos planos de estudo distando entre si aproximadamente
uma década, o plano de estudos de 1960/61 e o plano de estudos de 1971/72. É
efetivamente no ano letivo de 1960/61, segundo Fernandes, (1985, p. 135) que se
realiza a introdução dos métodos de intervenção social de caso, grupo e comunidades.

A presente tese estrutura-se, para além da corrente introdução, a partir de 6 capítulos


que traçam o seu corpo central do trabalho e, por fim, numa conclusão. Contudo e
atendendo à dimensão do trabalho e, ao número de documentos reunidos que
respeitam às fontes consultadas tornou-se necessária a organização de dois volumes,
separando o corpo da pesquisa - Volume 1, dos respetivos anexos - Volume 2.

No volume 1 o primeiro capítulo, intitulado Matriz teórica, conceptual e


metodológica da pesquisa expõe e discute as teorias de referência que estruturaram
a abordagem do objeto de estudo seja a abordagem teórico conceptual como
metodológica esclarecendo toda a instrumentalidade teórica, metodológica e técnicas
desencadeadas, que permitiram desenvolver a presente pesquisa. Neste sentido, não
se optou apenas uma teoria de referência, mas adotaram-se posições teóricas
múltiplas e uma triangulação entre as abordagens teóricas e os métodos utilizados. A
presente investigação, no domínio dos procedimentos técnicos, envereda, pela
combinação do procedimento histórico com o estudo de caso e caracteriza-se por ser
um estudo de tipo qualitativo. Finalmente, expõem-se as opções metodológicas
prosseguidas nas diferentes fases da pesquisa, procurando dar conta das questões
epistemológicas e teórico metodológicas suscitadas pelo estudo.

O segundo capítulo sobre a Origem e evolução inicial do Serviço Social introduz


uma reflexão sobre a perspetiva de entendimento do debate realizado pelos diferentes
autores que se interessam por este domínio, sobre a sua origem do Serviço Social, a
emergência das primeiras escolas no mundo e os contributos para a construção dos

3 Vide em anexo E
4 Vide em anexo AP

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


38
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

fundamentos do Serviço Social tradicional assente nos passos que foram dados para a
configuração de um campo de conhecimento. Neste capítulo, apresenta-se por último
uma visão sobre o Serviço Social na atualidade a fim de proporcionar um contraste
sobre alguns aspetos ligados à profissão

Em seguida, o capítulo terceiro com o título Serviço Social português: matrizes em


presença procura esclarecer a perspetiva do que se entende pelo Serviço Social
Português indo ao encontro das suas especificidades e ligações ao passado e ao
presente, destacando e identificando os seus determinantes do projeto educativo, no
seu período fundador, relacionando-o com a política educativa numa perspetiva socio-
histórica.

O quarto capítulo intitulado Instituto de Serviço Social: a fundação desenvolve-se a


partir da pesquisa empírica realizada e dos dados recolhidos, estando assente,
sobretudo, na matriz de análise anteriormente proposta. O projeto educativo
apresenta-se na sua materialidade, onde se incluem as primeiras condições materiais
de existência que conduziram a que a Associação de Serviço Social criada em 1935
fosse a entidade de suporte ao Instituto de Serviço Social, e que se consubstanciaram
em instâncias objetivas de funcionamento (interno e externo).

O quinto capítulo, designado Instituto de Serviço Social: a dinâmica da sua


atividade onde pretendeu ir ao encontro dos aspetos mais dinâmicos, resultantes das
vivências e decisões dos seus atores, ligados aos aspetos de representação na
modelização orgânica e projetual da sua ação o que implicou mobilização de forças e
recursos.

No sexto capítulo com o título, Instituto de Serviço Social: um compromisso para


com a sociedade onde se procura ir ao encontrar da visão sobre a conceção
profissional composta pela apropriação, por parte das alunas, em aprendizagens face
ao modelo pedagógico preconizado, respondendo a um ideário orientador do exercício
profissional, suas áreas e campos de atuação, setores de intervenção e saídas
profissionais assumindo uma missão e um compromisso para com a sociedade

Por último um espaço de Conclusão, onde se reúnem e sintetizam os principais


conteúdos abordados ao longo de todo o trabalho, centrando-se em elementos que se
consideram reveladores da história do Instituto de Serviço Social e que poderão situar-
se como um contributo para história do Serviço Social em Portugal refletida à luz da
história das suas instituições educativas e do seu projeto educativo.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


39
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Os anexos apresentados no Volume 2 - permitem o acesso às fontes primárias


utilizadas e localizadas nos diferentes arquivos, sendo considerados de extrema
relevância para o esclarecimento da análise efetuada. Nestes anexos constam; atas
das Assembleias Gerais da Associação de Serviço Social enquanto entidade
instituidora do Instituto de Serviço Social; bem como relatórios de atividade desta
instituição educativa, relatórios de visitas de estudo ao estrangeiro e alguma
correspondência dirigida a António Salazar (1889- 1970) e ao Cardeal Manuel
Gonçalves Cerejeira (1929-1972), no decurso do período em análise. Foram ainda
incluídos outros documentos importantes completando a moldura analítica em
presença, como seja, a legislação determinante dos principais marcos do projeto
educativo e outros documentos, se bem que publicados, são exemplares raros.

Refere-se ainda que a tese inclui dois apêndices. O Apêndice A, onde se inclui uma
breve cronologia, destacando alguns momentos-chave da história do Serviço Social no
período em análise e, Apêndice B, onde se reúne os principais diplomas legais
publicados, no período em análise, determinantes para a história do Instituto de
Serviço Social.

****

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva


40
A primeira escola de Serviço Social em Portugal

1. MATRIZ TEÓRICA, CONCEPTUAL E METODOLÓGICA DA PESQUISA

Neste primeiro capítulo pretende-se apresentar a matriz referencial em que esta tese
se desenvolve, respondendo à necessidade de assinalar a pertinência e as visões que
estiveram subjacentes e que permitiram o estudo do projeto educativo do Instituto de
Serviço Social.

A construção do projeto educativo fundador do Instituto de Serviço Social, enquanto


objeto científico desta pesquisa, edificou-se em torno de um marco teórico de
referência direcionado para a análise histórica das instituições educativas. Este marco
teórico referencial permite combinar diferentes níveis de descrição, representação e
apropriação das dinâmicas dessa instituição enquanto reflexo da sua realidade
educacional, integradas num contexto histórico, geográfico, social, económico e
político, especifico e, nesta decorrência, operacionalizar um quadro de reflexão
multidimensional e multifatorial que agora se torna necessário esclarecer.

Esta proposta inclui, ainda, uma análise teórico-instrumental por aproximação ao


instituído que é traduzido basicamente por uma praxeologia num determinado
momento da história da instituição, onde a evolução histórica se dá pela noção de
institucionalização, que sendo uma abstração, resulta de um poder instituinte dos
diversos atores, objetivada como produto de uma dialética entre os públicos e o
modelo didático-pedagógico preconizado e ainda institucional, através da ação dos
agentes regulada pela dinâmica organizacional.

A instituição sendo um constructo teórico-prático, evolui e transforma-se,


correspondendo às necessidades dos sujeitos, e portanto, aos interesses dos públicos
a que se destina, sendo constituída num determinado território educativo e projetando-
se através das biografias dos sujeitos e nos seus destinos de vida. O sentido
investigativo é, portanto, conferido pela dialética evolutiva

1.1. ABORDAGEM TEÓRICO - CONCETUAL

A proposta apresentada por Justino Magalhães na sua obra Tecendo Nexos: História
das Instituições Educativas (2004, p. 6) sustenta o constructo metodológico do estudo
das instituições educativas a partir de constelações epistémicas, tanto de natureza
objetual e substantiva, relativas à materialidade, representação e apropriação, como

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 41


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

de natureza teórico instrumental, referindo-se ao instituído, ao instituinte /


institucionalização e à instituição.

Se, por um lado, a materialidade inclui as instâncias objetivas básicas de


funcionamento de uma instituição educativa as quais dizem respeito às condições
materiais, espaços, tempos meios didáticos e pedagógicos, programas, estruturas
organizacionais de poder e de comunicação, por outro, a representação engloba
aspetos concertantes à modelização orgânica e projetual da ação, ao grau de
mobilização e de aplicação das pedagogias, currículo, estatutos e agentes. Por último
abrange, ainda, a apropriação que concerne às aprendizagens realizadas, ao modelo
pedagógico, à identidade dos sujeitos e da instituição.

Considerou-se, ainda, como fundamental o trabalho de pesquisa realizado, por Haluk


Soydan de nacionalidade sueca, editado em Espanha em 2004 pelo Consejo General
de Colégios Oficiales de Diplomados en Trabalho Social y Assistentes Sociales “A
história de la ideias en trabajo social”, pretendendo iniciar um caminho para a
identificação e legitimação do Serviço Social como disciplina científica. Para este
autor, o Serviço Social envolve uma determinada essência que, numa tarefa científica
básica, mantem sempre juntos três elementos, a saber: uma teoria sobre a sociedade
ou sobre o homem, enquanto ser social, um programa, um esquema para mudar as
situações geográficas e ainda um grupo de pessoas comprometidas com a
concretização dessa mudança social. Ora, estes três elementos podem manter-se
juntos de formas diferentes no desenvolvimento da história do pensamento, tomando
diferentes formas e fatores em graus distintos.

Partindo deste estudo e com a intenção de construir um marco teórico de referência,


Soydan (2004, p.192) estruturou uma organização conceptual em quatro campos onde
fez incluir variáveis que abarcam os principais elementos da evolução da história do
pensamento da ciência social, com especial relevância para o Trabalho Social, não só
enquanto prática mas também como disciplina científica. Nesta organização aborda
duas variáveis conceptuais: a interação da teoria e da prática que dicotomizou por
valores “da teoria à prática” e “da prática à teoria” e a variável sobre a natureza das
causas dos problemas sociais, também dicotomizada em “a sociedade gera os
problemas sociais” e “o indivíduo gera os problemas sociais”. O quadro dos quatro
campos, com dupla entrada, foi ilustrado com exemplos básicos da história do
pensamento e comprova que a história do pensamento existe numa relação muito

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 42


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

especial entre estas duas variáveis, isto é, que existe uma relação entre a teoria, a
prática e a natureza dos problemas sociais, nos contextos em que estes aspetos se
encontram correlacionados, conforme se representa em seguida:

Natureza das causas dos problemas


sociais

A sociedade O indivíduo gera


gera problemas problemas sociais
sociais

Evolução das Da Saint – Simon Modelos


ideias na teoria à Atividade do Psicológicos
interação prática agente
entre teoria e
prática
Da M. Richmond
Jane Addams
prática Trabalho Social
Trabalho social
à teoria psicossocial
estrutural

Ilustração 1 - Os campos da história das ideias do Trabalho Social. ([Adaptado e traduzido a partir de:] Haluk Soydan, 2004, p.
193).

Assente no conjunto das pesquisas anteriormente descritas, avançou-se para um


quadro conceptual mais amplo e de suporte à presente pesquisa que em seguida se
apresenta.

Nos estudos desenvolvidos em torno das perspetivas históricas do Serviço Social são
apontados diferentes caminhos que resultam na aplicação de diferentes critérios no
que concerne à abordagem da história do pensamento. De acordo com Soydan (2004,
p. 22) a maior parte dos estudos realizados sobre a história do pensamento em
Serviço Social, foram estudos sobre o desenvolvimento organizativo e institucional,
concebendo o Serviço Social principalmente como uma atividade prática, ou seja,
como uma profissão cuja tarefa é ajudar as pessoas necessitadas, prestando maior
atenção às diferentes formas de organização deste tipo de ajuda. O interesse na
formação das ideias e dos conceitos que estão por detrás da organização de ajuda, do
trabalho da mudança social e das ideias que permaneceram nos diferentes contextos
históricos, etc., ficam remetidas para um segundo plano na apresentação do

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 43


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desenvolvimento da organização. Esta perspetiva ficará, por isso, à margem desta


pesquisa, na medida em que persegue um interesse pouco explícito no
desenvolvimento do Serviço Social, como o conjunto de ideias num contexto científico.

Outra perspetiva que se abandona é aquela que resulta da aplicação do critério onde
se assume que o homem, por natureza, está preparado para ajudar os outros. A
utilização deste critério para estudo da história do pensamento, segundo Soydan
(2004) conduz a uma penetração ainda mais profunda na história social com o
propósito de localizar os primeiros indicadores de ajuda mútua que possam definir-se
como Trabalho Social, dando origem, por exemplo, a estudos etnográficos e
descrições literárias em torno da resolução de problemas humanos com elementos
que se enquadrem dentro do Serviço Social. Uma outra perspetiva, ainda dentro deste
descritivo, baseia-se nos esforços do homem para mudar a sociedade, tendo como
critério identificar ações que podem ser definidas como de Serviço Social, e que foram
designadas de “o espirito de progresso humano” ou a Lei da Progressão como as
intitulou o cientista escocês Adam Fergurson (1723-1816). Ora, esta também não será
a intenção desta pesquisa.

Seguindo a linha de pensamento de Haluk Soydan (2004) assume-se a preferência


por limitar, de forma explícita, o Serviço Social no seu desenvolvimento científico, ou
seja tomar o Serviço Social “como um conjunto específico de ideias” (Soydan, 2004 p.
23) enquanto portador do seu conjunto de ideias e de conceitos que podem ser
considerados específicos do Serviço Social. Ao utilizar este critério, torna-se possível
delimitar a sua matéria em relação a outras matérias, respondendo a um problema
sério com que se debate esta disciplina e que resulta na dificuldade em delimitar o seu
campo específico, o que, apesar de tudo, também não é um debate raro noutras
disciplinas, como é exemplo a própria Sociologia.

Para entrar dentro deste debate, poderemos tentar diferentes formas para delimitar as
fronteiras da matéria e explorar o conteúdo das ideias, como seja, estudar o que
investigam atualmente os assistentes sociais, delimitar a área real da vida social a
associá-la à disciplina de Serviço Social, ou então estudar as realizações dentro desta
disciplina.

Este último caminho, assente no marco teórico de referência desenvolvido por Haluk
Soydan (2004), será o que se apresenta como mais interessante para perseguir nesta
pesquisa. Neste caso, constrói-se e concilia-se uma perspetiva histórica do seu

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 44


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desenvolvimento conceptual, declarando portanto um interesse na tradição e


preocupação por um dado momento histórico, realizando uma aproximação ao Serviço
Social enquanto disciplina científica.

Para acudir a esta tarefa, toma-se fundamental manter a noção do conceito de que
ciência implica, por um lado, apresentação sistemática do conhecimento e, por outro, a
acumulação sistemática do conhecimento. Deste ponto de vista, quando observamos
o Serviço Social a partir da sua história de pensamento, este percebe-se como uma
das ciências existentes, igual às outras ciências, esperando que tenha uma história de
conhecimento acumulado, métodos e posições alcançadas.

Para a concretização deste esforço, deve reivindicar-se segundo Soydan (2004) um


tipo de atitude face ao que nos rodeia socialmente e ao que pode constituir-se como a
essência do Serviço Social. Esta tarefa científica assenta, sobretudo, em manter juntos
três elementos diferentes, a saber: ter uma teoria sobre a sociedade ou sobre o
homem enquanto ser social, ter um programa, um esquema para mudar as situações
problemáticas e, por último, ter um grupo de pessoas empenhadas em realizar essa
mudança. Nesta perspetiva, o desenvolvimento da história do pensamento em Serviço
Social pode tomar diferentes formas e evidenciar diferentes fatores e graus distintos
dessas diferentes formas.

Um dos pontos de partida para esta pesquisa e que será desenvolvido, por isso, nos
capítulos, seguintes resulta numa procura das raízes históricas do Serviço Social nas
tradições do pensamento e da ação nas quais se fundamenta como prática do
pensamento científico e atividade científica em Portugal. No resgate do passado e na
análise desencadeada pela proposta de Soydan (2004, p. 32) aponta para três
componentes do Serviço Social: enquanto atividade prática, disciplina académica e
tradição investigadora.

Uma vez que é intuito da presente pesquisa entender o projeto educativo do Instituto
de Serviço Social no período de 1935 a 1955, deparamo-nos em primeira instância
com a necessidade de enfrentar a complexidade de que se reveste o mundo social,
sendo inevitável, antes de mais, entender a diversidade de campos e espaços
estruturantes que o constituem, o seu contorno especifico, e permitir situar nesse o
campo educativo indo ao encontro do conjunto das visões que o constituem, da
posição dos diferentes agentes e dos campos de forças aí gerados.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 45


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A intenção de representar o mundo social em forma de espaço, para Bourdieu (1989)


parece justificar-se plenamente em termos teóricos. Para este, o espaço construído a
várias dimensões, tem na sua base princípios de diferenciação ou de distribuição
constituídos por um conjunto de propriedades que atuam nesse universo social e que
confere ao seu detentor força ou poder, sendo possível definir os agentes e grupos de
agentes pelas posições relativas que ocupam neste mesmo espaço. São propriedades
atuantes, também, designadas como campo de força, que radicam num conjunto de
relações de força objetiva impostas a todos os que entrem nesse campo e
concomitantes com as intenções dos agentes ou das interações diretas estabelecidas.

A noção de campo para Bourdieu (1989), pode ser entendida como uma “estenografia
conceptual” definindo o modo de construção do objeto da pesquisa, funcionando como
um sinal de que o objeto em questão não retira o essencial das suas propriedades,
não está isolado de um conjunto de relações e considera que essa análise relacional
nos espaços sociais não pode ser entendida senão através das distribuições de
propriedade entre indivíduos. Podemos, desta feita, entender que a posição de cada
agente no espaço social é definida pelo lugar que ocupa nos diferentes campos, ou
melhor, pela distribuição dos poderes que atuam em cada um deles, seja capital
económico, cultural, social ou simbólico entendido este como prestígio, reputação,
fama, isto é, a forma percebida e reconhecida como legítima, nas diferentes espécies
de capital.

A referência teórica parece encontrar aqui de novo a sua justificação, pois será
possível, então, construir um modelo simplificado do campo do conhecimento,
permitindo pensar a posição de cada agente em todos os espaços de jogo possíveis,
bem entendendo que cada campo tem a sua lógica e hierarquia própria.

Partir deste fundamento, é essencial, para não dizer vital para a presente pesquisa,
isto é, aceitar o desafio de descrever esse campo como um espaço multidimensional
de posições definidas em função de um sistema multidimensional de coordenadas
cujos valores correspondem aos valores das diferentes variáveis. O estado das
relações de força traduz-se pois, na forma como em cada momento e em cada campo
se realiza o conjunto das distribuições das diferentes espécies de capital5. Poder-se-á,
assim, obter um conhecimento da posição ocupada neste espaço, pondo em relevo

5 “ [...] os agentes distribuem-se assim nele, na primeira dimensão, segundo o capital que possuem, na
segunda dimensão, segundo a composição do seu capital - quer dizer, segundo o peso relativo das
diferentes espécies no conjuntos das suas posses.” (Bourdieu,1989, p. 135.)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 46


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

informações sobre as suas propriedades intrínsecas (condição) e relacionais (posição)


dos diferentes agentes.

Aqui situaremos o campo de conhecimento académico em Serviço Social e a


descoberta da sua força, entendido não só como essencial mas, também, como vital
para a sua própria sobrevivência, já que o profissional se constitui no campo social
como detentor de um saber e, por isso, envolvido na construção de uma força social
que implique a descoberta de interesses comuns, o estabelecimento de relação entre
os atores, definição de estratégias, táticas e, ainda, na mobilização de recursos
globais. Esta é uma questão fundamental para o Serviço Social porquanto tem
assumido uma posição que lhe permita desenvolver um conjunto de mediações.

Nosella et al. (2005) constata, a propósito do estudo de instituições educativas, que


este tipo de pesquisa apresenta sérios perigos metodológicos, na medida em que é
fácil existir um envolvimento por parte do pesquisador. O difícil será produzir um
resultado final crítico e proveitoso. O pesquisador pode ceder à tentação de resvalar
em reducionismos teóricos tais como particularismo, culturalismo ornamental,
saudosismo, personalismo, descrição laudatória ou apologética e frisa que, de fato,
estudos e pesquisas que retratem, de forma curiosa, aspetos singulares da instituição
escolar, em tempos diversos, são fascinantes e até mesmo sedutores. Por mais
sedutoras que sejam essas pesquisas, não se pode admitir que a descrição
pormenorizada de uma dada instituição escolar não permita a compreensão da
totalidade histórica.

A grande dificuldade reside, exatamente, em conseguir evidenciar, de forma


conveniente, o movimento real da sociedade. Evidenciar essa totalidade exige, por um
lado, a adoção do método específico e de uma aplicação habilidosa e, por outro, em
razão dessa dificuldade, não podemos ser impermeáveis às ricas contribuições de
novas metodologias.

No domínio da sociologia da educação, designadamente para os sociólogos


funcionalistas, considera-se fundamental encontrar as leis a que as instituições
educativas têm de obedecer e é sua convicção de que a educação, tal como outras
instituições, revestem um caráter funcional na medida em que devem cumprir
determinadas funções para que a sociedade sobreviva. No caso concreto da
educação, os indivíduos (professores e estudantes) devem ocupar posições
“socialmente” definidas, devendo estas ser regidas por normas de conduta impostas

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 47


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

pelas instituições no sentido de garantirem o cumprimento das missões que lhes


correspondem.

Para Bourdoncle (1998, p. 155) ao nível da formação, a relação entre teoria e prática
foi sempre complexa sobretudo se tivermos em conta a dificuldade em traçar os seus
limites. Frequentemente tenta-se definir os saberes de ação aproximando-os dos
saberes teóricos, tanto que estes últimos se tentam aproximar de objetos de ação e da
sua inteligibilidade. Como resultado, as distinções entre o que é a teoria e o que é a
prática deslocam-se e por vezes desparecem.

Ainda no domínio da educação Jean Marie Barbier (1996) apela a especialistas de


diferentes disciplinas e atividades para definir três tipos de grupos. Em primeiro lugar,
temos o grupo daqueles que, nos diferentes setores, estão ligados ao campo
universitário, tratam desde o princípio do debate da teoria-prática, pois, apesar de
antigo é ainda central, tanto na formação universitária como na formação profissional.
Um outro grupo é composto por aqueles que abordam a distinção entre saberes
teóricos e práticas, sobretudo, os conceptuais defendendo em alguns casos que a
teoria não é mais do que a inscrição, fortemente organizada e apurada, duma prática
científica que está longe de ser essencialmente teórica. Um terceiro grupo constituído
por aqueles que centram a sua contribuição sobre a forma como a dualidade entre
saberes teóricos e saberes de ação são tratados no domínio particular das formações.

Donald A. Shön (1983) apresenta a sua tese dando um lugar central à reflexão em
ação na prática profissional, contribuindo para revalorizar os práticos em relação aos
universitários e aos investigadores pois privilegiam a tradição positivista e
aplicacionista nas universidades americanas. Malglaive (1990) luta por uma nova
conceção de universidade dita profissional, que será marcada pela preponderância de
saberes práticos, de estágios e de diversas formas de tutorias.

Contudo, a perda de protagonismo do homem sobre a sua própria história e


consequentemente sobre a história do mundo, refere-nos Reimão (2008, p. 94),
tornou-o vítima das forças que ele próprio gerou e a perder sentido da sua própria
existência. Perante este cenário conjuntural, apenas um sistema coerente de valores
pode garantir a unidade e a funcionalidade da vida social, entendendo-se estes como
um regulador da evolução do mundo e da perceção que os homens possuem da sua
construção. Ao aceitar esta premissa inicial, o autor coloca a educação no centro
deste debate, deste questionamento e desta preocupação, na medida em que esta

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 48


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

está ligada inevitavelmente às mutações sociais, competindo-lhe orientar as gerações


mais jovens em ordem à obtenção de uma preparação que lhes permita enfrentar a
vida adulta, na sequência de uma tradição mas de modo a dominar o tempo
desconhecido projetado no futuro.

Educar consiste em oferecer e transmitir um modo de viver e de entender a vida e


deve ter o compromisso de toda a sociedade. A escola, enquanto instituição, deve ser
segundo Reimão (2008, p. 94) um espaço de relação, uma comunidade, em que os
valores vão sendo transmitidos como formas de viver e entender a vida às gerações
mais novas, sustentados num processo de auto tarefa comprometida e ajudada.
Educar é, então, acreditar que existem símbolos, técnicas, factos, memórias e também
valores que podem e devem ser conhecidos.

Aprofundando um pouco mais, percebe-se que estas (Reimão, 2008) exercem uma
função de iniciação aos valores, que partilham (cada uma à sua maneira) com as
famílias e com as demais comunidades de pensamento em que se inserem. Este facto
contraria a tendência de entendimento do último meio século, que reduz a sua
prestação a um objetivo puramente instrumental de distribuição de conhecimentos.
Este novo entendimento coloca a escola na confrontação com preocupações éticas
que atravessam as sociedades e os indivíduos, e situa-a no movimento do mundo que
abre o progresso ao serviço do homem. Por esta razão, a maior problemática da
escola não é de ordem funcional mas de ordem ética, ou seja, envolve sobretudo
preocupações que respeitam a sensibilização para o bem e para o mal, a tomada de
consciência da universalidade de alguns valores e a iniciação à pertença de cada um à
humanidade na sua totalidade.

O horizonte ético de todo o ensino desenvolve-se a partir da autonomia do educando


onde a sua construção deve servir de guia ao educador (Reimão, 2008) na
concretização de uma educação integral e personalizada, porque o homem é livre e é
responsável pela clarificação das sua crenças fundamentais e pela organização das
premissas das suas práticas em todos os níveis do agir, o sentido a dar à educação é
essencial que seja de educar na liberdade e para a liberdade, como tarefa decisiva.

Por esta ordem de razões, a escola situa-se no interior desta complexidade de


interrogações éticas e este espaço torna-se decisivo pois é nele, que se constitui uma
autêntica autonomia do aluno e onde se realiza a abertura e o acolhimento ao outro
enquanto outro, mas simultaneamente diferente de si e semelhante a si, e ainda onde

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 49


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

se cumpre uma função educativa dirigida à formação de adultos esclarecidos, capazes


de assumir a sua autonomia social e de exercerem os seus direitos e deveres na
realidade cultural em que estão inseridos.

A cada educador, sensibilizado pela dialética universal e singular, compete despertar


os seus educandos para a dimensão ética da maior parte das suas ações e transmitir
a ideia que cada um deles é único, e que a sua condição implica uma troca
significativa com o meio.

Por conseguinte, o percurso investigativo que aqui se apresenta toma a relação


histórica do Instituto de Serviço Social com o meio envolvente, como principal eixo de
problematização e, como via de estruturação do conhecimento e de organização da
narrativa. A instituição educativa assume-se enquanto objeto de conhecimento sendo
construída, como uma totalidade em organização e desenvolvimento, seja na sua
internalidade ou na sua relação ao exterior, através de um marco teórico
interdisciplinar e de uma hermenêutica cruzada entre memórias, arquivos, no âmbito
de uma projeção e de uma regressão investigativas, a partir de um percurso
metodológico indutivo/dedutivo.

O cruzamento de informação foi obtido e comprovado por um instrumental de


operações metodológicas quanti-qualitativas referenciadas a unidades de observação
e a categorias conceptual, objetual e historiograficamente significativas.

Para Magalhães (2004) as mudanças em educação bem como na pedagogia


constituem-se mediante multidimensionalidades (geográficas, temporais, geográficas e
políticas) diferentes combinações entre princípios, representações, práticas e
apropriações, sendo que as transformações escolares devem ser interpretadas como
a materialização e o reflexo de preocupações educativas mais amplas, onde a sua
implementação pode ser lenta e conflituosa.

No entanto, ainda para Magalhães (2004) a interpretação das informações relativas a


processos de aprendizagem e das práticas educativas, constituem o principal desafio
à aplicação conceptual e à compreensão de uma instituição educativa. Enquanto
objeto de estudo passará, necessariamente, pelo cruzamento do eixo que medeia a
teorização, a interpretação, a planificação e os quadros da ação docente ou de outros
agentes com o eixo que medeia a normalização, as experiências e a apropriação dos
sujeitos.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 50


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Se for desenvolvido o esforço de aproximação significativa e consequente entre a


ação pedagógica de normalização/gramaticalização, em sede institucional, com a ação
esclarecida e autodeterminada dos agentes, com os graus de liberdade e de
confluência/reprodução dos sujeitos, a história desta instituição educativa, poderá ser
convertida, de acordo com Magalhães (2004) num objeto científico, representativo e
válido e a sua historiografia num desafio metodológico e de reconceptualização.

A narrativa historiográfica corresponderá, por seu turno, à estruturação e à


apresentação da ideia síntese, o que se traduz numa sistematização dos elementos:
quadro/contexto, da ação e dos personagens, articulados por um enredo que se
desenvolve através de um fio condutor e que, em substância, é a identidade da
instituição

Em suma, o sentido investigativo é conferido pela evolução dialética que se representa


em seguida (ilustração 3)

Materialidade Representação Apropriação

Ilustração 2- Constelação epistémica de natureza objetual e substantiva. ([Adaptado a partir de: Magalhães, 2004, p. 138 e 139).

De acordo com Magalhães (2004) a compreensão da evolução institucional


corresponde à correlação entre duas constelações, uma de natureza objetual e
substantiva e outra de natureza teórico-instrumental. A primeira constelação, de
natureza objetual e substantiva, engloba uma materialidade onde se incluem as
condições materiais, espaços e tempos e, ainda, os meios didáticos e pedagógicos,
programas e estruturas, de caráter organizacional, de poder ou de comunicação, e que
se consubstanciam em instâncias objetivas e de funcionamento. Uma representação
que engloba aspetos que respeitam às memórias, às bibliografias e aos arquivos bem
como à modelização orgânica e projetual da ação e ao grau de mobilização e

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 51


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

aplicação de pedagogias, o currículo, estatutos e agentes. Por último, a apropriação


que se reporta às aprendizagens, ao modelo pedagógico preconizado, ao ideário e
ainda à identidade dos sujeitos, à identidade da instituição.

Seguindo a linha de pensamento de Magalhães (2004) é possível estabelecer uma


correlação com uma segunda constelação composta, por seu turno, pelo instituído,
pela institucionalização e instituição, de acordo com o representado na figura que se
segue (ilustração 4),

Instituintes/
Instituído Instituição
institucionalização

Ilustração 3 - Constelação epistémica de natureza teórico-instrumental. [Adaptado a partir de: Magalhães, 2004,p. 138 e 139].

Nesta constelação, o instituído resulta de uma sincronia multifacetada entre a


materialidade, a representação e da apropriação num determinado momento histórico
e que se traduz numa praxeologia. A evolução histórica ocorre, em primeiro lugar, a
partir da noção de institucionalização, enquanto abstração que envolve uma dialética
entre os públicos e o modelo didático-pedagógico e institucional que, por sua vez,
resulta do poder instituinte de todos os participantes, de acordo com a ação dos
agentes e regulada por uma dinâmica organizacional. Ainda de acordo com
Magalhães (2004) a institucionalização é uma construção que se manifesta nas
aprendizagens, sob a forma de apropriação e no relacionamento com a realidade
sociocultural e geográfica envolvente.

A instituição, por seu turno, é um constructo teórico-prático que resulta de um


processo multidimensional e multifatorial, assente numa dialética entre uma
combinação horizontal de materialidade, projeção, mobilização, ação e vertical
contendo etapas de concretização dessa evolução.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 52


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Por outro lado, Olga Restrepo (2003) refere que a teoria tradicional concebe as
construções teóricas como atividades próprias do pensamento afastadas da
elaboração de enunciados e proposições que tenham como finalidade o desenho e leis
e modelos explicativos da sociedade e cuja validade depende da correspondência
entre o objeto construído previamente e de um sujeito que está separado de si próprio.
O social, assume-se como algo externo e cognoscível mediante o sentido comum ou a
experiência, esquecendo o papel histórico que os contextos cumprem na construção
social da realidade. Ela opera classificando os dados e levantando sistemas
conceptuais que simplificam a realidade. Elimina as contradições, porque o seu
interesse centra-se na capacidade de resposta e busca de soluções funcionais
segundo os campos específicos de aplicação. Razão pela qual, o pensamento
científico não tem que ocupar-se do questionamento crítico dos conflitos nem as
divisões presentes no interior da sociedade.

Por essa razão, para Restrepo (2003), o processo de constituição do Trabalho Social
está fortemente marcado por uma relação discursiva de externalidade. Desde as suas
origens que a profissão se viu condenada a estabelecer uma série de vínculos com
práticas, princípios, postulados e valores, que não emergiram do seio da profissão
mas que lhe foram funcionais em termos das mediações e afiliações estabelecidas
com a filantropia, o Estado, o público e com o institucional.

O sentido de pensar uma profissão na atualidade (Restrepo, 2003), implica transitar


pela sua história reconhecendo e desentranhando limites e possibilidades com o
objetivo de a transcender e não de a repetir. Os métodos do Trabalho Social e
consequentemente os elementos constitutivos da metodologia são reflexos tímidos
das diferentes épocas e o seu surgimento e consolidação tem que ver com as visões,
conceções, interesses, pedidos e necessidades (sociais ou profissionais) prevalentes
em cada momento.

A transformação operada na identidade cultural da profissão iniciou-se a partir do


momento em que a profissão foi institucionalizada, razão pela qual no entender de
Mouro (2009, p. 123) a desconstrução da sua emergência tornou-se um meio de
explicar as características da sua trajetória de vida, a reflexão sobre a construção
profissional, identitária e cultural de estratégia é fundamental para melhor se avaliar a
relação que estabeleceu consigo mesma, com a sociedade e com a realidade em que

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 53


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

se foi inserindo e ainda, atender à sistematização da sua produção a auto


confrontação com os efeitos do desenvolvimento.

Em suma, serão estes os aspetos colocados em evidência e considerados


fundamentais para se poder entender a capacidade demonstrada por este
estabelecimento de ensino em corresponder aos desafios iniciais que lhe foram
colocados no quadro da dinâmica da gestão do processo educativo, capacidade que
fez com que o Serviço Social fosse qualificado como uma profissão viva. Estes
aspetos permitirão defender o pressuposto de Mouro (2009) de que o Serviço Social é
um produto profissional cuja génese resulta, não de uma reorganização político social,
da ligação entre o catolicismo social e o conservadorismo mas sim de uma dinâmica
de interferência do racionalismo na reconstrução dos dispositivos sociais necessários
ao desenvolvimento da construção da sociedade industrial.

A reflexão sobre a trajetória de vida do Serviço Social partindo de matrizes propostas


por Helena Mouro (2009) assente numa perspetiva reflexiva modernista que pensa o
Serviço Social como produto da cultura moderna, defende a tese de que o Serviço
Social surgiu como uma força anti modernista. Analisar a matriz de teor doutrinário, de
base racionalista laica, de raiz filosófica poder-se-á chegar ao seu discurso identitário
incorporado na emergência do Serviço Social enquanto profissão.

Para Mouro (2009,) a sua matriz de caráter doutrinário reflete o peso cultural e
religioso sobre as propriedades referenciais da profissão, suportando-se numa
subcultura assistencialista aliada a uma moral cristã que privilegia o conceito de
pessoa humana. Em consequência as práticas profissionais foram-se sintonizando e
configurando a partir do exercício da representação destes aspetos míticos e
simbólicos ligados às práticas sociais caritativas, beneficentes e assistenciais.

Estas práticas, verdadeiramente, não apresentavam grandes descontinuidades ou


descoincidências nos seus modos de agir, na medida em que se centravam,
essencialmente, no processo de ajuda social mais do que nas características das
formas de ajuda, comungando, por isso, o mesmo sentido ideológico e político apesar
de se apresentarem potencialmente plurais. É, pois, esse forte alicerce ontológico,
numa dimensão universal de ação, que se organiza como um investimento emocional
numa tradição, que facilmente a distingue das atitudes e comportamentos de outros
profissionais com papel ativo no terreno social e a razão de se organizarem mais em
relação ao status do que às competências.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 54


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Na sua maioria as práticas sociais partilhavam uma combinação entre o catolicismo


social e as preocupações humanitárias, com as consequências de uma ordem social
em que a desconstrução da harmonia obrigava a um trabalho no sentido da produção
de recursos e a fontes de energia para permitir a continuidade ilusória e o
restabelecimento das ordens sociais preexistentes.

Segundo a autora, estes serão os argumentos que permitem defender a tese de que
não obstante tenha vindo do passado, o Serviço Social ao longo da sua trajetória,
sempre manteve o propósito de atribuir o devido alcance aos aspetos negativos do
processo de transformação social e de modernização, não desvirtuar a natureza das
instituições, gerir o paradoxal dentro de uma existência segura e compensadora para
os seres humanos.

No que respeita à matriz de teor racionalista laico, Mouro (2009) destaca-a por
incorporar influências positivistas na interpretação dos fenómenos sociais e se centrar
na dinâmica dos movimentos sociais, políticos e ideológicos que se empenharam em
estruturar respostas para enfrentar os antagonismos sociais. Esta simbiose permitiu
desconstruir a desqualificação dos estratos sociais mais carenciados enquanto
responsáveis pela fragilização do sistema económico em que se inseriam, o exercício
da filantropia como elemento mobilizador da consciência social e promotor do
reformismo social que faz a separação entre risco e perigo e, por último, a
pericialidade em matéria de ação social mediada, sobretudo, pelos higienistas sociais
tendo resultado na defesa da preservação do tradicionalismo mas implicado com
impulsos libertadores.

Seria o pensamento conservador baseado nas tradições que permitiu estabelecer a


difusão de um modelo de ação social assente no diálogo como meio de mediar
conflitos e adversidades quotidianas, razão pela qual, segundo Mouro (2009), a
institucionalização da profissão no século XIX possa ser entendida como resposta
formal à necessidade de reestruturar as garantias simbólicas ligadas à configuração
de um futuro.

Já despojado de uma narrativa teológica, a profissão é entendida por Mouro (2009)


como um meio de realinhar socialmente o processo de mediação integrado num
conservadorismo social, no entanto, protagonizado de forma racional e atento aos
efeitos que pudessem resultar numa desintegração das cumplicidades já construídas,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 55


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

com o propósito de assumir no campo moral os efeitos secundários da


industrialização.

Nesta matriz, apesar não abandonar o vínculo a uma perspetiva evolucionista utilizada
para estruturar a fundamentação histórica da institucionalização do Serviço Social e da
construção social da profissão, apresenta-se uma tese contrária a outros autores que
defendem que o Serviço Social já possuía um percurso de pensamento sobre a
tradição ou sobre os costumes na área da ajuda, onde o papel das instituições foi
determinante na recriação de uma cultura tradicional, tornando-se num espaço de
dissolução do Serviço Social, para passar a considerar que a tradição e os costumes
surgiram como resultantes de uma ordem de natureza histórica face ao contexto social
da ação. Esta última estaria mais centrada na relação do Serviço Social com o
pensamento ideológico do presente e do futuro do que numa reflexão sobre o fluxo e a
obtenção de informação sobre as raízes institucionais da profissão (Mouro, 2009, p.
140).

No entanto, aceita-se que, contraditoriamente, tanto a imagem como a identidade


profissional se encontram profundamente marcadas por um pragmatismo e
ideologicamente por um conservadorismo social que legitima o individualismo e o seu
papel controlador, o que permite que se realize um processo de regulação da ordem
social, se articule o mundo da vida privada com os interesses públicos, se recriem as
instituições na sociedade e que seja atomizado o exercício da intervenção social
(Mouro, 2009, p. 140).

Por último, a matriz de raiz filosófica que se debruça sobre a relação entre a
assistência social e os direitos humanos, organizando a sua estratégia analítica a
partir da evolução do conjunto de práticas de ajuda social e da sua finalidade em
promover os meios assistenciais, por forma a afirmar a dignidade do indivíduo
enquanto ser humano. Considera-se, portanto, que a institucionalização do Serviço
Social no quadro da industrialização, resulta de uma “re-significação” (Mouro, 2009, p.
141) do conceito de indivíduo recriada pelos movimentos filantrópicos, não só pelo
facto de investir na conceção de direitos e deveres da pessoa na sociedade como
também por problematizar a forma de complementar o respeito pela dignidade
individual.

A autora defende que a identidade particular do Serviço Social pode não coincidir com
a sua raiz cultural. Pese embora o seu capital de tradição estar comprometido com a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 56


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

assistência e com as suas práticas de intervenção, que lhe delimitam uma fronteira
simbólica, o seu interior pode admitir uma pluralidade cultural. Toma, assim, particular
relevância a forma social encontrada pela profissão não só para harmonizar a relação
entre os direitos humanos e a tutela social dos indivíduos sem, no entanto,
axiomaticamente, se reconhecer a liberdade originária do Homem. Mas também se
utiliza da conceção funcionalista da liberdade, ao deixar transparecer nas suas
práticas que o pressuposto da legalidade serve para afirmar a efetividade da liberdade;
e por último, expressa o seu desejo de lutar contra a desigualdade envolvendo-se na
defesa do postulado que obriga a completar os direitos dos cidadãos com os direitos
sociais e económicos.

De forma global, para Mouro (2009), esta abordagem permite contrariar qualquer
teoria que pretenda abarcar toda a emergência institucional da profissão, sendo certo
que em cada cultura particular se encontra um estilo próprio que resulta da
compreensão do contexto cultural em que se inscreve.

No que respeita ao conceito de identidade acompanha-se a definição proposta por


Castells (2003, p. 22) entendendo-se por identidade a fonte de significado e
experiência de um povo. Na perspetiva dos atores sociais entende que se trata de um
processo de construção do significado com base num atributo cultural, ou mesmo de
um conjunto de atributos culturais inter-relacionados que prevalece sobre outras
formas de significado. Em termos genéricos, poder-se-á dizer que as identidades
organizam os significados, definindo significado como a identificação simbólica, por
parte de um ator social, da finalidade da ação por ele praticada, atendendo a que este
se organiza em redor de uma identidade primária autossustentável, isto é, de uma
identidade que estrutura as demais, ao longo do tempo e do espaço.

Não é, por isso, difícil de concordar que toda e qualquer identidade é construída. Na
verdade, a questão que se coloca, respeita sobretudo ao como, a partir do quê, por
quem e para quê. A construção da identidade recorre necessariamente à matéria-
prima facultada pela história, geografia, biologia, pelas instituições produtivas e
reprodutivas, pelas memórias coletivas, pelos aparelhos de poder, fantasias pessoais
e revelações religiosas. Todavia, essa matéria-prima é processada pelo indivíduo,
grupos sociais e pela sociedade que, desta forma, organizam o seu significado em
função das tendências e dos projetos culturais enraizados em cada estrutura social, e
em função da sua visão de tempo e de espaço.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 57


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Para Castells (2003) a construção da identidade ocorre sempre num contexto


determinado por algumas das relações de poder, propõe a distinção entre três formas
e origens de construção de identidades, a saber: identidade legitimadora, identidade
de resistência e identidade de projeto.

A identidade legitimadora refere-se à identidade introduzida pelas instituições


dominantes da sociedade, com o objetivo de expandir e racionalizar a sua dominação
sobre os atores sociais. A identidade de resistência é criada por atores que se
encontram em posição ou condição desvalorizada e/ ou estigmatizada pela lógica da
dominação e que constroem trincheiras de resistência e sobrevivência assentes em
princípios diferentes ou mesmo opostos aos que as instituições da sociedade
permeiam. Por último, a identidade de projeto constrói-se quando os diferentes atores,
servindo-se do material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz
de redefinir a sua posição na sociedade e consequentemente provocar transformação
em toda a estrutura social.

1.2. NATUREZA DO ESTUDO, METODOLOGIA E TÉCNICAS DE RECOLHA


DOS DADOS EMPÍRICOS

Neste subcapítulo será descrito e detalhado o processo seguido para a sistematização


e registo de toda a informação acumulada ao longo desta investigação explicando,
igualmente, como se organizou e culminou o trabalho que agora se apresenta.

Tal como se referiu anteriormente, a vertente empírica deste trabalho de pesquisa


revelou-se desde o início em três dimensões: uma que respeita ao património
documental enquanto expressão de memória coletiva do Instituto de Serviço Social
associados aos processos de composição e recomposição da educação em Serviço
Social e que permite estabelecer um eixo de análise e interpretação em torno da
própria organização nas suas dinâmicas de materialidade. Uma segunda dimensão
que respeita à sua representação na modelização orgânica e projetual desencadeada
pelos atores na estruturação e dinamismo da sua ação, por último, à sua apropriação
por parte das alunas realizando um enfoque nas monografias realizadas por estas no
curso apresentados no período de vigência do primeiro plano de estudo.

A opção por estas três dimensões decorreu de uma reflexão sobre as diversas
propostas de investigação e observações, seja no domínio das ciências sociais, seja
no domínio do Serviço Social. Como tal, na perspetiva metodológica foi considerado

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 58


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

como critério de observação, interpretação e análise o projeto educacional fundador do


Instituto de Serviço Social, na tentativa de captar um espetro, tão amplo quanto
possível, que o aproxima ou distância de outras primeiras experiências educacionais
nos diferentes países do mundo e em paralelo captar um aprofundamento centrado no
processo de institucionalização e operacionalização das primeiras tentativas de
formação de assistentes sociais, penetrando em aspetos subjetivos assentes na lógica
dos seus aprendentes.

Tendo como ensejo responder a questões relacionadas com as circunstâncias da


fundação desta instituição e com o seu processo evolutivo, definindo as suas etapas
iniciais, os saberes nela vinculados à gestão escolar e disciplinar, os seus espaços, os
seus discentes e docentes e os acontecimentos nela ocorridos, determinou a opção
por um estudo de caráter compreensivo.

Atendendo ao pressuposto de Nóvoa, (1995) que há elementos que constituem um


condicionamento da configuração interna das instituições e que influenciam o estilo de
interações entre elas e as comunidades em que estão inseridas, este facto pairou ao
longo da colheita de dados. Por esta razão, se recorreu a diferentes acervos
documentais, tendendo identificar, analisar e compreender esta configuração interna
bem como as interações estabelecidas com a sua envolvente. O resultado obtido
julga-se ser caracterizador dessa configuração. A cultura organizacional do Instituto de
Serviço Social, enquanto instituição educativa, durante os seus primeiros 20 anos de
vida, quer no que respeita às suas raízes conceptuais e pressupostos invisíveis –
valores, crenças e ideologias, quer na forma como esses elementos tornaram-se
visíveis junto de outras instituições da comunidade.

Este trabalho de pesquisa, epistemologicamente sustenta-se numa perspetiva


construtivista, na qual se assume o projeto educativo do Instituto não só como uma
produção social mas, também, como produtor da sociedade, permitindo, segundo a
perspetiva de Petitat, (1992), o estudo dos conhecimentos, processos e instituições
passadas, procurando reconstruir a identidade e cultura do Instituto de Serviço Social
entendida esta como sede privilegiada de uma multiplicidade de ações humanas,
pedagógicas, culturais, sociais, afetivas de um quotidiano sempre reinventado.

Em geral neste tipo de pesquisa, para Buffa e Nosella (2005) o pesquisador deve
procurar antes de mais a interpretação dos fenómenos, mergulhando na interioridade
da instituição tentando construir uma historiografia que explique os fenómenos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 59


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

inerentes a esta realidade educativa, dando conta dos vários atores envolvidos no
processo. Uma produção historiográfica, enquanto construção e representação da
realidade, implica necessariamente o conhecimento das relações num contexto de
multidimensionalidade.

Nesta medida, não foi intenção apenas descrever esta instituição educativa mas,
explica-la e integra-la numa realidade mais ampla composta pelo seu próprio sistema
educativo, implica-la no processo de evolução da comunidade, sistematizar o seu
primeiro ciclo de vida num quadro mais amplo sem perder de vista a sua singularidade
e perspetivas maiores.

Deste ponto de vista, ao estabelecer-se uma relação dialética entre a instituição e a


sua comunidade numa pluralidade de sentidos, privilegia-se uma abordagem do tipo
meso dando vida e intensidade à historia da instituição, conferindo grandeza às
diversas personagens, entre as quais a suas diretoras, professores alunas e outros
membros da comunidade, conferindo-lhe a condição de sujeitos históricos, tendo em
vista o conhecimento das práticas escolares. Desta feita, segundo Nóvoa (1992, p.
15), as instituições educativas adquirem uma dimensão própria enquanto entidade
organizacional, comunicacional e relacional marcada por zonas de tensão, por
anseios, incertezas, expectativas e práticas na busca de um projeto comum.

A presente investigação, no domínio dos procedimentos técnicos, envereda, pela


combinação do procedimento histórico com o estudo de caso. Procedimento histórico,
na medida em que respeita a recolha de dados sistemática e a sua avaliação crítica
destacando as ocorrências passadas tentando compreender o passado na tentativa de
esclarecer os comportamentos ou as práticas atuais. De estudo de caso, na medida
em que se debruça sobre o projeto educativo do Instituto de Serviço Social

Os estudos de caso enquadram-se numa abordagem qualitativa e são frequentemente


utilizados para a obtenção de dados na área dos estudos organizacionais, [...] são um
tipo de estudos muito particulares e que, para serem eficientes, terão de ter o seu
objeto bem definido, devendo o caso escolhido ser representativo do problema ou
fenómeno a estudar, os materiais e dados ser recolhidos com precaução, a sua
linguagem, clara e homogénea, e as conclusões produzidas ser bem explícitas,
constituindo novas informações (Vilelas, 2009, p. 140 e 148).

O estudo de caso de organizações, numa perspetiva histórica é igualmente definido


por Bogdan et al. (1994, p. 90) como uma opção de estudo no domínio da investigação

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 60


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

qualitativa em educação. Estes estudos podem incidir sobre uma organização


específica, incidindo sobre um período de tempo e relatando o seu desenvolvimento.

O estudo assenta a sua análise num paradigma interpretativista e compreensivo da


realidade que, segundo Burrel e Morgan (1979), se afirma nas pressuposições
ontológicas, epistemológicas acerca da natureza humana com implicações diretas de
natureza metodológica. Esta abordagem caracteriza-se pela tentativa de entender e
explicar o mundo social do ponto de vista dos atores envolvidos no processo. Estes
autores afirmam que, de uma forma geral, as teorias interpretativistas ocupam-se do
estudo dos modos pelos quais a realidade é, significativamente, construída e ordenada
do ponto de vista dos atores diretamente envolvidos.

Neste sentido, se poderá sublinhar a natureza qualitativa da presente pesquisa dado


que considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real objetivo e a
subjetividade do sujeito. Assentou, por isso, seguindo o entender de Vilelas (2009, p.
105), na interpretação dos fenómenos e atribuição de significados, coincidindo com
condições básicas do processo de pesquisa qualitativa. O objetivo desta abordagem
de investigação, utilizada para o desenvolvimento do conhecimento, é descrever ou
interpretar mais do que avaliar é uma extensão da capacidade do investigador em dar
sentido ao fenómeno (Freixo, 2009, p. 146).

O investigador que utiliza o método de investigação qualitativa “[...] observa, descreve,


interpreta e aprecia o meio e o fenómeno tal como se apresentam, sem procurar
controlá-los” (Fortin, 2003, p. 22).

Persistindo uma fraca tradição de estudos sobre a dimensão histórica do Serviço


Social em Portugal e, por consequência, uma fraca produção teórica e bibliográfica
optou-se por realizar a pesquisa a partir de fontes primárias complementadas pelas
fontes secundárias. No que respeita às fontes secundárias a busca orientou-se para a
história do Estado Novo, história da Assistência, a história do ensino em Portugal e a
história da Igreja. Esta porta de entrada permitiu descobrir investigações realizadas e
suas principais contribuições localizando aspetos determinantes do contexto político,
ideológico e cultural em que se desenvolveu o Serviço Social em Portugal.

Correspondendo a primeira parte deste trabalho indagou-se sobre algumas instituições


importantes neste período como seja a história do Instituto Central de Higiene, da
Ação Católica Portuguesa e da União Católica Internacional de Serviço Social, da

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 61


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Obra das Mães pela Educação Nacional e da Mocidade Portuguesa Feminina bem
como Federação Internacional de Serviço Social designada, então, como Secretariado
Internacional Permanente de Trabalhadores Sociais. A história do Serviço Social e
Portugal e no mundo e a emergência das primeiras escolas acompanhou
permanentemente o desenrolar do trabalho situando as origens da profissão desde os
finais do século XIX recorrendo à biblioteca do Instituto Superior de Serviço Social de
Lisboa integrada na Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa e da Biblioteca
Universitária João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa.

No que respeita às fontes primárias procedeu-se, desde logo, a todo um levantamento


e recolha de dados estabelecendo uma relação estreita entre a memória do Instituto
de Serviço Social e o seu acervo documental. Efetivamente, o arquivo do Instituto de
Serviço Social atualmente integrado no arquivo do Instituto Superior de Serviço Social
de Lisboa depositado no acervo bibliográfico da Universidade Lusíada – Fundação
Minerva não se encontra organizado tendo sido, por isso, necessário recorrer a outros
lugares de memória bem como propor, a estruturação de uma linha de Investigação no
Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social da Universidade Lusíada de Lisboa
(CLISSIS) e um desenvolvimento de um projeto direcionado para o estudo e
recuperação deste património, projeto esse intitulado “Para uma anamnese da
primeira escola de Serviço Social em Portugal”, atualmente já em curso.

As fontes primárias aqui consultadas foram essencialmente as monografias de


alunas realizadas, ficheiro das alunas e fotografias. Neste arquivo encontra-se
depositado um acervo de 448 monografias, produzidas pelas alunas do Instituto de
Serviço Social no decorrer dos cursos, fazendo estas parte de uma coleção do
património histórico do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa do período de
1935 a 1972. O desafio inicial de analisar todo este acervo, tornou-se, com o passar
do tempo, numa tarefa extremamente difícil, na medida em que esta coleção não se
encontra tratada arquivisticamente.

Em exposição acerca do Instituto de Serviço Social (Instituto de Serviço Social, 1944b,


[fl.1- 3])6 entregue ao Ministro da Educação Nacional e que se encontra no Arquivo de
Salazar faz-se referência à existência destas monografias para o período que vai de
1936 a 1944, existindo nessa altura, já um total de 64. No entanto percebe-se,
igualmente, neste documento que correspondem a monografias de alunas realizadas

6 Vide em anexo L

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 62


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

em ambos os cursos, isto é, no curso de Assistente Social e de Educadora Familiar e


que, dependendo do ano da sua realização, poderão corresponder a diferentes
localizações no plano de estudos.

Efetivamente, o Decreto-lei 30 135 de 14 de Julho de 1939, que publica o primeiro


plano de estudos, não apresenta qualquer alusão à realização de monografias7,
apenas o 2º plano de estudos de 1956, publicado pela portaria 15 972 de 18 de
Setembro8, contempla a realização de uma monografia social no 4º ano e que, por
isso, poderá oferecer a designação de monografia final de curso, deixando a
descoberto informação sobre estas monografias para o período em análise.

Entretanto, a exposição ao ministro da Educação Nacional, anteriormente referida,


esclarece algumas dúvidas acerca da realização destas monografias na medida em
que no mapa de ensino discriminativo do ensino, no campo de observações tanto no
2º ano do curso de assistente social como de educadora familiar, se aponta para a
realização de “Monografia Social, Familiar ou de Instituições (a iniciar no fim do
segundo ano e a apresentar no fim das férias da Páscoa do 3º ano) ” (Instituto de
Serviço Social,1944b, p. 322) 9 .

Este documento esclarece, ainda, que ao nível do 3º ano “Para completar o curso
devem as alunas, terminados os três anos, fazer um relatório final de 90 dias de oito
horas diárias de Trabalho Social efetivo, no Centro Social do Instituto de Serviço
Social, e apresentar um relatório com as respetivas estatísticas (Instituto de Serviço
Social, 1944b, p. 323)10. Este dado coloca-nos em dúvida sobre a proveniência de
algumas destas monografias que chegaram aos nossos dias não parecendo tratar-se
apenas de produções de final de curso. Este fato é, ainda, reforçado pela presença de
monografias logo em 1936, coincidindo portanto com o segundo ano do curso e não
em 1937 como seria espectável caso se tratassem de monografias finais de curso11.
Este acervo carece no entanto, de um tratamento arquivístico prévio a fim de permitir a
realização de pesquisa neste domínio.

7 Vide em anexo E
8 Vide em anexo AP
9Vide em anexo L
10 Vide em anexo L
11 Ainda sobre este assunto e em nota de rodapé podemos ser esclarecidos que “Estas primeiras

monografias, de 1936, tendo sido feitas sem ensino especial sobre o assunto, sem modelos e apenas
com explicações, não têm o desenvolvimento e interesse das seguintes” (Instituto de Serviço Social,
1944, p. 326)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 63


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Estamos, portanto, perante documentos de origem e natureza de investimento


diferente atendendo aos cursos em presença e que em 1944 a coleção já contemplaria
um total de 64 obras: 1936 - 6 monografias, 1937 – 1 monografia, 1938 – 7
monografias, 1939- 14 monografias, 1940 – 12 monografias, 1941 - 3 monografias,
1942 – 4 monografias, 1943 – 5 monografias, 1944 – 12 monografias.

Apesar, de existir uma intenção séria em dar continuidade a este estudo e vir a
estudar toda a coleção, iniciou-se um trabalho de registo de algumas destas
monografias realizando uma catalogação, indexação, digitalização, no sentido de
serem disponibilizadas para pesquisa, tendo-se conseguido o tratamento de 61
monografias, utilizadas neste trabalho de pesquisa, como fontes primárias e agora
como produto disponível para consulta, por parte de qualquer outro investigador. Esta
monografia são de seguida apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 - Monografias do Instituto de Serviço Social

Nº de
Descrição Cota data
Ordem
1 TEIXEIRA, Maria Helena (1937) – Monografia de (HQ652.T45 1937- 1937
uma família. Lisboa: Instituto de Serviço Social 256910).
2 ALVIM, Maria Carolina Paes de Sande e Castro (RA964.A48 1938- 1938
(1938) – Monografia do hospital da misericórdia de 256816).
cascais. Lisboa: Instituto de Serviço Social
3 CORREIA, Filomena Silva (1938) – Monografia do (RA989.C67 1938- 1938
Hospital Termal Rainha D. Leonor de Lencastre da 256896).
Rainha
4 VIANA, Maria José de Lencastre – Vila do (HQ652.V53 1940- 1940
Conde:monografia de uma família operária. Lisboa: 259631).
Instituto de Serviço Social.
5 SALES, Maria Gabriela Horta Moreira (1942) – (RA989.S25 1942- 1942
Monografia do Preventório de Colares. Lisboa: 256883).
Instituto de Serviço Social.
6 RODRIGUES, Maria Tereza de Matos (1943) - (HQ759.915.R63 1943
Monografia sobre a Casa de Protecção e Amparo de 1943-259632).
Stº. António. Lisboa: Instituto de Serviço Social.
7 ALVES, Maria Adozinda de Morais (1944) – (HV1247.A48 1944
Monografia da Casa Pia. Lisboa: Instituto de Serviço 1944-259805).
Social.
8 FERREIRA, Beatriz Adelaide Borges (????) – A “ (HQ652.F47 1947- 1944
Ponta do Sol” na Ilha da Madeira. Lisboa: Instituto de 259684/2)
Serviço
9 MENDES, Maria Cândida Sirgado d’Azevedo (1944) - (HV347.M46 1944- 1944
História da Santa Casa da Misericórdia de Tôrres 259809
Novas. Lisboa: Instituto de Serviço Social.).
10 FRAGE, Alzira Luisa de (1945) – Monografia de (HQ652.F73 1945- 1945
Terra Chã. Lisboa: Instituto de Serviço Social. 259291).
11 MENDES, Maria Helena de Almeida (1945) – (HQ1697.M46 1945
Mocidade Portuguesa Feminina. Lisboa: Instituto de 1945-259480
Serviço Social.).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 64


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

12 SANTOS, Maria Isabel Vassallo (1945) – O problema (HQ229.A5 S26 1945


da prostituição e o Instituto de Santa Madalena. 1945-256909
Lisboa: Instituto de Serviço Social.).
13 FERREIRA, Carolina Veiga (1947) – Monografia de (HQ652.F47 1947- 1947
São Miguel de Creixomil. Lisboa: Instituto de Serviço 259633/1).
Social.
14 FERREIRA, Carolina Veiga (1947) - Conclusão da (HQ652.F47 1947- 1947
monografia sobre São Miguel de Creixomil enviada 259684/2).
para o reverendo Pároco da referida freguesia, a seu
pedido. Lisboa: Instituto de Serviço Social
15 LENCASTRE, Margarida Maria de Queiroz (HQ652.L46 1947- 1947
Vasconcelos Coimbra e (1947) – Da minha terra e da 258860).
minha gente: estudo para uma monografia de Paços
de Ferreira. Lisboa: Instituto de Serviço Social.
16 MIL-HOMENS, Elvira Rodrigues (1947) – Monografia (RA644.T7 M55 1947
da Estância Sanatorial do Caramulo. Lisboa: Instituto 1947-256809).
de Serviço Social
17 RIBEIRO, Maria Raquel (1947) - Vida do cadaval (HQ652.R53 1947- 1947
Monografia. Lisboa: Instituto de Serviço Social.. 258921)
18 CALDEIRA, Maria Helena Murta (1948) – Freguesia (HQ652.C35 1948- 1948
de Santa Engrácia de Lisboa. Lisboa: Instituto de 259039).
Serviço Social.
19 COSTA. Maria Cristina Barata Feio (1948) – (HQ652.C67 1948- 1948
Monografia Social de Monchique. Lisboa: Instituto de 259044).
Serviço Social
20 JUNQUEIRA, Maria do Carmo Murta (1948) – (HQ652.J86 1948- 1948
Monografia social de Sintra. Lisboa: Instituto de 259045).
Serviço Social.
21 PINHEIRO, Olga Inêz (1948) – Cabanas de Tôrres. (HQ652.P56 1948- 1948
Lisboa: Instituto de Serviço Social. 259284).
22 SILVA, Maria Emília Campos (1948) – Monografia (HQ652.S55 1948- 1948
sobre Vilar Formoso. Lisboa: Instituto de Serviço 259005).
Social.
23 TRIGO, Maria Helena da Costa (1948) – Monografia (HQ652.T75 1948- 1948
de Amêndoa. Lisboa: Instituto de Serviço Social.. 259165)
24 PEIXOTO, Joana Maria Rocha (1949) – Monografia (HQ652.P45 1949- 1949
de Ponte da Barca. Lisboa: Instituto de Serviço 260320).
Social.
25 BARATA, Clotilde Eduarda da Silva (1952) – (HQ652.B37 1952- 1952
Monografia sobre Odivelas. Lisboa: Instituto de 258162).
Serviço Social.
26 COSTA, Maria da Conceição Macedo de Freitas da (HQ652.C67 1952- 1952
(1952) – Moure. Lisboa: Instituto de Serviço Social. 259453).
27 CRESPO, Maria Henriqueta Cordeiro Dias (1952) – A (HQ652.C74 1952- 1952
vila de Alter do Chão. Lisboa: Instituto de Serviço 258164)
Social.
28 MATIAS, Palmira Cabrita (1952) – A freguesia da (HQ652.M38 1952- 1952
Penha de França. Lisboa: Instituto de Serviço Social. 257741).
29 PERDIGÃO, Maria Teresa dos Santos Pinto (1952) – (HQ652.P47 1952- 1952
Monografia de Peniche. Lisboa: Instituto de Serviço 258360).
Social.
30 PINHO, Maria Antónia Ferreira de Azevedo (1952) – (HQ652.P56 1952- 1952
Costa de Caparica. Lisboa: Instituto de Serviço Social 258372).
31 SANTOS, Maria Leonor Joly Braga (1952) – (HQ652.S26 1952- 1952
Monografia da Vila de Almada. Lisboa: Instituto de 257490)
Serviço Social.
32 SOUSA, Maria Antónia V. de (1952) – Monografia de (HQ652.S68 1952- 1952

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 65


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Sanfins do Douro. Lisboa: Instituto de Serviço Social 257893).


33 CARVALHO, Angélica Dias de (1954) – Monografia (HQ652.C37 1954- 1954
do Orvalho. Lisboa: Instituto de Serviço Social.. 257750)
34 PINHO, Maria Antónia Ferreira de Azevedo (1954) - (HQ652.P56 1954- 1954
Notas complementares à monografia realizada em 258385).
1952. Lisboa: Instituto de Serviços Social.
35 PERNÃO, Maria Manuela Neves (1957) – A praia da (HQ652.P47 1957- 1957
Vieira. Lisboa: Instituto de Serviço Social. 258361).
36 MAIO, Maria Amália do Reis Messias (1958) – Alvor: (HQ652.M35 1958- 1958
estudo monografico. Lisboa: Instituto de Serviço 260007).
Social.
37 SANTOS, Maria Eunyce Branco Silva (1958) – (HQ652.S26 1958- 1958
Fontelo: um trecho do Alto Douro : esboço de um 258394
estudo monográfico-social. Lisboa: Instituto de
Serviço Social.).
38 BASTOS, Maria Virgínia Pitta (1959) – Monografia de (HQ652.B37 1959- 1959
S. Bento do Ameixial. Lisboa: Instituto de Serviço 257733).
Social
39 MATIAS, Celina Capitolina de Freitas (1959) – (HQ652.M38 1959- 1959
Monografia de Mata (Torres Novas). Lisboa: Instituto 258277
de Serviço Social.).
40 TRINDADE, Maria Fernanda Valente Campos (HQ652.T75 1959- 1959
Ferreira (1959) – Nazaré. Lisboa: Instituto de Serviço 257731).
Social.
41 BRITO, Maria Anita Quintela de (1963) – O problema (RA644.T7 B75 1963
da tuberculose. Lisboa: Instituto de Serviço Social. 1963-257091).
42 ARENGA, Maria Salomé Leitão Ribeiro (1964) – (HV687.A74 1964- 1964
Serviço médico-social: alguns aspectos das funções 257093).
da assistente social do hospital. Lisboa: Instituto de
Serviço Social.
43 BRAZÃO, Maria Ângela de Sousa (1964) - Estudo de (HV1247.B73 1964
problemas materno-infantis da área abrangida pelo 1964-257222).
dispensário de Cascais. Lisboa: Instituto de Serviço
Social.
44 CARVALHAIS, Maria Teresa da Silveira Montenegro (HV1593.C37 1964
(1964) – Casamento de Cegos. Lisboa Instituto de 1964-256904.
Serviço Social.
45 JESUS, Maria Lídia Pestana (1964) – O problema da (HV3004.J47 1964- 1964
debilidade mental. Lisboa: Instituto de Serviço Social 256903).
46 MERCEDES, Maria das (1964) – Problemas médico (RL71.M47 1964- 1964
sociais das doenças da pele: (tinha, úlcera da perna, 256893).
piodermite e erisipela) Lisboa: Instituto de Serviço
Social.
47 PEREIRA, Odete de Lourdes Vaz (1964) – A (RC279.P47 1964- 1964
trabalhadora social e o doente canceroso em 257376).
Portugal na actualidade. Lisboa: Instituto de Serviço
Social.
48 URBANO, Maria Alcina Neves (1964) - O problema (RC311.6.U73 1964
da tuberculose e os beneficiários da "Caixa Sindical 1964-257363).
de Previdência dos Profissionais do Comércio”.
Lisboa: Instituto de Serviço Social.
49 AREIAS, Maria Rosa Monteiro (1965) – O alcoolismo: (HV5043.A74 1965
alguns aspectos médico-sociais Lisboa: Instituto de 1965-256891).
Serviço Social.
50 CLODE, Maria Rita Dória Monteiro (1965) – Estudo (RA644.T7 C56 1965
das condições da Tuberculose na Madeira. Lisboa: 1965-257030).
Instituto de Serviço Social.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 66


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

51 OLIVEIRA, Maria de Fátima Rodrigues de (1965) – (RA645.E64 O45 1965


Aspectos médicos da epilepsia. Lisboa: Instituto de 1965-256905).
Serviço Social.
52 PAIS, Maria da Luz Machado de (1965) – Alguns (HV1598.P35 1965
aspectos sociais do problema dos cegos em Portugal 1946-256906).
(Asilo – Escola A.F. Castilho). Lisboa: Instituto de
Serviço Social.
54 RODRIGUES, Maria Yolanda de Melo Cardoso (HQ229.A5 R63 1965
(1965) – Alguns aspectos do problema da 1965-257369).
prostituição. Lisboa: Instituto de Serviço Social.
55 SANTOS, Maria de Lourdes Marques dos – (1965) – (RA644.T7 S26 1965
A tuberculose: alguns aspectos médico sociais. 1965-257235
Lisboa: Instituto de Serviço Social).
56 SEGARRA, Maria Fernando Ribeiro (1965) – Estudo (HB1323.C5 M6 1965
das causas sociais que estão na base da grande 1965-257230).
mortalidade infantil verificada nos bairros nativos –
Inhambane. Lisboa. Instituto de Serviço Social.
57 VELOSO, Maria Beatriz (1965) – O problema das . (HV700.5.V45 1965
mães solteiras. Lisboa: Instituto de Serviço Social 1965-256815).
58 DÓRIA, Mafalda da Câmara (1966) – Aspecto (RM171.D67 1966- 1966
psicológicos da dávida de sangue. Lisboa: Instituto 257364
de Serviço Social.).
59 PEREIRA, Maria de Lourdes Santos (1966) – (HV3004.P47 1966
Importância da prevenção primária na debilidade 1966-257029).
mental. Lisboa: Instituto de Serviço Social
60 ALMEIDA, Maria de Lurdes Nobre (1967) – O (RJ206.A46 1967- 1967
problema alimentar da criança em idade escolar. 257233).
Lisboa: Instituto de Serviço Social.
61 PRATAS, Maria Odete Nunes Alves Lizardo (1967) - (HV3004.P73 1967
Estudo sobre perturbações mentais. Lisboa: Instituto 1967-257378).
de Serviço Social.
62 GOUVEIA, Olga Manuela Homem de (1970) - O (HV687.5.G68 1970
serviço social no Hospital de Santa Maria. Lisboa: 1970-259478).
Instituto de Serviço Social.

Este trabalho proporcionou uma experiência fundamental de diálogo com a área da


arquivística, traduzindo-se num respeito princípios, normas, técnicas e procedimentos,
que são aplicados nos processos de composição, colheita, análise, identificação,
organização, processamento, desenvolvimento, utilização, publicação, fornecimento,
circulação, armazenamento e recuperação de informações

Decorrente deste diálogo interdisciplinar e atendendo a que o presente estudo


pretende incidir sobre o projeto educativo fundador do Instituto de Serviço Social,
optou-se por realizar cortes em função da estrutura curricular, fazendo incidir a
presente pesquisa com o período de vigência do primeiro plano de estudo, em vigor
desde a criação do instituto em 1935 e, o segundo plano de estudos, definido pelo
decreto-lei nº 40678 de 10 de julho de 195612. Contempla-se, assim, um período

12 Vide em anexo AP

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 67


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

temporal de 20 anos correspondendo aproximadamente um total de 175 monografias


sendo que das 61 analisadas, 34 integram o período em análise, correspondendo a
uma amostra de 19,4%.

Estas monografias designadas, como monografia social e familiar ou de instituições


assentam na descrição etnográfica e, como tal, para Yáñez Casal (1996) a sua
objetividade é sempre relativa, já que neste caso a sua relação ao processo
interpretativo está na origem mesma da seleção (construção) do objeto observado e
de toda a tentativa de explicação (Casal, 1996, p. 125). Em sua opinião deve
conceber-se a interpretação como um processo, fazendo parte integrante de toda a
atividade do conhecimento, onde a descrição e a interpretação coexistem e interagem.
Por isso, colocá-las numa relação hierárquica de funções é esvaziá-las de conteúdo,
não invalidando, todavia, que todo o enunciado descritivo mostre a relação que existe
entre o sujeito e o objeto. As descrições comportam sempre interpretações. A sua
origem peso ou configuração derivam sempre quer do objeto observado, quer do
sujeito observador quer, ainda, da ligação entre ambos.

A vasta e restante documentação referente ao Instituto de Serviço Social encontra-se


em depósito sem possibilidade de consulta, são fontes documentais e arquivísticas
fundamentais relativas a toda a sua atividade.

Na senda de outras fontes arquivísticas realizou-se uma aproximação ao arquivo da


biblioteca do Instituto Nacional de Saúde - Dr. Ricardo Jorge, que decorreu de Julho a
Novembro de 2012. Esta aproximação envolveu, paralelamente, assinatura de um
convénio entre a Fundação Minerva/Universidades Lusíada e o Instituto Nacional de
Saúde - Doutor Ricardo Jorge, enquadrando esta e outras pesquisas, a realização de
eventos conjuntos, pretendendo alicerçar futuras iniciativas no âmbito do
conhecimento e da investigação. Abriu-se, assim, a possibilidade de enveredar pelo
estudo de documentos da época tendo esta instituição avançado com o interesse em
explorar o acervo de José Alberto Faria onde se encontra o seu manuscrito de
tradução da obra Social Diagnosis de Mary Richmond publicada em 1950 por este
Instituto designado então por Instituto Central de Higiene.

No Instituto Nacional de Saúde -Dr. Ricardo Jorge localizaram-se, sobretudo, fontes


primárias mais raras como seja o documento editado pelo Instituto de Serviço Social,
Instituto de Serviço Social - Relatório da atividade, nos anos de 1935-1936 [6766/4]
datado de 1936 e ainda de José Lopes Dias as 12 Lições do Serviço Social de 1945.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 68


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Nesta sequência foi ainda consultado, em Agosto de 2014, o espólio de Fernando


Silva Correia, então Diretor Geral de Saúde, prefaciador daquela obra, autor de vários
artigos sobre o Serviço Social, e professor do Instituto de Serviço Social. O espólio do
Professor Fernando Silva Correia encontra-se ao cuidado da Associação Património
Histórico PH – Grupo de Estudos, com sede nas Caldas da Rainha, na Igreja de S.
Sebastião. Esta Associação iniciou a sua atividade em 1990 como unidade de
produção cultural da Casa da Cultura, adquirindo estatuto jurídico autónomo em 1993,
e tem-se dedicado à promoção, valorização e defesa do património, bem como ao seu
estudo rigoroso, nesta região. Neste momento todo o arquivo encontra-se em
péssimas condições de conservação correndo sérios riscos de deterioração. A
documentação encontra-se meramente listado sem ter sido alvo de tratamento
arquivístico, no entanto, da pesquisa realizada não se localizaram documentos sobre o
Instituto de Serviço Social.

No domínio dos arquivos pessoais refere-se, ainda, ao contacto com o espólio da


professora Maria Augusta Negreiros que, para além de outros cargos, desempenhou o
de diretora do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa (1985- 1990). Nesta
sequência foi realizada uma exposição em sua memória que acompanhou o III
Congresso Internacional de Serviço Social realizado em 2014 e que resultou na
doação por parte da família, de todo o seu espólio a este Instituto em Fevereiro do
corrente ano. Neste espólio foi localizado o Alvará nº 263 de Jun/1937 onde o
Ministério de Educação Nacional autoriza a abertura do estabelecimento de ensino
particular denominado Instituto de Serviço Social, documento fundamental para a
história deste Instituto

No arquivo particular do Cardeal Cerejeira [Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1929-


1971)] na posse do Patriarcado de Lisboa, consultado no período de fevereiro e junho
de 2013 e setembro de 2015. Este arquivo possui uma seção destinada ao Instituto de
Serviço Social e foram localizados os seguintes documentos – Tabela 2.

Tabela 2 – Documentos consultados no arquivo particular do Cardeal Cerejeira [Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1929-1971)]


Descrição Cotas Data
doc
1 Instituto de Serviço Social - Resultados
apresentados no 1.º ano de
/S04/02/025 S/data
funcionamento do ISSL

2 Instituto de Serviço Social - Orgânica /S04/01/049 1942?

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 69


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

do Instituto de Serviço Social

3 Associação de Serviço Social - Acta da


Assembleia geral ordinária da
/S04/02/002 1 fevereiro de 1944
Associação de Serviço Social

4 Instituto de Serviço Social – Instituto de


Serviço Social suas dívidas em /S04/02/004 (1.ª
novembro de 1944
Novembro de 1944 folha)

5 Instituto de Serviço Social - Corpo


docente do Instituto de Serviço Social –
/S04/02/005 1944?
Professores

6 Instituto de Serviço Social- Instituto de


Serviço Social origem /S04/01/014 9 de julho de 1945

7 Instituto de Serviço Social - Relatório


da viagem de estudo efectuada por 4
membros dos I.S.S. a França, Bélgica, /S04/02/007 julho de 1947
e Suiça entre Agosto e Setembro de
1946
8 Instituto de Serviço Social – Conta de
/S04/02/009 1947
gerência de 1947. Movimentos de caixa
9 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/009 1948a
do ano de 1947
10 Instituto de Serviço Social – Orçamento
/S04/02/009 1948b
do Instituto de Serviço Social
11 Associação de Serviço Social – Acta da
/S- 04/02/009 1948
assembleia geral ordinária
12 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/01/010 29 de janeiro1949
do ano de 1948
13 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/011 1949
do ano de 1949
14 Associação de Serviço Social- Acta nº
12 da reunião ordinária anual da /S-04/02/010 1949
Assembleia Geral
15 Associação de Serviço Social – Acta nº
14 da reunião ordinária anual da /S-04/02/012 28 de janeiro de 1951
Assembleia do ano de 1950
16 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/012 28 de janeiro 1951
do ano de 1950
17 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/012 25 de janeiro de 1952
do ano de 1951
18 Instituto de Serviço Social -
/S04/02/013 março de 1952
Professores Universitários

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 70


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

19 Instituto de Serviço Social – Carta de


Maria Carlota Lobato Guerra dirigia ao /S04/02/012 2 de Março de 1952
Cardeal Cerejeira
20 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/015 1953
do ano de 1952
21 Associação de Serviço Social – Acta nº
15 da reunião ordinária anual da /S-04/02/012 29 janeiro de 1953
Associação de Serviço Social
22 Associação de Serviço Social – Acta nº
24 da Reunião de Direcção da /S-04/02/015 27 janeiro 1953a
Associação de Serviço Social
23 Associação de Serviço Social – Acta nº
16 da reunião ordinária anual da /S-04/02/015 1953b
Associação de Serviço Social
24 Associação de Serviço Social –
/S-04/02/014 22 janeiro de 1954a
Reunião do Conselho de administração
25 Instituto de Serviço Social – Carta de
Maria Carlota Lobato Guerra dirigida a /S04/02/015 1954b
sua Eminência Cardeal Cerejeira
26 Associação de Serviço Social – Acta
/S-04/02/014 1954b
Assembleia Geral 1954
27 Associação de Serviço Social – Acta de
reunião do Conselho de Direcção e /S-04/02/016 1955a
Administração
28 Associação de Serviço Social – Acta nº
18 da reunião ordinária anual da /S-04/02/016 1955b
Assembleia Geral
29 Instituto de Serviço Social – Breves
29 de janeiro
notas sobre a sua actividade no ano de /S04/02/014
1954a
1953
30 Instituto de Serviço Social – Relatório
/S04/02/016 31 de janeiro de 1955
do ano de 1954
31 Instituto de Serviço Social -
Esclarecimentos acerca das objecções
levantadas a propósito do envio à /S04/01/022 23 de janeiro de 1956
Câmara Corporativa

32 Instituto de Serviço Social - Exposição


/S04/01/030 1957

33 Instituto de Serviço Social – Relatório


/S04/02/016 16 de fevereiro 1957
do ano de 1955

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 71


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No fundo Cardeal Cerejeira foi, ainda, possível ter acesso a fontes secundárias que
pela sua raridade será importante mencionar, designadamente Serviço Social.
Comunicação apresentada ao 2º Congresso transmontano realizada por Barahona
Fernandes em 1941 (S-04/02/016).

Arquivo Salazar localizado no Arquivo Nacional Torre do Tombo e consultado de


setembro a dezembro de 2015. Os documentos consultados foram reunidos na Tabela
seguinte tabela – Tabela 3.

Tabela 3 - Documentos consultados Arquivo Nacional Torre do Tombo

Nº de Descrição Cotas Data


ordem
1 Condessa de Rilvas PT/TT/EPJS/SF/001- 1937-12-24
001/0048/2652L
2 O Cardeal patriarca presidindo à PT/TT/EPJS/SF/001- 1937-06-10
sessão solene no Instituto de 001/0044/1124L
Serviço Social. [Identificado no
álbum:] Dom Manuel Gonçalves
Cerejeira
3 No Instituto de Serviço Social. PT/TT/EPJS/SF/001- 1937-02-20
Algumas alunas procedendo à 001/0042/0160L
confecção de doces.
4 No Instituto de Serviço Social, PT/TT/EPJS/SF/001- 1937-02-20
durante a visita do sr. Ministro do 001/0042/0159L
Interior. [Identificado no álbum:] Dr.
Mário Pais de Sousa
4 O Ministro do Interior com algumas PT/TT/EPJS/SF/001- 1937-02-20
das dirigentes do Instituto de 001/0042/0158L
Serviço Social (que o Dr. Mário
Pais de Sousa visitou).
[Identificados no álbum:] Dr. Mário
Pais de Sousa; Drª Dona Maria
Guardiola; Condessa de Rilvas
7 Exposição acerca do Instituto de [AOS/CO/ED-1G] 1944
Serviço Social entregue ao
Ministro da Educação Nacional
5 Realização, pela Obra das Mães PT/TT/AOS/D- 1957-12-31
pela Educação Nacional, de D/1/12/13
cursos de agentes de educação
familiar.
6 Realização de exposição dos PT/TT/AOS/D- 1955-02-04
Centros de Formação Familiar da D/1/10/10
Obra das Mães pela Educação
Nacional

Regista-se aqui a oportunidade que poderá constituir a realização de um trabalho, na


localização de outros lugares de memória, sobretudo ligados a instituições com as
quais o Instituto articulou a sua ação, como sejam, Misericórdias, Confrarias,
Organizações corporativas, Hospitais, Centros de saúde, Empresas, etc. Este trabalho

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 72


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

poderá conduzir a uma recolha de fontes diversificadas (documentais, iconografias e


orais) e a sua disponibilização por forma a sustentar a abordagem científica no
domínio da história do Serviço Social. Sabe-se, no entanto, à partida a dificuldade em
encontrar apoios materiais e financeiros necessários para a concretização deste ideal.

Todos os dados obtidos pelas diferentes vias, foram por sua vez triangulados ou
contrastados por forma a assegurar a sua precisão e veracidade os dados. À medida
que os dados foram sendo reunidos, foram elaborados quadros documentais e mapas
conceptuais relacionando os documentos, sistematizando e interrelacionando a
informação recolhida.

A partir destes foram sendo construídas diferentes categorias, onde se distribuíram as


subcategorias de análise, as quais permitiram organizar de forma diacrónica o
conhecimento da realidade social que foi o projeto educativo fundador do Instituto de
Serviço Social e do seu desenvolvimento ao longo de duas décadas. No decorrer do
processo foram eleitas três categorias. A primeira ligada às questões estruturais e de
suporte do projeto educativo, uma segunda categoria introduzindo uma análise a partir
de um ângulo funcional e político sobre as atividades desenvolvidas, selecionando das
funções desempenhadas as que esclarecem a posição deste Instituto quanto ao
modelo de exercício de atividade e a sua relação com outras organizações da
sociedade portuguesa de então. Por último, o ângulo da configuração do campo de
conhecimento em que assenta o exercício profissional a partir do qual se pretendeu
entender quais as áreas e campos de atuação e funções desempenhadas, setores de
intervenção e saídas profissionais para o cumprimento da sua missão na sociedade.

No domínio do desenho da investigação empírica utilizou-se como recurso a análise


de conteúdo, técnica eleita para analisar o material empírico recolhido o que permitiu
efetuar um conjunto de operações destinadas a enriquecer o corpus de informação e a
atribuir sentido aos dados recolhidos sem atingir a riqueza das suas significações. A
discussão de todo o material empírico recolhido e, desta forma sistematizado,
enveredou por uma dimensão descritiva e simultaneamente interpretativa decorrente
das questões enunciadas face ao objeto de estudo.

Com o objetivo de proporcionar o confronto da informação recolhida com a citação de


excerto ou conclusões retiradas todos os documentos reunidos encontram-se
organizados em anexo.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 73


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 74


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

2. ORIGEM E EVOLUÇÃO INICIAL DO SERVIÇO SOCIAL

A história do Serviço Social encerra em si mesmo elementos fundamentais, não só,


para tornar esta profissão compreensível nos dias de hoje como, também, para
entender a importância e o papel que a formação tem vindo a desempenhar ao longo
do tempo. Conhecer a génese e evolução inicial do Serviço Social torna-se, deste
ponto de vista, um requisito incontornável para entender a peculiar dinâmica que
esteve na base da criação e desenvolvimento das primeiras escolas de Serviço Social.

Outro ponto de vista será o de entender as influências dos movimentos fundadores na


articulação com a “questão social” emergente no final do século XIX, os esforços de
resposta realizados pela sociedade e a estruturação dos primeiros fundamentos em
Serviço Social.

2.1. ALGUNS ANTECEDENTES REMOTOS DO SERVIÇO SOCIAL

Na edição traduzida para português13, da obra de Mary Richmond “Diagnóstico Social”


(1917) pelo Dr. José Alberto Faria14, Fernando Silva Correia (Correia, 1950)
igualmente médico, Diretor Geral de Saúde, do Instituto Superior de Higiene Dr.
Ricardo Jorge e professor do Instituto de Serviço Social, prefacia esta obra abordando
as origens, evolução e conceito do Serviço Social onde dividiu a história do Serviço
Social em quatro grandes períodos:

1º - Origens pré cristãs da verificação das necessidades do que hoje se chama o


Serviço Social e esboço da técnica aplicável aos conceitos de então. 2º - Orientação
que o Cristianismo imprimiu à prática do Serviço Social. 3º - A origem da reacção no
começo do Séc. XIX e das experiências feitas desde então até 1899, de onde resultou

13 Edição portuguesa de 1950 realizada pelo Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, atualmente
Instituto Nacional de Saúde – Dr. Ricardo Jorge
14 O manuscrito da tradução elaborada pelo Dr. José Alberto Faria faz parte do seu fundo entregue ao

Instituto Nacional de Saúde – Dr. Ricardo Jorge. Com o intuito chamar a atenção sobre a relevância
histórica e científica deste acervo foi por mim coordenada uma mostra documental intitulada “A
assistência na saúde em Portugal, 1930-1970: INSA e ISSSL - dois percursos, um objetivo” permitindo
testemunhar, de uma forma tangível, como dois percursos institucionais se cruzaram, e se cruzam, por
diversas vezes na promoção do indivíduo na sociedade. A mostra esteve patente na Sala de Exposições
– ULL de 21 novembro a 21 dezembro 2012. No âmbito desta mesma iniciativa foi desenvolvido um
seminário “Ação Social e Promoção da Saúde”, que contou dois painéis intitulados: "Cidadania e
participação em saúde" e "Promover a saúde: novos desafios". Foi assinado o convénio entre a Fundação
Minerva/Universidades Lusíada e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, pretendendo
alicerçar futuras iniciativas no âmbito do conhecimento e da investigação. Este seminário contou com as
parcerias do Instituto Nacional de saúde – Dr. Ricardo Jorge, Escola Nacional de Saúde Pública e o
Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa/Universidade Lusíada de Lisboa.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 75


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

o Serviço Social.4º- A fixação definitiva do conceito e da técnica e a expansão do


Serviço Social em todo o mundo (Correia, 1950, p. XV).15.

O primeiro período é situado numa era pré-cristã onde já haveria preocupação em


fazer “bem o Bem”. Na Grécia e em Roma, sabemos que já era prática distribuir
géneros aos necessitados, sobretudo de pão e que nas Olimpíadas, nos espetáculos
de circo, etc., já se reservavam lugares aos pobres. No entanto, com o intuito de se
organizarem essas distribuições tornava-se necessário distinguir o pobre do
preguiçoso, dos “parasitas” e dos simuladores dando lugar a listas prévias de pobres
após inquirida a população (Correia, 1950, p. XVI). Entre os judeus já era prática as
visitas domiciliárias a velhos, a enfermos e “entrevados”, com o intuito de lhes levar
esmola suficiente ou, pelo menos, para minorar as suas necessidades.

Muitos são os exemplos enunciados por Correia (1950). Aristóteles (384-322 a.C.),
Platão (427-347 a.C.), Séneca (04 a.C.- 65 d.C.) e Cícero (106 a.C- 43 a.C.) ter-se-ão
dedicado à sorte dos necessitados, não só cuidando de esmolas materiais mas,
também, do que seria o auxílio justo, oportuno e humano. Instituições no velho Egipto,
como sejam a “Confrarias” do deserto, 3.000 anos antes de Cristo, tinham como
missão apoiar a marcha das caravanas cuidando das fontes nos oásis, de abrigos e
alimentação para os viajantes. Os collegia romanos, os eranistas gregos e os guildes
escandinavos, germânicos e persas eram instituições com o objetivo da ajuda mútua e
defesa profissional, seja dos direitos, seja do aperfeiçoamento técnico dos confrades.

15 Fernando Silva Correia nasceu no Sabugal (1983-1966). Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra em
1917, tirou em Lisboa as especialidades de Medicina Sanitária em 1920 e de Hidrologia em 1921. Defendeu a tese de
formatura apesar de estar dispensado de o fazer por ter sido expedicionário em França, sendo o Título da tese –
Profilaxia das febres tifoide e paratifoides A e B pela vacinação. O curso de Medicina Sanitária, ministrado no Instituto
Central de Higiene, fornecia a habilitação necessária para o exercício do cargo de delegado de saúde. Fez parte da
comissão nomeada pelo governo para estudar as bases da reforma dos Serviços de Assistência em Portugal. De entre
os vastos trabalhos publicados conta-se o Portugal Sanitário (subsídios para o seu estudo). Dissertação para
Doutoramento em medicina na Universidade de Coimbra. 1 Vol. de 554 págs., Lisboa 1937. Em 1934 foi nomeado
Inspetor da 3.ª Área da Saúde Escolar para os distritos de Castelo Branco, Guarda, Setúbal, Portalegre, Évora, Beja e
Faro, e iniciou a sua carreira docente como professor de Administração Sanitária, Estatística Sanitária, Higiene Social e
Assistência Social e Demográfica no Instituto Central de Higiene Dr. Ricardo Jorge (novo nome atribuído em 1929 em
homenagem ao seu fundador), do qual foi diretor de 1946 a 1961. Dos anos Entre 1935 e 1957, foi também docente no
Instituto Serviço Social, lecionando a disciplina de Profilaxia das Doenças Venéreas, Legislação Sanitária e História da
Assistência. Em 1957 prefaciou a tradução portuguesa do livro Diagnóstico Social de Mary Richmond realizada pelo Dr.
José Alberto Faria em editado pelo Instituto Ricardo Jorge. Empenhou-se em divulgar os preceitos de higiene e
educação junto das classes populares, sobretudo junto das mães e das classes menos favorecidas. Para além disso,
teve um importante papel na área da Educação Física, defendendo uma orientação educativa e denunciando os
malefícios dos desportos violentos. O seu trabalho como polígrafo conta com vários títulos dos quais se destaca O ABC
das Mães (1930), Breviário de Higiene Moral (1931), A Educação Física e a Medicina em Portugal (1935), Origens e
Formação das Misericórdias Portuguesas (1944) e Origens, Evolução e Conceito da Higiene Moderna (1950).
Revelando-se um homem culto, escreveu ainda peças de teatro, como A Máscara (1915) o romance Vida Errada
(1935) e várias biografias sobre diversas personalidades, tais como Arruda Carvalho, Ricardo Jorge, rainha D. Leonor,
entre outras. Fernando da Silva Correia faleceu a 19 de dezembro de 1966, em Lisboa. (CORREIA, Fernando Silva -
Curriculum Vitae e GRAÇA (2000)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 76


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Um segundo período, refere Correia (1950), corresponde ao início do Cristianismo


distinguindo-se pela maior humanização dos costumes, preocupação com a justiça,
sobretudo, para com os mais humildes. Destaca a este propósito os Evangelhos onde
se incluem as 14 Obras de Misericórdia16 na tentativa de suprir contra as
necessidades humanas. Perante a descrição detalhada da ação católica, o autor
chama a atenção para o doutrinador máximo de toda a doutrina S. Tomás de Aquino
(1224-1274) e para a revolução Luterana. O ataque da reforma de Martinho Lutero
(1483-1546), que proclama a supremacia da Fé e a pouca importância da Caridade,
ao contrário do proclamado pelas doutrinas de S. Paulo e de Santo Agostinho (354-
430) resultou, segundo Correia, na desorganização da assistência, sobretudo na
Inglaterra e na Alemanha e, mais tarde, em outros países incluindo os que não
acompanharam a Reforma e se mantiveram católicos. Daqui resultou, pois, a
preocupação de reorganizar a assistência em bases laicas, sob a égide dos Estados
indo ao encontro, essencialmente, das necessidades materiais.

Neste período, mas mais tarde, no século XVII, surge o movimento iniciado por S.
Francisco de Sales (1567- 1622), estimulando os leigos à prática da caridade e em
meados desse século em França, S. Vicente de Paulo (1581-1660) fez renascer as
velhas confrarias cristãs tradicionais pela ação direta dos leigos na prática da caridade
organizada, porém

A Revolução Francesa entretanto fazia tábua rasa de tudo e proclamava princípios


novos, entre os quais o do direito à assistência, a contrapor ao dever de todos a
prestarem, individual ou coletivamente, isolada ou em instituições organizadas. Foi no
rescaldo das paixões desencadeadas pela Revolução Francesa, cujos princípios se
estenderam a todos os países, que se gerou o Serviço Social moderno organizado
(Correia, 1950, p. XX).

O terceiro período apontado por Correia (1950, p. XXI) encontra-se ligado às


perturbações sociais que resultaram das grandes transformações verificadas de 1750
a 1850, transformações dos métodos de trabalho, devidas à organização industrial que
deram lugar ao capitalismo moderno, crescentemente preocupado com os aspetos
materiais e com a ânsia do lucro e pouco com os aspetos psicológicos e morais das

16As 14 Obras da Misericórdia distinguem-se em Obras Corporais e Obras Espirituais. As Obras


Corporais são: 1ª Dar de comer a quem tem fome; 2ª Dar de beber a quem tem sede; 3º Vestir os nus; 4ª
Dar pousada aos peregrinos; 5ª Assistir os enfermos; 6ª Visitar os presos; 7ª Enterrar os mortos. As
Obras espirituais são: 1ª Dar bons conselhos; 2º Ensinar os ignorantes; 3ª Corrigir os que erram; 4ª
Consolar os tristes; 5ª Perdoar as injúrias; 6ª Sofrer com paciência as fraqueza do próximo; 7ª Rogar a
Deus por vivos e defuntos.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 77


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

classes menos favorecidas. Os operários, na sua maioria e suas famílias eram


esquecidos e a questão social começou a preocupar grande parte dos espíritos
filantrópicos sendo esta meditação sobre múltiplos aspetos da miséria e das suas
causas que deram origem, igualmente, ao Serviço Social moderno

Correia destaca o facto curioso de que o movimento racionalista que deu origem ao
Serviço Social moderno partiu paradoxalmente de países onde o conceito de Lutero
originara as mais graves consequências, como se se tratasse de uma reparação
histórica à luta contra a caridade tradicional.

Por último, o quarto período, refere-se à conhecida obra da Sociedade de Organização


da Caridade de Nova Iorque (C.O.S.- Charity Organization Society), fundada em 1882
por Josephine Shaw Lowell (1843-1905) e ao trabalho notável de Mary Ellen
Richmond (1861-1928) que apresentou durante um curso de verão (em 1898) uma
proposta para a criação de uma Escola para o Ensino da Filantropia aplicada (Training
School in Applied Philantropy) dando origem, em 1899, à Escola de Filantropia que,
mais tarde, havia de passar a pertencer à Universidade de Columbia e em 1919 a
designar-se como Escola de Serviço Social.

Na Europa, a primeira escola de Serviço Social foi a de Amesterdão, também fundada


em 1899, e em Berlim, no mesmo ano, foram iniciados cursos por Alice Salomon
(1872-1948) mas só transformados em escola em 1908. Em Inglaterra a primeira
escola de Serviço Social foi fundada em 1908 na Universidade de Birmingham. Em
França em 1911, foi fundada pelas Mlles Novo e Buttillard a Escola Normal Social,
católica, e em 1913 a escola protestante, pelo Pastor Émile Doumergue (1844-1937),
ambas em Paris. Na América Latina a primeira escola foi fundada em Santiago do
Chile, em 1925.

Para Correia, “foram fixados precisamente em 1899, tendo como ponto de partida
essas escolas, os tipos de instituições e principalmente os pormenores da Técnica do
Serviço Social” (Correia, 1950 p. XXV). Reforça que a sua técnica aprende-se nas
escolas mas a orientação em cada uma delas e a formação dos seus professores está
longe, em todo o mundo, de ser uniforme.

Para explicar os antecedentes mais remotos, Sánchez (1994, p.20) por seu turno,
segue uma linha de pensamento diferente. Desde sempre, a sociedade humana foi
obrigada a enfrentar as desventuras, doenças, desajustes sociais mas, também,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 78


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desde sempre, o grupo humano, a família, a tribo, a igreja, comunidade ou a filantropia


privada, assumiram por seu turno, a responsabilidade de atender e satisfazer essas
mesmas necessidades.

A ação social, por seu turno, constitui um processo progressivo que se inicia na ajuda
natural enraizada nas primeiras formas de vida em sociedade, assentes nas
exigências de cooperação mútua para vencer necessidades de vida precária, e que se
transforma com o tempo numa série de serviços assistenciais, seja de caridade, de
beneficência, de filantropia e bem-estar social institucional. Ou seja, que passa de uma
simples ajuda de caráter paliativo assistencial para um complexo sistema tecnificado
do Estado resultante da afetação e administração de bens e serviços à população em
geral, com o objetivo de proporcionar determinadas condições de vida e de bem-estar
social.

Até ao final do seculo XVIII, ações que não eram sistemáticas no atendimento a
situações de necessidade e desamparo estiveram na mão de pessoas ou de
organizações privadas. São organizações de inspiração cristã empenhadas na ajuda
ao próximo através de atividades para cumprir o dever religioso e que se designa de
caridade e beneficência, ou de realizar o bem por amor ao próprio ser humano a que
se dá o nome de filantropia.

Cada uma destas inspirações teve os seus representantes. Diversas pessoas de


diversas procedências e formações ofereceram contributo significativo que as coloca
próximo do Serviço Social: Juan Luis Vives (1492-1540), Vicente Paulo (1581-1660),
Benjamín Thompson (1753-1814), Thomas Charlmers (1780-1847), Daniel Von Der
Heydt (1802-1874), Octavia Hill (1838-1912), pioneiros da assistência social
organizada. Para Sánchez (1994) quem mereceu maior preferência e mais atenção
por parte dos estudiosos foi o revendo Thomas Chalmers (1780-1847). Contudo para o
presente estudo realça-se a importância dos seus contributos para configurar alguns
princípios e práticas, nos finais do século XIX.

No entanto, a autora chama a especial atenção para o facto de não se dever


considerar como etapas da profissão, todas as formas de ajuda não sistematizada. A
ação de ajuda realizada com fins de caridade ou filantropia, não pode ser aceite como
o início ou a origem de uma profissão tal como por vezes se tenta explicar na história
do Serviço Social. Sánchez (1994) defende que estas formas de ajuda devem ser,
apenas, consideradas como antecedentes remotos da profissão, pois não basta ter

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 79


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

boa intenção. É necessário que estas intenções sejam bem-feitas, sejam eficazes e
eficientes. A ajuda efetiva não consiste apenas em socorrer, numa eventualidade, as
pessoas mais necessitadas, requer antes de mais a aplicação de métodos e técnicas,
permanentes e adequadas, para realizar a capacitação dos envolvidos não só para a
utilização dos próprios recursos como da própria sociedade, isto é, tanto ao nível
individual como coletivo.

Netto (1992) analisa o itinerário que leva dos intentos de racionalização da assistência
à criação dos primeiros cursos de Serviço Social, na passagem do século XIX ao
século XX, para refutar a tese de que a constituição da profissão seria a resultante de
um processo cumulativo, onde o seu ponto de arranque resulta da “organização” da
filantropia, culminando na incorporação gradual de parâmetros teórico-científicos e no
afinamento de um instrumental operativo de natureza técnica. Ora, para Netto (1992) a
questão exibe alguma debilidade na medida em que se torna inepta para dar conta do
elemento central do processo que respeita ao fundamento e que legitima a
profissionalidade do Serviço Social. Se assim fosse, a legitimação profissional era
localizada no embasamento teórico e não, na criação de um espaço socio-ocupacional
onde o agente técnico se movimenta. É, portanto, no estabelecimento das condições
histórico sociais resultante da emersão do mercado de trabalho que surgem as
demandas destes agentes profissionais.

O autor não nega a relação de continuidade que, efetivamente existe entre o Serviço
Social profissional e as formas filantrópicas assistenciais desenvolvidas desde a
emergência da sociedade burguesa. No entanto estas formas estão longe de fornecer
a chave para elucidar a profissionalização do Serviço Social. Em primeiro lugar,
porque a emergência de um novo agente profissional não se cria a partir do nada. O
caminho da profissionalização é o processo pelo qual os seus agentes se inserem em
atividades interventivas cuja dinâmica, organização, recursos e objetivos são
determinados para além do seu controlo, pois passam a desempenhar papéis que lhes
são alocados por organismos e instâncias alheios às matrizes originais das
protoformas do Serviço Social. O Serviço Social constituiu-se como profissão
inserindo-se no mercado com todas as consequências daí decorrentes, tornando-se
vendedor da sua força de trabalho.

Um mercado de trabalho não se estrutura ou comporta para com o agente profissional,


mediante as transformações que ocorrem no interior do seu referencial ou no marco

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 80


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

da sua prática, muito pelo contrário, estas transformações expressam a estruturação


do mercado. Por conseguinte para Netto (1992), não é o Serviço Social que se
constitui para criar um determinado espaço na rede socio-ocupacional, mas a
existência deste espaço que leva à constituição profissional. O esclarecimento da
profissionalização não se dá na continuidade evolutiva das protoformas ao Serviço
Social, mas sim na rutura com elas, concretizada pela instauração de um espaço
determinado na divisão social e técnica do trabalho. Em termos históricos universais, a
emergência profissional de Serviço Social decorre do surgimento do capitalismo
monopolista através do qual se instaura o espaço que propicia a profissionalização do
Serviço Social, tendo por base as modalidades, através das quais o Estado burguês
confronta a “questão social”, tipificando as políticas sociais.

A partir destas referências, considerou-se fundamental realizar alguns enfoques,


designadamente, incidindo sobre o surgimento da “questão social” e sobre o
movimento iniciado pela Charity Organization Society.

2.1.1. A “QUESTÃO SOCIAL” E EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL

No decorrer do século XIX começou a perceber-se paulatinamente que praticar a


verdadeira caridade não consistia apenas em praticar a ajuda discriminada. Era
necessário estudar as causas dos problemas e de outros males sociais e gerir
recursos para que as pessoas pudessem contribuir para a sua própria reabilitação.

O século XIX foi marcado pela revolução industrial e pelo triunfo do liberalismo no
domínio económico e político, significaram um contributo para o amplo progresso do
ponto de vista da economia europeia. Assistiu-se às grandes transformações mas, em
contrapartida, deram também origem a grandes desigualdades do ponto de vista
social. O liberalismo trouxe consigo grandes abusos e exploração que provocaram
graves e complexos problemas sociais, ao acentuar as diferenças de classe e pondo
em relevo as más condições de vida e de trabalho das classes menos favorecidas.

Por esta época refere, Sánchez (1994, p 24) surgem, também, o pensamento crítico
sobre o sistema capitalista, responsabilizando-o por estes grandes males, dando
origem à publicação em Londres do Manifesto Comunista (1848) escrito por Karl Marx
(1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) e o Capital (1867) por Karl Marx. Para
Engels, será na revolução industrial que se devem radicar as profundas mudanças
operadas não só a nível industrial e económico como, também, a nível de toda a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 81


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

estrutura social, gerando inclusivamente uma nova classe social - o proletariado. Ou


seja, a pessoa que não possui outra forma de sustento que não seja vender a sua
força de trabalho e que habita em bairros “marginais” e “miseráveis”.

Estas circunstâncias incitaram e conduziram à compaixão de alguns setores das


classes altas, as quais, pelo fato de possuírem uma maior instrução e cultura,
tomaram consciência do problema sentido e se envolveram na procura de soluções.
Da própria burguesia e de uma parte da nobreza saíram os primeiros teóricos sociais e
reformadores. Se, por um lado, criticavam o sistema económico vigente não deixavam,
por outro, de propor novas formas de organização da sociedade e da economia.
Porém, muitas destas ideias não foram capazes de se materializar como uma
alternativa de mudança e muitos destes autores não conseguiram passar da
sociedade em que viviam para a sociedade a que aspiravam, originando a rotulação
de “utópicos” imprimindo o sentido de que as suas teorias eram um sonho ou uma
quimera.

Neste seguimento tendo a Revolução Industrial o seu maior foco na sociedade inglesa,
a assistência social organizada tornou-se, então, como entende Friedlander (1977)
uma resposta desta sociedade perante a avalanche de problemas sociais provocados
pela Revolução e pelo Liberalismo económico e político vigente, centrado
dogmaticamente na não intervenção do Estado. Terão sido três os movimentos que
influenciaram a filosofia social e a prática da assistência social no século XIX, os
Movimentos de Reforma Social, os Movimentos de Investigação Social e as
Sociedades de Organização Cristã, apesar de representarem uma ideologia própria e
possuírem uma inquietação comum.

Sendo Movimentos de Reforma Social, faziam parte Martinez (1991, p. 182) os críticos
de algumas leis inglesas, designadamente os Cartistas que tentaram impedir a
aplicação do Novo Direito dos Pobres de 1834, nas zonas industriais. Apesar da sua
denúncia na Câmara dos Comuns, este Novo Direito acabou por se impor
gradualmente tanto nas zonas rurais como nas zonas agrícolas, devido à falta de força
sindical e à existência de um sistema de ordem forte e repressiva. Fracassaram,
também, todas as suas intenções políticas na aplicação para todos os cidadãos, do
sufrágio universal e do direito ao voto secreto.

Os Socialistas Cristãos, entre eles Octavia Hill (1838-1912), requereram ajuda à


própria Igreja para satisfazer a ânsia das massas pela emancipação social e cultural,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 82


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desenvolvendo um patrocínio a inúmeras associações cooperativas e em concreto aos


seus trabalhadores. Implantou aulas noturnas para a educação de adultos e fundou
em Londres, em 1854, o “Working Men”s College” (Colégio para Trabalhadores). Esta
seria, tal como sublinha Sánchez (1994, p.25), a escola para adultos, pioneira entre as
primeiras escolas a ministrar a Formação Geral de Damas Voluntárias que
colaboravam em obras de promoção social e educativa e que inspiraram,
posteriormente, as Escolas de Trabalho Social.

Outro passo significativo na melhoria das condições de vida dos trabalhadores, no


pensamento de Martinez (1991), originou-se com a introdução do mutualismo por
parte dos sindicatos, garantindo, para os seus membros, a necessária ajuda em caso
de doença, acidente de trabalho, desemprego, invalidez e viuvez. O êxito obtido nas
realizações cooperativas e mutualistas foi precisamente o que conduziu à constituição
do “Trade Union Congress” (federação sindical nacional). Neste domínio, várias
conquistas se sucederam e o movimento de reforma conseguiu alcançar, com a sua
influência, a libertação dos trabalhadores da ameaça contínua da necessidade. Deu
um impulso ao movimento sindical britânico obrigando a que o mundo do trabalho
deixasse de ser um mero objeto de compaixão e de socorro, constituindo-se como
uma nova força a ter em conta pelo governo.

Outro impulso decisivo realizado por este movimento de reforma social, no entender
de Martinez (1991, p. 183) foi, o da magna investigação social inglesa sobre a pobreza
e as suas causas que culminou na obra de Charles Booth (1840-1916), intitulada Life
and labour of the people in London de dezassete volumes, iniciada em 1889 e
terminada em 1903. Nos Estados Unidos foi também a partir do livro de Henry George
(1839-1897) intitulado Progress and poverty, publicado em 1879. Estas obras
produziram uma alargada preocupação, decorrente da descoberta da pobreza
conduzindo a que muitos se entusiasmassem com o seu enfrentamento. A este
propósito, Martinez (1991) chama, ainda, a atenção para um estudo em seu entender
mais interessante e melhor documentado que se converteu na obra Poverty, publicada
em 1904 por um trabalhador social nos Settlements de Chicago, Nova Iorque e
Londres, Robert Hunter (1874-1942).

Efetivamente no início do século XX, o ataque à pobreza foi, em parte, dirigido por
grupos que não se ocupavam tradicionalmente dos pobres, tais como os cientistas
sociais, os jornalistas e os pensadores políticos. Mas a chamada “Reforma” foi muito

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 83


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

bem salvaguardada por clérigos progressistas, protestantes, católicos e judeus e, é


claro, pelos trabalhadores socialistas do Settlements. São preocupações que
envolvem os menores, as excessivas jornadas de trabalho, os baixos salários dos
operários não qualificados, as mães viúvas, os idosos, a migração e sobretudo a
imigração, entre outros. Foram estas as grandes questões atacadas pelos
reformadores sociais no princípio do século XX até à Primeira Guerra Mundial, durante
a qual a reforma social perdeu toda a sua capacidade de mobilização extinguindo-se
praticamente com ela.

Também devido à “questão social” a Igreja católica sentiu a necessidade de marcar a


sua posição produzindo diversos documentos onde se destacam as encíclicas papais.
Tais encíclicas, em mais do que uma ocasião representaram modificações
substantivas nas ações doutrinárias e na ação política da Igreja Católica.

No período em que o Serviço Social transita para a sua profissionalização, quando


penetra nos centros de ensino superior e se vincula a certas instâncias do Estado,
duas encíclicas papais tiveram um papel sumamente importante para enformar o seu
desenvolvimento. Refere-se a encíclica Rerum Novarum, divulgada por Leão XIII
(1878-1903), a 15 de maio de 1891 e 40 anos depois a encíclica Quadragésimo Anno,
divulgada por Pio XI (1922-1939) a 15 de maio de 1931.

A Carta Encíclica Rerum Novarum (1891) de Leão XIII (1878- 1903), por natureza a
primeira na hierarquia eclesiástica, aborda a chamada “questão social” e divide-se em
duas partes: “A solução proposta pelo Socialismo” e a “A solução proposta pela
Igreja”.

Logo nas primeiras linhas, o documento situa diretamente a questão nevrálgica da


classe operária

[...] os progressos recentes da indústria e novos caminhos trilhados pelos ofícios, a


mudança operada nas relações entre patrões e trabalhadores, o enriquecimento de uns
poucos e o empobrecimento da multidão, a maior confiança dos operários em si
mesmos e a união com que se juntam entre si e, enfim, a corrupção de costumes
fizeram eclodir a guerra (Leão XIII, 1891, p.3-4).

Constatados estes factos, a encíclica aponta para a necessidade de tocar no cerne da


“questão social”, esclarecendo que esta tarefa compete à Igreja em razão da relação
que existe entre a sua causa e a do bem comum.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 84


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Garcia (2003, p.108) lembra que foi Leão XIII (1878-1903), quem sugeriu aos católicos
uma atitude concreta a assumir frente aos conflitos gerados pela instauração do
capitalismo desenvolvido como modo de produção dominante, sustentando que o
Estado tem o dever de intervir a favor dos trabalhadores e dos grupos sociais menos
favorecidos. Apesar de aceitar, em termos gerais, o sistema da propriedade privada
sobre os meios de produção, assinala que o capital só pode legitimar-se se se colocar
ao serviço das necessidades da comunidade afirmando a competência do magistério
da Igreja nos problemas sociais. Contudo, exige que o Estado adote medidas
protetoras a favor dos trabalhadores industriais em matéria de higiene, segurança
laboral tutela e descanso semanal, limitação de horários e proibição do trabalho
infantil. Exorta os trabalhadores a organizar-se em associações profissionais.
Estimulou o crescimento do catolicismo social e a inserção da Igreja na comunidade.

Esta seria uma época de profundas mudanças. A implicação da Igreja no social era
complementar ao auge dos pensadores sociais e do posicionamento dos diferentes
estados, que davam os primeiros passos do que mais tarde viria a chamar-se “Estado
de Bem-Estar” e para o qual a Igreja teve uma notável influência.

Quarenta anos depois da Rerum Novarum, em plena crise económica, 1929-1933, Pio
XI (1931) publica a Carta Encíclica Quadragesimo Anno. Esta Encíclica mais do que
uma mera comemoração da magistral Encíclica de Leão XIII (1878-1903), tratou-se de
uma intervenção católica num momento crucial do desenvolvimento do mundo
industrializado. Pois, segundo Pio XI (1931) a missão da Igreja é encaminhar todos
para a felicidade eterna, mas não pode deixar de intervir em tudo o que respeite à
moral e seria uma erro pensar que a economia não se deve subordinar a esta.

Nesta direção, a Quadragésimo Anno torna claro que a riqueza nasce das mãos de
quem trabalha, mas igualmente das matérias-primas e das forças da natureza que o
Criador cedeu. Na indústria, associam-se os que dão o seu trabalho aos que investem
as suas posses, razão pela qual, seria injusto atribuir a uns e a outros, todos os frutos
dessa associação. Para os princípios liberais, continua esta Encíclica, considera-se
erroneamente, que a lei fatal da economia consiste nos patrões acumularem todo o
capital. Mas falso será também pensar, que os frutos do trabalho, amortizado o capital,
devam pertencer todos aos operários. Há, portanto, que repartir as riquezas pelos
indivíduos ou pelas classes, de acordo com o bem comum e com a justiça social.
Neste sentido, deve ser procurada, a todo o custo, a promoção dos trabalhadores mais

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 85


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desfavorecidos, ou seja, os operários. A distribuição, porém, só será possível se o


trabalhador puder extrair algumas economias do seu salário, o que coloca o salário
como uma questão central.

Não será só a propriedade mas, também, o trabalho que tem uma dimensão social e
neste sentido deve articular-se com a inteligência e com o capital. Há que empreender
uma reforma nas instituições sendo necessária a promoção da harmonia entre as
profissões mediante a reconstituição dos corpos profissionais, conjugando-se entre si
e todos em ordem ao bem comum. Se a unidade social não pode assentar na luta de
classes, também a ordem económica não pode nascer da livre concorrência. Ou seja,
o princípio regulador da economia deve ser uma ordem jurídica e social inspirada na
justiça e animada pela caridade. Para isso contribuirá não a Ação Católica
diretamente, mas aqueles por ela formados (Pio XI, 1931).

Os desenvolvimentos no magistério de Pio XI (1922-1939) e Pio XII (1939-1958) são


documentos onde se afirma que a Doutrina Social da Igreja é parte integrante do
ensino cristão sobre o homem e que deve ser administrada nas escolas católicas
através da formação religiosa, traduzida numa prática onde a conceção do problema
social seja considerada como parte inseparável.

2.1.2. O MOVIMENTO DA CHARITY ORGANIZATION SOCIETY:O PIONEIRISMO

No sentido de compreender o Serviço Social enquanto campo de conhecimento e fruto


de um contexto histórico, teremos de prestar atenção aos fatores que dominaram o
cenário académico, social e político internacional, no sentido de estabelecer, de forma
adequada, quais foram os contributos das principais figuras pioneiras para a sua
definição e de como a sua prática afetou o seu desenvolvimento na sua origem.

Na reflexão desenvolvida por Aguado (2006) devemos atender a quatro aspetos


fundamentais que condicionaram o Serviço Social nas suas origens sendo importante
prestar-lhes atenção compreendendo paralelamente a mais-valia das propostas
realizadas pelas principais figuras representativas.

Essa atenção deve incidir em primeiro lugar sobre a aparição de instituições de Bem-
Estar como resultado de conflitos políticos no seio das sociedades industriais. A
expressão mais clara desse movimento encontra-se na Charity Organization Society.
Estes movimentos deram lugar a uma revisão da ordem socioeconómica implantada

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 86


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

pelo capitalismo liberal perante a sua injustiça patente. Esta revisão realizou-se a partir
do próprio liberalismo cedendo a princípios humanitários e morais e também de
posições que pretendiam, senão reformar o sistema para assegurar a sua
sobrevivência, pelo menos mudá-lo radicalmente. Apesar de tudo, a sociedade não é
tomada como um espaço de tranquilidade e prosperidade mas um lugar de conflito e
de tensão.

Assiste-se, desde as áreas mais conservadoras da sociedade, ao desenvolvimento de


ações de beneficência e caridade, destinadas a melhorar as condições de vida dos
trabalhadores e dos pobres. Com o desejo de melhorar as condições de vida e a
tornar o sistema mais aceitável mas não a questioná-lo, procede-se a uma revisão e
expansão das organizações de caridade, em cujo seio, se originará o Serviço Social.

As primeiras visitadoras amigáveis, educadoras da classe operária, serão então


mulheres pertencentes à classe burguesa que, guiadas pelo espírito do utilitarismo,
pretendem melhorar de vida. O Serviço Social nasce no seio destas organizações de
caridade que têm como finalidade contribuir para melhorar as condições de vida da
população desassistida sem contudo, questionar a lógica que gerava as situações de
enorme desigualdade. A intenção seria a de intervir através de medidas de prevenção
e proteção social, no seio da classe trabalhadora e não tanto em nome do princípio da
igualdade, ou da solidariedade, isto é, sem conceder aos assistidos, direitos sobre o
espaço político e de soberania.

A génese da London Charity Organization Society, enquanto movimento que teve as


suas raízes na urbanização, na perda de comunidade e na ajuda mútua que prevalecia
em áreas rurais dos países ocidentais, foi fundada em Inglaterra em 1869, tornando-se
um modelo para os Estados Unidos.

O surgimento desta instituição representou para Sánchez (1994) um passo importante


para a conceção e organização das práticas assistenciais, na medida em que, a par do
desenvolvimento do direito dos pobres e da filantropia privada, criou um novo método
de atuação para remediar a pobreza existente no período vitoriano. Entre outros,
Thomas Chalmers (1780-1847) teria sido um dos seus principais inspiradores.

Inicialmente, designada como Society For Organizing Charitable Relief And


Repressing Mendicity, esta sociedade exerceu uma influência decisiva na história do
Serviço Social contando entre os seus dirigentes membros influentes da sociedade

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 87


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

inglesa daquela época, designadamente a própria rainha que chegou a fazer parte do
seu comité organizador e chegando no começo a estar integrada na Universidade de
Oxford e Cambridge.

O verdadeiro espírito desta sociedade foi Charles Stewar Lock (1849-1923).Tendo


sido secretário-geral entre 1875-1913, os seus princípios e medidas significaram um
grande avanço para a ajuda caritativo e social, considerado por todos como a
representação mais genuína desta organização. O trabalho desenvolvido levou, pois, à
necessidade de introduzir a racionalidade científica na ajuda e sujeitar a ação à
aplicação de princípios e critérios, a saber:

1- Substituir os múltiplos donativos indiscriminados por uma completa investigação de


cada caso;

2- Elaboração de um plano de ajuda em colaboração com a pessoa solicitante;

3- Prestar ajuda adequada e suficiente ou, caso contrário, não a prestar;

4- Fazer um seguimento de cada caso até que fosse resolvido;

5- Prestar ajuda só aos “pobres merecedores”, os “não merecedores”, segundo o


Direito dos Pobres, não eram ajudados;

6- Manter um cuidadoso arquivo com toda a documentação utilizada (Sánchez, 1994,


p.28).

Ainda de acordo com esta autora, os princípios básicos enunciados foram desde
sempre, mantidos pela Charity Organization Society, bem como as suas ideias
simples, eficazes e bem acolhidas naquela época e cuja difusão se materializou nos
diferentes ramos desta associação, seja em Londres seja em outras cidades inglesas,
europeias bem como, oito anos depois, na América do Norte onde a associação teve o
nome de Charity Organization Movement e também Scientific Charity.

Outra linha fundamental que importa anunciar para este trabalho, reporta-se à
emergência histórica dos Centros Sociais. O primeiro Centro Social surgiu em
Inglaterra no século XIX, pela mão do pastor protestante Samuel Barnett (1844-1913)
e sua mulher Lady Harriet Barnett (1851-1936) e da sua preocupação com o abandono
das classes operárias e, do mútuo desconhecimento e separação existente entre as
classes sociais. Era sua intenção realizar algo que viesse a diminuir as distâncias
entre as pessoas, promovendo um conhecimento recíproco, o levantamento
educacional e social das classes trabalhadoras, tomando a família no seu todo como

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 88


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

uma unidade social, tornando-a mais capaz para a vida. Esta tentativa foi levada à
prática, ao transformarem a casa paroquial da paupérrima paróquia de São Judas,
onde Samuel Barrnett era pastor, numa “casa de todos”, e onde os habitantes do
bairro passariam as suas horas de lazer, trocando conhecimentos e recebendo lições.

A ideia, segundo Oliveira (1955, p 8) teria nascido em 1873, quando o casal, sediado
em White Chapel, frequentava Oxford e Cambridge, convidando universitários a
compartilhar a sua vida, preocupações e dificuldades com operários, recebendo lições
de paciência, de companheirismo e abnegação em troca de instrução, educação e
amizade. Esta experiência, tão bem acolhida deu corpo, em 1887, ao projeto de
Toynbee Hall estruturado a partir de uma grande casa, preparada para receber um
grande número de jovens que quisessem vir compartilhar com os operários as
dificuldades por eles sentidas. O sucesso desta ideia foi-se rapidamente expandindo,
dando origem a centros sociais um pouco por todo o lado, com resultados satisfatórios
adaptando-se às contingências, especiais e imediatas de cada local e de cada época.
Em breve, outros settlements eram fundados tanto na Inglaterra como em outros
países e, Oliveira (1955) refere existir Federation of Residential Settlements ou a
Educational Settlements Assotiation que agregam centros sociais de iniciativa tanto
pública, como particular.

O primeiro país a receber a lição do casal Barnett, foi a América do Norte com os
primeiros Settlements em Nova Iorque, no ano de 1886, e em Boston criado pela ação
de Robert Archey Woods (1865-1925) e ainda em Chicago, por Jane Addams (1860-
1935). No entanto, enquanto os primeiros possuíram características universitárias o
último, a Hull House, foi adaptado pela sua fundadora à vida americana já que não se
constituiu como uma obra de universitários para trabalhadores mas sim uma obra para
todos aqueles que quisessem trabalhar pela melhoria social.

Em França, os centros sociais surgem da adaptação e evolução das obras existentes


sendo, ao que se julga, a obra dirigida por Mercédès Le Fer de La Motte (1862-1933) a
primeira a vir concretizar-se como Centro Social. Em 1887, movida pela miséria dos
bairros operários, aceitou o cargo de direção de um albergue e asilo para meninas
que, pouco a pouco, se transformou na obra de Popincourt criando círculos para pais,
rapazes, irmãos das crianças assistidas pela obra, e aulas de costura para mães e
jovens (Oliveira, 1955, p. 10; Almeida, 1960, p, 23, 24). Há réplicas da fundação de
outros Centros Sociais, já em 1891, na Holanda, na Alemanha em 1892 e no Canadá

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 89


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

em 1901. No Brasil, ao que julga Oliveira (1955), terá sido “Engenho Dentro”, no Rio
de Janeiro, da “Legião Brasileira de Assistência”, quando ali existiu Serviço Social.

A fundação dos Centros Sociais reveste-se de extrema importância para este trabalho
na medida, em que será possível melhor entender as bases do projeto educativo
Instituto de Serviço Social. Como veremos mais adiante, o próprio Instituto de Serviço
Social chegou, neste período a criar três centros sociais, que sendo uma realidade
emergente no século XIX não pararam de evoluir até por se tratar de

[…] uma resposta dinâmica a problemas humanos prementes [...] Ao mesmo tempo
que se espalhavam por toda a parte iam alargando e aprofundando a consciência das
suas possibilidades, mercê do aproveitamento de novas luzes que as ciências
humanas e o métodos e técnicas de acção social vieram trazer-lhes (Almeida, 1960, p.
24, 25)

Das pioneiras americanas evidencia-se a obra de Jane Addams (1860- 1935) membro
da Sociedade Sociológica Norte Americana, prémio Nobel da Paz em 1931.
Conhecedora, como já se referiu, da obra dos Barnett, pensou criar algo parecido
tendo para isso conversado com vários cientistas sociais. Sobre esta autora, contam-
se as memórias e a experiência do seu projeto mais emblemático, a Hull House um
famoso Centro Social em Chicago do qual foi cofundadora e que desenvolveu com a
sua colega Ellen Gates Starr (1859-1940) em 1889.

Trata-se um projeto inovador de acolhimento de imigrantes nos Estados Unidos


desenvolvendo, não só, um trabalho comunitário na área da infância e da juventude
como foi, também, um ponto incontornável na vida intelectual de Chicago,
convertendo-se num lugar de reunião e de discussão para os intelectuais reformistas e
radicais mas também para sindicalistas, militantes e políticos. Para Addams

[…]não era suficiente investigar a situação dos necessitados: era principalmente


necessário conhecer o modo de viver e de pensar para compreender a situação e as
causas dos males. Era preciso, portanto conviver com as classes pobres e a residência
era meio para conseguir este intento (Vieira, 1984, p.56).

A contribuição de Amy Gordon Hamilton (1892-1967), por seu turno, para com o
Trabalho Social é, igualmente, fundamental e diversa na medida em que combinou o
seu trabalho na New York School of Social Work, a qual integrou em 1923, como
consultora e gestora de diferentes campos relacionados com o Trabalho Social.

Realizou uma investigação social e publicou obras de referência mais concretamente


no domínio do Trabalho Social na saúde. Foi editora-chefe na revista Social Work e

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 90


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

publicou vários trabalhos fundamentais para esta disciplina, como por exemplo Theory
and practice of social case work (1958), publicada originalmente em 1940, em que
declara a sua posição filosófica e política sobre o trabalho. Estes axiomas são, por
exemplo: a melhoria do homem é a meta de toda a sociedade; à medida que se
pretende desenvolver os recursos económicos e culturais de um grupo social o nível
de vida melhora progressivamente; a educação que tende a elevar o nível físico e
mental e o bem-estar das pessoas deve ser amplamente desenvolvida; o laço social
entre o homem e outro homem deve conduzir à realização do velho ideal de uma
irmandade universal (Hamilton, 1950).

A ética que deriva destas premissas e outras similares conduz a duas ideias
fundamentais que colocam o Trabalho Social entre as profissões humanísticas.

A primeira é que o acontecimento humano está constituído por uma pessoa e uma
situação, ou seja uma realidade subjectiva e uma realidade objectiva, que comporta em
si uma interação constante. A segunda, em que o método característico do trabalho
social, a fim de alcançar a suas metas, incorpora nos seus processos tanto o
conhecimento científico como os valores sociais (Hamilton, 1987, p.1).

Mary Ellen Richmond (1861-1928) conta em contrapartida com duas obras mais
significativas. Em 1904 iniciou o seu livro Social diagnosis (1917) que escreveu ao
longo de décadas vindo a publicar em 1917 pelo Conselho Geral dos Colégios Oficiais
de Diplomados em Trabalho Social e Assistentes Sociais e o segundo What is social
case work? (1922) Publicada por Russell Sage Foundation. A sua curiosidade
intelectual, sempre ávida de conhecimentos que sustenta o Social Case Work e
evidencia a distância entre os voluntários e os profissionais. Este livro surge como a
marca mais definitiva do seu trabalho e onde incorpora distintos elementos da sua
passagem pela Escola de Chicago.

No contexto europeu o primeiro trabalho que descreve a situação do Trabalho Social


em diversos países europeus é de René Sand (1931) – Le Service Social a travers le
monde. Assistence. Prevoyance-hygiene, publicado em Paris pela Librairie Armand
Colin. Nesta sua primeira obra, Sand (1931) proporciona uma abundante informação
sobre como se organizam os “Conselhos Locais de Atividades Sociais” nas cidades e
os “Conselhos das Coletividades Rurais no Campo”, a coordenação dos delegados
nas obras privadas com os representantes dos serviços públicos, a criação de um
“Conselho Nacional de Serviço Social” englobava, igualmente, as obras nacionais, as

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 91


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

federações de funcionários, a união de municípios, de condados e inclusivamente os


departamentos ministeriais.

Também em Portugal, José Alberto Faria (1888-1958) na suas notas de tradutor da


edição portuguesa da obra Diagnóstico social (1950) coloca em relevo aspetos do
pensamento de Richmond, salientando a tese da autora já de 1917 e, portanto, com
“larga e minuciosa experiência” em que “é pela análise profunda das relações sociais
de cada caso que se fixará o rumo para se descobrirem as causas da incapacidade
que o atormenta” (Faria, 1950, p. XIV) e, portanto, se fixará a plataforma para reduzir o
tratamento mais conveniente, quer dependa da ação médica quer de outra igualmente
específica. José Alberto Faria evidencia o esforço de Mary Richmond de penetração
na verdade humana e social, entrando desembaraçadamente e pormenorizadamente
no campo do tratamento social.

2.2. AS PRIMEIRAS ESCOLAS DE SERVIÇO SOCIAL A NÍVEL


INTERNACIONAL

As escolas de Serviço Social são hoje uma realidade em todos os países, tendo
nascido e evoluído em consonância com cada contexto histórico e social. Neste
sentido, poderá afirmar-se, por conseguinte, que viveram as mesmas etapas,
tendências, influências, contradições e que tratando-se de uma mesma realidade
educativa e social, tentaram criar uma resposta às necessidades sociais que surgiram
em cada momento histórico.

As primeiras escolas de Serviço Social, enquanto centros docentes e formativos,


representam hoje o melhor registo da profissão, pelo que, para entender o seu
trabalho pedagógico e a sua incidência na sociedade, temos de ter presente o
contexto histórico e social no qual se desempenharam essas funções.

Até à fundação das escolas, o Serviço Social era desempenhado por voluntários, no
entanto, ao longo do século XIX foi tomando forma a ideia de que não era possível
continuar a agir empiricamente e que o Serviço Social deveria ter conceitos definidos e
normas exatas, sendo para isso necessária uma formação para quem conduzir o seu
exercício (Vieira, 1955). É no decurso de 1893 e durante o Congresso das
Organizações de Caridade e Correção nos Estados Unidos que foi lançada por Mary
Richmond, a ideia da criação de uma escola de filantropia aplicada – Training School
in Aplied Philantropy. Esta proposta veio a consubstanciar-se em 1898, na primeira

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 92


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

escola de filantropia, hoje a “New York School of Social Work” filiada à Columbia
University.

De uma forma decisiva, os assistentes sociais, contribuíram para a elevação do


Serviço Social a disciplina científica, tornando-se uma profissão que requer formação
específica, tanto teórica como prática, comprometida com o aperfeiçoamento das
técnicas e influenciando, com as suas experiências, o currículo das próprias escolas.
Enquanto profissionais reuniram-se em associações que, por seu turno, também
desempenharam um papel importante, não só no aperfeiçoamento do ensino, como na
organização da profissão.

Em 1955, na Europa, as associações profissionais seguiram, preferencialmente como


o plano confessional, existindo a Association Internationale des Écoles de Service
Social, de caráter leigo e a Union Catholique Internationale des Écoles de Service
Social esta última composta, na sua maioria, por escolas francesas e belgas. Nesse
mesmo ano, na França e na Bélgica, o ensino e exercício da profissão já era
regulamentada por lei, havendo vantagens concedidas aos diplomados e penalizações
para os que exerciam ilicitamente a profissão (Vieira, 1955, p. 10),

A nível internacional salienta-se o estudo de natureza descritiva realizado por Sánchez


(1994), sobre a implantação e evolução das Escolas de Trabalho Social em Espanha
que localiza a sua emergência, em 1932, neste país. Através da sua obra, indo ao
encontro de um ponto de observação histórico, penetra-se não só na dimensão
cronológica, como também geográfica e social, no período compreendido entre os
anos de 1932 e 1983 pois, para no pensamento da autora, conhecer a génese e
evolução das escolas de Trabalho Social é um requisito imprescindível para
compreender a dinâmica peculiar do desenvolvimento do próprio Trabalho Social,
tanto em Espanha como noutros países (Sánchez, 1994).

O processo assemelha-se ao percurso do ser humano, através da história, ou seja,


primeiro fez as coisas e só depois as pensou a fundo, analisou-as e elaborou uma
teoria. Por esta razão, algumas atividades especiais ou ocupações, que hoje são
profissões, foram-se, pouco a pouco sistematizando e organizando. Este foi o caso
dos assistentes sociais, quando no princípio sentiram a necessidade de demonstrar
que o seu trabalho não podia ser simplesmente exercido por pessoas de boa vontade.
A primeira etapa do Trabalho Social consistiu no esforço por estabelecer uma posição
profissional que distinguisse os Assistentes Sociais das Visitadoras e dos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 93


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Reformadores Sociais, que através de movimentos humanitários do século XIX


procuravam melhorar as condições dos pobres, exercer reformas na sociedade e
despertar a consciência social (Sánchez, 1994).

Uma das etapas mais significativas para as escolas de Serviço Social foi, sem dúvida,
a compreendida entre as duas Guerras Mundiais 1914-1945. Pelo que na tabela 4,
que em seguida se apresenta, poderemos verificar que é no final do século XIX e
princípio do século XX e sobretudo de 30-50, que as escolas de Serviço Social
começam a espalhar-se por todo o mundo.

Tabela 4 - Evolução das escolas de Serviço Social no mundo (1958)

1896-1900 1901-1910 1911-1920 1921-1930 1931-1940 1941-1950 1951…

Países Suiça Bélgica Argélia Hawai Noruega Yugoslávia


Baixos Alemanha Suécia U.Sul afric. Perú Hong-Kong Tailândia
Estados Inglaterra Austria Japão Argentina Filipinas São
Unidos França Canadá Finlândia Dinamarca N. Zelândia Salvador
Chile India Líbano Turquia
Uruguai Egipto Coreia China
Brasil Panamá Marrocos
Áustria Bolívia
Portugal Itália
Porto Rico Grécia
Irlanda Equador
Israel Colombia
México Costa Rica
Espanha Venezuela

Fonte: Traduzido de Sánchez (1990, p. 185) in “Las Escuelas de Trabajo Social en España” Arquivo da federação espanhola das
escolas da Igreja de assistentes sociais (1958)

Na Alemanha, a educação sistemática em Serviço Social começou em 1899, em


Berlim, liderada por Alice Solomon (1872-1948), destinada unicamente a mulheres e
considerada por muitos como um dever que se integra num papel tipicamente feminino
(Otte 2007; Otte, 1989). No entanto só em 1908 é que Alice Solomon17 (1867-1936)

17Alice Solomon de nacionalidade alemã estuda economia de 1902 a 1906 doutorando-se em 1908 com
a dissertação intitulada “ Causes of pay inequality between men and women” e fundou a primeira escola
de Serviço Social “Social Women”s Shool” em Berlim, torna-se em 1909 secretaria da International
Women”s Federation e converte-se do Judaismo para a Igreja Luterana. Em 1932 esta escola foi

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 94


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

fundou a primeira escola “Social Women’s School”, que só admitiu mulheres até 1945,
ofereceu inicialmente um curso de dois anos sendo, posteriormente, alargado em 1959
para uma formação de quatro anos. Atualmente é designada de Alice Salomon
University of Applied Sciences.

Na Europa, outro impulso deveu-se ao Cardeal Mercier (1851-1926) o qual, em 1925,


criou a primeira escola de Serviço Social na Bélgica, e que, através da União Católica
Internacional de Serviço Social (U.C.I.S.S.), organismo criado em 1925 em Milão com
sede em Bruxelas, expandiu o Serviço Social (Sánchez, 1990).

É, também, neste período que se cria em Portugal a primeira escola de Serviço Social.
A história da União Católica Internacional de Serviço Social e a história do Serviço
Social católico no mundo esteve presente nos programas das escolas de Serviço
Social e Portugal não fugiu à regra. Na tabela 5 que se segue poderemos consultar a
vasta influência da União Católica Internacional de Serviço Social na implementação
no ano de 1964, das escolas de Serviço Social, já espalhadas pelos quatro
continentes.

Tabela 5 - Escolas de Serviço Social filiadas na União Católica Internacional de Serviço Social em 1964

América Europa Asia Africa

Estado Unidos 6 Alemanha 14 Ceilão 1 Angola 1


Canadá 3 Áustria 2 India 6 Congo 1
México 2 Bélgica 11 Hong - Kong 1
Argentina 4 França 11 Vietnam 1
Brasil 21 Espanha 28
Chile 2 Itália 23
Colômbia 6 Holanda 8
Guatemala 1 Portugal 3
Perú 1 Suiça 1
Uruguay 1
Venezuela 1
Fonte: Traduzido de Sánchez (1990, p. 186) “ Las Escuelas de Trabajo Social en España” Arquivo da federação espanhola das escolas
da Igreja de assistentes sociais (1964)

Os primeiros professores das escolas pioneiras do Trabalho Social em Espanha foram


formados pela primeira escola Belga - Escola Católica de Serviço Social, fundada em

renomeada “Alice Salomon Shool” mais tarde “Alice Salomon College of Further Education for Social Work
and Social Sciences of Berlim”

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 95


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

1920 sob os auspícios do Cardeal Mercier (1851-1926), fato que determinou uma
orientação cristã do Serviço Social e um impulso definitivo da profissão (Sánchez,
1994).

No tratamento deste tema assinalaram-se etapas fundamentais no desenvolvimento


desta formação pioneira e da profissão em Espanha. Primeiramente o estabelecimento
das escolas por parte da Igreja e o exercício da profissão, em campos abertos pela
iniciativa privada, gerou um aumento paulatino dos índices de profissionalização e na
criação de novas escolas por outros promotores para além da Igreja. Em seguida, veio
a etapa da superação dos métodos e técnicas de trabalho e, por fim, o
reconhecimento oficial dos estudos de assistentes sociais por parte do Ministério da
Educação através de um Decreto de 30 de Abril de 1964 (Sánchez, 1994, p. 48).

A todas estas etapas teremos ainda de acrescentar, segundo Sánchez (1994,) a crise
e evolução do movimento de actualización y cambio, na década de 70, face às novas
tendências e perspetivas da profissão.

Na Bélgica, em 1946, o programa oficial seguido pelas escolas obriga a uma formação
de três anos de estudos onde as alunas podiam escolher seis especializações: -
Serviço Social, Educação Popular, Serviço Social de Infância, Serviço Social de
Indústria entre outras, todavia, projetavam um curso a quatro anos (Vale, 1946).

Em França, em 1946 encontravam-se já em funcionamento, as seguintes escolas


especializadas no ensino do Serviço Social:

- Escola de Serviço Social, Gand;

- Escola de Puericultura da Faculdade de Medicina de Paris, Boulevard Brune. Esta


escola toma como objetivo desenvolver e coordenar o ensino da puericultura para os
médicos, parteiras e enfermeiras e, subsidiariamente, formam assistentes sociais num
curso de dois anos e meio;

- Escola de Serviço Social do Sudeste, Lyon. Fundada em 1933 para formação de


assistentes sociais, com programa definido em três anos.

Na Bélgica, Escola Católica de Serviço Social do Secretariado-geral das Obras Sociais


Femininas Cristãs da Bélgica, Bruxelas;

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 96


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No panorama africano a criação das primeiras escolas de Serviço Social, sobretudo no


Norte de África, remonta a 1924 com escola de enfermeiras de Tunis. Em 1932 surge
a escola de enfermeiras de Alger (que se expande em 1942 para formar igualmente as
auxiliares sociais) e em 1946 o Instituto Superior de Trabalho Social da República
Unida Árabe.

De acordo com dados publicados em 1964 pelas Nações Unidas, a maior parte das
instituições educativas em Serviço Social no continente africano são criadas muito
mais tarde, uma em 1956, quatro em 1959, três em 1962 e uma em 1963
(Organização das Nações Unidas, 1964).

Estas escolas formavam enfermeiras e parteiras e, por conseguinte apresentavam um


plano de formação fortemente centrado na saúde, na higiene, nos dispensários, com
programas que gradualmente se enriqueciam com noções de Serviço Social. A escola
de saúde pública de Tunis (Escola Avicenne) oferecia, deste modo, cursos em 10
seções diferentes: enfermeiras, técnicos de laboratório, preparadores em farmácia,
paramédicos, parteiras, anestesistas, assistentes sociais, auxiliares sociais, jardineiros
de infância e ainda animadores sanitários e sociais (Organização das Nações Unidas,
1964).

A formação em Serviço Social iniciava-se com a preparação para o mercado de


trabalho, sobre a direção de um instrutor qualificado, na maioria das vezes não
africano. Foi assim, que os primeiros auxiliares realizaram a sua aprendizagem na
maior parte dos países francófonos, onde os ciclos de estudos, as conferências e as
breves etapas de formação vêm completar essa formação prática.

As “Jeanes Schools”18, no este e sul de Africa, desenvolveram um outro método de


formação dos assistentes sociais: formando agentes polivalentes (educação,
agricultura, higiene ou administração local) antes ou depois da sua afetação às zonas
rurais. O ensino era normalmente completado por cursos intermitentes de
entretenimento. As aldeias modelo, eram organizadas sob a direção de agentes
sociais e dos seus instrutores, os chefes, os notáveis e os habitantes aprendiam a
trabalhar em conjunto para melhorar o bem-estar geral.

18As Jeanes Schools são escolas construidas para ajudar o ensino de negros no sul dos Estados Unidos
da América. Anna T. Jeanes concedeu um apoio financeiro considerável para o aprofundamento e
fomento da educação rudimentar em pequenas escolas negras rurais e o fundo incorporado como Fundo
Escolar Rural Negro. Este conceito alargado para outras regiões fora dos Estados Unidos da América

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 97


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Noutros países do oeste africano, designadamente no Ghana e na Nigéria, a formação


profissional em Serviço Social era um dos objetivos prioritários antes da
independência deste país. Nesta linha, em 1946, foi criada no Ghana uma escola de
proteção social para formação de habitantes locais. Após a frequência de um curso de
nove meses, os alunos diplomados eram nomeados delegados ou auxiliares sociais
nos serviços oficiais. Para encorajar os interessados a continuar os seus estudos, todo
o recrutamento de pessoal não inteiramente qualificado, sofria uma redução salarial.
Em 1955, institui-se um certificado de administração social (dois anos de estudos)
para relevar o nível de formação e permitir aos africanos aceder às mais altas funções
(Organizações das Nações Unidas, 1964).

De acordo com as Nações Unidas (1964), tanto a nível básico como superior, o ensino
visava, sobretudo, o ensino de métodos e técnicas de trabalho. Nos países
desenvolvidos a formação assenta na ação sobre pequenos grupos e na ajuda aos
indivíduos, ao passo que nos países em vias de desenvolvimento o Serviço Social é
frequentemente organizado na escala comunitária ou de grupos mais extensos. Na
Europa, existiam vários institutos superiores que ofereciam vários cursos destinados
especificamente a estudantes estrangeiros. São exemplo, o Instituto de Serviço Social
de Moutrouge na França que possuía cursos especiais para assistentes sociais
africanos; a London School of Economics onde se preparava o certificado em Ciências
Sociais e Administração e o College Universitaire de Swansea, que dispensava um
curso de proteção social para estudantes de outros continentes bem como outras
escolas análogas na Bélgica.

Em suma, nos diversos países, a formação em Serviço Social reveste aspetos


diferentes não só, quanto ao conteúdo dos programas, como às condições de
admissão das escolas mas contudo o seu objetivo é geralmente o mesmo, ou seja,
preparar o assistente social para fornecer serviços num determinado país, fazendo-o
compreender o valor da ação social e o ensinamento de técnicas e conhecimentos
necessários a essa prática. A preparação deve compreender cursos teóricos e uma
experiência prática. Estes cursos enquadravam, sobretudo, em três grandes
categorias: a) formação de auxiliares (cursos não profissionais); b) formação
profissional de base (assistentes sociais); c) a formação de quadros superiores (cursos
pós secundário ou universitários) (Organização das Nações Unidas, 1964).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 98


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Entre 1950 e 1960, foi criado um grande número de escolas de formação de auxiliares
sociais com programa de estudos de três anos designadamente em Bamako19,
Ouagadougou20, Cotonou21, Fort-lamy22, Conacry23 e Bangui24. Estas escolas
ministravam cursos de gestão, instrução cívica e moral profissional bem como noções
de corpo humano completados, de acordo com cada escola, com uma formação
prática. Os alunos eram admitidos com 15 e 16 anos para trabalhar sobre a direção de
assistentes sociais qualificados. Relativamente à formação profissional de base, eram
cursos profissionais que visavam formar assistentes sociais no sentido da atribuição
de um certificado de especialização profissional, para alunos já titulares de diplomas
universitários. Em geral a duração dos estudos para, esta categoria, era de três anos
(Organização das Nações Unidas, 1964, p. 3).

Em países de expressão francesa o ensino das raparigas popularizou-se em vários


países como seja no Mali, na República do Congo (Brazzaville) e no Senegal onde se
abriram escolas de Serviço Social ao nível do segundo ciclo do secundário. Estas
escolas admitiam, também, alunos titulares do diploma pelo Estado. No final dos seus
estudos, os alunos recebiam o diploma de assistente social ou de ajuda social.

Nos países de língua inglesa, encontram-se escolas equivalentes ao Collége de


Oppenheimer (Zâmbia) onde, por exemplo, o ensino assenta em três anos. O primeiro
ano é consagrado às ciências sociais fundamentais e dirige-se a alunos não titulares
de um diploma universitário. Os cursos do College de Oppenheimer preparam
diferentes tipos de case-work, de trabalho com grupos e de desenvolvimento
comunitário e confere uma formação de base nos domínios da investigação, da
estatística e da administração social.

Nas áreas das ciências sociais considera-se necessária e fundamental o ensino da


Psicologia, Antropologia social e Antropo-etnologia, Sociologia, Ciência política,
Administração, Direito, Economia política, como para integrar a formação do Serviço
Social. Esta recomendação foi apresentada em outubro/novembro de 1963 pelo Ciclo
de Estudos sobre formação para o Serviço Social em Lusaka. Entre elas aponta-se
para que determinados elementos das ciências humanas e sociais podem ser

19 Bamako - Capital do Mali


20 Ouagadougou - Capital do Burkina Faso
21 Cotonou - A maior cidade do Benin
22 Fort-lamy - Atualmente N”Djamena capital do Chade, designada Fort –Lamy desde a sua fundação

pelos franceses até 1973


23 Conacry – Capital da República da Guiné
24 Bangui – Capital da República Centro-Africana

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

escolhidas pelo interesse que oferecem do ponto de vista da formação em Serviço


Social e dos ensinamentos de uma forma integrada, com diferentes noções
selecionadas a partir das disciplinas anexas (Organização das Nações Unidas, 1964).

Para a Organização das Nações Unidas (1964) o objetivo geral do ensino das noções
relativas ao homem e à sociedade, é compreender o comportamento humano. A
escolha das noções sociais no ensino visa, sobretudo, incutir no estudante
conhecimentos, que o ajudarão no seu trabalho com indivíduos, grupos, instituições e
as coletividades. Esses conhecimentos serão tão importantes quanto permitam avaliar
as necessidades em estabelecer e executar os programas de caráter preventivo e
curativo.

A formação de quadros superiores reveste-se de particular importância em certos


países africanos, designadamente em países de expressão francesa na medida em
que eram necessários funcionários superiores para substituir quadros superiores
europeus, na administração dos serviços e das escolas de Serviço Social, e desta
forma, assegurar o desenvolvimento equilibrado dos serviços no contexto do
desenvolvimento económico e social do país (Organização das Nações Unidas, 1964).

Em 1956, em Munique, no decurso da reunião com especialistas em matéria de


formação em Serviço Social, organizado pela Organização das Nações Unidas,
resumia-se como domínios de estudos os seguintes:

Conhecimentos e técnicas a incutir na formação profissional do trabalho social:

Conhecimentos gerais: a) Estudo do homem; b) Estudo da sociedade

Conhecimentos metodológicos a) Teoria e prática do trabalho social b) Administração.

Técnicas especiais: a) Treinamento da utilização dos métodos de trabalho social; b)


Administração; c) Investigação; d) Ensino (Organização das Nações Unidas, 1964, p.
5).

Passando agora para o contexto da América Latina foi em 1925, que se inicia o
funcionamento daquela que foi a primeira escola de Serviço Social em Santiago do
Chile, fundada pelo Dr. Alejandro del Río Soto Aguillar (1867-1936) e, efetivamente, a
primeira escola na América Latina (Castro, 2008).

Realizando uma aproximação a este período, Castro (2008) confronta as ideias de


Ander Egg (1975) e Barreix (1971) registando duas perspetivas sobre a origem do

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Serviço Social na América Latina. Para Ander Egg (1975), o ano de 1925 pode ser
considerado o ano de nascimento do Serviço Social profissional na América Latina e
marca a criação da primeira escola da especialidade num país latino-americano.
Contudo, o Serviço Social latino-americano sofreu uma forte e decisiva influência
externa nomeadamente entre 1925 e 1940, do influxo belga, francês e alemão e, a
partir de 1940, passou a ter um selo vincadamente norte-americano.

Barreix (1971), por seu turno, introduz um distanciamento face às ideias de Ander-
Egg, com quem colaborou em algumas edições acentuando que o fato, da escola ter
sido criada por um médico é um dado de extrema relevância, pois nesta época os
médicos já sabiam muito bem que poderiam rentabilizar o seu trabalho fazendo-se
rodear de uma série de subalternos que na sua dependência e direção, lhes vão
dando conta do cumprimento de tarefas específicas complementando a função médica
propriamente dita. Deste modo, o Serviço Social na América Latina surge como uma
subprofissão subordinada à profissão médica, na medida em que estes, incluindo o Dr.
Alejandro del Río (1867-1936), procuravam elevar a sua eficiência e rendimento,
través do recurso a outras formações. Mais tarde, o mesmo aconteceria com
advogados e outros profissionais e também com as próprias instituições de
beneficência que passam a estimular o desenvolvimento do Serviço Social. As
assistentes sociais, concluído o seu curso, não ficavam restritas ao trabalho com
médicos e advogados. As instituições sociais apresentavam-se como um excelente
campo de trabalho incorporando o seu desejo de fazer bem o Bem.

Na tentativa de diferenciar etapas, Castro (2008) distingue, a partir dos autores


referenciados: a assistência social do Serviço Social e do Trabalho Social. Para
Barreix (1971) a primeira caracteriza-se pela ideia de fazer bem o Bem com recurso à
técnica. O Serviço Social, em contrapartida, seria a forma de ação social que enfatiza,
antes de tudo a prevenção e os desajustes. Segundo Ander Egg (1975) assistência
social não é senão o exercício técnico da caridade, ao passo que o Serviço Social
incorpora preocupações técnico científico, com elevação do estatuto profissional de
psicologização do marco teórico de referência e de tecnicismo pretensamente neutro e
asséptico.

A fundação, no Chile, em 1925, de uma escola de Serviço Social inaugura, para


Castro (2008), uma nova etapa dentro da profissão, marcando assim um novo patamar

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de institucionalização produzida pela incorporação do Serviço Social no espetro das


profissões de nível superior.

No Brasil, a ideia de uma escola de Serviço Social é situada, no entender de Vieira


(1955), em 1932, quando as Cónegas de Santo Agostinho de S. Paulo, contratam
Mlle. Adéle de Loneux uma especialista belga para realizar um curso de três meses de
“Iniciação à Ação Social”. Duas alunas deste curso, concretamente Albertina Ramos e
Maria Kiehl desenvolveram posteriormente esta formação com a duração de três anos
na Bélgica, diplomando-se na Escola Católica de Bruxelas. De regresso, em 1936,
fundam a primeira escola do Brasil, a Escola de Serviço Social de São Paulo. Em
1937, funda-se a outra escola de Serviço Social, desta feita, filiada na Universidade
Católica do Rio de Janeiro, o Instituto Social com a direção confiada à Mlle Germaine
Marsaud, assistente social francesa, formada pela Universidade de Louvain
propositadamente contratada para este fim e que imprimiu orientação cristã no
currículo e programas.

2.3. OS MODELOS E MÉTODOS DO SERVIÇO SOCIAL TRADICIONAL

O Serviço Social tradicional pode ser situado no período que medeia entre a
institucionalização da profissão (início do séc. XX) e os anos 60 e 70 rompido pelos
movimentos de renovação que surgem por toda a Europa, nos Estados Unidos e
América Latina e que questionam, não só o Serviço Social como toda a organização
social.

Os modelos, enquanto processos sistemáticos e racionalizadores orientados para o


conhecimento científico da realidade e sua transformação são recursos indispensáveis
na gestão profissional, pois, permitem a obtenção de avanços e resultados
satisfatórios no desenvolvimento de objetivos e funções pré-determinadas.

No terreno profissional os modelos de atuação fazem referência aos padrões de


procedimentos standartizados, assumidos pelos coletivos profissionais e, uma vez
inspirados por determinadas escolas ou correntes de pensamento, marcam
tendências, orientam formas específicas de atuação e definem princípios e técnicas.
Neste sentido, pode então dizer-se que o desenvolvimento histórico da profissão foi
acompanhado de uma rica e ampla gama de modelos de atuação que foram afinando
e depurando ao longo do exercício profissional, correspondendo a uma variedade de
circunstâncias contextuais e funcionais.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Porém, se historicamente a profissão tem sido profícua em guias de intervenção


empírica permitindo, no entender de Diaz (1987), uma orientação racional do exercício
profissional, no seu desenvolvimento teórico os métodos tomados como modelos de
intervenção empírica orientaram uma prática assistencialista, preventiva e promocional
mas não a investigação científica especializada. Este cenário fruto de um reflexo
histórico que não o atual, levou ao nascimento de uma profissão eminentemente
empírica, sem uma teoria científica e ausência de núcleos de investigação científica
que possibilitassem a construção teórica do Serviço Social respondendo aos avanços
da ciência.

Até às décadas dos anos 20 e 30 do século passado esteve no auge um trabalho


Social psicodinâmico baseado nas teorias freudianas dada, entre outros motivos, a
necessidade da profissão adotar um estatuto “científico” ao trabalho exercido pelos
auxiliares médicos e ao posicionamento da investigação psicológica centrada nas
relações interpessoais e no uso da prova como suporte ao tratamento, imposta pelos
estudos criminológicos, possibilitando a vinculação profissional ao âmbito jurídico.
Estes enfoques psicodinâmicos constituíram o suporte fundamental para os modelos
de atuação profissional denominados de Casework (Serviço Social de Caso) e
Intervenção na Crise.

O trabalho iniciado por Mary Richmond (1861-1928) possibilitou a elevação do “Social


Work” à categoria de disciplina social na medida em que fundamentou no campo das
discussões científicas, a natureza e validade dos procedimentos metodológicos e a
clareza dos conceitos de “Assistência Social” e “Serviço Social”.

Para Amy Gordon Hamilton (1958) na sua primeira edição de 1940 da obra The theory
and practice of social case work, o homem é um organismo biossocial o “caso”, o
problema e o tratamento tem de ser sempre tomado pelo assistente social como um
processo psicossocial. Um caso social não é determinado pelo tipo de cliente (uma
família, uma criança, uma pessoa idosa, um adolescente) nem determinado pelo tipo
de problema (incapacidade económica ou um problema de comportamento). Um caso
social é um “evento vivo” que envolve sempre fatores económicos, físicos, mentais,
emocionais, em várias proporções.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

25
As obras clássicas, produzidas por Mary Richmond (1861-1928) Social diagnosis e
What is social case work? An introductory descripton publicadas em 1917 e 1922
respetivamente pela Russell Sage Foundation, Nova Iorque, vem permitir à profissão
um processo sistemático para o estudo e atenção ao indivíduo afetado por problemas,
transformando-se num guia metodológico para realizar um diagnóstico em função dos
dados recolhidos pelo assistente social, na tentativa de chegar à definição da situação
social do cliente, problematizada em ordem a uma orientação adequada nas agências
ou instituições de assistência social (Diaz, 1987). É também a partir desta obra que o
Serviço Social sofreu um grande impulso, enquanto método de intervenção composto
por três grandes etapas: o estudo, o diagnóstico e o tratamento.

Neste sentido, o estudo permitia o apuramento dos factos e dados da vida do cliente,
que condicionariam as suas dificuldades pessoais e sociais, o diagnóstico consistiria
na interpretação dos elementos previamente apurados. Por último, o tratamento,
fundado nas etapas precedentes, centra-se na eliminação das dificuldades
identificadas.

Se de início, esta aproximação se consubstanciou numa abordagem à pessoa


eminentemente psicológica, lentamente, ao integrar elementos de ordem social, deu
origem a que se começasse a considerar um enfoque psicossocial.

Suportando-nos numa classificação binária dos problemas sociais proposta por


Barbero Garcia (2008) baseada nas teorizações de Charles Wright Mills (1916-1962),
é possível traçar duas grandes tipologias de problemas sociais: os problemas pessoais
e de conjuntura e os problemas coletivos de estrutura social, a partir dos quais os
métodos poderiam incidir. Porém, a realidade, na sua complexidade, torna difícil a
exata delimitação de uns e outros sendo, por isso, adequado pensar a intervenção

25 De acordo com Ilda Lopes Silva, (2004) no seu Livro “Mary Richmond um olhar sobre os
fundamentos do Serviço Social” esta terá produzido para além do livro “Social Diagnosis” em 1917 e
“What is Case Work? An introductory description” em 1922, ambos editados pela Russell Sage
Foundation, outras obras importantes, entre elas, “Friendly visiting among the poor: A handbook for
charity workers”, editada por The Macmillan Cº, New York em 1899. Esta terá sido a sua primeira obra
onde reune o material utilizado pelos membros das equipas da “Charity organization society” no “trabalho
com o caso individual”. Em 1907, o livro “The good neighbor in de the moderne city”, J.B. Lippincott
Cº, com uma edição de dez mil exemplares em Filadelfia. Em 1925 “Child marriages”, Russell Sage
Foudation, New York e em 1929 “Marriage state”, Russell Sage Foundation, New York, ambos redigidos
com a colaboração de Fred S. Hall, este ultimo publicado após a sua morte. Silva, acrescenta que outros
estudiosos da sua obra acrescentam, com razão, um sétimo livro, editado em 1930 “The long view”,
Russel Sage Foudation, Nova Iorque, por reunir artigos escritos durante o período de 1882 a 1928. Este
foi organizado por Joanna C. Colcord, diretora do Departamento de Organização da Caridade, da Russell
Sage Foudation e por Ruth Z.C. Mann (Silva, 2004, 18,19).

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social no seu continuum que parte de uma intervenção individual até à intervenção
comunitária. Assim temos:

Problemas coletivos e de estrutura


Problemas pessoais e de
social
conjuntura próxima

A Explicação e a resolução destes A explicação e resolução destes


problemas dependem na problemas são sócio políticas
realidade ao indivíduo e à sua
envolvente próxima

Individuo Família Grupo Comunidade Sociedade

Serviço Social de casos Serviço Social de grupos Serviço Social de comunidades

Ilustração 4- Espaços de intercessão dos métodos tradicionais e a dificuldade em delimitar os fenómenos humanos sobre os
quais se intervém. ([Adaptado a partir de:] Manuel Barbero Garcia (2008, p. 423)26.

O primeiro dos enfoques centra-se na resolução de problemas decorrentes da


satisfação das necessidades dos indivíduos e nos problemas de relação entre estes e
os grupos sociais.

O Método de Caso, o Método de Grupo e o Método de Comunidade são considerados


os três primeiros métodos históricos reconhecidos no universo da profissão tendo sido
aplicados em todos os países, variando na designação e no conteúdo de acordo com
a realidade social onde foram operacionalizados.

O primeiro método específico denominado Serviço Social de Casos foi sedimentado


com os pioneiros como: Juan Luis Vives (1492-1540), São Vicente de Paulo (1581-
1660), Thomas Chalmers (1780-1847), Edwin Chadwich (1800- 1890), Frédéric
Ozanam (1813-1853), Octavia Hill (1838-1912), Eward Denison (1840-1970), Anna L.
Dawes (1851-1938) e Mary Richmond (1861-1928). Segundo Diaz (1987), os
princípios e fundamentos para o estudo de caso foram apresentados por Chalmers e
Ozanam com as propostas para investigar as causas do desemparo dos indigentes e
das suas possibilidades de sustento, pensando na visita e ajuda domiciliária,
estruturando uma reabilitação da pessoa levada a cabo após uma cuidadosa
investigação sobre as suas condições de vida e várias práticas com o cliente e as
pessoas que o rodeiam. Ou seja, primeiro a investigação dos solicitadores de serviços,
depois as visitas domiciliárias pelos “visitadores amistosos” e finalmente uma atenção

26 Tradução livre

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 105


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

sistematizada a cada cliente tendo em consideração o seu meio ambiente e o tipo de


necessidades que eram padecidas (Diaz, 1987 p.186).

O Serviço Social de Casos constituiu a grande estratégia de abordagem aos


problemas sociais dos primórdios do Serviço Social, na tradição das práticas
ancestrais de ajuda, decorrentes da história da assistência social, levando
inclusivamente Viscarret (2007, p. 38) a defender que as raízes do Serviço Social de
Casos são as raízes próprias do Serviço Social.

Ainda na atualidade, o Serviço Social procura orientar intervenções tendentes a


abordar o conhecimento e a melhoria das situações sociais pessoais ou familiares. A
particularidade dessas orientações metodológicas é que as abordagens se realizam de
situação a situação (casuística) e centrada no indivíduo (personalista) sendo que estas
podem ser muito variadas, podendo estar relacionadas com diversos fenómenos de
marginalização da sociedade e em múltiplas combinações, como sejam, a pobreza,
toxicodependência, maus tratos, carência de habitação, insucesso escolar, emigração,
etc. (Barbero Garcia, 2008, p. 424).

O Serviço Social de Comunidades, enquanto método, na sua raiz mais remota


encontra-se ligado à necessidade de dar resposta ao conjunto de problemas concretos
gerados pela industrialização e urbanização. Martinez (1991, p. 374) assinala o seu
nascimento com a apresentação ao Congresso norte-americano de Serviço Social de
1939 do Relatório Lane. Nesta apresentação reconhece-se a tentativa de
sistematização e fundamentação do método de organização comunitária, cujo objetivo
seria de estabelecer uma articulação eficaz entre as necessidades sociais e os
recursos disponíveis.

Em 1950 a publicação do relatório da Organização das Nações Unidas sobre O


Progresso através do desenvolvimento comunitário, traduz o empenho desta
organização nesta matéria e marca a década de 1950, como a Década do
Desenvolvimento. Mais tarde em 1956, a noção de desenvolvimento comunitário é
adotada pela Organização das Nações Unidas designando o conjunto de
procedimentos através dos quais os habitantes de um país unem os seus esforços aos
dos poderes públicos com o objetivo de melhorarem a sua situação económica, social
e cultural das coletividades, de associar estas coletividades à vida da nação e permitir-
lhes contribuir, sem reserva, para o progresso do país (Robertis, 1994, p. 10).

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No entanto, Robertis (1994) considera essencial distinguir a organização comunitária


que se afirma desde o seu início como um método próprio do Serviço Social, gerado
no seio do próprio Serviço Social nos Estados Unidos e o desenvolvimento
comunitário nascido fora do âmbito do Serviço Social sendo, no entanto, por ele
apropriado posteriormente no âmbito do Serviço Social de Comunidades.

Barbado Garcia assinala que o Serviço Social Comunitário nos dias de hoje

[...] pretende orientar el abordaje de situaciones sociales colectivas mediante la


organización y la acción colectiva. Se trata de un abordaje que se enfrenta a la tarea de
constituir (crear) y mantener (sostener) un grupo en torno a la elaboración y a la
aplicación de proyetos de desarrollo social [...]. El grupo aparece como elemento de
redensificación de la vida social de la población, de fortalecimiento político, de
promoción y dinamización social, de participación, de fortalecimento de promoción y
dinamización social, de participación democrática en la sociedad etc.. (Barbado Garcia,
2008, p. 427)

E complementa com a identificação de dimensões que compõem esta abordagem: o


processo de consciencialização de Freire (1921-1997), o processo de organização de
Murray Ross (1967), Paul Henderson e David Thomas (1987) e o processo de
mobilização da comunidade de Saul Alinsky (1976).

A década de 30 do século XX, para além de ter sido dominada pela Grande
Depressão, foi, marcada também pelos principais esforços para definir e formular o
método de Serviço Social de Grupo. Neste período assistimos ao reaparecimento de
algumas publicações da década anterior, colocando ênfase no pequeno grupo como
essencial para a solução do problema individual e social bem como a importância do
seu estudo científico na vida diária. A este propósito refere-se à importância da obra
de Grace Longwell Coyle (1892-1962), Social process in organized groups, surgida em
1930 neste domínio, apesar de não centrar o seu estudo na formulação do Serviço
Social de Grupo.

O Método de Grupo, de acordo com Diaz (1987, p. 192), deveu-se ao trabalho


promovido pela American Association of Group Workers (AAGW) Associação
americana do trabalho social de grupo iniciado em 1936. O Serviço Social de Grupos
envolve uma estratégia para abordar problemas sociais perante a organização de
situações grupais onde o indivíduo surge como o sujeito protagonista de relações
interpessoais dentro de uma situação grupal que se converte numa experiência
emocional e educativa através da qual o indivíduo aprende a modificar as relações que
estabelece com a sua envolvente.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 107


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Apesar das teorizações do Serviço Social com grupos, só tenham sido desenvolvidas
a partir da década de 1930, assinala-se que mais uma vez que a prática precedeu a
teoria, já que, como afirma Martinez (1991, p. 338), os fundamentos do Trabalho
Social com grupos já estavam presentes em muitas iniciativas de índole social na
Inglaterra vitoriana, designadamente, nos Settlements. Em 1955, refere Robertis
(1994, p. 8) a Organização das Nações Unidas organizam o primeiro seminário
europeu sobre “Social group work” em Helsinkia (Finlândia).

Nesta linha, sublinha-se o conceito de Serviço Social de Grupos proposto por Gisela
Konopka (1965) um método de Serviço Social que ajuda os indivíduos a melhorar o
seu desempenho social, através de experiências construtivas em grupo e a enfrentar,
de forma eficaz, os problemas pessoais, de grupo ou da comunidade.

Atualmente, esta proposta metodológica pode abordar uma grande variedade de


objetivos, desde o apoio a pessoas que enfrentam circunstâncias sociais difíceis, a
grupos educativos, de informação e formação, grupos de lazer, grupos de apoio e
mudança de grupos naturais (Barbero Garcia, 2008) recreativos, de reabilitação, para
recuperar capacidades ou orientar comportamentos, educativo-corretivos,
socialização, terapêutico-educativos, de cura e de tomada de consciência de novos
métodos para resolução de problemas. Porém, em geral são os grupos designados de
sócio terapêuticos e sócio educativos que surgem mais associados ao Serviço Social
de Grupo.

A gradual evolução dos métodos tradicionais do Serviço Social, a par da sua evolução
teórica e epistemológica, determinou na década de 60 a procura de um método de
intervenção único, integrador dos objetivos e das propostas dos três métodos (caso,
grupo e comunidade) e holístico capaz de dar resposta à natural interdependência
entre as situações individuais, grupais e comunitárias. Tratava-se, ainda, da busca de
um enfoque centralizador do conceito de intervenção social, capaz de evidenciar o
conjunto das ações e estratégias desencadeadas pelo assistente social para modificar
a situação do seu cliente.

A implementação de determinado modelo não é, segundo Restrepo (2003), casual ou


arbitrária obedece a uma série de condicionalismos, entre os quais: o tipo de
fenómeno ou situação à qual se dirige a ação, as referências concetuais utilizadas
para nomear os problemas e determinar os objetivos das mesmas, a sua natureza, os
marcos ou contextos institucionais e sociais nos quais se circunscreve a ação, os

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meios a utilizar, a visão profissional, os valores éticos subjacentes, a conceção do


problema, a realidade social a enfrentar e a relação profissional a estabelecer.

2.3.1. MODELOS CONTEMPORÂNEOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL

Partindo de uma base comum, apresentada por diferentes autores que se debruçaram
sobre os papéis e as funções exercidas pelo Serviço Social no desenvolvimento
histórico da prática profissional, Restrepo (2003) destaca como tipologia de atuação
profissional: a prestacional ou assistencialista, a preventiva, a promocional e
educativa. A atuação promocional do Serviço Social caracteriza-se por dar ênfase ao
desenvolvimento social e humano, considerando o indivíduo como construtor da
realidade e sujeito ativo do seu próprio bem-estar. Está orientada para potenciar as
capacidades individuais e os recursos coletivos para melhorar ou satisfazer as
necessidades humanas e sociais, dando relevo à capacidade de resposta que as
pessoas, grupos ou comunidades, afetadas por determinadas situações, possuem
para assumir as mudanças e superar as dificuldades.

O Serviço Social promocional baseia-se, portanto, na motivação, na participação ativa,


na autogestão e na autonomia como princípios reguladores da ação social orientada
para a organização e promoção dos indivíduos e comunidades. A educação e a
capacitação como estratégias cumprem um papel importante neste tipo de atuação
profissional, porque cumprem os objetivos promocionais e organizativos.

Porém, se o modelo promocional marcou uma etapa importante no desenvolvimento


da metodologia do Serviço Social, contribuindo para romper alguns dos vínculos
estreitos que conectavam a prática profissional aos exercícios de caráter paternalista,
Restrepo (2003) alerta para que o momento atual que obriga a reconfigurações
fundamentais sobre os pressupostos das práticas participativas que suportam o
Trabalho Social. As tendências contemporâneas do Serviço Social impõem a
necessidade de consolidar um trabalho em rede e o privado e o quotidiano como
cenário importante para a reconfiguração metodológica.

No que respeita aos modelos, Restrepo (2003) introduz-nos modelos contemporâneos


e refere-se a estes como um conjunto de propostas de ação que se instalam na
concertação profissional como alternativas de atuação, compartimentando a sua
preocupação com as interações das pessoas com a sua envolvente social a partir de
uma perspetiva integral, holística e global.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 109


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Este pacote de modelos contemporâneos corresponde a um conjunto de traços


emergentes que insinuam um caminho a percorrer no que seria a reconfiguração
metodológica da profissão neste novo século. Estão inspirados na teoria geral do
sistemas e num conjunto de teorias sociológicas e filosóficas que, tal como o
interacionismo simbólico, a fenomenologia, a teoria da ação comunicativa o
construtivismo, a hermenêutica, e a cibernética de segunda ordem. Estas influências
permitem direcionar a atuação profissional colocando especial atenção na
objetividade, enquanto constitutiva do social, em processos de comunicação que,
mediatizados por uma linguagem, configuram a ação social. Contudo, a interação e a
perceção assumem-se como componentes substanciais das relações sociais no
mundo da vida e do quotidiano, entre outros.

São, portanto, modelos dinâmicos, abertos, flexíveis e como tal estão num processo
permanente de desconstrução e construção, a sua aplicação é atravessada pela
dimensão individual e coletiva estabelecendo um são equilíbrio entre ambas. Os
modelos fazem parte da caixa de ferramentas técnicas interativas como a observação,
a entrevista, os gabinetes e os grupos de discussão, entre outras.

No Século XXI, os modelos de convergência albergam algumas das propostas de


atuação que a reconfiguração profissional, para Restrepo (2003), exige ao Serviço
Social. Mesmo que não estejam consolidados como modelos profissionais
propriamente ditos mostram traços e rumos a seguir na atuação profissional. O
construtivismo, a cibernética de segunda ordem e a teoria do caos nutrem e orientam
a complexidade. Os enfoques da convergência advogam a diversidade e o respeito
pelas diferenças. A concertação, o diálogo e o trabalho conjunto constituem os eixos
estruturantes das propostas de ação e pressupõem o conhecimento holístico e
integrador das disciplinas e processos socioculturais, o colaboracionismo, o trabalho
em rede, o direito à informação e ao estabelecimento de mecanismos universais.

Desta forma a autora defende que o Serviço Social contemporâneo deve assumir uma
estrutura de prática profissional reta como um modelo capaz de se interrogar e de se
construir como elemento redutor, instrumental ou corroborador da teoria. Pois a prática
profissional é, antes de mais, uma instância mediadora e, como tal, deve ter a
capacidade de estabelecer pontes com a teoria e com a realidade social possibilitando
aprendizagens e desaprendizagens que revertem o desenvolvimento teórico,
metodológico e investigativo do profissional.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 110


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Neste contexto, Hleap (1999) refere que as representações e as formas de relação


social que se estabelecem com o mundo jogam um papel preponderante nos
diferentes tipos de mediação, ou seja, a mediação cognitiva, aquela que agrupa os
processos nos quais se resolvem ou se manejam os conflitos gerados pela
transformação das representações, criando mitos integradores. A mediação cognitiva
ou mítica consiste em oferecer segurança mediante o recurso à reiteração de
argumentos, supostamente conhecidos e compartilhados. Por mitificação entende-se o
processo através do qual se transformam naturais e compartilhados alguns
argumentos correntes que sirvam de justificação a decisões e ações grupais.

A mediação estrutural refere-se aos processos onde se resolvem ou manejam conflitos


gerados pela transformação das formas de interação, criando rituais integradores. A
mediação estrutural ou ritual consiste em oferecer segurança mediante a repetição de
formas estáveis de interação e ação. A ritualização reporta-se ao estabelecimento de
determinadas formas recorrentes de ação e interação que se converte num “modo de
fazer as coisas”.

A abordagem do empowerment coletivo como um processo e um resultado de ações


(Hleap, 1999) que afetam a distribuição do poder levando a um acumular ou um
esvaziamento do poder no âmbito das esferas pessoais, intersubjetivas e políticas.
Observa-se, o desenvolvimento de fatores situados em distintas esferas da vida social
a nível micro, fatores localizáveis no plano individual, sendo exemplo o
desenvolvimento da autoconfiança e da autoestima, na mesosfera, fatores ligados às
estruturas de mediação, nas quais os membros de um coletivo compartilham
conhecimentos e ampliam a sua consciência crítica, ao nível macro situam-se as
estruturas sociais como o Estado e a macroeconomia.

A profissão é, portanto, um dado histórico, na medida em que se torna indissociável


das particularidades assumidas pela formação e pelo desenvolvimento da sociedade
mas, também, resultante dos sujeitos sociais que constroem a sua trajetória e
redirecionam os seus rumos. Se tomarmos a historicidade da profissão, no seu caráter
transitório e condicionado socialmente, esta configura-se e recria-se, no âmbito das
relações entre o Estado e a sociedade como resultado das determinantes
macrosociais que lhe estabelece limites e possibilidades de exercício, na divisão social
e técnica do trabalho e apoiado nas relações de propriedade que a sustentam
(Iamamoto, 2004).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 111


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Na tentativa de elucidar o que se entende como profissão e em particular a sua


perspetiva de prática profissional Asa Kasher (2005) e define-a

[...] como un conjunto de actuaciones basadas en un cuerpo sistemático de


conocimientos, habilidades y destrezas relevantes para resolver determinado tipo de
problemas y proporcionar determinado tipo de bienes o servicios” Asa Kasher (2005, p.
68).

Estes conhecimentos e destrezas que considera básicas, uma vez adquiridos e


acreditados, transformam-se em requisitos indispensáveis para aceder ao exercício
profissional onde cada profissional terá o compromisso de renovar, atualizar e ampliar.

Cada prática profissional, para Kasher (2005) pode, ainda, ser composta por cinco
elementos propostos, isto é, baseia-se num conjunto sistemático de conhecimentos
específicos esse conjunto de conhecimentos teóricos fundem-se com a aquisição das
destrezas necessárias para levar a cabo os diferentes tipos de atuações em que
consiste o exercício da profissão. Nesse pano de fundo de conhecimentos teóricos e
destrezas práticas convém destacar uma terceira característica onde se define toda a
prática profissional: o compromisso de melhoria.

No sentido de completar a caraterização da prática profissional anteriormente


desenvolvida refere-se, ainda, algumas caraterísticas apontadas por Kasher (2005)
como sendo o seu marco de compreensão para os critérios de excelência acerca do
bem interno dessa prática profissional. Serão estes critérios que demarcam uma boa
de uma má prática, não se restringindo apenas a ter os conhecimentos necessários
mas também modos de atuação específicos referindo-se a estes aspetos como a
compreensão local da própria prática profissional.

Porém, essa compreensão pode não ser só local, tem também de ser global, ou seja,
significa não só compreendê-la mas também os bens e os serviços que
constitutivamente obtém e proporciona num horizonte global de sentido. Isto é,
compreender o significado da prática profissional no conjunto da vida humana e dos
indivíduos em sociedade, caso contrário cai-se no que Ortega y Gasset (1973) refere
como sendo “la barbárie del especialismo”.

O que distingue, portanto, a profissão de um ofício é que este último repete, sempre
da mesma maneira, o que se fez na primeira vez. Ao passo que o profissional, o bom
profissional, tem condições de inovar e melhorar enfrentando situações individuais e
talvez irrepetíveis. Supõe-se, portanto, que os profissionais saibam resolver os casos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 112


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

ordinários adaptando conhecimentos e destrezas de acordo com cada situação


concreta, pois estão colocados na melhor posição para saber se deve atuar desta ou
daquela maneira. Em bom rigor os conhecimentos e destrezas profissionais não se
aplicam de forma repetitiva mas sistemática pelo que necessitam de ser
permanentemente ampliados. Só assim, para Alonso (2008) os profissionais adquirem
capacidades para abordar casos novos e insólitos.

Nesta sequência de pensamento, e ainda reportando-se ao pensamento de Asa


Kasher, Alonso enuncia os principais critérios de uma ética profissional e considera
que “[…] la ética profissional se identifica com el último nível, el de la comprensión
global del significado de la professión para la vida humana y para la sociedad” (Alonso,
2008, p. 20). Para o conferencista a prática profissional abarca cinco características
fundamentais, a saber: a competência teórica e prática, o compromisso de melhorar e
atualizar os conhecimentos e destrezas para melhor proporcionar o bem interno da
profissão e tudo isto como contributo para o conjunto da vida humana dos indivíduos e
da sociedade.

Apesar de querer abordar preferencialmente o significado social da ética das


profissões Alonso (2008, p. 20) não deixa de enunciar o que considera ser os três
princípios fundamentais que pretende aplicar à ética das profissões, a saber: sobre
profissional e o seu ethos enuncia o princípio do bem-fazer. O critério fundamental
para decidir quem é bom ou mau profissional, tanto no que respeita à sua competência
técnica como à sua ética, constitui-se a partir do bem que se obtém exercendo
corretamente uma determinada profissão, alcançando e proporcionando o bem interno
que constitui a sua prática profissional. É possível, no entanto, conseguir bens
externos sem participar em determinadas práticas, fingindo que se atua corretamente,
porém sem o realizar e aponta que a sociedade está assente em bens externos,
relegando com frequência ao silêncio e à marginalização, os bens internos.

Sobre o usuário e os seus direitos define o princípio do respeito pela pessoa e pela
sua dignidade e direitos. Este princípio surge na decorrência do anterior, que
estabelece a relação assimétrica entre benfeitor e beneficiário e sustenta que o
usuário dos serviços profissionais não deve ser considerado mero objeto ou
destinatário desses serviços senão uma pessoa, com dignidade e direitos que devem
ser respeitados e, portanto, tomada em consideração e respeitada. Ou seja, alguém
que deve participar nas decisões que o afetam enquanto pessoa. Tomar a ética

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 113


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

profissional como uma formulação em termos do princípio do bem-fazer ou da


beneficência, absolutiza-o caindo no paternalismo e na dominação profissional.

Este tem vindo a ser considerado o princípio da autonomia por observar o princípio do
respeito pela pessoa, pela sua dignidade e direitos entrando em diálogo com o
usuário, tomando em consideração o seu ponto de vista, estabelecendo pactos e
acordos acerca da prestação profissional, tornando-o protagonista, subordinando a
ação profissional que oferece como contribuição necessária e importante para este
progredir no seu modo de entender a vida.

Sobre a profissão e a sociedade aponta o princípio da justiça. Encontrando-se


enquadradas por contextos sociais e complexos de relações entre pessoas e
instituições e organismos, as profissões devem tomar essa consideração e respeitar
os direitos. O princípio da justiça advoga, então, dar a cada um o que lhe corresponde
em justiça, estabelecendo uma ligação entre a ética profissional e a ética social. A
ética social abre, assim, perspetivas de articulação das múltiplas necessidades e
interesses com as possibilidades e recursos disponíveis de acordo com critérios de
justiça. Esta perspetiva a não ser considerada na ética profissional corre riscos
inevitáveis de se tornar corporativista.

A ética profissional entronca, de acordo com Alonso (2008, p. 23), com a ética social
ao intervir com critérios de justiça no sentido de marcar prioridades e distribuir
recursos escassos, o que a obriga a questionar-se sobre a função social que
desempenha e, por seu turno, o que a sociedade espera dela.

Situando as profissões enquanto fenómeno profundamente social e histórico a par da


evolução da sociedade (Alonso, 2008), esta acaba por acolher, assumir e reforçar as
transformações que se vão introduzindo nas práticas profissionalizadas, como sejam
os descobrimentos científicos e mudanças tecnológicas abrindo novas possibilidades à
prestação dos bens e serviços que, por seu turno, compele a sociedade a consumi-los.
As mudanças culturais e de valores colocam novas exigências e inspiram novos rumos
ao exercício profissional.

Apesar de na sociedade se desenvolverem crescentemente atividades profissionais no


domínio da saúde, educação, economia, habitação, urbanismo e da comunicação, o
seu significado social não se esgota no serviço ao usuário ou a clientes, nem sequer
quando se trata de um serviço público mas no facto de participarem no debate social

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 114


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

sobre o desejável e viável no que concerne às políticas públicas, que se ocupam dos
bens sociais, especialmente quando essas políticas e bens estão relacionados com o
bem interno da sua profissão.

Todas as profissões para Alonso (2008, p. 25) tecem reflexões acerca da melhor
maneira de alcançar e realizar o bem interno nas situações sociais em mutação e
acerca dos conhecimentos e técnicas que lhe abrem o caminho. Estes debates,
discrepâncias e discussões em torno das diferentes formas de realizar os bens
internos são um recurso substancial dos contributos éticos associados ao bem-estar
da sociedade e aos fins básicos da vida humana.

A experiência acumulada vai tipificando e generalizando hábitos modos de fazer com


êxito que se vão repetindo, consolidando e transmitindo. Alonso alerta, ainda, para a
necessidade permanente de deliberar sobre os bens sociais e sobre o modo de os
distribuir de forma a se adaptarem ao seu significado social e à sua relação com os
outros bens sociais em determinadas condições sociais e políticas.

No intuito de ir ao encontro das formas corretas e incorretas dos profissionais se


relacionarem com a sociedade e em especial com as duas instâncias, os usuários por
um lado e os responsáveis políticos ou institucionais por outro, Alonso (2008)
esclarece que nenhuma destas instâncias ou perspetivas podem esclarecer
suficientemente os temas sociais relacionados com o bem interno de cada exercício
profissional.

A perspetiva corporativista emerge quando o profissional se isola das perspetivas dos


usuários e dos responsáveis como ideologia própria do profissionalismo. Perante esta
perspetiva tende-se a pensar no profissional como aquele a quem só compete decidir
naquilo em que são certamente competentes, mas que de modo algum só a eles lhe
compete. E a perspetiva moralista quando se adota exclusivamente a perspetiva dos
usuários. Estes podem saber quais as suas necessidades e a forma de estruturar os
seus pedidos, porém, não podem ser deixados ao seu próprio critério e perspetiva sem
o saber dos profissionais nem o poder dos responsáveis, pois podem conseguir
enunciar as metas mas não sabem como alcançá-las nem têm os meios e os recursos
para alcançá-las. Perspetiva da arbitrariedade e despotismo quando os responsáveis
institucionais não entendem o que os profissionais podem fornecer nem o que os
usuários colocam nos seus pedidos.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 115


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Alonso propõe uma via média (2008, p. 27) que evite, por um lado, a segregação
completa que leve ao corporativismo ou que os profissionais se diluam como grupo de
especialistas na massa dos leigos ou, ainda, evitar o pior, que se deixem colonizar
pela lógica do poder político ou pela lógica da rentabilidade económica dos
responsáveis institucionais. Só quando interagem os três protagonistas fazendo valer
a própria perspetiva e articulando com as outras, se está em condições de promover a
dimensão pública da ética profissional e as profissões verdadeiramente contribuem
para a vida pública.

De uma forma conclusiva o conferencista refere que a ética tem a ver com o que
fazemos connosco próprios e os com outros e acrescenta que

“[…] la humanidad es la virtud que nos permite dar a cada assunto el peso y la
importancia que le corresponde en el marco de una vida humana, la própria y la de
otros. (Kasher, 2005, p. 30)

Em última análise somos todos humanos e, o que cada profissão propõe é contribuir
com os seus recursos específicos a prestar um serviço à vida humana tomada com
humanidade, em suma tratar humanamente cada ser humano. Os valores que
sustentam as práticas atuais do Serviço Social estão enraizados na sua história e na
memória coletiva da profissão.

Os valores comuns de referência da profissão de Serviço Social organizam-se a partir


do que Marx Weber (1864 – 1920) denomina da ética da convicção, isto é, os
princípios que guiam a ação e aqueles que tentará servir de maneira incondicional.
Estes princípios articulam-se entre três ideias principais (Robertis, 2003, p. 46),

- O respeito pela dignidade do ser humano, considerado como um ser único,


semelhante a todos os outros, com os mesmos direitos e deveres, mas ao mesmo
tempo também diferente de todos os outros. A importância concedida à sua dignidade
intrínseca, outorgar-lhe-á, em qualquer circunstância ou consideração em que se
encontre, a qualidade de sujeito, capaz de decisão e participação27;

- A obrigação da sociedade, enquanto organização humana, de oferecer a cada


pessoa um lugar no seu seio, condições ótimas de vida, de bem-estar e possibilidades
de desenvolvimento. Esta ideia indispensável de pertença social dos indivíduos,
expressa-se hoje em dia em termos de inserção, integração, acesso a direitos,

27 Cristina de Robertis refere-se à Revue Française de Serviço Social, 1998b

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 116


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

redução das diferenças e oferta das mesmas oportunidades para todos. Daí os
mecanismos de discriminação positiva incorporados nos programas de ação social,
necessários para dar oportunidade a certas categorias da população;

- A interação pessoa – sociedade, que implica a responsabilidade de todo o ser


humano para com os outros, e que se traduz em todas as formas de solidariedade
indispensáveis para a vida em sociedade e crescimento individual.

Para além destes princípios, Robertis (2003, p. 47), afirma que a ética da
responsabilidade conduz-nos à análise dos meios, das diferentes opções possíveis,
das alternativas eleitas e na avaliação das consequências. A este respeito Gisela
Konopka (1965) afirmava que a forma de actuar de estar conforme com as finalidades
que se persegue, pois, a forma como nos aproximamos dos seres humanos em
dificuldade, pode converter os nossos programas em úteis, ou detestáveis. Prestar
auxílio pode ser humilhante ou pode realizar-se de forma a que não viole o respeito
que a pessoa, em situação de infortúnio, deve possuir por si própria.

A ética da responsabilidade inclui, portanto, a nossa capacidade de empatia, de sentir


o outro e traduz-se nas nossas atitudes, na nossa palavra e na nossa comunicação
verbal ou não verbal. Exige uma reflexão sobre os meios, os métodos e as técnicas
utilizadas e sobre a congruência dos objetivos.

Tendo em conta os meios utilizados, torna-se imperioso que se reflita sobre a relação
de ajuda, centrada na pessoa e nas suas capacidades, a qual fundamenta a noção de
confiança. Sem realizar um estudo etimológico e lexical muito aprofundado, podemos
dizer que as palavras utilizadas pelos profissionais do Trabalho Social para denominar
as pessoas a que se destina a intervenção variaram muito durante as diferentes
épocas históricas.

Na origem da profissão, os trabalhadores sociais do mundo inteiro chamavam às


pessoas com as quais trabalhavam “o caso” e até por vezes “o caso social” tradução
do “Social Casework”. Este conceito designa a pessoa com dificuldades sociais ou de
relação e denomina-se Serviço Social de Caso e reporta a um método de intervenção
que consiste em tomar a pessoa individualmente para conhecer a sua situação,
elaborar um diagnóstico pessoal e uma intervenção adequada por forma a favorecer o
seu desenvolvimento pessoal e social e o ajude a resolver os problemas.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 117


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Este conceito também se utiliza nas diferentes correntes da pedagogia ativa como
forma de reflexão, análise e aprendizagem, a partir de situações específicas de
diversas disciplinas profissionais. Assim o conceito de cliente incorporou-se totalmente
no vocabulário profissional a partir da influência das correntes psicológicas e
psicanalíticas. O seu uso foi confirmado por Carl Rogers (1902-1987) nos seus
trabalhos sobre a relação de ajuda terapêutica, pois dava ao conceito de cliente uma
significação simbólica de liberdade. Na Roma antiga, tratava-se de um plebeu que se
colocava debaixo da proteção de um patrício; esta palavra designa também a pessoa
que requer os serviços de um médico, de um advogado, de um estabelecimento
bancário, ou que é comprador habitual do comércio.

No Serviço Social este conceito, porém, com o decorrer do tempo tem entrado em
desuso, o “caso social” passou a uma situação social, termo mais assético e neutro.

O conceito de cliente na profissão foi introduzido por Mary Richmond (1917), que
pensava que a palavra “caso” estava impregnada de vocabulário médico e seria
redutora, pois considerava que o “caso” do trabalhador social é a situação ou
problema e não a pessoa envolvida, tornando-se necessário distinguir a pessoa do
problema e o termo adequado seria cliente (Robertis, 2003, p.60)

Nos últimos anos foi substituído progressivamente pelo termo de utente ou de


beneficiário. O utente, ou seja a pessoa que tem direito real de uso sobre um bem ou
uma coisa que pertence a outra pessoa, também se refere àqueles que recorrem a um
serviço público ou que utilizam um espaço público. Este termo difundiu-se no Serviço
Social, sobretudo, no serviços que dependem do Estado, e tende a reforçar a ideia de
direito. Assim, o utente é aquele que sua o serviço que está à disposição de todos e o
qual tem acesso como qualquer outra pessoa. O conceito de beneficiário é também de
uso recente e designa a pessoa que recebe a prestação, um subsídio, ou uma ajuda
financeira do Estado ou outro organismo público e contou com uma franca aplicação
nos programas de Rendimento Mínimo Garantido e mais recentemente no Rendimento
Social de Inserção.

Todos estes termos podem entender-se como uma intenção de diminuir o peso
estigmatizante da ajuda social associada a conceitos como os de pobre, indigente,
assistido e restituir-lhe uma afirmação do direito de cada um a utilizar o bem comum
disponível para todos. Estas palavras servem para designar aquele com quem
trabalhamos atualmente e substituem-se simplesmente pelo termo pessoa que se

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 118


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

define como um ser humano, um indivíduo considerado em si mesmo dotado de


existência.

Para o Serviço Social, a conceção de pessoa como ser individual está presente desde
o início e um dos princípios da profissão o individualismo. Conceptualizado e apoiado
nos princípios éticos de reconhecimento da dignidade da pessoa e de aceitação e
respeito pelas diferenças, o Serviço Social desenvolveu uma teoria e uma prática
relativa à pessoa como indivíduo. Contudo, atualmente, a pessoa não é só
considerada nos seus aspetos individuais senão, também, na sua dimensão individual
e coletiva (Robertis, 2003). A pessoa como ser coletivo faz parte de uma sociedade
em que vive, partilha a sua cultura e os seus valores e está imersa nas caraterísticas
sociais, económicas e políticas do seu meio específico e da sua época histórica. Neste
sentido, o seu devir individual entrecruza-se com o itinerário dos seus
contemporâneos, onde cada pessoa é simultaneamente um individualidade única e
diferente mas, ao mesmo tempo, igual a todas as outras pessoas da sua envolvente
social, tem os mesmos condicionantes socioeconómicos, os mesmos direitos, as
mesmas obrigações e, em certa medida, aspirações semelhantes. Acentua-se, assim,
o que é comum e não no que a distingue inspirando-se na declaração dos direitos
humanos: “todos os homens nascem livres e iguais”.

Desta feita, o conceito de pessoa viu-se enriquecido, segundo Robertis (2003), com
uma compreensão mais ampla e complexa do ser humano como ser social e apoia-se
ainda nas evoluções éticas e deontológicas da própria profissão, ou seja, na ética da
convicção, da responsabilidade e da discussão.

A ética da discussão baseada na influência de Habermas (1987) refere-se à


elaboração coletiva, a partir da livre discussão entre as pessoas do mesmo grupo.
Levado até às últimas consequências, o intercâmbio permite chegar, através da
argumentação, a posições comuns de consenso. Ocorre, porém, que para a
comunicação seja, neste caso, válida é necessária uma certa igualdade entre as
pessoas. No Serviço Social nem sempre é possível, contudo o recurso cada vez maior
ao contrato entre o assistente social e a pessoa leva a uma busca de acordos entre
ambos, baseados neste tipo de posição ética. A colaboração com outras instituições
que participam num mesmo programa social ou em equipas pluridisciplinares, no
mesmo território, é, outra forma de levar por diante uma ética de discussão: partilha-

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 119


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

se, elabora-se, decide-se, leva por diante um projeto comum, com tudo o que significa
enfrentar, negociar, conceder, procurar consensos e acordos.

Ao mesmo tempo que a reflexão ética se enraíza e se impregna no meio profissional,


o exercício quotidiano vai mostrando enormes contradições e diferenças. A evolução
da clientela e das políticas sociais exigiu novas adaptações por parte dos
trabalhadores sociais, pressionados por instituições que procuram um nível de
“eficácia”, de rentabilidade e de transparência cada vez maior. Assim, surgiram novas
formas de intervenção, algumas delas em contradição com os princípios éticos
mencionados anteriormente e cujo desenvolvimento aumenta constantemente as
dificuldades enfrentadas pelos assistentes sociais.

Mais claramente a relação de ajuda situa-se a três níveis: da pessoa em si mesma e


envolve a preocupação com o outro com o seu universo singular, centrada na sua vida
quotidiana e na própria identidade; a sociabilidade da pessoa inscrita no seu
microcosmos, na sua rede de relações mais ou menos ampla e, portanto, ao nível dos
laços sociais, do lugar na sociedade; a articulação com o quotidiano singular com a
sua globalidade económica social que caracteriza a sociedade (Robertis, 2003, p.
6728).

Convém a este propósito salientar que a relação de ajuda à pessoa não se reduz a
uma ajuda relacional ou na satisfação de uma carência ou mesmo necessidade, tende
a uma autonomia utilizando uma pedagogia do êxito baseada nas capacidades e
potencialidades das pessoas, inclusivamente daquelas que se encontram diminuídas e
ainda que recebam ajuda mas sobretudo que participem plenamente com processo de
ajuda, na sua definição e na sua realização.

Desta perspetiva podemos então ver que na metodologia profissional, a pessoa com
quem se trabalha é considerada um ser autónomo mesmo que reduzida em razão da
idade, saúde física ou mental e um ser que participa no processo de ajuda. Esta não
se organiza para a pessoa, mas com a pessoa a partir da sua própria definição, tendo

28
Robertis refere-se a parecer do CSTS (France.Conseil Supéreur en Travail Social) (1998) L”Intervention
Sociale d”Aide a la Personne,Rapport au Ministre du Travail et des Affaires Sociales, París, 1996.Rennes:
ENSP. “ el trabajo social siempre privilegió el concepto de persona pero, en su posicionamento ético
atual, tiende a postular un nuevo humanismo que llamaremos humanismo social […] La palavra social
junto a humanismo nos permite ir más lejos. […] Si proponemos esta apelación es porque nos permite
dejar atrás la dimensión antropocêntrica, al no centrar-se solamente en la persona como ser-esencia, sino
en su consideración como ser social, en su diferencia, en sus relaciones com los demás, en sus lazos
consu entorno e, en fin, como actor e elemento constitutivo de una sociedad […] Formulando de este
modo la ética del trabajo social, tenemos en cuenta ambos aspectos, es decir, la persona como un todo,
su ser profundo y la persona como ser social

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 120


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

em conta os seus desejos e os seus projetos. Este facto não é uma descoberta
recente nem uma inovação, pois Mary Richmond já afirmava que

Os seres humanos adaptam-se mal a um papel passivo […] o êxito de todo o


tratamento social tem como pedra angular a parte ativa de cada um dos interessados,
na medida das suas capacidades, na realização do resultado desejado
(Richmond,1926).

Reafirma-se, assim, a participação ativa das pessoas na melhoria da sua própria


situação e no lugar que ocupam na definição dos processos de ajuda com vista à
autonomia.

Inspiradas, mais uma vez, nas reflexões éticas e na oposição a uma eficácia
desumanizada que sugerem certas práticas atuais, centramo-nos nas noções de
sujeito, de ator social, de cidadão.

A pessoa enquanto sujeito é aquela que sustenta a ação, uma experiência, um


conhecimento, em oposição a um objeto e já se viu que a pessoa pode ser tratada
como tal, um número, um pacote, um problema. A noção de sujeito afirma a sua
capacidade de decidir e influir no curso dos acontecimentos e a sua participação ativa
em tudo o que lhe diz respeito. Atualmente vemos, ainda, acrescida a noção de sujeito
de direitos, ou seja, titular de direitos e obrigações pelo facto de viver em sociedade. O
acesso da pessoa aos direitos sociais transformou-se numa ideia-força para os
assistentes sociais.

Ser titular de direitos e obrigações conduz-nos a um termo - cidadão (Robertis: 2003,


68) ou seja a “um membro da cidade” que vive e que forma parte num Estado,
enraíza-se nos “direitos e liberdades do homem e do cidadão” mas reforça-se na
noção de igualdade entre os homens pois “ todo o ser humano sem distinção de raça,
religião ou crença possui direitos inalienáveis e sagrados” e constituem uma barreira
defensiva contra as ideias e as ações de certos setores políticos.

Mas para Robertis, o conceito de cidadão vai mais além do direito constitucional. Um
cidadão é também aquele que participa ativamente na vida da cidade e que, para além
de formar parte desta, modela, modifica, cria, dinamiza a vida social, expõe e
transmite as suas ideias, organiza-se para os outros e com os outros. A dinâmica da
cidadania não é pura afirmação dos direitos escritos é também organização da vida
quotidiana da vida democrática, a atuação da vida cívica, a criação permanente de
novas possibilidades.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 121


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

É pois nesta dualidade – acesso a direitos e cidadania ativa, que o assistente social
vai desenvolver um compromisso com e para a pessoa. Em cada um destes níveis se
estabelece objetivos do assistente social, objetivos de restauração da cidadania
(encontrar soluções, melhorar condições de vida, afirmar dignidade e aumentar auto-
estima) e objetivos de promoção da cidadania, criar laços significativos com os outros,
ser participante da vida coletiva, obter reconhecimento e sentimento de utilidade
social.

A convicção de que o exercício profissional, porque orientado para a satisfação das


necessidades humanas e para o bem-estar social, se deve equacionar enquanto
realização de um serviço público, na verdadeira aceção da palavra, implica o
reconhecimento da condição ética de todos os cidadãos com quem trabalhamos, a
exigência de qualidade ao nível da resposta institucional e/ou organizacional que se
oferece, a procura constante de uma maior competência no desempenho técnico, rigor
científico, a regularidade no estudo e investigação dos problemas sociais e a clareza
na identificação e diagnóstico das suas determinações históricas, económicas, sociais
e políticas (Serafim, 2004, p. 26).

2.3.2. CONCEÇÕES COMPLEXAS DE UMA PROFISSÃO

Tendo em conta os antecedentes as origens são inúmeros os autores que partindo


das suas posições, concebem o Serviço Social de um modo mais concreto, ou mais
específico, definindo-o como uma instituição, como um instrumento social, ou mesmo
como uma atividade ou processo, como um serviço, ou como um serviço profissional
ou, ainda, como uma disciplina profissional, ou como uma profissão (Martinez,1991).

Entre aqueles que consideram o Serviço Social uma instituição, vamos encontrar na
década de quarenta Helen Leland Witmer (1898-1979) quando destaca que a primeira
e principal função do Serviço Social é prestar assistência aos indivíduos, face às
dificuldades com que se deparam no uso dos serviços de um grupo organizado ou na
sua própria atuação, também, eles como membros de um grupo organizado.

Como se percebe, a tentativa de esclarecer o que é que Serviço Social significa, não é
de todo uma tarefa fácil. Para Faleiros (2011), a construção de uma definição implica
entender algumas disputas no seio desta disciplina que passam por serem não só
linguísticas mas também ideológicas e políticas desencadeadas por diferentes projetos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 122


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

políticos, por diferentes sentidos produzidos no quotidiano, bem como por diferentes
estratégias e operacionalizações que balizam a ação profissional.

Considerando, na mesma linha, que o Serviço Social se constrói historicamente e se


explica pelo conjunto das relações sociais, políticas e ideológicas em que se envolve e
também pelas suas contradições, Martins considera (1995, p. 20) que não é possível
dissocia-lo dos projetos societais em presença.

Ainda, segundo Faleiros (2011), se nos detivermos sobre o discurso fundador de Mary
Richmond e na sua intenção de chegar ao fundamental para se entender o Serviço
Social de Casos, vamos encontrar um enfoque sobre a interação entre a
“personalidade e o meio social” assente, portanto, no ajustamento dos indivíduos entre
si e entre o homem e o meio social, o que situa o objeto da profissão no ajustamento
social.

René Sand (1931)29 responsável pela organização da First International Conference of


Social Work em Paris, em 1928, define o Serviço Social como o conjunto dos esforços
que visam aliviar os sofrimentos oriundos da miséria. Como resultado da análise dos
diferentes relatórios de diversos países, que comparecerem em 1928 a esta primeira
Conferência, René Sand (1931) constata que, embora o Serviço Social apresente uma
incontestável unidade, cada país adotou diversas formas de definição.

Sobre o Serviço Social enquanto atividade prática a literatura tradicional é muito rica
em definições. As primeiras definições remontam aos trabalhos de Mary Richmond
(1915) e referem-se ao Serviço Social de Casos podendo ser definido como

A arte de fazer coisas diferentes para e com diferentes coisas para e com pessoas
diferentes em cooperação com eles para atingir de uma vez e ao mesmo tempo que
eles a melhoria da sociedade (Richmond, 1915, p. 1)30.

Outros autores referem ainda

29
René Sand (1877- 1953) de origem Belga fez a sua primeira aparição no campo internacional em 1921
quando se juntou à League of Red Cross Societies onde se tornou seu secretário geral. Em 1929 foi o
primeiro presidente The International Hospitals Association. Foi ainda secretário-geral do ministério da
saúde Belga em 1937. A seguir à segunda Guerra Mundial ocupou o lugar na medicina social da
University of Brussels (1945-1952) tomando parte proeminente nas atividades da seção da saúde da
League of Nations na World Health Organization. Foi o idealizador e fundador da Conferências
internacionais de Serviço Social. A sua obra principal intitulou-se Le Serviçe Social atraver le monde
(1932) presidente entre (1946-1953) da International Association Schools of Social Work (Social Work and
Society Internacional Online Journal)
30 Tradução livre

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 123


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Uma forma particular de ayudar a la gente a enfrentar a suas necessidades pessoais e


sociais (Lowry, 1937, p. 264)31.

Um processo mediante o qual utilizamos a compreensão do individuo em sociedade


proporcionando-lhe certos serviços sociais mantidos pela comunidade e aplicados por
alguns dos seus membros (Gartland, 1940, p. 126)32.

O trabalho social trata de aumentar o funcionamento social dos indivíduos, isolados ou


em grupo, mediante actividades centradas nas suas relações sociais e que constituem
a interação entre o homem e o seu meio. Estas actividades podem agrupar-se em três
classes: reabilitação de toda a diminuição de faculdades, provisão de recursos
individuais e sociais e de prevenção de disfunções sociais (Bohem, 1959, p. 54)33

No decurso do ano de 1932, cria-se o International Permanent Secretariat of Social


Work e que se tornará mais tarde à Internacional Federation of Social Workers.

O código de Ética profissional dos Estados Unidos da América adotado pela


Assembleia de Delegados da National Association os Social Workers a 13 de Outubro
de 1960 refere que
O trabalho social está baseado em ideais humanitários e democráticos. Os
trabalhadores sociais profissionais consagram-se ao serviço de bem-estar do género
humano, ao uso disciplinado de um reconhecido caudal de conhecimentos acerca dos
seres humanos e suas interações e a administração de recursos comunitários para
promover o bem-estar de todos sem descriminação (Alayón, 1987, p. 10)

Recentemente, a International Federation of Social Workers localizou em documento


datado de 1957, publicado em 1959, aquela que considera ser a primeira definição de
Serviço Social

Social work is a systematic way of helping individuals and groups toward better
adaptation to society. The social worker will work together with clientes to develop their
inner resources and he will mobilize, if necessary, outside facilities for assistence to
bring about changes in the environment. Thus, social work tries to contribute towards
greater harmony in society. As in other professions social work is based on specialized
knowledge, certain principles and skills. (IFSW, 1959, p. 3)

O Serviço Social, tal como outras profissões, prefere observar-se como uma profissão
baseada numa teoria, no entanto, são vários os autores de diferentes épocas que
concordam que, enquanto disciplina, o que a carateriza é o seu caráter
eminentemente prático e a necessidade de gerar a sua própria epistemologia. Mas,
apesar de tudo, continua a ser considerada como uma ciência nova, jovem e pouco
desenvolvida (Viscarret, 2007).

31 idem
32 ibidem
33 Tradução livre

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 124


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Acrescenta, que o Serviço Social nas suas diversas vertentes encontra subjacente um
conjunto de valores, teorias e práticas. Valores resultantes de ideais humanitários e
democráticos baseados na igualdade e dignidade de todas as pessoas. Apoia-se em
teorias do desenvolvimento e do comportamento humano e dos sistemas sociais,
atendendo à complexidade das interações entre os seres humanos e o seu ambiente e
à capacidade destes em alterar as influências por ele provocadas, para analisar
situações complexas ao nível individual, organizacional, social e cultural. E numa
metodologia assente num corpo sistemático de conhecimentos sustentado em
evidências resultantes da avaliação de pesquisas e de práticas profissionais onde se
inclui o conhecimento específico de cada contexto.

Mais recentemente em 2014 a Federação Internacional de Serviço Social aprova em


Melbourne, Austrália uma nova definição que enuncia como

Social work is a practice-based profession and an academic discipline that promotes


social change and development, social cohesion, and the empowerment and liberation
of people. Principles of social justice, human rights, collective responsibility and respect
for diversities are central to social work. Underpinned by theories of social work, social
sciences, humanities and indigenous knowledge, social work engages people and
structures to address life challenges and enhance wellbeing (IFSW, 2014).

É interessante constatar para a presente pesquisa a importância de se integrar nesta


definição a visão do Serviço Social enquanto disciplina académica, atenção que a
anterior definição parece não abarcar. Desta forma, o enfoque sobre a prática
profissional passa, também, pela importante relação que pode ser estabelecida com
os projetos educativos estruturados por cada instituição educativa e os seus traços de
identidade que são representados no exercício profissional configurando campos de
conhecimento, objetivos e finalidades, áreas e campos de atuação, setores de trabalho
e saídas profissionais e que são apropriados pelos alunos na sua definição missão e
compromisso para com a sociedade.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 125


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 126


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3. SERVIÇO SOCIAL PORTUGUÊS: AS MATRIZES EM PRESENÇA

À semelhança do apresentado em capítulos anteriores poderemos localizar, também,


para Portugal as origens remotas do Serviço Social. Neste capítulo, serão destacados,
portanto, os aspetos e traços considerados mais relevantes da emergência e trajetória
do Serviço Social português e, sobretudo, o que o distingue, particularmente, no
período do Estado Novo.

Privilegia-se uma visão panorâmica a partir daquelas que foram as suas matrizes em
presença na educação em Serviço Social, por forma a demonstrar que o surgimento
das escolas de Serviço Social resulta de um processo contínuo de composição e
recomposição da profissão, na tentativa de corresponder aos desafios que lhe são
colocados no quadro da dinâmica do processo ideológico e cultural em concreto.

A atenção passa não só pela situação política, social e económica de Portugal nos
anos 30, pela reforma sanitária e reorganização da assistência social implementada
seguindo o projeto ideológico do Estado Novo, a sua visão, sobre o ensino, sobre o
papel da mulher e dos jovens na sociedade mas, também, pelo movimento do
catolicismo social português que se desenvolveu a partir das interpretações e
traduções práticas da Doutrina Social da Igreja no sentido de responder à “questão
social” colocada pela industrialização e emergência do liberalismo.

Por último, a localização das primeiras tentativas de formação em Serviço Social e do


primeiro projeto educativo levado a cabo pelo Instituto de Serviço Social assinalando-
se a este propósito o modelo “teórico” em bases positivistas consubstanciadas na
doutrina social da Igreja e na Ciência Social de Le Play, implícitas no projeto político
de educação nacional – Deus, Pátria e Família.

3.1. A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PORTUGAL

Será fundamental, neste contexto e nesta continuidade, entender a emergência do


Serviço Social Português enquanto campo de conhecimento, integrando o estudo da
institucionalização da primeira instituição educativa em Serviço Social naquele que foi
o contexto político do Estado Novo e em concreto na sua política de assistência social,
sobre a educação e sobre o papel das mulheres nestes domínios.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 127


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Nesta linha, Correia (1950) que procurou as origens remotas do Serviço Social em
Portugal, defende que será fácil localizar nos sentimentos essencialmente cristãos
presentes desde a formação da nação século XII e na própria ação do clero, os
percursores do Serviço Social. É evidente que tal não era possível, quando a
distribuição de bodos e esmolas se realizavam “às cegas” e de forma injusta. Ocorria
quando se conjugava uma ação de averiguação das causas sociais da miséria ou do
infortúnio com a procura de um tratamento do mal e a remoção da sua origem. Neste
aspeto, a concretização das 14 Obras de Misericórdia, eram o melhor e mais completo
programa que existia.

Ao longo do tempo, Correia (1950. p. XXXVIII) acrescenta ser possível referir alguns
notáveis que, ao lado do clero, se notabilizavam pela sua ação pessoal, visitando os
pobres e averiguando as causas da pobreza. São exemplo a Rainha Santa Isabel nos
finais do século XIII e começo do seculo XIV e Nun’Álvares, no final do século XIV e
início do século XV e, ainda, o trabalho das Confrarias que existiram em várias
cidades. Muitas possuíam ou administravam albergarias, hospitais, gafarias ou
mercearias. Em antigas “disposições de compromisso” encontra-se registo de
praticarem a visitação domiciliária, o mesmo se poderá pensar das Ordens Terceiras,
S. Domingos e S. Francisco às quais pertenceram vários Reis de Portugal

“Por esse compromisso, os irmãos, escolhidos entre pessoas de “honesta vida, boa
fama, sã consciência, tementes a Deus e guardadores dos seus mandamentos” eram
obrigados a fazer visitas a doentes, a pobres, a presos e a pobres envergonhados,
acompanhadas de inquérito da situação, levando-lhes alimentos ou conforto espiritual,
pedindo-lhes pão para distribuir, conciliando os desavindos, realizando, enfim autêntico
Serviço Social” (Correia, 1950, p. XXXIX).

Correia (1950), chama a atenção para o ano de 1504, e para o trabalho realizado no
Hospital de Todos-os-Santos, onde o pessoal realizava visitas domiciliárias não só a
pedido dos doentes mas, sobretudo, e sistematicamente à procura de sifilíticos, para
ali serem internados e tratados

“Esse serviço de visitas em busca de sifilíticos é certamente das mais antigas


manifestações de visitação sanitária de que há memória, no género da que hoje é
praticada pelas enfermeiras de Saúde Pública na luta anti-venérea, sendo ao mesmo
tempo precursor do que se havia de chamar o Serviço Social Hospitalar, da instituição
das almoners inglesas” (Correia, 1950, p. XXXIX).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 128


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Não poderemos esquecer o papel das Misericórdias, do século XVI ao século XIX, que
em Portugal espalhadas por todo o país, a par das confrarias, nunca deixaram de
praticar as 14 Obras de Misericórdia.

Este autor considerava, em 1950, que esta primeira prática, realizada por pessoas
com formação cristã que se dispunham a praticar as 14 Obras de Misericórdia,
representava uma verdadeira prática do Serviço Social, tendo obviamente sofrido
várias alterações ao longo do tempo. Mais tarde, no século XX, iniciou-se em Portugal
a Medicina Social de que foram pioneiros Sousa Martins (1843-1897), Augusto Silva
Carvalho (1861-1957), Alfredo Lopes, Ricardo Jorge (1858-1939), Costa Sacadura
(1877-1966), Tovar Lemos, Faria de Vasconcelos, entre outros. Em 1921 Faria de
Vasconcelos define as funções da “enfermeira visitadora”. Em 1924, Pacheco de
Miranda fez um ensaio sobre Serviço Social, que segundo Fernando Silva Correia
(1950), já seguia os moldes preconizados por Mary Richmond (1861-1928) e Richard
Cabot (1868-1939).

Correia (1950) menciona, ainda, que em 1925, Pacheco de Miranda, Branca Rumina e
Sara Benoliel em Lisboa, António Emílio de Magalhães com Gil da Costa e Veiga Pires
e Almeida Garrett, no Porto, Adelino Vieira de Campos em Coimbra, e José Alberto
Faria, Tovar de Lemos, Augusto Oliveira, José Lopes Dias e Beleza dos Santos e ele
próprio Fernando Silva Correia, iniciaram a partir das Caldas da Rainha. Sem saber
uns dos outros, uma campanha que esteve na origem e na instalação definitiva do
Serviço Social.

Seguiu-se a esta campanha, o estabelecimento do primeiro curso de Serviço Social; a


apresentação dum programa de ação pelo congresso das Misericórdias de Setúbal,
programa modelar intitulado “Serviço Social Organizado, elaborado em 1932, por José
Maria Ferraz e a apresentação de um programa de assistência técnica pela Condessa
de Rilvas ao 1º Congresso da União Nacional” (Correia, 1950, p. XLIII).

Já na época contemporânea (Fontes, 2002), chama a atenção para o movimento do


catolicismo social que se desenvolve a partir das interpretações e traduções práticas
da Doutrina Social da Igreja no sentido de responder à “questão social” colocada pela
industrialização e emergência do liberalismo. O catolicismo social é, no entanto,
transversal a diferentes correntes, sendo invocado e apropriado pelo nacionalismo,
democracia-cristã e pelo integralismo lusitano. Uma das figuras que poderemos
destacar das grandes figuras católicas do século XX será o padre Abel de Varzim

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 129


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

(1902-1964) que veio a lecionar no Instituto de Serviço Social, como veremos mais
adiante. Abel de Varzim foi diretor do jornal “O trabalhador” (1931-1948) e deputado à
Assembleia Nacional na II Legislatura, onde a sua colaboração com o Estado Novo se
realiza no sentido de cristianizar a ordem corporativa. Porém, o padre Abel de Varzim
acaba por contrapor o corporativismo de Estado, implementado por Salazar (1889-
1970) defendendo o corporativismo de associação preconizado pela Doutrina Social
da Igreja o que o levou a romper com o regime.

Mais tarde, Adérito Sedas Nunes (1928-1991) que foi Presidente da Juventude
Universitária Católica e marcou as ciências sociais portuguesas, criando em 1962, o
“Gabinete de Investigações Sociais” e, no ano seguinte, a revista Análise social. As
temáticas dos seus primeiros trabalhos incidem sobre Doutrina Social e o
Corporativismo tendo sido entre 1956 e 1958, diretor do Centro de Estudos do
Ministérios das Corporações.

Filomena Mónica (1978,) situa-nos nos anos 30 num Portugal com a economia mais
atrasada de toda a europa. Distante, geograficamente, do centro de desenvolvimento,
com um processo de industrialização lento, devido aos interesses coloniais e à
dominação estrangeira, entre outros fatores. As unidades fabris modernas eram
escassas, na sua maioria pequenas empresas e mesmo até, muitas vezes, artesanais.
Dos dados disponíveis assinala que aproximadamente 20% da força de trabalho
estaria no setor secundário, porém a quase totalidade seriam operários de oficinas e
artesãos. A principal indústria empregadora de mão-de-obra seria a têxtil, absorvendo
um terço da força de trabalho industrial. Mais de metade da população ocupava-se do
cultivo da terra. No norte do País a partir do minifúndio e no Sul do latifúndio,
recordando a inexistência de uma reforma agrária que estaria na origem dos entraves
ao aumento da produção, mas indispensável para a acumulação do capital.

Na agricultura e por todo o país, os trabalhos agrícolas cediam a rotinas seculares. O


capital era escasso, o sistema de créditos era primitivo e a mecanização era
praticamente inexistente. Mónica (1978) descreve um Portugal dos anos 30 como uma
sociedade paternalista e polarizada em termos de classe. Com uma burguesia
poderosa detentora de terras, um pequeno grupo de grandes indústrias, uma classe
média fraca, seguida de uma massa imensa de camponeses e trabalhadores rurais
“ignorantes e miseráveis” e, por último, um número considerável de operários urbanos.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 130


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No geral, uma sociedade isolada e pobre, em que a doença e a fome desencadeavam


um dos mais elevados índices de mortalidade da Europa”

Salazar (1889-1970) apresentava-se como a solução para a “crise do Estado


Moderno” que consistia na rejeição, tanto da conceção liberal como da conceção
totalitária de Estado regressando a uma filosofia cristã do poder, adaptada obviamente
aos conturbados tempos que se viviam34. A Constituição de 1933, proclamou o Estado
Novo como um Estado Corporativo Unitário onde a soberania assentava na pessoa do
Presidente da República, na Assembleia Nacional (eleita por uma Lista Nacional), no
Governo, nos Tribunais e numa Câmara Corporativa constituída por representantes
das Corporações, dos Municípios, Igreja, Universidade, Corpos de Estado e das
Misericórdias. Do ponto de vista formal, a Constituição de 1933 era presidencialista
mas Salazar (1889-1970) ao longo do tempo foi transferindo o poder para o Governo.
Em suma, o Estado Novo pretendia-se como um Estado Corporativo derivando, no
entender da autora, de um pensamento social cristão, distanciando-se das teorias da
modernização burocráticas e do pensamento anarco-sindicalista (Mónica, 1978).

Basicamente, o corporativismo defende que a sociedade se compõe não de classes


antagónicas, mas de grupos harmónicos, divididos verticalmente de acordo com as
suas respetivas funções na comunidade. No caso do corporativismo português ele
declarava-se plural e livre, mas na prática dependia do Estado limitando-se quase
exclusivamente à esfera económica.

A ditadura não era uma exclusividade portuguesa, Em Itália, Benito Mussolini (1883-
1945) já vinha de longa data como aponta Carvalho (2011) mas outra ameaça mais
forte surgia no centro da Europa. Hitler chega ao poder em 1933, ao mesmo tempo
que Salazar (1889-1970) foi nomeado para Presidente do Concelho de Ministros e em
1935 o ditador alemão denunciou o Tratado de Versalhes (1919), ação que anunciava
o prelúdio do conflito mundial que, em 1939, viria a deflagrar. Para complementar esta
ideia deve acrescentar-se que Salazar foi nomeado ministro de guerra em 11 de maio
de 1936, e que foi em Julho desse mesmo ano que se iniciou a sangrenta Guerra de
Espanha, entendida como uma cruzada contra o comunismo.

34 Para Salazar (1889-1970), a doutrina dos direitos individuais, sendo o resultado de um longo
desenvolvimento histórico, constituía uma doutrina particularmente perigosa, pois as sociedades não
podiam nem deviam ser revolucionadas de acordo com ideais utópicos. A sua ordem não dependia de um
contrato abstrato mas fundava-se em Deus. A igualdade dos homens, era por ele considerada um mito, já
que não dependia do poder político do cidadão, de um simples conceito abstrato mas antes de mais de
entidades concretas como seja a família e o município com existência lógica e cronológica anterior à
comunidade política (Mónica, 1978, p.86, 87).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 131


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A Constituição de 1933 no seu artigo 44º considera que,

“É livre o estabelecimento de escolas particulares paralelas às do Estado, ficando


sujeitas à fiscalização deste e podendo ser por ele subsidiadas, ou oficializadas para o
efeito de concederem diplomas, quando os seus programas e categorias do respetivo
pessoal docente não forem inferiores aos dos estabelecimentos oficiais similares”.

A Concordata de 7 de Maio de 1940 no seu artigo 20º35 confirmou à Igreja o direito de


ensinar em escolas particulares permitindo que as associações e as organizações da
Igreja pudessem livremente estabelecer e manter escolas particulares paralelamente
às do Estado, obviamente ficando sujeitas à sua fiscalização e podendo ser
subsidiadas e oficializadas.

Os católicos, porém, segundo Braga da Cruz (1999) iam-se desvanecendo à medida


que o Estado persistia em não oficializar nem subsidiar o ensino particular católico e,
segundo este, o Estado estava longe de reconhecer na prática os direitos e o papel da
Igreja na educação e é neste sentido que em Outubro de 1952, o tema da “IV Semana
Social Católica” incide sobre “o problema da educação”. Após esta “IV Semana Social
Católica” em 1952 e do “I Congresso da Juventude Universitária Católica (J.U.C)” em
1953, ganharam um novo corpo as reivindicações da criação de uma Universidade
Católica. Efetivamente, segundo Cruz (1999”), já teria sido criado, em 1944, um
Instituto Superior Católico e o Cardeal Cerejeira fizera entregar a Salazar (1889-1970),
uma proposta de funcionamento em S. Vicente de Fora, mas não era suficiente, era
necessária uma Universidade, com faculdades onde se pautasse um ensino de
orientação católica. Esta ideia encontrou em Salazar várias resistências visto que a
achava “um sonho sem consistência” já que se inclinava mais para recuperar a
Faculdade de Teologia em Coimbra, que a República extinguira.

Ao longo da guerra, as dificuldades sociais e políticas do regime de Salazar vão


repercutir-se no seio da Igreja e no apoio católico ao regime que começou a conhecer
sucessivas e crescentes dificuldades e tensões, próprias do mundo católico.

35 Com seguinte redação “As associações e organizações da Igreja podem livremente estabelecer e
manter escolas particulares paralelas às do Estado, ficando sujeitas, nos termos do direito comum, à
fiscalização deste e podendo, nos mesmos termos, ser subsidiadas e oficializadas. O ensino religioso nas
escolas e cursos particulares não depende de autorização do Estado, e poderá ser livremente ministrado
pela Autoridade eclesiástica ou pelos seus encarregados. É livre a fundação dos seminários ou de
quaisquer outros estabelecimentos de formação ou alta cultura eclesiástica. O seu regime interno não
está sujeito à fiscalização do Estado. A este deverão, no entanto, ser comunicados os livros adoptados de
disciplinas não filosóficas ou teológicas. As autoridades eclesiásticas competentes cuidarão que no
ensino das disciplinas especiais, como no da História, se tenha em conta o legítimo sentimento patriótico
português”

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 132


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Efetivamente, a guerra e o pós-guerra imediato, no entender de Braga Cruz (1999)


tornaram graves as condições de vida dos portugueses e passo a passo tornaram-se
mais complexas as condições de realização do corporativismo. O desapontamento era
notado nos meios católicos face ao desvirtuamento, ou mesmo lentidão, da construção
do corporativismo. O entusiasmo inicial, dos começos dos anos 30 vai dando lugar à
desilusão e ao ceticismo (Cruz, 1999).

No enfrentamento da “questão social”, a estratégia altera-se entre os católicos sociais.


Passa de um “entrismo” adotado nos anos 30, nas palavras de Braga da Cruz (1999),
caracterizado pela sua decisão de entrar nas estruturas corporativas cristianizando-as,
para a criação de uma organização autónoma paralela. A entrada do padre Abel
Varzim, tal como já referido anteriormente, para a Assembleia Nacional como
deputado, representa o culminar dessa estratégia e a deceção perante os resultados
obtidos. Representa, assim, o regresso à ideia de potenciar as organizações católicas,
com autonomia, no âmbito da “Ação Católica” designadamente a “Liga Operária
Católica (LOC)” e a “Juventude Operária Católica (J.O.C)”.

O próprio jornal “O Trabalhador”, que na prática era um órgão da Ação Católica


Operária (AOC), passou a ser publicado semanalmente, deixando transparecer o
crescente mal-estar, com críticas ao funcionamento do sistema corporativo. Por esta
razão, o jornal foi encerrado em 1948, tendo o Padre Abel Varzim, seu animador,
sofrido pressões governamentais para ser afastado de cargos que exercia, como seja,
o de diretor do Secretariado Económico-social da “Ação Católica”, do próprio Instituto
de Serviço Social36 onde era professor e de Assistente Geral da Liga Operária Católica
(L.O.C.). A Igreja, por seu turno, acabou por ceder a essas pressões a fim de evitar
males maiores.

Pimentel (2011) assinala a este propósito o objetivo do ministro da Educação


Nacional, António Carneiro Pacheco (1887-1957) de “Reeducar as mulheres adultas
enquadrando-as numa organização estatal”. Este seria o seu objetivo aquando da
criação da Obra da Mães pela Educação Nacional (OMEN) em 1936, sendo que esta,
ainda ficou com a tarefa de criar, em 1937 e de dirigir a Mocidade Portuguesa

36 Braga da Cruz (1999, p. 96) refere-se incorretamente ao facto do Padre Abel Varzim ser então
professor no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa sua designação atual. Neste período, este
instituto não possuía o titulo de superior já que só lhe viria a se concedido em 1961 (Alvará 263 de 24 de
Junho de 1937 – averbamento de 7 de Dezembro de 1961).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 133


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Feminina (M.P.F.). Esta com o objetivo de complementar o papel da própria escola,


“educando, as crianças do sexo feminino e as jovens” (Pimentel, 2011, p. 8).

A visão que Salazar (1889-1970) possuía de sociedade enquanto estrutura hierárquica


imutável conduziu-o a uma conceção do papel da escola não se destinando esta a
servir de agência de distribuição profissional ou de deteção do mérito intelectual, mas
acima de tudo, como um aparelho de doutrinação (Mónica, 1978). Aliás, não haveria
para o salazarismo qualquer razão que justificasse as desigualdades económicas, que
eram inevitáveis e instituídas por Deus, rebatendo a ideia de que a escola seria a
“grande niveladora”. Para Salazar, numa sociedade naturalmente hierarquizada a
educação por si só pouco nivelaria e pouco poderia fazer para uma maior igualdade.

Segundo Nóvoa (1990), o modelo educativo do Estado Novo este impunha uma
ideologia conservadora e nacionalista assente num debate “instrução versus
educação” onde teria existido, para o autor, “um projeto de moldagem das inteligências
e sensibilidades”. É esta a ideologia salazarista que “limitava as expectativas de
mobilidade alimentadas pela detenção de uma mais-valia escolar, canalizando os
investimentos pessoais para a fertilização do lugar social que cada um ocupava”. A
reforma educativa de António Carneiro Pacheco (1887-1957), assentou nos consensos
sociais entretanto produzidos e “transfere-se do exterior para o interior da educação”
sendo que a “política educativa apropria-se dessa fonte exógena de legitimação,
deixando claro que o universo escolar é mais “totalizado que totalizador” (Nóvoa,
1990, p. 459).

Por todas estas razões, Nóvoa sublinha ainda que, o Estado Novo terá de facto
entendido todas as potencialidades do ensino como fator de socialização, criando
novas áreas curriculares, expandindo as atividades circum-escolares e o reforço dos
dispositivos de controlo das famílias. De qualquer forma, Nóvoa conclui que apesar
das importantes consequências sociais no enquadramento das crianças e das
famílias, o “tolitarismo educativo” terá sido menos poderoso do que se pensava na
medida em que a afirmação da diferença nunca deixou de existir onde “ [...] a acção
das pessoas e dos grupos sociais” conseguiu “viabilizar uma apropriação outra da
cultura escolar” (Nóvoa, 1990, p. 515).

A educação do povo representava, portanto, um ideal utópico e demagógico dando


apenas a ilusão de elevação aos que eram ignorantes e inferiores e qualquer esforço
neste sentido só seria eficaz se seguisse um método indireto, ou seja, mediante a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 134


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

preparação de uma escol dos que lhe ficassem abaixo na escala social, sendo por
este motivo inaceitável uma difusão igualitária da cultura (Mónica, 1978, p.132).

Neste contexto, ser-se educado segundo a posição social significava aceitar a


condição rural colocando a tónica nos valores do campo e Mónica (1978) chama a
atenção para o facto de, em 1934, o primeiro “Congresso da União Nacional”
determinar que o ensino devia enraizar o homem à terra, valorizando-a, dando-lhe
elementos para nela subsistir, o que só poderia ocorrer como resultado de uma
preparação adequada ou seja de uma doutrinação.

Carneiro Pacheco (1887-1957)37 insistia que a escola deveria contribuir para abrandar
o afluxo às cidades, pregando insistentemente as maravilhas da vida rural. Aliás, a
glorificação da vida rural tornou-se um ponto central do salazarismo já que o próprio
Salazar (1889-1970), era um “filho do campo”.

3.1.1. AS ORGANIZAÇÕES DE MULHERES E DE JUVENTUDE

Em Portugal, a atuação feminina no espaço público era escassa e sem tradição. Não
sendo, por isso, preocupação primordial do Movimento Nacional Socialista, organizar a
mulheres nacionais sindicalistas. Nem no seu órgão principal – Revolução – se
vislumbra a intervenção feminina (Pimentel, 2007).

É contudo em 1932, que surge em Faro o primeiro número do jornal – “O Nacional-


sindicalista”, dirigido por Rodrigo de Sousa Pinto onde se inclui a colaboração das
mulheres e uma “Página Feminina”. Francisca do Carmo Costa é a primeira
colaboradora do jornal, realizando, desde logo, o apelo às mulheres para a luta contra
o comunismo, enquanto primeiro “inimigo” da família. Apela, também, ao apoio do
projeto educativo de Gustavo Cordeiro Ramos que fazia incluir nos programas
escolares as disciplinas de “História da Pátria” e de “Formação do Carácter” (Pimentel,
2007).

37
António Faria Carneiro Pacheco (1887-1957). Licenciado e doutorado pela Universidade de Coimbra foi
professor universitário e catedrático. Na sua carreira político-administrativa ocupou, entre outros, o cargo
de deputado sidonista em 1918, foi vogal e depois Presidente da Comissão Executiva da União Nacional
em 1934, Ministro da Instrução Publica que mudando o nome do Ministério para Ministério da Educação
Nacional. A ele se deve, enquanto ministro, a criação da Mocidade Portuguesa em 1936 e nesse mesmo
ano a Obra das Mães pela Educação Nacional nesse mesmo ano, a Junta Nacional de Educação, o
Instituto de Alta Cultura, a Academia Portuguesa de História e o Instituto Nacional de Educação Física.
Posteriormente foi Embaixador e plenipotenciário junto da Santa Sé (1940 a 1945), Embaixador em
Madrid entre 1943 e 1953, Deputado à Assembleia Nacional na I e II Legislaturas e ainda Procurador à
Câmara Corporativa do Conselho Corporativo. (Castilho, 2009)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 135


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Embora se reconhecesse que a mulher tinha de ganhar a vida através do trabalho


intelectual, outra colaboradora condenou a competição exagerada com o homem
propondo como solução a fixação da mulher culta no lar, onde orientaria a educação
dos filhos e fortaleceria a família enquanto célula primária da sociedade. Estes seriam
os argumentos defendidos pelo Estado Novo e pela Obra das Mães pela Educação
Nacional. Outra colaboradora como Paula Niza defendia que a mulher dentro do
“Nacional- sindicalismo” deveria ser a “mulher piedosa, trabalhadora, sofredora e terna
como a mãe, filha e irmã” e a que mantinha de forma exemplar o seu lar (Pimentel,
2007, p. 21).

A referida articulista terá, ainda, argumentado que seria uma injustiça para os próprios
nacionais-sindicalistas que, por um lado, defendessem a ordem em causas justas, por
outro, encontrarem em suas casas a desordem, o desassossego e as suas esposas
empregassem o “tempo unicamente a experimentar penteados e vestidos” (Pimentel,
2007, p. 21). Caso o marido defendesse ideias contrárias, de natureza democrática ou
falsos princípios do liberalismo, a mulher não deveria mostrar passividade, mas sim
força e ação para o atrair aos ideais nacionalistas. Na luta contra o comunismo e o
liberalismo, o ceticismo e o pessimismo dos “vencidos da vida”, a mulher nacional –
sindicalista supriria as insuficiências da família e da escola, formaria o “individuo para
a comunidade” de acordo com a perspetiva cristã e corporativa O Movimento Nacional
Sindicalista dissolveu-se por nota oficiosa de Salazar (1889-1970), em 29 de Julho de
1934 (Pimentel, 2007).

No decurso do ano de 1935, a propósito de um estudo sobre a organização da


assistência pública foi proposta ao Ministro do Interior, Henrique Linhares de Lima
(1876-1953), a criação de uma organização feminina (Bases Femininas da Nova
Nação), todavia, esta proposta não teve consequências. Foi no ano seguinte, após o
golpe militar em Espanha que esteve na origem da guerra civil, que surgiram em
Portugal diversas iniciativas de apoio ao campo “nacionalista”. Em comício realizado
no Campo Pequeno, em Lisboa, a 28 de agosto, foi lançada a ideia de criar a Legião
Portuguesa que, desde o seu início, incluiu nos seus estatutos a possibilidade de
formação de uma seção feminina. Ainda nesse ano, um grupo de “bondosas senhoras
portuguesas” se organizou numa comissão destinada a angariar fundos para apoiar os
“nacionalistas” espanhóis feridos. Entre essas senhoras encontrava-se a Maria de
Lurdes Figueira Freire da Silva Brusky (Condessa de Almoster) (1896 – 1978), que
viria a ser vogal da “Obra das Mães” (Pimentel, 2007). Nesta mesma linha de apoio

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 136


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

aos feridos da guerra civil espanhola encontra-se a “Secção Auxiliar Feminina da Cruz
Vermelha Portuguesa” com sede na Liga dos Combatentes da Grande Guerra que por
seu turno também conta com uma seção feminina (Pimentel, 2007).

Entre algumas mulheres que faziam parte da Legião Portuguesa e após se encontrar
previsto nos seus estatutos a criação de grupos de legionárias vocacionadas para os
“serviços auxiliares de saúde ou de ação social”, definiu-se as “Bases das
Organizações Legionárias Femininas”. A esta organização poderiam pertencer todas
as portuguesas maiores de 18 anos que quisessem servir a Legião Portuguesa no
“campo de actuação reservado à mulher, pelos princípios morais e sociais da
Revolução Nacional” (Pimentel, 2007, p. 25) que ficando sob a autoridade dos
respetivos comandantes distritais da Legião Portuguesa poderiam atuar em campos
de atuação específicos entre os quais os serviços de enfermagem, destinados a apoiar
a Ação Social Legionária; os serviços de assistência, dentro do que se considerava ser
os princípios da moral cristã e, ainda, na divulgação de noções de higiene, puericultura
e de educação familiar.

Caberia, ainda, a esta organização feminina a colaboração em todas as festas ou


manifestações da Legião e cooperação com os legionários sempre que os serviços
prestados não se incompatibilizassem com os seus deveres familiares (Pimentel,
2007, p. 25).

Baseada nas diretrizes da carta papal da Ex Officiosis Litteris do papa Pio XI (1922-
1939) a Igreja iniciou-se na organização do apostolado dos leigos em associações
especializadas de acordo com o sexo, idade e meio social, pelo que, em 1934, foi
publicado o “Estatuto da Acção Católica Portuguesa”. A 19 de março desse mesmo
ano surgiram, ainda, os estatutos das duas grandes organizações femininas, ou seja a
Liga de Acção Católica Feminina e a Juventude Católica Feminina que, em maio, já
contava com dez mil associadas (Pimentel, 2007).

A Ação Católica Portuguesa passou, então, a organizar as mulheres e as jovens


portuguesas, inicialmente apenas no seio das elites e com a preocupação em disputar
com o Estado o monopólio da formação do escol feminino. No que respeita às
organizações masculinas quase todas foram criadas posteriormente sem, contudo,
atingir a expansão das femininas, que contavam com três vezes mais membros do que
as primeiras. Se em 1942 a liga do Homens da Ação Católica e a Juventude Católica
Masculina tinham respetivamente, 2231 e 11987 filiados, a Liga da Ação Católica

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 137


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Feminina e a Juventude Católica Feminina contavam com 9154 e 36439 filiadas


(Pimentel, 2007).

A partir de 193638, ano da criação da Obra das Mães pela Educação Nacional, as
organizações católicas femininas encontraram-se envolvidas em campanhas e
atividades, bem como no ano seguinte, com a criação da Mocidade Portuguesa
Feminina. Foram objetivos dessas organizações femininas católicas afastar a mulher
da fábrica e a jovem da rua e da prostituição, bem como de outras organizações laicas
como seja a associação Florinhas da Rua, fundada em 1917, pela futura dirigente da
Obra das Mães, Condessa de Rilvas que mais tarde veio, também, a criar o Instituto
Médico-Pedagógico Condessa de Rilvas. Este instituto fundiu-se posteriormente com
as Florinhas da Rua e tornou-se em 1935, uma instituição semioficial dependente de
vários ministérios que a subsidiaram (Pimentel, 2007).

Até à criação das organizações femininas estatais, existiam várias associações de


caridade e de beneficência geridas por mulheres da aristocracia e das classes altas da
sociedade. Apesar de muitas dessas associações, públicas ou privadas e terem
existido anteriormente, muitas surgiram nos anos trinta pela iniciativa da Igreja e
dirigidas por mulheres católicas e por familiares dos governantes do Estado Novo.
Outras, porém, tinham um caráter educativo e laico onde nem só as mulheres ligadas
ao regime atuavam (Pimentel, 2007).

No seu discurso no I Congresso da União Nacional, em maio de 1934, e referindo-se à


recente Constituição Portuguesa, Salazar (1889-1970) esclarece aludindo à Alemanha
nazi e à Itália fascista, que o Estado Novo se distinguia do Estado totalitário e pagão.
Esta nova Constituição de 1933 assegurava a liberdade e a inviolabilidade das
crenças e práticas religiosas atribuindo aos pais e seus representantes a instrução e
educação dos filhos e reconhecendo à Igreja e às suas organizações a livre ação
espiritual (Pimentel, 2007).

Por seu turno, Carneiro Pacheco (1887-1957), no decurso do mesmo Congresso apela
à educação e à formação ideológica dos jovens sem, contudo, os integrar em partidos
ou milícias, mas num movimento nacionalista de caráter espiritual. Aliás, Carneiro
Pacheco (1887-1957), que toma posse da pasta do Ministério de Instrução, em 21 de
janeiro de 1936, que mais tarde se viria a transformar em Ministério da Educação

38 Diário do Governo de sábado 15 de Agosto de 1936 (1ª Série) – Decreto-lei nº 26:893

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 138


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Nacional, apresentou uma semana depois a proposta de Lei nº 1941 em que se incluía
o propósito de criação da Mocidade Portuguesa. Essa proposta seria aprovada a 11
de abril anunciando-se que à Mocidade Portuguesa seria dada uma organização
nacional e pré-militar que estimulasse o desenvolvimento integral da sua capacidade
física, formação do caráter e a devoção à Pátria, que a colocasse em condições de
poder concorrer para a sua defesa (Pimentel, 2007, p. 28).

Irene Pimentel (2007) afirma ser difícil saber, ao certo, quando e como surgiu a ideia
de criar as duas organizações, a Obras da Mães pela Educação Nacional e a
Mocidade Portuguesa. Embora, muitas questões se levantam sobre a sua origem e
autoria e estejam sem resposta às razões de criação de uma organização estatal de
mulheres, a autora consegue afirmar que a Obra das Mães foi criada pelo Ministério
da Educação Nacional.

Uma das monografias realizadas pelas alunas do Instituto de Serviço Social refere que

Foi no dia 11 de Julho de 1936 que teve lugar a primeira reunião preparatória para a
instituição da Obra das Mães pela Educação Nacional (O.M.E.N.) de que a Mocidade
Portuguesa Feminina (M.P.F.) é uma das secções. A reunião realizou-se no Ministério
da Educação Nacional, sob presidência de Sua Excelência o Ministro Dr. António Faria
Carneiro Pacheco fundador e principal organizador da O.M.E.N. e, por conseguinte, da
M.P.F. Nesta reunião foi nomeada a Junta Central, ficando determinado convidar-se
para Presidente de Honra a esposa do Chefe do Estado, Exmª. Senhora D. Maria do
Carmo Fragoso Carmona e Presidente efectiva a Exmª Senhora Condessa de Rilvas.
Quatro dias depois, no dia 15 de Julho, realizou-se no Palácio Presidencial de Belém e
sob a presidência da Ex.ª. Senhora D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona, a sessão
solene da Instituição da O.M.E.N. O Diário do Governo de sábado 15 de Agosto de
1936 (1ª Série39) inseria os Estatutos da mesma obra (Almeida, 1945, p. 4).

Para Maria Guardiola (1895-1987), era missão da Obra das Mães pela Educação
Nacional restabelecer

[…] a tradição nos seus conceitos de Amor, Deus e da Pátria, do respeito pela família,
do amor do trabalho e na aceitação do cultivo daquelas virtudes que aureolaram as
frontes das nossas mães e fizeram delas os anjos tutelares da família” 40 (Pimentel,
2007, 29)

Pimentel (2007) conclui que a função específica da elite feminina do Estado Novo
passava por “exercer uma ação social, moralizadora e educativa” dirigida a habilitar a
mulher para a educação familiar, de acordo com as boas tradições portuguesas.

39 Decreto nº 26: 893 de 15 de Agosto de 1936


40 Diário da Republica, 12 de Julho de 1936, citada por Pimentel, (2007, p. 29).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 139


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3.2. A REORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA SOCIAL E A REFORMA


SANITÁRIA

Não só a educação mas também a assistência foram, precisamente, os dois campos


públicos de atuação reservados pelo Estado Novo às mulheres, sobretudo, àquelas
que não se limitavam a ser mães, esposas e irmãs. O “direito à assistência pública” foi
consagrado na constituição republicana de 1911, ano em que foi igualmente
organizado o sistema de assistência estatal, com a criação do “Fundo Nacional de
Assistência” em 25 de Maio.

Mais tarde, em 1913, foi promulgada uma lei sobre a responsabilidade patronal pelos
acidentes de trabalho e em 16 de Maio de 1916 a lei nº 494 que instituiu o Ministério
do Trabalho e Previdência Social. Em 1919, são decretados os seguros sociais
obrigatórios de doença, desastre, trabalho, invalidez e velhice e criado o Instituto de
Seguros Sociais Obrigatórios e Previdência Geral (ISSO-PG), organismo incumbido da
Assistência Pública, contudo como refere Pimentel (2001, p. 80) no período
republicano-liberal, as leis não passaram do papel ou tiveram escassa aplicação.

É pois, mais tarde, após o golpe militar de 1926 que o Instituto de Seguros Sociais
Obrigatórios e Providência Geral (ISSO-PG) é integrado no Ministério das Finanças
onde as suas competências em matéria de Assistência Publica são transferidas para a
Direção Geral da Assistência (DGA).

A nova Constituição portuguesa de 11 de Abril de 1933, que já não incluía o direito à


assistência pública afirmava, todavia, que cabia ao Estado “Coordenar e impulsionar e
dirigir todas as atividades sociais, fazendo prevalecer uma justa harmonia de
interesses dentro da legítima subordinação dos particulares ao geral “ e ainda “Zelar
pela melhoria de condições das classes sociais mais desfavorecidas, obstando a que
aquelas desçam abaixo do mínimo de existência humanamente suficiente” (Parte I -
das garantias fundamentais, Art.º 6º nº 2 e 3, p. 4).

Inclusivamente, a discussão aprofundada sobre a assistência pública iniciou-se


apenas no I Congresso da União Nacional de 1934, onde ficou estipulado o papel
“supletivo” do Estado relativamente às iniciativas particulares, designadamente às da
Igreja Católica. Entre as intervenções dos diferentes delegados presentes nesse
congresso, surge a participação da condessa de Rilvas, futura dirigente da Obra da
Mães pela Educação Nacional, a propor a criação de uma Escola de Serviço Social

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 140


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

que em seu discurso, como enfoca Pimentel (2011), considerou ser a assistência
prestada aos “anormais físicos, psíquicos e sociais” uma “obrigação da sociedade
como meio de legítima defesa contra a degenerescência da raça” (Pimentel, 2011, p.
81).

Tomando como referência a primeira Conferência Internacional de Serviço Social,


realizada em França em 1928, verifica-se neste ano que no continente europeu
existiam 87 escolas de Serviço Social de um total 120 espalhadas por todo o mundo.
Face a este cenário denota-se a emergência tardia das primeiras escolas de Serviço
Social que vem a acontecer em Portugal em 1935 em Lisboa e 1937 em Coimbra só
reforçado em 1956 no Porto.

Por outro lado, a tradução e edição do livro “Diagnóstico Social” de Mary Richmond só
ocorreu em Portugal pela mão de Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, em
1950.

Neste domínio de reflexão, atendendo às razões subjacentes a esta letargia na


emergência do Serviço Social Português, por contraponto à criação das restantes
escolas internacionais, Conejo (1992) propõe a ponderação de três fatores essenciais,
a saber: “o Serviço Social como prática profissional inserido no desenvolvimento do
capitalismo; o atraso do capitalismo português, a dependência como fator de
subdesenvolvimento; e a crise conjuntural que viveu a sociedade portuguesa” (Conejo
et al., 1992, p 2).

A prática profissional do Serviço Social encontra-se intimamente ligada ao


desenvolvimento do capitalismo no estádio monopolista, na medida em que no final do
século XIX se constituíram os primeiros grandes monopólios resultantes da livre
concorrência e da exploração massiva de milhares de trabalhadores concentrados nas
grandes cidades dos países mais industrializados. (Conejo et al., 1992, p 3).

O contexto dos trabalhadores era confinado ao pauperismo possibilitando dificilmente


a sobrevivência física, enquanto os monopólios enfrentavam internacionalmente a
disputa de novos mercados e fontes de matéria-prima, pelo que se organizaram neste
período as primeiras associações de classe para defender as suas condições de vida
e os seus direitos fundamentais, obrigando a uma intervenção no domínio social,
através de políticas sociais. O Serviço Social surge, pois, ligado a essas estruturas
sociais, criadas para dar respostas à situação das classes trabalhadoras, com o

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 141


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

objetivo de contribuir para uma melhor reprodução da força de trabalho e


consequentemente diminuir as tensões sociais (Conejo et al, 1992, p 3).

Na Conferência intitulada “Em redor do Serviço Social - Conferência Popular”,


proferida no Teatro da Covilhã, por José Lopes Dias Júnior a Convite da Associação
Mutualista Covilhanense, no dia 24 de Abril de 1932 aponta-se que

Na imensa complexidade da vida moderna, é muito difícil classificar o Serviço Social,


nos seus diversíssimos aspetos. A meu ver, Serviço Social é todo o esfôrço tendente a
elevar a dignidade humana, quer promovendo a sua expansão de suas regalias
materiais e espirituais, quer opondo-se a todas as causas que atingiram ou vejam
atingir o bem-estar dos indivíduos (Dias Júnior,1932, p. 7).

Acrescenta “

É um conceito muito mais vasto, mas com a vantagem de corresponder à realidade dos
fenómenos. Os anglo-saxões chamaram-lhe Serviço Social ao que nos chamamos
Assistência, se englobarmos nesta designação a chamada Política Social. Como o seu
fim último é proporcionar remédio para todos os males sociais e individuais, que ora
são interdependentes ora isolados, servir-nos-emos da nomenclatura médica para
classificar os seus meios de atuar que são diversos. É assim que, seguindo a esteira
de René Sand, designaremos a caridade e a filantropia individuais como "paliativos", tal
esmola de alguns tostões, de uma refeição ou de algumas roupas. Atenuam de certo
modo as necessidades do momento, as manifestações do mal-estar, mas além de não
remediarem definitivamente o mal, são remédios incertos e arbitrários. § Na categoria
dos remédios etilógicos, atacando a causa dos males na sua fonte, ficará colocada a
"assistência "curativa": - tal o mutilado ao qual se adapta o aparelho ortopédico que
remediando o seu defeito, o torna útil a si e à sociedade. Quando a assistência se
ocupa de fortalecer o organismo social, melhorando as condições da vida de todos e
cada um, dir-se-á " assistência construtiva (Dias Júnior, 1932, p. 8)

Para José Lopes Dias (1945) infelizmente, os progressos das técnicas nas indústrias
não foi acompanhado do respeito pela moral do trabalho e dos negócios, o que
resultou numa nova ordem geradora de sofrimentos e infelicidades desde a
insuficiência de adaptação às novas condições de vida, onde o homem não sai
sempre valorizado e quantas vezes escravizado. Tendo sido para dominar estas
situações que nasceu o Serviço Social.

Ora, a sociedade portuguesa contrastava significativamente com este


desenvolvimento, em virtude de um processo lento de industrialização e de uma
estrutura social marcada pelo antigo regime e pela presença forte da Igreja no
aparelho ideológico. Por outro lado, a forte dependência de capital estrangeiro
designadamente de Inglaterra e um fraco poder da classe burguesa tornava também a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 142


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

sociedade portuguesa incapaz de fazer frente aos desafios do capitalismo colocando-a


à beira da falência económica (Conejo et al., 1992, p 5).

Portugal que nos finais do século XIX tinha uma população que rondava os 5,5
milhões de habitantes, onde 60% da população trabalhava na agricultura, pelo que o
impacto da industrialização em Portugal era reduzido, pese embora se assista neste
período a uma intensificação do desenvolvimento industrial. (Conejo et al., 1992, p 5).

No decurso desse século e as primeiras décadas do século XX até à constituição do


“Estado Novo”, as relações do Estado com a Igreja são marcadas pela implantação
dos regimes liberais e republicanos e consequentemente pela “Questão religiosa” e
pela “Questão social”.

No final do século XIX Lisboa que contava com 300 mil habitantes era uma cidade mal
iluminada e insalubre de tal forma que mais de metade das crianças que nasciam em
Lisboa não chegava aos cinco anos o que revelava uma taxa de mortalidade infantil
altíssima (Martins, 1999, p. 56).

É, no entanto, deste período o desenvolvimento do sanitarismo que culminará com a


reforma pioneira de Ricardo Jorge (1858-1939). Em 1926 em relatório publicado41
Ricardo Jorge considerava, relativamente a Portugal, que a higiene pública, se
encontrava em considerável atraso lesivo inclusivamente para a saúde dos cidadãos e
vexatório do brio nacional. A situação devia-se ao facto de Portugal ter estagnado e os
outros países avançado em matéria de sanidade (Negreiros, 1949, p. 21).

A taxa de mortalidade em Portugal era de 21,3% no decénio de 1891-1900, inferior à


da Espanha, Itália e França (respetivamente de 29,5%, 24,9% e 22,6%) situação que
manteve até 1910. No decénio seguinte, ou seja, 1911-1920 a situação alterou-se
passando a 23,7% mais alta, portanto, que a França e a da Itália, que apesar da
guerra se situou nos 22,6% e 21,8% respetivamente. No mesmo período temos o
Reino Unido, Bélgica e Suíça, respetivamente com 14,2%, 15,5% e 14,7%
(Subsecretariado de Estado da Assistência Social, 1949, p.20).

No decénio de 1921 - 1930 a referida taxa passou para 19,4%, no entanto, na Suíça e
no Reino Unido não foi superior a 12,1% e 12,3%, para no decénio de 1931-1940
sofrer uma descida acentuada para 16,3%. Só finalmente em 1947, a nossa taxa de

41 No Decreto- Lei nº 12.477 de 12 de outubro que reorganizou em 1926, os serviços de saúde pública.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 143


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

mortalidade foi de 13,29% já se aproximando da França, Inglaterra e Bélgica com


13%, 12,4% e 13,1% sendo que para este cenário contribuíram a melhoria dos
serviços médicos e outros fatores económicos e sociais providos pelo Estado Novo
(Subsecretariado de Estado da Assistência Social, 1949, p. 21).

No começo do século XX, 60% das mortes eram causadas por doenças contagiosas
que graças aos trabalhos de Pasteur, Ebert e Lavedan, entre outros cientistas,
diminuíram drasticamente e libertou a humanidade do perigo das epidemias, um
verdadeiro flagelo que, em determinados países dizimou um terço da população. São
elas sobretudo a varíola, o tracoma42, o sezinismo43, a tuberculose, a lepra e as
doenças venéreas (Subsecretariado de Estado da Assistência Social, 1949, p. 24).

A luta contra todas estas doenças impunha portanto a melhoria da higiene individual e
coletiva, diagnóstico e tratamento precoce, razão pela qual se criaram dispensários
postos anti-tracomatosos que funcionavam em zonas onde as epidemias eram mais
intensas. Com o objetivo de orientar, coordenar e fiscalizar a ação profilática e
terapêutica no combate à tuberculose foi criado em 1945 o Instituto de Assistência
Nacional aos Tuberculosos que sucedeu à Assistência Nacional aos Tuberculosos que
para desenvolver um combate eficaz à tuberculose dividiu o País em três zonas:
Norte, Centro e Sul (Subsecretariado de Estado da Assistência Social, 1949).

De acordo com esta orgânica anti-tuberculosa em cada zona era constituída por:

“ a) Um dispensário central em cada distrito; b) Dispensários concelhios c) Postos


rurais; d) Preventórios; e) Hospitais-sanatórios; g) Centros de convalescença e
readaptação” (Subsecretariado de Estado da Assistência Social, 1949:29).

Considerados os dispensários a peça mais fundamental do armamento anti-


tuberculose paralelamente à ação do Instituto, foram abertos novos sanatórios e
dispensários pelo estado, autarquias, misericórdias e particulares (Subsecretariado de
Estado da Assistência Social, 1949).

No que respeita às doenças venéreas e, sobretudo, a síflis levaram os legisladores a


prescreverem um conjunto de normas tendentes a evitar a sua propagação e que
assentam na sua declaração obrigatória, diagnóstico e tratamento precoces,

42 Tracoma é uma doença que atinge os órgãos visuais oftálmica altamente contagiosa, de etiologia
bacteriana, causadora de comprometimentos na córnea e na conjuntiva e que na época conduzia à
cegueira
43 Também designada como Malária

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 144


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

investigação dos contactos, tratamento obrigatório, criação de uma rede de


dispensários, punição do delito da contaminação, ensinamentos sanitários, defesa e
proteção da família e combate à prostituição.

Tovar Lemos (1932) defende que o trabalho dos funcionários de saúde poderá ter
mais resultado desde que seja criado e anexado ao Serviço Clínico, o serviço de
Assistência, pelo que o Serviço Social deve trabalhar em colaboração íntima com o
serviço clínico e sob dependência dele. Porém, não é fácil estabelecer as regras dessa
educação, pois tudo depende das qualidades da assistente social e das qualidades de
inteligência e cultura do doente

[...] Regras, preceitos, avisos que a assistente individualizará conforme cada caso, para
que o doente se convença de que se pensa nele e nos seus em especial, e que o que
se faz é medida geral, pois o egoísmo de cada um faria menosprezar o interêsse, quási
incompreendido por grande número de pessoas que desconfiam de tanto cuidado
(Lemos, 1932, p. 11).

Efetivamente, em 1932, Alfredo Tovar Lemos, em documento produzido pela Direção


Geral de Saúde sobre o Serviço de Assistência Social, referindo-se ao auxílio social
ressalta que a ação do Serviço Social neste domínio não tem limites, devendo manter
relações com a Assistência Pública e entidades oficiais e particulares e define um
perfil de recrutamento do pessoal para o Serviço de Assistência Social.

Aos Serviços de Assistência Social compete, portanto:”1º A educação do doente; 2ª A


vigilância do tratamento; 3º A despistagem na família; 4º O auxílio social.” (Lemos,
1932, p. 10)

1º – A educação do doente

A educação do doente deve fazer-se desde a fixação do diagnóstico, de forma


individual, tendo em vista dar ao doente confiança no resultado da cura, instruí-lo sôbre
os perigos da doença e do tratamento insuficiente ou suspenso temporariamente
(Lemos, 1932, p.13)

Acolhimento:

A educação do doente deve ser iniciada desde o primeiro momento em que o doente
chega ao Dispensário [...] Fundamental é porém que a assistente social adquira logo
desde inicio uma ascendência sôbre o doente, inspirando-lhe confiança e simpatia,
para o que o que o trabalho deverá ser feito o mais à vontade possível, mais rápida ou
lentamente conforme os casos, esforçando-se sempre porém por que o doente se
convença de que todo o esfôrço e toda a organização é para seu bem, para bem dos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 145


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

seus, e do desinterêsse que o Dispensário e o pessoal poderiam ter por cada um dos
que ali vão procurar remédio para o seu mal de ocasião (Lemos, 1932, p.11).

Claro que o doente em breve é esclarecido das suas dúvidas e, adquirida a confiança e
compreendido o que se pretende, raros são, quando o trabalho social é bem feito, os
que não nos ficam querendo e estimulando […] Se o doente sabe lêr, dão-se-lhe
folhetos, prospectos, aconselham-se livros, etc. Se não sabe ler, é necessário insistir,
contar-lhe factos, sem o aterrorizar todavia, pois espíritos há em que as narrativas
demasiado impressionantes poderiam causar desequilíbrios mentais, que iriam agravar
a perturbação psíquica própria da doença, que faz com que o doente hesite, caile, na
ânsia de se curar, e tome qualquer resolução, por vezes menos conveniente (Lemos,
1932. p. 13)

2º - Vigilância do tratamento

Uma das funções pois do serviço social é exactamente vigiar o doente, não só durante
os tratamentos, mas nos períodos de repouso, fazendo com que êle apareça nas datas
fixadas pelo médico Para esse efeito, disporá as fichas médicas de modo a poder
verificar se de facto o doente volta ou não quando lhe foi indicado (Lemos, 1932, p. 14)

A vigilância do bom tratamento, de persistência e da sua regularidade é outra


preocupação do Serviço Social. Esta é exercida por meio de mapas de registo dos
tratamentos A falta de sequência do tratamento deve merecer da parte do Serviço
Social interêsse em conhecer o motivo. Dificuldades de toda a espécie podem ser
motivo dessa ausência, ou irregularidades, doença de pessoa de família, horas
inconciliáveis, miséria, mal-estar causado pelo próprio tratamento, intolerância, dores
etc.. (Lemos, 1932, p. 18).

De tudo deve o Serviço Social inquirir e procurar remediar, resolvendo por si o que lhe
fôr possível, ou chamando atenção do médico para o caso. Geralmente a causa das
irregularidades é possível demover, e o tratamento faz-se como deve ser, ou pelo
menos melhor (Lemos,1932, p. 21).

3º A despistagem na família

Averiguada a sífilis num doente, inquirido da família, dos filhos, as suas doenças, etc.
Procura-se trazê-los aos Dispensário e caso tenham sífilis procuraremos que se tratem
aqui ou em qualquer outra parte. Se alguns componentes da família, filhos, por
exemplo, não vivem com os pais, ou até fora de Lisboa, procura o Serviço Social,
providenciar para que seja facilitado no local onde estejam, o tratamento devido
(Lemos,1932, p. 23).

4º O auxílio social

Ao tentar definir o seu papel, Lemos (1932) assinala que o serviço do assistente social
é semelhante ao das enfermeiras visitadoras das obras de proteção à infância, mas o
espirito que preside ao trabalho é diverso, bem como a natureza do seu trabalho,
razão pela qual as qualidades a exigir ao pessoal são diferentes e as
responsabilidades sejam maiores.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 146


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3.2.1. OS PRINCÍPIOS GERAIS E OS ÓRGÃOS DA ASSISTÊNCIA

Na 2ª Conferência da União Nacional, publicada no Boletim da Assistência Social de


1949, são apresentados os princípios e realizações da Assistência Social. Nele vemos
plasmados alguns princípios que importa aprofundar. Nessa comunicação enuncia-se
o 1º princípio de que, apesar, de todos os indivíduos serem diferentes e, o mesmo
indivíduo, variar com a idade, saúde física ou mental e capacidade de adaptação ao
meio ambiente, ele dispõe de aptidões e recursos que pelo trabalho, lhe permite
alcançar os meios indispensáveis à sua subsistência. É, pois, dessa diversidade que
resulta a desigualdade social (Negreiros,1949) fazendo coexistir ao lado do homem
válido, apto para a luta, o homem diminuído nos seus meios de ação físicos ou
mentais. As crianças, os velhos, os aleijados, os cegos, os paralíticos, caiem também
neste último universo pois sem força e sem capacidade para angariarem os meios de
subsistência, ficam sujeitos ao auxílio.

Como 2º Princípio é enunciado o sentimento da solidariedade humana devendo-se ao


cristianismo o seu pleno desenvolvimento, pois foi o cristianismo que sublimou a
caridade, elevando-a ao nível da virtude. Antes da era cristã, as crianças disformes ou
débeis eram abandonadas e, por conseguinte, eliminadas pela morte violenta, até
mesmo em povos com elevado grau de civilização. É neste sentido que se entende a “
[...] conceção do homem, qual senhor e centro do universo tem imprescindível direito à
existência e à liberdade [...] ” (Negreiros,1949, p. 7). Os deveres do homem para com
a sociedade correspondem ao desta para com ele e, se o progresso moral e material
da sociedade resulta do trabalho do homem, então deverá aquela auxiliá-lo quando
este perder as forças e não se baste a si mesmo.

De acordo com outro princípio surgem as novas necessidades decorrentes da


complicação das relações humanas, na medida em que quem dá não pode dar
sempre por contrapartida aos males dependentes de beneficência que são muitos e
permanentes. Trata-se, portanto, da necessidade de coordenar a ação da assistência,
com vista ao melhor aproveitamento de recursos e esforços tendentes ao mesmo
fim44.

44 A obrigação de prestar assistência é ao mesmo tempo dever cívico ou de justiça social e preceito
religioso de caridade (Decreto lei nº 32.255, de 12 de Setembro de 1942, citado por Negreiros,1949, p.
52)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 147


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Em suma, a obrigação da assistência é simultaneamente um dever cívico ou de justiça


social e preceito religioso de caridade cumprindo ao estado promover estimular e
sustentar as atividades necessárias que conduzam à defesa física e mental do homem
e à sua integração no meio natural e social (Negreiros,1949, p.9). No entanto, esta
ideia de assistência afasta-se das ideias de caridade e beneficência particular pois
apenas têm por fim socorrer o indivíduo necessitado, minorando o seu sofrimento.
Pelo contrário a “assistência social pretende abranger todas as atividades que tenham
por fim depender o homem da morte, da doença, da invalidez, e da miséria; dos
males.” (Negreiros,1949, p. 9).

Com o objetivo de coordenar e orientar a ação das instituições particulares de


assistência e ainda de a dotar de estabelecimentos e serviços próprios foi definida a
reorganização dos Serviços de Assistência45 em 1945 através do decreto- Lei nº
35.108 de 7 de Novembro. Através dela foram criados os seguintes institutos: Instituto
Maternal; Instituto de Assistência à Família; Instituto de Assistência aos Menores;
Instituto de Assistência aos Inválidos; Instituto de Assistência Nacional aos
Tuberculosos (Negreiros, 1949, p. 49)

No que concerne ao Instituto de Assistência à Família pertencer-lhe-ia favorecer a sua


constituição na melhoria das suas condições morais, económicas e sanitárias e
combater as causas do seu enfraquecimento numa assistência que se pretende que
seja aberta ou prestada no domicílio, visando o socorro ao necessitado e a sua
reintegração no ambiente natural (Negreiros,1949, p. 49). Com este objetivo era então
averiguada previamente a situação da família, sob o ponto de vista económico, social
e moral.

Por seu turno e complementarmente o Instituto de Assistência a Menores tinha como


missão coordenar a assistência educativa da segunda infância ou seja na “ [...]
preparação para a vida, a formação intelectual, moral e física constituirão, ao lado da
preparação profissional, o objetivo de todos os seus esforços” (Negreiros,1949, p. 50).

45 A Delegação do Porto do Instituto Ricardo Jorge, então designado por Instituto Superior de Higiene
(ISH) e dirigido por Fernando da Silva Correia, foi criada a 9 de Setembro de 1954, sob proposta da
Direcção-Geral de Saúde e aprovação do Subsecretário de Estado da Assistência Social J. G. Melo e
Castro. A sua fundação estava prevista desde 1945, em consequência da reorganização dos Serviços da
Assistência Social efetuada, com a intenção de implementar uma política de saúde e assistência nacional
orientada, sobretudo, para uma ação preventiva e educativa. Por convite do Ministro do Interior Joaquim
Trigo de Negreiros, a instalação e organização da delegação no Porto estiveram a cargo do Professor
Gonçalves Ferreira, à época médico nutricionista do Instituto e antigo assistente da Faculdade de
Medicina de Coimbra, onde colaborara na regência do curso de Medicina Sanitária, sendo nomeado seu
primeiro director. Conforme determinação do despacho da sua criação, a delegação veio a ocupar
dependências, devolutas há vários anos, do recém-encerrado Hospital de Santa Clara.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 148


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Esta missão entendia-se como decorrente de um princípio constitucional que “ [...]


considera o lar próprio a base primária da educação da disciplina e harmonia social”46
(Constituição da República 1933 – Decreto nº 22 241 de 22 de Fevereiro) razão pela
qual o internamento só ocorria em casos de orfandade, de abandono ou de manifesta
incapacidade dos pais. Todavia quando o lar não existia, deveria procurar-se a
admissão dos menores a assistir em famílias moralmente idóneas e que aceitassem o
encargo da sua educação tal como um filho próprio, mediante um pagamento de um
pequeno subsídio que correspondem a duas modalidades da assistência, são elas o
subsídio familiar para a educação, e colocação subsidiada em família idóneas47
(Negreiros,1949, p. 50).

Esta base legal permitiu a transformação do cenário na Casa Pia de Lisboa de 1943
para 1947, pois ao incluir estas modalidades de assistência, viu o número de menores
assistidos de 1905 para 3638 menores48 (Negreiros,1949, p. 51).

A missão do Instituto de Assistência a Inválidos por seu turno consistia em orientar e


coordenar a assistência aos necessitados que em, razão da idade ou da incapacidade
física, estejam impossibilitados de trabalhar (Negreiros,1949, p. 51) tendo por base a
ideia de que se se largar o campo da previdência, abrangendo os trabalhadores que já
aufiram rendimento por exercício profissional se reduz o campo da assistência, não o
confinando, portanto, ao socorro dos que nunca trabalharam como é exemplo os
cegos, paralíticos e aleijados ou velhos colocados à margem de qualquer seguro
social.

Constava-se, por esta altura, que a duração média de vida tinha subido 50% desde
meados do último século razão pela qual esta medida vinha ao encontro da
necessidade de aumentar o período de vida ativa daqueles que ainda podiam
trabalhar. Mais do que o internamento, interessava proporcionar meios de trabalho aos
velhos e aos parcialmente inválidos. Assim, seja o Instituto de Assistência aos
Inválidos como o de Assistência à Família procuravam manter a assistência dos
velhos e inválidos em regime aberto, porém, quando esse internamento se tornava

46 Art..º. 11º O Estado assegura a constituição e defesa da família, como fonte de conservação e
desenvolvimento da raça, como base primária da educação, da disciplina e harmonia social, e como
fundamento de toda a ordem política pela sua agregação e representação na freguesia e no município
(Constituição da república 1933, Decreto nº 22: 241 de 22 de Fevereiro)
47 Subsídios aprovados pelo decreto-lei nº 32.613, de 13 de dezembro de 1942, e no regulamento

aprovado pelo decreto-Lei nº 37.205, de 6 de dezembro de 1948 respetivamente.


48 Subsídios aprovados pelo decreto-lei nº 32.613, de 13 de dezembro de 1942, e no regulamento

aprovado pelo decreto-Lei nº 37.205, de 6 de dezembro de 1948 respetivamente.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 149


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

indispensável seriam recebidos nos estabelecimentos agregados ou coordenados pelo


Instituto (Negreiros,1949, p. 52).

Sob o signo de Salazar (1889-1970) surgiu, ainda, um largo movimento de


solidariedade humana que se designou “socorro de inverno” e mais tarde “socorro
social“ (Negreiros,1949, p. 52) reconhecendo que, paralelamente às necessidades que
normalmente deverão ser satisfeitas depois de inquérito prévio às condições morais,
económicas e sociais da família, apresentam-se outras com caráter de urgência em
“toda a demora ofende por igual, as leis da humanidade e os sentimentos de caridade”
(idem). É, portanto, neste cenário, que é criado o “Fundo de Socorro Social”49 cujas
receitas foram afetas à repressão da mendicidade, pretendendo-se que a esmola
precária e aleatória, dependente mais da disposição momentânea de quem a presta
do que da necessidade de quem recebe ou mesmo de quem a dá, seja substituída por
uma ação combinada dos estabelecimentos e serviços destinados a socorrer os
mendigos e indigentes.

Refere, ainda, a este propósito o relatório de 1949 - “Assistência Social – Princípios e


Realizações” que “o desenvolvimento dos serviços, a construção de hospitais, a
abertura e funcionamento de dispensários e centros de saúde, tornaram necessária a
preparação de quadros profissionais destinados a guarnecê-los e bem assim a
formação de trabalhadores sociais. Para tanto, foram abertos cursos de assistência e
auxiliares sociais e de visitadoras sanitárias.” (Subsecretariado de Estado da
Assistência Social,1949, p. 60).

Neste domínio, assiste-se paralelamente à organização do ensino da enfermagem já


que desde a criação da primeira escola de enfermagem em Inglaterra em 1860
(Decreto-lei nº 30219 de 10 de Abril de 1947)50 o aumento da complexidade da função
a necessidade de especialização em determinados ramos e de aumento de
profissionais para acompanhar o desenvolvimento da assistência sanitária, se
colocava com particular acuidade.

49 Em quatro anos foram despendidos mais de 100.000 contos, obtidos do produto das taxas sumptuárias
e da generosidade particular: em subsídios a albergues, cozinhas económicas e sopa dos pobres; na
aquisição de cobertores, enxergas, xailes e roupas de toda espécie; na construção e arranjo de casas
para pobres; na compra e distribuição de aparelhos ortopédicos, carros para inválidos, óculos, etc.; na
reparação de embarcações e apetrechos de pesca – pão para a boca, agasalho para o corpo, habitação
para a família, bordão para o aleijado, trabalho para o desempregado – e ainda na assistência à mãe e à
criança, fonte e esperança de vida (Negreiros,1949, p. 52, 53).
50 Vide em anexo P

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 150


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Em Portugal o referido diploma aponta para uma clara falta de pessoal de enfermagem
e do seu baixo nível de preparação. Com a previsão de construção de novos hospitais
e a ampliação de outros tornou igualmente imperiosa a remodelação do ensino da
enfermagem em ordem a habilitar os enfermeiros em quantidade e qualidade
necessária para um maior rendimento destas organizações hospitalares. Em ordem a
colmatar essa preocupação o referido Decreto-Lei para além de ter como objetivo a
reorganização do ensino da enfermagem permite, ainda, no funcionamento nessas
mesmas escolas de cursos de Serviço Social. As escolas poderiam ministrar
simplesmente os cursos de enfermagem em um ou mais cursos ou, então,
“cumulativamente o curso de administração hospitalar e de serviço social, destinando-
se este último exclusivamente ao sexo feminino” (Decreto-lei nº 36 219 de 10 de Abril
de 1947, p. 278)51

Cinco anos depois, em 1952, é publicado o Decreto-Lei nº 38 884 de 28 de Agosto de


195252 que altera esta configuração já que se considera fundamental melhorar a
preparação técnica dos enfermeiros e elevar o seu nível social e profissional. Com
efeito, este diploma legal vem considerar inútil e prejudicial que coexistam dois tipos
de trabalhadores sociais de índole e formação diversa, como sejam, as visitadoras
sanitárias e, para as quais se exige apenas o exame de instrução primária e
frequência de um curso com a duração de seis meses, ao passo que as auxiliares
sociais cujo curso tem a duração mínima de um ano se exigem habilitações
superiores.

Neste sentido, este Decreto-Lei reduz ambas as formações - visitadoras e auxiliares


de serviço social - a um único curso designando-se estas de auxiliares sociais com a
duração de dois anos ao qual se segue um estágio de seis meses. A frequência deste
curso exigia como habilitações mínimas de acesso, o curso geral dos liceus ou o curso
de formação feminina. As auxiliares sociais ficariam, desta forma habilitadas a
colaborar com assistentes sociais, preparadas com excelente formação moral e
profissional que pelo percurso de trabalho no campo da assistência social se têm
mostrado indispensáveis.

51 Vide em anexo P
52 Vide em anexo AD

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 151


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3.2.2. O CONCEITO DE SERVIÇO SOCIAL NO DESENVOLVIMENTO DO


SANITARISMO

Neste ponto impõe-se como necessário entender no discurso da época o conceito e o


entendimento de Serviço Social. Na tentativa de delimitar um conceito José Lopes
Dias (1932) acentua a sua difícil classificação, tendo em conta a imensa complexidade
da vida moderna e os seus diversíssimos aspetos, e acrescenta:

“A meu ver, serviço social é todo o esforço tendente a elevar a dignidade humana, quer
promovendo a expansão de suas regalias materiais e espirituais, quer opondo-se a
todas as causas que atingiram ou venham atingir o bem – estar dos indivíduos” (Dias
Júnior, 1932, p. 7).

Para este médico, trata-se de um conceito vasto, com vantagem de corresponder à


realidade dos fenómenos sociais esclarecendo-se neste, discurso que os anglo-
saxões consideram Serviço Social ao que em Portugal se designa Assistência
englobando nesta designação uma conceção de Política Social. O fim último do
Serviço Social seria proporcionar remédio para todos os males sociais e individuais,
quer fossem interdependentes quer isolados, tornava-se então possível servir-se da
nomenclatura médica para classificar os seus meios de atuação. Assim sendo, a
caridade e a filantropia individuais podem classificar-se como “paliativos” pois atenuam
sobre as necessidades do momento, as manifestações do mal-estar, para além de não
remediarem definitivamente o mal, trata-se de “remédios incertos e arbitrários” (Dias
Júnior, 1932, p.8).

Numa outra categoria inscrevem-se os remédios etiológicos que atacam os males pela
raiz e que se podem então classificar como assistência “curativa”. São exemplo os
mutilados que recebem aparelhos ortopédicos e que de novo se tornam úteis para a
sociedade. Temos, ainda, a assistência “construtiva” que se ocupa de fortalecer o
organismo social, melhorando as condições da vida de todos e de cada um, onde

Aperfeiçoar a “cidade”, nos seus centros de atividade científica e mercantil, de onde


cada homem retire a maior soma de proveito, individual e familiar, social e coletivo, é
na realidade uma aspiração ideal em que todos devemos colaborar [...] (Dias Júnior,
1932, p. 7).

Por último, temos a assistência “preventiva” que se propõe evitar e prevenir possíveis
e frequentes problemas e que atingem toda a população (Dias Júnior, 1932, p. 10).
Sendo o Serviço Social tão vasto, as suas funções vêem-se, em primeiro lugar,
inscritas no sentido da “instrução” e da “educação”. É forte a convicção de que a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 152


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

instrução por intermédio da educação aproxima os homens e se destroem barreiras.


Neste domínio vemos situado o domínio dos valores designadamente da igualdade a
que se deve aspirar. A igualdade perante a lei e a uma outra igualdade, aspiração
legítima de todos e de cada um, a que se proporcione a melhor situação material e
espiritual a que se tem direito. Ao nível da educação preconiza-se a necessidade de
uma educação moral acentuando-se que o Serviço Social pode cobrir áreas como a
proteção na maternidade e da infância, a assistência, a previdência, a higiene e o
trabalho.

Para a realização desta missão de assistência, o discurso da medicina sanitária insiste


em poder contar-se com agentes sociais, ou seja assistentes, visitadoras e as
auxiliares.

Assim as assistentes tratam de casos mais distanciados da medicina, desemprego,


salário familiar, cadastro de pobres etc. As visitadoras ocupam-se de serviços mais
próximos da medicina no combate a flagelos sociais, tuberculose, sífilis e doenças
venéreas, cancro alcoolismo, malária e mortalidade infantil, sendo que estas se podem
dividir entre monovalentes e polivalentes, as primeiras que se ocupam da tuberculose e
da puericultura e as segundas da higiene social. As visitadoras escolares cumprem no
entanto funções mais próximas das assistentes sociais em actividades que são de
predominância mais educativa do que para médicas (Dias,1945, p. 10,11).

No que respeita à atividade de uma agente social esta divide-se entre instituições,
locais de trabalho, de assistência de educação, e as famílias. A família, enquanto
núcleo essencial de uma sociedade disponibiliza os temas mais variados e aspetos
infinitos para aprofundamento.

Em 1941, em comunicação apresentada ao 2º Congresso Transmontano sobre o tema


Serviço Social, Barahona Fernandes (1907- 1992) chama a atenção para a forma mais
perfeita de auxílio social, médico, educativo, que, segundo o seu entender e
experiência, pode ser fácil e proveitosamente exercida na nossa terra pelo chamado
Serviço Social. Propõe para o Serviço Social não apenas promulgar a criação de
novos e mais perfeitos organismos de assistência e proteção mas

[…] sobretudo estabelecer a sua íntima ligação com os assistidos e as suas famílias e
de as integrar mais perfeita e harmonicamente no agregado social, aumentando o seu
rendimento e ampliando a sua ação […] que sabem realmente os bons pastores da
nossa serra sôbre a sua função? Quem nos diz que os socorridos são, de facto, os
mais necessitados, que os consulentes nos dispensários compreendem e cumprem o
tratamento instituído, que seguem os preceitos higiénicos recomendados? Como evitar
que os doentes infecciosos, isolados e tratados a preceito nos hospitais, voltem a
espalhar o seu mal, ao regressar aos seus lares? Que sabem nas aldeias de higiene e

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 153


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

profilaxia das doenças? Como apreciar verdadeiramente numa consulta as condições


de vida dos assistidos- os contágios, os feitos tóxicos, a promiscuïdade, a falta de
higiene, a miséria, os maus exemplos, os perigos morais? Como encontrar remédios
mais apropriados para os males sociais que nos afligem- a morbilidade infantil, a
tuberculose, as sífilis, o alcoolismo, a loucura, sem participar directamente da triste
realidade das casas e famílias devastadas e assoladas como só podem fazer os
assistentes sociais, as obreiras denotadas deste trabalho de informação, orientação e
caritativa ação profilática, curativa e benemerente e educadora?” (Fernandes, 1941, p.
4-5)

Fernandes (1941) reforça, ainda, que a melhor forma de exercício do Serviço Social é
através dos organismos designados de Centros Sociais referindo-se a estes como a
“casa de todos para todos” citando Maria Leonor Correia Botelho, aluna do Instituto de
Serviço Social de Lisboa e assistente social do Centro Social de Cascais. Ou seja,
uma casa aberta a todos destinada a atender as famílias de toda a condição social,
sem distinção de ideias políticas ou religiosas, a cultivar o espírito de solidariedade e
auxílio social, a orientar no aproveitamento dos organismos de assistência, a difundir
as sãs regras da higiene, a promover o ensino familiar de pequenas artes e ofícios
domésticos, animar até o espírito recreativo e a despertar o interesse pela educação e
aprimoramento das classes desprotegidas, elevando-as e aproximando-as das mais
cultas e afortunadas.

Em 1950, Fernando Silva Correia, no prefácio da tradução da obra de Mary Richmond


refere serem quatro os tipos de trabalhadoras sociais ou agentes do Serviço Social, “
[...] as assistentes do Serviço Social (assistentes sociais), as educadoras familiares, as
puericultoras, as visitadoras sanitárias e as auxiliares do Serviço Social.” (Correia,
1950, p. XLIV) e explica que o curso de assistentes sociais é tirado apenas no Instituto
de Serviço Social de Lisboa ou na Escola Normal Social de Coimbra com a duração de
três anos, só concedido o diploma legal apenas após um estágio. Por seu turno, as
auxiliares do Serviço Social são diplomadas no Instituto de S. Pedro de Alcântara, em
Lisboa, onde, até 1950, já teriam formado 269 e, ainda, em Castelo Branco, no Porto,
e na Escola de Enfermagem de S. Vicente de Paulo em Lisboa. As visitadoras
sanitárias, são diplomadas pelo Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, após a
frequência de curso geral de um ano, onde se inclui a realização de estágios.
Complementarmente ao Curso Geral seriam ministrados cursos de especialização
sobre “Assistência social” “Luta anti – venérea” e “Higiene da alimentação”.

O mesmo autor refere que, em 1946, este último curso funcionou em circunstâncias
especiais, já que nele foram admitidas senhoras que já exerciam o cargo de auxiliares

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 154


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

de visitadoras, tendo as diplomadas passado a designar-se de Visitadoras Sociais.


Acrescenta, que a formação das assistentes sociais inclui uma preparação jurídica e
social complexa habilitando-as a ocuparem funções de direção do Serviço Social em
fábricas e em outras grandes empresas, serviços médico sociais, puericultura, etc. As
diplomadas do curso de visitadoras sanitárias, estariam em condições de ocuparem
cargos na luta anti epidémica e de puericultura, bem como no serviço de inquéritos
especiais

Efetivamente, ao abrigo do Decreto nº 19 460 de 13 de Março de 1931 foi autorizada a


criação dos cursos de enfermeiras visitadoras de higiene nas Faculdades de Medicina
de Lisboa, Porto e Coimbra, mantendo-se, no entanto, a Direção Geral de Saúde a
desenvolver o curso de acordo com o Decreto nº 20 376 de 7 de Outubro do mesmo
ano. Estas visitadoras sanitárias destinavam-se a ocupar cargos em postos de
proteção à infância, em dispensários de higiene social e outros, e ainda em centros de
saúde e na “Inspeção de Epidemias”.

Utilizando este conceito matricial de Serviço Social, entende-se que Correia (1950)
situe em 1926 e, mais concretamente no Decreto nº 12 477 de 12 de Outubro, que
reorganiza os serviços de Saúde Pública e onde se determina que seja criado um
corpo especial de enfermeiras de visita para moléstias infeciosas, a primeira referência
conhecida em leis portuguesas a profissionais femininas do Serviço Social e a cursos
de ensaio de 1929 e 1930 dirigidos por incumbência do então Diretor Geral de Saúde
Dr. José Alberto Faria, pelos doutores Carlos d’ Arruda Furtado, e António Pina e
Oliveira Júnior coadjuvados pelos doutores Pedro da Cunha e Ernesto Roma e que se
realizaram no “Posto de Proteção à Infância de Lisboa”.

Nesta sequência, entende Correia que o conceito de Serviço Social não envolve
apenas a prestação de um serviço nem tão pouco é um sinónimo de assistência, de
filantropia, de esmola individual ou coletiva, e acrescenta que

Para ter esse título não basta ser feito por senhoras, visto poder ser praticado por
homens, não basta para o realizar conhecerem-se as ciências cuja aplicação prática
ele exige, nem sequer o praticar a medicina preventiva. Tem de tudo isto um pouco
mas exige menos cada uma destas características do que a sua aplicação oportuna,
judiciosa, firme e suficientemente persistente, para dele resultar o equilíbrio do
indivíduo e de todos os elementos com quem ele convive, ou a sua adaptação
inteligente ao meio e o aperfeiçoamento deste modo de tornar uns e outros mais
perfeitos do que eram, segundo as aptidões, a saúde, a robustez e a maior produção
desse indivíduo e as possibilidades dos que o cercam, conforme exigem as regras da

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 155


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

orientação e selecção profissionais modernas, não visando apenas o maior rendimento


material, mas, também e principalmente, a manutenção da mais perfeita saúde física e
psíquica, moral e social, de ode resulte a paz, progresso, produção e bem-estar”
(Correia, 1950, p. XLVI,XLVII).

Definido o ideal do Serviço Social perfeito compreende-se, em consequência, o relevo


colocado na convergência das formações53 anteriormente mencionadas, mas
sobretudo a visibilidade dada ao esforço desenvolvido em ordem à profissionalização
de pessoal especializado, que, utilizando maior conhecimento e eficácia, poderiam
levar por diante a difícil tarefa de concretizar a reforma sanitária e apoiar a
organização racional da Assistência Social, na defesa da saúde pública e, assim,
manter o envolvimento na formação académica dos profissionais no seu próprio
terreno.

Esta questão é abertamente focada em outra conhecida obra de Fernando Silva


Correia “Portugal Sanitário: Subsídios para o seu estudo ”publicado em 1938, pela
Direção Geral de Saúde Pública do Ministério do Interior, dedicando o capítulo XXXIII
“Higiéne, Assistência e Serviço Social”, Correia (1938) dá conta da falta de assistência
local organizada, e da ignorância dos recursos e em contrapartida

[…]a bôa vontade de pessoas caritativas falha por sua vez ou dá lugar a esbanjamento,
por falta de orientação conveniente. O bem-fazer também tem a sua técnica, que
permite a máxima eficiência e economia, evita abusos e duplicidade inútil nos serviços
(Correia, 1938, p. 399).

A este propósito, refere o papel das Misericórdias que, apesar de as considerar como
indicadas para o trabalho da assistência, desenvolvem modalidades que se poderiam
todavia, realizar com despesas insignificantes “A colaboração dos delegados de saúde
com as Misericórdias impõe-se e ela será honrosíssima para êles, utilíssima para
estas e eficaz para os necessitados” (Correira, 1938, p. 402).

Concluiu-se, pois, que não menosprezando a articulação entre a Igreja e a Assistência


Fernando Silva Correia propõe a formação de agentes laicos para intervirem em novas
organizações sociais que até então se encontravam, exclusivamente, nas mãos da
Igreja.

53Sobre este assunto refere-se o importante artigo elaborado por Francisco Branco (2015) “Itinerário das
profissões sociais em Portugal, 1910-1962”, publicado na revista Análise Social, 214, L (1º).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 156


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3.3. AS PRIMEIRAS TENTATIVAS DE FORMAÇÃO DE ASSISTENTES


SOCIAIS

O primeiro ensaio para a criação de escolas de Serviço Social em Portugal, foi


desenvolvido em 1928, pelo Instituto de Orientação Profissional, onde o Diretor Faria
de Vasconcelos foi incumbido de preparar o pessoal pedagógico dos estabelecimentos
de educação da assistência pública. No entanto, após algumas alterações ministeriais
foram os Serviços Jurisdicionais e Tutelares de Menores a beneficiar com a formação
do seu pessoal. Esta formação dirigia-se, sobretudo, ao pessoal vinculado pelos
serviços de justiça de menores, delegados de vigilância de menores e os seus
auxiliares em serviço no Tribunal de Infância de Lisboa (Martins, 1999, p. 192).

O curso composto por 41 lições contemplava “

[…] a instituição dos Tribunais da Infância, direito comparado e orientação definida em


congressos e referências internacionais; os menores delinquentes, organização e
funcionamento dos serviços Jurisdicionais e Tutelares de Menores, características da
delinquência em Portugal; os delegados de vigilância de menores, espécies e classes,
recrutamento, direitos e deveres, funções e técnicas (Martins, 1999, p. 207).

Mais tarde, em 1934, por iniciativa da Direção-Geral dos Serviços Jurisdicionais de


Menores, o Instituto de Orientação Profissional lança novos cursos destinados à
formação de observadores em psicologia juvenil e observadores sociais. Assim, pela
mão de Artur de Oliveira Ramos 54é regido um curso de 12 lições

[...] sobre problemas que respeitam à jurisdição tutelar, resolução de métodos


tradicionais e pelo Serviço Social; escolha de um campo de observação e de
experiência de Serviço Social anexo a um centro de orientação profissional: sua
organização e importância; o segredo profissional e o desempenho de funções de
auxiliares sociais (Martins, 1999, p. 208).

Para além dos trabalhos práticos contemplarem desde “ [...] a observação inicial,
interrogatório do menor, dos pais ou tutores e elaboração dos respetivos relatórios,
observação social com o inquérito social e observação no grupo, apreciação de todos
os elementos de observação, elaboração de relação de inquéritos sociais [...] ” foram
desenvolvidas “[...] visitas a instituições que se ocupavam de menores ( maternidades,

54Artur Ramos no decurso da sua carreira profissional foi professor do Instituto de Orientação Profissional
Maria Luísa Barbosa de Carvalho, diretor do Tribunal de Menores da Tutoria de Infância de Lisboa (1951),
professor de Direito de Tutelar de Menores do Instituto de Serviço Social, desde a sua fundação,
professor na Escola Prática de Ciências Criminais, Assistente Técnico dos Serviços de Reeducação de
Menores e Inadaptados na Comissão de Construções Prisionais. Na sua carreira político-administrativa foi
Chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Fonseca Monteiro (1929-1939) e
Vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1951). (Castilho, 2009)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 157


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

infantários, dispensários, lactários, jardins-de-infância, asilos) e a estabelecimentos de


reeducação (Martins,1999, p. 208-209) e cujos diretores fizeram preleções para os
alunos.

De acordo Martins (1999), o Boletim do Instituto de Orientação Profissional considerou


que o caráter destes cursos deixava revelar, nitidamente, uma autêntica escola de
Serviço Social atendendo à natureza do trabalho efetuado, aos objetivos e aos
métodos que foram desenvolvidos. O próprio Artur de Oliveira Ramos (1898 – 1969)
será, mais tarde, professor de orientação profissional no Instituto de Serviço Social.
Esta conceção anglo-saxónica do Serviço Social partilhada por Faria de Vasconcelos
e pelos restantes professores do Instituto de Orientação Profissional, cuja formação
estava mais preocupada com os conhecimentos científicos e com a relação teoria
prática, vai contrastar com o caráter doutrinário, religioso e corporativo que o regime
vai determinar para as escolas de Serviço Social (Martins, 1999).

Em 1934 Alfredo Tovar Lemos, Delegado de Saúde de Lisboa, Diretor do Dispensário


de Higiene Social de Lisboa denomina o curso de 1934 como o primeiro curso de
assistentes sociais

Para Lemos a

“ [...] cultura técnica da assistente social prepara-se com relativa facilidade. Mas pode
ter uma cultura técnica completa e nunca ser capaz de dar uma boa assistente social
pelo que só após um estágio no serviço se poderá avaliar a sua capacidade” (Lemos,
1932, p. 35).

A preparação deveria ser “

[...] essencialmente prática e sem pretensões, não deve ter em vista mais que dar os
elementos mínimos que permitam trabalhar com conhecimento de causa. O resto,
havendo condições vem depois. Todos os excessos de conhecimentos virão a
prejudicar a disciplina e as relações com os médicos, a eficiência dos serviços, e criar-
lhes uma categoria social mal definida, com todos os seus inconvenientes (Lemos,
1932, p. 35).

Para Lemos, o que se considera indispensável para a preparação das assistentes


sociais na época consistia nas seguintes dimensões curriculares:

1º Noções gerais sobre anatomia e fisiologia do corpo humano

2º Noções gerais de higiene;

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 158


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3º Perigo das doenças venéreas e da sífilis. O que é a sífilis e a sua importância social.
Evolução

4º A sífilis e a gravidez. Sífilis hereditária.

5º Métodos de diagnóstico. Exame microscópico, ultra-microscópico e exame


serológico.

6º Métodos de tratamento da sífilis

7º Preparação geral da luta anti-venéria.

8º Prostituição. Luta contra a prostituição. Protecção e regeneração das mulheres.


Obras sociais. Causas da prostituição.

9º Educação e higiene dos doentes venérios e sífilis

10º A educação sexual da mocidade. O casamento. Exame pré-nupcial.

11º Organização e funcionamento do serviço de assistência social no dispensário.

12º Os deveres da assistente social. O segredo profissional.

Esta matéria deve ser dada em lições no período de um mês. O estágio em períodos
renováveis de 2 meses (Lemos, 1932, p. 35-36).

Dos vários ensaios e propostas de criação de escolas de Serviço Social, só na


conjuntura de implantação do Estado Novo é que ficarão equacionados e definidos os
contornos da criação e institucionalização das escolas de Serviço Social em Portugal
(Martins, 1999, p. 211).

Se nos detivermos no momento do nascimento do Serviço Social nos Estados Unidos,


final no século XIX princípio do século XX e observarmos o esforço pioneiro de Mary
Richmond (1861 – 1928) em definir uma identidade a essa nova atividade profissional,
encontrá-la-emos concebida como uma operação essencial para a reintegração social
do ser humano. Propõe um conjunto de procedimentos organizados para o agir
profissional rejeitando o senso comum como base para a ação e aprofunda um
processo de “cientifização” da prática profissional (Martinelli, 2008).

No entanto, a influência da fundadora da enfermagem moderna Florence Nightingale


(1820-1910) desenvolveu um trabalho tão importante na área social, que Mary
Richmond costumava considerá-la como a pioneira do Trabalho Social. Efetivamente
Nightingale concebeu uma estratégia operacional no campo da enfermagem assente
nas “Visitadoras de Saúde” (Martineli, 2003) que Richmond apropria para o Serviço
Social. Abre, assim, a possibilidade da realização de visita domiciliária, integrada

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 159


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

numa prática profissional centrada na relação estabelecida. Desde logo, incorpora este
conhecimento nos cursos desenvolvidos, por forma a criar competentes visitadoras
domiciliárias.

Em 1880, o Serviço Social nos Estados Unidos, conta já com referência de trabalho
realizado por estas visitadoras domiciliárias havendo registos históricos da sua
presença nas equipas de saúde (Richmond, 1950). A trilogia inicial, higiene, educação
e saúde, que caracteriza o Serviço Social na sua origem deixou marcas profundas na
sua identidade e define um Modelo Clássico de atuação assente, essencialmente, no
relacionamento humano.

A relação estreita com a saúde foi particularmente intensa e a trajetória dos


assistentes sociais na área da saúde foi, pouco a pouco, criando uma identidade face
aos restantes profissionais com quem partilhavam o campo profissional. É num
cenário posterior à Segunda Guerra Mundial, nos anos 40 que se começa a implantar
um novo modelo de saúde, no qual o hospital passa a ser o centro de referência da
prática médica, onde a prática do Assistente Social (Martinelli, 2003) é considerada
indispensável. À área da saúde confluem múltiplos saberes em ação, múltiplas
identidades em interação, onde está em jogo a construção de projetos coletivos e
onde o valor humano, a qualidade de vida, a dignidade da morte, são alicerces
suficientemente fundantes e objetivos comuns, para estas equipas de trabalho.

3.4. A INFLUÊNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS - O MÉTODO MONOGRÁFICO

Em termos globais, como vimos anteriormente, a génese e institucionalização do


Serviço Social como disciplina profissional ocorre a partir do último quartel do séc. XIX,
em sociedades de economia de mercado do Ocidente, como por exemplo, Inglaterra,
Estados Unidos da América, Holanda, França, configurando-se como forma
sistemática de ajuda, no campo da políticas de assistência fazendo face à questão
social ou questão proletária, entretanto, emergente (Branco 2005).

Martins (1993) assinala a este propósito que o modelo “teórico” de sustentação


assentava em bases positivistas consubstanciadas na Doutrina Social da Igreja e na
Ciência Social de Le Play sendo que o Serviço Social se tornou um instrumento de
concretização das ideias reformistas, implícitas nestas duas perspetivas teóricas e
filosóficas e nas do projeto político de educação nacional – Deus, Pátria e Família.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 160


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

É a Frédéric Le Play nascido na Normandia em 1806 professor na Escola de Minas de


Paris, membro da Academia das Ciências e falecido em 1882, contemporâneo de
Auguste Comte (1798 – 1853) que se deve o ponto de partida do método monográfico
enquanto método de observação social. Trata-se de um método de observação direta
no terreno e de análise comparativa, tendo como instrumento de trabalho o orçamento
da família operária bem como informações complementares acerca do meio,
recolhidas a partir de testemunhos privilegiados designados como “autoridades
sociais”

Le Play decide, na sequência da revolução de 1830, dedicar-se à “questão social” e


nessa esteira elaborar monografias familiares com o objetivo de reunir elementos para
uma reforma social com o contributo da ciência social. Segundo Le Play, pese embora
em proporções diferentes, a família é a exata imagem da sociedade e por isso basta
observar os meios e os modos de existência da família operária, para conhecer a
constituição social.

Para Cruz (2001, p. 246) uma vez aplicado o método das monografias, é possível
saber em cada família a parte que ocupam as necessidades correspondentes à vida
moral e à vida material, demonstrando a permanência destes dois elementos
fundamentais da constituição essencial da prosperidade dos povos. Permite ainda,
verificar as diferentes formas como as cinco variáveis, ou seja, os ritos da religião, a
organização da soberania e as três formas da propriedade privada, tomam o seu lugar
entre esses povos.

No entender de Le Play o método monográfico pode dar garantias de exatidão


evitando o erro propagado pela ignorância ou pela má-fé e a sua utilidade aumentará
com a idade dado que as coleções oferecerão ao leitor no futuro, elementos para
desencadear uma viagem retrospetiva que nem os historiadores da época poderão
facultar Mas não é este o único destino das monografias. Estas devem ser mais
consultadas que lidas, como dicionários de várias espécies, que constituem repertórios
de factos numerosos, nos quais as classes letradas poderão muitas vezes procurar
informações

São discípulos de Le Play, Henri de Tourville (1842-1903) e M. Edmund Demolins


(1852-1907), os quais, apesar de falecerem em 1903 em 1907 respetivamente, a sua
obra é continuada pela Société Internacionale de Science Sociale (criada em 1904) à
qual pertenceram muitos portugueses

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 161


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Do ponto de vista da sociologia da família as propostas de Frédéric Le Play (1806 –


1882) bem como os seus seguidores Léon Poinsard (1857-1917) e Paul Descamps
(1888-1974) definem-a como uma Sociologia católica conservadora e aos quais se
devem os primeiros trabalhos sobre a família em Portugal (Torgal, 2009).

É, pois, a convite de Portugal, que Léon de Poinsard (1912) chega ao nosso país e se
propõe estudar os grupos humanos integrando-os na sua obra intitulada Portugal
Ignorado. Este estudo que deve proceder com ordem lógica, do simples para o
composto, do conhecido para o desconhecido, sendo a família o grupo social ativo
mais simples e de mais fácil compreensão e análise resultando em monografias de
família.

Por outro lado, a Descamps (1888-1974), também membro do grupo da Ciência


Social, foi-lhe oferecido, em 1930, um cargo para ministrar um curso de ciência social
na faculdade de Direito de Coimbra e mais tarde convidado por Salazar (1889-1970),
ministro da finanças de então, a emitir o seu diagnóstico sobre a sociedade
portuguesa, tendo-o efetuado em duas obras – Le Portugal, la vie sociale actuelle,
(1935) e “L”Históire sociale du Portugal (escrito em 1939 e editado em 1959).

Na perspetiva da história das ciências sociais em Portugal, o trabalho de Descamps


(1888-1974) e dos seguidores de Le Play é considerado um trabalho percursor, na
medida em que o seu projeto de conhecimento da realidade social assenta numa
observação pormenorizada e na pesquisa empírica constituindo um esforço inicial para
resolver questões de método levantadas pela articulação entre a descrição e a
explicação, a teoria e a empiria e a relação entre o passado e o presente. Na década
de 50 e 60 os estudos sobre a família inscreviam-se numa perspetiva etnográfica,
estruturados a partir de um discurso não só político mas também social e literário
sublinhando contrastes demográficos, geográficos, económicos e sociais entre
diferentes (Wall, 1993).

Para Dias (1945) reportando-se à necessidade de fundamentação do trabalho


realizado pelas agentes sociais (assistentes sociais, visitadoras e auxiliares) defende
que o olhar sobre as famílias não deve estar subordinado nem a ideais nem a
fantasias ou sentimentos de perfeição ou utopia nem assentes em princípios de
política social nem a critérios filosóficos ou sistemas de coordenação “antes
exclusivamente segundo realidades de observação, de facto a facto, de pessoa a
pessoa, de fenómeno a fenómeno, na sua expressão concreta” (Dias,1945, p. 13).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 162


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No seu livro “12 Lições sobre o Serviço Social” Dias (1945) refere que Ciência Social é
uma ciência de factos pela filiação nas verdadeiras causas, quer seja nas mais
próximas como nas mais remotas. Adepto do método iniciado por Jacques Valdour55
(1872- 1938) e de Paul Descamps (1888-1974), concorda que um caso fica explicado
quando se conhece a sua causa, não se devendo formular hipóteses mas partir
sempre de verificações exatas.

Refere a propósito dos inquéritos familiares, que estes serão inúteis sem o juízo do
conjunto em aspetos basilares para o Serviço Social. Se, por um lado, os inquéritos
permitem a ordenação de factos, a catalogação dos detalhes e servem também de
alicerce para a ação social, as monografias transcendem por isso esses fins utilitários
e imediatos no que concerne a facultar uma explicação científica das sociedades. Dias
(1945) demonstra assim a influência do pensamento de Paul Descamps (1888-1974)
e, em última instância por Frédéric Le Play (1806 – 1882) por partilhar a ideia de que
este processo descritivo e explicativo, a adotar na ciência social ou mesmo da
sociologia experimental, assumindo que tal método merece ser tratado no ensino
superior (Dias, 1945, p. 190).

Os métodos de Le Play e em concreto a monografia estudam um caso simbólico, um


caso tipo, motivo representativo de outros possíveis motivos que devem ser
conhecidos nas famílias operárias que são idênticos a outras famílias operárias e a
outras famílias nas mesmas condições de vida, com as mesmas dificuldades, com as
mesmas aspirações. O mesmo se passa na química onde se colhe uma pequena
porção de um produto para análise sujeitando-o a reagentes e a experiências no
intuito de se apurarem as características dominantes a todo ele. Este exemplo reflete o
que se passa na família operária legitima, estável, completa e numerosa, podendo
esclarecer-nos muitos problemas de todas as famílias em circunstâncias idênticas e
uma família incompleta, sem vigilância ou autoridade pode facultar aspetos e “instruir-
nos” sobre outros casos semelhantes. Um caso tipo normal pode aplicar-se a casos
normais, o tipo anormal pode esclarecer sobre outros casos de tipo anormal,
existentes ou possíveis (Dias, 1945, p. 191).

Ainda na sua obra as “12 Lições para o Serviço Social”, Dias (1945) reforça ainda o
seu entendimento com exemplos práticos onde acentua

55Jacques Valdour (1872- 1938) foi o iniciador do que designou de "La Méthode concrète en science
sociale (1914) e autor de outros livros Les Méthodes en Science sociale (1927) e Les Méthodes de liaison
entre la science sociale expérimentale et les autres sciences naturelles (1931).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 163


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

[…] que se estudarmos profundamente uma escola poderemos chegar ao ponto de


esclarecer muitos dos problemas de todas as escolas primárias, a monografia de uma
aldeia da Beira Baixa, de Trás-os-Montes ou Algarve, podemos esclarecer muitos dos
problemas dessas regiões e mesmo até do próprio país (Dias, 1945, p. 192).

Vemos defendido por Dias o método monográfico de Descamps (1888-1974)


descrevendo as regras por ele defendidas para o conhecimento da sociedade,
obedecendo a uma hierarquia de conhecimentos a fim de se obter uma série de
análises, de observações, que agrupadas e relacionadas podem ser precisas para
conclusões de Ciência social, como seja:

“1º É preciso começar o estudo de uma sociedade pela monografia completa duma
família operária voltada a um mister essencial 2º entre as famílias operárias votadas a
um mister, deve escolher-se um tipo puro e completo; 3º a monografia da família
operária compreende não somente o estudo dos fenómenos sociais mas ainda das
relações entre a família e o meio social. Uma vez escolhida a família- tipo, esclarecem-
se, em primeiro lugar os meios de subsistência: a) o lugar em que vive, o solo, o sub-
solo, culturas, industria, clima, etc.; b) o trabalho, e or seu intermédio as ligações ao
meio; c) a propriedade imobiliária; d) os bens móveis; e) o salário; f) o orçamento
doméstico; g) a família, pai, mãe, filhos e filhas, inválidos ou velhos; h) o modo de vida
material, alimentação, vestuário, habitação; i) as fases acidentais da existência; j) a
organização material do trabalho, da propriedade, da assistência; k) o comércio; l) a
cultura intelectual; m) a religião; n) a vizinhança; o) a corporação, nos aspectos de
mutualidade, assistência, ligas; p) a freguesia ou paróquia e, enfim, os outros
interesses públicos a que pertence, o concelho, a província, as afinidades com o
estrangeiro, raça e expansão internacional “ (Dias, 1945, p. 192- 193).

Dias (1945) Conclui que este longo esforço de análise resulta em operações de
síntese, de classificação e sistematização de caráter permitindo perspetivas concretas
para as possibilidades do Serviço Social. Uma posterior leitura das monografias
portuguesas obtidas por agentes sociais permitirá, por si mesmo, a defesa deste
instrumento de investigação social. (Dias, 1945, p. 193)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 164


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

4. INSTITUTO DE SERVIÇO SOCIAL: A SUA FUNDAÇÃO

Neste capítulo, seguindo o proposto pelo modelo teórico de referência, será abordada
a fundação do Instituto de Serviço Social e o caminho percorrido no seu primeiro ciclo
formativo bem como traçar uma análise e compreensão sobre o seu suporte jurídico, a
sua estrutura orgânica, os primeiros cargos de direção, os cursos ministrados e
respetivos planos de estudo.

O arco temporal compreendido entre 1935 e 1955 correspondeu a um tempo de


afirmação e difusão do ensino e da prática do Serviço Social, tanto no panorama
nacional como no internacional. Paulatinamente, o Instituto de Serviço Social foi
revelando e integrando os seus programas e metodologias de ensino, abrindo e
definindo um campo de conhecimento, ao mesmo tempo que as primeiras alunas
formadas ocupavam lugares em instituições chave na sociedade portuguesa.

Esta escola, sediada em instalações anexas à Sede do Patriarcado de Lisboa, no


Campo Mártires ao Campo Santana, ambicionou, como veremos nos capítulos que se
seguem, configurar o seu projeto educativo como sui generes e tornar –se numa
escola modelo para o desenvolvimento e profissionalização do Serviço Social em
Portugal.

4.1. A ASSOCIAÇÃO DE SERVIÇO SOCIAL COMO SUPORTE JURÍDICO

No decurso do I Congresso da União Nacional, a Condessa de Rilvas, D. Elisabeth d”


Albignac Bandeira de Melo (1871-1945), a pedido de Oliveira Salazar (1889-1970),
apresentou na 5ª Sub-seção – Saúde e Assistência56, o problema da “Assistência
Técnica”, defendendo como vertente essencial de resolução do mesmo, a
necessidade de preparação especializada para aqueles que se ocupavam de obras
sociais. Na sua argumentação a Condessa de Rilvas referiu existirem, já nessa altura,
121 escolas na Europa, América e Ásia, sendo aquelas inexistentes em Portugal,
conseguindo com esta exposição que, das 12 conclusões enunciadas naquele
Congresso, concretamente da segunda conclui pela determinação para “Que se criem
em Lisboa, Porto e Coimbra escolas de Serviço Social” (Instituto de Serviço Social,
1945, p. 2)57.

56 I Congresso da União Nacional – Volume II – p. 176-397 (cf. Exposição acerca do Instituto de Serviço
Social, 1944, p. 311) Vide em anexo P
57 Vide em anexo M

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 165


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Com o intuito de fundar da primeira escola de Serviço Social em Portugal, foi criada
em Lisboa, a Associação de Serviço Social – “Associação de Beneficência” –
aprovada pelos alvarás nº 545 de 17 de Outubro de 1935, mais tarde designada
“Associação de Cultura e Formação Profissional” pelo alvará nº 227 de 20 de
Dezembro de 1941 (Instituto de Serviço Social, 1942?, Instituto de Serviço Social,
1944b, p. 4 e Instituto de Serviço Social, 1957a, p. 3)58. Em documento intitulado,
“Orgânica do Instituto de Serviço Social” (Instituto de Serviço Social, 1942?, p. 1)59,
referem os autores que “conforme nos foi sempre explicado”, pelo facto de ser uma
Associação de Serviço Social, a base de sustentação do Instituto de Serviço Social,
assentava numa combinação com o Patriarcado, por se considerar que esta seria a
forma que asseguraria a autoridade da Igreja, permitindo a possibilidade de manter a
escola “à sombra” de uma associação cultural, já que se vivia numa época de pouca
liberdade religiosa. Refere, ainda, este texto que os estatutos teriam sido elaborados
pelo Dr. Abel de Andrade, sendo o primeiro consultor assistente60, o Monsenhor
Manuel Anaquim.

Trata-se, portanto, de uma Associação, constituída por 15 membros fundadores de


entre personalidades interessadas e, segundo aquele documento, conhecedoras do
Serviço Social no país, como sejam: Monsenhor Manuel Anaquim, Dr. Alberto Carneiro
de Mesquita, Dr. António Maria Figueiredo, Dr. Abel de Andrade, Dr. A. Serras e Silva,
Dr. D. António Pereira Forjas, D. Elisabeth d” Albignac Bandeira de Melo, Doutora D.
Maria Batista Guardiola, Doutora D. Domitília de Carvalho, D. Maria Angélica da Silva
Pereira61, D. Lídia Maia Cabeça, D. Ana Maria de Sainte Marie de Morais, Doutora D.
Maria Cândida Parreira, Doutora D. Regina de Quintanilha, D. Isabel Maria da Costa
de Macedo Gentil (Instituto de Serviço Social, 1957b, anexo I, [fl.2])62.

Estes sócios fundadores encontrar-se-iam distribuídos pelos órgãos da Associação de


Serviço Social, da seguinte forma:

58 Vide em anexo H, L e AS respetivamente


59 Vide em anexo H
60 O Consultor Assistente é nomeado pela Autoridade Eclesiástica de acordo com o artigo 5º dos

estatutos da Associação de Serviço Social competindo a este assistir e intervir nas reuniões não só da
Assembleia Geral como do Conselho de Direção sendo que de acordo com o artigo 17º dos mesmos
estatutos as decisões não teriam carater executório sem a sua aprovação.
61 Viscondessa de Pernes
62 Vide em anexo AT

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 166


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 6 - Órgãos da Associação de Serviço Social 1935

Mesa da Assembleia Geral


Presidente Monsenhor Manuel Anaquim
Vice-presidente Dr. Abel Pereira de Andrade
1º Secretário Cónego Dr. António Maria de Figueiredo
2º Secretário Isabel Maria da Costa de Macedo Gentil
Conselho Fiscal
Dr. Alberto Carneiro de Mesquita
Maria Cândida Parreira
Regina Quintanilha
Conselho de Direção e Administração
Elisabeth d” Albignac Bandeira de Melo
Maria Batista dos Santos Guardiola
Domitília de Carvalho
Maria Angélica da Silva Pereira
Lídia Maia Cabeça
Isabel Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil
Ana Maria de Morais
Fonte: Elaborado a partir de documento intitulado Exposição (Instituto de Serviço Social, 1957b, anexo I,
[fl.8])63

Da tabela 6 que se apresenta, seria interessante situar alguns apontamentos


biográficos sobre estes sócios fundadores, com o objetivo de nos aproximarmos das
suas funções na sociedade e da matriz ideológica em que se enquadravam.

Claramente, e ocupando a Mesa da Assembleia Geral contam-se como


representantes da Igreja, Monsenhor Manuel Anaquim64, figura destacada do clero no
Patriarcado de Lisboa, tendo sido cónego e desempenhado funções de Vigário Geral,
e o Cónego, Dr. António Maria de Figueiredo. Ainda nesta Mesa, Dr. Abel Pereira de
Andrade, licenciado e doutorado em Direito, exercendo à data, o cargo de Procurador
à Câmara Corporativa por designação do Conselho Corporativo.

63Vide em anexo AT
64 Em finais de 1925, a nomeação de Manuel Anaquim para bispo de Damão provoca uma crise
diplomática já que o vaticano se recusa a elevar o cónego a bispo considerando a medida do estado
português uma forma de coação do Papa. Esta crise vem a ser resolvida pelo acordo sobre o Padroado
assinado com a Santa sé em 1928.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 167


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No Conselho Fiscal, encontrava-se, Alberto de Carneiro de Mesquita65, licenciado em


Teologia e Direito e igualmente Procurador à Câmara Corporativa, por designação do
Episcopado Português, em representação da Igreja Católica. Regina Quintanilha
66
(1893-1967) , também, licenciada em Direito, e a primeira advogada da Península
Ibérica. No Conselho de Direção e Administração, para além de Elisabeth d” Albignac
Bandeira de Melo, Condessa de Rilvas (1871- 1945), emergem as figuras de Domitília
Hormizinda Miranda de Carvalho (1871-1966), Maria dos Santos Guardiola (1895-
1987) e Maria Cândida Parreira (1877-1942) que foram as primeiras mulheres
deputadas da Assembleia Nacional pelas eleições de 1934.

Ilustração 5 – Os deputados D. Domitília Miranda de Carvalho, António Almeida Pinto da Mota, D. Maria Cândida Parreira e D.
Maria do Santos Guardiola na sala da Assembleia Nacional. S/ Autor. 10 de janeiro de 1935. (Arquivo Fotográfico da
Assembleia da Republica)

De acordo com o artigo 3º dos seus estatutos, a Associação de Serviço Social, tinha
por fim:

65 Alberto de Carneiro de Mesquita (1880-1962) foi licenciado em Teologia pela Universidade de Coimbra
e em Direito pela mesma universidade realizando o seu Doutoramento em Direito também em Coimbra.
Para além de Procurador à Câmara Corporativa por designação do episcopado português, em
representação da Igreja Católica, foi Pároco e professor do seminário de Lamego; Cónego arcediago da
Sé de Lisboa; Secretário do Cardeal Patriarca de Lisboa; Deão da Sé de Lisboa e em 1951 Protonotário
apostólico e membro do Conselho de Administração dos Bens Eclesiásticos (Castilho, 2009)
66 Regina Quintanilha (1893-1967) foi licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra e a primeira

advogada portuguesa e ibérica.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 168


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

1) promover o estudo e vulgarização do serviço social à luz da doutrina católica e da


caridade cristã; 2) facilitar e desenvolver o estudo de todas as questões e problemas
sociais em que o serviço social possa exercer a sua actividade; 3) promover a
organização de um Instituto de Serviço Social, com sede em Lisboa, destinado a centro
de cultura e formação técnica e profissional de todos os que queiram dedicar-se ao
exercício da ação social, nas suas diversas modalidades; 4) promover a organização
de centros e instituições de serviço social que sejam úteis ao melhoramento da vida
social e facilitem a formação de peritos no serviço social; 5) alcançar o melhor
entendimento e colaboração dos diferentes organismos de acção social entre si e com
os serviços públicos que, sob qualquer aspecto, se relacionem com aquela acção; 6)
conceder ou obter a concessão de bolsas de estudo destinadas a facilitar a formação
de peritos em serviço social (Instituto de Serviço Social, 1957b, anexo I[fl.1])67.

Não só pelas figuras que se apresentam como sócios fundadores da Associação de


Serviço Social, bem como a sua intencionalidade representada neste artigo dos
estatutos, entende-se haver uma clara convergência de interesses entre o regime de
Salazar (1889-1970) e a Igreja Católica, dando corpo à ideia de que,
independentemente das suas divergências ideológicas, o Estado Novo incorporava no
seu núcleo uma tendência concreta da doutrina católica, alimentada por uma elite
católica, de onde veio a emergir uma aliança estrutural duradoura e abrangente, com
esta a participar na legitimação do seu esforço doutrinário e na implementação das
políticas do Estado Novo.

Os estatutos da Associação, contudo, não definem os órgãos dirigentes nem o corpo


docente do Instituto (Instituto de Serviço Social, 1942?, p. 2)68, mencionando que a
nomeação dos professores estaria a cargo da Direção do Instituto que proporia os
nomes que julgasse convenientes à Direção da Associação de Serviço Social, após
prévia consulta ao Patriarcado de Lisboa.

Na sucessão da presidência da Assembleia Geral, da Associação de Serviço Social,


esteve o Professor Doutor Domingos Fezas Vital69 até ao seu falecimento em 1953
(Associação de Serviço Social, 1953b, p. 1)70.

Com este enquadramento, a Associação de Serviço Social decidiu colocar em


funcionamento o Instituto de Serviço Social que assim abriu as suas portas a 2 de Abril

67 Vide em anexo AT
68 Vide em anexo H
69 Domingos Fezas Vital (1888-1953) foi Professor de Direito, chegando a reitor da Universidade de

Coimbra com a Ditadura Nacional (1927-1930). Presidente da Junta de Educação Nacional (1940-46) e
da Câmara Corporativa (1944-46). Dirigente da Causa Monárquica e lugar-tenente do duque de Bragança
(desde 1942). É um dos redatores do projeto da Constituição de 1933, e também um dos introdutores em
Portugal das teorias institucionalistas de Maurice Hauriou (1856-1929) e Georges Renard (1867-1943)
que, nos anos trinta, permitem uma atualização das teorias corporativistas, fazendo-as ligar ao próprio
neotomismo. É um dos subscritores do Parecer da Câmara Corporativa que apoia o projeto de extinção
da Maçonaria em 1935, juntamente com Afonso de Melo Pinto Veloso, Gustavo Cordeiro Ramos, José
Gabriel Pinto Coelho e Abel de Andrade. (Maltez, 1991, Vol. 2, p. 301)
70 Vide em anexo AG

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 169


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

de 1935, em Lisboa, integrando-se neste propósito um grupo de professores, muitos


deles catedráticos, que se prontificaram a ministrar o ensino teórico e prático, de forma
gratuita (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 2)71. Abertas as matrículas, verifica-se
que o primeiro curso preparatório, veio a funcionar com, 13 alunas ordinárias,14
alunas voluntárias e 20 alunas para conferências (Instituto de Serviço Social, 1936b, p.
4)72.

A 17 de Março de 1935, encontrando-se ladeada pelo Sr. Cardeal Patriarca e pelo Sr.
Ministro da Instrução e outras figuras representativas da inteletualide à época, Mlle
Thérèse Lévêque, a primeira diretora técnica do Instituto, proferiu a sua primeira
conferência, centrando-se nos objetivos e programa do Instituto (Instituto de Serviço
Social, 1936b, p. 4)73.

Apesar de já se encontrar em funcionamento, somente a partir do Alvará 263 de 24 de


Junho de 1937 é autorizada à Associação de Serviço Social a abertura do
estabelecimento de ensino particular, denominado Instituto de Serviço Social, na
freguesia da Pena ao Campo Mártires nº 43 em Lisboa, com a lotação de 150 alunos
do sexo feminino, em regime de plano e programas próprios, configurando o curso
técnico-profissional (Ministério da Educação Nacional, 1937, p.1)74. Mais tarde,
reconhecido pelo Decreto-Lei nº 30 135 de 14 de Dezembro de 193975 que autoriza o
funcionamento da escola de Lisboa e a Escola Normal de Coimbra.

71 Vide em anexo M
72 Vide em anexo B
73 Vide em anexo B
74 Vide em anexo C
75 Vide em anexo E

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 170


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 6 - Visita do Dr. Mário Pais de Sousa (Ministro do Interior) ao Instituto de Serviço Social acompanhado por Dra. Dona
Maria Guardiola (à sua direta) e Condessa de Rilvas (à sua esquerda) a 20-02-1937. (Arquivo da Torre do Tombo
[PT/TT/EPJS/SF/001-001/0042/0158L])

Nesse diploma legal de 1939, ressalta, no seu artigo 1º, que a formação de
assistentes de Serviço Social se prende com a necessidade de proporcionar pessoal
técnico para os serviços públicos e instituições particulares dando, assim, corpo à já
referida decisão emanada pelo I Congresso Nacional, deixando claro que estas
diplomadas por escolas de iniciativa privada poderiam ser recrutadas para serviços de
assistência do próprio aparelho do Estado, ou para entidades privadas. Evidencia-se,
assim, que o estado corporativo se eximiu de criar ele próprio, escolas de Serviço
Social no ensino público, o que permite, com pertinência o questionamento sobre esse
facto.

Observa-se, no artigo 2º que, apesar das escolas possuírem uma organização


diferenciada e autónoma e a sua direção ser constituída por pessoas de nacionalidade
portuguesa, ela poderia incluir cidadãos estrangeiros acautelando-se a não existência
em Portugal de assistentes sociais com formação para ocuparem o cargo, abrindo a
possibilidade de recrutamento de técnicos estrangeiros, para assumirem as direções
das escolas e, inevitavelmente, imprimirem o cunho e a experiência das suas escolas
de proveniência. Seria o caso Mlle Marie Thérèse Levêque que já exercia o cargo de
diretora técnica do Instituto de Serviço Social de Lisboa.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 171


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Este diploma, no seu artigo 8º, mostra indubitavelmente a presença interventiva do


Estado, comprovada, por exemplo, na obrigatoriedade das alunas finalistas de,

[...] prestar provas perante um júri único, de três a cinco membros, nomeado pelo
Ministro da Educação Nacional, com intervenção de professores dos institutos e uma
delegada da Obra das Mães pela Educação Nacional” (Decreto-lei 30 135, 1939, p.
1404)76

Apesar das primeiras instalações, anexas ao Patriarcado de Lisboa, serem


consideradas suficientes para um início de atividade (Instituto de Serviço Social, 1936,
p. 3), o Instituto de Serviço Social, viu autorizada a transferência das suas instalações,
em 194277, pelo já referido Alvará nº 263 (p. 2), para o Largo do Mitelo nº 1, da mesma
freguesia de Lisboa. Esta decisão foi proferida por despacho ministerial de 21 de Julho
desse ano, permitindo ali o seu funcionamento em dois turnos, manhã e tarde, com a
lotação total por cada turno de 120 alunas, o que se traduziu num aumento
considerável da capacidade de ministrar o ensino. Curiosamente, este Alvará foi
inicialmente emitido em nome da Direção do Instituto de Serviço Social tendo sido
corrigida a titularidade para, Direção da Associação de Serviço Social, em 10 de
setembro de 1956. Corrigiu-se, assim, um lapso formal verificado na emissão78 lapso a
que não será provavelmente estranho o ter-se entendido, de forma errónea, que o
Instituto de Serviço Social, tinha por si só, geração própria, olvidando-se a ligação
umbilical à sua criadora, a Associação de Serviço Social, não tão “visível” quanto o
Instituto o era.

76 Vide em anexo E
77 Encontra-se referência à venda em 1941 do Palácio do Mitelo por parte da Srª D. Maria Vitória de
Carvalho Daun e Lorena a D. Lídia Cabeça viúva do professor Dr. Custódio Cabeça, no artigo publicado
pela revista do ISSSL, Intervenção Social 2/3, intitulado “O palácio do Metelo” elaborado por Segismundo
Pinto (1985, p. 113). Neste palácio funcionaria, desde 1942 o Instituto de Serviço Social e posteriormente
o Instituto Superior de Serviço Social até 2006, ano em que transitou para a Universidade Lusíada de
Lisboa. D. Lídia Cabeça é uma das sócias fundadoras da Associação de Serviço Social, não se
descartando, portanto, a hipótese de que a compra deste palácio tivesse origem na vontade desta em
facultar instalações especificamente para o exercício daquela associação.
78 De acordo com este Alvará 263, de 24 Junho de 1939, em 12 de junho de 1969, o Instituto de Serviço

Social foi autorizado a mudar a sua denominação para Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 172


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 7 - Instalações do instituto de Serviço Social, Largo do Mitelo nº 1, 1945. (Arquivo do Instituto Superior de Serviço
Social de Lisboa, 1945)

O Instituto de Serviço Social estipula, então, como finalidade do seu projeto fundador

[...] conseguir a mais elevada concepção e organização da vida familiar e social por
meio de larga ação social de educação e de melhoramento das condições de vida nos
seus vários sectores”.

Nesta medida, desenvolver uma tríplice atividade

1º Constitui um centro de documentação, de cultura social, de coordenação de


esforços, orientando, aproveitando boas vontades e difundindo os sãos princípios
sociais. 2º Forma profissionais do Serviço Social e da Educação Familiar – Assistentes
Sociais e Educadoras Familiares. 3º Actua directamente em vários meios, que procura
educar e assistir, pelos seus serviços anexos: Centro Social e Curso de Donas de
Casa” (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 3 e 4)79.

Para além de apostar no apoio documental através de um centro de documentação


apostava, ainda, no desenvolvimento de uma Cultura Social e na irradiação de
princípios sociais exercendo um papel formativo e orientador. Enquanto Escola,
através da formação de Assistentes Sociais e Educadoras Familiares em cursos de
duração de três anos, seguidos de alguns meses de estágio prático, perseguia uma
formação de carater moral, intelectual e técnico, uma formação integralmente cristã,

79 Vide em anexo M

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 173


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

orientada para o culto da tradição e para os ideais constantes no povo português,


acentuando o património lusíada, isto é

O culto de “Deus” e da “Pátria”, o amor da “Família”, a rectidão de carácter, o sentido


do respeito, a nobreza de sentimentos, o espírito de ordem e de trabalho (Instituto de
Serviço Social, 1945, p. 7)80.

A par desta “formação de alma” que se expressa claramente nos documentos


recolhidos como “penetrada de idealismo”, de “realidade sã”, pretende-se igualmente
uma formação prática que se traduzisse numa

[…] iniciação aos métodos modernos de organização racional de trabalho, que


permitem maior rendimento social sem inútil desperdício de forças e de dinheiro
(Instituto de Serviço Social, 1945, p. 7)81.

Perseguindo o seu terceiro objetivo, o Instituto de Serviço Social, mantinha o que


considerava ser uma ação direta através de um Centro Social que funcionava na
própria sede, sendo simultaneamente local para estágio das alunas em processo
formativo e para servir o conjunto da população das freguesias dos Anjos e da Pena.
Ainda, nesta linha, ministrava o curso de Donas de Casa, destinado especialmente a
jovens da “classe dirigente” para aperfeiçoamento da sua formação enquanto mães de
família e donas de casa” (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 7)82. No entanto, este
último curso tinha apenas um ano e não dava direito a diploma.

Porém, só mais tarde em maio de 1948, foi aprovado pelo Ministro da Educação
Nacional o diploma de assistente social e no dia 9 de julho desse mesmo ano se
procedeu-se à

[...] respectiva entrega às 18 assistentes sociais que fizeram já o chamado exame de


estado, dando-se também na mesma ocasião o certificado do curso às 78 educadoras
familiares e assistentes sociais formadas até àquela data pelo Instituto de Serviço
Social (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 1) 83.

Nesta cerimónia, que foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, fizeram-se
representar o Ministro da Educação Nacional e os Sub-Secretários da Assistência e
das Corporações.

Perseguindo, ainda, esta linha de pensamento apresenta-se em seguida uma


ilustração (ilustração 8) adaptada de documento localizado nesta pesquisa e que visa

80 Vide em anexo M
81 Vide em anexo M
82 Vide em anexo M
83 Vide em anexo V

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 174


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

esclarecer quanto às relações de dependência do Instituto de Serviço Social face a


várias entidades.

Ilustração 8 - Conexões do Instituto de Serviço Social com várias entidades. ([Adaptado a partir de:] Instituto de Serviço Social, 1945,
p.15 A)84

A primeira a ser mencionada é exatamente a dependência do Instituto de Serviço


Social da Associação de Serviço Social, já que aquela é sua proprietária e representa
o seu suporte jurídico. Neste caso concreto, tal como se encontra representado na
ilustração (ilustração 12), dela depende do ponto de vista legal. Enquanto Associação
de Serviço Social dependia, por seu turno, da própria Igreja.

A este propósito, refere-se a existência de duas cartas dirigidas ao Cardeal Patriarca


de Lisboa pela diretora do Instituto de Serviço Social, Maria Carlota Lobato Guerra nos
anos de 1952 e 1954. A primeira carta, datada de 1952, acompanhava cópia dos
relatórios das atividades do Instituto de Serviço Social, dos anos de 1950 e 1951, bem
como as cópias das respetivas atas da Assembleia da Associação de Serviço Social
onde aqueles foram aprovados, relembrando, que de acordo com os estatutos “só a
aprovação por Vossa Eminência das decisões tomadas nessa assembleia as torna

84 Vide em anexo M

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 175


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

executórias” (Instituto de Serviço Social, 1952b, p. 1)85. Naquela carta solicitava,


também, uma audiência, pois existiriam outros assuntos “ […] de bastante importância
sobre os quais me parece indispensável receber ordens”. Esta constitui uma evidência
quanto às relações com o Patriarcado de Lisboa, inferindo-se com clareza, uma
subalternização hierárquica.

A segunda carta, datada de março 1954, dizia juntar com notório atraso, as atas das
reuniões da Associação de Serviço Social de janeiro de 1953 e o relatório da atividade
do Instituto de Serviço Social de 1952, não perdendo a mesma diretora “ [...] a
oportunidade de agradecer a nomeação de Monsenhor Avelino Gonçalves para a
Associação de Serviço Social” (Instituto de Serviço Social, 1954b, p. 2)86, tratando-se,
tal como já foi referido anteriormente, de uma nomeação eclesiástica, prevista pelos
estatutos e que viria a preencher o cargo de consultor assistente. Esta informação é,
também, ratificada na ata da Assembleia de Serviço Social de 1955, dando conta de
que Monsenhor Avelino Gonçalves continuaria a ser o Reverendo Consultor
Assistente, esse ano (Associação de Serviço Social, 1955a, p. 1)87.

A ilustração 8, anteriormente apresentada pretende, esclarecer a dependência dos


próprios órgãos do Estado, em concreto dos seus ministérios e subsecretarias, entre
eles, o Ministério da Educação Nacional, o Subsecretariado de Estado da Agricultura,
o Ministério das Colónias e o Subsecretariado de Estado das Corporações. Podemos
observar a materialização desta dependência, nos subsídios que estas entidades
fariam chegar ao Instituto e que se podem identificar, a título de exemplo, no relatório
de atividades do ano de 1947 (1948a, p. 15)88 vindo a acrescentar a este conjunto de
entidades, a Subsecretaria de Estado da Assistência.

Sobre a dependência do Instituto de Serviço Social ao Ministério da Educação


Nacional são apontados vários aspetos, conforme resulta do disposto no já referido,
Decreto-lei nº 30 135 de 14 de Dezembro de 193989 como sejam: autorização de

85 Vide em anexo AB
86 Vide em anexo AK
87 Vide em anexo AM
88 Vide em anexo R
89 Vide em anexo E – Decreto-Lei 30 135 de 14 de Dezembro de 1939. A este respeito chama-se especial

atenção ao avançado nos “Art.º 1.º- Pelo Ministério da Educação Nacional e dentro do quadro dos
estabelecimentos de ensino particular poderá ser autorizado o funcionamento de institutos destinados à
formação de assistentes de Serviço Social [...] § único. Ficam desde já autorizados para todos os efeitos
dêste decreto-lei desde que ao regime por êle estabelecido se sujeitem, o Instituto do Serviço Social e a
Escola Normal Social, existente em Lisboa e Coimbra respetivamente. [...] Art.º 3.º Os diplomas de
assistente de Serviço Social, com ou sem especialidade, poderão ser oficializados, a requerimento da
direcção dos respectivos institutos e sob parecer da Junta Nacional da Educação, desde que os planos de
estudo e os programas sejam conformes aos que por êste decreto-lei se estabelecem ou, em revisão
bienal, venham a substituí-los. [...] Art.º 5.º Mediante requerimento fundamentado e sob parecer da Junta
Nacional da Educação, poderão os institutos ser autorizados a criar cursos de especialização técnica [...]

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 176


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

funcionamento dos institutos, oficialização de diplomas, planos de estudo e


programas, autorização para cursos de especialização, a concessão de diplomas de
curso e o título de Assistente de Serviço Social.

Também as relações com o Sub-secretariado de Estado da Agricultura se mostravam


consistentes. De acordo com a descrição desenvolvida no documento em análise a
colaboração prestada por aquela entidade, pese embora “a título meramente
particular” (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 14)90, centrava-se no campo do ensino
uma vez que já se encontrava perfeitamente organizada, nesse ano, um curso de
especialização rural. Esta especialização seria consubstanciada, a nível teórico, num
conjunto de aulas e visitas de estudo realizadas entre fevereiro de 1944 e julho de
1945, por professores do Instituto Superior de Agronomia e técnicos da Estação
Agronómica Nacional e, complementarmente, a nível prático através da realização de
estágios em escolas ou empresas agrícolas.

Perseguindo esta mesma linha de esforço de realização de cursos de especialização,


foram estabelecidas relações com o Ministério das Colónias e com o Subsecretariado
de Estado das Corporações, delineando os moldes do que se poderia caraterizar, por
um lado, na especialização colonial destinada a proporcionar uma preparação
profissional mais adaptada ao trabalho no Ultramar e, por outro, no Trabalho Social
junto dos organismos corporativos, englobando não só as Assistentes Sociais como as
Educadoras Familiares (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 15)91.

A visão quanto ao futuro, nutrida pelo Instituto de Serviço Social em 1945, apontava
para a necessidade de uma maior expansão e de um crescente aperfeiçoamento na
formação de profissionais face aos repetidos apelos dos vários setores da vida
nacional os quais, se estenderam por todo o país, vinham a constituir-se numa rede de
Trabalho Social eficiente. Para levar a cabo esta tarefa seria necessário um conjunto
de medidas, entre elas: a instituição de bolsas de estudo, que facilitavam o ingresso
no curso a candidatas de meios menos abastados, a criação de um Lar, tornando
possível a vinda para Lisboa das alunas da província e a organização de uma

Artº 8.º O aproveitamento será em cada instituto anualmente verificado pelos respectivos júris de exame,
mas a concessão dos diplomas de cada curso dependerá de prestação de provas perante um júri único,
de três a cinco membros, nomeado pelo Ministro de Educação Nacional, com intervenção de professores
dos institutos e uma delegada da Obra das Mães pela Educação Nacional. Art. 9.º O Título de assistente
de Serviço Social é privativo das diplomadas nos termos dêste decreto-lei [...] ”.
90 Vide em anexo M
91 Vide em anexo M

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 177


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

propaganda dos cursos do Instituto de Serviço Social especialmente na província, nos


meses de agosto e setembro (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 18,19)92.

Mais tarde, em 1954, fruto do desenvolvimento do projeto educativo, surgem


profundas alterações na representação orgânica do Instituto de Serviço Social. Estas
alterações devem-se, sobretudo, ao trabalho desenvolvido em duas grandes áreas:por
um lado a Escola, envolvida essencialmente no cumprimento de uma função de ensino
do Serviço Social, ministrando o Curso de Serviço Social e o Curso Geral e Normal de
Educação familiar e os Centros Sociais entretanto criados com o propósito de
funcionarem como locais de aprendizagem e de estágio para as alunas, no
cumprimento de uma função de – “Atuação Social Direta”. Esta função de Atuação
Social Direta materializava-se numa abertura à comunidade e no apoio direto aos
jovens e às famílias e, por outro lado, o Centro de Estudos. Neste cenário, a Direção
passou a designar-se de Direção Comum para coordenar ambas as instâncias.

O relatório de atividades de 1954 dá conta desta alteração orgânica, onde, a sua então
diretora, Maria Carlota Lobato Guerra, refere que

Começarei por falar das alterações da orgânica interna do Instituto, feitas no início de
1954 para melhor estruturação de todos os serviços, em virtude das quais ficaram
constituídos os dois sectores- da Escola e Actuação Social Directa e do Centro de
Estudos, coordenados e orientados pela Direcção Comum do I.S.S. […] Os resultados
fôram favoráveis. Obteve-se desta forma, pela separação das respectivas escritas e
registos e pela possibilidade de repartição de várias tarefas, maior facilidade de
administração e de direcção, útil autonomia dos serviços e leve descongestionamento
do trabalho (Instituto de Serviço Social, 1955, p. 2)93.

O trabalho da direção

[...] consistiu sobretudo na orientação geral do Instituto – obtenção das directrizes


superiores e supervisão dos vários serviços – na manutenção das necessárias relações
com as entidades oficiais – Ministério da Educação Nacional, Ministério das
Corporações, etc. – no esforço permanente para a obtenção de fundos regulares ou
esporádicos, no intercâmbio julgado útil com as instituições similares portuguesas ou
estrangeiras, na colaboração prestada a várias pessoas ou entidades que muitas vezes
a solicitaram relativamente a actividades de carácter social ou educativo e no contacto
com diplomadas e antigas alunas (Instituto de Serviço Social, 1955, p. 2)94.

Percebe-se nestes documentos da época, que existe uma clara revisão do projeto
educativo foi um facto e que a vigência do primeiro plano de estudos se aproxima do
fim. O principal trabalho da Direcção Comum em 1955, seria o estudo cuidadosamente

92 Vide em anexo M
93 Vide em anexo AL
94 Vide em anexo AL

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 178


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

realizado e apresentado ao Ministério da Educação Nacional, dos Planos e


Programas, para aprovação oficial dos cursos de Educação Familiar e o estudo e
revisão dos Planos e Programas do curso de Serviço Social, em ordem à elaboração
do respetivo diploma legislativo que contemplasse as “actualizações que a experiência
porventura aconselhasse” (Instituto de Serviço Social, 1957a, p. 7)95.

Este trabalho de revisão do Plano de Estudos estreitou o intercâmbio com a Escola


Normal Social de Coimbra, conseguindo-se um

[...] entendimento para a apresentação do parecer solicitado pelo Ministério da


Educação Nacional sôbre os Planos e Programas dos Cursos a que acima se faz
referência” (Instituto de Serviço Social, 1957a, p. 7)96.

Este acontecimento marcou, sem dúvida, o projeto educativo fundador do Instituto de


Serviço Social e foi sentido na altura como um forte contributo para a expansão do
Serviço Social e da Educação Familiar tanto em extensão como em profundidade,
dando início a um novo período na vida do Instituto de Serviço Social.

4.2. OS PRIMEIROS CARGOS DE DIREÇÃO

A descriminação de género típica do Estado Novo afastava as mulheres do espaço


público, tradicionalmente destinado aos homens, remetendo-as para o espaço privado
do lar, seu espaço natural e para a dedicação à família a qual deveria ser exercida a
tempo inteiro. Porém aceitava que às mulheres estivessem destinados papéis de
relevo no campo da saúde, da assistência e da educação. Como é exemplo o Instituto
de Serviço Social que, no decurso deste projeto educativo, teve sempre mulheres nos
cargos de direção.

95 Vide em anexo AS
96 Vide em anexo AS

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 179


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Elizabeth d’ Albignac Bandeira de Melo (Cargo de Diretora entre 1935-1944)

Ilustração 9 – Elizabeth d’Albignac Bandeira de Melo (Condessa de Rilvas), S/ Autor.: Arquivo da Torre do Tombo
[PT/TT/EPJS/SF/001-001/0048/2652L]

A primeira diretora do Instituto de Serviço Social, de 1935 a 1944, Elizabeth Marie


Caroline d’ Albignac Bandeira de Melo, nasceu em França em 1871 casando-se com
Simão Hipólito de Oliveira e Bandeira de Melo – primeiro e único Visconde de
Alcafache, terceiro Visconde de Rilvas e quarto Conde de Rilvas (1865-1931)
secretário da Legação de Portugal em Paris. A condessa de Rilvas dedicou-se a obras
de assistência infantil, entre elas a Associação Protectora Florinhas da Rua em 1917 e
mais tarde, em 1937, o Instituto Médico - Pedagógico Condessa de Rilvas. Em 1936
foi nomeada para o cargo de dirigente executiva da Obra das Mães pela Educação
Nacional, que exerceu até à sua morte, em 1945 (Pimentel, 1999, p. 480).

Custódia Alves do Vale (Cargo de Diretora entre 1946 – 1950)

Custódia Alves do Vale foi diretora do Instituto de Serviço Social ocupando esse cargo
por despacho do Ministério da Educação Nacional de 4 de Abril de 1946 através de
averbamento realizado de 8 de Abril de 1946 no Alvará 263 de 24 de Junho de 193797.
Do mesmo Alvará consta a cessação do exercício do cargo em 18 de Dezembro de
1950 tendo sido lavrado, nessa data despacho de substituição para a sua sucessora
Maria Carlota de Magalhães Lobato Guerra, cargo que exerceu durante quatro anos.
Em janeiro de 1949, o relatório de atividade do Instituto de Serviço Social para o ano
de 1948 já assinado por Maria Carlota Magalhães Lobato Guerra, dá conta da

97 Vide em anexo C

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 180


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

inesperada partida para África em novembro de 1948 da Diretora Sr.ª D. Custódia do


Vale “De facto, o que foi a sua acção durante estes 3 anos em que orientou o Instituto
com uma visão social, firmeza e compreensão absolutamente invulgares, cremos que
só mais tarde será devidamente avaliado” (Instituto de Serviço Social, 1949a, p.11)98.

No relatório do ano de 1950, refere-se a sua a saída definitiva em Outubro desse


mesmo ano. Este facto foi entendido como uma “dificuldade para a marcha do I.S.S.
tendo de voltar novamente para África, entendeu dever deixar o cargo que desde 1945
exercia, neste Instituto, com tanta competência, dedicação e agudo sentido dos
problemas sociais” (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 7)99

Maria Carlota de Magalhães Lobato Guerra (Cargo de Diretora entre 1950 - 1964)

Ilustração 10 – Ficha da aluna Maria Carlota Magalhães Lobato Guerra. (Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social, 1938).

Maria Carlota de Magalhães Lobato Guerra nasceu em Lisboa em 24 de Dezembro de


1907 e faleceu em 2004. Filha do general José Augusto Lobato Guerra, chefe do
Estado Maior do Exército, foi a 27ª diplomada pelo Instituto de Serviço Social tendo
frequentado o curso de Serviço Social entre 1938 e 1943.

Pelo exposto se depreende que, Maria Carlota Lobato Guerra tomou em suas mãos a
direção do Instituto de Serviço Social muito antes do despacho de nomeação,

98 Vide em anexo V
99 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 181


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

realidade que apenas vê cumprida, tal como se referiu anteriormente, em dezembro de


1950. Oficialmente, as responsabilidades para com o cargo de direção iniciam-se a 19
de dezembro de 1950 e estendem-se até 10 de Dezembro de 1964, data em que é
nomeado para exercer funções de direção deste estabelecimento de ensino o Padre
José Honorato Gomes Rosa (1920-1968) (Ministério da Educação Nacional, 1937, p.
3)100.

4.3. OS PRIMEIROS CURSOS EXISTENTES E OS PLANOS DE ESTUDOS

No primeiro relatório de atividade do Instituto de Serviço Social nos anos de 1935-


1936101, encontra-se claramente mencionada a noção de que o Instituto de Serviço
Social foi talhado nos moldes de criações análogas já experimentadas no estrangeiro,
sendo necessário organizar e disciplinar boas vontades dispersas, definindo como os
seus primeiros objetivos “formar um grupo de escol para todas as actividades do
Serviço Social, constituir instituições preventivas e educativas” (Instituto de Serviço
Social, 1936b, p. 3)102.

Este sentido de formar um grupo de escol para todas as atividades do Serviço Social,
compreende uma direção já, anteriormente, analisada sobre a educação do Estado
Novo, onde se defende que o único esforço considerado viável neste domínio será,
mediante a preparação de um escol, formar a mente dos que lhe ficavam abaixo na
escala social. Neste contexto se aceitaria o objetivo de formar agentes de Serviço
Social iniciando neste campo um trabalho preventivo e de educação a partir das
instituições presente na sociedade portuguesa.

Para sua diretora técnica foi convidada Mlle Thérèse Lévêque à qual, mais tarde, se
vieram juntar Mlle Marie Huille e Mlle Geneviève Rouyer, diretoras de “Centros do
Instituto Familiar e Doméstico de Paris” para partilharem entre si os cursos
especializados da secção B (Instituto de Serviço Social, 1936b, p. 8)103.

Sendo França e Bélgica os países a institucionalizarem as primeiras escolas de


Serviço Social na Europa, como vimos em capítulo anterior, a sua influência fez-se
sentir um pouco por todo o mundo, sendo prática contratar as suas diplomadas para
apoiar o nascimento de novas escolas e/ou a formaram as primeiras diplomadas. No

100 Vide em anexo C – Alvará nº 263 produzido pelo Ministério de Educação Nacional em 24 de Junho de
1937, salientando os respetivos averbamentos realizadas a este Alvará nas datas supra referidas.
101 No decurso do processo de pesquisa foi localizado o esboço deste relatório que reporta à atividade do

ano letivo 1935/ 1936 que se anexa. Vide em anexo A


102 Vide em anexo B
103 Vide em anexo B

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 182


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Brasil, por exemplo, recorda Vieira (1955, p. 12) o programa dos primeiros anos era o
mesmo das escolas da França e da Bélgica. Porém, a Segunda Guerra Mundial veio
limitar as relações com a Europa e em concreto com esses países, obrigando o
próprio Brasil a ceder à propaganda dos Estados Unidos que, em paralelo, ofereciam
bolsas de estudo nas Escolas de Serviço Social americanas. Posteriormente, essas
mesmas alunas, uma vez profissionais, introduziam as técnicas americanas nas
escolas brasileiras.

O Decreto-Lei 40 678 de 10 de Julho de 1956104 admite a existência de dois tipos de


trabalhadores sociais, isto é, as monitoras familiares mais direcionadas para os
problemas educativos, pedagógicos, recreativos, culturais e da vida familiar e as
assistentes sociais mais dedicadas aos problemas de saúde, de trabalho, de auxílio
social, de pesquisa e planeamento sociais. Ambas, no entanto, visaram realizar uma

[...] obra eminentemente construtiva de estruturação de grupos equilibradamente


evoluídos, de formação integral de personalidades conscientes, capazes de se
realizarem por si mesmas, de conseguiram progresso pelo próprio esforço e de
contribuírem assim para o bem comum (Decreto-Lei nº 40 678, de 10 de Julho de 1956,
ponto 2)105.

Pela análise deste diploma percebe-se que os cursos de educação familiar, apesar de
terem sido estudados e experimentados pelo Instituto de Serviço Social, só terão sido
aprovados oficialmente até 1956 precisamente pelo Decreto-lei nº 40 678 de 10 de
Julho desse ano. Através desse diploma passam a poder funcionar, nas Escolas de
Serviço Social os cursos de, serviço social, de educação familiar e o curso normal de
educação familiar.

Esta aprovação obriga a que em Setembro desse mesmo ano através da Portaria nº
15 973 de 18 de Setembro106 se equipare o curso de educação familiar professado no
Instituto de Serviço Social de 1935 a 1950 ao curso normal de educação familiar a que
se reporta o Decreto-Lei nº 40 678, bem como o curso geral de educação familiar
professado pelo Instituto de Serviço Social de Lisboa de 1951 a 1955, ao curso geral
de educação familiar a que se refere este último diploma legal.

Das fontes consultadas, o plano de estudos do curso de assistente social tem desde o
seu início a duração de três anos. Esta duração permanece inalterável nos 16 anos
subsequentes, ou seja, até ao segundo plano de estudos aprovado em 1956 (Portaria

104 Vide em anexo AP


105 Vide em anexo AP
106 Vide em anexo AR

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 183


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

nº 15 972 de 18 de Setembro de 1956)107 passando a incluir um plano de estudos com


4 anos de formação correspondendo a uma viragem deste instituto, um novo projeto
educativo e cujo aprofundamento foge aos objetivos deste estudo.

Realizada uma aproximação ao Decreto-Lei, onde se define o primeiro plano de


estudos em Serviço Social Decreto-Lei nº 30 135 de 14 de Dezembro de 1939108 e à
intenção do legislador quanto à criação de escolas de formação social, podemos
localizar no seu preâmbulo a escola entendida como o local

[…] onde se habilitem raparigas, até as de melhor condição, para exercerem junto de
fábricas, organizações profissionais, instituições de assistência e de educação coletiva
e de obras similares uma ação persistente e metódica de múltiplos objetivos –
higiénicos, morais e intelectuais -, em contacto directo com famílias de todas as
condições (Decreto-Lei 30135 de 14 de Dezembro de 1939, p. 1403)109.

No espírito do legislador, o Serviço Social apresenta-se como um “imenso campo de


ação” onde só será possível trabalhar com eficiência quem possua, para além de
vocação natural, uma mentalidade especialmente formada e firme sentido social que
só estas escolas poderão suscitar e educar.

Ainda, no âmbito da interpretação deste diploma legal podemos entender que será o
Ministério da Educação Nacional, dentro do quadro dos estabelecimentos de ensino
particular a autorizar o funcionamento de institutos destinados à formação de
assistentes de serviço social de modo assegurar a satisfação das necessidades de
pessoal técnico, tanto para serviços públicos como para instituições particulares que
se encontrem envolvidos, de alguma forma, com objetivos de educação e de auxílio
social.

Ora, o reconhecimento deste imenso campo de ação e da necessidade de publicar os


princípios gerais de orientação e coordenação e se aprovarem o plano geral de
estudos e programas, resulta da necessidade explicita de “ [...] formação de dirigentes
idóneas e responsáveis no meio a que se destinam, ao mesmo tempo conscientes e
activas cooperadoras da Revolução Nacional” competindo ao governo manter uma
mão firme e “ [...] não se poder alhear da formação que àquelas se dê, para que
jamais possa desviar-se do sentido humano corporativo e cristão” (Decreto-Lei 30135
de 14 de Dezembro de 1939, p. 1403)110.

107 Vide em anexo AQ


108 Vide em anexo E
109 Vide em anexo E
110 Vide em anexo E

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 184


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Esta é a base reconhecida do projeto educativo dos estabelecimentos de educação


para o Serviço Social e no qual assenta a estruturação do plano de estudos onde o
ensino é simultaneamente teórico e prático e reveste a forma de aulas, visitas de
estudo inquéritos sociais e estágios.

Neste sentido, o programa do curso encontrava-se desenhado num ano de curso


preparatório e dois de cursos complementares (1º e 2º ano), onde estes últimos, que
sendo de especialização, podem ser de seção A, onde se desenvolvia a preparação
de assistentes sociais ou seção B, de preparação para o professorado do ensino
familiar e doméstico (Instituto de Serviço Social, 1936b, p. 3)111.

111 Vide em anexo B

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 185


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

4.3.1. O CURSO DE ASSISTENTE SOCIAL

O curso de Serviço Social reconhecido, pelo Decreto-Lei 30 135 de 14 de dezembro


de 1939, define e legaliza o primeiro plano de estudos. Com efeito, de 1935 a 1939 foi
ministrado o curso de assistente social sem se encontrar devidamente aprovado
legalmente. Porventura teria sido necessário um período de quatro anos de
preparação aferição do que poderia vir a tornar-se uma versão mais definitiva. Cinco
anos passados da sua publicação em Diário do Governo foi possível localizar em
documento expositivo de 1944 portador de uma nova versão diferente da publicada. A
existência deste documento com alterações permite-nos perceber as transformações
ocorridas, se bem que limitadamente, até à publicação da primeira revisão do plano de
estudos ocorrida em 1955 e portanto à configuração de um novo projeto educativo.

No sentido de fundamentar e dar corpo a uma análise comparada foi elaborado um


quadro, que em seguida se apresenta – Tabela 7, onde se incluem os três planos de
estudo referidos, ou seja o inicial de 1935, o publicado em 1939 e, o plano de estudo
desenvolvido no ano de 1944, exibido em documento elaborado pelo Instituto de
Serviço Social.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 7 - Comparação dos planos de estudo nos anos 1936, 1939 e 1944

Curso Preparatório comum aos dois ramos

1935 1939 1944


Disciplinas Docentes Disciplinas Disciplinas Docentes
Iniciação ao estudo da vida
física e das suas perturbações
Anatomia e Fisiologia Drª Mercedes Figueiredo Anatomia; fisiologia Anatomia e Fisiologia Dr. Eurico Pais
Cirurgia Dr. Casimiro Afonso Cirurgia Dr. Luís Quintela
Socorro de doentes Drª Custódia Alves de Cirurgia, socorros de urgência e Socorro a doentes Dr. Custódia Vale
vale prática de enfermagem
Raios X Dr. Benard Guedes
Indicações Indicações terapêuticas e de Indicações terapêuticas Dr. José Toscano de
terapêuticas e Dr. José Toscano de farmácia Vasconcelos Rico
farmácia Vasconcelos Rico
Bacteriologia e Dr. Luiz Figueira Microbiologia; doenças Microbiologia das doenças Dr. Luís Figueira
doenças infeciosas infecciosas Infeciosas
Higiene Alimentar Higiene alimentar Dr. Ernesto Roma
Dr. Ernesto Roma
Higiene geral e alimentar
Higiene Geral Dr. Augusto António de Higiene geral Eng.º. Agnelo Prazeres
Carvalho Dias
Puericultura Dr. Mário Quina Puericultura Puericultura Dr. Mário Cordeiro
Educação Física Dr. Benjamim Calado Cultura física Educação física Dr. Aarão F. Miranda
Iniciação ao estudo da vida
mental e moral
Filosofia ideias gerais; Formação Moral e Social D.M.L. Botelho
Psicologia
Cultura religiosa Religião Padre Costa Lima
Pedagogia e Dr. Pereira dos Reis Psicopedagogia da infância Dr. Cortez Pinto
educação (Mons.) e da adolescência
Psicologia da infância Dr. Victor Hugo Moreira
Fontes

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 187


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Fisioterapia Dr. Bernard Guedes


Cultura Musical D. Júlia Almendra

Iniciação ao funcionamento
prático do Serviço Social
Contabilidade Dr. Manuel Albernaz Contabilidade Sr. Viriato Almeida
Formação técnica
Dactilografia D. Maria Germana Soares
(compreendendo contabilidade
(Diplomada)
e dactilografia)
Formação técnica Dr. Artur Bivar Formação técnica Dr. Artur Bívar
Estágios Estágios Estágios
Dr. Padresca (Medicina Cirurgia Prof. Padresca
Hospital de St Marta Adultos) Medicina Prof. Pulido
Dr. Gentil (Cirurgia Pediatria Hospital de St Marta Prof. Gentil e Prof. Reinaldo
Adultos) Puericultura (numa creche) dos Santos
Prof. Reinaldo dos Santos
Hospital D. Estefânia Dr. Leite Lage (Medicina Hospital dos Capuchos Dr. Matos Chaves, Dr.
Infantil) Martinho Rosado
Creche Misericórdia e Puericultura Hospital da Estefânia Dr. Calheiros, Dr. Leite Lage
Júlia Moreira

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 188


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

2º ano
1936 1939 1944
Disciplinas Docentes Disciplinas Disciplinas Docentes
A vida física e as suas perturbações
(profilaxia)
Higiene social, ante-natal e do Dr. Manuel Vicente Moreira 1. Profilaxia, higiene e Higiene Social pré natal Dr.ª Custódia Alves do Vale
recém-nascido assistência social
Higiene Social do cancro Dr. M. Athias a) Pré -natal, natal e do recém- Higiene Social do Cancro Dr. M. Athias
Dr. Bénard Guedes nascido; Dr. Bénard Guedes
Dr. Loureiro b) Da infância Dr. Prates
Dr. João Magalhães c) Da idade escolar; Dr. Bacelar
Dr. Henrique Parreira d) Dos flagelos

Higiene social das doenças Dr. Gomes da Costa Higiene social das doenças Dr. Gomes da Costa
venéreas venéreas
Higiene social da 1ª idade Dr. Branca Rumina Higiene social Infantil Dr.ª Branca Rumina
Higiene social mental Dr. Vitor Moreira Fontes Higiene social escolar Dr. Vitor Moreira Fontes
Dr. Barahona Fernandes
Higiene social da tuberculose Dr. Daniel Sttau Monteiro Higiene Social da Dr. Daniel de Sttau Monteiro
Tuberculose
História da assistência Dr. Fernando Correia
Higiene e urbanismo Sr. Vasco Moraes Palmeiro Elementos de: Legislação sanitária Dr. Carlos de Arruda Furtado
Regaleira (Arquiteto a) Higiene e urbanismo Higiene e Urbanismo Eng.º Agnelo Prazeres
D.P.G.) b) Legislação sanitária
Higiene Social do alcoolismo Dr. Carlos Pinto Trincão Higiene Social do Alcoolismo Dr. Carvalho Marques
e Toxicomania

Estudo da vida social


Direito constitucional Dr. Fezas Vital Direito constitucional e direito civil Direito constitucional Dr. Fezas Vital ou
Dr. Marcelo Caetano Dr. Marcelo Caetano
Direito Civil Dr. Paulo Cunha Direito Civil Dr. Paulo Cunha ou
Dr. Pinto Coelho
Economia Política Dr. José de Almeida Economia Política e demografia Economia Política e Social Padre Abel Varzim
Estudo da vida mental e moral
Economia doméstica e Mlle Huille
organização do lar
Filosofia – psicologia geral Dr. Joaquim Martins Noções de psicologia infantil;
Pontes (Cgº) pedagogia e educação
Encíclicas Sociais Dr. Manuel Varzim (Padre) Moral filosófica (individual e familiar); Encíclicas Padre Abel Varzim

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 189


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Filosofia Moral Dr. José Garcias (Padre) encíclicas que lhe dizem respeito Filosofia Padre Maurício dos Santos
Cultura religiosa (Continuação) Religião Padre Costa Lima
Serviço Social e seu funcionamento

Acção social e corporativismo; Serviço Social D. Maria Carlota Lobato


Sindicatos Nacionais Guerra (A.S.)

Biblioteca Mlle Marie Thérèse Cultura Musical D. Júlia Almendra


Lévêque
Estágios
Maternidade da Fábrica de Numa maternidade e consultas pré-
tabacos de Xabregas natais, em serviços de puericultura e de Dispensário do IPO

Postos de puericultura das proteção à infância, em institutos e


Dispensário de higiene
Misericórdias e da Junta dispensários de profilaxia e higiene
social: Posto da Praça do
Geral do Distrito de Lisboa social, em instituições especializadas
Brasil
em ensino familiar e doméstico (com
Instituto de Oncologia Dispensário de Higiene
noções teóricas
(Cancro) Social: Posto do Beato
Associação Nacional de Dispensário de higiene Dr. Tovar Lemos
Protecção aos Tuberculosos Social: Posto do Parque
(Sanatório e Dispensário) Sanitário
Dispensário Profiláticos da Dispensário da A.N.T. na Dr. Arbués Moreira
Direcção Geral de Saúde Ajuda
Serviço de profilaxia da Dr. Maia Loureiro
Tuberculose (Centro de
Saúde de Lisboa).
Maternidade Magalhães Dr. Freitas Simões
Coutinho
Creche Jardim da Estrela Dr.ª Branca Rumina
Visitas de caráter social – Esboços de
inquéritos

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 190


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

3º ano
1936 1939 1944
Disciplinas Docentes Disciplinas Disciplinas Docentes
A) Aulas
A vida física e mental; suas
perturbações (continuação)
Higiene do trabalho Mlle Marie Thérèse 1- Profilaxia; higiene e assistência Higiene mental infantil Dr. Vitor Moreira Fontes
Lévêque social mental (infantil e de adultos) Higiene mental de adultos Dr. Barahona Fernandes

Prevenção dos 2- Profilaxia das doenças e Doenças e intoxicações profissionais Dr. Carvalho Marques
acidentes de trabalho intoxicações profissionais e outras;
Organização social das higiene e fisiologia do trabalho; Legislação do trabalho Dr. Macedo Santos e Dr. França
fábricas prevenção dos acidentes de trabalho Vigon
Doenças profissionais Dr. Arnaldo Almeida
Dias
Toxicomania Dr. Arnaldo de Almeida
Dias
Estudo da vida social (continuação)
Economia social Correia (Padre) 1- Economia, direito e
legislação do trabalho e
previdência

Direito penal e criminal Dr. Augusto de Oliveira 2- Noções de direito criminal e penal Direito Criminal Dr. Augusto de Oliveira

História da Assistência Dr. Fernando Correia 3- História e legislação da História da Assistência Dr. Fernando Correia
assistência

Legislação da Legislação da Assistência Dr. Guilherme Possolo


assistência Dr. Guilherme Possolo
Organização da
Assistência
Estudos das realizações
Públicas e privadas
Serviço Social e seu funcionamento
(continuação)
Moral profissional do Mlle Marie Thérèse 1 - Organização social da indústria e Orientação profissional Dr. Oliveira Ramos
trabalhador social Lèvêque higiene industrial; utilização de horas
Organização dos de descanso dos que trabalham; Serviço Social D. Maria Leonor Botelho (A.S.)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 191


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Centros sociais centros sociais; bibliotecas,


Organização dos orientação profissional.
tempos livres dos
trabalhadores
2 – Organização social agrícola,
Casas do Povo

Encíclicas Sociais Dr Manuel Varzim Encíclicas Padre Abel Varzim


(Padre)
Filosofia Moral Dr. José Garcias Filosofia Moral Padre Abel Varzim
(Padre)
Filosofia – Psicologia Dr. Joaquim Martins Religião Padre Costa Lima
geral Pontes (Cgº)
Cultura Musical D. Júlia Almendra
Estágios B) Estágios: Estágios
Organização do Serviço Social do Instituto Em serviços sociais de proteção à Instituto A.A. Costa Ferreira Dr. Victor Fontes
Médico Pedagógico “Condessa de Rilvas” maternidade e à infância (normal e Instituto Médico pedagógico Dr. Victor Fontes
delinquente). Condessa de Rilvas
Inquéritos médico-sociais em conjunto com as Em outros serviços sociais Hospital Júlio de Matos Dr. Barahona Fernandes
consultas de psiquiatria do Hospital de Rilhafoles especializados (hospitais, dispensário Refúgio Feminino da Tutoria Dr. Oliveira Ramos
Serviço Social da Tutorias da Infância e dos de higiene social, sanatórios, Refúgio Masculino da Tutoria Dr. Oliveira Ramos
Menores fábricas, junto das organizações
corporativas, etc.)
Organização do Serviço Social do Posto Clínico Estágio Social e Familiar no Centro D. Maria José Lencastre Viana
Em centros sociais
da Freguesia da Pena Social do I.S.S. (A.S.)
Em instituições especializadas em
ensino familiar e doméstico.
Estágios práticos de ensino familiar e doméstico
feitos na própria sede do Instituto do Serviço
Social em conjunto com a Secção B
Visitas sociais e inquéritos
Fonte : Elaborado a partir do Decreto-lei 30 135 de 14 de Dezembro de 1939112, Exposição acerca do Instituto de Serviço Social (Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo I, II,III)113, Professores Universitários ( Instituto de
Serviço Social, S/data)114 Listagem do Corpo docente do Instituto de Serviço Social (Instituto de Serviço Social, 1944?)115,

112 Vide em anexo E


113 Vide em anexo L
114 Vide em anexo F
115 Vide em anexo I

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 192


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Da comparação apresentada, anteriormente, na tabela 7, podemos entender que as


diferentes áreas programáticas assentam em dois pilares fundamentais, como seja o
ensino teórico e o ensino da prática.

Num primeiro pilar de ensino teórico (designado como aulas) encara do ensino com o
desenvolvimento de quadro eixos fundamentais:

- Estudo da vida física e das suas perturbações (ano preparatório iniciação, 2º ano
profilaxia, no 3º ano) circunscrevendo a vida, à vida física à vida moral

- Estudo da vida mental e moral (ano preparatório, 2º ano, 3º ano);

- Estudo da vida social (2º ano e 3º ano)

- Serviço Social e seu funcionamento prático (ano preparatório e 2º ano e 3º ano)

Depreende-se do exposto que o plano de estudos tem como foco a atenção sobre o
indivíduo nas diferentes áreas de vida, a vida física, mental, moral, social, na tentativa
de construir, desta forma, uma visão integral da pessoa humana. Com esta visão são
ministradas disciplinas em diferentes áreas: área da medicina em concreto da
Medicina Social; na área do direito, ligadas ao ramo do Direito Constitucional, Civil,
Trabalho, Criminal e Penal; na área da filosofia ligadas ao domínio das ideias e à
Psicologia e disciplinas ligadas ao Serviço Social.

Interessante notar que, ao que designa disciplinas ligadas Serviço Social são
entendidas matérias onde se abordam noções de contabilidade e datilografia no ano
preparatório e, nos anos subsequentes, a ação social corporativa e sindicatos
nacionais. No último ano, matérias ligadas à organização social da indústria e higiene
industrial bem como organização agrícola. Este aspeto por si só apontará, por todo
este período, ausência de matérias ligadas aos fundamentos de Serviço Social e
portanto de embasamento da atividade prática de conhecimentos desta área
disciplinar.

Em contrapartida, a organização deste plano de estudos, denota o ecletismo das


formações e dos cargos que desempenham os seus docentes, juntando assim num
mesmo projeto educativo, médicos, juristas, sacerdotes, filósofos e assistentes sociais.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 193


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Num segundo pilar, o de ensino mais prático, onde se desenvolve a componente do


Estágios. Esta componente acompanha a formação académica ao longo dos três anos
do plano de estudos. No ano preparatório este era desenvolvido em serviços de
“cirurgia, medicina, pediatria e puericultura”; nos anos avançados, no 2º ano os
estágios deveriam ocorrer em maternidades e consulta pré-natais, em serviços de
puericultura e proteção à infância, em institutos e dispensários de profilaxia e higiene
social, em instituições especializadas em ensino familiar e doméstico e no 3º ano, em
serviços sociais de proteção à maternidade e à infância (normal e delinquente). Em
outros serviços sociais especializados (hospitais, dispensários de higiene social,
sanatórios, fábricas, junto das organizações corporativas, etc.). O inquérito social e a
visita domiciliária, constituem-se igualmente como os principais instrumentos no
levantamento das necessidades materiais e morais das famílias bem como no
levantamento e referenciação de doenças sociais, como sejam as doenças
infectocontagiosas, promiscuidade, o alcoolismo, o cancro, entre outras.

A publicação do Decreto-lei nº 36 914 de 14 de Junho de 1948116 já denota algumas


alterações em ordem à componente dos estágios fazendo prolongar os três anos
iniciais do curso para um período adicional de quatro, a doze meses de estágio
quando no Artigo 4º apresenta a seguinte redação “. O curso de assistente de serviço
social terá a duração de três anos, seguido de um estágio de quatro a doze meses.”

116 Vide em anexo U

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 194


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 11 - Assistente Social Maria Leonor Botelho e aluna (1943-1944). S/ autor. (Arquivo do Instituto Superior de Serviço
Social de Lisboa, 1943-1944)

Um plano dirigido para a teoria

Tendo por referência os planos de estudos comparados verifica-se um forte relevo


dado sobretudo às disciplinas de caráter médico e, dentro desta área, a influência
decisiva da medicina social, as disciplinas ligadas ao direito e à formação moral e
religiosa, bem como a preparação prática que envolve os estágios e a que se dará
destaque mais adiante.

A análise das diferentes disciplinas do plano de estudos comprova que a história da


profissão era completamente esquecida. No 3º ano encontra-se ao nível do Estudo da
Vida Social, a disciplina de História e Legislação da Assistência que parecem marcar
mais o ensino ao nível da evolução da própria política da assistência do que ao nível
do desenvolvimento histórico da profissão.

A História da Assistência era tratada no 3º ano quando os alunos já se encontrassem


preparados para entenderem as diferentes organizações da assistência e saúde, nos
seus diferentes campos e problemas sociais com que se iriam deparar. O encontro
das alunas com a história da profissão fica, portanto, adiado, bem como o
questionamento da sua vocação e da responsabilidade social que lhes era acometida

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 195


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

quando porventura se identificavam com o Serviço Social enquanto profissão. Para


que este esforço fosse realizado teriam de saber como o Serviço Social se tinha
desenvolvido, conhecer as figuras ligadas a essa história e como influenciaram os
seus ideais e os métodos ligados à prática profissional. O valor da História, enquanto
sentido de auxiliar do estudante para interpretar o Serviço Socia, não era reconhecido
nem fonte de inspiração. Os ideais e os princípios da profissão eram cultivados em
ambiente de estágio, sobretudo como se verá mais adiante.

Outra das ausências notadas neste plano é a Sociologia. De acordo com Adérito
Sedas Nunes (1988) a Sociologia era geralmente considerada inútil e abstrata e para o
regime era sobretudo perigosa, suspeita e subversiva. Salazar (1889-1970) terá
inclusivamente afirmado que se tratava de “um socialismo disfarçado” como algo
confuso que “ já no seu tempo não se sabia o que era” (Nunes, 1988, p. 37). Enquanto
nos Estados Unidos da América a Sociologia se ia afirmando tanto a nível institucional
como académico, em Portugal no período do Estado Novo, a Sociologia não era
reconhecida como ciência social117. Segundo Pereira (2007) a década de trinta, nos
anos da Segunda Guerra Mundial e do imediato pós-guerra, foram tempos de negação
do social e fragilizados do ponto de vista do campo universitário nacional, e o seu
retrato foi exclusivamente informado pelos critérios dominantes da doutrina
corporativa, a ideologia oficial do regime (2007, p.3).

Alguns dos professores e responsáveis, como a Condessa de Rilvas, que tinham


relações pessoais com Salazar, (1889-1970) conheciam a aversão deste por aquela
disciplina, razão pela qual receariam a suspeição que seriam levantadas por um plano
de estudos e um curso que incluísse essa matéria. Em contrapartida, pela análise da
tabela 4 anteriormente apresentada, somos levados a concluir que, na sua essência,
as matérias preparavam os alunos de Serviço Social especialmente no campo da
saúde, tendo em conta fatores económicos e sociais, mas apenas os considerados de
importância vital para a concretização de princípios de saúde assistência dos
indivíduos, das famílias. As alunas tinham, portanto, a obrigação de conhecer os
indivíduos e as famílias na sua relação com a comunidade e as condições económicas
e sociais que diretamente as afetavam.

117 Em Portugal, só a partir do final dos anos de 1950 se iniciou o esboço do pensamento sociológico
sistemático e a perspetivar uma prática sociológica concreta, pela ação, que resultou de uma pequena
abertura institucional admitida pelo regime totalitário do Estado Novo. Adérito Sedas Nunes foi o
protagonista maior nessa ação ao criar, com outros investigadores, a revista Análise Social (Pereira,
2007).

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 196


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Percebe-se, ainda, uma outra dimensão de conhecimentos e que respeitam à


disciplina de Psicologia. A assistente social, ao estar em contato com pessoas, deveria
compreender a natureza humana e aplicar esses conhecimentos, bem como ao
trabalhar com recém-nascidos, crianças, adolescentes e jovens deveria também
possuir bons conhecimentos sobre o seu desenvolvimento psicológico e compreensão
sobre o ciclo de vida.

Todavia, mais tarde, em 1952, encontramos uma nova abertura e alusão ao tema da
Sociologia no relatório de atividade onde se refere que “Considerando quanto mais se
exige às Trabalhadoras Sociais, [...] e ainda a necessidade de despertar no nosso
meio o interesse pela Sociologia, dando conhecimentos seguros, organizou-se uma
Semana de Estudos consagrada a este assunto, que constituiu simultaneamente os
“Dias das Finalistas”. Sob o tema geral “Perspectivas Sociais em Portugal” visou-se
principalmente o estudo dos vários meios sociais do nosso país [...]” (Instituto de
Serviço Social, 1953, p. 8)118

Essa abertura veio a consubstanciar-se no verão de 1953 marcando um traço na rota


deste projeto educativo, ou seja, constituiu-se

[…] a primeira realização verdadeiramente eficiente no âmbito do Serviço Social para a


prossecução dos estudos sociológicos [...] refiro-me aos dias de estudo de Sociologia
organizados no I.S.S. em Julho, dob a direcção do Revº Pe Doutor Lúcio Craveiro da
Silva, S. J., Reitor da Faculdade de Filosofia de Braga, primeiro para as professoras e
Monitoras e depois para as alunas finalistas [...] corresponderam plenamente ao
objectivo que se havia visado – informação e estruturação de ideias em relação à
Sociologia” (Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 1)119 .

Os “Dias da Sociologia” são, também, referenciados na ata da Assembleia Geral da


Associação de Serviço Social desse ano (Associação de Serviço Social, 1954b, p.
2)120

Aliás, este assunto foi objeto de longa discussão na Reunião do Conselho de


Administração da Associação de Serviço Social nesse ano onde, Marcelo Caetano
apresentou várias objeções a tal ideia

[…] frisando como receava um estudo livresco e lhe parecia mais útil para a formação
das trabalhadoras sociais o aprofundar dos estudos de Serviço Social e a observação
prática da realidade (Associação de Serviço Social, 1954 a, p. 2) 121

118 Vide em anexo AE


119 Vide em anexo AI
120 Vide em anexo AJ

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 197


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Esta não era a posição partilhada pela diretora do Instituto de Serviço Social Maria
Carlota Lobato Guerra

[…] os estudos sociológicos deveriam ser orientados num sentido eminentemente


prático, justamente visando essa observação directa e prática da realidade, e como
julgava a creação de um Centro de Sociologia base indispensável para apoiar o
conhecimento das trabalhadoras sociais e as preparar para exercerem eficientemente o
trabalho de acção social que hoje lhes é pedido e também para informar a mentalidade
geral, preparando neste sentido obreiros de outras profissões ( Associação de Serviço
Socia, 1954 a,p. 2)122

Maria Carlota Guerra admite ter trocado impressões com o secretário do Instituto de
Alta Cultura Dr. Medeiros Gouveia, sobre a criação do Centro de Sociologia no
Instituto de Serviço Social e sobre o seu financiamento tendo-se este mostrado
favorável à iniciativa, sobretudo, atendendo às figuras dirigentes da Associação de
Serviço Social. Após longa discussão e face ao entusiasmo que os presentes
imprimiram à questão, Marcelo Caetano veio a não se opor a esta iniciativa. Ficou
decido nesta reunião a criação do referido Centro de Estudos optando-se por ficar
dependente da própria Associação […] sobretudo para que assim fosse possível obter
a subvenção por parte Instituto de Alta Cultura pode dar a Centros de investigação
científica e dada a conveniência de que ficasse a dirigi-lo um dos professores do
Instituto da Associação de Serviço Social (Associação de Serviço Social, 1954 a, p.
3)123

Nesta reunião foi, ainda, discutida a escolha do Diretor do Centro de Sociologia

[…] tendo Marcelo Caetano proposto que fosse o Prof. Souza da Câmara. Este porém
protestou, insistindo para que fosse antes o Prof. Marcelo Caetano, Insistência a que
se associaram os outros professores presentes. O Prof. Marcelo Caetano acabou por
aceitar, ficando combinado que o assunto seria posto à aprovação da Próxima
Assembleia Geral (Associação de Serviço Social, 1954 a, p.3)

Torna-se também claro, a partir da análise do plano de estudo exposto na tabela 7,


que as alunas deveriam conhecer intimamente as instituições, organizações e
agências que na comunidade se preocupavam com a saúde e assistência dos
indivíduos e suas famílias, por forma a conseguir, por diferentes vias, que estas
pudessem servir os diferentes grupos. Às assistentes sociais a quem importava incutir

121 Vide em anexo AH


122 Vide em anexo AE
123 Vide em anexo AH

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 198


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

uma identidade profissional, necessitavam compreender a relação com as suas


próprias organizações profissionais.

Um plano de estudos dirigido para a prática

A distribuição de disciplinas exposta permite concluir estar perante um primeiro plano


de estudos claramente direcionado para a prática profissional.

Tendo em consideração a formação social que vinha sendo ministrada pelo Instituto
de Serviço Social desde a sua criação, o Governo da República faz publicar a 14 de
Dezembro de 1939, através do já referido Decreto-Lei nº 30 135 o primeiro plano de
estudos, que determina que só poderá exercer com eficiência uma ação persistente e
de múltiplos objetivos dentro fábricas, organizações profissionais, instituições de
assistência e de educação coletiva e obras similares, quem possua, “[...] a par de uma
vocação natural uma mentalidade especialmente formada [...]” pelas escolas de
Serviço Social (Decreto-Lei nº 30 135, 1939, p.1403)124.

Neste diploma o Governo considera não ser possível alhear-se da formação destas
“obreiras” já que iriam trabalhar com famílias nos mais diversos meios, sobretudo com
famílias humildes e de cultura restrita, sendo necessário que estas não se possam “[...]
desviar do sentido humano, corporativo e cristão” (Decreto-Lei nº 30 135, 1939,
p.1403, 1404). Esta seria a razão pela qual se publicavam os princípios gerais de
orientação e coordenação a que se deveriam submeter os estabelecimentos de
educação para o Serviço Social, bem como se aprovava o plano geral de estudos e
programas. O objetivo desta formação consistia na realização de uma ação persistente
e metódica e com múltiplos objetivos, contemplando a formação de dirigentes idóneas
e responsáveis e simultaneamente conscientes e cooperadoras ativas da Revolução
Nacional (Decreto-Lei nº 30 135, 1939, p.1403).

Tal como se julga concluir do quadro comparativo anteriormente apresentado, os


estágios realizados, tanto no ano preparatório como no 2º ano, privilegiam os estágios
ao nível da saúde e, em concreto, a área hospitalar. Estabelece-se aqui uma relação
direta com o peso da área da medicina de entre a formação dos professores onde os
cargos exercidos na estrutura hospitalar facilitariam a entrada destes novos aspirantes
a profissionais. A figura seguinte ilustra um estágio em meio hospitalar mais
concretamente no Instituto Português de Oncologia.

124 Vide em anexo E

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 199


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 12 - Alunas do 2º ano em estágio no Instituto Português de Oncologia (1947-1948)). S/ autor. (Arquivo do Instituto
Superior de Serviço Social de Lisboa, 1947-1948).

Porém, em 1948 pelo Decreto-Lei nº 36.914, publicado no Diário do Governo, deu


nova redação ao artigo 4º do decreto-lei nº 30. 135, pela seguinte forma: “ Art.º 4º - O
Curso de assistente de serviço social terá a duração de 3 anos seguidos de um
estágio de quatro a doze meses” (1948, p. 508)125.

Mais tarde, em 23 de janeiro de 1956, nas Atas da Câmara Corporativa nº 73, em


projeto de proposta de lei nº 516 são apresentadas novas alterações ao decreto-lei nº
30 315 de 14 de Dezembro de 1939, alterações essas que se vieram consubstanciar
na portaria nº 15 972, de 18 de setembro de 1956, do Ministério da Educação
Nacional, e que dão conta de alguma polémica introduzida neste domínio.

Neste projeto de proposta de lei nº 516, entendia-se que, decorridos dezasseis anos,
se verificava a necessidade de introduzir certas alterações ao articulado do referido
Decreto-Lei, no sentido de alcançar uma correspondência mais perfeita às exigências
de evolução social portuguesa

125 Vide em anexo U

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 200


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

[...] à semelhança de outros países, reclama que se dê maior incremento às atividades


de grupo, educativas e culturais, aos movimentos de organização das comunidades e
aos estudos de caráter sociológico em que essas atividades e movimentos
forçosamente têm de basear-se (República Portuguesa, 1956, p. 721)126.

Ora, a questão suscitada obriga a apresentar esclarecimentos acerca das objeções


levantadas a propósito do envio à Câmara Corporativa de projeto-lei nº 516, datadas
de 23 de janeiro de 1956, em que se reforça que, a partir de 14 de julho de 1948, o
curso de Serviço Social, além dos 3 anos de ensino teórico e prático, passou a ter um
4º ano constituído pelo estágio final. A expectativa àcerca da diminuição da duração
do curso sairia completamente gorada pois mantinha clara a posição de que seria
inconveniente, dado que baixaria o nível das profissionais diplomadas e tornava
impossível a preparação para o cabal desempenho de missões de tanta
responsabilidade e que segundo refere esse esclarecimento, eram cada vez mais
confiadas a estas diplomadas.

Para além da realização de estágio e visitas de estudo e querendo ver acentuado


expressamente o carater prático do ensino em algumas das disciplinas ministradas, o
Instituto de Serviço Social foi introduzindo, ao longo do tempo, um maior número de
aulas práticas. Vemos referência a este propósito no relatório do Instituto de Serviço
Social de 1947 (1948a, p.4)127 mencionando as disciplinas de enfermagem e de
puericultura e dando conta que foi alterada a designação da cadeira denominada de
“formação técnica” para “métodos de trabalho” tendo em conta de que a necessidade
de aplicação prática dos conhecimentos adquiridos.

É, pois, nestes primeiros passos que, segundo Fernandes (1985) o Estado forte e
corporativo, não podendo ignorar as classes proletárias, vai atribuir uma extraordinária
missão e influência decisiva a estes profissionais. A esta função social acarinhada pelo
poder, de natureza marcadamente ideologico-política, contrapõe-se a abertura e
flexibilidade deixada ao ato complexo da formação. Trata-se, portanto, em seu
entender de uma autonomia relativa da formação face ao poder que se materializava
no exercício da profissão. Criado, pois, nestas circunstâncias sociais e políticas, o
ensino em Serviço Social só mais tarde “ [...] vai evoluir de uma formação de natureza
filosófica, jurídica e paramédica para uma formação que consente o seu lugar nas
ciências sociais” (Fernandes, 1985, p. 129).

126 Vide em anexo AO


127 Vide em anexo R

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 201


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

4.3.2. O CURSO GERAL E NORMAL DE EDUCAÇÃO FAMILIAR

Só mais tarde reportando-se aos cursos de educadoras familiares, se localiza a


referência à sua aprovação pela Junta Nacional de Educação desde novembro de
1943 (Instituto de Serviço Social, 1944b, p. 5)128 e que a partir deste se ministra o
ensino familiar e doméstico formando moral e tecnicamente, sobretudo a mulher para
a sua missão de mãe de família e de dona de casa.

Tal como o curso de assistentes de serviço social, o curso de Educadoras Familiares


possui a duração de três anos e meio, sendo o primeiro comum de preparação geral a
ambos os ramos, como já vimos, ganhando posteriormente especificidade tal como se
apresenta nos quadros seguintes, tabela 8 e 9:

Tabela 8 - Plano de estudos do curso de Educadoras Familiares - 2º ano

Aulas e conferências
Disciplinas Professor Nº de aulas Exame final
Cozinha Maria Onélia Levy 30 aulas de 6horas Prático
Alimentação “ 15 aulas de 1 hora Escrito e oral
Remendar “ 15 aulas de 2 horas Prático
Corte Adriana Rodrigues 30 aulas de 3 horas Prático
Passar a ferro “ 12 aulas de 2 horas Prático
Metodologia da economia “ 25 aulas de 3 horas Escrito e oral
doméstica
Direito constitucional Dr. Marcelo Caetano ou Escrito e oral
Dr. Fezas Vital
Direito civil Dr. Paulo Cunha ou Escrito e oral
Pinto Coelho
Economia Política e Padre Abel Varzim Escrito e oral
social
Encíclicas “ Escrito e oral
Filosofia Padre Maurício ds Escrito e oral
Santos
Religião Padre Costa Lima Escrito e oral
Higiene e Urbanismo Eng. Agnelo Prazeres Escrito e oral

128 Vide em anexo L

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Conferências
Noções de higiene social Dr. Sttau Monteiro 2 Conferências
da tuberculose
Noções de higiene social Dr. Gomes da Costa 1 Conferência
das doenças venéreas
Fonte: Elaborado a partir de Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo IV129

No 2º ano do curso, as alunas deveriam realizar encargos e trabalhos práticos e


teóricos, como por exemplo, um plano da organização da cozinha ou das limpezas de
uma casa, seja para meio operário, rural, remediado ou instituição, etc. e ainda estágio
social familiar no Centro Social do Instituto. Neste plano de estudos encontra-se
incluída a realização de uma monografia designada como “Monografias social, familiar
ou duma instituição” (Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo IV)130.
Tabela 9 – Plano de estudos do curso de Educadoras Familiares – 3º ano

Aulas e conferências
Disciplinas Professor Nº de aulas Exame final
Cozinha Maria Onélia Levy 15 a 20 aulas de 6horas Prático
Corte Adriana Rodrigues 30 aulas de 3 horas Prático
Chapéus e Flores Maria Onélia Levy 25 aulas de 2 horas Apresentação
dos trabalhos e
Ornamentação do lar Adriana Rodrigues 25 aulas de 2 horas duma “obra
prima”
Moral profissional “ 10 aulas de 1,30 horas Escrito
Metodologia do ensino 12 aulas de 1h (teóricas) Escrito oral e

familiar 12 aulas de 1h (praticas) prático
Encíclicas Padre Abel Varzim
Filosofia Moral Padre Abel Varzim
Religião Padre Costa Lima
Conferências
Higiene Social do cancro Dr. Mark Athias
Higiene Social do Dr. Carvalho Marques
Alcoolismo
O problema da prostituição D. Mª Carlota L. Guerra
Organização do tempo livre D. Mª Leonor Botelho
Bibliotecas D. Mª Leonor Botelho
Fonte: Elaborado a partir de Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo V131

129 Vide em anexo L


130 Vide em anexo L
131 Vide em anexo L

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 203


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Pela leitura das tabelas 8 e 9, torna-se claro que o plano de estudos do curso de
Educadoras Familiares, apesar de integrar disciplinas de natureza prática, envolvia na
formação conhecimentos ligados ao Direito, Economia Política e à Medicina, dá conta
igualmente de uma preocupação com a formação moral e social das alunas incluindo
disciplinas ligadas à Filosofia, Moral e Religião. Assinala-se como interessante a
disciplina de Moral profissional própria de uma visão corporativa. A formação das
alunas contemplava, ainda, encargos e trabalhos a pedido do professor bem como a
realização de visitas de estudo. Por fim e terminados os 3 anos do curso as alunas
deveriam realizar um estágio final de 90 dias, integrando 8h de trabalho diário em
“Educação Familiar”, no Centro Social do Instituto e apresentar o respetivo relatório.

Em seguida, na tabela 10, apresentam-se os locais privilegiados para visitas de estudo


em ambos os anos:

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 204


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Tabela 10 - Locais para a realização de visitas de estudo - Curso de educadoras familiares

Visitas de estudo 2º ano Visitas de estudo 3º ano


Fábrica Portugal Cozinhas económicas da Misericórdia de
Lisboa
Fábrica dos Armazéns do Chiado Restaurante da Fundação Nacional para a
Alegria no Trabalho
Companhias Reunidas Gás e Eletricidade Casa de Trabalho de Cascais
Companhia das Águas Casa dos Pescadores (Escola de Pesca)
Fábrica da Loiça de Sacavém Federação Nacional para a Alegria no
Trabalho F.N.A.T132 (atividades educativas)
Maternidade Alfredo da Costa Casa de amparo de St. António
Maternidade Magalhães Coutinho Casa do Ardina
Maternidade Bensaúde Jardim Escola João de Deus
Maternidade da Companhia dos Tabacos Centro Social de cascais
Centro Materno Infantil Júlia Moreira
Cozinha de Leite da Misericórdia
Serviço de Visitação e tratamento do Centro
de Saúde de Lisboa
Fonte: Elaborado a partir de Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo IV e V133

Da análise da tabela apresentada, é possível entender um leque variado de serviços


ou obras sociais visitadas pelas Educadoras Familiares, ilustrando bem a sua
variedade de locais onde poderia integrar-se um apoio destas profissionais.

Em outubro de 1945, e após um longo período, foi concluído o estudo conducente à


remodelação do Curso de Educação familiar dando-se início ao ensino em novas
bases.

132 Atualmente designada como Fundação Inatel, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT)
foi criada em 1935 com o objetivo de “criar as infra-estruturas destinadas às atividades culturais,
desportivas e recreativas dos trabalhadores e suas famílias, com vista a “um maior desenvolvimento físico
e moral”. Os “organismos corporativos da economia nacional, as grandes empresas e as próprias
entidades individuais com meios e condições para tanto” são instados a cooperar com o Estado para esse
fim. A ação da FNAT estendia-se a todo o território nacional por intermédio das suas delegações
(provinciais) e subdelegações (concelhias), competindo-lhes cooperar na avaliação de todos os assuntos
e na execução de todas as iniciativas. Nas freguesias rurais a FNAT era representada pelas Casas do
povo e Casas de pescadores. Os beneficiários da FNAT eram obrigatoriamente sócios de um dos
elementos da organização corporativista do trabalho: de um sindicato Nacional, de uma Casa do povo ou
Casa de pescadores; sendo que os Centros de Alegria no Trabalho (CATs) constituíam as estruturas de
base nas empresas. Nas zonas de residência urbana os Centros de Recreio Popular (CRPs) cumpriam
essa função” (INATEL, 2016)

133 Vide em anexo L

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 205


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Na ata da assembleia de 1948 regista-se a este propósito a diminuição do número de


alunas do curso de educação familiar e um aumento do número de alunas do curso de
Serviço Social, apontando-se como razões a “falta de reconhecimento oficial do curso,
menos ideal das alunas, ser o curso mais dispendioso do que o de Serviço Social,
maior esforço de adaptação ao programa dos estudos, etc.” (Associação de Serviço
Social, 1948, p.1)134.

Em 1949, registam-se os esforços no sentido de procurar junto do Ministério de


Educação Nacional, o reconhecimento do Curso Normal de Educação Familiar,
convencidos de que as alterações introduzidas na orgânica e programas dos cursos
poderiam conduzir a esse reconhecimento. Nesse mesmo relatório percebe-se que a
investida junto do Ministério se realizou em consonância com a Diretora do Instituto de
S. Pedro de Alcântara, com a Presidente da Obra de Proteção às Raparigas e com a
Presidente da Obra das Mães pela Educação Nacional, que possuem ou projetam
organizar cursos do mesmo tipo, estudando-se um plano conjunto que conviesse às
respetivas escolas. Porém, este facto não veio a acontecer na medida em que a
Diretora do Instituto de S. Pedro de Alcântara preferia obter a aprovação dos seus
cursos através do Subsecretário da Assistência “ [...] o que nem o Instituto de Serviço
Social, nem a O.M.E.N de forma alguma podem desejar” (Instituto de Serviço Social,
1949 a, p. 6)135

No ano de 1949/1950, a direção do Instituto assume não colocar em funcionamento o


Curso Normal de Educação Familiar não abdicando de um conjunto de condições que
considera indispensáveis à formação de boas educadoras familiares (Instituto de
Serviço Social, 1949b, p. 3)

Na ata da Assembleia da Associação de Serviço Social realizada nesse mesmo ano


relembra-se o esforço já despendido para oficialização do curso de educação familiar,

[...] que se não conseguiu ainda apesar da importância evidente do problema [...] pois
o reconhecimento oficial do curso de Educação familiar é uma das mais antigas
aspirações da Direcção do I.S.S.” (Associação de Serviço Social, 1949, p. 8)136

Com vista ao aperfeiçoamento dos cursos de Educação Familiar, em 1953 tomou-se


como medida “[…] a mudança de designação profissional das diplomadas pelo Curso
Geral de Educação Familiar, de Auxiliares da Família para Monitoras Familiares”

134 Vide em anexo S


135 Vide em anexo X
136 Vide em anexo W

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 206


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sendo razão para tanto, o facto de no intercâmbio internacional “ […] a designação de


Auxiliar da Família se prestar a confusão com a expressão francesa de “Aides
Familiales” a qual como sabemos corresponde a uma actividade inteiramente diversa,
de muito menos projecção e supondo preparação técnica extremamente rudimentar”
(Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 7) 137

4.3.3. O CURSO DE DONAS DE CASA

No início do funcionamento do Instituto de Serviço Social, no relatório de atividades de


1935/ 36, encontra-se referência a cursos práticos da seção B, designando-se como
ensino familiar e doméstico. Na tabela 11 que em seguida se apresenta, são
discriminadas as matérias que compõem o referido plano de estudo, complementadas
pela realização de um estágio.
Tabela 11 - Plano de estudos da Seção B

Seção B (ensino familiar e doméstico) – cursos práticos

Cerzir, emendar, engomar 1º e 2º ano


Chapéus e flores
Corte e Costura
Cozinha racional
Cozinha ordinária
Alta cozinha
Pastelaria
Ornamentação do lar
Estágios
Os estágios práticos da secção B eram realizados na sede do Instituto em instalações
especiais
Fonte: Elaborado a partir de Instituto de Serviço Social, Relatório da sua actividade nos anos de 1935-1936 (Instituto de Serviço Social,
1936b, p. 10)138

Tal como podemos constatar, nesta tabela 11, pela natureza das matérias ministradas,
estas revestem-se de uma orientação dirigida para prática de atividades domésticas,
não deixando, apesar de tudo, de facultar às alunas momentos de prática
supervisionada através de estágios realizados na sede do Instituto de Serviço Social
em instalações especiais. Estas instalações especiais serão obviamente os Centros
Sociais que foram sendo criados o longo deste período, essencialmente com o
objetivo de proporcionar às alunas locais destinados ao exercício prático de
conhecimentos que adquiriram de forma mais teórica. O primeiro sabemos tratar-se do
Centro Social da Bempostinha fisicamente sediado em instalações anexas ao Instituto.

137 Vide em anexo AI


138 Vide em anexo B

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 207


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Desde 1936, que as alunas, desejosas por obter uma formação que as preparasse
para a sua futura missão de esposas e mães, poderiam ser admitidas para a
frequência livre de cursos teóricos escolhidos no programa geral e de cursos práticos
especiais, de cozinha e corte, aos quais se juntaria a partir de 1936/37 cursos de
139
remendos e passar a ferro (Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo XVII [fl. 2]) .O
curso livre de Donas de Casa destinava-se especialmente às raparigas de classe
dirigente, possuía a duração de um ano escolar e não dava direito a diploma.

Tendo o Instituto verificado que a oferta de um programa adequado poderia melhorar o


aproveitamento e formação das alunas, optou por abandonar uma composição
deixada à livre escolha das alunas e organizar, a partir do ano de 1941-42, um curso e
preparado para Donas de Casa.

O curso era dividido em três partes: conferências, aulas práticas e aulas teórico-
práticas. As conferências em torno da “ A formação da mulher para a missão de mãe e
dona de casa” responsabilidade de Adriana Rodrigues, obrigava a assistir a 25
conferências de três horas cada, incluindo testes escritos e sua discussão. No domínio
das aulas páticas, eram tratados os temas de “Culinária” e “Alimentação” por Maria
Onélia Levy, sendo num número total de 25 aulas de 6h cada e, ainda, aulas práticas
de “Corte e arranjos de roupa”, por Adriana Rodrigues num total de 25 aulas de 3
horas. (Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo X)140

139 Vide em anexo L


140 Vide em anexo L

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Ilustração 13 – Aula do Curso de Donas de Casa (1943-1944). S/Autor. (Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de
Lisboa

Por último, eram facultadas noções gerais de remendos, trabalhos caseiros, passar a
ferro, economia doméstica, enfermagem caseira, higiene e puericultura da
responsabilidade de ambas as professoras, registada na ilustração 17 e 18, obrigando
a 25 aulas de três horas cada.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 209


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Ilustração 14- No Instituto de Serviço Social. Algumas alunas procedendo à confeção de doces em 20-02-1937. S/ Autor.
Arquivo da Torre do Tombo [PT/TT/EPJS/SF/001-001/0042/0160L]

Para além de um corpo docente bem preparado, a Escola deveria selecionar um


painel de candidatas ao primeiro curso. A tabela 12, que em seguida se apresenta,
pretende dar um panorama das alunas que frequentaram o primeiro ano letivo de
1935-36 após uma intensa seleção das candidatas e da passagem pelo respetivo
exame de admissão.

Tabela 12 - As primeiras alunas a frequentar o Instituto de Serviço Social, nos anos letivos 1935-36 e 1936-37

Ano letivo 1935 - 1936


Abertura do 1º curso 13 alunas ordinárias
Inicio do ano letivo a 2 de
preparatório 14 alunas voluntárias
Abril de 1935
20 alunas para conferências
1º ano do curso 6 alunas ordinárias ( alunas
15 de outubro de 1935 que fizeram com êxito o
exame do curso preparatório
2º curso preparatório 11 alunas ordinárias
2 de dezembro de 1935
9 alunas voluntárias
Inauguração da Seção B 15 alunas voluntárias
9 de março de 1936
(ensino familiar e doméstico)

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 210


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Ano letivo 1936 - 1937


1º grupo de alunas do 2º ano Mantêm-se as 6 alunas
9 Alunas aprovadas no 2º
curso preparatório
Início do ano letivo 3
2º grupo do 1º ano Seção A - 5 alunas em
novembro de 1936
Serviço Social
Seção B – 4 alunas em ensino
familiar e doméstico
3º curso preparatório 12 Alunas ordinárias
Seção B Seção B - 4 alunas ordinárias
2 de dezembro de 1936
em ensino familiar e
doméstico e 30 voluntárias
Total de alunas que frequentaram o ISS nos 2 anos letivos 134 Alunas
Fonte: Elaborado a partir de (Instituto de Serviço Social, 1936 b, p. 4-5)141

Tal como podemos constatar pela leitura da tabela 12, no curso preparatório as alunas
dividiam-se em alunas ordinárias, voluntárias e para conferências. Após frequência
deste curso preparatório, as alunas enveredariam pelo curso de sua preferência. No
total dos dois primeiros anos letivos o Instituto de Serviço Social terá então formado o
número considerável de 134 alunas.

Ilustração 15 - Alunas do curso de Serviço Social (1943-1945). S/ Autor. Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de
Lisboa

141 Vide em anexo B

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 211


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Mais tarde, o relatório de atividade do ano de 1949 regista que, nesse ano, terão
concorrido 26 candidatas tendo apenas cinco feito o exame de admissão mas dessas
apenas uma veio a ser apurada. Este facto dá conta, efetivamente, do grau de
exigência na seleção das alunas. No Curso de Normal de Educação familiar houve,
nesse ano cinco candidatas, no entanto nenhuma delas satisfez as condições de
admissão levando a que a Direção do Instituto tivesse que decidir pela não entrada em
funcionamento do referido curso, a ter de prescindir do conjunto de condições que
considerava básicas e indispensáveis para a formação de boas educadoras familiares
(Instituto de Serviço Social, 1949b, p.3)142

No que respeita ao curso de Donas de Casa e apesar de se ter iniciado em 1936, este
foi organizado, como vimos, de forma mais sistemática só a partir de 1941/42, tendo
registado, as seguintes frequências:

Tabela 13 - Frequência do curso de Donas de Casa

Ano letivo Conferências Aulas práticas Horas Presenças


1941-42 22 173 663 1930
1942-43 26 262 770 2922
1943-44 26 403 1548 3757
Fonte: Elaborado a partir de Exposição acerca o Instituto de Serviço Social, ( Instituto de Serviço Social, 1944b, Anexo XVII)143.

Atendendo aos valores expostos na tabela 13, a partir do ano letivo 1941/1942 até
1943/44 a frequência destes cursos conta com uma franca adesão, registando um
forte aumento justificando a aposta no projeto educativo realizando em revestir a
formação com um caráter mais sistemático.

Da análise de diferentes relatórios de atividades foi elaborada a tabela 14 dando conta


do movimento das alunas em diferentes anos letivos, 1949,1950,1952,1952/1953.

Tabela 14 - Movimento de alunas no ano de 1950, 1952 e ano letivo 1952/1953

1949 1950 1952 Ano letivo


1952/1953
Curso de Serviço Social
1º ano 20 21 15 28
2º ano 14 19 17 15
3º ano 20 14 9 14
Estagiárias finais 8 19 13 8

142 Vide em anexo X


143 Vide em anexo L

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Curso de Geral de Educação


Familiar
1º ano 1 2
2º ano 3
Estagiária final 1 1
Curso Normal de Educação
Familiar
Ano único 2 2 2
Estágio final 4 2
Curso de donas de casa 17 13
Alunas ouvintes 5
Total 69 76 82 82
Fonte: Elaborado a partir (Instituto de Serviço Social, 1949 b, p. 2)144 (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 1)145 (Instituto de Serviço
Social, 1952b, p. 3,4)146 e (Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 5,6)147

Os diferentes relatórios de atividade dão-nos conta de que diversas alunas


interrompem os seus estudos ou por que desistem do próprio curso. Algumas das
alunas interrompem os seus estudos por se dedicaram ao Trabalho Social efetivo ou
por razões familiares, outras, ainda, desistem do curso optando algumas pela missão
de serem mães de família, razão pela qual algumas alunas não chegam à frequência
do respetivo estágio. Os valores apresentados indicam, ainda, uma fraca frequência
tanto para o Curso Geral como Normal de Educação Familiar ao contrário do curso de
Donas de Casa que ainda permanecia com relativa solidez no projeto educativo do
Instituto de Serviço Social.

O relatório de atividades do Instituto de Serviço Social dos anos seguintes de 1955 e


de 1956, elaborado em 1957 dá conta que no ano letivo de 1954/55 já se encontram
14 alunas a frequentar o 4º ano do curso de Serviço Social, dando já sinais da
alteração do novo plano de estudo aprovado pelo Decreto-lei nº 40 678 de 10 de Julho
de 1956148. Este relatório dá conta de cinco alunos ouvintes dois dos quais rapazes
(Instituto de Serviço Social, 1957a, p. 10)149

144 Vide em anexo X


145 Vide em anexo Y
146 Vide em anexo AB
147 Vide em anexo AI
148 Vide em anexo AP
149 Vide em anexo AS

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5. INSTITUTO DE SERVIÇO SOCIAL: A DINÂMICA DA SUA ATIVIDADE

Instituto de Serviço Social tem as suas origens ligadas à própria transformação social
do século XX, manifestamente com o objetivo de corresponder a necessidades de
formação profissional das assistentes sociais exigida pela criação de múltiplas
organizações de caráter social, à semelhança do que acontecia nas obras congéneres
de outros países. A organização moderna da sociedade criava em todo o mundo
circunstâncias sociais novas que surgiam das necessidades impossíveis de satisfazer
na sua plenitude pelos métodos de educação e do bem-estar mais antigos.

Na tentativa de representar um papel educativo na sociedade portuguesa o Instituto de


Serviço Social pretendia cumprir, de acordo com os seus relatórios de atividade, um
projeto educativo que envolvesse um tríplice função, isto é, escolar, cultural e de
atuação social direta. Escolar, pela formação de trabalhadores sociais, cultural como
centro de documentação e de difusão de princípios sociais e de atuação social direta
através da ação do Centro Social. Esta representação modelar das funções a
desempenhar pelo Instituo de Serviço Social revelam uma forte articulação com as
circunstâncias sociais da sociedade portuguesa determinando uma atividade e prática
educativa dinâmica própria que em seguida se apresenta.

5.1. A FUNÇÃO ESCOLAR DE ENSINO

De acordo com Maria Carlota Lobato Guerra, o Instituto tem as suas origens ligadas à
própria transformação social do século XX, manifestamente com o objetivo de
corresponder a necessidades de formação profissional das assistentes sociais exigida
pela criação de múltiplas organizações de caráter social, à semelhança do que
acontecia nas obras congéneres de outros países (Instituto de Serviço Social, 1957a,
p.2)150. A organização moderna da sociedade criava em todo o mundo circunstâncias
sociais novas que surgiam das necessidades impossíveis de satisfazer na sua
plenitude pelos métodos de educação e da forma bem-estar mais antigos.

A situação do país também assim o exigia, afirma Guerra (Instituto de Serviço Social,
1957a, p. 2)151. Se nos meios rurais e de província a ação de amparo, guia e estímulo
era exercida por um sistema patriarcal do “serviço do povo”, isto é, pelas melhores
famílias que iam sendo cada vez menos, nas cidades, onde o desenvolvimento tinha

150 Vide em anexo AS


151 Vide em anexo AS

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 215


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

ocorrido demasiado rápido, não havia organizações que satisfizessem as


necessidades crescentes dos mais desprotegidos que a todo o momento chegavam às
precárias condições sociais. A evolução social colocava em evidência as insuficiências
ou mesmo impossibilidades da beneficência tradicional.

Para o Professor Barahona Fernandes152, em 1941, sob pena dos mais graves
malefícios, o papel dos assistentes sociais e educadores familiares seria fundamental,
sendo que as suas funções tão variadas e complexas não se podem improvisar. Estas
requerem uma longa e vasta preparação de matérias de Medicina, Higiene, Psicologia,
Economia, Sociologia e muitas outras que constam no programa do curso do Instituto
de Serviço Social. Mas saber formar uma assistente social não basta é necessária
uma “verdadeira vocação humanitária, um entusiasmo ardente e dedicação extremada
à causa dos desprotegidos e desfortunados” (Fernandes, 1941, p. 10)153. Em seu
entender, esta profissão, especificamente feminina e integrada na orgânica social
moderna, nada deve ter de mercenária ou burocrática mas ser assente num real
apostolado de ação caritativa e humanitária, organizada e inteligente que a torna numa
profissão livre, plena de nobreza e elevação moral.

O aperfeiçoamento geral do curso é tema eleito pelo relatório de 1947, que assinala
ter sido decidido na Assembleia Geral da Associação de Serviço Social de 1946
constituir-se um “Conselho Pedagógico formado por professores dos vários sectores
do ensino ministrado no Instituto de Serviço Social” tendo-se até essa data (1947)
reunido três vezes “para apreciação de diversos assuntos, nomeadamente das
condições de admissão do ISS, tendo-se verificado já ser muito proveitosa a sua
acção” (Instituto de Serviço Social, 1948a, 3)154.

As questões de admissão, determinadas pela imposição da sua remodelação em


ordem à recente reforma do ensino secundário estão assim na origem da criação
deste órgão pedagógico. Segundo explica este relatório, terá ficado facilitada a

152 Dr. Henrique João de Barahona Fernandes (1930-1946) – manteve a regência, iniciada em 1937, do
curso de Higiene Mental do Instituto de Serviço Social, com trabalhos práticos na consulta externa e
elaboração de inquéritos sociais. Segundo refere o seu III Curriculum Vitae (Fernandes, 1946) foi a partir
do trabalho de instrução das assistentes sociais e de ação social psiquiátrica, feito em conjunto com a
higiene mental infantil, sob a direção do Prof. Vitor Fontes, que se tornou possível a criação do primeiro
dispensário de Higiene Mental, em 1942, no Hospital de Júlio de Matos e concomitantemente se
formaram as primeiras assistentes sociais que começaram a trabalhar neste campo. Constata que a
experiência dos três primeiros anos de atividade veio demonstrar a viabilidade deste processo dando
bases para a diferenciação, promulgada pela reorganização da assistência psiquiátrica dos dispensários
de Profilaxia e Higiene Mental, anexos aos Centros de Assistência Psiquiátrica.
153 Vide em anexo G
154 Vide em anexo R

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 216


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

entrada neste estabelecimento de ensino, visto ter sido alargada a isenção de exame
a todas as candidatas que possuam o curso completo dos liceus, o curso de
professora primária ou equivalente. O exame de admissão constituíra-se apenas
obrigatório ”[…] para as candidatas com cultura equivalente ao 3º ciclo do curso liceal”
(Instituto de Serviço Social, 1948a, p. 3)155.

Estas novas alterações nas condições de admissão não puderam ser adaptadas de
imediato já que dependiam de alterações a realizar ao Decreto-lei inicial 30 135 de 14
de Dezembro de 1939 e relativo, como já se referiu, ao reconhecimento oficial do
curso, o que terá obrigado a enfrentar algumas medidas de natureza pedagógica.

Seguindo a redação do Art.º. 7º deste Decreto-lei inicial (Decreto Lei 30 135 de 14 de


Dezembro de 1939)156 teriam de prestar provas de admissão todas as candidatas que
possuíssem a “habilitação do 2º ciclo liceal ou equivalente e tenham a idade não
inferior a dezoito nem inferior a trinta anos” em complementaridade “a habilitação do
curso liceal constitui motivo de preferência em igualdade de circunstâncias”. De acordo
com o Art.º 8º deste mesmo diploma o aproveitamento resultante da avaliação destas
provas de admissão é da responsabilidade de júri de exame, julgando-se ser estes os
assuntos que obrigam a criar, em 1947, o referido conselho pedagógico. Por outro
lado, a concessão dos diplomas finais de curso, ainda de acordo com o Art.º 8ª,
dependeria também da prestação de provas perante um júri único, mas agora
composto por “três a cinco membros, nomeado pelo Ministro da Educação Nacional,
com intervenção de professores do Instituto e uma delegada da Obra das Mães pela
Educação Nacional”.

O referido relatório de 1947 reflete, ainda, sobre a diminuição do número de


candidatas inscritas nesse ano letivo 1947/48 admitindo que o facto de não se ter
utilizado os meios de propaganda, “tais como as habituais reuniões nos colégios e nos
liceus em parte pela falta de tempo com que lutam os membros da Direcção do I.S.S.”
(Instituto de Serviço Social, 1948a, p. 5)157 terá influído negativamente. Outro aspeto,
que indiretamente terá também influenciado o número de inscrições no Instituto de
Serviço Social, foi a fixação das condições de concessão das bolsas de estudo tendo
sido concedidas esse ano apesar de tudo, 6 bolsas e 7 subsídios.

155 Vide em anexo R


156 Vide em anexo E
157 Vide em anexo R

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 217


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No entanto, é em 1948, segundo reporta o relatório desse ano (Instituto de Serviço


Social, 1949a, p. 1)158, que o Ministério da Educação Nacional publica o Decreto-Lei nº
36 914 de 14 de junho159 que em harmonia com a referida reforma do ensino, regula a
admissão ao curso de Serviço Social e a duração do mesmo. Segundo este mesmo
relatório a publicação deste decreto realizou-se a pedido do Instituto, incluindo as
sugestões tanto do Instituto de Lisboa como a Escola de Coimbra, sendo que a este
propósito “No princípio do ano fôra a Coimbra uma monitora do I.S.S. para trocar
impressões com a Direcção da Escola Normal Social [...] para que houvesse perfeito
acôrdo entre as duas escolas “ (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 1)160.

As relações com a Escola Normal Social de Coimbra intensificaram-se nesse ano,


sendo organizadas visitas conjuntas das alunas proporcionando espaços e momentos
de confraternização

[…] primeiro pela já citada troca de impressões entre a sua Direcção e uma das
monitoras do I.S.S. acerca da desejada alteração do decreto-lei que oficializou o cursos
e as duas escolas, e depois pela vinda a Lisboa da Direcção e alunas da Escola
Normal Social” (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 4)161.

Em 1949, Maria Carlota Lobato Guerra insiste na necessidade de colaboração e no


debate do tema por parte dos Professores do Conselho Pedagógico para se conseguir
mais e melhores alunas já que em sua leitura

[…] não pode separar-se o problema da selecção das candidatas do problema do


aumento da frequência escolar, não só porque os cursos excessivamente numerosos
são mais difíceis de formar, mas também porque causam maior perturbação nos
serviços [...] Isto torna, pois, aconselhável que uma seleção criteriosa assegure, tanto
quanto possível, um melhor rendimento do ensino nos vários anos do curso”
(Associação de Serviço Social, 1949, p. 6) 162.

O aperfeiçoamento do ensino em Serviço Social é entendido, pela direção do Instituto


nos relatórios anuais (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 4)163 e confirmado pela ata
da Associação de Serviço Social (Associação de Serviço Social, 1949, p. 6)164 no
sentido de acentuar o caráter prático do ensino. Inclusivamente, nesta última, acentua-
se “mais uma vez na necessidade de se evitar sempre tudo quanto possa levar a um
ensino demasiado teórico, a uma excessiva preparação técnica em detrimento do

158 Vide em anexo V


159 Vide em anexo U
160 Vide em anexo V
161 Vide em anexo V
162 Vide em anexo W
163 Vide em anexo V
164 Vide em anexo W

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 218


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

espírito a incutir, concordando todos os presentes na grande utilidade formativa do


trabalho das alunas nos Centros Sociais e na necessidade, portanto, de o intensificar”
(1949, p.6)

Ainda, a este propósito, registou-se em ata da Assembleia da Associação de Serviço


Social do ano de 1948, a leitura de uma carta do Comité Nacional de Serviço Social
francês dirigida à Direção do Instituto, na qual se pedem informações sobre a
possibilidade de assistentes sociais francesas virem trabalhar para Portugal e em
concreto a análise realizada, inteiramente, pelos presentes resulta em que, “Já há
anos, elementos da colónia francesa em Lisboa tinham manifestado, embora menos
concretamente, desejo semelhante. Agora, dada a crise de trabalho, verificada em
França para as assistentes sociais, que sendo hoje muitas vezes inferiores ao escol
dos primeiros tempos em virtude de uma admissão sem escolha e de uma formação
encurtada e deficiente, não são bem recebidas em muitos meios, parece provável que
muitas tentem vir para países onde, como o nosso, a profissão não está ainda
desenvolvida. Focou-se o grave inconveniente que este facto poderá constituir tanto
mais que, forçosamente não serão as trabalhadoras sociais de real valor que quererão
abandonar a França neste momento.” (Associação de Serviço Social, 1948, p. 4)165

Estes fatos denunciam a intenção séria em assumir a questão da admissão das alunas
bem como o aperfeiçoamento do ensino, como duas variáveis centrais neste projeto
educativo.

Outra ameaça é identificada pela então diretora do Instituto, em 1948 (Dr.ª Custódia
do Vale). Uma vez que se estariam a fundar em vários pontos do país, escolas de
auxiliares sociais anexas a escolas de enfermeiras ou independentes, como seja, em
Castelo Branco, Coimbra, dentro em breve será tarde de mais para obter uma “boa
planificação do trabalho social “.A direção insiste que a solução apontaria para a
implementação do projetado Comité ou Comissão Nacional de Serviço Social, cujas
funções poderiam compreender ou efectivar tal planificação, no entanto alguns dos
membros da Associação consideram o assunto melindroso e delicado pois, se são
conhecidas as vantagens e as possibilidades os

[...] inconvenientes poderiam também ser reais caso esta não tivesse uma composição
equilibrada e neutral, com representação doseada das diferentes actividades e

165 Vide em anexo S

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 219


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

interesses principais que com o Serviço Social se relacionam” (Associação de Serviço


Social, 1948, p. 5)166.

Entende-se, ainda, da leitura da ata da Assembleia da Associação de Serviço Social


de 1948 que as pressões para criação do referido Comité partem de outros países
estrangeiros. A criação de um órgão regulador supra institucional parece pautar as
preocupações da direção do Instituto neste ano de 1948.

Mais tarde em 1952, outra ideia considerada de grande interesse para este projeto
educativo foi proposta pelo professor Sousa da Câmara, e que defendia “que se
criasse um corpo de estudiosas que no Centro de Estudos do Instituto de Serviço
Social, se dedicasse a fazer os trabalhos pedidos, a aprofundar a técnica do Serviço
Social, e a servir de agentes de ligação que amparassem as “antigas” nos vários
sectores de trabalho onde pelo país fora se encontram, treinando-se, assim, para a
sua futura missão de professoras e monitoras do I.S.S.” (Associação de Serviço
Social, 1952, p. 3)167. Estes “trabalhos pedidos” como veremos mais adiante, são
trabalhos solicitados por variadas organizações sociais ao Instituto de Serviço Social
por se considerar existir aí os profissionais especializados em Trabalho Social. Ora,
esta proposta defende ao que se julga, a complementaridade do projeto educativo ou
seja a ideia de que a escola é produtora de profissionais especializados no Trabalho
Social para atuar na sociedade no entanto a formação e o treino dos professores e
monitores não pode estar desconectada dessa realidade social e é ela mesma que
terá um papel de moldar a formação dos próprios profissionais

5.2. A FUNÇÃO DE APOIO DOCUMENTAL, DE CULTURA SOCIAL E


DIFUSÃO DE PRINCÍPIOS SOCIAIS

Cumprindo pois de apoio documental, o projeto educativo do Instituto de Serviço


Social integrava uma biblioteca e um centro de documentação, considera o relatório do
Instituto de Serviço Social de 1947, que este campo tem sido o menos importante não
tanto por se julgar menos necessário o seu esforço neste setor mas, sobretudo, pela
falta de meios de atuação indispensáveis.

Decorrente da análise do arquivo fotográfico do atual Instituto Superior de Serviço


Social de Lisboa e, em concreto, pelo documento iconográfico que em seguida se

166 Vide em anexo S


167 Vide em anexo AC

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 220


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

apresenta, podemos concluir da existência, já no ano letivo 1943/ 1944, de uma


biblioteca ao serviço das alunas.

Ilustração 16 - Alunas na Biblioteca do Instituto de Serviço Social (1943-1944). S/ Autor. Arquivo do Instituto Superior de
Serviço Social de Lisboa

Paralelamente às atividades já desenvolvidas iniciou-se em Outubro de 1947 (Instituto


de Serviço Social, 1948a, p.12)168 a organização de uma biblioteca no centro social,
permitindo o empréstimo de livros para casa contando esse ano com a inscrição de 80
leitores. Em 1949 é assinalado um nítido progresso, neste campo “A documentação
tem-se enriquecido e parece aumentar o interesse das alunas pela leitura” (Instituto de
Serviço Social, 1949b, p. 7)169

Em 1955, em ata da Assembleia de Serviço Social, o professor Marcelo Caetano dá


conta da atividade do Centro de Estudos Sociológicos e de dificuldades surgidas,
sobretudo, para a obtenção dos fundos necessários (Associação de Serviço Social,
1955a, p. 2)170. De realçar, alguma abertura a esta área disciplinar não deixando, no
entanto, de ser curioso o facto de ser o próprio Prof. Marcelo Caetano a controlar a
sua atividade. Maria Carlota Guerra em reunião do Conselho de Direção e de

168 Vide em anexo R


169 Vide em anexo X
170 Vide em anexo AM

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 221


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Administração Associação de Serviço Social de 1955, refere-se ao primeiro ano de


existência deste centro, apresentando “[…] dificuldades de toda a ordem que se têm
encontrado para o seu desenvolvimento: falta de técnicos, de fundos, etc., o que faz,
disse, se esteja a perder um tempo precioso” (Associação de Serviço Social, 1955b, p.
1)171

Frequentemente, eram solicitados, ao Instituto de Serviço Social elementos e


pareceres de especialidade sobre Trabalho Social no sentido de fundamentar estudos
de caráter social, documentação especializada sobre problemas de educação,
trabalho e assistência, entre outras, e solicitadas colaborações em revistas ou jornais
sendo, contudo, difícil corresponder, como relata este relatório, visto a direção não
dispor de “tempo indispensável a tais actividades” (Instituto de Serviço Social, 1948a,
p. 6)172.

Estes pedidos dão corpo a atividade do que foi constituído como Centro de Estudos do
Instituto. Na tabela 15, que se segue, poderemos consultar a natureza dos pedidos
efetuados, são eles:

Tabela 15 - Pedidos de Trabalho Social realizados ao Instituto de Serviço Social nos anos de 1944, 1947, 1949 e 1953

Ano Instituições ou Serviços Natureza do Pedido

Fábricas de Penteação de Lãs em Alhandra,


Fabrica de Fiação e tecidos de Torres Pedidos de planos de organização do Serviço
Vedras, Fábrica da SACOR, Fábrica da Social na Fábricas
CUF, no Barreiro e Fábrica da Vista Alegre
Antigo Bairro da Minhocas (800 inquéritos
individuais e familiares aos moradores.
Criação do Serviço Social quando da
1944 mudança para o novo bairro da Quinta da
Pedidos de planos de reorganização social
Calçada
Do Posto de Proteção à Infância de Évora e
da Obra de St. Zita educação profissional e
moral das criadas de servir
Dos Centros Sociais e familiares da Obra
das Mães pela Educação Nacional da obra Pedidos de planos de organização
do Ardina, duma obra Paroquial de proteção

171 Vide em anexo AN


172 Vide em anexo R

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 222


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

à Infância no Tramagal, de um Centro


Familiar para o Bairro da Penha de França

Vila de Gouveia e às suas indústrias (pedido


de industriais), ao meio operário de Portimão
e Lagos (pedido do grémio das conservas de
peixe do Barlavento), à cidade de Portalegre
(pedido do Governador civil) à cidade de Pedidos de Inquéritos Sociais a diversos meios,
Santarém (pedido do fundador de uma obra com planos de reorganização da Assistência e
de centralização assistencial) à Estância criação do Serviço Social
Climatérica da Parede, visando a
recuperação social do tuberculosos Óssea,
Ilha da Madeira (pedido da Junta Geral do
Distrito do Funchal),
Centros Sociais e Colónias de Férias da
Orientação para a criação de diversas obra
Misericórdia de Lisboa
Congresso da União Nacional Elementos fornecidos para orientação dos
trabalhos e relatórios
Serviço Social de Emigrantes de Paris Colaboração para casos diversos
Instituto Português de Oncologia Plano e orçamento para organização do Serviço
Social
Governador Civil de Santarém Inquérito às origens da prostituição em Santarém
e estudo dos meios de a combater
1947 Programa e outros elementos para a organização
de uma escola de Serviço Social no Porto
Obra das Mães pela Educação Nacional Colaboração para a organização de uma escola
de auxiliares rurais
Subsecretário de Estado das Corporações e Colaboração para a organização de uma escola
Previdência Social de auxiliares rurais
Comissão Nacional da F.A.O. Convite para tomar parte pela secção do Bem-
1949
Estar Rural, nas reuniões de Lisboa
Comissão de Cooperação Técnica na Africa Colaboração nas reuniões preparatórias da sua
ao Sul do Sahará reunião sobre Bem- Estar Rural, a realizar em
Lourenço Marques em setembro de 1953
União Internacional dos Organismos Colaboração no concurso por ocasião da
1953
Familiares conferência efetuada em Lisboa em setembro de
1953 (auxílio na organização de reuniões prévias,
na apresentação de trabalhos escritos e em
intervenções nos diferentes debates)
Fonte: Elaborado a partir de Relatórios de atividade (Instituto de Serviço Social, 1944b, anexo XIII [fls. 1,2])173, (Instituto de Serviço
Social, 1948a, p. 10)174 (Instituto e Serviço Social, 1949b, p. 7)175 e (Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 5)176

173 Vide em anexo L


174 Vide em anexo R
175 Vide em anexo X

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 223


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Num olhar atento sobre os pedidos de Trabalho Social que foram dirigidos ao Instituto
de Serviço Social no período em análise, poderemos concluir o peso significativo das
solicitações provenientes do setor fabril e de bairros operários e no reforço da
atividade social nos organismos corporativos. São solicitações que respeitam, tal como
se pode verificar, a colaborações no domínio da organização e reorganização do
Serviço Social ou da ação social desenvolvida no sentido de harmonizar as relações
sociais na empresa e de assistência ao trabalhador e à sua família. As solicitações nos
últimos anos representados na tabela respeitam à cooperação com serviços de
assistência e organismos de expressão internacional como seja a FAO (Food and
Agriculture Organization of the United Nations), Comissão de Cooperação Técnica da
Africa ao Sul do Sahará e a União Internacional dos Organismos Familiares.

Ainda, nesta área, poderemos ainda encarar o esforço realizado em 1947 por algumas
assistentes sociais e educadoras familiares em realizar resumos de artigos publicados
com o objetivo de “tirar o máximo rendimento e ainda manter as trabalhadoras sociais
ao corrente dos problemas de carater social e educativo que se debatem
presentemente no nosso país e no estrangeiro” (Instituto de Serviço Social, 1948, p. 6)
atividade que denominou a “Revista das Revistas”177. Regista-se esta atividade até
pelo menos 1954, mantendo-se com a colaboração das “Trabalhadoras Sociais da
Casa e as Estagiárias Finais” (Instituto de Serviço Social, 1955, p. 7)178.

Em harmonia com o projeto educativo, uma das preocupações do Instituto incidia


sobre a propaganda dos seus cursos e, sobretudo, em obter os meios necessários à
progressão deste empreendimento.

Inicialmente (1944) as ações de propaganda realizar-se-iam através de conferências e


reuniões no próprio Instituto de Serviço Social seguidas de apresentação de trabalhos
práticos destinados por exemplo a dirigentes da Organização das Mães pela
Educação Nacional, Liga da Ação Católica Feminina, Juventude Independente

176 Vide em anexo AI


177 Assinala-se a este propósito a interessante ligação com a Revista intitulada “Intervenção Social”
editada pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, que faz sair em 1985 o nº 1 desta publicação
por ocasião da celebração dos seus 50 anos. Esta revista, atualmente, ainda é publicada por este Instituto
e constituiu-se como obra incontornável na área das Ciências Sociais, especializada em Politicas Sociais
e Serviço Social.
178 Vide em anexo AL

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 224


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Católica Feminina e alunas de vários colégios de religiosas entre eles o Instituto de


Odivelas (Associação de Serviço Social, 1944, p. 2)179.

Na exposição acerca do Instituto entregue ao Ministro de Educação Nacional, do


mesmo ano, assinala-se a propaganda dos princípios sociais e cristãos respondendo
positivamente a pedidos de reuniões de estudo, palestras, conferências e trabalhos
efetuados por “ [...] Dirigentes das várias organizações da Acção Católica Portuguesa,
Noelistas de Lisboa e Porto, Liga de Profilaxia Social, cidade de Beja, Guias de
Portugal, etc. “ (Instituto de Serviço Social, 1944b anexo XIV)180. A este nível de
propaganda, e este mesmo documento refere, ainda, a participação ativa no I
Congresso Nacional das Ciências Agrárias onde se apresentou um relatório sobre as
“Indústrias Caseiras – seu valor económico e social” e a, admissão da Direção do
Instituto de Serviço Social no II Congresso da União Nacional com participação na
discussão de teses bem como a cedência a vários pedidos de colaboração para vários
jornais, como por exemplo: “Voz”, “ Diário do Minho” e revistas “ Os nossos filhos e “
Renascença”.

No seu relatório de 1947181 (Instituto de Serviço Social, 1948a, p. 4,5) assiste-se à


necessidade de produzir novos folhetos no sentido de aceitar a oferta do
Subsecretário das Corporações e Previdência Social e através dele efetuar
propaganda pelos organismos corporativos. O relatório de 1948, refere-se já à
distribuição de “20.000 mil exemplares” (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 1)182
mas

[...] embora mandado sistematicamente a todas as autarquias locais, Subdelegados de


Saúde, Provedores das Misericórdias, Reitores dos liceus, Diretores de escolas,
Prelados e Párocos das sedes de concelho, a quási todos os organismos corporativos,
Técnicos agrícolas, Dirigentes da Ação Católica, e a muitos Professores primários, não
ocasionou, que nos conste, aquele despertar de interesse que se esperava (Instituto de
Serviço Social, 1949a, p. 5)183.

Maria Carlota Lobato Guerra em 1952, insiste que a carência de Trabalhadoras


Sociais e a falta das instituições necessárias ao País, radica na falta de propaganda
da ideia em muitos meios e na, acanhada situação económica da maioria dos

179 Vide em anexo K


180 Vide em anexo L
181 Vide em anexo R
182 Vide em anexo V
183 Vide em anexo V

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 225


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

organismos que poderiam recorrer a esta forma de ação (Instituto de Serviço Social,
1953, p. 1)184

5.3. O CAMPO DE ATUAÇÃO SOCIAL DIRETA

Do cruzamento dos diferentes relatórios de atividade do Instituto e da sua análise, foi


possível configurar o que este define e caracteriza como “Campo da Actuação Social
Directa”. Neste domínio, o Instituto engloba os pedidos que lhe são dirigidos de
Trabalho Social, o Centro Social e ainda o Lar para as alunas 185.

O relatório de 1947 coloca em relevo a atividade do Centro Social concluindo que


“Como meio de actuação social directa é, sem dúvida, o Centro Social aquele que
mais avulta de entre as múltiplas actividades do I.S.S.” (Instituto de Serviço Social,
1948a, p.10)186.

Funcionando em espaço anexo à sede da Associação do Instituto de Serviço Social e


iniciado por duas professoras do ensino familiar e doméstico responsáveis pelos
cursos práticos e teóricos da Juventude Operária Católica Feminina (J.O.C.F), o
Centro Social da Bempostinha constituía, por um lado, local de estágio para as alunas
e, por outro, servia a população das freguesias dos Anjos e da Pena.

184 Vide em anexo AE


185 Sobre este tema foi localizado um documento manuscrito anónimo, s/data que reporta aos resultados
do 1º ano de ação prática do Instituto de Serviço Social e que apesar das inerentes dificuldades de
interpretação se anexa à presente pesquisa. Vide em anexo D
186 Vide em anexo R

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 226


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 17 – Educadora familiar Lucinda Abrantes (em pé, ao lado da máquina de costura numa consulta no Centro Social. S/
Autor. Arquivo do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa

O relatório, do ano de 1950, refere que o Centro Social da Bempostinha, o mais antigo
contava já “ [...] com os seus 8 anos de trabalho [...] notando-se melhoria crescente
nas suas actividades e aspirações” (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 5)187

Em seguida, apresentam-se os dados recolhidos respeitantes às atividades


desenvolvidas pelos Centros Sociais do Instituto de Serviço Social nos anos de 1943,
147, 1948 e 1949. Estes dados assim apresentados permitem de forma comparada
entender a sua evolução ao longo do período em análise

Tabela 16 - Atividades desenvolvidas nos Centros Sociais do Instituto de Serviço Social nos anos de 1943, 1947, 1948 e 1949

Anos 1943 1947 1948 1949


Atividades desenvolvidas
Pessoas atendidas, casos sociais atendidos 821 2 901 3 204 4053
Visitas 1 154 1 172 1208
Visitas a doentes 12

187 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 227


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Visitas a famílias e diligências para solução de


655
casos
Visitas a obras da freguesia 17
Diligências diversas 1343 1534 1684
Reuniões de colaboração com obras da freguesia 16 6 20
Subsídios mensais 24 20 15 49
Subsídios em géneros 3
Auxílios extraordinários 21 29 51
Pequenos auxílios dados pelo Centro 169 193 171
Empréstimos 3 21 62
Internamentos 107 13 11
Roupas 23 93
Auxílios diversos 38 112
Colocações 3 12 27 16
Internamentos 7
Reuniões familiares 2
Excursões 5
Cursos de educação familiar 72

Fonte: Elaborado a partir de Relatórios e Atividades (Associação de Serviço Social, 1944, p. 2)188, (Instituto de Serviço Social, 1948a,
p.11 )189, (Instituto de Serviço Social, 1949b, p. 8, 9)190, (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 9)191

O aspeto mais determinante desta tabela nº 16 prende-se com o número crescente de


pessoas ou casos sociais atendidos ao longo do período em análise, colocando-se em
evidência o exercício das trabalhadoras sociais envolvidas e o impacto na cobertura
realizada junto da população local. Pensa-se ser igualmente digno de nota, o volume
dos apoios prestados, dos recursos administrados seja de natureza material seja
financeira e das diligências efetuadas.

Do pronto de vista do exercício da atividade profissional parece ser importante realçar


o rigor do registo das diferentes ocorrências permitindo, também, aos próprios avaliar
a ação desenvolvida e é claro dar conta do desempenho profissional. Neste exercício
poderemos verificar como a ação profissional se sustenta numa posição ativa
envolvendo visitação a doentes, visitas domiciliárias a casos sociais, obras da
freguesia entre outras.

188 Vide em anexo K


189 Vide em anexo R
190 Vide em anexo V
191 Vide em anexo X

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 228


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

O Centro Social desenvolvia, em paralelo, atividades educativas dirigidas a raparigas e


a rapazes bem como a mães, sendo que a título de exemplo no quadro apresentado
no relatório de atividades do ano de 1948 (Instituto de Serviço Social, 1949, p. 9)192
podemos verificar que as raparigas eram divididas por cinco grupos envolvendo as
seguintes atividades: ensino primário e formação doméstica; formação doméstica para
raparigas até 14 anos; formação doméstica para raparigas dos 15 anos em diante;
curso de corte; raparigas com certo grau de atraso mental. As atividades para rapazes
eram também divididas em cinco grupos: sala de estudo para 1ª e 2ª classe; sala de
estudo para a 3ª e 4ª classe; férias; rapazes que concluíram a 4ª classe e frequentam
a escola técnica ou se encontram empregados; rapazes acima dos 16 anos,
estudantes, empregados e operários. Para as mães, eram desenvolvidas consultas
familiares. A fotografia que se apresenta em seguida ilustra esta última atividade

192 Vide em anexo V

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 229


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ilustração 18 – Assistente Social Maria das Neves Fernandes Duarte recebendo a Sr.ª Maria Morais na sala do Centro Social
(1944-1945). S/ autor. Arquivo do Instituto de Superior de Serviço Social de Lisboa

Em regime de colaboração, contava-se ainda com estudantes de Medicina e Letras


que se prontificavam a esclarecer dúvidas dos rapazes que frequentavam as escolas
técnicas e, o relatório desse ano aponta para o facto de que “ O Centro foi, na medida
das suas possibilidades, uma casa sempre acolhedora e viu com alegria, não só
aumentar o número de pessoas que recorrem ao seu conselho, mas estabeleceram-se
laços de amizade entre famílias que o frequentam (Instituto de Serviço Social, 1949, p.
10)193.

O relatório de atividade do Instituto de Serviço Social do ano de 1949, reporta a


impossibilidade de todos os estágios finais desse ano se realizarem no Centro Social
sendo necessário solicitar a outros Centros Sociais e designadamente às respetivas
assistentes sociais para recebem algumas alunas. Neste relatório, denota-se um
reforço expresso para um ensino ligado à prática e em concreto à atividade dos
Centros Sociais, sendo claro que era intenção do Instituto assegurar o estágio final às
alunas através do seu Centro Social criado, efetivamente, com essa intenção. A sua
diretora interina, Maria Carlota Lobato Guerra refere que

“Devo porém frisar que, apesar da boa vontade de todos os vários serviços que
acolhem as nossas estagiárias, a Direcção do Instituto de Serviço Social voltou a sentir
este ano ainda com maior acuidade o inconveniente dos estágios finais não se
efectuarem sempre em serviços nossos e sob orientação das monitoras da casa, o que
veio reforçar mais ainda a necessidade da creação do novo Centro Social do Instituto
de Serviço Social [...] ” (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 3)

Precisamente, após oito anos de trabalho do Centro Social da Bempostinha “ [...]


inicia-se o trabalho do 2º Centro Social do Instituto, o do Beato, instalado em plena
zona operária194 “ (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 6). Efetivamente é referido em
ata da Assembleia da Associação de Serviço Social, desse mesmo ano, a criação de
uma Liga de Amigos do Novo Centro Social, sendo que face às dificuldades
financeiras do Instituto de Serviço Social “ [...] algumas fábricas e empresas locais,
estavam já contribuindo para o pagamento da renda da Casa do Centro do Beato, que
é elevada [...] ” (Associação de Serviço Social, 1951, p. 2)195.

193 Vide em anexo V


194 Refere ainda este documento situar-se na Calçada do Duque de Lafões, 78 no Beato numa antiga
cocheira que suportou obras de adaptação a Residência Social (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 6)
(anexo Y).
195 Vide em anexo Z

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 230


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Entende-se, da ata da Assembleia Geral da Associação de Serviço Social de 1953,


que a Direção Geral da Assistência terá solicitado a esta Associação a elaboração de
estatutos do Centro Social da Bempostinha, contudo, o prof. Macelo Caetano interveio
junto do Subsecretário da Assistência “ [...] para que o Centro da Bempostinha fosse
dispensado de elaborar estatutos próprios” […] tendo sido comunicado por despacho
de 29 de Fevereiro de 1952196 que “ fôra afinal entendido que o referido Centro devia
ser considerado como estabelecimento de assistência particular subordinado à tutela
da Direção Geral da Assistência, com autonomia administrativa, mas sem
personalidade jurídica própria, ficando assim dispensado de elaborar estatutos,
devendo, quando muito, organizar um regulamento a aprovar por aquela Direção Geral
(Associação de Serviço Social, 1953a, p. 1, 2)197

A obra iniciada nestes dois Centros Sociais do Instituto de Serviço Social era
completada por mais dois Centros Sociais, não pertencentes ao Instituto mas onde
trabalhavam monitoras e estagiárias, designadamente o Centro Social do Menino
Deus, pertença do Patriarcado de Lisboa e ocupado pelas Irmãs de São José de Cluny
(Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 8)198 e na Obra Social de Alfama, de iniciativa
paroquial, “onde as nossas Trabalhadoras Sociais atendem as famílias das duas
freguesias de Stº Estevão e de S. Miguel” (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 6)199.

No sentido de apresentar um panorama destes Centros Sociais, no ano de 1950,


apresenta-se de seguida na tabela 17, o movimento realizado:

Tabela 17 - Movimentos dos Centros Sociais no ano de 1950

Menino
Centros Sociais Bempostinha Beato Alfama
Deus

Famílias inscritas 1407 10 378 270


Pessoas atendidas nos Centros 5642 20 1542 818
Visitas às famílias 1774 83 649 695
Diligência para tratamento social dos casos 1701 85 789 366
Fonte: Elaborado a partir de (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 6)200

196 A ata sugere a leitura da correspondência entrada no I.S.S. a 5 de Março de 1952 e consultar o registo
de correspondência J/439
3
197 Vide em anexo AF
198 Vide em anexo AI
199 Vide em anexo Y
200 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 231


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Pela análise da tabela 17, se compreende a forte atividade social realizada por estes
Centros Sociais, sobretudo o Centro Social da Bempostinha que, tendo realizado a
sua abertura quase em simultâneo ao Instituto de Serviço Social, contava, em 1950,
com aproximadamente 15 anos de atividade. As respostas sociais dirigidas à
comunidade, a avaliar pelo número de registos apresentados, denunciam um impacto
considerável para as comunidades onde se encontram integradas, dando corpo ao
projeto educativo do Instituto de Serviço Social enquanto estrutura de ensino prático
com implantação no território e de atividade direcionada para a intervenção
comunitária.

Com base neste mesmo ano de referência, as atividades educativas no Centro Social
da Bempostinha contaram com a presença de 1 309 presenças de raparigas e 15 603
de rapazes “ [...] são os novos os grandes obreiros da educação da massa pela
colaboração inteligente e entusiasta sempre prestada aos Trabalhadores Sociais do
Centro” (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 6)201.

No relatório de atividades de 1952, apresenta-se o Centro Social do Menino Deus


como Centro Social do Instituto bem como se dá conta da sua atividade

“Apezar da dificuldade de reduzir a números actividades cujo valor está apenas no


espírito que as anima, procurarei pela apresentação de alguns dados estatísticos dar
uma leve ideia do trabalho realizado no ano findo nos 3 Centros Sociais do I.S.S.”
(Instituto de Serviço Social, 1953, p. 6)202.

Em 1952, apresentação dos dados estatísticos relativos aos movimentos desses três
Centros Sociais foram reunidos na tabela 18 os seguintes:

Tabela 18 - Movimentos dos Centros Sociais do Instituto de Serviço Social, no ano de 1952

Centros Sociais Bempostinha Beato Menino Deus Total

1952 1953 1952 1953 1952 1953 1952 1953


Famílias inscritas 1779 1922 413 525 649 718 2841 3165
Pessoas atendidas 6845 5394 1289 1777 1849 1800 9983 8971
Visitas às famílias 2800 1477 559 1410 970 639 4329 3526
Outras diligências
para tratamento 5222 1608 957 525 1228 647 7407 2780
social dos casos

201 Vide em anexo Y


202 Vide em anexo AE

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 232


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Presença de
11821 10 397 703 214 - - 12524 10611
rapazes
Presença de
3957 3241 107 8300 - - 4064 11541
raparigas
Movimento de
livros nas 1645 1245 115 98 - 1760 1343
bibliotecas
Fonte: Elaborado a partir dos Relatórios de atividade dos anos de 1952 e 1953 respetivamente (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 7)203
(Instituto de Serviço Social, 1954a, p.9)204

Coloca-se como digno de menção o rigor no registo de dados permitindo, na


atualidade a elaboração da tabela que agora se apresenta e que dá conta do
movimento registado nestes Centros Sociais em análise. Se o atendimento e a visita à
famílias ocupava uma parte central da ação desencadeada pelos Centros, chama-se
especial atenção para a presença do jovens (rapazes e raparigas) denunciando uma
forte vertente de caráter educacional e de apoio aos mais jovens.

A diretora do Instituto acrescenta, que todos os Centros Sociais gozavam de muito


prestígio, sobretudo o da Bempostinha, que merecia o entusiasmo das novas
diplomadas, apresentando-se como “verdadeiro Centro piloto, visitado assiduamente
e, se não muitas vezes imitado, dadas as dificuldades de realização, pelo menos
considerado modelo” (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 6)205.

O sentido do alargamento destes Centros Sociais, não se circunscrevendo apenas às


atividades desenvolvidas, é registado no relatório de atividade de 1953, dando este
conta do Centro Social do Menino Deus poder “ [...] finalmente destacar uma
assistente social em “full time”, o que permitiu aprofundar o trabalho e desenvolver
todas as atividades” (Instituto de Serviço Social, 1954, p. 8)206 e, ainda, de surgirem os
primeiros colaboradores. No que respeita ao Centro do Beato, o alargamento fez-se
sentir na ampliação das instalações

[...] pelo aluguer de uma loja situada por baixo de parte da casa, medida esta que
constitui pesado sacrifício económico, mas que foi determinada pela necessidade de
obstar a que tal loja fôsse, como parecia inevitável, alugada a outra entidade de cuja
vizinhança havia justificados receios” (Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 8)207.

203 Vide em anexo AE


204 Vide em anexo AI
205 Vide em anexo AE
206 Vide em anexo AI
207 Vide em anexo AI

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 233


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

O Instituto conclui deste alargamento melhores resultados, já que foi possível uma
maior influência educativa entre os frequentadores do Centro.

Tal como se viu em capítulos anteriores, os Centros Sociais, que tiveram origem no
trabalho do casal Barnett a partir da observação das distâncias sociais e da
incapacidade dos menos favorecidos, de reagirem construtivamente sozinhos,
definiram-se como um meio humano de operar a aproximação de classes e o
enriquecimento mútuo, através de uma ação de dar e receber, considerando que só
um conhecimento real seria capaz de suprir as deficiências humanas e sociais do meio
onde estiver localizado. Multiplicados por vários países, são lançados neste período
como recurso da organização social, sendo considerados como Centros Sociais na
época as organizações que possuam três características essenciais: possuam lugares
abertos permanentemente e destinados a receber as famílias, nas suas dificuldades,
sem distinção de condições políticas, religiosas ou sociais; procurem dar robustez a
família e por ela estender sua atividade, a todos os seus membros: crianças, jovens e
pais e que possuam um espírito de solidariedade, um fim educativo e recreativo e
procurem o melhoramento físico, moral e social dos que o frequentam (Oliveira, 1955,
p. 14).

É de notar a este propósito a conclusão retirada no já referido relatório de 1947 e que


vem confirmar esta orientação “É difícil reduzir a números a vida dum Centro Social,
porque eles pouco significarão se os contactos humanos que traduzem não tiverem
sido impregnados desse espírito de confiança e amizade, que dá aos assistidos a
certeza dum interesse real, fazendo do Centro Social a “Casa de todos” e das famílias
do Centro Social, uma grande família.” (Instituto de Serviço Social, 1948a, p.13)208.

No Centro Social desenvolviam-se atividades ligadas ao desporto tendo-se iniciado em


1947 as diligências para a constituição de um grupo desportivo, bem como festas,
passeios e acampamentos e no ano de 1948 acrescenta–se um grupo coral que “
tendo ensaios regulares e contando cerca de 60 vozes” (Instituto de Serviço Social,
1949a, p. 10 )209.

Por último, assinala-se na ata da Assembleia Geral da Associação de Serviço Social


de 1954 a “[…] Instalação da primeira residente num Centro Social, caso sem

208 Vide em anexo R


209 Vide em anexo V

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 234


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

precedente que a todos muito alegrou” (Associação de Serviço Social, 1954b, p. 2) 210.
Depreende-se do exposto tratar-se de uma ação que se deseja de continuidade.
Referindo-se ao facto como a “primeira residente” pressupõe-se a intenção daquela
Associação de Serviço Social em promover uma ancoragem e enraizamento dos
Centros Sociais na sociedade portuguesa. De resto, são estruturas que ainda
compõem a atualidade organizacional e cumprem um papel social fundamental.

O relatório de atividade de 1947 aponta o ano de 1943 como o ano em que se criara
um Lar destinado sobretudo às alunas da província, com o intuito de “ [...] melhor
exercer a sua actuação educativa junto das alunas [...] “ (Instituto de Serviço Social,
1948a, p. 9)211 Contudo, neste relatório, avalia-se a este propósito que não foi de todo
possível tirar deste Lar aquele rendimento educativo que se esperava e julgou a
Direção de não continuar esta atividade que se traduzia numa pesado encargo para a
instituição.

Efetivamente a ata da Assembleia da Associação de Serviço Social do ano de 1944212,


dá conta que em 1943 de maio a outubro, se organizou, o Lar no qual se alojaram 7
alunas.

No entanto, em 1947, o relatório de atividade refere o seu encerramento “O facto de


ter sido trespassado o Lar, que representava um encargo perto de 100.000$00 anuais”
(Instituto de Serviço Social, 1948, p. 15)213 dando por concluído um investimento neste
domínio já que não se considerava sustentável neste projeto educativo. Localizou-se
nota onde se assinala que a sua “extinção” só ocorreu em 31 de julho de 1948
(Instituto de Serviço Social, 1947, p.2)214

5.4. SUPORTE FINANCEIRO DO INSTITUTO DE SERVIÇO SOCIAL

Dar continuidade à abordagem do projeto educativo do Instituto de Serviço Social,


obriga a realizar uma incursão no que constitui a essência do seu suporte financeiro.
Ainda, como ponto prévio, considerou-se ilustrativa a citação retirada do relatório de
atividade do ano de 1947 aquando da sua referência às possibilidades de ação deste
Instituto - “Não foge o I.S.S. à regra quasi geral de que, para levar a um bom termo

210 Vide em anexo AJ


211 Vide em anexo R
212 Vide em anexo K
213 Vide em anexo R
214 Vide em anexo Q

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 235


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

qualquer empreendimento, são necessárias duas coisas gente e dinheiro” (Instituto de


Serviço Social, 1948a, p. 14)215

No sentido de realizar uma aproximação ao suporte financeiro do Instituto de Serviço


Social, são vários os documentos que nos proporcionam uma reflexão sobre este tema
e que nos dão conta de uma situação financeira difícil, já em 1944, e que se
prolongaria por alguns anos.

Em 1944, e ainda nesta sequência, foi dirigido um apelo, sobre a situação económica
do Instituto por um conjunto de signatários216, ao Ministro da Educação Nacional
alertando que esta obra ficaria perdida se os poderes públicos não estendessem um
apoio financeiro. “A situação económica que foi sempre má, está a tornar-se
desesperada, e o instituto terá de cerrar as suas portas se aquele auxílio financeiro
não fôr dado [...] ” acrescentam que

[...] se se colocar o problema do restrito ponto de vista da economia de Estado, e nêsse


sentido se confrontar o limitado sacrifício financeiro que se pede para o instituto poder
viver, com as verbas em que importaria para o Estado o custear de um
estabelecimento de ensino oficial que realizasse a mesma obra educativa que no
Instituto se obtém, também sem dúvida ressaltará com evidência quanto é preferível
auxiliar o que já está feito, em vez de deixar tudo perder para amanhã ser o Estado,
com despesas imensamente superiores, a procurar por si estabelecer uma nova
organização desde as raízes” (Instituto de Serviço Social, 1944b, [fl. 4]) 217.

Se atendermos ao exposto no documento “O Instituto de Serviço Social: Origem”


218
(Instituto de Serviço Social, 1945, p. 16) poderemos verificar que essencialmente
são receitas do Instituto: as mensalidades das alunas dos cursos profissionais, as
mensalidades das alunas livres (ouvintes e donas de casa), subsídio da Obra das
Mães pela Educação Familiar219, donativos de sócios bem feitores. De acordo com a
tabela seguinte, tabela 19, sobre o orçamento do Instituto de Serviço Social para o ano
de 1944-45, verifica-se que as receitas ficam muito aquém das despesas reportando
uma situação de deficit para o ano em análise.

215 Vide em anexo R


216 Foram signatários desta proposta: Isabel Bandeira de Melo Condessa de Rilvas, Maria Leonor Guerra
Correia Botelho, Lídia Maia Cabeça, Marcelo Caetano, Paulo Cunha, Isabel Maria Vila Franca Gentil,
Maria Baptista Guardiola, Maria Carlota de Magalhães Lobato Guerra, Maria de Jesus Ribeiro Lamego,
Maria Nazareth Telles da Silva Palhinha, Maria Angelica da Silva Pereira Viscondessa de Pernes, José
Toscano Rico, Adriana Antónia de Paiva Rodrigues, Domingos Fezas Vital (Instituto de Serviço Social,
1944, p. 1) Vide em Anexo L)
217 Vide em anexo L
218 Vide em anexo M
219 Ainda de acordo com este documento (Instituto de Serviço Social,1945, p. 16) cf Anexo M o subsídio

da Obra das Mães pela Educação Nacional justifica-se “em virtude deste organismo recrutar técnicas dos
seus Centros de educação entre as diplomadas do I.S.S.”

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 236


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 19 - Orçamento do Instituto de Serviço Social para o ano de 1944-45

Receitas Despesas

Média das Mensalidades220 56.000$00 Rendas de casa e despesas 32.000$00


gerais

Subsídio da OMEN 30.000$00 Ordenado de onze técnicas (para 132.000$00


os 3 cursos, o Centro Social e o
lar)
Média dos donativos dos 2.000$00 Ordenados do pessoal menor 12.000$00
Sócios

Centro Social para aplicação da 12.000$00


prática do ensino

Inspeção de Serviços Sociais, 12.000$00


transportes biblioteca e
secretaria
Total de receita 88.250$00
Total de despesa 200.000$00
Saldo - 111.750$00
Fonte: Elaborado a partir de “O Instituto de Serviço Social: Origem” (Instituto de Serviço Social, 1945, p.17)221

Esta situação é, aliás, confirmada por outro documento (Instituto de Serviço Social
suas dívidas, 1944a, p.1)222, onde se apresenta um transporte de dívidas desde 1943,
dívidas essas essencialmente para o Cardeal Patriarca (englobando divida para com a
Ação Católica e empréstimos de dois anos, respetivamente 1943 e 1944), e ainda para
com a Condessa de Rilvas, bem como rendas em atraso e regresso a França de Mlle
Lévêque223. O Patriarcado de Lisboa e a Direção do ISS, na pessoa da Condessa de
Rilvas são consideradas, portanto, as figuras que se distinguem grandemente como
benfeitores sem as quais não seria possível manter este projeto educativo (Instituto de
Serviço Social, 1945, p. 17)224.

Em 1948, apresentam-se dívidas para com D. Lídia Cabeça (5.441$00 em 1948b)225


(18.000$00 em 1952)226, Junta Central da Ação Católica Portuguesa (69.550$00 em
1948b)227 (49.550$00 em 1952)228. Aliás, esta dívida para com a Ação Católica é

220
Em 1945 a mensalidade no instituto rondava os 125$00 (Instituto de Serviço Social, 1945, p. 19, cf.
anexo M)
221 Vide em anexo M
222 Vide em anexo J
223 Não se tornou possível apresentar o respetivo somatório já que este se encontra incorreto.
224 Vide em anexo M
225 Vide em anexo T, p. 2
226 Vide em anexo AE, p. 12
227 Vide em anexo T, p. 2
228 Vide em anexo AE, p. 12

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 237


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

mencionada ainda como uma “velha dívida” no relatório de atividade do ano de 1947
(Instituto de Serviço Social, 1948a, p. 16)229

Em 1947, para além dos subsídios da Obra das Mães pela Educação Nacional são
referidos outros subsídios importantes e que consubstanciam a relação estabelecida
com os diferentes ministérios. Desta feita, contava-se com

[...] 90 do Ministério da Educação Nacional, Sua Excelência o Subsecretário de Estado


da Assistência concedeu ao Centro Social o subsídio mensal de 2.000$00 [...] e Sua
Exa. o Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social deu ainda, não
só o subsídio de 200 contos pertencentes ao exercício de 1946, mas ainda o subsídio
de 200 contos que prometera para o ano de 1947, do qual disse dever tirar-se a
importância das bolsas de estudo de Janeiro a Julho – 35 contos.” (Instituto de Serviço
Social, 1948a, p. 15)230

Este último aspeto dá conta de outra importante característica deste projeto educativo
e que respeita às bolsas de estudo das alunas com maiores dificuldades.

O ano de 1947 termina com o saldo de 112.846$00 no banco e 13.077$00 em caixa o


que perfaz um total de 125.923$00 de acordo com o relatório desse ano, no entanto,
para esta contabilidade são mencionados na conta de gerência de 1947 (Instituto de
Serviço Social, 1947b, p. 2)231 os seguintes donativos: do Comendador Paulo
Felisberto da Fonseca; Banco Espírito Santo; Banco de Portugal; Socony Vacuum Oil
Co. Inc; Eugénio C. Silva, Herdeiros.

Na receita do ano de 1952, apontam-se rendimentos de títulos depositados no Brasil,


inicialmente na ordem dos 1.000$00 mas por fim resultou numa receita de apenas
239$00.

A título ilustrativo optou-se, por apresentar em seguida, as tabelas 20 e 21, com as


receitas e despesas do ano de 1953 respetivamente, atendendo a que se pode
observar em maior detalhe e sistematização, a ação dos Centros Sociais. Assim
sendo, no que respeita às receitas poderemos analisar o quadro seguinte.

229 Vide em anexo R


230 Vide em anexo R
231 Vide em anexo Q

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 238


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 20 - Receitas do Instituto de Serviço Social do ano de 1953

Quantias
Rubricas
Orçamentadas Recebidas
Escola e Centros Sociais 374.648$75 381.840$00
Escola 130.000$00 129.060$00
Receitas escolares 100.000$00 88.810$00
Subsídios da OMEN 30.000$00 30.000$00
Empréstimos - 10.250$00
Centros Sociais 244.648$75 252.780$00
Donativos para o Centro Social do Beato 4.540$00 5.040$00
Venda a favor dos Centros Sociais 3.648$75 -
Donativos 12.460$00 11.740$00
Subsídios do Ministério das Corporações e 200.000$00 200.000$00
Previdência social
Subsídio do Ministério do Interior 24.000$00 36.000$00
Direção e Centro de Estudos 115.351$25 114.681$25
Saldo do ano anterior 351$25 351$25
Subsídio do Patriarcado de Lisboa 20.000$00 20.000$00
Subsídio da Associação de Serviço Social 2.000$00 1.830$00
Subsídio do Ministério da Educação Nacional 90.000$00 90.000$00
Dividas ativas 3.000$00 2.500$00
Total 490.000$00 496.521$25
Fonte: Elaborado a partir de Breves notas sobre a sua atividade no ano de 1953 (Instituto de Serviço Social, 1954a, p.11)232

No que concerne às despesas, estas poderão ser analisadas a partir do quadro que
em seguida se apresenta:

232 Vide em anexo AI

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 239


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 21- Despesas do Instituto de Serviço Social do ano de 1953

Quantias
Rubricas
Orçamentadas Recebidas
Escola e Centros Sociais 369.460$00 381.865$75
Escola 125.972$00 136.881$85
Pessoal 103.323$00 114.713$20
Material 6.500$00 9.130$00
Serviços e encargos diversos 16.148$00 13.038$65
Centros Sociais 244.448$75 244.983$00
Centro Social da Bempostinha 155.778$00 153.335$30
Pessoal 83.778$00 79.385$00
Verba atribuída pela Direção 72.000$00 73.950$00
Centros Social do Beato 48.710$00 76.156$40
Pessoal 72.710$00 41.156$40
Verba atribuída pela Direção 24.000$00 31.000$00
Centro Social do Menino Deus 15.000$00 15.492$00
Pessoal 13.800$00 13.980$00
Verba atribuída pela Direção 1.200$00 1.512$00
Direção e Centro de Estudos 120.540$00 114.647$50
Pessoal 98.440$00 89.533$80
Instalações 19.000$00 19.295$70
Biblioteca 1.500$00 2.308$10
Estudos em Meios Rurais 800$00 582$30
Dias das finalistas 800$00 2.927$60
Total 490.000$00 496.513$25
Fonte: Elaborado a partir de Breves notas sobre a sua atividade no ano de 1953 (Instituto de Serviço Social, 1954a, p.12)233

São vários os panoramas que podemos inferir do confronto das tabelas, em epígrafe.
Relativamente ao ano de 1953 verifica-se haver um equilíbrio quase perfeito entre o
global das receitas e despesas sendo, respetivamente, 496.521$25 e 496.513$25,
deduzindo-se uma pequena diferença entre ambas de, apenas, 8 escudos. Observa-
se, deste modo, existir preocupação e elevado rigor em matéria de gestão orçamental.

Desta análise poderemos, concluir da continuada ligação íntima do Instituto de Serviço


Social à Obra das Mães pela Educação Nacional que, neste caso, se destina, apenas
a cobrir despesas relativas a pessoal, materiais, serviços e encargos diversos não
suportando despesas dos Centros Sociais nem da Direção ou Centro de Estudos.
Num enfoque mais detalhado é de realçar a, forma como é distribuída a afetação de
cada subsídio. Assim, é afeto à escola, tal como já foi referido, o subsídio da Obra das

233 Vide em anexo AI

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 240


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Mães pela Educação Nacional e aos Centros Sociais, por seu turno, os subsídios dos
Ministérios das Corporações e Previdência Social e do Interior e por último afeto à
Direção e aos Centros de Estudo o subsídio do Patriarcado de Lisboa, o subsídio da
Associação de Serviço Social e do Ministério da Educação Nacional.

Do lado das despesas, coloca-se em relevo o papel desempenhado pelos centros


sociais neste projeto educativo, sendo certo que estes no seu conjunto adquiriram um
protagonismo financeiro muito superior ao da própria escola.

5.5. O INTERCÂMBIO INTERNACIONAL - AS PRIMEIRAS ORGANIZAÇÕES


INTERNACIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL

São vários os relatórios de atividade do Instituto de Serviço Social que reportam a


presença de uma pequena delegação aos congressos da União Católica Internacional,
apresentando não só comunicações como, ainda, alusão a visitas a escolas de
Serviço Social e de Educação Familiar.

Fundada em Milão em 1925, a União Católica Internacional de Serviço Social


(U.C.I.S.S.) é uma Federação de Escolas Católicas de Serviço Social, de Associações
de Trabalhadores Sociais, e Centros de Formação Social, que tem por objetivo
conseguir em todo o mundo o progresso e aperfeiçoamento do Serviço Social de
inspiração católica e do qual o Instituto de Serviço Social faria parte (Instituto de
Serviço Social, 1947a, p. 2).234

A razão do interesse e participação nestes encontros resulta, como interpreta a


diretora Maria Lobato Guerra em 1951, em “ficar com o conhecimento mais
pormenorizado da situação, a um tempo de prestígio e de dificuldade, em que o
Serviço Social se encontra presentemente em todo o mundo, conhecer mais de perto
as modernas correntes de pensamento que influem no ensino do Serviço Social e
auscultar um pouco a mentalidade e espírito reinantes nas escolas de Trabalhadores
Sociais de outros países” (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 5)235

Na tabela seguinte, tabela 22, foi reunida a informação recolhida sobre os


intercâmbios internacionais realizados no âmbito da atividade do instituto de Serviço
Socil de 1944 a 1954. Alguns destes encontros foram realizados em Lisboa outros em

234 Vide em anexo O


235 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 241


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

missões realizadas ao estrangeiro, no entanto, denotam em ambos os casos a


abertura ao exterior.

Tabela 22 – Intercâmbios Internacionais realizados de 1944 a 1954

Mês/Ano Local Participações Comissão enviada/ Recebida

Congresso de ciências
agrárias apresentação de
1944
estudo acerca das
industrias Caseiras
Paris Enviada comunicação sobre
Congresso “La Mére as condições sociais da
Abril /1947
– Ouvrière de mulher em Portugal
Progrès Humain”
Lucerne Congresso
da União Católica
Internacional de
Serviço Social
Setembro/1947 Paris Congresso das Maria Carlota Lobato Guerra
Escolas de Serviço Isabel Maria Ataíde
Social
Paris – Reunião
Internacional dos
Centros Sociais
Lisboa A Secretária Geral do
Bureau, da Union Catholique
Internacionale de Service
Junho/1949
Social. Mlle Baers, realizou
uma palestra sobre os fins
daquela organização
Roma Maria Nazareth Palhinha,
Setembro/1950 Isabel Maria Atayde e Maria
Carlota Lobato Guerra
Nápoles Reunião da Federação
Internacional dos Centros Maria Helena Trigo
1954
Sociais
Fonte: Elaborado a partir de Acta da Assembleia geral da Associação de Serviço Social (Associação de Serviço Social, 1944, p. 2) 236 o
Relatórios de actividade do ISS, (Instituto de Serviço Social, 1948a, p. 8 )237 (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 5)238

236 Vide em anexo K


237 Vide em anexo R
238 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 242


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

No decorrer dos meses de agosto e setembro de 1946 realizou-se, inclusivamente,


uma viagem de estudo por quatro membros da Direção do Instituto à Bélgica, França e
Suíça.

No relatório da presença na 6ª conferência de 4-6 de Agosto de 1946 (primeira reunião


do pós-guerra 1940-45) da então diretora Dr.ª Custódia Alves do Vale, refere-se que
tomaram parte nessa reunião cerca de 150 pessoas de 17 países entre os quais,
Bélgica, Chile, China, Canadá, Brasil, Espanha, França, Holanda, Hungria, Inglaterra,
Itália, Luxemburgo, Polónia, Portugal, Suíça, Checoslováquia, Uruguay (Instituto de
Serviço Social, 1947a, p. 2 e anexo II p. 2)239.

No programa de 1946 destacam-se como temáticas “O desenvolvimento do Serviço


Social no Mundo”, “A escôlha que se impõe entre as concepções dominantes do
Serviço Social hoje existentes” e “As relações do Serviço Social com o Estado” sendo
que aos portugueses lhe foi solicitada uma comunicação entre o Serviço Social e a
Família (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 2-3)240. No entanto, destaca-se ainda a
apresentação de um Código Moral Profissional no qual todos os países foram
chamados a colaborar, remetendo casos de solução difícil sob ponto de vista moral
surgidos no decorrer da atividade profissional das trabalhadoras sociais.

Custódia do Vale aponta, neste documento, como deficiência deste encontro


internacional a dificuldade em aprofundar os temas na medida em que, se era intenção
reatar as relações, a troca de ideias entre os representantes dos vários países,
pretendendo-se permitir a livre intenção de todos mesmo os mais inexperientes, ao
mesmo tempo reinava uma desorientação nos espíritos e nervosismo geral, próprios
de um agitado período de pós-guerra e, por conseguinte, um ambiente pouco propício
ao claro exame e discussão serena dos complexos problemas sociais (Instituto de
Serviço Social, 1947a, p.3)241

De acordo com o relatório da viagem o qual foi entregue ao Cardeal Cerejeira, há


muito que a direção do Instituto de Serviço Social pretendia proporcionar aos seus
membros uma viagem ao estrangeiro por forma a permitir o contacto e estudo de
modernas conceções e realizações de Serviço Social. A primeira viagem efetuada em
Agosto de 1946 tinha como destino Bruxelas e finalidade assistir às primeiras reuniões

239 Vide em anexo O


240 Vide em anexo O
241 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 243


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

depois da Guerra de 1940-45 da “União Católica Internacional de Serviço Social” e


“Conferências Internacionais de Serviço Social”. No entanto a viagem à Bélgica e à
França decorreu, de 30 de Julho a 2 de Setembro de 1946 apoiada pelo Instituto de
Alta Cultura e foi realizada pela Dr.ª Custódia Alves do Vale – Diretora do I.S.S., pela
Assistente Social Maria Carlota de Magalhães Lobato Guerra, professora e Monitora
do I.S.S., a Assistente Social Maria José de Lencastre Viana – Professora e Monitora
do Centro Social do Instituto de Serviço Social e, ainda, a Assistente Social Maria
Nazareh Telles da Silva Palhinha, Secretária Geral do Instituto de Serviço Social.

A Diretora do Instituto de Serviço Social visitou, igualmente, a Suíça de 29 de Agosto a


8 de setembro de 1946, tendo como intenção tomar parte nas duas reuniões de
Trabalho Social já referidas e reúne-se com trabalhadores sociais de vários países
bem como

[…] conhecer escolas sociais e métodos de formação usadas noutras nações; visitar
obras sociais e organizações sociais através das quais se pudessem apreciar possíveis
diferenças ou aperfeiçoamento na técnica do trabalho social (Instituto de Serviço
Social, 1947, p. 1).

No entanto, era manifesto o desagrado com as conclusões da reunião, sobretudo no


242
que respeita a um intercâmbio internacional que incluía a permuta de alunos das
escolas sociais para a realização de estágios no estrangeiro, pois considerava-se de
toda a inconveniência que ocorresse antes de concluída a formação escolar da aluna
enquanto assistente social,

[...] quando ainda não se tomou verdadeiramente contacto com os problemas sociais
do seu país, e quando a maturidade de espírito ainda é necessariamente incompleta,
ela seja posta em contacto tão íntimo com os problemas e a mentalidade de países
estranhos (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 4)243.

No que respeita às “Conferências Internacionais do Serviço Social” esta realizou-se de


26 a 28 de Agosto de 1946 na Universidade Livre de Bruxelas, o seu comité foi
presidido pelo Dr. René Sand (uma das figuras do Serviço Social mais conhecido
nesta época tanto a nível internacional como da própria Bélgica), onde assistiram uma
centena de trabalhadores sociais representado 15 países entre eles “Austrália,
Bélgica, Dinamarca, Canadá, Chile, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália,
Luxemburgo, Paraguay, Países-Baixos; Portugal, Suíça e Tchecoslováquia” e ainda

242 Interessante verificar que nos anos 40 já se desenvolviam programas de mobilidade internacional de
alunos.
243 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 244


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

[…] 7 organizações internacionais: Bureau Internacional du travail, Ligue des Sociétés


de la Croix- Rouge, Union internacionale de Secours aux Enfants, Service Social d’Aide
aux Migrante, Institut Internacional des Ècoles de Service Social e National Catholic
Welfare Conference (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 5)244

A participação nesta conferência permitiu obter, segundo refere Vale, um panorama da


implantação do Serviço Social no mundo, nesta década. Ao contrário das reuniões na
União Católica Internacional regista-se com agrado o aumento do nº de trabalhadores
sociais masculinos (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 5)245.

O ambiente em que decorreu a conferência descreve-se como frio, com uma


atmosfera de trabalho séria, com método e ordem, permitindo tirar o rendimento
necessário. As reuniões gerais foram destinadas a analisar as consequências para o
Serviço Social da guerra e do pós-guerra, a partir da análise realizada pelos delegados
das várias organizações internacionais, concluiu-se como

[...] assustador o aumento de certos males sociais, como, por exemplo, a delinquência
infantil, originada pela em parte pelo afastamento de casa, das mães obrigadas a
trabalhar, e o esforço feito em todos os países para acudir a essas muitas misérias
nascidas do descalabro social (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 5)246.

É, precisamente, esse esforço tão necessário que exige o abandono por parte do
Serviço Social de atividades mais “construtivas” e “educacionais” e que no entanto
constituem a sua essência, obrigando a tarefas meramente assistencialistas,
frequentemente “… paliativos indispensáveis, não constituem, no entanto, solução
para os casos familiares, nem contribuem para o progresso social” (Instituto de Serviço
Social, 1947a, p. 6)247.

Nesta conferência, Portugal intervém através do discurso proferido por Maria Carlota
de Magalhães Lobato Guerra, assistente social do Instituto e Serviço Social, que a
título pessoal entende que Portugal, pese embora não tenha tomado parte neste
recente conflito, tem problemas específicos neste tempo de guerra na medida em que
tem sentido graves repercussões designadamente retardando a aplicação de medidas
de ordem social para a solução de numerosos problemas, como sejam, a habitação, a
saúde pública e o progresso da indústria e da agricultura. Acrescenta, que o Serviço
Social desde o seu surgimento em 1935 tem-se dedicado a trabalhar nas mesmas

244 Vide em anexo O


245 Vide em anexo O
246 Vide em anexo O
247 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 245


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

diretivas, cooperando com a formação integral das famílias e dos indivíduos no sentido
de obter a recuperação económica e social.

Neste domínio e, em seu entender, a família e os seus direitos foram protegidos pela
Constituição de 1933 e por um conjunto de outras leis entre as quais foi assegurada a
constituição do “Bem de família” (Instituto de Serviço Social, 1947, Anexo VII248), a
criação do Instituto da Família, a aplicação de convenções coletivas de trabalho pelos
seguros sociais e subsídios familiares e, a lei da assistência onde se define o seu
caráter preventivo e se estimula a iniciativa privada.

Nesta conferência foi apresentado o trabalho dos assistentes sociais portugueses, ao


desenvolveram todas as formas de Serviço Social: individual, ou coletivo, médico
social, de fábrica, de sector, e sobretudo nos Centros Sociais, sempre de acordo com
as caraterísticas do meio (Instituto Serviço Social, 1947a, Anexo VII)249. As diplomadas
trabalham tanto para o Estado nos serviços médico-sociais, como seja, na assistência
psiquiátrica, numa vasta rede já organizada, na assistência pública, com a
“Misericórdias” instituições de idosos onde os métodos evoluíram com um sentido
social, como também em instituições privadas, ou seja fábricas, obras de educação ou
de recuperação, como ainda em organizações corporativas de base, como são
exemplo as Casas do Povo (Instituto de Serviço Social, 1947a, Anexo VII)250.

De acordo com Guerra (1946) o Serviço Social em Portugal mantém-se fiel à mesma
matriz ou seja a

Collaborer partout à l”épanouissement véritable de l”individu, de la Famille, des cadres


sociaux naturels, de façon à pouvoir, toutes les fois que ce sera possible, se rendre lui-
même inutile, puisque nous estimons que le meilleur service qu”on puisse rendre à
l”humanité c”est de travailler à libérer, a dégager les énergies, les immenses richesses,
souvent ignorées mais toujours latentes dans la personne humaine (Instituto de Serviço
Social, 1947a, Anexo VII)251.

O ensino das futuras assistentes sociais e a orientação de um Instituto impuseram a


necessidade, de estar em sintonia com o que modernamente se desenvolve nos
diferentes serviços em matéria de auxilio a outrem, razão pela qual esta viagem de

248 Vide em anexo O


249 Vide em anexo O
250 Vide em anexo O
251 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 246


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

estudo de 1946 foi também aproveitada para visitar um conjunto de obras médico-
sociais252 e obras de recuperação de delinquentes253 e fabricas254

A escolha aos Centros Sociais para visitar seriam aqueles que despertavam até mais
interesse na medida em que se toma “[...] esta forma de Serviço Social como sendo
aquela que mais se harmoniza com as características e necessidades do meio
português” (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 25)255. Porém, este meio de atuação
não seria comum pelo que a sua visita ficou circunscrita a uma visita em Bruxelas e
outra em Paris.

Em Bruxelas, foi visitada a instituição particular “Entre”Aide des Traballeuse” 169,


(Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 25) fundada em 1925 por Mme Van Der Helst,
congregando o esforço de um conjunto de pessoas que voluntariamente se ocupavam
com a realização de visitas domiciliárias aos doentes e que, nesse ano, já contava
com duas seções uma na Rue de Flandres e outra situada na na Rue des Tanneurs.
Esta última seção, a única a ser visitada, contemplava um serviço de tratamentos ao
domicílio, reuniões de costura e diversas formas de auxílio às futuras mães-amas,
uma colónia que abrigava durante um mês 75 crianças anémicas, auxílio especial a
200 velhos indigentes e sem amparo, reuniões educativas para crianças e adultos,
acampamento para rapazes, serviços de colocação de raparigas e biblioteca pública,
aberta três vezes por semana com 1271 leitores inscritos.

No entanto, ambas as seções da instituição mantinham vários serviços como por


exemplo, dispensário e consultas médicas para adultos e crianças; serviço de
aplicação de raios ultravioletas; consultas de lactantes dirigidas a 461 crianças;
consultas para crianças de três a seis anos que contempla 95 crianças; e por último
consultas pré-natais a 130 futuras mães.

252 Obras médico-sociais tais como:- Ouvre Nationale de l”enfance em Bruxelas e École en Plein Air
Roger de Grimbergue em Rixensart, (Bélgica);- Home d”enfants et ècole privée Bergconne” Gstaad,
Oberland Bernois (Suiça);- Les Noisetiers (Suiça);- Hôpital de Saint Pierre (Bruxelas);- Hôpital de Côchin
(Paris); - Station- ècole de Réeducation et Aprentissage e sanatório “Les Bruyéres” – Charleroi (Bélgica);-
Clínica para Crianças Deficientes – Antuérpia (Bélgica);- Institut Medico- Pedagogique ste Elisabeth –
Rixensart- (Bélgica); - Institut Salva Mater (Bélgica)
253 Obras de recuperação de delinquentes, tais como: Ètablissement Central d”Observation – Mol –

Bélgica (Instituto de Serviço Social, 1947, p. 18); Prisão- escola – Hoogstraeten – Bélgica - (Instituto de
Serviço Social, 1947, 20); Aumônerim des Prisons – Paris (Instituto de Serviço Social, 1947, p. 18).
254 Fábricas tais como: “Trefilerie Beka” e “Cervejas Vandenheuvel” – Bruxelas (Instituto de Serviço Social,

1947a, p. 23)
255 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 247


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Trabalhavam nesta instituição, 18 médicos, 19 enfermeiras-visitadoras e 50


colaboradores bem como um corpo de 8 assistentes sociais, referindo-se recorrer aos
serviços da instituição 10.000 famílias não sendo possível, todavia, identificar qual o
período em questão.

Em Paris, a residência social “Maison Sociale de Saint Denis” foi criada por idealismo
generoso de Mlle. Marie Jeanne Bassot e possuía um corpo de assistentes sociais
residentes. A missão destas profissionais consistia em

[…] acolher a toda a hora quantos ali queiram ir solicitar auxílio, informação ou
conselho amigo, em manter num constante esforço de adaptação às necessidades e
aspirações do meio, aquelas atividades que pareçam necessárias ou úteis ao seu bem-
estar aperfeiçoamento, em desenvolver entre todos o espírito de vizinhança e
colaboração leal (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 26)256.

Segundo Vale, a prossecução de tais objetivos refletiam a essência dos Centros


Sociais. Segundo a diretora da residência, a assistente social Mlle. Gaugué a,
instituição desempenhou sempre um papel importante especialmente durante a guerra
e em conjunto com o centro de acolhimento para refugiados serviu de posto de
socorros durante os bombardeamentos, sede do serviço de evacuação das crianças
sobretudo nos momentos de maior perigo, lavandaria do campo de prisioneiros de
Drancy257 e oficina de desempregados, para além de outras atividades.

Em 1947, o relatório de atividade do Instituto reporta, ainda, ao setor das relações


internacionais a filiação do Instituto no Comité Internacional das Escolas de Serviço
Social, com sede em Paris.

Mais tarde, no decurso do ano de 1948, o relatório do Instituto de Serviço Social dá


conta das várias solicitações da organização da “ Conferências Internacionais de
Serviço Social” para a constituição em Portugal de um “Comité Nacional de Serviço
Social” (Instituto de Serviço Social, 1949a, p. 6)258. Paralelamente, se dá conta que a
Federação Internacional dos Centros Sociais, solicitou à direção do Centro Social do
Instituto de Serviço Social, em 1948, a organização de uma federação dos Centros
Sociais portugueses, no sentido do aperfeiçoamento do Centros Sociais existentes e

256 Vide em anexo O


257 Localizava-se em Drancy um dos campos de concentração nazi. Tal como o campo de Weterbork na
Holanda, eram campos de transição para judeus das terras ocupadas pelos nazis sendo posteriormente
enviados para os centros de extermínio na polónia ocupada. Os campos de transição eram geralmente a
última paragem antes da deportação para um campo de extermínio (Ministère èducation nacionale, Ètude
de cas:le camp de Drancy (1941-1944),
258 Vide em anexo V

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 248


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

como forma de difundir o seu ideal e o seu espirito bem como, a fundação de novos
Centros.

No relatório de atividade de 1954 a participação da assistente social Maria Helena


Trigo na reunião da Federação Internacional dos Centros Sociais que se realizou em
Nápoles em Junho de 1954, tendo esta participação portuguesa muito apreciada. Em
contrapartida, este relatório reporta-nos, ainda, a vinda ao Instituto do presidente da
dita Federação Mme. Noblemaire, que após demorada visita aos Centros Sociais

[…] se mostrou inteiramente de acordo com os Conceitos de Centro Social que


defendemos e pediu instantemente a nossa colaboração para o trabalho internacional
(Instituto de Serviço Social, 1955, p. 7)259

Em maio de 1954 realizou-se em Fátima a reunião Internacional da União Mundial dos


Organismos Femininos Católicos (U.M.O.F.C) para a qual foi solicitada uma
participação ativa do Instituto. A colaboração prestada pelo Instituto terá merecido,
bastante apreço, tendo contribuído para dar a conhecer o próprio Instituto de Serviço
Social e o Serviço Social mesmo entre os participantes portugueses.

259 Vide em anexo AL

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 249


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 250


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

6. INSTITUTO DE SERVIÇO SOCIAL: UM COMPROMISSO PARA COM A


SOCIEDADE

O Serviço Social, enquanto disciplina com espaço de reflexão teórica sobre a vida
social, sobre as necessidades sociais e sobre o modo de satisfazê-las define-se, em
função de um objeto e natureza, objetivos e fins. No seu seio apresentam-se modelos
teóricos e referências sobre trabalho realizado, abordam-se métodos, descrevem-se
campos de intervenção dos profissionais, fomentam-se debates e discussões.

Ao longo do tempo, o Serviço Social foi acompanhando a realidade social e as suas


múltiplas manifestações, compreensões, explicações e interpretações. Todavia, como
sabemos, as transformações sociais estão acompanhadas de mudanças, de imagens
interpretativas e de um sistema de categorias de perceção da realidade que não
podem ser separadas das condições históricas e particulares onde se produzem,
conduzindo a impactos no processo de construção do conhecimento no seio de uma
profissão.

Uma instituição educativa, enquanto norma, (pre) existe à relação, na condição de


projeto atendendo aos desequilíbrios entre o fomento de necessidades e a procura
educacional. Mas é na ação, envolvendo a representação e a apropriação dos sujeitos
humanos, isto é, na subjetivação que a instituição e a norma se reificam, se atualizam
e tomam um sentido evolutivo.

O enfoque da educação obriga a compreender a atividade humana e a relação


estabelecida, relação essa do sujeito consigo próprio, com os outros e com a realidade
que o cerca, implicando capacidades de subjetivação, aperfeiçoamento, conhecimento
e revela-se na autonomização, no ato de se conduzir e de se responsabilizar, de estar,
participar, decidir, assumir e assumir-se. A educação, assim entendida, é
harmonização e complexidade gradativa, aprofundada e construtiva de ações
reificadas no tempo e no espaço, envolvendo processos (in) formativos baseados em
aprendizagens (aquisições, capacidades, competências) e processos interativos dos
sujeitos com o meio envolvente, com os seus pares e o grupo, com as estruturas,
normas e conhecimentos, valores e culturas, com recurso ao seu próprio eu de forma
racional e subjetiva.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 251


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

6.1. OS SETORES DE INTERVENÇÃO E SAÍDAS PROFISSIONAIS

Sobre este tema são duas das questões sobre as quais importa refletir. Por um lado,
sobre os organismos ou agentes prestadores de serviços mais concretamente aos
locais institucionais onde as assistentes sociais desempenhavam a sua atividade após
conclusão do seu curso e, por outro, sobre os setores de intervenção, por referência
aos coletivos humanos, para os quais ou com os quais se realizam determinadas
atividades ou se oferecem certas prestações ou serviços.

Fernando Silva Correia apresenta em 1950 um breve ponto de situação sobre a


colocação de agentes do Serviço Social e aponta para o facto de se encontrarem a
trabalhar

[...] no Centro de Inquérito Assistencial, na Misericórdia de Lisboa e nas de outras


localidades, no Instituto de Assistência à Família, nos Institutos de Oncologia e
Maternal, nos Centros de Saúde, Dispensários Polivalentes ou especializados, como os
de Psiquiatria, luta anti venérea (chamados “de higiene social”), de luta anti sezónica,
nas delegações de saúde, casa dos Pescadores, Serviços Médico sociais da
Federação das Caixas de Previdência, Centro de Luta contra o Reumatismo, liceus,
hospitais, assistência aos cardíacos, luta contra a Tuberculose, Junta das Províncias,
Cadeias, Tutoriais etc.” (Correia, 1950, p. XLV).

Neste ano, o autor, refere existir no total 146 assistentes sociais e educadoras
familiares e mais 900 visitadoras e outras auxiliares do Serviço Social, número que
deve incluir o Instituto de Serviço Social de Lisboa e Escola Normal Social e Coimbra,
Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge e restantes escolas.

Em 1952, os números apontam para

[…]144 diplomadas pelo Instituto de Serviço Social, (105 assistentes sociais, 36


educadoras familiares e 3 auxiliares da família) [...] No entanto, o número total de
Trabalhadores Sociais não chega para as exigências das instituições que lutam sempre
com a falta de obreiros, e é manifestamente insuficiente em relação a muitos sectores
da vida social e às extensas regiões do País que precisariam absolutamente de ser
dotados de núcleos de Serviço Social (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 1) 260

Nesse ano de 1952, das 13 assistentes sociais formadas, sete já se encontravam a


exercer atividade profissional no final do ano. Na seguinte tabela, tabela 23 foram
discriminados os setores de atividade.

260 Vide em anexo AE

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 252


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Tabela 23 - Alunas formadas em 1952 por setores de atividade profissional

Setores de Atividade Nº de alunas


Direção Geral de Previdência e Habitação Económicas 2
Instituto de Assistência à Família - Marinha Grande 1
Instituto de Assistência à Família - Almada 1
Bairros Municipais – Boa Vista 1
Bairro de Alvalade – Centro Social 1
Minas da Borralha 1
261
Fonte: Elaborado a partir de (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 4)

Ao observarmos o conjunto dos órgãos ou agências de prestadoras de serviços


sociais, constata-se que a maioria das profissionais trabalha em instituições públicas.

Em 1955, das 18 alunas que terminaram o curso, apenas, iniciaram a sua atividade
profissional16. A tabela que em seguida se apresenta, tabela 21, realiza uma
distribuição das alunas recém-formadas por instituições empregadoras.

Tabela 24 - Alunas formada em 1955, por instituições empregadoras

Instituições Nº de alunas
Obra das Mães pela Educação Nacional 4
Instituto de Assistência à Família 2
Bairros Municipais de Lisboa 2
Cruz Vermelha Portuguesa 1
Empresas 2
Hospital da Misericórdia do Porto 1
Centro Social e Paroquial em Moscavide 1
Escola de Educação Familiar em Gouveia 1
Obra da regeneração na Amadora 1
Instituto de serviço Social – Sector Rural 1
Total 16
Fonte: Elaborado a partir do Relatório de Atividades nos anos de 1955 e de 1956 (Instituto de Serviço Social, (1957, p. 11) 262

De salientar na leitura da tabela 24 a Obra das Mães pela Educação Nacional que
apesar das diversas ligações que possuía com este projeto educativo acresce a de
entidade empregadora das profissionais recém-formadas.

261 Vide em anexo AE


262 Vide em anexo AS

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 253


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Deve no entanto mencionar-se, a este propósito, o relatório de atividades do ano de


1949, onde se refere que das 69 alunas que terminaram o curso ou o estágio “ [...]
duas foram pela Direção convidadas a desistir visto reconhecer-se que não possuíam
as aptidões necessárias para o Serviço Social [...] ” (Instituto de Serviço Social, 1949b,
p. 2)263. Este facto remete-nos para a incorporação de um papel de apuramento e
seleção de alunas realizada pela escola no decurso da própria formação. Se bem que
inicialmente, como vimos, se realizou uma rigorosa seleção de candidatas, todo o
percurso escolar servira paralelamente para a seleção mais apurada, pois possibilitava
a exclusão daquelas que não possuíssem as qualidades julgadas adequadas ao perfil
de uma assistente social ou educadora familiar. O mesmo relatório dá conta ainda
que, por optarem pelo do casamento, algumas das alunas optavam também por não
exercer a atividade profissional.

Como vimos, projeto educativo do Instituto de Serviço Social era complementado, nas
suas vertentes escolar, cultural e de ação direta pela organização profissional das
trabalhadoras sociais sendo tal fato mencionado na ata da Assembleia da Associação
de Serviço Social (Associação de Serviço Social,1944, p.2)264 assinalando o ano de
1943 como o ano inicial dessa organização, contando a Associação de criar em breve
o respetivo sindicato.

Em 1946, foi criada a Associação das Assistentes Sociais e Educadoras Familiares do


Instituto de Serviço Social no sentido da organização profissional e de previdência das
assistentes sociais e das educadoras familiares, encontrando-se, nesse mesmo ano o
projeto da entrada desta Associação, para a Federação das Caixas de Previdência
dos Empregados do Comércio, dependente de aprovação do Subsecretário de Estado
das Corporações (Silva, Odette. Relatório de Atividades de 1946-1947 da Associação
das Assistentes Sociais e Educadoras Familiares do Instituto de Serviço Social de
Lisboa, janeiro de 1948).

Era, também, propósito desta Associação a formação religiosa, profissional e


associativa das assistentes sociais e educadoras familiares, destacando no seu
primeiro relatório de atividades que a primeira recoleção se deu a 19 de março de
1946, sob orientação do Padre Domingos da Apresentação Fernandes, sendo uma
preocupação inerente a regularidade da frequência da santa missa. Ainda, nesta
sequência, eram realizadas reuniões de estudo sobre vários assuntos, procurando

263 Vide em anexo X


264 Vide em anexo K

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 254


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

convidar personalidades que apresentassem problemas de interesse social e


formativo. Uma das primeiras convidadas foi Ermelinda Sobral, que se debruçou sobre
o problema social da América do Norte.

Porém, como nota última, refere-se o esforço deste projeto educativo em realizar “Dias
de Aperfeiçoamento” contemplando antigas alunas (Diplomadas) que possuam o
desejo de crescente aperfeiçoamento profissional, uma vez passada a sua formação
escolar e que pretendam manter-se a par dos principais problemas e transformações
da vida social moderna. Esta iniciativa iniciou-se em 1944, registando-se, logo nesse
ano, 52 assistentes sociais e educadoras familiares para assistir a essa iniciativa.
Assistiram ainda a estas conferências 595 alunas e ouvintes e realizaram visitas, 109
alunas.

6.2. AS ÁREAS E CAMPOS DE ATUAÇÃO .

A partir dos documentos reunidos sobre este período e, sobretudo, os que realizam
um balanço inicial da atividade do Instituto de Serviço Social, torna-se claro que as
Assistentes Sociais e Educadoras Familiares no decurso deste período, exerceram
funções em instituições oficiais e particulares, como sejam; os Centros Sociais, Bairros
populares, Casas do Povo e dos Pescadores. Grémios, Fábricas, Instituições médico-
sociais, entre outras. Para as Assistentes Sociais a sua função consistia na educação
ou reeducação integral das famílias de que se ocupavam, no melhoramento
económico e social das suas condições de vida e na reorganização do respetivo meio.
No que respeita às Educadoras Familiares competia mais especialmente, a partir de
um ensino familiar e doméstico, formar os diversos meios moral e tecnicamente
preparando e orientando, sobretudo, a mulher para cumprir a sua missão de mãe de
família e de dona de casa (Instituto de Serviço Social 1945, p. 7)265.

Ainda, de acordo com este último documento, a missão de ambas seria levar a todo o
país, ao lar, à oficina, aos campos, à escola, ao dispensário, sem olhar a classes e
meios tudo o que o conceito de educação pudesse abarcar, pois seria este o elemento
fundamental de combate à ignorância. Esta missão exigiria destas duas profissões,
dedicação profunda mas, o volume de pedidos de profissionais para a criação de
novos serviços desde a fundação do Instituto, aumentava a cada dia podendo estas
profissionais, auferir vencimentos consideráveis.

265 Vide em anexo M

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 255


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Na prática, seria necessário iniciar uma atuação na comunidade, na medida em que


muitos dos problemas individuais e familiares, cuja causa se encontram no ambiente,
poderão desaparecer com uma melhor organização dos quadros sociais ou dos
recursos locais.

O Serviço Social afirma-se a partir de um enquadramento “obrigatoriamente” feminino


dirigido a mulheres das classes burguesas. Mulheres, claramente detentoras de um
perfil vocacional e padrões morais associados à ideologia do Estado Novo sendo por
isso necessária

[...] a criação de escolas de formação social onde se habilitem raparigas, até da melhor
condição, para exercerem junto de fábricas, organizações profissionais, instituições de
assistência e de educação coletiva e de obras similares uma ação persistente e
metódica de múltiplos objetivos - higiénicos, morais e intelectuais- em contacto direto
com as famílias de todas as condições. Só poderá trabalhar com eficiência dentro
dêsse imenso campo de ação quem possua, a par da vocação natural, mentalidade
especialmente formada e firme, sentido social, que naquelas escolas se suscitem e
educam (Decreto-lei nº 30 135 de 14 de Dezembro de 1939)

Neste excerto localizamos alguns aspetos conceptuais acerca do campo de atuação


do assistente social e das suas unidades de intervenção. Dois aspetos parecem
sobressair, ao nível do campo de atuação, por um lado, privilegiam-se princípios de
organização comunitária e, por outro, a partir desta, privilegia-se a abordagem das
famílias de todas as condições.

Em suma, o projeto educativo do Instituto de Serviço Social, o Trabalho Social


efetuado pelas diplomadas assentava não só no papel da Assistente Social mas,
igualmente, na sua natural colaboradora, a Educadora Familiar. Como poderemos
concluir do excerto que se segue, o seu contributo exercia-se essencialmente no
domínio da educação com o objetivo de atingir não só as causas da miséria mas,
também, de acudir às necessidades daí decorrentes, coordenando esforços e
utilizando os diversos meios de ordem moral e legalmente exigidos em cada situação.

[...] dominadas sempre pelo dever de contribuírem para a educação ou reeducação,


daqueles que se lhes confiam exercem junto deles uma ação formativa de orientação,
preservação, amparo e estímulo, atacando as causas da miséria procurando acudir a
todas as necessidades, coordenando os vários esforços, utilizando os diversos meios
de ordem moral e legal aplicáveis a cada caso “ (Instituto de Serviço Social, 1944b,
anexo XV)266.

266 Vide em anexo L

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 256


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Percebe-se, pelo exposto, que as causas da miséria e da situação de carência daí


resultante radicam nas condições próprias e particulares dos indivíduos justificando-
se, por essa ordem de razão, uma abordagem educacional.

Em exposição sobre o Instituto de Serviço Social de 1944 para ser entregue ao


Ministro da Educação Nacional os autores referem que

Há muitas autoridades, muitos serviços, muitos estabelecimentos, muitas competências


especializadas, muita dispersão funcional. E o pobre vai a de uns sítios para outros,
desorientado, desamparado, empurrado por secos funcionários após longas horas de
espera e tratado como um indivíduo- mero caso inscrito numa ficha (Instituto de Serviço
Social, 1944b, p. 3)267

Nesta exposição, denota-se pensamento crítico em relação à desorganização dos


recursos sociais, e à afirmação do papel e competências profissionais que o agente de
Serviço Social poderá exercer neste domínio.

[...] quem, estando perfeitamente senhor de todos os caminhos abertos na organização


social para atingir a resolução de dificuldades, surja ao lado do necessitado, estude a
sua situação individual e o seu meio familiar, profissional e local e depois o oriente em
segurança, para que ele próprio possa sair de apuros, estas senhoras (porque de
mulheres se trata normalmente) que assim surgem como guias eficazes da adaptação
do indivíduo ao seu meio e do melhoramento do meio em que o indivíduo se enquadra,
são agentes do Serviço Social, são as assistentes sociais” (Instituto de Serviço Social,
1944b, p. 3)268.

Enquanto profissional entende-se como sendo, o que possui melhor colocação na


realidade social e melhor conhecimento dos recursos que se abrem na organização
social, para atingir a resolução das dificuldades do necessitado, realizar o estudo da
situação individual e do seu meio familiar e profissional e, o oriente adequadamente. A
sua ação assenta em princípios ligados à autodeterminação do indivíduo no sentido
em que são suas próprias capacidades, as bases para sair das circunstâncias que o
constrangem e a sua finalidade é proporcionar ao indivíduo os meios para se ajustar
ou se reajustar a uma vida normal e a cumprir o seu destino como, também, a
melhoria do próprio meio. A razão deste destaque implica que, sendo o individuo o
objeto do Serviço Social, deve ser estudado em primeiro lugar. Conhecendo a sua
psicologia e os seus desajustamentos, compreender-se-á melhor a forma de o ajudar
a alcançar uma vida normal.

267 Vide em anexo L


268 Vide em anexo L

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 257


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A preocupação, de se consubstanciar uma prática de um “Serviço Social puro” e o


“ensejo de verem realizado um serviço social na sua pureza” surgem em 1948
constatando-se que este estaria a ser obstado já que [...] o Estado absorve grande
parte das alunas que se formam entregando-lhe funções mais ou menos burocráticas,
desvirtuando-se assim a sua função” (Associação de Serviço Social, 1948, p.3)269.
Para alguns membros da Associação de Serviço Social, como seja, o Dr. Vitor Fontes,
seria necessário ter a preocupação dentro dos objetivos tradicionais do Instituto, com a
preocupação cuidadosa das futuras assistentes sociais e “ [...] procurar insuflar-lhes o
bom espirito [...] “, o que competiria essencialmente às monitoras. Para o Dr. Paulo
Cunha “ [...] havia que ver como criar apostolas e não meras profissionais”
(Associação de Serviço Social, 1948, p.3)270

Estas razões levaram, em 1948 o professor Sousa da Câmara em reunião da


Assembleia da Associação de Serviço Social, a proferir algumas palavras,
questionando se o Serviço Social profissional não viria a falir num futuro próximo, uma
vez que se encontrava em crise em muitos países, ainda que as assistentes sociais
fossem uma necessidade. Olhando para o número diminuto de alunas formadas pelo
Instituto de Serviço Social, questionava quantas assistentes sociais seriam precisas ao
país, pois “é preciso ter muitas para que o País precise de poucas” (Associação de
Serviço Social, 1948, p.3)271.

Custódia do Vale, também, em 1948 aponta duas considerações sobre os problemas


da atualidade, o primeiro, sobre a condição de

Serviço Social no mundo e por falar do que se lhe pede e ele não pode dar, dizendo
que hoje em dia há por toda a parte uma tal “crença” no Serviço Social que em tudo
para ele se apela, verificando-se mesmo a tendência para se descarregar
exclusivamente nos trabalhadores sociais toda a preocupação social, pelo que as
relações entre os homens, já desumanizadas por outros fatores, mais endurecem a
tornam artificiais. Isto constitui um mal, pois só quando as principais relações sociais de
novo se humanizarem o bem-estar voltará ao mundo

O segundo problema

[…] resulta deste incremento desmedido do Serviço Social, é que, reclamados por
todos e para tudo, os trabalhadores sociais se tornam massa; essa massa já não tem

269 Vide em anexo S


270 Vide em anexo S
271 Vide em anexo S

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 258


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

escol dos primeiros tempos e consequentemente surge a crise do Serviço Social


(Associação de Serviço Social, 1948, p. 2) 272

Tratava-se, portanto, no entender de Vale, de uma “degenerescência” do Serviço


Social da qual seria necessário proteger as futuras assistentes sociais, proporcionando
a utilidade de fazer um bom trabalho em boas condições, razão pela qual o Instituto foi
criando os Centros e Residências Sociais como locais onde estas se poderiam
exercitar profissionalmente. Contudo, vem a reconhecer, mais adiante, que não se
poderá multiplicar rápida e indefinidamente os centros sociais e que haveria de
encarar, também, o Trabalho Social em Portugal.

Em 1957, a diretora Maria Carlota Lobato Guerra, numa exposição escrita reafirma
que neste período o “Instituto de Serviço Social é uma instituição particular que visa o
melhoramento das condições de vida e o progresso e bem-estar social da população
por meio de larga ação educativa e social” (Instituto de Serviço Social, 1957b, p. 1)273
e torna claro que, no encalce deste objetivo pretende-se realizar a difusão da doutrina
do Serviço Social, não só através de profissionais que prepara, como junto dos
responsáveis e, também, do público em geral. Estas profissionais, não deviam
descurar o estudo da evolução do meio, das correntes de pensamento e das novas
modalidades de ação, mas deveriam procurar conservar os princípios morais básicos
em face do outro.

Em 1946, Maria Carlota Lobato Guerra defende na reunião da União Católica


Internacional de Serviço Social, que a crise atual está na família, ou seja, que a família
está na base de todas as dificuldades que se colocam na vida social, às quais se
convencionou designar por problemas sociais.

Na altura enquanto recém-formada, Maria Carlota Guerra consegue sintetizar no seu


discurso uma posição clara sobre a origem dos problemas sociais e face a estes o
objetivo do Serviço Social “

D”une extrême acuité, ils se detachement três nettement sur le fond gris de l”humaine
souffrance, mais, ne concluons pas trop vite, il ne s”agit pas de problèmes isolés; bien
au contraire, il s” agit de manifestations diverses d”un immense problème infiniment
complexe mais unique, le problème de l´home affaibli e dévoyé qui ne veu plus
chercher la force, qui ne sait lus trouver son chemin. C”est donc l”homme surtout qu”il
faut imédiatement sauver; tremper fortement les âmes, former les couers et les esprits
selon l”ideal supérieur du véritable humanisme chrétien, voilá la tache la plus préssant

272 Vide em anexo S


273 Vide em anexo AT

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 259


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

du moment. Or cette tâche, point n”est besoin d”y insister, appartient en premier lieu à
la famille” (Instituto de Serviço Social, 1947a, Anexo III, p. 1)274.

Este discurso centra, claramente, a raiz e natureza dos problemas sociais no indivíduo
que sendo fraco se desvia do caminho certo, não querendo, por essa razão, procurar a
força nem encontrar de novo o seu caminho. Trata-se, portanto, de salvar o homem e
a sua alma, formando os corações e os espíritos, de acordo com esse ideal superior. A
definição deste contorno impõe às profissionais difíceis cruzadas em ordem à
regeneração da sociedade.

Porém, essa cruzada deverá ocorrer no seio da família, onde se pode contar com a
influência de todos os membros, com a mutualidade, interdependência e entreajuda, já
que

L”amour, le sens de la solidarité familiale stimulant l”esprit de sacrifice, le dévouement,


le respect, et par conséquent la force d”âme; dans cette ambiance d”élévation morale,
la notion de devoir pénetre et grandit, les vertus familiales- simplicité, maîtrise de soi,
soumission joyeuse, - se développent presque spontanément, el la perfectionnement
moral el cultural s”obtient sans efforts artificiels, mais tous simplement parce qu”on a
laissé jouer librement les virtualités admirables, mais, hélas, aujoud”hui bien
méconnues, de l”instituion familiale” (Instituto de Serviço Social, 1947a, Anexo III, p.
2)275.

Mais tarde, neste documento, a autora fundamenta esta abordagem na própria


Constituições de 1933, referindo-se ao capítulo 11º 276
consagrado à família “ O
Estado assegura a constituição e defesa da família, como fonte de conservação e
desenvolvimento da raça, como base primária da educação, da disciplina e harmonia
social, e como fundamento de toda a ordem política pela sua agregação e
representação na freguesia e no município”. E, ainda, ao Art.º 12ª – A constituição da
família assenta e 13º Em ordem à defesa da família pertence ao Estado e autarquias
locais e por fim ao Art.º 42º onde se refere que a educação e instrução são
obrigatórias e pertencem à família e aos estabelecimentos oficiais e particulares em
cooperação com ela (Instituto de Serviço Social, 1947a, Anexo III, p. 3)277. Assim, a
família é evocada não como uma abordagem defendida pela comunidade científica
senão pelo alinhamento com as instituições mais uma vez do próprio Estado Novo.

274 Vide em anexo O


275 Vide em anexo O
276 A autora por lapso aponta o Art.º 12º mas transcreve e traduz o Art.º 11 da Constituição de 1933
277 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 260


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Decorrente do exposto e num enfoque ainda mais sensível, verifica-se no texto que as
habilidades ou competências a desenvolver no sujeito, respeitam ao desenvolvimento
e educação das virtudes humanas, como seja: a elevação moral, o sentido de dever, a
simplicidade, o autodomínio e a submissão.

A própria Obra das Mães pela Educação Nacional surge numa linha de criação de
instituições de apoio à família e designadamente às famílias numerosas, atuando
principalmente junto dos Centros Sociais e de Centros de Educação familiar onde as
Assistentes Sociais e as Educadoras familiares, formadas pelo Instituto de Serviço
Social, exercem a sua atividade. Esta constatação foi retirada por Maria Carlota
Lobato Guerra na sua apresentação na reunião da União Católica Internacional de
Serviço Social em Bruxelas em 1946 quando refere “

D’ autre part, des institutions dont le but est de favoriser la famile ont éte créées
pendant ces dernières années, telle l”órganization féminine “Oeuvre des Mères pour
l”Education Nationale”, qui a tenté un mouvement d”aide aux familles nombreuses et
qui agit surtout au moyen de Centre Sociaux et de Centre d” Education familiale où les
Assistentes Sociales el les Educatrices Familiales formées à notre Institut déploient
leus activité” (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 4)278 .

Este facto explica, em grande medida, as marcas da matriz ideológica e doutrinária. A


autora acrescenta que os centros da Obra das Mães pela Educação Nacional,
juntamente com os Centros de Assistência Social criados pela Assistência Pública, as
Casas do Povo organismo corporativo da região rural e os Centros Sociais privados,
estão envolvidos pela mesma amizade cristã em estreita colaboração com todas as
forças do meio, que são:

Eglise, École, Familles, oeuvres de bienfaisance et des oeuvres sociales, médecins,


agronomes, autorités locales, etc, que les assistantes sociales el les éducatrices
familiales, toujours unies dans leur travail d´equipe, cherchant de réaliser, ou plutôt, a
aider, au relèvement des individus et des familles, à refaire des cadres sociaux où
l”institution familiale ait de nouveau la place à laquelle elle a droit, à poursuivre l” oeuvre
d” éducation: familiale, ménage, professionnelle, culturelle et morale, en un mot, la
formation de l”homme dont nous parlions au début. (Instituto de Serviço Social, 1947a,
p. 6)279

Mais uma vez, se identifica outro dos alicerces do Estado Novo indo ao encontro da
nova sociedade que Salazar (1889-1970) procurava edificar e que pressupunha um
regresso à antiga família patriarcal. A par de Deus e da Pátria a Família constituía um
dos pilares, e valores fundamentais, do regime. Tratava-se de uma instituição cujas
278 Vide em anexo O
279 Vide em anexo O

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 261


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

relações internas se fundavam não no confronto mas na colaboração, entendendo-a


como o centro da solidariedade e referência ideológica. Contudo, a própria família
tinha de ser educada, pois após anos de republicanismo

Apesar de, no plano de estudos não localizarmos disciplinas ou matéria dedicada ao


estudo dos métodos, concluiu-se existir uma consciência profissional do que pode ser
abordagem individual, grupo e comunidade.

Como porém ainda não há entre nós profissionais especializados neste sector, penso
que o caminho mais adequado seria um trabalho individual e de grupo se possível,
junto dos "liders" locais no sentido de os abrir para uma responsabilidade comunitária e
à mobilização dos recursos locais para solução dos problemas encontrados em
conjunto. Penso ainda que o Centro se deveria ocupar também e pelo mesmo método
doutros grupos que se fossem formando naturalmente e tentar fornecer à comunidade
de forma cada vez menos directiva os meios ao seu alcance, quer materiais quer
técnicos, que fossem necessários fases iniciais duma ação neste sentido” (Santos,
1958, p. 186).

Nesta linha de entendimento, torna-se fundamental dar conta de duas notas


apresentadas no relatório de atividade do ano de 1953, notas essas raras em
documentos desta natureza, a primeira por referência ao desenvolvimento dos
métodos tradicionais

Quanto ao Centro da Bempostinha interessa notar que tratando-se do Centro mais


antigo do Instituto, há já ali um verdadeiro Serviço Social de Grupo, o que é muito
importante para o nosso país como o nosso onde as Assistentes Sociais quási só
fazem trabalho de casos

E a segunda que

Também se assinala como progresso o interesse crescente de vários rapazes do meio,


alguns já pais de família, que activamente se ocupam das actividades do Centro,
tomando eles próprios a responsabilidade de várias tarefas e manifestando real
melhoria na sua formação (Instituto de Serviço Social, 1954a, p. 9)280.

Estes aspetos deverão ser entendidos como sinais de transformação e abertura para
um novo período, um novo plano de estudos e consequentemente um novo projeto
educativo. Um período que sem dúvida aponta para a consolidação dos métodos,
mostrando abertura a novos contornos de envolvimento no Serviço Social.

No relatório elaborado sobre o ano de 1954, a sua diretora conclui

280 Vide em anexo AI

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 262


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Simplesmente que sente, como nós temos possibilidade especial de sentir, a dolorosa
tragédia de tantos seres que vivem dia a dia, ano a ano, numa degradação progressiva
a que o Serviço Social, não consegue arrancá-los, quem ouve, como nós podemos
com tanta frequência ouvir de tantos lados, crescer essa onda de malquerenças, de
incompreensões, de desconhecimento mútuo, que opõe cada vez mais fortemente as
classes, quem pode, como nós podemos, olhar de perto as chagas sociais que
alastram e a insensibilidade geral que cresce, quem vê e vive tudo isto, não consegue
pensar que baste fazer muito. Em momento tão grave menos do que tudo é sempre
nada (Instituto de Serviço Social, 1955, p. 9,10) 281.

Apesar deste trecho datado de 1955 e nos remeter para uma esfera individual
enquanto raiz dos problema sociais, constata-se em 1957 um enfoque diferente
salientado por Maria Carlota Guerra. No seu relatório de 1956, refere-se que

[…] o Instituto de Serviço Social pende hoje para as actividades de Acção Social, isto é
para o trabalho de influência sobre os quadros sociais e sobre os grandes grupos
populacionais, visando a reforma das estruturas no sentido de as tornar favoráveis à
valorização e desenvolvimento humanos na sua integralidade”. E, acrescenta que, para
tanto, se torna necessária “a participação em comissões para estudo ou ação,
constituídas geralmente por elementos de várias profissões em diferentes sectores da
vida nacional e orientadas para o exame dos grandes problemas sociais do momento
(Instituto de Serviço Social, 1957a, p. 1)282.

Esta visão denota sinais de transição do projeto educativo face ao novo período que
se avizinha, resultante dos trabalhos efetuados em 1955 em ordem à sua
consubstanciação através da alteração no plano de estudo em 1956.

A este propósito é curioso salientar um fato que assinalava a vida do Instituto no ano
de 1953 “a Benção e a entrega dos Evangelhos às Finalistas. Realizada em grande
intimidade, a 23 de Julho no Paço Patriarcal, por sua Eminência o Senhor Cardeal
Patriarca”. Esta cerimónia traduz o direcionamento da missão destas profissionais
acrescentando o referido relatório que

Sentimo-lo nós a “velha guarda”, que mais confiante vê partir para a vida as novas,
quando se sabe munidas dessa fonte de força e de luz que os Evangelhos constituem,
quando pensa que os receberam como símbolo da sua futura missão (Instituto de
Serviço Social, 1954a, p. 2)283.

281 Vide em anexo AL


282 Vide em anexo AS
283 Vide em anexo AI

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 263


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Encontramos menção a esta cerimónia na acta Assembleia Geral da Associação de


Serviço Social, (1954b, p. 2)284Em 1952 esta noção continua e a persistir a própria
diretora refere, na Assembleia desse ano

[…] a alguns problemas atuais do Serviço Social, que se deparam sobretudo no


estrangeiro, falando especialmente da excessiva burocratização dos serviços assim
como a atual tendência para as assistentes sociais se tornarem apenas umas “técnicas
dos casos psicológicos (Associação de Serviço Social, 1952, p. 3) 285.

Depreende-se das palavras da diretora que a ação dos profissionais se julga mais
ampla e mais lata, o que significaria que, as raízes dos problemas não estarão apenas
nas condições psicológicas da pessoa mas noutras condições que apenas
profissionais, dotados de espirito cristão se aventurariam a perscrutar. Com efeito,
entende, que a assistente social não deva passar por ser apenas um técnico que
embora competente, apenas distinga para o seu “cliente” o emaranhado das obras e
leis sociais, apresentando-se como um mero “dépange”286.

Maria Carlota vai ainda mais longe e questiona

[…] se se trata de técnicas dos casos psicológicos, que tenham verdadeira e profunda
preparação médica e filosófica e assim façam séria e ultimamente “case-work, não
estremos perante outra profissão, intimamente relacionada, é certo, com Serviço
Social, mas na realidade diferente não só quanto ao seu fim, mas sobretudo, quanto ao
âmbito e processos? (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 2) 287

Esta conclusão é reforçada no debate gerado na Assembleia desse mesmo ano onde
são discutidos certos desvios da atuação social em todo o mundo e que

[…] ameaçam comprometer o espirito da caridade cristã, e da necessidade de


aproximação das obras católicas para conservar e estimular esse espírito e ainda
conseguir um mais perfeito entendimento entre os que nela trabalham e um melhor
coordenação das atividades, pondo em comum a sua experiência e as suas
possibilidades de mútuo auxílio (Associação de Serviço Social, 1952, p. 3)288.

Na verdade, para Maria Carlota Lobato Guerra, em Portugal ainda se conserva muito
puro o conceito do Serviço Social e pensa-se na assistente social como a “Amiga” que
se

284 Vide em anexo AJ


285 Vide em anexo AC
286 Dépanage, entendida aqui como mero solucionador de problemas. Tradução minha.
287 Vide em anexo AE
288 Vide em anexo AC

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 264


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

[…] poderá aproximar-se das Famílias e ser recebida em casa com alegria e confiança.
Mantem-se a noção de que ela deve conhecer a vida daqueles que serve, entrar nos
seus meios, humanizar ali as relações sociais por uma acção discreta, ao mesmo
tempo apaziguante e estimuladora (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 2) 289.

Ao contrário de outros países, onde a profissão é mais antiga, terão evoluído para
outras formas de ação, fruto da pressão das correntes de pensamento e, sobretudo,
das convulsões da segunda guerra mundial.

Verdadeiramente, questiona-se se se está perante evolução ou degenerescência, se


efetivamente o função da assistente social, nesses países, não será a de ser

[…] mais uma técnica que se vai consultar a tal hora, em tal escritório, do que aquele
elemento dinâmico e maleável que integrado em cada meio, aproximando-se das
Famílias, constituí como que fermento na massa e ajuda a cada um a encontrar, pelas
suas próprias luzes e forças o caminho da recuperação ou do aperfeiçoamento
(Instituto de Serviço Social, 1953, p. 2) 290.

A diretora do Instituto Maria Carlota Lobato Guerra, em intervenção em reunião da


direção da Associação de Serviço Social de 1953, aponta esse ano para a
necessidade de modificações na orientação a nível do ensino dizendo que

[…] parecia ter-se chegado ao ponto culminante da viragem que de há tempos se vem
dando lentamente no Instituto: de escola para preparação de agentes de Serviço Social
directo vai ter de se passar pela pressão do exterior (que força a elevar o nível dos
programas e sobretudo transformar a formação dada) para centro de preparação de
agentes de direcção e de administração obras sociais (Associação de Serviço Social,
1953a, p. 2)291.

As razões apontadas, nesse documento, para esta viragem assentam no fato de se


considerar o emprego de assistentes sociais e educadoras familiares no trabalho
direto como mais económico; a existência de projeto de criação de escolas oficiais de
Serviço Social para auxiliares em Lisboa, Porto e Coimbra e, ainda, a absorção de
quase todas as assistentes sociais formadas pelo Instituto pela Assistência Pública
enquanto dirigentes de um grande número de auxiliares sociais.

A criação de escolas oficiais de Serviço Social era, portanto, de grande inconveniente


para o projeto educativo do Instituto e entendido como sinal de que do

[…] aparecimento em Portugal, mais tarde ou mais cedo, do Serviço Social laico do
espirito mercenário, o possível desânimo da iniciativa particular pela dificuldades de

289 Vide em anexo AE


290 Vide em anexo AE
291 Vide em anexo AF

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 265


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

competição com as escolas do Estado, a provável dificuldade, no futuro, de colocação


para as diplomadas pelo I.S.S. e até o perigo da supressão dos atuais subsídios de
entidades oficiais a esta instituição (Associação de Serviço Social, 1953a, p. 2,3)292.

Esta preocupação levou Maria Carlota Guerra a procurar alguns apoios a fim de se
evitar a criação das referidas escolas, tentando encontrar-se com o Cardeal Patriarca
e com o Subsecretário da Assistência Social para entender quais seriam, doravante as
funções do Instituto. Relativamente ao Cardeal Patriarca não obteve qualquer
resultado prático e para aquele Subsecretário, entende-se da ata que, sendo o
Instituto uma obra subordinada ao Ministério da Educação Nacional, não estaria na
sua esfera de atuação, tendo apenas a opinião de o “Instituto não fornece um número
de diplomadas suficiente” (Associação de Serviço Social, 1953a, p. 3)293.

Ao confrontar-se com estas perspetivas, Maria Carlota Guerra decide, encontrar-se


com o Bispo do Porto

[…] para lhe expor a sua convicção da urgência da criação naquela cidade de um
Instituto de Serviço Social para formação de assistentes sociais e de educadoras
familiares” que apesar do interesse, este revelou também “bastantes apreensões
quanto à viabilidade do projecto (Associação de Serviço Social, 1953a, p. 2)294.

Se atendermos, aos esclarecimentos prestados acerca das objeções levantadas a


propósito do envio à Câmara Corporativa do projeto de proposta de Lei nº516 de 23 de
janeiro de 1956, percebe-se, neste período, a necessidade de aclarar o debate em
torno da definição de Serviço Social. Neste diploma, considera-se Serviço Social em
sentido lato pois engloba duas formas de Trabalho Social que devem sempre coexistir,
correspondendo uma noção de Serviço Social em sentido estrito e outra à Educação
Familiar (República Portuguesa, 1956, [fl.4])295.

O Instituto de Serviço Social, defende a doutrina de que no Serviço Social subsistem


duas formas específicas de atuação: o Serviço Social em sentido estrito e a Educação
Familiar.

O Serviço Social em sentido estrito,

[...] visa de modo particular a inserção do homem no “social”, ajudando-o a fazer o


ajustamento dos indivíduos aos vários meios em que se enquadram, quando por si eles
não têm possibilidades de o conseguir, procurando reparar ou evitar os males

292 Vide em anexo AF


293 Vide em anexo AF
294 Vide em anexo AF
295 Vide em anexo AO

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 266


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

causados pela civilização desumanizada dos nossos dias, prestando auxílio de toda a
natureza às famílias e aos indivíduos em condições especiais psicológicas, morais, de
trabalho, saúde, ou deficiência económica, e tentando dar uma contribuição útil,
quando não essencial, para a reforma das estruturas, a criação de quadros sociais
mais consentâneos com a natureza e a dignidade humana, quer através de uma ação
directa, quer através dos estudos sociológicos que devem constituir a base de todo o
planeamento e ação sociais (Instituto de Serviço Social, 1957b, p. 1) 296e (Republica
portuguesa,1956, anexo p. 2)297.

A Educação Familiar,

[…] visa de uma forma específica a vida familiar nos seus múltiplos aspetos, a
formação e aperfeiçoamento dos vários membros da família, o fortalecimento da
própria estrutura familiar, a ocupação do tempo livre, isto através da ação directa junto
dos indivíduos ou através das actividades de grupo, lançando mão de todos os
processamentos modernos utilizáveis na formação moral e psicológica, no
aperfeiçoamento cultural e técnico, na melhor preparação para a vida doméstica,
conduzindo a uma mais perfeita integração no meio social, preparando os indivíduos
para uma adaptação rápida e equilibrada às novas estruturas, as comunidades do
futuro (Instituto de Serviço Social, 1957b, p. 1,2) 298.

Ora, esta distinção nas necessidades do Serviço Social é assinalado como decorrente
de uma consciência lógica e de exigências de uma especialização face à divisão do
trabalho que conduz à diferenciação dos seus agentes. Caso hipoteticamente se
admitisse um único tipo de agente para as várias funções do Trabalho Social, a sua
preparação teria de abranger um conjunto de conhecimentos e técnicas
imprescindíveis a uma ação profunda em qualquer destes campos que exigiria um
formação demasiado longa e consequentemente impossível de ser ministrada
(República Portuguesa, 1956, anexo p. 3)299.

Isto, para além de se considerar que, na prática, os desafios da vida profissional não
reúne as condições necessárias para que o mesmo agente possa ocupar-se ao
mesmo tempo de ambos os desempenhos de forma eficiente. Qualquer destas
atividades é extraordinariamente absorvente e exige disponibilidade total (Republica
Portuguesa, 1956, anexo p. 3)300

A análise em seguida apresentada pretende, analisar quais as representações


desenvolvidas pelo projeto educativo sobre as áreas e campos de atuação do Serviço
Social, isto é, os âmbitos de intervenção próprios da atuação profissional. Vieira (1980,

296 Vide em anexo AT


297 Vide em anexo AO
298 Vide em anexo AT
299 Vide em anexo AO
300 Vide em anexo AO

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 267


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

p. 66), refere-se à classificação que divide o Serviço Social por campos de aplicação,
isto é, família, menores, escolas, saúde, empresas, delinquência, meio rural, etc. e,
acrescenta que, a partir desta classificação, ou melhor dentro de cada campo, os
congressos nacionais e internacionais procurariam estudar desta maneira o Serviço
Social no que respeita, aos problemas a serem resolvidos, a clientela, os recursos, etc.
Sendo comum que os programas das escolas apresentassem a mesma divisão seja
das cadeiras teóricas como no campo dos estágios301.

No sentido de ir ao encontro desta abordagem propõe-se partir de um olhar atento


sobre os relatórios das viagens de estudo e sobretudo sobre as comunicações
apresentadas na época junto da comunidade científica, sendo possível apurar, através
de discurso mais reflexivo, quais as áreas de atuação privilegiadas por este projeto
educativo fundador.

Em 1946, em comunicação apresentada por Custódia do Vale, em Bruxelas esta


refere-se o Serviço Social na indústria, o Serviço Social rural, o Serviço Social e a
família, o Serviço Social penitenciário (Instituto de Serviço Social, 1947a, p. 2)302. No
mesmo documento propõe uma outra leitura, colocando em evidência o Serviço Social
em Centros Sociais, referindo que

Les travailleus sociaux portugais travaillent dans ce cadre à toutes les formes de
Service Social, d”usine, de secteur et surtout dans des Centre Sociaux, la formule qui
correspondant le mieux ai caracteristique de notre millieu (Instituto de Serviço Social,
1947a, Anexo VII, p. 1)303 .

Maria Carlota Lobato Guerra (1952) vai ao encontro desta mesma ideia referindo que
em certos setores, como seja o Serviço Social do Trabalho, Serviço Social Rural e
sobretudo Residências Sociais, parecem ser os únicos a manter-se fiéis ao conceito
do Serviço Social Tradicional (Instituto de Serviço Social, 1953, p. 2)304

Atendendo, como vimos, a todo o reflexo das estratégias e influências dos agentes
envolvidos na institucionalização desta primeira escola de Serviço Social, este
materializou-se, claramente, na formação com um claro domínio da saúde pública e da
medicina social contribuindo, em larga medida, para tornar a área da saúde, a área

301 Arthur E. Fink, na sua obra de 1941, The field of social work, segue também esta classificação. O autor
divide o Serviço Social em campo da família, menores, escolar psiquiátrico, médico social, correcional,
grupo e comunidade.
302 Vide em anexo O
303 Vide em anexo O
304 Vide em anexo AE

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

que ocupa o maior número de assistentes sociais e educadoras familiares. A


necessária atuação e incorporação dos trabalhadores sociais nestes campos de
atuação resulta clara da análise do próprio Decreto-lei nº 30 135 de 14 de Dezembro
de 1939, que estabelece os princípios gerais de orientação e coordenação dos
estabelecimentos de educação para o Serviço Social e se aprova o primeiro plano de
estudos e programa, dando primazia às disciplinas e estágios ligados à área da saúde.

Não será igualmente alheia a esta questão, a criação em 1948 da Organização


Mundial de Saúde305 responsável, em grande medida, por implementar a ideia de que
a saúde passasse a ser considerada não apenas como um problema físico-biológico
mas também como resultante da relação dialética do indivíduo com o seu meio
ambiente. Com efeito nem tão pouco as exigências que doenças como a tuberculose,
sífilis, lepra, doença mental e cancro impunham como alvo das atenções sociais.
Sobretudo a necessidade da sua prevenção e de agir, em tempo encetada pela luta
contra a tuberculose, obriga a transformar o problema social e a mobilizar as energias
humanas e sociais necessárias para assegurar a consistência de um plano para
promover o despiste das “doenças sociais” em geral e da tuberculose em particular.

A relação estreita com a saúde foi particularmente intensa e a trajetória dos


assistentes sociais na área da saúde foi, pouco a pouco, criando uma identidade face
aos restantes profissionais com quem partilhavam o campo profissional. É, também,
num cenário posterior à Segunda Guerra Mundial, anos 40 que se começa a implantar
um novo modelo de saúde no qual o hospital passa a ser o centro de referência da
prática médica onde a prática do Assistente Social (Martinelli, 2003, p. 11) é
considerada indispensável.

Em 1949, o relatório de atividades ilustra esta relação umbilical, dando conta da


participação da diretora do Instituto no curso de Subdelegados de Saúde

Ainda no campo da difusão dos princípios sociais devo referir a participação do Instituto
no curso anualmente organizado para os Sub-delegados de Saúde, no Instituto de

305 A Organização Mundial de Saúde, (1948) que entende que “A saúde é um estado completo bem-estar
físico, mental e social e não consiste apenas na ausência de doença ou enfermidade” (WHO,1948). Esta
perspetiva, inovadora para a época e já bastante conhecida e divulgada por aquela organização
introduziu uma conceção mais dinâmica da vivência biológica enquanto inseparável do contexto
sociocultural, psicológico, económico, ecológico, em que o indivíduo vive, superando uma perspetiva
negativa de entendimento da saúde como ausência de doença. A constituição da Organização Mundial de
Saúde foi adotada pela Conferência Internacional de Saúde, Nova Iorque, 19-22 Junho, 1946; assinada a
22 Julho de 1946 pelos representantes de 61 estados e entrou em vigor a 7 de Abril de 1948. Esta
definição de saúde não foi alterada desde 1948.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 269


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Higiene, por meio de palestra sobre Serviço Social que ali realizei em Maio, a convite
do respectivo Director (Instituto de Serviço Social, 1949b, p. 8)306

No entanto, esta incorporação foi realizada, oferecendo aos trabalhadores sociais um


papel secundário e acessório, de meros auxiliares como se ilustra a referência da
aluna no seu trabalho monográfico e reportando-se à área da higiene e saúde pública -

O Serviço Social procuraria fazer compreender a necessidade de cumprir as ordens


dadas nêste capítulo de higiene, não só porque são ordens, mas também porque visam
unicamente a saúde da população. Também prepararia o povo para, inteligentemente,
receber todas as vacinas que fossem aconselhadas como medidas profiláticas (Frage,
1945, p. 217).

Em consequência, as assistentes sociais assumiam-se como ajudantes capazes de


controlar o correto cumprimento do tratamento prescrito, de passar normas de higiene,
bem como e de possuir algumas competências para ensinar e preparar os pacientes.

Em 1949, no relatório de atividades do Instituto de Serviço Social poderemos


encontrar referência a uma atividade que contou com o desenvolvimento do tema
“Serviço Social e a Dôr”. Este tema foi tratado por algumas alunas finalistas que
trouxeram algumas assistentes sociais que trabalhavam em hospitais, obras de
regeneração, prisões e junto de doentes mentais. Esta atividade contou para além de
testemunhos a

[…] projecção duma série de “films” que focam chagas sociais e os meios de as sarar,
e ainda pelo estudo da alegria cristã feito por uma estagiária final. A Missa, as
Trindades rezadas na capela, a benção do Santíssimo a concluir o dia e as práticas
que acompanhavam cada um destes actos religiosos puseram a nota cristã, fazendo
encarar a dôr nos seus aspectos mais profundos e mais consoladores (Instituto de
Serviço Social, 1949b, p. 5)307.

Como vimos em capítulos anteriores, onde se abordou a política educativa do Estado


Novo, percebeu-se que, neste período, ser-se educado segundo a posição social
significava aceitar para cada um a condição rural, colocando a tónica nos valores do
campo. Destaca-se, ainda, o facto de, em 1934, o primeiro Congresso da União
Nacional determinar que o ensino devia prender o homem à terra, dando-lhe
elementos para nela viver e a valorizar o que só poderia ocorrer como resultado de
uma preparação adequada ou simplesmente doutrina-lo. Tal princípio julga-se estar
subjacente ao projeto educativo do Instituto e subjaz tanto no discurso institucional
como das alunas.

306 Vide em anexo X


307 Vide em anexo X

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 270


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A atuação do Serviço Social na área rural foi, desde muito cedo, apropriada pelas
alunas como área de atuação profissional tal como poderemos verificar na colocação
da aluna quando refere na sua monografia

Creio que se é necessária uma Assistente Social Rural, mais necessária é a presença
de uma educadora familiar, cuja missão mais se adapta às necessidades de uma boa
utilização de tempo livre, e de educação familiar na Vila do Cadaval (Ribeiro, 1947, p.
145).

Em 1949, o professor Sousa da Câmara, em reunião da Assembleia de Serviço Social,


salienta a necessidade do Instituto de Serviço Social investir na formação das
populações rurais e esclareceu o que desejaria

[…] ver fazer em Portugal como o exemplo do que se passa em Inglaterra, onde o
“Country agente””308, verdadeiro João Semana agrícola, de colaboração com a “Home
demonstrator”, a assistente social rural se ocupam das populações rurais, e com outro
exemplo americano, o dos “4H” 309 uma organização educativa de rapazes e de
raparigas (Associação de Serviço Social, 1949, p. 7) 310.

No entanto, resulta fundamental para Associação de Serviço Social, a necessidade de


trabalhar com as populações rurais e iniciar a definição de um novo perfil de
assistentes sociais - a Assistente Social Rural (Associação de Serviço Social, ata nº
12, 1949, p.7).

Em 1951, Maria Carlota Lobato Guerra anuncia no relatório de atividade do Instituto de


1950 que

[…] é-me particularmente grato referir uma nova actividade do Instituto de Serviço
Social – a sua actuação em meios rurais. Iniciada em Março de 1950 pela assistente
social Maria Helena Costa Trigo que em Mora e em algumas localidades vizinhas se
dedicou ao estudo e actuação directa, procurando penetrar no meio e analisar certos
problemas sociais, incidiu ultimamente também sobre Vila Cova, terra da Beira para
onde foi insistentemente solicitada a acção do Instituto de Serviço Social (Instituto de
Serviço Social, 1951, p. 5)311

De novo, no relatório de atividade de 1952, os progressos de Maria Helena Costa


Trigo são acentuados, dando-se evidência aos conseguidos no Vimeiro, Monte Trigo e

308 Agente rural – tradução livre


309Trata-se de uma organização juvenil dos Estados Unidos da América, fundada nos finais do seculo XIX
e ainda administrada atualmente pelo Departamento de Agricultura. Reune cerca de 6,5 milhões de
membros entre os 5 e os 19 anos em cerca de 90.000 clubes espalhados por vários países. Os quatro H
refere-se a (Cabeça, Coração, Mãos e Saúde)
310 Vide em anexo W
311 Vide em anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 271


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Santa Sofia do distrito de Évora, em Vila Cova, perto de Ceia e em Pias do Distrito de
Beja.

Trata-se de um meio nitidamente alentejano quanto à mentalidade, regime de cultura e


problemas de trabalho – numa população de 7.000 habitantes há poucas semanas
estavam 400 homens atingidos pela crise de desemprego – a propaganda comunista é
intensa e há a par disto no próprio meio várias boas vontades a congregar (Instituto de
Serviço Social, 1953, p. 11)312.

As perspetivas de evolução deste tema justificam o enfoque realizado, não deixando


de se referir o facto de se ter constituído em 1952 um grupo de trabalho para o Bem-
estar Rural, da Comissão Nacional da Food and Agriculture Organization of the United
Nations (F.A.O)313 uma vez que do Instituto têm partido pedidos de colaboração de
várias entidades oficiais e particulares interessadas, na sua sede têm sido realizadas
as respetivas reuniões e são várias as assistentes sociais do Instituto a trabalhar nesta
área. A constituição deste grupo de trabalho corresponde, portanto, a uma “velha
aspiração” da Associação de Serviço Social de se unir os interessados pela causa da
ruralidade e realizar uma grande ação no futuro.

No decurso da atividade do Instituto de 1953, apresenta-se a decisão da Direção de


“considerar daqui por deante o trabalho em meio rural como uma das suas formas de
actuação directa, a par dos Centros Sociais que possue.” (Instituto de Serviço Social,
1954a, p. 4)314. Continua esse relatório a dar conta de que o “Grupo de trabalho Bem-
estar Rural, da Comissão Nacional da Food and Agriculture Organization of the United
Nations que continuou igualmente por 1953 a sua ação “visando sobretudo o
planejamento de Cursos Ambulantes de Educação Familiar e de Cursos de Férias
para professores primários, que está tentando organizar.”

Ainda a este propósito, refere-se no relatório de 1954 que este grupo

[...] reuniu apenas duas vezes porém a sua actividade manteve-se durante todo o ano,
orientando-se especialmente no sentido de conseguir a organização dos Cursos
Ambulantes de Educação Familiar e do serviço Social junto dos Ranchos da cultura do
arroz. Ambas estas iniciativas haviam partido do mesmo Grupo de trabalho. Para sua
efectivação foram pois entregues ao sector Rural do I.S.S.” (Instituto de Serviço Social,
1955, p. 7)315

312 Vide em anexo AE


313 F.A.O – Sigla para Food and Agriculture Organization of the United Nations
314 Vide em anexo AI
315 Vide em anexo AL

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 272


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

As alunas, por seu turno, estabelecem as ligações necessárias desta área de


intervenção com as instituições corporativas do Estado Novo, como é exemplo na
“Monografia de Terra Chã” onde a aluna acentua o papel do Grémio da Lavoura em
que "[...] haveria de fazer ver ao povo as vantagens que lhe podem vir duma
verdadeira ajuda do Grémio nas obras de fomento local” (Frage, 1945?, p. 217).

Contudo, Maria Carlota Lobato Guerra expressa que “as vocações rurais não
abundam mesmo entre as alunas vindas da província” preocupando-se com a
excessiva burocratização a que se vêm sujeitas as trabalhadoras sociais e acrescenta
que

Em muitos serviços, a assistente social desempenha funções de administradora


social, para as quais a escola não a preparou, mas para as quais, ela muitas vezes,
satisfaz mercê da grande facilidade de adaptação dada pelo curso mas os lugares de
contacto directo estão confinadas a visitadoras e auxiliares sociais (Associação de
Serviço Social, 1951, p. 2,3)316.

Esta área de atuação rural efetivamente concorda-se que de trata de uma área de
atuação que oferece muitas possibilidades de trabalho, mas onde poucos desejam
trabalhar. As alunas parecem preferir o trabalho das zonas urbanas, sobretudo, nas
cidades.

Ao nível da área do trabalho e por forma a complementar formação foi, ainda,


autorizado em 1946 pelo Decreto-Lei-nº 35 457 de 19 de janeiro317 a criação no
Instituto de Serviço Social um curso de especialização técnica em Serviço Social
Corporativo,” [...] orientado para a intervenção no campo do trabalho através da
actividade social dos organismos corporativos e da cooperação em obras sociais da
iniciativa das empresas ou do respectivo pessoal” (Decreto-Lei-nº 35 457 de 19 de
janeiro 1946, p. 35), com a duração de um ano.

Este curso de especialização contemplava a orientação do ensino em dois grupos de


matérias, as que respeitavam aos aspetos fundamentais do trabalho como seja: a
evolução do trabalho e suas características atuais nos meios rurais e industriais;
orientação e preparação profissional; organização racional do trabalho; higiene
industrial; o panorama agrícola e industrial português (estudo das várias regiões
agrárias e industriais. Indústrias caseiras); organização corporativa do trabalho, que
respeitam à melhoria do nível social; a previdência; pedagogia e cultura popular.

316 Vide em anexo Z


317 Vide em anexo N

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 273


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Estes profissionais contaram com o título de assistentes de serviço social corporativo


tendo o dever de prestar ao Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, todos os
esclarecimentos que lhe forem pedidos acerca dos assuntos que disserem respeito ao
exercício das suas funções

Após a frequência do curso a assistente social deveria prestar provas da respetiva


matéria perante um júri de cinco membros, nomeados pelo Ministro da Educação
Nacional, pelo subsecretariado de Estado das Corporações e Previdência Social, de
que farão parte representantes daqueles dois departamentos. Os restantes poderiam
ser escolhidos entre os professores

Da análise da ata nº 12 da Associação de Serviço Social de 1949, poderemos ainda,


concluir, que seria uma velha aspiração dos corpos gerentes do Instituto de Serviço
Social, a organização de um Centro Social num bairro fabril, destinado, a servir de
lugar de estágio das alunas e a assegurar um maior conhecimento das populações
operárias. A questão financeira para lidar com as despesas iniciais e a falta de uma
assistente social que possa dirigir o Centro colocaria em questão este projeto.

O relatório de atividades do ano de 1949 faz ainda referência a que finalmente se


efetivou um projeto desde há muito acarinhado pelo Instituto e que se destina a
proporcionar às alunas o contacto com meios operários através de estágios em
fábricas. Nesta sequência, organizado pelo Dr. Manuel França Vigon (1906-1974) sob
o patrocínio do Subsecretariado de Estado das Corporações e Previdência Social,

Dez empresas nos abriram as portas, sendo justo referir que em todas as estagiárias
foram tratadas o melhor possível. A entrada no meio fabril fez-se das formas mais
diversas, pois só pela adaptação às circunstâncias locais algum proveito poderia obter-
se. Desde a visita pormenorizada a todas as fábricas feita durante 6 dias completos,
que ocupou toda a estadia na C.U.F., no Barreiro, até ao trabalho de empacotar tabaco
realizado pelas estagiárias a par das operárias, num entendimento que deixou lágrimas
numas e noutras à despedida, passando ainda pelo serviço de enfermagem na fábrica
de Penteação de Lãs na Alhandra, etc., de tudo se fez, na preocupação de tudo se
conseguir um bom contacto com o meio. E fez-se com proveito seguramente, embora,
em virtude do atrazo com que chegaram ao I.S.S. as necessárias autorizações das
empresas, num período tão curto que não poude considerar-se de facto tal actividade
um verdadeiro estágio (Instituto de Serviço Social, 1949b, p. 4) 318.

São, efetivamente, empresas que se preocupam com a problemática social dos


trabalhadores designadamente o (Grupo CUF) que fomentam esta abertura. Agindo

318 Vide em anexo X

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 274


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

em monopólio procuram não só integrar as modernas técnicas de produção do ramo


da engenharia como, paralelamente, estruturam as empresas na tentativa de diminuir
as tensões sociais, no sentido de proporcionar aos operários regalias que não existiam
em outras empresas. Tratava-se de uma estratégia de investimento na mão-de-obra a
longo prazo, acompanhada de uma estratégia de ligação do pessoal à “Companhia”,
desde o início até ao fim da vida

[...] numa progressiva apropriação do espaço e do tempo do trabalhador: cantinas,


messes, creches, bairros operários, caixas de previdência, serviços sociais de saúde,
de medicina no trabalho e de pessoal, equipamentos desportivos, centros educativos,
concursos de trabalho, remunerações mais elevadas, estímulos aos melhores alunos
das escolas industriais, política de aprendizagem e formação profissional, definição de
um sistema de promoções e duma carreira profissional no grupo CUF, pensões,
diuturnidades, ocupações dos tempos livres (colónia de férias, festas, excursões,
visitas de estudo, desportos, grupo cénico) preferências aos familiares, comissão
interna da empresa, etc.(Lima, 1982, p. 1329).

Desenvolvendo uma perspetiva paternalista, a empresa torna-se uma grande família,


em que o patronato toma a seu cargo todos os aspetos da vida do seu pessoal,
criando um clima de cooperação e de reprodução endógena da força de trabalho. Este
campo surgira naturalmente fértil para o desempenho e saída profissional.

O esforço de aproximação do Instituto de Serviço Social ao meio fabril é claro não


fora, ainda, o esforço da Direção realizado esse mesmo ano em levar ao Porto

[...] a tomar parte na IIIª Semana Social Portuguesa, todas as finalistas, aproveitando-
se também a ocasião para visitar fábricas, Casas do Povo e outras obras sociais de
interesse daquela região (Instituto de Serviço Social, 1949b, p.5)319.

Em 1950, assiste-se a uma expansão designadamente na abordagem do papel do


Trabalho Social no domínio da Previdência marcando a tentativa de aperfeiçoamento
principalmente com a preparação dos aspetos relacionados com o meio operário, e
com o qual as alunas menos tomavam contato “

Assim o ensino da Cadeira de Organização Corporativa, Legislação do Trabalho e


Previdência é hoje muito mais prática, sendo uma parte da matéria dada atravez de
visitas a Sindicatos e Grémios, etc. Passou a fazer-se novamente o ensino da Higiene
do Trabalho, e iniciaram-se verdadeiros estágios em empresas industriais. É
interessante notar que algumas destas pediram às nossas estagiárias trabalhos de
estudo do meio como base para futuras medidas em favor do seu pessoal, trabalhos
esses que, se não foram talvez em alguns casos a melhor forma de penetração no

319 Vide em anexo X

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 275


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

meio, indicam no entanto boa compreensão do papel do Serviço Social e confiança nas
alunas do Instituto (Instituto de Serviço Social, 1951, p. 3)320.

Nesse ano foi, ainda, realizada visita à Metalúrgica Duarte Ferreira onde as alunas
tiveram ocasião de tomar contato com a população operária das mais características e
interessantes.

No entanto, já em 1945 as alunas consideravam o seu papel ao nível da Previdência


"O Serviço Social deveria também colaborar com a delegação do Instituto Nacional do
Trabalho e Previdência afim de procurar remediar os casos de desemprêgo, acidentes
no trabalho, etc.” (Frage, 1945?, p. 216)

Entende-se aqui, que a função dos profissionais se relaciona com o bem-estar social
dos operários, empregados da empresa e das suas famílias. Identifica-se, claramente,
a função assistencial no atendimento às necessidades individuais e grupais dos
trabalhadores e uma função investigadora dos problemas pessoais e familiares e
sociais que poderão vir a atingir esses trabalhadores. No entanto, poderíamos
identificar segundo Vieira (1955, p. 33) ainda outras funções tradicionais, a função
informativa e a função de gestão de recursos sociais, organização de tempos livres e
férias, incentivo a serviços e programas dentro da empresa como seja: refeitórios
sociais ou para trabalhadores, orientação familiar, creches, organização de clubes,
bolsas de estudo para filhos de operários e empregados, escolarização, formação de
cooperativas de consumo.

Recorrendo à análise realizada em torno das monografias, no sentido localizar o


entendimento por parte das alunas sobre as áreas de atuação realça-se, mais uma
vez a área de atuação ao nível dos Centros Sociais.

Salinas (1960), define inclusivamente o Serviço Social de Centros e acentua como


uma das suas características “a integração dos trabalhadores sociais, não só nos
problemas, que lhe são apresentados, mas na própria comunidade humana,
colaborando com ela para soluções e realizações comuns.” (Salinas, 1960, p. 26)

Competiria, então, aos trabalhadores sociais dos Centros Sociais

[…] ocuparem-se do estudo sociológico do meio, de tudo o que diz respeito aos
problemas de trabalho comunitário, integração social e trabalho social de grupo e do
Serviço Social de caso. Com os seus métodos específicos, estas formas de actuação

320 Vide em anexo Anexo Y

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 276


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

não podem ser realizadas por quem, para elas não tenha formação especial (Salinas,
1960, p. 25).

Os serviços, em contrapartida, pelo modo como são prestados devem ser uma
ocasião de valorização das pessoas e de questionamento a cada passo, pois, o desejo
legítimo de ajudar aqueles a quem se reconhece uma carência pode levar a uma
atitude assistencialista, longe de favorecer o sentido de dignidade da pessoa a quem
se dá. Por essa razão, a área cultural educativa e recreativa, surge enunciada logo no
imediato sendo considerada a formação profunda das pessoas e Salinas (1960) chega
mesmo a enunciar que espera não estar a exagerar “se disser que a eficácia de um
Centro pode ser medida pelo número e sobretudo pela qualidade dos seus
responsáveis que conseguiu descobrir, formar e pôr a render” (Salinas,1960, p. 26)

O Professor Barahona Fernandes321 refere-se ao Serviço Social322 como a “forma mais


perfeita de auxílio social, médico e educativo” (Fernandes, 1941, p. 3)323 . E
acrescenta que se a política corporativa do governo procura orientar e estruturar todas
as obras num plano bem organizado de assistência social, o serviço social será o elo
que as articula e as torna verdadeiramente proveitosas. Porém, esta imprescindível
função de direção superior necessita ser complementada por uma outra onde se
estabelece a ligação entre todas as obras e o próprio meio onde estas devem agir, a
ligação com as gentes que têm de auxiliar “

[...] levando a sua ajuda e protecção junto dos lares, ao seio das famílias
desprotegidas, auscultando as misérias e penares, vendo e sentindo, no meio do seu
viver, as suas dificuldades e necessidades (Fernandes, 1941, p.3,4)324.

Em suma, não se trata apenas em promulgar a criação de novos e mais perfeitos


organismos de assistência e proteção mas, sobretudo, estabelecer uma íntima ligação
com os assistidos e as suas famílias. Para isso, a melhor forma de exercício do
Serviço Social é a realizada através dos organismos designados de Centros Sociais.

Efetivamente, em seu entender, o Centro Social não será mais do que uma “

[…] a casa de todos para todos [...] destinada a atender as famílias de tôda a condição
social, sem distinção de idéias políticas ou religiosas, a cultivar o espírito de
solidariedade e auxílio social, a orientar no aproveitamento dos organismos de

321 Professor de Higiene Mental, do Instituto de Serviço Social.


322 No texto original, que se refere à comunicação apresentada pelo prof. Barahona Fernandes ao 2º
Congresso Transmontano, em 1941, serviço social não se encontra em maiúsculas.
323 Vide em anexo G
324 Vide em anexo G

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 277


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

assistência, a difundir as sãs regras da higiene, a promover o ensino familiar de


pequenas artes e ofícios domésticos, a animar até o espirito recreativo e despertar o
interêsse pela educação e aprimoramento das classes protegidas, elevando-as e
aproximando-as das mais cultas e afortunadas (Fernandes, 1941, p. 6)325.

Este trabalho utilizaria o que considera ser a mais as modernas técnicas científicas ao
serviço do auxílio social que na proposta do professor Barahona Fernandes, se situa a
primeira, ao nível da informação e estudo prévio do meio dos habitantes da
constituição das famílias e das suas condições de vida. Devendo, para isso, os
assistentes sociais introduzirem nas suas visitas inquéritos sistemáticos a todas as
habitações, apurando o estado de sanidade, de higiene, a economia, a moral e
instrução e todo o viver social em geral. Com base nesta informação recolhida
organizam um ficheiro de família das diferentes povoações contendo elementos
médicos, económicos, sociais. A partir desta base poderá então ser estabelecido um
plano de assistência, benemerência e melhoramento social, adaptado às verdadeiras
realidades das populações e das regiões.

A segunda, ao nível da coordenação de todas as obras, oficiais e particulares,


médicas, religiosas, ou corporativas já existentes, evitando a sua dispersão e
isolamento e potencializando os seus resultados. Para tanto, tratará de obter o
conhecimento das faltas e necessidades, propor a criação de novos organismos de
ação médico-social e educativa, na ausência de esquemas de burocratizados, rígidos
mas adaptados às necessidades e possibilidades locais (Fernandes, 1941, p. 6,7)326.

No sentido de um maior aperfeiçoamento dos Centros Sociais, as educadoras


familiares aportarão na sua visão uma maior diferenciação do Serviço Social, tomando
a seu cargo tarefas ao lado das assistentes sociais. Estas teriam como funções:
organizar cursos de ensino familiar e doméstico (cozinha, costura, corte, economia e
arranjo do lar) cultivando e desenvolvendo as pequenas indústrias locais, as artes e
ofícios regionais. Através do exemplo e da ação pessoal, desenvolveriam o culto da
família, das distrações e dos bons preceitos, podendo, assim, exercer uma ação
cultural incitando à frequência da escola e ao desenvolvimento dos bens do espírito.

A ação das educadoras familiares entraria, portanto, em sintonia com a ação das
assistentes sociais, sem no entanto descurar a colaboração com outros intervenientes,

325 Vide em anexo G


326 Vide em anexo G

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 278


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

sobretudo, o pároco e o professor numa aproximação aos problemas morais das


famílias e de questões relativas à educação das crianças.

Em seguida a Ilustração nº 23 apresenta uma representação figurativa do que poderá


ser a interpretação da aluna sobre a organização de um Centro Social.

Ilustração 19 - Exemplo de organização de um Centro Social: Centro Social “Ponta do Sol” na Ilha da Madeira (Ferreira, 1944, p. 148 a)

Neste sentido, a criação dos centros sociais apresenta-se com uma ideia claramente
formada. Atendendo ao detalhe conseguido na formulação de qual seria um plano de
atuação naquele domínio, a aluna revela conhecimento, sobre as habilidades e
competências implicadas gestão de um centro social. A partir desta ilustração é
possível perceber que um Centro Social desempenharia um papel mediador entre as
várias organizações com atuação local (incluindo o próprio Estado) e a população.
Percebe-se o relevo colocado ao esforço de concertação que um centro social poderá
desempenhar na resolução dos problemas que lhe são colocados pela população para
a garantia do bem-estar e do progresso.

Para outra aluna, um centro social poderia

[…] tentar modificar ligeiramente alguma destas obras a fim de evitar repetições. 3º
organizar na referida comissão: - um serviço de inquérito com o pessoal necessário
para evitar que os dados fundamentais, continuem a ser registados pelas simples
informações dos próprios, quando procuram auxílio; - um ficheiro geral constituído

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 279


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

pelos elementos colhidos e pelas cópias dos verbetes das fichas, enviados por cada
obra que, no momento oportuno, dariam todos os esclarecimentos pedidos. 4º -
conseguir colaboração do clero para a educação moral, num íntimo trabalho de
conjunto. Só a julgo possível quando os novos sacerdotes vierem substituir os actuais
que, pela sua idade e vivendo há 40 anos na vila, não aceitam já intromissões. 5º -
despertar o interesse do meio para isto: - continuar a ação assistencial em vigor,
encaminhando-a suavemente no sentido indicado. - Promover distracções sãs nos
centros referidos. Por exemplo: fazer reaparecer o grupo dramático "Os curiosos";
auxiliar as tentativas dos escuteiros e iniciativas desportivas. - organizar passeios, uns
familiares, outros para determinados membros com fins formativos. - recorrer o mais
possível ás famílias ricas e aproveitar todas as boas vontades e obras lançadas
(Junqueira, 1948, p. 140-141).

Outra aluna testemunha, igualmente, na sua monografia as vantagens de enveredar


pela constituição de um centro social por ela designado de Centro de Serviço Social “

Centro de Serviço Social. Na solução da vida económica e de todas as suas


consequências directas: em cooperação com todas as entidades oficiais, corporativas:
Instituto Nacional do Trabalho e da Previdência, Ministério da economia, etc. Em
cooperação com todas as forças do meio, pessoas influentes, aproveitamento de
algumas fortunas locais, etc. Na solução da vida moral e religiosa em estrita
cooperação com:

1) Autoridades oficiais e administrativas, Guarda Nacional Republicana e Guarda Fiscal


tomando medidas de repressão contra a prostituição, contra o hábito de proferir
publicamente palavras obscenas.

2) Pároco da vila, fomentando a sua permanência mais longa - com a escola


procurando que os professores cumpram a sua missão na formação intelectual, moral e
religiosa das crianças - com todas as forças do meio constituídas por: associações
religiosas: Acção Católica, Apostolada da Oração, Cruzada Eucarística. Na preparação
das raparigas para o cumprimento da sua missão maternal.

3) Com todas as obras de beneficência e assistência existentes: Patronato- conferência


de S. Vicente de Paulo, Azilo de Condes de Folgosa.

4) Com todas as pessoas influentes no meio: famílias nobres, famílias ricas, etc.

5) Intensificação da vida cristã por instituição e formação de membros de todas as


associações. Diversões e passatempos. Em cooperação com a Câmara Municipal,
iniciativas particulares (Peixoto, 1949, p. 145)

Da exposição apresentada percebe-se os níveis de cooperação e de trabalho em rede


possíveis em torno dos Centros Sociais Resultado de um reflexo da sua formação, e
ciente do papel desempenho por um centro social, a aluna centra a sua ação na Casa
do Povo como uma casa para todos onde poderia assentar e ser desenvolvida a
relação com as famílias

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 280


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Em resumo, estas actividades poderiam ser coordenadas por uma futura Casa do Povo
- Casa de todos os habitantes da Vila -em que existisse um Serviço Social, que
estabeleceria o contacto com as famílias ao mesmo tempo que centralizava toda a
acção (Ribeiro, 1947, p. 145).

A ação dos Centros Sociais não dispensaria a criação de seções da ação católica "O
Trabalho Social a realizar, poderíamos pensar na criação de um Centro Social, duma
casa do povo e, considerando o desenvolvimento integral, a criação das secções da
Acção Católica que ali faltam" (Trigo, 1948, p. 78)

Em 1949, na reunião da Assembleia Geral da Associação de Serviço Social, vemos o


Prof. Dr. Vitor Fontes327 a alertar para o propósito do aperfeiçoamento da formação
dada às alunas do Instituto de Serviço Social e em concreto para a necessidade de se
evitar tudo o que possa conduzir a um ensino demasiado teórico, a uma excessiva
preparação teórica em detrimento do espírito a incutir, e da grande utilidade formativa
do trabalho das alunas nos Centros Sociais, havendo necessidade de o reforçar
(Associação de Serviço Social, 1949, p. 6)328.

Creio que o Centro de SS. por toda a atenção que preste a esta modalidade de
assistência, nunca seria demais[...]. O Centro Social em toda e qualquer modalidade de
assistência ao próximo procurará tirar efeitos de ordem moral não tanto pela
administração direta de conceitos como pela maneira de agir para com as pessoas
(Peixoto, 1949, p. 141).

Em 1940 uma das alunas entende a sua missão enquanto

Servidoras de Deus nas terras portuguêsas, cumpre às obreiras do Serviço Social o


romper árduo do campo endurecido pelo arado forte do sacrifício, o largo semear dos
gérmenes de vida - princípio eternos, verdades imutáveis, o refrescar das terras
sequiosas no constante espalhar de amor e de alegria [...] E a Graça fecundante depois
virá, preparando futuras colheitas. Seara vasta, na verdade... Mas tudo pode a alma
portuguesa que há oito séculos já tudo vence [...] pelo sinal da Cruz! (Guerra, 1940, p.
247).

Neste excerto, denota-se um traço marcadamente caráter religioso, colocando as


trabalhadoras sociais enquanto obreiras do Serviço Social ao serviço de Deus,
revestido de um propósito até evangelizador.

No testemunho que se segue, parece claro para a aluna que a sua missão se
expressa na assistência de parcelas da população carentes no suprimento das suas

327 O prof. Dr. Victor Moreira Fontes, neste ano de 1949, além de fazer parte o corpo docente do ISS,
ocupava o cargo de vogal do Conselho de Direção da Associação de Serviço Social (Associação de
Serviço Social, 1949, p. 3) Vide em anexo X
328 Vide em anexo W

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

necessidades subsistência. No entanto, torna claro que a vontade de agir pode


obstaculizar a própria ação e ter uma ação destruidora

Em primeiro lugar parece-nos vantajoso lembrar o princípio de Serviço Social que nos
diz: "apenas devemos ajudar os outros quando êles se não bastarem a si mesmos".
Partindo dêste princípio evitaremos que a nossa vontade de bem servir nos entusiasme
demasiado, e nos leve a criar obras e serviços que poderão ter uma ação destruidora
na vida da população, quando apenas pretendíamos construir (Frage, 1945, p. 213).

Este trecho refere-se de forma explícita a princípios de Serviço Social princípios de


respeito pela autodeterminação do indivíduo, e acrescenta a necessidade de
aprofundar o estudo em aspetos essenciais da sua vida

Não foi por mero capricho que preferimos fazer a monografia da Terra-chã, mas sim
porque, querendo fazer um estudo sério e quanto possível profundo, era esta freguesia
a que mais no-lo facilitava, pois é a que melhor conhecemos porque desde há muitos
anos vivemos em íntimo contacto com os seus habitantes e por isso mesmo sentimos
com êles as suas aspirações, as suas dificuldades, os seus sofrimentos e as suas
alegrias [...] Uma vez estudado o meio, procuramos conhecer uma família típica desse
mesmo meio, e ver quais as influências que êste teve sobre aquela (Frage, 1945, p. 1).

Uma outra monografia, desta feita, de 1949 sobre “Ponte da Barca” reforça a
necessidade do sentido de rigor no aprofundamento pelo estudo do meio exigindo uma
permanência na região uma observação direta e intensa do meio exposto. Esta aluna
revela-se familiarizada com conceitos próprios de metodologia reportando-se ao
Diagnostico social

Gostaria de me ocupar desse trabalho com mais tempo o que não só me permitiria uma
penetração maior, como ainda, na laboração vagarosa dos elementos colhidos e daria
o ensejo de poder falar com mais certeza sobre a situação atual comparada àquela de
que já só ouvimos falar envolta no trama das histórias e lendas [...] Só uma aturada
permanência na região, com observação direta e intensa do meio, daquilo que faz a
essência da vida de qualquer aglomerado humano e que por vezes se nos apresenta
fechada hermeticamente, de difícil acesso, levando-nos a fáceis conclusões
deformadas e inexatas, é que nos poderá levar a um diagnóstico social que na verdade
corresponde à realidade dos males (Peixoto, 1949, p. 1)

Reporte-se que só em 1950 é publicada pelo Instituto de Higiene Dr. Ricardo Jorge
uma versão traduzida do Livro de Mary Ricmond Social Diagnosis. Uma outra aluna
apresenta uma linguagem Este sentido de aprofundamento remete para um conjunto
de princípios e valores profissionais

[...] dinâmica do agir é envolvida, portanto, por este conjunto interiorizado de objectivos,
valores profissionais que se convertem em atitudes na medida em que esta, enquanto
Missão oportuna, porque necessária e certamente possível no momento presente,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 282


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

exigiria do trabalhador social nela investido cultura lata, infinito tacto e delicadeza,
suma dedicação abnegado desprendimento, a par duma corajosa pertinácia. Impunha-
se, logo de início, um programa bem nítido, não tendo em minuciosas linhas de
conduta prática, mas, de maneira rigorosa, nos objectivos atingir e nos campos de
acção a explorar (Lencastre, 1947, p. 169).

Quando se compara as memórias dos alunos, com o que nesse período já brotava nos
primeiros congressos da profissão, é impressionante denotar um enorme contraste. Se
a partir de 1926, Mary Richmond possui uma ampla difusão pública e o Case Work
conhecido por numerosos assistentes sociais nos anos 30, são fracas as suas
referências neste projeto educativo. A reflexão sobre a própria prática profissional é
escassa e difusa no entanto entende-se uma atitude profissional direcionada para ir ao
encontro das situações sociais e dos seres humanos obtendo o necessário
descenimento que a habilitam na sua atuação. Existe, a consciência de um papel que
assume e com o qual se compromete.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

CONCLUSÃO

O trabalho de pesquisa que agora chega ao fim procurou compreender e interpretar


aquele que foi o projeto educativo da primeira escola de Serviço Social em Portugal - o
Instituto de Serviço Social no decurso do primeiro plano de estudos (1935- 1955).

Como primeiro objetivo surgiu a necessidade de situar este projeto educativo


fundacional face, à emergência das primeiras escolas de Serviço Social no
mundo, às influências sentidas no desenvolvimento da sua prática educativa, à
articulação com a questão social, às teorias e métodos tradicionais do Serviço
Social, identificando os contextos e momentos-chave que se reconhecem à
educação em Serviço Social.

Na senda deste objectivo, foi possível verificar que no decurso de 1893 e durante o
Congresso das Organizações de Caridade nos Estados Unidos foi lançada a ideia de
criar escolas para formar os agentes do Serviço Social e masi tarde em 1898, foi
fundada a primeira escola, hoje a New York School of Social Work, filiada na Columbia
University. A educação sistemática em Serviço Social na Europa e mais
concretamente na Alemanha, começou em 1899, em Berlim, liderada por Alice
Solomon (1872-1948). No entanto, só em 1908 é que Alice Solomon (1867-1936)
fundou a primeira escola, Social Women’s School, atualmente designada de Alice
Salomon University of Applied Sciences. Na frança, a primeira escola de Serviço
Social foi fundada em Paris, em 1918. Ainda na Europa, verifica-se igualmente que em
1925, foi criada a primeira escola de Serviço Social, na Bélgica, pelo Cardeal Mercier
(1851-1926).

No domínio da emergência das primeiras escolas de Trabalho Social no mundo,


coloca-se em relevo o apoio desempenhado pela União Católica Internacional de
Serviço Social, organismo criado em 1925, com sede em Milão, ficando claro que a
história do Serviço Social católico no mundo, esteve presente nos programas das
escolas de Serviço Social, concluindo-se que Portugal não fugiu à regra.

No panorama africano a criação das primeiras escolas de Serviço Social, sobretudo,


no Norte de África, remonta a 1924 com a escola de enfermeiras de Tunis. Em 1932,
surge a escola de enfermeiras de Alger, em 1946, o Instituto Superior de Trabalho
Social da República Unida Árabe, no entanto, a maior parte das instituições educativas
em Serviço Social no continente africano, são criadas muito mais tarde, sobretudo

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 285


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

entre 1956 e 1963. Na América Latina com a fundação da primeira escola de Serviço
Social no Chile, em 1925, inaugura-se, uma nova etapa dentro da profissão, marcando
um novo patamar de institucionalização produzido pela incorporação do Serviço Social
no espetro das profissões de nível superior. No Brasil, a ideia de uma escola de
Serviço Social, é situada em 1932, quando as Cónegas de Santo Agostinho de S.
Paulo, que contratam Mlle. Adéle de Loneux, uma especialista belga, para realizar um
curso de três meses de “Iniciação à Ação Social”. Nos primeiros anos, o programa era
o mesmo das escolas da França e da Bélgica

Numa perspetiva comparada, registou-se claramente a noção de que o Instituto de


Serviço Social, criado em Portugal em 1935, foi talhado atendendo aos moldes de
criações análogas já experimentadas internacionalmente. Estas primeiras escolas
respondem ao desafio de organizar e disciplinar boas vontades dispersas, formando
agentes para corresponder às atividades do Serviço Social, que tanto se poderiam ter
natureza assistencial como preventiva e/ou educativa, preparando-os para, fornecer
serviços num determinado país, compreender o valor da ação social e o ensinamento
de técnicas e conhecimentos necessários a essa prática. Para isso, as escolas
facultariam a preparação desses agentes, através de cursos teóricos e experiência
prática inicial de campo. A nível nacional, a fundação da primeira escola portuguesa
em Lisboa, realizou-se, igualmente, em consonância com outras instituições
educativas que, entretanto, emergiram em Coimbra (1937) e Porto (1956) e em
concomitância com movimentos e transformações societais da sociedade portuguesa,
marcando de forma definitiva a introdução do Serviço Social em Portugal e a
ancoragem de um campo de conhecimento académico que, mais tarde, se veio
integrar no ensino universitário.

A esta proliferação de escolas de Serviço Social pelo mundo, com especial incidência,
na europa, estão associadas as consequências da revolução industrial e o triunfo do
liberalismo, no domínio económico e político, que significaram, no século XIX um
contributo para o amplo progresso do ponto de vista da economia europeia, dando
origem às grandes transformações nas sociedades, mas em contrapartida, deram
também origem a grandes desigualdades sociais. O liberalismo trouxe consigo,
grandes problemas sociais, ao acentuar as diferenças de classe e pondo em relevo as
más condições de vida e de trabalho, das classes menos favorecidas, Pelo que a
emergência da procura do profissional de Serviço Social, tem por base as
modalidades, através das quais, o Estado burguês confronta a “questão social” e a

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 286


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

tipificação das políticas sociais a passar de uma simples ajuda de caráter paliativo
assistencial, para um complexo sistema tecnificado, resultante da necessidade de
afetação e administração de bens e serviços à população em geral, com o objetivo de
proporcionar determinadas condições de vida e de bem-estar social.

Num segundo objetivo realizou-se uma aproximação às especificidades do caso


português, atendendo às matrizes em presença, procurando o sentido de chegar
ao seu discurso identitário, incorporado na emergência do Serviço Social,
enquanto profissão.

Em Portugal, no domínio da assistência privada, até ao final do século XIX, concentra-


se caridade e filantropia nas mãos da Misericórdia e das organizações particulares que
ainda assim se mostravam incapazes para dar resposta às consequências sociais
decorrentes do desenvolvimento do capitalismo. Os resultados obtidos estão longe de
poder ser comparados aos desenvolvidos em Inglaterra ou Estados Unidos no
desenvolvimento da “Charity Organization Society” e nos “Settlements”, onde a
profissionalização do Serviço Social dava os primeiros passos. Com o regime de
Salazar, as dificuldades sociais e políticas adensam-se, repercutindo-se
necessariamente no seio da Igreja e no apoio católico ao regime que começou a
conhecer sucessivas e crescentes dificuldades e tensões, próprias do mundo católico.

As grandes epidemias, a guerra e o pós-guerra imediato, tornaram graves as


condições de vida dos portugueses e, passo a passo, tornaram mais complexas as
condições de realização do corporativismo. O entusiasmo inicial, dos começos dos
anos 30, foi dando lugar à desilusão e ao ceticismo nos meios católicos. Apesar do
desapontamento, é possível entender um sentido convergência no domínio da
formação, dando visibilidade ao esforço desenvolvido em ordem à profissionalização
de pessoal especializado que utilizando maior conhecimento e eficácia, poderiam levar
por diante a difícil tarefa de concretizar a reforma sanitária e apoiar a organização
racional da Assistência Social.

Entre os católicos sociais, a estratégia de enfrentamento da “questão social” altera-se,


passando pela decisão de entrar nas estruturas corporativas para as cristianizar, por
forma a criar uma organização autónoma paralela. Representa, assim, o regresso à
ideia de potenciar as organizações católicas, com autonomia, no âmbito da “Ação
Católica” designadamente a “Liga Operária Católica (L.O.C.)” e a “Juventude Operária
Católica (J.O.C.)”.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A primeira tentativa para a criação de escolas de Serviço Social em Portugal, surge


em 1928, desenvolvida pelo Instituto de Orientação Profissional, onde o seu Diretor
Faria de Vasconcelos, foi incumbido de preparar o pessoal dos estabelecimentos de
educação da assistência pública. No entanto, após algumas alterações ministeriais,
foram os Serviços Jurisdicionais e Tutelares de Menores, a beneficiar com a formação
do seu pessoal. Esta formação dirigia-se, sobretudo, ao pessoal vinculado pelos
serviços de justiça de menores, delegados de vigilância de menores e os seus
auxiliares em serviço no Tribunal de Infância de Lisboa. Em 1934 Alfredo Tovar
Lemos, Delegado de Saúde de Lisboa, Diretor do Dispensário de Higiene Social de
Lisboa, denomina o curso que promove em 1934, como o primeiro curso de
assistentes sociais. Estas formações seguem uma conceção anglo-saxónica, mais
preocupada com os conhecimentos científicos e com a relação teoria prática, do que
com o caráter doutrinário, religioso e corporativo que o regime vai querer imprimir nas
subsequentes escolas de Serviço Social.

Assinala-se a este propósito, o objetivo do ministro da Educação Nacional, António


Carneiro Pacheco (1887-1957), de reeducar as mulheres adultas, enquadrando-as
numa organização estatal. Este seria o papel da criação da Obra da Mães pela
Educação Nacional (OMEN) em 1936, sendo que esta organização, ficou ainda com a
tarefa de criar, e de dirigir a Mocidade Portuguesa Feminina (M.P.F.), o que aconteceu
em 1937, com o objetivo de complementar o papel da própria escola, educando, as
crianças do sexo feminino e as jovens. A escola, na visão de Salazar (1889-1970), não
se destinava a servir de agência de distribuição profissional ou de deteção do mérito
intelectual, mas, acima de tudo, como um aparelho de doutrinação. Não haveria para o
salazarismo qualquer razão que justificasse as desigualdades económicas, que eram
inevitáveis e instituídas por Deus, rebatendo a ideia de que a escola seria a “grande
niveladora”, pois a educação por si só, pouco nivelaria e pouco poderia fazer para
alcançar uma maior igualdade. Esta era a ideologia salazarista que limitava as
expectativas de mobilidade assente numa mais-valia escolar, canalizando para os
investimentos pessoais a afirmação do lugar social que cada um ocupava na estrutura
da sociedade. A reforma educativa de António Carneiro Pacheco (1887-1957),
assentou nos consensos sociais que essa linha de pensamento produziu, deixando
que a política educativa se apropriasse dessa fonte exógena de legitimação.

O estudo do projeto educativo fundacional do Instituto de Serviço Social de Lisboa,


permitiu entender o caráter pioneiro desta instituição educativa direcionada para o

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

ensino do Serviço Social, com a fundação de um campo de conhecimento, demarcado


e tensionado pela conjunção de uma dupla dinâmica que decorre, por um lado, entre
os protagonistas socio-históricos emergentes da ordem conservadora e por outro, da
que resulta dos desafios colocados pela estrutura sócio ocupacional e que se
instrumentaliza para dar corpo a uma atuação profissional.

Admite-se, por isso, que o Serviço Social não se ergue como um projeto sociopolítico
particular, mas como um campo de ligação ideológica da Igreja Católica e do Estado
Novo, capturado e instrumentalizado pelo projeto conservador burguês, determinado,
este sim, por um projeto sociopolítico de classe, caminhando com alguma tensão para
a laicização. Concorda-se, desde logo, que dificilmente foram fatores intracientíficos,
os que conduziram ao aparecimento do Serviço Social, enquanto disciplina académica
em Portugal.

Esse projeto educativo expressa matrizes positivistas introduzidas em Portugal pelos


discipulos de Frédéric le Play bem acolhidas pelo Estado Novo sobretudo ao nível da
reforma da assistência social e sanitária determinados pela necessidade de um
investimento inicial de protecção na saúde, laboral e de previdência alicerçada em
ideiais de Deus Pátria e Família.

Defende-se a necessidade de uma reforma social contra doutrina da lei natural e


contra o individualismo sobretudo pela vertente laica ligada aos movimentos da
medicina social e constituindo-se de referência para os setores catolicismo social e à
doutrina social da Igreja privilegia a intervenção na familia e na educação moral. Trata-
se de atingir a constituição essencial de uma sociedade, que se forma assente nas
relações de sangue familiares como células primordiais das sociedades e
intermediárias entre o individuo e sociedade, de sociabilidades presentes na
comunidade e de interesses corporativos. Considera a necessidade da restauração de
uma autoridade paternal, de respeito pela moral e na robustez e saúde e dos recursos
seja a partir dos meios de existência tanto na família como nas fábricas.

A coleção de monografias realizadas pelas alunas e que chegaram aos nossos dias
apropriam claramente esses ideiais desenvolvendo um projecto educativo assente
num método científico positivo

Pretendeu-se, ainda, como objetivo, aprofundar os contornos da criação do


Instituto de Serviço Social enquanto primeira escola de serviço Social em

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Portugal, atendendo à intencionalidade e decisões dos agentes envolvidos, aos


meios e condições materiais de funcionamento, dando conta da configuração
interna inicial desta instituição educativa, em concreto, quanto aos órgãos
administrativos, diretivos e pedagógicos envolvidas dos cursos promovidos,
participação de alunos e professores e as interações estabelecidas com a sua
envolvente.

Com o intuito de iniciar a fundação da primeira escola de Serviço Social em Portugal,


foi criada em Lisboa, inicialmente, a Associação de Serviço Social – Associação de
Beneficência, mais tarde designada ‘Associação de Cultura e Formação Profissional’.
O facto de ser uma Associação de Serviço Social, a base de sustentação do Instituto
de Serviço Social, resultou de uma combinação com o patriarcado, por se considerar
que esta seria a forma que asseguraria a autoridade da Igreja, permitindo a
possibilidade de manter a escola “à sombra” de uma associação cultural, já que se
vivia numa época de pouca liberdade religiosa.

Não só pelas figuras que se constituíram como sócios fundadores da Associação de


Serviço Social. mas, também, pela sua intencionalidade representada
estatutariamente, se entende haver uma clara convergência de interesses entre o
regime de Salazar (1889-1970) e a Igreja Católica, dando corpo à ideia de que
independentemente das suas divergências ideológicas, o Estado Novo incorporava no
seu núcleo, uma tendência concreta de doutrina católica, alimentada por uma elite
católica, de onde veio a emergir uma aliança estrutural duradoura e abrangente. Desta
convergência resultou uma formação assente em princípios sociais cristãos
assumidamente na dependência direta da Igreja Católica, denominando-a de
dependência moral, para as questões de princípios, religiosos ou outros, regulada pela
presença do consultor assistente.

O projeto educativo inicial deste Instituto, foi marcado profundamente pelo esforço das
suas primeiras Diretoras, Elisabeth d’ Albignac bandeira de Melo (Condessa de Rilvas)
entre 1935-1944, Custódia do Vale, entre 1946 - 1950 e Maria Carlota de Magalhães
Lobato Guerra, entre 1950 e 1964, ) justificando-se abrir como perspetiva de futuras
investigações, a estruturação de estudos biográficos sobre estas figuras.

O Instituto de Serviço Social, perseguindo a finalidade de conseguir a mais elevada


conceção e organização da vida familiar e social, por meio de larga ação social de
educação e de melhoramento das condições de vida, nos seus vários setores,

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 290


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

pretendia desenvolver uma tríplice atividade; atuando como centro de documentação,


de cultura social e difusão de principios socias; dirigindo a formação de profissionais
de Assistentes Sociais e de Educadoras Familiares, em cursos de três anos, seguidos
de alguns meses de estágio prático, desenvolvendo uma formação do caráter moral,
intelectual e técnico e atuando diretamente em vários meios procurando educar e
assistir, através dos Centros Sociais, designadamente como atuação social direta.
Ainda, nesta linha, ministrava o curso de Donas de Casa, destinado especialmente a
jovens da “classe dirigente” para aperfeiçoamento da sua formação enquanto mães de
família e donas de casa. No entanto, este último curso tinha apenas um ano e não
dava direito a diploma.

Na orientação de formar um grupo de escol para todas as atividades do Serviço


Social, compreende-se a direção, sobre a educação do Estado Novo, onde se defende
que o único esforço considerado viável neste domínio, será formar a mente dos que
lhe ficavam abaixo na escala social, iniciando, neste campo, um trabalho preventivo e
de educação, a partir das instituições presentes na sociedade portuguesa. O Serviço
Social apresenta-se como um “imenso campo de ação”, onde só poderá trabalhar com
eficiência quem possua, para além de vocação natural, uma mentalidade
especialmente formada e firme sentido social que só estas escolas poderão suscitar e
educar. Ora, o reconhecimento deste “imenso campo de ação” e da necessidade de
publicar os princípios gerais de orientação e coordenação e de se aprovarem o plano
geral de estudos e programas, resulta da necessidade explícita de formar no domínio
da assistência social, dirigentes idóneas e responsáveis, ao mesmo tempo,
conscientes e ativas, cooperadoras da Revolução Nacional, competindo ao governo
manter uma mão firme, para que jamais possa desviar-se do sentido humano
corporativo e cristão.

Da comparação apresentada entre as várias versões dos planos de estudo em vigor


no período em análise, podemos entender que as diferentes áreas programáticas
assentam em dois pilares fundamentais, como sejam, o ensino teórico e o ensino
prático. No primeiro pilar, no domínio do ensino teórico, o plano de estudos, tem como
foco a atenção sobre o indivíduo nas diferentes áreas de vida, a vida física, mental,
moral, social, na tentativa de construir desta forma uma visão integral da pessoa
humana. Integrada nesta visão são ministradas disciplinas em diferentes áreas: área
da medicina em concreto da Medicina Social; na área do direito, ligadas ao ramo do
Direito Constitucional, Civil, Trabalho, Criminal e Penal; na área da filosofia ligadas ao

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

domínio das ideias, à Psicologia. Contudo aponta-se por todo este período, ausência
de matéria ligadas aos fundamentos de Serviço Social e, portanto, de embasamento
da atividade prática de conhecimentos desta área disciplinar.

Na organização deste plano de estudos, e pela natureza das disciplinas ministradas


percebe-se o ecletismo das formações e dos cargos que desempenham os seus
docentes, juntando assim num mesmo projeto educativo, médicos, juristas,
sacerdotes, filósofos e assistentes sociais.

No segundo pilar, no domínio do ensino mais prático, desenvolve-se a componente


dos Estágios. Esta componente acompanha a formação académica ao longo dos três
anos do plano de estudos. No ano preparatório, este era desenvolvido em serviços de
cirurgia, medicina, pediatria e puericultura, no 2º ano, os estágios deveriam ocorrer em
maternidades e consulta pré-natais, em serviços de puericultura e proteção à infância,
em institutos e dispensários de profilaxia e higiene social, em instituições
especializadas em ensino familiar e doméstico e no 3º ano, em serviços sociais de
proteção à maternidade e à infância (normal e delinquente), e noutros serviços sociais
especializados (hospitais, dispensários de higiene social, sanatórios, fábricas, junto
das organizações corporativas, entre outras).

Tendo por referência os planos de estudos em vigor, à data, verifica-se um forte


relevo, das disciplinas de caráter médico, observando-se nesta área a influência
decisiva da medicina social, e das disciplinas ligadas ao direito e à formação moral e
religiosa. O encontro das alunas com a história da profissão, fica, portanto, adiado,
bem como o questionamento da sua vocação e da responsabilidade social que lhes
era acometida, quando porventura se identificariam com o Serviço Social enquanto
profissão.

Outra das ausências notadas neste plano, é a da Sociologia. Para o regime, a


Sociologia era geralmente considerada inútil e abstrata e sobretudo perigosa, suspeita
e subversiva. Salazar terá inclusivamente afirmado que se tratava de “um socialismo
disfarçado” e como algo confuso que não se sabia o que era. Enquanto nos Estados
Unidos da América, a Sociologia se ia afirmando, tanto a nível institucional como
académico, em Portugal, no período do Estado Novo, a Sociologia não era
reconhecida como Ciência Social.

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Ainda noutro objetivo, esteve presente intenção de configurar as práticas


educativas preconizadas pelo Instituto de Serviço Social no período em análise,
no que concerne à sua representação em modelos normativos, organizativos e
dinâmicos, reconhecendo-lhe eventuais aspetos de singularidade e inovação.

Esta intenção corresponde ao traçado entre a materialidade e a representatividade


institucional, na medida em que não basta identificar fatores respeitantes às
características dos programas, dos atores institucionais, dos alunos e dos seus
diretores, pois estas variáveis necessitam de ser articuladas com o contexto escolar e
da sua envolvente das condições materiais e financeiras bem como a sua ligação a
aspetos de natureza mais simbólica. Com esta finalidade, abordou-se o projeto
educativo a partir das três funções enunciadas em vários documentos como sendo as
funções do Instituto de Serviço Social, a função escolar onde se integra o ensino, a
função cultural e de difusão de princípios sociais e por último, a atuação direta através
da ação realizada pelos Centros Sociais.

No domínio da função escolar de ensino, o aperfeiçoamento geral dos cursos, é uma


das preocupações transversais deste projeto educativo. A vontade no aperfeiçoamento
do ensino em Serviço Social, é entendida pela direção do Instituto de Serviço Social,
nos relatórios anuais e confirmado pelas atas da Associação de Serviço Social, no
sentido de se acentuar o caráter prático do ensino, evitando sempre tudo quanto
possa levar a um ensino demasiado teórico, ou a uma excessiva preparação técnica,
em detrimento de uma preparação espiritual. Esta aposta do projeto educativo,
fundamentava a utilidade formativa do trabalho das alunas nos Centros Sociais e na
necessidade de o intensificar.

A preocupação de seleccionar com maior rigor as candidatas, denota-se do facto de


em 1946, se ter constituído um Conselho Pedagógico, formado por professores dos
vários setores do ensino ministrado, para apreciação de diversos assuntos,
nomeadamente, das condições de admissão das alunas ao Instituto de Serviço Social.

O Instituto de Serviço Social não possuía apenas uma visão institucional deste projeto
educativo, a visão sobre a sua missão abrangia um horizonte mais global, defendendo
o Serviço Social enquanto campo de conhecimento. Nesta assunção eram
identificadas algumas ameaças que provinham sobretudo da fundação em vários
pontos do país, de escolas de auxiliares sociais, anexas a escolas de enfermeiras ou

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A primeira escola de Serviço Social em Portugal

independentes, como acontecia em Castelo Branco, Coimbra, o que poria em risco


uma “boa planificação do trabalho social “.

Nesta medida, apontar-se-ia como solução para essas ameaças, a implementação de


um Comité ou Comissão Nacional de Serviço Social, com representação das
diferentes atividades e interesses que se relacionavam com o Serviço Social de forma
a criar um corpo equilibrado e neutral e cujas funções poderiam compreender ou
efetivar tal planificação. A criação de um órgão regulador supra-institucional, parece
pautar as preocupações da direção do Instituto em 1948, pressionado aliás, por outros
países.

Mais tarde, em 1952, outra ideia considerada de grande interesse para este projeto
educativo emerge, criando-se um corpo de estudiosas, que no Centro de Estudos do
Instituto de Serviço Social, com a intenção de se dedicar com exclusividade, a
responder a trabalhos sociais solicitados pela comunidade. Contribuiria, por esta via,
para aprofundar a técnica do Serviço Social, e para servir de agentes de ligação que
amparassem as antigas alunas nos vários setores de trabalho, onde, se treinavam,
assim, para a missão de futuras professoras e monitoras do Instituto de Serviço Social.
Estes pedidos de Trabalho Social, são trabalhos solicitados por variadas organizações
sociais ao Instituto de Serviço Social, por se considerar existirem aí os profissionais
especializados para o efeito. Esta proposta, defende a complementaridade do projeto
educativo, ou seja, a ideia de que a escola é produtora de profissionais especializados
no Trabalho Social para atuar na sociedade, sendo possível manter a sua supervisão,
pois a formação e o treino dos professores e monitores, não pode estar desconectada
dessa realidade social e é ela mesma que terá um papel de moldar a formação dos
próprios profissionais.

Em 1953, e perante várias objeções de Marcelo Caetano, discute-se a proposta de


avançar para um estudo mais aprofundado da Sociologia. Para Maria Carlota Guerra,
os estudos sociológicos deveriam ser orientados num sentido eminentemente prático,
visando justamente essa observação direta e prática da realidade, levando
inclusivamente à criação de um Centro de Sociologia, como base indispensável para
apoiar o conhecimento das trabalhadoras sociais e prepara-las para exercerem
eficientemente o trabalho de ação social. Também por esta via, seria possível obter a
subvenção por parte Instituto de Alta Cultura no domínio da investigação científica. Por

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 294


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

razões de conveniência, foi proposto para a direção do Centro, o próprio Marcelo


Caetano.

A função de apoio documental de cultural social e de difusão de princípios sociais, por


seu turno, identificava-se com a preocupação de construir um centro de documentação
de referência para o Trabalho Social e paralelamente assumir a difusão de princípios
sociais. Apesar de existir uma preocupação com o acesso a livros por parte das
alunas, paralelamente às atividades já desenvolvidas, iniciou-se em Outubro de 1947
a organização de uma biblioteca no Centro Social. Ainda, nesta área, poderemos
encarar o esforço realizado em 1947 por algumas assistentes sociais e educadoras
familiares, de realizar resumos de artigos publicados, com o objetivo de tirar o máximo
rendimento e ainda manter as trabalhadoras sociais ao corrente dos problemas de
caráter social e educativo com que o nosso país e outros paises se debatiam, esta
atividade foi denominada a “Revista das Revistas”, que durou até pelo menos 1954,
mantendo-se com a colaboração das Trabalhadoras Sociais da casa e as estagiárias
finalistas.

Em harmonia com o projeto educativo, uma das preocupações do Instituto, incidia


sobre ações de propaganda, que se eram realizadas através de conferências e
reuniões no próprio Instituto de Serviço Social, seguidas de apresentação de trabalhos
práticos, destinados, por exemplo, a dirigentes da Organização das Mães pela
Educação Nacional, Liga da Ação Católica Feminina, Juventude Independente
Católica Feminina e alunas de vários colégios de religiosas entre eles o Instituto de
Odivelas. Em simultâneo era feita a propaganda dos princípios sociais e cristãos
respondendo positivamente a pedidos de reuniões de estudo, palestras, conferências,
discussões de teses, colaboração co artigos para vários jornais e revistas “Voz”, “
Diário do Minho” e revistas “ Os nossos filhos e “ Renascença”.e trabalhos efetuados
por dirigentes das várias organizações da Acção Católica Portuguesa, Noelistas de
Lisboa e Porto, Liga de Profilaxia Social, cidade de Beja, Guias de Portugal, etc.

O projeto educativo do Instituto de Serviço Social, resulta, ainda, de um entendimento


da sua função, que define e caracteriza como “Campo da Atuação Social Direta”.
Neste domínio, coloca-se em relevo o papel do Instituto nas atividades dos Centros
Sociais, sendo estas as atividades que mais avultam entre as múltiplas atividades do
Instituto de Serviço Social, sendo ainda de referir a existência de um lar para as
alunas.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 295


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Em espaço anexo à sede da Associação do Instituto de Serviço Social, o Centro Social


da Bempostinha constituía-se, tanto, como local de estágio para as alunas, como para
servir a população das freguesias dos Anjos e da Pena e era considerado “Centro
Piloto”, visitado assiduamente, considerado modelo e verdadeiramente uma “Casa de
todos”. Precisamente, após oito anos de atividade, inicia-se a atividade do 2º Centro
Social do Instituto, o do Beato, instalado em plena zona operária, sendo
inclusivamente algumas fábricas e empresas locais, que contribuíam para o
pagamento da sua renda mensal.

A obra iniciada nestes dois Centros Sociais do Instituto de Serviço Social, era
completada por mais dois Centros Sociais, não pertencentes ao Instituto, mas onde
trabalhavam monitoras e estagiárias, designadamente, o Centro Social do Menino
Deus, pertença do Patriarcado de Lisboa e ocupado pelas Irmãs de São José de Cluny
e o Centro Social na Obra Social de Alfama, de iniciativa paroquial, onde
Trabalhadoras Sociais, formadas pelo Instituto, atendem as famílias das duas
freguesias de Stº Estevão e de S. Miguel.

Outra atividade desenvolvida pelo projeto educativo do Instituto de Serviço Social, no


cumprimento do que considerava ser, a sua ação direta, prendia-se fundamentalmente
com a estruturação de um Lar para as alunas que iniciou atividade no ano de 1943.
Era seu intuito melhorar a sua atuação educativa junto das alunas proporcionando-
lhes residências, sobretudo às que se deslocavam dos meios rurais. Contudo, esta
iniciativa não foi considerando sustentável neste projeto educativo, localizando-se nota
da sua “extinção” em 31 de julho de 1948.

Já quanto ao suporte financeiro do Instituto, verifica-se que assentava essencialmente


nas mensalidades das alunas e de contribuições de alguns benfeitores (englobando-se
nesta categoria entre outros, os apoios cedidos pelo Patriarcado de Lisboa), para além
do apoio financeiro proveniente da Obra das Mães pela Educação Nacional,
destinando-se a cobrir despesas relativas a pessoal, materiais, serviços e encargos
diversos, não suportando, no entanto, despesas dos Centros Sociais, nem da Direção,
ou Centro de Estudos. Para cumprimento desta finalidade seriam afetados outros
subsídios importantes que consubstanciam a relação estabelecida com os diferentes
ministérios. Entre eles, contava-se o apoio do Ministério da Educação Nacional, do
Subsecretariado de Estado da Assistência, e do Subsecretário de Estado das
Corporações e Previdência Social.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 296


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

A criação dos destes centros sociais, em Portugal, tal como noutros paises, têm em
comum, na sua génese, o trabalho de Samuell Barnett (1844-1913) lançados, como
recurso de organização social, são considerados como Centros Sociais na época “ as
“Casas para Todos”, entendidas como organizações que possuem três características
essenciais: tenham lugares abertos permanentemente e destinados a receber as
famílias nas suas dificuldades, sem distinção de condições políticas, religiosas ou
sociais; procurem robustecer a família e por ela estender sua atividade, a todos os
seus membros: crianças, jovens e pais, possuam um espirito de solidariedade, um fim
educativo e recreativo e procurem o melhoramento físico, moral e social dos que o
frequentam.

Este entendimento do projeto educativo do Instituto de Serviço Social, coloca-o em


linha, na História do pensamento em Trabalho Social, sistematizada por Halouk
Soydan (2004), com o pensamento preconizado por Jane Addams (1860-1935) e com
as primeiras trabalhadoras sociais que tiveram um papel ativo nas áreas urbanas
pobres dos Estados Unidos, como líderes de centros comunitários conhecidos como
Settlements Houses co – que estão na génese famoso centro social de Chicago – Hull
House.

Na sua abertura sobre o exterior, reporta-se a presença do Instituto de Serviço Social


em pequenas delegações aos congressos da União Católica Internacional de Serviço
Social, em que intervinham com comunicações, e ainda, aproveitavam essas
deslocações para integrar visitas a escolas de Serviço Social e de Educação Familiar.
Esta abertura, resultava de uma aposta num conhecimento mais pormenorizado da
situação mundial em que o Serviço Social se encontrava envolvido, permitindo
conhecer mais de perto, as modernas correntes de pensamento que influiam no
ensino do Serviço Social, escolas sociais e métodos de formação usados nesses
países, visitar obras sociais e organizações sociais, através das quais se pudessem
apreciar possíveis diferenças ou aperfeiçoamento na técnica do trabalho social e
ainda, auscultar a mentalidade e espírito, reinantes nas suas escolas de
Trabalhadores Sociais. Esta participação envolveu, para além de intercâmbios
internacionais, missões à França, Bélgica e Suíça.

Neste espírito destaca-se a colaboração, com apresentação de um Código Moral


Profissional, no qual todos os países foram chamados a colaborar, remetendo casos
de solução difícil, sob ponto de vista moral, surgidos no decorrer da atividade

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 297


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

profissional das trabalhadoras sociais. Estes encontros centravam-se na troca de


ideias dos vários países.

Pese embora Portugal não tenha tomado parte na 2ª Guerra Mundial, atravessou,
problemas específicos e característicos desse tempo de guerra, na medida em que
sentiu graves repercussões, designadamente, retardando a aplicação de medidas de
ordem social para a solução de numerosos problemas, como sejam a habitação, a
saúde pública e o progresso da indústria e da agricultura bem como no domínio da
produção de conhecimento. Neste enquadramento, encontrou-se o projeto educativo
fundacional comprometido, não com a neutralidade, mas com um campo de
conhecimento académico ancorado numa intencionalidade de ação.

Por último surge o objectivo de integrar a visão do projecto educativo sobre o


seu compromisso para com a sociedade, o seu plano de intencionalidade para a
ação e o envolvimento dos agentes, no seu encontro reflexivo com as
necessidades do exercício profissional da época.

Neste domínio da conceção do exercício profissional, entende-se o trabalhador social


como o melhor colocado na realidade social e conhecedor dos recursos que se abrem
na organização social para atingir a resolução das dificuldades do necessitado,
realizar o estudo da situação individual e do seu meio familiar, profissional e o oriente
adequadamente. Para tanto, seria necessário iniciar uma atuação adequada na
comunidade, na medida em que se entende que muitos dos problemas individuais e
familiares, têm origem no meio social, sendo possível atenuá-los ou mesmo fazê-los
desaparecer com uma melhor organização dos quadros sociais ou dos recursos locais.

A sua ação assenta em princípios ligados à autodeterminação do indivíduo, no sentido


em que são as suas próprias capacidades, as bases para sair das circunstâncias que
o constrangem e a sua finalidade é proporcionar ao individuo os meios para se ajustar,
ou se reajustar, a uma vida normal e a cumprir o seu destino, como também, a
melhoria do próprio meio onde se insere.

A preocupação, de se consubstanciar a prática de um “Serviço Social puro” e o ensejo


de ver realizado um Serviço Social na sua pureza, surge claramente mencionado
neste período, constatando-se que este estaria a ser obstaculizado pelo Estado, pois
pese embora absorver grande parte das alunas que se formavam, atribuia-lhes
funções mais ou menos burocráticas. Perseguindo este interesse, seria necessário

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 298


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

procurar insuflar-lhes o bom espírito, pois era necessário garantir que seriam
“apóstolas” e não meras profissionais.

Influenciados pela noção de um Serviço Social amplo, tornava-se claro que as


Assistentes Sociais e Educadoras Familiares exerciam funções complementares. Para
as Assistentes Sociais, a sua função consistia na educação ou reeducação integral
das famílias de que se ocupavam, no melhoramento económico e social das suas
condições de vida e na reorganização do respetivo meio. No que respeita às
Educadoras Familiares, competia mais, especialmente, a partir de um ensino familiar e
doméstico, formar os diversos meios moral e tecnicamente preparando e orientando,
sobretudo, a mulher para cumprir a sua missão de mãe de família e de dona de casa.

A missão de ambas seria levar a todo o país, ao lar, à oficina, aos campos, à escola,
ao dispensário, sem descriminar classes e meios, tudo o que o conceito de educação
pudesse abarcar, enquanto elemento fundamental de combate à ignorância. Esta
missão exigiria destas duas profissões, dedicação profunda pois, o volume de pedidos
de profissionais, para a criação de novos serviços desde a fundação do Instituto,
assim o exigia. Em concreto opta-se, claramente, por uma atuação na organização da
comunidade, na medida em que muitos dos problemas individuais e familiares, cuja
causa se encontram no ambiente em que se inserem, podem desaparecer com uma
melhor organização dos quadros sociais ou dos recursos locais. Do ponto de vista dos
seus fundamentos, localiza-se aqui as raízes de um Serviço Social de Comunidades
envolvendo essencialmente uma abordagem à família, pautado por evocações
ideológicas, ligadas ao cumprimento do papel da mulher na sociedade portuguesa.

Esta abordagem da família parece assim justificar-se por duas vias. Pela ação moral
que deverá ocorrer no seio da família, onde se pode contar com a influência de todos
os membros, com a mutualidade, interdependência e entreajuda, já que se trata, de
salvar o homem e a sua alma, formando os corações e os espíritos, de acordo com
esse ideal superior. E pela abordagem na defesa da família, como fonte de
conservação e desenvolvimento da raça, como base primária da educação, da
disciplina e harmonia social, e como fundamento de toda a ordem política pela sua
agregação e representação na freguesia e no município tal como se preconiza na
Constituição de 1933. A família é evocada, não como uma abordagem defendida pela
comunidade científica, senão, pelo alinhamento com as virtudes morais, com as
instituições e com o próprio Estado Novo.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 299


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Neste domínio, e perseguindo a classificação que divide o Serviço Social por campos
de aplicação, assiste-se sobretudo ao desenvolvimento de três campos de atuação
dominantes – a área da saúde, a área rural e a área do trabalho e da previdência.

O campo da saúde, desenvolvido, sobretudo, como reflexo das estratégias e


influências dos agentes envolvidos na institucionalização desta primeira escola de
Serviço Social, determinado claramente pelo peso do domínio da saúde pública e da
medicina social, no envolvimento e na luta contra a tuberculose, a sífilis, o alcoolismo,
o cancro, bem como na primazia concedida nos estágios, contribuindo, em larga
medida, para tornar a área da saúde, a área que ocupa o maior número de assistentes
sociais e educadoras familiares.

O campo rural assente no desenvolvimento de uma educação de acordo com os


valores do campo, e segundo a posição social de cada um. Resultou fundamental para
este projeto educativo, a necessidade de trabalhar com as populações rurais e iniciar a
definição de um novo perfil de assistentes sociais - a Assistente Social Rural.

O campo do trabalho e da previdência, desenvolvendo uma perspetiva sobre a


empresa, entendida como uma grande família, em que o patronato toma a seu cargo
todos os aspetos da vida do seu pessoal, criando um clima de cooperação e de
reprodução endógena da força de trabalho. Este campo surgirá naturalmente fértil
para o desempenho e saída profissional. A função dos profissionais relaciona-se com
o bem-estar social dos operários, empregados da empresa e das suas famílias. E
identifica-se, claramente, a função assistencial no atendimento às necessidades
individuais e grupais dos trabalhadores e uma função investigadora dos problemas
pessoais e familiares e sociais que poderão vir a atingir esses trabalhadores.

Com a expectativa da reforma de Carneiro Pacheco de influenciar a educação da


juventude, propondo-se reforçar e desenvolver à ação das organizações da Mocidade
Portuguesa e da Mocidade Portuguesa Feminina a cargo da Obra da Mães pela
Educação Nacional provoca uma certa invisibilidade do papel do Instituto de Serviço
Social na História no Ensino em Portugal que assim não teve influência no projeto
educativo nacional no periodo do Estado Novo, o que se justificaria plenamente.

A realidade para Max Weber (1993), sendo infinita, é inesgotável, caracterizada pela
diversidade, jamais poderá ser apreendida na sua totalidade. O conhecimento
científico não se encerra em si mesmo, nem traduz a reprodução integral do real, é

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 300


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

apenas um conhecimento parcial e provisório. Com este trabalho, pretendeu-se dar


um contributo ao estudo das instituições educativas em Serviço Social e um pequeno
passo no aprofundamento da história do Serviço Social em Portugal na sua
globalidade. Contudo é pretensão que este seja o ponto de partida para estudos
posteriores, seja analisando outros períodos referentes à mesma instituição educativa,
ou referentes a outras instituições educativas, para que o completem e melhorem.

Em síntese

O Instituto de Serviço Social, fundado em Lisboa em 1935, foi a primeira escola de


Serviço Social em Portugal. Após vários ensaios dele surge a implantação de um
projeto educativo singular e a fundação de um campo de conhecimento académico em
Portugal.

É num contexto de reforma da educação promovida pelo Estado Novo que as


conceções sobre o Serviço Social, terão a sua aplicabilidade, corporizando uma visão
de Escola muito própria, pois dela depende o destino dos próprios povos e não tanto
das instituições sociais. A função educativa adquire particular importância, não só
como esta se processa em cada família, mas também como ocorre na escola e na
oficina. Em sintonia com o ecludir das várias escolas de Serviço Social pelo mundo,
ligadas à questão social, o projeto educativo português, revela-se resultante das
dinâmicas internas entre a Igreja e o Estado Novo, no momento em que o Serviço
Social, evolui na estruturação dos seus fundamentos.

É também, integrada na reforma educativa e pela mão do Ministro Carneiro Pacheco,


que se cria a Obra das Mães pela Educação Nacional e a Mocidade Portuguesa
Feminina e se oficializa as escolas de Serviço Social, em complemento da formação
de jovens, idóneas, responsáveis, conscientes e activas cooperadoras da Revolução
Nacional.

A defesa da ideia de “corpo são em mente Sã“, tem subjacente uma necessidade de
educação moral e de educação higiénica da sociedade, à qual o Instituto de Serviço
Social responde com uma tripla função, de ensino, de cultura social e difusão de
princípios sociais, bem como, com uma atuação directa nos problemas sociais da
população local.

Este projeto educativo, é supervisionado por um Conselho Pedagógico formado por


professores dos vários setores do ensino ministrado no Instituto de Serviço Social e

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 301


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

desenvolve um intercâmbio internacional permanente onde, em conjunto com outros


países, inicia o desenvolvimento da ideia de Comité Internacional para controlo da
profissão

No seu seio, emerge, ainda, um Centro de Estudos Sociológicos, um dos poucos


espaços onde o pensamento sociológico se desenrola em Portugal sobre o olhar
atento de Marcelo Ceatano e do Instituto de Alta Cultura, de onde poderiam emergir
subvenções para a investigação científica, muito antes da sociologia entrar
definitivamente.

Em harmonia com o projeto educativo, uma das preocupações do Instituto, incidia


sobre ações de propaganda realizadas por meio de conferências e reuniões no próprio
Instituto de Serviço Social, seguidas de apresentação de trabalhos práticos a par
disso, era também feita propaganda dos princípios sociais e cristãos respondendo
positivamente a pedidos de reuniões de estudo, palestras, conferências, discussões
de teses, colaboração com artigos para vários jornais e revistas

Com campos de actuação predominantemente nas àreas, da saúde, rural, do trabalho


e da previdência, assentava num paradigma Humanista em que cruza o pensamento
positivista com a necessidade de uma percepção totalizante do homem, ou seja, que o
perceba como afetivo e racional e ao mesmo tempo, dotado de prática e auto
determinação, corporizando um Humanismo positivista.

Em 1954, entendem-se já algumas transformações na formação que se irão


consubstanciar num novo plano formativo e em alterações da orgânica interna do
Instituto, para melhor estruturação de todos os serviços, em virtude das quais ficaram
constituídos os dois setores – o da Escola e Atuação Social Direta e o do Centro de
Estudos, coordenados e orientados pela Direção Comum do Instituto de Serviço
Social. A partir de um trabalho de revisão do Plano de Estudos estreitou-se o
intercâmbio com a Escola Normal Social de Coimbra, conseguindo-se um
entendimento para a apresentação do parecer solicitado pelo Ministério da Educação
Nacional sobre os Planos e Programas dos Cursos a ministrar.

Estas transformações que marcaram, sem dúvida, o fim do projeto educativo fundador
do Instituto de Serviço Social, vieram, ao tempo, aprofundar um forte compromisso
com a sociedade, através da expansão do Serviço Social e da Educação Familiar

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 302


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

tanto em extensão como em profundidade, dando início a um novo período na vida do


Instituto de Serviço Social.

Sugestões para investigação futura

Em investigações futuras seria útil e pertinente um aprofundamento deste tema e do


próprio objeto de estudo na medida em que nos encontramos conscientes de que
muitas fontes se encontram por explorar. Seria, também, pertinente ter em conta
outros planos de estudo ministrados pelo Instituto de Serviço Social e, mais tarde, pelo
Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, correspondendo a diferentes épocas e
projetos educativos permitindo explorar as alterações aos modelos de funcionamento,
novas dinâmicas de oferta e procura formativa e novas configurações do campo do
conhecimento.

Noutra perspetiva poder-se-á considerar a ampliação deste estudo a outras escolas


nacionais ou mesmo internacionais por forma a traçar um estudo comparado com
outras das primeiras escolas de Serviço Social, afirmando o estudo das instituições
educativas de Serviço Social na história do Serviço Social.

Todo o acervo do Instituto de Serviço Social, bem como outras instituições educativas
facultam um manancial riquíssimo de fontes documentais, produzidas pelos atores
educativos e pela própria instituição, no âmbito das suas atividades, constitui um
património importantíssimo que importa explorar no âmbito da Investigação em Serviço
Social ou em debate outras disciplinas no domínio das ciências sociais e humanas.

Apesar da premente necessidade de tratamento e conservação da massa documental


do Instituto de Serviço Social este constitui-se um importante desafio abrindo
caminhos à investigação esperando que este debate seja fomentado por especialistas
e pesquisadores. Todas estas potencialidades e constrangimentos encontram-se já
em debate na linha de investigação entretanto criada no Centro Lusíada de
Investigação em Serviço Social e Intervenção Social (CLISSIS) e que se designada
“Serviço Social: História, pensamento e práticas profissionais” onde também se
enquadra a presente pesquisa.

Conhecendo de perto o risco de perder uma parcela substancial da memória, se


percebe a urgência em trilhar esse caminho.

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 303


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

Teresa Paula Garcia Rodrigues da Silva 304


A primeira escola de Serviço Social em Portugal

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329 Estas referências foram elaboradas com base nas seguintes normas:
 ISO 7144:1986 – Documentation – Présentation des thèses et documents assimilés.
Esta norma estipula a criação de um capítulo específico para a organização das
referências bibliográficas de todos os documentos citados no texto;
 NP 405-1:1994 – Referências bibliográficas: documentos impressos;
 NP 405-2:1998 – Referências bibliográficas: materiais não livro;
 NP 405-3:2000 – Referências bibliográficas: documentos não publicados;
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