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DIREITO TRIBUTÁRIO

DOCENTE: RODRIGO CAVALCANTI


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GARCIA, Ricardo Letizia. A Crise do Estado e o novo papel do sistema tributário.
seer.upf.br/index.php/rtee/article/download/4724/3159
TAVARES, Thiago Nóbrega. Crise tributária brasileira: apontamentos reflexivos.
http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id
=15696&revista_caderno=26

ANÁLISE CRÍTICA

ANA CRISTINA LOPES ARAUJO DE MARIA

“Existe uma crise em curso no Brasil. ” Assim inicia o artigo de Thiago Nóbrega Tavares
– Crise Tributária brasileira: apontamentos reflexivos. De um modo geral, os dois textos
tratam sobre a situação crítica da economia brasileira, sob a ótica dos tributos, ou seja, de um
dos pilares do desenvolvimento de qualquer Estado. Em primeiro plano, para articular um
raciocínio sobre o tema, não precisa muito pois vivenciamos isso na prática. Como cidadãos,
sentimos na pele a avassaladora cobrança de tributos e amargamos a triste realidade de
simplesmente não ter o retorno esperado de tal “contribuição”.

Em um levantamento feito recentemente e que ainda será publicado, o Instituto


Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) aponta que o Brasil, entre os 30 países com a
maior carga tributária no mundo, é o que proporciona o pior retorno dos valores arrecadados
em prol do bem-estar da sociedade. Esse ponto é o mais explorado em qualquer texto sobre o
assunto, porém, logo na introdução, Ricardo Letizia Garcia aborda outro ponto de vista,
analisando as razões da crise – de um modo geral, não apenas as superficiais, suas raízes,
expondo fatores históricos/econômicos ao longo dos últimos 60 anos, promovendo uma visão
mais dinâmica.

Enriquecedor é aquele artigo que além de conter informações vastas e importantes,


convida o leitor para a reflexão. Letizia Garcia consegue isso de forma clara e sistemática.
Para almejar uma idéia que aponte a solução para essa crise, é necessário compreender o
histórico, que se iniciou na década de 30, com o processo de industrialização. O Estado
absorveu grande responsabilidade para estabilizar a economia, devido as deficiências que o
setor privado enfrentava naquele momento. É nesse instante que um artigo complementa o
outro. Tavares explora bastante o atual viés regressivo do sistema tributário, que apresenta um
cenário de lógica invertida, onde quem ganha menos paga mais. Resumindo: quanto mais
pobre, mais tributado o cidadão é. O Brasil ainda é uma das maiores economias do mundo,
mas a concentração de renda é um fator gritante e absurdo, nessa perspectiva, é fácil concluir
que para dar início a “reforma tributária”, é necessário inverter o atual sistema, que tem como
ponto mais crítico a má distribuição da carga arrecadada.

Ambos autores, ao explanar suas linhas introdutórias, nos deixa ciente da urgência em
“convidar” o setor privado para “retribuir” o impulso que foi dado pelo governo, décadas
atrás. Consequentemente, anulando a “injustiça fiscal” que está entranhada no seio tributário
do país, alimentando a concentração de riquezas. Em contrapartida, é necessário também
que haja um “alívio” em certos tributos, pois, atualmente o cenário tributário também é
desfavorável para a indústria e comércio. Essa “redução seletiva” de impostos visa ampliar
a competitividade da indústria, também é preciso reduzir os impostos sobre os investimentos
produtivos, além disto, os produtos da cesta básica não deveriam pagar nenhum tipo de
imposto.

A tributação no Brasil onera, principalmente, o trabalho e o consumo, é necessário


promover um equilíbrio, aumentar a taxação sobre os rendimentos mais altos e
principalmente sobre o patrimônio, para que assim os mais ricos sejam taxados de acordo
com suas posses, abrindo caminho para o crescimento das micro e pequenas empresas. Um
Sistema Tributário modelo é aquele que possibilita a justiça fiscal e social (especialmente
no aspecto social, que é tão complexo sob a ótica tributária), garantindo a redistribuição de
renda, incentivando a geração de empregos formais, estimulando a atividade produtiva,
despertando o desenvolvimento econômico, honrando o acordo federativo, difundir com
igualdade, os encargos e os recursos arrecadados. Em suma, ele "deve viabilizar os objetivos
fundamentais da República previstos no artigo 3º da Constituição Federal"

"Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;


II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e


regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade
e quaisquer outras formas de discriminação".

Mesmo assim, a partir da Constituição de 1988, os impostos impulsionaram em razão


do regime de repartição de rendas tributárias, que favoreciam os estados e municípios, sem
equivalente transferências de encargos, obrigando a União a criar uma série de contribuições
que não são divididas com os outros entes da federação. O Sistema Tributário Nacional não
tem cumprido sua função redistributiva, é preciso acirrar a luta de classe dentro do sistema
de modo que o IGF (Imposto sobre Grandes Fortunas), previsto na Constituição, seja
regulamentado, inverta-se a lógica dando previdência a tributação direta e progressiva sobre
renda e patrimônio.

Tudo isto é em decorrência de uma série de equívocos, dentre os quais se pode citar a
dilapidação do dinheiro público, a falta de transparência quanto às fontes e aplicações dos
recursos, o baixo retorno social, refletido na falta de atendimento às necessidades
preferenciais da sociedade, o agravo das desigualdades entre pessoas e regiões e escassez
nas informações simples sobre o Sistema Nacional Tributário. No decorrer do escrito de
Tavares, compreendemos que é imprescindível promover um conhecimento acerca dos
tributos pagos pela população, pois os cidadãos não sentem satisfação em pagar tributos,
desconhecem como e quanto deles é voltado para manter o funcionamento do Estado e
direcionado para as necessidades básicas da sociedade, como saúde e educação. Os
contribuintes por diversas vezes não cumprem com os seus encargos tributários e deixam de
fiscalizar o atendimento das mesmas pelos demais cidadãos.

Essa falta de informação é paralela a ausência de controle social. A falta de transparência


dificulta o acesso ao controle orçamentário, ou seja, a maior parte da população não tem
acesso a relatórios da destinação das receitas públicas. A falta de visibilidade, isto é, não
oferecer aos consumidores e contribuintes a informação dos tributos que recaem sobre bens
e serviços, provoca descumprimento de determinação constitucional, estabelecida no § 5º do
artigo 150 (princípio da transparência tributária). Através do raciocínio do autor, nos vem à
mente outro ponto que merece destaque e poderia ter sido abordado: a elisão fiscal
(planejamento tributário), a forma ilegal denomina-se sonegação (ou evasão) fiscal.
A fraude ou sonegação fiscal consiste em utilizar procedimentos que violem diretamente
a lei fiscal ou o regulamento fiscal. Desta forma, conscientemente, um contribuinte age com
a intenção de beneficiar a si ou terceiros pela sonegação, isto é, a habilidade de algumas
empresas (principalmente as de grande porte) escaparem do pagamento dos tributos. Existe
hoje, uma verdadeira indústria de sonegação fiscal no País, portanto, é importante que
criminalize a pessoa física ou jurídica que cometer crimes contra o fisco, (ex: sonegação e
elisão fiscal), estabeleça cruzamento de dados a exemplo da CPMF e reveja a política de
desoneração. Instigar a luta de classe que propicie a progressividade da política tributária
transformando a classe trabalhadora sócia beneficiada do sistema tributário e do orçamento
público. Segundo Edilberto Carlos Pontes Lima:

“Ao impor restrições à competição tributária entre os estados e entre os municípios,


pode também impedir que contribuintes com maior possibilidade de contribuir possam
barganhar favorecimento tributário, algo que os contribuintes mais pobres têm
dificuldades de fazer. A redução de incentivos fiscais pode favorecer a progressividade
do sistema tributário na medida em que diminui a possibilidade de abrigos que
permitam a elisão fiscal. Como são os contribuintes com maior capacidade de
pagamento que têm maior acesso a contadores e advogados, que lhes mostram as
brechas no sistema capazes de permitir menor pagamento efetivo de tributos, a
diminuição dos espaços pode favorecer a eqüidade. Embora importantes, essas medidas
são tímidas em relação ao objetivo de assegurar-se maior progressividade tributária.”

O procedimento adotado no Brasil com os sonegadores, é muito grave, pois estes não
correm o risco de serem presos, basta pagarem os valores sonegados após o crime ser
constatado. É como se um ladrão de banco, após ser pego, fosse absolvido por restituir o
dinheiro. É inadmissível. Isso ocorre, principalmente, porque o legislador brasileiro nunca
se preocupou em penalizar de forma séria e implacável a sonegação. Além de extinguir a
punibilidade do crime pelo ressarcimento, é possível paralisa-la no decorrer do processo
administrativo e por outros meios.

Enfim, a simplificação do sistema de impostos é indispensável. O problema é que os


tributos constitucionalmente vinculados para a proteção social estão sendo extintos e
substituídos por novos tributos sem vinculação. A reforma vem sendo tratada há mais de dez
anos até aqui com pequenos avanços. Isto é consequência não só da dificuldade do tema
como também da pluralidade dos interesses – muitas vezes antagônicos – envolvidos.
Ela repercute sobre todas as classes sociais, empresas, empresários, trabalhadores,
aposentados, investidores e todos os demais segmentos da sociedade brasileira. A Reforma
Tributária trará impactos sobre as receitas da União, dos 26 Estados, do Distrito Federal e
de nada menos de 5.564 Municípios da Federação. Há consonância entre os diversos setores
da sociedade brasileira – empresários, trabalhadores, políticos, técnicos de governo,
entidades de classe, aposentados – quanto à necessidade de uma Reforma Tributária que,
alterando o Sistema nacional tributário, coloque o Brasil no rumo irrevogável do
desenvolvimento com justiça social.

Finalizando as observações, os artigos propõe um novo papel para o Estado no sistema


tributário, como afirma Letizia Garcia:

“Nesse sentido, o novo sistema tributário deve desempenhar o papel de alicerce dos
recursos, para que possa agir como elemento ativo da política econômica do governo de
forma a estabelecer incentivos à atividade industrial e ao investimento, promovendo um
crescimento econômico mais permanente. ”

Os ideais para a reforma e um novo sistema tributário é indiscutivelmente perfeito, bem


articulado. Aguardamos o momento em que deixará de ser apenas um ideal, e passará a ser
aplicado na realidade, resultando em uma economia mais equilibrada e justa.

BIBLIOGRAFIA:

http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/TDs/td_0666.pdf

https://jus.com.br/artigos/46572/principios-e-requisitos-do-sistema-tributario

SABBAG, Eduardo. Manual de Direito Tributário. 9ªed. São Paulo: Saraiva, 2017.