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GERENCIAMENTO DE CUIDADOS

PARA A ATENÇÃO INTEGRAL À


SAÚDE DA PESSOA IDOSA
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO
SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE
COORDENAÇÃO DAS REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE E ÁREAS TEMÁTICAS
ÁREA TÉCNICA DE SAÚDE DA PESSOA IDOSA
COORDENAÇÃO DE GESTÃO DE PESSOAS
ESCOLA MUNICIPAL DE SAÚDE

SÃO PAULO
2015
FERNANDO HADDAD MARIA LUIZA MARCONDES DE MORAES
Prefeito Coordenação de Gestão de Pessoas
JOSÉ DE FILIPPI JUNIOR LAURA APARECIDA CHRISTIANO SANTUCCI
Secretário Municipal Diretora Escola Municipal de Saúde
PAULO DE TARSO PUCCINI HIDEKO KAWATA MIURA
Secretário Adjunto Coordenadora Pedagógica da EMS
CORMARIE GUIMARÃES PEREZ
Chefe de Gabinete ESTER FINGUERUT SERFF
Diretora da Divisão de Educação - EMS
IARA ALVES DE CAMARGO
Coordenadora das Redes de Atenção à Saúde e Áreas
Temáticas

Coordenação do Curso Gerenciamento de Cuidados para


Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa – EMS - ETSUS/SP
Laura Aparecida Christiano Santucci
Núcleo Escolar - EMS
Rosangela Lopes Gonçalves
Dirlene Costa Paolillo
Apresentação
Ester Finguerut Serff
Elaboração
Hideko Kawata Miura
Yeda Aparecida de Oliveira Duarte
Marilia Anselma Viana da Silva Berzin
Colaboração
Coordenação do Curso Gerenciamento de Cuidados para
Bernadete de Oliveira
Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa – Área Técnica
Célia Terezinha Bernardes da Costa
de Saúde da Pessoa Idosa/SMS
Ester Finguerut Serff
Sérgio Marcio Pacheco Paschoal
Doralice Severo da Cruz
Doralice Severo da Cruz
Fernando Aparecido da Silva
Sandra Cristina Coelho Teixeira
Hideko Kawata Miura
Núcleo de Documentação - EMS Jaqueline Alves Lopes Sartori
Marine Fumiyo Otake Arakaki Marilia Anselma Viana da Silva Berzins
Yara Maria Spinola e Castro Renata Luciana Hasegawa Fregonezi O envelhecimento populacional apresenta-se como um fenômeno atual de
Rosa Maria Bruno Marcucci
Núcleo de Comunicação e TV Corporativa - EMS
Sandra Cristina Coelho Teixeira grande relevância em todo o mundo. Envelhecer é considerado pela Organização das
Nilciany Camargo
Sandra Aparecida dos Santos Stahlhauer
Sergio Marcio Pacheco Paschoal Nações Unidas (ONU) como um dos grandes triunfos da humanidade. Muitos esforços
Antonio Carlos da Cruz Zacarias foram feitos para que as pessoas pudessem alcançar mais anos em sua existência. A
Viviane Fernades
saúde pública teve e tem responsabilidade nesse processo, à medida em que ofereceu
ESCOLA MUNICIPAL DE SAÚDE - EMS
a universalização dos serviços de saúde e saneamento à população brasileira a partir
facebook.com/EscolaMunicipalDeSaude
Rua Gomes de Carvalho, 250 - Vila Olímpia - São Paulo - SP dos anos de 1980.
CEP: 04547-001 twitter.com/EscolaMunSaude
Fone/Fax: 11 3846-4569 O Brasil envelhece rapidamente, principalmente nos grandes centros urbanos.
www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/ems slideshare.net/escolamunicipaldesaude Para se ter ideia, a população idosa brasileira supera 19 milhões, principalmente
maiores de 60 anos. Somente a cidade de São Paulo acompanha a acentuada
transição demográfica da população idosa que reside no município, que é 1.313.109,
representando 11,88% total da população. A expectativa média de vida (74,2 anos
no Município de São Paulo em 2007) se amplia de tal forma que grande parte da
população irá alcançar a velhice.
A Política Municipal para a Saúde da Pessoa Idosa pauta suas ações nos marcos
Ficha Catalográfica: políticos/técnicos vigentes no país para a garantia de melhores condições de vida
S241sSão Paulo (Cidade). Secretaria da Saúde. dos idosos paulistanos, especialmente a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa,
Saúde da pessoa idosa: gerenciamento de cuidados para a atenção integral que define as diretrizes de ação, cujo objetivo é recuperar, manter e promover a
à saúde da pessoa idosa. Secretaria da Saúde. Área Técnica de Saúde da autonomia e a independência dos indivíduos idosos. O objetivo é direcionar medidas
Pessoa idosa; Escola Municipal de Saúde. – São Paulo:SMS, 2015.
158p.il.
coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os princípios e
diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).
1. Saúde pública. 2. Saúde do Idoso. 3. Sistema Único de Saúde.
I. Escola Municipal de Saúde. II.Título. Considerando o quadro apontado, pensar em processos de qualificação dos
profissionais da rede que atendem a este segmento é fundamental, visando a atenção
CDU 614.2 adequada às demandas da população idosa. Nesse sentido, a Coordenação de Gestão
de Pessoas, Coordenação de Atenção Básica e Coordenação das Redes de Atenção à
Saúde, por meio da Escola Municipal de Saúde/Escola Técnica do SUS de São Paulo e
Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa oferecem aos profissionais de nível médio um

3
Apresentação

processo de qualificação que favoreça o atendimento de forma integral à Saúde da


Pessoa Idosa, com foco no usuário, aumentando e facilitando o acesso.
O curso “Gerenciamento de Cuidados para a Atenção Integral à Saúde da Pessoa
Idosa” se fundamenta no desafio de construir o trabalho em rede e em equipe
interdisciplinar. Gerenciar o cuidado das pessoas idosas com doenças crônicas exige
conhecimento técnico assistencial, administrativo e capacidade em técnicas de
resolução de problemas.
A proposta do curso baseia-se na aprendizagem significativa que trabalha com

Sumário
a interação dinâmica entre o professor e o aluno. A metodologia da problematização
privilegia a prática dos próprios alunos, servindo de ponto de partida para o aprendizado
para que eles possam refletir sobre esta prática e modificá-la se necessário. Ela
respeita o ritmo individual de cada um e suas experiências vividas no ambiente de
trabalho.
Sejam todos bem vindos e bom curso!

Equipe da Escola Municipal de Saúde

MÓDULO 1 - Velhice e Envelhecimento................................................... 7


“Percepções Sobre a Velhice”............................................................. 8
Interpretação do Resultado ............................................................... 9
Atitudes, Mitos e Estereótipos Relacionados ao Envelhecimento e ao
Cuidado à Pessoa Idosa.............................................................11
Atitudes Mitos e Estereótipos............................................................. 12
Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa...................................25
Quem é Velho no Brasil?................................................................... 25
MÓDULO II - Família e Envelhecimento...................................................41
PARTE 1....................................................................................... 41
Contextualizando o Idoso e sua Família........................................49
A família do idoso........................................................................... 56
PARTE 2....................................................................................... 64
Construindo uma Relação de Ajuda..............................................69
Primeiros Passos............................................................................. 69
Características Necessárias para Construir uma Relação de Ajuda ................ 72
PARTE 3....................................................................................... 78
O Cuidado da Pessoa Idosa e os Cuidadores....................................87
O Cuidado da Pessoa Idosa................................................................ 87
Orientação de Cuidadores ................................................................ 90
MÓDULO III - Violência Contra a Pessoa Idosa...........................................97

4 5
Sumário

VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL CONTRA A PESSOA IDOSA: A CONTRADIÇÃO DE


QUEM CUIDA..........................................................................99
Direitos Humanos e Políticas Públicas......................................... 101
MÓDULO IV - Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento............ 107
Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento ................... 111
MÓDULO V - Condições Crônicas e Envelhecimento................................. 119
PARTE 1......................................................................................119
MÓDULO 1
Velhice e Envelhecimento
Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de
Envelhecimento................................................................... 129
Entendendo o Envelhecer.................................................................129
Mas tem Coisas que Mudam Mesmo.....................................................136
Por Que é Importante Conhecer As Alterações que Ocorrem com o Avançar da
Idade? .......................................................................................149
PARTE 2......................................................................................151
O Cuidado da Pessoa Idosa com Limitações Funcionais..............................151
Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa........................ 159 Esse módulo tem por objetivos:

Aspectos Relacionados à Comunicação.................................................162 • Discorrer sobre mitos, preconceitos e


estereótipos relacionados ao envelhecimento e
Cuidados com a Alimentação ............................................................167
à pessoa idosa,
Cuidados com a Higiene, Vestimenta e Conforto da Pessoa Idosa .................172
• Identificar as pessoas idosas no Brasil e no
Cuidados com o Vestuário................................................................180
mundo,
Cuidados com a Administração de Medicamentos ...................................181
• Compreender as múltiplas dimensões do processo
Mecanismos Corporais, Mobilização e Transferência ................................187 de envelhecimento,
Cuidados com Sono e Repouso...........................................................200 • Conhecer as políticas relacionadas ao
A Dimensão Espiritual das Pessoas Idosas e seu Cuidado ...........................205 envelhecimento.
Cuidados no Final da Vida ...............................................................210
Para o desenvolvimento das atividades propomos a seguinte dinâmica. Na primeira
PARTE 3......................................................................................215
parte “Atitudes, mitos e preconceitos relacionados à pessoa idosa”:
Grandes Síndromes Geriátricas..........................................................215
1. Em plenária:
Grandes Síndromes Geriátricas ................................................ 217 • Apresentação do módulo, do professor e dos alunos;
MÓDULO VI - Gerenciamento do Cuidado.............................................. 243 • Levantamento das expectativas do grupo;
Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado................... 249
• Orientação sobre o desenvolvimento das atividades presenciais e não pre-
Histórico e Conceito das Redes de Atenção à Saúde ................................249 senciais.
Linhas de Cuidado ........................................................................257
2. Individualmente, preencher o instrumento “Percepções sobre a pessoa idosa”
MÓDULO VII - Plano de Intervenção Territorial....................................... 269 desenvolvido por Dubê (2006) que trata sobre os estereótipos relacionados aos
idosos.
PLANO DE INTERVENÇÃO TERRITORIAL ............................................. 281
3. Em grupo, discutir sobre os resultados encontrados. Exemplificar com as
MÓDULO VIII - Estudo Dirigido............................................................ 301 vivências e experiências trazidas por cada um.
4. Leitura do texto de apoio sobre o tema.

6 7
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Módulo 1 Velhice e Envelhecimento

“PERCEPÇÕES SOBRE A VELHICE”1 INTERPRETAÇÃO DO RESULTADO

Pense nas pessoas idosas que você conhece; primeiro de sua família, depois de Entre 75 e 100 pontos Sua adesão aos estereótipos negativos é elevada
seu local de trabalho e responda como você percebe as pessoas mais velhas?
Você tem tendência a ver a pessoa idosa de forma
Entre 50 e 74 pontos
estereotipada
Lembrando-se do que você acabou de pensar, preencha o teste a seguir e, ao
final, você irá conhecer como está sua percepção sobre as pessoas idosas. Entre 25 e 49 pontos Você está no limiar dos estereótipos
De 0 a 24 pontos Você tem uma visão menos estereotipada da pessoa idosa
Para preencher o teste leia cada afirmação, pense rapidamente na sua resposta
(a primeira é a que vale) e assinale um valor de 0 a 5 lembrando que quanto mais Quanto mais elevado for o escore obtido, mais elevada é sua adesão aos
verdadeira for a afirmação para você, maior deve ser o valor assinalado. No final do estereótipos negativos relacionados às pessoas idosas.
teste some os valores assinalados e coloque o resultado no local indicado. Somente Discuta, em grupo, os resultados encontrados procurando se lembrar das pessoas
em seguida veja o escore e aguarde a discussão em grupo. de quem você lembrou quando respondeu ao teste.
Pense também se as pessoas idosas de sua família são iguais ou diferentes das
Não veja o escore antes de preencher o teste para que sua resposta não seja
pessoas idosas que você costuma atender em seu serviço. Discuta com o grupo.
influenciada. Não se preocupe com o resultado. Nossas percepções são construídas
de acordo com a sociedade em que vivemos. É importante, no entanto, tomarmos Agora veja a figura a seguir e identifique a pessoa idosa justificando o porque.
consciência delas, pois são a base de nossas atitudes pessoais e profissionais.
Essa figura foi encontrada em um papiro
Em sua opinião, as pessoas idosas: egípcio datado de 2.900 antes de Cristo, portanto
1 Dão muita importância à religião 5 4 3 2 1 0 ele tem quase 5.000 anos. Na sua opinião, quem é
2 São mais inquietas que os mais jovens 5 4 3 2 1 0 idoso nessa figura e, por que?
3 Vivem de suas lembranças 5 4 3 2 1 0
4 São mais sensíveis do que outras pessoas 5 4 3 2 1 0
5 Esperam que seus filhos se ocupem delas continuamente 5 4 3 2 1 0
6 Repetem sempre as mesmas coisas 5 4 3 2 1 0
Agora, veja a próxima figura, você costuma
7 São capazes de se adaptar à mudanças 5 4 3 2 1 0
vê-la em seu dia-a-dia nos locais públicos. Olhe com
8 Têm uma saúde frágil 5 4 3 2 1 0
atenção e identifique a pessoa idosa. Justifique por
9 Têm medo do futuro 5 4 3 2 1 0
que, na sua opinião, essa pessoa é idosa.
10 São ricas ou estão bem financeiramente 5 4 3 2 1 0
11 Estão mais sujeitas à criminalidade que os mais jovens 5 4 3 2 1 0
Sua aposentadoria provoca problemas de saúde e
12 5 4 3 2 1 0
acelera seu processo de morte
Passam seu tempo jogando cartas, damas, dominó ou
13 5 4 3 2 1 0
bingo
14 Preocupam-se pouco com sua aparência 5 4 3 2 1 0 A pessoa idosa é a figura de número _______. Eu a identifiquei como “idosa” por:
15 Sofrem de solidão 5 4 3 2 1 0 ......................................................................................................
16 São teimosas e chatas 5 4 3 2 1 0
......................................................................................................
17 Representam um peso econômico para outras gerações 5 4 3 2 1 0
18 Têm tendência a se intrometer nos assuntos alheios 5 4 3 2 1 0 ......................................................................................................
19 São menos capazes de aprender 5 4 3 2 1 0 ......................................................................................................
20 Não tem interesse ou capacidade para a vida sexual 5 4 3 2 1 0
Comente sua justificativa com o grupo. Ao final o professor fará uma síntese
TOTAL
das opiniões do grupo e assim conheceremos o perfil do mesmo em relação à velhice
que será a base de nosso trabalho durante o curso.

Retirado de: Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Envelheci-
1 Vamos ler o texto de apoio intitulado “Atitudes, mitos e estereótipos
mento e Saúde da Pessoa Idosa. Rio de Janeiro: EAD/ENSP, 2008. relacionados ao envelhecimento e ao cuidado à pessoa idosa”, apresentado a seguir.

8 9
TEXTO DE APOIO

ATITUDES, MITOS E ESTEREÓTIPOS


RELACIONADOS AO ENVELHECIMENTO
E AO CUIDADO À PESSOA IDOSA
Baseado no texto de Accioly MR; Vasconcelos ZP. Atitudes, mitos e estereótipos
relacionados ao Envelhecimento. In: Duarte YAO; Diogo MJD. Atendimento
Domiciliário: um enfoque gerontológico. São Paulo, Atheneu, 2000.

“A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada


idade, de finalidade própria. Por isso a fraqueza das crianças,
o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade
dos velhos são coisas naturais que devemos apreciar cada uma
a seu tempo” (Cícero)

Desde a antiguidade, filósofos, como Cícero, demonstravam interesse e


preocupação com o envelhecer e com os velhos. Sem dúvida, esses pensamentos
acompanharam o processo histórico da civilização, sofrendo adequações aos valores
de cada época e de cada cultura em particular.
Simone de Beauvoir em seu livro “A Velhice” descreveu as condições de vida do
idoso em diversas culturas, das primitivas às contemporâneas. Segundo ela, “... ao
perder a capacidade de produção, o velho torna-se apenas um objeto sem utilidade,
transforma-se em encargo, com um estatuto que lhe é imposto pelos mais jovens”.
Nas sociedades primitivas, a situação do idoso era incerta, confusa e às vezes
até contraditória. O jovem torna-se adulto e, portanto, cidadão, o adulto torna-se
velho, cuja condição pode variar. Passar de uma categoria à outra pode significar
promoção ou queda, dependendo da cultura em que a transição ocorre.
Nas sociedades agrícolas tradicionais a organização se fazia em função de
categorias de idade. O fundamento dessa organização era a atividade econômica
familiar atribuindo a cada indivíduo, em função de sua idade, uma determinada
tarefa na produção. Existiam também funções sociais nos grupos da sociedade rural
diferenciadas para cada idade.
Nas sociedades pré-industriais compostas essencialmente por camponeses
e artesãos, o trabalhador rural vivia em seu local de trabalho, confundindo-se as
tarefas domésticas com as produtivas. Entre os artesãos altamente qualificados, a
capacidade e habilidade cresciam com a experiência e, portanto, com o avançar dos
anos. Nas profissões em que a qualificação ou a habilidade declinava com a idade,
havia uma divisão de trabalho que permitia adaptar as tarefas às possibilidades de
cada um. Ao se tornar inteiramente incapaz, o velho continuava a viver no seio da
família que lhe assegurava a subsistência.

11
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Atitudes, Mitos e Estereótipos Relacionados ao Envelhecimento ...

Nas sociedades tradicionais a figura patriarcal ganhava destaque para que não Outro mito da sociedade contemporânea é o de que as famílias cuidam de
desmoronasse o mito de uma velhice reverenciada. Já nas modernas sociedades seus idosos mais dependentes. Tanto isso é um mito que o Estatuto do Idoso
urbanas e industriais o trabalhador nem sempre mora próximo ao seu local de passou a criminalizar a não assistência da família. Um inquérito populacional que
trabalho e a família geralmente não tem relação com a sua atividade produtiva. estuda as condições de vida e saúde dos idosos residentes no Município de São
Nessas sociedades, a família patriarcal é substituída pela família nuclear e o Paulo – Estudo SABE (Saúde, Bem-estar e Envelhecimento) verificou que, entre
patrimônio coletivo pelo projeto de vida individual. A perda da capacidade produtiva as pessoas idosas que apresentavam dificuldades no desempenho de atividades
e o desengajamento do mundo do trabalho constituem marcos significativos na vida básicas de vida diária e que, portanto, necessitavam de um cuidador presencial,
do cidadão, apontando para um futuro incerto e diferenciado segundo a condição em média, apenas 50% delas recebia auxilio em suas necessidades, independente
socioeconômica e de gênero. do tipo de arranjo considerado.

Esse processo histórico contribuiu para que a velhice, na sociedade moderna, Na sociedade moderna a crescente entrada da mulher no mercado de trabalho,
venha se caracterizando como uma fase da vida para a qual, ainda hoje, ainda antes as principais cuidadoras de seus parentes idosos, vem desfazendo o mito de
existam poucos projetos pessoais e onde se observa um significativo declínio das imaginar que a família, centrada na figura feminina, pode sozinha cuidar dos seus
pessoas idosas na participação social. idosos, sobretudo os que perderam ou estão em vias de perder a autonomia.

Na história da civilização, para cada época encontram-se diferentes atitudes em A sociedade industrial e de serviços estimula mitos que são úteis à manutenção
relação à velhice, interferindo de forma significativa no estabelecimento de relações do seu equilíbrio e podem encaminhar soluções para os desafios da modernidade.
intergeracionais, tanto no nível familiar como no comunitário. Um deles é o de que em todas as sociedades pré-industriais o idoso era respeitado e
venerado, graças ao seu conhecimento e saber acumulados. Esse mito tem a função
Embora o contingente de pessoas idosas na sociedade contemporânea seja muito de estimular a família a cuidar de seus idosos improdutivos e dependentes. “É como
significativo, sua experiência de vida não conta de forma decisiva para o equilíbrio e se, incentivando a ideia mítica de que o homem vivia bem e era bem tratado na
a organização social. sociedade tradicional, culpabilizassemos as gerações atuais pelo seu descaso pela
velhice e através deste sentimento estimulássemos os mais novos ao auxilio e
“A imagem sublimada que fazemos das pessoas idosas é a do cooperação aos mais velhos” (Magalhães,1987).
sábio, aureolado, de cabelos brancos, rico em experiência e
venerável, que domina do alto a condição humana; quando Definição de “mito” do Dicionário Houaiss:
se afastam desta imagem surge a oposta à primeira que é a
do velho “esclerosado”, que não raciocina, que divaga e de Substantivo Masculino
quem as pessoas riem. De uma maneira ou de outra, pelas 1. relato fantástico de tradição oral, ger. protagonizado por seres que encarnam,
suas virtudes ou pelos seus objetivos, situam-se fora da sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição
humanidade”(Beauvoir). humana; lenda, fábula, mitologia
Ex.: mitos e lendas dos índios do Xingu, os mitos da Grécia antiga, o mito de
ATITUDES MITOS E ESTEREÓTIPOS Narciso
2. narrativa acerca dos tempos heroicos, que geralmente guarda um fundo de
O mito é uma representação simbólica que não se baseia na realidade. verdade
Manifesta-se por frases e expressões feitas (p.ex: “idade do condor” ou “com dor”) Ex.: o mito dos argonautas e do velocino de ouro
ou por eufemismos que tem a ver, exclusivamente, com a idade (p.ex:“idade de
ouro; melhor idade”). Muitas vezes podem esconder hostilidade. 3. Rubrica: antropologia
O mito da aposentadoria reflete bem os novos valores da sociedade relato simbólico, passado de geração em geração dentro de um grupo, que narra
contemporânea. Na visão que esse mito evoca, a aposentadoria marcaria uma “nova e explica a origem de determinado fenômeno, ser vivo, acidente geográfico,
fase da vida” caracterizada pela “liberdade do uso do tempo”, possibilitando a instituição, costume social etc.
fruição de bens e serviços da sociedade. Ex.: o mito da criação do mundo
Na realidade, o que se observa, é que a aposentadoria não significa apenas o 4. Derivação: por extensão de sentido
direito ao desengajamento remunerado do trabalho, mas, para alguns, pode significar representação de fatos e/ou personagens históricos, freq. deformados,
o início de um processo de isolamento social. Constata-se, paradoxalmente, que ao amplificados através do imaginário coletivo e de longas tradições literárias
mesmo tempo em que os avanços tecnológicos permitem o prolongamento dos anos orais ou escritas
de vida, a sociedade e o Estado retiram do indivíduo quase todos os seus papéis e
funções sociais. Ex.: o mito em torno de Tiradentes

12 13
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Atitudes, Mitos e Estereótipos Relacionados ao Envelhecimento ...

Os mitos contribuem na formação de atitudes e comportamentos. Atitude Já o “estereótipo” é um “chavão”, uma opinião formada geralmente desprovida
é uma disposição em relação a uma pessoa ou grupo; um conjunto de juízos que de qualquer originalidade. É uma percepção automática não adaptada à situação,
conduz a um comportamento, que nos leva a agir. Pode ser favorável ou desfavorável reproduzida sem variantes segundo um padrão bem determinado que pode ser
(dependendo das experiências ou informações prévias). positivo ou negativo.
Definição de “atitude” do Dicionário Houaiss: Definição de “estereótipo” do Dicionário Houaiss:
Substantivo Feminino Substantivo Masculino
1. Comportamento ditado por disposição interior; maneira de agir em relação a 1. Algo que se adequa a um padrão fixo ou geral
pessoa, objeto, situação etc.; maneira, conduta Ex.: A Vênus de Willendorf é um estereótipo da mulher na arte paleolítica
Ex.: atitude arrogante, passiva
2. Esse próprio padrão, geralmente formado de ideias preconcebidas e alimentado
2. Posição assumida, orientação, modo ou norma de proceder pela falta de conhecimento real sobre o assunto em questão
Ex.: a atitude da Igreja em relação ao controle da natalidade Ex.: o estereótipo do amante latino
3. Comportamento afetado 3. Ideia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante
de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações
Ex.: a indiferença nele é pura atitude
4. Aquilo que é falto de originalidade; banalidade, lugar-comum, modelo, padrão
4. Propósito ou modo de se manifestar esse propósito básico
Ex.: atitude de magoar alguém
5. Estado de disponibilidade psicofísica marcado pela experiência e que exerce Definição de “preconceito” do Dicionário Houaiss
influência diretiva e dinâmica sobre o comportamento Substantivo masculino

As “crenças” representam um conjunto de informações sobre um assunto ou 1. qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido
pessoa(s). Determinam nossas atitudes, nossas intenções e nossos comportamentos. sem exame crítico
1.1 ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior
Formam-se a partir das informações que recebemos direta ou indiretamente. conhecimento, ponderação ou razão
Definição de “crença” do Dicionário Houaiss: 2. atitude, sentimento ou parecer insensato, esp. de natureza hostil, assumido
em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou
Substantivo Feminino: imposta pelo meio; intolerância
1. Ato ou efeito de crer Obs.: cf. estereótipo (‘padrão fixo’, ‘ideia ou convicção’)
2. Estado ou processo mental de quem acredita em pessoa ou coisa Ex.: reconceito contra um grupo religioso, nacional ou racial
Ex.: revela uma grande crença
3. Psicanálise: qualquer atitude étnica que preencha uma função irracional
2.1 Atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali específica, para seu portador.
encontrou
Ex.: preconceito alimentado pelo inconsciente individual
Ex.: crença em Deus, crença nas instituições democráticas
Embora a mídia, com frequência, aborde questões relacionadas ao
3. Fé, em termos religiosos
envelhecimento, ela ainda o faz de forma aureolada distanciando-o da realidade
Ex.: tem uma crença inabalável na Santíssima Trindade
de nossos velhos. Nossa sociedade ainda vê o envelhecimento como um assunto a
4. Mito ou doutrina religiosa ou mística (mais usado no plural) ser evitado. A forte crença de que a velhice está associada à doença, deterioração
Ex.: grassavam ali muitas crenças obscuras e morte ainda predomina, mesmo que as pesquisas venham, insistentemente,
mostrando o contrário.
5. Convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou
coisa O envelhecimento é uma etapa como outra qualquer do ciclo de vida.
Ex.: em todos os momentos, sua crença no partido não esmoreceu Tem seus problemas e dificuldades, mas também tem seus aspectos positivos e
compensações. Em decorrência do estereótipo social e do desejo em se evitar falar
6. Opinião manifesta com fé e grande segurança sobre o assunto, muitas ideias falsas e erros de concepção sobre as pessoas idosas
Ex.: nossa crença, afinal, é de que todos serão recompensados ainda são divulgados.

14 15
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Atitudes, Mitos e Estereótipos Relacionados ao Envelhecimento ...

Atitudes negativas relacionadas ao envelhecimento baseiam-se, parcialmente, juventude. Por outro lado, os idosos são responsáveis pela manutenção de muitas
em ideias equivocadas de como os idosos realmente são. Isso é tão forte em nossa famílias atualmente. Algumas cidades, em especial no Nordeste, sobrevivem
sociedade que originou um termo “ageism”, traduzido, em Portugal por Ferreira– quase que exclusivamente das aposentadorias e pensões dos idosos.
Alves e Novo (2006) como ancianismo e por Couto et al (2009) no Brasil como
ageismo. • Todo velho é “ranzinza”.

Ageismo significa um processo sistemático de discriminação contra as pessoas Essa não é uma característica exclusiva da pessoa idosa. O adjetivo apenas
idosas exclusivamente porque são velhas, como racismo e sexismo estão relacionados muda com o avançar da idade. Quando se trata de um adolescente normalmente
a atitudes preconceituosas com relação à cor da pele ou ao gênero. As pessoas idosas esse adjetivo é atribuído às características da idade e assim, aceito. As pessoas
são categorizadas como senis, rígidas em suas atitudes, desatualizadas moral e tendem, apenas, a acentuar suas características ao envelhecer.
socialmente devendo assim ser excluídas do convívio social. • Todo velho é assexuado.
Algumas ideias pré-concebidas sobre a velhice e as pessoas idosas ainda
O interesse e a atividade sexual são importantes na vida do ser humano de
predominam em nossa sociedade e podem contribuir na formação de mitos e
qualquer idade. Ter uma companhia e manter relações íntimas é essencial na
estereótipos que podem se traduzir em atitudes não adequadas no cuidado à pessoa
vida das pessoas incluindo os idosos.
idosa. São elas:
• A maioria dos idosos é doente e por estar doente, tem necessidade de Os mitos e as crenças repercutem nas atitudes dos profissionais e dos cuidadores.
ajuda para desenvolver as atividades cotidianas. Assim:
Muitas pessoas idosas veem a si mesmas como saudáveis. Elas têm uma vida • Quem não considera os idosos diferentes entre si é incapaz de estabelecer
completa e ativa. Embora muitas delas sejam portadoras de, pelo menos, uma intervenções específicas;
doença crônica, elas aprenderam a manejar seus cuidados de saúde e viver
produtivamente dentro das limitações impostas pela doença. Em São Paulo, O • Quem considera os idosos intransigentes e passivos não lhes dá oportuni-
Estudo SABE mostrou que mais de 80% das pessoas idosas são completamente dade de emitirem opiniões;
independentes no desempenho de suas atividades cotidianas mesmo possuindo • Quem considera os idosos conservadores e incapazes de mudanças não
uma ou mais doenças crônicas. permite que eles se adaptem a novas situações ou tentem novos compor-
tamentos;
• A maior parte deles é solitário e infeliz. • Aquele que nega aos idosos sua autonomia nega-lhe o direito a envelhecer
Para alguns deles isso é verdade, mas isso ocorre na mesma probabilidade em dignamente.
que a mesma situação pode afetar os adultos jovens ou de meia idade. Isso quer
dizer que ser solitário e infeliz não é uma característica do envelhecimento, Assim considerando, é fundamental que a primeira abordagem do curso de
mas sim, do ser humano. Muitos idosos são ativos, felizes e encontram prazer atualização em Gerontologia esteja relacionada à identificação de mitos, preconceitos
com os amigos e com a família. Outros, em virtude do maior tempo livre, e atitudes que os profissionais adotam frente aos idosos e à velhice pois a partir
engajam-se em atividades voluntárias que lhes traga satisfação pessoal. desse conhecimento traçaremos a identidade inicial do grupo com relação à velhice,
às pessoas idosas e ao envelhecimento.
• Os idosos são conservadores em seus hábitos de vida e incapazes de mudar; Para finalizarmos esse tópico vamos conversar sobre as “prioridades”. Vamos
As pessoas idosas acumularam experiências diversas em suas vidas e lidam com nos lembrar da figura que analisamos anteriormente:
as situações novas com mais prudência e menos impulsividade que as gerações
mais jovens. Normalmente elas se dispõem a discutir uma proposta nova
desde que essa tenha um bom embasamento e seja feita com uma excelente
argumentação.
• Muitos idosos são confusos e desinteressados em relação ao mundo à sua volta.
A maioria das pessoas idosas tem interesse no mundo a sua volta. Parte delas
é culta, articulada e desejosa de aprender. Apenas uma pequena parcela deles
sofre de demência e problemas de saúde que afetam a memória.
• Os velhos são improdutivos e representam um segmento inútil em nossa
sociedade.
São incontáveis as contribuições das pessoas idosas em nossa sociedade. Muitos
descobrem talentos na idade avançada dos quais não tinham consciência em sua

16 17
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento

Esse cartaz é observado nos transportes e lugares públicos além de ser utilizado
também nos diferentes locais para caracterizar “atendimento preferencial”. Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Em grupos pequenos vamos conversar sobre isso. Escola Municipal de Saúde
• Na sua opinião, as pessoas identificadas na figura devem ter atendimento
preferencial? Por quê? GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
• Qual a diferença entre atendimento preferencial e fila preferencial?
Módulo I
• Você cede seu lugar no transporte público para a pessoa idosa ou para Atividade 1
qualquer outra pessoa identificada no cartaz como preferencial?
• Você orienta pessoas mais jovens a cederem seu lugar para pessoas idosas Aluno(a):..........................................................................................
ou para qualquer outra pessoa identificada no cartaz como preferencial?
• O que você sente quando está, em seu horário de almoço, na fila do banco Individualmente defina:
há cerca de 40 minutos e, exatamente na hora em que você irá ser chama-
da, chega uma senhora idosa, muito simpática e ativa, com muitas contas VELHICE:
a pagar e....é atendida na sua frente?
• Agora iniciaremos a segunda parte desse módulo onde discorreremos so-
bre “O Processo de envelhecimento”. Para tanto propomos a seguinte di-
nâmica:
1. Individualmente, defina, por escrito, velhice, idoso e envelhecimento.
2. Em plenária, discuta com o grupo suas definições pessoais sobre velhice, idoso
e envelhecimento finalizando com uma definição comum ao grupo. IDOSO:
3. Em seu local de trabalho entreviste uma pessoa idosa indagando-a sobre o que
é, para ela, envelhecer e ser idosa e compare a resposta obtida com a definição
obtida em sala de aula. Transcrever essa comparação e entregar para o professor
na aula seguinte.
4. O professor fará uma breve explanação sobre o processo de envelhecimento no
Mundo e no Brasil e sobre a heterogeneidade do envelhecimento.
5. Apresentar ao grupo o Estatuto do Idoso e orientar que cada aluno escolha um
tópico da parte específica de saúde e o discuta criticamente. Esse material
deverá ser entregue ao professor na aula seguinte.
6. Atividade não presencial: leitura do texto de apoio sobre o tema. ENVELHECIMENTO:

18
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo I
Atividade 2

Aluno(a):..........................................................................................
Agora, após discutir com o grupo, transcreva a seguir as definições coletivas a que
vocês chegaram. Guarde essa definição com você, pois necessitará dela para a pró-
xima atividade.

VELHICE:

IDOSO:

ENVELHECIMENTO:
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo I
Atividade 3

Aluno(a):..........................................................................................
Em seu local de trabalho, converse com uma pessoa que você considera idosa e
peça que ela defina envelhecimento e o que significa para ela, ser idosa.Transcreva
a resposta no espaço a seguir e, em seguida, compare com a definição coletiva que
você e seu grupo construíram. Faça algumas observações sobre as similaridades e
diferenças encontradas e entregue a seu professor na próxima aula.

DEFINA ENVELHECIMENTO:

PARA O(A) SR(A), O QUE É SER IDOSO(A)?

Compare a resposta obtida com a definição construída coletivamente e faça algu-


mas observações sobre as similaridades e as diferenças encontradas.
TEXTO DE APOIO

PROCESSO DE ENVELHECIMENTO E
PESSOA IDOSA

QUEM É VELHO NO BRASIL?


A primeira coisa que devemos saber
é que “idoso” no Brasil é toda e qualquer
pessoa a partir dos 60 anos de idade. Isso
está oficialmente determinado pela Política
Nacional do Idoso e pelo Estatuto do Idoso,
leis vigentes em nosso país.
A determinação cronológica do
envelhecimento (por idade) é realizada para
facilitar a organização de serviços assistenciais
e a distribuição de alguns benefícios. O limite
etário aqui estabelecido segue orientação da Organização Mundial de Saúde que diz
que, em países desenvolvidos (como Estados Unidos, Japão, Canadá, países europeus,
etc) é considerada idosa, toda pessoa a partir dos 65 anos de idade e, nos países em
desenvolvimento, como é o caso do Brasil, ainda hoje, esse limite etário é de 60 anos.
Isso é devido às diferentes condições de vida a que a população é submetida o que
pode, em especial com os economicamente menos favorecidos (mais pobres), gerar
um “envelhecimento mais precoce”.
Mas lembre-se, não acontece nada de especial aos 60 anos, as pessoas não dormem
com 59 anos e acordam diferentes aos 60. Os limites etários são determinações legais
com embasamento científico e tendem a reunir, no mesmo grupo, pessoas similares.
No entanto, a questão da velhice, no Brasil é, ainda, acompanhada por mitos,
estereótipos e preconceitos socialmente construídos ao longo do tempo, que já
tivemos a oportunidade de discutir.
Na maioria das vezes acreditamos não sermos pessoas preconceituosas mas, isso
não é, necessariamente, verdade. Podemos nem saber se somos preconceituosos ou
não, pois nunca nos deparamos, antes, com situações que checassem nossas opiniões e,
assim, não as visualizamos com clareza. Vocês se lembram do teste sobre preconceito
contra a pessoa idosa que preencheram? E do resultado? Como vocês se classificaram?
Talvez você tenha se surpreendido com o resultado, mas, não se preocupe,
nossos valores são construídos ao longo do tempo sob influência de diferentes fontes
(família, escola, amigos, sociedade, mídia, etc). O importante é termos ciência
dos mesmos para, conscientemente, podermos modificá-los, pois, a forma como
consideramos o envelhecimento e as pessoas idosas irá se refletir diretamente em
nossas atitudes.

25
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

Você se lembra da figura abaixo que foi trabalhada na última aula não? Você A partir de agora, essa nova figura deve ser, gradativamente incorporada ao
deve tê-la visto em muitos lugares por onde circula. Com certeza você sabe que a imaginário da população em relação à representação da pessoa idosa. O que você
pessoa idosa está representada nessa imagem pela última figura à direita não é? acha dela? Você acha que as pessoas idosas estão representadas por essa figura e
que, a população, em geral, vai reconhecer isso? Converse com seus colegas de
classe e com seu professor sobre isso.

Bem, mas O QUE É ENVELHECIMENTO?

Nós já definimos, individualmente, “velhice”, “idoso” e “envelhecimento”.


Depois, discutimos nossas definições pessoais com o grupo e chegamos a um acordo
coletivo de quais seriam as definições para esses tópicos não é? Finalizando essa
atividade, em nossa unidade de trabalho, entrevistamos uma pessoa idosa e ouvimos
dela sua opinião sobre “o que é envelhecimento” e “o que é ser idoso”. Comparamos
as opiniões levantadas por nossos colegas junto aos idosos com as definições obtidas
Agora vamos pensar, porque você reconhece que essa figura como sendo a pessoa pelo grupo em sala de aula e verificamos em que elas eram semelhantes ou diferentes.
idosa? Ela tem cabelos brancos ou rugas, traços frequentemente associados aos mais
idosos? Não, não tem. A figura mostra uma pessoa debilitada e, possivelmente com Agora, vamos conhecer uma das definições de envelhecimento (existem
dor (daí a mão apoiada nas costas). No entanto, você, provavelmente, não teve muitas). Optamos por apresentar a que está colocada no Caderno de Atenção
dúvidas ao assinala-la como idoso, não é? Básica nº 19 – Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa que está disponível no site:
http://dab.saude.gov.br/caderno_ab.php
Limitação funcional e dor podem acontecer em qualquer idade, mas essa não é,
necessariamente, uma característica de todos os idosos. É a isso que chamamos de As definições de envelhecimento são muitas e baseiam-se em diferentes teorias.
construção social. Aprendemos a acreditar em determinadas coisas e as repetimos A definição apresentada no Caderno de Atenção Básica foi publicada pela Organização
Panamericana de Saúde em 1993, onde envelhecimento é definido como:
todos os dias sem refletir sobre seu real significado. É dessa forma que os preconceitos
se perpetuam. “Processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível,
não patológico, de deterioração de um organismo maduro,
Preocupados com isso, houve um extenso trabalho em modificar o logotipo associado
próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o
ao idoso e, depois de um concurso, os três mais votados foram os que se seguem:
tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio-
ambiente e, portanto, aumenta sua possibilidade de morte”

O logotipo mais votado foi aprimorado ficando o seguinte, que deve substituir
o anterior, em serviços públicos:

Vamos entender esse conceito:


Quando se fala em “processo sequencial” o que se quer dizer é que envelhecer
faz parte do curso de vida, é uma fase da vida, como outra qualquer que ocorre logo
após a maturidade. O organismo humano atinge a maturidade ao redor dos 25 anos.
Assim, desse momento até que o indivíduo morra, ele estará envelhecendo o que
torna o “envelhecimento” a maior fase da vida de todo ser vivo. Você tinha se dado
conta disso? E mais, você já tinha pensado que você está envelhecendo?

26 27
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

Quando se fala em “individual” e “acumulativo” caracterizamos o envelhecimento Assim, o “anti-ageing” não existe. Precisamos tomar cuidado com isso. Existem
como um processo que difere de um indivíduo a outro. Da mesma forma que pessoas promessas de vida e juventude eternas que não são reais e podem ser muito prejudiciais
com 18-20 anos são muito diferentes entre si, os idosos também o são. Cada pessoa à saúde e.... ao bolso (pois costumam ser muito caras). A “pílula da juventude” não
idosa é a expressão do acúmulo de experiências vivenciadas ao longo de sua existência existe realmente embora muitas pessoas passem a vida toda procurando por ela.
que vão se sobrepondo com o passar dos anos e que, em conjunto, representam sua
Agora vamos falar do NOSSO envelhecimento, pois, se compreendermos o nosso
“história de vida”. Essa “história” foi construída em diferentes ambientes sociais,
próprio envelhecimento, compreenderemos melhor as pessoas idosas! Para isso,
culturais, históricos e econômicos onde, em diferentes momentos, a pessoa idosa
continuaremos a utilizar como referência o livro do Dr. Guimarães (2007)(1).
teve que tomar decisões, escolher caminhos. Assim, o envelhecimento pode também
ser compreendido como um reflexo das decisões tomadas durante a vida (portas que Envelhecer pode ser algo que julgo que aconteça apenas com os outros, porém,
se abriram.....portas que se fecharam). morrer prematuramente, sofrer desnecessariamente ou apenas sobreviver NÃO É
VIVER. Há algumas perguntas que devemos nos fazer: Existe uma razão para viver
Para compreender melhor esse ponto podemos trabalhar com outro conceito mais que não seja simplesmente estar vivo por mais tempo? Fazer 100 anos é algo a
que foi trazido para a saúde – “CAPITAL DE SAÚDE”. Faremos aqui uma síntese do ser comemorado ou é um marco a ser alcançado? Existe um desejo legítimo de uma
que foi apresentado em um livro denominado “Decida você: como e quanto quer existência longa e bem vivida?(1).
viver” escrito pelo geriatra Dr. Renato Maia Guimarães (1).
Medir o tempo foi incorporado à cultura do ser humano. Vivemos cercados de
Capital de Saúde é um conceito da área de economia, trazido para a saúde e marcos temporais. Acreditamos que apenas a juventude é bela. É necessário despir-
associado a um conceito sociológico - curso de vida, ou seja, o que ocorre na fase mais se do preconceito para ver a beleza para além da juventude. Nosso padrão de beleza
avançada da vida está associado a tudo o que se fez antes, ao que foi “poupado” e ao pode e deve ser adaptado ao longo da vida o que não significa “glamourizar” o mau
que foi “gasto”. Assim, Capital de Saúde pode ser compreendido como a somatória gosto ou se esconder atrás do argumento “beleza interior”(1).
dos investimentos e dos gastos em saúde no decorrer da vida. Menos investimento e
mais consumo significa menor estoque de saúde. Por outro lado, mais investimento e O envelhecimento ocorre, como já dissemos, com todos os seres vivos, mas,
menos consumo significa maior estoque de saúde onde o resultado final dependerá do é um processo assimétrico, ou seja, ninguém envelhece da mesma forma (daí ser
“capital inicial” (com o qual nascemos), do “nível de investimento” durante a vida um processo individual). Ele é, na verdade, a expressão própria do curso de vida de
e, da mesma forma, do “grau de consumo” durante o curso de vida. cada indivíduo. Ele é o reflexo da ação do tempo comum a todos somado ao que se
denomina “marcas da vida” que, juntos, constituem nossa “história de vida”(1).
Cerca de 30% de nosso capital de saúde são oriundos de nosso patrimônio
genético, que é individual. Nós o recebemos diretamente de nossos pais que, por sua Já comentamos que, quem investe em saúde mais do que consome terá um
vez, receberam de seus pais e assim por diante, por gerações. Outros 20% estão ligados estoque maior em qualquer idade. Quanto o envelhecimento depreciará esse
às condições socioeconômicas, históricas e, também, à sorte que tivemos em nossa investimento? O resultado final, ou seja, nossa saúde nas idades mais avançadas,
infância, juventude e vida adulta. Assim, os outros 50% podem ser administrados pelo será uma somatória do nosso capital inicial, do nível de investimento que fizemos e
próprio indivíduo (dependendo de suas escolhas, de suas decisões). Vive e envelhece do grau de consumo que tivemos(1).
melhor quem age de forma a compensar as perdas associadas ao envelhecimento. Nosso “capital de saúde” envolve aspectos biológicos, psicológicos, sociais e
Maior investimento significa maior estoque em saúde, em qualquer idade. econômicos.
Outros dois pontos importantes, talvez os mais importantes, do conceito que Os aspectos biológicos associados ao “capital de saúde inicial” estão relacionados
estamos adotando é que o envelhecimento não é patológico, ou seja, velhice não ao nosso patrimônio genético, às condições nas quais fomos gerados (gestação de
é doença e, também, envelhecimento é um processo irreversível. O que se quer nossa mãe e condição de nascimento), ou seja, à contribuição genética somada
dizer com isso. Todo ser vivo nasce, cresce, amadurece, envelhece e morre. Esse é ao nosso desenvolvimento inicial. Em seguida virá a infância onde a existência de
o curso de vida de qualquer ser vivo. A principal característica do envelhecimento ambiente harmônico, de alimentação adequada, da presença de proteção e carinho
é ser um processo de deterioração progressiva dos múltiplos sistemas que deixa o representam um investimento poderoso. Na sua ausência não se agrega investimento
organismo mais vulnerável às adversidades, pois, já não consegue responder a elas ao capital inicial aumentando a chance de doenças e mortalidade na infância.
prontamente, o que aumenta sua chance de morte. Tudo isso ocorre gradativamente Depois virá a adolescência e a juventude onde os aspectos educacionais e o nível
durante o curso de vida. Esse processo só será acelerado na vigência de agravos ou socioeconômico de nossa família farão muita diferença. A idade adulta traz consigo a
doenças. necessidade de alguns “investimentos” que exigem alguma disciplina como a prática
de atividades físicas regulares, boa alimentação, bons cuidados à saúde, a adoção de
Por outro lado, o processo de envelhecimento é IRREVERSÍVEL. Podemos chegar
um estilo de vida mais saudável (1).
às idades mais avançadas em ótimas condições funcionais e de saúde, dependendo
de nosso curso de vida, mas, não chegaremos aos 90 anos com as mesmas condições Alguns aspectos psicológicos devem ser ressaltados. Um deles está relacionado
físicas e funcionais que tínhamos aos 15 anos. Podemos melhorar a aparência, cuidar à nossa AUTOESTIMA que é resultado da somatória do nosso valor como pessoa +
melhor do corpo, prevenir doenças e agravos, mas, mesmo assim, envelheceremos. conquistas durante a vida + trabalho + forças e fraquezas + percepção de como somos

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Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

vistos pelos outros + relações com os outros. Quanto maior nossa autoestima, maior A figura a seguir mostra como, com o transcorrer da vida, podemos aumentar o
o capital de saúde. Quanto menor, maior chance de envelhecer sem sucesso, pois o risco de ocorrência de doenças:
indivíduo não vê um futuro bom ou melhor e assim, não agrega nada à sua(1).
Outro aspecto a considerar é a RESILIÊNCIA (em saúde), ou seja, as condições
onde o indivíduo, após sofrer uma adversidade (perda de um ente querido, decepções
no amor, trabalho, na vida familiar, na saúde), recupera-se e volta a viver com
intensidade, sem ignorar a dor, mas convivendo com a situação sem ressentimentos
ou lamentações(1).
HUMOR é outro ponto fundamental. Rir das coisas e de si mesmo faz bem à
saúde, nos fortalece favorecendo uma vida mais longa. As pesquisas mostram que ter
humor ajuda a relaxar, reduz os hormônios relacionados ao estresse, fortalece nosso
sistema imunológico e contribui para a redução da dor(1). Ter FÉ, também parece
favorecer a saúde e os comportamentos saudáveis(1).
Assim, segundo Dr. Guimarães, para investir em nosso capital de saúde
devemos  (1):
Assim, vive e envelhece melhor quem tem maior “poupança” no capital saúde.
• Ter uma alimentação balanceada
Isso envolve escolha e ações que podem ser adotadas para compensar as perdas
• Aumentar nossa atividade física regular (combater o sedentarismo) associadas ao envelhecimento. Envelhecer bem não é uma questão apenas de sorte,
significa dizer sim ou não para as diferentes oportunidades e opções que cruzarem
• Investir em seu estado emocional de forma positiva (sublimação, bom hu- nosso caminho durante toda a vida. Não existe certo ou errado. O importante é viver
mor, altruísmo, saber esquecer e adiar) em paz com princípios de humanidade e algumas virtudes. A vida é feita de escolhas
• Manter uma relação afetuosa e colheitas. Assim, decida você... como e quanto você quer viver...(1).

• Aprender continuamente e procurar sempre aprender coisas novas POR QUE ESTAMOS FALANDO DE ENVELHECIMENTO E DE PESSOAS IDOSAS?
• Estimular a criatividade
Porque esse é o grupo etário que mais cresce em todo o mundo. Veja o gráfico
• Manter objetivos na vida a seguir que foi publicado pelas Nações Unidas em 2007, sobre o porcentual de
mudança da população mundial segundo grupos etários no período de 2005 a 2040 e
• Ter tempo para o ócio e para o lazer que comentamos na aula inaugural:
Por outro lado, continua o autor, o que pode diminuir nosso capital de saúde?(1)
• Ter uma vida desregrada e exposta a muitos riscos;
• Não adotar práticas promotoras de saúde ou perpetuar condutas que ten-
dem a exaurir o estoque de saúde;
• Fatalismo (o que tiver que ser será, coisas da idade);
• Crença de ser indestrutível;
• Desmotivação;
• Aposentadoria sem planejamento;
• Impulsividade e imediatismo (viver cada dia como se fosse o último). Fonte: United Nations, 2007

Assim, para evitar a ocorrência de doenças e garantirmos uma vida mais longa O que se pode notar nesse gráfico é que, todas as idades, juntas, crescerão,
devemos viver com equilíbrio e sensatez e investir em nossa saúde. nesse período de 35 anos (2005 a 2040), em torno de 35%; o grupo etário de 65 a 84
anos crescerá 164%, o de 85 a 99 anos, 301% e os centenários crescerão 746%. Você já
A saúde é um capital duradouro que tem como produto o tempo de vida saudável.

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Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

deve ter sentido essa mudança em seu local de trabalho. Você reparou se o número ... no Estado de São Paulo....:
de idosos que procura seu serviço aumentou nos últimos anos? E, ao andar pela rua,
utilizar transportes públicos, você notou se a proporção de pessoas idosas presentes
é cada vez mais frequente? Possivelmente sim. Os estudos mostram o que já está
acontecendo em nosso meio. O que precisamos é saber disso e nos preparar para
atuar nesse futuro, já presente, de forma competente.
O mais preocupante desse panorama mostrado pelas Nações Unidas é que, em
nosso meio, pouco sabemos sobre as necessidades e as respostas em saúde dos idosos
mais longevos (acima de 80 anos) e, como pudemos ver, esse é o grupo que mais
acentuadamente cresce, no mundo e, em nosso meio. Para ilustrar esse crescimento
veja a pirâmide feita pelo IBGE mostrando a projeção de crescimento dos idosos com
idade igual e superior a 80 anos em um período de 70 anos (1980 a 2050).
A pirâmide não está invertida, é isso mesmo que vai ocorrer. O volume de ...e no Município de São Paulo, onde residimos e trabalhamos:
pessoas desse grupo está crescendo de forma muito expressiva, o que você já deve
observar no seu dia a dia.

POPULAÇÃO IDOSA

Assim, em 2010, cerca de 11% da população brasileira já era idosa e, segunda


a Organização Mundial de Saúde, um país pode ser considerado estruturalmente
envelhecido quando o porcentual de idosos na população ultrapassa 7% o que torna o
envelhecimento uma questão de saúde pública e uma prioridade na atenção à saúde
Historicamente se utilizam pirâmides para representar a população onde, na no Brasil.
base (parte de baixo) ficam os mais jovens, que sempre foram em número maior
e, no topo, ficam os mais velhos. Quando um país começa a envelhecer, a base da Entre os Censos que são realizados a cada dez anos, são realizadas as PNADs
pirâmide vai ficando mais estreita, porque temos menos jovens na população e, o (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) onde são obtidas informações
topo, vai ficando mais alargado (mais pessoas idosas). Vejam as pirâmides do Brasil e importantes sobre a população brasileira. No Censo ocorre a contagem de toda a
de São Paulo segundo os dados do último Censo, em 2010. população brasileira, nas PNADs são utilizadas amostras. A PNAD é uma pesquisa
feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em uma amostra
No Brasil... de domicílios brasileiros que, por ter propósitos múltiplos, investiga diversas
características socioeconômicas da sociedade, como população, educação, trabalho,
rendimento, habitação, previdência social, migração, fecundidade, nupcialidade,
saúde, nutrição etc., entre outros temas que são incluídos na pesquisa de acordo
com as necessidades de informação para o Brasil. A pesquisa é feita em todas as
regiões do Brasil incluindo as áreas rurais de Rondônia, Acre, Roraima, Pará e Amapá
(excluídas até recentemente).
Segundo a PNAD realizada após o Censo, as pessoas com 60 anos e mais são,
hoje, 12,6% da população, ou 24,85 milhões de indivíduos, sendo a maior parte deles

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Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

mulheres (13,84 milhões) e vivendo em áreas urbanas (20,94 milhões). Podemos ver, ou seja, menos de uma geração. Embora isso pareça muito tempo, em termos de
assim, o crescimento contínuo da proporção de idosos na nossa população. história é praticamente nada. Não houve tempo para uma adaptação correta das
políticas públicas às novas demandas apresentadas por esse grupo. Enquanto ainda
Como já dissemos; isso é um fenômeno mundial. Estudo das Nações Unidas
temos de lidar com questões relacionadas à pobreza, às desigualdades, às doenças
mostrou que, no mundo, próximo ao ano de 2020 (portanto logo ali), teremos mais
transmissíveis (febre amarela, dengue, etc), à mortalidade infantil (que diminuiu
pessoas idosas que crianças no mundo (vejam o gráfico a seguir que mostra isso) sendo
muito, mas ainda ocorre); também precisamos lidar com as novas demandas como o
que isso NUNCA ocorreu na história da humanidade. Assim, estamos vivenciando um
aumento expressivo das doenças crônicas e suas sequelas incapacitantes que, muitas
fenômeno único!
vezes, são observadas entre as pessoas idosas aumentando a necessidade de cuidados
PORCENTAGEM DE CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO GLOBAL DE CRIANÇAS < DE 5 ANOS E DE de longa duração para o qual nosso sistema de saúde ainda não está preparado.
PESSOAS IDOSAS COM 65 ANOS E MAIS
Ao se falar em cuidados prolongados, necessariamente falamos da atuação da
enfermagem que deve estar apta para assumir tal função, pois faz parte de seu
escopo de trabalho.
Vejam o exemplo a seguir:
Uma pessoa idosa entra em um consultório ou na sala de atendimento de
enfermagem, qual é a primeira pergunta que é feita? Qual a primeira pergunta que
você faria? Seria algo como “qual é sua queixa”? ou “qual o seu problema”?
Se sim, admitimos que as pessoas procuram o serviço de saúde necessariamente
quando tem um problema ou uma queixa, não é? Onde fica a “promoção de saúde”
da qual tanto falamos?
Na verdade, ainda é assim que a maioria dos serviços se organiza. De um lado, os
serviços estão organizados para atender as queixas e, de outro, a população também
espera que seja assim. Isso funciona para doenças infecciosas, por exemplo. Assim,
E o que acontecerá no Brasil? O que o IBGE já sabe? quando eu apresento um quadro infeccioso, procuro o serviço, recebo o diagnóstico
e, associado a isso, provavelmente, também recebo uma prescrição de antibiótico
Vejamos o gráfico a seguir. Nele podemos observar que, no Brasil, por volta que, em 7, 10 ou 15 dias, resolverá meu problema.
de 2035, a nossa pirâmide populacional também inverterá, ou seja, teremos mais
pessoas idosas que crianças e jovens com idade inferior a 15 anos. Faltam apenas 20 Será que, para controlar a hipertensão ou o diabetes, funcionaria assim
anos para isso, será que estamos preparados? Quantos anos você vai ter em 2035? também? Claro que não! Isso exige acompanhamento contínuo, mudança de hábitos,
medicação continua etc. As doenças crônicas, por serem crônicas, nos acompanham
para o resto de nossas vidas e, por essa razão, exigem acompanhamento contínuo e,
outro tipo de organização de serviços que é o que trataremos mais para frente!

QUAIS SÃO AS IMPLICAÇÕES DESSE FENÔMENO PARA A ASSISTÊNCIA DE


ENFERMAGEM?

O cuidado da pessoa idosa compreende a avaliação de suas condições


funcionais e de saúde; diagnóstico, planejamento e implementação de serviços e
cuidados à saúde que atendam às necessidades identificadas dessa população além
da avaliação da efetividade de cada cuidado. Assim, para uma avaliação adequada
das necessidades de atenção à saúde das pessoas idosas, torna-se necessário o
conhecimento das principais alterações no organismo que ocorrem durante o processo
Fonte: IBGE de envelhecimento.
Diferentemente do que ocorreu nos países desenvolvidos que levaram cerca Nesse sentido, dois conceitos são fundamentais: Senescência e Senilidade.
de 300 anos para envelhecer, o processo de envelhecimento na América Latina
e Caribe, incluindo o Brasil, foi um fenômeno que ocorreu em torno de 40 anos, SENESCÊNCIA é o processo natural de envelhecimento ou o conjunto de
fenômenos associados a este processo. A senescência é um processo metabólico ativo

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Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

essencial para o envelhecimento. Tais alterações têm por característica principal a numa variedade de áreas tais como integridade física, qualidade da automanutenção,
diminuição progressiva de nossa RESERVA FUNCIONAL. Isto significa dizer que um qualidade no desempenho dos papéis, estado intelectual, atividades sociais, atitude
organismo envelhecido, em condições normais, poderá sobreviver adequadamente, em relação a si mesmo e ao seu estado emocional”. Para Granger, 1984 “é um método
porém, quando submetido a situações de estresse físico, emocional, etc; pode para descrever habilidades e atividades em ordem de mensurar o uso individual de
apresentar dificuldades em manter sua homeostase manifestando, assim, sobrecarga uma variedade de habilidades incluídas no desempenho de tarefas necessárias na
funcional, que pode culminar em processos patológicos. vida diária, nos compromissos vocacionais, nas interações sociais, nas atividades de
lazer, e outros comportamentos requeridos”.
Este conceito se opõe à SENILIDADE, também denominado envelhecimento
patológico, e que é entendido como os danos à saúde associados com o tempo, A avaliação funcional dos idosos é essencial para estabelecer um diagnóstico,
porém causados por doenças ou maus hábitos de saúde. Dessa forma, “velho senil” um prognóstico e um julgamento clínico adequado que servirão de base para as
significa uma pessoa idosa doente, pois senil não deve ser adjetivo associado à pessoa decisões sobre os tratamentos e cuidados necessários. É um parâmetro que,
simplesmente porque ela é velha. associado a outros indicadores como morbidade e mortalidade, pode ser utilizado
O conhecimento e a compreensão das alterações associadas ao processo de para determinar a eficácia e a eficiência das intervenções propostas.
envelhecimento são fundamentais para evitar dois grandes equívocos assistências Baseia-se no conceito de função, ou seja, a capacidade do indivíduo para
citados por Jacob Filho e Souza (1994)(2): adaptar-se aos problemas de todos os dias apesar de possuir uma incapacidade física,
1. sinais e sintomas próprios da senescência são equivocadamente atribuídos a mental ou social. Envolve aquelas atividades que são desenvolvidas diariamente e estão
doenças, determinando a realização de exames e tratamentos desnecessários. diretamente relacionadas ao autocuidado, ao cuidado de seu entorno e à participação
Nada mais é do que “diagnosticar” o envelhecimento como doença; social. São denominadas “atividades de vida diária” e estão subdivididas em:
a) ATIVIDADES INSTRUMENTAIS DE VIDA DIÁRIA - indicam a capacidade de um
2. todas as alterações encontradas em um idoso são erroneamente atribuídas
indivíduo em levar uma vida independente dentro da comunidade. Envolve
ao seu envelhecimento natural, impedindo a detecção de processos patológicos
as seguintes atividades: realizar compras, manipular medicamentos, utilizar
passíveis de tratamento e/ou cura.
transporte, utilizar telefone, realizar tarefas domésticas leves e pesadas,
Outro ponto fundamental a ser lembrado é que os sinais e sintomas clássicos preparar refeições quentes e administrar as próprias finanças. Quando
das doenças podem estar ausentes, obscurecidos ou serem atípicos nos idosos como comprometidas requerem uma reorganização familiar de forma a assistir
resultado de alterações nos sistemas orgânicos e nos mecanismos homeostáticos e adequadamente as necessidades da pessoa idosa e permitir que ela mantenha,
pela coexistência de condições agudas ou crônicas. pelo maior tempo possível, sua autonomia e independência.
Alguns exemplos: b) ATIVIDADES BÁSICAS DE VIDA DIÁRIA - envolvem as atividades de autocuidado
como alimentar-se, banhar-se, vestir-se, arrumar-se, mobilizar-se, manter
a) Um idoso com infecção do trato urinário ao invés de apresentar febre, disúria controle sobre suas eliminações, deambular. Quando comprometidas requerem,
ou urgência miccional, sintomas comumente encontrados nessas situações, pode necessariamente, a presença de um cuidador. Seu comprometimento implica
apresentar confusão mental, perda do apetite, fraqueza, tontura ou fadiga; em maior dependência das pessoas idosas e, portanto, maior necessidade de
b) Um idoso com pneumonia pode apresentar taquicardia, taquipnéia e assistência.
confusão mental no lugar de febre e tosse produtiva como encontrado, por A diminuição da capacidade funcional2 dos idosos tornando-os de alguma forma
exemplo, em crianças; dependentes de assistência, ainda não teve seus mecanismos determinantes finais
c) No caso de um infarto do miocárdio o idoso pode, ao invés da dor torácica, completamente estabelecidos. Ela pode representar o ponto final comum de muitas
tão característica, apresentar desconforto epigástrico, inquietação, confusão doenças ou um sinal precoce e sutil das mesmas.
e ausência de dor postergando a atuação emergencial que tal quadro exige. Ao se avaliar a capacidade funcional de um idoso verifica-se por um lado, as
Assim sendo, é fundamental na avaliação da pessoa idosa, a valorização de suas ações que o mesmo é capaz de realizar e de outro a presença de necessidade de
queixas e a investigação minuciosa de qualquer alteração mencionada. ajuda para realizá-las. Tais ações são avaliadas diretamente por meio da observação
de sua execução. É importante salientar que se deve diferenciar a execução da
Outro conceito fundamental que devemos guardar é FUNCIONALIDADE. ação (desempenho funcional), da capacidade em executá-la (capacidade funcional).
A avaliação da ajuda requerida para completar determinada ação é realizada pós-
Funcionalidade diz respeito aos níveis de “funcionamento” (função) de uma
determinação das ações que o idoso demonstra dificuldade ou incapacidade de realizar
pessoa em diferentes áreas. A funcionalidade de uma pessoa pode ser mensurada por
sozinho. Desta avaliação resulta uma classificação, onde o idoso aparecerá como:
meio da avaliação funcional.
Avaliação funcional foi definida por Lawton em 1971(3), como “uma tentativa
2
A capacidade funcional “indica a habilidade do paciente de desempenhar trabalho e é tradicional-
mente medida comparando o pico de capacidade de exercício do paciente com o pico esperado para
sistematizada de mensurar objetivamente os níveis nos quais uma pessoa funciona
sua idade e gênero”.

36 37
Módulo 1 Velhice e Envelhecimento Texto de Apoio Processo de Envelhecimento e Pessoa Idosa

a) dependente (em maior ou menor grau) ou assim como a administração seletiva das próprias energias e competências. Frente a
este quadro, o idoso pode reagir de forma a desconsiderar tais déficits, compensa-los
b) independente.
ou permitir-se ser dependente nos domínios em que ocorreram perdas, com o objetivo
É necessariamente o grau de dependência que determinará os tipos de de liberar energia para poder alcançar suas metas em outros domínios e atividades.
cuidados que vão ser necessários e como e por quem os mesmos poderão ser mais
Assim colocado, o problema fundamental da velhice parece ser, portanto, o
apropriadamente realizados.
que foi denominado por Motlis como “balança geronto-geriátrica” que consiste em
O que ocorre com nossa capacidade funcional dos indivíduos ao longo da vida? chegar a um equilíbrio entre as necessidades e as exigências mínimas dos idosos e os
interesses da coletividade. A velhice em si, continua o autor, não cria ou desenvolve
enfermidades; porém, nesta fase da vida, adquire características especiais. Esforços
devem ser desenvolvidos no sentido de obtenção de cura até onde for possível, de
reabilitação para readaptação dos idosos às suas atividades diárias de acordo com o
meio a que pertencem e da garantia de uma assistência digna às suas necessidades
até o momento de sua morte.

REFERÊNCIAS
As diferentes alterações nos múltiplos sistemas alteram a capacidade e
o desempenho funcional com o passar do tempo. Não se deve permitir que tais (1) Guimarães RM. Decida você: como e quanto quer viver. Brasília. Saúde e
mudanças passem o que é denominado “limiar da incapacidade”, ou seja, mesmo Letras, 2007
que o desempenho funcional das pessoas diminua com o passar dos anos, medidas
devem ser tomadas para evitar a instalação de quadros de incapacidade. (2) Jacob Filho W; Souza RR. Anatomia e fisiologia do envelhecimento. In: Carvalho
Filho ET; Papaléo Netto M. Geriatria: fundamentos, clínica e terapêutica. São Paulo,
A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, reeditada em outubro de 2006,
Atheneu, 1994.
colocou a capacidade funcional da população idosa como o grande paradigma para
organização dos serviços assistenciais conforme ilustrado a seguir. (3) Lawton MP. The functional assessment of elderly people. J.Am.Geriatr.Soc.
1971; 19:465-81.
Accioly MR; Vasconcelos ZP. Atitudes, mitos e estereótipos relacionados ao
Saúde da Pessoa Idosa Envelhecimento. In: Duarte YAO; Diogo MJD. Atendimento Domiciliário: um enfoque
gerontológico. São Paulo, Atheneu, 2000.
Linha de Cuidado
Couto MCPP; Koller SH; Novo R; Soares PS. Avaliação de discriminação contra idosos em
contexto brasileiro: ageismo. Psicologia: teoria e prática. 2009; 25(4):509-18.
Ações:
INTERSETORIALIDADE

Atenção Domiciliária Duarte YAO. Família: rede de suporte ou fator estressor. A ótica de idosos e cuidadores
Reabilitação familiares. São Paulo. Tese (Doutorado). Escola de Enfermagem. Universidade de São
FRÁGIL Prevenção secundária Paulo; 196p.
Ferreira-Alves J; Novo RF. Avaliação da discriminação social de pessoas idosas em
Ações:
Portugal. Int J Clin Health Psyschol. 2006; 6(1):65-77.
Promoção
Prevenção Freitas EV, Py L.(eds). Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro. Guanabara-
INDEPENDENTE Reabilitação Preventiva Koogan, 2011.
Atenção Básica
Suporte Social Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca.
Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Rio de Janeiro: EAD/ENSP, 2008.
Goldani AM. Desafios do “preconceito etário” no Brasil. Educ Soc. Campinas. 2010;
Dado o aumento nas perdas e incapacidades, os idosos poderão experimentar 31(111):411-34.
vdebilidades que necessitam ser compensadas e se possível, eliminadas ou evitadas. Koch Filho, HR et al. Envelhecimento humano e ancianismo: revisão. Rev Clin Pesq
Compensar perdas significa frequentemente, permitir que uns façam coisas para outros, Odontol. 2010; 6 (2):155-60.

38 39
MÓDULO II
Família e Envelhecimento

PARTE 1

Olá, no módulo
anterior conversamos sobre
o envelhecimento, sobre ser
idoso em nosso meio, sobre a
heterogeneidade desse processo.
Construímos uma definição, em
grupo, sobre o que compreendemos
como envelhecimento e a
comparamos com as opiniões de
pessoas idosas que assistimos
em nosso local de trabalho.
Possivelmente encontramos
opiniões semelhantes às nossas
e outras diferentes. Em grupo,
fizemos uma aproximação entre
esses conteúdos e, finalizamos o
módulo, com um conceito sobre envelhecimento e velhice que nos norteará daqui para
frente.
Iniciaremos agora o segundo módulo sobre Família e Envelhecimento.
Para o desenvolvimento desse módulo, proponho a seguinte dinâmica:
1. Individualmente vocês responderão, por escrito, algumas questões
relacionadas à família (atividade 1)
2. Em plenária, vocês conversarão sobre as respostas da atividade 1 e fecharão
um consenso (atividade 2)

41
MÓDULO II Família e Envelhecimento

3. Em seguida, o professor fará uma breve explanação sobre famílias, famílias


de idosos e o cuidado da pessoa idosa no Brasil de hoje. Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
4. Em pequenos grupos, vocês lerão o parágrafo 3 do Estatuto do idoso e,
Escola Municipal de Saúde
considerando o que foi apresentado anteriormente, farão uma discussão sobre
o tema a ser apresentado em plenária (atividade 3).
GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
5. Em plenária, conversar sobre a atividade 3 finalizando com uma discussão
À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
sobre o papel do profissional de saúde na atenção às famílias de pessoas idosas.
Módulo II
6. Atividade não presencial – leitura do texto de apoio. Atividade 1
Família e Envelhecimento

Aluno(a):..........................................................................................
Defina Família:

Você acha que todas as famílias são iguais? Justifique sua resposta pensando na sua
família, na família de seus amigos e nas famílias que você costuma atender no seu
serviço.

Quem é responsável pelo cuidado da pessoa idosa mais dependente?

42
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo II
Atividade 2
Família e Envelhecimento - Consenso em Plenária

Aluno(a):..........................................................................................
Defina Família:

Igualdade entre as famílias:

Responsável pelo cuidado da pessoa idosa mais dependente:


Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo II
Atividade 3
Família e Envelhecimento

Aluno(a):..........................................................................................

ESTATUTO DO IDOSO – Lei nº 10.741 de 1º de outubro de 2003

Art. 3º É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público


assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde,
à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania,
à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
(OBS: entenda-se como direito à saúde, o direito também a ser cuidado)
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

Inciso V – priorização do atendimento do idoso por sua família, em detrimento do


atendimento asilar, exceto dos que não a possuem ou careçam de condições de
manutenção da própria sobrevivência.
TEXTO DE APOIO

CONTEXTUALIZANDO
O IDOSO E SUA FAMÍLIA

Família é uma formação humana universal e ainda não foi descoberta outra
formação capaz de substituí-la. Ao se falar sobre este tema, muitas emoções,
pensamentos, lembranças e expectativas, por vezes contraditórias e, quase sempre
intensas, afloram em nossas mentes. Cada pessoa tem e terá ao logo de sua existência,
várias famílias (a de seus ancestrais, a de sua infância, a de sua adolescência, a de
sua vida adulta e a de sua velhice), assumindo características peculiares em cada
fase, mas mantendo sua função3 primordial, a de preservar a integridade física e
emocional de cada um de seus membros e do próprio grupo familiar, propiciando seu
desenvolvimento. Compreender sua organização e seu funcionamento4 pode auxiliar
nas intervenções junto a idosos e seus familiares.
O ser humano é um ser social e, assim, tem necessidade de viver vinculado
a outros, da mesma forma que busca o saber por sua intelectualidade e os valores
por sua espiritualidade. Assim, a sobrevivência do homem em grupos é inerente à
sua condição humana. Essa necessidade é traduzida pelo desejo de fazer parte,
sentir que integra algo e assim está protegido, acolhido e aceito. Isto é concretizado
por estruturas, agregações sociais ou redes de relações. Em diferentes culturas as
agregações sociais variam seu nível de organização e diferenciação.
As diferentes redes de relações podem ser denominadas de grupos primários
e grupos secundários. Os primeiros não são escolhidos pelas pessoas (o país onde
nasceu, o continente, o hemisfério, o momento histórico e a própria família de
origem – pais, avós, etc), o segundo é representado pelas opções do indivíduo (os
amigos, o clube, o partido político).
A família, antecessora ou formada pelo indivíduo ao se unir a outra pessoa, é
sempre um grupo primário. Segundo Rolla(1), “família é uma criação do ser humano em
resposta ao seu desejo de ter um grupo de pessoas que atuem sobre interesses comuns
e com um desenvolvimento afetivo, onde os afetos são recíprocos, buscando obter
3
Às famílias cabem as funções de proteção e socialização de seus membros em resposta frente à
sociedade na qual vivem. É no interior das famílias que os indivíduos aprendem a fazer parte de um
grupo e a se isolar dele desenvolvendo sua própria identidade (própria, mas que é influenciada pelo
sistema de valores desse grupo).
4
Para compreender uma família é necessário entender seu “funcionamento”. Este se baseia na com-
preensão da família como um sistema operando em contextos sociais específicos e é composto por três
componentes, a estrutura da família, seu estágio de desenvolvimento e sua capacidade de adaptação
às circunstâncias de forma a manter a continuidade e a intensificar o crescimento psicossocial de cada
membro familiar.

49
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

soluções para os problemas que ocorrem durante a vida”. A família é representada, comunicação, respeito e aceitação de todos. Todas as decisões devem ser harmônicas
assim, por uma rede de relações de parentesco cujo funcionamento depende da visando o bem dos indivíduos e do grupo como um conjunto. Nesse sistema também
forma como estas relações se organizam. ocorrem conflitos e confusões, mas existe uma predisposição para atendê-las. A
essência deste grupo é a aceitação do outro e a dinâmica na reciprocidade dos papéis.
Independentemente disso, todas as famílias passam por transformações no
decorrer do tempo conforme as pessoas se desenvolvem e se tornam maduras: Estamos tratando aqui de uma família “ideal”, com capacidade para,
efetivamente, prover e assistir às necessidades de seus membros.
1. A primeira mudança é observada nos jovens que buscam sua própria identidade
(identidade pessoal) e procuram sua diferenciação do grupo familiar (“ser um”). Há, no entanto grupos familiares, considerados imaturos que, geralmente, são
severos e rígidos, com funções estáticas e vínculos unidirecionais e imutáveis. Qualquer
2. Em seguida, esses jovens tendem a sair de suas casas e iniciar um relacionamento
mudança no papel ou na expectativa do papel de algum de seus membros ocasiona
comum com outra pessoa (“ser um” → “ser dois”). Essa convivência deve gerar
confusão e desestruturação do grupo familiar, pois nenhum dos membros familiares
a síntese de duas culturas familiares distintas (a de cada um isoladamente) que
deverão culminar na formação de uma terceira sem que haja a imposição das está pronto ou disposto a se adaptar a uma nova situação (p.ex: ser cuidador). A
anteriores, o que caracteriza a harmonia do casal e compõe a cultura familiar essência deste grupo é a rigidez que se exterioriza com uma estabilidade e harmonia
das gerações posteriores (filhos). aparentes, porém frágeis que se desfazem frente à necessidade de modificações em
sua estrutura para as quais não estão prontos a responder.
3. Depois virão os filhos (próprios ou não) (“ser dois” → “ser três ou mais”).
Para outros autores, a família é composta por uma rede de relações e não,
4. Em seguida, ocorre o crescimento dos filhos e o desenvolvimento de sua necessariamente, representada por um agrupamento de pessoas interligadas entre si
autonomia e independência (crise da adolescência). por laços sanguíneos. Trata-se apenas “de uma estrutura especificamente humana,
insubstituível, dentro da qual cada membro tem uma função repleta de sentido”.
5. A seguir virá a fase de saída dos filhos de casa, por casamento, trabalho/
estudo ou opção própria Essa fase traz transformações importantes como a Para compreender a família, é necessário entender seu esquema de
integração com outras famílias e o sentimento de “perda” do filho, o que funcionamento interno que opera dentro de contextos sociais específicos. Tal
gera a denominada “síndrome do ninho vazio”(“ser três ou mais”→ “ser dois” esquema possui basicamente três componentes:
novamente). O reencontro do casal.
a) Estrutura: a família é um sistema aberto, em transformação. A estrutura
6. A fase seguinte está relacionada aos netos, ao indivíduo se tornar avô/avó, familiar é o conjunto de exigências funcionais que estabelece a interação entre
7. A última fase é onde ocorre o falecimento de um dos integrantes do casal seus membros e um padrão de relações. Tais padrões regulam o comportamento
(“ser dois”→“ser um”) fazendo com que o indivíduo volte a reencontrar-se dos membros da família (o pai, a mãe, o casal,etc);
consigo mesmo e com sua individualidade. b) Desenvolvimento: a família passa por diferentes fases durante sua
Estas fases geralmente ocorrem na maioria das famílias. Há outras, no entanto existência (ciclo vital) que requerem de seus membros constantes adaptações.
que não ocorrem com todas as famílias e são consideradas acidentais, geralmente O desenvolvimento da família transcorre em etapas de complexidade crescente
imprevisíveis tais; como falecimento de um filho, aborto, esterilidade conjugal, com períodos de equilíbrio e adaptação e outros de desequilíbrio. Estas
mudanças bruscas no estilo de vida, etc. Em cada uma dessas fases, a família cumpre mudanças evolutivas geram pressões em seus membros ocasionando estresses
importantes papéis como assegurar o bem-estar afetivo e material e absorver o de acomodação (“crises”). Tais estresses, no entanto, são inerentes a estes
impacto das tensões provocadas por cada uma delas. processos de mudança e continuidade e não devem ser considerados patológicos.
O resultado é um salto para um estágio novo e mais complexo, onde novas
A dinâmica do sistema familiar nestas situações baseia-se na presença de um tarefas e habilidades serão desenvolvidas (ex: um casal que tem um filho; o avô
diálogo maior ou menor permitindo o amadurecimento da própria família onde que, por ter ficado viúvo, vem morar com a família exigindo a adaptação de
cada um de seus membros poderá desenvolver sua presença afetiva, efetiva, livre e todos).
responsável perante a vida sendo então transformados de indivíduos em pessoas e
passando a viver como tal. c) Adaptação: a família se adapta às circunstâncias de forma a manter sua
continuidade e intensificar o desenvolvimento psicossocial de seus membros.
A família é o lugar significativo e estável que proporciona o encontro harmônico A família deve ser capaz de se adaptar quando as circunstâncias mudam, sem
das pessoas onde podem descobrir e dar à sua presença e à sua participação um perder, no entanto, sua continuidade, que constitui um sistema de referência
sentido pleno, comprometido e responsável possibilitando assim o desenvolvimento para seus membros (um idoso que desenvolve uma demência e, não pode mais
de vínculos incondicionais. Esta família será mais estável e mais saudável à medida ficar sozinho e continua residindo na casa).
que seus membros forem capazes de harmonizar suas funções familiares com as
circunstâncias dos outros. Na intimidade de um grupo familiar desenvolvido e A palavra “família”, do latim famulus (=escravo, servente), representa, de
amadurecido as funções familiares são recíprocas, vivenciadas a partir da abertura, alguma forma, a dependência nata entre seus membros. Para Pintos a família é um

50 51
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

sistema que pretende (ou deve pretender) ajudar cada membro a desenvolver uma passam a ser compreendidos como “característica daquela família”. Suas regras
presença afetiva, responsável e livre no mundo. visam estabelecer e conter a dinâmica do grupo familiar, agindo de forma a fixar
os indivíduos em seu status atual. (P.ex: em uma reunião familiar, para não gerar
A família, nesse sentido, é entendida como um conglomerado de pessoas que, conflito, os filhos tendem a concordar com o pai ou mãe, mesmo que isso, não seja
em seu conjunto (e só nestas condições) formam um todo significativo a partir do sua vontade)
que é identificada e compreendida como família. Seus membros constituem “essa”
família e não outra. Este conjunto, no entanto, não é representado pela somatória A família está em constante processo de transformação e mudança que são
de seus membros individualmente e sim pela “multiplicação de individualidades”. Tal os responsáveis pelo desenvolvimento da capacidade de crescimento da mesma
conjunto sempre será o resultado de todos os seus elementos e, mesmo na ausência permitindo sua continuidade como um grupo. Neste movimento ocorrem diferentes
de algum deles, sua identidade continua presente, influenciando a identidade do tipos situações que ocasionam problemas temporários com reassentamentos
grupo. Isto faz com que cada membro da família possua um lugar significativo, não posteriores decorrentes de mecanismos de autorregulação ou autoequilíbrio
intercambiável, próprio e legítimo dentro de sua família. Segundo Minuchin, a família proporcionando assim um crescimento significativo do sistema. Assim, a família
é mais do que a biopsicodinâmica individual de seus membros. Estes se relacionam mantém um equilíbrio instável, pois está permanentemente em busca de um sentido
a partir de certos ajustes que são os responsáveis pela formação de um todo; a que a plenifique. A mudança é a norma, pois uma observação prolongada de qualquer
estrutura da família. A realidade desta estrutura é diferente da realidade de seus família mostraria grande flexibilidade, constante flutuação e provavelmente mais
membros individualmente. desequilíbrio que equilíbrio. Os períodos de desequilíbrio alternam-se com períodos
de equilíbrio mantendo assim a flutuação dentro de uma amplitude manejável.
Um bom exemplo para compreender isso é o almoço (ou jantar) de Natal, onde
todos se reúnem e, apesar das diferenças, comportam-se de forma homogênea, Os grupos familiares podem ser maduros ou imaturos conforme sua estruturação e
compreendida como certa por cada um, mesmo que, fora daquele contexto, sejam a capacidade de adaptação harmônica apresentada pelos mesmos frente às situações
pessoas completamente diferentes. apresentadas.

Dentro do sistema familiar, cada elemento possui algumas características: O envelhecimento representa um período de mudanças que requer adaptações
do próprio indivíduo que envelhece e de seu sistema familiar que igualmente
a) valor individual: representa o próprio indivíduo como um valor, envelhece. Os vínculos estabelecidos dentro deste sistema entre idoso e seus
b) papel de cada um: é o lugar ocupado por cada membro dentro do grupo membros familiares facilitarão ou não a passagem de ambos por esta etapa da vida. O
familiar de onde derivam suas responsabilidades e respostas familiares. Cada exercício da autonomia e independência desse idoso nesse contexto está diretamente
indivíduo pode ser compreendido como um subsistema dentro da família. relacionado com a função exercida por ele neste grupo e com os vínculos resultantes
Tais subsistemas podem ser formados por geração, sexo, interesse ou função. desta interação que podem ser instáveis ou estáveis, eficazes ou ineficazes de acordo
Um mesmo indivíduo pode pertencer a diferentes subsistemas com níveis de com sua estabilidade frente às demandas e suas respostas às mesmas.
poder e habilidades diferenciados. Na mesma família e, ao mesmo tempo, uma Os grupos familiares dos idosos podem ser didaticamente, subdivididos de
pessoa pode ser filha, esposa, mãe e avó. Cada um desses papéis tem exigências acordo com seu amadurecimento e funcionalidade:
próprias que serão cobradas.
a) grupos familiares maduros ou funcionais
c) expectativa do papel: são resultantes de cada papel assumido por seus
membros. As expectativas dos papéis são características intercambiáveis, ◦◦ o família normal5
não fixas e é este intercâmbio que fornece dinâmica e saúde ao grupo
b) grupos familiares imaturos ou disfuncionais
familiar. Há regras estabelecidas em cada grupo para cada individuo que
devem ser suficientemente nítidas, porém não rígidas, para que permitam o ◦◦ família tipo clã
desenvolvimento dos papéis de cada indivíduo dentro do sistema. Dos pais se
espera o sustento da família, dos filhos, que estudem etc. ◦◦ família superprotetora

Todo grupo familiar funciona a partir de regras próprias que visam organizar a ◦◦ família abandonadora
estrutura familiar e caracterizá-la. Um grupo familiar dito “flexível” organiza-se de ◦◦ família distante
forma dinâmica e volta-se para a realização individual e grupal.
Nos grupos maduros ou funcionais, a família responde aos conflitos e situações
Quando esta flexibilidade no intercâmbio de papéis não está presente diz-se
críticas com certa estabilidade emocional de forma a conseguir gerenciá-los a partir
que o sistema é “rígido” e para se manter, assume um modelo de equilíbrio familiar
de recursos próprios (conhecidos ou potenciais) e resolver o problema instalado de
que tem por objetivo proteger o sistema de sua desintegração. Para tanto há uma
forma adequada, ou seja, sem desestruturar o equilíbrio na dinâmica funcional da
redução do espaço pessoal (rigidez funcional) e uma rigidez do espaço integracional
(evitando o intercâmbio). Para sobreviver, muitas vezes é necessário suprimir as 5
“Normalidade” é aqui compreendida como a possibilidade de dar uma resposta

necessidades individuais e até negar a existência de conflitos importantes que flexível, dinâmica e efetiva diante dos diversos conflitos.

52 53
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

família, pois seus membros são capazes de harmonizar suas próprias funções em têmica. São rígidos e atuam em bloco, sem independência ou dinamismo.
relação aos outros de forma integrada, funcional e afetiva. Sua forma de comunicação é geralmente formal e unidirecional. Embora
os conflitos existam, eles permanecem latentes, pois não poderiam con-
Para serem consideradas funcionais, as famílias devem proteger a integridade
frontar ou expor o grupo. Frente à presença de demandas relacionadas ao
do grupo familiar como um todo e a autonomia funcional de suas partes onde cada
idoso, o clã poderá assumir diferentes posições conforme o papel ocupado
membro e cada subsistema devem negociar sua autonomia e sua interdependência
pelo idoso em questão. Se ele não for o líder do grupo, este tenderá a
mantendo intercâmbios flexíveis.
simplesmente obedecer às orientações do mesmo. No entanto, se o pro-
A família dita “normal” é aquela na qual seus membros são ao mesmo tempo blema estiver justamente com o líder, o grupo familiar entra em angústia
independentes e interdependentes, ou seja, são autônomos no que diz respeito às e sente-se ameaçado, pois sua força está no líder, agora debilitado. Nestas
questões pessoais, mas comprometidos em seus vínculos familiares de forma recíproca. circunstâncias, tendem a ocupar-se com a sobrevivência do grupo familiar
Envolve aceitação recíproca e positiva do outro, além de respeito, conhecimento, propriamente dito, essencial para sua própria sobrevivência e não são ca-
compreensão, responsabilidade e estabilidade emocional. Embora acolhedor e pazes de responder às demandas do idoso. Nessas circunstâncias ou outro
flexível, é um sistema firme, capaz de responder às demandas apresentadas de líder “herda” a função anteriormente exercida pelo idoso ou este, mes-
forma correta e adequada sem, no entanto, sobrecarregar excessivamente qualquer mo debilitado, continua respondendo pelo clã. Quando o líder desaparece
um de seus membros. Não se quer dizer aqui, que estas famílias são prontamente (morte ou séria incapacidade permanente), o grupo familiar tende a se
capazes de resolver todos os problemas existentes em suas relações e, neste caso, dispersar.
os relacionados a seus membros idosos. O que dizemos é que este grupo tem uma
real disponibilidade para fazê-lo, pois estão dispostos a contribuir e a somar esforços • Família abandonadora: São grupos que se voltam para os próprios inte-
e recursos na obtenção de soluções adequadas aos conflitos e necessidades de seus resses e atividades e portanto são incapazes de se relacionarem com os
membros utilizando ferramentas como flexibilidade, criatividade e compreensão outros membros da família de forma efetiva. Não contam com recursos
mútua. Constituem, para os profissionais, recursos estratégicos e terapêuticos, afetivos, efetivos e emocionais para atender as demandas do grupo fami-
fundamentais e integrados na assistência ao idoso, pois, na prática, são famílias liar. Acham que o idoso não é um problema seu e esperam que os outros
envolvidas, preocupadas na medida certa, colaborativas. assumam as questões relacionadas à ele e deem uma solução. São grupos
onde, na verdade, nunca foram desenvolvidos laços afetivos reais e de
Os grupos familiares imaturos ou disfuncionais são aqueles nos quais não há cuja construção o idoso participou.
um comprometimento com a dinâmica da família por parte de seus membros que
costumam priorizar seus interesses particulares em detrimento do grupo e não • Família distante: Difere da anterior por ter a tendência a intelectualizar
assumem seus papéis dentro do mesmo. Nestes grupos, geralmente, os vínculos a questão, sempre apresentando razões lógicas e argumentos válidos que
afetivos são superficiais e instáveis e existe um grau elevado de agressividade e justifiquem a não atenção às demandas do idoso. Estas famílias exterio-
hostilidade entre seus membros mesmo que não abertamente colocados. Raramente rizam certa serenidade que esconde os conflitos de tudo o que não é ma-
são capazes de resolver situações críticas como uma questão grupal e de forma nifestado ou sentido. Costumam exigir mais do que muitas vezes o idoso
adequada. Com frequência identificam o problema como responsabilidade única é capaz de oferecer, geralmente por uma inadequada interpretação do
do membro que o desencadeou, lido aqui como um “estorvo”. Como são incapazes papel ou da responsabilidade familiar frente a ele. Tendem ainda a exigir
de solucionar seus problemas de forma equilibrada, atribuem seu fracasso sobre que outros resolvam sua situação para que o grupo familiar volte à “nor-
um ou alguns de seus membros. Por não se adaptarem às situações novas ou malidade”.
readequarem seus papéis frente às mesmas, provocam a desarmonia do grupo
• Família superprotetora: São grupos que assumem uma posição de pro-
familiar que se expressa através de lacunas funcionais, sobreposição e/ou colisão
teção extrema deixando de ser efetivos para serem asfixiantes. São oni-
de papéis. Nas situações conflitivas enfrentadas nestes grupos envolvendo pessoas
presentes, vigilantes e com emoções exacerbadas. Privam seus membros
idosas, frequentemente é possível observar uma solução aparente onde, ou o idoso
da própria liberdade, responsabilidade e privacidade necessárias para to-
é separado do seu meio (institucionalizado ou isolado do grupo) que o considerada
marem suas próprias decisões. Os idosos dessas famílias são, geralmente,
gerador do problema ou, por outro lado, os outros membros da família se afastam
tratados como crianças a quem se deve vigiar e governar à vontade. Suas
para não se envolverem com a questão, uma vez que acreditam que a mesma não
atitudes tendem a desvalorizá-lo e inutilizá-lo colocando-o numa posição
lhes diz respeito diretamente. Podem ainda intensificar crises pessoais de forma
de menor participação dentro do grupo. Muitas vezes justificam sua ati-
a terem uma desculpa racional para se liberarem da necessidade de responder às
tude como sendo “o melhor para ele, pois terá uma velhice mais cômoda
demandas do grupo.
e prazerosa”. Além de anularem a capacidade de resposta do idoso (igno-
No que se refere à atenção ao idoso, dentro dos grupos familiares considerados rando sua autonomia), não respondem adequadamente quando solicitados
imaturos, as famílias podem ser alocadas em quatro grandes tipos: a resolverem as demandas reais do mesmo.
• Família tipo clã: São os grupos patriarcais ou matriarcais, ou seja, orga- Em qualquer uma destas famílias, ditas imaturas observa-se uma inadequação
nizam-se em torno de um de seus membros que representa uma figura to- adaptativa frente às demandas reais e/ou potenciais de seus membros idosos.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

Observa-se assim a necessidade cada vez mais premente de serem estabelecidos Em famílias de nível socioeconômico menos favorecido, há maior probabilidade
esquemas assistenciais mais efetivos e dinâmicos capazes de assistir as demandas de recebimento de auxílio familiar do que nas classes média e alta. Apesar destas
crescentes dos idosos e de suas famílias de forma a permitir que ambos encontrem, considerações, o número de idosos institucionalizados, no Brasil, é inferior a 1% da
conjuntamente, uma solução terapêutica mais efetiva e adequada em que o equilíbrio população idosa.
familiar seja a meta melhorando, assim, a assistência ao idoso e diminuindo os custos
Independente do volume de relações é a qualidade apresentada pelas mesmas
emocionais da própria família.
que parece ser mais significativa para os idosos. Isto é representado pelo potencial
de relação de ajuda existente na família e que concretamente é reconhecido pelo
A FAMÍLIA DO IDOSO idoso em caso de necessidade.

Quando se fala de família e idosos, devemos distinguir dois tipos de famílias: O segundo tipo, relação intergeracional, é representado pelos avós e netos. Este
a de procriação e a de orientação. A primeira é formada pela união de duas pessoas tipo de relação tem, nos dias de hoje, maior importância quantitativa. A quantidade
de sexos diferentes que darão origem a uma descendência comum. É muito comum de avós, cada vez mais presentes, em virtude do envelhecimento populacional,
nos dias de hoje os idosos chegarem a serem avós e bisavós de suas famílias de proporciona maiores oportunidades de relações. Disto advêm os chamados “conflitos
procriação. A segunda refere-se à família em que se nasce e onde normalmente se geracionais” que são decorrentes das rápidas mudanças sociais observadas nas últimas
décadas de onde surgiram objetivos, muitas vezes incompatíveis, entre as gerações.
convive até que se forme a própria família de procriação e na qual os avós e bisavós
Tais “conflitos” foram muito evidenciados pela mídia, em especial nas décadas de
correspondem às gerações mais velhas.
60 e 70, porém seus pressupostos não são necessariamente verdadeiros. A existência
É importante verificar as características das relações existentes entre os idosos de conflitos entre pais e filhos geralmente separados por vinte ou trinta anos não
e seus diferentes grupos familiares. Essas relações subdividem-se em intrageracionais se estende necessariamente aos avós e netos, separados por sessenta ou setenta
(entre iguais, ou seja, entre idosos) e intergeracionais (entre gerações diferentes). anos. O papel de avô é mais livre que o papel de pai ou de filho e a sociedade ainda
A primeira diz respeito às relações conjugais e fraternais (irmãos) e a segunda às não o delimitou especificamente. Algumas pesquisas demonstram que estas relações
relações entre pais e filhos e avós e netos. entre avós e netos podem ser muito gratificantes e significativas. Há, no entanto,
alguns estereótipos que traduzem o avô como um ser velho e limitado (já discutido
As relações conjugais representam a essência da relação familiar, pois são a partir anteriormente nesse curso).
delas que se iniciam as famílias considerando a existência dos filhos, responsáveis
por garantir as gerações descendentes. Estudos realizados por pesquisadores espanhóis têm demonstrado que os
fundamentos das relações positivas entre avós e netos baseiam-se na liberdade e
As relações fraternais recebem maior importância nos primeiros estágios de flexibilidade. Situam ainda os avós como âncoras situacionais, pois são capazes de
formação do indivíduo (infância e adolescência). Nesta fase há uma maior convivência transmitir às gerações mais jovens além da história social geral, a da própria família,
entre os irmãos propiciada pela convivência na própria família. Com o crescimento proporcionando-lhes assim referências sociais mais sólidas. Segundo Knobel(2), ser
dos mesmos e sua consequente saída dos lares (por casamento ou busca de uma adulto é aprender da experiência dos mais velhos, pois a vida não começa com cada
vida mais independente) esta convivência tende a diminuir em virtude de novas pessoa, é uma continuidade infinita, útil e muito grata. Reconhecer virtude e defeitos
responsabilidades e contatos assumidos externamente. Num terceiro momento, dos mais velhos é a forma de aproveitar a experiência e aprender e desta forma a
geralmente relacionado à fase madura e à velhice, tende a haver um reencontro contribuir para o engrandecimento moral que auxilia a humanidade a progredir.
entre irmãos para solucionarem problemas comuns como divisão de herança ou o
cuidado de pais doentes/dependentes. A interação com familiares colaterais (primos, tios, tias, sobrinhos) geralmente
depende da proximidade, preferência e disponibilidade geral da família nuclear.
Nos dias de hoje, no entanto, a maioria dos idosos apoia-se, quando necessário Frequentemente a família materna é emocionalmente mais íntima que a linhagem
e existente, em suas famílias de procriação e dadas às alterações que vêm ocorrendo paterna. Eles podem ser um recurso de reserva da família para reposição em seus
nestas estruturas, atenção especial deve ser dada a este aspecto. vazios ou perda de suas relações primárias, para solteiros ou idosos sem filhos.
As relações intergeracionais estão presentes nas famílias de procriação e, Idosos parecem frequentemente estar vinculados a um sobrinho ou sobrinha
dadas suas diferenças de papéis sociais, diferenciam-se das anteriores (famílias de favorita com quem compartilha e mantém alguma relação familiar e que, de alguma
orientação) pela presença de desigualdade de status entre as pessoas. forma, serve como um substituto para o filho que ele nunca teve. Familiares colaterais
distantes tornam-se importantes para alguns idosos quando eles buscam estabelecer
A primeira relação a ser citada é a existente entre pais e filhos. Esta relação
seu lugar na estrutura familiar e fluxo geracional.
possui dinâmica própria que caminha geralmente da dependência total para a
independência e posteriormente para a interdependência ou dependência total Os familiares são, portanto, a origem de grande parte do suporte material e
novamente como forma de compensação vital. Tais relações variam entre sexos e emocional através de gerações. As constantes mudanças quanto à suplementação
culturas (em especial quando comparamos oriente e ocidente). Geralmente cabe às e demandas entre eles ajudam a estabelecer uma sólida reciprocidade confortável
filhas o papel de cuidadoras de seus pais doentes e aos filhos a responsabilidade pela entre dar e receber. Também frequentemente pensa-se nos idosos unicamente como
tomada de decisões e apoio financeiro. O nível socioeconômico também interfere. receptores.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

Isto nem sempre é verdadeiro, pois com o aumento do número de idosos e É igualmente importante saber como as mudanças de sentimentos no contexto
os avanços relacionados com a promoção da saúde no envelhecimento e com as familiar afetam a saúde. É usualmente aceito que relacionamentos familiares são
intervenções assistenciais, verifica-se que, com frequência eles provêm suporte desejáveis para os idosos promoverem um senso de continuidade. A qualidade,
emocional e financeiro, cuidado para as crianças além de continuidade cultural e significado e importância das relações com os membros familiares são fatores
religiosa em muitas famílias. Em nosso meio, especificamente nas regiões Norte e significantes na manutenção da moral e satisfação de vida. O mais importante é que
Nordeste, os idosos são os responsáveis pelo sustento das famílias. cada membro da família seja aceito e compreendido como significante no sistema
Observa-se ainda, o aumento progressivo no número de idosos fragilizados, familiar.
com múltiplos problemas de saúde, sendo estes, em muitas ocasiões, cuidados por Até muito recentemente, a figura do denominado “cuidador” centrava-
outros idosos. Em São Paulo, por exemplo, cerca de 40% dos cuidadores de idosos se quase que exclusivamente nos elementos familiares que se disponibilizavam,
são igualmente idosos. Com a saída dos mais jovens das casas, as famílias de três ou voluntariamente ou por exclusiva ausência de outras opções, a atender as demandas
quatro gerações coabitantes tendem a diminuir. Mudanças na mortalidade, fertilidade emanadas por seus parentes idosos. Frente às diferentes demandas apresentadas,
e casamentos e a presença cada vez mais frequente de divórcios e famílias de estilo estes cuidadores, muitas vezes pertencentes às gerações mais novas, passavam então
alternativo afetam o balanço entre necessidades e a disponibilidade de auxílio real a atender aqueles que no passado lhes proporcionaram proteção, ajuda e cuidado.
existente entre os membros familiares.
Nos últimos 30 anos, muitos estudos e planos tem surgido sobre o histórico e
Algumas reflexões sobre as peculiaridades relacionadas às famílias que contam tolerante papel da família como cuidadora de seus membros idosos. Atualmente, nos
com membros idosos devem ser ressaltadas. EUA, as famílias provêm, 80 a 90% dos cuidados aos idosos residentes na comunidade.
Um primeiro dado a ser considerado é a maior sobrevida feminina (em torno Numericamente, 2,7 milhões de filhos respondem pelo cuidado de seus pais idosos
de oito anos) frente à masculina ocasionando assim a presença, na sociedade, de incapacitados, contudo, muitas esposas, quando existentes, assumem esta função.
um maior número de viúvas. Esta maior sobrevida, no entanto, não corresponde Isso também é observado em nosso meio.
necessariamente à melhor qualidade de vida. Litvak(3) ressalta que os problemas Historicamente o suporte familiar e o cuidado do idoso têm sido sempre
sociais, econômicos e de saúde dos idosos são, em grande parte, os das mulheres voluntário ou conjuntural, neste caso em decorrência da inexistência de outras
idosas, pois estas vivem mais que os homens e ao se tornarem viúvas, têm maior alternativas. Usualmente era esperado que um filho permanecesse na casa dos pais
dificuldade em contrair novo matrimônio. Alem disso geralmente apresentam menores quando eles envelhecessem. Filhos únicos e mulheres não casadas são, ainda hoje,
níveis de instrução e renda e maior frequência de queixas de saúde. Essas idosas, com particularmente vulneráveis a assumir esta função.
frequência passam a residir com um dos filhos (geralmente filhas) formando assim
grupos trigeracionais. Em muitos países, a prevalência de idosos residindo sozinhos é Quando um cuidador está disponível, a carga sobre ele pode ser muito significativa.
muito expressiva gerando a necessidade de uma reorganização social e assistencial. Esposas idosas frequentemente encontram-se disponíveis, mas, em muitas ocasiões,
Isso também vem sendo progressivamente observado em nosso meio. não são fisicamente capazes de atender a demanda constante de cuidados de seus
cônjuges. É importante que outras opções assistenciais sejam oferecidas às famílias
Há que ressaltar ainda, que a modificação que vem ocorrendo em nosso painel com o objetivo de adequar a assistência às necessidades existentes.
socioeconômico tem levado muitos filhos, em decorrência de questões financeiras, a
retornarem para a casa de seus pais, em geral acompanhados de suas novas famílias. A institucionalização do idoso pode ser decorrente da inexistência de serviços
De uma forma ou outra observamos em muitas famílias que as avós passam a contribuir suficientes, capazes de assistir as necessidades tanto dos idosos quanto de seus
de alguma forma no orçamento doméstico e no cuidado das gerações mais jovens membros familiares. Parece que a maioria das famílias assiste aos idosos pelo maior
uma vez que as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado produtivo. período de tempo e tão bem quanto possível, porém, quando a institucionalização
é necessária, os cuidadores alegam terem chegado ao fim de suas capacidades
Ângelo(4) ressalta que, ao se visualizar a história da humanidade, verifica-se que,
assistenciais. O planejamento programado para a manutenção da saúde dos cuidadores
tradicionalmente, as famílias eram responsáveis por prover o cuidado das crianças,
e das famílias dos idosos necessitados tem sido frequentemente negligenciado.
dos doentes, dos idosos mais debilitados ou muito longevos e nas situações de
morte. A participação das mulheres na provisão destes cuidados era predominante. Enquanto instituição social, a família é, segundo nossa Constituição, legalmente
Atualmente, no entanto, a família enquanto instituição social está passando por um reconhecida como responsável pelo provimento dos cuidados necessários a seus
processo de redefinição. A progressiva inserção da mulher no mercado de trabalho membros idosos (ver Estatuto do Idoso). Tal conceito é tão presente em nossa
retirou do seio familiar quem, até então, na maioria das vezes, era responsável sociedade que chega, muitas vezes, a ser inquestionável. Esta situação pode ser com
pela realização das atividades de cuidado referentes às crianças e aos idosos. Elas frequência observada nas práticas hospitalares ou ambulatoriais onde orientações
passaram, também, a chefiar muitas famílias. Tais fatores associados ao expressivo sobre cuidados são fornecidas a elementos familiares sem antes ser verificada a real
aumento do número de separações e às migrações vêm alterando o perfil de poder e de capacidade dessa família, enquanto unidade, ou deste familiar, enquanto cuidador,
tomada de decisões dentro das famílias que passam atualmente por uma construção em realmente executá-las ou mesmo em compreender o processo de transformação
de modelos alternativos. ocorrido na vida do idoso por quem agora é responsável.

58 59
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

Frente às transformações nas estruturas familiares, questionamentos quanto ao derivam deles mesmos isto é, as relações e reações familiares na velhice correspondem
impacto causado pela presença de idosos com limitações importantes na dinâmica à maneira como essas famílias se estruturaram funcionalmente.
de funcionamento das famílias bem como das consequências disto no equilíbrio da
É certo que, em algum momento da vida, os idosos acreditaram que suas famílias
estrutura familiar, passam a ser cada vez mais presentes. Supõe-se que, em condições de
seriam companheiras e forneceriam o suporte necessário em sua velhice e é quando
disfuncionalidade6, as famílias poderiam ter sua capacidade assistencial prejudicada
esta chega que os mesmos confirmarão ou não tais expectativas. Devemos compreender
e assim não conseguiriam prover adequadamente o atendimento sistemático das
então que a dinâmica do sistema familiar fica afetada com a alteração funcional de
necessidades de cuidados de seus parentes idosos. A capacidade de identificar
um de seus membros e necessita ser reacomodada bem como reacomodar o membro
estas demandas de forma adequada pode estar prejudicada e consequentemente
acometido. Isto, com certeza, demandará certo tempo e pode ser considerada uma
o reconhecimento de quais cuidados se fazem necessários e quem pode, mais
reação “normal” ou esperada. Por outro lado, quando esta “desacomodação” torna-
apropriadamente, realizá-los.
se crônica vivencia-se uma situação de disfuncionalidade familiar relacionada a
Em algum momento do ciclo vital da família, ela se deparará com a situação de seus vínculos onde a desacomodação do sistema afeta diretamente as possibilidades
ter de optar por alguma das seguintes alternativas: individuais de resolução da própria desacomodação e vice-versa (o idoso afeta o grupo
familiar e esse, também, afeta o idoso) fechando um ciclo que tende a se perpetuar.
a) incorporar o idoso à casa de algum dos filhos;
Neste contexto, admite-se a família como unidade de diagnóstico e terapêutico
b) institucionalizar o idoso; a partir do reconhecimento de que a doença surge no seio da mesma e é diretamente
c) deixar o idoso vivendo só; influenciada por sua organização e funcionamento. Enquanto grupo, é ainda
responsável pela origem da maioria das necessidades de seus membros.
d) disponibilizar alguém da própria família ou contratar outra pessoa para
cuidar do idoso. A ausência deste tipo de avaliação pode gerar consequências importantes (tais
como negligência e/ou maus tratos aos idosos fragilizados) e ainda, a completa
Soma-se a isto o fato de que o idoso não é, necessariamente, completamente desestruturação do equilíbrio familiar, o que em última análise diminui ainda mais a
incapaz de decidir sobre seu próprio destino. Ao contrário, desde que preservadas capacidade de assistência destinada ao idoso, fechando assim um ciclo que pode vir
suas funções cognitivas, é uma pessoa que manifesta ou pode manifestar suas próprias a tornar-se infindável.
expectativas frente à vida que lhe resta e tem o direito de fazê-lo (autonomia).
Em decorrência do desenvolvimento da ciência médica, o cuidar mudou de
Em certas circunstâncias o idoso acaba sendo o responsável por denunciar lugar, passando dos lares para as instituições e tendo por consequência o rompimento
uma problemática familiar existente previamente como a presença de conflitos ou do fluxo de conhecimento sobre as experiências assistenciais que passavam de uma
disfunções familiares. geração a outra. O cuidar foi fragmentado entre o domínio profissional e o não
profissional comprometendo, desta forma, a autonomia e a capacidade das famílias
A atuação junto ao idoso e seus familiares pode ser compreendida sob em assistir seus membros doentes. As instituições passaram a ser as responsáveis
diferentes aspectos. Num primeiro momento adotou-se uma atitude, denominada por prover este cuidado. A assistência à saúde em geral e a destinada aos idosos
“gerocentrismo” onde o idoso era o centro da atenção dos profissionais que o assistiam, em especial, vem sendo reformulada. Urge deslocar o olhar dos profissionais de um
geralmente baseados em interpretações biofisiológicas do envelhecimento. Não enfoque mais individual para um olhar mais ampliado incluindo a família como um
destacava ou enfatizava a realidade de que este idoso não viveu e nem vive de forma dos objetivos desta assistência.
isolada de seu grupo familiar e vice-versa. Estes são, sem dúvida, os pressupostos
do desenvolvimento psicoafetivo do idoso e de sua família. As intervenções visavam
unicamente o bem estar do idoso sem, necessariamente, procederem à análise do SAÚDE DA FAMÍLIA
conjunto tornando-se ineficazes. Infelizmente este modelo ainda se repete em muitos Segundo Elsen(5), o profissional de saúde enfrenta uma controvérsia ao cuidar
serviços em nosso meio. ou se propor a cuidar de famílias. Essa diz respeito à compreensão da existência
Num segundo momento, transferiram os esquemas de atuação já utilizados ou não de uma saúde familiar como entidade distinta da saúde dos indivíduos, ou
com crianças, adolescentes e até adultos para as famílias com idosos o que pode seja, a saúde da família não é a somatória da saúde dos indivíduos que a compõe, é
ser, também, comprometedor, pois, no caso dos primeiros, há uma expectativa de possuidora de um “estado de saúde” próprio, único e distinto.
papel já estabelecida e um papel ou lugar já determinado no contexto familiar. A Faz-se necessária uma definição operacional de família que, compartilhada
estrutura, na família dos idosos, é elaborada por si mesma e é a responsável pela com os outros elementos da equipe assistencial possa contribuir na objetivação de
dinâmica de funcionamento familiar instalado. Os idosos foram, na maioria das vezes, propostas de ações assistenciais efetivas e eficazes. Essa necessidade decorre do fato
os protagonistas das estruturas instaladas nesses grupos familiares e, agora, são os desta temática suscitar em cada profissional, (que também são pessoas) reflexões
beneficiários ou as vítimas da mesma. As relações e vinculações aí estabelecidas acerca de experiências pessoais carregadas de significados cognitivos e afetivos que
6
Uma família disfuncional é aquela que não cumpre suas funções de acordo com a etapa do ciclo resultam numa representação própria de família (real ou ideal) baseada em juízos,
vital que se encontra e em relação às demandas que ocorrem em seu entorno. opiniões, afetos, emoções e expectativas.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Contextualizando o Idoso e sua Família

Embora muitas sejam as definições existentes, optamos aqui, pela proposta de A disfunção familiar nas famílias com idosos pode ocorrer em decorrência do
Whall(6) para quem “família é um grupo autoidentificado de dois ou mais indivíduos histórico familiar ou em função de eventos mais recentes (divórcio, morte de um
cuja associação é caracterizada em termos especiais que pode ou não estar relacionado membro da família, aumento da dependência do idoso, doença no cuidador, etc).
a linhas de sangue ou legais, mas que funcionam de modo a se considerarem uma Quando da presença de disfunções familiares, as famílias dos idosos podem:
família”. Nesta definição destaque é dado aos componentes interação, compromisso
e afetividade como essenciais na compreensão e no desenvolvimento do trabalho a) serem menos capazes de atender as necessidades físicas, emocionais,
envolvendo famílias. socioeconômicas e espirituais de seus parentes;

Para Friedman(7) a saúde da família relaciona-se com o funcionamento e a b) serem muito rígidas em seus papéis, responsabilidades e opiniões;
adaptação familiar. A saúde de cada membro familiar individualmente afeta o c) serem incapazes ou apresentar má vontade para receber ou obter auxílio de
funcionamento da família da mesma forma que o funcionamento da família afeta outros;
os membros individualmente. Assim, a avaliação da saúde da família envolve
simultaneamente a avaliação dos membros familiares individualmente e da família d) apresentarem membros com psicopatologias ou distúrbios de conduta;
como um todo. e) serem inexperientes ou ineficazes no manejo das crises;
A família saudável se une por laços de afetividade exteriorizados por amor e f) serem ineficazes ou inapropriadas em sua comunicação e comportamentos
carinho, tem liberdade de expor sentimentos e dúvidas, compartilha crenças, valores
e conhecimentos. Aceita a individualidade de seus membros, possui capacidade de Compreende-se, assim, ser cada vez mais necessário; na assistência aos idosos,
conhecer e usufruir seus direitos, enfrenta crises, conflitos e contradições, pedindo a compreensão que esses estão inseridos num contexto familiar em um contínuo
e dando apoio a seus membros e às pessoas significativas. Atua conscientemente no processo de interação. A identificação e intervenção nas demandas isoladas dos
ambiente em que vive, interagindo dinamicamente com outras pessoas e famílias em idosos, sem considerar seu contexto familiar, podem mostrar-se ineficazes. Torna-se
diversos níveis de aproximação, transformando e sendo transformada. “Desenvolve- então, cada vez mais necessário, a existência de ferramentas que possam facilitar
se com experiência, construindo sua história de vida”. ou auxiliar os profissionais envolvidos na assistência aos idosos a ter uma visão mais
globalizada da situação ora apresentada. Para este fim, alguns instrumentos foram
Ângelo definiu saúde da família “como a capacidade plena de funcionar como desenvolvidos e vem se aperfeiçoando e, serão apresentados, na próxima aula.
um organismo vivo, refletida em sua capacidade de interagir, em comprometer-se
com as demandas do organismo família e em agir em seu benefício”. O conhecimento
da funcionalidade de uma família permite acessar sua dimensão saúde bem como REFERÊNCIAS
conhecer seus pontos vulneráveis permitindo aos profissionais direcionarem sua
assistência de forma a atingirem o seu conjunto. (1) Rolla EH. El ciclo de la vida de la familia. Atualidade Psicológica, , Buenos Aires;
1980; 54:12-14.
Parece consenso que função e funcionamento familiar estão de alguma
forma relacionados com a saúde da família. Quando falamos de famílias de idosos (2) Knobel M.Orientação familiar. Campinas, Papirus, 1992.
devemos lembrar que as funções da família tendem a se modificar para responder às
necessidades especiais dos mesmos que agora podem estar mais fragilizados. Estas (3) Litvak J. El envejecimiento de la población: un desafío que va más allá del año
modificações relacionam-se à garantia de satisfação das necessidades físicas e de 2000. Bol Of Sanit Panam. 1994; 109(1):1-5.
conforto além de prover suporte emocional ao idoso, manutenção de uma ligação (4) Ângelo M. Com a família em tempos difíceis: uma perspectiva de enfermagem.
entre a família e a comunidade, a instilação de um senso de significado de vida e o
São Paulo, 1997. Tese (Livre-Docência). Escola de Enfermagem. Universidade de São
manejo das crises. A dinâmica existente entre os membros familiares pode ter efeitos
Paulo.117p.
positivos ou negativos sobre seus membros idosos. Assim, a avaliação da unidade
familiar do idoso deve explorar alguns aspectos: (5) Elsen I. Desafios da enfermagem no cuidado de famílias. In: Bub LIR et.al. Marcos
a) Como cada membro da família se sente em relação ao idoso e vice-versa? para a prática de enfermagem com famílias.Florianópolis. Ed UFSC. 1994. (Série
Enfermagem REPENSUL). Cap.2. p-61-77
b) Como ocorre a comunicação e interação entre os membros familiares e o
idoso? (6) Whall AL. The family has the unit of care in nursing: a historical review. Public
Health Nursing. 1986; 3(4): 240-9.
c) Que atitudes, valores e crenças estão presentes nestas relações?
d) Que ligações existem entre a unidade familiar e seu entorno? (7) Friedman MM. Family nursing: theory and practice.3ª ed., Norwalk, Appleton-
Lange, 1992.
As relações entre os idosos e seus familiares são influenciadas pelas relações
que foram construídas durante toda uma vida e são significativamente importantes Duarte YAO. Família: rede de suporte ou fator estressor. A ótica de idosos e cuidadores
na construção de uma rede de suporte e na manutenção de uma família saudável nos familiares. Tese (Doutorado) – Escola de Enfermagem – Universidade de São Paulo.
anos mais tardios. 2001.

62 63
MÓDULO II Família e Envelhecimento

PARTE 2
Secretaria Municipal da Saúde
Na última aula nós pudemos discutir alguns tópicos relacionados à família. Coordenação de Gestão de Pessoas
Iniciamos com uma definição de família e uma conversa sobre as famílias que Escola Municipal de Saúde
conhecemos, com as quais convivemos e com as quais trabalhamos. Além disso,
conversamos sobre as mudanças que vem ocorrendo na estrutura das famílias e o GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
impacto de tais mudanças no cuidado de seus membros mais dependentes, incluindo,
À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
muitas vezes, pessoas idosas e, finalizamos, discutindo como o Estatuto do Idoso
Módulo II - Aula 2
aborda a questão da responsabilidade pelo cuidado à pessoa idosa.
Atividade 1
Como atividade não presencial, vocês devem ter lido o texto de apoio sobre Família e Envelhecimento
“famílias”. É sobre esse texto que vamos conversar agora, pois ele será a base de
nossas atividades no dia de hoje.
Aluno(a):..........................................................................................
Para o desenvolvimento dessa aula, proponho a seguinte dinâmica:
Faça uma síntese sobre:
1. Inicialmente, verificar se a atividade de leitura do texto foi realizada. Se
sim, passar para o passo seguinte, se não, dar 30’ para a leitura do texto em
sala de aula.
2. Em pequenos grupos, fazer uma síntese do que foi compreendido sobre
organização familiar (estrutura, desenvolvimento e adaptação) e funcionamento
familiar (grupos familiares funcionais ou maduros e grupos familiares
disfuncionais ou imaturos) exemplificando cada item. (atividade 1) a) Organização Familiar (estrutura, desenvolvimento e adaptação)

3. Em plenária, conversar sobre a atividade 1 explicitando as principais dúvidas


encontradas
4. Em seguida, o professor fará uma explanação sobre o texto de apoio onde
os alunos deverão participar esclarecendo suas dúvidas e exemplificando com
situações vivenciadas no seu dia a dia de trabalho.
5. Após finalizarmos essa conversa teremos mais claro em nossas mentes como b) Grupos familiares maduros ou funcionais:
as diferentes famílias se organizam e como funcionam. Agora, pensando no
contexto familiar e em nossa atuação profissional junto às famílias vamos, em
pequenos grupos, conversar sobre algumas crenças existentes, ora limitantes,
ora facilitadoras. (atividade 2)
6. Em plenária, sintetizar a discussão dos grupos a postura profissional para a
atuação com famílias.
7. Atividade não presencial - Vocês receberão texto de apoio sobre “Relação de
Ajuda” que deverá ser lido até a próxima aula onde será discutido.
c) Grupos familiares imaturos ou disfuncionais:

64
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo II - Aula 2
Atividade 1
Família e Envelhecimento - Crenças sobre as Famílias

Aluno(a):..........................................................................................

Discuta com seu grupo as consequências de cada crença colocada a seguir:

CRENÇAS LIMITADORAS:
• Uma “boa” família responde de maneira “certa”
• O profissional de saúde é um agente de mudanças e é o arquiteto da mu-
dança familiar
• Mudanças ocorrem mediante interação instrutiva
• O profissional de saúde deve ser capaz de responder a todas as questões
da família
CRENÇAS FACILITADORAS:
• A doença é um evento da família
• O profissional de saúde não é um agente de mudanças pois a mudança é
mútua e recíproca
• É decisivo criar um contexto para mudança: interação colaborativa
• Cada pessoa envolvida na experiência de doença pode ter uma perspecti-
va única sobre o que está acontecendo e deve acontecer
• O profissional de saúde desenvolve conversas terapêuticas e convites à
reflexão
Em plenária, vamos conversar, em conjunto, sobre as consequências de tais crenças
na organização de nosso trabalho junto às famílias.
TEXTO DE APOIO

CONSTRUINDO UMA
RELAÇÃO DE AJUDA

Uma “relação de ajuda” pode ser entendida como uma ligação profunda e
significativa entre a pessoa que ajuda e a que é ajudada, ligação essa que ultrapassa
as simples trocas funcionais mantendo um prisma de crescimento e evolução.
Relaciona-se à execução de atividades de cuidado que tem por princípio o respeito e a
liberdade, ou seja, tem por finalidade auxiliar a pessoa que é ajudada a restabelecer
e manter sua autonomia.
Neste contexto “cuidar” é compreendido como “ajudar a viver”. Este cuidado
pode ser interno ou externo, ou seja, posso ajudar a mim mesmo respondendo
pessoalmente pelos cuidados usuais (cuidar-se) ou, por outro lado, ser ajudado por
alguém integral ou parcialmente.
No transcorrer de sua existência o ser humano experiência diversas situações
de ajuda onde ora somos ajudados (cuidados), ora nos ajudamos (autocuidado) e ora
ajudamos (cuidamos) outras pessoas. Compreender isso nos remete a outro conceito,
o de “ajuda compartilhada” que envolve reciprocidade e solidariedade, onde todos
necessitam uns dos outros e, a troca relacionada ao cuidado prestado, não gera
sentimentos de dependência.
Aquele que se propõe a ajudar necessita ter adquirido experiência pessoal,
relacionada ao processo de viver, às diferentes etapas da vida e a diferentes relações
sociais a partir da convivência com diversos grupos de indivíduos. Nem sempre isto é
permitido a algumas pessoas, pois, às vezes, essas se vêem frente a situações de ter
de ajudar outros sem nem sequer terem ultrapassado algumas etapas da vida adulta
que lhes possibilitaria conjugar experiência e formação.
Esse texto foi elaborado com o propósito de suscitar reflexões e discussões
acerca do que se faz necessário para a construção de uma relação de ajuda, peça
fundamental no desenvolvimento, com qualidade, das atividades dos profissionais
de enfermagem. Os pressupostos colocados a seguir basearam-se nas considerações
de alguns autores sobre a construção de relações de ajuda (Carkhuff,1977; Lazure,
1994; Bérger, 1996; Miranda & Miranda, 1996).

PRIMEIROS PASSOS

A primeira consideração a ser feita é que os profissionais envolvidos com


atividades de ajuda devem desenvolver habilidades específicas. Embora sejam

69
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Construindo uma Relação de Ajuda

elementos fundamentais, interesse e a boa vontade não são suficientes isoladamente. envolvem (autonomia). Ao profissional cabe auxiliá-lo a descobrir ou redescobrir
Não basta também apenas “saber” ou “saber fazer” para o desenvolvimento de um essas capacidades e potencialidades redirecionando suas energias para um novo
“bom” cuidado. É necessário “saber-ser” para si mesmo e para a pessoa idosa a quem olhar sobre si mesmo que, frente às circunstâncias apresentadas pode não existir ou
se destina o seu olhar. estar muito deteriorado.
Devemos reconhecer que, em muitas ocasiões, ajudamos porque isto nos faz A principal ênfase da relação de ajuda é a dimensão afetiva do problema,
bem, porque nos sentimos especialmente lisonjeados quando sabemos que somos pois, muitas das desadaptações não ocorrem por falta de conhecimento, mas sim
responsáveis pelo bem estar de alguém ou porque utilizamos esses momentos para por insatisfações emocionais. A relação de ajuda busca auxiliar a pessoa idosa a
um fortalecimento próprio onde exercemos nosso “poder” sobre o outro porque nos compreender a si mesma, a fazer escolhas significativas de forma independente e
consideramos detentores do saber (e, portanto do poder) frente àqueles que nada a fazer com que suas relações pessoais sejam mais satisfatórias. A relação de ajuda
sabem e que necessitam de nosso auxílio. visa, sobretudo, a melhoria da autoestima, o alcance da autorrealização, a promoção
de conforto psicológico e o fornecimento do apoio necessário para que a pessoa idosa
Conhecer-se é fundamental. Compreender que muitas das dificuldades que seja capaz de se ver face a face com suas dificuldades existenciais.
sentimos para lidar com os problemas, medos e sofrimentos das pessoas idosas
ocorrem porque, talvez, tenhamos as mesmas dificuldades para lidar com os nossos Dessa forma a relação de ajuda visa auxiliar a pessoa idosa a:
próprios medos e com o nosso próprio sofrimento. a) ultrapassar uma situação-limite;
Conhecer-se não é fácil, pois geralmente nos coloca à frente de questões que b) resolver uma situação atual ou potencial;
não queremos ou gostamos de confrontar. Tememos sermos rejeitados, julgados,
cobrados, pegos em situações desfavoráveis, correr riscos ou falharmos e termos de c) encontrar um funcionamento pessoal mais satisfatório; aumentando sua
admitir essas falhas. Tememos, sobretudo, tomar consciência de nosso verdadeiro autoestima e sua segurança e diminuindo sua ansiedade ao mínimo;
“eu” e de descobrir ser necessário realizar mudanças em nossos comportamentos e
d) desenvolver atitudes positivas frente às suas (in) capacidades;
em nossas vidas.
e) melhorar sua capacidade de comunicação e sua relação com os outros;
Somente a partir deste conhecimento pessoal, podemos nos mover no sentido de
compreender o outro e, daí, tentar estabelecer uma relação de ajuda. É necessário f) identificar um sentido para sua existência.
compreender que ajudar é “dar de si” pois envolve doação (de tempo, competência,
saber, interesse), capacidade de escuta e compreensão. g) manter um ambiente estimulante no que se refere aos níveis biopsicossocial.

Situações de emergência que possam por em risco a vida da pessoa idosa e Para se desenvolver uma relação de ajuda algumas capacidades são necessárias
mesmo as situações de substituição, onde o profissional faz pelo idoso o que ele está ao profissional:
temporária ou permanentemente incapacitado para realizar são exemplos de ações
que não estão em conformidade com a definição e com as finalidades da relação de • Ser preciso e objetivo no que lhe diz respeito e no que diz respeito aos
ajuda. outros;

Nas relações de ajuda os profissionais auxiliam as pessoas idosas a enfrentar e • Ser capaz de respeitar-se e de respeitar aos outros;
superar uma situação de crise com os recursos que as mesmas dispõem. Tais situações • Ser congruente consigo mesmo e com a pessoa de quem cuida;
manifestam-se de diferentes maneiras, mais ou menos explícitas e/ou penosas. A
capacidade e o limite de cada idoso, é inerente ao mesmo e foram construídos frente • Ser empático;
às suas experiências pessoais; cabendo ao profissional a habilidade em identifica-las,
Assim, o profissional deve: reconhecer seus valores pessoais; ser capaz de
reconhecê-las e valorizá-las.
analisar suas próprias emoções; estar apto a servir de modelo e a influenciar outros;
Muito embora toda relação de ajuda envolva comunicação nem toda comunicação ser altruísta; desenvolver um alto senso de responsabilidade em relação a si mesmo e
é, necessariamente uma relação de ajuda. Quando o profissional pergunta à pessoa aos outros; ser ético. Essas características auxiliarão a formação de interações mais
idosa sobre dados precisos (quantas vezes urinou no dia, que medicações costuma abertas e significativas com os idosos e seus familiares, mantendo atitudes positivas
tomar, etc) ela vai lhe dar uma resposta precisa (desde que tenha capacidade de visando o alcance da autonomia em vez do controle.
ouvir e compreender). Nesse caso, as informações estão apenas circulando.
Para o estabelecimento de uma relação de ajuda é necessária uma definição
A segunda consideração a ser feita é a compreensão de que, em uma relação de clara dos objetivos das duas partes envolvidas – profissional e pessoa idosa.
ajuda, o idoso é o principal detentor dos recursos para a resolução das dificuldades Cabe ao profissional:
ou necessidades apresentadas. O estabelecimento de uma relação de ajuda
possibilita a ele identificar, sentir, saber, escolher e decidir sobre as ações que o • identificar claramente os problemas vivenciados pelo idoso;

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Construindo uma Relação de Ajuda

• estabelecer conjuntamente com idoso/ família objetivos concretos e per- O silêncio pode traduzir a intensidade da procura da resposta considerando tudo
tinentes; que a precedeu; pode significar o medo ou o sofrimento que impedem a elaboração
de palavras ou ao contrário uma alegria tão intensa que também não pode ser
• avaliar juntamente com o idoso suas capacidades e suas limitações;
traduzida por palavras. É a escuta do silêncio que exige a presença mais intensa
• auxiliá-lo na escolha dos meios para ajudá-lo a atingir seus objetivos le- e mais verdadeira do profissional, pois isso pode levá-lo ao encontro real do que o
vando em consideração seu sistema de valores. outro vive de mais profundo.
• Cabe à pessoa idosa/família: Silêncio não é sinônimo de vazio nem ausência de relação; costuma ser rico em
significado. Para ser traduzido e transformado em instrumento de ajuda, deve ser
• participar ativamente na definição dos objetivos;
compreendido, respeitado, acolhido e nunca, prematuramente interrompido.
• trabalhar um elemento de cada vez;
Escutar não é memorizar as palavras emitidas pelo idoso, é compreendê-lo,
• iniciar pelo problema atual ou o mais relevante. ver, apreender e sentir o contexto e os sentimentos relacionados com o conteúdo
das mensagens emitidas.Exige grande empenho, vigilância sensorial, intelectual e
emocional, o que consome muita energia e requer preparo e amadurecimento. O
CARACTERÍSTICAS NECESSÁRIAS PARA CONSTRUIR UMA RELAÇÃO profissional que realmente escuta o idoso reflete atentamente sobre o significado de
DE AJUDA suas mensagens (verbais e não verbais) buscando o estabelecimento de intervenções
apropriadas às necessidades identificadas.

CAPACIDADE DE ESCUTA ESCUTAS QUE NÃO AJUDAM


Escutar não é sinônimo de ouvir. Escutar é constatar através do estímulo do • Escuta inadequada: O profissional está mais atento às próprias reflexões
sistema auditivo; é um processo ativo e voluntário onde o indivíduo é impregnado que as do idoso, está distraído, tem “pressa” em responder ao idoso ou
pelo conjunto de suas percepções externas e internas. Na relação de ajuda, escutar identifica a situação descrita como familiar fazendo um processo de trans-
representa um instrumento para compreender a pessoa idosa de forma a poder ferência;
identificar, com precisão, as intervenções necessárias. Ao escutar a pessoa idosa o
profissional pretende: • Escuta apreciativa: O profissional utiliza algum juízo de valor durante a es-
cuta. Embora normal, essa atitude pode ser nociva. Para evitá-la o profissio-
• mostrar-lhe sua importância; nal necessita desenvolver a habilidade de aceitar o idoso e objetivamente
• permitir que o idoso identifique suas emoções; escutá-lo.

• auxiliá-lo na identificação de suas necessidades e na elaboração de um • Escuta filtrada: Relaciona-se à nossa defesa pessoal, ou seja, selecionamos
planejamento objetivo e eficaz para atendê-las. inconscientemente o que permitimos ou não entrar em contato conosco e
criamos barreiras que, mesmo involuntariamente, deformam nossa capa-
• Para se escutar eficazmente o profissional deve: cidade de escutar. Isso pode ser evitado a partir do desenvolvimento de
um profundo autoconhecimento.
• desejar estabelecer uma relação mais estreita com o idoso/família;
• Escuta compassiva: Relaciona-se ao sentimento de compaixão desenvolvi-
• escolher um local calmo que propicie a escuta;
do pelo profissional em relação ao idoso a quem assiste. Tal atitude pode
• manter-se a uma distância confortável do idoso, mas que permita boa vi- deturpar a percepção dos fatos gerando atitudes inadequadas.
sualização de ambos os lados
• procurar compreender não só a linguagem verbal, mas principalmente a CAPACIDADE DE CLARIFICAR
não verbal do idoso/família;
Clarificar significa tornar claro, limpo ou puro. Na relação de ajuda significa
• evitar julgamentos baseados em valores pessoais; ser capaz de delimitar mais precisamente o problema e os envolvidos, de maneira
concreta e realista. Para tanto o profissional deve ser capaz de auxiliar o idoso a
• reformular juntamente com o idoso/família o que o mesmo referiu vali-
dando sua compreensão; refletir sobre seus problemas descrevendo-os em toda sua extensão, intensidade
e complexidade. Após escutá-lo, deve repetir com suas palavras a mesma questão
• respeitar, compreender e interpretar o silêncio da pessoa idosa. permitindo assim sua reinterpretação.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Construindo uma Relação de Ajuda

As perguntas “quem, o que, onde, como e por que razão?” auxiliam na clarificação, • Dedicar-se inteiramente a ele quando da execução de algum cuidado pro-
enquanto o uso do “por que?” indiscriminado pode despertar no idoso a necessidade de curando não se distrair com outros estímulos e evitando interrupções;
se justificar, geralmente defendendo-se. Cada pergunta deve ter por objetivo auxiliar
o idoso a perceber com maior clareza o problema ou as suas soluções. • Evitar demonstrar compaixão. A piedade não é sinal de respeito e nem não
ajuda, sobretudo aos idosos;
A utilização de generalizações, abstrações ou termos imprecisos pode estar
relacionada ao medo de enfrentar o problema. Assim fazendo ele (o problema) se • Mostrar-se confiante do potencial e nas capacidades do idoso valorizando-
torna maior e consequentemente menos delimitado. O profissional que quer ajudar -as de forma construtiva e realista;
não deve utilizar uma linguagem intelectual, abstrata, impessoal e/ou vaga, pois isso • Demonstrar apoio afetivo;
não auxilia a pessoa idosa a clarificar e precisar seu pensamento.
• Respeitar a intimidade do idoso e a confidencialidade da conversa somen-
te partilhando informações com sua prévia autorização;
CAPACIDADE DE SE AUTORESPEITAR E DE RESPEITAR O IDOSO
• Aguardar as respostas e as decisões da pessoa que podem estar mais len-
O respeito é uma necessidade humana, é uma qualidade, um valor, uma atitude tificadas, não apressá-lo;
básica expressada pelo comportamento. Respeitar alguém significa acreditar em sua
unicidade, em sua capacidade de viver de forma satisfatória. Respeitar-se significa • Planejar conjuntamente com o idoso as atividades de cuidado a serem
ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros e respeitar idoso significa comunicar- desenvolvidas perguntando sua opinião e buscando atendê-las.
lhe que tentamos compreendê-lo como pessoa, sua experiência, seus valores e a O respeito na relação de ajuda permite auxiliar na elevação da autoestima e
situação que está vivenciando a partir do seu ponto de vista. Significa ainda identificar do autoconceito que, em muitos idosos mais dependentes, podem estar rebaixados.
suas capacidades e seu potencial remanescente e auxiliá-lo a reconhecê-los e utilizá-
los para lidar com essas situações permitindo-lhe o resgate da máxima autonomia
possível. Será o idoso, no entanto, que decidirá utilizá-la ou não, ou seja, a decisão OBSTÁCULOS AO RESPEITO
final é dele e respeitá-lo significa compreender e aceitar essa decisão mesmo que ela
a) comportamentos punitivos e reprovadores;
não corresponda a expectativa do profissional.
b) juízos de valor;
O respeito se manifesta por meio de atitudes e comportamentos, ativos ou
passivos. Estar com o idoso, querer ajudá-lo e preocupar-se com seu bem estar; c) utilização de frases feitas (despersonalização da relação);
considerá-lo como ser único, independentemente de suas doenças ou limitações;
acreditar que ele é capaz de decidir sobre seu próprio destino e acreditar em sua boa d) escuta falsa, não centrada no idoso;
vontade são exemplos de atitudes que envolvem respeito. e) linguagem infantilizante (muito frequente no tratamento com idosos);
Os comportamentos expressam o significado e o valor do idoso para com o f) negação da experiência e das emoções do idoso;
profissional e sua vontade em trabalhar com ele. Ser capaz de estabelecer uma
relação que envolva escuta e presença física atenta; aceitá-lo incondicionalmente g) não valorização das capacidades do idoso.
evitando juízos críticos; expressar a empatia; demonstrar afeto e cordialidade;
auxiliá-lo a desenvolver seus recursos pessoais encorajando-o, motivando-o e CAPACIDADE DE SER CONGRUENTE
apoiando-o e não agindo por ele; manifestar compreensão e dedicação são exemplos
de comportamentos respeitosos. Congruência significa harmonia, coerência de algo com o fim a que se destina.
Enumeramos a seguir alguns exemplos de como o profissional pode demonstrar A congruência permite ao idoso a existência de concordância entre seu ser e sua
respeito pelo idoso: experiência e sua expressão em seu comportamento. É, em outras palavras, a
capacidade de ser autêntico. A pessoa que não possui esta capacidade separa-se de
• Mostrar que o aprecia como pessoa respeitando sua idade e sua persona- seu verdadeiro “eu” reduzindo sua identidade aos papéis que desempenha. Pode
lidade; assim, sentir-se insatisfeito e dividido.
• Não utilizar linguagem infantilizada ou demasiadamente familiar; A autenticidade do cuidador pode se manifestar por sua espontaneidade;
valorização do seu papel; coerência e capacidade em compartilhar experiências.
• Chamá-lo pelo nome (nome próprio ou apelido, desde que tenha autoriza-
ção para tanto) e tratá-lo por senhor ou senhora; Sete são os obstáculos à autenticidade:
• Cumprimentá-lo ao chegar e sempre que ele entrar no recinto em que o • Atitude defensiva, evitando impasses e auxiliando na elaboração das críti-
profissional está; cas que venha a receber;

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Construindo uma Relação de Ajuda

Só assim o profissional será capaz de identificar e compreender verdadeiramente • Censurá-lo, adverti-lo de forma contundente (representa uma afirmação
o conteúdo das mensagens da pessoa idosa, pois estará em posição de ver o mundo da incapacidade do idoso em discernir entre o certo e o errado, entre o
sob o mesmo prisma que o idoso vê. bem e o mal, o colocando como incapaz de resolver seus problemas);
A empatia pode ser desenvolvida pelo interesse pelo idoso; pelo conhecimento do • Dar soluções (não permite ao idoso refletir sobre seu problema e sua po-
comportamento humano; por uma personalidade afetuosa e flexível; pela capacidade tencialidade de ação);
de generalizações relativas às experiências de vida; pela capacidade para tolerar e • Argumentar logicamente (“O problema voltou obviamente porque o se-
utilizar o silêncio na relação; por semelhanças de experiências e vivências; pela nhor não seguiu as orientações que dei...”), pois pode colocar o idoso
disponibilidade e escuta atenta; pela tolerância ao estresse; por experiências de em uma situação desconfortável, fazendo-o sentir-se um tolo, incapaz de
vida variadas propiciando maior flexibilidade e espontaneidade; pela autoafirmação; seguir recomendações;
pelo uso de linguagem apropriada e pela capacidade de compreender a linguagem
simbólica utilizada pelo idoso. • Julgar e criticar (utilizando o próprio sistema de valores), pois pode levar
o idoso a não mais confiar no profissional pois não se sente compreendido
A empatia por si só não soluciona os problemas dos idosos como se fosse um pelo mesmo;
passe de mágica; constitui-se em um meio para fazer com que ele não se sinta • Aprovar, lisonjear (“Desta vez, tomou a decisão correta...”). Isto pode
solitário frente a eles. Sentindo-se realmente compreendido por alguém que consegue desenvolver no cliente o receio de não ser aprovado em outras situações
entender a dimensão que estes tomam em sua vida, sente-se mais confortável e pelo julgamento do profissional e, caso se arrependa da decisão tomada
assim, pode canalizar sua energia na resolução dos mesmos com apoio do profissional não se sentirá confortável em compartilhar tal sentimento com o mesmo;
com quem mantém uma relação de ajuda.
• Analisar e interpretar (“Cada vez que o senhor quer a atenção de seus fi-
lhos, comporta-se como se estivesse muito doente...”). Se a interpretação
CAPACIDADE DE CONFRONTAÇÃO for verdadeira o idoso pode se sentir “apanhado” o que pode ser insusten-
tável e, se não, pode sentir-se acusado ou incompreendido;
Confrontar significa colocar frente a frente, defrontar, comparar; não envolve
disputa como na palavra afrontar. A confrontação origina-se na empatia e respeito ao • Consolá-lo (“Não se preocupe, isso vai passar...”). O idoso pode sentir que
idoso e é uma manifestação suplementar à congruência do profissional. A confrontação, o profissional minimiza a importância de seu problema e, portanto não
permite ao idoso estabelecer um contato mais profundo com o seu interior com haverá solução para o mesmo;
aquilo que ele realmente é, com suas forças e seus recursos assim como com suas • Fazer muitas perguntas fechadas (onde? Quando? Como? Por que?). O idoso
fraquezas e comportamentos prejudiciais. Na relação de ajuda a confrontação só pode sentir-se interrogado;
deve ser utilizada quando existe entre profissional e cliente um verdadeiro clima de
confiança. Sua utilização requer uma avaliação acurada do estado geral do idoso por • Gracejar. O gracejo muitas vezes é colocado para minimizar uma situação
parte do profissional que pretende utilizá-la. muito tensa criando um clima mais agradável. Porém sua utilização deve
ser muito bem estudada pelo profissional, pois sua inadequação pode levar
A confrontação exige habilidade e tato. Confronta-se com o comportamento o idoso a pensar que o profissional não leva a sério seu problema ou suas
e não com o idoso. Envolve a descrição desses comportamentos sem emissão de necessidades ou ainda que não o respeita;
julgamentos pois isso, nesse momento, poderia representar uma demonstração de
• Ridicularizar (“Assim o senhor está agindo como uma criancinha...”). Pode
desrespeito, levando a pessoa idosa a assumir uma postura defensiva. Por outro lado,
levar o idoso a se sentir desvalorizado ou desrespeitado e pode, ainda,
nem sempre a confrontação é reconhecida como um instrumento de ajuda pelo idoso.
gerar respostas agressivas.
Caso ele resista a esta forma de intervenção convém não insistir, aguardando uma
ocasião mais oportuna para fazê-lo. A relação de ajuda, quando adequadamente estabelecida, permitirá ao idoso
e a seus familiares a identificação de recursos próprios disponíveis para superar os
problemas que estão vivenciando, fortalecendo-os para situações futuras. Este tipo
QUANDO A RELAÇÃO NÃO É DE AJUDA? de intervenção está diretamente associado à qualidade do cuidado prestado uma vez
Muitas vezes os profissionais querem estabelecer uma relação de ajuda adequada, que procura auxiliar o idoso em todas as suas dimensões de ser humano.
mas se frustram com seus resultados. Listaremos a seguir algumas intervenções “CUIDAR É AJUDAR”
que costumam ser muito utilizadas, mas que, normalmente, não respondem às
necessidades de ajuda dos indivíduos.
REFERÊNCIAS
• Dar ordens sem avaliar o contexto que envolve as situações (pode levar
o idoso a ter de negar suas emoções traduzidas por seu comportamento); Berger L. A relação de ajuda em gerontologia. In: Berger L; Mailloux-Poiriér D. Pessoas
idosas. Lusodidacta, Lisboa, 1995.
• Fazer ameaças (“se não cumprir as orientações, não viremos mais visi-
tá  lo...”). Geralmente este comportamento acrescenta mais um elemen- Duarte YAO. Manual dos formadores de cuidadores de pessoas idosas. São Paulo. Secretaria
to, o medo, à problemática apresentada pelo idoso; de Assistência e Desenvolvimento Social. Fundação Padre Anchieta, 2009. Cap 2.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio Construindo uma Relação de Ajuda

PARTE 3 devemos compreender as famílias e tentar auxiliá-las segundo seu próprio sistema
de valores.

Essa é nossa última aula desse módulo. Para o seu desenvolvimento, proponho Assim, é parte de nossas atribuições, ajudar as famílias a se organizarem para
a seguinte dinâmica: poderem cuidar melhor de seus membros mais necessitados. Isso só será possível se
tentarmos compreendê-la. Compreender como se organizam, em que acreditam,
7. Inicialmente, faremos algumas considerações sintetizando o que discutimos como funcionam. Isso pode ser muito diferente daquilo que costumamos conviver no
nas duas aulas anteriores, focando o que apreendemos para nossa atuação nosso dia-a-dia com as nossas famílias.
profissional junto às famílias de pessoas idosas. Individualmente vamos ler essas
considerações e, em seguida, desenvolver a atividade 1. Atuaremos com famílias onde todos ou, pelo menos, a maioria dos membros
tendem a se organizar para resolver uma situação que demanda mais atenção (p.ex:
8. Em pequenos grupos, fazer uma síntese da atividade 1 uma doença inesperada). Isso pode não ocorrer de maneira tranquila, eles poderão
discutir, se desentender, mas, no final, eles se organizarão e darão conta de assistir
9. Em plenária, conversar sobre a atividade 1 buscando compreender as
seu membro mais necessitado sem sobrecarregar outros membros e sem desestruturar
diferenças entre os grupos.
a família.
10. Em seguida, começaremos a conversar sobre “cuidadores”. Para isso,
Essas famílias são aquelas que “nos ajudam”, ou seja, com as quais contamos,
inicialmente, individualmente, vamos desenvolver a atividade 2. Essa atividade
as que podemos orientar e acompanhar, pois logo vemos que, de alguma forma, elas
deverá ser entregue ao professor.
estão abertas a receber orientações, são flexíveis para realizar mudanças necessárias
11. Em seguida, em uma roda de conversa com o professor, conversaremos e estão dispostas a se adaptar à nova situação apresentada.
sobre a atividade 2 e sobre a questão dos cuidadores atualmente.
Por outro lado, também atuaremos com famílias muito difíceis, que não aceitam
12. Finalizaremos a aula conversando sobre o Artigo 16 do Capítulo IV do Estatuto nenhuma orientação, pois, ou dizem que não as compreendem, ou que não será
do Idoso. Discorra sobre o que você compreende sobre o que está descrito nesse possível realizar qualquer modificação ou adaptação por falta de recursos materiais
artigo e, como deve ser a atuação dos profissionais de enfermagem junto aos ou humanos. Geralmente temos a sensação que nossas orientações caem “em um
acompanhantes, quando da internação de uma pessoa idosa (atividade 3) vazio” e, algumas vezes nos sentimos impotentes pois não conseguimos ver nenhum
resultado positivo em relação ao cuidado a ser desenvolvido para o membro mais
13. Atividade não presencial - Vocês receberão um texto de apoio sobre necessitado e tendemos a “desistir” desse acompanhamento alegando que a “família
“Cuidadores” que complementará o que foi discutido nessa aula. não adere ao tratamento/acompanhamento”. Nessas famílias normalmente não há
uma divisão equânime de tarefas e, alguém sempre está estressado ou se sentindo
CONSIDERAÇÕES FINAIS sobrecarregado. Essas são as famílias mais difíceis e desafiadoras, mas também, são
as que mais precisam de nossa ajuda. Não devemos “nunca” desistir delas. Será um
Nesse momento já podemos compreender a dimensão do que chamamos trabalho árduo, longo, com resultados muitas vezes imperceptíveis, mas, o idoso que
“família”, isto é, que ao falarmos sobre famílias estamos discorrendo para além de lá reside, precisa de nossa ajuda. Se atuarmos de forma compreensiva e acolhedora,
laços consanguíneos. poderemos conseguir pequenos resultados que beneficiarão a quem mais necessita.
Tradicionalmente existe a família da qual viemos (família de orientação) e a Por essa razão, nós lemos o texto sobre como construir uma relação de ajuda e,
família que constituímos (família de procriação). Convivemos, ainda, com o que nesse momento, vamos tentar trazer o que lemos para nossa realidade.
chamamos de famílias alternativas, aquelas que não seguem os padrões tradicionais.
Independentemente do tipo de família que estivermos falando, todas elas seguirão
um referencial de valores próprio que varia de uma família à outra.
Isso também vale para cada um de nós. É por essa razão que, ao atuarmos com
as famílias de outras pessoas, tendemos a reproduzir nossos valores o que pode, em
algumas situações, sem muito difícil (podemos nos ver frente a situações que temos
dificuldade de compreender e aceitar, pois vão contra aquilo que acreditamos ou que
aprendemos como certo).
É para compreendermos a questão das famílias num contexto maior que
conversamos nas últimas duas aulas. Agora, já podemos compreender que a família
do outro (amigos, vizinhos, idosos que atendemos, etc) tem o seu próprio sistema
de valores que orienta sua organização e seu funcionamento e que isso dificilmente
é modificável sem ajuda especializada (p.ex: terapia familiar). Em outras palavras,

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Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Família e Envelhecimento

Aluno(a):..........................................................................................

Para você o que é uma “relação de ajuda”?

O que significa construir uma “relação de ajuda” na sua profissão. Traduza isso na
sua atuação profissional.

Elementos da relação de ajuda:


• Conhecer a si mesmo
• Conhecer o outro e respeitá-lo;
• Ser coerente;
• Ser empático
Relembrando o texto que você leu, traga esses conceitos para sua atuação profis-
sional e comente como você os utiliza para organizar seu dia-a-dia de trabalho.
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Família e Envelhecimento

Aluno(a):..........................................................................................

1. Para você, o que é ser “cuidador”?

2. Há diferença entre “cuidadores familiares” e “cuidadores não familiares”? Se


sim, qual é essa diferença?

3. “Cuidador”é hoje uma profissão? Por que?

4. Você já atuou como “cuidador”? Conte sua experiência.

5. Na sua opinião, as pessoas que atuam como cuidadores deveriam integrar o


quadro da enfermagem? Por que?
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Família e Envelhecimento

Aluno(a):..........................................................................................

ESTATUTO DO IDOSO

CAPÍTULO IV
DO DIREITO À SAÚDE:
Artigo 16:
Ao idoso internado ou em observação é assegurado o direito a acompanhante,
devendo o órgão de saúde proporcionar condições adequadas para sua permanência
em tempo integral, segundocritério médico.

Parágrafo Único:
O acompanhamento ao idoso será autorizado pelo profissional de saúde responsável
e, em caso de impedimento, a justificação deverá ser feita pelo mesmo, por escrito.

O que você entende com esse artigo do Estatuto? Como deve ser a atuação dos
profissionais de enfermagem junto aos acompanhantes, quando da internação de
uma pessoa idosa?
TEXTO DE APOIO

O CUIDADO DA PESSOA IDOSA


E OS CUIDADORES

O CUIDADO DA PESSOA IDOSA

Cuidar da pessoa idosa de forma adequada envolve um cuidado mais amplo que
tem por base a manutenção, no melhor nível possível, da condição funcional dos idosos.
Assim, cuidar do idoso deve significar para os profissionais a manutenção do melhor nível
possível de independência e autonomia da pessoa idosa no desempenho de suas atividades
cotidianas independentemente do número de condições crônicas que ela possua.
Os idosos com problemas crônicos e, em especial, os mais dependentes,
necessitam de maior apoio, de cuidado planejado o que vai além da atenção
exclusivamente biomédica (p.ex: exames, remédios, curativos). Com o cuidado
adequado, as complicações podem ser quase que totalmente calculados e, em vários
casos, retardadas ou até mesmo evitadas.
Esse cuidado, quando necessário e possível, é executado por pessoas que
denominamos “cuidadores”.
Cuidadores podem ser definidos como “as pessoas que cuidam de pessoas idosas
que necessitam de acompanhamento ou cuidado, auxiliando no desenvolvendo de
atividades cotidianas garantindo uma melhor qualidade de vida e a manutenção de
sua integração com a sociedade”.
Até pouco tempo atrás, a figura do denominado “cuidador” centrava-se quase que
exclusivamente nos elementos familiares que se disponibilizavam, voluntariamente
ou por exclusiva ausência de outras opções, a atender as demandas emanadas por
seus parentes que necessitassem de auxílio. Nos últimos 40 anos, muitos estudos têm
discutido o histórico e tolerante papel da família como cuidadora de seus membros
mais dependentes.
Historicamente o suporte familiar e o cuidado de pessoas com alguma
dependência têm sido sempre voluntário ou conjuntural, neste caso em decorrência
da inexistência de outra alternativa. Usualmente era esperado que, por exemplo,
um(a) filho(a) permanecesse na casa dos pais quando eles envelhecessem ou que os
recolhesse à sua casa nas idades mais longevas. Filhos únicos e mulheres não casadas
são particularmente vulneráveis a assumir esta função.
Quando um cuidador familiar está disponível, a carga sobre ele pode ser muito
significativa. Esposas idosas frequentemente encontram-se disponíveis, mas em
muitas ocasiões não são fisicamente capazes de atender a demanda constante de

87
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio O Cuidado da Pessoa Idosa e os Cuidadores

cuidados de seus cônjuges. Morbidades físicas e psiquiátricas destes cuidadores tem idosas e dependentes, cuidador domiciliar de idosos, cuidador institucional de idosos,
sido alvo de inúmeros estudos. gero-sitter).
Alguns estudos mostram que a institucionalização da pessoa idosa decorre, na Em 2002 foi publicada a Portaria GM/MS no 702/2002 criando as Redes Estaduais
maioria das vezes, pela inexistência de serviços suficientes capazes de assistir as de Atenção à Saúde do Idoso que determinavam a criação dos denominados Centros de
necessidades tanto dos indivíduos dependentes quanto de seus membros familiares. Referência em Assistência à Saúde do Idoso. A partir dessas portarias passou-se a discutir
Parece que a maioria das famílias assiste seus membros mais necessitados pelo a necessidade de criação de uma rede formal de apoio, orientação e acompanhamento
maior período de tempo e tão bem quanto possível. Porém, quando todas as suas de cuidadores de pessoas incapacitadas. Essa portaria foi publicada juntamente com a
capacidades tiverem sido esgotadas, a institucionalização pode ser a única opção reedição da Portaria referente ao Programa Nacional de Cuidadores, em 2003 tendo sido
disponível. O planejamento programado para a manutenção da saúde dos cuidadores incluída essa rede voltada aos cuidadores. A formação dessa rede teria impacto direto
e das famílias dos indivíduos necessitados tem sido frequentemente negligenciado. na qualidade da assistência prestada aos portadores de incapacidades, na otimização
Outras opções assistenciais tornam-se, nesse contexto, cada vez mais necessárias dos recursos disponíveis para a assistência à saúde além de tornar a população mais
ainda mais porque, em nosso meio, ainda somos muito resistentes a compreender necessitada visível ao Sistema de Saúde como um todo. No entanto, apesar de ter sido
a instituição para idosos como uma opção boa e aceitável. Ainda tendemos a vê-la publicada, essa portaria nunca foi colocada em prática e essa rede, de fato, nunca existiu.
como uma punição ou como negligência da família no cuidado ao seu parente idoso Por um período de tempo (2003-2006), não ocorreram outras propostas ou
mais necessitado. programas específicos voltados aos cuidadores, em nível federal. Essa questão só foi
Neste contexto, a figura do cuidador (que só existe na presença de uma pessoa com retomada em meados de 2006 quando da criação da caderneta e do caderno de atenção
algum grau de dependência física e/ou mental) passa a ser uma força complementar básica voltado aos idosos. A Área Técnica de Saúde do Idoso do MS compreendeu ser
na assistência à saúde, pois sem ele, nenhum programa de desospitalização pode necessário que programas voltados aos cuidadores fossem retomados por se entender
ser efetivamente implementado ou mesmo a manutenção dessa pessoa no contexto que a execução desse tipo de cuidado não é inata e, portanto, requer treinamento.
domiciliar pode ser efetivada. Além disso, por ser o Brasil um país muito grande com múltiplas diferenças regionais
e diferentes padrões de envelhecimento entendia-se como necessária a existência
É impossível precisar hoje quantas são as pessoas mantidas em domicílio que de linhas gerais de orientação voltadas para a formação dos cuidadores sendo essas
necessitam da presença de um cuidador bem como, quantos e quem são esses adaptáveis às necessidades dos idosos de cada região do país. A ideia central era
cuidadores e de que forma estão desempenhando esse cuidado. contribuir para a organização da formação dessas pessoas de forma homogênea
(respeitadas as diferenças regionais) e caminhar para a criação da profissão de
Programas de orientação de cuidadores surgiram em diferentes âmbitos. Essa “cuidadores”, reconhecida e regulamentada.
temática começou a ser discutida, de forma mais organizada, pelo governo federal
de 1998 frente a demanda da sociedade civil organizada e norteada pelos princípios Nesse sentido, em abril de 2007, a Área Técnica de Saúde do Idoso e o
legais da Política Nacional do Idoso de acordo com a Lei no 8842/94. Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, desenvolveram
um trabalho conjunto, em nível nacional, com especialistas da área de Gerontologia
Em 1999 o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde do Idoso para propor um programa de formação para cuidadores de idosos cujas premissas
e, no mesmo ano, foi assinada a Portaria Interministerial no 5153/99 que instituiu o serão aqui explicitadas. Esse programa teve seu projeto-piloto executado, com êxito,
Programa Nacional de Cuidadores de Idosos pelos Ministérios da Saúde e Previdência e nas cinco regiões do país, mas, por questões governamentais, foi descontinuado.
Assistência Social hoje, Ministério do Desenvolvimento Social e combate à fome. Esse Até o momento, esse foi o maior avanço no sentido de organização da formação de
Programa teve por objetivo promover a melhoria das condições de atenção ao idoso cuidadores visando sua profissionalização.
mediante a capacitação de cuidadores domiciliares (familiares e não familiares) e
institucionais dando ênfase à promoção de saúde, à prevenção de incapacidades e Outras iniciativas foram realizadas, com êxito, em diferentes estados e cidades
à manutenção, pelo maior tempo possível, da capacidade funcional do idoso. Nesse do país. No Estado de São Paulo, muitas cidades se empenharam no desenvolvimento
programa foram capacitados multiplicadores das diferentes regiões do país que de cursos de orientação a cuidadores, na maioria das vezes, voltados aos familiares.
deveriam reproduzir, em seus locais de origem, oficinas de capacitação voltadas aos No Município de São Paulo, há uma experiência exitosa na criação de serviços
cuidadores respeitando as especificidades de atenção de cada região. Esse programa inovadores voltados ao melhor cuidado da pessoa idosa em situação de fragilidade
teve como foco principal a capacitação de cuidadores familiares. O referido programa e vulnerabilidade social. Trata-se do “Programa de Acompanhantes de Idosos”
foi aplicado em algumas regiões, mas, em seguida, foi descontinuado não conseguindo desenvolvido desde 2004 pela Secretaria Municipal de Saúde, uma modalidade de
se efetivar como um programa nacional. cuidado domiciliar destinado às pessoas idosas mais vulneráveis com dependência
funcional que visa o provimento de apoio e suporte nas atividades cotidianas e nas
Concomitantemente, em 2002 foi reeditada pelo Ministério do Trabalho a demais necessidades sociais e de saúde identificadas por equipe multiprofissional.
Classificação Brasileira de Ocupações, em uma nova versão, onde o “cuidador” Os acompanhantes são profissionais cuidadores que realizam atividades sistemáticas
passou a ser uma “ocupação” reconhecida (CBO no 5162.10) englobando diferentes estabelecidas pela equipe multiprofissional, nos domicílios junto às pessoas idosas.
denominações (cuidador de idosos, acompanhante de idosos, cuidador de pessoas Esse programa tem sido, desde sua criação, reconhecido como exemplar e inovador

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio O Cuidado da Pessoa Idosa e os Cuidadores

além de ser uma estratégia valiosa no campo da saúde, na garantia da acessibilidade, Os cursos de orientação a cuidadores familiares devem ser organizados com
equidade e atenção integral às pessoas idosas em situação de fragilidade apontando base nas suas necessidades mais imediatas fornecendo instrumentos para o melhor
para o compromisso da gestão pública com as reais necessidades da população idosa. desenvolvimento de suas ações assistenciais de forma simples, organizada e direta.
Isso contribui com a minimização da ansiedade do cuidador na realização dessas
ORIENTAÇÃO DE CUIDADORES ações. De modo geral, o conteúdo desses cursos, assim como o voltado para
cuidadores não familiares, restringem-se à ajuda no desenvolvimento das atividades
cotidianas, denominadas, atividades de vida diária. A principal diferença é que,
Um cuidador (familiar ou leigo) só existe na vigência de uma pessoa dependente para cuidadores familiares, o foco deve ser a necessidade imediata pois estes estão
e, portanto, mais fragilizada. É no entanto, a sua existência que impede muitas mais receptivos a essas informações dado seu caráter prático na reorganização do
vezes que estas pessoas sejam institucionalizadas e, por outro lado, auxiliam na dia-a-dia. Conteúdos adicionais podem ser ministrados posteriormente, quando se
implantação de diferentes programas assistenciais. Desta forma, compreende-se a tornarem uma necessidade.
necessidade de orientação e acompanhamento permanente deste binômio cuidador-
indivíduo cuidado. Já, pensando nos cuidadores não familiares e na homogeneização da formação
dos mesmos visando sua profissionalização, o material produzido na Oficina
Para cuidar da pessoa idosa de forma adequada, além da formação mínima, é realizada pelo Ministério da Saúde em 2007, publicado pela Secretaria Municipal de
necessário que o cuidador sempre se mantenha informado e organize o cuidado a ser Desenvolvimento Social em 2010 foi revisto e rediscutido nos Congressos Regionais
prestado tendo como princípios: de Geriatria e Gerontologia de São Paulo e Rio de Janeiro em 2013 e no Congresso
Brasileiro de Geriatria e Gerontologia em 2014 com todos os interessados em nível
• a adoção de um estilo de vida mais saudável;
nacional sendo construída uma carta de recomendação para a organização dos cursos
• a maximização da independência minimizando e compensando as perdas e de formação de cuidadores.
limitações relacionadas ao envelhecimento; Entende-se tratar-se de pessoas com idade mínima de 18 anos, de ambos os sexos,
• a promoção de conforto durante os momentos de maior angústia e fragili- com ensino fundamental completo (9º ano). Os cursos deveriam ter na coordenação
dade incluindo o processo de morrer. ou na orientação pedagógica alguém com formação na área de gerontologia para
estruturação da grade curricular. Sua duração poderia variar de 80 a 120 horas, no
O cuidado não é construído de forma isolada, familiares e idosos devem mínimo incluindo, pelo menos, 40 horas de atividades ou vivências práticas.
participar ativamente do processo. Esse cuidado envolve informações atualizadas e
instruções compartilhadas por todos os envolvidos permitindo uma sobrevida mais Foram definidos alguns eixos integradores, competências e habilidades,
relacionadas minimamente necessárias para o desenvolvimento dos cursos.
assistida e consequentemente mais digna.
Cuidar do idoso não será nunca “fazer por”, mas sempre “fazer com” e não se
EIXO 1 - ENVELHECIMENTO E DIREITOS DA PESSOA IDOSA
resume ao desenvolvimento de técnicas, mas sim a um envolvimento pessoal no que
se conhece como “relação de ajuda” a qual já tivemos a oportunidade de discutir. Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de:
Quando se fala de orientação de cuidadores familiares alguns princípios básicos • Compreender o processo de envelhecimento em suas dimensões física,
devem ser considerados. Essas orientações devem, sempre, buscar facilitar o dia- mental e social;
a-dia do cuidador considerando, em primeira instância, que ele é um leigo, e que,
portanto, não tem conhecimento da área de saúde. • Reconhecer sinais e sintomas atípicos de alterações nas condições de saú-
de da pessoa idosa;
Na maioria das situações, ele se “transformou” em cuidador, de forma inusitada
• Conhecer os direitos da pessoa idosa e agir no sentido de que os mesmos
e, muitas vezes, inesperada. Em geral, as pessoas não se imaginam cuidadoras de seus
sejam sempre respeitados.
parentes mais idosos quando ainda são jovens, até o dia em que necessitam assumir
tal função. Essa “nova” função deverá ser incorporada na vida dessa pessoa junto • Conhecer a legislação e os recursos para promover a garantia dos direitos;
a inúmeras outras que já existiam. Reorganizar o tempo e as prioridades, aprender
coisas novas e redimensionar os gastos passam a ser questões fundamentais para a • Identificar espaços de reivindicação dos direitos da pessoa idosa.
qual, muitas pessoas não estão preparadas ou, de fato, conseguem administrar. • Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilida-
de para:
Por essa razão, cuidadores familiares necessitam de atenção especial. É a
existência dos mesmos que permite ao idoso mais dependente continuar a residir em • Identificar as alterações decorrentes do processo de envelhecimento di-
sua casa ou junto de sua família. Sempre deveremos nos lembrar disso ao fornecer ferenciando os padrões de senescência com os de senilidade e agindo de
informações ou orientações para essas pessoas. acordo;

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MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio O Cuidado da Pessoa Idosa e os Cuidadores

• Identificar situações que apontem negligência aos direitos da pessoa idosa EIXO 3 - AUXÍLIO NO DESEMPENHO DAS ATIVIDADES COTIDIANAS E
e promover os encaminhamentos necessários. PLANEJAMENTO DO CUIDADO
• Reconhecer e saber utilizar os mecanismos que asseguram os direitos dos Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de:
idosos como cidadãos
• Identificar as necessidades de cuidados;
• Garantir o acesso da pessoa idosa aos seus direitos legais por meio da
utilização dos meios e recursos disponíveis. • Identificar a possibilidade de independência e reconhecer a autonomia do
idoso para a realização das atividades de vida diária e, a partir daí, orga-
• Divulgar para a pessoa idosa, seus familiares e para a comunidade a legis- nizar as atividades de suporte;
lação nacional de garantia dos direitos dos idosos.
• Atuar de forma a estimular o resgate e/ou manutenção da independência
e autonomia do idoso;

EIXO 2 - INTERAÇÃO E COMUNICAÇÃO • Conhecer/reconhecer/identificar o nível / tipo de dependência do idoso,


a fim de auxiliar o desempenho de suas AVDs na medida de suas necessi-
Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de: dades

• Desenvolver ações que estimulem o processo de interação e comunicação • Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilidade
entre o idoso, seus familiares e a comunidade; para:

• Compreender/interpretar as mensagens verbais e não verbais do idoso e • Identificar a relação entre problemas de saúde e condições de vida.
se fazer entender; • Coletar informações sobre a história de vida e de saúde da pessoa idosa.
• Promover/fazer a inter-relação entre família-serviços-comunidade (rede); • Identificar o contexto familiar e social de vida da pessoa idosa.
• Compreender e reconhecer o processo de comunicação do idoso (verbal e • Identificar valores culturais, éticos, espirituais e religiosos da pessoa ido-
não verbal). sa e sua família.
Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilidade para: • Participar da elaboração do plano de cuidado para a pessoa idosa, sua
implementação, avaliação e reprogramação junto à equipe de saúde.
• Estimular a pessoa idosa na manutenção do convívio familiar e social;
• Realizar ações de acompanhamento e cuidado à pessoa idosa com depen-
• Promover atividades que estimulem o uso da linguagem oral e de outras
dência, conforme as demandas e necessidades identificadas.
formas de comunicação pela pessoa idosa;
• Identificar situações e hábitos presentes no contexto de vida do idoso que
• Promover junto à família, ambiente favorável à conversação com a pessoa
são potencialmente promotores ou prejudiciais a sua saúde.
idosa;
• Estimular a autonomia e independência da pessoa idosa frente as suas
• Incentivar a socialização da pessoa idosa por meio da participação em
necessidades.
grupos, tais como: grupos de acompanhamento terapêutico, de atividades
socioculturais, de práticas corporais/atividades físicas e outros; • Apoiar a pessoa idosa na execução das atividades da vida diária, conforme
o plano de cuidado.
• Identificar redes de apoio na comunidade e estimular a participação da
pessoa idosa, conforme orientações do plano de cuidado; • Apoiar a pessoa idosa na execução das atividades instrumentais da vida
diária.
• Apoiar a pessoa idosa na execução das atividades instrumentais da vida
diária; • Sensibilizar a pessoa idosa e sua família quanto à necessidade de mudan-
ças graduais e contínuas em hábitos e atitudes, a fim de facilitar a vida
• Utilizar recursos de informação e comunicação adequados à pessoa idosa;
do idoso.
• Verificar a necessidade e ou condições de órteses (bengalas, andadores,
• Atentar para possíveis reações indesejadas em relação ao uso de medica-
etc.) e próteses dentárias, auditivas e oculares;
mentos.
• Favorecer a leitura labial pela pessoa idosa, durante as conversações;
• Providenciar suporte adequado às necessidades específicas da pessoa
• Utilizar linguagem clara e precisa com a pessoa idosa e seus familiares. idosa.

92 93
MÓDULO II Família e Envelhecimento Texto de Apoio O Cuidado da Pessoa Idosa e os Cuidadores

• Atentar para a necessidade e ou as condições das próteses e orteses em • Identificar sinais de maus tratos e promover os encaminhamentos neces-
uso pela pessoa idosa. sários;
• Estimular a prática de atividades que diminuem o risco de doenças crôni- • Identificar situações de violência intra e extra familiar;
cas, conforme orientações do plano de cuidado.
• Estimular a pessoa idosa e seus familiares a participarem de programas
• Identificar sinais de fragilização da pessoa idosa.
sociais locais que envolvam orientação e prevenção da violência intra e
• Identificar sinais de depressão e demência em pessoa idosa e encaminhar extra familiar, dentre outros;
para os cuidados específicos.
• Notificar caso suspeito ou confirmado de violência contra a pessoa idosa.
• Encaminhar o idoso para atendimento à saúde, quando necessário.
• Acompanhar o idoso no uso da medicação.
EIXO 6 - DIREITOS E DEVERES DOS CUIDADORES DE PESSOAS IDOSAS
• Acompanhar a situação vacinal da pessoa idosa;
Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de:
• Orientar a família e atuar no caso de óbito da pessoa idosa.
• Conhecer os deveres dos cuidadores de pessoas idosas e agir no sentido de
EIXO 4 - PRONTIDÃO PARA AGIR EM SITUAÇÕES IMPREVISTAS que os mesmos sejam sempre implementados.

Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de: • Conhecer a legislação vigente e os recursos para promover a garantia dos
direitos dos cuidadores;
• Reconhecer situações de urgência e emergência e ser capaz de realizar os
primeiros socorros e demais ações sob orientação do profissional respon- • Manter-se atualizado quanto à sua situação profissional agindo de acordo
sável; com o proposto.
• Agir com prontidão e presteza em situações imprevistas dentro do limite
Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilidade para:
de suas atribuições.
• Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilidade • Reconhecer e saber utilizar os mecanismos que asseguram os direitos dos
para: cuidadores de idosos
• Reconhecer situações de urgência e emergência. • Manter a pessoa idosa, seus familiares e a comunidade atualizados em
• Realizar primeiros socorros. relação à legislação referente aos direitos e à profissão de cuidadores.

• Providenciar atendimento de suporte Em nenhum momento devem ser ensinadas técnicas profissionais referentes a
outras profissões, em especial à enfermagem que já possui legislação específica e
conselho profissional próprio.
EIXO 5 - PREVENÇÃO DE RISCOS, ACIDENTES E VIOLÊNCIA
Ao final do curso o cuidador deverá ser capaz de: Da mesma forma, profissionais de enfermagem que, por opção ou necessidade
desejarem atuar como cuidadores, devem procurar fazer um curso específico para
• Identificar e reconhecer situações de risco à integridade física e psicológi- esse fim uma vez que as escolas de nível médio não incluem conteúdos de gerontologia
ca da pessoa idosa a fim de evitar situações de agravo; em seus currículos. Além disso, a maioria das atividades práticas desses cursos é
• Promover ambiente seguro. voltada para a atuação em nível hospitalar o que pode gerar um viés na atuação
Para atender a esse eixo, ao final do curso o cuidador deverá ter habilidade para: desses profissionais junto aos idosos em suas residenciais transformando o ambiente
doméstico em um ambiente asséptico, medicalizando o cuidado que deveria ser
• Identificar situações de risco de violência; apenas uma facilitação do desempenho pessoal no dia a dia.
• Prevenir, atuar e mobilizar recursos que reduzam riscos; Profissionais de enfermagem e cuidadores possuem atuações complementares,
• Analisar os riscos sociais e ambientais à saúde da pessoa idosa com depen- de igual importância na construção do melhor cuidado a ser dado às pessoas idosas
dência; mais dependentes.
• Avaliar condições de risco de acidentes domésticos e propor alternativas Os cuidadores não são e nem existe a pretensão de que sejam profissionais da
para resolução ou minimização. área de enfermagem. São pessoas com uma formação híbrida que envolve elementos
• Identificar situações de autonegligência e promover os encaminhamentos da área de saúde, social e de educação. Sua profissionalização ainda está tramitando
necessários. em nível federal.

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MÓDULO II Família e Envelhecimento

Para tanto foi feito um projeto de lei que foi submetido à aprovação do Senado
e da Câmara dos Deputados.
Só para lembrar, um projeto de lei ou uma proposta de lei é um conjunto de
normas que deve submeter-se à tramitação num órgão legislativo com o objetivo de
efetivar-se através de uma lei. Os projetos de lei são feitos por membros do próprio
órgão legislativo.
No caso da profissão de cuidadores, foram, inicialmente, apresentados três
MÓDULO III
Violência Contra
projetos de lei com a mesma finalidade, porém com orientações um pouco distintas.
Desses projetos, o mais discutido foi o apresentado pelo Senador Waldemir Moka -
PLS Nº 284/2011 em 25.05.11 que, após audiência pública (20 de outubro de 2011) e
multiplas alterações, foi aprovado pelo Senado Federal em 12 de setembro de 2012
tendo como relatora a Senadora Marta Suplicy.
Como todo projeto de lei, após a aprovação em uma instância, é necessário que
a Pessoa Idosa
seja, também, aprovado na outra, no caso, a Câmara dos Deputados. Assim, após
a aprovação, esse projeto foi encaminhado para a Câmara - PL 4702/2012 – sob a
relatoria da Deputada Federal Benedita da Silva que realizou uma audiência pública
em 08 de outubro de 2013. Nessa instância, o projeto de lei necessita ser aprovado
em três Comissões:
• Comissão de Seguridade Social e Família – CSSF Iniciaremos hoje o módulo
sobre violência contra a
• Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público – CTASP pessoa idosa que, será
• Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania- CCJC desenvolvido em duas aulas.
Para o seu desenvolvimento,
Até o momento, continuamos aguardando o andamento desse projeto de lei. Até proponho a seguinte
lá, espera-se que os cursos sigam as orientações aqui descritas, porém eles o farão dinâmica:
apenas por uma questão de consciência dado que nada regulamenta essa formação 1. Como primeira atividade,
até o momento. vamos rever o que já foi
Situações graves já foram identificadas: muitas pessoas sem qualquer levantado no Módulo de
qualificação, habilidade ou supervisão cuidando de pessoas idosas muito dependentes, Família relacionado à
“cursos” de formação de cuidadores com 2h de duração e emissão de certificado, violência contra pessoas
cursos de cuidadores exclusivamente on-line, entre outras. O risco decorrente dessas idosas. (atividade 1)
situações está na qualidade da assistência ao idoso, já debilitado e, muitas vezes, 2. Em plenária, fazer uma
incapaz de solicitar ajuda ou relatar qualquer negligência. síntese da atividade 1
Isso não é digno e o que não é digno não é direito. Não é isso que desejamos 3. Em pequenos grupos, vamos ler as páginas 28 a 36 do Caderno de Violência contra
para nossa velhice e, assim, não podemos pactuar com essa situação junto aos idosos a Pessoa Idosa elaborado pela Secretaria Municipal de Saúde. (atividade  2)
de hoje.
4. Em seguida, em uma roda de conversa com o professor, conversaremos sobre a
atividade 2 buscando traçar os indicadores relacionados ao perfil da vítima e do
REFERÊNCIAS agressor de forma a podermos utilizar essas informações em nosso cotidiano de
trabalho.
Berger L. A relação de ajuda em gerontologia. In: Berger L; Mailloux-Poiriér D. Pessoas
idosas. Lusodidacta, Lisboa, 1995. 5. O professor fará uma breve explanação sobre a violência institucional e, cada
aluno, em seu ambiente de trabalho, buscará, durante a semana, identificar e
Berzins MAVS; Paschoal SMP. Programa “Acompanhante de Idosos”. Boletim do
descrever uma situação que possa ser classificada como tal e que será discutida
Instituto de Saúde. 2009; 47: 53-5.
na próxima aula. (atividade 3)
Duarte YAO. Manual dos formadores de cuidadores de pessoas idosas. São Paulo.
6. Atividade não presencial – Leitura do Caderno de Violência contra a Pessoa
Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. Fundação Padre Anchieta, 2009.
Idosa e do texto de Minayo com ênfase na violência Institucional.
Cap 1.

96 97
TEXTO DE APOIO
VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL
CONTRA A PESSOA IDOSA:
A CONTRADIÇÃO DE QUEM CUIDA
Marília Berzins

A violência institucional que, em geral, também ocorre em todo o mundo,


no Brasil ocupa um capítulo muito especial nas formas de abuso aos idosos. Ela se
realiza como uma agressão política, cometida pelo estado, em nível macrossocial. E
de maneira mais particular, é atualizada e reproduzida nas instituições públicas de
prestação de serviços e nas entidades públicas e privadas de longa permanência.
O aparato do Estado é um grande regulador do curso da vida. E, no caso
brasileiro, a posição oficial dos governos em relação aos velhos é aberta e avançada.
Existem muitas leis a favor deles. Numa recente publicação que abrange informações
sobre atos legislativos de 1917 a 2001, Barroso (2001) compilou 53 Leis, Decretos,
Resoluções e Portarias, dispositivos nos quais os idosos são mencionados como sujeito
de direitos e de proteção social. Atualmente está em elaboração um Plano Nacional
de Enfrentamento da Violência contra os Idosos. No entanto, falta ainda muito a
fazer, no plano da implementação concreta de dispositivos que assegurem os direitos
desse grupo social.
No nível das instituições de prestação de serviços, as de saúde, assistência e
previdência social (as que pela Constituição configuram os instrumentos da seguridade
social) são campeãs de queixas e reclamações, nas delegacias de proteção aos idosos.
Os serviços são exercidos por uma burocracia impessoal, que reproduz a cultura
de discriminação por classe, de gênero e de idade, causando imenso sofrimento à
maioria dos idosos, sobretudo aos pobres que não têm condições de optarem por
outros serviços. Muitos idosos verbalizam a ideia de que ser aposentado significa
ser maltratado pelo sistema social de assistência pública. As longas filas de que são
vítimas, a falta de comunicação ou a comunicação confusa e a ausência de uma
relação pessoal compreensiva por quem precisa dos cuidados, constituem uma forma
de violência das quais os idosos mais se queixam. Apesar dos êxitos localizados que
vêm ocorrendo no Programa Saúde da Família é ainda imenso o fosso entre a lei e a
prática social.
Numa nota técnica para a Câmara dos Deputados Malagutti assim se refere: O
serviço de saúde pública é o principal pesadelo desse contingente, que também é o
mais penalizado pelos preços absurdos dos planos de saúde (2003: 3).
Uma terceira forma de expressão relevante da violência institucional ocorre
nas relações e formas de tratamento que as entidades (asilos e clínicas) de longa

99
MÓDULO III Violência Contra a Pessoa Idosa

permanência mantêm com os idosos. Ali, frequentemente se perpetram e se


reproduzem abusos, maus tratos e negligências que chegam a produzir mortes,
TEXTO DE APOIO
incapacitações e a acirrar processos mentais de depressão e demência. Orientado
para fiscalizar casas de repouso, o Grupo de Atuação Especial de Proteção ao Idoso
(GAEPI) do Ministério Público de São Paulo fechou 48 desses estabelecimentos entre DIREITOS HUMANOS E
1994 a 1997 e Silva ressalta que existem muitos idosos abandonados em hospitais e
asilo “quanto mais renda tem o idoso, mais a família tem pressa em colocá-lo em
algum asilo para dispor de seus bens” (2004,3). POLÍTICAS PÚBLICAS
Hoje, há no país cerca de 2% da população idosa internada em asilos e clínicas. Marília Anselmo Viana da Silva Berzins
Um caso que chama atenção para a sinergia que acontece entre a violência estrutural,
institucional e familiar no Brasil e serve como referência do que ocorre de forma
menos noticiada é o da Clínica Santa Genoveva no Rio de Janeiro. Nela morreram
156 pacientes em 1996, em consequência de problemas nutricionais e de falhas na
assistência médica. Quando se fala em Direitos Humanos algumas pessoas associam esse conjunto
de direitos à defesa de bandidos ou ao crime. Esta é uma associação equivocada, pois
A análise dos dados de internação hospitalar nessa Clínica, realizada por Guerra
dá a sensação para a maioria das pessoas que os direitos humanos são contrários à
et al (2000), revelou que o excesso de mortalidade verificada em 1996 já vinha
sociedade ao privilegiar pessoas criminosas. Os direitos humanos são pertencentes
ocorrendo desde 1993 e poderia ter sido detectado e talvez até prevenido, se as
e inerentes a toda sociedade. Este princípio, chama-se universalidade. Isso quer
informações houvessem sido devidamente avaliadas pelas instâncias públicas de dizer que todos nós, independente da condição social, da raça, da idade, do local
fiscalização. Nesse caso paradigmático, a violência institucional da clínica que pode onde nasceu, estamos protegidos pelos direitos humanos simplesmente pelo fato de
ser qualificada como negligência e abandono; se aliou à negligência e à leniência do sermos pessoas humanas. O fundamento dos direitos humanos baseia-se no fato de
poder público e ao abandono e ao descaso das famílias para com seus parentes idosos que todas as pessoas merecem igual respeito uma das outras. Isso nos sugere que
doentes e indefesos. Nas crônicas que se seguiram à denúncia do excesso de mortos, quando formos capazes de agir em relação ao outro da mesma forma que gostaríamos,
evidenciou-se que a maioria dos velhos não recebia visitas de parentes e alguns que de que agissem conosco, estaremos observando outro principio que é o da igualdade.
compareciam à Clínica de vez em quando não tinham coragem de denunciar os maus
tratos e as negligências que presenciavam por medo de ter que levar seu familiar de Por direitos humanos ou direitos da pessoa humana podemos entender como
volta para a casa (Souza et al, 2002). sendo aqueles direitos correspondentes às necessidades essenciais da pessoa humana
e devem ser atendidos para que possamos viver com dignidade. O direito à vida, à
Em muitos asilos e clínicas, mesmo nos estabelecimentos públicos ou conveniados liberdade, à igualdade e, também ao pleno desenvolvimento da personalidade são
com o Estado, frequentemente, as pessoas são maltratadas, despersonalizadas, alguns exemplos desses direitos. Todas as pessoas devem ter asseguradas desde o seu
destituídas de qualquer poder e vontade, faltando-lhes alimentação, higiene e nascimento e durante toda a sua vida, as mínimas condições necessárias para viver
cuidados médicos adequados. Idosos são vistos, em muitos casos, como ocupantes de com dignidade. Pessoas idosas e seus cuidadores estão também protegidos pelos
um leito. Infelizmente, embora seja um problema público e notório, os desmandos direitos humanos. As necessidades básicas das pessoas idosas e dos seus cuidadores
das clínicas e asilos não estão devidamente dimensionados, pois faltam investigações devem ser atendidas para que o direito à vida possa ser respeitado. A vida é um
sobre a magnitude e a complexidade do fenômeno. E principalmente, quase inexiste direito humano fundamental, assim como envelhecer com dignidade é um direito
a necessária vigilância e fiscalização desses estabelecimentos, como observam humano fundamental.
Guerra et al (2000), a não ser quando ocorre um escândalo ou alguma denúncia
intensamente alardeada pela imprensa (Souza et al, 2002). Na Constituição brasileira de 88 estão reafirmados os direitos humanos.
A Constituição Federal dá uma forte ênfase aos direitos humanos. Ela é a mais
avançada em matéria de direitos individuais e sociais na história do Brasil. Por isso,
foi denominada e Constituição Cidadã. O Estatuto do Idoso promulgado em 2003, bem
depois da Constituição Federal, também reafirma os direitos humanos (Ver capítulo
OS DIREITOS DA PESSOA IDOSA NA LEGISLAÇÃO). Destacamos estes artigos do estatuto:
Art. 2º. “O idoso goza de todos os direitos fundamentais
inerentes à pessoa humana...”
Art. 10. “É obrigação do Estado e da sociedade, assegurar à
pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa
humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e
sociais, garantidos na Constituição e nas leis.”

100 101
MÓDULO III Violência Contra a Pessoa Idosa Texto de Apoio Direitos Humanos e Políticas Públicas

Vivemos num estado democrático. Isso que dizer que o Brasil é um país onde O Estatuto do Idoso no artigo 3º diz que é obrigação da família, da comunidade,
a democracia é a forma de organização social e política. Portanto, todas as pessoas da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a
devem ser tratadas em situação de igualdade. É isso que nos diz a Constituição efetivação dos seus direitos. É preciso estruturar serviços públicos no campo da
Federal “todos são iguais perante a lei”. saúde, da assistência social e dos direitos humanos para suprir a necessidade desse
grupo de idosos, chamados de vulneráveis, dependentes, frágeis ou em situação
Um dos papeis que o estado democrático deve desenvolver é o planejamento e
de fragilidade. É preciso criar novas formas de articulação em rede, oferecendo o
execução das políticas públicas. Elas nada mais são do que as ações que o governo
cuidador formal para as famílias que dele necessitarem. Pode ser até mesmo para
realiza com a finalidade de atender aos interesses e necessidades dos cidadãos. Ou
dar um “respiro” às famílias nos finais de semana, noites e etc. Para que isso ocorra
em outras palavras: As políticas públicas são as decisões de governo em diversas áreas
é necessário conceber e organizar, do ponto de vista das políticas públicas, ações
(saúde, habitação, assistência social, educação, transporte etc) que influenciam a
eficientes e eficazes.
vida de um conjunto de cidadãos.
Para que as políticas públicas sejam efetivas e possam alcançar os resultados Na cidade de São Paulo, a Prefeitura Municipal, desde o ano de 2004
esperados, elas devem contar com a participação dos cidadãos, inclusive fiscalizando desenvolve o Projeto Acompanhante de Idosos/Anjos Urbanos. Trata-se de uma
a sua realização. A participação das pessoas nos negócios do Estado é uma forma de política pública que oferece uma profissional (mulher) para exercer as atividades de
acompanhante e cuidadora na casa de pessoas idosas que moram sozinhas ou não
exercer a cidadania. Isso é muito importante e é um mecanismo reconhecido nos
têm a presença constante dos seus familiares. É um projeto inovador, pois demonstra
estados democráticos.
a responsabilidade do Poder Público na provisão dos cuidados aos seus cidadãos. A
As políticas públicas surgem muitas vezes provocadas pelos cidadãos que supervisão do trabalho é feita pela equipe de saúde da unidade básica, da Estratégia
sentem a necessidade de algum serviço especifico ou da falta de solução para Saúde da Família ou pela Unidade de Referência de Saúde do Idoso. O Projeto é muito
problemas que estão passando. A sociedade civil, por meio das suas mais diversas bem avaliado pelas pessoas idosas que dele se utilizam e pela comunidade onde as
organizações, pressiona o estado para ofertar uma política pública. Um exemplo acompanhantes de idosos estão inseridas. Várias instituições já avaliaram o projeto
disso foi o “movimento das mães trabalhadoras” que pressionaram os governos para como sendo uma experiência exitosa na temática do envelhecimento. Vários desafios
a instalação das creches. Hoje, as creches são equipamentos de educação para as se apresentam ao Projeto Acompanhante de Idosos/Anjos Urbanos. Talvez, o maior
crianças e espaços seguros onde as mães que trabalham foram podem deixar seus deles seja a sua universalização na cidade de São Paulo, chegando a todos as pessoas
filhos. As creches fazem parte das políticas públicas de educação e também atendem idosas que dele necessitarem. Entretanto, ele já aponta para várias possibilidades.
as necessidades sociais de mães trabalhadoras. Uma delas refere-se ao fato de que em outros municípios a experiência pode ser
repetida. Precisa para tanto da vontade política e da mobilização da comunidade
O envelhecimento populacional é um fato real em nossa sociedade. Lembro
local para que famílias e pessoas idosas possam ser atendidas na sua integralidade.
que envelhecer não é problema. O envelhecimento deve ser entendido como triunfo
e uma grande conquista da humanidade. Já acrescentamos mais anos à nossa Os Direitos Humanos e o respeito não envelhecem! Viver mais vem acompanhado
existência. Está faltando dar dignidade a esses anos que foram ganhos. Precisamos de muitos desafios. Ao se viver mais, espera-se que a dignidade, o respeito e
juntar esforços coletivos para que as pessoas que alcançaram mais anos nas suas condições favoráveis sejam também incorporados à vida cotidiana das pessoas
vidas possam viver em condições de dignidade, respeito e solidariedade. idosas. A integralidade do cuidado requer do poder público, a organização de serviços
Muitas pessoas idosas necessitam de cuidados para continuar a viver em suas e, sobretudo, a oferta de políticas públicas eficientes para consolidar a prática de
casas e na comunidade onde estão inseridos. A família mudou muito nas últimas proteção e respeito aos direitos humanos dos cidadãos idosos. Cuidador de idoso
décadas. Um fator importante e decisivo para a mudança da estrutura familiar foi e direitos humanos estão na mesma relação de fazer cuidado para pessoas idosas.
o fato da mulher, tradicional cuidadora, sair de casa para trabalhar. Outro fato Por fim, queremos ressaltar o fato de que em 2008 estamos comemorando 60 anos
também a ser considerado, é a redução do número de filhos das famílias brasileiras. da Declaração dos Direitos Humanos. Isso é um fato para ser celebrado por toda a
sociedade. As pessoas idosas têm direito a ter direitos. Quem precisa de cuidados
Hoje em dia, a média de filhos por família é apenas dois. Esses e outros fatores
deve ter garantido esse direito.
estão exigindo da sociedade vários rearranjos na responsabilidade de quem cuida
da pessoa idosa que precisa ser ajudada. Hoje, o cuidador ou cuidadora de idosos Sugestão para leituras:
já é uma pessoa ou profissional bem conhecida das nossas famílias e da sociedade
moderna. No passado, esta pessoa ou profissional era inexistente ou desconhecida. • Estatuto do Idoso. Lei nº 10.741 de 1º de Outubro de 2003.
Com o aumento do número de pessoas idosas dependentes (fisicamente), esta função • Constituição da República Federativa do Brasil. 01 de Outubro de 1988.
está sendo cada vez mais requisitada pelas pessoas idosas e pelas famílias.
• Declaração Universal dos Direitos do Homem. ONU. 10 de Dezembro de
Chegou o momento do Poder Público também se responsabilizar pelos cuidados
1948.
da pessoa idosa que necessita deles por períodos prolongados ou curtos. A mobilização
do segmento idoso por meio dos conselhos, fóruns, associações e outras formas de • Cartilha de Direitos Humanos para a Educação Básica – Acesso em: http://
organização estão pressionando os governos para a oferta de uma política pública que www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/a_pdf/cartilha_ma_direitos_huma-
proporcione os serviços de cuidador de idosos. Esta é uma necessidade urgentíssima! nos.pdf

102 103
MÓDULO III Violência Contra a Pessoa Idosa

REFERÊNCIAS
Secretaria Municipal da Saúde
Secretaria Municipal de Saúde. Violência doméstica contra a pessoa idosa: orientações Coordenação de Gestão de Pessoas
gerais. Coordenação de Desenvolvimento de Políticas de Saúde – CODEPPS. São Paulo: Escola Municipal de Saúde
SMS, 2007. (texto de apoio 1)
GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
Minayo MCS. Violência contra Idosos: o avesso do respeito à experiência e à sabedoria. À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
(texto de apoio 2) Módulo III - Aula 1 - Atividade 1
VIOLÊNCIA CONTRA A PESSOA IDOSA
Berzins MAVS. Violência Institucional contra a Pessoa Idosa: a contradição de quem
cuida. Tese (doutorado). Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo.
Aluno(a):..........................................................................................
2009.

1. Descreva uma situação de seu ambiente de trabalho que possa ser classificada
como violência institucional

104
MÓDULO IV
Principais Conceitos
Relacionados ao
Envelhecimento

Nesse módulo trabalharemos alguns conceitos muito comuns em relação ao


envelhecimento que podem não ser tão claros ou homogêneos para todos. Como,
em nossos próximos módulos, trabalharemos com o cuidado da pessoa idosa, é
fundamental que falemos as mesmas coisas para caminharmos na mesma direção.
No entanto, uma aula para discutir conceitos pode ser meio cansativa. Assim,
para aula proponho a seguinte dinâmica:
1. Inicialmente, distribuiremos a todos vocês alguns cartões coloridos. No cartão
vermelho está o “termo” cujo conceito será trabalhado; no cartão verde está
a descrição do conceito propriamente dito e o cartão amarelo refere-se a um
exemplo relacionado ao conceito. Cada aluno receberá um kit com 3 cartões,
um de cada cor, porém misturados. Cada um lerá o conteúdo de seus cartões
individualmente e tentará associar conceito-definição.
2. Em plenária, iniciar a atividade. Um aluno diz a palavra contida no cartão
vermelho e, o outro, com a descrição da definição, de identifica e completa a
definição, fazendo um par. A seguir, juntar-se-á a esse par, o terceiro aluno (que
se identificará) com o cartão amarelo com o mesmo termo e dará um exemplo
referente ao conceito que está sendo discutido. O professor estimulará os alunos
a desenvolverem outros três exemplos para cada conceito, preferencialmente
trazidos de seu ambiente de trabalho. Isso facilitará a fixação dos conceitos.
3. É fundamental que dúvidas sejam esclarecidas ou mesmo que opiniões divergentes
sejam explicitadas, pois, ao final da atividade, deveremos estar trabalhando
com conceitos homogêneos ou muito próximos disso. Portanto, mão à obra.
4. Atividade não presencial – Os conceitos trabalhados em sala estarão descritos
em texto complementar a ser entregue, após a aula. Esse material deverá ser
relido por todos para auxiliar na fixação dos conceitos e também na construção
do mapa conceitual de cada um. Cada aluno deverá escolher três conceitos
discutidos em aula e desenvolver um exemplo (por escrito) para cada um,
utilizando informações de seu ambiente de trabalho. Essa atividade deverá ser
entregue para o professor na aula seguinte.

107
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo IV - Atividade não presencial
(deverá ser entregue para o professor na próxima aula)
PRINCIPAIS CONVEITOS RELACIONADOS AO ENVELHECIMENTO

Aluno(a):..........................................................................................

Conceito 1:
Exemplo:

Conveito 2:
Exemplo:

Conceito 3:
Exemplo:
TEXTO DE APOIO

PRINCIPAIS CONCEITOS
RELACIONADOS AO ENVELHECIMENTO

GERONTOLOGIA - De origem grega, significa estudo do envelhecimento. É o


campo multi e interdisciplinar que visa à descrição e à explicação das mudanças
típicas do processo do envelhecimento e de seus determinantes genético-biológicos,
psicológicos e socioculturais. Interessa-se pelo estudo das características dos idosos,
bem como pelas várias experiências de velhice e envelhecimento ocorridas em
diferentes contextos socioculturais e históricos. Abrange aspectos do envelhecimento
normal e patológico.
GERIATRIA - Representa o estudo clínico da velhice. Compreende a prevenção e
o manejo das doenças do envelhecimento. É uma especialidade médica.
ATITUDES EM RELAÇÃO À VELHICE - Representa nossa disposição em relação a
uma pessoa ou grupo de pessoas e é construída a partir de um conjunto de juízos que
conduzirão a um comportamento. Desenvolve-se a partir de nossas experiências e da
informação que possuímos sobre as pessoas ou grupo de pessoas.
“AGEISM” - Refere-se, essencialmente, às atitudes que os indivíduos e a
sociedade têm frequentemente com os demais em função da idade. Já, a discriminação
por idade descreve a situação em que a idade é o fator decisivo. É considerado o
prejuízo mais importante, a discriminação mais significativa, a rejeição mais cruel è
o terceiro grande “ismo”, depois de racismo e sexismo.
Exemplo 1: o empregador que decide contratar, promover, retreinar ou aposentar/
dispensar um funcionário com base somente na idade. Ainda que reparar na idade
de um indivíduo não seja inerentemente ofensivo, agir por estereótipos baseados em
idade é claramente um preconceito contra o indivíduo, que frequentemente não é
contestado pela sociedade.
IDOSO - “Idoso” no Brasil refere-se a toda e qualquer pessoa a partir dos 60
anos de idade. Isso está oficialmente determinado pela Política Nacional do Idoso
e pelo Estatuto do Idoso, leis vigentes em nosso país. A determinação cronológica
do envelhecimento (por idade) é realizada para facilitar a organização de serviços
assistenciais e a distribuição de alguns benefícios. O limite etário aqui estabelecido
segue orientação da Organização Mundial de Saúde que diz que, em países desenvolvidos
(como Estados Unidos, Japão, Canadá, países europeus, etc) é considerada idosa toda
pessoa a partir dos 65 anos de idade e, nos países em desenvolvimento, como é o
caso do Brasil, ainda hoje, esse limite etário é de 60 anos. Isso é devido às diferentes

111
MÓDULO IV Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento Texto de Apoio Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento

condições de vida a que a população é submetida o que pode, em especial com os pela referência a uma idade cronológica precisa, mas por ser essa uma forma de
economicamente menos favorecidos, gerar um “envelhecimento mais precoce”. tratamento das pessoas de mais idade, que não adquiriu ainda uma conotação
depreciativa. A invenção da terceira idade é compreendida como fruto do processo
ENVELHECIMENTO - Processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível,
crescente de socialização da gestão da velhice: durante muito tempo considerada
não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os
como própria da esfera privada e familiar, uma questão de previdência individual
membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer
ou de associações filantrópicas, ela se transformou em uma questão pública. Um
frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de
conjunto de orientações e intervenções foi definido e implementado pelo aparelho
morte.
de Estado e outras organizações privadas. Como consequência, tentativas de
EXPECTATIVA DE VIDA - Em biologia é normalmente definida como a duração homogeneização das representações da velhice são acionadas e uma nova categoria
média de vida esperada para os membros de uma espécie a partir do nascimento. cultural é produzida: as pessoas idosas, como um conjunto autônomo e coerente que
Para a demografia é a estimativa sobre a duração média da vida de uma coorte por impõe outro recorte à geografia social, autorizando a colocação em prática de modos
ocasião do nascimento. específicos de gestão.
CAPITAL DE SAÚDE - “Capital de Saúde” é um conceito da área de economia que SENESCÊNCIA - Senescência é o processo natural de envelhecimento ou o conjunto
foi trazido para a saúde e foi associado a um conceito sociológico - CURSO DE VIDA, de fenômenos associados a este processo. A senescência é um processo metabólico
ou seja, o que ocorre ao final da vida está associado a tudo o que se fez antes, ao ativo essencial para o envelhecimento. Tais alterações têm por característica principal
que foi poupado e ao que foi gasto. Assim, Capital de Saúde pode ser compreendido a diminuição progressiva de nossa reserva funcional. Isto significa dizer que um
como a somatória dos investimentos e dos gastos em saúde. Menos investimento e organismo envelhecido, em condições normais, poderá sobreviver adequadamente,
mais consumo significa menor estoque de saúde. Por outro lado, mais investimento porém, quando submetido a situações de estresse físico, emocional, etc; pode
e menos consumo significa maior estoque de saúde onde o resultado final dependerá apresentar dificuldades em manter sua homeostase manifestando assim, sobrecarga
do “Capital inicial” (que nasce conosco), do “Nível de investimento” e do “ Grau de funcional, que pode culminar em processos patológicos.
consumo” que teremos durante o curso de vida.
SENILIDADE - Termo atribuído à presença de doenças e limitações que podem
TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA - Transição demográfica é um conceito que surgir ao longo da vida, como a osteoporose, a hipertensão arterial e o câncer. Estas
descreve a dinâmica do crescimento populacional, decorrente dos avanços da são características do envelhecimento patológico e necessitam de abordagem e
medicina, urbanização, desenvolvimento de novas tecnologias, taxas de natalidade tratamento específicos. É verdade que as doenças, principalmente o câncer e as
e outros fatores. Em primeiro lugar, explica porque a população mundial disparou crônico-degenerativas, são muito mais prevalentes na população idosa, mas atribuir
nos últimos 200 anos (passando de um bilhão de habitantes no ano 1800 aos sete estas condições como esperadas para idades avançadas é um equívoco.
bilhões na atualidade). Em segundo lugar, descreve o período de transformação
de uma sociedade pré-industrial (caracterizada por ter taxas de natalidade e de FUNCIONALIDADE - Funcionalidade diz respeito aos níveis de “funcionamento”
mortalidade altas) a uma moderna ou pós-industrial (caracterizada por ter ambas as (função) de uma pessoa em diferentes áreas. Baseia-se no conceito de função, ou
taxas baixas). Explica também porque, atualmente, temos um grande crescimento seja, a capacidade do indivíduo para adaptar-se aos problemas de todos os dias apesar
da população idosa na população total e, consequentemente, convivemos com mais de possuir uma incapacidade física, mental ou social. Envolve aquelas atividades que
idosos no dia-a-dia (diminuição da natalidade, diminuição da mortalidade e aumento são desenvolvidas diariamente e estão diretamente relacionadas ao autocuidado, ao
da expectativa de vida). cuidado de seu entorno e à participação social. A funcionalidade de uma pessoa pode
ser mensurada por meio da avaliação funcional.
TRANSIÇÃO EPIDEMIOLÓGICA - Refere-se às mudanças ocorridas no tempo nos
padrões de morte, morbidade e invalidez que caracterizam uma população específica AVALIAÇÃO FUNCIONAL - Avaliação funcional foi definida por Lawton em 1971,
e que, em geral, ocorrem, em conjunto com outras transformações demográficas, como “uma tentativa sistematizada de mensurar objetivamente os níveis nos quais
sociais e econômicas. O processo engloba três mudanças básicas: substituição uma pessoa funciona numa variedade” de áreas tais quais integridade física, qualidade
das doenças transmissíveis por outras não transmissíveis e causas externas; o da automanutenção, qualidade no desempenho dos papéis, estado intelectual,
deslocamento das cargas de morbi-mortalidade dos grupos mais jovens para os mais atividades sociais, atitude em relação a si mesmo e ao seu estado emocional”. Para
idosos e, transformação de um padrão onde predomina a mortalidade para outro Granger, 1984 “é um método para descrever habilidades e atividades em ordem de
onde a morbidade é predominante. mensurar o uso individual de uma variedade de habilidades incluídas no desempenho
de tarefas necessárias na vida diária, nos compromissos vocacionais, nas interações
TERCEIRA IDADE - Terceira Idade é uma expressão que recentemente e com sociais, nas atividades de lazer, e outros comportamentos requeridos”.
muita rapidez popularizou-se no vocabulário brasileiro. A expressão, de acordo com
Laslett (1987), originou-se na França com a implantação, nos anos 70, das Universités ATIVIDADES DE VIDA DIÁRIA - As atividades de vida diária (AVD) são as tarefas
du T’roisième Âge, sendo incorporada ao vocabulário anglo-saxão com a criação das de desempenho ocupacional que o indivíduo realiza diariamente. Podem também
Universities of the Third Age em Cambridge, na Inglaterra, no verão de 1981. Seu uso ser denominadas atividades cotidianas. Subdividem-se em básicas, instrumentais e
corrente entre os pesquisadores interessados no estudo da velhice não é explicado avançadas.

112 113
MÓDULO IV Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento Texto de Apoio Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento

ATIVIDADES BÁSICAS DE VIDA DIÁRIA - Envolvem as atividades de autocuidado DEPENDÊNCIA COMPORTAMENTAL - Frequentemente antecedida pela
como alimentar-se, banhar-se, vestir-se, arrumar-se, mobilizar-se, manter dependência física (biologicamente induzida) e consequente a uma real incompetência
controle sobre suas eliminações, deambular. Quando comprometidas requerem, física; a dependência comportamental é socialmente induzida, independente do nível
necessariamente, a presença de um cuidador. Seu comprometimento implica em de competência do idoso. O ambiente espera incompetência e dá ajuda mesmo que
maior dependência das pessoas idosas e, portanto, maior necessidade de assistência. isso seja desnecessário ou indesejável sob a pena de ser considerado irresponsável e
negligente e torna-se assim determinante de desamparo e dependência. Um ambiente
ATIVIDADES INSTRUMENTAIS DE VIDA DIÁRIA - Indicam a capacidade de um
de baixa exigência, ao contrário, caracteriza-se pela superproteção que por sua vez,
indivíduo em levar uma vida independente dentro da comunidade. Envolve as seguintes
atividades: realizar compras, manipular medicamentos, utilizar transporte, utilizar ocasiona dependência.
telefone, realizar tarefas domésticas leves e pesadas, preparar refeições quentes e BEM ESTAR SUBJETIVO - Resultado da avaliação que o indivíduo realiza sobre
administrar as próprias finanças. Quando comprometidas requerem uma reorganização as suas capacidades, as condições ambientais e a sua qualidade de vida, a partir
familiar de forma a assistir adequadamente as necessidades da pessoa idosa e permitir de critérios pessoais combinados com os valores e as expectativas que vigoram na
que ela mantenha, pelo maior tempo possível, sua autonomia e independência. sociedade. Seu indicador mais conhecido é a “satisfação com a vida”.
AUTONOMIA - Autonomia é um termo de origem grega cujo significado está CAPACIDADE FUNCIONAL - Relaciona-se à medida do grau de conservação
relacionado com independência, liberdade ou autossuficiência. É o exercício do da capacidade do indivíduo para realizar as atividades de vida diária (básicas ou
autogoverno. Inclui: liberdade individual, privacidade, livre-escolha, liberdade e instrumentais). Ao se avaliar a capacidade funcional de um idoso verifica-se por
harmonia como os próprios sentimentos e necessidades. Em Filosofia, autonomia é um lado, as ações que o mesmo é capaz de realizar e de outro a presença de
um conceito que determina a liberdade de indivíduo em gerir livremente a sua vida,
necessidade de ajuda para realizá-las. Tais ações são avaliadas diretamente por meio
efetuando racionalmente as suas próprias escolhas. Neste caso, a autonomia indica
da observação de sua execução. É importante salientar que se deve diferenciar a
uma realidade que é dirigida por uma lei própria, que apesar de ser diferente das
execução da ação, da capacidade em executá-la. A avaliação da ajuda requerida
outras, não é incompatível com elas.
para completar determinada ação é realizada pós-determinação das ações que o
INDEPENDÊNCIA - O aspecto central do conceito de independência é a idoso demonstra dificuldade ou incapacidade de realizar sozinho. Desta avaliação
capacidade funcional que, em sua expressão máxima, significa poder sobreviver resulta uma classificação, onde o idoso aparecerá como dependente (em maior ou
e desempenhar, sem ajuda, as atividades de vida diárias. A independência não é menor grau) ou independente.
condição necessária para a autonomia embora seja uma condição frequentemente
presente em pessoas capazes de decidirem por si. Não confunda os conceitos de FAMÍLIA - É uma criação do ser humano em resposta ao seu desejo de ter um grupo
“autonomia” e “independência”. Uma pessoa pode ter algum comprometimento de pessoas que atuem sobre interesses comuns e com um desenvolvimento afetivo, em
funcional, mas preservar sua autonomia, ou seja, seu poder de decidir o que quer e que os afetos são recíprocos, para obter soluções para os problemas do ciclo vital. Tal
como quer. sistema é representado por uma rede de relações de parentesco cujo funcionamento
depende da forma como estas relações se organizam. Idealmente é o lugar significativo
DEPENDÊNCIA - É a incapacidade de a pessoa funcionar satisfatoriamente sem e estável que proporciona o encontro harmônico das pessoas onde podem descobrir e
ajuda, por limitações físico-funcionais e/ou por limitações cognitivas. É necessariamente dar à sua presença e à sua participação um sentido pleno, comprometido e responsável
o grau de dependência que determinará os tipos de cuidados que vão ser necessários e possibilitando assim o desenvolvimento de vínculos incondicionais.
como e por quem os mesmos poderão ser mais apropriadamente realizados
FAMÍLIAS FUNCIONAIS - São aquelas que têm a capacidade de prover e assistir
DEPENDÊNCIA FÍSICA - Definida como incapacidade funcional, desamparo prático às necessidades de seus membros efetivamente. São representadas por grupo de
ou incapacidade individual para realizar atividades de vida diária. Existe em diferentes pessoas desenvolvido e amadurecido com funções recíprocas, vivenciadas a partir
graus de dependência funcional, dependendo de quais e quantas incapacidades estão da abertura, comunicação, respeito e aceitação de todos. Todas as decisões são
incluídas na avaliação. Esta dependência torna-se mais pronunciada quando o idoso harmônicas visando o bem dos indivíduos e do grupo como um conjunto. Neste grupo
é acometido por doenças cerebrais degenerativas ou por doenças incapacitantes. A também ocorrem conflitos e confusões, mas existe uma predisposição a mudanças
incapacidade orgânica, no entanto, não é nem condição necessária nem suficiente para e recursos atualizáveis a atendê-las. A essência deste grupo é a aceitação do outro
determinar a dependência. Na dinâmica das interações sociais e na percepção social, e a dinâmica da reciprocidade dos papéis. Seus membros são ao mesmo tempo
a dependência física é frequentemente interpretada como sinal de incompetência
independentes e interdependentes, ou seja, são autônomos no que diz respeito
geral, geradora de dependência generalizada.
às questões pessoais, mas comprometidos em seus vínculos familiares de forma
DEPENDÊNCIA ESTRUTURADA - Onde o significado do valor do ser humano é recíproca. Nesse grupo há aceitação recíproca e positiva do outro, além de respeito,
determinado, primariamente, pela participação no processo produtivo. Esta seria conhecimento, compreensão, responsabilidade e estabilidade emocional. Embora
gerada pela perda do trabalho e/ou aposentadoria. Em essência, a cultura estabelece acolhedor e flexível, é um grupo firme capaz de responder às demandas apresentadas
as bases para a dependência, na medida em que sua estrutura social até requer de forma correta e adequada sem no entanto sobrecarregar excessivamente qualquer
dependência de certos grupos da população para poder funcionar. um de seus membros.

114 115
MÓDULO IV Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento Texto de Apoio Principais Conceitos Relacionados ao Envelhecimento

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS - São grupos severos e rígidos, com funções estáticas material, serviços e informações; estabelecer novos contatos sociais. Familiares,
e vínculos unidirecionais e imutáveis onde não há um comprometimento com a vizinhos, amigos e conhecidos compõe a rede de relações e apoio informais. O
dinâmica e a vida do sistema por parte de seus membros que costumam priorizar seus tamanho da rede de relações sociais decresce com a idade, assim como o suporte
interesses particulares em detrimento do grupo e não assumem seus papéis dentro do social recebido (por doença e por morte dos membros mais velhos da rede). O
sistema. Possuem vínculos afetivos superficiais e instáveis e alto grau de agressividade suporte social oferecido mantém-se estável (nessa estatística tem peso importante
e hostilidade entre seus membros mesmo que não abertamente colocados. Raramente as mulheres idosas, que são as cuidadoras principais de seus maridos doentes).
são capazes de resolver situações críticas como uma questão grupal, de forma
adequada e com frequência identificam a “crise” como responsabilidade única do RESILIÊNCIA - Termo utilizado na Física para indicar uma característica de
membro que a desencadeou, lido aqui como um “estorvo”. Qualquer mudança no materiais que conseguem retornar a sua forma anterior após serem alvos de pressão,
papel ou na expectativa do papel de algum de seus membros ocasiona confusão e como por exemplo, a mola e o elástico. Para os seres humanos refere-se à capacidade
desestruturação do grupo, pois os outros membros não estão prontos a se adaptar. A de o indivíduo adaptar-se de maneira positiva diante de situações adversas, mantendo
essência desse grupo é a rigidez que se exterioriza com uma estabilidade e harmonia seu desenvolvimento normal e recuperando-se dos efeitos estressores. A velhice é
aparentes, porém frágeis que se desfazem frente à necessidade de modificações em caracterizada como uma etapa em que há uma redução das reservas, ou seja, uma
sua estrutura para as quais não estão prontos a responder. diminuição de recursos internos e externos. Tal redução é resultante de uma alteração
FRAGILIDADE - Várias são as definições de fragilidade e não há um consenso sobre no equilíbrio entre ganhos e perdas, sendo as últimas mais frequentes, de ocorrência
o assunto. Uma das autoras mais citadas (Fried) define Fragilidade como um processo simultânea. Assim, o quadro que melhor descreve a velhice apresenta-a como o
fisiopatológico único, resultado de alterações em uma série de mecanismos biológicos resultado de uma confluência de riscos, desafios e ganhos, o que sugere a necessidade
que leva a alterações de múltiplos sistemas e, eventualmente, ao rompimento do de aumentar a resiliência, com a finalidade de manter o funcionamento adaptativo.
equilíbrio homeostático. Fragilidade é, assim, considerada uma síndrome clínica
caracterizada pela diminuição da reserva energética e pela resistência reduzida VULNERABILIDADE - Vulnerabilidade, refere-se tanto a um grupo de pessoas
aos estressores, que resulta do declínio cumulativo dos sistemas fisiológicos e causa momentaneamente incapazes de exercer sua liberdade por uma contingência física
vulnerabilidade às condições adversas, por haver dificuldade de manutenção da ou como consequência de seu percurso de vida, como a um grupo também incapaz,
homeostase em situações de exposição às perturbações, tais como, alterações de mas, por consequências “sociais” e/ou “políticas”. Pode assim, ser um qualificador de
temperaturas ambientais e variações na condição de saúde. pessoas ou grupos ou uma condição humana, universal, irredutível e inalienável. Como
princípio, abarca ambos os sentidos, sendo acrescido de uma obrigação moral como um
CUIDADOR - É a pessoa que cuida de pessoas idosas que necessitem de
dever a ser cumprido. Assistir a pessoa vulnerável significa assegurar-lhe proteção de
acompanhamento ou cuidado, auxiliando no desenvolvendo atividades cotidianas de
forma a garantir uma melhor qualidade de vida e a manutenção de sua integração vida para além da proteção de sua integridade moral, dignidade humana e autonomia.
com a sociedade. No ser humano, a vulnerabilidade assume diferentes formas e dimensões:

DEFICIÊNCIA (impairment) - Refere-se a qualquer perda ou anormalidade a) vulnerabilidade biológica, continuamente desequilibrada por elementos
de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. Pode ser física, biologicamente desestruturantes, necessitando de autopoiese e auto-
auditiva, visual, mental ou múltipla. organização;

INCAPACIDADE (disability) - Reflete as consequências das deficiências em b) vulnerabilidade psicológica, dependente da construção da psique da pessoa
termos de desempenho e da funcionalidade do indivíduo. com base em suas experiências afetivas e imaginativas;
DESVANTAGEM (handcap) - É a perda ou limitação das oportunidades de c) vulnerabilidade espiritual, que utiliza recursos simbólicos no auxílio do
participar da vida em comunidade em igualdade de condições com as demais pessoas enfrentamento dos desafios e para transcender os limites impostos pela
que não tem deficiência. realidade;
ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO (Coping) - São definidas como o uso que as d) vulnerabilidades cultural, social e ambiental, produzidas pelo entorno
pessoas fazem de estratégias cognitivas e comportamentais com o objetivo de lidar sociocultural.
com demandas internas ou externas específicas que surgem em situações estressantes
ou adversas. Referem-se ainda, à maneira pela qual as pessoas processam a informação
recebida e respondem a tipos particulares de estresse. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
REDE DE SUPORTE SOCIAL - Conjunto hierarquizado de pessoas que mantém Neri, AL. Palavras-chave em Gerontologia. Campinas. Atheneu, 2005 (Coleção Velhice
entre si laços típicos das relações de dar e receber. Elas existem ao longo de todo o e Sociedade). 2ª. ed.
ciclo vital, atendendo à motivação básica do ser humano à vida gregária. No entanto,
sua estrutura e suas funções sofrem alterações dependendo das necessidades das Goldani AM. Desafios do “preconceito etário” no Brasil. Educ Soc. Campinas. 2010;
pessoas. Entre suas principais funções cita-se dar e receber apoio emocional, ajuda 31(111):411-34.

116 117
MÓDULO V
Condições Crônicas e
Envelhecimento

PARTE 1

Quando falamos em construir, de forma lógica e organizada


o “cuidado” a ser prestado a alguém, devemos ter claro
em nossa mente de que “público-alvo” estamos falando.
Dessa forma, proponho que na aula de hoje conversemos
sobre o processo de envelhecimento e suas implicações
para o cuidado da pessoa idosa.
Para essa aula proponho a seguinte dinâmica:
1. Inicialmente, individualmente, cada um de vocês irá
descrever as principais modificações (físicas/funcionais,
psicológicas e sociais) que acreditam que ocorram com as
pessoas em decorrência do processo de envelhecimento
(atividade 1).
2. Em seguida, nos reuniremos em pequenos grupos e
procuraremos chegar a um consenso sobre as descrições
em cada campo que serão, em seguida, discutidas em plenária (atividade 2).
3. Para a plenária (atividade 3), sugiro que sejam feitos três grupos, um para
descrever as modificações sociais, outro para as modificações psicológicas e
outro para as modificações físicas. Sugiro que cada um dos grupos encene uma
situação referente a cada conjunto de modificações que, em conjunto, serão
discutidas. Lembrar de situações vivenciadas em seu ambiente de trabalho
podem auxiliar na construção da representação.
4. Após a apresentação de cada grupo deverá ser feita uma síntese (atividade  4)
relacionada às principais modificações relacionadas ao processo de
envelhecimento com a participação de todos de forma a serem fixadas
permitindo a elaboração do melhor cuidado à pessoa idosa.

119
MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento

5. É fundamental que dúvidas sejam esclarecidas ou mesmo que opiniões


divergentes sejam explicitadas, pois, ao final da atividade, o grupo deve ser capaz Secretaria Municipal da Saúde
de identificar as principais modificações que ocorrem com o envelhecimento e suas Coordenação de Gestão de Pessoas
implicações para o cuidado da pessoa idosa. Escola Municipal de Saúde

6. Após a finalização da atividade 4, vamos ler o texto de apoio para


complementar nossas discussões. Se não for possível finalizá-lo em sala de aula, GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
deveremos fazê-lo como atividade não presencial, pois seu conteúdo será fundamental À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
para as aulas subsequentes. Módulo V - Atividade 1 (atividade individual)
MODIFICAÇÕES QUE OCORREM COM OS INDIVÍDUOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

Aluno(a):..........................................................................................

1. Descreva as principais modificações físico-funcionais que ocorrem com as pessoas


em decorrência do processo de envelhecimento (composição corporal, sistema
sensorial, sistema tegumentar, sistema cardiovascular, sistema respiratório, sistema
neurológico, sistema digestório, sistema músculo-esquelético)

2. Descreva as principais modificações da esfera psicológica que acometem as pessoas


no processo de envelhecimento

3. Descreva as principais modificações sociais relacionadas aos idosos e ao processo


de envelhecimento

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Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

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À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo V - Atividade 2 (Atividade Individual)
MODIFICAÇÕES QUE OCORREM COM OS INDIVÍDUOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

Aluno(a):..........................................................................................

Em pequenos grupos vamos conversar sobre as descrições individuais e construir


coletivamente uma descrição relativa a cada conjunto de modificações:

1. Modificações físico-funcionais:
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2. Modificações psicológica
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3. Modificações sociais
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Módulo V - Atividade 3 (Representação das Modificações Discutidas)
MODIFICAÇÕES QUE OCORREM COM OS INDIVÍDUOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

Aluno(a):..........................................................................................

Agora que conversamos em grupo sobre as principais modificações que ocorrem


com o envelhecimento, vamos nos lembrar dos idosos que atendemos em nosso
local de trabalho. Vamos nos dividir em três grandes grupos e, cada um deles, será
responsável por representar uma situação que ilustre as modificações que ocorrem
no envelhecimento.

1. Grupo 1 - Modificações físico-funcionais (descreva a situação a ser representada


a seguir):
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2. Grupo 2 - Modificações psicológicas (descreva a situação a ser representada a


seguir):
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3. Grupo 3 - Modificações sociais (descreva a situação a ser representada a seguir):


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Módulo V - Atividade 4 (Síntese após Plenária)
MODIFICAÇÕES QUE OCORREM COM OS INDIVÍDUOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

Aluno(a):..........................................................................................

Vamos finalizar as atividades com uma síntese da classe sobre as principais modi-
ficações relacionadas ao processo de envelhecimento que serão complementadas
com a leitura do texto de apoio.

3. Modificações físico-funcionais:
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4. Modificações psicológicas
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5. Modificações sociais
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TEXTO DE APOIO

MODIFICAÇÕES QUE OCORREM COM


OS INDIVÍDUOS NO PROCESSO DE
ENVELHECIMENTO

INTRODUÇÃO
É cada vez mais comum convivermos com um número cada vez maior de pessoas
idosas, ou seja, homens e mulheres com idade igual e superior a 60 anos. Popularmente
costumamos chamá-los de “velhos”, terceira idade, maior idade, melhor idade, etc.
A maioria das pessoas idosas vive de forma independente em suas próprias
casas, sozinha ou com parentes. A maioria, também, costuma ser portadora de uma
ou mais doenças crônicas como, por exemplo, hipertensão e diabetes. Isso não as
torna pessoas doentes, pois, desde que façam um acompanhamento de saúde de
forma regular, tomem seus medicamentos conforme indicado e modifiquem alguns
hábitos de vida, tais doenças não serão geradoras de situações que comprometam
uma vida independente e ativa.
Entre as pessoas idosas também encontramos outras que, ao contrário do que
comentamos, não se encontram em boas condições de saúde. Elas podem ter até
as mesmas doenças, mas, devido a maior gravidade ou pior acompanhamento das
mesmas, chegaram às idades mais avançadas com limitações funcionais, ou seja,
com problemas decorrentes de doenças pré-existentes que as fazem necessitar de
ajuda para desempenhar suas atividades do dia-a-dia.
Compreender o que ocorre nessa fase da vida é fundamental para o planejamento
de um cuidado adequado e compatível com as necessidades dos idosos com os quais
convivemos diariamente.

ENTENDENDO O ENVELHECER...
A velhice, terceira idade, melhor idade ou qualquer nome
que desejemos dar, nada mais é que uma fase da vida como
todas as outras pelas quais já passamos – infância,
adolescência, vida adulta, meia-idade... Assim como essas
fases tinham características peculiares, na idade mais
avançada elas também existem. Conhecê-las pode nos
auxiliar a desfrutar os próximos anos da melhor forma possível
e continuar nossa jornada na estrada da vida de forma
prazerosa e gratificante.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

No Brasil, segundo a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso, são doenças que podem estar presentes nessa fase da vida, às mudanças de papel ou status
consideradas idosas todas as pessoas a partir dos 60 anos de idade. Embora seja social, mudanças econômicas e modificações na sua rede de suporte social.
estabelecido esse limite cronológico mínimo, o mesmo não é feito em relação ao
limite máximo. ASPECTOS PSICOLÓGICOS
Pode-se pensar “saúde” para a pessoa idosa como a resultante da soma entre
saúde física e mental, independência econômica, independência no desempenho das Para a melhor compreensão do estado emocional de uma pessoa idosa, deve-
atividades do dia-a-dia, suporte familiar e a existência de uma rede de amigos ou se buscar contextualizá-lo junto a sua história de vida, pois, com frequência, suas
de pessoas em quem confiamos e com quem podemos contar quando necessário. reações emocionais estarão diretamente relacionadas às vivências acumuladas no
Qualquer dessas dimensões; juntas ou isoladamente, quando comprometidas, pode decorrer de toda a sua existência.
afetar nossa capacidade em viver de forma autônoma (decidindo o que queremos) e
Na tentativa de se obter uma compreensão ampla e profunda da situação atual
independente (não precisando de ajuda), repercutindo consequentemente em nossa
da pessoa idosa e evitar uma análise superficial, estereotipada e preconceituosa,
qualidade de vida.
geralmente dirigida apenas ao comportamento apresentado por ela no momento, é
Tais coisas são resultado de uma construção de toda uma vida, a vida que fundamental conversar, além da própria pessoa, com seus familiares e com outras
vivemos ou que escolhemos viver. No entanto essa é uma conta aberta a qual podemos pessoas de seu entorno. Deve-se também considerar que essa pessoa apresenta
adicionar novos créditos todos os dias. Assim, olhar para o passado não deve servir características próprias de personalidade.
para olharmos o que não fizemos. Esse olhar deve, ao contrário, nos impulsionar para
o futuro, renovando-nos a cada dia. Toda manhã, ao acordarmos, devemos encarar o O núcleo da personalidade é estabelecido na infância e permanece em níveis
desafio de viver o melhor dia de nossas vidas. mentais inconscientes, tendo seus efeitos refletidos na vida adulta. Dessa forma, a
capacidade de adaptação do idoso às mudanças que ocorrem com o envelhecimento
dependerá de seu histórico de conflitos emocionais (não intensos) nas idades mais
COMO FAZER ISSO SE TENHO UMA OU MAIS DOENÇAS?
jovens. Assim, suas respostas serão eficientes, adequadas e não regressivas. Se, ao
Como dissemos, ao envelhecer é frequente observarmos a presença de uma ou contrário, a pessoa idosa tiver vivenciado situações emocionais traumáticas em idades
mais doenças juntas, em sua maioria de natureza crônica: hipertensão; diabetes, precoces, mesmo que inconscientes, isso poderá contribuir no desenvolvimento de
osteoporose, etc. Todas elas têm, em comum, a característica de serem crônicas, ou distúrbios de adaptação ou de problemas psicológicos nas idades mais longevas.
seja, não tem cura mas, tem tratamento e podem ser controladas.
O que seria, então, saúde mental na velhice?
A medicina avançou muito e consegue controlar a maioria das doenças das
pessoas idosas com medicamentos (remédios), alimentação adequada e exercícios Em linhas gerais, admite-se, que um adulto psiquicamente saudável apresentaria
contribuindo para que seja possível viver muitos anos com essas doenças sem qualquer um equilíbrio entre a satisfação de suas necessidades pessoais e a de seus objetos
problema maior. Com certeza morreremos com essas doenças, o que não precisamos, de amor, maior tolerância a frustrações, controle dos impulsos agressivos, uma
no entanto, é morrer por causa delas ou, o que ainda é pior, ficarmos dependentes autoimagem positiva e maior eficácia na avaliação da realidade. Assim, a velhice
em consequência delas e necessitarmos da ajuda de outras pessoas para fazer as “saudável” dependerá de laços afetivos satisfatórios, tolerância ao estresse,
coisas que gostamos todos os dias. Os problemas só acontecerão se acreditarmos, espontaneidade, otimismo, capacidade de atualizar-se e de sentimentos de segurança
erroneamente, que nos “curamos” dessas doenças e, assim, abandonarmos o e autoestima.
tratamento que fazíamos. Se eu tenho que tomar o “remédio” da pressão todos os Há várias explicações para os aspectos psicológicos relacionados ao
dias, assim tem que ser. A minha pressão ficará controlada justamente porque estou envelhecimento. Uma delas está baseada na teoria do apego que pressupõe que uma
fazendo o tratamento correto.
relação afetiva segura e duradoura entre a criança e seus cuidadores primários (p.ex:
pais) é a base para o desenvolvimento do senso de competência e do funcionamento
QUAIS SERIAM OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS RELACIONADOS AO autônomo. Viver e se desenvolver em um ambiente acolhedor e estimulador
ENVELHECIMENTO? contribuem para o estabelecimento e preservação de sentimentos de segurança e
O envelhecimento é um processo biopsicossocial e, embora muita ênfase seja autonomia no transcorrer da vida.
dada aos aspectos biofuncionais no planejamento assistencial, a compreensão da Quando, por outro lado, prevalecem experiências negativas, adquiridas a
dinâmica psicossocial da pessoa idosa é fundamental na compreensão da evolução partir de vínculos precoces pouco amorosos e desfavoráveis ao desenvolvimento
de seu processo de vida. de uma autoimagem positiva, as adversidades típicas da vida ou as que podem ser
Os aspectos psicossociais envolvem os aspectos psicológicos e os sociais experimentadas durante o processo de envelhecimento serão enfrentadas com
normalmente muito relacionados nesse grupo etário. Muitas são as respostas emocionais intolerância e inconformismo, por reascenderem sentimentos de hostilidade e de
apresentadas pelos idosos como resultado do processo de envelhecimento normal, às autodepreciação.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

Parece haver algum consenso na opinião de que, com o avançar da idade, a situações adversas. Reações depressivas, algum nível de ansiedade e de instabilidade
pessoa vai desenvolvendo mais consciente de suas limitações. Quanto maior a rigidez emocional, são esperados e não devem ser confundidos com doenças.
da adaptação de seu caráter em idades mais precoces, mais severos os sintomas de
Distúrbios psicológicos ou “senilidade psíquica” estão muito mais relacionados
ansiedade e de insegurança com o avançar da idade.
a problemas pré-existentes do que ao processo de envelhecimento em si. Frente
O envelhecimento sempre será uma experiência individual, pois a maneira a sintomas emocionais importantes como, por exemplo, alto nível de angústia,
como cada pessoa direciona sua vida vai variar conforme a interação entre fatores desmotivação, agressividade acentuada, comportamentos bizarros; a avaliação de
genéticos, ambientais, sociais, econômicos, culturais e de saúde que vivenciou. um especialista deve ser solicitada.
Alguns autores admitem haver um equilíbrio entre ganhos e perdas durante todo o
O adoecimento sempre traz consigo alguns componentes de fragilização,
ciclo vital.
independentemente da idade ou da estrutura de personalidade. Sua presença acarreta
Envelhecer é, portanto, a construção de um caminho no transcorrer da vida e algumas repercussões psíquicas inevitáveis, como preocupações, angústias, medos,
não um problema específico que atinge as pessoas de uma determinada faixa etária. alterações na autoimagem e dependência (em maior ou menor grau). Quando a doença
As questões emocionais da velhice não têm a ver exclusivamente com esta etapa da ocasiona uma limitação e um estado de dependência permanente essas repercussões
vida, mas com a concepção de cada um sobre toda sua existência. somam-se a sentimentos de impotência, incompetência, autodesvalorização, revolta
e intolerância, que, em última análise, diminui significativamente a autoestima das
É importante lembrar que a pessoa idosa carrega consigo uma bagagem enorme pessoas acometidas.
de experiências que não deve ser subestimada. A memória do idoso tem importante
função social de transmissão de experiências e de conhecimentos sobre o passado, o Frente a esse quadro a mente humana aciona mecanismos de defesa, operações
que enriquece e humaniza a vivência com as gerações mais jovens. psíquicas inconscientes com o objetivo de reduzir ou suprimir a vivência de sofrimento.
Alguns desses mecanismos são:
A passagem do tempo favorece uma compreensão mais ampla, mais realística
e mais sintética da existência propiciando maior serenidade. A idade avançada • negação: procurar se afastar de algum aspecto desagradável da realidade
estimula reflexões existenciais, introspecção e autoquestionamento, o que pode sob o qual não se tem controle (p.ex: não acreditar em um diagnóstico de
ser interessante para o desenvolvimento pessoal, mesmo que a morte esteja mais câncer);
próxima. • regressão: assumir condutas comuns na infância diante de conflitos (p.ex:
A pessoa idosa, além de estar mais vulnerável a ocorrência de doenças, costuma excessivas queixas corporais, como forma de obter atenção evitando o
contato com o plano emocional);
enfrentar múltiplas situações de “perda” (aposentadoria, morte de entes queridos,
distanciamento dos filhos, alteração da própria imagem, doenças) incluindo a maior • projeção: colocar no mundo externo a percepção de um conteúdo interno
proximidade da própria morte. indesejável. (p.ex: atribuir ao profissional que o assiste agressividade e
intolerância, quando, na verdade, trata-se de um estado próprio de in-
É compreensível que ao atingir a última etapa da vida, o ajustamento do sujeito
conformismo);
idoso ao acúmulo de experiências de perdas diversas e à ideia da própria finitude,
dependerá da forma como lidou previamente com experiências correlatas. • formação reativa: comportar-se como se estivesse sentindo algo totalmen-
te oposto ao que realmente sente, para evitar o contato com sentimentos
Compreender que atitudes intransigentes, irritabilidade excessiva, solicitações
inaceitáveis (p. ex: ser amável demais, quando o sentimento subjacente
e queixas constantes podem estar refletindo uma fragilidade vivenciada pelo idoso
é de ódio ou revolta);
diante de suas limitações, auxilia no estabelecimento de um cuidado personalizado,
efetivo e adequado pois permitirá acolhe-lo em suas angústias (o que não significa • rigidez: resistir à mudanças ou à reflexão, para aliviar a insegurança (p.ex:
superproteção), estimulá-lo a enfrentar a realidade sem se desvalorizar e sem perder não aceitar sugestões de novas atividades, para demonstrar controle sobre
de vista os aspectos positivos de sua vida (que sempre existem). Caso contrário, sua vida);
é provável que o profissional se envolva em uma “atmosfera emocional” negativa
• isolamento: evitar o contato com as pessoas para fugir da realidade (p.ex:
tornando sua tarefa mais difícil e desgastante.
dormir excessivamente).
Toda perda envolve um “luto” e esse pode ser compreendido como um processo
Assim considerando, é importante estar atento a desajustes comportamentais
de adaptação e transformação que resulta em benefícios após o enfrentamento da
da pessoa idosa com alguma limitação/doença buscando compreende-los como
situação dolorosa, permitindo uma abertura para novos interesses, aprendizados,
expressão de defesas contra angústias inconscientes.
atividades e relacionamentos. Assim considerando, seria possível caracterizar a
“senescência psíquica” como a possibilidade da pessoa idosa encontrar satisfação O profissional de saúde é uma figura fundamental na manutenção do bem-estar
em viver, apesar das perdas ou de um estado de doença, o que dependerá de um psíquico da pessoa idosa que enfrenta problemas dessa natureza. No entanto, para que,
funcionamento psíquico no qual prevaleçam sentimentos construtivos mesmo em de fato, possa colaborar é importante, na medida do possível, que ele mantenha seu

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

próprio equilíbrio emocional, de modo a poder lidar com as manifestações de angústia carga de cuidados sob responsabilidade da família, principalmente as esposas e filhas.
do idoso, sem ser “contagiado” por elas. Só assim ele poderá evitar a adoção de atitudes Os amigos costumam, mais corriqueiramente, executar atividades instrumentais, tais
inadequadas como paternalismo, superproteção, condescendência, infantilização, como fazer compras, auxiliar nas atividades domésticas ou fazer companhia.
impaciência, displicência, que comprometem a qualidade do cuidado prestado.
Os amigos geralmente são contemporâneos e, por essa razão, muitas vezes,
apresentam as mesmas dificuldades ou limitações, dificultando a provisão de
ASPECTOS SOCIAIS cuidados. Na amizade tudo é voluntário, não havendo nenhum caráter de obrigação,
como pode ocorrer nos vínculos familiares. Mesmo assim, os amigos representam um
A atenção global à pessoa idosa dá ênfase não apenas os aspectos orgânicos vínculo extremamente significativo para o idoso para a manutenção de sentimentos
das doenças, mas também à sua vida como um todo o que inclui seu ambiente sócio- de bem-estar e de interação social, diminuindo a solidão e o isolamento.
familiar. Busca-se com isso conhecer o seu meio, verificar se há algo nesse contexto
que possa ser melhorado, adequado ou redimensionado de forma a assegurar que o Com relação aos vizinhos, são relacionamentos marcados pela proximidade
cuidado que ela necessita nessa fase da vida pode ser, adequadamente, ministrado. geográfica e contato frequente, características que podem ser associadas à provisão de
auxílio, informações e realização de pequenas tarefas, muitas vezes imprescindíveis
O ser humano é um ser social, por essa razão, estar inserido em um contexto para aqueles que têm mobilidade limitada. Nos grandes centros urbanos, no entanto,
social é essencial para sua sobrevivência. É nesse contexto que surgem as redes sociais. esse padrão de relacionamento vem desaparecendo. Não é incomum que em um
edifício, numa cidade como São Paulo, os vizinhos nem se conheçam.
O termo rede é utilizado para designar um determinado tipo de relação ou
prática social. Baseia-se na sociometria que descreve as atitudes de aproximação e As famílias vêm se modificando rápida e significativamente. Antigamente
repulsão dos indivíduos a que alguns autores denominam “psicologia geográfica” uma elas eram maiores, mais numerosas, frequentemente residiam no mesmo local,
vez que busca esboçar um mapa de relações para ser aplicado a grupos e comunidades compartilhando, muitas vezes, da mesma atividade laboral. Tamanha proximidade
(do tipo “quem conhece quem”). promovia um maior envolvimento entre seus membros, favorecendo a execução
do cuidado àqueles que assim necessitassem. Atualmente elas são menores, com
Esse conhecimento é importante, pois permite reconhecer as reais possibilidades
composição diferenciada e, já não contam, na maioria das vezes, com alguém que
existentes para a pessoa idosa de acessar os recursos comunitários além de permitir
fique disponível para assumir o cuidado de alguém quando necessário. Apesar disso
uma análise de suas interações sociais: família, amigos, outros parentes, relações de
ela ainda representa o recurso assistencial mais importante na vida do idoso.
trabalho, ligações comunitárias, etc.
Apesar da maior possibilidade de os idosos dependerem do apoio familiar à
O apoio social com que a pessoa idosa pode contar depende, geralmente, do
medida que envelhecem, não é a dependência o principal fator nas relações do idoso-
número potencial de relações de ajuda ou apoio social existente; da intensidade das
família. O fator preponderante dessa relação é, acima de tudo, a interdependência,
relações existentes (laços fortes ou fracos) e dos recursos necessários para acessar
pois, em muitas ocasiões são os idosos que proveem assistência e auxílio aos filhos,
tais relações. Os laços fortes (geralmente de parentesco ou amizade) costumam
netos e bisnetos.
representar uma melhor fonte de recursos apoiando-se na solidariedade e na
distribuição de outros recursos não facilmente mensuráveis (atenção, preocupação, No contexto familiar há, geralmente, uma expressão mais livre das emoções,
carinho, apoio, ajuda, etc). podendo gerar situações agradáveis e descontraídas, ou momentos tensos e
constrangedores. O contato próximo com o idoso e sua família poderá desencadear
As principais redes sociais das pessoas idosas são representadas pelas famílias, no profissional que os assiste inúmeras reações emocionais, conforme as relações ali
amigos e comunidade. estabelecidas. Não há como evitar um envolvimento com estas relações, porém ele
Com a diminuição cada vez mais expressiva do número membros no interior pode ser menos desgastante, mais profissional e ético.
das famílias, o apoio comunitário (amigos e vizinhos) torna-se cada vez mais usual Para compreender o que ocorre deve-se observar como a família está organizada.
e necessário para a efetivação da atenção à pessoa idosa. Atualmente, cuidado Qual o papel do idoso dentro da rede familiar? Com quem ele de fato pode contar
ofertado pela família e pela comunidade em parceria com o disponibilizado pelos afetiva e financeiramente? Onde estão os principais focos de conflitos?
profissionais constituem um importante suporte aos idosos mais dependentes.
Não cabe ao profissional “julgar” as atitudes do idoso ou de seus familiares,
A categoria amigos pode ser definida como “relacionamentos voluntários, pois seus valores morais, pessoais, culturais, religiosos, políticos ou outros, podem
predominantemente entre iguais, resultado do livre-arbítrio; onde há troca de afeição, ser muito diferentes. O profissional deve, ao contrário, procurar desenvolver uma
sem obrigatoriedade”. Os amigos são escolhidos com base em semelhanças entre as visão crítica, a mais neutra possível, buscando compreender o que está ocorrendo e
pessoas (gênero, etnia, status, escolaridade e faixa etária) e por apresentarem atributos por que não interferindo para que sejam mudados.
considerados desejáveis como lealdade, confiança, valores e interesses comuns. Eles
podem se predispor a vários tipos de assistência: companhia, compartilhamento de A pessoa idosa, no interior de sua família, pode ser valorizada, respeitada, amada
confidências, realização de serviços ou auxílio em atividades cotidianas. Frequentemente e auxiliada adequadamente em suas necessidades, mas pode, também, ser rejeitada,
desempenham um papel pequeno na ajuda ao idoso mais fragilizado, ficando a maior tratado com indiferença ou hostilidade e tida como um “peso”. Essas atitudes são

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

respostas que dependem da forma como as relações foram se estruturando ao longo de serem compensadas rapidamente podendo gerar situações em que a assistência
da história da família, bem como da disponibilidade e personalidade das pessoas (em maior ou menor grau) seja necessária.
envolvidas.
É fundamental, no entanto, que dois grandes erros não sejam cometidos:
Em certas situações, o profissional pode até fazer algumas sugestões ou solicitar
a) considerar que todas as alterações que ocorrem com um idoso sejam
colaboração visando melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa, mas, em nenhum
decorrentes de seu envelhecimento natural impedindo assim a detecção e o
momento, deve criar expectativas em relação ao que acredita ser adequado para
tratamento de processos patológicos ou
a vida do idoso, esquecendo-se das reais possibilidades afetivas do mesmo e das
pessoas com quem convive. b) tratar o envelhecimento natural como doença a partir da realização de
exames e tratamentos desnecessários originários de sinais e sintomas que
Em suma, o ambiente domiciliar pode ser harmonioso, saudável, tranquilo, mas podem ser facilmente explicados pela senescência.
pode também ser conflituoso e desarmonioso dependendo das relações afetivas que
foram construídas entre a pessoa idosa e seus familiares. O importante é estabelecer Em biologia, “senescência” é o processo natural de envelhecimento ou o conjunto
vínculos espontâneos, verdadeiros, nos quais os sentimentos, limites e potenciais de de fenômenos associados a este processo. As alterações decorrentes do processo de
cada um possam ser respeitados. senescência podem, em sua maioria, ter seus efeitos minimizados pela assimilação
de um estilo de vida mais ativo. Este conceito se opõe à “senilidade”, também
denominado envelhecimento patológico, e que é entendido como os danos à saúde
MAS TEM COISAS QUE MUDAM MESMO...
associados com o tempo, porém causados por doenças ou maus hábitos de saúde.
O envelhecimento é um processo fisiológico. Pode ser definido, como já O limite exato entre esses dois estados não é preciso o que dificulta sua
discutimos, como “um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, diferenciação. Essa dificuldade é consequência da indefinição da idade biológica, da
universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a grande variabilidade de comportamento do idoso perante fatores estressantes e de
todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fatores genéticos.
fazer frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto aumente sua possibilidade O ser humano, da concepção à morte, passa por diversas fases: desenvolvimento,
de morte”. puberdade, maturidade e envelhecimento. Entre as três primeiras fases citadas
O envelhecimento pode ser compreendido como a consequência da passagem é possível identificar marcadores físicos e fisiológicos de transição. O mesmo não
do tempo ou como o processo cronológico pelo qual um indivíduo se torna mais velho. acontece no envelhecimento, pois esse se manifesta pelo declínio linear em relação
Em nosso organismo o envelhecimento pode ser entendido como uma diminuição de ao tempo das funções dos diversos órgãos o que não permite definir um ponto exato
nossa capacidade de resposta a múltiplos desafios. de transição, como observado nas fases anteriores da vida.

Ao contrário do que imaginamos, começamos a envelhecer ao redor dos 20 Seu início é relativamente precoce, ao redor dos 20 anos de idade, fase essa em
anos de idade, mas, nessa fase isso não é percebido. Aos 30 anos começamos a que é pouco perceptível. No final da terceira década começam a surgir as primeiras
alterações funcionais e/ou estruturais atribuídas ao envelhecimento. Admite se,
perceber as primeiras alterações que irão se acentuar gradativamente com o avançar
como regra geral que, a partir dos 30 anos a cada ano haja perda de 1% da função/
da idade. É claro que isso difere de pessoa para pessoa dependendo das condições
ano.
físicas, ambientais e emocionais em que viveram. Por essa razão vemos pessoas da
mesma idade que são fisicamente muito diferentes. Essas alterações têm início discreto, e aumentam progressivamente diminuindo
a reserva funcional e comprometendo a capacidade do órgão de se adaptar às
O envelhecimento fisiológico ou normal pode também ser entendido como uma
modificações do meio interno e/ou externo. À exceção dos ovários e do timo tais
diminuição progressiva da denominada “reserva funcional”, ou seja, diminuição da alterações não causam insuficiência absoluta de um órgão ou sistema mesmo em
capacidade de resposta a desafios. Esta diminuição na capacidade está ligada a riscos idosos em velhice avançada. Paralelamente ao declínio funcional, ocorrem, alterações
progressivamente maiores de doença ou perda da capacidade de viver de forma (perdas e/ou desorganização estrutural) nas moléculas, nas células e nos tecidos
independente. Por esta razão, a morte é a consequência final do envelhecimento. que aumentam progressivamente com o passar dos anos. A seguir serão descritas as
A diminuição das reservas funcionais em seres humanos é lenta e progressiva, principais alterações estruturais que ocorrem no organismo humano visando subsidiar
sendo compatível com a vida saudável em idades muito avançadas (p.ex: centenários), o planejamento do cuidado a ser prestado.
uma vez que em condições normais ou rotineiras, não costuma provocar quaisquer
problemas. O estresse adicional causado pelas doenças (especialmente as crônicas) SISTEMA TEGUMENTÁRIO (PELE, CABELOS, UNHAS E GLÂNDULAS
e a existência de hábitos de vida considerados inadequados (como tabagismo, SUDORÍPARAS E SEBÁCEAS)
alcoolismo, sedentarismo, obesidade entre outros) são os grandes vilões para a
saúde das pessoas idosas, pois ao atingirem negativamente uma reserva funcional já As mudanças que ocorrem, com o envelhecimento, no sistema tegumentário
diminuída (em relação ao jovem) poderão causar insuficiências orgânicas incapazes são as mais visíveis pois afetam a aparência da pessoa.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

A pele é o maior órgão do corpo e é formada por uma camada mais externa A condução nervosa também é comprometida fazendo com que os reflexos
(epiderme) e uma intermediária (derme) ricamente provida de vasos sanguíneos e fiquem mais lentos e as reações aos estímulos sejam retardadas. Essas alterações,
nervos. Essas duas camadas sobrepostas são unidas por ondulações denteadas. Sob a normalmente, são percebidas pelas pessoas idosas que tentam compensá-las
derme encontra-se uma camada subcutânea composta por tecido conjuntivo e tecido aumentando a precisão ou adequação da reação o que permite que seu desempenho
adiposo (gordura) e uma camada elástica interna e, entre essas duas últimas estão continue tão bom quanto o de um adulto mais jovem.
os vasos sanguíneos superficiais, os nervos, as glândulas sudoríparas (que liberam
A capacidade de manter a temperatura corporal (termorregulação) também é
o suor) e as glândulas sebáceas (que liberam gordura). A pele contém, ainda, um
afetada e coloca os idosos sujeitos às consequências da exposição a temperaturas
pigmento preto ou marrom, denominado melanina, que lhe fornece coloração.
mais extremas (frias ou quentes).
Com o envelhecimento a pele diminui sua capacidade de reter umidade ficando
Uma importante preocupação das pessoas idosas é o comprometimento de seu
mais ressecada o que pode causar prurido (coceira) e descamação. Epiderme e derme
funcionamento cognitivo. Inteligência, aprendizagem e memória estão relacionadas
ficam mais finas, as ondulações que as unem são suavizadas e os vasos sanguíneos
a esse funcionamento e em como a mente humana é capaz de raciocinar e fazer
presentes diminuem e ficam mais frágeis. Isso faz com que qualquer compressão local
julgamentos acertados. O idoso não se torna menos inteligente com o avançar da
mais intensa possa provocar um deslizamento entre essas estruturas com consequente idade. Da mesma forma, sua capacidade em aprender e reter novas informações
rompimento dos vasos locais ocasionando hematomas (manchas arroxeadas) que permanece inalterada principalmente quando é frequentemente estimulada por uso
podem ser erroneamente confundidos com agressões. regular. Já sua capacidade de resolver problemas complexos declina com o avançar
A produção de melanina diminui e sua distribuição deixa de ser totalmente da idade. A aprendizagem pode, no entanto, ser prejudicada em decorrência das
uniforme. Isso faz com que a pele fique mais clara (pálida) e que, nas regiões alterações sensoriais (principalmente visão e audição).
comumente expostas ao sol (rosto, mãos, braços e pernas), surjam manchas mais
Com relação à memória, verifica-se a existência de problemas relacionados à
escurecidas (manchas senis).
aquisição ativa da informação. É o processo ativo que permite o “aprofundamento”
O tecido subcutâneo, que dá sustentação à estrutura do rosto, também diminui. e o “gravar” efetivo da mesma permitindo que ela seja transformada, reorganizada
Associado a diminuição da elasticidade da pele e à musculatura enfraquecida surgem e associada a outras informações existentes. Com relação à memória passiva,
as rugas e os vincos, particularmente perceptíveis no rosto. não são observadas diferenças significativas comparando os idosos com indivíduos
Cabelos e pelos do corpo tornam-se mais finos e mais escassos e, com a jovens. Memórias adquiridas mais remotamente ficam mais preservadas. É comum
diminuição da melanina, embranquecem. As unhas ficam mais espessas e quebradiças que os idosos contem, com muitos detalhes, fatos que ocorreram em sua infância e
com crescimento lentificado. Isso é mais acentuado nas unhas dos pés o que permite juventude e, por outro lado, esqueçam o que comeram no café da manhã.
maior acúmulo de sujeira e, consequentemente, maior suscetibilidade à contaminação As principais queixas dos idosos se relacionam a pequenos esquecimentos
por fungos. cotidianos e isso está relacionado com algumas habilidades como a de reter uma
As glândulas sebáceas aumentam de tamanho, mas diminuem sua capacidade informação (na memória de curto prazo) enquanto executa outra atividade (p.ex:
funcional provocando diminuição na menor lubrificação da pele que fica sujeita a guardar um número de telefone visto em um outdoor enquanto está dirigindo)
maiores atritos. As glândulas sudoríparas se atrofiam fazendo com que a pessoa idosa ou ainda a habilidade de lembrar no futuro (memória prospectiva) uma intenção
transpire menos. formulada no presente (p.ex: desligar o fogão antes da comida queimar).
As alterações sensoriais e a diminuição dos reflexos influenciam o planejamento
SISTEMA NERVOSO antecipatório do idoso. Em outras palavras, há certa dificuldade em “perceber” o
ambiente de forma adequada e responder, com segurança, rapidamente a diferentes
Simplificadamente pode-se dizer que o sistema nervoso (SN) é composto pelo estímulos. Isso não depende apenas de agilidade motora, mas também da rapidez
sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP) que são inter- das decisões para guiar os movimentos (p.ex: computar a velocidade com que o farol
relacionados por múltiplos nervos interligados formando uma rede de comunicação. abre e fecha para calcular a rapidez necessária para atravessar uma rua).
As células nervosas (neurônios) conduzem os impulsos nervosos de uma região a
outra do corpo. Assim, mudanças na atenção, na memória imediata e na capacidade de
planejamento antecipatório das ações especialmente quando a ação a ser desenvolvida
Com o envelhecimento há uma perda progressiva de neurônios, no entanto, envolve diferentes passos mostram-se importantes no desempenho dos idosos. Não é
por ser em grande número, tal perda não resulta, necessariamente, em prejuízo incomum que as idosas se queixem em demorar o dobro do tempo para preparar um
do funcionamento mental. No organismo, essa perda ocasiona algum grau de prato que estavam acostumadas a fazer desde jovens pois “abrem o armário para
comprometimento na audição, na visão, no olfato, na regulação da temperatura e pegar a panela e esquecem de pegar o óleo” necessitando parar a ação e retornar
na sensação de dor. As perdas sensoriais contribuem com a diminuição do equilíbrio. para buscar o ingrediente esquecido. Isso ocorre pela dificuldade em manter na
A junção dessas alterações torna a pessoa idosa mais vulnerável à ocorrência de mente várias coisas ao mesmo tempo (operações mentais simultâneas), habilidade
acidentes, em especial as quedas. relacionada à atenção. A realização de atividades físicas auxilia na melhora do

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desempenho das pessoas idosas sugerindo que alguns dos problemas relacionados ao A percepção de profundidade também é comprometida dificultando a percepção
“desempenho mental” possam ter ligação com baixa atividade geral. do idoso da real altura de degraus ou desníveis o que facilita a ocorrência de quedas.
Outra queixa importante dos idosos relaciona-se à dificuldade em “encontrar as
palavras” (nomes de pessoas ou objetos). Isso é explicado pelo declínio na organização AUDIÇÃO
da linguagem com o avançar da idade que se traduz na lentidão para encontrar uma
determinada palavra no vocabulário armazenado na memória do idoso. Normalmente A orelha (antes denominada ouvido) divide-se em orelha externa, orelha média
e orelha interna.
não há dificuldade na estrutura do conhecimento (o idoso sabe para que o objeto é
utilizado) mas sim no acesso a esse registro (p.ex: ele diz “talher para tomar sopa” Com o envelhecimento ocorre diminuição da produção das glândulas sudoríferas
ao invés de “colher”). (secreção oleosa) do meato auditivo externo, tornando a pele dessa região mais
ressecada e aumentando o prurido (coceira) e aumento da produção de cerume que
Quando a pessoa idosa não apresenta doenças relacionadas ao desempenho
pode resultar em diminuição da acuidade auditiva (excesso de cera).
mental. Ela tende a manter um discurso normal, coeso, relevante e apropriado
introduzindo tópicos e construindo sobre eles. Há uma perda da acuidade auditiva, em especial para os sons de alta frequência,
em torno de 40%; causada por associação de perdas estruturais da orelha externa e
média (perda condutiva) e da orelha interna (perda neurossensorial), essa denominada
ÓRGÃOS SENSORIAIS presbiacusia.
Todos os cinco sentidos tornam-se menos eficientes com o avançar da idade Também ocorre maior dificuldade em discriminar os sons. Vogais são ouvidas
provocando impacto, em maior ou menor grau na segurança do desempenho das com mais facilidade (som mais baixo) que as consoantes. Distinguir “chi” de “ti” ou
atividades cotidianas e no bem estar geral das pessoas idosas. “p” de “b” é frequentemente mais difícil. Fala rápida e ruído de fundo (como rádio,
televisão ou ruído de rua) também dificultam a compreensão do idoso ao que se fala.
As modificações que ocorrem na visão e na audição, em especial, podem vir a
comprometer um estilo de vida ativo e independente e aumentar o isolamento social A diminuição da acuidade auditiva pode gerar maior retraimento, isolamento social
da pessoa idosa com consequências muito negativas em seu estado de saúde geral. e solidão ocasionando impacto negativo na saúde e qualidade de vida das pessoas idosas.
Ela sempre deverá ser avaliada, pois suas consequências podem ser minimizadas.
VISÃO A diminuição da acuidade auditiva por acumulo de cerume pode ser evitada
pela higienização adequada do canal auditivo. Isso, no entanto, deve ser feito por
O olho é o órgão da visão que sofre múltiplas alterações com o avançar da idade. profissional habilitado. O uso de cotonetes pode introduzir o tampão de cera ainda
Todas as outras estruturas (córnea, cristalino, corpo ciliar, íris, corpo vítreo e humor mais profundamente e por essa razão não devem ser utilizados. Palitos ou grampos
aquoso) também são afetadas com a idade. Há uma diminuição na sensibilidade também não devem ser utilizados pelo risco de perfuração da membrana timpânica.
da córnea aumentando o risco de lesão ocular. O cristalino fica maior, mais rígido,
descorado e opacificado afetando a qualidade da visão e levando à formação da Algumas atitudes podem auxiliar na melhoria da comunicação com a pessoa idosa
catarata. Há uma diminuição no tamanho da pupila que contribui para a perda da que apresenta presbiacusia. Isso será abordado no tópico referente à “comunicação
acuidade visual. com a pessoa idosa”.

Para uma melhor visualização é necessário que o olho realize um processo O uso de aparelho auditivo pode trazer benefícios para alguns idosos. No entanto,
denominado “acomodação” o qual permite a focalização de objetos mais próximos sua indicação requer uma avaliação prévia de um especialista. O uso adequado de tais
ou mais distantes. É realizado pelo corpo ciliar e pelas fibras musculares da íris. Com aparelhos não está vinculado apenas à sua aquisição. Além da indicação correta, é
necessário um treinamento de uso que avalie, inclusive, a destreza motora da pessoa
o avançar da idade, as fibras musculares tornam-se mais curtas e menos elásticas e
idosa para manipulá-lo. Quando isso não ocorre há um grande risco do aparelho
parte delas é substituída por tecido conjuntivo. Na prática essas alterações dificultam
auditivo ser guardado permanentemente.
a focalização, com clareza, de objetos próximos e a isso se denomina “presbiopia”
ou “visão curta”.
PALADAR E OLFATO
Outras alterações como diminuição da visão periférica (por diminuição do
campo visual) e noturna (envolve períodos/áreas de penumbra e noite) e aumento Os órgãos envolvidos no paladar são as papilas gustativas localizadas nas partes
da sensibilidade à luz forte (decorrente da menor reação pupilar à luz) também pósteros-laterais da língua. O ser humano tende a diferenciar, dentre outros, quatro
ocorrem, comprometendo a capacidade de dirigir (especialmente à noite), participar gostos básicos: doce, salgado, azedo e amargo. Com o avançar da idade ocorre uma
de determinadas atividades sociais e desempenhar algumas atividades cotidianas diminuição do número de papilas gustativas em especial as relacionadas a doce e
além de aumentar, e muito, o risco de acidentes. As pessoas idosas exigem mais salgado. Isso é percebido p. ex. quando a idosa costuma cozinhar e, não percebe o
luminosidade que os mais jovens para enxergar adequadamente. excesso de sal colocado na confecção de pratos que sempre fez adequadamente.

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A diminuição da saliva e o uso de certos medicamentos podem deixar uma o gás carbônico removido, sendo o processo reiniciado. Esse é um processo continuo
sensação de “gosto ruim” na boca prejudicando ainda mais o paladar. Outros e o coração é a “bomba” que torna isso possível.
problemas como tabagismo, dentição precária e inadequada higiene oral também
As batidas do coração são ativadas e reguladas por um sistema que transmite
podem afetar o paladar. Como consequência, pode ocorrer diminuição da ingestão
alimentar e desinteresse pela alimentação ocasionando perda de peso, perda de impulsos elétricos e permite que o coração funcione por toda a vida, de forma regular.
massa muscular e facilitando a instalação de quadros de maior fragilidade. Diferentes problemas de saúde podem influenciar esse funcionamento.

O olfato permite a detecção de odores e depende de estimulação dos órgãos dos Com o envelhecimento ocorrem algumas alterações na estrutura e função do
sentidos localizados no nariz que se ligam ao cérebro pelo nervo olfativo. Sabe-se que coração e do sistema circulatório. O tamanho do coração permanece o mesmo ou até
ocorre um declínio generalizado da função olfativa e perda moderada de neurônios, diminui na ausência de doenças cardíacas que o comprometam. No entanto, como as
porém na prática, verifica-se que alguns idosos queixam-se mais que outros de tais doenças das artérias são muito frequentes nesse grupo, comumente se observa um
perdas. Torna-se assim necessário o desenvolvimento de mais estudos sobre o tema, aumento no tamanho do mesmo.
pois ainda são poucas as pesquisas relacionadas ao olfato. O músculo que envolve o coração (miocárdio) fica mais fibroso e menos complacente
A maximização do paladar e do olfato pode ser conseguida com alguns diminuindo sua força de contração. As valvas tornam-se mais espessas e mais rígidas.
procedimentos como, um ambiente agradável na hora das refeições, limpo, iluminado, As fibras elásticas das artérias diminuem e aumentam as colágenas estreitando, em
arejado e livre de odores desagradáveis; uso de outros temperos (ervas, condimentos maior ou menor grau, o espaço interno do vaso (por onde o sangue circula). Em termos
e limão) desde que a pessoa idosa possa e goste; melhor higiene oral e avaliação funcionais, com o passar do tempo, o músculo cardíaco diminui sua eficiência e sua
odontológica regular. Quando o sentido do olfato for muito prejudicado, recomenda- força de contração o que resulta na diminuição do débito cardíaco (volume de sangue
se o uso doméstico de detectores de fumaça para evitar o risco de incêndios. bombeado pelo coração em um minuto) sob condições de estresse fisiológico. Tal
diminuição procura ser compensada pelo aumento da frequência cardíaca durante o
TATO exercício a qual demora mais tempo para se normalizar após cessação do estímulo. Quanto
ao estímulo elétrico, com as alterações que surgem no envelhecimento mais tempo é
A sensação tátil também é reduzida com o avançar da idade. Isso pode ser exigido para completar o ciclo contração/relaxamento do coração. Normalmente há
observado pela diminuição da percepção do idoso à pressão e à dor e também na uma adaptação do organismo a essas mudanças (p.ex: os idosos aprendem que é mais
diferenciação de temperaturas. Tais mudanças podem fazer com que a pessoa idosa confortável utilizar um elevador a subir de escadas). No entanto, quando exigências
tenha uma interpretação equivocada do ambiente colocando em risco de segurança. incomuns são impostas ao coração (físicas ou psicológicas como p.ex: correr para pegar
Cuidados como a não utilização de bolsas de água quente (para evitar queimaduras), um ônibus ou receber uma notícia muito ruim), essas alterações passam a ser percebidas.
a orientação de uso de calçados fechados e confortáveis (para evitar lesões nos pés)
e a proteção das mãos ao manipular objetos cortantes (como facas) auxiliam na
diminuição do risco de acidentes. SISTEMA RESPIRATÓRIO
O sistema respiratório é o responsável por levar oxigênio (O2) para todas as
SISTEMA CARDIOCIRCULATÓRIO células do corpo e remover dessas os resíduos existentes sob a forma de gás carbônico.
O ar, que contém o O2, entre no organismo pelo nariz, onde é aquecido, filtrado e
As doenças cardiovasculares constituem a principal causa de óbitos entre as umedecido, descendo pela faringe, atravessando a laringe e entrando na traqueia
pessoas idosas. (tubo revestido por cílios que varrem continuamente as partículas de poeira e os
O sistema cardiovascular funciona como um sistema fechado por onde o sangue microrganismos para cima, para serem expelidos – expectorados). Essa se subdivide
circula “alimentando” as células (com oxigênio, nutrientes e outras substâncias) em duas ramificações, os brônquios (D e E) que entram nos pulmões. Os brônquios
e removendo os resíduos produzidos. Dessa forma, há, no mesmo sistema, dois vão se subdividindo em ramificações cada vez menores (bronquíolos) que, por sua
subsistemas separados e interligados, o lado direito (circulação pulmonar) e o lado vez, também se ramificam em ductos alveolares chegando aos alvéolos. Esses são
esquerdo (circulação sistêmica). agrupamentos de ar que se assemelham a cachos de uva e são envolvidos por redes
O coração é um órgão muscular que tem aproximadamente o tamanho de um capilares (a menor divisão dos vasos sanguíneos). É nesse nível que o O2 é trocado
punho de um adulto, fechado. Ele é o responsável pelo bombeamento do sangue pelo pelo CO2.
corpo e é composto por dois sistemas de bombeamento independentes, um do lado
Os pulmões, em número de dois, ficam no interior do tórax um de cada lado do
direito e outro do lado esquerdo. Cada um destes sistemas tem dois compartimentos
– um átrio e um ventrículo. Átrios e ventrículos são separados por finas estruturas coração sendo o D maior que o E. São revestidos por uma membrana dupla que os
denominadas “valvas”. Os ventrículos são as principais “bombas” do coração. protege (pleura). Os pulmões se localizam no interior da cavidade torácica composta
pelas costelas, coluna vertebral e esterno. As costelas são ligadas ao esterno por
Todas as células de nosso corpo necessitam de oxigênio para viver. O papel do cartilagens costais.
coração é enviar sangue rico em oxigênio a todas as células que compõe o nosso
organismo. As artérias são as vias responsáveis por esse transporte do coração aos O ato de respirar envolve dois movimentos, um ativo, a inspiração (colocar o ar
tecidos e as veias pelo transporte inverso, ou seja, trazem o gás carbônico dos tecidos do meio externo para dentro dos pulmões) e outro passivo, a expiração (expulsão do
de volta ao coração e daí aos pulmões, onde o sangue volta a receber oxigênio e a ter ar para fora dos pulmões). A respiração é controlada pelo sistema nervoso.

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Mudanças significativas ocorrem, com o envelhecimento, nos principais órgãos se localizam entre as vértebras da coluna. Alterações em sua estrutura decorrentes
respiratórios. As paredes dos alvéolos tornam-se mais finas, os ductos alveolares ficam do avançar da idade provocam uma diminuição na espessura desses discos, acentuado
esticados causando o alargamento e o rompimento dos alvéolos. Essas mudanças as curvas da coluna (especialmente cervical e lombar).
diminuem a área de superfície de troca gasosa.
Em algumas partes do corpo, as cartilagens continuam a se desenvolver como
As cartilagens costais ficam mais rígidas (calcificação) diminuindo sua no nariz e na orelha, daí seu alongamento com o avançar da idade.
complacência exigindo uma maior atuação dos músculos acessórios (músculos do
maxilar, do pescoço e intercostais) para que a respiração aconteça. Os músculos Como consequência, os ossos se tornam mais quebradiços e, assim, as fraturas
intercostais se atrofiam com o avançar da idade ficando mais fracos e, assim, passam a constituir um importante risco para as pessoas idosas. Sua altura tende
aumentando o esforço respiratório. a diminuir com o avançar da idade decorrente do afinamento dos discos e do
encurtamento das vértebras. Essa diminuição pode ser ainda mais acentuada devido
O volume dos pulmões também se modifica. Como a base dos pulmões (a parte a maiores níveis de cifose (curvatura anômala da espinha dorsal, de convexidade
mais baixa) não infla adequadamente as secreções que se acumulam nos pulmões posterior), inclinação da cabeça para trás e flexão dos quadris e joelhos.
não são expectoradas com facilidade. A pessoa idosa também não expira de forma
completa aumentando o que se chama de “volume residual”, ou seja, a quantidade O corpo humano contém aproximadamente 600 músculos que desempenham
de ar que permanece nos pulmões após a expiração máxima. Com esse aumento, inúmeras funções. Atuam nas contrações e nos movimentos, dos mais simples (piscar
diminui a capacidade vital (volume de ar que uma pessoa consegue expirar após a os olhos) aos mais complexos (pular um obstáculo). Assim, as alterações musculares
inspiração máxima). Esse conjunto de alterações pode repercutir na oxigenação do que ocorrem com o avançar da idade podem gerar alterações funcionais nas pessoas
sangue. idosas. Cada músculo é composto por uma parte vermelha, onde estão as fibras
musculares, e uma parte branca onde se localizam os tendões (de origem ou de
A tosse é um mecanismo muito eficiente para eliminar partículas e secreções das inserção). A parte vermelha é a parte ativa dos músculos, responsável pela contração
vias aéreas. No envelhecimento há uma redução da elasticidade pulmonar e da força muscular. Os tendões são passivos, não se contraem, transmitem para o osso a força
de contração dos músculos respiratórios que, associados, diminuem a efetividade do gerada na parte vermelha.
reflexo de tosse e, consequentemente, a limpeza das vias aéreas aumentando assim,
a chance de se acumular secreções.
Apesar de todas essas mudanças a capacidade pulmonar total não é totalmente
alterada, mas coloca a pessoa idosa em um maior risco para desenvolver infecções
respiratórias, em especial a pneumonia.
Programas de exercícios regulares (p. ex: caminhar, andar de bicicleta ou nadar)
podem reduzir significativamente essas modificações.

SISTEMA MÚSCULOESQUELÉTICO
O sistema musculoesquelético é composto, principalmente, por ossos, músculos
e articulações. As últimas são as responsáveis pela união dos diferentes ossos
permitindo a realização dos movimentos.
O esqueleto humano é composto por 214 ossos e forma a estrutura do corpo dando-
lhe sustentação, armazenando cálcio e produzindo células sanguíneas. Compreende dois
tipos de tecidos: ósseo e cartilagíneo (cartilagens = tecido flexível, branco ou cinzento,
que se encontra especialmente na extremidade dos ossos). O tecido ósseo pode ser
compacto ou esponjoso. Na pessoa idosa, o tecido compacto fica gradativamente mais
poroso e mais delgado e o tecido esponjoso vai perdendo massa óssea. Com o envelhecimento ocorrem perdas celulares e, consequentemente, perda
de massa muscular. Muitas células se atrofiam e morrem. Várias fibras musculares são
Também ocorrem alterações nas células ósseas (osteócitos) que diminuem em substituídas por tecido adiposo (gordura) e conjuntivo. São vários os fatores associados
número e em atividade afetando o metabolismo do cálcio (diminuem sua absorção). com essa perda destacando-se a hereditário, a inatividade física e a má nutrição.
Também ocorre uma reabsorção gradual da superfície interna dos ossos longos e
menos produção de “osso novo” na superfície externa. De modo geral observa-se diminuição da massa muscular geral, da força muscular
e dos movimentos. Músculos dos braços e pernas tornam-se particularmente flácidos e
O tecido cartilagíneo está presente nas diferentes articulações do esqueleto enfraquecidos. A inatividade tem um impacto direto na atrofia muscular. A realização
humano permitindo a execução dos movimentos amortecendo o impacto ósseo e de exercício regular auxilia na manutenção da força e do tônus muscular reduzindo
diminuindo o atrito. Também constituem o tecido existente nos discos vertebrais que

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as consequências funcionais negativas que o avançar da idade pode ocasionar e que O fígado é um órgão único responsável pelo recebimento de todo sangue
podem vir a comprometer sua independência. proveniente do estômago, intestino, pâncreas e baço. Recebe assim, as substâncias
que foram absorvidas e as metaboliza ou altera, além de destruir as substâncias
tóxicas. Parte delas é armazenada no próprio fígado para uso posterior (glicogênio)
SISTEMA DIGESTÓRIO
e as outras são liberadas, após processamento, novamente na circulação. Também
Constitui-se por um longo tubo que vai da boca ao ânus com alguns órgãos produz a bileque é armazenada na vesícula cuja função é quebrar as moléculas
e glândulas em sua extensão. Fazem parte do sistema digestório: boca, glândulas de gordura facilitando a digestão. O envelhecimento ocasiona alterações em nível
salivares, faringe, esôfago, estomago, intestino delgado, intestino grosso, fígado, celular que não são funcionalmente significativas exceto a que se relaciona a menor
vesícula biliar e pâncreas. Com o envelhecimento há uma diminuição das secreções capacidade de metabolizar medicamentos. Isso deve sempre chamar a atenção dos
glandulares e da motilidade de todo o trato. médicos na hora de prescrever medicamento para esse grupo e também aos familiares
e cuidadores para que evitem, ao máximo, a automedicação.
O alimento é introduzido na boca e aí reduzido a fragmentos menores e umidificado
pela saliva que também inicia o processo de digestão (ação da amilase nos hidratos de O pâncreas produz o suco pancreático que auxilia na digestão e neutraliza a
carbono). As principais alterações observadas na boca relacionam-se a perda dos dentes, acidez do quimo produzido no estomago. Não são observadas grandes alterações
à perda óssea da mandíbula e maxilar (dificultando o uso de próteses ou “dentaduras”) nesse órgão com o envelhecimento a não ser um maior acúmulo de gordura que não
e redução do volume da saliva que altera na qualidade alimentar do idoso (que passa a o compromete funcionalmente.
procurar alimentos menos fibrosos provocando maior constipação intestinal).
O alimento passa da boca ao estômago pela faringe e esôfago. Muitos idosos SISTEMA URINÁRIO
apresentam alguma dificuldade para engolir (disfagia) decorrente de alterações
neurológicas ou no esfíncter interior do esôfago que passa, ao longo dos anos, a não O sistema urinário é composto pelos rins, ureteres, bexiga e uretra. Cabe aos
relaxar completamente ou, ao contrário, não se fechar completamente permitindo rins a filtragem e remoção de resíduos do sangue formando a urina que é armazenada
o refluxo do suco gástrico do estômago dando uma “sensação de queimação”. A na bexiga e posteriormente eliminada.
disfagia não é, no entanto, uma alteração considerada “normal” no envelhecimento.
Sua presença incorre em risco de desenvolvimento de problemas relacionados à A urina é formada dentro dos néfrons nos rins. O néfron é a unidade funcional
aspiração (para os pulmões) de substâncias que deveriam ir para o estômago o que do rim. Ele filtra o sangue, reabsorve substâncias necessárias ao organismo e secreta
pode necessitar de atendimento de urgência. as desnecessárias juntamente com a água não reabsorvida na forma de urina.
Em seguida o alimento chega ao estômago que, sob a ação de diferentes enzimas Ao nascer, o ser humano tem em cada rim cerca de um milhão de néfrons.
e do suco gástrico é transformado em quimo (bolo alimentar) e encaminhado ao A partir dos 40 anos começa a ocorrer uma diminuição em tamanho e no número
duodeno. Com o envelhecimento ocorre diminuição na secreção das enzimas e no de néfron. Por volta de 80 anos cerca de 50% deles foram perdidos. Tal perda não
suco gástrico tornando o processo digestivo mais lentificado e dando ao idoso a afeta a função normal do rim que costuma utilizar, para tanto, cerca de 25% de
sensação de “empachamento”. seus néfrons. As taxas de filtração, excreção e reabsorção declinam com o avançar
O intestino delgado (formado por duodeno, jejuno e íleo) continua o processo da idade. Dessas, a filtração é a perda mais preocupante, pois coloca o idoso em
digestivo por meio da liberação se secreções glandulares e da presença de secreções risco uma vez que é por esse meio que muitos medicamentos são excretados. Esses
pancreáticas e da bile. Também é nesse local que se inicia a absorção dos nutrientes. passam a ser eliminados de forma mais lenta, o que aumenta o risco de alcance de
Nos idosos há diminuição da secreção dessas enzimas influenciando a absorção do cálcio níveis tóxicos no sangue. Drogas de eliminação lenta devem ser prescritas com muita
e das vitaminas B6 e B12 especificamente. Há ainda um enfraquecimento da musculatura cautela e em doses reduzidas.
diminuindo o peristaltismo (movimentos, como ondas, que levam o alimento através do
A diminuição do número de néfrons também afeta a capacidade do rim em
trato alimentar) e contribuindo para a ocorrência de constipação intestinal.
concentrar a urina e isso pode afetar a equilíbrio hídrico do organismo podendo
O intestino grosso (ceco, colo, reto e ânus) é responsável pela absorção de água levar a pessoa idosa à desidratação principalmente em situações adversas como
e sais. Com a absorção da água as fezes ficam mais ressecadas. Quando a pessoa idosa jejum, diarreia, vômito ou febre. O risco de desidratação é ainda maior, pois a
não se hidrata de forma adequada isso pode se transformar em um problema, pois pessoa idosa tem o reflexo de sede diminuído, o que faz com que ela ingira uma
facilita a formação de um bolo de fezes muito ressecado denominado “fecaloma” menor quantidade de líquidos.
que impede o transito intestinal e necessita de remoção mecânica. Com o avançar da
idade, a parede do intestino grosso torna-se mais delgada facilitando a formação de A bexiga é um músculo na forma se “saco” responsável pelo armazenamento
pequenas bolsas (divertículos) que podem, em determinadas situações, se inflamar da urina. Com o avançar da idade parte da musculatura e o tecido elástico da
ou se romper gerando necessidade de assistência. O intestino grosso conta com uma bexiga são substituídos por tecido fibroso. Ela diminui sua capacidade de retenção
flora bacteriana que auxilia na produção de certas vitaminas. O uso indiscriminado e de esvaziar-se completamente. Em um jovem a bexiga tem uma capacidade de
de medicamento e em especial antibióticos nessa população podem comprometer retenção de cerca de 600ml, já, em uma pessoa idosa, essa capacidade é reduzida
essa flora e ocasionar diarreia e distúrbios nutricionais. para cerca de 250ml.

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Em um jovem, quando cerca de 50% da capacidade da bexiga é preenchida, ser pouco significativa. Sua presença, no entanto, pode sugerir a existência de uma
há um estímulo para que o indivíduo elimine a urina. Entre os idosos, a capacidade doença grave.
de perceber o enchimento da bexiga está diminuída o que faz com que eles só
percebam isso quando a bexiga chega praticamente no seu limite o que provoca uma As infecções nos idosos podem ocorrer com uma variedade de manifestações
necessidade urgente de urinar. Como também é frequente a presença de fraqueza no não usuais, inespecíficas e atípicas como, por exemplo, alterações inexplicáveis do
esfíncter externo da uretra (responsável pela contenção da urina) que, associada à estado funcional ou do estado mental (p.ex: confusão mental), perda de peso e
atrofia muscular do assoalho pélvico, permitem que perdas urinárias possam ocorrer. quedas, sinais esses a que familiares e cuidadores devem estar muito atentos.
Situações que aumentam a pressão abdominal também podem ocasionar tais perdas A pneumonia, por exemplo, causa de três a cinco vezes mais óbitos entre os
(como espirrar, tossir, gargalhar, carregar peso, etc). Ressalta-se, no entanto, que idosos que entre os jovens. O idoso com pneumonia pode apresentar mal-estar,
a incontinência urinária não é e nem deve ser considerada como uma consequência confusão mental ou delírio como sintomas iniciais e não febre, calafrios, dor torácica
normal do envelhecimento. e tosse produtiva, sinais clássicos da doença em populações não idosas.
A eliminação de urina, nos homens, pode ainda ser prejudicada pelo aumento da
Já a infecção do trato urinário – ITU - (em qualquer lugar do rim ao meato urinário)
próstata. Essa é um órgão situado abaixo da bexiga e que envolve a uretra (canal que
constitui a infecção mais comum nesse grupo etário. Geralmente é assintomática,
conduz a urina da bexiga ao exterior). Com o avançar da idade, com muita frequência,
mas oferece grande risco para complicações graves (p. ex: septicemia ou infecção
há um crescimento da próstata (hiperplasia) que pode dificultar ou obstruir a passagem
generalizada, insuficiência renal crônica, etc). A pessoa idosa pode apresentar,
da urina. Sintomas como: sensação de não esvaziamento completo da bexiga logo
como manifestação da ITU, sutis alterações no estado mental ou o aparecimento de
após urinar; idas frequentes ao banheiro para urinar (com intervalos menores de
incontinência urinária, antes inexistente. Os sinais clássicos de ITU, dor ao urinar
2h); jato de urina interrompido (como se o idoso urinasse “em prestações”) e fraco
(disúria), urgência miccional ou aumento da frequência de idas ao banheiro para
(necessitando fazer força abdominal para conseguir urinar); urgência para urinar;
urinar, normalmente, não estão presentes nesse grupo. Idosos que utilizam sondas
levantar à noite várias vezes para urinar (noctúria); em conjunto são chamados de
vesicais, os que apresentam incontinência, os que tem prostatismo, os residentes em
prostatismo requerendo tratamento e, muitas vezes, cirurgia. Homens idosos, nessas
Instituições de Longa Permanência (ILPIs) são os mais sujeitos a essas ocorrências e
condições, tem grande risco de desenvolver infecções urinárias de repetição.
merecem atenção diferenciada.

SISTEMA IMUNOLÓGICO Evidências sugerem que a adoção de um estilo de vida mais saudável, a prática
de atividades físicas moderadas de forma regular e a ingestão de uma dieta adequada
O sistema imunológico tem por função defender a integridade interna do às necessidades calóricas contribuem para a manutenção da integridade do sistema
organismo contra aquilo que lhe é estranho, assim, ele deve diferenciar aquilo que imunológico durante o processo natural de envelhecimento.
é próprio do mesmo daquilo que não o é. Didaticamente ele se divide em dois: o
sistema imunológico natural e o sistema imunológico adaptativo. O primeiro fornece POR QUE É IMPORTANTE CONHECER AS ALTERAÇÕES QUE OCORREM
uma resposta rápida, porém incompleta e inespecífica contra o que ele interpreta
como “agressores”; o segundo fornece uma resposta mais lenta, no entanto, mais
COM O AVANÇAR DA IDADE?
definitiva e específica. Esse sistema também sofre algumas alterações com o processo
de envelhecimento ao que se denomina imunosenescência. O envelhecimento é um processo natural e normal de desenvolvimento do ser
humano no qual ocorrem alterações fisiológicas e psicossociais que são variáveis de
Imunosenescência pode ser compreendida como um quadro de remodelação uma pessoa à outra. Frente a essas alterações ocorrem adaptações que acompanharão
no qual os elementos do sistema imunológico são reestruturados aumentando ou o ser humano durante todo o processo de envelhecimento até sua morte.
diminuindo a função de seus componentes, outros, no entanto, permanecem 153
inalterados. Como consequência observa-se a maior incidência e gravidade nas O conhecimento dessas mudanças é o fator responsável pela qualificação do
infecções entre as pessoas idosas, uma produção aumentada de auto anticorpos e o planejamento da assistência as necessidades das pessoas idosas e de sua execução
maior risco para o desenvolvimento de certos tipos de câncer. propriamente dita. Alguns pontos fundamentais não devem ser esquecidos:

As doenças infecciosas constituem uma das principais causas de hospitalização e • as alterações são graduais, progressivas e individuais;
de morte entre as pessoas idosas. Nesse grupo destacam-se os quadros de pneumonia,
• na mesma pessoa, diferentes sistemas envelhecem em velocidades distin-
gripe, infecção do trato urinário, diverticulite, endocardite, bacteremia e infecções
tas;
de pele (p.ex: herpes zoster, infecção em úlceras de pressão ou escaras) e tecidos
moles (em especial no pé diabético). O declínio da função do sistema imunológico • a vulnerabilidade aumenta com o avançar da idade;
associado a outros fatores de risco contribuem para essas ocorrências.
• situações estressantes (fisiológicas ou psicossociais) ocasionam reações
O idoso, no entanto, pode apresentar infecção na ausência de sinais e sintomas mais evidentes entre os idosos e requerem um tempo longo de reajusta-
clássicos. A febre, que é um dos principais sinais de infecção, pode estar ausente ou mento.

148 149
MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Modificações que Ocorrem com os Indivíduos no Processo de ...

Quando a pessoa idosa adoece, com frequência o quadro é atípico, ou seja, PARTE 2
os sinais e sintomas classicamente apresentados por indivíduos mais jovens com o
mesmo problema não são, normalmente, encontrados nesse grupo etário. Inquietação,
mudança de comportamento e/ou confusão mental costumam ser sinais precoces e
importantes de alteração no estado de saúde. O CUIDADO DA PESSOA IDOSA COM LIMITAÇÕES FUNCIONAIS
A pessoa idosa com tais sinais, de surgimento agudo, quando levada a um
serviço de saúde, não deve ter seu quadro confundido com sintomas de “demência”, Na última aula conversamos sobre as principais alterações que ocorrem no
pois isso pode postergar as intervenções necessárias e adequadas resultando em um organismo humano com o envelhecimento. Devemos lembrar que tais alterações se
prognóstico ruim. bem administradas pelos próprios idosos, com adequado acompanhamento de suas
condições de saúde e monitoramento de suas condições crônicas não deverão ser
Daí ser necessário para os profissionais que assistem aos idosos o conhecimento
acompanhadas por desfechos em saúde, considerados negativos. Daí ser necessário
das modificações associadas ao processo de envelhecimento de forma a qualificar o
planejamento assistencial. valorizar, sempre, a queixa da pessoa idosa na busca precoce de alterações que possam
estar ocorrendo e que, ainda, não apresentaram manifestações mais expressivas.

REFERÊNCIAS Para complementar a última aula vamos conversar hoje sobre as chamadas
alterações funcionais” que podem ocorrem com o envelhecimento e seu impacto na
DUARTE YAO. Manual de Formadores de Cuidadores de Idosos. Secretaria de Estado
vida das pessoas idosas e de seus familiares. Em nossa aula sobre os principais conceitos
da Saúde. Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social: Fundação
relacionados ao envelhecimento, já discutimos o significado da maior parte dos termos
Padre Anchieta, São Paulo, 2009.
que vamos estar conversando hoje e que tenho certeza, vocês se lembram.
DUARTE YAO. Manual de Cuidadores de Idosos. Secretaria de Estado da Saúde.
Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social: Fundação Padre Assim, para essa aula proponho a seguinte dinâmica:
Anchieta, São Paulo, 2009.
1. Inicialmente, proponho que, em grupo, recordemos os principais conceitos
DUARTE YAO; DIOGO MJD. Atendimento domiciliar: um enfoque gerontológico. São relacionados à aula de hoje, que já foram estudados. (atividade 1)
Paulo, Atheneu, 2000.
2. Em seguida, proponho que leiamos juntos o pequeno texto descrito na atividade
2 e, em seguida, conversemos com o professor, em plenária, sobre as dúvidas
relacionadas aos conceitos que discutimos e sobre o qual lemos. Ao final dessa
conversa deveremos compreender o porquê da capacidade funcional ter sido
escolhida como o grande “divisor de águas” da Política Nacional de Saúde da
Pessoa Idosa em sua reedição de 2006.

3. Agora, novamente em pequenos grupos, vamos conversar sobre como a presença


de limitações funcionais interferem na vida das pessoas idosas, o quanto geram
de cuidados e qual a melhor maneira de assisti-los (quando as limitações
estiverem presentes. (atividade 3)

4. Em plenária, vamos conversar sobre como construir a “linha de cuidados”


referente às limitações funcionais. Que perguntas devemos ter em mente para
essa construção e porquê. É fundamental que dúvidas sejam esclarecidas ou
mesmo que opiniões divergentes sejam explicitadas, pois, ao final da atividade,
156 o grupo deve ser capaz de poder, em sua prática cotidiana, repetir esse
mesmo raciocínio com cada pessoa idosa atendida.

5. Após a finalização da atividade 3, vamos ler o texto de apoio para complementar


nossas discussões. Se não for possível finalizá-lo em sala de aula, deveremos
fazê-lo como atividade não presencial pois, seu conteúdo será fundamental
para o melhor desempenho de nossas atividades profissionais.

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GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo V - Parte 2
Atividade 1 - (Atividade grupal)
RECORDAÇÃO DOS CONCEITOS RELACIONADOS À FUNCIONALIDADE

Aluno(a):..........................................................................................
Nessa atividade, sem consulta, vamos construir coletivamente, as definições
relacionadas à funcionalidade (já discutidas na aula sobre conceitos) para verificar
o que conseguimos gravar. Assim, em pequenos grupos, vamos lembrar o significado
de:
FUNCIONALIDADE HUMANA

ATIVIDADES DE VIDA DIÁRIA

AUTONOMIA

INDEPENDÊNCIA

DEPENDÊNCIA
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À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo V - Parte 2
Atividade 3 - (atividade grupal)
IMPACTO DAS LIMITAÇÕES FUNCIONAIS NA VIDA COTIDIANA E
SUA RELAÇÃO COM O CUIDADO

Aluno(a):..........................................................................................
Até aqui compreendemos como nosso organismo “funciona” para poder executar as
suas atividades cotidianas, parte delas relacionadas ao autocuidado e, a outra parte,
relacionada à manutenção de uma vida comunitária independente.
Se, apresentarmos limitações para o desempenho dessas atividades como devemos
proceder?
Liste as principais perguntas para as quais você precisa de respostas para poder planejar
o cuidado da pessoa idosa que você está acompanhando:
Em seguida, veja se, em sua lista, você incluiu as seguintes questões:
1. Qual o tipo de limitação funcional (LF) apresentada pela pessoa idosa?
2. Quando essa LF teve início?
3. A pessoa idosa se lembra como a LF começou e por quê?
4. No que a LF interfere? (em que tipo de atividades)
5. A LF impede que a pessoa idosa execute, de forma independente, alguma atividade?
Qual (is)?
6. O que a pessoa idosa faz para poder executar as atividades comprometidas pela LF?
7. A pessoa idosa precisa de ajuda para executar sua AVDs em decorrência da LF? Se
sim, ela recebe ajuda? Se sim, quem a ajuda?
8. Se a pessoa idosa precisar de ajuda para executar as AVDs e referir não receber
ajuda, o que é feito?
9. A LF apresentada pela pessoa idosa está interferindo na qualidade de vida da pessoa
idosa?
10. A LF apresentada pela pessoa idosa está interferindo nas relações familiares? Se sim,
de que forma?
11. A LF apresentada pela pessoa idosa está gerando sobrecarga em um ou mais membros
da família?
12. A pessoa idosa está desassistida em sua LF de forma a poder considerar o quadro
observado como negligência? Se sim, o que deverá ser feito?
13. Que opções de cuidado estão disponíveis para a pessoa idosa?
Vamos comparar agora, a lista construída pela turma com as questões apresentadas. Vamos identificar
as similaridades e as diferenças. Em conjunto, vamos discutir a importância desse conjunto de
questões para o planejamento do cuidado da pessoa idosa referente às limitações funcionais.
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À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo V - Parte 2
Atividade 2 - (Leitura de texto em pequenos grupos)
FUNCIONALIDADE EM PESSOAS IDOSAS

Aluno(a):..........................................................................................

Para esta atividade voces devem retomar o texto “Processo de Envelhecimento


e Pessoa Idosa, a partir da página 41, no parágrafo “funcionalidade diz respeito
aos níveis de “funcionamento” (função) de uma pessoa em diferentes áreas.
A funcionalidade de uma pessoa pode ser mensurada por meio da avaliação
funcional...” até o final.
TEXTO DE APOIO

ALTERAÇÕES FUNCIONAIS E O
CUIDADO DA PESSOA IDOSA

É comum entre os idosos a presença de uma ou mais doenças crônicas


concomitantes o que requer especial atenção tanto no acompanhamento de tais
condições quanto na prevenção de incapacidades.
Essas doenças, quando apresentam complicações ou são inadequadamente
acompanhadas, podem ocasionar sequelas incapacitantes que comprometem a
autonomia e a independência da pessoa idosa.
Define-se autonomia como a capacidade de decisão, de comando. De maneira
mais ampla pode-se dizer que autonomia é o exercício do autogoverno incluindo
liberdade individual, privacidade, livre-escolha, liberdade e harmonia como os
próprios sentimentos e necessidades.
Independência pode ser definida como a capacidade de realizar algo com seus
próprios meios; significa poder sobreviver e desempenhar, sem ajuda, as atividades
cotidianas conhecidas como atividades de vida diária (AVDs).
Tradicionalmente o conceito de independência se contrapõe ao de dependência
compreendido como a incapacidade de uma pessoa funcionar satisfatoriamente sem
ajuda (por limitações físicas, funcionais e/ou mentais).
Para a pessoa idosa, de forma geral, a autonomia
é mais útil que a independência, pois pode ser
restaurada por completo, mesmo quando o indivíduo
continua dependente. Por exemplo: um idoso com
importante limitação para caminhar (p.ex: usuário
de cadeira de rodas), poderá exercer sua autonomia
– escolher as coisas que quer fazer e a maneira
como gostaria que acontecessem - apesar de não ser
totalmente independente para realizá-las).
Independência e dependência, no entanto,
são conceitos ou estados que só podem existir em
relação a alguma outra coisa. É possível, no mesmo
indivíduo, a coexistência de independência financeira
e dependência afetiva ou ainda, independência
intelectual com completa dependência física (p.ex:
o cientista Stephen Hawking, figura ao lado).

159
MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa

A dependência, portanto, não é um atributo individual, mas sim de um indivíduo Quando os cuidadores familiares alegam ter chegado ao fim de todas as suas
em relação a outros. capacidades assistenciais dois desfechos são esperados: institucionalização ou
negligência. Neste contexto, a figura do cuidador profissional passa a ser uma força
A independência funcional está relacionada com a capacidade e qualidade do complementar urgente, necessária e indispensável na assistência a essas pessoas.
desempenho das AVDs. Tem por base o conceito de função, ou seja, a capacidade
do indivíduo para adaptar-se aos problemas de todos os dias apesar de possuir uma Programas de orientação de cuidadores surgiram em diferentes âmbitos, federal,
incapacidade física, mental ou social. estadual e municipal e junto com estes, muitos questionamentos em especial os
relacionados, as quais atividades podem ou não ser delegadas a essas pessoas, como
A funcionalidade da pessoa idosa é avaliada em termos das atividades e quem poderá adequadamente orientá-las, como poderá ser desenvolvida uma rede
desenvolvidas diariamente e que estão diretamente relacionadas ao autocuidado, ao de atenção adequada e suportiva às demandas das pessoas idosas, seus familiares e
cuidado de seu entorno e à participação social. os próprios cuidadores.
Didaticamente as denominadas “atividades de vida diária” estão subdivididas em: Alguns indicativos já estão postos como a descrição das funções dos cuidadores
pelo Código Brasileiro de Ocupações (2002) atribuindo a eles o auxílio ao desempenho
Atividades Básicas de Vida Diária (ABVDs) - envolvem as atividades de
de ações complementares à execução, eficaz, das atividades de vida diária em suas
autocuidado como alimentar-se, banhar-se, vestir-se, arrumar-se, mobilizar-se,
diferentes formas.
manter controle sobre suas eliminações, deambular. Seu comprometimento exige
necessariamente o auxílio de outra pessoa para seu desempenho. Cuidar da pessoa idosa de forma adequada é um dos princípios do que se
denomina “cuidado gerontológico”. Esse cuidado mais amplo tem por base a
Atividades instrumentais de vida diária (AIVDs) - indicam a capacidade de um manutenção, no melhor nível possível, da condição funcional dos idosos, ou seja,
indivíduo em levar uma vida independente dentro da comunidade. Envolve atividades deve objetivar que o idoso seja capaz, independentemente do número de condições
como: fazer compras, administrar os próprios medicamentos e finanças, utilizar crônicas coexistentes, de manter o melhor e maior nível possível de independência
transporte, realizar tarefas domésticas leves e pesadas, preparar refeições e telefonar. e autonomia no desempenho de suas atividades cotidianas.
Quando de seu comprometimento, há a necessidade de uma reorganização familiar para
auxiliar a pessoa idosa, mas, nem sempre será necessário um cuidador presencial. Embora a maior parte dos idosos permaneça independente, cerca de 20 -
25% dessa população encontram-se atualmente dependentes em uma ou mais
Atividades avançadas de vida diária (AAVDs) – envolvem a participação da atividades de vida diária e, portanto, necessitam da assistência de um cuidador. Essa
pessoa idosa em atividades sociais, produtivas e de lazer tais como viajar, visitar prevalência aumenta com o avançar da idade atingindo cerca de 50% das pessoas
familiares e amigos, praticar esportes, etc. Quando comprometidas pode ser idosas mais longevas (80 anos e mais) lembrando ser esse o grupo populacional que
necessária a presença de outra pessoa para auxiliá-lo no desempenho das mesmas, mais cresce. Os idosos com problemas crônicos e, em especial, os mais dependentes,
mas geralmente sua ausência não comprometerá a sobrevida da pessoa idosa mas, necessitam de maior apoio, de atenção e de cuidado planejado de forma a assistir
apenas, sua qualidade de vida. suas necessidades, o que vai muito além da atenção exclusivamente biomédica.
A presença de dificuldades no desempenho das atividades cotidianas (por Os riscos e as complicações associados às condições crônicas podem ser quase
questões físicas, mentais ou ambas) pode gerar a necessidade de outra pessoa para que totalmente calculados e, em vários casos, retardados ou até mesmo evitados.
auxiliá-lo. A essa pessoa costuma-se denominar “cuidador” Isso exige cuidados de saúde pró-ativos e organizados em torno dos conceitos de
planejamento e prevenção.
Até muito recentemente, a figura do denominado “cuidador” centrava-se quase
que exclusivamente nos elementos familiares que, voluntariamente ou por exclusiva O cuidado gerontológico necessita da incorporação de conhecimentos de
ausência de outras opções, disponibilizavam-se a auxiliar seus parentes mais idosos diferentes áreas e de atualização constante para estabelecer junto ao idoso e seu
que necessitassem de auxílio. Historicamente era esperado que, por exemplo, um filho entorno, condições que permitam, entre outras:
permanecesse na casa dos pais quando eles envelhecessem. Filhos únicos e mulheres • a adoção de condições mais saudáveis relacionadas ao estilo de vida;
não casadas são particularmente vulneráveis a assumir esta função. Quando um cuidador
familiar está disponível, a carga sobre ele pode ser muito significativa. Esposas idosas • facilitação do diagnóstico e tratamento das condições crônicas que ocor-
frequentemente encontram-se disponíveis, mas em muitas ocasiões não são fisicamente rem na velhice a maximização da independência;
capazes de atender a demanda constante de cuidados de seus cônjuges. • a minimização e compensação das perdas e limitações relacionadas ao
Torna-se assim importante que outras opções assistenciais sejam oferecidas às envelhecimento;
famílias com o objetivo de adequar a assistência às necessidades emanadas pelos idosos. • promoção de conforto durante os momentos de angústia e maior fragilida-
de na velhice incluindo o processo de morte.
Alguns estudos mostraram a mudança da pessoa idosa para uma instituição
decorre da inexistência de serviços suficientes e/ou eficazes para assistir as No cuidado gerontológico, idosos e seus familiares não devem ser vistos como
necessidades tanto dos indivíduos dependentes quanto de seus membros familiares. receptores passivos dos cuidados de saúde. Eles precisam e devem ser agentes ativos
Parece que a maioria das famílias auxilia seus membros mais necessitados pelo maior na construção de um novo cuidado participando do tratamento e sendo apoiados nesse
período de tempo e tão bem quanto possível, mas esse recurso está se tornando cada sentido. Esse cuidado envolve informações atualizadas e instruções compartilhadas
vez mais limitado. de forma a atuar na minimização dos efeitos incapacitantes das doenças e na

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa

diminuição do risco de óbito precoce. Cabe ao profissional de saúde que assiste aos Em suma, a comunicação ocorre, dentro de um determinado contexto onde alguém
idosos e seus familiares serem o catalisador dessa interação. transmite alguma coisa a outro alguém, de alguma forma e gerando algum efeito.
O controle das condições crônicas nos idosos pode, hoje, ser mais eficiente A comunicação é um processo complexo baseado em cinco dimensões: biológica,
em virtude dos avanços científicos, mas, é o cuidado gerontológico que permitirá o fisiológica, social, cultural e espiritual.
seguimento regular da terapêutica através do acompanhamento do autogerenciamento,
da detecção e intervenção precoce em agravos e agudizações e uma sobrevida mais A diminuição das capacidades sensório-perceptivas que ocorrem no processo
assistida e consequentemente mais digna. de envelhecimento pode afetar a comunicação das pessoas idosas. Tais alterações
são manifestadas pela diminuição da capacidade de receber e tratar a informação
Embora simples e exequível tal cuidado exige repensar o cuidado à pessoa proveniente do meio ambiente que, se não forem adequadamente administradas,
idosa hoje vigente adequando-o a realidade. Essa reflexão, no entanto, necessita ser poderão levar ao isolamento do indivíduo idoso.
rápida, pois rápido é o envelhecimento de nossa população. Se isso não acontecer, o
envelhecimento ao invés de ser uma conquista será considerado um caos e estaremos A figura a seguir ilustra as principais mudanças fisiológicas relacionadas ao
condenando os idosos a uma “era do não cuidado”. sistema sensorial que podem afetar a capacidade de comunicação das pessoas idosas.

Nesse sentido, vamos ver a seguir alguns tópicos importantes que nos auxiliarão Figura 1: Mudanças sensoriais no processo de senescência
na construção de um cuidado mais adequado à pessoa idosa e seus familiares.
Tato Audição Visão
ASPECTOS RELACIONADOS À COMUNICAÇÃO
• Redução das • Degeneração da cóclea e • Redução da acuidade
sensações táteis órgão de Corti; visual;
A comunicação é considerada uma necessidade fundamental cuja satisfação em especial as • Espessamento do • Redução a visão
envolve um conjunto de condições biopsicossociais. É mais do que uma troca de relacionadas à tímpano; periférica e da visão
palavras; trata-se de um processo dinâmico que permite que as pessoas se tornem temperatura, pressão • Redução da produção de lateral;
acessíveis umas às outras através do compartilhamento de sentimentos, opiniões, e dor local. cerume; • Diminuição do reflexo
experiências e informações. • Otosclerose (ouvido fotoreagente;
médio); • Presbiopia
Comunicar é tornar comum, é trocar. Isso envolve não somente o que é trocado • Atrofia do nervo auditivo.
entre as pessoas de maneira verbal, mas todos os sinais transmitidos através de
nossas expressões faciais, do nosso corpo, da nossa postura corporal, da distância
que mantemos entre as pessoas; da nossa capacidade e jeito de tocar, de usar
determinada roupa. Presbiacusia
A função básica da comunicação nas relações humanas é, além de tornar alguma A comunicação pode ser verbal ou não verbal. A primeira refere-se às palavras
coisa comum, nos ajudar a expressar nossos sentimentos o que é feito principalmente que são expressas por meio da fala ou da escrita e a segunda está associada aos gestos,
através de nosso corpo, que é o nosso instrumento de comunicação com o mundo e o expressões faciais, postura corporal ou mesmo o silêncio em uma conversa. Estudos
responsável por mostrar o que estamos sentindo em relação aos assuntos e às pessoas estimam que 7% das mensagens são transmitidas por palavras, 38% por sinais para
que estão a nossa volta. linguísticos (entonação da voz, velocidade das palavras, etc) e 55% por sinais do corpo.
É importante considerar que, na comunicação verbal, as pessoas utilizam uma
As pessoas idosas podem, algumas vezes, apresentar algumas alterações
linguagem própria (originária de sua região, sua experiência, seu trabalho anterior)
sensoriais que afetam diretamente o processo de comunicação. Isso ocorre, por
que precisa ser respeitada e compreendida de forma a se conseguir entender o
exemplo, com a audição onde pode ocorrer uma diminuição da capacidade de
significado dos termos por ela utilizados.
discriminação dos sons o que significa que as pessoas idosas podem até preservar a
A comunicação é essencial na área de saúde, pois através dela são obtidas capacidade de ouvir tons puros, mas quando esses tons são agrupados na formação
informações valiosas para o planejamento do cuidado. Várias são as formas de de palavras, a capacidade de compreender e perceber esses sons, diferenciando-os,
comunicação entre os seres humanos incluindo-se a fala, a escrita, as expressões pode estar comprometida. A pessoa idosa que apresenta déficit auditivo tem uma
faciais, a audição e o tato cabendo ao cuidador a interpretação das mensagens capacidade diminuída de seguir com uma conversa evitando-a muitas vezes. Assim,
emitidas de forma a estabelecer um plano de cuidados adequado e coerente com as a presbiacusia predispõe ao isolamento social.
necessidades identificadas.
As alterações visuais restringem a participação social e especialmente o interesse
A comunicação interpessoal resulta da interação face a face e implica em fazer- por atividades recreativas tendendo a bloquear a comunicação. Assim, toda vez
se compreender e compreender o outro não sendo esse um processo totalmente que uma pessoa idosa apresentar déficits visuais ou auditivos, deve ser considerada
objetivo. A percepção do indivíduo age como um filtro na decodificação da mensagem, em risco de isolamento, alteração na comunicação, ansiedade ou sentimento de
ou seja, vemos e ouvimos conforme nossa percepção. impotência.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa

Para poder melhorar a comunicação verbal com o idoso deve-se: Se por um lado o idoso pode apresentar algumas dificuldades na comunicação
verbal, por outro, ele pode estar muito atento e treinado na decodificação da
• usar frases curtas e objetivas;
comunicação não verbal, pois teve uma vida toda de aprendizado para isso. Pelo
• procurar um ambiente com poucos ruídos; fato de já ter vivido muito anos e de ter vivenciado inúmeras experiências, a pessoa
• repetir a comunicação erroneamente interpretada por ele utilizando pa- idosa sabe decodificar, pelo menos de maneira inconsciente, nossa postura corporal,
lavras diferentes, e de preferência, os termos também utilizados por ele; o “respeito” que temos por ela quando a tocamos de uma determinada maneira
(com carinho ou com pressa), a emoção ou o sentimento básico que nutrimos por ela
• falar de frente para o idoso evitando virar-se ou afastar-se enquanto fala;
quando a estamos atendendo.
• evitar cobrir a boca com a mão ou com qualquer objeto enquanto fala,
permitindo que ele possa ler os lábios; Para conhecer o que o idoso sente e pensa, é necessário observar o movimento
do seu corpo, seus gestos, sua postura. A comunicação não verbal tem por objetivos
• identificar o momento melhor de abordagem - que não tenha tantos ruídos
completar, substituir ou contradizer a comunicação verbal além de demonstrar os
a nossa volta;
sentimentos das pessoas e por essa razão deve ser sempre considerada.
• evitar infantilizá-lo utilizando termos inapropriados como “vovô”, “queri-
do” ou ainda utilizando termos diminutivos desnecessários (“bonitinho”, De modo geral, o ser humano fala muito pouco o que sente e pensa muitas
“lindinho”, etc) vezes pelo receio de ser ridicularizado (“Imagine...isso é bobagem...”) ou de não ser
• chamá-lo pelo próprio nome ou da forma como ele referir preferir. ouvidos (“Você está louco!...Podemos conversar depois?”). Por essa razão, tanto a
comunicação verbal como a não verbal precisam ser valorizadas.
• quando possível e necessário, usar a escrita para auxiliar na retenção de
informações. A primeira dimensão ou tipo de comunicação não verbal que deve ser considerada
é a linguagem corporal, lembrando que, quando nos voltamos na direção do idoso e
O tipo de linguagem a ser utilizada é definido a partir da observação da conversamos com ele, precisamos estar com o tronco voltado para ele, porque na
sua habilidade cognitiva e de seu nível de orientação, considerando seus déficits
cultura ocidental, o voltar-se em direção a alguma coisa, é considerado demonstração
sensoriais de visão e audição (se houver) e o uso de certos medicamentos (soníferos
de interesse. A pessoa idosa já viveu muito tempo na nossa cultura para não ter
ou sedativos).
dúvida de que uma pessoa realmente atenta, numa interação, volta o seu corpo para
É necessário lembrar que a pessoa idosa pode necessitar de um tempo maior ela, assim como é capaz de usar meneios positivos de cabeça enquanto escuta e é
para responder as perguntas feitas. Assim, não elabore uma segunda questão antes capaz de demonstrar através de gestos, a complementaridade do que está sendo
de ouvir a resposta da primeira e não o interrompa no meio das frases, demonstrando dito. Por exemplo, se dissermos que estamos interessados no que ele está falando,
pressa ou impaciência. É necessário dar tempo para que ele conclua o seu próprio mas ficarmos balançando os pés, roendo unhas, ou olhando o horizonte, ele será
pensamento em sinal de respeito a sua maneira de pensar. capaz de interpretar isso como ansiedade ou desinteresse.
Outra característica ligada à comunicação verbal, é o paraverbal, ou seja, a Para que criemos vínculo de confiança é necessária complementaridade na
maneira como utilizamos a velocidade das falas, o tom de voz e os ruídos entre as linguagem de corpo e no que nós verbalizamos. O ser humano demonstra através
falas. Isso auxilia na identificação dos sentimentos das pessoas por trás das falas
de suas expressões faciais o que está sentindo, mesmo sem nada verbalizar. Estudos
(dúvida, apreensão, medo, etc). Assim como um grito pode ser usado para demonstrar
mostram que através das expressões faciais podemos identificar alegria, tristeza,
susto, dor ou alegria, a hesitação da voz também pode demonstrar dúvida: “é...
ah...hum..”. Grunhidos, levantar de sobrancelhas, laterização de cabeça e respostas raiva, indiferença, desprezo, vergonha, interesse, medo e que tais expressões podem
monossilábicas, podem ser, por exemplo, indicativo de dúvida ou que ele gostaria de nos auxiliar a perceber como anda a nossa interação, nossa relação com ele.
discutir o assunto em outro momento, ou separado das pessoas que estão presentes Temos pouca consciência da expressão que fazemos quando conversamos com as
naquela determinada situação. Muitas vezes o idoso precisa falar sobre as suas pessoas. Por essa razão muitas vezes não gostamos de nos ver filmados ou fotografados,
experiências como uma forma de se fazer respeitar e sentir-se útil. Nossa participação
pois nos assustamos com nossas próprias expressões faciais. O idoso, porém, pode estar
nesse processo envolve ouvir, ouvir e...ouvir.
muito atento, pois já aprendeu como essa decodificação é importante.
É bom lembrar que a necessidade de apoio e de manter relações significativas,
continuam durante toda a vida. Assim, a pessoa idosa também sente necessidade Entende-se por uso eficaz da comunicação não verbal os comportamentos que
de perceber que, as relações de comunicação são relações de igualdade, ou pelo encorajam a fala do outro a partir da demonstração de aceitação e respeito e, por
menos, de respeito mútuo, traduzido pela não interrupção de suas falas, pelo fato uso ineficaz, aqueles que, possivelmente, enfraquecem ou desestimulam o diálogo.
de voltarmos nosso corpo em sua direção e olharmos para ela enquanto fala, de se O uso do espaço interpessoal constitui outra dimensão da comunicação não
demonstrar aceitação às coisas que diz com meneios positivos de cabeça, etc.
verbal. Trata-se da distância mantida entre as pessoas. Normalmente nos aproximamos,
É necessário primeiro avaliar o contexto e individualizar as informações, pois não voltamos nosso corpo para aquilo que nos interessa e mantemos distância do que
é todo idoso que tem declínio na acuidade auditiva ou que pensa muito lentamente. nos desagrada. A distância entre as pessoas pode ser caracterizada como: distância
Idosos só são idosos, não são ignorantes ou necessariamente doentes/incapacitados. íntima, distância pessoal, distância social e distância pública.

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A distância íntima é aquela que vai do tocar o outro a, mais ou menos, 40- É importante ressaltar que os idosos de hoje são de uma época em que o
45cm de distância entre as pessoas e, só é ocupada, normalmente, por pessoas que corpo era tido como “tabu”. O pudor e a vergonha ocupavam lugar de destaque e
realmente se gostam ou quando querem brigar. Ao longo da vida, costumamos manter a aproximação física era vista com algum rechaço. Isso deve ser considerado ao se
com as pessoas, uma distância pessoal (de 40-45cm a 120 cm de distância). aproximar e tocar a pessoa idosa para evitar que esse procedimento desencadeie
um afastamento da mesma. Em nossa realidade se aceita com mais facilidade o
Quando a pessoa idosa apresenta declínio auditivo ou visual, pode ter uma
contato no ombro, braço e mão, do que em qualquer outra parte do corpo. Então,
tendência a utilizar, com mais tranquilidade, a distância íntima, como forma de
devem-se evitar contatos iniciais em qualquer outra parte do corpo da pessoa que
identificar com mais precisão as expressões faciais e de prestar atenção ao tom de
não as citadas.
voz de quem lhe fala.
A pessoa idosa pode não verbalizar, mas comunicar a existência de maus
Nas relações interpessoais existe um “espaço pessoal”, que não deve ser
tratos por meio de lesões, equimoses, úlceras de decúbito, desidratação ou ainda
ultrapassado sem permissão incorrendo no risco de provocar reações de defesa. Esses
demonstração de medo ou ansiedade na presença de algum familiar. Isso deve ser
sinais são expressos por: desviar os olhos e virar a cabeça; virar o corpo em outra
direção; enrijecer a musculatura; cruzar os braços; dar respostas monossilábicas um alerta sobre suas dificuldades nas relações familiares. É necessário estar atento
questões feitas ou se afastar (se o espaço permitir). para o que ela fala, o que ela não fala, seu comportamento, seus gestos, expressões
facial, porque isso pode comunicar muito mais do que somente a avaliação das suas
Toda vez que um profissional de saúde for executar um cuidado mais íntimo, o lesões, déficits ou incapacidades.
espaço pessoal será ultrapassado e sinais automáticos de defesa serão acionados. Isso
pode ser evitado solicitando previamente autorização para essa “invasão” evitando As pessoas costumam ouvir o que esperam e querem uma vez que tendem
assim que o vínculo de confiança não seja quebrado. a sentir e agir de acordo com os próprios referenciais de vida. É importante ao
profissional de saúde o reconhecimento disso para que compreenda que a maneira
Outra questão importante sobre espaços interpessoais é a necessidade das como a pessoa idosa percebe os fatos à sua volta influencia sua conduta mais do que
pessoas em delimitarem seu próprio espaço. O idoso pode demarcar esse espaço por a realidade da situação em si.
meio da colocação de suas próprias coisas (chinelo, livro, Bíblia, fotos). Invadir esse
espaço sem permissão pode originar reações de defesa. É necessário que o profissional esteja atento à comunicação verbal e não verbal,
sua e da pessoa idosa para torná-la mais consciente e assim dispor de recursos para
A maneira de se vestir, de se pentear, os adornos utilizados, etc também podem entendê-la de forma eficaz tornando-a parte de seu planejamento assistencial.
ser compreendidos como formas de comunicação não verbal. Uma pessoa com
autoestima elevada vai estar preocupada em causar uma impressão bem cuidada
CUIDADOS COM A ALIMENTAÇÃO
(usando brinco, batom, roupa limpa). O idoso pode preferir roupas mais tradicionais e
se sentir mais a vontade com cuidadores que o utilizem roupas menos extravagantes.
A alimentação é fundamental na promoção, manutenção e/ou recuperação da
O ambiente também comunica e costuma mostrar algumas características saúde em qualquer fase da vida. As necessidades nutricionais, no entanto, variam de
pessoais das pessoas. Várias imagens de santos podem representar uma pessoa acordo com o sexo, a idade, a atividade física e a presença de doenças.
religiosa; muitas gravuras ou quadros podem demonstrar afinidade por arte, etc.
Para compreender melhor um idoso e iniciar um vínculo é importante observar Com o envelhecimento ocorrem algumas alterações no organismo que podem
atentamente seu meio ambiente. Aquilo que ele coloca à sua volta e o que ele modificar as necessidades nutricionais. Isso pode ser ainda mais acentuado pela presença
costuma cuidar (animal ou planta) podem ser os motivos para iniciar um diálogo. de doenças, pelo uso de medicamentos ou por problemas sociais e psicológicos.

O toque, uma das sinalizações não verbais, tem muitas características específicas Com o avançar da idade ocorre uma mudança na composição corporal, com
que demonstram a intenção e a valorização do cuidador para com a pessoa idosa. A diminuição da massa magra (músculo e osso), aumento da massa gordurosa, diminuição
forma como nos aproximamos para tocar a pessoa, a rapidez dessa aproximação, o do metabolismo basal e tendência a inatividade física. Essas transformações
local onde se toca são indicadores do tipo de relação de afetividade que se tem por interferem na quantidade de energia necessária diariamente pela pessoa idosa.
e com essa pessoa. Tocar alguém sem primeiro lhe dirigir o olhar pode representar
Por outro lado as alterações sensoriais (visão, paladar, olfato, audição e tato)
desrespeito ou uma forma de poder sobre ela. Quem se sente subordinado toca
podem levar à perda de apetite, induzindo a menor ingestão de alimentos. A ausência
menos o outro, ou o toca para chamar a atenção.
parcial ou total de dentes, o uso de próteses (parciais ou totais) inadequadas, a
O toque carrega consigo mensagens como afeto, segurança, proteção, presença de doenças periodontais e cáries e a diminuição da secreção salivar
apoio, valorização da própria pessoa e auxílio na promoção de sua autoestima. (xerostomia) são fatores que podem provocar dificuldade de mastigação e deglutição,
As mensagens transmitidas pelo toque são influenciadas pela duração do contato, propiciando hábitos alimentares inadequados, como a diminuição do consumo de
pela região tocada, pela intensidade do toque, pela frequência com que tocamos, determinados alimentos como carnes, frutas, verduras e legumes crus. Isso é ainda
pela velocidade de aproximação com a pessoa e até pela sensação que provoca no mais acentuado quando a pessoa idosa apresenta limitações físicas que a impedem
cuidador e na pessoa idosa. de sair para fazer compras o que pode comprometer seu padrão alimentar.

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Alterações gástricas e metabólicas podem dificultar a digestão e favorecer a (metabolismo basal) e externas (andar, correr, trabalhar, jogar, etc). São constituídos
obstipação intestinal (prisão de ventre). preponderantemente pelos por carboidratos (simples e complexos) e lipídios.
É frequente entre as pessoas idosas a presença simultânea de várias doenças, Os alimentos ricos em carboidratos complexos são representados especialmente
(diabetes mellitus, hipertensão arterial, aterosclerose, osteoporose, etc) que pelo amido (cereais, farinhas derivadas de cereais e seus derivados, massas, feculentos
associadas ou isoladamente, podem afetar suas necessidades nutricionais, por e derivados); os ricos em carboidratos simples, são representados pelos açúcares,
alterarem os processos metabólicos, a digestão, absorção, utilização e excreção de doces em geral, mel e refrigerantes comuns.
nutrientes. Os medicamentos utilizados para controle dessas doenças podem interagir
Os alimentos ricos em lipídios além de fornecer energia, veiculam ácidos graxos
entre si e com os nutrientes dos alimentos, prejudicando o processo de alimentação
essenciais e vitaminas lipossolúveis (solúveis na gordura), e auxiliam na regulação
e nutrição e, consequentemente, o estado nutricional dos idosos.
térmica do organismo (óleos, margarinas, gordura intrínseca das carnes ou dos leites,
Com o processo de envelhecimento, as pessoas podem ainda perder o interesse queijos, iogurtes). Os alimentos ricos em lipídios (gorduras) podem ser subdivididos
para preparar e ingerir as refeições, ou porque moram sozinhas e não têm motivação em: de origem vegetal (óleos vegetais, azeite de oliva, azeite de dendê, gordura
para a realização dessas tarefas, ou porque, mesmo acompanhadas, vivem em vegetal hidrogenada, margarinas, halvarinas, cremes vegetais) e, de origem animal
permanente conflito e isso se reflete na recusa dos alimentos. (manteiga, banha, toucinho, bacon, creme de leite, além das gorduras intrínsecas
dos alimentos - carnes, no leite e nos queijos, iogurtes, requeijão).
Os hábitos alimentares são fixados na infância e tendem a se perpetuar ao
longo da vida, tornando-se cada vez mais arraigados e difíceis de serem modificados. Existem ainda, as gorduras saturadas (gordura das carnes, do leite, dos
Soma-se a isso a existência de crenças e tabus, baseados em informações incorretas queijos, manteiga, creme de leite, requeijão, banha, toucinho, ovo, gordura vegetal
que podem levar a prejuízos nutricionais. Assim, alguns alimentos ou preparações hidrogenada, azeite de dendê, gordura de coco, leite de coco, em óleos vegetais
são considerados “leves”, “pesados”, “quentes”, “frios”, ou então, impróprios para superaquecidos e reutilizados várias vezes e em margarinas duras) e as insaturadas
o consumo em conjunto com outros alimentos (exemplo: leite com manga) ou ainda, (monoinsaturadas do azeite de oliva e as poliinsaturadas dos óleos vegetais e
impróprios para serem consumidos em determinados horários (por exemplo, à noite). margarinas cremosas).

Existem também alguns alimentos ou preparações que são considerados A ingestão de alimentos fontes de gorduras é importante, mas o seu consumo
“milagrosos” embora não apresentem qualquer comprovação científica (p.ex: suco de deve ser controlado, devido à alta densidade energética e por sua relação com
laranja com berinjela crua, pela manhã, em jejum para baixar o colesterol sanguíneo). algumas doenças (obesidade, diabetes e cardiovasculares).

A escassez de recursos financeiros e a aposentadoria acabam comprometendo Os alimentos construtores têm a função de fornecer substâncias para a
construção, manutenção e/ou recuperação das diferentes partes do organismo.
o padrão alimentar dos idosos uma vez que grande parte dos recursos financeiros
Fornecem, principalmente, proteínas, cálcio e ferro. Os alimentos ricos em proteínas
são utilizados na aquisição de medicamentos, considerados prioritários. O restante é
podem ser de dois tipos: de origem animal (carnes de todos os tipos, vísceras, ovos,
utilizado em parte na aquisição de alimentos mais baratos (pão, bolacha) e de mais
leites, queijos, iogurtes, coalhadas) e de origem vegetal (feijões de todos os tipos,
fácil preparo, em detrimento de alimentos mais caros (carnes, leite e queijos).
soja, lentilha, grão de bico, ervilha seca).
FUNÇÕES DOS ALIMENTOS Os alimentos ricos em cálcio são representados por leite, queijos, iogurtes e
coalhada. Em sua forma integral têm gordura saturada e colesterol.
O nosso organismo recebe todas as substâncias necessárias ao seu bom
funcionamento através dos alimentos. Estes são constituídos por elementos chamados Os alimentos ricos em ferro são as carnes, vísceras (fígado, rins) e leguminosas
nutrientes e que são considerados indispensáveis à vida humana. Os nutrientes secas. O ferro presente nas carnes é bem aproveitado pelo organismo, mas o das
contidos nos alimentos são: água, carboidratos, proteínas, lipídios, vitaminas, leguminosas secas, para ser aproveitado, necessita da ingestão de alimentos que
minerais e fibras. contenham vitamina C (laranja, mexerica, acerola, caju e outros - ao natural ou sob
a forma de sucos). Os ovos são ricos em proteínas mas não constituem boa fonte de
Cada alimento possui vários nutrientes em diferentes quantidades e cada ferro. Assim, não é recomendável fornecer gema de ovo como fonte de ferro.
nutriente exerce uma função específica no organismo. Com exceção do leite materno,
nenhum outro alimento é completo do ponto de vista nutricional. Desta forma, tendo Os alimentos reguladores regulam várias funções do organismo contribuindo
em vista a quantidade de nutrientes presentes nos alimentos, bem como a função na elevação da resistência do organismo às infecções, auxiliando na proteção da
que os mesmos exercem no organismo, os alimentos podem ser classificados em três pele e da visão, ajudando na regulação do funcionamento intestinal. Esses alimentos
grupos: energéticos, construtores e reguladores. O que determina em qual grupo fornecem, principalmente, vitaminas, minerais e fibras, e são representados pelas
os alimentos se enquadram é o nutriente que está presente em maior quantidade e frutas, hortaliças e cereais integrais.
a função que esse exerce, predominantemente, no organismo.
O teor de fibras da alimentação aumenta quando as frutas são consumidas com
Os alimentos energéticos são aqueles que têm a função primordial de fornecer casca e bagaço. As frutas ricas em vitamina C (acerola, maracujá, goiaba, caju,
energia para que o nosso organismo possa desenvolver suas atividades, internas laranja, mexerica, limão) devem ser consumidas diariamente, pois nosso organismo

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necessita delas todos os dias e não as armazena. As frutas devem ser bem lavadas em
água corrente antes do consumo e podem ser ingeridas ao natural, sob a forma de
salada de frutas, de sucos ou de vitaminas (leite batido com frutas).
As hortaliças podem ser subdivididas em verduras (alface, agrião, rúcula,
repolho, couve, escarola, espinafre, brócolis, almeirão e outras) e legumes (pepino,
tomate, quiabo, jiló, berinjela, pimentão, abobrinha, chuchu, cenoura, abóbora
madura, beterraba e outras). Algumas vitaminas podem ser destruídas com a
cocção (cozimento) das verduras, portanto esses alimentos devem ser consumidos
preferentemente crus o mesmo ocorrendo com os legumes. Quando for necessário
refogá-los, fazê-lo em fogo baixo, panela tampada, sem adição de água e em tempo
adequado.
É preferível comprar as frutas e as hortaliças no período de safra, porque além
de mais baratas, são mais nutritivas. O Grupo 1 constitui a base da pirâmide e é composto por alimentos energéticos,
Os cereais integrais e derivados (arroz integral, aveia, pão de trigo integral, ricos em carboidratos complexos. É o grupo que representa a maior parcela de
biscoitos integrais, farinhas integrais) fornecem vitaminas, minerais e fibras e em contribuição da alimentação. O Grupo 2 é composto pelas hortaliças (verduras e
maior quantidade do que os seus correspondentes refinados. legumes), alimentos reguladores e que devem compor a alimentação com 3 a 5
porções. O Grupo 3 é constituído pelas frutas, alimentos reguladores, recomendando-
Os idosos, em geral, apresentam diminuição do peristaltismo intestinal, ocorrendo se que pelo menos uma delas seja rica em vitamina C. O Grupo 4 é composto pelo
frequentemente a obstipação intestinal (prisão de ventre). Assim, é de fundamental leite, queijo e iogurtes, também do grupo dos alimentos construtores. O Grupo
importância que se forneça quantidade adequada de frutas, de hortaliças e/ou de 5 é constituído pelas carnes, ovos e leguminosas secas, do grupo dos alimentos
cereais integrais, para minimização desse problema. Deve-se, ainda, garantir um construtores. O Grupo 6 é formado pelos açúcares e doces em geral, dos alimentos
consumo adequado de água (6 a 8 copos) ou outros líquidos (exemplo: chás, sucos) energéticos, mas que fornecem, principalmente, carboidratos simples. O Grupo 7 é
por dia para facilitar o funcionamento adequado do intestino. constituído pelos lipídios, dos alimentos energéticos.
A alimentação saudável é importante para o bem estar físico, mental e social Para as pessoas idosas portadoras de diabete, obesidade ou hipertrigliceridemia
das pessoas, para a prevenção de agravos à saúde e para o controle de determinadas (triglicérides sanguíneo elevado), o consumo de alimentos do Grupo 6 e 7 deve ser
doenças, contribuindo assim para aumentar sua qualidade de vida. Uma alimentação evitado ou controlado. Os produtos “diet” podem não conter açúcar, mas podem
saudável é a equilibrada do ponto de vista nutricional. Significa que deve fornecer apresentar grande quantidade de gordura, o que seria igualmente contra indicado
energia (calorias) e todos os nutrientes em quantidade suficiente para o bom para esses indivíduos.
funcionamento do nosso organismo. Essa quantidade varia de pessoa para pessoa, de
acordo com o sexo, a idade, o peso, a altura, a atividade física, o estado fisiológico Cabe ressaltar que dentro do mesmo grupo, os alimentos se equivalem em
ou presença de doenças. Portanto, a necessidade nutricional é individual. termos nutricionais, podendo, portanto, serem substituídos uns pelos outros sem
prejuízo da qualidade nutricional da alimentação.
Com o objetivo de auxiliar na orientação nutricional quanto à uma alimentação
saudável para indivíduos idosos, o Grupo de Estudos de Nutrição na Terceira Idade Os alimentos dos Grupos 6 e 7 estão no topo da pirâmide, sendo proporcionalmente
os menores grupos, demonstrando que devem ser consumidos em pequena quantidade,
- GENUTI, formado por nutricionistas, elaborou um guia alimentar onde a pirâmide
mesmo porque os nutrientes que eles fornecem estão presentes, naturalmente
foi escolhida como forma de orientação para uma alimentação saudável, porque
ou adicionados, nos alimentos dos outros grupos da pirâmide. Os açúcares são
sua estrutura dá a conotação exata de equilíbrio e proporcionalidade. A Pirâmide
representados pelos cristais desenhados nos outros grupos e as gotinhas representam
de Alimentos é dividida em sete grupos, de acordo com as funções que exercem no
as gorduras. O fato de estar no topo da pirâmide não significa que sejam os mais
organismo.
importantes.
Cada um dos grupos de alimentos fornece alguns nutrientes, porém não todos
A água é um nutriente importantíssimo na alimentação dos idosos, mas
que o organismo necessita. Assim, é preciso consumir alimentos de todos os grupos
frequentemente negligenciada. Alguns autores colocam que o idoso é um desidratado
para que a alimentação seja equilibrada. Nenhum deles é mais importante do que
crônico e ao ser questionado sobre o seu consumo diário a resposta normalmente é:
o outro, no entanto é necessário observar as porções recomendadas. Essas porções
“Não sinto sede”, ou, então: “Não me lembro de beber água”. É importante a ingestão
foram estabelecidas para cada grupo, partindo-se de uma quantidade considerada
média, de 6 a 8 copos de água ou líquidos (chás, sucos) por dia. Popularmente, há
padrão (ou habitual) para cada grupo de alimento e seus respectivos equivalentes.
uma falsa ideia de que não se deve beber líquido durante as refeições. Obviamente,
Estabeleceu-se também um número mínimo e um máximo de porções para cada
não se deve exagerar na quantidade de líquido consumido - um copo por refeição
grupo, visando contemplar dietas com diferentes valores calóricos e necessidades
- devendo-se evitar o consumo de refrigerantes ou bebidas alcoólicas. Esse hábito
específicas de nutrientes.

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facilita a mastigação e a deglutição, auxilia na formação do bolo alimentar e do guerra contra a sujeira, impurezas e a desordem representava um clássico esforço
bolo fecal, no bom funcionamento do intestino e na hidratação do organismo. A água contra o caos.
exerce ainda outras funções importantes no organismo como: participar na regulação
da temperatura corporal e em suas reações químicas; lubrificar as partes móveis O asseio passou, então, a diferenciar a classe média da classe trabalhadora e os
do corpo; auxiliar no funcionamento adequado de todos os órgãos, na digestão e camponeses da burguesia, essa reconhecida como uma nova classe social emergente.
absorção dos alimentos, na circulação e excreção de nutrientes; conduzir nutrientes O asseio tornou-se moda. Um mundo sem cheiros era elegante e aristocrático
e catabólitos através de todo o corpo. (“mundo longe dos currais”). Os papéis domésticos foram redistribuídos valorizando
Em cada uma das refeições é fundamental que, pelo menos um alimento mais aqueles que, de alguma forma, administravam o trabalho dos outros em
energético, um construtor e um regulador, estejam presentes. Deve-se realizar detrimento daqueles que desenvolviam trabalhos pesados.
de três a cinco refeições por dia (café da manhã, lanche, almoço, lanche, jantar) Os textos relacionados ao cuidado escritos nessa época falam da necessidade
oferecendo menor quantidade de alimentos por refeição, o que facilitará a digestão. de “banhos de limpeza”. Para retirar a sujeira pesada sugeria-se adicionar amônia à
É necessário que se mantenha regularidade no horário das refeições e que essas água e, para remover graxa, sugeria-se adicionar álcool quente ou éter e benzina. As
sejam agradáveis a todos os órgãos dos sentidos, despertando o apetite e o prazer pessoas submetidas a esse banho, denominado “banho de admissão”, reclamavam do
de comer. cheiro presente nessa mistura e de como se sentiam desconfortáveis com ele.
Há uma falsa ideia de que o idoso não deve jantar, mas apenas fazer um lanche O lema adotado para a higienização das pessoas doentes dizia “pessoas acamadas
à noite. Cientificamente não há nada que contraindique esta prática. O importante é podem não parecer sujas, mas elas necessitam de banho tanto quanto as que estão
observar a quantidade de alimentos a ser consumida à noite e o horário da refeição. em pé”.
Em algumas ocasiões há necessidade de se modificar o preparo dos alimentos A explicação fisiológica utilizada dizia que a pele é um órgão de excreção,
(picá-los bem, amassá-los ou liquidificá-los) para que o idoso possa se alimentar que secreta gordura e água na forma de transpiração juntamente com substancias
adequadamente permitindo a mastigação e a deglutição e facilitando a digestão. Em orgânicas. Se essas substâncias não forem removidas da pele através do banho, elas
outras ocasiões será necessário o uso de sondas nasogástricas ou enterais e de dietas provocariam um odor desagradável além de poderem provocar lesões na pele.
especiais, normalmente, preparadas por laboratórios especializados.
A partir daí, para algumas culturas, o banho passou a ter utilização terapêutica
nas formas de hidroterapia, banho frio, banho quente, banhos de vapor. As pessoas
CUIDADOS COM A HIGIENE, VESTIMENTA E CONFORTO DA PESSOA procuravam tais banhos como uma forma de tratamento para suas doenças. Ainda
IDOSA hoje, muitas pessoas buscam banhos terapêuticos em spas ou estações de água na
busca de melhorar suas condições de saúde.
A higiene pessoal é um cuidado considerado básico para a saúde e bem estar
Para outras culturas, no entanto, o banho não é visto como um procedimento
do ser humano. É uma atividade incorporada na rotina diária desde a infância e que
de conforto para pessoas doentes ou dependentes. Elas acreditam que o banho pode
difere de cultura para cultura e, entre diferentes épocas. Entende-se por higiene
tornar a pessoa ainda mais doente por ficar exposto ao frio.
pessoal, a higiene corporal e íntima, a higiene oral e do couro cabeludo.
Quando os cuidadores se depararem com resistência das pessoas idosas para o
banho, a primeiro passo deve ser tentar descobrir o porquê. Eles podem ter receio
HIGIENE CORPORAL
de sofrer uma queda no banheiro, eles podem estar apresentando algum tipo de dor
A cultura do “asseio” ou da limpeza do corpo veio com a Revolução Industrial. ou simplesmente estarem muito cansados.
Antes, as pessoas que trabalhavam no campo, traziam esse registro em seus corpos
As pessoas idosas realmente necessitam de banho diário?
e suas roupas. Mulheres de pescadores cheiravam peixe e os camponeses cheiravam
gado. O banho é, normalmente, realizado para agradar mais quem cuida (senso
de responsabilidade) do que para atender a uma real necessidade ou desejo da
A sujeira era vista como positiva. Não tomar banho com frequência era uma
pessoa cuidada.
demonstração de força, pois mostrava que a pessoa não sentia frio tão facilmente.
Acreditava-se que a sujeira e as secreções que saiam do corpo forneciam uma O banho diário baseia-se mais em normas culturais que em requerimentos
proteção adicional à pessoa. clínicos. Algumas culturas valorizam o asseio e consideram que o banho é incompleto
se não houver o uso de vários xampus, sabonetes ou desodorantes; outras, no entanto,
O asseio, o autocontrole e a disciplina foram importantes ferramentas passadas
consideram o banho semanal suficiente não sentindo necessidade de “mascarar” o
de mão em mão em um processo histórico comumente referido como o processo de
próprio odor com produtos perfumados.
domesticação da classe trabalhadora que adotava os valores da classe média por
meio das ideias de higiene. As “novas” normas preconizavam que as pessoas sujas A frequência do banho depende das necessidades apresentadas pelos idosos. Em
eram rebeldes e difíceis; pessoas limpas e saudáveis representavam organização. A algumas circunstâncias esse banho pode ser dado apenas, por exemplo, duas vezes

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por semana. É o caso das pessoas idosas com importante ressecamento de pele, os com a água, ficamos parecendo uma “ameixa seca”. Por essa razão, o momento ideal
muito enfraquecidos ou os que, por problemas de saúde, cansam-se facilmente. para hidratar a pele é logo após o banho, momento no qual os queratinócitos estarão
Embora o banho seja muito importante, a rotina de seu uso diário não pode ser retendo, na pele, a maior quantidade de água possível. A aplicação de cremes,
legitimamente defendida. Se um banho/dia já é difícil de defender, que dirá dois. No emolientes e loções nesse momento auxiliam na prevenção da evaporação da água
entanto, isso é uma rotina para alguns hospitais, instituições, cuidado domiciliar, etc. aumentando a umidade da camada mais superficial da pele e, consequentemente,
aumentando sua proteção. Pensando no mesmo princípio, os óleos de banho não
O auxílio à higiene corporal é, geralmente, uma das principais atividades devem ser adicionados à água antes de 15-20 minutos de imersão.
desenvolvidas pelos cuidadores. Isso ocorre quando a pessoa idosa apresenta
dificuldades para executar essa atividade sem auxílio. Várias são razões que podem Qualquer produto que diminua a umidade da pele deve ser evitado, assim,
gerar essa necessidade tais como efeitos das doenças existentes; diminuição de força deve-se dar preferência aos produtos que contenham emolientes e evitar os que
e energia; presença de dor ou desconforto; incapacidade de acessar determinadas contenham álcool.
partes do corpo (p.ex: pés, pernas, costas); medo de se ferir durante o procedimento Talco e amido de milho não devem ser utilizados, o primeiro porque absorve
(insegurança pessoal); presença de confusão mental, dificuldade de compreensão, o óleo e pode ser inalado e o segundo porque, na presença de umidade, quebra-
esquecimento do que deve ser realizado e como. se liberando glicose e permitindo a formação de um “meio de cultura” que pode
Essa dificuldade em desempenhar a higiene pessoal pode ser classificada como: facilitar o desenvolvimento de micro-organismos e permitir a instalação de um
temporária, permanente ou progressiva. O cuidador precisa ser alertado sobre a processo infeccioso.
necessidade de estimular a pessoa idosa a realizar, durante o banho, aquilo que conseguir, O momento do banho também é indicado para uma observação mais detalhada
pois os princípios de autonomia e independência devem ser sempre preservados. da pele da pessoa idosa (inspeção) permitindo identificar lesões, rachaduras;
O banho tem muitos objetivos incluindo: limpar a pele; remover as bactérias, descamação, mudanças de coloração (descorada, avermelhada, azulada); presença
eliminar e prevenir odores corporais; estimular a circulação e a movimentação de regiões quente ao toque; edemas; hematomas e/ou tumorações.
articular; prevenir úlceras de pressão, promover conforto e sensação de bem-estar. Os princípios gerais para o banho de pessoas idosas incluem:
A pele é o maior órgão do nosso organismo constituindo uma barreira física • Organização: prepare previamente o banho deixando separado tudo o que
em relação aos microorganismos e substâncias estranhas. Por conter inúmeras for ser utilizado;
terminações nervosas, permite reconhecer informações sobre o meio exterior.
• Privacidade: não exponha a pessoa idosa desnecessariamente;
Com o envelhecimento ocorre diminuição da renovação epidérmica, diminuição
da espessura da derme por perda de tecido subcutâneo, diminuição da tonicidade • Manutenção do aquecimento da pessoa: mantenha o idoso coberto com
da pele por perda de elastina, perda da elasticidade da pele por diminuição do uma toalha sempre que possível e evite as correntes de ar, fechando
colágeno, alteração da barreira epidérmica devido a osteoatos, atrofia dos capilares portas e janelas;
da pele, perda de tecido adiposo subcutâneo e alteração em sua distribuição (menos
em braços e pernas e mais na região abdominal), atrofia do tecido glandular da • Sequência: inicie o banho pelas áreas mais limpas seguindo para as mais
mama, aparecimento de rugas, aparecimento de manchas na epiderme, diminuição sujas;
da atividade das glândulas sebáceas e atrofia das glândulas sudoríparas. • Segurança: previna acidentes utilizando procedimentos de segurança
Também ocorrem alterações nos denominados “tegumentos” (pelos, cabelos, como banho sentado, instalação de barras de apoio, uso de tapetes anti-
unhas): diminuição dos pelos, perda e diminuição da espessura dos cabelos, derrapantes, checagem da temperatura da água, etc;
embranquecimento, lentificação do crescimento e espessamento das unhas (por
• Ergonomia: utilização os princípios de uso dos mecanismos corporais;
diminuição da circulação periférica).
Com o avançar da idade há uma redução em todos os processos que mantém • Autonomia e Independência: encoraje o idoso a ajudar no banho o máximo
nossa pele umectada, há uma perda de seu suprimento sanguíneo que contribui para que sua condição física/mental permitir;
a diminuição da secreção sebácea. As glândulas sebáceas secretam sebo através • Conforto: proceder à higienização da pele com delicadeza, principalmen-
do folículo piloso para a superfície da pele. Esse age como emoliente mantendo a te em peles lesionadas ou ressecadas.
umidade da pele; sua diminuição resulta em pele e cabelos mais ressecados.
O primeiro objetivo do cuidado com a pele da pessoa idosa é a manutenção de Produtos utilizados no banho para o cuidado com a pele
sua hidratação, pois a sua umidade auxilia na prevenção da formação de feridas,
pois permite que essa seja mais resistente e tenha uma recuperação mais rápida Muitos são os produtos disponíveis. A escolha depende da necessidade, da
quando lesada. adequação e da preferência da pessoa idosa.
Os queratinócitos constituem 95% da epiderme e são capazes de absorver grande Sabão: é utilizado para a limpeza da pele. Ele pode ser comum, medicamentoso,
quantidade de água. É por essa razão que, quando ficamos muito tempo em contato perfumado ou umectante. Os sabões/sabonetes comuns ressecam a pele e não devem

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ser utilizados todos os dias. As pessoas idosas que apresentarem ressecamento de enfraquecidas são potencialmente candidatas a esse tipo de banho. O banho de
pele em decorrência do envelhecimento devem utilizar sabonetes que contenham leito pode ser constrangedor para a pessoa idosa, pois aumenta seu sentimento
hidratantes ou lubrificantes. Procure utilizar o sabão/sabonete preferencial da de dependência, diminui sua autonomia e rompe com sua privacidade. Garantir a
pessoa idosa a menos que seja indicado o uso de algum produto especial. privacidade do idoso, executar o procedimento rápida e eficientemente e conversar
com o idoso enquanto procede ao banho pode minimizar esses sentimentos.
Óleo de banho: geralmente é colocado na água do banho para amaciar a pele
e prevenir seu ressecamento. Seu uso, no entanto, pode deixar o local do banho Banho parcial: nesse tipo de banho face, mãos, axilas, pescoço, nádegas e
escorregadio aumentando o risco de quedas. É recomendado que óleos de banho genitália são, normalmente, as áreas higienizadas. Isso pode ser feito na cama ou no
sejam evitados e trocados por lubrificantes de pele a serem aplicados após o banho. banheiro. A higiene oral pode ser feita nesse momento.
Cremes e loções: são aplicados para deixar a pele mais macia e prevenir seu Cuidados com o banho
ressecamento. Os idosos devem ser estimulados a auto aplicarem essas substâncias
sendo auxiliados, apenas, nas regiões do corpo em que apresentam dificuldade • dirigir-se à pessoa idosa através de seu nome preferido demonstrando res-
para alcançar. A aplicação deve ser feita de forma delicada e gentil (não a esfregue peito e reforçando sua identidade pessoal;
vigorosamente) e ser precedida pelo aquecimento do produto nas próprias mãos. • nunca utilizar apelidos sem autorização ou termos demasiadamente afetu-
Utilize uma pequena quantidade e remova o excesso do creme com uma toalha, pois osos (minha querida, meu coração, minha linda, meu fofo) ou ainda dimi-
a aplicação em excesso deixará a pele desagradavelmente escorregadia e pegajosa o nutivos que infantilizam (lindinha, queridinha, mãozinha, boquinha, etc)
que pode ser desagradável e desconfortável para o idoso.
• conversar com a pessoa idosa antes do banho explicando o que será feito
Talco: as pessoas idosas, geralmente, têm o hábito de utilizá-los para refrescar e como;
a pele e prevenir fricção entre duas superfícies que ficam em contato (entre as coxas,
• preparar o ambiente do banho separando os materiais necessários, fe-
abaixo das mamas, etc), no entanto, não são recomendados. Se não for possível
chando portas e janelas e aquecendo o ambiente;
persuadir a pessoa idosa a não utilizá-lo, alguns cuidados necessitam ser observados:
use apenas uma fina camada na superfície da pele; não o associe a cremes, pois isso • permitir que ela escolha os artigos a serem utilizados no banho, assim
propiciará a formação de uma crosta que se solidificará sobre a pele da pessoa idosa como as roupas que irá vestir após o mesmo;
causando irritação e aumentando o risco de infecção; não o espalhe no ar, pois a • ajudá-lo na medida de sua necessidade;
inalação de partículas pode irritar o trato respiratório provocando espirros.
• tranquilizar e confortar a pessoa idosa através do contato físico gentil e
Desodorante: é utilizado para prevenir o odor corporal. São aplicados na região delicado principalmente para aqueles com déficits sensoriais;
axilar após o banho. Seu uso deve ser evitado em peles irritadas ou machucadas.
Dê preferência aos sem perfume, pois, ao contrário, podem provocar uma sensação • respeitar a intimidade do idoso durante o banho e sua privacidade (fechar
de desconforto na pessoa idosa. O cuidador deve sempre perguntar a ela qual o a porta, o box, a cortina);
desodorante de sua preferência e procurar utilizá-lo. • evitar interrupções (nem as mais breves) durante a execução do banho
(atender telefones ou a outras pessoas, sair do local do banho deixando a
Tipos de banho pessoa idosa sozinha);
Banho de aspersão (chuveiro): as pessoas idosas podem tomar banho de
Cuidado com as unhas das mãos e dos pés
chuveiro em pé ou sentadas, conforme sua condição física assim o permitir. Algumas
medidas de segurança são necessárias. Sempre coloque um tapete antiderrapante no O cuidado com as unhas deve ser realizado, preferencialmente, após o banho,
interior do box antes da pessoa idosa entrar no recinto; esteja certo que o piso do pois estarão mais hidratadas e amolecidas. Caso sejam muito espessas, endurecidas
banheiro está seco para prevenir escorregões e quedas; não aplique óleo de banho na e quebradiças coloque-as, por cerca de 10 minutos, imersas em uma solução de água
pele da pessoa durante o banho, para evitar que o piso fique escorregadio; certifique- bicarbonatada ou água morna com sabão neutro ou umectante. Isso facilitará seu corte
se que a temperatura do água do banho está apropriada checando isso com o dorso que deve ser em linha reta (para evitar que encrave) e não muito rente à pele (evitando
da mão ou braço e proceda aos ajustes necessários antes de iniciar o banho; se lesões que podem originar processos inflamatórios ou infecciosos). Após o corte devem
a pessoa idosa for capaz de se banhar sozinha, o cuidador deve ficar próximo ao ser lixadas, enxaguadas novamente. Finalizar secando cuidadosamente a região
banheiro enquanto ela o faz; evite correntes de ar fechando a porta do banheiro e do interdigital. Cutículas não devem ser retiradas para evitar ferimentos e infecções.
box; a instalação de barras de segurança (para apoio) no interior do box aumenta a Os pés merecem atenção especial, pois são os responsáveis pela sustentação do
segurança da pessoa idosa durante o banho, ela deve ser orientada a nunca se apoiar corpo, postura e marcha, fundamentais para a maior independência da pessoa idosa.
no toalheiro ou na saboneteira pois esses locais não estão preparados para suportar Inicialmente devem ser cuidadosamente inspecionados (temperatura, estado da
seu peso e podem se quebrar ocasionando acidentes (quedas, traumas, lesões). pele, sensibilidade, circulação, presença de deformidades - joanetes, calosidades,
etc - presença de micoses interdigitais e onicomicoses).
Banho de leito: é o tipo de banho dado a pessoas idosas que não são capazes
de se banharem sozinhas e, não podem ou tem muita dificuldade em se dirigirem ao Alguns cuidados simples são recomendados: secá-los cuidadosamente, sem
banheiro. Pessoas inconscientes, incapacitadas (física ou mentalmente) ou muito esfregar, especialmente as regiões interdigitais para evitar a contaminação por

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fungos; exercitá-los para prevenir contratura e atrofias musculares e estimular a normal, mas em pacientes imunocomprometidos podem causar a candidíase que
circulação por meio da realização de movimentos de rotação e extensão; auxiliar ocorre quando esse microrganismo adere à parte acrílica das próteses e também à
na colocação de meias limpas e folgadas (sem furos ou remendadas com costuras mucosa do paciente formando placas brancas. Esse processo é chamado colonização.
duras) para a mantê-los aquecidos proporcionando sensação de conforto; auxiliar
na colocação de calçados verificando sua adaptação aos pés (para evitar lesões). As próteses totais (que não possuem metal somente acrílico) devem ser
Pessoas idosas com diabetes requerem cuidado especial com os pés. Nesses casos, o higienizadas com uma escova dura e sabão ou detergente neutro. Não se deve
encaminhamento para um podólogo pode ser necessário. higienizar as próteses com creme dental, pois estes não desfazem a camada de
gordura aderida ao acrílico. As próteses devem ser retiradas para dormir e conservadas
em um copo com água. Caso tenham sido contaminadas por Candida albicans devem
HIGIENE ORAL ser retiradas para dormir e após a higienização das mesmas, deve-se deixá-las em
ambiente seco por no máximo 8 horas até que o quadro clínico da lesão melhore.
A higiene oral tem por finalidades: a prática profilática de prevenção das
Uma vez por semana, as próteses devem ser mergulhadas num copo americano com
afecções dentárias, periodontais e infecções; a eliminação de restos alimentares e
água misturada com uma colher de café de hipoclorito de sódio (água sanitária). Pela
micro-organismos; a estimulação da circulação sanguínea local; evitar mau hálito;
manhã, lavar bem a prótese antes do uso. A solução de clorexidina também é uma
proporcionar sensação agradável de limpeza e conforto. Sua falta ou deficiência,
geralmente, podem ocasionar problemas como: cáries; acúmulo de placas bacterianas boa opção para higienização desses dispositivos.
(mau hálito, sangramentos da gengiva); hipersensibilidade dos dentes (dificultando As próteses que possuem metal e acrílico não devem ser mergulhadas em
alimentação e hidratação); infecções. solução de hipoclorito de sódio, para evitar danos na parte metálica do dispositivo.
Preconiza-se que a higiene oral deve ser seja realizada ao acordar, pela manhã, após
as refeições, e antes de dormir. Essa recomendação é aplicada para dentes naturais ou Idosos que não conseguem realizar a higienização podem ser acometidos de
não (próteses parciais ou totais). No caso do uso de próteses como (dentaduras, pontes infecções devido à deglutição ou aspiração dos microorganismos aderidos à prótese.
ou coroas) há escovas próprias e pode-se também utilizar para higiene escovinhas de Assim os cuidadores deverão estar atentos para realizar os procedimentos de limpeza
unhas (sem uso anterior), pois tornam a limpeza mais fácil e eficiente. caso necessário.

O idoso que não puder proceder à higiene oral no banheiro deve estar posicionado Outro problema de saúde bucal que acomete essa população é o câncer de
sentado (ângulo de 45°) ou deitado. O ideal é que o cuidador se posicione por trás boca que é uma denominação que inclui os cânceres de lábio e de cavidade oral
do paciente assim poderá segurar facilmente sua cabeça. A escovação dos dentes (mucosa bucal, gengivas, palato duro, língua e assoalho da boca) e está entre as
naturais deve ser realizada com movimentos firmes, de varredura, num ângulo de principais causas de óbito por neoplasias. Representa uma causa importante de
45° entre as cerdas da escova e a gengiva, tanto na arcada superior como na inferior, morbimortalidade uma vez que mais de 50% dos casos são diagnosticados em estágios
com o intuito de limpar os dentes e massagear a gengiva. Língua e mucosa oral avançados da doença. O câncer de boca é uma doença que pode ser prevenida de
também devem ser higienizadas. Existem, no mercado, dispositivos próprios para forma simples, desde que seja dada ênfase à promoção à saúde, ao aumento do
higienização da língua; na sua ausência pode ser utilizada a própria escova de dente acesso aos serviços de saúde e ao diagnóstico precoce.
ou uma espátula envolvida em gaze. Os movimentos devem ser suaves em um único
sentido (de dentro para fora) para evitar a sensação de náuseas (vontade de vomitar). O câncer bucal tende a acometer o sexo masculino de forma mais intensa e 70%
Após a escovação a boca deve ser enxaguada com água limpa, desprezando-a em dos casos são diagnosticados em indivíduos com idade superior a 50 anos. Localiza-
recipiente próprio. Repita este procedimento quantas vezes forem necessárias, até se, preferencialmente, no assoalho da boca e na língua. Os tumores malignos da
que os dentes, a língua e a mucosa oral estejam limpos. cavidade oral, incluindo os de língua, assoalho da boca, gengiva, palato e outros
Durante a realização do procedimento deve ser observada a cor, sensibilidade e locais da boca têm uma associação claramente estabelecida com o hábito de fumar
integridade dos lábios, língua, gengiva, dentes e mucosa oral, presença ou não de mau ou mastigar tabaco, e com o consumo de álcool. No entanto, existe um subconjunto
hálito e adaptação de próteses. Com o envelhecimento pode ocorrer uma perda da de tipo de câncer que ocorre entre os sujeitos não expostos ao fumo ou álcool. Para
elasticidade da mucosa oral, diminuição do fluxo salivar, reabsorção óssea dificultando esses casos há evidência epidemiológica do papel do Papilomavírus Humano (HPV)
a adaptação das próteses dentárias o que pode provocar lesões nem sempre percebidas 16 e HPV 18, como possíveis agentes etiológicos dos tumores malignos de cavidade
pela pessoa idosa. Fio dental deve ser utilizado para complementar a limpeza dos oral. Os cânceres de orofaringe e das tonsilas são também fortemente associados ao
espaços interdentais, não permitido pelas escovas. Ao final do procedimento os lábios álcool e tabaco, mas a evidência extensa acumulada nos últimos anos pode apoiar
devem ser lubrificados evitando seu ressecamento e rachaduras. um papel causal do HPV em uma fração considerável destes tipos de câncer, que têm
aumentado em incidência, em algumas populações.
Para a higienização da boca de idosos totalmente dependentes, deve-se buscar
uma posição confortável. A infecção pelo HPV, na mucosa genital ou oral, pode ser subclínica ou associada
Em 2010, no município de São Paulo, mais da metade dos idosos usavam algum a lesões benignas (verrugas comuns, condilomas, papilomas). Em geral, essas lesões
tipo de prótese. A higienização das próteses é um procedimento fundamental para são causadas principalmente por infecção por HPV de baixo risco. A infecção por HPV
preservação da saúde geral. Entre outros problemas, próteses mal higienizadas podem de alto risco é considerada como o principal agente etiológico do carcinoma cervical
ser meio de cultura para a Candida albicansqueestá presente na microbiota bucal de células escamosas.

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As infecções por HPV são transmitidas principalmente através do contato direto, Os calçados devem ser de fácil colocação, confeccionados com material macio,
pele-a-pele ou pele-mucosa. Os vírus são transmitidos facilmente e cada genótipo porém firme, possuírem solados antiderrapantes e adequada e confortável adaptação aos
tem o seu tropismo por determinado tecido. Os dados epidemiológicos recentes pés e, preferencialmente, não devem possuir saltos altos. Isso evitará o aparecimento
sugerem que as mudanças significativas na prevalência do HPV podem ser devido ou a piora de deformações (joanetes e calos) e/ou lesões (por má adaptação). Chinelos
às mudanças nos hábitos sexuais, especialmente entre os jovens (ou seja, debut não são recomendados (principalmente os de dedo), pois facilitam a ocorrência de
sexual precoce, múltiplos parceiros sexuais, sexo oral e anal). Este cenário implica quedas. Sapatos fechados e sem cadarço são os mais recomendados.
na necessidade de ações dos pontos de AB, como campanhas sobre educação sexual
O cuidador também deve estar atento na manutenção da higiene do vestuário
e programas de vacinação, bem como o diagnóstico de doenças relacionadas com o
e em sua organização, pois além de proporcionar sensação de conforto, segurança
HPV, tanto benignas como malignas.
e bem estar ao idoso, auxilia na manutenção de sua independência para a execução
É aconselhável que periodicamente se proceda ao autoexame da cavidade bucal. dessa atividade por mais tempo.
Caso o idoso não seja capaz de fazê-lo, o cuidador deverá realizar esse procedimento.
Manter a autonomia da pessoa idosa constitui o princípio básico na execução
desse cuidado. O cuidador deve auxiliá-la e não decidir por ela o que vai ou não vestir.

CUIDADOS COM A ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS

Os idosos representam o principal grupo de pessoas que usam medicamentos, e,


muitas vezes, sem receita médica. Eles padecem de doenças crônicas como diabetes,
artrite, hipertensão, doenças cardíacas e articulares, entre outras, necessitando usar
esses agentes por longo prazo.
Medicamento é uma substância química, que produz efeitos sobre os organismos
vivos, sendo composta por princípio ativo (contém a propriedade terapêutica) e
excipientes que, geralmente, dão sabor e cor ao produto (Figura 1 - anexo)
Composição de medicamentos de administração via oral na forma liquida

CUIDADOS COM O VESTUÁRIO

O vestuário é um hábito pessoal que pode ser modificado com o avançar da


idade pela presença de disfunções físicas ou cognitivas. Os medicamentos apresentam nomes distintos, os quais devem ser conhecidos
no sentido de evitar problemas, especialmente quando há necessidade de comprar
As roupas das pessoas idosas devem acondicionadas em local de fácil acesso, em produtos com preços mais baixos. O nome genérico é aquele que foi registrado em
especial na presença de limitações motoras (uso de bengala, andador ou cadeira de rodas). órgão oficial e o nome comercial é o dado pela indústria que fabricou o medicamento.
O estilo preferencial dos idosos deve ser preservado sempre que possível, mantendo Por exemplo, o paracetamol é o nome genérico dos produtos que são vendidos por
sua identidade e evitando constrangimentos. As mudanças, quando necessárias, devem empresas diferentes com os seguintes nomes comercias: Acetofen®, Dôrico®, Parador
ser feitas com a participação da pessoa idosa. Elas geralmente são indicadas quando
®, Tylenol ®.
há necessidade de reduzir o desconforto e cansaço na hora de se vestir e de andar.
Recomenda-se o uso de tecidos macios, antialérgicos e que não amassem. Atualmente os medicamentos representam um dos principais recursos
terapêuticos. Todavia, entre os idosos, especialmente os que são tratados em
Se a pessoa idosa for mais dependente fisicamente ou se apresentar limitação domicilio ou instituições asilares, eles são considerados os agentes mais envolvidos
articular (especialmente nas mãos), os zíperes poderão ser substituídos por elásticos
na ocorrência de problemas como quedas, fraturas, sangramentos do trato
e os botões por velcro. Fechamentos frontais de roupas e peças íntimas facilitam a
gastrintestinal, ente outros. Por essa razão é importante que os responsáveis pelo
maior independência da pessoa idosa na realização dessa atividade.

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acompanhamento de idosos (cuidadores, familiares) conheçam alguns aspectos Adicionalmente, é importante lembrar que tanto os medicamentos prescritos
acerca dos medicamentos, no intuito de prevenir a ocorrência de adversidades e pelo médico, como aqueles comprados sem receita ou indicados por outras pessoas
reduzir problemas frequentemente identificados como, por exemplo, quedas durante como, por exemplo, vitaminas, laxantes e fitoterápicos (ginkgo biloba, erva de
a noite, devido à necessidade do idoso levantar várias vezes para urinar porque São João, confrei, entre outros), podem causar problemas graves, especialmente
tomou um diurético antes de deitar. quando associados com outros. Por exemplo, a ginkgo biloba não pode ser usada por
pessoas que fazem tratamento com aspirina, acetaminofeno (Tyleno® Dôrico®), ou
A administração correta dos medicamentos - que vai além dos cinco certos
anticoagulantes, pois pode aumentar o risco de sangramento.
clássicos (medicamento certo, dose certa, via certa, horário certo, paciente certo) -
e o seguimento das recomendações médicas são essenciais para a obtenção do efeito Os medicamentos administrados por via oral apresentam formas farmacêuticas
terapêutico desejado. (liquidas e sólidas) que tem por finalidade facilitar sua administração e promover a
eficácia terapêutica (melhor resultado possível).
Medicamentos não criam funções no organismo, mas interferem nas existentes.
Por não apresentarem seletividade total em relação às moléculas alvos (locais que Os medicamentos na forma líquida são comercializados como suspensões,
se ligam no organismo) produzem reações conhecidas como adversas. Estas podem soluções, xaropes e aerossóis:
ser leves (p.ex: prurido (coceira) na ponta do nariz), moderadas (p.ex: dor de
estomago, prurido generalizado) e graves (p.ex: sangramento gástrico, edema de • Solução - têm aparência homogênea e límpida; pode ser administrado em
glote - impedindo a respiração). Independente da gravidade o aparecimento de uma sua forma original sem um cuidado prévio específico;
reação deve ser comunicado ao médico que acompanha a pessoa idosa.
• Suspensão - é composta por partículas sólidas dispersas em líquido e, an-
Medicamentos são administrados em doses distintas dependendo da idade, peso tes de administrada, deve ser agitada para sua homogeneização;
e condição clínica (decorrentes de problemas cardíacos, renais e hepáticos). A dose
• Xarope - é uma solução com alta concentração de açúcar associada a
é uma determinada quantidade de medicamento administrada ao idoso para produzir
aromáticos. O xarope por conter açúcar deve ser usado apenas com pres-
efeito terapêutico em seu organismo. Essa quantidade que deve ser absolutamente
crição médica aos pacientes diabéticos.
a indicada. O cuidador sempre deve ser rigorosamente orientado a não aumentar ou
diminuir as doses sem orientação ou conhecimento do médico. • Aerossóis - são medicamentos acondicionados em recipientes pressuriza-
dos.
Tendo em vista que o envelhecimento causa alterações importantes nos
processos de absorção, distribuição, metabolização e excreção dos medicamentos, • As formas sólidas incluem os comprimidos, cápsulas, drágeas, pastilhas e
predispondo o idoso ao risco de toxicidade, é fundamental que os responsáveis pelo supositórios. O Quadro 2 ilustra as características das formas sólidas e al-
cuidado, além de administrar a dose exatamente como prescrita, conheçam algumas gumas precauções relacionadas a seu uso, pois podem “perder” parte das
reações adversas que são frequentes. O Quadro 1 ilustra medicamentos usados por suas propriedades terapêuticas, caso não sejam administrados de modo
idosos e envolvidos em reações adversas importantes. correto.
Quadro 1 - Medicamentos e respectivas reações adversas Quadro 2 - Características das formas (sólidas) farmacêuticas dos medicamentos
CLASSE TERAPÊUTICA/ MEDICAMENTOS REAÇÕES ADVERSAS FORMA CARACTERÍSTICAS

O medicamento na forma de pó é misturado, comprimido e moldado


anti-inflematórios não-esteroidais Irritação e ulcera gástrica, nefrotoxicidade.
por meio de maquinas. Normalmente apresenta um sulco no meio,
Comprimido
Anticolinérgicos Redução da motilidade do TGI, boca seca, o que facilita sua divisão, quando a dose prescrita é menor que a
hipotonia vesical, sedação, hipotensão ortostática, apresentada pelo medicamento. Podem ser macerados (“esmagados”)
visão borrada
O medicamento na forma de pó, óleo ou liquido encontram-se no
Benzodiazepinicos Hipotensão, fadiga, náusea, visão borrada, rash interior de uma cápsula, ou seja, de um revestimento digerível. O
cutâneo. Cápsula ideal é evitar a abertura da cápsula, uma vez que seu conteúdo pode
ser destruído pelo suco gástrico, antes de chegar ao local onde, de
Beta-bloqueadores Redução da contratilidade miocárdica, da fato, deveria ser liberado (p.ex: intestino).
condução elétrica e da frequência cardíaca,
sedação leve, hipotensão ortostática. O medicamento apresenta uma capa de revestimento colorida
(parecida com um esmalte), o que dificulta sua divisão. Um dos
Neurolépticos Sedação, discinesia tardia, boca seca, hipotensão Drágea objetivos dessa capa de revestimento é proteger o medicamento da
ortostática, visão borrada ação do suco gástrico presente no estomago (como nas cápsulas). As
drágeas não devem ser maceradas (“esmagadas”) ou repartidas.
TGI : trato gastrintestinal.

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Quando os medicamentos forem manipulados observar se existe na embalagem


FORMA CARACTERÍSTICAS
ou frasco o nome do farmacêutico responsável, o número do conselho profissional
Medicamento misturado com açúcar em partes iguais. O uso de (CRF), a fórmula, a dose e o período de validade. Nunca aceite uma forma farmacêutica
pastilhas em pessoas diabéticas deve ser cauteloso. Não é possível diferente daquela prescrita pelo médico. Por exemplo, se a dipirona foi prescrita
Pastilha macerar uma pastilha, pois suas partes (parecidas com pequenos na forma liquida para ser administrada em gotas, não deve ser substituída por
cristais) podem provocar lesões na boca do idoso por aderência na comprimidos, pois as doses serão diferentes.
mucosa oral.
Aspectos Gerais da Administração de Medicamentos
Todas as formas sólidas devem ser administradas com cuidado, tendo em vista Para facilitar o cuidado do idoso relativo à administração de medicamentos,
que o idoso pode engasgar, principalmente quando forem grandes como ocorre, por e evitar problemas algumas condutas são fundamentais. Inicialmente é importante
exemplo, com antibióticos e complexos vitamínicos. manter um registro diário dos medicamentos usados pelo idoso, incluindo os
É imprescindível que o idoso, durante a administração do medicamento, fique receitados pelo médico e aqueles usados sem receita (mas que também devem ser
sentado ou, caso esteja acamado, seja assim posicionado. A quantidade de liquido de conhecimento do médico).
que vai auxiliar a ingestão do medicamento deve ser de pelo menos 100 mililitros
Os idosos e seus familiares precisam ser orientados a anotar o nome de cada
(meio copo). Nos casos em que o idoso tiver restrição de líquidos (p.ex: pessoas com
medicamento prescrito e/ou em uso, do médico que os receitou, a dose, o horário e
problemas renais), deve-se perguntar ao médico qual o volume que pode ser dado
como o mesmo deve ser tomado (p.ex: com um copo de água, suco, chá) mantendo
em cada administração.
tais anotações em um local de fácil visualização.
Para o idoso, tomar vários medicamentos sozinho, pode não ser uma tarefa fácil.
Os medicamentos devem ser armazenados em local fresco, seco, abrigados da
A diminuição da acuidade visual dificulta a leitura dos rótulos dos medicamentos;
luz e guardados em caixa com tampa e, sempre, na embalagem original. Assim, não
o comprometimento acuidade auditiva pode comprometer a compreensão das
devem ser guardados no armário da cozinha ou banheiro, locais esses, comumente
orientações e recomendações feitas pelo médico durante a consulta; a presença de
utilizados.
problemas articulares, principalmente nas mãos, impede, muitas vezes, a abertura
dos frascos, bem como a colocação correta do número de gotas de determinado Quando houver a necessidade de administrar vários medicamentos de diferentes
medicamento no copo ou na colher. formas farmacêuticas simultaneamente recomenda-se utilizar a seguinte sequência:
primeiro administra-se os comprimidos ou cápsulas; em seguida os líquidos e por
Há situações em que o idoso completamente dependente tem que tomar, ao
último o comprimido sublingual.
mesmo tempo, vários comprimidos e termina por engasgar ou vomitar. É importante que
o cuidador esteja muito bem orientado sobre as limitações decorrentes do processo de Outros aspectos também merecem destaque:
envelhecimento e seja capaz de auxiliá-lo sem desqualificar sua participação, mesmo
que pequena. Por exemplo, durante as consultas médicas, mesmo que o idoso apresente • Ler atentamente a bula do medicamento, prestando atenção nos itens
dificuldades em ouvir e compreender bem, ele deseja fazer as perguntas ao médico. relativos à dose, contraindicações, reações adversas, precauções, intera-
Nessas situações, cabe ao cuidador anotar ou guardar as recomendações feitas pelo ções com outros medicamentos e conservação do medicamento;
médico e perguntar outros aspetos que, por ventura, o idoso não tenha questionado. • Conservar o medicamento na embalagem original, mesmo após sua aber-
tura (para verificar prazo de validade, lote e não misturar com outros).
Aspectos Gerais da Aquisição de Medicamentos Nos casos em que os medicamentos estiverem em cartelas (geralmente
Quando da aquisição de medicamentos na farmácia deve-se lembrar de que os distribuídos pelas farmácias governamentais) não desprezá-las, mesmo
somente o farmacêutico conhece a composição e finalidade do medicamento. Sendo após a retirada da maioria dos comprimidos, pois o nome, a dose e o lote
assim, encontra-se habilitado a dar as orientações acerca de seu uso correto. O podem estar contidos na parte da cartela que foi descartada;
balconista da farmácia, por outro lado, não tem os conhecimentos técnicos necessários • Jogar fora os medicamentos cujo prazo de validade esteja vencido;
para indicar um medicamento e por essa razão não deve ser consultado quando da
• Conservar o medicamento fora do alcance de crianças e pessoas com com-
ocorrência de problemas de saúde, ainda que sejam considerados pelo próprio idoso
prometimento de memória ou problemas de alteração de comportamento;
ou cuidador como sintomas leves como ocorre, por exemplo, quando há “dor de
barriga” ou “dor de cabeça”. • Evitar que o medicamento prescrito pelo médico (nome, substância) seja
trocado por outro dito “similar”; sempre que houver necessidade fale com
Antes da compra deve-se observar se o nome do medicamento corresponde ao
receitado pelo médico, pois muitos têm nomes parecidos. Quando houver necessidade o médico.
de substituição por outro, por exemplo, quando o preço é muito alto ou o produto • Orientar o idoso e sua família em relação aos possíveis efeitos colaterais
não é encontrado nas farmácias, deve-se entrar em contato com o médico. NUNCA dos medicamentos, pois muitas pessoas abandonam o tratamento pela fal-
aceite as sugestões do balconista de substituição. ta de esclarecimento sobre os efeitos adversos dos medicamentosos;

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• Utilizar, sempre que possível, água para administrar os medicamentos. • Quanto tempo demora a fazer o efeito do medicamento?
Gelatina, purê ou cremes podem ser utilizados, nos casos em que a pessoa • Se houver esquecimento da tomada do medicamento, o que deve ser feito?
não aceite o comprimido ou tenha dificuldade em degluti-lo apenas com
líquidos; • Quais os efeitos indesejados que podem aparecer? E, caso apareçam o que
deve ser feito?
• Adequar o horário de administração do medicamento de acordo com a
finalidade terapêutica e a necessidade do doente. Por exemplo: adminis- • Durante o tratamento o paciente pode ingerir álcool? Pode usar outros
trar ante-emético (medicamento para evitar náusea e vômito) antes (45- tipos de medicamentos? Pode tomar banho sozinho?
60 minutos) das refeições principais; administrar diurético durante o dia • Por quanto tempo o medicamento será usado?
e até no máximo às 16 horas para evitar que o idoso tenha que levantar
durante a noite para urinar; • Essas orientações podem contribuir para que o uso do medicamento possa
ser mais seguro.
• Evitar administrar o medicamento no escuro, pois pode haver equivoco em
relação ao medicamento e a dose;
• Evitar colocar vários medicamentos no mesmo horário para serem admi- MECANISMOS CORPORAIS, MOBILIZAÇÃO E TRANSFERÊNCIA
nistrados pois esta prática pode resultar na alteração dos efeitos dos mes-
mos; Para o ser humano o movimento é um aspecto essencial da vida, dependemos
dele para caminhar, correr, brincar, procurar e comer os alimentos, nos comunicarmos,
• Evitar administrar vários medicamentos macerados (triturados) pela sonda
enteral; enfim sobreviver. As pessoas saudáveis mantêm um adequado nível de movimentação.
Elas esperam que seus sistemas, musculoesquelético e nervoso (muito complexos),
• Administrar antiácidos (quando prescritos) de modo isolado, ou utilizar trabalhem conjuntamente no desenvolvimento de tais atividades.
intervalos de aproximadamente duas horas entre o antiácido e a adminis-
tração de outro medicamento; De modo geral, as pessoas não costumam cuidar adequadamente, durante a
• Se, logo após administrar o medicamento, o idoso apresentar algum sinto- vida, dos sistemas que promovem e coordenam o movimento “saudável” até que o
ma estranho (coceira, náusea, vômito, palpitação, inchaço, etc) comuni- desuso, o trauma ou a doença interfiram nesse desempenho.
que-se imediatamente com o médico; Níveis adequados de flexibilidade, equilíbrio de força muscular são importantes
• Cuidado: a dose de um medicamento considerada normal para um adulto para a eficácia na execução dos movimentos envolvidos na realização das atividades
pode causar intoxicação e sérios danos a saúde de uma criança, de um de vida diária (AVDs). Com a diminuição da funcionalidade e o avançar da idade o
idoso ou de uma pessoa que apresente doença cardíaca, hepática ou renal; desempenho das AVDs pode ser comprometido parcial ou completamente acarretando
• Assegurar que o idoso não pratique automedicação; uma maior dependência do idoso com sério comprometimento de sua qualidade de vida.
• Nunca recomendar um medicamento a outra pessoa. As características As alterações fisiológicas no envelhecimento são progressivas e, muitas vezes,
de cada pessoa bem como suas indicações levam em consideração vários acompanhadas pelo aumento da prevalência de enfermidades agudas e crônicas.
fatores que somente os médicos estão habilitados a realizar; Dentre as alterações que ocorrem nessa fase da vida, destaque será dado à perda
• Não interromper o tratamento por conta, antes de fazê-lo sempre consul- da força muscular, principal responsável pela deterioração da mobilidade e da
tar um médico. capacidade funcional do indivíduo que está envelhecendo.
• Evitar misturar álcool e medicamento. Alguns medicamentos, como por O movimento depende do sistema nervoso central que vai organizar os músculos
exemplo, diazepam, morfina, haldol, quando misturados com o álcool po- e as articulações a realizar movimentos funcionais e coordenados.
dem causar reações graves e até morte, dependendo da dose e da idade
do paciente. Movimento Humano
Sempre que o idoso receber uma receita médica é necessário que os seguintes O movimento humano pode ser descrito como uma combinação complexa de
aspectos sejam esclarecidos: movimentos de translação (todo o corpo se move de forma única) e rotação (o corpo
• Qual o nome do medicamento e por que será usado? ou seus segmentos se movem em torno de um eixo instantâneo normalmente situado
em um centro articular). Sua execução envolve ações coordenadas e integradas dos
• Qual o nome da doença que trata este medicamento?
sistemas musculoesquelético e nervoso.
• Quantas vezes por dia o medicamento deve ser administrado?
O sistema esquelético (ossos e cartilagens) tem por função a proteção dos
• Como utilizar: como e quando tomar, horário, antes ou após as refeições, órgãos internos do organismo humano; manter a forma e a postura corporal; prover
usar com água ou leite? áreas de armazenamento para sais minerais e gorduras; produzir células sanguíneas
• Por quanto tempo o paciente deve utilizar? Até a próxima consulta, por e permitir sua movimentação a partir do fornecimento de superfície para fixação de
15 dias? músculos, tendões e ligamentos que tracionam os ossos individuais e o produzem.

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Os ossos são estruturas muito rígidas que não podem se curvar, (como é necessário O movimento dos segmentos anatômicos ocorre em torno de um eixo de rotação
para a movimentação) sem danos. Para que o movimento ocorra eles são interligados imaginário que passa pela articulação a qual esse segmento está ligado. Três são
por articulações. Os ligamentos (unem ossos e cartilagem), tendões (unem músculos os eixos básicos utilizados na descrição do movimento humano: médio lateral,
e ossos) e a cartilagem (tecido conjuntivo não vascular encontrados nas articulações) anteroposterior e longitudinal (figura 2)
dão força e flexibilidade ao sistema esquelético.
Figura 2: Eixos ligados ao movimento humano
O sistema musculoesquelético (tecido muscular esquelético + tecido
conjuntivo) envolve órgãos musculares individuais (p.ex: bíceps). O movimento
resulta da contração desse músculo e da força aplicada sobre o tendão que, por sua
vez, puxa o osso. A excitabilidade, a contratilidade, a extensibilidade e a elasticidade
dos músculos permitem: a realização do movimento, a manutenção da postura e a
produção de calor. Tônus muscular refere-se ao estado de ligeira contração em que se
encontra o músculo esquelético. Ele pode ser muito prejudicado quando do repouso
ou imobilidade prolongada incorrendo no risco do desenvolvimento de contraturas
(contração permanente do músculo).
Os sistemas esquelético e muscular não podem produzir o movimento intencional
sem a ação do sistema nervoso, pois é ele o responsável pelo estímulo de contração
dos músculos.
Para compreender o movimento, o corpo humano é didaticamente dividido em
planos (figura 1). Cada plano divide o corpo humano em duas metades iguais, sendo
o ponto comum de intersecção o centro de massa do corpo:
a) Plano sagital: divide o corpo verticalmente em duas metades – direita e
esquerda;
b) Plano frontal: divide o corpo verticalmente em duas metades – anterior e
posterior;
A rotação de um segmento anatômico é designada de acordo com a direção
c) Plano transverso: divide o corpo horizontalmente em duas metades – superior do movimento e medida como sendo o ângulo entre a posição atual e a posição de
e inferior. referência. Os três principais movimentos que ocorrem no plano sagital são: flexão,
extensão, hipertextensão (figura 3).
Figura 1: Planos anatômicos de referência
Figura 3: Movimentos no plano sagital

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No plano frontal, os movimentos mais importantes são: abdução, adução e Os movimentos relacionados ao plano transversal são, em sua maioria,
flexão lateral – direita e esquerda (figura 4). movimentos de rotação em torno do eixo longitudinal dos segmentos anatômicos. Os
principais são: rotação direita e esquerda (cabeça, pescoço e tronco); rotação média
Figura 4: Movimentos no plano frontal. e lateral (pernas e braços); supinação e pronação (antebraço); Adução e abdução
horizontal (braço e coxa); protracção e retracção (omoplata); circundação (dedos) e
oposição (polegar) (figura 7).

Figura 7: Movimentos no plano transversal

Com relação aos movimentos de mãos e ombros temos elevação e depressão,


desvio radial e desvio cubital (figura 5).
Figura 5: Movimentos no plano frontal: mãos e ombros.

Quanto aos movimentos dos pés temos: dorsiflexão e flexão plantar; eversão e
inversão; abdução e adução; pronação e supinação dos pés (figura 6). Nossos movimentos voluntários, dos mais simples aos mais complexos são
comprometidos se os sistemas sensórios ou motores envolvidos estiverem alterados.
Figura 6: Movimentos no plano frontal: pés O controle do movimento pelo sistema nervoso é organizado de forma hierárquica:
níveis mais elevados controlam aspectos mais complexos.
Os movimentos podem se apresentar de três formas:
• Reflexos: involuntários, contrações musculares desencadeadas por estí-
mulos periféricos, presentes no controle dos movimentos voluntários;
• Cíclicos: rítmicos e repetitivos (p.ex: parte da mastigação e locomoção);
• Voluntários: direcionados a um objetivo, melhoram com a prática devido
à melhor previsão e correção por mecanismos de controle de feedforward
e feedback.
Os movimentos voluntários obedecem a princípios psicofísicos. O processamento
motor começa com uma representação interna do estado do corpo: o objetivo
desejado (ao contrário do processamento sensório). Na realização dos movimentos

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voluntários o encéfalo faz a representação dos atos motores, independente do efetor adequada utilização de equipamentos especiais e auxílios mecânicos contribuem na
utilizado (equivalência motora). A amplitude do movimento é especificada antes do minimização da incidência de problemas articulares em cuidadores de idosos.
início do mesmo (programa motor).
O primeiro passo nesse sentido é a compreensão dos mecanismos corporais.
O tempo gasto para responder a um estímulo depende da quantidade de
informação que precisa ser processada para executar a tarefa. Há uma relação de Mecânica corporal
troca entre velocidade do movimento e sua precisão. O tempo de reação aumenta A mecânica corporal representa o uso eficiente do corpo como uma máquina e
com o número de escolhas possíveis e diminui com a aprendizagem. como meio de locomoção. Sua utilização de forma correta (em atividade ou repouso)
permite a prevenção de lesões e dores musculares e/ou articulares.
Impacto do envelhecimento nas estruturas ligadas ao movimento humano
Os cuidadores necessitam ser muito bem orientados quanto à utilização da
Com o envelhecimento ocorre uma perda de 10-20% na força muscular; mecânica corporal para o melhor desempenho de suas atividades e para a manutenção
diminuição na habilidade de manter a força estática; maior fadiga muscular; de sua saúde e bem-estar. Uma importante parcela de suas atividades (desde mudar
menor capacidade para hipertrofia; diminuição no tamanho e número de fibras uma cadeira de lugar até auxiliar o idoso a levantar da cama) exige a compreensão e o
musculares; diminuição na atividade da ATPase miofibrilar; diminuição de enzimas uso desses princípios. Eles precisam ser constantemente lembrados que a prevenção
glicolíticas e oxidativas; diminuição dos estoques de adenosina tri-fosfato (ATP), de problemas na coluna é mais eficiente que seu tratamento.
creatina fosfato (CP), glicogênio, proteína mitocondrial; diminuição na velocidade A mecânica corporal envolve:
de condução; aumento do limiar excitabilidade da membrana e diminuição na
capacidade de regeneração. a) alinhamento do corpo ou postura: é o alinhamento entre as partes do corpo
permitindo o equilíbrio musculoesquelético e seu funcionamento fisiológico
Essas alterações impactam no desempenho de habilidades motoras de forma saudável, pois não permite o esforço indevido de articulações, músculos,
eficiente e podem tornar a pessoa idosa cada vez mais limitada em sua capacidade tendões ou ligamentos.
em desempenhar as atividades do dia-a-dia como levantar-se de uma cadeira,
b) equilíbrio: um corpo alinhado está em equilíbrio, pois seu centro de gravidade
varrer o chão, jogar o lixo fora, tomar banho, etc; devido ao equilíbrio precário,
(ponto central da massa corporal) está próximo de sua base de apoio (fundação
resistência diminuída, fraqueza generalizada ou quedas repetidas. O que não é claro
que estabilidade ao corpo) e a linha de gravidade (linha reta imaginária que
é se essas alterações são decorrentes do próprio processo de envelhecimento ou se
passa pelo centro de gravidade)passa por essa. Quanto mais ampla a base
são consequência da inatividade, muito comum nesse grupo. Muitas das alterações de apoio e mais baixo o centro de gravidade, maior a estabilidade. Assim, o
fisiológicas atribuídas ao envelhecimento são semelhantes às induzidas pela equilíbrio aumenta quando o indivíduo afasta os pés (ampliando a base de
inatividade forçada e assim, acredita-se que possam ser atenuadas ou até mesmo apoio) e flexiona o quadril e os joelhos (reduzindo o centro de gravidade).
revertidas pela realização de exercícios. Essas duas manobras são importantes princípios que podem reduzir o esforço
Com o envelhecimento ocorrem importantes alterações na composição corporal musculoesquelético que frequentemente ocorre com o excessivo alongamento
com um aumento de gordura corporal, em especial abdominal e uma diminuição de ou a superextensão de um músculo ou músculo-tendão.
massa corporal magra (massa musculoesquelética) sendo esse último denominado c) movimento coordenado: refere-se ao uso coordenado dos principais
“sarcopenia”. Com a perda muscular há uma diminuição do metabolismo basal, da grupos musculares, das alavancas e apoios naturais do corpo na realização de
força muscular e do nível de atividade que resultam na diminuição da necessidade atividades assistenciais para evitar a ocorrência de esforço musculoesquelético
energética. demasiado e lesões. Os cuidadores necessitam utilizá-los quando, por exemplo,
posicionam, viram ou levantam a pessoa idosa mais dependente
Essas alterações aumentam o risco de desenvolvimento de doenças crônicas e
de incapacidades que reduzem substancialmente as atividades dos idosos levando à Aplicação da mecânica corporal
perda de massa muscular e acúmulo de gordura e fechando assim um ciclo de balanço
energético negativo que culmina com a instalação de quadros de “fragilidade” É fundamental que os cuidadores sejam orientados em relação às técnicas
gerando maior dependência. utilizadas na prevenção do estresse da musculatura das costas (lombalgia é a principal
queixa desse grupo) no bom desempenho de suas atividades. Isso envolve:
Muitas das atividades assistenciais dos cuidadores envolvem a mobilização
Desenvolver o hábito de manter uma postura ereta e, quando necessário, antes
(mudança de posição) e a transferência da pessoa idosa de um local para outro.
de iniciar uma atividade, ampliar a base de apoio e baixar o centro de gravidade;
Quando tais atividades são desenvolvidas sem a utilização de princípios de
ergonomia, há uma grande possibilidade da ocorrência de agressões e danos à coluna • Utilização dos músculos mais longos dos braços e pernas nas atividades
vertebral sendo a lombalgia a queixa mais frequente. Oficinas de orientação sobre que exijam maior força (os músculos das costas são mais fracos e mais
movimentação e transporte de pessoas com maior dependência juntamente com a de facilmente lesionáveis quando utilizados de forma inapropriada);

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Figura 8: alinhamento postural correto para erguer um objeto Mobilização e transporte de pessoas idosas mais dependentes

Antes de seu início, esses procedimentos devem ser cuidadosamente planejados.


Esse planejamento envolve:
a) Avaliação e preparo da pessoa idosa – capacidade de compreensão e
colaboração, presença de artefatos (p.ex: sondas), explicação prévia do
procedimento, medidas de segurança (colocação de sapatos com solado
antiderrapante ao invés de chinelos ou apenas meias);

b) Preparo do ambiente e dos equipamentos – verificação da adequação do


tamanho do espaço físico para não restrição dos movimentos; verificação da
disposição do mobiliário e remoção de obstáculos presentes; verificação das
condições de segurança do piso (encerado, molhado, irregular). A colocação
e/ou uso de equipamentos auxiliares (barras de apoio em banheiros, cadeiras
de rodas próprias para banho e higiene – cadeira de banho) e a adaptação de
certas condições ambientais (elevação da altura do vaso sanitário, substituição
• Estabilização da pelve para proteção das vísceras utilizando a “cintura in- de degraus por rampas) podem ser necessárias (anexo 1).
terna” (contração simultânea dos glúteos para baixo e dos músculos abdo-
minais para cima) e o diafragma quando inclinar, levantar, puxar ou tentar c) Preparo do cuidador: conhecimento e aplicação da mecânica corporal
alcançar um objeto ou pessoa (figura 8); (exposta anteriormente) na execução de suas atividades; utilizar sempre
movimentos sincrônicos; trabalhar sempre com segurança e calma; utilizar
roupa que permita liberdade de movimentos e sapatos apropriados (sem salto,
com solado antiderrapante); saber que, em muitas ocasiões, não será possível
Figura 9: Alinhamento postural com estabilização da pelve
executar os procedimentos, em segurança, sozinho e, nessas situações, solicitar
auxílio.

Auxílio na movimentação na cama de idosos mais dependentes


a) Em duas pessoas: as duas pessoas devem ficar do mesmo lado de frente
para a pessoa idosa; colocar uma das pernas à frente e os joelhos e quadris
fletidos trazendo os braços ao nível da cama; a primeira pessoa um dos braços
sob a cabeça do idoso e o outro sob a região lombar; a segunda pessoa coloca
um braço também sob a região lombar e o outro na região posterior da coxa; as
duas pessoas devem sincronizar seu movimento de modo a trazer o idoso para
o lado da cama (em que estão) de forma coordenada.

• Posicionamento o mais próximo possível do objeto ou pessoa a ser levan-


tado ou posicionado;
• Balançar os pés ou inclinar-se para frente e para trás permite utilizar o
peso do próprio corpo como uma força para puxar ou empurrar algo redu-
zindo o esforço dos braços e costas;
• Ao invés de levantar um objeto pesado ou uma pessoa deve-se utilizar
outros mecanismos como escorregá-lo, rolá-lo, empurrá-lo ou puxá-lo re-
duzindo a energia necessária para deslocá-lo contra a força da gravidade
(que o puxa para baixo).

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b) Em uma única pessoa: se a atividade necessitar ser realizada sem auxílio, fim; execute essa manobra preferencialmente em duas pessoas, uma de cada
deverá ser feita em etapas utilizando o peso corporal como contrapeso e lençol lado da cama; cada uma deverá segurar firmemente o lençol com as duas mãos
dobrado no sentido vertical e posicionado no meio da cama, abaixo do idoso (lençol e, em movimento ritmado, movimentar o idoso no sentido da cabeceira.
móvel). Posicionar inicialmente os braços do idoso sobre seu corpo prevenindo
traumas na movimentação; trazer inicialmente os membros inferiores para o
lado do cuidador e em seguida segurar o lençol móvel firmemente e aproximá-lo
de seu corpo, reorganizar a pessoa idosa na nova posição.

c) Colocação em decúbito lateral: posicionar-se do lado para o qual o idoso


vai virar; cruzar o braço e a perna no sentido em que será virado (atenção para
o posicionamento do outro braço); posicionar a cabeça do idoso na direção em
que vai virar; rolar a pessoa para o lado desejado de forma gentil utilizando
ombro e joelho como alavancas.

f) Sentar na cama: no caso do idoso poder ajudar parcialmente, posicionar-


se de frente para ele colocando um de seus joelhos no nível do quadril do
idoso e sentando-se sobre o próprio tornozelo; segurar no cotovelo do idoso que
também se apoia no cotovelo do cuidador; sincronizadamente idoso e cuidador
fazer força no sentido de aproximação permitindo que o idoso sente; colocar
em suas costas com travesseiros de apoio.

d) Colocação em decúbito lateral (2): Esse procedimento também pode ser


feito com o auxílio do lençol móvel. Ficar do lado oposto ao que o idoso vai
virar; puxar o lençol móvel movendo o idoso em sua direção (para a beira da
cama) mantendo as costas eretas e utilizando o peso do próprio corpo para
auxiliá-lo; elevar o lençol cuidadosamente fazendo com que o idoso vire para
o lado oposto. É recomendável que, no lado oposto exista uma grade ou que a g) Sentar na cama: quando o idoso for incapaz de colaborar o ideal é executar
cama seja aproximada da parede (para evitar que o idoso caia no chão). essa manobra em duas pessoas permanecendo uma de cada lado da cama
olhando em direção à cabeceira; elas devem colocar um de seus joelhos no
nível do quadril do idoso e sentando-se sobre o próprio tornozelo; utilizar o
lençol móvel ou uma toalha resistente sob as costas do idoso e puxá-los de
forma sincronizada elevando-o.

h) Sentar na cama: quando o idoso, apesar de limitado, pode executar a manobra


e) Subir o idoso na cama: tire o travesseiro da cabeça do idoso e coloque-o na
sozinho, pode-se utilizar materiais simples fixados nos pés da cama, para auxiliá-
cabeceira da cama (para proteger de traumas); utilize o lençol móvel para esse
lo como, por exemplo, um corda mais grossa com nós ou uma escada de cordas.

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Esse tipo de material auxilia o idoso a erguer-se gradativamente minimizando o as rodas e erguer os apoios de pés e pernas; sentar o idoso na cama; virá-lo
esforço exigido pela manobra e proporcionando-lhe maior independência. para o lado em que vai sair da cama, colocar os membros inferiores para fora da
cama próximos à beira do leito; elevar a cabeceira ou elevar o tronco do idoso
e girá-lo até que se sente; com o idoso sentado na cama calçá-lo com sapato
ou chinelo antiderrapante; segurá-lo pelo cinto de transferência auxiliando-o a
levantar-se, virar-se e sentar-se na cadeira de rodas.

Auxílio no transporte de idosos mais dependentes


Para o transporte de idosos devem ser utilizados dispositivos auxiliares como
cinto de transporte, pranchas de transferência, discos giratórios e auxílios mecânicos
(bengalas e andadores).
a) Auxilio para levantar de cadeira ou poltrona: deve-se utilizar um cinto de
transferência e, conforme o caso, solicitar auxílio de outra pessoa. Posicione
o idoso para frente da cadeira ou poltrona puxando-o alternadamente pelo
quadril; permaneça ao lado da cadeira/poltrona olhando na mesma direção
que ele; o idoso deve apoiar uma das mãos no braço da poltrona ou assento da
cadeira e a outra na mão do cuidador; com o outro braço o cuidador circunda
a cintura do idoso segurando-o pelo cinto; levante-o de forma coordenada com
movimentos de balanço.

d) Transferência da cama para poltrona/cadeira de rodas: se o idoso tiver


condições de executar essa manobra sozinho ele pode ser orientado a utilizar
uma prancha/tábua de transferência. Posicione a cadeira ao lado da cama
(cadeira e cama devem ter a mesma altura); trave a cadeira e a cama (se
b) Auxilio na locomoção: deve-se utilizar um cinto de transferência. Se o idoso
puder e conseguir andar, o cuidador deve posicionar-se bem próximo a ele, do necessário); remova o braço da cadeira e eleve o apoio dos pés; posicione a
lado em que ele apresenta alguma limitação/deficiência colocando um braço prancha/tábua apoiada seguramente entre a cama e a cadeira; deslizar pela
em volta de sua cintura e o outro apoiando sua mão. prancha/tábua até a cama.

c) Transferência da cama para poltrona/cadeira de rodas: posicionar a A utilização dessas manobras, além de preservar a saúde do cuidador, auxilia na
cadeira de rodas ao lado da cama com a frente voltada para o cuidador; travar construção de um vínculo positivo por meio do fornecimento de segurança ao idoso.

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CUIDADOS COM SONO E REPOUSO como trabalho e escola. Estas “pistas” contribuem na organização da ritmicidade
biológica, para a expressão de um determinado padrão de sono.
O sono é uma necessidade humana básica O ciclo vigília-sono (períodos de sono e de vigília ao longo das 24 horas) sofre
e, portanto, tem influência na qualidade importantes modificações durante o desenvolvimento do indivíduo. Nos bebês, o
de vida dos seres humanos. Nesse aspecto, sono é fragmentado ao longo do dia e da noite; os adultos, em geral, dormem apenas
importante papel é atribuído à qualidade do durante a noite, exibindo um padrão chamado de monofásico e, as pessoas idosas,
sono. costumam apresentar um padrão de sono mais fragmentado, com episódios ocorrendo
Sabe-se que a experiência de um durante o dia e a noite, em diferentes proporções.
sono insatisfatório ou insuficiente é muito
desagradável refletindo no desempenho da PADRÃO DE SONO E SUAS MODIFICAÇÕES COM O ENVELHECIMENTO
pessoa em suas atividades da nossa vida
diária, em seu comportamento e bem estar. Em um indivíduo adulto jovem sem problemas de saúde, uma típica noite de
Particularmente para as pessoas idosas, as sono pode ser dividida em ciclos que se repetem de quatro a cinco vezes e cuja
perturbações do sono constituem também fatores de risco ligados à institucionalização duração média/ciclo é de 70 a 100 minutos. Um ciclo típico é constituído pelos
e à mortalidade. vários estágios do sono sincronizado (estágios 1, 2, 3 e 4), seguidos por um período
de sono paradoxal (ex: estrutura de sono de um adulto jovem - estágio 1, 2, 3, 4, 3,
O sono é constituído por diferentes estágios, de acordo com a frequência e
2, eventualmente estágio 1 novamente, e sono paradoxal).
amplitude típicas das ondas elétricas cerebrais geradas durante o fenômeno.
A organização e a proporção que ocupam os vários estágios é conhecida como • Estágio 1 (5% do sono): é uma transição entre a vigília e a sonolência onde
arquitetura intrínseca do sono, que se modifica com o envelhecimento. predominam ondas cerebrais de baixa amplitude e alta frequência.
Os diferentes estágios do sono podem ser identificados pela análise das • Estágio 2 (45% do sono): também chamado “sono superficial” onde exis-
características da atividade elétrica cerebral – eletroencefalograma. tem ondas de frequência rápida e poucas ondas mais lentas, além de fusos
A polissonografia é um conjunto de registros que atualmente é considerado de sono e os complexos K.
essencial para a análise detalhada da arquitetura do sono e de distúrbios ligados • Estágio 3 (7% do sono): contém cerca de 20% a 50% de ondas delta, tam-
a ele. Este exame inclui além do eletroencefalograma, o eletrooculograma que bém chamadas de ondas lentas, que são ondas cerebrais de baixa frequ-
é o registro de diferenças de potencial entre a retina e a córnea, geradas pelos ência e grande amplitude.
movimentos oculares e captadas por eletrodos colocados ao redor dos olhos, que
permite a identificação do estágio de sono paradoxal ou REM (Rapid Eyes Movement - • Estágio 4 (13% do sono) são encontradas ondas delta em proporção supe-
sono de movimentos oculares rápidos), o eletromiograma das regiões submentoniana rior a 50%.
e tibial anterior, para identificar o sono paradoxal e para identificar distúrbios como o
mioclono noturno (“chutes” durante o sono), além de outros parâmetros como, fluxo Assim, os estágios 3 e 4 constituem o denominado “sono profundo” onde, para
aéreo nasal e oral, esforço respiratório, eletrocardiograma e oximetria transcutânea ser despertado, o indivíduo necessita de um estímulo externo muito intenso. À
contínua, que contribuem para a identificação de problemas tais como os distúrbios medida que o sono progride, há uma diminuição da ocorrência desses estágios que
respiratórios que ocorrem durante o sono (p.ex: apnéia do sono). Esse exame exige predominam na primeira metade de uma noite típica de sono.
que a pessoa durma em um laboratório especialmente equipado para sua realização. O sono paradoxal (sono REM), associado à ocorrência de sonhos, ocorre a intervalos
regulares (cada 90 minutos), ocupando cerca de 20 a 30% do período total de sono. Ele
O SONO ENQUANTO RITMO BIOLÓGICO e o estágio 2 predominam na segunda metade de uma noite típica de sono.

O mundo se organiza em torno de uma periodicidade de 24 horas, determinada Com o envelhecimento ocorrem algumas modificações nesse padrão:
pelo movimento de rotação da Terra. Nossos ritmos biológicos mais conhecidos têm • diminuição da duração relativa e absoluta do sono de ondas lentas (sono
uma periodicidade semelhante e são chamados de ritmos circadianos (do latim circa “profundo”);
diem, em torno de um dia). O ciclo vigília-sono é um ritmo circadiano.
• aumento relativo e absoluto da duração dos estágios 1 e 2 (sono superficial);
Os seres vivos organizam seus ritmos biológicos de acordo com pistas
temporais, chamadas de sincronizadores, de origem geofísica ou social, provenientes • alterações na organização temporal do sono paradoxal e diminuição da
do ambiente em que vivem. As de origem geofísica são, por exemplo, a alternância sua duração;
entre o claro (dia) e o escuro (noite) e as estações do ano) e, as de origem social são
representadas, por exemplo, pelos horários de diversos compromissos sociais, tais • maior número de transições de um estágio para o outro, inclusive para a
vigília, e maior número de interrupções no sono;

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa

A eficiência do sono é a proporção de tempo que uma pessoa consegue realmente • despertar muito precoce (de madrugada, em torno das três ou quatro ho-
dormir em relação ao tempo dispendido na cama com esse objetivo. Constitui um ras da manhã) pode ser indício de um quadro depressivo;
parâmetro fundamental na avaliação da qualidade do sono. Seu cálculo pode ser
feito da seguinte maneira: consideremos uma pessoa que se deita às 22:00 horas e se • a sonolência diurna excessiva pode ser resultado de: síndrome da apneia
levanta às 06:00 horas da manhã seguinte; ela apresentará 100% de eficiência do seno do sono, mioclono noturno, ou outros distúrbios.
se dormir oito horas (oito horas de sono divididas por oito horas no leito); 75% se dormir Atualmente, considera-se que a necessidade quantitativa de sono, ou seja,
seis horas (seis horas de sono divididas por oito horas no leito), e assim por diante. sua duração adequada, não diminui com o envelhecimento. Neste caso, questiona-
As pessoas idosas apresentam redução da eficiência do sono para cerca de 70 se porque os idosos parecem ter, em geral, um sono noturno de menor duração
e pior qualidade que os adultos jovens. Isso poderia estar relacionado à redução
a 80 %, variando conforme sexo e idade (em adultos jovens esse valor é da ordem
da capacidade para dormir e não da necessidade de sono entre os idosos a qual
de 90 %). Isso se deve, em parte, à dificuldade de manutenção do sono noturno.
seria satisfeita com sua distribuição em mais de um episódio ao longo das vinte e
Tipicamente observa-se que o idoso acorda muito facilmente durante a noite, mesmo
quatro horas do dia. As interrupções frequentes do sono noturno e a presença de
com estímulos leves, e que sons de pequena intensidade podem ser suficientes para
episódios de sono durante o dia (cochilo) parecem indicar além de uma diminuição
acordá-los.
na quantidade de sono, sua redistribuição, caracterizando-o com um padrão
O “componente restaurador” do sono está relacionado às ondas delta, mas, não fragmentado, ou sono polifásico.
existem evidências de que a diminuição do sono profundo traga consequências negativas
A qualidade percebida do sono é uma experiência subjetiva, portanto, não cabe
para a saúde da pessoa ou que contribua, por exemplo, para o envelhecimento.
ao cuidador afirmar que a pessoa idosa “dormiu muito bem” e está se “queixando
Deve-se diferenciar, na pessoa idosa, as mudanças relacionadas ao sono, ligadas à toa”, apenas por ter observado que essa dormiu uma noite inteira, de forma
ao processo de envelhecimento das devidas às várias afecções associadas à idade aparentemente profunda e tranquila. A observação contínua ao longo da noite não
(doenças crônicas, dores, quadros demenciais, etc) que podem contribuir, direta ou é o habitual, o que se costuma fazer são observações intermitentes entre as quais
indiretamente, para a sua perturbação não sendo, no entanto, distúrbios primários podem ocorrer episódios de interrupção do sono que passam despercebidos pelo
deste. observador.
No processo de envelhecimento, o sono sofre mudanças quantitativas e O cuidado com o sono requer, inicialmente, uma avaliação do seu padrão
qualitativas que são percebidas pelo idoso como perturbações e podem ser habitual existam ou não queixas. Para isso devem ser anotados os horários de dormir
apresentadas na forma de queixas. São elas: e despertar, a latência estimada para o início do sono (“quanto tempo demorou para
pegar no sono”), número, duração e motivo das interrupções do sono, número e
• dificuldade em manter o sono noturno (idosos demoram para adormecer e duração de sestas ou “cochilos” e as queixas relatadas pelo companheiro de leito ou
acordam várias vezes durante a noite); outras pessoas próximas e a satisfação do idoso com a qualidade do sono bem como
• percepção do sono como mais leve e menos satisfatório (menor eficiência a sensação de bem estar ao despertar, e a presença de sonolência ou fadiga durante
do sono); o dia. Observações que indiquem a presença de problemas devem ser investigadas
mais detalhadamente por um profissional de saúde.
• despertar muito precoce. Alguns estudos sugerem que, com o envelheci-
mento, torna-se necessário um avanço no sistema circadiano para que o Deve-se verificar se o idoso possui uma rotina que precede o ato de deitar-se
organismo se ajuste à periodicidade do ambiente e da organização social para dormir, (p.ex: tomar banho ou fazer outro tipo de higiene, rezar um terço,
(como se um “relógio interno” fosse adiantado) o que determinaria a es- fazer uma refeição), sua regularidade e sua possível influência na qualidade do
colha de horários precoces para o início do sono e para o despertar, por sono. O ambiente físico em que o idoso dorme também deve ser observado quanto
exemplo. à temperatura, iluminação, sons, presença de outrem, características da cama e
segurança do local.
• maior tendência a dormir durante o dia, intencionalmente ou não. (“sestas”
e “cochilos”). Parte dos idosos já não está sob a influência de pistas tempo- A qualidade da vigília também deve ser analisada, pois alguns fatores, típicos
rais importantes, como por exemplo, horários de trabalho e, assim, podem de quando se está acordado, podem contribuir decisivamente para a qualidade do
não ter interesse, motivação ou necessidade de manter horários regulares sono bem como sofrer a influência desta (realização de atividades de lazer, prática
para levantar-se, deitar-se, alimentar-se ou executar quaisquer outras ati- de exercícios físicos, presença de interação social, qualidade da alimentação do
vidades, contribuindo para acentuar ainda mais a fragmentação do sono. idoso, etc).

• Estas modificações, quando muito acentuadas, podem representar distúrbios: O cuidador deve estar orientado quanto às modificações que ocorrem com o
padrão de sono das pessoas idosas e suas queixas, avaliar a necessidade de encaminhá-
• “Distúrbio do Início e Manutenção do Sono” (DIMS) - exacerbação da difi- lo a um exame criterioso para afastar distúrbios do sono ligados a outros problemas
culdade em conciliar e em manter o sono noturno, queixa frequente entre de saúde, e conhecer algumas intervenções não farmacológicas que podem auxiliar
as pessoas idosas; a melhoria desse quadro.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Alterações Funcionais e o Cuidado da Pessoa Idosa

RECOMENDAÇÕES QUANTO AO USO DE MEDICAMENTOS PARA DORMIR níveis de atividade física resultariam em aumento na profundidade e duração do
sono. Os efeitos fisiológicos dos exercícios sobre o sono ainda não são bem conhecidos,
Infelizmente as pessoas idosas, costumeiramente, são responsáveis por grande no entanto, os efeitos psicológicos são positivos, e devem ser valorizados.
parte do consumo de medicamentos para dormir (de diversos tipos), levados pela
sensação de não dormirem bem ou o suficiente durante a noite. A utilização de A atividade física deve ser adequada às condições de saúde do idoso e ser
medicamentos, no entanto, não assegura um sono de melhor qualidade. Modificações desenvolvida com regularidade e critério. Embora o período da manhã seja
metabólicas e funcionais próprias do envelhecimento tornam a pessoa idosa mais tradicionalmente recomendado para sua prática, vários estudos têm evidenciado que
vulnerável aos efeitos colaterais desses medicamentos além de uma indesejável é neste período que ocorrem os maiores valores da pressão arterial, da viscosidade
sonolência durante o dia que pode aumentar, entre outros riscos, a possibilidade de sanguínea e da agregabilidade plaquetária. Estes fatores, em conjunto com o esforço
quedas e suas consequentes complicações. dispendido no exercício e a perda de líquidos, aumentam o risco de ocorrência de
eventos cerebrais (AVC) e cardíacos isquêmicos (infarto) especialmente nas primeiras
A prescrição de medicação de efeito sedativo ou hipnótico é de responsabilidade horas da manhã. Sugere-se assim a realização de exercícios de leve ou moderada
exclusiva do médico após minuciosa avaliação de todos os fatores que possam estar intensidade, ao final da manhã ou da tarde, não devendo ser realizados logo antes
resultando em prejuízo para o sono do idoso. O cuidador deve ficar atento aos efeitos de dormir, pois poderiam prejudicar a qualidade do sono. A exposição à luminosidade
colaterais indesejáveis que essas possam ocasionar e NUNCA, sob nenhuma hipótese, solar contribui na regularização do ritmo circadiano de secreção da melatonina, e
deverá aumentar a dose prescrita sem consulta médica prévia. auxilia a consolidação do padrão de sono do idoso.
O ambiente físico deve proporcionar conforto, segurança e permitir o contraste
SUGESTÕES PARA UM SONO DE MELHOR QUALIDADE
entre o dia e a noite. Conforto envolve a avaliação das condições do mobiliário (bom estado
Não existem “receitas” de como dormir melhor, existem alternativas de de conservação), colchões, travesseiros e roupas de cama (macias e bem esticadas),
tratamento não farmacológico para obtenção de sono de melhor qualidade que iluminação (indireta, de baixa intensidade), temperatura do ambiente (temperaturas
podem ser utilizadas e adequadas às peculiaridades do sono daquele indivíduo, com muito baixas ou muito elevadas são fatores de perturbação do sono) e presença de ruídos
resultados que variam bastante de uma pessoa para a outra. (ambientes ruidosos provocam redução na quantidade de sono de ondas lentas, respostas
cardiovasculares - taquicardia e vasoconstrição, interrupção do sono).
Deve-se atuar na promoção da, denominada, higiene do sono - conjunto de
hábitos e comportamentos que auxiliam a melhorar ou manter a qualidade do sono. Segurança envolve a tranquilização da pessoa idosa contra a ocorrência de
Envolve hábitos regulares, desenvolvimento de atividade(s) física(s) e ambiente situações de violência (p.ex: assaltos). Uso de grades nas janelas (casas térreas) e
físico adequado para dormir. revisão de portas e fechaduras podem contribuir para amenizar o problema.
O estabelecimento de contrastes entre o dia e a noite auxilia o sistema de
A manutenção de hábitos regulares contribui para um sono menos fragmentado temporização circadiana (sistema orgânico responsável pela organização dos ritmos
e de melhor qualidade. Idosos com sono muito interrompido e sonolência diurna circadianos) do idoso a distinguir entre ambos. Este sistema historicamente adaptou
excessiva devem estabelecer horários e rotinas regulares para deitar-se e despertar
o organismo humano a dormir em um ambiente escuro e quieto, à noite. Além das
além de horários de refeições, lazer, realização de atividade física e outros. Hábitos que
recomendações mencionamos quanto ao conforto deve-se aumentar a quantidade
“sinalizem” a aproximação do horário de dormir (preparo do leito, roupa apropriada,
de estímulos oferecida durante o dia diminuindo-as à noite (minimização de ruídos e
banho morno) são especialmente importantes. Os “cochilos” ou a sesta (que resultam
iluminação no quarto do idoso).
em uma maior sensação de bem-estar) podem ser inseridos em horário regular como
parte da rotina diária. O que não irá interferir na fragmentação do sono noturno. A pessoa idosa deve procurar deitar-se apenas para dormir e, de preferência,
quando sentir sono, evitando uma permanência longa e desnecessária na cama. Deve-
A ingestão de alimentos leves antes de dormir não costuma ser prejudicial para se evitar a permanência prolongada no leito durante o dia. Idosos institucionalizados
o idoso, especialmente se é um hábito antigo e se ele não possui disfunções do trato ou acamados tendem a apresentar um sono noturno muito fragmentado e pouco
alimentar, como o refluxo gastro-esofageano (quando deve ser contraindicada pelo satisfatório, aumentando a sonolência diurna e criando um círculo vicioso.
maior risco de aspiração).
A experiência subjetiva do sono é particular e complexa, e elevar a qualidade
A ingestão de líquidos deverá ser restrita a algumas horas antes de deitar-se em do sono significa melhorar a qualidade da vigília e, consequentemente, a qualidade
especial na presença de noctúria (levantar à noite para urinar) ou de incontinência de vida da pessoa idosa.
urinária. Diuréticos, deverão ser tomados, de preferência, pela manhã. Não há
comprovação que o leite auxilie a conciliar o sono. Bebidas com cafeína (café, chá
preto e mate, achocolatados e refrigerantes como coca ou pepsi-cola) por suas A DIMENSÃO ESPIRITUAL DAS PESSOAS IDOSAS E SEU CUIDADO
propriedades estimulantes, devem ser evitadas em horários próximos ao de dormir. O
mesmo se aplica a cigarros (efeito estimulante) e álcool (provoca sonolência inicial,
mas prejudica a qualidade do sono). RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE
A crença que o desempenho de exercícios influencia positivamente a qualidade Desde a antiguidade sabe-se que os povos guardam e professam rituais que
do sono relaciona-se à ideia de compensação das energias perdidas, portanto, maiores estão fora da compreensão mais objetiva/material. Envolvem uma relação com o

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“além” sendo a ele atribuídas forças e acontecimentos inexplicáveis. Os cuidados relações novas consigo, com os semelhantes e com o ambiente no qual está inserido.
prestados aos mortos e as crenças que advém na sobrevida acompanham uma certeza Toda uma hierarquia de valores vai sendo reelaborada. A cada passo vai sentindo-se
de vida espiritual. mais livre, disponível, alegre e realizado. A esta altura podemos afirmar que há um
Religiosidade é uma tendência natural de cada pessoa para o transcendental; é despertar para a esperança. Vive-se a certeza de um infinito. Embora não se tenha
o voltar-se naturalmente a uma prática espiritual estimulada por tradições, medos, ideia precisa de como isto se dá, este conjunto de sentimentos fornece um sentido
interesses, ignorâncias, etc. Assim, podemos atribuir religiosidade a qualquer prática novo ao existir permitindo o descobrimento do sentido da vida.
cultural que envolva o imaterial transcendental. A vida passa então a ganhar sentido em toda sua extensão - da fecundação ao
Especificar religiosidade é quase impossível, dada a sua variedade e o caráter infinito percebendo-se a eternidade. O momento presente é vivido mais intensamente.
subjetivo cultural que assume em épocas, circunstâncias, povos e seus costumes. É Há um desejo de “curtir” o fato atual. Projetos que anteriormente geravam muita
toda relação com o transcendente a partir de si mesmo e da própria teia de relações ansiedade cedem espaço para experimentar e gozar os acontecimentos do momento.
(interpessoais, com o cosmo e consigo mesmo). A espiritualidade significa ser solidário no Não há tanta preocupação e sim ocupação total com o fato atual. Um sentimento
existir comum e não implica em ter conhecimentos científicos, ser letrado ou poderoso. de transformação do tempo em eternidade. As lutas do passado, as investidas, os
Espiritualidade refere-se ao “caminho do espírito”, ou seja, toda relação madura acontecimentos, etc., toda a história é rememorada numa perspectiva positiva de
e consciente com o transcendental. Não mais uma fé simplista, mas uma fé de opção conquista e vitória. Uma valorização integral da própria vida. O negativo é explorado
decidida que tem repercussões no jeito de ser e agir na vida, expressando uma em função das superações, servindo para realçar as vitórias. Neste contexto tudo
atitude no existir. Portanto, a espiritualidade vai além da religiosidade porque traz a ganha sentido e se aprende a tirar proveito de todo e qualquer acontecimento.
consciência e a certeza de um modo de viver. Outra característica é que entende fé
Tendo esta compreensão antropológica, fica fácil perceber a presença de algo/
como fidelidade o que norteia o agir em toda relação interpessoal. A comunhão entre
alguém muito diferente de si mesmo, mas, agradavelmente empático e semelhante
religiosidade e espiritualidade é ampla e muitas vezes chega mesmo a se confundir
se não tiver atento às diferenças. Ambos estão intimamente relacionados com o de onde provém toda segurança sentida, o ganho das forças e das luzes que dão
transcendental. Não há uma espiritualidade sem uma religiosidade. Por outro lado, sentido ao existir. O nome deste alguém varia conforme a cultura e segundo a
podemos encontrar religiosidade sem espiritualidade. Toda espiritualidade cria uma história dos povos: Deus, Axé, Javé, Alá, etc. É com essa entidade espiritual que
religiosidade e o aprofundar-se em uma religiosidade faz chegar à espiritualidade. a relação transcorre criando um canal de comunicação, formando uma comunhão
Uma não se contrapõe à outra; a espiritualidade dá verdadeiro sentido à religiosidade. capaz de responder às ansiedades das limitações humanas. O equilíbrio e a paz
reencontrados são vistos constantemente como uma possibilidade real. As tristezas
tornam-se efêmeras, pois já se conhece a maneira de transformar a dor em
A DESCOBERTA DO ESPÍRITO
alegria. O sentimento de ódio enfraquece; o perdão, a aceitação das diferenças
Para os que acreditam, toda pessoa humana, desde a fecundação possui um e divergências torna-se, assim, possível. Nesta altura a abertura, o desapego e a
espírito que com a matéria e a psique formam o composto humano (psico-físico- partilha são vivenciados quotidianamente.
espiritual). O crescimento físico, o desenvolvimento intelectual, a aprendizagem;
considerando a cultura na qual cada um está inserido; parece dificultar a percepção
É ESTA A ESPIRITUALIDADE ENCONTRADA ENTRE AS PESSOAS IDOSAS?
do espírito. A pessoa fica envolvida com os afazeres que a vida proporciona e com a
luta para conquistar o próprio espaço vital tornando-se desatencioso ao espiritual. Toda pessoa é capaz de desenvolver e atingir esta estatura, mas nem todos o
No ocidente isto se agrava ainda mais com a compreensão de que o espiritual é algo farão. As dificuldades estão por conta dos bloqueios e condicionamentos que cada
a ser buscado quando próximo da morte, pois o transcendente parece ficar restrito
um vivenciou durante a vida e pela maneira como os enfrentou. Isto não depende
ao pós-morte.
da cultura, da formação intelectual ou de aprendizagens especiais. É intrínseco à
Com a invasão das correntes materialistas da gnose e do racionalismo, tudo o pessoa. Basta a oportunidade para o exercício.
que diz respeito ao espiritual ficou mais teórico e, em muitos casos, sua consideração
tornou-se ridícula. Esse panorama vem se modificando, a ponto das ciências Nas idades mais longevas, as pessoas estão mais propensas a este trabalho pela
consideram o subjetivo. autoridade moral que adquire a sabedoria popular, própria do ser pensante. Salvando
os objetivos e opções, ou seja, tendo clareza de onde se quer chegar, não há o que
As religiões (verdadeiras ou não) proliferam auxiliando na busca ao espiritual de
temer neste processo. Os padrões estereotipados impostos pela sociedade podem
forma e caminhos variados. O envelhecimento favorece esta descoberta e aproximação.
impedir os sussurros do Espírito na pessoa. Ouvir a voz do Espírito, dar lugar à sua
Com a experiência acumulada durante a vida, a pessoa fica mais propensa a pensar
e repensar sua história voltando-se para si mesmo. É na sua intimidade que vai presença, deixar sair os sentimentos e desejos - do corpo e da mente - eis o segredo.
descobrindo o que é próprio seu, mas que ultrapassa suas capacidades de controle Num corpo cansado, enrugado e cicatrizado pelo tempo, há uma mente, às
racional. Algo que está ligado diretamente aos seus sentimentos e ao desejo de vezes, ferida pelos dissabores das relações que está mais aberta à percepção do
imortalidade, perenidade existencial permitindo que sua história não seja destruída. Espírito. Seu olhar é mais confiante e seguro, mais altaneiro, pois conhece melhor
Este processo facilita a tomada de consciência de seus próprios limites e falhas a sua história carregada de experiências; passou por quase todas as ilusões e hoje
levando-o à descoberta de sua humanidade. Cada vez que se sente humano cria tem como certezas que ninguém lhe roubará o futuro. A convivência com a perda

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progressiva de vitalidade, contrapondo-se ao desejo ardente de viver traz a certeza Atenuando o senso crítico do perfeccionismo, os julgamentos e condenações
do infinito no qual pode confiar com segurança. cedem espaço a um novo modo de relacionar-se com o mundo, ficando mais atento
às criaturas, voltando-se para o cuidado com animais e plantas, jardins, contatos
Idosos na proximidade da morte ou pessoas que fizeram experiências de morte com a terra. Engaja-se em causas humanitárias defendendo os mais necessitados e
clínica e voltaram a viver, afirmam essa percepção de continuidade da vida numa promovendo o bem comum (se consegue, atua como voluntário se não contribui de
dimensão mais plena. Uma vida sem as limitações da matéria, do tempo e do espaço. alguma forma com serviços benemerentes). Aceita o morrer com mais naturalidade,
Vida espiritual, porém de realização plena de todos os desejos e sentimentos, vida compreende o valor e a necessidade da morte, descobre a dignidade de viver e
absoluta. Por esta estatura espiritual de vida, vemos o mais propenso a aceitar os de morrer. Sente que a vida é maior que esta fase do consciente. Consigo mesmo,
acontecimentos e capaz de consolar os que sofrem; capaz de transmitir esperança. manifesta maior integração psico-físico-espiritual. Vive mais livre, sem medos e
Descobrir o positivo apesar do desespero aparente. Mesmo que não tenha ideias e morre serenamente, em paz, na sua teia de relações. Quando tem oportunidade,
conceitos claros sobre a vida depois da morte, ele crê. É como que se um véu ainda gosta de manifestar sua opinião. Tem sempre o que dizer.
encobrisse a realidade, mas já deixa transparecer de que jeito será. Não sabe como,
mas sabe que vai acontecer e sente acontecendo.
A CONTRIBUIÇÃO DA ESPIRITUALIDADE NA COMPREENSÃO DO SOFRIMENTO
O PAPEL DA ORAÇÃO Para alguns, o envelhecimento parece confundir-se com sofrimento. Pelo próprio
processo de desgaste do viver, a pessoa idosa torna-se mais vulnerável às doenças e,
A oração repetitiva (reza) ganha um sentido novo, porque, mesmo na monotonia consequentemente, aos sofrimentos de vários gêneros.
da repetição, o orante está sincronizado com o Espírito que fala nele e a cadência
repetitória no ritual lhe é suficiente para estabelecer uma relação sensível com o Historicamente imprimiram-se falsos conceitos a respeito do sofrimento em
transcendente. A repetição ajuda a criar clima de entrar em êxtase. nossa cultura cujo objetivo era levar conformismo às situações adversas impostas.
Frequentemente alguns ditos populares relembram tais fatos “é a vontade de Deus...
Por outro lado, a própria doutrina que formou as consciências para a oração, Deus que castiga para a purificação.... foi Deus que levou... foi Deus que quis”.
não permitiu uma evolução livre no orar. Criaram-se as fórmulas consagradas, uma
oração intelectualizada e de difícil compreensão, suprindo a liberdade de expressão Tal consolação longe de aliviar o sofrimento gera um conflito aberto e certa revolta
na consciência de orar. Isto traz ao idoso, pela sua maior disponibilidade de tempo, com todo o transcendental; colabora para aumentar a depressão e o sentimento de
um maior contato com seus livros de orações. inutilidade e abandono; empurra para a solidão e para um afastamento do espiritual.
Contudo, não podemos reduzir a oração do idoso à reza repetitiva. Mesmo que O sofrimento é inerente à vida. Aprender a sofrer significa compreender a
ele afirme não ter a expressão livre de orar, concretamente ela acontece em sua vida complexidade da vida e suas limitações. A morte, o fim, as perdas, fazem parte
pelo seu jeito de ser e de se comportar. Se orar é estar entrelaçado ao ser superior e da dimensão psíquica e material. Quando se entende que o Espírito sobrevive a
transcendente, os idosos, de maneira geral, estão sempre lembrando o lado espiritual todas as intempéries, cria-se um relacionamento novo com o próprio sofrimento
nos acontecimentos de sua vida. São expressões frequentemente ouvidas da boca dos que, não acaba. Toda pessoa procura o seu bem estar e, por impulso natural, repele
idosos: “se Deus quiser; graças a Deus; Deus ajude; Deus o abençoe, etc”. o sofrimento. A energia espiritual possibilita maior rapidez em cessar o sofrimento
ou diminuí-lo a um nível de tolerância que permite a convivência mútua sem que
É necessário entender esses conceitos e esse percurso de modo a respeitar o se perca a esperança e a alegria. Passa-se assim a ser possível sofrer e ser feliz ao
idoso em suas crenças e em seu jeito de pensar. É necessário, também, estar atento mesmo tempo. Abrindo espaço ao Espiritual presente em cada um, é possível ter
a essa necessidade, muitas vezes mais importantes para a pessoa idosa que outras dignidade também no sofrimento.
coisas como atividades sociais e/ou terapêuticas.
Dessa forma é importante que o cuidador compreenda que a velhice não é
tempo de lamúrias e solidão; tempo de pagar o mal que fez durante os tempos mais
A ESPIRITUALIDADE COMO FERRAMENTA DE LIBERTAÇÃO ativos, pois o sofrimento acontece em qualquer idade.
O processo de perdas e frustração pelas quais passa uma pessoa idosa,
inegavelmente, lhe garante um altruísmo. Vai se transformando, se reestruturando COM O ENVELHECIMENTO, AS PESSOAS IDOSAS TORNAM-SE MAIS RELIGIOSAS
dentro de uma compreensão mais ampla de seu ser e suas relações: consigo mesmo, OU ESPIRITUALISTAS?
com os outros, com o mundo e com o transcendente. Se ele não foi despertado
para uma prática religiosa na idade adulta, na velhice sentirá vergonha de se Conversão significa mudar de vida, provocando uma ruptura, uma crise uma
expor ficando preso aos conceitos do passado. Quando ajudado deixará fluir toda separação com o jeito de viver anterior. Os elementos internos que levam a uma
a liberdade latente em seu ser, encontrando o verdadeiro sentido para sua vida. O conversão partem da descoberta do Espírito. É preciso acreditar, ter fé em algo
processo de libertação passa pela solidariedade a si mesmo e pelo respeito aos seus transcendente que seja capaz de completar as ansiedades individuais e sociais. A
valores anteriores. Isto possibilita a erupção de novos valores e virtudes que serão conversão, portanto, se dá no campo individual em função de um bem-estar social.
manifestadas externamente ao público. Geralmente é associada a um passado de sofrimento e tristeza; de frustração e

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decepção onde a pessoa é despertada para buscar uma satisfação que está nela, mas associam-se dezenas de termos populares com o mesmo significado. Assim pode-se
que a transcendente e a torna mais universal. entender terminalidade como demarcação de campos, entre fases (com respeito às
diversas facções religiosas ou crenças), térmico de um ciclo.
O envelhecimento favorece esta conversão. Cansados da vida, habituados à
necessidade frequente de adaptação às novas realidades impostas ou assumidas, Elizabeth Kübler-Ross escreveu um livro que ficou muito famoso discorrendo
as pessoas idosas são quase que naturalmente convidadas a abrir-se a um mundo sobre “a morte e o morrer”. Entre suas principais colocações encontra-se que o
diferente, às vezes, contra o qual lutou a vida inteira e nunca antes admitia assumir. Aí homem, em diferentes culturas e desde os tempos mais remotos, de alguma forma,
começa outro processo que é o de adaptação às novas realidades e comportamentos. sempre abominou a morte e, sendo assim, sempre a repelira. Em nosso inconsciente
Estes processos podem ser conscientes ou inconscientes e, de forma subliminar, vão nossa morte não é possível; se nossa vida tiver um fim, isto será devido a alguma
encaminhando a pessoa ao desfecho final e ao prosseguir no novo caminho reelaboram- intervenção maligna, fora de nosso alcance; logo, somos mortos, não morremos,
se novos padrões de comportamento, nova hierarquia de valores e novas estruturas. dando à morte um caráter de medo e pavor do qual tentamos nos afastar.
Passado o processo, a pessoa, quase sempre atinge maior liberdade, alegria e paz.
Algumas são as causas de isolarmos a morte de nossa vida diária: os idosos
Nesse sentido conversão significa encontro com o Espírito; liberdade interior; atualmente, raramente morrem em casa; têm-se grandes expectativas relacionadas à
abertura ao outro e possibilidade de caminhar na direção do intransponível saúde e à vida; depende-se incondicional e totalmente de especialistas durante nossas
buscando o eterno. doenças; a sociedade valoriza sobremaneira os valores materiais; há atualmente uma
crise relacionada à direção espiritual. Tais causas não transformam nossa sociedade
É difícil falar de conversão para aqueles que vivem da corrupção social (rico
em algo destrutivo apenas fazem com que o processo de morrer seja mais difícil de
ou não, letrado ou poderoso), pois estão embotados por ideologias que barram a
vivenciar ou que não ocorra com tranquilidade.
possibilidade de se tornarem pessoas na dimensão integral. Não admitem passar por
mudanças perdendo algumas características para ganhar outras. A conversão exige Em alguns locais de tecnologia menos avançada e em tempos não muito distantes,
humildade, é necessário um olhar interior reconhecendo os próprios erros e abrindo-se morrer em casa fazia parte de um ritual familiar que envolvia uma preparação gradual
ao outro como companheiro; solidário na caminhada. Geralmente essas pessoas não de todos os elementos da família para a perda de um ente querido auxiliando na
atingem esse estado, vivem do poder e morrem sem prazer, frustrados porque vão compreensão da morte como parte da vida. Esse tipo de vivência contribuía para o
morrer; alcançam as idades mais longevas carregando uma longa vida de sofrimentos amadurecimento das pessoas e para o fortalecimento de seus valores e da unidade
e de produção de sofrimentos. Quem não se reconhece humano entre os humanos não familiar. Nos tempos mais recentes, esse tipo de acontecimento tornou-se muito raro
conseguirá compreender o estágio superior do espiritual. O tempo de vida e a vida permitindo que a morte passasse a ser vista como algo “de fora”, externo à nosso
maturada com as experiências do tempo são pedagogias certas para a conversão. cotidiano. Atualmente há um movimento de resgate do que se denomina “morrer
Assim, é importante que se compreenda que nem todos chegarão a essa dimensão dignamente” e isso pode acontecer em casa ou em outro local especialmente
ou estarão abertos a ela. O papel de quem está ao lado da pessoa idosa é auxiliar destinado a este fim.
os que estão entrando nesse caminho propiciando espaços e momentos de maior No entanto, a morte ainda é, na maioria das vezes, solitária e impessoal e, muitas
introspecção e exercício de sua espiritualidade. Para os que assim não seguirem, vezes, um ato mecânico e desumano. Na rotina frequente das salas de emergência
cabe-lhe estar presente buscando minimizar seus sofrimentos. e unidades de terapia intensiva há uma luta incessante para a manutenção da vida
das pessoas que, por doenças ou agravos, encontra-se em risco de morte. Há outras
CUIDADOS NO FINAL DA VIDA pessoas, no entanto, que já não possuem possibilidade terapêutica de cura e que já
estão, de alguma forma, cansadas de lutar contra o inevitável. Quando, muitas vezes
Esse texto ficaria incompleto sem uma abordagem sobre a terminalidade ou por desejo ou desespero da família são levadas a estes locais para que, finalmente
finitude, ou seja, o alcance do final da vida pelas pessoas mais longevas. descansem são afastadas de tudo e todos que lhes é familiar; deparam-se com
equipes que trabalham arduamente para manter sua sobrevida, monitorando-as de
Abordar temas relacionados à morte e ao morrer remete-nos a reflexões mais todas as formas e tendo pouco ou nenhum tempo para olhá-las como pessoas ou para
íntimas e profundas relacionadas à vida, ao viver e ao envelhecer. Não se tem aqui ver quais são, naquele momento, suas reais necessidades. Nesse momento, essas
a pretensão de esgotar o assunto ou transformar esse texto em alguma espécie de pessoas colocam esses profissionais frente à eminente, apavorante e incômoda ideia
guia. A ideia é permitir que ocorram algumas reflexões quanto a esta temática tão da morte fazendo-as encarar sua falta de onipotência, suas limitações, suas falhas
presente no cotidiano das pessoas mais idosas. e sua própria mortalidade. Isso nos os torna mais frágeis ou vulneráveis, apenas os
Terminalidade é um neologismo, diz respeito à terminal (do latim terminale), remete à sua verdadeira condição humana e finita.
cujo significado refere-se à demarcação de campos, algo que termina, extremidade, Didaticamente o processo de morrer foi dividido em cinco fases para a qual o
fim. Este termo tem a mesma origem de terminar (também do latim terminale) que cuidador necessita estar orientado e preparado para poder auxiliar:
significa por termo a, acabar, findar, concluir; demarcar, delimitar, delinear. Morte
por sua vez, significa o fim da vida, fim. Seu sentido figurativo associa-se a grande a) Negação e isolamento: Fase em que o cliente toma contato, de forma
dor, pesar profundo. Morrer significa perder a vida, falecer, expirar, perecer. A ele direta ou indireta, com a gravidade de seu estado de saúde e com a ausência

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de recursos terapêuticos para dizimar a doença que o atinge, utiliza de seus cessa e inicia-se o momento do repouso derradeiro”. É um momento de maior
recursos mais pessoais para negar a realidade dos fatos. (... não está ocorrendo introversão da pessoa que está morrendo, de preparo pessoal. Constitui uma
comigo...), busca incessantemente outros profissionais, submetendo-se a uma fase na qual não apenas o idoso, mas também sua família necessita de ajuda,
série infindável de exames e preferindo acreditar na possibilidade de erro compreensão e apoio. É um momento onde o silêncio costuma ser a linguagem
diagnóstico. Nessa fase, o cuidador necessita estar atento aos momentos em predominante permitindo que o não verbal comunique mais que o verbal. Para
que o idoso mostra-se disposto a “baixar” suas defesas e discutir a realidade. tanto, o cuidador necessita estar capacitado a identificar essa fase e a trabalhar
Isso não envolve, necessariamente, a necessidade de informar, de forma com o silêncio interpretando-o e mostrando ao idoso que ele não está só, por
explícita, a gravidade e o desfecho de seu estado atual. Mais que isso, o meio do toque delicado o que pode ser, por si só, muito reconfortante.
cuidador deve procurar descobrir e atender às necessidades do idoso, verificar Esses estágios podem ou não serem sequenciais, ter duração variável e, às
suas potencialidades e suas fraquezas e estar “abertos” a discutir com ele esse vezes, apresentarem-se em paralelo. Também é possível que nem todos os idosos em
momento quando ele estiver “preparado” para isto ou ainda estar atento se processo de morrer passem por todos eles antes do estágio final.
ele explicitar com quem se sente mais à vontade em fazer isso. A negação, em
muitas situações, está associada à sobrevivência emocional do idoso e, nesses A esperança é, no entanto, algo que, declarada ou camufladamente permanece
casos, forçá-lo a aceitar a realidade pode somente causar-lhe mais sofrimento. presente (a possibilidade de uma nova droga, um novo tratamento, etc). É este “fio
de esperança” que os sustenta por dias, semanas ou meses. Quando a esperança se
b) Raiva: Quando a fase de negação não pode ser mais sustentada, ela é vai normalmente sua morte está mais próxima. Em muitas situações, Muitas vezes
geralmente substituída por outra permeada por sentimentos de raiva, revolta esta esperança, importante para o paciente sobreviver aos dias difíceis, a família, por
e ressentimento. É uma fase difícil de lidar, pois tende a se propagar (raiva da não aceitar o que está ocorrendo, agarra-se doentiamente a esperanças inexistentes
doença, de Deus, do médico, da equipe, do ambiente, da família, enfim de e não possibilita que o idoso vivencie o processo de morrer e alcance o estágio de
tudo que se relaciona de algum modo com seu estado atual). Normalmente, aceitação final.
nessa fase, familiares e cuidadores demonstram pouco ou nenhum entusiasmo
em atender o idoso dada a dificuldade na interação. Esse tipo de reação ocorre Auxiliar, nesse momento, é fundamental, mas não é fácil. O que pode ser muito
com cuidadores não capazes de desenvolver relações empáticas, ou seja, de claro ao cuidador, pode ser obscuro ou agressivo para a família. Uma intervenção
se colocarem no lugar do idoso naquele momento, encarando o problema inadequada pode canalizar toda a ira, frustração e inabilidade em lidar com a
sob seu ponto de vista e desenvolvendo assim, o que se chama “relação de situação por parte da família, para o cuidador e assim quebrar um vínculo que pode
ajuda” anteriormente abordado. Esse é o momento em que a pessoa idosa mais ser precioso para todos nesse momento. Para evitar tais situações
necessita de respeito, compreensão, tempo e atenção e o cuidador só poderá É importante que o cuidador seja capaz de compreender o verdadeiro significado
adequadamente atendê-la se aprender a identificar e encarar seus próprios daquele momento para o idoso e para sua família. São muitas as modificações que
medos e defesas. ocorrem simultaneamente; a racionalização pode demorar a ocorrer e às vezes não
ocorrer cedendo espaço para uma gama infindável de emoções desorganizadas.
c) Barganha: É a fase da negociação como se fosse possível negociar a morte.
Constitui uma tentativa de adiamento onde o idoso “troca” bom comportamento Idoso e família podem estar em um descompasso no enfrentamento da situação,
por uma meta auto imposta. Geralmente são feitas com Deus e raramente são cabendo ao cuidador essa identificação para auxiliar na construção de um processo
explicitadas. de aproximação a ser vivenciado conjuntamente por todos. Ouvir mais, clarificar as
mensagens, respeitar os sentimentos presentes são atitudes que podem auxiliar.
d) Depressão: Quando a pessoa não consegue mais negar ou “esconder” sua
doença; a raiva ou revolta é substituída por um sentimento de grande perda.
Pode ocorrer de duas formas: uma reativa e outra preparatória. A reativa requer COMO OFERECER AJUDA A ALGUÉM QUE ESTÁ MORRENDO?
diálogo e uma atuação encorajadora; a preparatória é, geralmente, mais
silenciosa, requer a atenção do cuidador para compartilhar o sentimento através Frente a uma pessoa idosa em processo de morte, muitos cuidadores sentem
da compreensão mútua, do toque, do estar presente e menos de palavras. Frases dificuldades concretas quanto ao que dizer e como de fato ajudar idosos e familiares
que se deparam com tais situações?
feitas como “não fique triste”, tendem a não ajudar, pois a perda eminente (da
vida, dos que ama, dos planos, etc) ocasiona o pesar e a dor e, nesse momento, A morte não é um acontecimento místico ou necessariamente se apresenta
os idosos tendem a querem olhar “para frente” e não mais para o que ficou como um fim maravilhoso onde as pessoas visualizam uma luz brilhante, um jardim
para trás. É geralmente a fase que pedem para orar e quando o cuidador deverá especial ou qualquer outra bela e confortante imagem. Alguns referem certa sensação
procurar atendê-lo prontamente de modo a proporcionar-lhe conforto. reconfortante, mas para outros, a experiência da morte pode ser mais difícil.
e) Aceitação: Nem todas as pessoas em processo de morrer alcançam essa fase. Uma segunda consideração relaciona-se ao movimento vivenciado no século XX
É necessário tempo para tanto e a superação das fases anteriores. Não constitui em busca de uma vida mais saudável, associada aos avanços tecnológicos, à busca da
um estágio de felicidade, mas um momento de fuga de sentimentos, onde “a luta cura das doenças (antes não tratáveis) e do prolongamento da existência humana ao

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento

maior limite possível. Esse movimento pode criar a falsa expectativa de que a morte PARTE 3
é algo sempre previsível e pode ser prevenida dependendo, apenas, de maior avanço
tecnológico levando à ideia de imortalidade e aumentando a crença de que a morte
é algo não natural. Doença e morte nem sempre requer intervenções de alta e cara
tecnologia e a presença de grandes especialistas. Essa crença coloca tais ocorrências GRANDES SÍNDROMES GERIÁTRICAS
muito distantes dos seres humanos que se sentem impotentes frente a tais fatos.
Estamos finalizando nosso curso. Nos
Essas considerações, por si só, não são boas ou ruins, são apenas algumas últimos meses conversamos sobre diferentes
barreiras a serem transpostas quando se assume a posição de “cuidadores”, ou seja, situações que envolvem o tema envelhecimento.
quando se quer auxiliar idosos e seus familiares no enfrentamento da morte, tão Pensamos no envelhecimento como um processo
presente e tão desconhecida. relacionado a todos os seres vivos que assume
O profissional de saúde pode auxiliar esse momento ficando atento a alguns diferentes significados dependendo da sociedade
pontos como, por exemplo, o que se denomina “desligamento”, ou seja, o idoso pode e da cultura com a qual lidamos. Compreendemos
querer ficar cada vez mais sozinho solicitando a redução das visitas para apenas os que podemos lidar com preconceitos, mitos e
familiares/amigos mais próximos, depois só para os filhos e, finalmente só para o estereótipos relacionados à velhice e aos idosos
companheiro(a) permitindo-se assim desligar-se gradativamente daqueles que tem e esses serão os responsáveis pelas diferentes
atitudes assumidas pelas pessoas perante
significado em sua vida. Isto não é significa um processo de isolamento, mas uma
eles. Da indiferença à violência (expressa ou
despedida, um permitir-se partir.
velada), múltiplas são as situações vivenciadas
Idoso e em especial familiares podem desejar chorar. Intervenções do tipo diariamente pelas pessoas idosas e com as quais
“seja forte, não chore neste momento...” não ajudam, em primeiro lugar porque convivemos em nosso ambiente de trabalho.
chorar não é sinal de fraqueza, mas a expressão de uma emoção interior que ao ser Hoje, com certeza, podemos olhar para isso de
extravasada pode trazer alívio e aproximação, pode inclusive auxiliar a transformar forma diferente.
os momentos finais em momentos de encontro.
Compreendemos também que as pessoas idosas estão ligadas a diferentes
Para os familiares de pessoas idosas, em idades muito avançadas e que são pessoas a que chamamos rede de apoio e, a parte central dessa rede é constituída
muito dependentes a ideia da morte pode ser algo frequentemente expresso senão pela família ainda hoje a principal responsável pelo cuidado das pessoas idosas que
desejado. Os quadros sem possibilidade terapêutica de cura costumam ser mais necessitam de assistência. Vimos que essas famílias estão mudando e hoje, já não
facilmente aceitos e a atuação do cuidador deve buscar preservar o respeito e a conseguem mais dar conta, sozinhas, das demandas assistenciais dos idosos. Também
dignidade dos mesmos. conversamos sobre as diferentes famílias, as mais funcionais e as disfuncionais e
pudemos compreender como a identificação do funcionamento familiar pode nos
Em muitas situações, no entanto, o cuidador vai se deparar com interesses auxiliar no planejamento assistencial direcionado às pessoas idosas. Compreendemos
distintos, os do idoso e os dos familiares quando, seu comportamento ético, deve também o papel dos cuidadores e a diferença entre os cuidadores familiares e os que
prevalecer. Cabe a ele ter seu olhar voltado para as necessidades do idoso de quem trabalham como cuidadores, ainda hoje uma ocupação. A partir da discussão sobre a
cuida que pode, por impossibilidade do meio em absorver tais demandas, não ter construção da relação de ajuda pudemos ver como nos aproximar de forma efetiva
como expressar seus sentimentos, angústias e temores. Sua intervenção deve visar a das famílias, dos cuidadores e das pessoas idosas mais necessitadas e auxiliá-las a
qualificação do processo de morrer do idoso preservando, ao máximo, sua dignidade partir da construção de um cuidado conjunto, integral e integrado.
enquanto ser humano e o respeito em seu entorno.
Em seguida compreendemos as alterações biopsicossociais que ocorrem com
os indivíduos conforme vão envelhecendo e pudemos compreender o impacto da
REFERÊNCIAS redução da reserva funcional dos desfechos de saúde apresentados pelas pessoas
idosas frente a diferentes situações de estresse. Entendemos também, que os sinais
DUARTE YAO. Manual de Formadores de Cuidadores de Idosos. Secretaria de Estado e sintomas apresentados pelas pessoas idosas em relação a doenças e agravos podem
da Saúde. Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social: Fundação ser ausentes, obscurecidos ou atípicos e, por essa razão, devemos valorizar sempre a
Padre Anchieta, São Paulo, 2009. queixa do idoso e, juntamente com ele, investiga-la em profundidade (busca ativa)
de modo a intervir precocemente e aumentar a chance de sucesso terapêutico.
DUARTE YAO. Manual de Cuidadores de Idosos. Secretaria de Estado da Saúde.
Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social: Fundação Padre Também compreendemos que as pessoas idosas podem apresentar uma ou mais
Anchieta, São Paulo, 2009. doenças crônicas associadas e que, o mais importante, é que essas condições crônicas
sejam monitoradas e acompanhadas evitando agudizações e descompensações que,
DUARTE YAO; DIOGO MJD. Atendimento domiciliar: um enfoque gerontológico. São
frente à reserva funcional diminuída podem ser muito danosas às pessoas idosas.
Paulo, Atheneu, 2000.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento

Entendemos ainda que, talvez mais importante que apenas avaliar e acompanhar
as doenças apresentadas pelos idosos, devemos avaliar e compreender o impacto TEXTO DE APOIO
dessas nas condições funcionais dos idosos ou seja, quão independente eles são
para o desempenho de suas atividades cotidianas. Pudemos discutir como fazer uma
avaliação funcional e entender seu significado. Hoje entendemos que as pessoas GRANDES SÍNDROMES
idosas com comprometimento no desempenho de suas atividades instrumentais de
vida diária podem ter sua participação social igualmente comprometida e, em casos
mais extremos, podem não mais ser capazes de residir sozinhas. Isso nos auxiliará
GERIÁTRICAS
a olharmos para os idosos de nosso território de outra forma e planejarmos nosso
acompanhamento de maneira diferenciada. Entendemos também que, os idosos
que apresentam dificuldades em suas atividades básicas de vida diária estão com
dificuldades para seu autocuidado e, assim, requerem o auxílio de outra pessoa, da
família ou não, mas necessitam de forma contínua ou intermitente, da presença de
um cuidador. Conversamos detalhadamente sobre como orientar esse cuidador no
desempenho dessas atividades de forma a facilitar seu dia a dia e garantir o melhor Como já vimos, com o envelhecimento ocorrem múltiplas alterações nos
cuidado desse idoso. Como já tínhamos discutido sobre a avaliação das famílias, o diferentes sistemas orgânicos cujo resultado final é a progressiva diminuição de nossa
papel dos cuidadores e a construção da relação de ajuda, sem dúvida, nosso trabalho reserva funcional o que, em condições normais não acarreta maiores problemas,
agora está mais fácil de ser desempenhado, pois contamos com as ferramentas mas, em situações de estresse (de qualquer natureza) podem levar à ocorrência
necessárias para melhor desenvolve-lo. de desequilíbrio e incapacidade de readaptação ocasionando uma descompensação
Com todos os itens que conversamos nesse período compreendemos que o progressiva que pode ser manifestada por diferentes agravos ou doenças.
cuidado adequado aos idosos e seus familiares se faz de maneira contínua interligando Também já comentamos que os idosos costumam apresentar sinais e sintomas
os diferentes atores envolvidos em uma construção conjunto, ao que denominamos
relacionados às doenças ou agravos de forma atípica, obscura ou inexistente. Isso
linha de cuidado que, agora, podemos começar a desenvolver em nosso dia a dia.
exige do profissional de saúde uma grande capacidade de observação e a compreensão
Para complementar essa conversa sobre a construção do cuidado dispensado da necessidade de valorização da queixa da pessoa idosa buscando, juntamente
à pessoa idosa vamos finalizar conversando sobre as grandes síndromes geriátricas, com ela, identificar o que está ocorrendo e, intervir precocemente de forma a
ou seja, sobre condições multifatoriais que podem acometer as pessoas idosas e auxiliá-la em sua recuperação. Pelo fato da reserva funcional da pessoa idosa ser
serem mais facilmente identificadas pelos profissionais. A partir dessa compreensão, progressivamente menor, a intervenção precoce torna-se essencial para a melhoria
podemos agora planejar nossa assistência de forma mais direcionada e aumentar a da qualidade assistencial.
possibilidade de sucesso terapêutico.
É comum que, entre as pessoas idosas, certos conjuntos de situações ocorram
com maior frequência e, a partir da análise minuciosa de cada uma dessas condições,
é possível compreender seus prováveis determinantes.
Tais condições são denominadas “grandes síndromes geriátricas” ou os cinco “is”
da geriatria, pois a cada uma dessas condições foi dado um nome iniciado pela letra “I”:
Imobilidade, Instabilidade Postural, Iatrogenia, Insuficiência cognitiva e Incontinência.
Posteriormente acrescentou-se mais uma condição denominada “Insuficiência familiar”
e, mais recentemente ainda, incluiu-se a “síndrome de Fragilidade”, porém, nenhum
nome iniciado por “i” foi encontrado para denomina-la.
É sobre isso que vamos conversar nesse momento.
O primeiro ponto que devemos lembrar é que, uma “síndrome” se caracteriza
por múltiplas etiologias, ou seja, não existe uma causa única. Ela, geralmente, não
causa risco iminente de morte, mas compromete, de forma significativa, a qualidade
de vida da pessoa acometida. Dada a multiplicidade etiológica associada à síndrome,
ela envolve terapêutica complexa e, de preferência, uma abordagem multidisciplinar.
No entanto, ainda hoje, pela inadequada formação de muitos profissionais, as
síndromes podem ser erroneamente, confundidas como parte do processo normal
de envelhecimento e, por essa razão, não serem adequadamente tratadas.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

A figura a seguir, nos auxilia a compreender a relação das grandes síndromes INSTABILIDADE POSTURAL
com o processo de envelhecimento:
A Instabilidade Postural, independentemente de sua causa, aumenta o risco
de ocorrência de quedas. Pode ocorrer em consequência de alterações no sistema
locomotor (p.ex: alterações na marcha), no sistema vestibular (p.ex: vertigens,
tonturas), no sistema sensorial (p.ex: diminuição da acuidade visual) e do sistema de
propriocepção (capacidade de perceber o próprio corpo e seu entorno). A principal
consequência dessa síndrome é a ocorrência de quedas que são devastadoras na vida
das pessoas idosas.
Há alguns anos, a Secretaria do Estado de Saúde do Estado de São Paulo fez uma
campanha de prevenção de quedas em idosos tendo como slogam “Cair de maduro é
só para fruta”, considerando que cair na velhice, embora frequente, não é normal.
Queda pode ser definida como o deslocamento não intencional do corpo para
um nível inferior à posição inicial com incapacidade de correção em tempo hábil,
determinada por circunstâncias multifatoriais que comprometem a estabilidade
(Associação Médica Brasileira, 2000). A queda é, geralmente, um evento sinalizador do
início do declínio da capacidade funcional ou sintoma de uma nova doença ou agravo.
Observa-se que a associação entre as alterações fisiológicas relacionadas à
senescência, ou seja, ao processo “normal” de envelhecimento e, as relacionadas Porque a ocorrência de quedas em idosos é considerada um evento tão
à senilidade ou, as associadas aos processos de doença que comumente importante?
acometem os idosos, pode levar às “grandes síndromes”. Na maioria das vezes, Porque é frequente e pode ser devastador, comprometendo a saúde e a
não estamos atentos para essas condições embora convivamos com os idosos independência dos idosos e podendo levá-los mais rapidamente ao óbito. Além disso,
diariamente. O que é mais comum é darmos mais atenção para o que se chama custa caro tanto para o Estado quanto para as famílias.
“epifenômenos”, ou seja, às condições agudas, decorrentes das síndromes, que
acometem as pessoas idosas e, geralmente são as responsáveis pela procura dos Estudos epidemiológicos apontam que 35% a 40% dos idosos com idade igual ou
serviços de saúde. São exemplos dessas condições as pneumonias e as fraturas superior a 60 anos caem ao menos uma vez ao ano sendo que essa proporção aumenta
pós quedas. para 50% entre os idosos longevos (≥ 80 anos). Em torno de 13% dos idosos caem
duas vezes ou mais ao ano e são chamados de “caidores”. Depois de um ano, 20%
Uma síndrome geralmente leva à outra produzindo o que se denomina dos denominados “caidores” recorrentes estão hospitalizados, institucionalizados
“efeito dominó” cujo significado final é a piora significativa da qualidade de vida ou morreram. Entre os idosos que sofreram quedas, de 30 a 75% sofrem lesões, de
da pessoa idosa e de seus familiares. diferentes tipos, mas, a maioria não procura assistência a não ser em casos mais
graves, como, por exemplo, quando ocorrem fraturas.
As fraturas constituem os desfechos mais graves relacionados às quedas. A fratura
de quadril compreende cerca de 25% das fraturas pós-queda em idosos que residem na
comunidade. No ano 2000, no município de São Paulo foi encontrada uma prevalência
de 28,6% de quedas entre as pessoas idosas residentes na comunidade. A prevalência
de quedas em contextos fechados, como Instituições de Longa Permanência de Idosos
(ILPIs) ou hospitais, tende a ser três vezes maior (1,5 quedas/leito/ano).
Segundo dados do Ministério da Saúde, em fevereiro de 2000, a taxa de
mortalidade hospitalar em consequência de quedas, foi de 2,6%. Essa taxa eleva-se
dramaticamente com a idade, sendo que 70% das mortes ocorreram entre as pessoas
com idade igual e superior a 75 anos.
A queda constitui uma das mais importantes causas de acidentes entre os idosos
e a principal causa de morte na categoria “traumas externos”. Pesquisas mostram
Fonte: Leme, 2010.
que, entre os idosos que sofreram queda há um aumento de aproximadamente 50% na
Vamos agora, conversar um pouco sobre cada uma das síndromes. mortalidade no ano subsequente à mesma. Alguns autores afirmam que metade dos
idosos que sofrem fratura de quadril em decorrência da queda ficam incapacitados

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

e podem ser institucionalizados e, desses, 25% morrerão em menos de seis meses, o As desordens cardiovasculares são responsáveis por 77% da procura pelos serviços
que mostra o impacto negativo desse agravo na sobrevida e na qualidade de vida da de emergência com histórico de quedas inexplicáveis, recorrentes e associadas às
pessoa idosa. De 10 a 25% das quedas de idosos em instituições são acompanhadas por perdas de consciência inexplicáveis.
lesões e/ou fraturas, responsáveis pelo maior comprometimento de sua mobilidade e
A síncope vaso vagal é uma síndrome mediata neurológica e pode ocorrer, em
por internações mais prolongadas.
qualquer idade, em decorrência de situações geradoras de estresse (p. ex: dor ou
Não é incomum que as pessoas idosas omitam a informação referente à trauma emocional), podendo levar à perda da consciência. A síndrome da carótida
ocorrência de quedas para os profissionais de saúde, familiares ou cuidadores. Isso sinusal ou “ataque de queda” é uma doença que raramente ocorre antes dos 50 anos
ocorre ou por não estarem conscientes dos riscos associados às quedas; ou porque as e tem prevalência desconhecida. Ocorre, geralmente, após manobras realizadas
consideram eventos comuns; ou por terem receio de serem considerados frágeis ou, na carótida sinusal (lateralização da cabeça por um esforço, dor ou permanência
ainda, por considerarem tal relato constrangedor. em pé tempo prolongado) podendo ser acompanhada por amnésia ou perda da
consciência. É mais frequente em homens e essa associação pode estar relacionada
Atualmente, as quedas são consideradas “eventos sentinela” responsáveis pelo à maior prevalência de comorbidades cardiovasculares nesse grupo. A prevalência
desenvolvimento de uma “cascata de problemas” após sua ocorrência: de hipotensão ortostática aumenta com a idade. A hipotensão pós prandial pode
ser exacerbada na mudança postural. Sua prevalência é desconhecida assim como
P. ex: Uma pessoa idosa sofre uma queda acidental e desenvolve medo de a morbi-mortalidade associada. Todos esses achados justificam a necessidade do
cair novamente. Torna-se assim, mais insegura reduzindo as atividades físicas que desenvolvimento de intervenções que visem a prevenção desse agravo.
costumava desenvolver. Isso provoca menor mobilidade que, por sua vez, pode
culminar com maior declínio funcional. Este pode levar à perda da independência, A denominada “marcha senil” também pode estar associada a maior ocorrência
repercutindo de forma significativa em sua qualidade de vida. de quedas entre as pessoas idosas. Esse tipo de marcha representa uma tentativa
de aumentar a estabilidade e a segurança ao caminhar. Caracteriza-se por base
Vários estudos apontam que uma das mais importantes consequências das alargada, diminuição do balanço dos braços, postura encurvada, flexão de quadril e
quedas é o desenvolvimento do “medo de cair” (ptofobia), seguido das fraturas, joelhos, passos mais curtos e maior lentidão ao caminhar.
hospitalização precoce, imobilização, institucionalização, isolamento social,
depressão e óbito. As drogas psicoativas têm um efeito de lentificação de resposta, sonolência,
hipotensão postural além de outros efeitos colinérgicos como, por exemplo, a visão
As quedas geram sintomas como ansiedade e depressão além da perda de turva. Já os anti-hipertensivos podem aumentar a chance de ocorrência de quedas
confiança na própria capacidade de andar com segurança em diferentes ambientes devido a hipotensão postural. Assim, é fundamental que o profissional de saúde que
o que está associado ao declínio funcional, sentimentos de inutilidade, isolamento atende pessoas idosas conheça os efeitos adversos associados aos medicamentos de
social e depressão. Cerca de 45% dos idosos que caem apresentam alguma limitação forma a orientá-lo e assim, prevenir a ocorrência de quedas associadas aos mesmos.
em suas atividades em decorrência de lesões físicas ou por medo de cair.
Entre os fatores extrínsecos destacam-se os riscos ambientais como iluminação
Os quadros depressivos não são incomuns e estão relacionados ao sentimento de inadequada, pisos irregulares ou escorregadios, obstáculos no caminho (móveis, fios),
impotência, desamparo e isolamento social, pela impossibilidade de se locomover, tapetes soltos, ausência de barras de apoio em banheiros, ausência de corrimãos em
quadros frequentemente presentes entre os idosos que sofreram quedas com lesões, escadas, roupas muito longas, calçadas inadequadas, uso inadequado de tecnologia
em especial fraturas. Alguns pesquisadores consideram que um dos determinantes assistida (andador, bengala ou cadeiras de rodas).
primordiais da qualidade de vida da pessoa idosa é sua capacidade de deambulação. A maioria das quedas (70%) acontece na residência dos idosos, em especial no
Estudo mostrou que, entre os idosos que sofreram quedas, 88,5% deles tinham quarto, na cozinha, no banheiro e na sala de jantar. Cerca de 10% delas ocorrem nas
receio de cair novamente, 24% sofreram fraturas,24,3% tiveram de abandonar suas escadas, sendo o primeiro e o último degrau os mais perigosos.
atividades anteriores, 26,9% precisaram modificar seus hábitos e 23,1% desenvolveram
a síndrome de imobilidade. Os fatores situacionais ou comportamentais são representados por algumas
atividades que podem aumentar o risco de ocorrência do agravo como, por exemplo,
As causas associadas às quedas de idosos são multifatoriais e complexas, andar de meia, ir ao banheiro à noite com as luzes apagadas (porque acredita conhecer
resultado da associação de fatores individuais e ambientais. Os principais riscos bem o ambiente), subir em cadeira ou banquinho para pegar objetos localizados em
associados às quedas podem ser classificados em fatores intrínsecos; extrínsecos ou níveis elevados, andar apressadamente quando isso constitui um hábito, etc.
ambientais; situacionais ou comportamentais.
Conhecer o histórico das quedas (definir o tipo de evento, como, onde e quando
Os fatores intrínsecos estão relacionados às alterações fisiológicas advindas ocorreu) é o primeiro passo para um adequado planejamento das intervenções e das
do processo de envelhecimento (ex: alterações no equilíbrio, estabilidade postural, medidas preventivas. O histórico de quedas é o maior preditor de futuras quedas
diminuição da força, diminuição na acuidade auditiva e visual, alterações posturais), entre as pessoas idosas. Para tanto é necessária uma avaliação criteriosa da queda
a presença de comorbidades e o uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia). ocorrida. Pode-se utilizar o seguinte roteiro:

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

a) Histórico de quedas nos últimos 3 meses IMOBILIDADE


b) Onde caiu? A Síndrome da Imobilidade (SI) envolve a incapacidade da pessoa idosa em se
locomover/mobilizar sem o auxílio de outras pessoas podendo estar restrito ao leito
c) O que fazia?
ou a uma cadeira de rodas. É decorrente de um conjunto de alterações presentes
d) Sentiu algo antes de cair? após um período de imobilização prolongada que comprometem a independência e,
consequentemente, a qualidade de vida da pessoa idosa. Entre os idosos residentes
e) Conseguiu levantar-se sozinho(a)? Necessitou de mais de 5 minutos para se na comunidade estima-se uma prevalência de imobilismo em torno de 25%; após uma
levantar? hospitalização prolongada, a prevalência eleva-se para 30% a 50% e, entre os idosos
institucionalizados sobe para 75%.
f) Iniciou medicação nova ou alterou a dosagem de algum medicamento que
costumava tomar? As principais causas:

g) Você toma mais de 4 medicamentos diferentes por dia? • Problemas osteoarticulares;

h) Ingeriu bebidas alcoólicas antes da queda? • Alterações cardiovasculares;

i) Tem alguma doença crônica que estava/está descompensada? • Doenças respiratórias (DPOC);

j) Como está sua capacidade funcional (capacidade em desempenhar de forma • Reações adversas a medicamentos (neurolépticos, ansiolíticos, hipnóticos)
independente suas atividades do dia a dia)? • Doenças neurológicas e psiquiátricas (demência, depressão, Parkinson);
k) Foi ao oftalmologista recentemente? • Desnutrição;
l) Peça que descreva a casa e os ambientes onde costuma circular para avaliar • Quedas anteriores;
riscos ambientais;
• Isolamento social
m) Verifique evidências de maus tratos incluindo abandono e autonegligência A imobilidade prolongada gera um progressivo declínio funcional que atinge
As intervenções nas situações de ocorrência de quedas são multifatoriais. vários sistemas orgânicos. Tais alterações associadas às decorrentes do próprio
Exercícios programados com ênfase no treinamento de equilíbrio e marcha, envelhecimento acabam por ocasionar a SI que pode estar associada a várias
complicações como desenvolvimento de úlceras por pressão, trombose venosa
modificações nos esquemas medicamentosos (aprazamento), tratamento de
profunda, embolia pulmonar, isquemia arterial aguda, fraturas, incontinência,
hipotensão postural, alterações no ambiente físico tornando-o mais seguro, e
retenção urinária, infecções, atrofia muscular, encurtamento dos tendões,
tratamento das desordens cardiovasculares são alguns exemplos. contraturas, constipação, delírio, inversão do ritmo do sono, depressão, entre outras.
Promover a saúde da pessoa idosa inclui medidas de prevenção de quedas onde A SI é muito difícil de ser revertida após sua instalação o que torna essencial as
se destacam: medidas preventivas tais como:
a) Avaliação geriátrica ampla com medidas corretivas adequadas; • Identificação dos fatores de risco
b) Racionalização do uso de medicamentos; • Restrição do tempo no leito
c) Redução do consumo de bebidas alcoólicas; • Iniciar fisioterapia passiva e ativa precocemente quando da presença de
limitação funcional estimulando o idoso a fazer os exercícios o mais fre-
d) Avaliação da acuidade visual; quentemente possível;
e) Avaliação nutricional; • Iniciar deambulação precoce sempre precedida da fase em posição sentada
f) Estímulo à atividade física para fortalecimento muscular, melhoria do equilíbrio • Apoio nutricional e psicológico.
e marcha e da amplitude articular, aumento da flexibilidade e alongamento;
g) Correção de fatores de risco ambientais (p. ex: barras de apoio no banheiro, INCONTINÊNCIA ESFINCTERIANA
piso antiderrapante no banheiro e cozinha);
Entre as incontinências, a urinária é a mais comumente observada nas pessoas
h) Conscientização e modificação de comportamentos de risco idosas. Isso não faz dessa condição algo “normal” na velhice, muito pelo contrário.

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Ela representa uma alteração que deve ser investigada e tratada dado seu impacto Devemos lembrar que o intestino sofre várias alterações com o processo de
na qualidade de vida das pessoas acometidas. envelhecimento que podem ocasionar maior prevalência de constipação, neoplasias
e doença diverticular. Alterações na inervação intestinal e na musculatura podem
A incontinência urinária tem importante impacto social gerando estigma social
ocasionar a diminuição dos movimentos que impulsionam o bolo fecal.
capaz de causar restrições das atividades sociais, isolamento e depressão.
Com o envelhecimento há uma redução da contratilidade e da capacidade de Não é incomum que idosos com impactação fecal (fecaloma) queixem-se de perda
armazenamento vesical, diminuição da habilidade em retardar a micção, aumento de “fezes líquidas” que nada mais são do que muco eliminado pelo ânus produzido
do volume residual e surgimento de contrações não inibidas pelo músculo detrusor. pelo intestino na tentativa de “empurrar” as fezes impactadas. O desconhecimento
desse tipo de situação pode levar a uma conduta errônea como o tratamento da
A próstata é uma “esfera” que abraça a uretra e quando ocorre seu aumento perda fecal como diarreia o que pioraria significativamente o quadro apresentado.
ocorre simultaneamente um estrangulamento da uretra o que dificulta a passagem
da urina. Nos homens, a hipertrofia da próstata é comum, resultando em retenção O tratamento deve ser feito com o uso de enemas, laxativos, uso de fibras e
urinária, incontinência e maior tendência à ocorrência de infecção do trato urinário. aumento na ingestão de líquidos.
As mulheres idosas, em especial as multíparas, podem apresentar incontinência
por estresse ou seja, liberação involuntária de urina quando do aumento da pressão IATROGENIA
intra-abdominal (tossir, espirrar, carregar peso, gargalhar) em decorrência do
enfraquecimento da musculatura pélvica e da bexiga. Pode ainda ocorrer outros Iatrogenia refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações
tipos de incontinência (urgência, funcional, hiperfluxo e mista), mas isso não deve causadas por ou resultantes do tratamento em saúde. Em farmacologia, o termo
ser considerada uma alteração normal do envelhecimento. iatrogenia refere-se a doenças ou alterações criadas por efeitos adversos associados
aos medicamentos.
Cerca de 1/3 das pessoas idosas com incontinência apresentam causas
reversíveis como delirium, infecção urinária, uretrite e vaginite atróficas, restrição O termo deriva do grego iatros (médico, curandeiro) e genia (origem, causa),
da mobilidade, aumento da diurese, fecaloma, distúrbios psíquicos, uso de e pode aplicar-se tanto a efeitos bons como ruins. Desde o tempo de Hipócrates
determinados medicamentos (diuréticos, sedativos, antidepressivos, analgésicos reconhece-se o potencial efeito lesivo das ações de uma pessoa que tenta curar.
opióides, antipsicóticos) ou substâncias (cafeína, álcool).
Condições iatrogênicas não resultam necessariamente de erros médicos, tais
Toda pessoa idosa com queixa de perda involuntária de urina deve ser -se a como falhas durante uma cirurgia, ou a prescrição do medicamento errado. De fato,
história da incontinência e seu impacto social. Perguntas como: quando começou, tanto os efeitos intrínsecos como os derivados de um tratamento médico podem ser
é intermitente ou contínua, ocorre de dia ou à noite, a caminho do banheiro e/ou iatrogênicos. Por exemplo, a radioterapia ou quimioterapia, devido à agressividade
durante algum esforço; se houve aumento da frequência miccional, se há dor à micção,
necessária dos agentes terapêuticos, causam perda de cabelo (alopécia), anemia,
se há perda involuntária de urina dormindo, qual o intervalo entre as micções, se, após
vômitos e náuseas, entre outros. Estes efeitos são iatrogênicos porque são
urinar sente que o esvaziamento da bexiga foi insuficiente, quais as características
consequências do tratamento médico.
do jato urinário, tem constipação intestinal, quais os medicamentos que utiliza, o
banheiro é próximo e de fácil acesso, tem outras doenças, devem ser incluídas. Há situações onde pode realmente ocorrer negligência ou falhas nos
O tratamento da incontinência deve ser personalizado para cada idoso. Deve-se procedimentos, como quando uma prescrição com má caligrafia leva à dispensa do
investigar a(s) causa(s) tratando-se as reversíveis. Os tratamentos farmacológicos e medicamento errado podendo levar a efeitos danosos ao paciente tratado.
os cirúrgicos são de indicação médica e feitos após minuciosa avaliação. Uma causa muito comum de efeitos iatrogênicos é a interação medicamentosa,
Também devem ser utilizados os tratamentos não farmacológicos que envolvem que ocorre quando um ou mais medicamentos alteram os efeitos de outros que estão
modificações ambientais e técnicas corporais. As primeiras visam facilitar o acesso sendo tomados pelo paciente, aumentando ou diminuindo a sua ação.
ao banheiro e tornar mais fácil e seguro seu manuseio (iluminação adequada, barras
Efeitos adversos como reações alérgicas a medicamentos, mesmo quando
de apoio). A segunda envolve a realização de exercícios para fortalecimento da
musculatura do assoalho pélvico (treinamento vesical, exercícios de Kegel, cones inesperadas, são uma forma de iatrogenia. Em relação às pessoas idosas, as interações
vaginais, biofeedback e eletroestimulação) e a criação do hábito miccional (ir ao medicamentosas que ocasionam reações adversas a medicamentos (RAM) constituem
banheiro em intervalos regulares independente da vontade de urinar). O uso de as principais condições iatrogênicas.
tampões uretrais, absorventes e fraldas podem ser grandes aliados na melhoria da Entre os idosos essas situações podem ocorrer com maior frequência dado o uso
qualidade de vida da pessoa idosa.
de múltiplos medicamentos e, muitas vezes pela presença da denominada polifarmácia
Mais rara, porém presente é a incontinência fecal (IF). Dados do Estudo SABE (uso de 5 ou mais medicamentos diferentes). Por outro lado, a iatrogenia também
mostram que 7% das pessoas idosas residentes no município de São Paulo referem a pode estar associada ao uso das denominadas drogas potencialmente impróprias para
presença de IF. pessoas idosas integrantes da lista de BEERS.

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Para minimizar essas ocorrências, alguns cuidados são necessários com as da vida, mas é insuficiente para inviabilizar completamente os projetos de vida da
prescrições das pessoas idosas: pessoa que preserva o interesse em algumas atividades. A perda geradora da tristeza
é gradativamente superada e permite uma vida psíquica normal.
a) Esteja atento à presença de reações adversas e tratamentos desnecessários;
Já a depressão caracteriza-se pela presença de humor deprimido (sensação
b) Considere a adesão, a informação e o tipo de embalagem do medicamento
de vida vazia, irritabilidade, emotividade excessiva, choro frequente, considera-
(pode confundir os idosos) e escolaridade da pessoa idosa;
se um peso para a família e acha a morte uma solução); perda de interesse ou
c) Investigue a automedicação; prazer com as atividades que antes eram agradáveis; perda ou ganho significativo
de peso; insônia ou hipersonia; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de
d) Atenção ao aprazamento entre as drogas (amplos intervalos entre as doses); energia; sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada; diminuição da
e) Revise a prescrição em todo atendimento do idoso e relembre com ele a capacidade de concentração, pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida.
indicação de cada medicamento; A prevalência de depressão nas pessoas idosas varia de 10% (idosos da
f) Investigue reações adversas potenciais; comunidade) a 30% (residentes em ILPIs). É ainda sub diagnosticada e, por essa razão,
sub tratada nesse grupo. Requer atenção dos profissionais de saúde, pois compromete
g) Esteja atento a possíveis interações medicamentosas. significativamente a qualidade de vida das pessoas idosas e de seu entorno familiar.
O delirium é de instalação aguda e caracteriza-se pela presença de alterações
INSUFICIÊNCIA COGNITIVA do nível de consciência e pelo comprometimento global das funções cognitivas
(memória, percepção, linguagem, etc). Geralmente está associado a quadros
Entende-se por cognição o conjunto de funções cerebrais formadas pela memória
infecciosos e alterações metabólicas que devem ser investigadas e tratadas. Uma vez
(armazenamento das informações), função executiva (capacidade de planejamento,
tratada a causa, tendem a desaparecer. A principal pergunta a ser feita para auxiliar
antecipação, sequenciamento e monitoramento de tarefas complexas), linguagem
na identificação do problema é “há quanto tempo a pessoa idosa está apresentando
(compreensão e expressão da linguagem escrita e oral), praxia (capacidade de
o quadro”. Instalações repentinas sugerem a presença de delirium.
executar um ato motor), gnosia (capacidade de reconhecimento de estímulos visuais,
auditivos e táteis) e função visuo-espacial (capacidade de localização no espaço Doenças mentais de início tardio também podem comprometer a cognição das
e percepção das relações entre os objetos). O funcionamento integrado dessas pessoas idosas. As mais comuns são parafrenia tardia (quadro intermediário entre a
diferentes funções permite que os indivíduos interajam entre si e com o mundo esquizofrenia e a paranoia), esquizofrenia residual e oligofrenia, as duas últimas com
buscando resolver as situações e dificuldades cotidianas (capacidade de decidir) que histórico de doença mental prévia.
juntamente com nosso humor (motivação) são responsáveis pela manutenção da
autonomia da pessoa idosa.
DEMÊNCIAS
A senescência não afeta a cognição de forma significativa. As alterações que
ocorrem, como já vimos anteriormente, levam a uma lentificação do processo cognitivo, Demência é o nome dado ao conjunto de alterações que ocorrem no cérebro das
redução da atenção, maior dificuldade no resgate das informações apreendidas e pessoas modificando suas capacidades intelectuais. O termo “demência” significa
redução da memória prospectiva e contextual (dificuldade com detalhes) o que não que a pessoa apresenta déficits de memória associados com dificuldades em pelo
acarreta prejuízo importante no desempenho das atividades cotidianas. menos um outro setor, de intensidade suficiente para restringir as atividades diárias.
Antigamente, quando as pessoas idosas apresentavam esse tipo de problema diziam
A incapacidade cognitiva é um diagnóstico sindrômico que envolve esquecimento que estava “esclerosada” ou pior, que estavam “caducando” e achavam que isso era
confirmado por familiares, dificuldade no desempenho de atividades cotidianas e normal, simplesmente porque elas eram velhas. Existem vários tipos de demência,
alteração na triagem cognitiva. Está associada a quatro grandes causas: mas a mais frequentemente observada nas pessoas idosas é a Doença de Alzheimer
a) Demência nome esse atribuído ao médico psiquiatra alemão Alois Alzeimer que, em 1907,
identificou mudanças no tecido cerebral de uma mulher (Sra August D.) que havia
b) Depressão morrido de uma rara doença mental.
c) Delirium Caracteriza-se como uma doença crônica, degenerativa e progressiva e,
ainda hoje, incurável. Gradativamente as pessoas acometidas por essa doença vão
d) Doença mental.
apresentando problemas de memória, dificuldades no raciocínio (não conseguem
As pessoas idosas podem apresentar desordens depressivas caracterizadas pela resolver problemas do dia a dia), desorientação temporal (dia, mês e ano em que
baixa do humor e variabilidade na gravidade. Existe depressão sintoma e depressão estamos), dificuldade com operações matemáticas (fazer contas), dificuldade de
doença. A tristeza é um sentimento que pode estar presente em vários momentos linguagem e alterações de comportamento (agitação, alucinações, delírios, etc).

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Esses problemas interferem no desempenho das atividades cotidianas do próprio 20 anos antes dos primeiros sinais e sintomas perceptíveis. Iniciam os primeiros
idoso e das pessoas que o cercam. Ela é entendida como um grupo de sintomas sintomas de perda de memória, ainda pouco significativos;
que frequentemente acompanham a doença ou condição. Sua causa ainda não está
completamente esclarecida. b) Estágio inicial: nessa fase a doença começa a afetar o córtex cerebral, a
perda de memória continua a evoluir e outras habilidades cognitivas começam
Embora a Doença de Alzheimer (DA) seja mais frequentemente observada em também a ser afetadas. Normalmente é nessa fase que é feito o diagnóstico
pessoas idosas, ela não é própria do envelhecimento, pois pode acometer pessoas clínico. Os principais sinais incluem: perda de memória, dificuldade em se
em qualquer período da idade adulta. Assim, é uma doença que se associa à idade, localizar no espaço (ao sair de casa pode não conseguir voltar), demora mais
mas não é devida à idade. Nessa doença ocorre a morte de células do sistema tempo para desempenhar as atividades do dia a dia que sempre fez; apresenta
nervoso (neurônios) iniciando-se em uma região do cérebro ligada à memória. Com o problemas para administrar as finanças e pagar as contas; dificuldades de
avançar da doença a morte celular vai se expandindo para outras áreas do cérebro e julgamento frente a problemas levando-o a decisões ruins; perda espontaneidade
comprometendo outras habilidades intelectuais e de comportamento. A evolução da e do senso de iniciativa; mudanças de humor e de personalidade que podem
doença pode variar de três anos (em pessoas com diagnóstico aos 80 anos) até dez ou aumentar a ansiedade. Nessa fase a pessoa pode ainda parecer saudável, mas
mais anos se o diagnóstico ocorrer em idades mais jovens. começa a apresentar dificuldades no desempenho de atividades mais complexas
As primeiras queixas são sempre relacionadas à memória (esquece compromissos, no dia a dia.
onde colocou as chaves, os óculos, esquece alimentos no fogo e mesmo com o cheiro c) Estágio moderado: fase em que a doença avança para outras áreas do córtex
de queimado não se lembra que os deixou lá, esquece recados, pagamento de contas, cerebral que controlam a linguagem, raciocínio, processamento sensorial e
aniversários, etc). Como muitas pessoas, sem a doença, também podem apresentar consciência. As regiões afetadas ficam mais atrofiadas continuam a se atrofiar
parte ou muitos desses esquecimentos, essa queixa não é valorizada pelo próprio
e os sinais e sintomas da doença tornam-se mais pronunciados. É a fase em que
idoso ou por seus familiares. Como esses esquecimentos vão se acentuando isso pode
os problemas comportamentais, como agitação e perambulação, podem ocorrer
gerar quadros de ansiedade ou depressão.
exigindo maior supervisão e cuidado. Os familiares geralmente têm muita
Esses sintomas vão se somando a outros, como dificuldade em aprender novas dificuldade em lidar com essa fase. Os principais sinais e sintomas observados
tarefas, lidar com tarefas que exijam raciocínio ou operações matemáticas. Tarefas são: perda de memória mais acentuada; confusão mental; dificuldade em
que habitualmente eram feitas em problemas podem começar a se tornar penosas. manter a atenção; problemas no reconhecimento de amigos e familiares;
Podem apresentar dificuldades em dizer o nome das coisas, ele vê uma colher, sabe dificuldade com linguagem; problemas com leitura e com números; dificuldade
pra que ela serve, é capaz de descrever, mas não consegue nominá-la ( ele diz em se organizar e pensar com lógica; incapacidade em aprender novas coisas
...aquilo que usamos para tomar sopa...). ou em lidar com situações inesperadas, agitação, perambulação, dificuldade
em repousar, medo e ansiedade, especialmente ao entardecer; alucinações,
De modo geral, as primeiras atividades cujo desempenho é comprometido
ilusões, irritabilidade, desconfiança ou paranoia; perda de controle dos impulsos
pela doença, são as mais complexas (administração de finanças, uso de transportes
(uso de linguagem vulgar; despir-se em locais e momentos inadequados, utilizar
públicos, dirigir um carro, fazer compras, preparar uma refeição), as atividades
modos não aceitos socialmente); problemas de percepção espacial (dificuldade
que costumava fazer (pequenos consertos domésticos, costura, bordado) e,
em levantar da cadeira ou se posicionar na mesa). O comportamento do ser
posteriormente, as atividades mais simples (vestir-se, banhar-se, etc).
humano é resultado de complexos processos cerebrais. Na DA esse processo é
Essas queixas serão confirmadas por exames neuropsicológicos específicos para afetado ocasionando situações estressantes ou comportamentos inapropriados.
avaliar a memória, a linguagem, a capacidade de cálculo, o raciocínio, o julgamento Por exemplo: a pessoa idosa pode reagir furiosamente recusando-se a tomar
entre outros. O diagnóstico definitivo, no entanto, só pode ser feito por biópsia banho ou a trocar de roupa simplesmente porque não está compreendendo o
cerebral ou autópsia. Isso normalmente não é feito, a biopsia pelos riscos e por não que o cuidador está pedindo a ele e, se ele entender, pode não se lembrar de
trazer nenhum benefício ou modificação ao tratamento da pessoa e a autopsia só em como fazer isso. A fúria é uma forma de mascarar a ansiedade ou a confusão;
feita após o óbito (ajudará para pesquisa, mas não para o tratamento da pessoa idosa para a pessoa idosa faz sentido tirar a roupa quando sente calor, o que ela não
de quem cuidamos). entende ou se lembra é que isso não é aceitável que isso seja feito em locais
públicos.
COMO EVOLUI A DOENÇA DE ALZHEIMER? d) Estágio avançado: é o último estágio da DA, há várias áreas do cérebro
atrofiadas. As pessoas não mais conseguem reconhecer familiares e pessoas
Embora o curso da DA não seja o mesmo para todas as pessoas, os sintomas
queridas ou se comunicar com os outras; são completamente dependentes da
desenvolvidos na maioria das vezes, seguem os mesmos estágios gerais.
ajuda de outras pessoas. Outros sintomas incluem: perda de peso; dificuldade
a) Estágio pré-clínico: regiões do cérebro ligadas à memória de curto e longo em deglutir (engolir); infecções de pele; gemidos constantes; maior sonolência;
prazo começam a ser afetadas. Essas mudanças possivelmente se iniciam 10 a incontinência urinaria e fecal. Geralmente ficam acamados parte ou todo o

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

tempo o que propicia a instalação de quadros infecciosos como, por exemplo, ela não é motivo de preocupação, pois acidentes sempre podem ocorrer. Fazer
pneumonia, que poderão levá-la a óbito. uma revisão da casa buscando controlar ou minimizar situações de possível
perigo é, assim, recomendável;
2. Adaptação do ambiente: será mais fácil modificar o ambiente do que mudar
a maioria dos comportamentos;
3. Redução do perigo: reduzindo o perigo pode-se aumentar a independência.
Um ambiente seguro pode ser menos restritivo e a pessoa idosa poderá circular
com mais segurança e liberdade.

ALGUNS LEMBRETES
• Coloque os telefones de emergência e o endereço de sua casa ao lado de
todos os telefones existentes na casa;
• Coloque uma secretaria eletrônica para atender ao telefone quando não
puder fazê-lo e programe-a para fazê-lo ao menor número de chamadas
possível. A pessoa idosa com DA pode não estar capacitada a receber re-
cados e pode ser vítima de trotes maldosos que podem ocasionar uma rea-
ção catastrófica (ver mais adiante). Guarde aparelhos celulares em locais
No conjunto, a evolução da doença é progressivamente lenta, mas a pessoa seguros para que não se percam;
pode apresentar períodos nos quais seu estado fica estável (platôs) que podem durar • Instale alarme de incêndio em todos os cômodos da casa;
meses e, às vezes anos, após os quais pode ocorrer uma piora brusca.
• Evite o uso e a existência no interior da casa de produtos inflamáveis ou
Quadros de piora brusca também podem estar associados à ocorrência de outros
voláteis;
problemas de saúde que o doente não saberá explicitar. Assim, na vigência dessas
situações, sempre é necessário investigar. • Instale fechaduras de segurança em todas as portas e janelas que dão para
o exterior;
Hoje existem algumas medicações para tratamento da DA, elas não vão curá-la,
vão apenas tornar sua progressão mais lenta. Sua associação com outras medicações • Guarde do lado de fora da casa, em local seguro, uma chave reserva, pois
vai permitir o controle dos sintomas associados como alterações de comportamento, a pessoa idosa com DA pode trancar a porta e deixá-lo para fora;
agressividade, agitação, depressão e apatia.
• Procure não deixar fios elétricos pelo caminho; proteja as tomadas com
A pessoa idosa com DA pode também ser portadora de uma ou mais doenças dispositivos apropriados;
crônicas simultâneas (hipertensão, diabetes, etc) que continuam a requerer o mesmo
acompanhamento de antes do diagnóstico da demência. Se isso não for feito, tais • Certifique-se que todos os cômodos contam com iluminação adequada;
doenças poderão descompensar agravando a sintomatologia apresentada.
• Instale interruptores de luz no início e no final das escadas;
Se a opção da família for manter a pessoa idosa com DA em sua casa ou na
casa de algum parente é necessário que sejam algumas medidas de segurança sejam • As escadas devem ter, no mínimo, um corrimão que vá do primeiro ao úl-
providenciadas para evitar a ocorrência de acidentes. timo degrau;
• Guarde todos os medicamentos em local seguro e trancado;
CONDIÇÕES GERAIS DE SEGURANÇA • Mantenha bebidas alcoólicas trancadas em local seguro e fora do alcance
Com o avançar da doença as pessoas idosas tornam-se cada vez menos capazes da pessoa idosa;
de se cuidarem sozinhas e em segurança. Alguns princípios de segurança gerais podem • Mantenha o ambiente organizado, a desordem pode levar à confusão;
ser úteis:
• Retire móveis ou enfeites dos locais de circulação da pessoa idosa;
1. Prevenção de riscos: é muito difícil antecipar o que uma pessoa com DA pode
fazer. O fato de ainda não ter acontecido nada de mais grave não significa que • Guarde sacolas plásticas em locais seguros e trancados (a pessoa pode
acidentalmente asfixiar-se);

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• Retire da casa armas de fogo; • Coloque uma cadeira ou banco de plástico no interior do box para facilitar
o banho, instale chuveirinho manual;
• Guarde todas as ferramentas e materiais elétricos na parte externa da
casa; • Prefira chuveiros elétricos que utilizam uma só chave para mistura da
água. Aquecedores com entradas separadas para água fria e quente po-
• Elimine plantas venenosas do interior da casa; dem ser motivo de acidentes;
• Se tiver aquários, mantenha-os fora de alcance. • Coloque ralo com filtro na pia para evitar a perda de pequenos objetos;
• Mantenha uma luz noturna acesa no banheiro durante a noite;
COZINHA
• Retire do banheiro todos os aparelhos elétricos pequenos;
• Instale fechaduras de segurança nas portas dos armários e nas gavetas
• Proteja as tomadas com protetores específicos;
onde existirem materiais cortantes, perfurantes ou quebráveis;
• Guarde em local seguro fósforos, produtos de limpeza, facas, talheres, SALA
louça valiosa;
• Retire fios soltos de todas as áreas de circulação;
• Não utilize nem armazene líquidos inflamáveis na cozinha;
• Retire tapetes soltos;
• Mantenha uma luz noturna acesa na cozinha durante a noite;
• Repare o assoalho se apresentar algum piso solto;
• Guarde pequenos objetos em uma gaveta trancada (a pessoa idosa com DA
pode confundi-los com alimentos); • Identifique todas as estruturas de vidro com um decalque contrastante;

• Retire frutas e verduras artificiais da cozinha bem como enfeites de gela- • Guarde em local seguro controles remotos, aparelhos de som, DVDs, etc
deira com aparência de produtos comestíveis;
COMPREENDENDO OS DISTÚRBIOS DE COMPORTAMENTO
QUARTOS Os portadores de DA por não conseguirem expressar seus sentimentos e emoções
como outras pessoas fazem, pode recorrer a comportamentos não usuais ou até
• Mantenha uma luz noturna acesa no quarto durante a noite;
estranhos, chegando, às vezes, a ser perigosos. Embora muito difícil e complexo, é
• Mantenha um intercomunicador ligado no quarto da pessoa idosa com DA importante tentar compreender o significado desses comportamentos. A maneira como
(daqueles que se utiliza no quarto de bebês) para avisá-lo de qualquer o cuidador reage aos comportamentos do idoso refletem no mesmo. Se o cuidador
ruído que indique queda ou necessidade de ajuda; está irritado, cansado e zangado (muitas vezes com razão), ele, provavelmente, se
sentirá da mesma forma. É importante que se compreenda que essas reações não são
• Retire ventiladores ou aquecedores portáteis; intencionais ou pessoais. Ele não as tem “de propósito”.
• Encoste a cama na parede ou, em último caso, coloque o colchão no chão
(para evitar quedas); ALGUMAS DICAS...
Perambulação: Esse costuma ser um comportamento frequente; pode expressar
BANHEIRO inquietação, insegurança ou falta de atividade física.

• Nunca deixe o idoso com DA, sozinho no banho; “ele caminha sem parar, de um lado para outro do quarto”
“ele fica, à noite, andando ao redor da mesa, por horas
• Retire a fechadura interna do banheiro para evitar que o idoso se tranque
seguidas”
em seu interior;
• Coloque tapetes antiderrapantes no interior do box e na frente do lavabo; O que fazer?

• Eleve o assento do vaso sanitário ou coloque barras de apoio a seu lado; Embora esse comportamento possa ser muito irritante para o cuidador, ele, em si,
não causa nenhum mal ou coloca a pessoa em perigo. Deixe-o andar. Se isso acontecer
• Instale barras de apoio no chuveiro preferencialmente de cores contras- à noite e ele residir em um apartamento, providencie um calçado confortável com
tantes com a parede; solado de borracha para não fazer barulho e incomodar os vizinhos do andar de

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

baixo. Reorganize o ambiente de forma a permitir que ele tenha espaço para andar mais sair. Ele passa a reagir menos aos eventos felizes ou infelizes (arrefecimento
sem ficar se chocando com móveis ou outros obstáculos. Se for um comportamento afetivo). Ele tende a aumentar com o avançar da doença e a comprometer as
constante procure organizar caminhadas externas com ele, preferencialmente à atividades do dia a dia. Isso tende a afetar também suas relações sociais e familiares
tarde, em lugares pouco agitados. aumentando seu isolamento.
Perguntas repetitivas: Esse é outro comportamento frequente e igualmente O que fazer?
perturbador. Ele faz sempre as mesmas perguntas mesmo quando o cuidador acabou Avalie a capacidade remanescente do doente e proponha atividades programadas que
de respondê-la. Ele também pode repetir as mesmas frases e gestos constantemente. ele consiga desempenhar. Essas atividades podem fazê-lo se sentir útil e integrado.
É preciso entender que o problema de base dessa pessoa é a memória. Ele repete Busque as atividades que lhe dão prazer e faça-as junto com ele. Mas avalie bem,
as perguntas por que não memorizou as respostas. Cada vez que ele pergunta, para pois se ele não conseguir desempenhar a atividade isso pode induzi-lo a perceber seu
ele é como se fosse a primeira vez. Esse comportamento também pode expressar fracasso aumentando a angústia ainda mais. Evite que ele faça o que não se sente
insegurança e ser a tradução de um pedido de ajuda. É uma forma de chamar a capaz de fazer. Não o coloque em situações de hiperestimulação, dê-lhe tempo para
atenção do cuidador. Ações ou frases repetitivas podem expressar aquilo que ainda entender o que lhe foi solicitado e para que tente responder. Valorize seus sucessos,
ele consegue fazer e que, de alguma forma o interessa ou o preocupa. Assim, mesmo que mínimos.
uma mãe com DA pode falar ao telefone com o filho todos os dias, em diferentes
momentos e sempre perguntar se ele se alimentou (independente da hora), se Inquietação, nervosismo: As dificuldades apresentadas pelo doente no dia a
dormiu, se está bem. dia modificam sua autopercepção e geram angústia. A desorientação (no tempo e no
espaço) gera insegurança e ansiedade. No início da doença ele tem dificuldade em
O que fazer? entender o que está acontecendo e entra em pânico por seus lapsos de memória e
por perder a confiança em si mesmo. Com o avançar da doença, ele pode se sentir
Não adianta se irritar ou tentar argumentar, apenas responda e entenda que é o
frequentemente diante de um fracasso, pois já não sabe avaliar o que é ou não capaz
máximo de elaboração que ela está conseguindo chegar. Não adianta dizer que você
de fazer e tem medo que as pessoas o julguem um incapaz.
“já respondeu mais de 20 vezes”, isso só vai aumentar a insegurança do doente. É
um comportamento, de fato, cansativo, monótono e irritante, mas não gera perigo O que fazer?
algum. Deixe-o perguntar. Procure responder à pergunta de forma clara e precisa,
Não tente argumentar ou explicar. Procure transmitir-lhe calma e tranquilidade
lenta e articuladamente e peça que ele repita o que você disse.
(atenção ao tom de voz e postura corporal), se ele perceber que você está irritado
Se a pergunta repetitiva estiver relacionada à hora (que horas são?), procure responder com a situação, isso vai deixá-lo ainda mais nervoso. As palavras são importantes,
relacionando-a com alguma atividade (é hora do almoço, do jantar, de tomar banho, mas podem não ser suficientes, toque-o gentilmente mostrando seu afeto. Fique
etc). A atividade ainda pode servir como uma referência de tempo enquanto o valor a seu lado e procure fazer com ele as tarefas que o angustiam. Procure melhorar
da hora provavelmente perdeu seu significado concreto. a autoestima do doente elogiando-o quando arrumado e limpo, ressaltando seus
feitos manuais ou artesanais ou suas tarefas concluídas. Isso mostra reconhecimento
Ele(a) o(a) segue por toda parte: Você pode representar a única referência e atenção e transmite confiança.
de segurança que ele ainda tem, o resto do mundo pode parecer hostil e ameaçador.
Pode também ser um comportamento “mimético”, ou seja, o doente reproduz os Alucinações e ideias delirantes: A pessoa idosa com DA pode referir que vê,
gestos, atitudes, idas e vindas do seu cuidador. Isso ocorre pela evolução da doença ouve ou sente coisas, pessoas ou animais que não existem (alucinações) na realidade
onde o doente perde sua autonomia em relação ao ambiente e passa a imitar o ou ainda pode referir temor ou expressar pensamentos que não condizem com a
comportamento das pessoas ao seu redor, é um comportamento de dependência realidade (ideias delirantes). Geralmente as alucinações são visuais, simples ou muito
social. Pode ainda representar a angústia que sente em ficar sozinho. elaboradas. Podem também ser auditivas (ouve a mãe chamando, alguém falando,
etc). Na maioria das vezes são fenômenos transitórios. Podem ser favorecidas por
O que fazer? comprometimentos sensoriais (redução da visão ou da audição). As consequências
Procure entretê-lo com algum tipo de atividade que ele gosta de fazer e que o das alucinações dependem de sua natureza e de como são vivenciadas tanto pelo
distrai. Momentaneamente ele vai esquecê-lo, mas permanecerá tranquilo porque doente quanto por quem o cerca. Alucinações acompanhadas de agitação podem
sabe que você está por perto. Tente descobrir outras pessoas ou parentes com quem estar associadas a um evento clínico e o médico deve ser comunicado. As ideias
ele se sente tranquilo e veja a possibilidade de essas pessoas virem, rotineiramente, delirantes representam uma interpretação equivocada de uma situação vivida. As
visitá-lo. Isso o auxiliará a manter outros vínculos e não se sentir inseguro na sua mais comuns são roubo, ciúme ou está convencido que querem se livrar dele. Elas
ausência. Acostume-o também a ficar sozinho em alguns momentos. se caracterizam como uma convicção absoluta e inabalável do doente que ele pensa
serem verdadeiras. Elas resistem a qualquer prova em contrário ou evidencias da
Apatia ou tristeza: Ele poderá se apresentar assim em diferentes momentos, realidade. Elas são geralmente transitórias e limitadas a um campo determinado,
em especial quando for ficando cada vez mais dependente. Pode representar um Normalmente não evoluem para um delírio que toma conta da vida do doente. Não
mecanismo de defesa contra o fracasso. Pode começar a apresentar uma menor se sabe sua causa, mas sabe-se que estão associadas às lesões cerebrais ocasionadas
reação às circunstancias emocionais, não quer fazer nada, nada o agrada, não quer pela doença e, também, à dificuldade do doente em interpretar a realidade em

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decorrência de sua desorganização mental. Ideias de roubo ou ciúme podem afetar Não significa que houve uma falha no cuidado, apenas evolução da doença. Pode
as relações afetivas, diminuir sua motivação e a de outras pessoas o que afetará a ocorrer que ele reconheça a foto da esposa no álbum de casamento, mas não
qualidade dos cuidados prestados. reconheça a mulher que está a seu lado como sendo ela. Ele pode olhar no espelho
e conversar com sua imagem como se fosse um estranho ele pode até achar que as
O que fazer?
pessoas que vê na televisão são personagens reais e iniciar uma conversa com eles.
Não entre em pânico e não tente argumentar dizendo que aquilo que ele refere O que fazer?
ver, sentir ou ouvir não é real. Para ele é bem real e ele tem plena convicção disso
resistindo a qualquer tentativa de lhe mostrar o contrário. Se for possível, remova-o É necessário explicar aos familiares que sofrem muito com essas situações por mais
do ambiente ou comece outro assunto muito diferente como, por exemplo, o que que entendam que isso é causado pela doença. Oriente-os a não tentar argumentar,
fez durante o dia. Procure prender sua atenção com uma atividade prazerosa. No não guardar rancor, não se torturar e, acima de tudo não repreendê-lo. Lembre-os
caso de ideias delirantes, se você for o alvo das acusações, não leve como uma da inutilidade em ficar repetindo o nome e o papel das pessoas, ele não será capaz
ofensa pessoal. Não se zangue, por mais que pareça, não é pessoal. Se o alvo for de fixar. Às vezes essas situações são transitórias, oriente-os a sair brevemente do
outra pessoa, procure certificar-se da veracidade da situação (pode não ser verdade, ambiente e, retornar depois, pois isso pode bastar para minimizar a situação.
mas, pode também ser). Deixe-o falar, procure não tomar partido, evite argumentar,
Ele troca o dia pela noite: Isso pode acontecer por várias razões. Com
alimentar ou contradizer suas colocações, tranquilize-o e desvie sua atenção para
o envelhecimento, a pessoa tende a dormir menos horas. Ela pode apresentar
uma atividade de substituição.
períodos de sonolência durante o dia e o cuidador permitir que ela durma por
Esconder objetos: Ele pega uma coisa que pensa que precisa, coloca-a em longos períodos o que vai interferir no sono noturno (pequenos cochilos não são
um lugar que lhe pareceu adequado naquele momento e, em seguida, esquece que a ruins); ela pode ainda não ter nenhum gasto energético durante o dia (falta de
pegou e onde a colocou. Por essa razão, ele não vai entender sua irritação. É comum atividade física). Pode acordar à noite e se sentir desorientada e perdida ficando
que os doentes coloquem os objetos em locais inusitados e que não se lembrem de com medo, inquieta e ansiosa.
onde estão ou neguem tê-los pego. Isso ocorre geralmente porque ele esqueceu o O que fazer?
que devia fazer com esses objetos ou se distraiu quando os pegou ou ainda, para
não ter que reconhecer seus déficits, nega ter visto ou pego o objeto em questão. Mantenha uma programação rotineira de atividades durante o dia, pois assim, à
Há situações em que ele vai referir que foi roubado e pode acusar a você ou a outra noite, ele estará fisicamente mais cansado. Assegure-se que o quarto é um ambiente
pessoa que trabalha na casa gerando situações tensas. calmo e acolhedor onde o idoso se sente confortável e em segurança. Tranque portas
e janelas que dão acesso à rua ou ao exterior da casa ou apartamento. Instale uma
O que fazer? lâmpada noturna para que, ao acordar, ele consiga perceber o ambiente onde está.
Não o repreenda, ele não fez por mal. Possivelmente quis realmente guardá-lo, mas Programe passeios mais longos, mas de forma bem planejada e preferencialmente
não vai se lembrar nem que o pegou e nem onde o colocou. A noção de significado das à tarde. Cerifique-se que ele esvaziou a bexiga antes de deitar. Caso ele levante e
coisas pode estar perdida ou alterada. Assim, procure os objetos perdidos em todos os você não veja, ao perceber procure se aproximar dele com calma, de frente, olhando
possíveis esconderijos (qualquer lugar onde ele possa caber). Considere olhar dentro em seus olhos, falando delicadamente e lembrando-o quem você é. Mostre-lhe que
dos bolsos das roupas no armário, dentro de sapatos e bolsas guardados, embaixo está escuro, não adianta dizer “que é noite”, pois isso pode não ter mais nenhum
do tapete, do colchão ou de outros objetos maiores, dentro do lixo, da geladeira, significado. Converse calmamente com ele e tente levá-lo de volta ao quarto. Caso
atrás de almofadas, etc. Para evitar essas situações procure ser organizado e não ele insista em ficar acordado, proponha alguma atividade para entretê-lo.
deixe objetos de valor (chaves, talão de cheques, contas) ao alcance do idoso. Procure Reações catastróficas: A pessoa com DA gradativamente vai perdendo a
diminuir o número de “esconderijos” possíveis. Retire as chaves das gavetas deixando- noção de tempo e de espaço assim ela pode não saber onde está, se é dia ou noite,
as trancadas. Nunca despreze o lixo sem olhar seu interior. Tenha sempre cópias das que horas são, etc. Isso o deixa muito inseguro e desorientado. Ele pode reagir
chaves mais importantes e coloque-as em lugares distintos. desproporcionalmente às situações apresentadas gritando, chorando, batendo o pé
Ele fica repetindo que quer ir para casa, mas está nela: Em consequência ou até se tornando agressivo. A agressividade verbal é mais frequente que a física.
da doença ele está desorientado e pode ter dificuldade em reconhecer o ambiente Ele age assim porque não consegue adequar sua reação à situação que vivencia, ele
como familiar, principalmente se foi modificado. vê ameaça e perigo onde não existem e apenas reage a essas sensações que, para
ele são reais.
O que fazer?
O que fazer?
Não tente argumentar e explicar que ele está na casa dele. Tire-o do ambiente,
dê uma volta e retorne. Isso pode bastar para que ele se acalme. Se estiver muito Para o cuidador essas são situações sempre difíceis de lidar, pois cansam, estressam
agitado, coloque-o no carro e de uma volta mais longa. e magoam. O cuidador sempre fica se perguntando o que ele fez para desencadear
essa situação. Muitas vezes não fez nada ou, fez algo que foi inadequadamente
Ele não se reconhece mais no espelho ou aos membros da família: É triste, interpretado. Quando ocorrer esse tipo de situação procure manter a calma e tente
mas é próprio da doença e seus mecanismos ainda não estão totalmente esclarecidos. controlá-la. Não grite com o idoso ou o segure com força, pois ele pode se sentir

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

ameaçado e agredido o que só irá piorar o quadro. Não se afaste, fale com ele em dessa maneira, isso auxiliará no estabelecimento de um planejamento preventivo
tom normal, com devagar e com delicadeza; se estiver chorando console-o. Não tente para novas ocorrências semelhantes.
argumentar ou racionalizar nem tente se justificar isso só piorará a situação. Se ele
Síndrome do “sundown” (por do sol): Os distúrbios de comportamento podem
ficar agressivo, não tente segurá-lo, saio do seu alcance, mas deixe que ele continue
acontecer mais frequentemente em determinados horários do dia. É o caso do final
visualizando sua pessoa. Aguarde que a ira tende a passar. Esqueça o ocorrido após
da tarde, conhecido como sundown (pôr do sol). Nesse horário, o doente fica mais
passar. Não tente voltar a ele tentando conversar a respeito, isso não vai ajudar. Por
agitado, mais confuso e desorientado. Começa a seguir o cuidador pela casa toda,
mais difícil e ilógico que pareça, geralmente há uma razão para o desencadeamento
fica andando de um lado a outro e pode ver ou ouvir coisas que não existem. Isso
dessas situações. Procure descobrir qual é para poder evitá-la. Se isso acontecer
pode ocorrer porque o doente perdeu a noção de dia e noite, ele confunde os dois
em um ambiente público não se estresse e não sinta vergonha. Procure afastar as
períodos e perde a noção de suas respectivas atividades. O aumentar da escuridão
pessoas e explique que a pessoa é portadora de DA. Hoje em dia essa doença já é bem
pode provocar a sensação de medo aumentando sua insegurança.
conhecida e alguém a conhecerá e poderá ajudá-lo a conter a situação conversando
com as pessoas que estão começando a aglomerar ao seu redor. O que fazer?
Ele sai na rua e não sabe voltar para casa: O doente pode fugir de casa Pesquise uma causa física ou medicamentosa, converse com o médico. Tranquilize-o
caracterizando uma fuga ou se perder em um trajeto corriqueiro caracterizando procurando ficar ao lado dele nesse momento e repita calmamente que ele não
uma andança a esmo. As fugas geralmente ocorrem após alguma contrariedade ou tem nada a temer. Inicie uma atividade de substituição que ele goste. Programe
por algum distúrbio de reconhecimento (não reconhece a casa, a esposa e foge para o dia para ter um fim de tarde calmo evitando tudo que possa causar estimulação
encontrá-los). O vagar a esmo está ligado à desorientação e à memória espacial. excessiva (menos barulho, menor número de pessoas circulando, menos agitação).
Ele sai, se perde, não encontra o caminho de volta, perde as referências e começa
A pessoa idosa com DA tem comportamentos sexuais inadequados: Esse
a vagar. Isso pode ocorrer porque está tentando chegar a um antigo endereço. Elas
tipo de comportamento pode estar relacionado às modificações da vida afetiva, à
podem ser potencialmente perigosas, pois a pessoa pode andar longas distâncias e
perda de julgamento crítico (desinibição ou conveniências sociais). Geralmente o
não conseguir pedir ajuda. Pode cair, ficar exposta a frio ou calor intenso, à chuva,
doente apresenta uma diminuição da libido e da atividade sexual, mas, às vezes,
ser agredida. Sua expressão (ar incerto ou perdido) ou atitude podem levar as pessoas
pode ocorrer o contrário, aumentando. Isso pode ser expresso de diferentes maneiras:
a pensarem, erroneamente, que se trata de um alcoolista ou drogado e se afastarem
masturbação na frente de terceiros, uso de palavras ou gestos obscenos, assédio
dele recusando ajuda. Em cidades pequenas essas situações são menos problemáticas,
sexual com seu cuidador, propostas sexuais a uma pessoa desconhecida, apalpar
pois geralmente as pessoas se conhecem e podem ajudar. Numa cidade como São
pessoas desconhecidas ou com quem não tem qualquer intimidade. As manifestações
Paulo, a pessoa pode, simplesmente, desaparecer.
inadequadas podem ser resultado da manutenção das necessidades sexuais. Mas,
O que fazer? com a doença, ele está desorientado e pode ter perdido a conveniência social
manifestando seus desejos de forma intempestiva (quando, como e onde não se deve).
Não entre em pânico, analise calmamente a situação. Dê uma volta rápida no
A manifestação mais frequente costuma ser “falta de pudor” (aparece nu na frente
quarteirão. Se a busca começar rapidamente ele poderá ser encontrado em um
de visitas, crianças ou estranhos). É necessário entender e explicar para a família
raio de 1,5km de sua residência. Vá aos lugares que costuma ir quando sai com ele
que esses comportamentos são devidos à ausência de crítica, não são intencionais.
perguntando se as pessoas o viram; telefone para a polícia e saiba como descrevê-
lo lembrando-se de como estava vestido quando desapareceu; avise os familiares. O que fazer?
Como essa situação pode ser bastante comum, o ideal é preveni-la. Avise vizinhos
São situações extremamente delicadas para todos os envolvidos. Caso ainda exista o
e comerciantes próximos sobre a doença do idoso e que ele poderá se perder.
companheiro ou a esposa, converse sobre a possibilidade de manutenção, na medida
Forneça seu telefone para os mesmos para que eles possam avisá-lo numa eventual
do possível, de uma vida sexual ativa; da troca de gestos carinhosos (acariciar, beijar,
circunstância dessas. Não deixe que o idoso use objetos de valor (jóias) ou carregue
manter maior contato físico). Lembre-se que o(a) idoso não está com más intenções,
seus documentos originais. Providencie um identificador, que pode ser uma pulseira
está apenas respondendo a estímulos que não controla mais.
ou pode ser costurado na parte interna da roupa contendo nome, sobrenome,
endereço e telefone de contato. Procure ter sempre uma foto da pessoa idosa Fale sobre possíveis alterações de seu comportamento sexual para evitar surpresas
atualizada para auxiliá-lo (ou à polícia) na busca. Mantenha as portas de acesso desagradáveis. Caso ele(a) tire a roupa em público, explique que não é exibicionismo,
à rua, trancadas e as chaves em locais de difícil acesso. Colocar uma cortina ou ele apenas esqueceu a importância e o significado social do fato de estar vestido.
uma tapeçaria cobrindo a porta também auxilia. Não se desespere e não se sinta Não o(a) repreenda, leve-o(a) gentilmente de volta a seu quarto para vesti-lo(a).
necessariamente culpado. Procure prevenir essas situações e mantenha a família Explique às pessoas que ele(a) está doente e por essa razão não sabe que tais atitudes
sempre orientada quanto a essa possibilidade. Saiba sempre para quem deve ligar são inadequadas. Ele(a) não teve a intenção de chocar ninguém. Se a pessoa idosa se
se isso acontecer. Tenha sempre à mão telefones úteis (polícia, bombeiros, pronto- masturba, entenda e explique que ela o faz porque sente prazer, mas que a doença a
socorro, hospitais e serviços de urgência próximos, do médico do idoso e do parente fez perder o sentido das convenções sociais. Se ele fizer isso em privacidade, deixe-o;
que costuma ajudar). Quando ele for localizado, procure entender porque ele agiu se não, leve-o gentilmente ao seu quarto, volte e explique o que está acontecendo.

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MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento Texto de Apoio Grandes Síndromes Geriátricas

O QUE FAZER QUANDO SAIR COM O IDOSO DE CASA? QUAL O CRITÉRIO DE ESCOLHA DAS ATIVIDADES?
Procure levá-lo ao banheiro antes de sair. Não pergunte apenas se ele está • Escolha atividades concebidas para adultos;
com vontade de ir ao banheiro, lembre-se que ele pode não fazer mais a associação
necessidade/ação. Verifique se as roupas que está utilizando são adequadas e fáceis • As atividades devem ser concretas e de utilidade reconhecida (varrer a
de despir e vestir. Prepare uma valise com roupas adicionais para poder trocá-lo em casa, estender a toalha na mesa, etc);
caso de “acidentes”; inclua toalha e lenços higiênicos.
• Estarem centradas em coisas que ele sabia e gostava de fazer;
Assim que chegar ao destino, localize o banheiro mais próximo e acompanhe-o
até lá. Auxilie-o, pois será um ambiente estranho e ele poderá apresentar dificuldades. • Devem ter, preferencialmente, curta duração;
Faça isso a cada duas horas aproximadamente. Fique atento a sinais que demonstrem
que ela tem vontade de ir ao banheiro (ficar inquieto ou tentar tirar a roupa), aja • Devem ser divididas em pequenas sequências claramente indicadas;
rápida, mas calmamente. • Demonstre como fazer quando o ver com dúvidas, mas, não faça por ele;

COMO RECONHECER SINAIS DE DESCONFORTO • A qualidade do produto não deve ser importante, a execução e o entrete-
nimento causado é que importam é a atividade;
Com o avançar da doença, o idoso vai apresentando dificuldades em expressar
desconforto, dor ou mal estar. O cuidador precisa estar atento para poder auxiliá- • Passear é adequado e estimulante do ponto de vista físico, cognitivo e
lo buscando reconhecer sinais que possam mostrar isso e buscando suas causas. social. O período da tarde é o mais indicado. Procure fazer os mesmos tra-
Dificilmente ele utilizará palavras para expressar, Ele poderá chorar, gritar, ficar jetos, a rotina auxilia a desorientação causada pela doença. Procure um
agitado ou muito apático. O comportamento não terá, necessariamente, uma causa lugar ou horário mais tranquilo (menos barulho, menor tráfego). Estimule­­­‑o
evidente ou direta ele só está apontando que algo está errado. A tensão emocional durante o passeio, conversando, mostrando as coisas. Não tenha pressa, o
pode ser expressa por inquietação, agitação e nervosismo. Pode começar a andar de passeio não é uma corrida. Se ele quiser parar, faça uma pausa;
um lado para outro, mexe insistentemente em alguma coisa ou em si mesmo. Apatia
e passividade podem estar relacionadas ao avançar da doença. O cuidador deve estar • Atividades culinárias para as mulheres costumam ser familiares e estimu-
atento se a instalação desse quadro foi repentina, pois pode indicar alterações físicas lantes. Evite objetos cortantes ou que possam quebrar. Oriente-a passo a
(doenças, infecções, etc). Sempre haverá uma razão para os sinais de desconforto. passo e supervisione a atividade valorizando seus acertos.
O cuidador poderá identificá-las mais facilmente se construir um bom vínculo com a
pessoa de quem cuida e estar atento a seus sinais.
ALGUMAS DICAS PARA O BOM CUIDADO DE UM IDOSO COM DEMÊNCIA DE
COMO OCUPAR O TEMPO LIVRE ALZHEIMER:

As atividades do dia a dia com um idoso com DA, quando adequadamente • Lembre-se sempre que você está cuidado de uma pessoa que tem uma
executadas, ocupam boa parte do dia, pois levarão mais tempo para serem doença crônica e progressiva que, pode apresentar problemas de compor-
executadas. Mesmo assim, sobrará algum tempo livre que deverá ser preenchidas tamento conforme for avançando;
com atividades estimuladoras e planejadas. Por muito tempo a pessoa idosa poderá
manter suas capacidades físicas podendo e devendo ser estimulado a utilizá- • A agitação ou mudança de comportamento não é intencional ou deliberada;
las. Desenvolvimento de atividades diversas tem muitas vantagens: manutenção
da capacidade funcional; redução da dependência; diminuição do tédio e do • Carinho, afeto, atenção, calma tornam o cuidado do idoso com DA mais
isolamento; melhora da autoestima do idoso. fácil de ser desempenhado;

Para o alcance dessas vantagens, o cuidador deve estar atento a três regras básicas: • O idoso com DA esquece as coisas, inclusive seu passado, não adianta ficar
remoendo ou lembrando coisas ruins que já aconteceram;
• As atividades propostas devem mobilizar as capacidades físicas e mentais
remanescentes dos idosos: • É necessário estar sempre atualizado quanto à doença e os progressos em
relação a seu tratamento;
◦◦ Não proponha atividades que sabe ele não consegue mais desempenhar;
◦◦ Procure conhecer os hábitos e preferências dos idosos e propor ativida- • Procure desenvolver boas técnicas de comunicação tanto com o doente
des que já faziam antes. quanto com seus familiares;

• O cuidador não deve fazer a atividade PELO idoso, mas COM o idoso: • Mantenha sempre um ambiente organizado, calmo, tranquilo e encorajador;

• O cuidador deve dar ao idoso o tempo necessário para a execução da • Demonstre segurança naquilo que vai fazer com o idoso, se ficar inseguro
atividade. ele irá perceber e pode se agitar;

240 241
MÓDULO V Condições Crônicas e Envelhecimento

• Procure controlar situações que possam ser constrangedoras para ele,


nunca o exponha ao ridículo;
• Retire-o de situações que possam gerar frustrações ou possam assustá-lo,
faça-o calmamente, distraindo-o;
• Trate-o com naturalidade e como um adulto, sempre com muito respeito;


Seja realista, não espere que o idoso apresente grandes melhoras;
Nunca discuta com o idoso nem argumente muito, ele não irá compreendê-
MÓDULO VI
-lo só perceberá sua irritação o que poderá assustá-lo ou enfurecê-lo;
• Tente rotinizar todas as atividades diárias de forma que cada dia possa ser
bem programado;
Gerenciamento do Cuidado
• Supervisione a alimentação e o atendimento de necessidades de elimina-
ção do idoso, ele pode não saber mais referir que as sente;
• Mudança de comportamento repentino sempre tem uma causa, física ou
psicológica. Procure identificá-la e ajudá-lo a resolvê-la;
• Evite tarefas cansativas ou frustrantes,
Agora, conversar sobre as Redes de Atenção
• Não dê ao idoso, responsabilidades além de suas capacidades;
à Saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) e Linhas
• NUNCA, em hipótese alguma, empurre, bata, grite, xingue ou desrespeite de Cuidado.
o idoso. Isso é considerado violência contra o idoso passível de ações pe-
nais. Para essa aula proponho a seguinte dinâmica:
• Se ficar cansado, irritado ou descompensado peça uma folga, saia do am-
biente, tire férias, mas NUNCA, desconte na pessoa idosa. 1. Inicialmente, individualmente, cada um de
vocês irá definir “rede de atenção à saúde” e
• Tenha paciência, paciência e....paciência. “linhas de cuidado”. Em seguida, nos reuniremos
em pequenos grupos e procuraremos chegar a um
REFERÊNCIAS consenso sobre as duas definições que será, em
seguida, discutida em plenária.
DUARTE YAO. Manual de Cuidadores de Idosos. Secretaria de Estado da Saúde.
Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social: Fundação Padre
2. Após a discussão em plenária, vamos ler
Anchieta, São Paulo, 2009.
individualmente, o texto de apoio e comparar as
Vilela AL; Moraes EM; Lino V. Grandes Síndromes Geriátricas. In: Fundação Oswaldo definições obtidas na plenária com o material lido.
Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Envelhecimento e Saúde da Juntamente com o professor serão levantadas
Pessoa Idosa. Rio de Janeiro: EAD/ENSP, 2008.
as similaridades e as diferenças entre as opiniões dos alunos e o material
distribuído.

3. É fundamental que dúvidas sejam esclarecidas ou mesmo que opiniões divergentes


sejam explicitadas, pois, ao final da atividade, deveremos estar trabalhando com
conceitos homogêneos ou muito próximos disso. Portanto, mão à obra.

4. Na segunda metade da aula iremos construir a linha de cuidado relacionada à D.


Maria, uma idosa da cidade de Renascer que é atendida pela rede de atenção à
saúde do SUS de sua cidade.

242 243
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo VI
Atividade 1 - (Atividade Individual)
GERENCIAMENTO DO CUIDADO - REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE (RAS) E LINHAS DE CUIDADO

Aluno(a):..........................................................................................
1. Defina Redes de Atenção à Saúde e dê um exemplo.

2. Defina Linhas de Cuidado e dê um exemplo.


Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo VI
Atividade 2 - (Atividade Grupal)
GERENCIAMENTO DO CUIDADO - REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE (RAS) E LINHAS DE CUIDADO

Aluno(a):..........................................................................................
1. Redes de Atenção à Saúde - Síntese.

2. Linhas de Cuidado - Síntese.


TEXTO DE APOIO

REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE NO SUS


E LINHAS DE CUIDADO

Esse texto foi elaborado a partir do material do curso sobre Redes de Atenção
à Saúde no Sistema Único de Saúde ministrado pelo Ministério da Saúde e publicado
em 2012.
As Redes de Atenção à Saúde (RAS) no Sistema Único de Saúde (SUS), representam
um modelo de atenção que vem sendo preconizado pelo Ministério da Saúde que visa
integrar e articular o sistema de saúde brasileiro em todos os estados, municípios e
Distrito Federal.
Historicamente, a organização dos sistemas locais de saúde ocorre de
forma hierarquizada, fragmentada e tende a medicalizar todos os problemas
ou queixas trazidas pelo usuário. Essas, entre outras razões fazem com que o
Sistema de Saúde não venha respondendo, satisfatoriamente, às demandas de
saúde da população. Muitas estratégias têm sido implementadas com o objetivo
de qualificar a atenção à saúde e, a implantação das Redes de Atenção à Saúde
(RAS), integram esse conjunto daí ser fundamental que profissionais de saúde que
atuam nessa rede, a conheçam.
Vamos conversar um pouco sobre a matriz teórica e conceitual da atenção à
saúde no formato de redes integradas, focalizando a Atenção Primária/Estratégia
Saúde da Família como seu centro de comunicação.

HISTÓRICO E CONCEITO DAS REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE

A organização de redes integradas de atenção à saúde nos sistemas municipais


e estaduais de saúde teve como estímulo a garantia da concretização dos princípios
dos SUS - integralidade, universalidade e equidade da atenção à saúde da população
brasileira – que adquiriu maior relevância no final da década de 1990 culminando com
a publicação da Portaria GM nº 4.279 de dezembro de 2010.
Tudo isso ocorreu como consequência das alterações importantes no perfil
epidemiológico da população que foram resultado de profundas transformações
socioeconômicas e de estilo de vida com significativo impacto na saúde dos indivíduos
e comunidades. Observa-se o aumento contínuo da prevalência de condições crônicas
(CC), antes incipientes, que agora assumem papel de destaque junto às prioridades
da agenda de saúde.

249
MÓDULO VI Gerenciamento do Cuidado Texto de Apoio Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado

O crescente aumento na prevalência de CC, entre outros fatores, mostrou ANTECEDENTES HISTÓRICOS
a ineficácia do sistema de saúde brasileiro em lidar com essa demanda, pois o
mesmo ainda está centrado em eventos agudos e organizado segundo preceitos de As Redes de Atenção à Saúde (RAS) tiveram origem no Reino Unido, na década de
hierarquização, fragmentação e medicalização. 1920, após a I Guerra Mundial, quando foi elaborado o Relatório Dawson, documento
onde consta a primeira proposta de organização de sistemas regionalizados de saúde,
Assim, espera-se que o indivíduo busque assistência quando tem uma cujos serviços de saúde deveriam acontecer por intermédio de uma organização
queixa decorrente de uma condição aguda (doença infecciosa, uma fratura, um ampliada que atendesse às necessidades da população de forma eficaz, fossem
procedimento cirúrgico, etc) que, uma vez identificada, poderá ser “tratada” a acessíveis a toda a população e oferecessem cuidados preventivos e curativos, tanto
partir de intervenções específicas e, caso tudo transcorra conforme o esperado, no âmbito domiciliar quanto nos centros de saúde secundários, fortemente vinculados
aos hospitais.
será solucionado em curto espaço de tempo e o indivíduo será liberado não sendo
necessário retornar ao sistema. Por exemplo: uma mãe procura o serviço de saúde Marcos mais atuais em relação às RAS decorrem da reunião de Alma-Ata, realizada
com seu filho de 5 anos com quadro de febre e dor de garganta há 2 dias. Ao examinar em 1978. Nos Estados Unidos, na década de 90, houve uma retomada da discussão visando
a criança o médico diagnostica um processo infeccioso nas amigdalas. Prescreve superar o problema imposto pela fragmentação do sistema de saúde. Investiu- se na
antibioticoterapia associada com medicações para tratar os sintomas (dor e febre) e oferta contínua de serviços a uma população específica, territorialmente delimitada,
focada na Atenção Primária à Saúde (APS), desenvolvida de forma interdisciplinar e
orienta retorno em uma semana. Após esse período ocorre a remissão dos sintomas
com a integração entre os serviços de saúde e os sistemas de informação.
e a criança recebe alta.
Experiências semelhantes foram registradas também no Canadá. Na Europa
Com as condições crônicas não ocorre o mesmo. Vamos ver outra situação. ocidental, as RAS vêm sendo adotadas em países como Noruega, Suíça, Holanda,
A Sra. Joana chega à Unidade de Saúde com uma queixa de cefaleia importante Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Irlanda. Já nos países da América
há 3 dias que não passa com os analgésicos que comprou na farmácia por conta Latina, a implementação das RAS ainda é inicial, sendo o Chile o país com maior
própria. Ela tem 56 anos, trabalha como diarista, é fumante, está com sobrepeso e experiência na área.
não costuma ir ao médico. Só fez isso quando estava grávida. Ela tem quatro filhos. No Brasil, o tema tem sido tratado por diversos pesquisadores e data do final
Ela procura o médico para que ele prescreva um “remédio” para “tirar” essa dor da década de 90. Algumas experiências têm sido implementadas com êxito.
de cabeça, pois ela não está conseguindo trabalhar direito. Na consulta verifica- Assim, em nível internacional e nacional, tem-se estabelecido um consenso
se que sua PA está 210 x 160 mmHg. O médico a orienta e a encaminha para uma gradativo de que a organização dos sistemas de saúde sob a forma de redes
Unidade de Pronto Atendimento para que possa ficar em repouso e ser medicada até integradas é a melhor estratégia para garantir atenção integral, efetiva e eficaz às
a sua pressão baixar. Orienta também que ela agende uma consulta posterior para populações assistidas, com a possibilidade de construção de vínculos de cooperação
acompanhamento. Dona Joana sai da Unidade com um papel na mão, com doe de e solidariedade entre as equipes e os níveis de gestão do sistema de saúde.
cabeça e insatisfeita com o atendimento, pois “ele não resolveu o problema dela”. E, afinal de contas, o que vem a ser uma Rede de Atenção à Saúde?
Não segue o orientado e retorna para sua casa. Dois dias depois, ela desmaia e é
levada ao hospital onde é diagnosticada com AVC isquêmico e, como consequência,
CONCEITO DE REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE
ficou com uma hemiplegia D.
Segundo Mendes, as redes podem ser caracterizadas pelos seguintes aspectos:
Nesse segundo exemplo vemos uma pessoa com uma CC (hipertensão) agravada
autonomia, interdependência, confiança, cooperação e relações relativamente
por outras condições (tabagismo, sobrepeso, ausência de autocuidado com a própria
estáveis. No âmbito da saúde, todos esses aspectos estão presentes nas RAS, que
saúde) que busca no atendimento de saúde uma solução mágica, um “remédio” que devem ter foco na população, de forma integral, por meio de um serviço contínuo
resolva seu problema instantaneamente e que, a partir dessa solução, nada mais de cuidados que visem prioritariamente à promoção da saúde. Dessa forma, as RAS
precise ser feito. Isso não funciona para as CC, pois essas exigem uma abordagem são definidas, oficialmente, segundo o anexo da Portaria GM nº 4.279/20101 que as
mais complexa e uma atuação multidisciplinar, além de adesão ao tratamento e instituiu no SUS, como: “arranjos organizativos de ações e serviços de saúde, de
modificações de comportamento que, sabemos, não é nada fácil. diferentes densidades tecnológicas, que integradas por meio de sistemas de apoio
técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado”.
Por isso, é urgente que se estabeleçam novos processos organizativos, de gestão
e atenção à saúde no SUS, baseados em evidências científicas, que levem em conta as As RAS têm como objetivo promover a integração de ações e serviços de saúde para
reais necessidades de saúde da população e que de fato sejam efetivos e eficientes. prover uma atenção à saúde de forma contínua, integral, de qualidade, responsável,
Nesta conjuntura, as Redes de Atenção à Saúde surgem como uma possibilidade humanizada, com vistas à consolidação dos princípios e diretrizes do SUS.
para a reestruturação dos serviços e processos de saúde, rumo ao restabelecimento Na Portaria que instituiu as RAS no âmbito de SUS, é possível identificar seis
da coerência entre os princípios e diretrizes do SUS e o perfil epidemiológico da características importantes e inerentes à sua matriz conceitual. Assim, as RAS podem
população brasileira. ser caracterizadas por:

250 251
MÓDULO VI Gerenciamento do Cuidado Texto de Apoio Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado

1. Formar relações horizontais entre os diferentes pontos de atenção: essa 2. Ofertar atenção contínua e integral: serviços e sistemas integrados poderão
característica pressupõe que os pontos de atenção passem a ser entendidos ser capazes de dar atenção integral aos usuários na medida em que, conseguindo
como espaços onde são ofertados alguns serviços de saúde, sendo todos solucionar aproximadamente 80% dos problemas de saúde que são demandados
igualmente importantes para que sejam cumpridos os objetivos da rede de pela APS, os outros 20% dos casos seguem um fluxo cuja densidade tecnológica
atenção. Ao contrário da forma de trabalho em sistemas de saúde hierárquicos, do tratamento aumenta a cada nível de atenção que se sucede. Ao final, a
de formato piramidal e organizado segundo a complexidade relativa de cada continuidade da atenção deverá ser mantida pelas equipes da APS.
nível de atenção (atenção primária, de média e de alta complexidade). As
RAS são espaços que visam assegurar o compromisso com a melhora de saúde 3. Cuidado multiprofissional: faz-se necessária a composição multiprofissional
da população, ofertando serviços contínuos no âmbito dos diferentes níveis das equipes de saúde porque os problemas de saúde muitas vezes são
de atenção à saúde. Assim, para a lógica das RAS, um pronto socorro e um multicausais e complexos, e necessitam de diferentes olhares profissionais
centro de especialidades, por exemplo, são igualmente importantes na garantia para o devido manejo. Porém, mais do que a multiprofissionalidade, a ação
da atenção à saúde do usuário, pois ambos cumprem papéis específicos para interdisciplinar desta equipe deve ser um objetivo a ser estabelecido, de modo
necessidades específicas. a garantir o compartilhamento e a corresponsabilização da prática de saúde
entre os membros da equipe.
2. Atenção Primária à Saúde (APS) como centro de comunicação: embora seja
preconizada a relação horizontal, ou seja, não hierárquica entre os níveis e 4. Compartilhar objetivos e compromissos com os resultados, em termos
pontos de atenção à saúde, não significa que um deles não deva ser priorizado sanitários e econômicos: a missão de uma equipe de saúde deve contemplar
- considerando investimentos e alocações de recursos. A lógica de organização objetivos sanitários (como o aumento do aleitamento materno na região adscrita,
do SUS em redes de atenção a partir da APS reafirma o seu papel de (1) ser a maior e melhor atendimento à população, entre outros) e objetivos econômicos
principal porta de entrada do usuário no sistema de saúde; (2) de ser responsável (como melhor alocação dos recursos humanos, tecnológicos e financeiros), de
por coordenar o caminhar dos usuários pelos outros pontos de atenção da rede, modo a gerar o melhor custo- benefício para a população atendida.
quando suas necessidades de saúde não puderem ser atendidas somente por As RAS também apresentam atributos importantes a serem considerados
ações e serviços da APS; (3) e de manter o vínculo com estes usuários, dando durante seu processo de planejamento e implementação. Atributos são qualidades e
continuidade à atenção (ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, características inerentes àquilo a que se referem. Os atributos essenciais das RAS são:
entre outros), mesmo que estejam sendo cuidados também em outros pontos
de atenção da rede. • População e territórios definidos;

Essa posição estratégica da APS no fluxo da atenção à saúde do usuário, objetiva • Extensa gama de estabelecimentos de saúde prestando diferentes ser-
potencializar a garantia da integralidade, continuidade, eficiência e eficácia do sistema viços;
de saúde. A figura a seguir ilustra bem a APS como centro de comunicação da RAS.
• APS como primeiro nível de atenção;
• Serviços especializados;
• Mecanismos de coordenação, continuidade do cuidado e assistência inte-
Alta gral fornecidos de forma continuada;
complexidad • Atenção à saúde centrada no indivíduo, na família e nas comunidades,
e
Média levando em consideração as particularidades de cada um;
complexidad • Integração entre os diferentes entes federativos a fim de atingir um pro-
e
Atenção pósito comum;
básica
• Ampla participação social;
• Gestão integrada dos sistemas de apoio administrativo, clínico e logístico;

1. Planejar e organizar as ações segundo as necessidades de saúde de uma • Recursos suficientes;


população específica: as ações, serviços e programações em saúde devem basear- • Sistema de informação integrado;
se no diagnóstico da população adscrita à equipe de saúde, considerando fatores
e determinantes da saúde desta população. Na prática, tem se nas condições • Ação intersetorial;
crônicas de doença. Além disso, a ação das equipes deve ser embasada em
• Financiamento tripartite e;
evidências científicas devidamente constatadas.
• Gestão baseada em resultados.

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MÓDULO VI Gerenciamento do Cuidado Texto de Apoio Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado

Na prática, a constituição da RAS é essencial, pois contribuirá para alcance dos f) Lista de espera: tecnologia que estabelece o ordenamento dos usuários dos
princípios e diretrizes do SUS. serviços em determinados pontos de atenção à saúde, partindo de critérios claros
de necessidades e riscos, de modo a garantir a transparência deste processo nos
As RAS devem ser organizadas localmente por meio de um processo de sistemas de saúde. Listas de espera longas e demoradas indicam uma disparidade
planejamento que considere a realidade e os determinantes de saúde específicos de entre oferta e demanda por serviços de saúde, e hoje constituem um grande
um território sanitário e das pessoas que nele vivem. Ainda, devem estar associados obstáculo a ser superado pelo SUS.
o uso de critérios gerenciais e eficiência econômica, com vistas a soluções integradas
de atenção à saúde. Estas ferramentas possibilitarão não só a integração dos pontos de atenção,
mas também permitirão uma reestruturação dos processos e trabalhos em equipe
Partindo do ponto de vista da prática, onde os profissionais de saúde têm maior multiprofissional, com vistas à melhoria das ações interdisciplinares. Tal avanço
responsabilidade, são necessárias ferramentas capazes de assegurar padrões clínicos nas práticas de saúde é necessário para o alcance dos objetivos esperados com a
ótimos; diminuição de riscos para os usuários e profissionais; aumento da eficiência; reestruturação do SUS segundo a lógica de redes. O uso de ferramentas qualificadas
prestação de serviços efetivos e melhoria na qualidade da atenção à saúde. Existem permitirá a adequada implantação e funcionamento das RAS em nível local.
possibilidades com grande potencial, e a seguir estão apresentadas 6 importantes
ferramentas para implantação das RAS:
A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NAS REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE
a) Diretrizes clínicas: recomendações desenvolvidas de modo sistemático,
baseadas em evidências, que orientam decisões dos profissionais de saúde em Para que as RAS sejam efetivas, eficientes e de qualidade, deve-se ter, antes de
um caso clínico, envolvendo ações de prevenção, promoção e assistência. São tudo, uma APS bem estruturada. Esta afirmação considera que, quando os atributos
conhecidas como protocolos ou linhas-guia. Viabilizam a comunicação entre as da APS estão plenamente desenvolvidos, obtêm-se melhores resultados econômicos
equipes e serviços, e orientam as Linhas de Cuidado. Exemplo: diretriz clínica e sanitários em termos de eficácia, continuidade e integralidade na atenção à saúde.
para diagnóstico/ tratamento da fibrose cística. A APS deve ser estruturada de modo a propiciar o cumprimento de suas funções
centrais de acolher, escutar e dar vazão às demandas existentes. Considerando
b) Linhas de Cuidado: forma de articulação de recursos e práticas de saúde
o contexto de reestruturação do sistema de saúde segundo formato de redes de
entre as unidades de atenção de uma região (primária, secundária ou terciária),
atenção, há outras funções prioritárias da APS, as quais contribuirão para o adequado
com acolhimento e condução dos usuários pelas possíveis vias de diagnóstico
funcionamento da RAS. São elas:
e tratamento dentro da rede de saúde. Exemplo: linha de cuidado do parto e
puerpério; linha de cuidado do diabetes e hipertensão arterial; linha de cuidado a) Ser a base: a modalidade primária de atenção deve estar presente nos estados
da obesidade. e municípios de modo mais descentralizado e distribuído possível;
c) Gestão da condição de saúde: processo que envolve a superação do modelo de b) Ser resolutiva: deve ser capaz de gerar diagnóstico sanitário e situacional da
atenção focado no indivíduo, utilizando procedimentos curativos e reabilitadores, população que vive no território sob sua responsabilidade, considerando riscos,
para uma abordagem baseada na população local, que identifica indivíduos em necessidades e demandas de saúde. Para tanto, deve utilizar diferentes tecnologias
risco e tem foco na promoção da saúde e/ou na ação preventiva, com intervenção de cuidado individual e coletivo, por meio de uma clínica ampliada capaz de
precoce a fim de alcançar resultados satisfatórios com custos reduzidos. construir vínculos positivos e intervenções clínica e sanitariamente efetivas;

d) Gestão de caso: processo que se desenvolve entre o profissional de saúde e c) Coordenar o cuidado: a APS deve atuar como centro de comunicação entre os
o usuário, visando ao planejamento, monitoramento e avaliação das ações e diversos pontos e níveis de atenção, acompanhando e organizando o fluxo dos
serviços de saúde, de acordo com as necessidades do indivíduo. É o plano de usuários, com o objetivo de produzir gestão compartilhada da atenção integral
cuidado que será posto em prática pelo profissional de saúde para responder à por meio da apropriação de ferramentas de micro gestão do cuidado. Além
demanda de saúde do usuário. disso, deve articular também outras estruturas, como os sistemas logísticos e
de apoio, relações intersetoriais e participação social da comunidade.
e) Auditoria clínica: análise crítica e sistemática da qualidade da atenção à
saúde. Não pode ser confundida com a auditoria realizada pelo Sistema Nacional d) Ordenar as redes: a APS deve organizar as necessidades sanitárias da
de Auditoria (SNA). Tem como foco os usuários dos serviços de saúde, em um população sob sua responsabilidade em relação ao acesso aos outros pontos de
atenção, contribuindo para que a programação dos serviços a serem ofertados
contexto favorável à melhoria da eficácia clínica, objetivando maximizar os
efetivamente seja baseada na real demanda de saúde da população.
resultados clínicos. Por exemplo: quando o gerente recém nomeado em um
centro de saúde quer conhecer e melhorar os serviços da Pediatria, ele pode É por meio de uma APS bem estruturada que o usuário é adequadamente inserido
reter – por amostragem ou não - certa quantidade de prontuários clínicos para em uma rede de atenção, o que ocorre pela utilização da adscrição da clientela.
analisar os procedimentos que foram realizados pela equipe e como foram No caso da APS – tradicional ou Saúde da Família - a equipe de saúde tem sob sua
registrados os dados em prontuário. responsabilidade um conjunto de famílias que vivem em um determinado território.

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MÓDULO VI Gerenciamento do Cuidado Texto de Apoio Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado

A partir do diagnóstico de saúde e de vida dessa clientela adscrita, as ações uma atenção resolutiva. Quando necessário, deve ser oferecido encaminhamento
são planejadas e executadas, e os indivíduos são assistidos. De acordo com suas seguro por meio da articulação com outros pontos e serviços de atenção à saúde.
necessidades, as pessoas podem ser atendidas em diferentes serviços e rotinas, e
este processo é comumente chamado de “referência”. Uma vez atendido em outros A relação do vínculo diz respeito à ligação entre usuário e o profissional/equipe
serviços e estabelecimentos de saúde, deve-se contrarreferenciar o usuário para a de saúde, que deve ser construída desde o primeiro contato do indivíduo com o
APS para continuidade do tratamento. Ou seja, cabe também à APS dar continuidade serviço de saúde, por meio de uma interação inicial que gere confiança e empatia.
longitudinal à atenção ao paciente. Portanto, a APS tem como função coordenar e O vínculo, quando criado, possibilita uma melhor percepção da corresponsabilização
integrar os fluxos e contrafluxos dos usuários, produtos e informações, entre todos pela saúde e do acompanhamento dos processos que ocorrem na rede de atenção,
os pontos de atenção à saúde, tornando-se, assim, o centro de comunicação das RAS. tanto por parte do usuário quanto por parte do profissional/equipe de saúde.

Neste contexto, a APS representa o início (porta de entrada preferencial), meio Cabe salientar que todas as ações da equipe de saúde devem buscar a
(referência) e o fim (longitudinalidade) da atenção à saúde da população. É por integralidade da atenção, de modo a superar a assistência fragmentada gerada pelo
este motivo que se tem discutido tanto a valorização e qualificação da APS e tem-se modelo de atenção verticalizado. É essencial uma abordagem integral ao usuário,
defendido seu lugar de coordenação das redes de atenção. que o compreenda como ser humano em suas diferentes dimensões: biológicas,
psicológicas, econômicas, sociais e culturais, em todos os pontos de atenção
Neste contexto, torna-se essencial que as equipes primárias de saúde estejam necessários para dar vazão às suas necessidades de saúde.
organizadas e operando da melhor forma possível. Isto significa que, para haver a
real substituição do modelo de saúde hegemônico (hospitalocêntrico, hierarquizado Desta forma, será mais provável que as ações empreendidas sejam de fato
e fragmentado) pelo modelo de redes integradas de saúde, é imprescindível – entre resolutivas. A questão da resolutividade diz respeito à capacidade das equipes
outros aspectos - a organização dos processos de trabalho, de modo que a atenção de simplificar o serviço ao mesmo tempo em que devem agilizar os processos de
passe a ser integral, multiprofissional e interdisciplinar. atenção, a fim de alcançar resultados de modo eficaz e eficiente, com o melhor
custo-benefício tanto para o usuário quanto para o próprio sistema, sem, contudo,
As equipes de saúde no Brasil ainda estão moldadas segundo o modelo abrir mão da qualidade do serviço.
hegemônico. Ou seja, ainda têm como base práticas fragmentadas, hierarquizadas,
individualizadas, superespecializadas, medicalizadoras e médico-centradas, que Por fim, é essencial promover a responsabilização pela saúde da população e/ ou
necessitam de urgentes mudanças estruturais. Tais alterações nos modos de produzir indivíduo atendido. No contexto do processo de cuidado, é obrigação comum a todos
saúde tendem a minimizar a fragmentação da atenção, promover a continuidade do os atores envolvidos. Os diferentes profissionais e a equipe na qual se inserem devem
cuidado, a integralidade da atenção e até a aumentar a eficiência na utilização de compreender a importância de sua responsabilidade pelo cuidado integral do usuário,
recursos que são objetivos precípuos de um sistema em redes integradas. assumindo-a durante as etapas da linha de cuidado e nos diversos pontos de atenção.
Por outro lado, também se deve incentivar a autonomia e a corresponsabilização por
A reorganização das práticas de saúde como preceito para que as equipes
parte da população e/ou do indivíduo cuidado, a fim de potencializar os resultados e
possam coordenar o cuidado nas RAS deve ser estimulado em nível local, de modo
ampliar a capacidade de autocuidado à saúde.
que ela seja capaz de acompanhar o usuário durante todo o fluxo dentro do sistema
de saúde até que a demanda de saúde seja sanada.
LINHAS DE CUIDADO
Assim, é necessário que os profissionais de saúde estejam aptos a adotarem,
individualmente e em conjunto, práticas diferentes do modelo biomédico hegemônico
e que sejam fundamentadas nas diretrizes da APS e das RAS. O estabelecimento da APS As Linhas de Cuidado, Projetos Terapêuticos e Diretrizes Clínicas são estratégias
como centro de comunicação das redes de atenção requer profissionais tecnicamente de organização da ação e serviços que compõem as RAS, e concretizam as ferramentas
competentes, comprometidos, em quantitativo suficientes e capazes de organizarem de micro gestão e qualificação da atenção à saúde.
seus processos de trabalho em equipe, de forma que promovam a territorialização,
adscrição da clientela, o acolhimento, o vínculo, a responsabilização, a integralidade O QUE É UMA LINHA DE CUIDADO?
e a resolutividade da atenção.
As práticas de saúde devem estar centradas nas necessidades do usuário e em As Linhas de Cuidado (LC) integram as RAS. Uma RAS pode possuir uma ou várias
seu cuidado, e não mais em procedimentos e especificidades profissionais. A presença LC, dependendo de uma série de fatores, como disponibilidade de profissionais,
de profissionais com diferentes formações, que se articulam e compartilham ações e recursos materiais e orçamentários, etc.
desenvolvem processos interdisciplinares, colabora para a ampliação da capacidade Muitos consideram as LC como redes de atenção independentes, no entanto, é
de cuidado de toda a equipe, facilitando a gestão do cuidado integral do usuário e a importante que você as compreenda como sendo estruturas funcionais que perpassam
coordenação das RAS. de forma transversal uma ou mais RAS. Segundo Franco & Franco, Linha de Cuidado
O acolhimento, uma ação de responsabilidade das equipes da APS, deve estar é: “... a imagem pensada para expressar os fluxos assistenciais seguros e garantidos
presente em todas as relações do usuário com a equipe de saúde, constituindo-se ao usuário, no sentido de atender às suas necessidades de saúde. É como se ela
uma das práticas das relações de cuidado. Assim, o acolhimento deve ocorrer desde desenhasse o itinerário que o usuário faz por dentro de uma rede de saúde incluindo
a chegada e recepção do usuário na Unidade de Saúde, cabendo à equipe atendê-lo segmentos não necessariamente inseridos no sistema de saúde, mas que participam
bem, ouvi-lo de forma qualificada, compreendendo sua necessidade e assegurando de alguma forma da rede, tal como entidades comunitárias e de assistência social”.

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MÓDULO VI Gerenciamento do Cuidado Texto de Apoio Redes de Atenção à Saúde no SUS e Linhas de Cuidado

Considerando a LC infantil, por exemplo, ela perpassa todas as RAS existentes Vamos analisar esta figura considerando a rede de atenção à saúde materno-
e cada uma delas deverá conter procedimentos e ações que consigam atender às infantil de Minas Gerais, na qual estão presentes as LC de pré-natal e LC do parto
necessidades específicas de cuidado das crianças, seja em termos de nascimento, e puerpério.
aspectos psicológicos ou de urgência ou emergência. Agora, considerando apenas
uma das RAS, tem-se que, além da LC infantil, ela também poderá ser composta Como exemplo, tomemos uma situação hipotética da Linha de Cuidado Materno-
por outra LC. No caso da Rede Cegonha, por exemplo, há a LC do parto e puerpério. infantil. Para esta LC, podem existir vários pontos de atenção: a UBS para o pré-
Assim, é possível uma RAS ter mais de uma LC, e uma LC perpassar mais de natal, a maternidade para um parto sem complicações, a maternidade de alto risco
uma RAS. Em outras palavras, a partir de determinada rede de atenção, várias para uma gestação complicada. Em cada ponto de atenção do fluxo será elaborado
linhas de cuidado podem ser mapeadas de acordo com a necessidade do usuário um projeto terapêutico diferenciado, tendo como base diretrizes clínicas.
e, posteriormente, definidas as linhas de cuidado que serão prioritariamente
organizadas. Além disso, elas poderão estar presentes, transversalmente, em Por exemplo: a equipe do centro obstétrico que fará o parto do recém-nascido
outras redes de atenção. adotará um projeto terapêutico de acordo com as condições da mãe e do bebê, com
base na Diretriz Nacional do Parto. Se o bebê for prematuro, o projeto terapêutico
Portanto, a LC requer multi e interdisciplinaridade e é composta por um será um; se o bebê estiver a termo, será adotado outro projeto terapêutico.
conjunto de fluxos interligados e contínuos que facilitam o encontro do usuário
com os profissionais e ações mais aptas a atenderem suas necessidades, mesmo que Após o nascimento do bebê, já em um leito na maternidade (clínica), o fluxo na
para este fim instituições não governamentais, religiosas ou filantrópicas tenham LC progride, e chegamos até o leito clínico da maternidade. A equipe da maternidade
que ser acionadas. adotará um determinado projeto terapêutico para o recém-nascido se ele for
prematuro, e outro projeto terapêutico se ele for a termo, mas sempre baseada
A ORGANIZAÇÃO DAS LINHAS DE CUIDADO na fictícia Diretriz Nacional de Cuidados do Recém-Nascido. E assim o bebê será
acompanhado conforme se avança nesta LC.
As LC devem ser organizadas de acordo com as necessidades de saúde do usuário. Como se pode observar, o usuário é o componente central na estruturação de
Em termos de atenção, as equipes de saúde dos diversos níveis de atenção são as
todo o processo de produção de cuidado à saúde. Além de todos os profissionais
responsáveis pelo cumprimento das LC. Ou seja, cabe às equipes estruturar seus
envolvidos necessitarem trabalhar em equipe de forma integrada, a equipe da UBS
modos de oferecer atenção à saúde da população adscrita, por meio da elaboração
coletiva e interdisciplinar de projetos terapêuticos. Projetos terapêuticos7 podem deve ser definida como a gestora do projeto terapêutico, já que é responsável por
ser definidos como o conjunto de ações escolhidas por uma determinada equipe de dar continuidade aos cuidados. Assim, a equipe multiprofissional da atenção primária
saúde para sanar uma demanda de saúde específica de um usuário. Eles costumam deverá garantir a entrada do usuário nos outros pontos de atenção e manter o vínculo
ter início na atenção primária, por ser a principal porta de entrada do sistema de com ele para acompanhá-lo em todo o processo.
saúde, e em seguida incluem outros pontos de atenção. A figura a seguir ilustra a Desta forma, a necessidade de cada usuário é colocada como responsabilidade
estrutura de uma linha de cuidado. de toda a equipe (e até mesmo de outros pontos de atenção), o que possibilita
superar a fragmentação do atendimento e prezar pela integralidade do cuidado.

REFERÊNCIAS
Ministério da Saúde - Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição (CGAN);
Organização Panamericana da Saúde (OPAS); Observatório de Políticas de Segurança
Alimentar e Nutrição (OPSAN) Universidade de Brasília (UnB). Redes de Atenção de
Saúde no SUS. Belo Horizonte, 2012.

7
O projeto terapêutico é um componente estratégico de uma linha de cuidado. É
por meio dele que, em cada estágio da linha de cuidado, o cuidado e a atenção à
saúde do usuário efetivamente ocorrem, uma vez que deve englobar as ações clínicas
integradas de múltiplos profissionais. A definição de um determinado projeto tera-
pêutico considera as recomendações de uma determinada diretriz clínica. Por ser
uma recomendação, a diretriz clínica pode ou não ser seguida, a depender do caso.
Logo, tem-se que a diretriz clínica é a referência que guiará a definição do projeto
terapêutico singular de um paciente.

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Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo VI (Plenária)
GERENCIAMENTO DO CUIDADO - REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE (RAS) E LINHAS DE CUIDADO

Aluno(a):..........................................................................................
1. Redes de Atenção à Saúde – Aspectos similares entre a síntese do grupo e o texto
de apoio

2. Redes de Atenção à Saúde – Aspectos divergentes entre a síntese do grupo e o


texto de apoio.
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GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Módulo VI
Atividade 1 ( Atividade Grupal)
GERENCIAMENTO DO CUIDADO - REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE (RAS) E LINHAS DE CUIDADO

Para finalizarmos para essa aula proponho conversarmos sobre “Os outonos de D.
Maria”. Temos utilizado esse material para o treinamento das diferentes equipes
de atenção básica no Estado de São Paulo.
D. Maria é uma idosa que possivelmente identificamos em nosso ambiente de trabalho
diariamente. Vamos contar sua trajetória nos últimos quatros anos (os outonos),
compreender o que estava ocorrendo com ela e discutir o acompanhamento de
saúde que obteve pensando na “linha de cuidado” que poderia ter sido adotada
com ela. Para isso sugiro que:
1. Inicialmente, nos dividamos em quatro grupos, sendo cada grupo responsável
pela discussão de uma cena. Vamos buscar identificar o que ocorre em cada
cena, lembrando-se de nossas discussões em sala de aula. (atividade 1)
2. Em plenária, Cada grupo fará uma síntese e uma análise crítica da cena sob
sua responsabilidade. Ao final, teremos construído a “linha de cuidado” de D
Maria, a que ela vivenciou e a que propomos. (atividade 2)
OS OUTONOS DE D. MARIA geriátrica - GDS), incontinência urinária e episódios de tontura. Referiu duas quedas
em casa no último mês, sem gravidade (fraturas ou necessidade de atendimento
médico). O clínico Dr. Antonio, a Joana e a Fátima, assistente social da unidade, se
CENA 1 preocuparam bastante com o processo de fragilização de Dona Maria. Sua pressão e
glicemia estavam discretamente alteradas e foi ajustada a dose dos medicamentos.
Dona Maria, 77 anos, passa mais um outono na cidade de Renascer, uma cidade
D Maria se queixou que sua dentadura estava um pouco folgada e machucando sua
de médio porte com cerca de 100 mil habitantes, no Estado de São Paulo. Acabou de
gengiva. Isso fez com que ela mudasse sua dieta (reduziu carnes, verduras cruas e
voltar da UBS Memórias da Serra, perto de sua casa, onde recebeu a vacina contra a
frutas). Ao ser indagada sobre sua dieta, Dona Maria informou que agora que o neto
gripe. Dona Maria segue então pra casa onde prepara o almoço, como faz diariamente,
trabalha de dia e estuda à noite não sente muita vontade de preparar refeições
que compartilhará com seu neto que está morando com ela, agora que estuda na
completas e que é mais prático comprar alguma coisa na padaria além disso, por
cidade. Depois do almoço vai ao grupo de oração onde encontra suas amigas para
causa da incontinência, diminuiu a quantidade de água consumida, afinal, não tem
lerem, rezarem e também “jogar um pouco de conversa fora”, por que não? “O mundo
tanta sede.
está mudando tão rápido e sempre temos um assunto polêmico para discutir, amigos
que se foram ou adoeceram etc. É muito triste envelhecer e ser um peso para os Foi encaminhada para atendimento na urologia e para os serviços de saúde bucal
outros e também é muito difícil ver o mundo mudar tanto!”. Dona Maria volta para e saúde mental. Foi feita uma orientação sobre a dieta pelo médico, que entregou
casa andando os cinco quarteirões que a separam da sua casa lembrando quando fazia um folheto sobre alimentação saudável na velhice e outro para diabéticos. Agendou-
isso com o Seu João, seu companheiro, falecido há dois anos de um infarto súbito. “Ele se ainda a visita da equipe da Estratégia de Saúde da Família para uma orientação
enxergava melhor e a ajudava a desviar dos buracos da rua”- Hoje tem muito medo de no domicílio com a presença do neto e da filha que viria visitá-la no próximo fim de
cair... Prepara um lanche (Chá com bolacha de água e sal), já que seu neto não voltará semana. A equipe de saúde da família havia sido implantada naquele bairro naquele
para o jantar. Cozinhar só para uma pessoa dá muito trabalho. Vai dormir em seguida, mês e agora poderia acompanhá-la mais de perto. Dr. Antonio avisa, no entanto,
pois no dia seguinte precisa acordar cedo, pois é dia de fazer atividades físicas no que se ela começar a vir na unidade toda hora deveriam conseguir uma vaga num
parque com o grupo do Centro de Convivência das pessoas idosas e ela “não pode serviço mais especializado em “cuidar de velhos”. Dona Maria ficou assustada. Esse
perder por nada desse mundo”! Já preparou inclusive o lanche que vai levar para todos outono estava começando muito complicado. Acharam um monte de problemas com
(pão de forma, queijo e salame). Pouco antes de deitar, Dona Maria sentiu fortes dores ela e ela se sentia muito sozinha para lidar com tudo isso. “Está difícil lembrar tudo
de cabeça e vomitou. Ligou para seu vizinho e pediu que a levasse ao Pronto Socorro o que os profissionais da UBS falam”. De qualquer forma, a equipe da UBS ajudou-a
da cidade onde ficou muito tempo esperando para ser atendida, pois “tinham muitos a decidir uma coisa: “mesmo com dificuldade”, não iria abandonar suas atividades e
casos mais graves na sua frente” e tarde da madrugada ainda ouviu: “sobrou aquela ainda ia se esforçar para estar mais presente nos grupos que a UBS realizava: idosos,
velha sem sono para atender na sala de espera!”. “Coitados” pensou ela, “estão todos hipertensão, diabetes e oficinas de atividades físicas orientadas aos idosos do “Agita
cansados!” Sua pressão estava alta. Foi medicada e, quando a pressão normalizou, foi Renascer”, mas está ficando difícil ir tantas vezes ao serviço. Não conseguiu marcar
liberada. Ninguém perguntou se já tomava remédio para a pressão e ficou sem saber o urologista. A perda de urina a envergonha e por isso antes de sair de casa e à noite,
se era para tomar a medicação normalmente no dia seguinte. Assim resolveu não ir evita tomar líquidos.
ao parque e foi à UBS para medir sua pressão novamente e pedir orientação de como
proceder com os medicamentos que já vinha tomando. Mas a unidade estava muito
CENA 3
cheia, disseram que só o médico poderia ajudá-la e ela desistiu. “Se tiver dor de
cabeça tomo o remédio de novo” Um ano depois, aos 79 anos, em um domingo de sol, pela manhã, Ricardo, neto
de Dona Maria a encontra caída no quintal, desacordada. Ele chamou o resgate que
CENA 2 a levou ao PS da cidade. Ele informou que, ultimamente, ela estava saindo pouco
e que já não estava mais conseguindo cozinhar como antes e que percebeu que ela
E a vida seguia seu caminho quando no outono do ano seguinte, Dona Maria, 78 “cheirava mal”. Disse que avisou sua mãe, que o orientou a ficar mais com ela, mas
anos, foi à consulta agendada na UBS Memórias da Serra para controlar sua pressão e estudando e trabalhando estava difícil fazer isso. No PS o médico viu que sua pressão
seu Diabetes. A Joana, enfermeira da unidade, a recebeu e disse que iria preencher e glicemia estavam muito altas, estava desidratada e um pouco desnutrida. Na queda,
junto com ela uma caderneta de saúde e que ela deveria manter sempre com ela. ela fraturou o fêmur. Foi internada, operada e por causa do diabetes teve algumas
Quando Dona Maria contou que passou mal no mês anterior Joana lhe perguntou complicações infecciosas que fizeram com que sua internação durasse mais de um
como estava seu diabetes e ela disse que no PS disseram que a taxa de açúcar estava mês. Na alta, estava mais desnutrida ainda, com uma feridinha na região sacral e um
baixa e a pressão estava alta. Ao preencher a caderneta e a avaliação global da pouco confusa. Saiu com um encaminhamento para o neurologista, acompanhamento
pessoa idosa, Joana observou que Dona Maria avaliava sua saúde como regular, perdeu no ortopedista e fisioterapia. Ainda não conseguiu fazer uma dentadura nova e acha
peso (que D Maria achou normal para sua idade), sua cognição estava preservada melhor comer alimentos pastosos e sopa. Sua filha conseguiu uma transferência de
(identificada através da aplicação da escala do Mini Mental), tinha um quadro de seu serviço para Renascer para poder ficar mais próxima da mãe, que não desejava
depressão moderada (identificada através da aplicação da escala de depressão sair da cidade onde sempre viveu e conhece todo mundo. Dona Maria começou a fazer
fisioterapia no centro de referencia de reabilitação em um município vizinho onde
sua filha a leva duas vezes por semana. Mas, está cada vez mais difícil se locomover Secretaria Municipal da Saúde
e o seu neto passou na faculdade em outra cidade. Os agentes comunitários a visitam Coordenação de Gestão de Pessoas
às vezes, mas nunca recebeu visita do médico. “Ir à UBS ficou cada vez mais difícil Escola Municipal de Saúde
e eles não tem como me apoiar”. D Maria usa andador para se locomover sozinha e
precisa de ajuda para atividades como limpar a casa, cozinhar e fazer compras. Por
GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL
isso a Fátima contratou uma empregada doméstica que também ajuda D Maria nas
À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
suas atividades cotidianas, mas ela fica com muito medo dos engasgos frequentes,
Módulo VI - Atividade 2 (Plenária)
principalmente nas refeições. Além disso, D Maria tem se queixado de ficar muito
OS OUTONOS DE D. MARIA
sozinha em casa. A equipe da Estratégia de Saúde da Família a encaminhou para
acompanhamento com a nutricionista e a fonoaudióloga do NASF. Apesar desses
acompanhamentos, D Maria se engasgou com a sopa e desenvolveu uma pneumonia Aluno(a):..........................................................................................
que a levou a uma nova internação.
Após nossa discussão conjunta, vamos registrar uma síntese da Linha de Cuidado
que idealizamos coletivamente para D. Maria.
CENA 4
....................................................................................................
Fátima acompanha a mãe durante a internação e ao observá-la pensava: como ...................................................................................................
minha mãe fragilizou nos últimos anos! O que poderia ter sido feito por mim e pelos ...................................................................................................
serviços do município de Renascer para mantê-la mais tempo saudável e ativa? E ....................................................................................................
quando ela ficou mais frágil? E quando ficou mais dependente? Como poderia ter sido ....................................................................................................
a linha de cuidado de D. Maria? ....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
FALA AMENDOEIRA
....................................................................................................
“Disse a árvore para o velho: outoniza-te com paciência e doçura. ....................................................................................................
As folhas caem é certo e os cabelos também, ....................................................................................................
....................................................................................................
Mas, há alguma coisa de gracioso em tudo isso:
....................................................................................................
Parábolas, ritmos, tons suaves. ....................................................................................................
Outoniza-te com dignidade, meu velho” ....................................................................................................
Carlos Drumond de Andrade. ....................................................................................................
....................................................................................................
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....................................................................................................
MÓDULO VII
Plano de Intervenção
Territorial

ATIVIDADE 1
Esse módulo corresponde ao trabalho de conclusão de curso que deverá ser
desenvolvido por todos vocês. No primeiro momento, procuraremos conhecer
a realidade de atenção à pessoa idosa que vivenciamos diariamente em nosso
cotidiano de trabalho. Para tanto, faremos um levantamento dos idosos atendidos
em sua unidade de trabalho por três dias seguidos; preencheremos algumas questões
referentes ao atendimento da pessoa idosa e faremos o acompanhamento de dois
idosos (um homem e uma mulher) desde sua entrada na unidade até a finalização
do atendimento.. Esse material será discutido em sala de aula onde procuraremos
identificar os pontos positivos e os negativos observados. O roteiro preenchido deverá
ser entregue para o professor nesse dia.

269
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Plano de Intervenção Territorial
ROTEIRO DE IDENTIFICAÇÃO DAS ATIVIDADES RELACIONADAS À ATENÇÃO AO IDOSO
DESENVOLVIDO EM SUA UNIDADE

Aluno(a):..........................................................................................
Sua Unidade é:
( ) ESF
( ) UBS
( ) Outra ...........................................................................
(especifique)
Converse com a recepção de sua unidade para que seja feito, por 3 dias seguidos, o
registro dos idosos que procuram atendimento na unidade. Nesse registro coloque
idade da pessoa (60 anos e mais), sexo, motivo da procura (agendamento ou
procura espontânea), desfecho (foi atendido no dia, foi agendado para outro dia,
foi encaminhado para outro serviço). Para facilitar vou colocar uma folha em anexo
específica para esse registro. Não é necessário colocar o nome do idoso. Nesse
momento só queremos saber quantos são e porque eles procuram a unidade.
Na sua Unidade há um ou mais programas específicos de atenção aos idosos?
( ) sim
( ) não
Se sim, descreva-o (s) a seguir (atividades desenvolvidas, frequência com que
ocorre, número médio de participantes, como são convidados a entrar, profissionais
envolvidos no programa):
....................................................................................................
...................................................................................................
...................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
Descreva como é feito o agendamento do idoso em sua unidade e o tempo médio Na sua unidade, enquanto os idosos estão esperando pelo atendimento, é
de espera entre o agendamento e o atendimento propriamente dito. Por exemplo, desenvolvido algum trabalho ou atividade específica com os mesmos?
agendamento para consulta é feito no início do mês, todo dia 01. Encaixes só de
urgência. ( ) sim ( ) não

.................................................................................................... Se sim, descreva o que costuma ser feito e quais os profissionais envolvidos.
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.................................................................................................... Na sua unidade, após ser atendido, caso o(a) idoso(a) receba algum encaminhamento
.................................................................................................... (consulta com especialista, exames específicos, etc), o que acontece em seguida?
....................................................................................................
.................................................................................................... ( ) o idoso é orientado pós atendimento sobre o que deverá fazer mas o agendamento
.................................................................................................... é responsabilidade dele ou de seus familiares

Descreva quais os atendimentos específicos da enfermagem relacionados às ( ) o idoso é orientado pós atendimento sobre o que deverá fazer e também é feito
pessoas idosas (por exemplo: pré consulta, pós consulta, vacinas, distribuição o agendamento
de medicamentos, etc). Descreva, também, se receberam alguma orientação
( ) não é feito nada específico
ou treinamento específico (relativo aos idosos) para o desenvolvimento dessas
atividades. Se o idoso receber algum tipo de orientação, como e por quem é feita?
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.................................................................................................... O que é feito quando o(a) idoso(a) falta a uma consulta agendada?
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.................................................................................................... Quantos idosos você costuma atender em um dia comum de trabalho e o que
.................................................................................................... costuma fazer?
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Agora, como atividade final, você vai escolher duas pessoas idosas atendidas em PARA OS IDOSOS AGENDADOS E ATENDIDOS:
sua unidade (um homem e uma mulher), preferencialmente em dias separados
e vai acompanhar o atendimento recebido desde a hora que ele(a) entrar na 6. Quanto tempo o(a) idoso(a) aguardou entre sua chegada à Unidade e o
unidade até a hora em que sair. Você não pode interferir; só ver o que acontece e atendimento/consulta agendada?
descrever. (hora que chegou, tempo que esperou na recepção, o que queria, como
foi atendido, tempo que esperou para o atendimento que veio procurar, onde foi 7. Quanto tempo demorou o atendimento/consulta?
após ser atendido, por quantas pessoas diferentes passou, recebeu orientação após
atendimento). 8. Além do atendimento/consulta agendada, o(a) idoso(a) foi atendido(a) por outro
profissional? Se sim, qual (ais)? Para que? Quanto tempo levou
Para facilitar, colocaremos um roteiro a seguir, mas você poderá anotar outras
coisas que observar e que podem não estar contidas no roteiro. 9. No final do atendimento/consulta, o idoso saiu com alguma prescrição de
medicamentos? Se sim, ele conseguiu pegar os medicamentos na unidade (todos os
ROTEIRO só alguns)? Caso ele tenha recebido medicamentos, foi realizada alguma orientação
específica ou ele(a) apenas recebeu s medicamentos?
1. O (a) idoso(a) chegou à Unidade para ser atendido, pois tinha consulta/
atendimento agendado ou por procura espontânea? 10. Na sua opinião, o(a) idoso(a) ficou satisfeito com o atendimento recebido?
Justifique
2. Quem foi o primeiro profissional a quem o(a) idoso(a) se dirigiu ao chegar na
unidade? 11. No total, quanto tempo o(a) idoso(a) permaneceu na Unidade (da hora que
3. Como foi o atendimento? Quanto tempo demorou? chegou à hora que saiu)

4. Se o idoso veio à Unidade por procura espontânea (sem estar agendado) o que 12. Como você qualificaria o atendimento recebido pelo(a) idoso(a):
ocorreu em seguida? Ele foi “encaixado” e recebeu o atendimento solicitado, foi
encaminhado a outro serviço ou foi simplesmente dispensado? ( ) Muito bom

5. Caso ele tenha sido encaminhado a outro serviço, como foi feito esse ( ) Bom
encaminhamento? (por formulário, por telefone, por orientação verbal etc). Na sua ( ) Regular
opinião, o(a) idoso(a) compreendeu por que foi encaminhado? E, na sua opinião,
o(a) idoso(a) ficou satisfeito com o encaminhamento e com a orientação recebida? ( ) Ruim
Justifique e complete com suas sugestões.
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PARA OS QUE FOREM PREENCHER EM ATENDIMENTO DOMICILIAR. Descreva o atendimento de um idoso em sua unidade desde o momento de sua
chegada até o final do atendimento.
1. O Atendimento Domiciliar (AD) estava agendado?
IDOSO 1 (HOMEM)
2. Como foi feito o agendamento?
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3. Quem fez parte do AD (médico, enfermeira, auxiliar, agente comunitário etc)
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4. Descreva como foi o atendimento. Que horas chegaram na residência, quem os ...................................................................................................
recebeu, quanto tempo demorou o atendimento, o que foi feito? ....................................................................................................
....................................................................................................
5. Ao final do atendimento, foram feitas orientações? Se sim, de quem para
quem? Na sua opinião o(a) idoso(a) e/ou seu(ua) cuidador(ora) compreenderam as ....................................................................................................
orientações fornecidas? ....................................................................................................
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6. Ao finalizarem o atendimento outro ficou agendado? ....................................................................................................
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7. Qual a frequência de ADs a esse(a) idoso(a)?
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8. Na sua opinião, o(a) idoso(a) está satisfeito(a) com o atendimento/ ....................................................................................................
acompanhamento recebido pelo AD? ....................................................................................................
....................................................................................................
9. Como você qualificaria o atendimento recebido pelo(a) idoso(a):
....................................................................................................
( ) Muito bom
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( ) Bom ....................................................................................................
( ) Regular ....................................................................................................
( ) Ruim ....................................................................................................
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Justifique e complete com suas sugestões.
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Descreva o atendimento de uma idosa em sua unidade desde o momento de sua PANORAMA DOS IDOSOS QUE PROCURAM ATENDIMENTO NA UNIDADE DE SAÚDE
chegada até o final do atendimento.
PREENCHER TRÊS DIAS SEGUIDOS

IDOSO 2 (MULHER)
SEXO MOTIVO DA PRO- DESFECHO (O QUE FOI FEI-
.................................................................................................... CURA TO)

foi encaminhado para


...................................................................................................

procura espontânea

Foi atendido no dia

foi agendado para


estava agendado
IDADE

outro serviço
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Masculino
DIA

Feminino

outro dia
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PLANO DE INTERVENÇÃO TERRITORIAL

DISCUSSÃO SOBRE O TRABALHO DESENVOLVIDO NAS UNIDADES

Esse módulo corresponde ao trabalho de conclusão de curso que deverá ser


desenvolvido por todos vocês. No primeiro momento, procuramos conhecer a
realidade de atenção à pessoa idosa que é vivenciada diariamente em seu cotidiano
de trabalho. Foi feito um levantamento de dados que discutiremos a seguir tentando
identificar os pontos positivos e os negativos observados.
Para o desenvolvimento dessa aula, proponho a seguinte dinâmica:
14. Inicialmente, reunir em pequenos grupos (no máximo 5 pessoas/grupo de
unidades diferentes) onde o roteiro preenchido por cada aluno será apresentado
ao grupo e, em seguida, será feito um relatório sobre os pontos similares
encontrados. Também deverão ser identificados os pontos positivos e negativos
identificados que, deverão ser igualmente agrupados (atividade1).
15. Em plenária, conversar sobre a atividade 1 e, identificar com a classe, as
similaridades e divergências encontradas em relação aos pontos positivos e
negativos identificados. Fazer uma listagem para cada conjunto (uma para pontos
positivos e outra para pontos negativos). Ordenar a listagem relativa a pontos
positivos dos mais importantes (com maior impacto na assistência) aos menos
expressivos. Fazer o mesmo em relação aos pontos negativos só que, para esses
a ordenação deverá seguir a ordem de necessidade de intervenção (primeiro os
pontos que precisam ser mais urgentemente corrigidos). Ao final, teremos uma
listagem de intervenções a que poderão ser desenvolvidas. (atividade 2)
16. No terceiro momento, cada aluno deverá escolher um dos pontos identificados (o
que parece ser mais importante para sua unidade de trabalho) e, desenvolver
um plano de intervenção relativo ao mesmo que deverá ser apresentado e
entregue como trabalho de conclusão de curso. (atividade 3)
17. Atividade não presencial – Elaborar o primeiro esboço de seu plano de intervenção
seguindo o roteiro.
Secretaria Municipal da Saúde
Coordenação de Gestão de Pessoas
Escola Municipal de Saúde

GERENCIAMENTO DE CUIDADOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL


À SAÚDE DA PESSOA IDOSA
Plano de Intervenção Territorial
Atividade 1 - (a ser preenchida em grupos de 5 alunos)
IDENTIFICAÇÃO DAS ATIVIDADES RELACIONADAS À ATENÇÃO
AO IDOSO DESENVOLVIDAS NA REGIÃO

Aluno(a):..........................................................................................
1. Número e tipo de unidade (ESF, UBS, AD, outras especifique):

....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................
....................................................................................................

2. Caracterização dos idosos atendidos. Inicialmente, fechar a planilha de cada


unidade e, em seguida, fazer uma única planilha por grupo.

UNIDADE 1:

a) Número de idosos atendidos/dia e total dos três dias:

....................................................................................................

b) Número de homens idosos atendidos = ..................................................

c) Número de mulheres idosas atendidas = ................................................

d) Número de idosos atendidos por agendamento = .....................................

e) Número de idosos atendidos por procura espontânea = ..............................

f) Número de idosos atendidos da procura espontânea que foram atendidos =


....................................................................................................

g) Número de idosos atendidos da procura espontânea que foram dispensados =


....................................................................................................

h) Número de idosos atendidos da procura espontânea que foram encaminhados


para outras unidades = ...........