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CAPíTULO 1

Estado e formas de dominação no Brasil


contemporâneo
Breve síntese em lugar de uma introdução

Marcelo Badaró Mattos

• reunidos nesta coletânea produziram um conjunto significativo


Os autores
de contribuições para o debate sobre o Estado e as formas de dominação
no Brasil contemporâneo. O motivo de reuni-los neste livro é acreditar
que suas contribuições podem ser lidas de forma complementar, ainda
que comportem diferentes caminhos interpretativos. Não à toa, referên-
cias cruzadas aparecem em quase todos os capítulos aqui reunidos e mais
especialmente neste texto. Assim, nas páginas que se seguem, diferentes
trabalhos dos autores deste livro foram postos em diálogo com algumas
obras clássicas, que também lhes servem de referência.
O caráter desta breve síntese é ensaístico, orientando-se por determi-
nadas referências conceituais. Sua primeira parte explicita tais referências,
começando por Florestan Fernandes - na análise que empreende da forma
histórica própria assumida pela revolução burguesa na periferia dependen-
te - e seguindo com Antonio Gramsci e o debate sobre o Estado e as for-
mas de dominação nas complexas sociedades capitalistas contemporâneas.
Na sequência do texto, o golpe de 1964, a ditadura e a forma específica do
regime democrático-burguês que lhe sucedeu ocupam o centro do ensaio.

Autocracia burguesa, contrarrevolução preventiva


e ocidentalização '

Em seu A revolução burguesa no Brasil, Florestan Fernandes empenha-se


em analisar o processo específico através do qual se processou a "revolução
burguesa" - entendida tanto como "transformação capitalista" quanto como
"dominação burguesa" via Estado - em uma sociedade periférica e dependen-

11
12 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL COIi

te como a brasileira. Em seu estudo, ao revés da associação entre d


mento capitalista e democracia, que caracterizaria um modelo "de
\111
co-burguês", associado à revolução burguesa em países de desenvoh
capitalista mais antigo, o que seria próprio do processo local seria"
11\ associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia",'
Em tal situação histórica, Fernandes argumentaria, as mais I
monstrações de manifestação autônoma dos trabalhadores urban
rurais seriam tomadas como sérias ameaças ao padrão burguês de
nação autocrática. Daí que tal dominação adquirisse um caráter
nentemente contrarrevolucionário. O golpe de 1964, tema central
aquele livro, é explicado pelo sociólogo como uma resposta "prev
da burguesia aos conflitos sociais do período:

Ao "defender a estabilidade da ordem", portanto, as classes e os estr


de classe burgueses aproveitaram aqueles conflitos para legitimar a tr
formação da dominação burguesa em uma ditadura de classe preventiva
para privilegiar o seu poder real, .nascido dessa mesma dominação de cl
como se ele fosse uma encarnação da ordem "legitimamente estabelecida
A noção de contrarrevolução preventiva possui uma dimensão hisz
rica de duração mais longa. Em sua explicação sobre a trajetória da af::
mação da dominação burguesa no Brasil e, particularmente, ao discutir
sentido do golpe de 1964 e da ditadura por ele instalada, Fernandes car -
terizou a especificidade da revolução burguesa numa periferia capitalist
dependente como a brasileira justamente a partir dessa dimensão reaci
nária da dominação. A ditadura seria, assim, mais um episódio da "aut
cracia burguesa" no Brasil:
a Revolução Burguesa atrasada, da periferia, [é] fortalecida por din
mismos especiais do capitalismo mundial e lev[a], de modo quase siste-
mático e universal, a ações políticas de classe profundamente reacionárias.
pelas quais se revela a essência autocrática da dominação burguesa e sua
propensão a salvar-se mediante a aceitação de formas abertas e sistemáti-
cas de ditadura de classe.'?

I FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação


lógica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005 (1" edição 1976). p. 340.
2 Ibidem, p. 369.

3 Ibidem, p. 343.
!III

Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 13

o sentido "preventivo" específico do golpe de 1964 também é destacado


por Fernandes, ao relativizar o grau de ameaça à ordem do capital envol-
vido nas lutas da classe trabalhadora nos primeiros momentos da década
de 1960. Por outro lado, e ainda enfatizando o sentido de classe da dita-
dura, a face tecnocrática e militar da gestão do Estado que se seguiu ao
golpe representava não a essência do regime mas uma "resultante", ainda
que "uma resultante de caráter essencial e primordial"," da forma como a
"autocracia burguesa" resolveu o chamado "colapso do populismo", afas-
tando os representantes do "radicalismo burguês e da ordem pseudamente
democrático-burguesa que o engendrara"."
Em suma, sua análise destaca a especificidade da ditadura, mas não
a trata como uma ruptura completa, e sim como um ajuste autocrático
burguês, por isso a derrota das forças populares em 1964 poderia ser en-
tendida como um "desmascaramento" do caráter autocrático já vigente da
dominação burguesa, ainda que sob um regime político formalmente de-
mocrático:

o povo não possuía nem mandatários responsáveis nem campeões leais no


"campo burguês"; e quando o jogo democrático se tornou demasiado arris-
cado, os verdadeiros atores continuaram o baile sem máscaras. Em suma,
não existia uma democracia burguesa fraca, mas uma autocracia burguesa
dissimulada." .

Não cabe neste espaço recuperar a trajetória histórica mais longa da


"autocracia burguesa" no Brasil republicano, segundo a análise de Flores-
tan Fernandes. Podemos, entretanto, associá-Ia a um outro campo de re-
flexões sobre o Estado e as formas de dominação burguesa, que nos parece
rico em iluminações pertinentes para o entendimento da questão no Brasil.
Carlos Nelson Coutinho assinalou a associação entre a noção de contrar-
revolução - prolongada e preventiva - de Fernandes e o conceito de "revo-
lução passiva" de Antonio Gramsci.'

, Ibidern, p. 395.
5 Ibidem, p. 394.

6 Ibidem, p. 394-395.

- COUTINHO, Carlos Nelson, Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 205.
14 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASil C

De forma muito sintética, revoluções passivas, na análise de ~


estão associadas a situações históricas em que as novas classes -
tes levam adiante projetos de modernização capitalista sem efe
ruptura completa com os interesses dominantes anteriores, pois r
recurso à mobilização das massas, pelo temor da ação política da;
subalternas." Não tendo aqui espaço para recuperar todo o debe
a revolução passiva em Gramsci e seus intérpretes, podemos rese
aspecto da questão. Tratando do Reino de Piemonte e de sua fua
processo da unificação italiana, Gramsci nos fala do Estado nas re
passivas, em seu Caderno 15:

Um Estado [que] substitui os grupos sociais locais, ao dirigir uma I


renovação. É um dos casos em que esses grupos têm função de 'do
e não de 'direção': ditadura sem hegemonia. A hegemonia será de
parte do grupo social sobre todo o grupo, não deste sobre outras f -
para fortalecer o movimento, radicalizá-lo, etc., segundo o mod
cobino.?

As revoluções passivas surgem muitas vezes em meio a situações


que adquirem o conteúdo de uma "crise orgânica", expressão utili
Gramsci quase sempre de forma combinada à "crise de hegemonia

que ocorre ou porque a classe dirigente fracassou em algum grande


preendimento político para o qual pediu ou impôs pela força o conse
das grandes massas [...], ou porque amplas massas [...] passaram su
mente da passividade política para a atividade e apresentam reivin
ções que, em seu conjunto desorganizado, constituem uma revolução.'

8 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere, vol. 5. Rio de Janeiro: Civilização B


2002. p. 330.
9 Ibidern, p. 330.

10 Alvaro Bianchi associa a análise de Gramsci sobre as crises de hegemonia, centr


ao problema da representação política, enquanto na crise orgânica estariam ass
dimensões políticas e econômicas. Ver BIANCHI, A., Revolução passiva e crise de
monia no Brasil contemporâneo. Outubro, n. 28, p. 27-35, 2017.
11 GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere, vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
p.60.
Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 15

Percebe-se, com essa passagem, por que a noção de crise de hegemo-


nia foi frequentemente empregada pelas análises sobre a conjuntura que
culminou com o golpe de 1964 no Brasil. A noção de hegemonia é, como
se percebe, central para as reflexões de Gramsci. No interior da dialética
unidade-distinção que caracteriza as reflexões dos Cadernos, o conceito de
hegemonia aparece não apenas como sinônimo de construção do consenso
em torno de um dado projeto de dominação de classe, mas como a "combi-
nação da força e do consenso, que se equilibram de modo variado, sem que
a força suplante em muito o consenso, mas, ao contrário, tentando fazer
com que a forca pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos
chamados' órgãos de opinião pública' ..."Y Assim, a construção da hegemo-
nia em uma &sociedade capitalista complexa envolveria uma ação de classe
moldada não apenas a partir do monopólio dos mecanismos coercitivos
característicos do Estado, em seu sentido mais restrito, mas um processo
mais complexo, em que a organização de frações de classe, a ação política
em defesa de determinado(s) projeto(s) e a construção de consensos para
além das frações às quais tais projetos se vinculam diretamente começam
desde a sociedade civil.
Por isso mesmo, nas complexas sociedades capitalistas do fim do século
XIX e primeiras décadas do século XX, que Gramsci denomina "Ociden-
tais"," entender o Estado e as formas de dominação, exige ir além do apa-
rato de governo - a "sociedade política" - e captar sua interrelação com a
"sociedade civil". O Estado, em seu sentido integral (ou ampliado), é assim
concebido, como Gramsci afirma no Caderno l3, a partir da "dupla pers-
pectiva", teoricamente sintetizada nos polos fundamentais: "da força e do
consenso, da autoridade e da hegemonia, da violência e da civilidade ...".14

12 Ibidem, p. 95.
13 Ocidente e Oriente em Gramsci não são denominações meramente geográficas, respon-
dendo por uma distinção mais ampla entre, respectivamente, formações sociais em que
o capitalismo desenvolveu primeiramente as relações econômico-sociais típicas da fase
da grande indústria, assim corno uma interação mais complexa entre sociedade civil e
sociedade política, em contraste com aquelas de desenvolvimento industrial mais tardio
e onde imperam relações políticas pautadas pelo completo predomínio da sociedade po-
lítica sobre a sociedade civil.
14 GRAMSCI, Cadern;s do cárcere, vol. 3, op. cit., p. 33.
16 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CO

Da ditadura à democracia: a(s) lógica(s) da dominação


Voltando a um autor há pouco rapidamente mencionado, Carlos .-
Coutinho apresenta o quadro geral da história brasileira, desde o I _
até os anos 1970, como dominantemente "oriental", pois, como
do da trajetória da revolução passiva entre nós, apesar de traços
talizantes visíveis desde a virada do século XIX, "não só a sociedade
brasileira era até pouco tempo 'primitiva e gelatinosa', mas também -_
Estado [...] foi sempre bastante forte","
Daí que o resultado da "modernização conservadora" promovida:
ditadura militar, inscrevendo o Brasil na fase do capitalismo monopo
portaria a contradição de um avanço no processo de ocidentalização :
-década de 1970, visto que a perda das bases de consenso (um cons
passivo, conforme destaca Coutinho) da ditadura criou o espaço para _
"os aparelhos da sociedade civil pude[ssem] de novo voltar à luz, hegem
zados agora por um amplo arco de forças antiditatoriais, que ia da es
da socialista aos conservadores esclarecidos","
O pressuposto desse tipo de avaliação parece ser uma associação .
diata entre emergência da sociedade civil e ampliação da organização cz,
massas trabalhadoras, expressa, por exemplo, na perspectiva de que ain
resta um longo caminho a percorrer em direção à socialização da políti
no Brasil, "para construir um efetivo protagonismo das massas, capaz '-
consolidar definitivamente a sociedade civil brasileira como protagoni
de nossa esfera pública"."
Pode-se questionar tal análise por deixar à margem da explicação a efe-
tiva e bastante antiga organização dos interesses das classes dominantes na
sociedade civil brasileira. Os estudos desenvolvidos por Sônia Regina de
Mendonça, por exemplo, vêm demonstrando a capacidade de organização
da classe dominante no campo, desde pelo menos os tempos da "República
Velha", para garantir, desde a sociedade civil até a sociedade política, o peso
de seus interesses econômico-sociais sobre as ações de um Estado burguês
no Brasil." Do ponto de vista da burguesia industrial propriamente dita,

15 COUTINHO, Gramsci, op. cit., p. 212.


16 Idem, p. 217.
17 Idem, p. 217.

18 Sobre a organização dos interesses agrários, entre suas várias obras, ver: MENDONÇA,
Sonia Regina de. O ruralismo brasileiro (1888-1931). São Paulo: Hucitec,1997.
Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 17

a mesma autora recuperou várias discussões para mostrar como, no final


dos anos 192Ó,os interesses da burguesia industrial começaram a ganhar
canais autônomos de representação e, a partir de 1930, ampliaram sua in-
fluência direta sobre as políticas de Estado. Embora não dirigindo dire-
tamente o conjunto do aparato de Estado no pós-30, o projeto de classe
da burguesia industrial obteve forte expressão nas políticas públicas. Tal
projeto era expresso em sua proposta "industrialista": com valorização da
atividade industrial via políticas alfandegária, cambial e fiscal e interven-
ção direta do Estado, quer investindo diretamente em infraestrutura (e em
alguns casos na própria produção industrial), quer controlando as pres-
sões do proletariado, através das políticas trabalhista e sindical."
Em um çstudo clássico e fundamental para a discussão que aqui se faz,
René Dreifuss mostrou como a fração burguesa industrial do grande capital
associado desenvolveu forte capacidade organizativa, essencial para dirigir
a~ demais frações da classe dominante no processo que resultou no golpe
de 1964.20 Estudando o complexo IPES-IBAD e influenciado pela noção de
"intelectual orgânico" de Antônio Gramsci, Dreifuss mostrou que seus par-
ticipantes constituíam uma "elite orgânica" de empresários e militares. Essa
"elite orgânica" foi por ele mapeada a partir de centenas de documentos do
IPES e do IBAD, desvelando seus vínculos com grandes empresas multina-
cionais e associadas. Um grupo que estava, segundo Dreifuss,

no centro dos acontecimentos, como homens de ligação e como organizado-


res do movimento civil-militar, dando apoio material e preparando o clima
para a intervenção militar [ ] O ocorrido em 31 de março de 1964 não foi
um mero golpe militar. Foi [ ] um movimento social civil-militar,'?'

o caráterde classe do golpe e dos governos da ditadura é o centro da


análise de Dreifuss, que toma os representantes do grande capital como
protagonistas de uma ação política consciente e dirigida a um fim. Orga-

19 Sobre a organização dos industriais e seu projeto, ver da mesma autora o livro MEN-
DONÇA, S. R. Estado e economia no Brasil: opções de desenvolvimento. Rio de Janeiro:
Graal, 1985.
20 DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado: ação Política, Poder e Golpe de
Classe. Petrópolis: Vozes, 1981.
21 Ibidem, idem, p. 397.
18 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CONT~

nizando-se a partir da sociedade civil, as classes dominantes articula:


uma complexa ação coletiva que resultou na intervenção Nas suas pala

As classes dominantes, sob a liderança do bloco multinacional e associa


empreenderam uma campanha ideológica e político-militar em frentes di-
versas, através de uma série de instituições e organizações de classe, mui-
tas das quais eram parte integrante do sistema político populista."

Através da análise comparativa entre os projetos formulados antes -


golpe, no interior do IPES e das políticas implementadas nos prime'
anos da ditadura, combinada a um mapeamento dos ocupantes de car
do primeiros escalões do primeiro governo militar, através do qual con
tatou a proeminência de representantes da "elite orgânica" que se articul
em torno do complexo IPES-IBAD, Dreifuss pode perceber como de
minados objetivos conscientes do movimento que levou à derrubada -
Goulart estavam sendo perseguidos na ditadura."
Assim, a capacidade dirigente demonstrada pela burguesia industri
- e particularmente do grande capital nacional e associado - entre a:
frações burguesas se fortaleceu, nos anos seguintes, por intermédio
governo instalado em 1964 que, embora de caráter ditatorial e com com-
ponentes "bonapartistas-militares", levou adiante, em seus primeiros
anos, políticas econômicas e sociais ditadas diretamente pelos interesses
do grande capital.
Nesse sentido, ainda que sob a lógica geral de um processo de revolução
passiva, ou seja, de uma valorização da iniciativa estatal para operar as
mudanças preservando a ordem (e, portanto, reprimindo a organização
e mobilização das classes subalternas), as classes dominantes investiram
e muito, em suas associações de classe, órgãos de construção da chamada
"opinião pública" e na constituição das bases para o consenso ativo no in-
terior do bloco dominante, assim como para o consenso dos subalternos.
Um consenso predominantemente passivo, mas em certos momentos com
algum grau de atividade, conferido pela incorporação de lideranças e or-
ganizações da classe trabalhadora ao projeto do capital. Desse ponto de

22 Ibidem, idem, p. 483.


23 Ibidem, idem, p. 485 e 55.
- do e formas de dominação no Brasil contemporâneo 19

=ista, a sociedade civil brasileira estava longe de ser apenas "primitiva e


gelatinosa", pelo menos desde a Primeira República.
Não parece ser frutífero, portanto, buscar periodizar o momento do
fim da "revolução passiva", ou virada do jogo em favor da "Ocidentaliza-
ção", como se tais momentos pudessem ser encadeados em um esquema
de evolução linear. O próprio Gramsci nos lembra que suas observações
teóricas não deviam "ser concebidas como esquemas rígidos, mas apenas
como critérios práticos de interpretação histórica e política. Nas análises
concretas dos eventos reais, as formas históricas são determinadas e quase
'únicas"." ,
Discordamos, a partir desse ponto de vista, da periodização de Cou-
tinho, pois havia elementos "ocidentalizantes" fortes na dominação de
classes muito antes de 1964, da mesma forma que expressivos traços do
processo de "revolução passiva" resistiram ao fim da ditadura. No entanto,
concordamos que "como critérios práticos de interpretação histórica e po-
lítica", tais conceitos potencializam interpretações mais complexas do Es-
tado no Brasil. Por isso, não há motivos para discordar dele em relação ao
fato de que, do ponto de vista da complexificação da sociedade civil, com
a multiplicação de partidos, "no sentido amplo e não formal" de Gramsci,
ou como são mais comumente chamados "aparelhos privados de hegemo-
nia", o Brasil desde o-final do século XX é plenamente "Ocidental". Ao que
cor responde uma relativa estabilidade da democracia parlamentar, após o
período 1985-1989, quando concluiu-se a transição política. Caberia então
sustentar que a forma atual da dominação burguesa no Brasil está soli-
damente alicerçada no consenso ativo das massas subalternas? Indo além,
isso significaria que o caráter coercitivo das funções típicas do Estado em
seu sentido restrito é secundário para as estratégias de dominação burgue-
sa hoje em nosso país?
Não há respostas simples para tais questões. De um lado, vivemos uma
dominação de classes caracterizada pelo máximo investimento no consen-
so por parte do grande capital. Lúcia Neves vem insistindo em demonstrar
como se deu recentemente uma ampliação dos aparelhos privados de hege-
monia do grande capital- dos tradicionais meios de comunicação às novas
Organizações Não Governamentais (ou Organizações da Sociedade Civil

14 GRAMSCI, Cadernos, voI. 3, op. cit., p. 67.


20 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CO ~

de Interesse Público) - que se empenham por difundir uma "nova


gogia da hegemonia"." Ou seja, os 2,7 milhões de crianças e adolesc..•.....
_·,
atingidos pelos 4.700 projetos sociais do Programa Criança Esperan
27 mil escolas cadastradas no projeto Amigos da Escola e a maior par.:-
1 milhão e 540 mil trabalhadores empregados pelas mais de 275 mil _
existentes no Brasil em inícios dos anos 2000, apenas para citarmos aI;::
dos exemplos listados por Neves, são números que nos ajudam a per
o tamanho do aparato mobilizado para transmitir aos subalternos
lores adequados à adaptação a uma ordem produtiva capitalista ba
na ampliação da expropriação e na intensificação da exploração da c
trabalhadora."
Ao que se combina, como bem lembra Virgínia Fontes, a reatualiza::.
das práticas filantrópicas, travestidas de "responsabilidade social", que
corporam intelectuais e militantes, através dos procedimentos de "em;
sariamento de projetos" como forma de sobrevivência, rebaixando
discursos "da crítica social à denúncia da pobreza"." O resultado é a -
fusão dos valores da "flexibilidade", da "mobilidade" e da "adaptabilidac
como os mais adequados ao indivíduo/trabalhador/empreendedor de h
- acompanhados, é claro, do esquecimento, quando não da condena -
de qualquer tipo de defesa da mobilização coletiva contestatória -, assim
como a substituição das referências à classe pelas múltiplas identidades, .-
clusive aquela de "pobre", objeto da assistência, da responsabilidade soci
ou das políticas focalizadas, quando o indivíduo flexível e empreended _
não encontra espaço no mercado de trabalho.
E como canais de difusão de valores, os meios de comunicação empre-
sariais - setor do capital altamente concentrado no Brasil - ocuparam um
papel cada vez mais importante, especialmente a partir da ditadura militar
quando foram criadas as condições materiais para a teledifusão em rede
nacional e destinados aportes substanciais de recursos para alguns grupo
empresariais do setor, profundamente engajados na defesa do projeto con-
trarrevolucionário em sua versão ditatorial. Os mesmos grupos que, na

25 NEVES, Lúcia (Org.). A nova pedagogia da hegemonia. Estratégias do capital para edu-
car o consenso. São Paulo: Xamã, 2005.
26 Ibidem, p. 102 e 122.

27 FONTES, Virgínia. Reflexões im-pertinentes. História e capitalismo contemporâneo.


Rio de Janeiro: Bom Texto, 2005.
22 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CONTE

maior reside, portanto, em entender de que forma o regime dem


co que sucedeu à ditadura manteve fortes traços autocráticos e conte _
com novas características, o objetivo "contrarrevolucionário preven .
prolongado" da dominação burguesa no Brasil a que se referia Fernan
Um importante esforço nesta direção foi feito por David Maciel em
série de trabalhos publicados nos últimos anos. Segundo Maciel, "ao loo_
do tempo, o Estado autocrático-burguês no Brasil adotou diversas fo
oscilando, grosso modo, entre a forma democrático-liberal e a forma
tatorial"." Se o ápice da autocracia burguesa correspondeu ao período -
ditadura militar, a forma como se operou a transição iniciada em 1
não fugiu ao modelo autocrático, muito ao contrário, pois com "a ch
" Nova República, novas reformas institucionais foram implementa
da
no sentido da democratização, porém mantendo o espírito que animo
transição 'lenta, gradual e segura': a preservação da autocracia burguesa"
Também tomando a obra de Fernandes como referência, Renato Lem
valoriza o conceito de "contrarrevolução preventiva" como elemento c
tral para explicar a natureza das formas de dominação de classes no Bras;
do século XX.31 Assolada sempre pela ameaça da revolução proletária, aia
da que em territórios distantes, a dominação burguesa no Brasil const -
-se sobre o pressuposto da necessidade de prevenir tal ameaça, de for
a garantir as elevadas taxas de exploração da força de trabalho requeridas
de uma formação social que se industrializa e urbaniza rapidamente nc
pós-guerra, em padrão dependente típico do caráter tardio do desenv _
vimento capitalista na periferia. Por isso, segundo Lemos, não apenas o
golpe de 1964 e a ditadura por ele instalada seriam resultados da lógica
da "contrarrevolução preventiva", mas também a "transição democrática
teria sido dirigida pela mesma lógica. Assim se pode compreender melhor
porque, desde as normas constitucionais de 1988 (aperfeiçoadas pelas suas
sucessivas "reformas" nas décadas de 1990 e 2000), fossem evidentes o
elementos contrarrevolucionários preventivos.

29 MACIEL, David. Neoliberalismo e autocracia burguesa no Brasil. Cadernos Cemarx, n.


5, p. 195-210, p. 202, 2009. Ver do mesmo autor, MACIEL, D. A argamassa da ordem: da
Ditadura Militar à Nova República (1974- 1985). São Paulo: Xamã, 2004.
30 Ibidem, idem, p. 203.
31 LEMOS, Renato L. C. Contrarrevolução e ditadura: ensaio sobre o processo político
brasileiro pós-1964. Marx e o marxismo, v. 2, n. 2, jan./jul. 2014.
:stado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 23

Renato Lemos e Florestan Fernandes são incorporados à análise de


Felipe Demier, que procura tratar das formas atuais de dominação de
classes e dos regimes políticos por elas engendrados, resgatando vários
dos conceitos aqui apresentados. Demier, no entanto, acrescenta à chave
interpretativa que identifica a trajetória histórica da "autocracia burgue-
a" no Brasil uma explicação centrada no conceito de "bonapartismo"."
Para entender o regime político que emerge ao fim da ditadura, quando
finalmente o "longo bonapartisrno" brasileiro teria sido superado, Demier
cunhou o conceito de "democracia blindada". Sua análise vai além do Bra-
sil, tentando abarcar, através de comparações, outras situações periféricas
em que a democracia burguesa se implanta já na fase histórica em que o
.&
capital não pode e não quer ceder a nenhum tipo de pressão por novos
direitos da parte da classe trabalhadora. Demier parte de uma leitura pró-
pria de Gramsci para definir os regimes democráticos como portando um
"caráter hegemônico - isto é, combinando de forma equilibrada elementos
de consenso e coerção"."
As democracias blindadas, no entanto, diferentemente dos modelos
keynesianos de regulação dos conflitos no pós-guerra, seriam capazes de
impedir "por meio de uma série de artifícios econômicos, políticos e cul-
turais, que as demandas populares de cunho reformista possam adentrar a
cena política institucional"." A questão social, nessas situações, recebe um
novo tratamento, centrado na "expansão de políticas sociais compensató-
rias, carentes de universalidade". 35
Sua análise permite também pensar como os governos capitaneados
pelo Partido dos Trabalhadores, a partir de 2003, longe de contrapor-se,
teriam reforçado a dinâmica própria da democracia blindada, somando ao
quadro consolidado nos anos 1990 um novo fator: o "'transformismo' das
principais representações, nos planos sindical e político, do movimento

32 DEMIER, Felipe. O longo bonapartismo brasileiro (1930-1964). Rio de Janeiro: Mauad,


2013.
33 DEMIER, F. Democracias blindadas: formas de dominação político-social e contrar-
reformas no tardo capitalismo (Portugal e Brasil). Libertas, Juiz de Fora, v. 12, n. 2, p. 2,
2012. Essa discussão é retomada pelo autor no segundo capítulo de seu livro mais recente
DEMIER, F. Depois do Golpe; a dialética da democracia blindada brasileira. Rio de Janei-
ro: Mauad X, 2017.
34 DEMIER, F., Democracias blindadas, op. cit., p. 2.
35 Ibidem, p. 3.
24 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CO 1-

dos trabalhadores organizados, a saber, a CUT e o PT",36 que teriam


responsáveis pelo "apassivamento" dos conflitos e pela construção ;
sensos mais sólidos em torno do regime.
As políticas sociais compensatórias e o transformismo das direç - -
tretanto, se combinam a outras formas, menos "consensuais" de gaI'2
do controle da ordem. Demier está atento ao sentido de classe da violé
institucional no contexto recente:

Neste contexto de agressivo ataque aos direitos dos trabalhadores e


crescimento das resistências sociais, faz-se visível igualmente o crescimen-
to da repressão [... ]. Fica evidente que a violência policial não é um mal ge-
nérico e abstrato, que sobre todos se abate indiscriminadamente, mas sim
uma força política concentrada, cuja finalidade é a proteção dos interesses
sociais bem concretos do Capital. 37

A questão do "transforrnismo", ou da incorporação de lideranças .


viduais e, em seguida, grupos políticos inteiros (o PT e a CUT, em espe '
forjados nas lutas da classe trabalhadora, à órbita do projeto domin -
nos leva às mudanças no regime democrático do Estado burguês brasileir
no período inaugurado pela posse de Lula da Silva na presidência em 20
Para entender tal processo, é necessário voltar aos anos 1990. No Br
como na maior parte do globo, a reestruturação produtiva e as políticas n
liberais foram pensadas como respostas do capital à sua crise e tiveram,
fato, como efeito uma reversão momentânea no declínio da taxa de lucros.
Por isso mesmo, a reunificação dos interesses burgueses, nos anos 199
se dará sob o influxo do projeto neoliberal. No caso do setor industrial,
estudo de Alvaro Bianchi sobre a Fiesp mostra como as disputas internas
entre as diferentes frações e os distintos projetos de recomposição da uni-
dade do empresariado industrial face à crise dos anos 1980 foram resolvi-

36 Ibidem, p. 17.
37 Ibidem, p. 4.
38 Sobre esse processo ver BRAGA, Ruy. A restauração do Capital. Um estudo sobre a crise

contemporânea. São Paulo: Xamã, 1997. E ANTUNES, Ricardo, Os sentidos do trabalho.


São Paulo: Boitempo, 1999. Os dados sobre a recuperação momentânea das taxas de lucro
foram apresentados por ROBERTS, Michael. Brazil: a dirty scum on polluted water. Blog
The Next Recession, 16 mar. 2015. Disponível em: <https:llthenextrecession.wordpress.
com/2015/03/16/brazil-a-dirty-scum-on-polluted-water/>.
Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 25

das com a adesão - nunca isenta de contradições - ao neoliberalismo. Em


suas palavras:

Ao longo dos anos 1980, a defesa do liberalismo gradativamente abando-


nou o campo estritamente doutrinário e passou a se apresentar como pro-
grama político. Nos últimos anos dessa década, na medida em que a crise
orgânica assumiu contornos mais agudos, essa transformação se comple-
tou. Para o empresariado, a alternativa neoliberal era um programa capaz
de alterar a relação de forças entre as classes por meio de reorganização
econômica e da recomposição social.39

Do pontô de vista político-social, a questão central a ser enfrentada


pela burguesia, não apenas pelos industriais, era a recomposição da estabi-
lidade da dominação de classes. Assim, a opção neoliberal- valendo-se, no
caso de FHC, do prestígio popular obtido pelo controle da inflação - partia
do ataque às parcas conquistas e à maior capacidade de intervenção social
demonstrada pela classe trabalhadora na década de 1980. Mas, apresenta-
va também opções definidas, como lembra Bianchi, para a equalização das
relações público-privado e nacional-estrangeiro na economia brasileira. A
abertura econômica e, principalmente, o programa de privatizações - le-
vado adiante com a vitória eleitoral de Collor de Melo (1989) e muito apro-
fundado nas duas gestões de Fernando Henrique Cardoso - são os pontos
sem retorno dessa opção neoliberal.
Além do "consenso passivo" criado em torno da estabilidade da moe-
da, o projeto neoliberal buscou construir bases de "consenso ativo", via
transformismo das direções sindicais. As direções sindicais ligadas ao PT,
que comandavam a CUT, pressionadas objetivamente pelo crescimento
do desemprego no setor industrial (sua base original mais significativa) e
cativadas pela lógica do "menos pior", acabaram demonstrando sua dispo-
sição para o "diálogo" - leia-se colaboração de classes. Algo que se torna
visível desde pelo menos as "câmaras setoriais" no governo Itamar Franco
e fica ainda mais explícito quando das negociações em torno do "acordo da
previdência", em 1997, já no governo FHC. Também deve-se ter em conta

39BIANCHI, Álvaro. Um ministério dos industriais: a Federação das Indústrias do Estado


de São Paulo na crise das décadas de 1980 e 1990. Campinas: EdUnicamp, 2009. p. 260.
26 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL

que, participando da "gestão tripartite" de fundos como o FAT e


dirigentes sindicais cutistas compartilharam discursos e propo
os empresários, ainda que pudessem obstar alguns projetos mais ~
de (contra)reforma trabalhista." Havia, porém, um outro ponto de
entre as privatizações, a burocracia sindical de origem petista e a b _
que merece ser lembrado: os fundos de pensão.
No processo de privatização de diversas empresas, a participaçã
fundos de pensão - especialmente dos trabalhadores de empresas
como Previ (BB), Petrus (Petrobrás), Funcef (CEF) e outros - foi
para capitalizar consórcios compradores liderados por empresas p .
do setor industrial e bancário. Tais fundos, instituídos com o obje .
complementar as aposentadorias da previdência social pública dos
lhadores dessas empresas, transformaram-se em importantes alavan
acumulação capitalista, mantendo bilhões em carteiras de ações da
e de títulos da dívida pública. Desde os anos 1980, os sindicatos lu
e conquistaram espaço para representantes dos trabalhadores nos
lhos gestores dos fundos, sendo que muitos deles acabariam por ser
dos do sindicalismo cutista. Nos conselhos, participaram ativamen
privataria, ganharam individualmente com isso (ao serem indicados
conselhos de empresas privatizadas, por exemplo) e, mais que tudo,
miram como seu o programa do capital."
Os processos de desnacionalização e redução do peso relativo do
industrial, decorrentes da abertura comercial e financeira e das pri
zações, no entanto, criaram com o tempo fissuras entre os interesses
diferentes frações burguesas, com uma parte do empresariado indus
tomando a frente da defesa de propostas "liberal-desenvolvimenti
desde o final dos anos 1990 e endurecendo as críticas ao governo Fer -
do Henrique Cardoso ao fim de seu segundo mandato. Mais que uma a -
são à oposição, tais críticas revelavam, segundo Bianchi, uma pressão par:
alterações da política econômica, com a redução da taxa de juros e u
reforma tributária que lhes beneficiasse.

40 Abordei a questão em MATTOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e Sindicatos no Bra


2. ed. São Paulo: Expressão popular, 2009.
41 Ver a esse respeito a síntese apresentada pelo artigo de GRANEMANN, Sara e SALDA-
NHA, José Miguel B. Os fundos de pensão e a acumulação capitalista. Opinião Socialista;
n. 150, 15 a 28 maio 2003.
Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 27

De qualquer forma, a maioria dos empresários preferia uma saída de


continuidade nas eleições de 2002, mas a deterioração das condições so-
ciais decorrente do desmanche neoliberal indicava a forte possibilidade
de uma vitória das oposições. Testadas as possibilidades mais variadas,
um setor burguês construiu as pontes com a candidatura do Partido dos
Trabalhadores. Não à toa, Lula se apresentou candidato enfatizando que
não "quebraria contratos", construiu sua chapa em aliança com o Partido
Liberal e convidou o maior empresário da indústria têxtil brasileira - José
de Alencar - como vice. A aproximação com a burguesia resultou em um
financiamento empresarial
, da campanha de Lula quase tão vultoso quanto
o de José Serra, candidato do PSDB.42
Para entender essa aproximação entre Lula e a burguesia, não basta
perceber a mudança de posição de frações do empresariado, mas também
e principalmente, as transformações do PT ao longo dos anos 1990, cuja
"moderação" (no sentido de uma gestão adequada aos interesses de classe
da burguesia) estava provada por diversas administrações municipais e
estaduais do partido.
Eurelino Coelho nos oferece uma das mais completas análises do
transformismo petista, a partir do estudo das manifestações públicas e
no interior do debate partidário, das correntes políticas que, no início
da década de 1990, constituíram o campo majoritário do PT.43O que
Coelho observa nos anos 1990 é, por um lado, uma mudança signifi-
cativa no quadro objetivo em que se processa a luta de classes no Brasil
(e no mundo), em que a concorrência extrema entre trabalhadores, em
uma situação de desemprego galopante, acaba por ser "desfavorável à
afirmação da unidade de classe"." Por outro lado - e esta não é uma
consequência necessária da primeira alteração -, no projeto político re-
presentado pelo PT ocorre uma "troca da referência de classes [... ] pela
generalidade formal cidadania", o que acarreta em uma "outra forma de

42 Dados sobre o financiamento empresarial das campanhas presidenciais no Brasil a par-


tir de 1989 podem ser encontrados em GARCIA, Cyro. PT: de oposição à sustentação da
ordem. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011. p. 107-110.
43 COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital. São Paulo: Xamã/Eduefes, 2012. En-
tre a já agora vasta literatura universitária dedicada à análise da trajetória do PT, destaca-
-se também o trabalho de IASI, Mauro. Metamorfoses da consciência de classe: o PT entre
a negação e o consentimento. São Paulo: Expressão Popular, 2006.
44 COELHO, E. Uma esquerda para o capital, op. cit., p. 287.
28 ESTADOE FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL CO~

. destituição da 'auto consciência crítica"." Tal processo é explica


Coelho pela dissolução dos vínculos orgânicos entre a direção
petista e a classe trabalhadora, na medida mesma em que os q
dirigentes do partido se burocratizaram e, ao mesmo tempo, tende
cada vez mais posicionarem-se "num campo sob a direção intele
moral da burguesia"."
A análise de Coelho nos permite perceber o processo através do
burocratização e a perda de vínculos orgânicos das lideranças/intele
da esquerda, forjados na luta dos anos 1980, não os joga em um "vác
classe" nas décadas seguintes. Pelo contrário, eles:

substituíram a atividade de organização da classe como sujeito político


independente (consciente de sua personalidade histórica) pela reorganiza-
ção do Estado burguês. Seu novo projeto político é restauracionista, urna
!I concepção de mundo que, a despeito da retórica às vezes radical, prioriza
a preservação da ordem."

Através da caracterização do Partido dos Trabalhadores como "


esquerda para o capital", o estudo de Coelho nos proporciona uma an
se bastante consistente do duplo movimento de "migração dos element
mais ativos dentre os intelectuais das classes subalternas para a zona .
hegemonia da classe dominante (um movimento para o capital), o q -
teve como consequência dotar o bloco dominante [... ] de uma nova
esquerda"."

Ainda a contrarrevolução preventiva

São pistas interpretativas relevantes para percebermos como, mesmo sob


os governos do Partido dos Trabalhadores, a lógica contrarrevolucioná-
ria preventiva das formas da dominação burguesa exercitadas no Brasil
contemporâneo manteve-se presente. Não pretendemos entrar aqui na dis-

45 Ibidem, idem, p. 287.


46 Ibidem, idem, p. 316.
47 Ibidem, idem, p. 329.
48 Ibidem, idem, p. 357.
=srado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 29

cussão específica sobre este período mais recente, ainda que em alguma
medida o tenhamos ensaiado aqui e alhures."
De qualquer forma, não deixa de ser significativo observar que o espaço
para um governo da "ala esquerda do capital" foi aberto ao fim de mais
de uma década de devastação social produzida pelas políticas neoliberais,
quando a opção por um governo capaz de conter o potencial de convulsão
social pela via da conciliação foi assumida por parcelas da classe domi-
nante que apoiaram a candidatura do PT e, contempladas pelas políticas
do governo Lula, sustentaram esse apoio por mais de uma década. A con-
trarrev~lução alimentara-se do transformismo petista para garantir a paz
social, em meio a uma relativa estabilidade econômica (mesmo os efeitos
da crise de 2008 foram atenuados entre 20lO e 2013) e a um governo que
manobrava para seguir a pauta das contrarreformas neoliberais, mas con-
trabalançava-as com políticas sociais focalizadas e compensatórias e com
uma expansão do consumo dos setores mais pauperizados, via elevação
progressiva do salário mínimo e endividamento das famílias.
No entanto, quando a dinâmica da crise capitalista cobrou um preço
mais alto do capital aqui instalado, a opção por uma nova e radical ro-
dada de dilapidação de direitos da classe trabalhadora ganhou corpo. So-
me-se a isso a avaliação - motivada pelas manifestações multitudinárias
de junho de 2013 - de que o PT no governo já não era capaz de garantir
o controle sobre as mobilizações sociais dos subalternos. Teremos, assim,
mais elementos para compreendermos o fato de que o grande capital, per-
sonificado nos empresários e suas organizações - "que nunca lucraram
tanto na história deste país", para reproduzirmos uma avaliação realista
repetida à exaustão por Lula -, que apoiara os (e se apoiara nos) governos
petistas, ao longo do ano de 2015 aderiu praticamente em bloco à proposta

49 Sobre o período inaugurado pela chegada de Lula à presidência em 2003, apresentamos


diversas análises no livro MATTOS, M. B. Reorganizando em meio ao refluxo: a classe
trabalhadora no Brasil recente. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2009. Em artigos mais re-
centes avançamos na discussão, incluindo análises sobre a recente derrubada do governo
petista de Dilma Roussef. Ver por exemplo, MATTOS, M. B. Dez anos de governo petista
e a consolidação da dominação burguesa no Brasil. Blog Marxismo 21, 2013. Disponível
em: <http://marxismo21.org/wp-content/uploads/2013/06/M-Badar%C3%B3.pdf>. E, en-
tre outros artigos publicados no Blog Junho, MATTOS, M. B. O ponto a que chegamos:
sobre a luta de classes na conjuntura do golpe de 2016. Dez. 2016. Disponível em: <http://
blogjunho.com.br/o-ponto-a-que-chegamos-sobre-a-luta-de-classes-na-conjuntura-do-
-golpe-de-20l6/>.
30 ESTADO E FORMAS DE DOMINAÇÃO NO BRASIL C

de derrubada do governo de Dilma Roussef. Em síntese, o mesmo r


contrarrevolucionário preventivo que motivou o suporte a um gov
ala esquerda do capital levou ao acionamento de sua ala direita e à
mais abertamente autocrática diante da ameaça (mesmo que dist
contestações antissistêmicas vindas de baixo, combinada ao imp
crise capitalista.
Um processo em curso, cujo desfecho não podemos prever. De q
forma, para interromper o fluxo autocrático da contrarrevolução b
sa, uma mudança expressiva na correlação de forças político-sociais
necessária. Algo que Florestan Fernandes, em um momento relativa
otimista de uma entrevista do final dos anos 1970, apontou como po
embora se mostrasse completamente crítico de qualquer aposta em
e
redemocratização conduzida "pelo alto". Fernandes via na ascensão
movimento sindical naquele momento um potencial para uma "revol -
dentro da ordem",50 outra expressão típica de sua sociologia usada
explicar o alcance potencial das lutas por reformas, que poderiam le -
ruptura com a autocracia burguesa, ainda que nos marcos da ordem
talista. Só a luta dos subalternos, segundo ele, teria o potencial de estan
a marcha da contrarrevolução. Por isso, nos domínios da autocracia,
mo a luta por reformas - por isso mesmo alcunhada paradoxalmente
"revolução dentro da ordem" - teria que adquirir um tom revolucionán
para ser bem-sucedida:

o processo está em curso e ele explica os ritmos ascendentes da revolu-


ção (em contraposição ao refluxo da contrarrevolução). A ordem burguesa
será transformada de baixo para cima, pela pressão do proletariado, do
movimento sindical e de outros setores urbanos ou rurais das classes
trabalhadoras. De imediato, essa eclosão do povo na história implicará o
aparecimento mais ou menos rápido de uma democracia de participação
ampliada. [... ] A médio prazo, o proletariado e as classes trabalhadoras
em geral colocarão um ponto final na tradição mandonista, despótica, de

50 Florestan Fernandes refere-se assim à "realização das reformas capitalistas (como a re-
forma agrária, a
=forrna urbana, a reforma educacional, o combate à miséria, às desigualdades extremas, à
fome, à exclusão, etc.)", em Pensamento e Ação: o PT e os rumos do socialismo. São Paulo:
Globo, 2006. p. 48
Estado e formas de dominação no Brasil contemporâneo 31

nossa burguesia. Passaremos, pois, da autocracia burguesa para a revitali-


zação da revolução democrática e da revolução nacional. 51

Quase 40 anos depois, ainda não chegamos lá. A questão que fica é: ha-
veria espaço para uma "revolução dentro da ordem", quer dizer, para uma
democratização em sentido mais amplo, que mudasse a face autocrática
da dominação burguesa nesta periferia dependente? Ou, para concluir de
novo recorrendo a Florestan Fernandes, se "o controle burguês da socie-
dade civil est[á] bloqueando e continu[a) a bloquear de modo crescente, no
Brasil, a revolução nacional e a revolução democrática de recorte especi-
ficamente' capitalista", 52 somente a "revolução contra a ordem" - socialis-
ta - poderá dar cabo das tarefas democratizantes que enterrarão de vez a
autocracia burguesa?

51 FERNANDES, Florestan. Brasil em compasso de espera. Rio de Janeiro: Ed.UFRJ, 2011.


p.284-285.
52 FERNANDES, Florestan. A Sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1977. p. 205.