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POBRE DE MIM, NÃO TENHO

TEMPO!

Compreendo-te, meu amigo, compreendo-te.


Queres desculpar-te com esta lastimosa frase teu
esquecimento completo da Religião Católica, tua
ausência do templo, tua falta de cumprimento dos
preceitos de confessar, comungar e ouvir a Missa,
enfim, tua vida completamente descuidada, perdida
para tua alma, ateia na prática, nem mais nem menos
que dos que dizem, abertamente, não crer de forma
alguma nem em Deus nem na outra vida.
Entretanto, veja como são as coisas, não és
nem ateu nem materialista, nem queres passar por
menos que um cristão formal, e te indignarias contra
quem te negasse o nome e a boa reputação de
católico, apostólico, romano.
Vejamos, pois, como esta pequena frase que
tiras para dizer muito satisfeito cada vez que te
lembram teus imperdoáveis esquecimentos, vamos
ver, digo, como esta frase infeliz não passa de uma
escusa miserável, falsa, mentirosa e,
consequentemente, de nenhum valor para dispensar-
te de tuas obrigações e para livrar-te do castigo
eterno quando chegar a hora de acertas as contas
com Deus.
Não tens tempo, dizes? Pois olha, empenho-
me em proporcionar-te em abundância com uma
única condição: que me deixes passar ligeiro olhar
sobre o modo que empregas as vinte e quatro horas
que tem o dia, e descontar-te delas as que
miseravelmente perdes, se não és ainda que
empregas em coisas claramente prejudiciais e
abomináveis. Ofereço-me a presentear-te, como
resultado desta liquidação, um uma sobra de tempo
que te baste com excesso para todas as tuas mais
sagradas atenções, e mesmo para gastar um pouco
alegremente com os amigos em algo que não ofenda
a Deus.
Vejamos. Daqueles momentos que te passas
conversando de coisas que não te importam, quantos
poderias suprimir cada dia que, somados cada
semana, mês e ano, representariam uma quantidade
notável de tempo perdido?
Daquelas horas mortas que consomes, quem
sabe, no bar ou no café, que não é melhor que ele,
saboreando a saborosa taça ou contemplando
preguiçosamente como se desvanecem no ar as
aspirais azuladas do humo de teu rico cigarro ou de
teu modesto cachimbo, quanto poderias diminuir
cada dia, se já, como fosse teu dever, não te sentes
com animosa decisão para do todo deixar de
frequentar tais lugares pouco recomendáveis?
Por que não deixas de ir ao teatro cada festa
por noite ou pela tarde, e talvez mais de um dia na
semana, e gastas nisso, que chamas teu
indispensável alívio, duas ou três horas que ali se te
passam como breves minutos?
Quanto gastas em inúteis visitas a cada
semana ou mês, se és homem ou mulher de certa
posição social, ou em bromas e conversas fiadas
com os amigos, se és pobre trabalhador?
Prossegue tu mesmo este exame com alguma
minucia, e logo ficarás pasmo ao concluí-lo, vendo
a grande quantidade de tempo que perdes todos os
dias, sem saber em quê, ou sabendo talvez, por tua
infelicidade.
Não tens tempo, dizes? Escuta uma reflexão.
Sucede com o tempo o que acontece com o dinheiro,
que parecem irmãos gêmeos segundo a semelhança
que apresentam. De fato: tempo e dinheiro são
coisas de grande valor, e precisamente são as que
com mais facilidade se perde com facilidade. Digo,
pois, que com o tempo acontece algo parecido com
o dinheiro. Os que mais generosamente o dão por
Deus costumam ser os que menos parecem tê-lo. As
esmolas costumam sair, e o sei por experiência,
mais comumente da gente pobre ou média, de que
dos grandes e opulentos capitalistas, o que faz
pensar quão profundas são aquelas frases do
Evangelho: Beati pauperes: vae vobis divilibus.
Pois bem. Acontece analogamente com o tempo. Os
mais ricos dele são os que mais escassos dele se
mostram, quando se trata de oferecê-lo a Deus. Os
pobres e necessitados costumam ser nisso menos
avarentos.
Me assombra a classe de pessoas que acode
todos os dias a nossas Missas na primeira hora da
manhã. Quase todas pertencem à categoria de
diaristas e de serventes, que abdicam do sono e do
descanso aqueles trinta minutos que oferecem
generosamente a seu Deus. Quando saem, fazendo
penosíssimo sacrifício, dão de seu exíguo capital de
tempo aquela meia hora à Religião Católica,
enquanto que os desocupados do século, a quem mil
vezes consome a ociosidade, não encontram nunca
tempo disponível para atender aos seus deveres
cristãos. E observo, por regra geral, que são as
pessoas mais ocupadas as mais dispostas sempre a
toda boa obra, assim como as ociosas e desocupadas
costumam ser sempre as mais irresolutas e
preguiçosas. Ai de quem uma vez se deixou
entorpecer e como que dormir na negligência e no
descuido! Horrível paralisia moral é esta que tira aos
tais toda atividade e decisão para trabalhar sua
salvação. Horrível paralisia, repito, mil vezes pior
que a dos membros corporais mais paralisados e
entumecidos.
Não tens tempo, dizes? Pois deves busca-lo,
amigo, custe o que custar, porque se queres alcançar
de Deus a salvação de tua alma, com teu trabalho te
hás de ganhar, e não há que buscar com medo outra
saída. Desengana-te: não se dá debalde o céu; nem
a própria Virgem Maria, nem santo algum, entrou
nele pela outra porta se não pela do bem agir. Aos
próprios Anjos, para confirmá-los em sua graça e
bem-aventurança, exigiu o Criador mérito de sua
parte. Os santos Evangelhos sempre falam muito
claramente sobre isso. Ali se nos compara a diaristas
a quem o amo Deus chama ao anoitecer para pagar
uma diária acertada. Como, pois, te atreverás a
esperar de Deus salário algum, se desperdiçaste as
horas que te concedeu para merecê-lo com teu
trabalho? E qual é este trabalho, único que merecerá
o salário do reino celestial, se não o da vida
devidamente ocupada em obras de santificação e na
prática dos atos que a Religião Católica prescreve?
Suponhamos, pois, que tão ocupado e
atarefado te deixam teu negócio, ou tua carreira, ou
teu trabalho, que nem mesmo uns minutos do dia te
concedem para pagar deles o tributo devido a Deus
e olhar para os interesses de tua alma. Suponhamos
que não tens tempo de verdade, como dizes, para
dedicar pouco ou muito à prática de tua Religião.
Pois vives mal, meu amigo, vives mal, muito mal, e
serás grande fabricante, grande vendedor, sábio
literato, ativo trabalhador... mas és verdadeiramente
um mal cristão... Quase não és homem; quase te
degradas à condição miserável de besta, pois
somente as bestas são quem estão no mundo
unicamente para trabalhar. Passas a ser burro de
carga, e nada mais, mesmo que ostentes outra coisa.
Já sei que o positivismo moderno não sabe mais que
ponderar a todas horas a excelência do trabalho, e
lhe chegou a chamar suprema virtude; mas sei
também que este conceito brutal do fim do homem
sobre a terra, valha-me Deus, não é cristão nem
racional.
É preciso, pois, que dês trégua de vez em
quando a tuas ocupações terrenas, por mais nobres
e decorosas que sejam, para ocupar-te de tua alma,
que é mais sublime que o corpo, e tem, todavia,
necessidades mais imperiosas a que é forçoso
atender.
Deves rezar cada dia, manhã e noite, tuas
orações, à Virgem e aos Santos, mesmo em sua casa,
se verdadeiramente tua ocupação não permite uma
visita diária ao templo, que seria o mais correto.
Deves observar e santificar os dias de festa,
afastando-te de todo o material e terrestre de tuas
ocupações durante a semana e dedicar boa parte aos
atos de culto; à Santa Missa especialmente, pois é
um preceito rigoroso; à leitura de livros sãos, à
instrução de tua família, às obras de caridade e à
recreação honesta.
Deves ir à celebração das grandes solenidades
cristãs, semeadas pela Igreja durante o ano como
formosos pontos de descansos; distinguindo-as com
aumento de devoção, com participação dos Santos
Sacramentos, com a mais prolixa assistência às
cerimônias belíssimas com que se solenizam, com
algumas esmolas aos pobrezinhos de Nosso Senhor.
Não é, amigo, correto que na época da Páscoa ou
festa maior faças em tua mesa, com ricos manjares,
e vistas a roupa mais vistosa, dês também a tua alma
pratos e traje de festa por meio de alguma dessas
boas obras extraordinárias, que são seu melhor
alívio e adorno?
Deves visitar a casa do pobre e do enfermo,
com a palavra de consolo nos lábios, a esmola na
mão e o afeto cristão no coração, pois são das obras
de misericórdia uma das que mais agradam a Deus
e que mais poderoso influxo exercem em nossa
própria consciência. E para fazer essa visita de
caridade bem podes escusar qualquer outra de
passatempos, bem podes encurtar um pouco tua
permanência no shopping ou na praça, bem podes
economizar alguns minutos dos que tão
miseravelmente esbanjas ali em algo que te é
perfeitamente inútil, isso se não o for prejudicial.
Dizes que não tem tempo? Grande Deus! Só
a Religião e suas práticas sofrem a míngua por essa
maldita escassez de tempo em que sempre andam,
sempre, homens como tu! Só no cumprimento dos
deveres cristãos se conhecem a penúria e a
necessidade! Veja os lugares de diversão sempre
transbordantes de cidadãos ocupadíssimos; as
praças e jardins cheios todo o domingo de
apreciáveis católicos, ocupados em dar-se
mutualmente em espetáculo; olha para qualquer
filme nos cinemas quantos espectadores se
encontram. Milhares de telespectadores assistem a
novelas imundas e estúpidas; assinantes de
periódicos, revistas e jornais infames, e até mesmo
tontos; ridículas a mesas de dominó; contemplativos
de novos gêneros aqueles que ficam preguiçosos em
lençóis e divãs; absortos caminhantes nas horas
frescas. Para que não há público neste mundo ruim?
Para qual de suas bobagens não se encontra tempo?
O tempo só é escasso para Deus. Metade do gênero
humano, e tal vez a outra metade, têm não somente
tempo de sobra, mas andam buscando o tempo todo
recursos com que matar o tempo, e não é deplorável
que logo digam que não têm tempo, logo que se fale
dos interesses de sua alma e da eternidade?
Não tens tempo? Vou te dar aqui por
conclusão uma breve receita, com a qual se pode
fabricar tempo facilmente. É um fato. Usaram-na
inumeráveis pessoas que fizeram e fazem ainda por
Deus, pelo próximo e por si mesmos, gigantes
trabalhos para os quais parece que não seria
suficiente viver cem anos. Dela se valeram os
grandes Santos que admiras nos altares como
prodígios do céu e atividade, assim como outros
muitos que sem ter chegado a tão alta categoria são,
não obstante, dignos de imitação por sua existência
laboriosa e proveitosa. Se reduz às seguintes
máximas:
Não dormir mais que o necessário, não se
divertir mais que o conveniente, não se esbanjar na
ociosidade (propriamente dita) nem um minuto.
Queres remédios que custem menos que essas
para a composição do precioso elixir que chamamos
tempo? Asseguro-te, como amigo, que sem ires
comprar, terás à mão em tua casa sempre que gostes,
como não te falte a primeira condição de todas, que
vem a ser o único dinheiro que o compra: a boa
vontade.
Quem terá desculpa de se encontrar sem
tempo tendo à sua disposição a todo tempo tão boa
fábrica dele?

A. M. D. G.

Tradução: Jonadabe Santos Rios.


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