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Introdução, tradução e notas: Victor Jabouil/e ---CLÁSSICOS INQUÉRITO---

Capa: Pormenor do Mosaico «Academia de Platão»,


arraf(jo gráfico de estúdios P. E. A.
© Victor Jabouil/e, 1988
Direitos em lingua portuguesa reservados
jJor Editorial Inquérito, Lda.
PLATÃO
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ção de pequenos textos ou passagens para apre-
sentação ou crítica do livro. Esta excepção não
deve de modo nenhum ser interpretada como
sendo. extensiva à transcrição de textos em re- Introdução, traáução e notas rle
colhas antológicas ou similares donde resulte VICTOR ]ABOUIUE
prejuízo para o interesse pela obra. Os trans-
gressores são passíveis de procedimento judicial Prof da F~uláarle rle Letras de Lisboa

Editor: Francisco Lyon de Castro

EDITORIAL INQUÉRITO, LDA.


Travessa da Queimada, 23, I . o Dt. o
1200 LISBOA
PORTUGAL

Edição n. o 816119/ 0/l/

Execução técnica:
Gráfica Europam, Lda., EDITORIAL INQUÉRITO LIMITADA
Mira-Sintra - Mem Martins
LISBOA
Depósito Lqal n . • I 372$/ 88
«CLÁSSICOS INQUÉRITO» f
Fiel à sua longa tradição de servir a cultura, a Editorial Inqué- \
rito pretende, com esta colecção, divulgar obras-primas que são
monumentos imperecíveis a marcar a história cultural da Huma-
nidade.
Obrigatórias para especialistas e estudiosos, estas obras, de
que muitos leitores ouviram falar e que não deixariam de conhe-
cer directamente se a elas tivessem fácil acesso, ficarão assim ao
alcance de todos e não apenas de alguns.

Obras publicadas nesta colecção (o " indica edições bilíngues):

i - Édipo Rei, Sófocles


2 - As Suplicantes, Ésquilo
3 - Medeia, Eurlpides ÍON
4- Antfgona, Sófocles
5 - As Bacantes, Eurípides
6 - As Vespas, Aristófanes
7 - Os Persas, Ésquilo
8 - Prometeu Agrilhoado, Ésquilo
9 - Novelas Exemplares, Cervantes
10 - As Aves, Aristófanes
11 - Arte Poética, Horácio*
12- As Nuvens, Aristófanes*
13 - Uma História Verfdica, Luciano*
14- Anfitrião, António José da Silva, «0 Judeu»
15 - Em Defesa do Poeta Árquias, Cícero*
16 - Hermotimo ou As Escolas Filosóficas, Luciano*
r
f

I INTROJ)UÇÃO

1. O AUTOR

Marco indelével da cultura, Platão é figura


eminente do pensamento ocidental. Chegou
até nós um elevado número de obras cuja au-
toria lhe é atribuída, sobressaindo os
I diálogos 1e as cartas. Platão elevou a género li-
terário os diálogos ou dramas filosóficos, mo-
dalidade praticada pelos sofistas e por Sócra-
tes, pois considerava que a forma ideal de
transmissão do saber era oral, embora não
desdenhasse expor as suas doutrinas por escri-
to. O objectivo final do seu ensino era o co-
nhecimento humano.

t Tradicionalmente divididos em três grupos:


a) Apologia, Crfton, Laques, Llsis, Cármides, Eutijron,
Hípias Menor, Hípias Maior, Protágoras, Górgias, lôn;
b) Ménon, Fédon, A República, Banquete, Fedro, Euti-
demo, Menéxeno, Cráti/o;
c) Párménides, Teeteto, Sofista, Político, Timeu, Crítias,
Fi/ebo, As Leis.
Descendente de uma família aristocrática os argumentos cronológicos fornecidos pelo
ateniense, Platão 2, que nasceu por volta de texto:
428-427 a. C., começou a acompanhar Sócra- a) a referência a três estrangeiros que assu-
. tes com 20 anos de idade. Após a morte de miram cargos em Atenas: Apolodoro de Cízi-
Sócrates e de uma estada em Mégara, instala- co, Fanóstenes de Andros e Heraclides de C/a-
-se em Atenas, onde se impõe como filósofo. zómenas (541 c-d);
Ausenta-se várias vezes da cidade para viajar, b) a referência à dependência civil e militar
adquirir e aprofundar conhecimentos e para da cidade de Éfeso em relação a Atenas (541
contactar experiências diferentes; é assim que c).
passa pelo Egipto, por Cirene, pela Magna Estas referências, confrontadas com infor-
Grécia. Em 368 a. C., está em Siracusa, talvez mações de autores antigos -principalmente
numa tentativa frustrada de ver o seu pensa- Tucídides, Xenofonte e Pausânias-, levam a
mento político adaptado. situar a redacção do diálogo na primeira déca-
Por volta de 387 a. C., Platão funda em da do século IV a. C., isto é, alguns anos após
Atenas, no parque do herói Academo, junto à a morte de Sócrates (399 a. C.), mais propria-
estrada para Elêusis e próximo do rio Céfiso, mente entre 399 e 391 a. C.
a sua escola, a Academia. É aí que ensina e, Em termos de cronologia relativa, as opi-
simultaneamente, redige os seus diálogos. niões dividem-se e Íon é considerado como
Morre em 346-346 a. C., quando redigia As posterior a Pedro (Schleiermacher) ou a A Re-
Leis. pública (S. G. Stock), contemporâneo do Tee-
teto (F. Dümmler) ou do Hípias Menor (W.
Jane/1) ou, mesmo, o primeiro diálogl} socráti-
, co de Platão (U. von Wilamowitz). Ion é um
2. A DATA DE COMPOSIÇÃO diálogo que parece pertencer ao grupo de
DO DIÁLOGO obras que prosseguem, através de pesquisas
particulares e tal como Primeiro Alcibíades,
Numerosos críticos têm procurado locali- Laques e Eutífron, a investigação definida por
zar a data de composição do diálogo Íon. De Sócrates na Apologia.
um modo geral, podemos dizer que são dois

2 O seu nome era Aristocles; a denominação Platão deri-


va dà largura dos ombros.
9
8

_.L
3. AS PERSONAGENS ensino é uma contínua exegese, um interroga-
tório em que as perguntas conduzem à aceita-
3.1. SÓCRATES ção de Sócrates como mestre. O objectivo úl-
timo do seu ensino era o culto da virtude (t-y:lt-
Figura-símbolo da história da cultura, Só- garHa) ou o domínio de si mesmo 5 •
crates (469-399 a. C.) é a personagem central O método de investigação de Sócrates, que ·
dos diálogos de Platão. Momento indispensá- Platão exemplifica em vários diálogos, assen-
vel para a compreensão da evolução da filoso- ta em dois aspectos distintos:
fia, Sócrates tem uma biografia 3, mas o seu
pensamento chegou até nós através do teste- a) uma fase de interrogação e de repetição;
munho de contemporâneos. É, pois, difícil b) a maiêutica (p,auvnx1{), isto é, a arte de
saber aquilo que é pensamento original de Só- levar os interlocutores a dar à luz (p,ate'6w)6 as
crates e o que é desenvolvimento dos seus dis- ideias que existem no fundo da mente huma-
cípulos, sobretudo Platão 4 • na.
Impondo-se o ensino como missão, Sócra- A purificação espiritual perseguida por
tes proclama a necessidade de o homem se Sócrates é ética. Através de um método indu-
conhecer a si próprio, de adquirir a consciên-. tivo, caminha do particular para o geral, afir-
cia dos seus limites e da consistência verdadei- mando que a culpa provém da ignorância e do
ra do próprio saber. A sabedoria não está no erro. A educação, ao tornar os homens cons-
saber mais coisas que os outros, mas no saber cientes, torna-os também virtuosos. O útil
do não saber, ao contrário daqueles que acre- identifica-se com o bem e é a ignorância que
ditam saber o que não sabem. Daí a máxima leva o homem a proceder mal. ' I

«só sei que nada sei». A consciência da pró- Fazer bem é viver bem; por isso, os ho-
pria ignorância é uma forma de purificar as mens virtuosos são felizes. Mas o homem jus-
almas do erro, fonte da culpa. Por isso, o seu to é aquele que procura não só o seu aperfei-
'
çoamento como o dos seus semelhantes. A
3 Cf. Aristófanes, As Nuvens; Xenofonte, Banquete, concretização desta ac~ão aproxima o homem .
Apologia, Económico e Memoráveis; Platão; Aristóteles, Me-
tafísica, As Partes dos Animais, Ética a Eudemo e Ética a Ni- .
cómaco. Para a crítica destas fontes, cf. H. M. da Rocha Pe- s Cf. Xenofonte, Memoráveis, l, 5, 1 e 4-5; IV, 6, 1 e 8,
reira, &tudos de História da Cultura Clássica, Lisboa Fun- 11. d
dação Calouste Gulbenkian, 1980, pp. 388 e segs. ' 6 Sócrates afirmava que tinha aprendido este méto o
4 Sócrates apenas está ausente de As Leis. com a mãe, que era parteira.
10 11
. do divino, pois; tal como a alma imortal go- (outro dos sentidos do verbo {!á1rrw), o que
verna o corpo, também uma divindade ou in- equivaleria a identificar rapsodo com aedo.
teligência suprema governa o mundo. O ho- Os rapsodos espalharam-se por todo o
.~, mem deve, assim, lutar para conservar uma mundo grego, e existiam concursos de rapso-
alma recta'. dos quer nas grandes festividades pan-heléni-
cas quer nas festas locais 9 • Já no século VI
a. C., segundo Diógenes Laércio 10, a cidade
3.2. O RAPSOOO ÍON de A te nas conhecia as actuações dos rapso-
dos, que iam de cidade em cidade, recitando,
Íon, a personagem que dialoga com Sócra- sem acompanhamento de lira, e explicando
tes, é um rapsodo (lat/;'tJDÓ~S), isto é, alguém todos os poetas, embora H omero fosse privi-
que, sem acompanhamento musical, recitava legiado. A declamação era acompanhada por
poemas de que não era autor, distinguindo-se um trabalho de mímica, o que leva Platão a
deste modo, e talvez a partir do século v
1
aproximá-los do actor (Í11foxe~,rríçJl • O rap~o­
a. C. 8, do aedo, o poeta épico que declamava do aparecia numa tribuna ((3r,p.,a) 12 , vestzdo
os seus próprios poemas. A designação de com fatos vistosos e de cores vivas 13 , com uma
rapsodo teria a sua origem na vara ( éd(3oo~S) coroa de ouro na cabeça 14 , e a sua actuação
que o declamador segurava ou no facto de os era remunerada 15 •
auditores se reunirem (fiá7rTELP) para escuta- Como rapsodo, Íon não se limitava a uma
rem ou, finalmente, no facto de comporem função de mero declamador: ele é, também,
um comentador de Homero. Este trabalho,
16
exegético, que parece ser o mais difícil , é, no
7 O ensino de Sócrates, que era oral, foi perpetuado atra~ fundo, o ponto de partida da discussão com
vés dos seus discípulos. Entre as Escolas subsidiárias de Só-
cra~es, e para além da «Escola Socrática Maior», a de Platão,
reftram-se: 9 Isócrates, Paneg., 74 a-b, fala na importância dos reci-

. a) a Cirenaica ou Hedonística, fundada por Aristipo de tais dos rapsodos como elementos essencial para manter vivos
Ctrene; os valores pátrios contra os bárbaros.
b) a Megárica, fundada por Euclides de Mégara; to I, 2, 52.
c) a Elidense - Eritreia, fundada por Fédon de Élide e 11 532 d.
Menodemo de Erétria; 12 535 c.
d) a Cínica, fundada por Antístenes. 13 537 d.
8• Segundo Eustátio, ad I/., 6, Cineto de Quios teria sido, 14 535 d.
em S1racusa, no ano da 69. a Olimpíada, o primeiro a intervir 1s 535 e.
como rapsodo. 16 535 c-d.

13
12
Sócrates. O que não fica esclarecido é o mo- iar de Homero por inspiração· divina
r mento em que se efectuavam esses comentá- (532-536 d);
I rios brilhantes aos poemas. A utilização do 2. a demonstração: cada arte tem o
! vocábulo ótaÀÉ-y€q~ca 17 sugere sessões privadas seu objecto próprio (536 e - 542 a);
e não grandes sessões públicas, como eram, ,- _.- 4. Conclusão: o rapsodo, tal como
por exemplo, os concursos explicitamente re- o poeta, é divino (542 a - 542 b).
feridos no diálogo. A aproximação, aparente-
mente autorizada pelas referências de Íon a I
. '' ~
·~.

Metrodoro, Estesímbroto e Gláucon, sugere,


. naturalmente, o passo de O Banquete 17de Xe- 5. O CONTEÚDO
nofonte em que se alude ao «sentido escondi-
do» (61róvota) existente nos poemas homéri-
cos. Íon procederia assim a uma exegese de ti- A questão primordial que Platão levanta
po alegórico. O vocábulo que Platão utiliza é, no íon, já aflorada na Apologia, é a da cria-
porém, óuxvota, o que sugere que o comentá- ção poética: arte ou inspiração? O rapsodo
rio de Íon a Homero, longe de ser exegese ale- deve, segundo Sócrates 19, interpretar o pensa-
górica, é, apenas, uma paráfrase elogiosa. mento do poeta para o seu auditório e para
isso deve compreender tanto o pensame'!to
como as palavras 20 • Mas se o talento de Ion
diz apenas respeito a Homero e se este poeta
4. ESTRUTURA trata dos mesmos temas que os outros, então
0 rapsodo não possui arte. A compreensão
dos poetas -e não apenas de Homero- deve
1. Preâmbulo - apresentação de Íon (530 ser o objectivo rixv'fl éal/;wótx~, da arte do
a-d).
rapsodo, que é, assim, declamação e criticis-
2. O talento de Íon (531 a-532 c). mo. Se a arte de Íon apenas se manifesta a
3. O talento de Íon não é fruto de uma ar- propósito de Homero, tal deve-se, como a
te:
1. a demonstração: Íon é hábil a fa-
19 530 b-c. , .
20 Xenofonte, Banquete, 3, 6, : JY!emo~avelS, _4, 2, 10,
l7 526 b. mostra-nos um Sócrates com uma opmtão mmto mais elevada
18 3, 5 e segs. a respeito dos rapsodos.
15
14
criação do próprio poeta, à inspiração ou for- posse de um conjunto de regras que assentam
ça divina (fJe(a. ôúva.p.ts), tratando-se, por con- num conhecimento cientifico (l1nunfp.rJ), não
seguinte, de um apelo emocionaf2'. é atributo do poeta. Este, tal como o rapsodo,
É no estado de possessão divina que o poe- é possufdo por uma força divina, um entusias-
ta compõe; o poema é, assim, tão irracionm mo que supõe a perda momentânea da activi-
·como as manifestações dos Coribantes e daj dade racional. Recorde-se que, já na
Bacantes 22 • Este êxtase é comunicado ao rap- Apologia 25 , Sócrates concluira que a criação
sodo, que, por sua vez, tal como a pedra de dos poetas não se devia a uma forma de saber
Magnésia, o comunica aos seus auditores. O
próprio Íon confirma que ao recitar passos de
(uocpía.), mas sim a um dom que é de inspira-
ção divina. Esta é, aliás, a posição homérica,
I
i'

Homero se deixa possuir pela piedade 23 • É de- também materializada em Hesíodo e em Pín- '•j
vido a esta possessão irracional que justifica daro. O poeta, possuído, é inspirado pela di-
que um poeta componha um tipo de poesia vindade para compor num domínio especifi- :j
ou, até, um único poema bom. _co; e, com ele, o rapsodo 26 • 4

Como rapsodo não é um especialista em


todas as matérias que os poetas abordam e co-
mo para os respectivos assuntos os melhores
crfticos são o médico, o cocheiro ou o general, 6. A TRADUÇÃO
não havendo lugar para uma arte especifica
do rapsodo, Íon só pode concluir, com algu-
ma satisfação, que a sua habilidade especial Ao apresentar ao público leitor da língua
não é arte mas um dom divino. portuguesa a tradução do diálogo platónico
A discussão entre Sócrates e Íon, se tem Íon, foi nossa intenção possibilitar a consulta
como tema central a definição da base da «ar- de um texto influente e importante para a his-
te do rapsodo», tem, como objectivo último, tória da teorização literária. A tradução, ba-
a poesia. As duas longas intervenções de Só- seada nos textos das edições de Oxford e da
crates comprovam-no 24 • A. rÉxvrJ, isto é, a Société d'Éditions «Les Belles Lettres», pro-

21 533 d-e. 2s22 a-c.


22 534 b. 26 Esta posição foi muitas vezes defendida, inclusive por
23 535 c. Shelley, tradutor de lon, que dela faz eco na sua Defense of
24 530 c - 536 a e 535 e - 535 d. Poetry.

16 Clássicos INQ. 19- 2


17
cura ser um compromisso entre a relação in-
trínseca com o original grego antigo e, por ou-
tro lado, uma linguagem coloquial e acessível.
Daí que se tenha optado por apresentar, nal-
guns casos, um texto que, sem trair o seu espí-·
rito, se afasta da letra. Ao fazê-/o, pensámos
principalmente no carácter heterogéneo do
público a quem a tradução se destina.
A tradução beneficiou substancialmente
com as sugestões apresentadas pelo Professor
Doutor Custódio Mangueüo, distinto Cáte- ÍON
drático da Faculdade de Letras de Lisboa, a
quem manifestamos publicamente . o nosso
agradecimento.

18
ION ÍON

p.sao l:flKPATHl: 1!2N (Ou sobre a 1/íada; género probatório)

SÓCRATES 530 a
Ora viva, Íon. Desta vez, donde é que tu .,.
!i;:·

vens? 1 • Da tua terra, de Éfeso 2?

°NO',.
1.1~ • ~
vuap.ws, .. ..
w ~, ''"''t-'E
wKparEs, aiV\ Eç; ,.,
7Ttuavpov '"
EIC rwv ÍON
'ACTKÀ7]7TLEÚUV. Nada disso, Sócrates. Venho mas é de
Epidauro 3 , das festas em honra de
Asclépio 4 •

5 l:fl. Mwv ~eal pa'l/r~awv àywva nOlaCTLv r~1 0Ec'fl ot SÓCRATES


'E7rtÔaVptot; ' Sempre é verdade que os habitantes de
Epidauro organizam um concurso de rap-
sodos em honra desse deus?

1 A forma de perfeito l1ftot:ó~p:rpca'> esclarece que 1on «ti-


nha acabado de chegar».
2 Cidade da Jónia, na Ásia Menor, foi fundada no séc.

XI a. C.
3 Cidade da Argólida, sede do culto de Asclépio.
4 Deus da medicina, era filho de Apolo. Celebravam-se
I
:
em sua honra, de quatro em quatro anos, na cidade de Epi-
i dauro, as festas denominadas «Grandes Asclepíadas».
I

l
21
20
ÍON
Exactamente. E também em honra de to-
das as outras artes das Musas 5 •

l:.O.• T'' ow;


.. , ,,.,
1/YWVL~OV
• ~ '
TL 7]J.I.Wi KaL 1TWS TL ~ywv(CTw; SÓCRATES
E então? Tomaste parte no concurso? E
como te correu a prova?

ÍON
Ganhámos 6 o primeiro prémio, Sócrates. b

'~;' n
""'~"'· E v.. Àc:yHs' ayc: <J7]
I ~'
omos KaL ra
"' t'l ' ' n ava07JVaLa
; VLK1]-' SÓCRATES
O"OIJ-f:V, Boa! Agora há que fazer por ganhar tam-
bém as Panateneias 7 •

ÍON
Com certeza que sim, se o deus quiser.

5 ""!2 •
""' K aL' IJ-1/V
, '' '
1TOAAaKLS YE f:~7]ÀWO"a
'!:' vp.ás TOVS pa,Ywõovs
SÓCRATES
~ ~'Jwv ' . . . TE)(VT}S
T7JS ' • TO' yap
" ap.a
rl '
IJ-f:V TO' O"WIJ-a
.... ' '
KEKOCJ"Hn(J"(Ja,
Confesso, Íon, que muitas vezes senti, pela
., ' ../ f

ac:& 1Tpc:1Tov vp.wv c:wa' rfl


.... ..

dxvn Kat ws
,.,

KaÀÀÜrTots cpa{- vossa arte, inveja de vocês, os rapsodos.


Por causa da vossa arte, vocês têm de an-
dar sempre bem arranjados e mostrar o

s «Festas também dedicadas a todas as outras artes>>.


6 A forma da primeira pessoa do plural confere um senti-
do popular à frase.
1 Grandes festas celebradas na cidade de Atenas em hon-
ra da deusa Atena. As «Pequenas Panateneias» realizavam-se
todos os anos; as «Grandes Panateneias», mais solenes e im-
portantes, realizavam-se de quatro em quatro anos, durante
três dias, entre o fim de Abril e o princípio de Julho.
23 .
22
VEu0a&, l11J.a ô~ àvay~eaí:ov Erva& lv rE clllo&s ?Tou1raí:s 0, 4 _
melhor aspecto possível. Ao mesmo tem-
T~L/3ELV ?TOÀÀoÍ:s ~eal àyaOoí:s ~eal Ô~ ~eal IJ.á.ÀtiTTa fV '0/L~P!fl•
IO Tct àpLITTCf> ~eal OELor&.rCf> rwv ?TOLTJTWV, K4L ~v rovrov ôu1-
po, têm necessidade de estar bem familia-
c vo&au EKIJ.avO&.vnv, /L~ IJ.Óvov Tà l7rTJ, (TJÀwTÓv EITTW. ov rizados com muitos e bons poetas - e
yàp &v ylvo&TÓ ?TOTE àya0os pa\ftCf>aóS, fl IJ.~ ITVVE(TJ Tà principalmente com Homero, o melhor e
saoc mais divino de todos- e de aprofundar o
ÀEYÓIJ.EVa {mõ rov ?TOL1JTOV. TOV yàp pa'{tCf>Mv lp1J.f1Vla ~Et seu pensamento e não apenas as palavras.
roi) ?TOU7roiJ ríjs Ô&avo(as y(yvEu0a& roL's à~eovovu&· roilro 0 ~ É invejável. Na verdade, não se poderia
5 KaÀWS' ?TOLEÍ:V /L~ ytyvcJu~eovra õn ÀÉyEL d ?TOLTJrf)s àovvarov. ser rapspdo se não se compreendesse o que
"' • I J!.~ /":.
Tavra ovv ?Tavra L<ÇLa ..,TJÀovuOa&.
é dito pelo poeta. Sim, porque o rapsodo
deve ser, para os ouvintes, um intérprete c
do pensamento do poeta. E, não sabendo
o que diz o poeta, é impossível fazer isso
bem. Tudo isto é, de facto, digno de inveja.

ÍON
É verdade, Sócrates. Quanto a mim, isso
foi, na minha arte, o que me deu mais tra-
balho e creio que sou, de todos os homens,
aquele que diz as coisas mais belas sobre
Homero e de um modo que nem Metro-
cloro de Lãmpsaco nem Estesímbroto de
Taso 8 nem Gláucon 9 nem qualquer outro d

8 Metrodoro de Lãmpsaco, referido por Diógenes Laér-


cio (li, 3, 7), e Estesímbroto de Taso, referido por Xenofonte
(Banquete, 3, 5 e ss.), são os continuadores de Anaxágoras na
interpretação alegórica de Homero (cf. V. Jabouille, Iniciaçlio
à Ciência dos Mitos, Lisboa, Editorial Inquérito, 1986, pp.
55-56).
9 Gláucon poderá ser Gláucon de Teos, referido por
Aristóteles (Retórica, III, 1, 3), ou Gláucon de Régio, tam-
bém referido por Aristóteles (Poética, 1461 b I) e autor de um
tratado de critica literária.
24
25

1
'

. '
í~ -· dos que existiram até hoje souberam expri-
I! mir tantos e tão belos pensamentos sobre
Homero como eu.

.I.U. Ev Aiy~ts, <t "Iwv· õijAov yàp õn ov cpOoJn]u~t~ SÓCRATES


5 pm ~1nô~'Lfat.
Dizes bem, Íon. É evidente que não recu-
sarás provar-mo.

ÍON
Pelo contrário, Sócrates, vale a pena ouvir
como eu tenho embelezado Homero, de tal
modo que até acho que mereço ser coroa-
do com uma coroa de ouro pelos Homé-
ridas 10 •

SÓCRATES 531 a
Pois bem, hei-de arranjar tempo para te
ouvir, mas agora responde-me só a uma
pequena pergunta: és especialista exclusi-
vamente de Homero ou também de
Hesíodo 11 e de Arquíloco 12 ?

I.UN. Ovõap.ws, Wà 1r~pt 'Op.~pov p.óvov· í~eavov yáp ÍON


p.ot Õo~e~t' ~tvat.
De modo nenhum: é só de Homero. E isso
já é bastante.

10 Família de Quios cujos membros afirmavam ser des-


cendentes de Homero (Estrabão, XIV, 645); seriam, segundo
Píndaro (Nem., 11), rapsodos ou aedos. De uma forma geral,·
designam-se assim os amantes da poesia homérica.
11 Poeta grego do séc. vm a. C., autor de Os Trabalhos e
os Dias e de A Teogonia.
12 Poeta lírico grego do séc. vn a. C.

26
27
5 .1':!2. "EOT& ô( '7Tfp&. órov "Op.1JpÓs: TE Kal 'Hu(oôos: ravrà SÓCRATES
ÀÉyErov;-I.UN. OTp.a& lywyf Kal 7toÀÀc:L-l:!!. llóTtpov Mas não há assuntos sobre os quais Ho-
ovv '7TEpl TOVTWV K&.\ÀtOV av ~fTJytÍuato & "Op.7Jpos: ÀÉ}'H mero e Hesíodo dizem ambos a mesma
1J"' ae, 'H O' tO
' ôOS:;-InN
~ll 'OiJ.OLWS:
' .. 7TEpL' }'E TOVTWV,
av ' •
W

coisa?
b l:~Kpans, 7tEpl wv raúrà À.Éyovutv.-.!!2. T! ôe ~v
7TÉp& p.~ raúrà Àlyovutv; otov 7TEp'i. p.avr&Kijs: ÀÉ}'E& n
"Op.1JpÓs: TE Ka&. 'Hu(oôos-.-I.UN. llávv yE.-.1:!2. Tl ÍON
• "' fi
ovv; oua TE op.o&ws: Kat oua
\f'l ô&a<f>opws-
I \ t,..
7TEp& p.a.vt&KT'JS' Penso que há e mesmo muitos .
\. I \ ' 1 I \ I • 'l:
5 1\.E}'ETOV TW '7TO&YJTa TOVTW, 7TOTEpOV 1TV KáÀÀLOV aV Eç']-
SÓCRATES
Sobre esses assuntos explicas melhor o que
diz Homero ou o que diz Hesíodo?

ÍON
Explico tão bem o que diz um como o que
diz o outro, Sócrates, dado que dizem a
mesma coisa.

SÓCRATES
E sobre aqueles assuntos em que não di-
zem a mesma coisa? Por exemplo: tanto
Homero como Hesíodo falam da arte divi-
natória'3.

ÍON
Exactamente.

SÓCRATES
E então? Quanto às opiniões que, em con- b
junto, sobre a arte divinatória, os dois

28 29
53lb poetas expressam de um modo semelhante
ou em que divergem, qual dos dois, tu ou
um adivinho, um bom adivinho, saberia
explicá-las melhor?
I ~ "" I I
rt rcuv p.avncuv ns- rwv àya8wv;-InN. Twv
Y11CTaLo ÍON
p.ávn:wv.-~n. El õ~ a-v ija-8a p.ávns-, o'ÚK, €r1rep 7r€pt O adivinho.
~ Óuof
TWV r .ws- Àfyop.t:vwv
' "'' T' r;cr
ows- " () a Et;;7'/Y7JCTacr8aL,
, l: ' KaL 1repl
Teu: ÔLacpópws- Àqop.Évwv r}'rr(O"Tw àv €t'YJyeí:a-8aL;-U2N.
lO 67JÀOV Õn.
SÓCRATES
Mas se tu fosses adivinho, se fosses capaz
de explicar as coisas em que estão de acor-
do, não serias também capaz de explicar
aquelas em que estão em desacordo?

ÍON
i
É evidente.
I
I
i
c Tt ovv 1rou 11"Ept r,h ·of-1-TJpOV
~n. , aHVOS', H,• 7tEp', õ'€ SÓCRATES
' i

" OV'õ'E TWV


'Ha-LÓÕov OV, ~ ~
aÀÀwv 7tOL1/TWV; ~ "0p.7JpOS' r.ept Então, por que será que tu és especialista c
"U ~ À' "' .,. '
a wv nvcuv EYEL TJ WV7t€p O"VfJ-7ravns- ol &ÀÀOL 1iOLnra( •
' L I ., ,
de Homero e não de Hesíodo ou dos ou-
OV 7rép 7rOÀEfJ.OlJ TE Tà 1TOÀÀà ÔLEÀ~ÀvlJev Kat 7iEpt Óp.LÀLWV
tros poetas? Ou fala Homero de coisas di-
5 7rp0S àÀÀ~ÀOlJS' àv8pwr.c.óv àya8wv Tf: KaL KaKwV KaL lÕLWTWV
KaC. ÔTJf-1-Lovpywv, ~~:al 7rEpl Bt:wv 1rpos àAÀ~Àovs Kal r.pos
ferentes das que Hesíodo ou todos os ou-
av 8pcu7rOVS'
1 I < À I
Of-1-L '
OVVTWV, CUS' Óp.LÀOVCTL, Kat 7rtpl. TWV ovpav{wv
tros poetas falam? Não é sobre a guerra
1ra8n 11 árw
.,,- v KaL' r.t:pL' rwv~ Ev
' "A.L õov, ~eal. yevÉa-ELs ~~:al. Bewv que ele fala mais vezes e sobre as relações
d \ti , .... ,.,
KaL T/PCUCUVj OV Tavra EO"TL r.ept WV "0p.7JpOS' rryv 1TOLr]O"W mútuas entre os homens bons e os homens
1TE7TOÍ7JKEVi maus, homens sem profissão e homens
especializados 14 e, também, sobre as rela-
ções que os deuses têm entre si e com os
homens, sobre o que se passa no céu e so-

14 Demiurgos.

30 31
15
bre o que se passa no mundo de Hades , d
sobre a genealogia dos deuses e dos he-
róis? Não é desses assuntos que trata a
poesia de Homero?

ÍON
É verdade, Sócrates.

:S!l. Tl õ€ o1 &.\.\ot 7TOL1'/Ta{; ov


\
7TfpL SÓCRATES
:,
5 TOVTWVj
E então? Os outros poetas não abordam
os mesmos assuntos?

ÍON
Sim, Sócrates, mas é que não o fizeram do
mesmo modo que Homero.

~n. TC p.~u; "&."'ov; SÓCRATES


Como? Pior?

I!lN. llo.\ú yE. ÍON


Muito pior.

lO :S!l. "0p.TJpOS Ô~ l1p.ELVOVj SÓCRATES


Homero fê-lo, pois, melhor? .
1!lN. "'Ap.t:tuov p.ÉvroL vT, Ll{a. ÍON
16
Muito melhor, por Zeus !

ts Deus das regiões inferiores e do reino dos mortos; por


extensão, o reino dos mortos ou Infernos.
16 Exclamação usual e popular.

Oássicos INQ. 19- 3


33
32
~ >lo-"
n. .,.,. ' ~
vVKOVV, ,.,. ~~
... 't'IJ\.TI
W .i. ' "IWV, orav
Kf't'aÀ.7J " 7TfpL' ap'' O1-'0V
SÓCRATES
r.oÀ.À.
• ~ À. eyovrwv
wv ' t "
f s ns apurTa À. EY!I> ' '
yvwueraL ~> '
u7J7TOV ns
Mas então, meu caro Íon '7, quando várias
e TOV fV Àfyovra;-I.D.N. ct>ry,.,.l.-~.{2: nónpov ovv ó a1rros
õIT7Tfp KaL' rovs
' KaKws
~ À. eyovras,
' ~
71.. aÀ.À.os;- I,j,,h
t N • 'O avros
' ' pessoas falam de aritmética e uma delas
ô, ~í\
7]7TOV.-._>l.-"•
o,VKOVV
. . O( T1JV
' ap'81J.ryTLKTJV
, ' TEXVTJV
, , .. ,
EXWV OVTOS
foi a melhor, sem dúvida que há alguém
EITTLV;-IUN. Na{.-~.íl. T{
õ'; Õrav 'JTOÀ.À.wv ÀeyÓ!-•rwv que reconhecerá o que fala acertadamente.
5 r.fp't vymvwv ITLTLWV Ó'JToí.'á fiTTLV, ets ns ~.pLITTa ÀfY!h
iTÓTfpov Enpos
" ' ns rot•
1-f.EV ' ,
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' '
yvwu~:raL on
"'
ÍON
êlpLITTa ÀEYfL,
' "ETEpos UElO' TOV
' KaKLOV on KaKLOV, ., o avrós ; -
I " I .. •
Efectivamente.

SÓCRATES
Será esse mesmo ou outro a reconhecer os e
que falam errado?

ÍON
Será, sem dúvida, o mesmo.

SÓCRATES
Esse é o que possui a ciência dos números?

ÍON
Sim.

SÓCRATES
Mas, o quê? Quando várias pessoas falam
sobre os alimentos que são melhores para
a saúde e uma delas melhor, é a mesma
pessoa que reconhecerá a excelência do
que fala melhor e uma outra a inferiorida-
de do que fala pior, ou é a mesma?

11 «Cabeça amiga de Íon.»


34 35
Sai e ÍON
É evidente que é a mesma.
1
SÓCRATES
Quem é essa pessoa? Como se designa?

ÍON
O médico.

SÓCRATES 532 a
Diremos, então e em resumo, que é a mes-
ma pessoa que reconhecerá, entre aqueles
que falam das mesmas coisas, o que fala
certo e o que fala errado ou, se não reco-
nhecer quem fala errado, também não re-
conhecerá quem fala certo, tratando-se,
claro, do mesmo assunto.

ÍON
É assim.

SÓCRATES
É, pois, a mesma pessoa que se pronuncia
melhor sobre ambos?

ÍON
Sim.

SÓCRATES
Assim, segundo dizes, Homero e os outros
poetas, entre os quais estão não só Hesío-
37
36
do mas também Arquíloco, falam das
mesmas coisas, mas não do mesmo modo,
isto é, um fala bem e os outros menos
bem?

ÍON
E o que digo é a verdade.

SÓCRATES
Ora, tu, se reconheces o que fala certo, b
poderás reconhecer também a inferiorida-
de do que fala errado?

ÍON
Parece que sim.

SÓCRATES
Então, meu caríssimo amigo, não errare-
mos ao afirmar que Íon é tão bom especia-
lista de Homero como dos outros poetas,
porque é ele próprio que afirma que um
mesmo e único homem será juiz competen-
te de todos os que falam sobre as mesmas
coisas e, por outro lado, quase todos os
poetas tratam os mesmos temas.

r.on rà aínov, 61 ~wKpaus Õrt ly,!. "'


' I.QN. Ttl ouv
~ • "' ... , orav ÍON
J.L~V Tt~ r.:p áÀ~OV TOV T.OLIJTOV ('JLaÀ/yTJTa&, OÚTf 7TpoCT/ W Então, Sócrates, qual é o motivo por que,
C rov vovv aôvvarw Tf Ka~ ónovv a-vp.{3aÀÉCT0at À ' , l: X
ao discutir-se outro poeta qualquer, não
àAA' àuxz:w '/': , , ' ' • oyov a~LOV,
, , s ,vvCTTa':.w, f7THÕav Of ns 7Tfpt Op.~pov J.LVTJCTOfi,
fv,Otís u lyp1Jyopa Kal. 7TpoCTixw ràv vovv Kal. fll7Topw .:
mostro interesse e não sou capaz de dizer
~~; ~ nada que valha a pena e fico até sonolen- c
39
38
to? Mas quando se menciona Homero fico
logo desperto, com o espírito atento e
cheio de ideias?

SÓCRATES
Não é difícil de adivinhar, meu amigo. É
mais que evidente para todos que tu és in-18
capaz de dissertar sobre Homero por arte
e por ciência 19 , pois, se falasses por arte,
serias capaz de dissertar sobre todos os ou-
tros poetas, visto que existe uma arte poé-
532C
tica geral 20 . Não é?

lO UlN. Na(. ÍON


Sim.

d 'Ç'rl
.-J..c..
O'VKOt!V
~ ' ~' "'atJTI
E'/TELuav ~ , (.J
Kat' aÀ.À.'Y/V
TtS'
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TEXV'Y/V •
'Y/Vn- SÓCRATES
vovv õ~"'·•nv, o• avroS'
' ' rpo'ITOS'
, ~
TrJS'
1
O"ICE.,EWS' EO"Ta'
ti
,/, ~
'ITEpt' a'/Tao-wv
• Quando se observa, no seu conjunto, não d
Twv TEXVwv; 'ITwS' roiiTo "A.lyw, Un Tl p.ov àKovo-at, íi> "lwv; importa que outra arte, não é o mesmo
método que serve para avaliar todas as ar-
tes? Queres que diga o que penso sobre is-
so, Íon?

nN • N
I J..c.J. • a'' p.a
' TOV
' A,ta, W,._ ~wKpaTES',
"" ' ti
E}'W}'E' xatpcu
, yap
' ÍON
5 àKovwv Vp.wv ·TWV o-ocpwv.
Sim, por Zeus, claro que quero. Na ver-
dade, gosto de vos ouvir, a vocês, os sá-
bios21.

18 TixV11·
19) E1rtc1T~I'11·
20 llot71nx~.
21 "EDipo{.
41
40
SÓCRATES
Quisera que dissesses a verdade, Íon, mas
sábios são vocês, os rapsodos, os autores e
aqueles cujos poemas vocês declamam. Eu
apenas exprimo a realidade, como convém
a um profano 22 • Por exemplo, a propósito e
da pergunta que acabei de te fazer, consi-
dera como é simples, vulgar e ao alcance
de qualquer homem reconhecer o que eu
disse, isto é, que o mesmo método serve
quando se observa uma arte no seu con-
junto. Pensemos, com efeito, o seguinte:
existe uma arte geral da pintura?

ÍON
Sim.
SÓCRATES
Existem e existiram inúmeros pintores,
bons e maus, não é assim?

ÍON
Certamente.
SÓCRATES 533 a
Já viste alguém que a propósito de
Polignoto 23 , filho de Aglaofonte, seja ca-

22«Como convém a um profano», isto é, àquele que ex-


prime objectivamente a verdade.
23 Polignoto de Taso, famoso pintor grego, viveu em
! :
Atenas, no séc. v a. C. A sua obra é conhecida apenas por re-
ferências e descrições dos autores antigos.
43
42
paz de mostrar o que está bem pintado e o
'
IJ.EV n oÀvyvwTov
' Tov •Ayll.aocf>wVTos ÕEtvós icrnv à1rocpa(.
~EL~ & EV TE yp&.cf>EL ~al & J.L~, 7rEpl õE- rwv CL\ll.wv ypacf>Éwv
que está mal e que seja incapaz de o fazer
533 aôvvaros;
l • ~eal, E1rE&Ôav
. p.lv ns rà rwv UAAWVh\ 1". 1 ,~..
l.wypa.,wv
para os outros pintores? E que se aborreça
pya E7rLÔELKvvp, vvur&.(Et TE ~eal à1ropE'L ~eal ovK lx H é>n perante as obras dos outros pintores, fique
1TVp.f3áÀf1TaL, E7rELÔàv õE- 1rEpl lloll.v-vvwrov t. &ll.ll.ov õro embaraçado e não seja capaz de fazer
!3 ')\ " I f "I V
• ov, EL T,wv ypacf>Ewv ~~os p.óvov alp à1rocp~z.·auOaL yvwp.T)v, qualquer comentário, mas que, quando se
5 EYP11"'fDPEV TE ~eal 1rpouEXEL Tov vovv ~eal Ev7ropE'L õn Er1171; -
trata de dar uma opinião sobre Polignoto
Ifl.N. Ov p.à Tov A{a, ov õfjTa.-Ifl.. T( ôl· €v àvõpLdVTo-
, "~:> , '
7roLLq. 1JU"TJ nv EWES ÕITTLS 7rEpL p."Ev .ó.atôáll.ov Tov l\lT)rtovos
ou qualquer outro pintor que queiras,
b ~
., 'E7r n
, Hov... Tov" avo1rEws I
71.. E>Eoôwpov roíi ~ap.{ov ~ l1ÀÀov anima-se, interessa-se pelo assunto e é ca-
TLVOS àvÕpLavT0'1rOLOV ~vos 7rlpL ÔELvÓs EITTLV f tT)"Vf.Í:0"8aL a paz de dizer muitas coisas?
• , ' ~' ç r
EV 7rE7rOL7JKEV, EV uE roí:s rwv êili.Àwv àvôp&avT07rOLwv lpyo&s
t " \ I/".
r.n
a1ropu TE ~ea' VVITTa!,EL, ovK lxwv õn ~:r ;-lfl.N. Ov p.à
t

ÍON
Não, por Zeus, certamente que não.

SÓCRATES
E, então, quanto à escultura, já viste al-
guém que acerca de Dédalo 2\ filho de Me- b
tíon, de Epio 25 , filho de Panopeu, ou de
Teodoro de Sarnas 26 ou de qualquer outro
escultor, mas de um único, seja capaz de
dizer o que está bem feito e, sobre a obra
dos outros escultores, fique embaraçado,
cheio de tédio e não tenha nada a dizer?

24 Artista universal, natural de Atenas, Dédalo ficou na


tradição como escultor, arquitecto e inventor de meios mecâ-
nicos. Segundo a tradição mitológica, foi o contrutor do céle-
bre Labirinto do rei Minos de Creta.
2s Escultor famoso, teria sido o construtor do cavalo de
Tróia (Od., VII, 493).
26 Escultor, foi, segundo a tradição, o primeiro a fundir
o bronze com o ferro (Heródoto, I, 51; III, 41).
45
44 .
ÍON
Não, por Zeus, também nunca encontrei
ninguém assim.

SÓCRATES
Mas, penso, que também nunca encontras-
te uma pessoa que, na arte de tocar flauta
ou de tocar cítara, de cantar acompanhado
à cítara ou na da declamação do rapsodo,
fosse capaz de comentar Olimpo 27 ou c
Tâmiris 28 ou Orfeu 29 ou Fémio 30 , o rapso-
do de Ítaca, e que a propósito de Íon de
Éfeso ficasse embaraçado e não soubesse
explicar o que está bem e o que está mal na
sua declamação.

n 'r 0 liiC• c:xw


y ' , • ~ ' ,. ~ , ÍON
I .lo.:.•'~• <TOL 7rEpL TOVTOV aVTLI\.EYELV, W ...,ctJKpaTf)"

5 àÃÀ' EKE~vo ~JJ.aVT~ <TÚvoLÕa, Õn 1repl '0JJ.7Jpov KáÀÀ.t<TT'


Não posso contradizer-te nesses assuntos,
'(J
UV '
pw7rWV ~~
1\.EYW KaLI ' ~ KULI DL!
EV11'0pW "'~
U/\.1\.0L '
11'UVTH J.l.f'A..
-r-U<TLV Sócrates, mas, se há qualquer coisa de que
..
EV ~ '
1\.EYELV, 11'EpLI o'f ~
TWV "~ ~
a,v..(tlV "
011. KULTOL ' "'
opa ~
TOVTO .TL' tenho consciência, é que sobre Homero
É<TTW. falo melhor que qualquer outro homem,
que falo espontaneamente e que toda a

27 Tocador de flauta, natural da Frígia, era considerado


o criador da música instrumental e o inventor dos modos e
metros característicos da aulética.
2s Músico trácio, teria sido o primeiro a tocar lira sem
acompanhamento vocal (xt!?&eum).
29 Poeta e músico lendário, representa nesta enumeração
o canto acompanhado pela lira (xt!?ae~óía).
Jo É o aedo que em ítaca canta, contra sua vontade, para
os pretendentes de Penélope (Od., I, 154: XXII, 330).
47
46
gente reconhece que falo bem, enquanto
que a respeito dos outros não pensam as-
sim. Vê, pois, qual é a causa disto.
~n
..:.J.t.. Ka'' opw,
• ~ w"' "Iwv, Ka,' epxop.a'
" , yE' <TOL a1!"o.,..avov-
' A.. ,
', .. I'
SÓCRATES
d JJ.EVO~ O
"!t ..._"
JJ.Ot uOICH TOVTO HVaL,
• 1_l
t:<TTL yap TOVTO TEXVlJ JJ.EV
Eu vejo, Íon, e vou fazer-te ver o que é,
· • '
OVIC OV 7rapa <TOL 7rEpL ' ' ·oJJ.lJpOV
' EV.. ÀlYEW, o~ VVVulJ
"' EÀEyov,
"
eEta
I ô'l.t: uvvap.tS
ll> '
TJ, <TE
~ " ,
ICLVEL, WCT11"Ep EV Tp L (f} TfV E vpt-
~ À '(J A , segundo o meu entendimento. É que esse
7T(Ô7JS p.€v Mayv~nv c1v6p.acrev, ot
õ€ 7ToÀÀol 'HpaKÀdav. dóm que tu tens de falar sobre Homero
5 ICaL' yap
' ,
aVTlJ • À{(JOS OV, JJ.OVOV
lJ , , ' TOVS
atJTOVÇ ' ôaiCTVÀLOVS
f "
ayn não é uma arte, como disse ainda agora,
\ Ô ~ 2. 'À' \ 0 > '(J ~ 0
TOVS CTL lJpOV~, W\. a Kat vvap.W EVTL 1'/CTL TOLS aKTV LOtS
I À 1
mas uma força divina 31 , que te move, tal d
, , ·a' d
WCTT av VVaCTvaL , ,
TaVTOV ~
TOVTO ~
7TOLELV ....
07TEp 1J ÀL OS, aÀÀOVS 'o " como a pedra a que Eurípides chamou de
e " Ô À 1
" > > I < (J'
ayttV aiCTV WVS, WCTT EVWTE opp.a O~ p.aKpoç \ 7TaVV
f ll>
CTLury-
Magnésia 32 e que a maior parte das pessoas
p(wv Kal. ÔaKTVÃCwv l~ àM~Àwv 7'ípT7JTat· 7Tâcrt TotÍrots ôe chama pedra de Heracleia. Na verdade, es-
Eç > f.-
'l: EICE...,, ~ À tvOV
1Jt Ôvvap.LS aV7JpT1]Tat,
ld 1 ' I "
OVTW Ô'l.~ KaL\ 7J'
1s TlJS
Movera lvOlovs p.ev 7TOLEL av~. Õtà. ô€ TWV lvOlwv TOVTWV ta pedra não só atrai os anéis de ferro co-
5 lliwv ev8ovcrta(6vrwv Ópp.a8os E~apTâTat. 1rávus yàp ot mo também lhes comunica a sua força, de
modo que eles podem fazer o que fez a pe-
dra: atrair os outros anéis, de tal modo
que é possível ver uma longa cadeia de
anéis de ferro ligados uns aos qutros. E
para todos é dessa pedra que a força deri-
va. Assim, também a Musa inspira ela
própria e, através destes inspirados,
forma-se uma cadeia, experimentando ou-
tros o entusiasmo. Na verdade, todos os
poetas épicos, os bons poetas, não é por
efeito de uma arte, mas porque são inspi-
rados e possuídos, que eles compõem to-

318€{01 OÓVOIP,LS.
32Referência possível a Magnésia, cidade da Cária. A
designação Mcx'Yv~ns )...{!'Jos ocorre num fragmento da tragédia
Oeneus (Nauck, 571) de Eurípides ( + 485-406 a. C.).

48 Clássicos INQ. 19- 4 49


saae dos esses belos poemas; e igualmente os
u TWV ~'ITWV 1TOL7JT<IL ol àyaOo~ o1uc EK TÉXVT/~ lli' lvfJEOL bons poetas líricos, tal como os Coriban-
ÓVTfS Ka~ K<ITfXÓfJ.EVOL 7TÚVTa TaVra rà KaÀ.à ÀÉyovtn 'ITOL~­
tes 33 não dançam senão qu~~do es~ão fo:a 534 a
p.ara, KaL o1 JLEÀO'ITOLOL o{ àya8o~ w<TaVrws, c':J<T'ITEp o1 tcopv-
534 f3avrtwvn~ ol!K ÉJL</>povts ÓvTfs ópxovvrat, oiírw Kal o1 p.tÀ.o-
de si, também os poetas hncos nao estao
'ITOLOL' OVK
, ~ A,.
fJL't'pOVES ..
OVTES Ta' KUI\.a
-\' 1\ ~ ~
fJ.EAlJ TaVTa 'ITOLOV<TLV,
em si quando compõem esses belos poe-
2\ , , '
U/\.1\. !::'
E'lffLuaU ' (.!~
EJLtA»<TLV , ' • , ' , ' • (} ,
HS T7)V app.OVLaV IC<It ELS TOV pv JLOV, mas; mas, logo que entram na harmonia e
(.1 , '
1'-'aKXEVOVO"L Kat IC<ITEXOJLEVOL, W<T'ITEp at 1'-'aKX<IL apvourat
, , • (.!f ' ,
ele
l
no ritmo, são transformados e possuídos
~ ~ 1\ \ f\ , !l A,. !::' •
5 TWV 'ITOTafJ.WV JLfAt IC<It yal\.a ICaTEXOfJ.EVaL, tJL't'poVU uE OV<Tat como as Bacantes que, quando estão pos-
~ ~
, \ \
OV, Kat TQIV JLEAO'ITOLWV 7J• ·'~· ' ~ t 11". .. , '
'f' vXlJ TOVTO c:pya1,ET<It, O'ITEp aVTOL
34
suídas, bebem nos rios o leite e o mel :
ÀÉyov<Tt. AÉyovut yàp õ~r.ov8Ev rrpos ~p.âs ol rrou1ral. õn
b à'lfo KP7JVWV JLEÀtppvrwv ~IC :\lov<TWV K~'ITWV TWWV KaL varrwv
mas não, quando estão na sua razão, e e
!:: I ' I\
upf'ITOJLEVOL Ta fJ.EI\.71 71JLLV 't'EpOV<TW W<T1rEp at JLEAtTTat, Kat
< ~ .J.. I , C 1\ \ assim a alma dos poetas líricos, segundo
, , ..
aVTOt OVTW
,
'ITETOfJ.EVOL'
, ,'
IC<IL Ul\.71
e~
71
' I
1\EYOV<Tt.
~,.~,.
Kov..,ov yap
,
eles dizem. Com efeito, os poetas dizem-
XPiifJ.a 1TOL7J~'> eunv KaL 1rT7JVOV KaL ltpóv, Kal. ov 7TpÓupov nos, não é verdade, que é em fontes de
5 OLÓS TE 'lfOtEi'V 1rpLV av lv8tÓs Tf yÉV1]Tat KaL lK</>pwv Kaf. mel, em certos jardins 35 e pequenos vales
C ""' I l ' "" ' "' 1'1 ~· .... ~ fi \ "'
O VOVS JL1JICETt c:V avr<tl EV'[I' EWS u av TOVTL EXTf TO KT7)p.a,
das Musas que eles colhem os versos, para,
àovvaros 'lfâs 'lfotá'v <iv8pw7TÓs E<TTw KaL XP1J<TJLt:>Ôtw. élrE
• ~
tal como as abelhas 36 , no-los trazerem, es- b
ovv ov' TEXVTf
f
'ITOLOVVTES Kat
' \\'
'ITO""a \f
""YOVTES Kat
' ,,
Ka"'a '
'ITEpt
c ~
TWV rrpayp.aTWV, WO"'ITEp
I , ,
O"V 'ITEpt
, ·ofJ.1JpOV,
, 2, \ ,
U/\.1\.a 0 Hlf JLOtpCf,
f f voaçando como elas. E falam verdade!
~
TOVTO JLOVOV
, t,
O OS TE fiC(lO"TOS
, TrOLHV KUAWS
~ -\ ~ 'A..' O.. T/• Jt.,l
f't'
~
!\' OV<Ta
Com efeito, o poeta é uma coisa leve, ala-
t \ , c
avrov wpp.1J<TEV, o JLEV ut vpap.t-'ovs, o uc: EyKwp.ta, o uE
' 11< (} I (.1 t \1<':1. > I t lt'
da, sagrada, e não pode criar antes de sen-
r
V'ITOPX7JP.ara, o
f < ô' E71TJ,
oi
ot u~::> >I
tap.t-'ovs· ra
(.1 ' ô' oi\\
a""'a
A,. ~\
..,av"'o~ tir a inspiração, de estar fora de si e de
t,., l ' ' \.1 1.\.\.'
5 avrwv EK<I<TTOS c:<TTtV.
ti ' I
ov yap TEXVTf ravra "Eyov<TtV U/\.1\.a
,..,
perder o uso da razão. Enquanto não rece-
(}
I lt
Hlf uvvafJ.Et, E'lfft,
I > I
f
l rrEpt\ < \
EVOS TEXV'[I
I -\ ~
KUI\.WS T/'lftO"Tauro
> '
ber este dom divino, nenhum ser humano
ÀÉynv, Kâv 'ITEpL TWV (Í.\Àwv árrávrwv· Õtà ravra ÔE ó 8EOS
é capaz de fazer versos ou de proferir orá-
culos. Assim, não é pela arte que dizem
tantas e belas coisas sobre os assuntos que

33 Sacerdotes de Reia, ou Cíbele, mãe de Zeus, os Cori-


bantes cantavam e dansavam, arrastando consigo homens e
mulheres.
34 Cf. Eurípides, Bacantes, 708-711.
35 Cf. Píndaro, 0/., IX, 26-27.
36 Cf. Aristófanes, As Aves, 748-751.

51
50
•.· 534C tratam, como tu sobre Homero, mas por
't~
Eç;atpOVJJ.EVO~
, , ' .....
rOVTWJI rov JIOVV TOVTOLS XP7JTaL V7nJpErat~ ~eat
, ,.., f f
um privilégio divino, não sendo cada um
d roi'~ XPTJCTJJ.'flaoi'~ Kal roi'~ p.ávrEcrL roí.'s 0E(oLs, tva ~p.Eí.'s ol deles capaz de compor bem senão no' géne-
't I 't~ .,.., rt t • I 't ' t "" I
aiCOVOVTES ELuWJJ.EV OTL OVX OVTOL ELCTW OL ravra ÀEYOVTES ro em que a Musa o possui: um nos c
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OVrW \\~>1(:.
'lTOIV\.OV ~'I
aç;La, OL~ VOVS \ \ \ U' 1EOS
JJ.T/ 'lTapECTTLV, a/V\. 8 'aVTÓS
,
> 1 À I I\ ' I I\' A..(} I \ t ~
ditirambos 37 , outro nos encómios 38 , outro,
ECTTLV o Eywv, uLa rOVTWV uE '1' EYYETQL 7rpos 7]p.as. p.É-
'~ '.
5 YLCTTOV a€ TEKJJ.~pLOV r<f» ÀÓY<f> Tvvvtxos d XaAKtaws, As
ainda, nos hiporquemas 39 ; este na epopeia,
"ÀÀ
a
' 'll' ' l , , ,.
O JJ.EV OVuE1' 'lTW'lTOTE t:'lTOL7'/CTE 'lTOLrtJJ.a OTOV TLS
..
av àftc.J. aquele no jambo 40 • Nos outros géneros,
(} ~ ' I\'
ITELEV JJ.V7'/t1" 7'/VaL, TOV uE 'lTaLWVa UV 'lTaVTE!õ 1fUOVITL, , ~ ' !I\
OX~õÔÓV cada um deles é medíocre, porque não é
rL
I
'lTavrwv!J.fÀ~ 1\\ > ~ ,_ > '
wv KWV\.LCTTov, arExvws, O'lTEp avros À~:yH,
I
por uma arte que falam assim, mas por d
e U " I '·l OLITaV.
~ n > I ' I\\ I I
. fVPrt!J.a TL lY fV TOVT'fl yap UT/ !J.aÀLCTTa !J.OL aoKfL uma força divina, porque, se soubessem
d 0EÕs tvadfao-Oat ~!J.Í:v, L'va 1.1.~ Õturá(wp.ev, õn o1nc àvOpw-
falar bem sobre um assunto por arte, sabe-
'lTLVa' ECTTLV
' ra' K""'"a
-\.' ravra
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'iTOLrt!J.ara '!t'
ovuE , (} pw'lTwv,
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KaL'(}~'S.' ovuev 1\\''"'
UJV\,
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7J EPJJ.rtVrtS ELITtv
riam, então, falar sobre todos. E se a di-
5 TWV
~ (} "'
ECJ>V,
I
Eç; OTOV av EKaCTTOS Karexrrrat.
KaTEXO!J.EVOL
't(: f'l ._ ~ I vindade lhes tira a razão e se serve deles
ravra fVaELKVV!J.EVOS Ó 0EÕS ffE'lTÍTT/aEs Õtà. rov cpavÀorárov como ministros, como dos profetas e dos
'lTOL7'/TOV~ TO' Ka ÀÀ LCTTOV ~ ITOL áÀTJ0íJ
~ adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a
1 1
535 /J.E À OS .l .. OV' uOICW
[tO:EV" 7J 'I> '

ÀÉyEtv, ti) "Iwv; nós que ouvimos, que não é por eles que
dizem coisas tão admiráveis -pois estão
fora da sua razão--, mas que é a própria
divindade que fala e que se faz ouvir atra-
vés deles. A melhor prova a este respeito é
Tínico de Cálcis 41 , que nunca fez um poe-
ma digno de ser recordado, excepto o
péan 42 que todos cantam, talvez o mais be- e

37 Cântico entoado em coro em louvor do deus Dioniso.


38 Poema de homenagem, ou elogio, a alguém.
39 Pantomimas de origem cretense, executadas em honra

de Apolo.
40 Poema que tem como base o pé jambo ( u -).
41 Além desta referência, apenas se conhece uma outra

de Porf1rio (De Abst., 11, 18).


42 Hino em louvor de um deus, normalmente de Apolo.

52 53

J
lo de todos os poemas líricos, um verda-
deiro «achado das Musas», como ele pró-
prio diz. Parece-me, com efeito, que, com
este exemplo, a divindade demonstra-nos,
de um modo que não deixa dúvidas, que
estes belos poemas não são humanos nem
são obras de homens, mas que são divinos
e dos deuses, e que os poetas não passam
de intérpretes dos deuses, sendo possmdos
pela divindade, de quem recebem a inspi-
ração. É para o demonstrar que a divinda-
de faz, propositadamente, cantar o mais
belo poema lírico pela boca do mais me-
díocre poeta. Não achas que tenho razão,
Íon?

ÍON 535 a
Sim, por Zeus, acho. Na verdade, as tuas
palavras, Sócrates, tocam-me a alma e
penso que é por um privilégio divino que
os bons poetas são os intérpretes dos deu-
ses junto de nós.

,!,f).. OvKOVV VJ.'EL'>' av OL ,)a'f!~õol. Tà TWV 1rOL1JTWV fPJ-411• SÓCRATES


VEVIiTEj E vocês, os rapsodos, por vosso lado, in-
terpretam as obras dos poetas?

ÍON
Também nisso falas verdade.
55
54
SÓCRATES
Vocês são, assim, os intérpretes dos intér-
pretes?

ÍON
J\bsolutamente.

SÓCRATES
Olha, Íon, responde-me sem reservas ao b
que te vou perguntar. Quando declamas ·
adequadamente versos épicos e impressio-
nas profundamente os espectadores, quer
cantes Ulisses transpondo o limiar da sua
casa, identificando-se aos pretendentes e
, 43
lançando as fl ech as aos seus pes , ou
J\quiles atacando Heitor 44 ou um passo
45
emocionante sobre J\ndrómaca ,
Hécuba 46 ou Príamo 4\ estás na posse da c
tua razão? Ou estás fora de ti e a tua alma
no transporte do entusiasmo? Não acredi-
tas assistir às acções de que falas, em Íta-
ca, em Tróia ou em qualquer outro local
descrito nos versos?

'i.
43 Od.,XXII, 2 e segs.
44 //, XXII, 312 e segs.
45 //, VI, 370-502: XXII, 437-515; XXIV, 723-746.
46 //., XXII, 79-89; 405 e ss.; 430-436; XXIV, 747-760.
47 //., XXII, 33-78; 408-428; XXIV, 144-717.

56 57
I!lN • ...... ' ' J.LOL TOtrrO,
.us EVapyH ~ ... ._wKpaTES,
W ~
TO I \ I
TEKp:ytpLOV ÍON
5 H'lTES.. ov yap cu a7TOKpv't'aJ.LEVM t:pw.
.. t I ' , /, I " ,.... ' '
t:yw
yap orav ' H A prova que tu me dás é flagrande, Sócra-
' Tt À'Eyw, õaKpvwv
f'À ElVOV ' , , ÀUVTUL' J.LOV OL' o<j>uaÀJ.LOL'
fjl.7TLJ.L7T ' ll ' tes. Falar-te-ei sem subterfúgios. Com
Õrav TE <j>opt:pov ·~ ÔEtvÓv, opOal. aÍ rp{xc:s í.'o-ravra' {mo efeito, quando recito um passo patético,
<J>ópov Kal. ~ Kapõta 7171õq. os meus olhos enchem-se de lágrimas; se é
assustador e terrível, os cabelos eriçam-se-
me e o coração bate-me mais depressa.

d ~H. T( ovv; (PWJ.I.EV, wNlwv, ÉjJ.(ppova EL~'a' rÓTE roiirov SÓCRATES


Pois bem, Íon, poderíamos dizer que um d
(}~
'
TOV "
av {}
pW'lTOV, O~
A +.
av KEKOO"J.I.l'/J.I.H'O~
I "
EO" l]TL
I
7iOLKLÀrt Ka''
x.pvo-oí:o-' CTTE<j>âvotr; KÀárt r' iv Ovo-Catr; KaL Éopraí:s, J.l.l'/Õtv homem está senhor de si, quando, vestido
'
a'lTO ÀWÀ EKWS
' TOVTWV,
' A.. !=I.~
TJ.. 't'Ot-'1'/TaL 7iÀ' .. EV
EOV TJ ~
' OLCTJ.I.VpLOLS
, ' {} pw-
av ' com uma roupa colorida e ornamentado
5 'lTOLS fCTTr/KWS ...~LÀLOL~, J.Ll'/OEVO~ à1roÕtÍovro~ p.7]ÔE àÕLKOVVTOS'j com uma coroa de ouro, chora nos sacrifí-
cios e nas festas, sem abandonar os seus
adornos, ou quando, perante mais de vinte
mil pessoas predispostas a aplaudi-lo, sem
que ninguém pretenda despi-lo ou fazer-
-lhe mal?

nN • O'v
I .u. ' rov
p.a ' uta,
"-' ov., 11avt:,
' . . . '"''
w "' yE
..... wKpaTES, ws ÍON
TàÀ7]8Eso flp~CTtJat.
Não, por Zeus, de modo algum, Sócrates,
para te falar verdade.

~.n. 0"tCT8a oi'iv õn ~eal. rwv Ot:arwv rovs 1roÀÀovs raln-à SÓCRATES
-raiira VJ.I.EÍ:s ~pyá(ECT0E;
Sabes que vocês fazem que a maior parte
dos espectadores experimente os mesmos
sentimentos?

e l!lN. Kal. p.á.Aa KaÀwr; oLõa· Ka8opw yàp l~eácrron ÍON


, , , e , ,
aVTOVS avw EU a1r0
~ Q ,
TOV t-'TJJ.LaTOS
Àá ,
K OVTaS TE
,
KaL
lt
uELVOV
, Sei-o muito bem! Vejo-os do alto do estra- e
~J.LpÀbrovrar; Ka~ o-vv0ap.f3ovurar; ro~r; ÀEyop.Évotr;. Õt:í: yáp do, cada vez que choram ou lançam olha-
59
58
" " ,~ ,
J.L€ Ka,\ CT'f'Oup ' ....
aVTOLS '
TOV "
VOVV f
7rpOCT€Xf.LV' (
WS' ,,
€aV '
J.LfV re;, terríveis ou tremem com as minhas pa-
--~ I À À
t \ LI'
5 /U\.aovras avrovs Ka17tCTw, avros yr: aCToJ.LaL apyuptovaJ.Lt-'a- t \ f t I Q f
lavras. É necessário, com efeito, que os
"
vwv, Eav ~\
ue ye À~ > \
wvras, avros KÀ avuoJ.LaL
I t f
apyupwv t ~ ~ 1
a7rOIV\VS'. observe bem: se os fizer chorar, eu rirei
quando receber o dinheiro, enquanto que,
se rirem, chorarei eu ao perder o meu salá-
rio.

~!!. O!uOa otiv Õn otrós ECTTLV Ó Omr~s rwv ÔaKn;À{wv SÓCRATES 536 a
~
o' r:uxaros, ..
wv ' '
r:yw r:"À Eyov v1ro ~
' ' TYJS' 'H pat< Ànwnuos
' s. À'O
L ov Vês, agora, que esse espectador é o último
sa6a ' > t À I \ ~ I À
UJ.L f3 avnv;
I .
o< õ'e J.LfiTOS'
I
crv\ o<
a1r a ÀYJÀWV r1JV uvvaJ.Ltv dos anéis de que falei e que, pela virtude
• ,/, !>' ' • , • õ'e 1rpwros
~ . ' \ • , • t. .,_
536 pa., 'fUOS Kat V7rOKpLTYJS, o avros o 7rOL7)T1)S'' o ue
da pedra de Heracleia, recebem uns dos
' õta'
Of.OS' ,
7raVTWV ,
TOVTWV ' •'f1 ~·
E"À KH T1JV '
vXYJV "'
01rOL ..
av f3 OV,À1JTUL
~ 1 1
~
1 outros a força de atracção? O do meio és
TWV avupW1TWV,
' LI avaKpEJ.LaVVVS'
' ' l(:
tç a'ÀÀ TJ À WV Tl]V
' UlJVUJ.LLV.
KatI WfT7r€p
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TYJS' '8OV f.Kf.Ll.'7)S'
ÀL ' ' ' 11
OpJ.LauoS'
'
1
1rUJ.L1rO À VS' €Ç'fP·
't.!.
tu, rapsodo e actor; o primeiro, o próprio
5 TYJTaL xoptvrwv TE KaL OLOafTK&.Àwv Kat V7rOOLOaCTKCÍÀwv, EK poeta. E a divindade, através de todos es-
rrÀay(ov lf1JPTTJJ.Llvwv rwv r~s i\lo'ÚCTlJS' EKKpeJ.LaJ.Llvwv õa- tes, atrai onde quer a alma dos homens,
KT1J À LWV.
I
Kat' O• JJ.€V
' ~
TWV ~
1r0Ll]TWV ' l: ~ ÀÀ
f.ç a 'JS' 'I ,
·' OVCT'JS', U
• õ'f. fazendo passar a sua força de uns para os
> (: "ÀÀ > é..!. > I/". !> '>. > \ I \ ~ I
f.ç a '1]S' €çt(pTYJTUL--<JVOJ.LU':.OJ.Lf.V Ut UVTO KUTI:Xf.TaL, TO Of. outros. E dela, como daquela pedra, está
>
b €CTTL 1raparr À 1JCTLOV'
I 71
t:XETaL f
yap-EK ' ~' I 1
u€ TOVTWV TWV 7rpWTWV
1-t.

!> À 1
~ ~ ~ÀÀ 'l: ,ÀÀ .. ' , ' \
suspensa uma longa cadeia de coreutas 48 e
uaKTV LWV, TWV 7rOLYJTWV, a OL r:ç a OV av YJPT1JJJ.€VOL HCTL
KaL lvOovcri.á(ovcrtv, ot !J.EV €f 'Opcf>Éw<;, ot o€ EK i\lovua(ov· de corifeus e de subcorifeus 4\ ligados indi-
OL • !I>'
u€ ll:
1TO ÀÀ OL• tç ·oJ.Ll]pOV
' KaTEXOVTUL
' , TE KaL' EXOVTaL.
" ~
WV
rectamente aos anéis que dependem da
5 crv,
I ~ "I wv,
W ErS' H• KaL' KaTEX?J
' r:ç·1: ·o!J.l]pov, KaL €1r€WaV !J.EV I ' • !I>' ' Musa. Este poeta liga-se a uma Musa,
7rOLYJTOV~ Cf"õ ?J• Ka () €1JuHS' ~ aquele a uma outra - e chama-se a isso
11 ÀÀ '!>
TLS' a OV TOV TE KaL' '
a;ropHS ..
OTL

Àly'[l'>• E7rr:tôàv ÔE rovrov rov 7rOL7)rov cp8lyf1Jra( TLS' p..ÉÀos, ser possuído 50 , o que é o mesmo que dizer
r:v'(J'vs EYPYJyopas
' I ~ t uov YJ< ,/,
KaL\ opxnrat
' \
.,vxYJ ~
KatI EV7ropns
' "
on que é tido 5 1 • A estes primeiros anéis estão, b
por sua vez, ligados outros, uns aos ou-
tros, e recebem a inspiração, uns de Orfeu,

48 Membros do coro da tragédia.


49 O corifeu dirigia os movimentos do coro, que se podia
subdividir, sendo o semicoro dirigido por um subcorifeu.
5° Kar{xErm.
51 'Exerm.

60 61
\'
C AfY'[/S" OV, yap
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' OV, õ' €11"LOTI'/f.L'[I
' ' 7rt:pL' 'Of.LT]poV
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outros de Museu 5\ mas a maior parte é a
f>.\1 '\\'LI' ' \ ~" '
a 1\.t:yns, al\.1\.a r!Hl} f.LOLplf Ka4 KaTOKWX'[I• WU7rt:p 04 Kopv- Homero que está ligada e é por ele possuí-
r~ ~
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t:Kt:LVOV ,
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O~t:WS
.. ..! (} ll: .., .. , da. Tu, Íon, és um desses, dos que são
o~ av :1 rov~ eov~ tç orou av KarexwvraL, KaL' '
u~
' ~
t:Knvo ro'
5 f.Lt:AO~ KaL <TXTJf.Larwv KaL pryp.arwv t:v1ropovcn, rwv 0't: af/ÀÀ wv
f\ \ 1 \ < I 1 ~ ~ possuídos por Homero, e quando se canta
ov cf>povd(ova-w· o~rw KaL mí, til ~Iwv, 7rt:pl f.LfV 'Of.L~pov um passo de outro poeta, tu ficas cheio de
Õrav TL~ f.LVTJ<TBff, t:inropt:'L<;, 7rt:pl õ~ rwv .1Uwv à7ropEÍ:s.. sono e não tens nada para dizer; mas
d TOVTOV
' • \ TO~ aLTLOV,
ô' t:O"TL " "' f.L ' t:pwr,
O • a<;, õL' OTL
.. CTV' 7rt:pL' f.LiiV
' quando te fazem ouvir um canto desse
'Of.L1Jpov
' ' ~ ' ~' ~ "\ \ , " , '
t:v7ropH<;, 7rt:pL ut: rwv ai\.1\.WV ov, on ov TEXV'[I ~a, ! \ \
poeta, animas-te imediatamente, a tua al-
(} ELl}
' f.LOLpl}
' 'Of.LT/pOV
' õELVOS
' fL.. €7TCHVIiTT'JS•
' '
ma agita-se e as ideias chegam-te em cata-
dupa. Na verdade, não é por uma arte c
nem por uma ciência que tu falas de Ho-
mero como falas, mas por um privilégio
divino e por uma possessão divina, tal co-
mo os Coribantes que apenas são sensíveis
à música do deus que os possui e que en-
contram com facilidade gestos e palavras
para se acomodarem a essa música, en-
quanto permanecem insensíveis às outras.
Também tu, Íon, és como eles: quando se d
trata de Homero, és imparável; mas, se se
trata de outros, ficas sem fala. Se me per-
guntas qual é a causa desta facilidade em
falar de Homero e não dos outros,
respondo-te que não deves a uma arte a
tua habilidade em louvar Homero, mas a
um dom divino.

52 Poeta lendário, filho ou discípulo de Orfeu, é, segun-


do a tradição, o primeiro sacerdote dos mistérios de Elêusis.

62 63
Ul.N. ~v p.€v EV À.lyEtr;, ~ !.wKparEs· 8avp.&.(otp.t JLfVTW ÍON
5
• ~ • r ..
Et OVTW<; EV E 7TOLSt WU'TE JLE
• ~ •
ava1THU'at W<;
l
«=YW
, E , .,.o .
ICaT xop.~" ' Tu falas bem, Sócrates; ficaria, contudo,
KaL' p.atVOJLEVO'>
·~:
Ôoçatp.L,
'
E p.ov r • '
a~eovuats
~
"OJL7JPOV E1Tau•w.
'
~ I
AEyovros 1TEpt'
..
OLp.aL ô"«:
·op.7Jpov.
'
-'-~>' av
Ovu .. O'Ol'
1
1
surpreendido· se falasses tão bem que me
persuadisses de que é possuído e em delírio
1
I que faço o elogio de Homero. Tu próprio,
sem dúvida, não acreditarias nisso se me
ouvisses falar de Homero.
sa6e
~n. Kal p.~v €8ÉÃ.w yE àKovuat, ov p.Ú•rot 1rpóupov SÓCRATES
e 7rplv &v p.ot à1ToKptv'[l róõe ~v "Op.7JpO'> Àlyet 7repl rlvos Certamente que quero ouvir-te, mas não e
EV À.ÉyEtr;; ov yàp o~7Tov 7rEpL à1!'&.vrwv yE. antes de me teres respondido a isto: entre
os assuntos de que fala Homero, sobre
qual falas bem? Não é certamente sobre
todos.

HlN. Ev íu8t, w
"' IwKparer;, 7TEpL' ov'ô Evor;
' orov
" "
ov. ÍON
Pois fica a saber, Sócrates, que é sqbre to-
dos sem excepção.

..._.n
..:;..1"-• O'V ô'7J7TOV KaL' 7rEpL' TOVTWV
' w"'v uv' r- '
ILEV ,
.,.,rvvaVEh
• -1 A.
~
SÓCRATES
5 o1nc ElôWs, "Op.7Jpos ÔE Ã.ÉyEt. Não sobre os que ignoras e de que Home-
ro fala?

InN. Kal ravra 1TOLJ. EU'TLV a~ "OP.T'JPO'> p.ev ~ I


' AEyEt, 1 '
tyw ÍON
ÔE oviC o!aa;
E quais são essas coisas de que fala Home-
ro e eu não conheço?

SÓCRATES 537 a
Não fala Homero em vanos passos e de-
moradamente nas artes? A arte do cochei-
ro, por exemplo. Se me recordasse dos ver-
sos, recitar-tos-ia.
Clássicos INQ. 19- 5 65
64
ÍON
Mas vou eu dizê-los, pois recordo-me.

SÓCRATES
5 ~.0.. El1r€ õ~ p.ot â Ã.Éyu NÉCTTwp 'AvTLÀÓX<:> Te:; tÍEL,
Recita-me, então, o que diz Nestor ao seu
1Tapatvidv EVÀ.af3'10~vat 1Ttp'i. T~v Kap.~v iv Tjj 11T1ToÕpop.la
rfi•
E1T'i. fiaTpÓKÀ.W. • • filho Arquíloco quando o aconselha a
• acautelar-se ao dar a curva na corrida de
cavalos em honra de Pátroclo.

ÍON
UlN. KÃ.tv8~vat ÕÉ, </>rJCT{, Kal a& às EV~ÉCTTCf' i vi. ô{cpp<f>
b "''1''
1)/C '~
~1T apLCTTEpa TOLLV" aTap 'S>é'"
, , TOV uf'çLOV L1T1TOV
«Inclina-te suavemente, disse, sobre o car-
I C \. I ·~
KEVCTaL op.oKI\.rJCTas, nçat TE ot 1JVLa X"PCTLV.
~ I t C I 1 ro bem polido, sobre o lado esquerdo; em b
iv zníuuu oÉ Tot l7T1Tos àpLunpàs EYXP'JL<i>O~Tw, seguida, aguilhoa o cavalo da direita,
• , ~ , ~

ws av TOL 1TA1JJLVTJ yE uoaCTCTf'TaL aKpov 1KECT8at


, 'f. ,
excitando-o com a voz, e folga-lhe as ré-
, ~ \ '8 OV uo;,> (.1.1\.EaCT 8aL E1TaVpELV.
'
5 ICVKI\.OV ~
1TOL1JTOLO" 1\.L .l. ~ , ~
deas. Ao atingir o marco53 , que o cavalo
da direita se aproxime dele de tal modo
que a roda bem construída pareça roçar a
pedra. Mas toma cuidado para não tocares
a pedra. »54

~,..,. ~
'A pKEL. ~ 'S:' "'"I , E7i'1)
" HTE • o~ ~' SÓCRATES
c ~~. TatJTa urJ, W WV, Ta v
op WS' "EYEL
, JL1l• 1Ton:pos av yvoLrJ ap.uvov, l arpos
"OJL.TJpos nu I ' ' 1J... rJVLO·
... c , , " Basta. Agora, Íon, qual dos dois é o me- c
xos;-I.O.N. 'Hvloxos Õ~7Tov.--~!2. llÓTtpov Õn TÉxvrw lhor para julgar se esses versos de Home-
ro são correctos ou não: o médico ou o
cocheiro?

ÍON
O cocheiro, evidentemente.
53 Um dos dois marcos que delimitavam o percurso a
percorrer pelos carros durante a corrida.
54 //., XXIII, 335 e segs.

67
66
.· ~âvT71i; lxEt. ~ KaT' <1ÀÀo n;-I.UN. OvK, cL\À' õn TÉXVfJV.
-'"!.U. ÜVKOVV ~K&.CTTTl TWV nxvwv àüoalôoTal n {nro TOV SÓCRATES
Oeov lpyou otq. TE Elt'f!l ytyvc.:HTICHV; ov yáp ?r01J a KVPEPVTJ- É por que ele conhece essa arte ou por ou-
\'( TtK.fi ytyvwuKop.Ev, 1_ . - JJ.EOa KallaTpucfi.-I.UN. Ov ôijTa. tra razão?
;:~;~,i ,,.,·; -l':.Q. ÜlJaÉ YE à laTpLKfi, TaVTa Kal TEICTOVtKfj.-I.Q'l'l.
·~;r.1~S37d
ÍON
·~!:~(. .d Ov a~Ta.-l':.U. ÜVK.OVU oÍÍTw /CaL K.aTà ?rau6iu T6iu TEXVWV, Não, porque conhece a arte.
~-"'''I I
a TU enpq. nxvu ytyVWUICOIJ.EV, 'd
ovt yvwuop.eua TU" ttTEpCf;
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TOuE uE IJ-OL ?rpOTEpov TOVT01J a?roiCpLVat• TTJU IJ-EU ETEpav ri.\


1!> !> I I I t I \ \ t ,
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SÓCRATES
Foi, pois, atribuída pela divindade a cada
l
l uma das artes a capacidade de conhecer
l uma obra determinada? Com efeito, não é
I por conhecermos a arte do piloto que co-
j nheceremos também a do médico.
l
' ÍON
Certamente que não.

SÓCRATES
Nem é pela arte do carpinteiro que conhe-
ces a da medicina?
1
j ÍON
I Certamente que não.

l
\
SÓCRATES
E não é o mesmo para todas as artes? d
Aquilo que sabemos para uma arte, não o
conhecemos por uma outra? Mas, antes de
me responderes sobre esse assunto, diz-
-me: concordas que uma arte tem uma na-
tureza e outra tem uma outra?
68 69
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SÓCRATES
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Ora, não concordas que, tal como eu pen-
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um objecto ou a um outro, assim se deno-
5
CTKEW Kal. d CTE E)'W Jpo{JJ.1JV el TV avrp TÉXV'[1 YL)'VWO"KOJJ.EV rrüna esta arte ou aquela?
ry àpdJJJ.T/TLKp Tà avTà f.yw TE Kal crV q &À.À.r7, cpaÍT/S âu
Õ1J7I'OV rp" avTft.-I!lN.
' , Na(. '

ÍON
Sim.

SÓCRATES
Na verdade, se fosse uma ciência dos mes-
mos objectos, como se distinguiria uma ar-
te da outra, se pudéssemos conhecer as
mesmas coisas pelas duas? Assim, por
exemplo, apercebo-me de que tenho aqui
cinco dedos e tu, como eu, apercebes-te do
mesmo. E, se eu te perguntasse se é pela
mesma arte, pela aritmética, que tu e eu
conhecemos as mesmas coisas ou por uma
outra? Dirás, naturalmente, pela mesma.

ÍON
Sim.

SÓCRATES 538 a
sas
Responde-me, agora, então, . à pergunta
71
70
que te queria fazer há pouco 55 : não te pa-
rece que, no conjunto das artes, uma mes-
ma nos faz conhecer necessariamente as
mesmas coisas; uma outra, não as mes-
mas, mas, porque é diferente, faz-nos co-
nhecer obrigatoriamente outras coisas?

ÍON
Assim me parece, Sócrates.

SÓCRATES
Deste modo, aquele que não possui uma
arte não estará em estado de conhecer bem
o que se diz ou se faz nessa arte?
)
lJ ÍON
1

l Dizes a verdade. b
l

l SÓCRATES
Acerca dos versos que recitaste de Home-
ro, qual dos dois, tu ou um cocheiro, os
julgará melhor?

ÍON
O cocheiro.

SÓCRATES
Porque tu, com efeito, és rapsodo e não
cocheiro.
1 55 Depois de fazer Íon aceitar que as ciências são inde-
I pendentes umas das outras, Sócrates volta à pergunta apre-
l
sentada em 537 d.
l 73
72
}
J
ovx ~vtoxos.-I.O.N. Nat.-l:n. •H ÕE pa'{t~Õ&IC~ rlxVTJ ÍON
5 f.TEpa EO'T& TTJS 7JVLOXLIC7JS;- 11"\N
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Sim.
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7Jc 1N f.O'Topos I -\ \ '
71'Uil.Aa1C7J ~
ICVICf.WVa 7TLVf.UI ,

E a arte do rapsodo é diferente da do co-


c ÕWWO't; /Cal ÀÉyu 71'WS oiírws-
cheiro?
538C
,__ , A.. ( ' ' 'I>, ., ~ '
Ow«f» 7rpaJ.LVEL~, 't'7JCT v, E7TL u a&yuov 1CV71 ropov
I _ \
ICV710'TL XW\.ICEL'[l' 7Tapa
I ' !t'
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1Cpop.vov 7TOT«f» o.,ov·
",/, ÍON
raiJTa ErrE dp0ws ÀfYEL "0p.7Jpos fÍTE J.L~• 7TÓTEpOV laTpLICijS
Sim.
5 fO'T& Õ&ayvwvaL ICaÀWS ~ pa'{t~ÕLK~s;
SÓCRATES
Então, se é diferente, é uma ciência com
objectos diferentes?

ÍON
Sim.
SÓCRATES
E quando Homero conta que Hecamede, a
concubina de Nestor, deu a beber a Ma-
cáon o cíceon 56 e fala mais ou menos as- c
sim:
«Ralou queijo de cabra, com um rala-
dor de bronze, por sobre o vinho de Pram-
no; ao lado, para acompanhar, colocou
uma cebola. »57
É à arte do médico ou à do rapsodo
que compete julgar se Homero fala correc-
tamente?

56 O cíceon é uma poção.


57 //., XI, 639-640.

74 75
ÍON
À do médico.

l:.U. T( ÕÉ, ÕTav ÀlY!J "Op.71pos- SÓCRATES


d ~ ÔE p.oÀvpôatvrr lKÉÀ1J ls pvcnrov ZKavtv, E quando Homero diz:
1j TE KaT' àypavÀoto poos tdpas tp.p.tp.aví:a «Mergulhou profundamente, como o d
;pxtmt c!Jp.71crrput p.tT' lxOv(n r.iiJ.La cpipovua· chumbo que, preso no corno de um boi do
TavTa 1rÓupov cpwp.tv à.À.uVTtK~s tlvaL r/xv71s J.Lâ:U.ov teptl-'at campo, vai levar a morte aos peixes vora-
5 ~ pal/ftpôtte~s. ltrra Àiyu Kal trrt teaÀws fru J.L~; zes>>58, qual das duas artes, a do pescador
ou a do rapsodo, é mais adequada para
julgar o que dizem estes versos e se está
bem ou mal dito?

ÍON
É evidente, Sócrates, que é a do pescador.

I.U. ~Kl\f!at ô~, a-ov tpop./vov, tl lpoLÓ J.LE' " 'E7THÕry


SÓCRATES
e , "' ~ ,
TOLVVV, W ..:;..CUKpaTES, TOVTWV TWV TEXVWV fV
, .. ,. , , (oJ.LI/Pif
, €VpLtrK€LS
•, Supõe, agora, que tu me interrogas e per-
a~ 1TpOG'TjKEL
' ~ ,
tKaG'T'[1 'I> '
uLaKpLVf.LV, >'L] • é
LvL JlOL E<:,EVpt Kat' Ta' TOV~ guntas: «Já que tu, Sócrates, encontras em
~
I I '
J.LaVT'EWS TE Ka' J.LaVTLK7'/S 1 1TOLa tG'Ttv a 7TpOG'T}KEt aVTtp
,.., ,..., ' I ' ,.., f"'
Ol<f
I
1. Homero passos cujo julgamento pertence e
í
r' E!vat Õtayt)'V~G'KHV, tLTE f.V EÍH KaKWS 1Tf.T.0{1jTaL " - l a cada uma dessas artes particulares,
I
',/, c • ~:>' _\ .!\ n~ • , ' ~
$ G'Kt't'aL WS pf!uLWS TE KW UJ\.1jU7l f.)'W O'"OL a1TOKplVOVJ.LaL, j descobre-me, então, quais são as relativas
7TOÀ.Àaxov J.LEV yàp Kal iv 'OôvCTa-dq. ÀÉ)'tt, o!ov Kal a Ó
1

1
~ 'lvIf.l\ap.1TOuL
' tõ~ '' ' ' TOVS
' ~
ao adivinho e à arte divinatória, quais são
TWV WV 1\f)'tL p.aVTLS 1TpOS JW11G'T'Tlpas, 1
E>toKÀvp.tvos- ! as que lhe compete julgar e dizer se estão
mal ou bem feitas.» Repara como vou res-
I
'I> I I \ ''I> I \ '1. < I
uaLJJ.OVtoL, TL KaKOV TOuE 1TUC7'Xf.Tf.; VVKTL J.LtV VJ.Lf.WV
539 1l
t\ I ,#.. \ I
HI\VaTaL Kf.'t'al\at TE 1TpOCTW1Tq Tf. VEput Tf. )'Vla,
I I I L] ~
ponder-te facilmente e com verdade. De
I
'
olJJ.WY'l o~ ÕÉÕryE, Of.OáKpvvTat ÔE 1TapnaC·
i facto, Homero falas muitas vezes disso, na
I

l 58 !/., XXIV, 80-82. O chumbo, que leva a linha e o an-


l
l zol para o fundo, era encerrado na ponta de um corno de boi
I ·.ij
' ~

(cf. Plutarco, De sol/ert. anim., 977).


J i .·j.
'
I

j
77
76
' 1
I
.......
saga Odisseia, por exemplo, quando o adivinho
ElôwÀwv re 7TÀÉov 7TpÓlJvpov, 7TÀ€(71 ÔE Kal avÀ~ Teoclímeno, um descendente de Melampo,
'f (:l <;: < \ J".',f, > <;:\
'€JL€VWV t:p€1-'00"u€ V7TO ~o..,...ov• rJ€ÀtoS u€
C I I I

5
~ '(: àXÀVS'
' diz aos pretendentes:
b >
ovpavov eça7To'À w Àe, KaK71 \ u<;:> e1TweupOJLEV
' S: I<;:
«Infelizes! De que mal sofreis? A vossa
~~ ~ õ'E Ka4' ev
7TOIV\.axov ' 'IÀ taut,
'"' mov
" Kat' em
' ' rHXOfLaxur
' '
Àeyn
cabeça, o rosto e os membros estão envol-
yàp Kal ~vraiJOa-
tos pela noite; escuto um lamento e os vos-
ópvts y&.p o-cpw E7T~À8e 1TeprwÉJ.Lwat JL€fLawo-Lv,
' V-y
a l eros ~.,J, ,
t7TET1'JS, ' À aov
, , apurrt:pa
E7T ' ' ' '
Hpywv,
sos cabelos estão banhados em lágrimas; o
5
c ,., '
't'OLVrJEVra
õpaKOVTa
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..,...epwV
, ,
OVUXEO"O"L 7T€ÀWpOV,
, vestíbulo está repleto de fantasmas, o pá-
/". ,
~!fOV, t:T
J[ , , , \
U0"1Tatpovra• Ka' OV1TW ÀrJuf:TO xapJ.L71S•
~ 'Ll '
tio também; dirigem-se para Érebo, o país
KÓ'f!E yàp aVTOV lxovra Karà ~(}os 1rapà ÕELp~V das trevas; o sol desapareceu do céu, b
'ô (} \ , ,
• õ' a7TO
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.. ~
abate-se uma bruma sinistra. »59
L) .. /".
L VW E'S 07TLO"W, O rJKE xaJ.LU~E
5
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UAY1'JO"aS O'ôVVIJO"t, fLEO"lf
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Íol
Kal-'{3aÀ > <
1
OfLiÀlf'
' c
' ' ô'l.~ KÀayc,.as ' , ,
~ aVEJLOW.
E muitas outras vezes na 1/íada, como,
d avroS 7TETfTO 7TVOL[/S
por exemplo, no combate junto às mura-
raiJra cjl~o-w KaL rà rotavra refi fLáVrEL 7TpO~K€LV KaL O"K0-
7TELV KaL Kp(vnv.
lhas. Com efeito, afirma aí:
Quando tentavam atravessar o fosso,
desceu sobre eles uma ave, uma águia que
voava alto, deixando o exército à esquer-
da. Nas garras, levava uma enorme ser- c
pente, ainda viva e debatendo-se, que não
abandonava a luta. Virando-se sobre si
mesma, mordeu, no peito, junto ao pesco-
ço, o vencedor que a levava; a águia, com a
dor, deixou-a cair no meio dos combaten-
tes e, em seguida, soltando um grito,
deixou-se levar pelo sopro do vento. »60 d
Dir-te-ei que estes passos e outros se-
melhantes são aqueles que compete ao adi-
vinho examinar e julgar.

S9 Od., XX, 351-357.


6o 1/., XII, 200-207.

78 79
I,
ÍON
1
I
E o que tu dizes é verdade, Sócrates.

5 ~n. Ka~ cnJ yf, ~ "Iwv, àAryOfi ravTa À'YEL~. ro, ôry Kat SÓCRATES
CTV ~p.o(, cZcr'lTEp f.y~ crol f.ÇlÀE(a Kal f.( 'OôvcrcrE{as Kal ;.e E tu também falas verdade, Íon. Mas va-
'IÀuÍ.ôos- Ó'lTota rov p.&.vnws f.CTTL Kal ór.oí'a rov larpov Kat mos, agora é a tua vez: tal como eu te se-
e ( ~
O'lTOLa TOV~ UALEWS',
l.\ , "
OVTW KaL\ CTV' EJLOL
, ' , t
À EçOV, ' I>'
E'lTELU'fl KaL'
EK
leccionei, na Odisseia e na 1/íada, passos
f.p.r.ELpÓnpos EL f.p.ov TWV 'Op.~pov, Ó'lTOLa rov pao/'{lÕOV ECTTLV,
que, pela sua natureza, pertencem ao adi-
til "Iwv, Kal rfi'> rlxvr1s rfis pao/'{lÔtKfi'>, à r~ pao/'{lÕ~ r.pocr-
7IKEL
' Ka'\ ~ (} aL
CTK0'1TELCT KaL' uLaKpLVELV
l1t ' r.apa
' TOVS'
' ,, '
a/V\.OV~
vinho, ao médico e ao pescador, cita-me
5 à.vOpcfmovS'. tu, também', visto que és mais versado que e
eu na obra de Homero, aqueles que per-
tencem ao rapsodo, Íon, e à arte do rapso-
do, a quem pertence, de preferência a to-
dos os outros homens, examinar e julgar.
ÍON
Declaro-te que todos.

~o
.w.1I.. O,v CTV' YE 't'?l"•
Ih' "I wv, a1ravra•
"'
w " ry"' OVTWS'
." , À'1jCTp.wv
E'lTL
SÓCRATES
..
EL; ,
KaLTOL '
ovK "'
av , , À ' • ( •1• õ'ov
1TpE1TOL yE E'lTL rycrp.ova ELvaL pa'l''{l Ó Íon, isso de todos nem parece teu! Ou
~vôpa. tens uma memória tão curta? E seria la-
mentável que um rapsodo não tivesse me- ",I,.

mória.

540 I.QN. T( ô~ Ôry E'1TLÀav6ávop.at; ÍON


Que é que esqueci?
54oa
SÓCRATES 540 a
Não te lembras de ter afirmado ' que a arte
6

do rapsodo era diferente da do cocheiro?

61 538 b.

80
1 Clássicos INQ. 19- 6 81

j
5
f.rlpav €1va' rij~ ~vLOxuój~;-H1N. Mlp.u7Jp.aL.-~n. Ov~e-
~
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f
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~eara

L<TW~
"
'

ra'
l ÍON
Recordo-me.

SÓCRATES
~
ToLavra, w
1' .... '
~w~eparEs.
I Sendo diferente, admitiste que conhece-
riam coisas diferentes.
I ÍON
Sim.

SÓCRATES
A arte do rapsodo e o rapsodo não conhe-
cerão, pois, todas as coisas.

ÍON
Sim, salvo as coisas como essas de que fa-
lei.

SÓCRATES
Por «coisas como essas» queres dizer to- b
das as coisas que dependem das outras ar-
tes. Mas que coisas conhecerá a tua, visto
que não conhece todas?

ÍON
I.O.N. •A r.plr.n, olp.a' lywy€, àu~pl Elr.Eí'v Kal ór.o4a
yvvau<L, KaL ór.o4a ÕotÍÀCfJ ~eal Ór.oí'a ~ÀEvfJÉpCf~, ~ea4 ór.oí'a
Conhece coisas, penso eu, como a lingua-
, '
5 apxop.tV'fl 1ea'' o1roLa
f "" 111
apxoun.
gem que convém a um homem ou a uma
mulher, a que convém a um escravo ou a
um homem livre, a que convém a um su-
balterno ou a um chefe.
83
82
c "n ,
· .._
~n. "Apa ór.oL'a &pxovn, ÀlyHs, ~~~ OaÀ&rry XHJJ.a(oJJ.lvov
' 1TpE1TEL
~
1T.n.OLOV


,

A •
l ~ j c ,,, ô '

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01TOLa
l'1AA
... ,
' .!\ \

apxovrL ICaJJ.VOVTOS 1TpEr.n H1TELV,


A " ' ' • ~
.. c
E 1THV, a pa't''f' OS YVWUETaL ICa.n..n.LOV f1 a

1CVJ3EPV'IÍT17s;-InN. o~IC. àÀÀà ó ~evJ3Epv~T11s ToiiT& yE.-


u1
l
.
SÓCRATES
Queres dizer que o rapsodo conhecerá me-
lhor que ·o piloto a linguagem adequada a
governar, no mar, um navio acossado pela
,,·, i'

pa'fFCf>ÕÕ~ yvc.Surrac. ~e&Mtov ~ ó laTpós;-InN. OvôE


ToíiTo.-~n. 'AÀ'A.' ota ôovÀ'f' r.pbm, ÀÉyHs ;-lnN.
tempestade?
Nal.-~n. Otov {3ovKÓÀCf> Àiyns ôovÀ'f' & 1rpÉr.Et El7rELV
5 à.yptatvovuwv {3owv r.apaJJ.v6ovp.lvCf>, ó pa'fFifÕos yvc.SuETaL ÍON !/.:
ill' ovx ó /3ov~eÓÀos;-lnN. Ov ôijTa.-l:.Q. 'AU' o!a Não, nesse caso será o piloto.

SÓCRATES
Mas, então, o rapsodo conhecerá melhor c
que o médico qual o tipo de linguagem que
corresponde a quem trata um doente?

ÍON
Também não.

SÓCRATES
Referes-te, então, à que convém ao es-
cravo?

ÍON
Sim.

SÓCRATES
Assim, segundo dizes, o rapsodo conhece- !li
rá melhor que, por exemplo, um boieiro a 1

linguagem que o escravo boieiro deve usar :


i
I

para acalmar os bois embravecidos?

ÍON
Certamente que não.
85
84

j
\ I I ! > ~ -~ ~ \ l I
yvpaLKL 1TpE1roVTa f:<Tnv H?T~u' TUAa<Ttovpy'fl ?T~P' "P'wu,
d ~pya<T(as-;-I.Q.N. 0~.-~.Q. 'AU' ota àvopl ?TpÉ?Tn El11'~Í:u SÓCRATES
yvc.)<Trra' rrrpar7Jyéf <Trpanc.)rat~ ?Tapawovvn;-I.QN. Na(, É, então, o que deve dizer uma fiadeira d
Ta' TOLavra
...
yvw<Tt"TaL
' ,/r ~ '
ot' pa.,«puos.
~o T'L uE;
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C

1 •
acerca do trabalho da lã?
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5 °N • r VOLTJV
1~.c.i , yovv
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wv al-'a KaL KL apL<TTLKo~,
,, ...
Eyvws av L11'11'ov<;
, Não.
e ~-u Kal. KaKw~ Í.1T1Ta(of.'Évov<;• à-\A' EL (T, eyw ?jpÓf.'17V· H florlpif
lt'
U7J uxvn. w "I wv,
' ... ' ' • • /';
YLYVW<TKfL~· TOVS' flJ L1T1Ta';;Of.'EVOV<;
I "
L'lT'lTOt!<;j SÓCRATES
É, então, o que deve dizer um general aos
seus soldados para os encorajar?

ÍON
Sim, o rapsodo conhecerá essas coisas.

SÓCRATES
O quê! Então a arte do rapsodo é a mesma
da do general?

ÍON
Em qualquer caso, eu saberia o que deve
dizer um general.

SÓCRATES
É porque talvez sejas um bom general,
Íon. Na verdade, se fosses ao mesmo tem-
po bom cavaleiro e bom citarista, conhece-
rias os cavalos que são boas ou más mon- e
tadas. Mas, se eu te perguntar: «Por qual
das duas artes, Íon, reconheces os cavalos
que são boas montadas? Pela do cavaleiro
ou pela do citarista?», que me responde-
rias?
86
87
ÍON
Responderia que pela do cavaleiro.

SÓCRATES
Assim, também, se soubesses distinguir os
que tocam bem cítara, concordas que o fa-
rias como citarista e não como cavaleiro?
i '
:i ~
'I

ÍON
Sim.
111
l
I

SÓCRATES
:
I
Visto que conheces a arte militar, conhece-
-la como general ou como bom rapsodo? '!

ÍON
Para mim, parece-me que não há diferen-
ça.

l:ll. Ilws-; ovõiv f


ÀEYELS'
~ f f Àl
uLacf>EpELVj p.tav EYELS' TEXV1JV
I SÓCRATES 541 a
EWaL
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pa\fl!fÕLKTJV
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I Como? Dizes que não há diferença? A arte
!f. , (}' C 'j, ~ I
ti ,
lJJ.OLyE ÕOICE'&.-l:fi. ÜCTTLS' apa aya OS' pa.,CfuOS' ECTTLV, OVTOS'
..
do rapsodo e a do general são apenas uma,
ou duas?

ÍON
Parece-me que uma só.

SÓCRATES
Assim, quem é um bom rapsodo será tam-
bém um bom general?
89
88
~ ~ Ic.í-
1
Ka'' aya 8'os crrpaTT/yo,s
' TvyxavH ; -I unN . MáÀLcrra, w
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wv
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KpaT fS'.-...u.
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Certamente, Sócrates.
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b pa.,<:JuOS',
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aya O'OS' HVat;-I!lN.
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SÓCRATES
In• O'VICOVV ~ CTV ' TWV
~ •E\\' ~ • Do mesmo modo, quem for um bom gene-
~T/VWV apt<TTOS' li'
pa'i'<:JuOS' H;-J!lN.
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n oÀv' )'f, w... 'l'..wKpaus.-


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.. J.-"- •H /CaL crrpaTT/yos, w " Iwv, Twv
' ' ~ ~ ral será também um bom rapsodo?
•EÀÀ~vwv &p,crros ft;-HlN. Eõ tcrlh, 6> IwKpaTH" Kal.
5 ~,
Tal!Ta )'f l ~·o·
tiC TWV J.LT/POV J.LU 8'
WV • . ÍON
Não, não me parece isso.

SÓCRATES
Mas parece-te que todo o que é um bom b
rapsodo será também um bom general?

ÍON
Perfeitamente.

SÓCRATES
Pois bem: tu és o melhor rapsodo da Gré-
cia?

ÍON
E de longe, Sócrates.

SÓCRATES
E é, também, Íon, o melhor general da
Grécia?

ÍON
É correcto, Sócrates, porque aprendi em
Homero.
91
90
SÓCRATES
Então, Íon, pelos deuses, sendo tu o me-
lhor dos Gregos como general e como
rapsodo, por que é que andas por aí a re-
presentar para os Gregos e não comandas : I

.l
tropas? Ou pensas que um rapsodo orna-
mentado com uma coroa de ouro é muito c
necessário para os Gregos e um general
não?

I nN • •H
. .1.c. '1.
J.L~V '
yap c '
711J.ET€pa, • ..wwt<pans,
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apxrra& ÍON
• ' • ~ \ ~ \ , !>' !> ~ "' c !>'
V'ITO vp.wv t<a, OTpaTTtyE&Ta& t<a,. ovuEV unra& OTpaTTtyov, 7J uE
A nossa cidade, Sócrates, é governada por
• I ,.A!>, •!t"
5.. VIJ.ETEpa t<al 71 at<Euatp.ovlwv oviC av J.LE EÀOlTO urpar71yov•
I
vocês 62 , são vocês que comandam as tro-
alh-ol yàp otEuOE lt<avol ELva&. . pas e não temos necessidade de um gene-
63
ral. A vossa cidade e a dos Lacedemónios
não me escolheriam como general. Na ver-
dade, vocês pensam que são auto-sufi-
cientes.

~.a. •.a {3lÀT&OTE "Iwv, 'A1roÀÀÓÕwpov ov Y'YV~UKHS rov SÓCRATES


Kv(ll<l']VÓv; ó meu excelente Íon, não conheces Apolo-
cloro de Cízico 64 ?
· 54IC

I.D.N. 11oí'ov rovrov; ÍON


Quem é esse?

62 A cidade de Éfeso integrou até 423 a. C. a Confedera-


ção liderada por Atenas; em 394 a. C., restabelece-se a aliança.
63 Esparta. :' ..
64 Nada mais se sabe sobre este general, também referido

por Eliano (Hist. Var .• XIV, 5).


''·,'·,
93 I

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J
SÓCRATES
to ~.a. "Ov ~A071va'LoL 71'0ÀÀáKLS' ~atm'dv CTTparrrybv fipfjVTaL
d flvov óvra· ~eal <I>avorrfUv71 rov "Avôptov Kal. HpaKÀ~W7JV ràv
É aquele que os Atenienses .
KÃa(op.Évtov, o-tis fíõe ~ 7rÓÀLS' flvovs Õvras, €vôufap.lvovs
muitas vezes como general, embora fosse
ÕrL &ftoL ÀÓyov Elu(, Kal. Els rrrpar7Jy{as Kal. ds ràs áÃÀas estrangeiro. Também Fenóstenes de'·
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u.pxas !l
u.y~l' "IWVa us.• ~
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TOV 'E-" ,
't'ErTLOV ' atp1JUETCU
OVX < I Andros 6s e Heraclides de Clázomenas 66 são
\ Ka,\ I " 0 ~ ~(: \' .. 'ôl~;
5 CTTpaT7JYOV TLJ1.1JrT~L, EaV OK'[1 açLOS' 1\0yov ELVULj n estrangeiros, mas a nossa cidade investiu-
, , ..... , ~ c 'Er~,., ' , . . . ' c "EA-
ovK A07JVaLOL p.Ev ECTTE ot ·yErTtoL ro apxaLov, KaL 7J 't'~rros
-os no comando militar e noutros cargos,
e o-bõ~p.t.âs fAárrwv 1rÓÃ~ws; àÀAà yàp rr'Ú, ti> "Iwv, El p.Ev àÀ'f'/0~
porque fizeram prova do seu mérito. E
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ÀEYELS' c
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TEXV'[I KaL' E1TLUT7JJ1.'[1
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otos u u... tiO p.rypov ~1TaLVELv,
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&ôtK~'Ls, ÕCTTLS' fJl.Ol 'Ímouxó~J.~vos ws


7roAÃà Kal KaÀà 1TEpl
não escolheriam como general e honra-
<o,.,.~pov E1T(CTTarraL Kat cpárrKWV E1TLO~{fEtv, efa1Tarqs p.e Kal. riam Íon de Éfeso se ele desse provas do
s 71'0À.ÀOV ÔEÍ:S lmôEí:fat, Õs YE ovÔE &rra ECTTl. rai1ra 1T~pl seu mérito? E depois? Não são vocês, os
~v ÔELVOS' ET e0ÉÀE&S' EL1TEW, 1Tá.ÀaL ep.oíJ Àmapovvros, &Mà Efésios, Atenienses de origem 67 ? Será Éfe- .
àrexvc'ds cZ(T71'ep ó flpwTEvs 1ravroôa1TOS' y(yv'[l CTTpEcpÓp.~vos so inferior a qualquer outra cidade? Mas,
"
avw Ka'\ KUTW,
I "
EWS' UÀWTWV OLa't'vywv
n A,. I
p.E CTTpU.T7JYOS
\ > A-'
av~'t'a-
na verdade, Íon, se falas verdade quando
atribuir a uma arte e a uma ciência a capa-
cidade de louvar Homero, tu decepcionas-
me. Afirmaste-me que sabes muitas coisas
sobre Homero, prometeste-me demonstrá-
lo e decepcionaste-me: no lugar de de-
monstrar o teu talento, não queres sequer
dizer-me quais são os assuntos sobre os
quais és hábil a falar, apesar de eu to pedir
há muito tempo. Comportas-te exacta-

65 Referido por Xenofonte (Hei., I, 5, 18-19) como


comandante na campanha de 406-405 a. C.
66 Referido na Constituição de Atenas, XLI, 3.
67 Segundo a tradição, Éfeso foi fundada por Androclo,
filho de Codro, rei de Atenas (Estrabão, XIV, I; Pausânias,
VII, 2, 5).

95
94
54!1 mente como Pro teu 68 , assumindo todas as 542 a
V1JS, Yva p.~ l-rrtõdfps C:,s Õtwàs EL rf]v -rrtpl 'OfL~pov uocp(av. formas, virando-te para todos os lados e,
" OlJV
· El fLtV ~ CdV,
• TE)(VLKoS " 07rEp
.. , ' E~À tyov, 7rEpt'
VVVolJ ·ofL7JpOV
' por fim, depois de me teres escapado,
v-rrocrxÓfLEVOS l-rrtôt{fuv ifa-rraT~s fLE, &ôtKOS EL' d ÔE fL~
TEXVtKós tl, à.\Ãà Otltf fLolptf ~eaTEXÓfLtvos i~ 'OfL~pov fLrJÔEv
apresentas-te como um general para não
5 Elôws -rroÀÀà ~ea! KaÀà ÀÉyus 7rtpl Toii -rrotrJToii, é!JU7rtp lyw me mostrares como és hábil na ciência de
t!mw -rrEpl uoii, ovÔEV àõtKELS. ~Àov ovv 1rÓupa {3otÍÀEL Homero. Se, então, tens sobre Homero,
'1'. (} • ' • ~ • ~,
VOfLL'::.f(J' at V1TO 7JfLWV auLKOS aV1Jp ELVat fJ.. ' ' (} ~
ELOS, como eu afirmava há pouco, os. conheci- ,,,,

mentos da arte e se, depois de me teres


prometido mostrá-los, tu não cumpres, és
·II
culpado. Se, porém, não tens os conheci-
mentos da arte e se é em consequência de
um privilégio divino e possuído por Home-
ro que, sem nada compreender, tu dizes
tantas coisas belas sobre o poeta, como eu
afirmei, então não és culpado. Escolhe,
pois, o que preferes: que eu te considere
um homem injusto ou divino.
l ~ ~
b J.UN, floÀV 'I'
ÔtacpÉpu, w !.6JKpaTES' 1TO À'V yap
' ICUAAtOV TO' ÍON
Otí:ov VofL{(tuOat. A diferença é grande, Sócrates. É melhor b
passar por um homem divino.

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... ~.c.. T OtJTO
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TOLVVV TO' ICUAALOV
l\ ~ , ,
vr.apXEL • ~
UOL 1rap• T]fLLV, ...
W SÓCRATES
"I wv, ouov
~ ...
uvat Kat \ fL7J' '
TEXVtKov ' ·oP.'IPOV
7rEpt ' E7'1'att'ETTJI'·
· ' Consente, então, Íon o título mais belo:
reconheceres que és divino e que não há
arte nos teus elogios a Homero.

68 Divindade marítima com capacidade para se metamor-


fosear em todas as formas, possui também o dom da profecia
(Od., IV, 455 e segs.).

Qâssicos INQ. 19- 7

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