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O Banquete – Platão: o que é o Amor?

Luciene Félix
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana
da ESDC
mitologia@esdc.com.br

Num festivo Banquete, a tributar honras e glórias ao


Amor, ouviremos Fedro, Pausânias, o médico
Erixímaco, o comediógrafo Aristófanes, o próprio
anfitrião desse symposium, o poeta Agatão e
Sócrates, revelando a preciosa e aguda sapiência
da sacerdotisa Diotima. Eis nosso breve recorte.

Fedro, recorrendo à autoridade de Hesíodo, dirá


que o Amor é dos deuses mais antigos, que sequer
possui genitores e que é, para nós, a causa dos
maiores bens, pois sem ele, não há com se produzir
grandes e belas obras. O Amor deve dirigir a vida de
todos os homens que quiserem vivê-la nobremente;
é também responsável por algo que nem a riqueza,
nem as honras nem a estirpe pode incutir tão
bem: “A vergonha do que é feio e apreço ao que é
belo”.

Fedro se refere ao que os antigos gregos


denominavam aidós (pudor, vergonha, respeito),
que faz com que aquele que ama tema ser
surpreendido numa atitude aviltante, sentindo-se
constrangido diante do amado: “todo homem que
ama, se fosse descoberto a fazer um ato
vergonhoso, ou a sofrê-lo de outrem sem se
defender por covardia, visto pelo pai não se
envergonharia tanto, nem pelos amigos nem por
ninguém mais, como se fosse visto pelo bem
amado”. Para Fedro, o Amor, ao tornar-nos
corajosos, é fonte de heroísmo e inspiração da
moral. Afortunados são os que amam e são
correspondidos. E amar, é ainda mais divino que ser
amado.

Mais realista, “não é um só”, objeta Pausânias que,


cingindo a unidade do Amor, subdivide-o e (não os
excluindo) hierarquiza-os imediatamente: Afrodite
não é só uma, há a mais velha, Urânia (Celestial) e
a Pandêmia (pan = todos e demos = povos). Nesta
última, amam mais o corpo que a alma. Afrodite
Pandêmia (a Popular, vulgar) inexoravelmente é
vencida pelo tempo (Chronos): “Com efeito, ao
mesmo tempo em que cessa o viço do corpo, que
era o que ele amava “alça ele o seu vôo” (citando
Homero), sem respeito a muitas palavras e
promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter,
que é bom, é constante por toda a vida, porque se
fundiu com o que é constante”.

Pausânias revela duas formas de Amor: Afrodite


Urânia, associada ao eterno, imortal e Afrodite
Pandêmia ao transitório, mortal. Os dois amores são
necessários, embora sucumbir dando ênfase à
Pandêmia desvirtue a pólis.

E mesmo que esteja passível de cometer um


engano, um erro de pessoa, quem ama
verdadeiramente é digno de nobreza.

Erixímaco aprova a distinção de Pausânias sobre a


duplicidade do Amor e, universalista, o amplia a
todo cosmo: “grande e admirável, e a tudo se
estende ele, tanto na ordem das coisas humanas
como entre as divinas”. Como é um médico, faz uma
analogia com sua arte, dizendo que a medicina
suscita Amor e concórdia, promove harmonia,
combinando opostos (o sadio e o mórbido) que se
estende por todo universo: “deve-se conservar um e
outro amor (...). De fato, até a constituição das
estações do ano está repleta desses dois amores, e
quando se tomam de um moderado amor um pelo
outro os contrários, o quente e o frio, o seco e o
úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura
razoável, chegam trazendo bonança e saúde aos
homens, aos outros animais e às plantas, e
nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor
casado com a violência que se torna mais forte nas
estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofensas.
Tanto as pestes, com efeito, costumam resultar de
tais causas, como também muitas e várias doenças
nos animais como nas plantas; geadas, granizos e
inflamações resultam, com efeito, do excesso e da
intemperança mútua de tais manifestações do Amor
(...)”. Eis os riscos de desequilíbrio na natureza
humana (e em todo universo), pois, em Erixímaco, o
Amor, um pathós (afecção da Alma) pode tornar-se
doentio e daí, uma patologia (no sentido moderno).

Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e


versará sobre sua natureza histórica. Com o seu
famoso mito dos andróginos, legitimará a
homoafetividade e a desenfreada busca pelo que
denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de


três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram
também duplicados e unidos pelo umbigo (a
narrativa desse belo mito está disponível em meu
blog, vide "Conhecimento Sem Fronteiras", nesse
site). Zeus, temendo a presunção de tanta auto-
suficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e
cada uma das partes passará a vida à procura de
sua outra metade original, que pode ser um outro
homem, caso o original tenha sido a união de dois
homens, uma mulher, em busca de outra ou um
homem e uma mulher que se anseiam, caso dos
andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca


constante e incansável por sua outra metade a fim
de se restabelecer o original e primitivo “todo”. Não
se trata somente de união sexual, mas de “uma
coisa” que a alma de um quer da alma do outro.
Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas
“advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos surgisse com seus


instrumentos indagando aos amantes: “Que é que
quereis, ó homens, ter um do outro? (...) Porventura
é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais
possível um para o outro, de modo que nem de
noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se
é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa
mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis
um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa,
possais viver ambos em comum, e depois que
morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só,
mortos os dois numa morte comum; mas vede se é
isso o vosso amor, e se vos contentais se
conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras,


sabemos que nem um só diria que não, ou
demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente
pensaria ter ouvido o que há muito estava
desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado
e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos


um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e
procura do todo que se dá o nome de Amor.

Agatão, retomando a idéia dos benefícios do Amor


expostos no início por Fedro, dirá que esses
benefícios são decorrentes de sua própria natureza.
Atribui ao Amor todas as perfeições imagináveis: ele
é o mais feliz dos deuses porque é o mais belo; e
mais belo porque mais jovem! Além de ser também
o melhor (por ser o mais justo), temperante,
corajoso e sábio.

Quanto a ser o mais jovem, diz que a prova disso é


que foge da velhice. E sobre por onde anda o amor,
Agatão diz que “(...) Nos costumes, nas almas de
deuses e de homens ele fez sua morada, e ainda,
não indistintamente em todas as almas, mas na que
encontre com um costume rude ele se afasta, e na
que o tenha delicado ele habita”. Em resumo, bom,
belo, jovem e feliz, eis o Amor para o poeta Agatão.

Sócrates inicia seu discurso elogiando o fato de


Agatão ter principiado por mostrar qual é a natureza
e quais são as obras do Amor. À seguir,
pergunta: “é de tal natureza o Amor que é Amor de
algo ou de nada”? Agatão confirma que o Amor é
Amor de algo. De qual “algo” será o Amor?
Prossigamos então com mais indagações de
Sócrates: “Será que o Amor, aquilo de que é amor,
ele o deseja ou não”? Diante da confirmação de
Agatão, dialeticamente, Sócrates se aprofunda
ainda mais na questão: “E é quando tem isso
mesmo que deseja e ama que ele então deseja e
ama, ou quando não tem?”

Conclui-se então que o que deseja (o Amor), deseja


aquilo que não possui, aquilo de que é carente.

Retomando o que fora dito por Agatão sobre quão


Belo é o Amor, Sócrates o deixa sem saída: “Não
está então admitindo que aquilo de que é carente e
que não tem é o que ele ama?” (...) “Carece então
de beleza o Amor, e não a tem?” (...) “E então? O
que carece de beleza e de modo algum a possui,
porventura dizes tu que é belo?”.

Agatão confessa então que nada sabe do que havia


dito. Sócrates, agora associa o belo ao bom e
conclui que o amor é carente de ambos. Chama a
atenção para o discurso sobre o Amor que ouvira de
uma mulher da cidade de Mantinéia, asacerdotisa
Diotima, entendida nesse e em muitos outros
assuntos.

Passa então a relatar que, ao ser inquirido por


Diotima, fora obrigado a concluir que o que não é
belo, tampouco é forçoso que seja feio. Outro
exemplo é de que um indivíduo, não sendo sábio,
também não é necessário que seja ignorante.
Diotima teria dito a Sócrates: “Não fiques, portanto,
forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não
é bom a ser mau. Assim também o Amor, porque tu
mesmo admites que não é bom nem belo, nem por
isso vás imaginar que ele deve ser feio e mau, mas
sim algo que está, dizia ela, entre esses dois
extremos”.

Diotima passa então a provar para Sócrates que o


Amor nem um deus é, pois todos os deuses,
perfeitos, são felizes e belos, já possuem o que é
belo e bom.

A sacerdotisa da Mantinéia dirá então que o Amor é


um “gênio intermediário” (os gregos denominavam
“daimon”, cuja tradição medieval simbolizou por
“angelus”, anjos), algo que está entre “um deus e
um mortal”.

E detém o poder, diz ela, “de interpretar e transmitir


aos deuses o que vem dos homens, e aos homens
o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os
sacrifícios, e de outros as ordens e as recompensas
pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele
os completa, de modo que o todo fica ligado todo
ele a si mesmo. (...) Um deus com um homem não
se mistura, mas é através desse ser [Amor, que é
um daimon] que se faz todo o convívio e diálogo dos
deuses com os homens, tanto quando despertos
como quando dormindo”.

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do


Amor, Diotima relata-nos o belíssimo mito de que
quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no
Olimpo e que, entre os demais, se encontrava
Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. Esse
rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria,
inteligência prática, prudência): “Depois que
acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a
Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela
porta. Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim
de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então,
tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-
se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe


que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da
beleza: “Eis porque ficou companheiro e servo de
Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo
tempo que por natureza amante do belo, porque
também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é
sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo,
como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço
e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se
ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem
a natureza da mãe, sempre convivendo com a
precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com
o que é belo e bom, e corajoso, decidido e
energético, caçador terrível, sempre a tecer
maquinações, ávido de sabedoria e cheio de
recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago,
feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da
ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser
sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é
sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes
filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso
mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar
(...). Não deseja, portanto quem não imagina ser
deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas


é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo
que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um
filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a
ignorância.

A ação (do Amor) é o que garante aos mortais


alcançar a imortalidade que lhes é possível. Diotima
ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa
dizendo que há os que concebem na alma (belos
pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas
a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de
pensamento é a que trata da organização dos
negócios da cidade e da família, e cujo nome
é prudência ejustiça.

Será o Amor, um grande deus? Indômita potência?


Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga?
Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos?
A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de
delírio? Filósofo por excelência? Concepção de
nossa alma? Um daimon (anjo) entre o divino e o
humano? Afortunada benção que garante
felicidade (eudaimonia)? O que é o Amor?
Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico,
vivencio-o como a assinatura do theos (divino) em
todos nós.