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Os impactos da economia colaborativa no cenário de crise econômica do Brasil

A economia colaborativa (compartilhada ou em rede, como também é conhecida) é um movimento


de concretização de uma nova percepção de mundo. Ela representa o entendimento de que, diante
de problemas sociais e ambientais que se agravam cada vez mais, a divisão deve necessariamente
substituir o acúmulo. Trata-se, assim, de uma força que impacta a forma como vivemos e,
principalmente, fazemos negócio. O tremendo sucesso de empresas que facilitam o
compartilhamento e a troca de serviços e objetos é uma prova de como a adesão a essa tendência
global está longe de atingir um ápice. Uber, Airbnb e tantas outras que o digam.
Fonte: http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/economia-colaborativa-a-tendencia-
que-esta-mudando-o-mercado

Em outubro de 2015, eles eram 6 mil. Menos de seis meses depois, já havia 10 mil espalhados
pelo País. Até o fim do ano, esse número pode ser cinco vezes maior. Ser motorista do Uber virou
uma saída para o desemprego e uma opção para reforçar o orçamento apertado. Foi justamente a
falta de oportunidades no mercado de trabalho que fez o engenheiro Diego Autieri, de 26 anos,
entrar para a rede de motoristas do Uber. Com o aplicativo, consegue em média R$ 200 por dia,
se dirigir por uma jornada de oito horas. Já são três meses rodando em São Paulo. “É hoje
praticamente toda a minha renda.” Autieri, que trabalhou por sete anos como contratado em um
escritório como projetista, vê a atividade como temporária. “Espero muito em breve voltar para a
engenharia”, afirma. “Em último caso, ficaria no Uber para complementar a renda.”
Fonte: http://infograficos.estadao.com.br/focas-ubereconomia/mobilidade-1.php

A agilidade do Estado é fundamental para fazer uma avaliação e rápida propor a regulamentação
destes novos serviços sem causar desequilíbrio ou concorrência desleal”, avalia Peres. “Sem
regulamentação você corre o risco de ter uma situação caótica, e ter o confronto das pessoas que
não aceitam [os novos serviços]”.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/futuro-das-cidades/sobre-uber-e-outros-
desafio-da-economia-compar tilhada-e-regulamentacao

Tramita no Senado um projeto de modificação da Lei do Inquilinato com foco na regulação de


serviços de aluguel por temporada como o Airbnb. Já na Câmara dos Deputados, a Comissão de
Turismo ganhou a tarefa de elaborar sugestões para uma proposta de regulamentação geral da
economia compartilhada no país, que ganharia uma comissão especial na Casa no ano que vem.
São duas frentes de atuação nacional que não entram em consenso nem sobre o que é o Airbnb:
um concorrente dos hotéis e das agências de viagem? Uma imobiliária online? Se de um lado os
ditos negócios tradicionais alegam estar à beira do colapso diante da concorrência de sites e
aplicativos de alcance mundial “que não pagam impostos”, de outro está uma plataforma que não
se encaixa facilmente na legislação já existente no país. Pior: uma plataforma cujo impacto difere
de cidade para cidade e portanto exige uma regulação flexível.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/futuro-das-cidades/saida-par

Economia colaborativa: a ordem é desapegar

Modelo de consumo sustentado no compartilhamento e na colaboração inverte a lógica de


utilização de bens e objetos, conecta desconhecidos, viabiliza projetos individuais, gera lucro e
movimenta bilhões de dólares pelo mundo
O ano era 2010. O mês era agosto. O paulistano Eduardo L’Hotellier, à época com 26 anos, estava
à procura de um profissional de pinturas de paredes para um trabalho em seu apartamento.
Formado em engenharia de computação, representante legítimo da “Geração Y” – totalmente
globalizada, marcada pelo avanço da tecnologia desde a infância -, L’Hotellier recorreu à internet
para buscar pelo pintor.

Depois de muito tempo de pesquisa virtual, ele conseguiu contratar o serviço. Contudo, o trabalho
executado ficou muito abaixo do esperado. A demora para encontrar um profissional específico
aliada à baixa qualidade da execução da empreitada alertaram o jovem L’Hotellier que aquele
poderia ser um nicho de mercado interessante. “Percebi que a internet estava cheia de sites para
compra de cupons e produtos, mas não havia nada que solucionava o problema de contratar
prestadores de serviços com confiança”, conta.

Dois meses depois, L”Hotellier lançava no mercado o GetNinjas, que, agora, sete anos após o
lançamento, é o maior aplicativo de intermediação de serviços da América Latina. Mais: o GetNinjas
foi eleito pela revista Forbes Brasil como uma das empresas mais promissoras do País. O “pulo do
gato” de L’Hotellier foi, além de resolver apostar no negócio, comprar um protótipo de site na Índia
por pouco mais de dois mil reais, plataforma esta que buscava unir as demandas simultâneas de
clientes e profissionais do setor de serviços.

“A ideia era casar as habilidades de uns com as necessidades dos outros”, diz o CEO. Bingo! Tudo
deu tão certo que atualmente o aplicativo já arrecadou 47 milhões de reais em investimento e soma
mais de 250 mil profissionais cadastrados em diversas categorias, entre pedreiros, eletricistas,
diaristas e professores particulares. A GetNinjas ultrapassou a marca de 100 mil orçamentos por
mês entre todas as categorias. A empresa tem colaboradores espalhados em mais de 3 mil cidades
do Brasil, dois milhões de serviços executados e mais de 300 milhões de reais em transações
realizadas.

O aplicativo nasceu grande para um mercado gigante. O setor de serviços no Brasil é equivalente
a quase 70% do PIB nacional e movimenta cerca de R$ 200 bilhões por ano. O propósito do CEO
da GetNinjas de criar um exército de profissionais da área de serviços para socorrer milhares de
outras pessoas no dia a dia, com serviços baratos, presteza e com qualidade na execução da mão
de obra, é um movimento que está dentro de uma conjuntura econômica mais ampla que vem
sendo descrito no mundo como a principal tendência econômica do século 21 — a chamada
“Economia Colaborativa”.

Economia criativa reduz desperdícios

Pelas redes, plataformas aproximam pessoas, conectam desconhecidos com interesses e


necessidades comuns e permitem fechar negócios. Negócios que somam bilhões de dólares anuais
pelo mundo. “Os aplicativos facilitam o compartilhamento e a troca de serviços e objetos numa
escala sem precedentes. Por essa razão, a economia colaborativa tem o poder de reduzir o
desperdício, aumentar a eficiência no uso dos recursos naturais e combater o consumismo”, atesta
Neusa Santos Souza, professora de Economia Criativa da ESPM. “É uma mudança de
comportamento. Não é uma moda. A economia colaborativa é um movimento que veio para ficar”,
conclui Neusa.

Com efeito, atualmente é possível economizar e lucrar com esse movimento classificado pelos
especialistas em negócios de “ganha-ganha”. Os defensores desse novo modelo econômico são
categóricos em afirmar que a principal certeza desse negócio é que todos lucram. “As pessoas
estão no centro dessa transformação econômica ora fazendo bicos nas horas vagas, ora
compartilhando de tudo: de veículos a furadeiras, de imóveis a espaços de trabalho; trocando
objetos, como livros, armários e roupas”, diz Camila Carvalho, uma ex-modelo que resolveu
abandonar as passarelas para empreender.
App de trocas entre vizinhos tem 150 mil usuários

Criadora do aplicativo “Tem açúcar?”, uma plataforma que conecta pessoas dispostas a
compartilhar objetos e bens entre a vizinhança, Camila aposta na rede de colaboração local como
estímulo à economia das famílias no dia a dia. “Essa nova organização da economia mundial facilita
a troca de produtos e serviços, sem focar o lucro”, garante ela. Fundado em 2014, hoje o aplicativo
“Tem açúcar?” alcançou o patamar de maior rede colaborativa de vizinhos da América Latina. A
plataforma soma mais de 150 mil usuários espalhados por cerca de dez mil bairros pelo Brasil.
“Estamos diante de um novo ciclo de relações econômicas que mudou a cultura de consumo”,
avalia a CEO.

Segundo Camila, um dos papeis do site é difundir um consumo mais consciente, ajudando a evitar
compras desnecessárias. “O objetivo dele é realocar recursos que existem, mas muitas vezes estão
ociosos, passando de onde eles são abundantes para onde são escassos”, afirma. “O planeta não
aguenta o volume de produção atual. Você gasta muita matéria-prima e energia com transporte e
produção de produtos”.

Para a empreendedora, é importante diferenciar o que realmente necessário do que é somente um


capricho, na hora de comprar. Além disso, o site busca trazer de volta o “sentimento de
comunidade”, deixado de lado em cidades grandes. A ideia é despertar uma sensação de
interdependência entre os vizinhos e aproximar as pessoas. Em um cenário ideal, diz Camila, o
“Tem Açúcar?” não seria sequer necessário: bastaria bater na porta ao lado e fazer essa pergunta.

Pesquisa comprova interesse na economia compartilhada

Nessa mudança comportamental, as pessoas não buscam mais por bens, mas pelo acesso a eles.
Para se ter uma ideia do sucesso dessa nova realidade, 79% dos consumidores brasileiros
acreditam na economia compartilhada, de acordo com pesquisa do Serviço de Proteção ao
Consumidor (SPC) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). “É uma nova
sociedade de consumo”, diz Camila, que complementa. “A ordem é desapegar.”

A consulta aos brasileiros mostra que o consumo colaborativo vem crescendo no país. Segundo
dados da enquete, a hospedagem em casa de terceiros é uma das formas mais conhecidas de
consumo compartilhado e foi apontada por 40% dos entrevistados como uma das mais usadas. As
caronas para o trabalho ou a escola (39%), o aluguel de roupas (31%) e o de bicicletas (17%) são
as demais formas de consumo compartilhado mais buscadas pelos brasileiros. “O consumo
colaborativo é uma poderosa força econômica e cultural em curso capaz de reinventar não apenas
o que consumimos, mas principalmente a forma como consumimos as coisas”, afirma Eduardo
Baer. CEO da DogHero, um aplicativo criado para hospedagem de cães.

Um detalhe interessante que unifica a quase totalidade dos empreendedores que se lançam no
mercado de startups da economia colaborativa é que, na maioria, trata-se de jovens arrojados
dispostos a investirem na criação de plataformas a partir de necessidades pessoais. O caso da
DogHero é um exemplo clássico dessa lógica.

Do Vale do Silício para o Brasil

Há três anos, o administrador de empresas Eduardo Baes terminava o mestrado na Universidade


em Stanford, nos EUA, e de “mala e cuia” para o Brasil acalentava um sonho antigo de ter um
cachorro como companheiro em casa. Porém, como era solteiro, vivia um dia aqui outro acolá em
viagens, não tinha com quem deixar o peludo. Da vivência no Vale do Silício, na Califórnia, onde
existem centenas de aplicativos para facilitar o cotidiano das pessoas, Baer desembarcou em solo
brasileiro disposto a criar um aplicativo que resolvesse casos como o dele.
Lá na “terra do Tio Sam”, ele conheceu a Dog Vacay, um serviço que conectava os donos de
cachorros a pessoas interessadas em hospedar pets por pouco dinheiro. Detalhe: com o carinho e
os cuidados de tratar os cãezinhos como se fossem dos próprios anfitriões. De acordo com Baer,
as pessoas da Dog Vacay adoravam receber os animais e os tratavam melhor que os hotéis
especializados. “Percebi que poderia fazer isso no Brasil e ter muito sucesso”, afirma.

Foi daí que surgiu o projeto de construir uma plataforma que colocaria lado a lado os donos de pets
e amantes dos animais dispostos a hospedá-los. Funciona assim o aplicativo: os usuários que
desejam deixar seus cachorros com um dos “heróis”, os anfitriões, acessam a página da DogHero
e o site intermedeia as reservas. Os usuários informam o próprio endereço e as datas que
precisarão do serviço de hospedagem. A DogHero mostra os cuidadores mais próximos do dono
do animal, com informações de preço e avaliações de outras pessoas que deixaram seus cães com
eles.

Renda extra

A média da diária dos cuidadores é de R$ 50,00, mas cada anfitrião tem a liberdade para
estabelecer o preço que quiser. “O diferencial do negócio é que o pet é tratado com o carinho da
casa e não em uma gaiola com outras dezenas de animais”, atesta Baer. Em três anos, a DogHero
já está em 650 cidades do Brasil e tem 15 mil anfitriões cadastrados. Aos 70 anos, dois filhos e
duas netas, Rose Mary Roterto há três anos engorda em cinco mil reais sua conta bancária com
dinheiro vindo do aplicativo, que virou sua principal fonte de renda. “Sou cachorreira. Faço o que
amo de paixão e tiro meu sustento. Coloco os cãezinhos até para dormir em minha cama”, diz
Rose.

Evidentemente, tanto quem oferece um serviço ou trabalho quanto quem contrata assume riscos.
Mas com o crescimento dessa prática, naturalmente, surgem mais mecanismos de salvaguardas
despertando mais confiança entre seus usuários. O importante nas relações via aplicativos é a
confiança que os prestadores de serviços têm que estabelecer com os potenciais clientes.

Por isso, é fundamental, que os usuários publiquem os feedbacks sobre a execução dos trabalhos
nas páginas do site. “É uma reinvenção do modelo de trabalho, que chegou para aumentar os
ganhos dos trabalhadores e a liberdade de atuação”, avalia Tallis Gomes. Criador do Easy Taxi e
hoje à frente do Singu, uma plataforma de beleza e bem-estar que conecta consumidores aos
prestadores de serviços de manicure, depilação e massagistas. O Brasil é o terceiro pais no mundo
em gastos pessoais em beleza. Segundo a britânica Mintel Group, cosméticos e produtos de
limpeza mostram curvas de crescimento consistentes. Para o setor de cosméticos, a projeção é de
alta de 10,2% ao ano até 2019, quando o mercado pode chegar a R$ 107,3 bilhões.

A massagista e manicure Fabiana Ramalho, 35 anos, mãe de cinco filhos, é um exemplo de uma
trabalhadora da economia colaborativa. Ela trabalhava em salões de beleza há anos, mas estava
infeliz, principalmente, pelo salário e a jornada de trabalho. Ela afirma que há um ano sua vida
mudou incrivelmente para melhor depois que se cadastrou em um aplicativo para trabalhar de
manicure. “Hoje, ganho cerca de cinco mil reais mensais, fico muito mais tempo com meus filhos e
tenho uma vida mais planejada”, conta.

O certo é que esse novo modelo de consumo inverte a lógica de utilização de bens e a prestação
de serviços. Em vez de comprar tudo o que você precisa ou recorrer a grandes empresas na hora
da compra, as pessoas compartilham, alugam ou dividem os bens com outras pessoas.

Em uma das obras mais lidas sobre o tema – The Zero Marginal Cost Society – o autor, Jeremy
Rifkin, coloca que o capitalismo será ultrapassado pela economia colaborativa. Ele faz algumas
previsões: os lucros das empresas irão diminuir consideravelmente, os direitos de propriedade
ficarão cada vez mais enfraquecidos e a economia baseada na escassez dará lugar à economia
em abundância. De acordo com o autor, caminhamos para uma sociedade pós-consumo, na qual
a propriedade das coisas deixará de interessar. Todos os executivos entrevistados nesta
reportagem são unânimes em assegurar que a economia do compartilhamento é uma nova forma
de capitalismo, com serviços mais focados na criatividade e relação diferente com o consumidor.

Fonte: https://istoe.com.br/economia-colaborativa-empreendedorismo/

ENTENDENDO A ECONOMIA COLABORATIVA E ECONOMIA COMPARTILHADA

A economia compartilhada vem ganhando força ao redor do mundo e às grandes corporações resta
fazer parte ou serem atropeladas. Mas afinal, o que é esse conceito?

Repensando os formatos
A cadeia de valor da Economia Colaborativa mostra como empresas podem repensar seus modelos
de negócios tornando-se “Prestadoras de Serviços”, “Fomentadoras de Mercado” ou “Provedoras
de Plataformas”. As empresas com visão de futuro empregam um modelo, enquanto as mais
inovadoras empregam todos os três, com a corporação no centro, abandonando assim a fórmula
de preço, praça, produto e promoção.

Compartilhar sim, centralizar não


No coração da economia colaborativa estão empresas e projetos que surgiram a partir de variações
do compartilhamento pessoa-para-pessoa (peer-to-peer), o chamado consumo colaborativo.
Carros, alimentos, serviços, motos, moradia, informação, tecnologia, entre outros bens, podem ser
compartilhados. Agregar valor em cada nível gera retorno, uma vez que os modelos representam
um aumento na maturidade, exigem investimentos e resultam em benefícios para cada nível.
Esse conceito tem se provado um movimento duradouro, abrangente e revolucionário. Grandes
corporações já passaram a adotar estratégias baseadas no compartilhamento em seus principais
negócios, como a Toyota, ao alugar carros de concessionárias selecionadas e o Citibank, ao
patrocinar um programa de compartilhamento de bicicletas na cidade de Nova York, como já ocorre
no Brasil.

Os pilares do sucesso
A Economia Colaborativa é fruto da união de três pontos de sucesso que fazem o conceito cada
vez mais atrativo a partir da evolução ampla da sociedade: Social, com destaque para o aumento
da densidade populacional, avanço para a Sustentabilidade, desejo de comunidade e abordagem
mais altruísta; Econômico, focado em monetização do estoque em excesso ou ocioso, aumento da
flexibilidade financeira, preferência por acesso ao invés de aquisição, e abundância de capital de
risco; e Tecnológico, beneficiado pelas redes sociais, dispositivos e plataformas móveis, além de
sistemas de pagamento.

Hora da decisão, tempo de mudar


Para pegar carona nos novos caminhos que as forças de mercado vêm traçando, as empresas
devem repensar seus modelos de negócios e incorporar um ou mais dos três modelos colaborativos
já citados: “Prestadoras de Serviços”, “Fomentadoras de Mercado” ou “Provedoras de Plataformas”.
Ao fazê-lo, elas vão evoluir ao lado de seus clientes.

O grande aprendizado para as empresas é que o relacionamento com os clientes mudou, é hora
de libertar a empresa para ganhar o mercado.

Fonte: E-Commerce News por Cássio Krupinsk


Maior favela de SP terá banco e moedas próprios - mas como isso pode mudar a vida de moradores?
Banco de Paraisópolis promete oferecer empréstimos com juros baixos a pequenos comerciantes e
moradores de comunidade de 100 mil pessoas - e financiar projetos sociais; saiba como operam os
103 bancos comunitários no Brasil.

Por Leandro Machado, BBC, BBC Brasil, São Paulo 07/05/2018 12h48 Atualizado 07/05/2018

Paraisópolis, maior favela de São Paulo, é vizinha do bairro do Morumbi, na zona oeste de São
Paulo

A favela de Paraisópolis, a maior de São Paulo (segundo o censo de 2010 do IBGE), vai ter um banco e
uma moeda própria administrados por seus moradores. Será a primeira vez que uma comunidade da
zona oeste paulistana terá uma iniciativa como essa.
A instituição financeira vai se chamar Banco de Paraisópolis e será gerida pela associação de moradores
e comerciantes da área. Já a moeda, apelidada de Nova Paraisópolis, deverá ser impressa e vai circular
apenas dentro do bairro.
Segundo a Rede Brasileira de Bancos Comunitários, há 103 dessas instituições operando no país e elas
giraram R$ 40 milhões entre 2016 e o final do ano passado. Elas
Uma de suas funções, por exemplo, é possibilitar microcrédito com juros baixos para moradores e
pequenos comerciantes - em grandes bancos, normalmente as taxas são maiores.
O Banco de Paraisópolis terá uma agência dentro da favela, além de oferecer contas correntes, cartão de
débito e um aplicativo para celular. Mais de 6 mil pessoas já utilizam um cartão de crédito exclusivo para
moradores da comunidade.
"Nossa ideia é que as pessoas tenham uma conta, possam fazer saques e pequenos empréstimos", diz
Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis.
Para financiar a iniciativa, a associação vai realizar um jantar de doações com empresários e
personalidades. O dinheiro arrecadado irá para um fundo, que financiará as ações do banco - jantares
como esse já ajudaram a criar uma série de projetos sociais na região.
Quando um morador pedir um empréstimo, por exemplo, o valor sairá desse fundo - depois, quando ele
pagar a dívida, o dinheiro retorna ao banco para ficar disponível para outras pessoas.
Já os juros e as taxas de funcionamento serão usados para financiar causas da comunidade, além de 32
projetos sociais que a associação de moradores toca na área, como uma orquestra de jovens, um grupo
de balé e um bistrô em uma laje da favela.
"Nosso objetivo não é ganhar dinheiro, não é gerar lucro, mas investir no desenvolvimento da comunidade,
no comércio e no consumo local, gerando empregos", diz Gilson. Ele promete que cadastros de
inadimplentes, como Serasa e SPC, não serão consultados.
Estima-se que Paraisópolis tenha cerca de 100 mil habitantes e 8 mil estabelecimentos comerciais - a
maioria pertence a moradores. Grandes empresas também estão de olho nesse potencial econômico e
abriram lojas na área, como Banco do Brasil, Casas Bahia e Bradesco.
Cerca de 21% dos moradores trabalham dentro da própria favela, segundo a associação de moradores.
Quem tiver conta no banco local terá descontos no comércio credenciado.
Por outro lado, apesar do comércio aquecido e da fama adquirida com uma novela da TV Globo que
usava suas vielas como cenário, Paraisópolis ainda tem uma série de problemas comuns a toda favela do
Brasil, como pobreza extrema e falta de saneamento básico.
Obras de urbanização estão paradas há anos, como canalização de um córrego e a construção de
moradias sociais. Cerca de 5 mil famílias da comunidade vivem de bolsa-aluguel pagos pela prefeitura.
O novo banco deve priorizar empréstimos que financiem o comércio local, dando cursos para os clientes
desenvolverem seus negócios. "Quando a gente incentiva e prepara os comerciantes, a tendência é que o
negócio dê certo e ele nos devolva o dinheiro", diz Gilson, que tem 33 anos.
'Por que somos pobres?'
Os bancos comunitários existem há 20 anos no Brasil. O primeiro foi o Banco Palmas, criado em 1998 na
favela de Palmeiras, em Fortaleza, e tido como referência na modalidade.
Joaquim de Melo Neto, coordenador da instituição, conta que o banco surgiu quando a associação de
moradores local fez um levantamento sobre a pobreza extrema da área. "A pergunta que mudou nossa
vida foi: 'por que nós somos pobres?'", diz Neto, que foi morar em Palmeiras como seminarista em 1984, a
pedido da Igreja Católica.
"Percebemos que as pessoas gastavam todo seu dinheiro fora da comunidade, comprando produtos que
não geravam dinheiro nem emprego para nós. Como éramos ambiciosos, montamos um banco para
financiar os comerciantes de dentro da comunidade", conta.
O investimento inicial foi de R$ 2.000, emprestados de uma ONG. "Quebramos o banco no primeiro dia
com tantos empréstimos", lembra Neto, rindo. O episódio ficou famoso, e empresários da região doaram
dinheiro para financiar o projeto.
Depois, o Palmas lançou sua própria moeda, impressa em papel sulfite, e que circula até hoje apenas no
perímetro do bairro - cada nota vale R$ 1. O sucesso gerou problemas: o Banco Central processou os
moradores, acusando o projeto de falsificar dinheiro.
"Quando o Banco Central mandou uma carta questionando nosso banco, respondemos que a gente
explicava se eles pagassem R$ 100 mil pela consultoria", lembra Neto.
O Banco Palmas ganhou o processo em 2005. O Banco Central reconheceu que instituições financeiras
comunitárias podem existir - hoje elas estão sob o guarda-chuva da Secretaria de Economia Solidária, do
Ministério do Trabalho.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) empresta dinheiro para a criação
dos fundos, onde fica o dinheiro que financia os bancos comunitários.
O Palmas, por exemplo, tem R$ 3 milhões para realizar empréstimos e administrar o banco. Ele cobra
0,8% de juros por mês, índice que Neto considera alto - para ele, a taxa deveria ser zero.
A BBC Brasil procurou o Banco Central, mas a instituição não quis se pronunciar sobre as iniciativas.
Microeconomia
"Banqueiros" comunitários dizem que as unidades ajudam a desenvolver o comércio e o consumo em
áreas com pequena atividade financeira e estatal. O último Censo, de 2010, apontava que 11,4 milhões de
brasileiros vivem em favelas.
Para Leonardo Leal, coordenador da Incubadora Tecnológica de Economia Solidária da Universidade
Federal de Alagoas, as iniciativas também incluem pessoas que estão fora do sistema financeiro
tradicional. "Hoje, grande parte dos moradores de áreas rurais, ou de pequenas cidades, não têm acesso
a serviços como pagamento de boletos e microcrédito", explica.
Leal participou da criação do Olhos D'água, banco tocado por moradores de Igaci, cidade de 25 mil
habitantes em Alagoas.
A cidade tem uma moeda local, a Terra, que dá descontos no comércio e só pode ser usada dentro do
município. "Como o banco é administrado pelos próprios moradores, existe um sistema de autogestão e
controle social que ajuda a diminuir as taxas de inadimplência", explica.
Criado em 2016 com uma linha de crédito do Ministério do Trabalho de R$ 45 mil, o Olhos D'água já
financiou 150 projetos de comércio local e de agricultura familiar - os empréstimos chegam a R$ 1.500, no
máximo.
Em Maricá, no Estado do Rio Janeiro, o banco Mumbuca também tem ajudado a movimentar a economia
local. Sua origem é um pouco diferente dos demais bancos comunitários.
Em 2013, a prefeitura da cidade criou uma bolsa social para moradores de baixa renda, mais ou menos
nos moldes do Bolsa Família. O valor de R$ 110 passou a ser pago na moeda Mumbuca, que dá
descontos nos 309 estabelecimentos comerciais credenciados.
Hoje, cerca de 16 mil pessoas são clientes, que também é aberto para famílias com renda maior. O
Mumbuca financia iniciativas locais com juros zero - ou seja, ele não tem lucros com a atividade.
"O comerciante paga uma taxa para usar nossos serviços, mas ela volta para a comunidade em forma de
cursos e oficinas de empreendedorismo", diz Natalia Sciammarella, subcoordenadora de gestão do
Mumbuca. "As pessoas sabem que, usando nosso banco, elas movimentam a economia da cidade,
gerando emprego."
Em 2006, esse modelo de microcrédito rendeu o Prêmio Nobel de Economia ao banqueiro Muhammad
Yunus. O economista, nascido em Bangladesh, criou um banco que emprestava pequenas quantias para
milhões de pessoas pobres de seu país.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43954042