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03 Dorival Vitor Lopes
A SOMBRA E A LUZ DE
Editor Executivo:
NOSSAS MÁSCARAS Alex Alprim
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Revisão:
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09
O CAMINHO DO VIR A SER Produtor Gráfico:
Ailton Alipio
(ailton@mythoseditora.com.br)

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22
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SEGUNDO CARL GUSTAV
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Revista de Psicologia — Especial

3
Revista de Psicologia — Especial

A
A SOMBRA E A LUZ DE NOSSAS

MÁSCARAS
Na psicoterapia com uso de más-
caras, com influência junguiana,
o protagonista reconhece a sua
persona, atuada nos papéis sociais
muitas vezes cristalizados. A más-
cara possibilita ao sujeito a cons-
cientização de sua identidade atra-
vés do jogo de seus papéis sociais.
O paciente obtém também a cons-
ciência da sua sombra, refletida na
criação de seu personagem con-
servado, e percebe que a repete em
vários momentos de sua vida — e
que quanto mais a esconde, mais
sofrimento gera para si mesmo

O
homem incorpora máscaras para
sobreviver socialmente. As más-
caras se configuram a partir das
instituições de nossa cultura — que mui-
tas vezes o desencorajam a desempe-
nhar certas nuances dos papéis sociais.
Os papéis sociais são articulados a par-
tir de contextos determinados social-
mente, ou seja, do meio em que o indi-
víduo vive e da sua relação com o outro.
Diferentes papéis sociais são assumidos
pelo sujeito, se encontram muitas vezes
impedidos de serem protagonizados em
sua plenitude e em sua possibilidade
criativa, tendo como resultado uma
inadequação decorrente de uma falta de
espontaneidade e criatividade.

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Psicoterapia — A sombra e a luz de nossas máscaras

As máscaras são criadas a partir da rotula-


ção de padrões pré-determinados pela sociedade,
onde o sujeito se coloca numa condição de im-
pedimento de expressar sua verdadeira essên-
cia, criando uma espécie de barreira, ocultan-
do valores e sentimentos que a sociedade não
legitima. Muitas vezes, o homem conserva suas
ações respondendo de maneira mecanizada ao
contexto social. Estas ações conservadas, para
Zerka Moreno (2010), são geradas pela conserva
cultural que é consequência de um produto como
se fosse um momento congelado no tempo. O ho-
mem sufoca, portanto, sua capacidade criadora
tornando-se rígido, automático e impedido de se
expressar espontaneamente.
Tendo em vista que o homem cria máscaras
para sobreviver, nos atendimentos psicoterápicos
utilizo as máscaras como um objeto intermediário
que ajuda o indivíduo a entrar em contato consi-
go mesmo, num plano subjetivo. Bermudez (1970)
conceitua objeto intermediário como sendo um
elemento real e concreto com poder de atração
que facilita a comunicação. As máscaras além de
facilitar a comunicação, permitem concretizar a
sua condição de ações conservadas, despertando
sensações e sentimentos aflorados em seu mundo
interior, possibilitando a conscientização de múl-
tiplos aspectos dos papéis sociais e dos persona-
gens que o sujeito em dado momento de sua vida
muitas vezes adota e se mascara.
As máscaras que utilizo se caracterizam
como sendo de diversas cores, sem expressão, po-
dendo cobrir o rosto inteiro ou somente os olhos.
Permitem uma melhor criatividade para a elabo-
ração e criação de um personagem a que as más-
caras expressivas, com personagens já definidos.
No meu trabalho psicoterapêutico, emprego
a metodologia psicodramática criada por Jacob
Levi Moreno e dialogo com os termos persona
e sombra da psicologia analítica de Carl Gus-
tav Jung. Acrescento ainda um terceiro termo de
análise, a luz.
A metodologia psicodramática possibilita vi-
venciar o drama através da ação, revivendo qual-
quer cena temida pelo indivíduo, como base de
seus conflitos, como instrumento de ação profun-
da. A dramatização leva à resolução de conflitos
profundos psíquicos do sujeito, trata das relações
interpessoais e ideologias privadas e coletivas do
homem que, cristalizado pelas conservas cultu-
rais, se transforma a partir da recuperação da
sua espontaneidade e criatividade (Moreno, 1946,
republicado em 2009).
O termo persona, sob o ponto de vista de
Jung (1985), denota a palavra que designa a más-
“A metodologia psicodramática possibilita vivenciar cara do ator. Sob o ponto de vista psicodramático,
o drama através da ação, revivendo qualquer cena nada mais é do que a expressão dos papéis sociais
temida pelo indivíduo (...)” em relação aos quais o sujeito atua. Persona é

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Psicoterapia — A sombra e a luz de nossas máscaras

“A parte obscura é a sombra repleta de aspectos profundos e muitas vezes negativos da personalidade do indi-
víduo (...)”

uma máscara da psique coletiva que representa terapêutico com a máscara. Como um processo
um compromisso entre o indivíduo e a socieda- dialético, quando o indivíduo coloca a máscara
de, é uma aparência, a forma pela qual o indi- verifica-se imediatamente a sua sombra, ou seja,
víduo se apresenta no mundo. Indica aquilo que transmite o que quer expressar para as pessoas
ele reconhece como próprio, conscientemente, e e obscurece parte de sua imagem interior incons-
quer apresentar ao mundo, sua máscara social. cientemente. A parte obscura é a sombra repleta
Portanto, ao mesmo tempo, há algo de individual de aspectos profundos e muitas vezes negativos
indiretamente presente na escolha da persona. O da personalidade do indivíduo, que são ocultados,
ator representa a persona, que é a máscara da se encontram em estado inconsciente. Os concei-
sociedade, os arquétipos como um referencial tos de sombra e luz necessitam ser aclarados e
humano, logo, persona associa-se a personagem. acrescentados para melhor entendimento do pro-
O personagem sintetiza um momento da vida do cesso psicoterápico com a máscara. A sombra
paciente, e é criado a partir dos papéis sociais é visível num primeiro momento, como sendo o
que desempenha na vida, os quais se encontram, elemento que impede o sujeito dificultando seus
muitas vezes, “mascarados”. Por outro lado, que se movimentos existenciais. Há claramente um sofri-
encontram muitas vezes mascarados. mento do sujeito por se encontrar impedido de ex-
A máscara permite o contato com a intimi- ternar sua verdadeira essência no plano de suas
dade do paciente, sua verdadeira essência mas- relações presentes em sua vida.
carada. Com base nisso, podemos relacionar os Uma máscara que não se diz o que quer, diz
aspectos de sombra e luz presentes no processo exatamente o oposto do que se quer. Essa máscara

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Psicoterapia — A sombra e a luz de nossas máscaras

é uma forma de defesa onde o sujeito cria “mons- conservas que dificultam a vida do sujeito. A
trinhos” que encarnam diante da sociedade em condição de ser espontâneo está diretamente re-
que vive e atua. Portanto, omite sua sombra, com lacionada a uma reflexão e transformação dos
receio de ser rejeitado pela sociedade. Esta som- papéis específicos desempenhados nas diversas
bra já está presente claramente na repetição de situações da vida do sujeito, permitindo desen-
um modelo relacional cristalizado do indivíduo volver características mais flexíveis de sua per-
em várias situações de sua vida, resultando num sonalidade ao se expressar livremente.
personagem conservado que carrega dentro de si No processo psicoterápico, com o uso das
mesmo escasso de espontaneidade e de criativida- máscaras, o paciente entra em contato com a sua
de. Perazzo (2010) conceitua esta repetição de um sombra, que reflete no seu personagem interno
modelo relacional cristalizado como status nas- conservado aspectos muitas vezes negativos que
cendi transferencial. o reprime. Esse personagem nada mais é do que o
Assim, a luz pode ser caracterizada como a oposto do papel imaginário do sujeito.
expressão da espontaneidade e criatividade do sujei- Esta psicoterapia com máscaras ajuda a lo-
to, a lucidez, a autenticidade, a verdadeira essência calizar o status nascendi transferencial que o
espontânea, o verdadeiro “eu”, o estado genuíno do faz reviver os conflitos de sua vida, permitindo
ser humano. Moreno (republicado em 1984) define o que ele crie outro personagem, o oposto da som-
estado de espontaneidade como o ato de vontade do bra, protagonizando um novo papel. Os dois per-
ator, sendo voluntário e livre de influências exter- sonagens são o contraponto um do outro. Nesse
nas. A espontaneidade caracteriza-se como sendo a momento, o sujeito entra em contato com a luz
capacidade de uma rápida emergência de idéias e da máscara e se apossa das características po-
sua transformação em ação. Nesse sentido, Garrido sitivas que podem ajudá-lo a lidar melhor com a
Martín (1966) ressalta que criatividade é progresso, sua sombra. Há uma harmonia entre os aspectos
evolução, crescimento, invenção, arte e tudo o que de sombra e luz. O paciente ressignifica sua his-
suponha inovação ou desenvolvimento. tória de vida e compreende que a sua máscara
Podemos perceber que esta luz, uma possui dois lados refletidos pela sombra e luz. Os
vez obscurecida pela sombra, fica repleta de lados são concretizados em dois personagens: um

“Assim, a luz pode ser caracterizada como a expres-


são da espontaneidade e criatividade do sujeito, a
lucidez, a autenticidade (...)”

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Psicoterapia — A sombra e a luz de nossas máscaras

“Através da dramatização, o protagonista cria um novo significado para a sua vida.”

aprisionado e imaginário; outro novo e repleto de máscara resulta na ampliação da percepção do in-
criatividade e espontaneidade. divíduo quanto ao desempenho de seus papéis so-
Portanto, toda a máscara apresenta sua luz e ciais em cada momento. Concretiza personagens
sua sombra. Geralmente a sombra aparece quan- internos, espelhados na luz e na sombra de sua
do repleta de conservas e de aspectos dificultosos máscara. No processo psicoterápico o protagonista
da vida do sujeito. A luz surge como a sua face reconhece a sua persona, a sua máscara, atua-
espontânea e criativa. A sombra pode ser positiva da nos papéis sociais muitas vezes cristalizados,
quando entra em contato com a luz, a verdadeira uma máscara que esconde algo que não se reve-
essência do protagonista, ocorrendo uma harmo- la possibilita ao sujeito a conscientização de sua
nização entre as duas faces da máscara. identidade através do jogo de seus papéis sociais.
No processo psicoterápico há uma busca de O paciente obtém a consciência da sua sombra,
equilíbrio entre luz e sombra. O indivíduo aprende refletida na criação de seu personagem conserva-
a lidar com sua máscara de maneira harmônica. Es-
do, percebe que o repete em vários momentos de
ses dois aspectos não vivem separados. O processo
sua vida, quanto mais o esconde, mais sofrimento
psicoterápico com máscaras desperta o que estava
gera para si mesmo. Somente quando o paciente
ocultado pela sombra. Há uma expressão espon-
tânea do sujeito que aprende a conviver com sua ressignificou os conteúdos da sombra, cria outro
sombra e sua luz, tendo o livre arbítrio de escolher personagem interno, oposto da sombra, refletido
sua forma de expressão. A cena psicodramática pos- pela luz, repleto de espontaneidade e criatividade,
sibilita um desmascaramento social, como se fosse despido de conservas culturais. Nesse momento
um momento iluminado decorrente do contato do se apodera da luz, sua expressão genuína, ocor-
indivíduo com sua máscara inicial. Esse desmasca- rendo a descristalização da máscara inicial. Há
ramento é o instante privilegiado em que ele se vê e uma harmonização entre sombra e luz. Através
se compreende melhor em toda sua plenitude. da dramatização, o protagonista cria um novo sig-
Podemos concluir que o trabalho com nificado para a sua vida.

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Revista de Psicologia — Especial

O CAMINHO
DO VIR A

SER O processo de individuação na obra de Jung

C
arl Gustav Jung foi um médico
e psicoterapeuta nascido em
Kesswil, na Suíça, em 1875.
Foi um grande estudioso da psique
humana e dedicou toda a sua vida a
isso. Filho único, até os nove anos de
idade, de um pastor protestante e de
uma dona de casa, passou boa parte
de sua infância solitário, o que o levou
a se interessar pela vasta biblioteca
do pai. Ao entrar na adolescência, já
havia lido vários livros de pensadores
importantes. No ano de 1900 formou-se
em medicina e começou seu trabalho
em um hospital psiquiátrico. Naquele
período, passou a observar seus
pacientes psicóticos, que o levaram a
dar importância para o inconsciente.

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Individuação — O caminho do vir a ser

Jung fez um vasto e aprofundado estudo em


diversas áreas — visando aprofundar o conheci-
mento da psique — que envolveram a alquimia,
a mitologia, a história das religiões e tudo o que
lhe fosse útil para entender a influência do in-
consciente na vida consciente. Das obras de São
Tomás de Aquino, Plotino e Platão — entre outros
— encontrou alguns conceitos sobre o indivíduo
psicológico ter uma existência a priori no incons-
ciente. Se utilizou desses estudos para entender
a importância dos sonhos no processo analítico e
percebeu que, neles, havia uma comunicação do
inconsciente para com o sonhador, que se apre-
sentava de forma simbólica e metafórica e que,
nessa comunicação, havia apontamentos impor-
tantes sobre o indivíduo. Houve um período em
que teve contato com Freud, no qual aprofunda-
ram o estudo do inconsciente e, mais tarde afas-
taram-se por divergências de pensamento.
Em toda a obra de Jung, podemos dizer que
seu foco era o processo de individuação, que para
ele seria uma necessidade natural no homem de
realizar sua totalidade. Contrária à ideia de Freud,
que entendia que nascemos tábula rasa e que a
educação recebida é a determinante para a for-
mação da personalidade, o autor entendia que o
homem não nascia como uma folha em branco,
na qual seria escrita sua vida a partir da edu-
cação recebida. Acreditava que nascíamos, de
forma latente, com predisposições arquetípicas e
tendências para sermos quem deveríamos ser. A
educação, certamente influenciaria o sujeito, mas
não determinaria quem deveria se tornar. A psi-
cologia analítica de Jung compreende que ao nas- “Individuação significa tornar-se um ser único, na
cer, o ser humano traz consigo uma predisposição medida em que por individualidade entendemos
pessoal, indicando que há uma direção específica nossa singularidade mais íntima (...)”
e individual para cada pessoa. O Si-mesmo indi-
ca a direção e cabe ao ego realizá-lo; a família é
a mola propulsora, que favorável ou não, auxilia Após o nascimento, na medida em que a
o indivíduo a buscar sua individuação. O Si-mes- criança começa a interagir com o meio, sua per-
mo, ou Self, nas palavras de Jung “não é somente sonalidade individual começa a se manifestar. Isso
o centro, mas também a circunferência total que fica evidente quando observamos irmãos, criados
abrange tanto o consciente como o inconsciente; e educados pelos mesmos pais, que apresentam
é o centro dessa totalidade, como ego é centro da claramente suas idiossincrasias. Entretanto, esse
mente consciente” (Jung, 1990, § 444) ser individual, no decorrer da educação que rece-
O termo individuação foi empregado por be, vai sendo influenciado pelas expectativas dos
Jung para descrever o processo psíquico de dife- pais. Desta forma, vai havendo uma espécie de
renciação da consciência. Disse que ao nascermos contágio psíquico que se mescla às características
trazemos em nós a semente de quem realmente originais daquela criança. A espontaneidade vai,
somos, nosso vir a ser. assim, diminuindo em função de sua necessidade
“Individuação significa tornar-se um ser de ser aceita e amada pelos pais. Aquilo que, num
único, na medida em que por individualidade primeiro momento, era natural na atitude infan-
entendemos nossa singularidade mais íntima, til vai sendo substituído por um comportamento
última e incomparável, significando também adaptativo às exigências dos educadores. Jung en-
que nos tornamos o nosso próprio Si-mesmo. fatizava que nascemos inteiros e morremos frag-
Podemos, pois, traduzir individuação como tor- mentados. Os abusos, os mimos, os cuidados e os
nar-se Si-mesmo ou o realizar-se do Si-mesmo. descuidos, as vivências em geral ficam impressas
(Jung, 2001, §266) no sujeito e emaranham-se às emoções que são

10
Individuação — O caminho do vir a ser

produzidas, para moldarem a personalidade, que Entretanto, se o conflito for grande demais pode
se desenvolve a partir da imposição de aconteci- gerar, no indivíduo, sérias perturbações. Se a vi-
mentos internos ou externos. É sabido que, pela vência entre o mundo interno e o mundo externo
necessidade de aceitação que a criança tem, sua for demasiadamente marcante, poderá imprimir,
principal tarefa durante a infância é a adaptação no desenvolvimento da personalidade, marcas
às exigências familiares. profundas que trarão prejuízos para a adapta-
A partir do nascimento, a criança depara-se ção, do sujeito, à vida e ao autoconhecimento. As
com um sistema familiar em funcionamento, re- vivências do passado, com as personagens do
pleto de regras e normas das quais passa a fazer passado, ajudam a montar a nossa história pes-
parte e é treinado para ajustar-se. Na relação soal. Entretanto, alguns eventos caracterizados
com o meio a criança desenvolve um comporta- por forte carga emocional e, muitas vezes trau-
mento coerente com as expectativas que os pais máticos, tornamse muito onerosos para serem
têm a seu respeito. A consciência é uma aquisi- sustentados pela consciência.
ção, pois nascemos totalmente inconscientes e é Durante o desenvolvimento da personalida-
através do conflito entre quem realmente somos de os conflitos vividos entre mundo interno/ex-
e a tentativa de dar conta das expectativas dos terno começam a instaurar cisões, que vão na-
pais é que a consciência começa a surgir. O con- turalmente selecionando o conteúdo que ficará
flito entre o mundo interno e o mundo externo presente na consciência, formando o ego. O con-
é uma necessidade para que a criança comece a teúdo que é inerente àquele indivíduo, mas que
desenvolver uma diferenciação entre o eu e o tu. não pôde se manter presente na consciência, por

“As vivências do passado, com as personagens do passado, ajudam a montar a nossa história pessoal.”

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Individuação — O caminho do vir a ser

“O sujeito cria para si uma verdade defeituosa, con- ser conflitante com a adaptação ao meio, forma
taminada e bastante distorcida acerca de si próprio e a sombra e, de forma adaptativa, é construída a
de sua realidade.” persona, que funciona como uma máscara social
que serve como uma proteção contra o meio ex-
terno, garantindo uma sensação de segurança,
por evitar uma exposição.
A criança tem uma psique extremamen-
te, maleável e, desta forma, grande capacidade
para absorver as informações que lhe chegam
através das figuras educadoras. Aliado a isso,
a criança ainda não tem seu psiquismo total-
mente desenvolvido e, vive no âmbito psíqui-
co dos pais. Portanto, as perturbações vividas
na infância são decorrentes da conflitiva dos
pais e, é somente a partir da adolescência que
a psique começa a ganhar alguma autonomia.
Na adolescência começam a haver as primei-
ras tentativas de afastamento psíquico dos pais,
momento em que o jovem começa a experimen-
tar-se e a transgredir as normas impostas pelo
coletivo familiar. À medida que a personalidade
se diferencia, começa a surgir uma identidade
própria, acarretando em uma maior autonomia
do sujeito. Todo esse processo gera sofrimento.
É muitíssimo comum as pessoas buscarem
o tratamento psicológico, em grande desconforto,
presas em etapas anteriores e nas mazelas pa-
rentais. Além disso, carregam uma autoimagem
distorcida e pontos de vista neuróticos. O sujeito
cria para si uma verdade defeituosa, contaminada
e bastante distorcida acerca de si próprio e de sua
realidade. É como se enxergasse a vida como uma
imagem estática, na qual se move em torno e que
povoa seu imaginário de impossibilidades. Neste
ponto, o sujeito já se encontra bastante longe de
sua verdadeira identidade. No processo analítico,
esses pacientes costumar sonhar com roubos e
perdas de objetos que os identificam.
Cada ser humano vive um universo à parte,
abarrotado de meias-verdades, mas relaciona-se com
elas como se fossem Grandes Verdades. A experiência
da infância gera feridas, que criam crostas grossas,
carapaças defensivas que impedem o indivíduo de sa-
ber quem ele realmente é. Por não ter clareza sobre
si acaba por responsabilizar aos que o rodeiam por
suas dores e dificuldades. Quanto menos consciência
de si, maior o número de projeção dos conteúdos in-
ternos é feito nas outras pessoas. Viver uma relação
traz, às pessoas, sentimentos ambíguos. Ao mesmo
tempo em que recursos defensivos são acionados há,
no homem, uma necessidade vital de contato huma-
no, pois o outro é elemento fundamental, como um
parâmetro que o reflete e que serve de alvo para as
inevitáveis projeções. Portanto, é na relação que o in-
divíduo se confunde e também se enxerga. A relação
é um veneno e, também um antídoto.
Relações, desenvolvimento da personalidade,
distorções, conflitos, necessidades, aquisição de

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Individuação — O caminho do vir a ser

consciência, são como engrenagens do funciona-


mento humano. Esta é uma generalização na qual
estão envolvidas todas as pessoas. Esse mecanis-
mo põe em movimento todos os seres humanos,
que contêm em si suas singularidades. Somente
é possível construir uma personalidade quando a
pessoa está em condições de se opor ao que está
estabelecido, ao que é esperado e é capaz de fazer
suas próprias escolhas, mesmo que essa atitude
implique em desaprovação pelo coletivo. O desen-
volvimento da personalidade indica: “fidelidade a
sua própria lei” (Jung, 1986, § 295).
Uma vida só é verdadeiramente vivida se
há um indivíduo consciente que a conduza, ca-
paz de fazer escolhas e de escrever sua própria
história. Tal compreensão o capacitará na busca
de saídas mais criativas e de novas atitudes, ati-
vando, assim, recursos internos para promover a
ampliação da consciência. Em potencial, todas as
pessoas podem construir uma personalidade e
viver aquilo que lhes é inato. Todo o ser humano
carrega em si uma diretriz que lhe é própria e
que está acima das convenções. E, esta é uma
realidade psíquica. É esta diretriz que traz signi-
ficado à vida e que torna o homem um indivíduo
singular. A totalidade só é possível a partir da
unidade. Jung (1986) afirma que:
“Somente pode tornar-se personalidade
quem é capaz de dizer um ‘sim’ consciente ao
poder da destinação interior que se lhe apre-
senta; quem sucumbe diante dela fica entregue
ao desenrolar cego dos acontecimentos e é ani-
quilado” (§ 308).
Assim, percebemos que a responsabilidade
sobre a construção de uma existência com sen-
tido recai, inevitavelmente, sobre cada indivíduo.
Quando há fidelidade à individualidade, a perso-
nalidade desabrocha e, com ela, o sentido colore
de nuances singulares a vida humana. Nesse es-
tágio, já não é mais necessário que outras pessoas
sejam usadas como alvo de projeções, nem que os
filhos se encarreguem de realizar o que os pais
tinham como expectativa. Cabe aqui salientar a
importância de não ser confundida a individuali-
dade com o individualismo. A individualidade im-
plica em lucidez e o individualismo em egoísmo.
Viver é uma atividade complexa, pois, como
dizia Jung, exige o homem inteiro. O amadureci-
mento da personalidade acontece no dia a dia e ao
longo de toda a vida. Entretanto, existe uma ten-
dência de os valores coletivos imporem-se sobre
os valores pessoais, por essa razão Jung adver-
tia sobre a importância de discriminarmos o que
nos é imposto para fazermos escolhas pessoais.
O processo de individuação é um caminho para
a diferenciação que gera autonomia, nos torna
conscientes de quem somos e propicia uma vi- “O amadurecimento da personalidade acontece no
vência com sentido. É uma caminhada para nossa dia a dia e ao longo de toda a vida.”

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Individuação — O caminho do vir a ser

“A liberdade inicia-se no reconhecimento que o homem é capaz de fazer a respeito de si próprio.”

profundeza que nos põe em intimidade com quem uma vida, realmente, íntegra. A discriminação exige
realmente somos. Nessa direção podemos discri- reflexão. A reflexão produz cultura, consciência. A
minar, desenvolver uma autocrítica saudável e reflexio é o elemento alquímico que permite o ho-
conseguiremos viver em sociedade sem sermos mem transformar os fatos em experiência, dando-
arrastados pelo senso comum. -lhe condições de enxergar a si próprio e de fazer
Em seus estudos alquímicos Jung entendeu escolhas. Esta é uma condição fundamental para o
os experimentos dos alquimistas como uma prá- processo de individuação e, nesse estágio, já começa
tica concreta da transformação psíquica. O autor a haver uma separação dos padrões coletivos dan-
constatou, por parte dos alquimistas, projeções do do espaço para o surgimento de uma pessoa mais
inconsciente na tentativa de transformar o metal maleável e em condições de servir ao Si-mesmo. Ve-
vil em ouro. O processo de individuação era feito mos que, nesse processo, vários elementos psíquicos
in vitro no laboratório alquímico. A transmutação estão em jogo e precisam estar inter-relacionados:
dos elementos foi entendida simbolicamente por aquele que imagina, aquele que reflete, o que se
Jung, como a transformação interior do próprio move a partir do que é transformado em experiên-
alquimista, no sentido de que ele transformasse o cia, aquele que transforma a experiência e a ressig-
que nele havia de vil em ouro filosofal. nifica. A liberdade inicia-se no reconhecimento que
Jung refere-se à psique como autorregu- o homem é capaz de fazer a respeito de si próprio.
ladora, pois ela tende a distribuir sua energia, A partir dessa condição a personalidade é possível.
buscando equilíbrio e levando o indivíduo a tor- “Assim como uma grande personalidade atua
nar-se mais autêntico e realizado. O processo de na sociedade liberando, salvando, modificando e
individuação exige que o sujeito se diferencie do curando, da mesma forma o surgimento da própria
coletivo para que, individualmente, se experimen- personalidade tem ação curativa sobre o indiví-
te, reconheça e integre os aspectos psíquicos que duo. É como se um rio, que antes se perdesse em
ficaram polarizados e assim, possa tornar-se mais braços secundários e pantanosos, repentinamente
autêntico, vivendo com uma consciência mais am- descobrisse seu verdadeiro leito. Também se pode-
pla e adquirindo uma identidade mais verdadeira. ria comparar com uma pedra colocada sobre uma
A ideia, no processo de individuação, é de que a semente a germinar; tirada a pedra, o broto retoma
pessoa seja cada vez mais ela mesma, de maneira seu crescimento normal” (Jung, 1986, § 308).
completa e indivisível, distinguindo-se da psicolo- Este é o melhor legado que pode ser trans-
mitido às gerações posteriores: a tarefa de aqui-
gia coletiva. Há, neste sentido, um desdobramento
sição de consciência para a realização do “senti-
da personalidade, que implica estar em relação
do inato da existência” (§ 308).
com o coletivo sem aprisionar-se a ele.
Descuidado de si o homem não é capaz de * Joyce Werres é psicóloga e mestre em psicologia clínica pela
ouvir sobre seus reais anseios. É necessária uma PUCRS, analista junguiana didata e membro da AJB e da IAAP. É
concentração nos ruídos psíquicos e a convergência organizadora do livro Ensaios sobre a clínica Junguiana, coautora
dessa escuta para a consciência. Na medida em que de Puer-senex: dinâmicas relacionais, professora, coordenadora
haja uma concentração do indivíduo nele próprio, do curso de pós-graduação em psicologia clínica junguiana e
gradativamente surge a discriminação, que permite diretora de Comunicação do IJRS. Telefone: (51) 984595822 -
o alargamento da consciência e a estruturação de E-mail: joycewerres@yahoo.com.br

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Revista de Psicologia — Especial

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Revista de Psicologia — Especial

CAMINHOS
DO
MEIO
Onde a Psicologia Analítica e o Budismo se Encontram

Quem deseja seguir o caminho dos Ouvintes deve treinar a Perfeição da Sabedoria;

Quem deseja seguir o caminho dos Praticantes Solitários deve treinar a Perfeição da Sabedoria;

E quem deseja enveredar pelo caminho dos bodisatvas também deve treinar a Perfeição da
Sabedoria.

(Buda — Sutras da Perfeição da Sabedoria)

D
iariamente em minha prática
clínica encontro várias pessoas
que me procuram em busca
de sentido para suas vidas e, muitas
vezes, soluções para seus problemas
cotidianos. O mundo moderno encontra-
-se afastado de seus mitos e as religiões
tradicionais tem perdido o númen (po-
der, encantamento, fascínio). A razão
tem ajudado a humanidade a prosse-
guir, explicar o mundo através da ciên-
cia e assegurar uma existência mais
harmoniosa para todos. Infelizmente,
nem sempre estas últimas são efetivas.
Apesar das inúmeras conquistas da
razão, os seres humanos, principalmen-
te, os mais sensíveis, mesmo com uma
vida racionalmente boa e aprazível,
sentem-se incompletos, vazios, desani-
mados ou compulsivos. Acabo encon-
trando as pessoas nesse ponto.

16
Religião — Caminhos do meio

“A moral é valiosa como parâmetro a considerar, mas Caso fosse um xamã do mundo antigo, diria
não como lei universal (...)” que estas pessoas sofreram uma “perda da alma”,
entoaria cânticos falando de um mundo antigo e
uno, contaria histórias tribais de força e poder,
desenharia símbolos de busca de sentido. Mas eu
não sou esse xamã, ao menos não é o que consta
na porta do meu consultório. Todavia, não posso
negar que estas práticas, de um modo simbólico,
estão presentes no meu trabalho diário.
O que eu quero dizer com isso? Bom, as pes-
soas que citei acima, de uma maneira geral, per-
deram o contato com o significado maior de suas
vidas, com aquilo que os fazia se entusiasmar com
a vida, aquilo que os dava paz e tranquilidade,
aquilo que os fazia se sentirem importantes no
mundo. Ao perder esse “entendimento” (coloco en-
tre aspas porque este processo não é puramente
racional, como a palavra entendimento dá a enten-
der), o ser humano ficou sozinho, amparado ape-
nas pelas leis morais da sociedade e pela ciência.
A moral é valiosa como parâmetro a considerar,
mas não como lei universal, pois todos lembramos
que a moral vigente já validou práticas execráveis,
como, por exemplo, o racismo, a aniquilação de
judeus ou a inferiorização da mulher. Já a ciên-
cia, poderosa ciência, se esforça para explicar o
mundo aos homens, mas silencia diante de alguns
dilemas, como perante ao doente com câncer que
pergunta “por que eu?” ou, para não irmos muito
longe, em frente à menina apaixonada pelo rapaz
que ela julga o mais cafajeste de todos.
Nesse ponto, o homem antigo iria buscar
nas religiões as respostas para seus dilemas. Mas,
como disse anteriormente, elas não têm mais a
mesma força diante do homem moderno. Não é
suficiente para este, acreditar em dogmas antigos,
é preciso mais. A alma fugidia se esconde daquele
que procura sentido e significado. É nesse ponto
que encontro o Budismo.
Com a globalização da informação através
da internet, cada vez mais pessoas tem tido acesso
a textos e novas formas de conhecimento vindas
do Oriente, como o Budismo e a Meditação. Para
alguns, o “frescor” de novas ideias e possibilida-
des soa como encantador, a mística que envolve
o desconhecido representa uma possibilidade de
caminho para quem não sabe aonde ir. Para ou-
tros, a ideia de uma religião não teísta, isto é, que
não tem uma divindade central, seria mais ade-
quada a seu pensamento e forma de ver o mundo,
por colocar o homem moderno no centro do dra-
ma cósmico, trazendo os “deuses” para dentro da
alma humana. Para outros ainda, os conceitos de
desapego ou de quietude e paz através do silêncio
interior e meditação seriam possibilidades com-
pensatórias para se atingir o equilíbrio em um
mundo materialista e agitado, a chave que pode-
ria abrir um baú do tesouro da harmonia e da

17
Religião — Caminhos do meio

“Criamos expectativas acerca de fatos, situações ou pessoas, mas estas expectativas falam mais de nossas
necessidades interiores do que da realidade objetiva das coisas em questão.”

gratidão. Enfim, muitos são os motivos para que conta delas por nós mesmos (proteger-me ao
vejamos no Budismo um caminho para a solução invés de procurar proteção, acreditar em mim
para o dilema atual. ao invés de acreditar no que eu possuo, etc.)
Se examinarmos com calma vários conceitos tenderíamos a não projetar tanto estas neces-
da psicologia analítica encontraremos paralelos sidades nos outros. Para Jung2 , esta seria uma
no Budismo. Um dos que mais me é evidente, seria etapa importante do trabalho analítico, recolher
o caminho do meio1.  as projeções. Deste modo, lidaríamos de forma
Na prática clínica é comum vermos pessoas mais objetiva com os fatos e, como menos expec-
“projetarem” seus sentimentos em algo ou alguém. tativa, teríamos menos sofrimento.
O que eu quero dizer com isso? Criamos expecta- James Hillman3, em seu artigo sobre traição,
tivas acerca de fatos, situações ou pessoas, mas nos conta uma anedota em que um filho está se
estas expectativas falam mais de nossas necessi- experimentando subindo em uma escadaria e ati-
dades interiores do que da realidade objetiva das rando-se no colo do seu pai. A cada sucesso, o
coisas em questão. Diversos são os exemplos, bus- pai o estimula a ir mais longe. Depois de vários
co um carro, não pela função do mesmo, mas para sucessos, o pai afasta-se do filho no exato momen-
me sentir forte e poderoso, trabalho com afinco to em que este se lança dos degraus, deixando a
para ser promovido e, assim, atender as expec- criança cair ao solo sem proteção e com algumas
tativas de todos a minha volta, me envolvo com escoriações subsequentes. Depois de muito choro,
alguém protetor e carinhoso para dar conta da o pai pergunta ao filho o que este aprendeu com
minha carência afetiva e não pelo que a pessoa este fato. Dentre outras coisas, o principal ensi-
em si significa para mim. Infelizmente isso é mais namento seria o de não acreditar em ninguém a
comum do que parece nas páginas do Facebook. ponto de se entregar totalmente.
Através da projeção, então, o que normal- Duro ensinamento, mas o que este pai tinha
mente colhemos é a frustração, sofrimento em em mente? A expectativa de proteção deixava o
termos budistas. Se conseguíssemos (e esta é menino frágil e inocente. A traição do pai o ajudou
uma das propostas do trabalho analítico) co- a se fortalecer para as dificuldades que o mun-
nhecer as nossas necessidades profundas e dar do lhe proporcionaria. Enfim, esta é apenas uma

18
Religião — Caminhos do meio

discutível história, mas ilustra a questão da ex-


pectativa e da projeção, culminando enfim com a
tragédia e, se ficarmos atentos, como aprendizado.
Nas palavras do próprio Buda4:

Saiba que todas as coisas são assim:


Uma miragem, um castelo de nuvens,
Um sonho, uma aparição ,
Sem essência mas com qualidades
que podem ser vistas

Saiba que todas as coisas são assim:


Como a lua num céu brilhante
Em algum claro lago refletida,
Ainda que para aquele lago a lua
jamais se moveu.

Saiba que todas as coisas são assim:


Como um eco que provém
Da música, sons, e lamentos,
Embora nesse eco não haja melodia.

Saiba que todas as coisas são assim:


Como um mágico que fabrica ilusões “Força de vontade excessiva nos lembra o Ego e
De cavalos, bois, carroças e outras coisas, sua sede de poder.”
Nada é como parece.
(Buda — Samadhirajasutra)
prestar atenção, poderíamos ouvir esta voz in-
“Sempre aprendo, quando acerto, o que fazer, terior. E, a partir dessa relação, ser orientados,
quando erro, o que não mais fazer” dizia um anti- encontrar o caminho que nos falta, seguir adiante.
go amigo. Este seria um outro conceito junguiano Jung6 tira o conceito tão prevalente na mo-
que talvez valha a pena lembrar, o da atenção. dernidade do Ego como centro da psique, e o
Jung5 nos falava do termo em latim religere, deri- desloca para a periferia, colocando como “ver-
vado de religio. Para muitos, é traduzido como ‘re- dadeiro” centro, o Self, um centro organizador e
ligação’ a Deus, de onde um dia fomos unidos (ou sábio da psique. Uma forma de totalidade latente
a mãe deus uterina). Conceito interessante, mas no homem. Em termos budistas, talvez estivés-
um pouco arriscado se pensarmos na questão an-
semos falando do ‘Bodicita’1. O mais importante
terior da projeção e expectativas, a ideia de “usar”
agora não seria o ‘querer’ do Ego e sim, a religio,
o divino para me proteger ou dar-me a confiança
a consideração atenta das manifestações deste
que não tenho na vida ou na minha história. Este
sagrado na vida do homem. ‘Algo em mim quer’
conceito aproxima-se do entendimento dado pro
e não ‘eu quero’. Perceber essa força e não lutar
Freud a religião. Jung traz o conceito de religio,
que nos traria a ideia de “atenção”. Uma cuida- contra ela só é possível com uma mente quieta
dosa atenção ao extraordinário, isto é, ao fora do e pacífica, a luta neste momento só vai trazer
comum, em termos metafóricos, ao Sagrado. mais sofrimento, a aceitação e ‘obediência’ a esta
Sagrado de nós mesmos, sagrado de nossas vontade, pode trazer mais harmonia, realização
emoções, sagrado da natureza, sagrado no outro, e gratidão ao homem.
e através desta senda podemos seguir tudo o que, Quando há apego ao Eu, surge o discerni-
para nós mesmos, é extraordinariamente impor- mento entre o eu e os outros; seguem-se então
tante e valioso. Todavia, “sagrado” nos faz pensar sentimentos e aflições. (Dharmakirti — Prama-
inicialmente em Deus. Jung preferia não se ma- navartika, em Riponche4)
nifestar acerca da existência de Deus, dizia que Jung6 sempre exaltava a importância da aten-
essa era uma questão para a teologia e não para a ção ao invés da intenção. Não era uma boa verdade
psicologia. Mas, na psique do homem, era possível para ele pensar que a vontade pode conseguir tudo
observar uma instancia arquetípica que seria a na vida, o ‘querer é poder’ não seria muito produ-
“imagem de deus no homem”, a “imago dei”. Mais tivo no caminho da alma. Força de vontade exces-
tarde, ele chamou a imago dei de “Self”. E, através siva nos lembra o Ego e sua sede de poder. Para
de uma abordagem “religiosa”, isto é, através do podermos ouvir os ‘deuses’, deveríamos prestar

19
Religião — Caminhos do meio

atenção a Sua voz. Mas em termos práticos, o que a caminho da liberação. Uma vez que a dor agora
Psicologia Analítica quer dizer com “prestar aten- a preparou para o aprendizado, e seu coração
ção” e “ouvir a voz dos deuses”? está se abrindo à verdade, vou lhe mostrar esse
Talvez esses conceitos não sejam tão simples caminho. (Buda — História de Krisha Gotami).
de entender a primeira vista, mas ficam bem evi- Lembro de um paciente que eu cuidei que
dentes na vida diária. Pensemos, é muito fácil na tinha o diagnóstico de um câncer de esôfago, na-
juventude acreditar que a vida pode ser controlada quela época, já com metástases e profundamente
de acordo com nossa vontade e poder. Afinal, so- infiltrado nos tecidos do pescoço. Em linguagem
mos jovens, cheios de energia e capacidade. Mas, médica, isto significa que era de prognóstico re-
conforme a vida segue, se temos sorte de envelhe- servado, sem chances de cura. Ele era sempre
cer, a vida nos mostra ‘quem manda’. Segue a doen- muito ansioso e um pouco pesaroso sobre o que
ça, a tragédia, talvez a morte de algum familiar, a vinha lhe acontecendo. Tentava sempre me falar
falência, a depressão, a solidão, a velhice com a sua de como vinha ‘se comportando’ e não tendo mais
fragilidade, a desilusão, enfim, várias temáticas que os hábitos que o levaram, possivelmente, àquela
não escolhemos e não desejamos. Se ainda acredi- patologia. Eu também estava um pouco ansioso
tamos somente na força do Ego, somos humilha- e triste pelo destino dele e pela dor da família,
que eu acabei conhecendo. Mas, recordo do último
dos pelo que a vida tem a oferecer depois de certa
dia em que conversamos, e de que senti algo que
idade. Uma visão muito focada na materialidade
poderia ser descrito como paz. Talvez tenha sido
da vida e não conectada com a transcendência
porque o vi muito calmo e tranquilo, não tenho
fica presa à dor, não consegue ver o aprendizado
certeza, mas o fato é que ele me passava algo mui-
e crescimento contidos nestes momentos da vida.
to bom naquele dia. E, o que mais me chamou a
A cura, a paciência, a coragem, a perseverança, o
atenção, foi a sua atitude carinhosa para comigo
desapego, a bondade, a compaixão, a humildade, a
e para com a vida, seu entendimento dos ciclos da
verdadeira visão, a fé, a empatia, dificilmente sur-
vida, sua sabedoria e, o que eu poderia chamar
gem na vida se não forem cultivadas, e, como a de transcendência. Ele estava ali, mas não falava
semente, sem sabedoria e paz interior, não se vê na somente daquele dia, conseguia ver sua vida em
morte do grão o renascimento da planta. perspectiva e relativizada, com um olhar bondoso
Buda4 sabiamente nos diz: “(...) o reino em sobre si mesmo e sua família, vivia o presente, e
que estamos — samsara — é um oceano de in- não parecia ter medo do futuro. Não sei se eu co-
suportável sofrimento. Há um caminho, e ape- nheço o Bodicita ou se já vi alguém neste estado,
nas um caminho, para sair do ciclo incessan- mas aquele senhor me pareceu muito isto.
te de nascimento e morte do samsara, que é o Nas palavras de Dilgo Khyentse Riponche4:
“Uma vez que você obtém a Visão, embora as
“Uma visão muito focada na materialidade da percepções ilusórias do samsara possam sur-
vida e não conectada com a transcendência fica gir na sua mente, você será como o céu: não
presa à dor (. . .) ” fica particularmente lisonjeado quando surge
nele o arco-íris, nem particularmente desapon-
tado quando as nuvens o encobrem. Há uma
profunda sensação de contentamento. Você ri
por dentro quando vê a fachada do samsara ou
do nirvana; a Visão o manterá constantemente
maravilhado com um suave sorriso interior se
esboçando, todo o tempo.”
E, para não falar somente de momentos difí-
ceis, poderíamos pensar em tudo o que é perdido
não somente pela dor, mas também pela superfi-
cialidade. Nem sempre encontro pessoas no meu
consultório que estão passando por situações trá-
gicas, muitas delas, na verdade, estão passando
por momentos de “morte em vida”, isto é, estão
vivos, mas nada da vida os atrai ou toca. Alguns
chegam a perguntar: mas se eu tenho um bom
emprego, um bom relacionamento e nunca tive
um grande trauma em minha vida, como eu pos-
so estar deprimido? Esta é a doce ilusão da su-
perficialidade. Muitas coisas boas só são boas de
verdade se nos ‘tocam a alma’, se trazem alguma

20
Religião — Caminhos do meio

ressonância com o que temos interiormente. Ter


casa, carro, mulher e filhos, passar as férias na
praia e ter um bom plano de aposentadoria, pode
ser considerado bom e, com certeza, não parece
ter nada de mal nisso, todavia, não significa muito
para alma por si só. O que a alma procura é o sen-
tido, esta conexão com algo maior, em linguagem
‘religiosa’, nossa vocação ou missão neste mundo.
Quando não sabemos isto, nada mais acrescenta
e, inclusive coisas boas, podem não ter sabor e
acrescentar gosto a vida.
O poeta Sufi Rumi4, nos traz uma história que
talvez ajuda a ampliar o entendimento nesta ques-
tão, conta-nos que “o mestre disse que há uma coi-
sa neste mundo que nunca deve ser esquecida. Se
vocês esquecerem todo o resto, mas não se esque-
cerem dela, não haverá motivo para preocupação;
por outro lado, se forem atentos, dedicados e com-
petentes em relação a tudo mais e esquecerem
esta coisa, não terão feito de fato absolutamente
nada. É como se um rei houvesse enviado vocês
a um país para cumprirem uma tarefa especial.
Vocês vão para o tal país e executam cem ou-
tras tarefas, mas se não realizaram aquela para
a qual foram mandados é como se não tivessem
feito nada mesmo. Desse modo, o homem veio ao “Muitas coisas boas só são boas de verdade se nos
mundo para uma tarefa em particular, que é o ‘tocam a alma’, se trazem alguma ressonância
com o que temos interiormente.”
seu objetivo. Se ele não a leve a cabo, nada terá
realizado. (Rumi — Conversa à Mesa)
Esta “desatenção” que pode contribuir com
as tragédias citadas anteriormente, não neces- simplesmente, algo que toque meus sentimentos,
sariamente como causa das tragédias, mas como que provoque minhas emoções, que me faça re-
correlação. Uma pessoa atravessando a rua pensar ou até, ‘não pensar’. Em linguagem sim-
olhando o celular não necessariamente vai ser bólica, algo que faça minha alma dançar, que me
atropelada, mas aumenta em muito o seu risco de leve ao mundo dos sonhos novamente, ainda que
ser. Perceber a rua, os carros e para onde quero acordado, que me provoque algum êxtase ou me
ir pode ajudar muito a chegar aonde se quer e di- deixe entusiasmado. “Sua tarefa é descobrir o seu
minuir a chance de ser atropelado. Claro, isso não trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se
garante que eu chegue ou impede que eu mude de a ele” diz o Buda.
ideia, e nem me previne de sofrer um acidente no Nas palavras do próprio Jung7: “O interesse
percurso, mas, digamos, contribui bastante para principal do meu trabalho, não está relaciona-
se chegar a um lugar melhor. do com o tratamento das neuroses e, sim, com
Há o caminho da sabedoria e o caminho a abordagem do numinoso. Mas o fato é que a
da ignorância. Eles são muito distantes um do abordagem do numinoso é a verdadeira terapia
outro e levam a diferentes direções (...). Vivendo e, na medida em que alcançamos as experiên-
em meio à ignorância, pensando que são sábios cias numinosas, somos libertados da maldição da
e instruídos. Os tolos vão a esmo, daqui para lá. patologia.”
Como cegos guiados por cegos. O que existe além
* Roberto Fábio Lehmkuhl é médico pela UFSC, analista
da vida não brilha para os que são infantis, des-
junguiano pelo IJRS, membro da AJB (Associação Junguiana
cuidados, ou iludidos pela riqueza. (Katha Upa- do Brasil) e da IAAP (International Association for Analytical
nixade — Morte para Nachikektas em Riponche4) Psychology), especialista em medicina ayurvédica (Academia
Acho importante esclarecer como perceber Internacional de Ayurveda, Poona — Índia) e médico de família
este ‘sagrado’ em nossas vidas. Quando falamos e comunidade (Grupo Hospitalar Conceição). É coordenador
nestes termos, talvez a única lembrança sejam as médico do Unifácil Pleno — Unimed Porto Alegre —, trabalha
antigas religiões e seus dogmas. Mas, como dis- em consultório com psicoterapia de adolescentes e adultos e
semos, isso não nos ajuda muito mais hoje em dá palestras sobre autoconhecimento e realização pessoal e
dia. Em termos psicológicos, o sagrado não seria profissional.
algo mágico ou místico literalmente falando, mas, Telefone: (51) 32082044 - E-mail: robertofl1@hotmail.com

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Revista de Psicologia — Especial

TIPOS DE

SEGUNDO CARL GUSTAV JUNG

As funções psicológicas e as atitudes de extroversão e introversão

P
ara falar de personalidade, antes é necessário que se entenda o que é. No
dicionário Aurélio, ela vem definida como “caráter ou qualidades próprias
da pessoa” e “individualidade consciente”. Na psicologia, entende-se a perso-
nalidade como um conjunto de características que formam a pessoa e a diferenciam
das outras. No senso comum, a personalidade é o “jeito de ser” da cada um. O ser
humano sempre se interessou por esse tema, buscando categorizar e definir os dife-
rentes tipos de pessoas ao longo da história. Inúmeras teorias surgiram nessa busca
de entendimento do ser.

22
Personalidade — Tipos de personalidade segundo Carl Gustav Jung

Na psicologia, existem diversas teorias da


personalidade, cada uma agrupando e explicando
de maneira diferente as características existentes
no ser humano. A teoria de Jung começa por dife-
renciar dois tipos de atitudes nos seres humanos,
a extroversão e a introversão. Os extrovertidos
são os que se envolvem mais com o meio externo,
por colocarem a sua energia mais nas coisas do
mundo do que em seu mundo interior. São pessoas
que conseguem ser mais sociáveis e se relaciona-
rem melhor. Além disso, possuem maior interesse
em contatos interpessoais. Existe o perigo dessas
pessoas perderem informações sobre elas pró-
prias, pois não observam tanto as suas próprias
tendências e comportamentos, não desenvolvendo,
com isso, um autoconhecimento. Podem também,
ser mais influenciáveis pelas opiniões externas,
não desenvolvendo uma forma própria de pensar.
Já os introvertidos, são os que estão mais atentos
ao mundo interior, percebendo e se relacionando
melhor com seus pensamentos e sentimentos, jus-
tamente por estarem mais atentos a eles. São pes-
soas mais introspectivas, observadores e pragmá-
ticas, preferindo ficar sós ou com poucas pessoas,
do que se envolverem em atividades com grupos
de pessoas. Elas correm o risco de acabarem se
isolando demais e não desenvolverem laços fortes
com os outros, passando do limite do “ser intros-
pectivo” saudável e chegando ao ponto de senti-
rem solidão. Jung, contudo, não dividiu o mundo
entre pessoas introvertidas e pessoas extrover-
tidas. Ele categorizou esses dois grupos de pes-
soas, mas deixou claro que ninguém é totalmente
de um jeito ou de outro, ou seja, todos possuem
características extrovertidas e introvertidas, mas
possuem mais de uma do que de outra, e essa
maioria é que caracteriza se a pessoa faz parte de
um ou de outro grupo. Inclusive, o mais saudável
é que a pessoa transite entre a introversão e a
extroversão de acordo com as circunstâncias da
vida. Não sendo muito saudável ser extremamente
extrovertido ou extremamente introvertido.
Além dessas duas características, Jung clas-
sificou quatro funções primordiais, sensação
(percepção), intuição, pensamento e sentimento.
As funções também são formas de perceber e se
relacionar com o mundo, cada uma priorizando
mais certos aspectos do que outros. Essas qua-
tro funções, associadas às duas características já
mencionadas, formam, então, oito “tipos” de per-
sonalidade. As funções sensação (percepção) e
intuição, são perceptivas ou irracionais, ou seja,
ajudam o ser humano a perceberem o mundo
sob a ótica de uma ou de outra. Já as funções
pensamento e sentimento, são funções de julga-
mento ou racionais, ou seja, auxiliam as pessoas
“Não sendo muito saudável ser extremamente extro- a raciocinarem e tomarem decisões sob a ótica
vertido ou extremamente introvertido.” do pensamento ou do sentimento. Mais uma vez

23
Personalidade — Tipos de personalidade segundo Carl Gustav Jung

é importante mencionar que não existem pessoas “Ambas são úteis na vida, e é bom que todos
que somente possuem uma ou outra função, todos busquem desenvolver melhor aquelas que não
possuem todas as funções e lidam com o mundo são tão desenvolvidas. ”
de acordo com as quatro, porém, utilizando em
maior ênfase, aquelas que se encontram mais de-
senvolvidas em si. O ideal é que as quatro tam-
bém estejam bem pareadas dentro de cada um,
pois não é saudável ter em excesso umas e quase
nada de outras. Ambas são úteis na vida, e é bom
que todos busquem desenvolver melhor aquelas
que não são tão desenvolvidas. Assim se consegue
maior plenitude e melhor sensatez de pensamen-
tos, sentimentos e comportamentos, melhorando,
por consequência, seus relacionamentos interpes-
soais e sua qualidade de vida.
Contudo, apesar de o ideal ser o bom desen-
volvimento de todas as funções, ocorre que uma
acaba sendo mais desenvolvida que as outras, ela
é chamada de função principal, sendo a função
mais utilizada para enxergar o mundo. Existe
também a função auxiliar, que é aquela segunda
mais desenvolvida, e que auxilia o sujeito no con-
tato com o mundo. A função terciária é aquela que
é desenvolvida em terceiro lugar, e a função me-
nos desenvolvida, é chamada de função inferior,
estando mais inconsciente que as outras, justa-
mente por ser menos desenvolvida. A função sen-
sação (ou percepção) faz parte do presente, dando
percepção do aqui e agora, ajudando a pessoa a
perceber os detalhes e a tomar decisões baseado
no que ela está percebendo com seus órgãos dos
sentidos. Pessoas que possuem a sensação mais
aflorada, são práticas, dão prioridade à expe-
riência imediata, guardam detalhes, têm memória
fotográfica e fazem escolhas de acordo com as
informações que recolhem através de sua obser-
vação dos fatos. Por negligenciarem o futuro, já
que têm dificuldade em enxergar a longo prazo,
correm o risco de serem impulsivas em suas de-
cisões e conclusões, já que não levam em conside-
ração todas as informações necessárias para uma
formação de opinião mais profunda. Os percepti-
vos, são indivíduos que gostam de rotina e organi-
zação, por isso, são pessoas que ficarão felizes em
classificar, categorizar e tabelar informações, coi-
sas ou pessoas. É possível também, confiar tarefas
a eles, pois certamente as cumprirão no prazo, já
que são organizados e gostam de rotina.
A função intuição faz parte do futuro, dan-
do a percepção daquilo que nem sempre é visto
de forma literal, mas apenas percebido por uma
sensibilidade extra, que vê nas entrelinhas e na
sensação de um “algo além”. É como se fosse o
sexto sentido. As pessoas intuitivas percebem ou-
tra dimensão daquilo que chega a ela, priorizan-
do as decisões e opiniões que formam de acordo
com isso e não com o que percebem de fato. Dessa
forma, correm o risco de negligenciarem os fatos

24
Personalidade — Tipos de personalidade segundo Carl Gustav Jung

“São pessoas que não se deixam levar por seus sentimentos, priorizando a objetividade e o padrão de decisões.”

concretos, preferindo ficar com o que sentiu sobre para feri-las ou negligenciá-las de propósito, não
a situação e não com as informações que tem so- vão entender que não é pessoal.
bre ela. Porém, sua percepção muitas vezes pode A função sentimento está relacionada com
estar errada. Outro risco é a facilidade dessas a forma de sentir o mundo de uma maneira mais
pessoas em começarem muitas tarefas e não ter- valorativa, ou seja, se a situação, pessoa ou objeto
minarem nenhuma ou só algumas. Isso porque, os é ou não agradável a ela naquele momento. Aí está
intuitivos se empolgam com novidades, mas não presente a subjetividade na hora de tomar deci-
suportam a continuidade prática da tarefa em si, sões. Fazem isso com base em valores próprios e
nem gostam da rotina. sua forma de pensar é influenciável pelo momento
A função pensamento diz respeito à forma e por valores sociais. Com isso, acabam se tornan-
de pensar, raciocinar e tomar decisões no mundo. do imprevisíveis, e correm o risco de serem in-
Levando em consideração as informações exatas fluenciáveis em suas escolhas e opiniões. Gostam
e lógicas sobre as coisas,, ou seja, utilizando a ra- de sentir as emoções na vida. Mas é importante
zão. São pessoas que não se deixam levar por seus diferenciar a função sentimento dos sentimentos,
sentimentos, priorizando a objetividade e o padrão ou seja, emoções e afetos. A função sentimento é
de decisões. São indivíduos mais reflexivos, objeti- uma forma de julgar o mundo, formando opiniões
vos, estrategistas, teóricos, firmes e planejadores. e tomando decisões de acordo com isso. E os sen-
São bons também em definir e conceituar. Há o timentos são as diversas emoções sentidas pelas
risco de se tornarem muito frios e deixarem de pessoas ao longo da vida, tanto positivas como ne-
lado informações mais subjetivas sobre as coisas. gativas.Conhecendo as quatro funções e as duas
Possuem também, dificuldade em perceber quan- características, é possível ver que elas se comple-
do a situação exige maior tato e delicadeza. To- tam, pois onde uma falha, a outra complementa.
mam decisões com base em valores pré estabele- E juntas, acabariam formando um “ser humano
cidos. Sua busca por justiça e igualdade, bem como perfeito”. Mas já que isso não existe, o que resta
sua objetividade, podem magoar as pessoas que às pessoas é buscarem desenvolver cada vez mais
enxergam o mundo de uma forma diferente, pois as quatro funções e as duas características, para
elas não vão entender que não agem por mal, ou que se tornem melhores a cada tentativa. É um

25
Personalidade — Tipos de personalidade segundo Carl Gustav Jung

exercício de vida. Juntando as quatro funções e “Possuem dificuldade em se comunicar, podem ser
as atitudes de extroversão e introversão, é possí- mal compreendidos e ter dificuldade de viver a
vel formar oito “tipos” de personalidade. Os per- realidade.”
ceptivos extrovertidos, perceptivos introvertidos,
intuitivos extrovertidos, intuitivos introvertidos,
reflexivos extrovertidos, reflexivos introvertidos,
sentimentais extrovertidos e sentimentais intro-
vertidos. Os perceptivos extrovertidos se interes-
sam muito por objetos do mundo externo, que
podem ser pessoas ou coisas. Não se interessam
tanto por ideias, pois gostam de coisas concretas.
Correm o risco de atribuir qualidades mágicas
aos objetos, mesmo que sem querer, ou seja, de
forma inconsciente. E podem ser relacionar de
maneira superficial com os objetos ou terem sur-
presas desagradáveis com eles, já que se relacio-
nam mais com o que imaginam perceber sobre
eles, sem levarem todas as informações existen-
tes em consideração.
Os perceptivos introvertidos se interessam
muito pelas experiências sensoriais que viven-
ciam com seus órgãos dos sentidos, sendo um tipo
comum entre artistas de forma geral. As formas
e texturas que vivenciam e se relacionam, for-
mam seu mundo. Correm o risco de viverem em
um universo paralelo, priorizando suas vivências
com tais experiências em detrimento de seus re-
lacionamentos interpessoais.
Os intuitivos extrovertidos são pessoas
aventureiras. Gostam de se relacionar com pes-
soas e objetos e buscam sempre novidades e no-
vos estímulos. Porém, quando alcançam seus ob-
jetivos ou conquistam pessoas, a novidade passa
e perdem o interesse, passando para a próxima
fonte de interesse. Isso pode tornar esses indiví-
duos insensíveis e cruéis com os outros, mesmo
que de forma não proposital, pois acabam ma-
goando as pessoas com que se relacionam. Os
intuitivos introvertidos são bastante sensíveis
aos outros, percebendo com muita facilidade as
necessidades, gostos, pensamentos, sentimentos
e desejos dos outros. São pessoas criativas, idea-
listas e sonhadoras. Possuem dificuldade em se
comunicar, podem ser mal compreendidos e ter
dificuldade de viver a realidade.
Os reflexivos extrovertidos são pessoas que
priorizam bastante a razão e a objetividade no seu
trato com os outros, valorizando apenas aquilo que
pode ser comprovado. São organizados e práticos.
Conseguem manipular bem os outros, podendo ser
prepotentes e pouco sensíveis. Os reflexivos intro-
vertidos são pessoas que fazem o tipo intelectual, ou
seja, possuem grande atividade intelectual, possuindo
características de teimosia e determinação. Normal-
mente ficam em seu mundo interior, focados nas teo-
rias, acabando por perder o contato com as pessoas.
Isso é perigoso por distanciar esses indivíduos do
contato interpessoal.

26
Personalidade — Tipos de personalidade segundo Carl Gustav Jung

“A pessoa descobre que não precisa ser o que esperam dela para que seja aceita, basta ser essencialmente
verdadeira e espontânea (...)”

Os sentimentais extrovertidos são pessoas ganha a aceitação e o entendimento dos outros. E


com grande facilidade de comunicação e grande se não ganhar, percebe que isso já não importa
interesse no contato interpessoal. Entendem muito mais.
bem as pessoas e são ótimos em estabelecer re- Porém, apesar do processo ser, em geral,
lacionamentos. O risco existe pela dependência de semelhante para todos, cada um o percorre a
tal processo, pois acabam sofrendo muito quando sua maneira, e um dos fatores que influenciam
perdem algum relacionamento. Os sentimentais essa maneira, é o tipo de personalidade que a
introvertidos são pessoas muito sensíveis às ne- pessoa possui.
cessidades dos outros, porém, com dificuldade em O conhecimento da existência das funções
se relacionar, preferindo ficar sozinhas e passa- psicológicas e dos dois tipos de atitudes, bem como
rem despercebidas. Acabam correndo o risco de dos tipos de personalidade que elas formam, aju-
ficarem solitárias e melancólicas e de serem pou- da o ser humano a se conhecer e se entender
co compreendidas, pois passam a impressão de
melhor, compreendendo porque tende a agir de
não possuírem sentimentos.
certa forma, porque possui dificuldade em certo
Jung teorizou sobre o processo pelo qual o
aspecto, etc. Mas, além disso, o sujeito ganha tam-
indivíduo passa durante a vida, desde a infância
bém conhecimento sobre os outros, pois ele não só
até a terceira idade. Ele observou um certo padrão
que as pessoas tendem a seguir, primeiro tentan- terá condições de se observar melhor, como tam-
do se adaptar à sociedade, com isso reprimindo bém conseguirá observar o outro e, diante disso,
certos aspectos que não seriam bem aceitos pela poderá obter uma maior compreensão do mes-
mesma, tudo isso com a energia voltada para o mo. Ocorre, com isso, um ganho de experiência
mundo externo. Até que, com o amadurecimento, nas relações interpessoais e, principalmente, um
se feito de forma saudável, o sujeito passa a escu- maior entendimento entre as pessoas. A resolu-
tar melhor a seus conteúdos internos e a valorizar ção de conflitos existentes e a evitação de outros,
mais o aceitar-se a si mesmo e não mais tanto o também começa a ocorrer, em qualquer ambiente,
que a sociedade valoriza. Com isso ele passa a ter seja no trabalho, na família, entre amigos, etc. O
uma postura bem mais honesta consigo, o que lhe entendimento melhora e a qualidade dos relacio-
permite dar mais vazão a seus próprios conteú- namentos interpessoais também.
dos, conhecendo-os melhor e, consequentemen-
te, se desenvolvendo de forma mais plena. A isso * Rafaella Silveira é psicóloga formada pela Universidade Estácio
Jung denominou processo de individuação. A pes- de Sá (2010) e pós-graduada em psicologia clínica junguiana
soa descobre que não precisa ser o que esperam pelo Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação (IBMR), em
dela para que seja aceita, basta ser essencialmen- 2012. Telefones: 99235-9772 / 3511-4518 E-mail: rafaellasilvei-
te verdadeira e espontânea que automaticamente ra@gmail.com

27
Revista de Psicologia — Especial

APROXIMANDO OS

ARQUÉTIPOS
Como perceber a manifestação arquetípica na consciência

F
alar sobre arquétipos é sempre um
desafio muito grande. É um dos
temas mais difíceis de se entender
na teoria junguiana. Em si, abarca todas
as possibilidades e incongruências; isso
já é motivo bastante para vislumbrar-
mos a grande complexidade que ronda o
tema. Desafio aceito, esse texto preten-
de permitir um olhar mais próximo da
vivencia diária a respeito das manifes-
tações arquetípicas, tornando assim, o
conteúdo possivelmente mais acessível
de todos nós.

28
Conceito — Aproximando os arquétipos

Segundo Humbert (1985) a ideia da existência


dos arquétipos é o fundamento da obra junguiana.
Os arquétipos são os componentes do inconsciente
coletivo, camada da psique comuns a todos os se-
res humanos; é no inconsciente coletivo que resi-
de, então, tudo aquilo que independente da cultu-
ra, raça, crença ou época histórica se faz presente
na psique humana. Essa noção embasa a ideia de
que em diferentes culturas e épocas os seres hu-
manos compartilhem temáticas idênticas.
“Além desses conteúdos pessoais incons-
cientes (do inconsciente pessoal), existem outros
que não provém de aquisições pessoais, mas da
possibilidade herdada do funcionamento psíquico,
quer dizer, da estrutura cerebral herdada. São as
conexões míticas, os motivos e imagens que, a todo
momento, podem reaparecer sem tradição históri-
ca nem prévia migração. A esses conteúdos chamo
o inconsciente coletivo”. (JUNG, [1921] (2009), p. 524).
O inconsciente coletivo não é acessível a ob-
servação direta podendo ser somente inferida sua
existência através de suas manifestações: imagens
psíquicas, ideias universais, sonhos, fantasias,
delírios e manifestações religiosas e míticas que,
podem ser encontrados em todos os tempos e em
toda parte. As matrizes, ou componentes, originais
que constituem o inconsciente coletivo são deno-
minados arquétipos.
A noção de arquétipo permite compreender
como em lugares distantes e culturas mais diver- “O arquétipo é a estrutura da qual saem as mes-
sas percebemos os mesmos temas recorrentes em mas ideias comuns a toda humanidade.”
suas produções artísticas, mitos, contos de fadas,
ritos, religiões, artes, filosofia, sonhos, fantasias.
Dá a noção, a todos, de que estamos ligados inse-
paravelmente à continuidade dos assuntos eternos de símbolos psíquicos, os quais atraem energia,
da humanidade. O arquétipo é a estrutura da qual estruturam-na e levam, em última instância, à
saem as mesmas ideias comuns a toda humanida- criação de civilização e cultura” (p. 81).
de. (PAULA, 2013). Nas palavras de Penna (2005): “O mundo e o
“Estamos tratando de tipos arcaicos, ou me- ser humano são definidos por sua qualidade sim-
lhor, primordiais, isto é, de imagens universais bólica. Dessa forma, o ser humano é um ser sim-
que existiram desde os tempos mais remotos” bólico, que vive numa dimensão simbólica” (p. 10).
(JUNG, [1933/1955] (2007), § 5, p. 16). A autora refere que qualquer evento (ou imagem)
O arquétipo, em si, é incognoscível. Sua ex- que mobilize a atenção, provoque sentimentos
pressão se dá via símbolo e somente este pode como estranhamento, curiosidade, repulsa ou ca-
ser conhecido. Ele só pode se tornar consciente, rinho, por exemplo, pode ser considerado um sím-
em parte, quando sua energia é ativada, a par- bolo. O símbolo, assim, é uma elaboração psíquica
tir de alguma vivência que o mobiliza, e ele se de algo em parte inconsciente que, para ter sen-
apresenta ao indivíduo através de uma forma de tido, precisa se unir à realidade externa, onde o
expressão simbólica, ou seja, de uma imagem que sentido aparece dentro de determinado contexto.
se apresenta à consciência como a melhor forma (JONES, 2007). As imagens arquetípicas adquirem
de expressar o desconhecido naquele momento. O conteúdo e substância influenciados por fatores
símbolo é sempre formado por uma base arquetí- históricos e culturais.
pica unida a imagens da consciência de cada um Quando surge a expressão simbólica, isto
e, dessa união, surge uma imagem simbólica que é, uma imagem arquetípica, esta se apresenta à
é a melhor forma de representar um determinado consciência sob um dos aspectos do arquétipo, já
conteúdo arquetípico em um determinado momen- que sempre é composto por um par de opostos.
to seja na consciência individual ou coletiva. Stein De um lado tem seu lado positivo e de outro, o
(2005) traduz arquétipo como “a fonte essencial negativo. Podemos perceber essa dicotomia nos

29
Conceito — Aproximando os arquétipos

relacionar-se a diversas questões arquetípicas di- opostos presentes em diversas manifestações


ferentes. O símbolo nunca é simples, a necessi- como luz/escuridão, vida/morte, bem/mal, lua/sol,
dade de simplificar é algo da nossa consciência masculino/feminino.
que precisa limitar para entender. Os exemplos É somente a partir da oposição que um con-
expostos aqui de símbolos relacionados a um ou teúdo arquetípico pode ser apreendido. Esse pro-
outro arquétipo não pretende, de forma alguma, cesso de conscientização ocorre gradativamente
limitar sua expressão a uma questão arquetípica já que o arquétipo está tão longe da consciência,
e sim exemplificar temas comuns recorrentes na na camada mais profunda da psique. Quanto me-
consciência humana. nos discriminados, ou seja, menos conscientes
Assim, é claro que existem tantos arqué- mais unidos estão seus opostos. Por isso, muitas
tipos quanto experiências humanas. Não seria vezes, em mitos, sonhos, as figuras aparecem tão
possível abarcar completamente esse conceito paradoxais expressando o arquétipo mais em sua
e, dessa forma,alguns arquétipos foram escolhi- real natureza.
dos tendo por base serem bastante conhecidos e “Mais próximo da consciência e percebido
importantes na teoria junguiana com o intuito mais facilmente por ela é o fenômeno de um par
de exemplificar como ocorrem as manifestações de opostos, no qual duas coisas distintas partici-
mais comuns na humanidade. pam, como aspectos complementares, de um único
O arquétipo da Sombra é composto por par- todo”. (JAFFÉ, 1995, p. 27).
tes da personalidade que foram reprimidas por Assim, uma extensa variedade de símbolos
serem opostas aquilo que a pessoa quer expressar pode ser associada a um mesmo arquétipo: sejam
e também por partes inconscientes a ela, que ain- positivos ou negativos. Todos nascemos com a ten-
da não tiveram a possibilidade de se apresentar à dência para formar certas imagens, mas a forma
consciência seja por ser percebido como algo não como elas serão formadas vai depender de cada
agradável de si mesmo ou por não ter tido ainda indivíduo ou cultura, porém todos irão ter alguma
energia suficiente para se atualizar na consciên- imagem acerca daquele tema. Por exemplo, todos
cia. Ela abarca tudo que consideramos inferior e temos uma imagem materna, ela difere em sua
inaceitável em nossa personalidade além daquilo a essência em cada pessoa, mas a tendência a for-
que não damos importância e não desenvolvemos mar uma imagem de mãe é universal. É impor-
em nós mesmos. Assim, ela contém tanto questões tante salientar que todos os símbolos relacionados
desagradáveis quanto potenciais de nossa perso- a um determinado arquétipo não possui relação
nalidade não abarcados pela nossa consciência. exclusiva com aquela origem arquetípica, podendo

“Todos nascemos com a tendência para formar certas imagens, mas a forma como elas serão formadas vai
depender de cada indivíduo ou cultura (...)”

30
Conceito — Aproximando os arquétipos

“Perceber a sombra implica em questionar a maneira “A sombra é (...) aquela personalidade ocul-
como cada um se enxerga, seus hábitos, crenças e ta, recalcada, frequentemente inferior e carrega-
valores, o que gera medo e insegurança.” da de culpabilidade, cujas ramificações extremas
remontam ao reino de nossos ancestrais anima-
lescos, englobando também todo o aspecto histó-
rico do inconsciente. Se, antes, era admitido que
a sombra humana representasse a fonte de todo
mal, agora é possível, olhando mais acuradamente,
descobrir (...) um certo número de boas qualida-
des, instintos normais, reações apropriadas, per-
cepções realistas, impulsos criadores, etc.” (JUNG,
[1961] 2005, p. 359-360).
Como todo arquétipo, então, carrega em si
aspectos contraditórios, tanto questões consi-
deradas negativas, inferiores, pela consciência
quanto aquelas qualidades que por serem des-
conhecidas podem nos auxiliar a ampliação de
nossa consciência e de nossa energia criativa.
Pode aparecer em sonhos e mitos como escu-
ridão, monstros, animais rastejantes, figuras
humanas muito diferentes do sonhador, lugares
sombrios. Um bom exemplo de um filme que tra-
duz questões arquetípicas relacionadas à Sombra
é Silent Hill, do diretor Christophe Gans (2006)
com seu mundo espelhado sombrio.
Perceber a sombra implica em questionar a
maneira como cada um se enxerga, seus hábitos,
crenças e valores, o que gera medo e inseguran-
ça. Traz conflito na personalidade vigente, já que
é necessário abarcar dois opostos, mas leva ao
crescimento, faz parte do caminho de individua-
ção da pessoa. Também podemos perceber essa
mesma questão na cultura, ou seja, a integração
de aspectos da sombra cultural também permite
a possibilidade de se questionar a forma como se
vive e, por diversos momentos, essa integração se
fez amplamente necessária como ao entender as-
pectos sombrios que levaram ao Holocausto, por
exemplo. A obra Aspectos do Drama Contemporâ-
neo ([1946] 2007), volume X/2 da obra de Jung, traz
um olhar sobre esse momento histórico.
Integrar aspectos da sombra permite à pes-
soa uma maior consciência de si mesma, um con-
tato com sua verdadeira essência e mais energia
e autonomia em sua vida.
“(...) a sombra é a porta para nossa individua-
lidade. Uma vez que a sombra nos apresenta nos-
sa primeira visão da parte inconsciente da nossa
personalidade, ela representa o primeiro estágio
para encontrar o self. De fato, não há acesso ao
inconsciente e à nossa própria realidade a não
ser através da sombra”. (WHITMONT, 2006, p. 148).
Quando trazido à consciência, o material da
sombra perde muito da sua natureza negativa,
deixa de provocar medo, já que não é mais desco-
nhecido abrindo a porta para o autoconhecimento
e nos apontando nossa verdadeira essência.
O arquétipo do herói, por sua vez, representa

31
Conceito — Aproximando os arquétipos

a força interna que todos possuímos, homem ou


mulher, como potencial a ser descoberto e utili-
zado quando necessário. É traduzido com a bus-
ca por novos caminhos, por novas possibilidades.
Sempre está presente quando entramos em um
projeto novo, quando nos desenvolvemos, em mu-
danças significativas da vida, como por exemplo,
na adolescência.
Podemos claramente perceber como esse ar-
quétipo se faz presente em nossa cultura: o ad-
vento cada vez maior de filmes de super-heróis,
conquistas de mundos desconhecidos, jornadas
heroicas. Temas presentes tanto cultural quanto
individualmente através dos sonhos e fantasias.
Nos mitos, contos, filmes e desenhos ani-
mados o herói é representado como um ser que
possui capacidades até então desconhecidas que
vem à tona no momento de necessidade, na hora
da luta. Durante sua jornada, o herói precisa se
deparar e lutar com aspectos desconhecidos de
si mesmo, simbolizado nos mitos pelo dragão, por
exemplo. O herói é aquele que contribui não só
para uma ampliação na consciência individual,
mas também coletiva, no sentido que traz à so-
ciedade as mudanças necessárias, ampliando a
consciência cultural.
É através dessa jornada que o herói contata
sua verdade mais profunda caminhando em seu
processo de individuação. É um processo natural
em todos nós, que precisa ser vivido para incor-
porar aspectos até então desconhecidos de nossa
personalidade, enriquecendo nossa vida. O legado
do herói é a transformação e ampliação da cons-
ciência. (PAULA, 2008).
Já o arquétipo da Anima/Animus, cujo termo
latino significa animar, dar vida, tem como fun-
ção psicológica estabelecer uma relação entre a
consciência e o inconsciente coletivo, permitin-
do que o ego entre em contato com conteúdos
profundos da psique a fim de caminhar em seu
processo de individuação, em sua evolução pes-
soal. Esse arquétipo é a ponte entre o ego e o
mundo interno, arquetípico, é através dele que
acessamos o nosso mundo interior, nossa ver-
dadeira essência. O feminino e o masculino, são
atributos psíquicos presentes em toda humani-
dade, mulheres e homens. A anima é o arquétipo
que representa o feminino no homem e o animus,
a representação masculina na mulher.
“A anima é o arquétipo da vida (...) pois a
vida se apodera do homem através da anima, se
bem que ele pense que a primeira lhe chegue
através da razão. Ele domina a vida com o enten-
dimento, mas a vida vive nele através da anima. E
o segredo da mulher é que a vida vem a ela atra- “É um processo natural em todos nós, que precisa
vés da instância pensante do animus, embora ela ser vivido para incorporar aspectos até então des-
pense que é o Eros que lhe dá vida. Ela domina a conhecidos de nossa personalidade, enriquecendo
vida, vive, por assim dizer, habitualmente, através nossa vida.”

32
Conceito — Aproximando os arquétipos

um relacionamento melhor com as pessoas, assim


como com outras partes da própria psique. Essa
é a função desses arquétipos, permitir um melhor
relacionamento consigo mesmo e com o mundo.
Existem inúmeros símbolos que represen-
tam o feminino e o masculino. Podemos citar os
símbolos yin e yang, o escuro e a luz, a terra e
o céu, lua e sol, noite e dia. Pode aparecer, para
o homem, como “mãe ou amada, irmã ou filha,
senhora ou escrava, sacerdotisa ou bruxa; com
os respectivos sinais contraditórios de um ser
claro e escuro, prestimoso e pernicioso, elevado
e baixo” (EMMA JUNG, [1931] (1995), p. 40) e para
a mulher como “uma quantidade de homens, um
bando de pais, um conselho ou um tribunal ou
ainda uma assembleias de homens sábios (...) o
animus pode surgir como representante ou mes-
tre de qualquer tipo de poder ou saber” (EMMA
JUNG, [1931] (1995), p. 40 – 41), além de figuras típicas
masculinas como pai, artista, professor.
Por fim, falaremos um pouco sobre o self
que é o arquétipo da totalidade, centro ordena-
dor cuja energia inesgotável emana para a psique.
“Segundo Jung ([1921] 2009, § 902, p. 442), o Si- Segundo Byington (1988) a grande finalidade do
mesmo aparece simbolicamente em sonhos, mitos ou self é a elaboração simbólica que transformará a
contos de fadas (...)” energia inconsciente em consciência colocando-a
a serviço da humanidade.
do Eros; mas a vida real, que é também sacrifício, No parágrafo 902 da obra tipos psicológicos
vem à mulher através da razão, que nela é encar- ([1921] 2009, p. 442), Jung designa o self como o
nada pelo animus”. (JUNG, [1961] 2005, p. 352). âmbito total de todos os fenômenos psíquicos no
No homem o desenvolvimento da anima in- homem. Si-mesmo, como também é chamado esse
flui na maneira dele se relacionar com os outros, arquétipo, expressa a totalidade da personalidade
em especial, com as mulheres. O arquétipo da que só pode ser conhecida em parte, e assim o
anima representa os instintos, a terra, a emoti- conceito de Si-mesmo se dá através da experiên-
vidade, a conexão profunda com as pessoas. São cia, ou seja, sua existência se afirma através da
as imagens inconscientes que o homem possui da experiência. O Self só pode ser descrito em parte,
já que o todo que o engloba “(...) continua irre-
mulher. Quando pouco integrado à consciência
conhecível e indimensionável” (JUNG, ([1921] 2009,
esse arquétipo gera estados alterados de humor
§ 902, p. 442). Assim o Si-mesmo como totalidade
no homem, enxurradas de afetos indiscriminados.
psíquica tem aspecto consciente e inconsciente.
Este homem tem variadas alterações de humor, é
Segundo Jung ([1921] 2009, § 902, p. 442), o
melancólico, inseguro e retraído e apresenta difi-
Si-mesmo aparece simbolicamente em sonhos, mi-
culdades em seus relacionamentos. A anima não tos ou contos de fadas através de personalidades
aceita se faz presente de forma destrutiva. consideradas superiores como os reis, os heróis,
O mesmo ocorre com as mulheres em relação os profetas ou em figuras que representem a tota-
ao seu potencial masculino. O animus representa a lidade como formas circulares, quadradas ou, ain-
racionalidade, a capacidade de julgar, a objetivida- da, em figuras opositoras como bandido e polícia
de, a justiça, a organização, a moral. Ele impulsiona ou o símbolo yin/yang cuja dualidade e complexi-
a mulher para agir, fornecendo energia e poder de dade expressa a ideia de Self, unidade que une os
decisão. O animus pouco integrado à consciência opostos. Aqui temos o exemplo de um símbolo que
toma a mulher, da mesma forma que a anima toma unilateralmente (yin pode representar o feminino,
o homem, e a torna preconceituosa, agressiva, re- a anima e o yang o masculino, o animus) simboli-
pressora, dogmática, argumentadora e generaliza- zam um arquétipo e unidos são símbolo de outro,
dora buscando sempre ter a última palavra. o Self por representar a união de opostos.
Porém, como salienta Emma Jung [1931] (1995), Self é o centro ordenador e unificador da
quando o animus e a anima são integrados à psique que abarca tanto o inconsciente quanto a
consciência eles se tornam um potencial criativo consciência na busca do equilíbrio e da integrida-
acarretando uma ampliação da personalidade e de. Ele conecta a pessoa no centro de si mesma,

33
Conceito — Aproximando os arquétipos

na busca de sua verdadeira individualidade ao A noção de totalidade implica na tentativa


mesmo tempo em que mantém a pessoa ligada a da psique de integrar as várias partes, no desen-
um centro transcendente, que vai além do indiví- volvimento de uma atitude que inter-relacione a
duo e abarca o todo. Ele garante o sentimento de realidade visível e a invisível que permite o senti-
totalidade que é a sensação de ter alguma meta mento pleno de ser no mundo. Essa inter-relação
na vida, de pertencer a algo maior, de nunca estar ocorre constantemente com o objetivo de integrar
sozinho. Essa conexão ego-Self mantida transmi- novos conteúdos vistos como opostos na psique,
te estrutura, segurança egóica, energia e propósi- possibilitando uma nova visão da vida que não
to de vida. (PAULA, 2008) mais exclua os opostos e sim que abarque o que
Caso isso não ocorra, quando existe uma que- era antes considerado divergente como uma única
bra no eixo ego-Self, na comunicação entre eles, o realidade, como uma totalidade.
sofrimento é inevitável. Surge o vazio, o desespero, Essa conexão entre os dois mundos, cons-
a falta de sentido na vida. A pessoa sente-se per- ciente e inconsciente, visível e invisível, se dá de
dida no mundo, não percebe sua real essência, seu forma contínua, em um movimento de mudanças
destino, não se conhece profunda e realmente. que contempla a atualização de uma nova ordem
“O desenvolvimento de uma vida proces- de dentro para fora e de fora para dentro. O mo-
sa-se em dois planos distintos, em duas dimen- vimento da vida, que egoicamente é sentido como
sões distintas da realidade: o primeiro plano é caos, desordem, é na verdade, dentro da visão
constituído pelas percepções da vida do indiví- unitária, o estabelecer de uma nova ordem mais
duo, suas motivações e ações. O segundo plano abrangente a cada novo momento.
ultrapassa o individual, as relações de signifi- “Os desarranjos que possam ocorrer sinali-
cado são o que caracterizam as ocorrências”. zam que estamos nos movendo frente a uma nova
(PEREIRA, 1998, p. 38). ordem. O caos, a desordem fazem parte do equilí-
brio da vida”. (PEREIRA, 1998, p. 109).
Esse fluxo contínuo entre os opostos se apre-
“Esse fluxo contínuo entre os opostos se apresenta a senta a nós através das produções simbólicas: so-
nós através das produções simbólicas (...)” nhos, fantasias, mitos, ritos, produções artísticas e
é através do símbolo que o inconsciente se atualiza
na consciência trazendo o enriquecimento psíqui-
co necessário à vida do indivíduo. (JUNG,[1933/1955]
(2002), p. 282).
Pudemos perceber como um terreno tão fér-
til e amplo como o inconsciente, que possui como
essência o desconhecido, se atualiza na humani-
dade de tempos em tempos. Os símbolos, com seus
desdobramentos e mudanças incessantes procu-
ram representar da melhor forma possível em
um determinado momento aspectos inconscientes
necessários a evolução humana. Jacobi (1990) des-
creve essa inter-relação amplamente necessária
entre o invisível e o visível de forma primorosa.
Para ele os arquétipos:
“Abrigam dentro de si, ainda indiferençados,
a salvação e a ruína, o bem e o mal, a saúde e
a doença, e todas as possibilidades antagônicas.
Como princípio ordenador e inteligente no homem,
cabe à consciência promover a efetividade de um
desses dois lados e unir a sua energia dadora de
sentido e forma à atuação indiferente da natureza
primitiva da psique”. (p. 110).

* Lilian Garcia de Paula Cintra é mestre e especialista em psi-


cologia clínica junguiana pela PUC-SP. Tem pós-graduação em
aprimoramento profissional em dependências e saúde mental
pela Fundap/Cratod e graduação em psicologia e licenciatura
plena pelo Mackenzie. É psicóloga clínica e realiza supervisões
de casos clínicos desde 2005. E-mail lidepaula@yahoo.com.br
Telefone: 11 99964-8509

34
Revista de Psicologia — Especial

MANDALAS
Significado, história e função terapêutica nas tradições
orientais a partir da análise de Jung

M
andala é uma palavra do sâns-
crito de acordo com sua eti-
mologia, significa uma linha
fechada em círculo que representa
simbolicamente a totalidade de um
universo. Existem teorias que escre-
vem mandala no feminino e outras no
masculino, por conta da necessidade do
idioma português de trazer um artigo
de gênero antes do substantivo. Pode-
-se entender “o mandala” como repre-
sentação do universo ou “a mandala”
como representação da alma de quem a
desenha. De qualquer forma, o gênero é
irrelevante diante de toda a simbologia
e representação dos benefícios que as
mandalas contêm.

36
Alternativa — Mandalas

As mandalas são construções circulares bidi-


mensionais (só com largura e comprimento) ou tri-
dimensionais (com largura, comprimento e altura).
São muito antigas e servem de base para a conexão
com o universo (seja ele o exterior ou o interior),
portanto com a totalidade do ser. Por serem circu-
lares, elas possuem um ponto central bem no meio,
que é o foco para onde a visão se fixa e produz um
estado de reorganização dos pensamentos e senti-
mentos. Por esse motivo as mandalas sempre foram
(e são) utilizadas pelo Budismo e pelo Hinduísmo
para práticas de meditação ativas (onde os prati-
cantes confeccionam uma mandala) e práticas de
meditação receptivas (onde os praticantes visuali-
zam uma mandala) desde os tempos mais remotos
antes de Cristo até os tempos atuais.
Segundo a visão do Médico e Terapeuta Na-
turalista Rüdiger Dahlke, as mandalas são muito
comuns e abundantes na natureza. Ele explana que,
desde a visão macrocósmica até a microcósmica, as
mandalas apresentam-se de inúmeras constitui-
ções, obedecendo sempre à circunferência em que
se formam. Também afirma que nosso Universo é
povoado de mandalas: as nebulosas planetárias, as
supernovas, as galáxias em espiral, o nosso sistema
solar, o sistema de luas de alguns planetas como
Júpiter e Saturno (e os próprios anéis de Saturno).
Rüdiger diz que, descendo um pouco mais na escala
do macro e microcosmo, o planeta terra assume a
referência de uma grande mandala tridimensional
circular: ela contém um mundo dentro e, quando
vista de fora, é um grande disco azul iluminado e “Em todo caso, as mandalas representam ordem,
que dentro do planeta terra (no contato objetivo com equilíbrio e totalidade.”
as coisas que nela estão) as mandalas naturais são
muito mais tangíveis e observáveis. Diz também que
ocidental teve início em meados do século XX, quando
elas são encontradas nas formas das copas das ár-
o Psiquiatra Suíço Carl G. Jung viajou para o Oriente a
vores, nas flores, em vegetais, frutas e leguminosos,
fim de estudar manifestações de fenômenos psicológi-
em cristais minerais, e uma infinidade de manifes-
tações. Ainda mais profundo, comenta que as man- cos observados em desenhos dos seus pacientes. Jung
dalas também são observadas quando se adentra percebeu que os desenhos dos pacientes eram muito
no mundo microscópico, quando da forma de cris- semelhantes aos desenhos circulares das culturas
tais de gelo, de grãos de areia, de células animais e orientais, as Mandalas. Observando isso concluiu que
vegetais, moléculas e mais a fundo, na constituição seus pacientes estavam manifestando intuitivamen-
do átomo, que remonta à representação de um sis- te um modelo de representação interior que buscava
tema solar, mas em miniatura. Com isso tudo, ele ordenar e reorganizar pensamentos e ideias. Assim,
mostra que o corpo humano é constituído de inú- desenvolveu conceitos importantes para a prática te-
meras mandalas, quando se toma células e átomos rapêutica com Mandalas na Psicologia Analítica. So-
como referência constitutiva e também quando se bre as Mandalas, Jung diz:
observa o corpo com os braços e pernas abertos,
em forma de estrela de cinco pontas (incluindo a “(...) quero apenas dizer que [a mandala]
cabeça), onde, unindo as pontas, forma um círculo. se trata de uma nova ordenação da personali-
Ele finaliza dizendo que até uma explosão produz dade, de certo modo, de uma nova centraliza-
uma forma de mandala e que fica difícil mensurar ção. Por esse motivo as mandalas aparecem de
sua origem, porque toda história pressupõe tempo, e preferência depois de estados de desorientação,
que a mandala existe em Essência, onde a força de pânico ou caos psíquico. Sua meta, pois, é a de
atração dela é para seu centro que anula a questão transformar a confusão numa ordem (...). Em
tempo e espaço, para dar espaço ao Ser e Existir. todo caso, as mandalas representam ordem,
O estudo científico da Mandala na cultura equilíbrio e totalidade”. (§645).

37
Alternativa — Mandalas

Algumas décadas depois no Brasil, a psiquia- organização da Mandala é revelada à Luz da Cons-
tra Nise da Silveira também fez as mesmas obser- ciência, pois o indivíduo mandalante está ao mesmo
vações nos desenhos dos seus pacientes. Nise então tempo dentro de si imaginando o que vai desenhar
se correspondeu com Jung por cartas, de onde veio e fora, vendo o resultado daquilo que se imaginou e
confirmação de que as Mandalas eram a manifes- foi desenhado. A força de mandalização é o desejo
tação do Princípio Auto Regulador da Psique, numa de se ver por dentro, num encontro ancestral com
tentativa de reorganização interior dos seus pa- as formas de totalidade mais primitivas como o Sol,
cientes. Nise então introduziu o trabalho de Jung no as Flores, a Abóboda Celeste Estrelada, a Lua, etc.
Brasil e este resultou no Museu de Imagens do In- O mandaleiro é tomado então por uma profunda
consciente no Rio de Janeiro, em atividade até hoje. curiosidade ao ver uma forma circular saindo de
Sobre a Mandala especificamente, ela é uma dentro dele, já que desde criança muito do que o
espécie de impressão feita com as mãos, de imagens cerca na natureza tem forma e contorno circular.
e símbolos interiores que são pessoais e/ou coleti- A curiosidade gera questionamento e o questiona-
vos da história de quem a produz. O ato de produ- mento o leva a buscar respostas para tais mistérios
zir uma mandala desencadeia um desprendimen- interiores revelados na Mandala. Neste fenômeno
to de energia dos sentimentos e emoções internas de mandalar, o mandaleiro acaba buscando fon-
que estão ligados aos símbolos e imagens que vão tes de energia que possam alimentar a curiosida-
surgindo fora. É neste momento de criação que o de, dando-lhe elementos concretos do lado de fora
indivíduo mandalante consegue mergulhar no seu dele para saciá-la. É assim que começa o movimento
inconsciente e se conectar com seu interior para de “por para fora”, com “ação criativa” sentimen-
trazer aquilo que está pronto para ser visto em for- tos desconfortáveis como o medo, angústia, perdas,
mas e cores desenhadas ou construídas. solidão, ansiedade e afins, bem como sentimentos
Na mandala, são representados as mais varia- confortáveis como amor, paz, harmonia, verdade e
das imagens e símbolos. Eles podem vir de forma afins. Com toda essa energia circular, a mandala
direta (corações, peixes, flores) ou de forma indireta feita por um indivíduo passa a ser o depósito simbó-
(reunião de vários traços e formas que juntos mon- lico e imagético dos sentimentos confortáveis e des-
tam uma imagem única). Esse mundo de símbolos e confortáveis, num único contexto circunferencial.
imagens é a “fotografia da alma” daquilo que sem- Dar forma aos sentimentos e emoções significa
pre existiu dentro daquele indivíduo que desenhou, dar aparência, experimentar como as coisas se ma-
mas que não podia ser vista por estar lá dentro nifestam compreendendo um modo ou uma maneira
nas penumbras da sombra. Quando desenhada a de se fazer algo para compreender. Dar forma é uma

“O ato de produzir uma mandala desencadeia um desprendimento de energia dos sentimentos e


emoções internas (. . .) ”

38
Alternativa — Mandalas

das tarefas de um mandalista. É uma forma de se criativo, sensibilidade, improvisação, discernimento,


conhecer vendo sentimentos e emoções associados equilíbrio, desenvolvimento, administração de solu-
com formas e cores no contexto da circunferência ções, compreensão, espírito de conclusão, comuni-
sendo preenchida. Sendo assim, as mandalas po- cação, socialização, valorização, resgate de valores
dem ser construídas por duas linhas de ação: a (re) humanos, entre outros mais. É importante afirmar
produção de movimentos artísticos onde a mandala que o trabalho terapêutico com Mandalas deverá
tenha se manifestado anteriormente e com o desen- ser conduzido por profissional capacitado para essa
volvimento de técnicas utilizadas para a construção. função: Arteterapeutas, Psicólogos, Médicos Psiquia-
Neste caso, a Mandala possibilita experiências an- tras Junguianos, Analistas Junguianos, Terapeutas
teriormente desenvolvidas por outros mandalistas, Ocupacionais e alguns profissionais de Terapias
para que o mandalista possa conhecer de quê as Holísticas com formação comprovada em Mandalas.
mandalas são feitas, em seu conteúdo, forma e técni- É importante conhecer sobre a formação do pro-
ca. Desta maneira é tida como área de conhecimen- fissional de escolha antes de começar um proces-
to, pois o indivíduo é desprovido do conhecimento da so com Mandalas, pois todo o processo carece de
forma e conteúdo das Mandalas e terão que passar profundas experiências dos profissionais e pessoais
pelo processo de formação deste conhecimento, teó- do facilitador destas terapias. Um profissional sem
rico e prático. Neste caso a produção é focada numa essas características poderá reduzir o trabalho a
técnica e num resultado já alcançado anteriormente um mero momento de lazer ou a uma visão pes-
por um artista ou movimento histórico. Essas man- soal particular e não produzir os efeitos terapêu-
dalas servem para conhecer a história da Arte de ticos profundos que as Mandalas realmente podem
mandalar, suas técnicas e seus expoentes. Quando oferecer quando conduzidas por profissionais ca-
um apreciador e/ou (re) produtor de Mandala assim pacitados para isto. Essa observação vale também
a faz, está fruindo com a cultura e a técnica dela; para os livros de colorir Mandalas: comprar um li-
está respondendo fenomenicamente ao que o man- vro e colorir não é a terapia em sí, pois toda terapia
dalista de origem imprimiu na obra em questão e consiste num processo que envolve um indivíduo
também absorvendo essa cultura de forma emocio- em análise e um facilitador para que esse proces-
nal e racional. Na Mandala são evocados princípios so seja conduzido e direcionado. Um livro não tem
de estética como beleza, equilíbrio, harmonia (pro- a capacidade humana de conduzir nem orientar
porção e ordem), forma, realidade sensível, simetria, uma pessoa no seu processo particular de busca de
composição, proposição, fenomenologia sentimental organização e reintegração psíquica. As atividades
(princípios do prazer e do desprazer) e idealismo. de colorir livros de Mandalas prontas são apenas
É a partir desses elementos que o indivíduo realiza artísticas e nem por isso deixam de ser atividades
conceitos e julgamentos a respeito de suas mandalas
e é por onde pode ampliar o olhar em relação ao “Já na terapia, a função das mandalas é ser um pro-
mundo interior e a cultura que o atrai. cesso no qual o indivíduo possa mudar de um estado
Já na terapia, a função das mandalas é ser de espírito para outro (...)”
um processo no qual o indivíduo possa mudar de
um estado de espírito para outro, de um estado in-
cômodo para um estado livre e sadio. Isto traz o
despertar do alívio interior por intermédio da reor-
ganização dos conteúdos do inconsciente, pois as
mandalas possibilitam a realização de atividades
criadoras de organização interior. Isso é possível,
porque a mandala ajuda a buscar sentimentos se-
cretos do inconsciente. Assim, às vistas da consciên-
cia, podem ser integrados e transcendidos, que pos-
sibilita viver uma vida mais satisfatória. A aparição
de imagens na mandala quando visualizadas na
construção energiza neurônios em diferentes re-
giões do cérebro. Assim, a consciência percebe que
há um fenômeno neuroquímico intimamente ligado
ao resultado organizado que o inconsciente projeta
na maneira como a mandala é construída: como as
cores são escolhidas e como as formas se integram
e se repetem. Sendo assim, o trabalho terapêutico
com as mandalas poderá levar o indivíduo a desen-
volver aspectos como a imaginação, ideia, conhe-
cimento, iniciativa, planejamento, criatividade, ato

39
Alternativa — Mandalas

que estimulam a criatividade e a coordenação mo-


tora. Elas estão mais para o resgate daqueles mo-
mentos nostálgicos de colorir folhas mimeografadas
ou fotocopiadas de desenhos prontos do que servir
como base para uma terapia, pois, não existe au-
toterapia. Num processo terapêutico conduzido por
um profissional capacitado é importante salientar
que: o indivíduo construirá suas próprias mandalas
não seguindo modelos pré-definidos e é essa cons-
trução somada a experiência do profissional que
trabalhará profundamente com o alinhamento das
funções psíquicas do pensamento, sentimento, intui-
ção e sensação no processo terapêutico.
Sendo assim, as mandalas terapêuticas são
produto do ato criativo do ser humano, oriundo de
seu universo interior manifestado. Elas são cons-
truídas com base em alguns conceitos técnicos. O
círculo da Mandala é o espaço interno total onde
a mandala tomará forma. É como se a psique fosse
representada sem o corpo físico material: apenas
ela (o aspecto psíquico representado) e o mundo que
a rodeia (sendo este mundo, o próprio mundo que
a pessoa está inserida). É o espaço psíquico onde o
mundo interno toma forma, resultando na mandala
como produto final do processo. A circunferência da
Mandala, feita a mão livre, com compasso ou algum
aparato de contorno é a margem final do círculo, o
contorno da margem, que representa o limite entre
o mundo interno e o mundo externo. A margem é
“A simbologia são os desenhos que surgem na mente e
o limite, é como a pessoa se relaciona com aquilo que devem ser aplicados na mandala.”
que deveria separar o contexto interno projetado
com o contexto externo com que o tema projetado
aplicados e desenhados. Outro detalhe importante é
se relaciona. A divisão da circunferência em partes
que os desenhos produzidos devem ser considera-
iguais objetiva a formação de fatias para que a or-
dos pelo contexto e não pela beleza da forma. De-
ganização possa ser aplicada. As fatias geralmente
ve-se eliminar o julgamento, a comparação e evitar
representam áreas da vida e estão intimamente li-
a autocrítica como: “tá feio”, “tá esquisito”, “tá horrí-
gadas a fatores numerológicos da cultura regional.
vel”, “tá estranho”, etc. Na terapia com Mandalas, o
As fatias são importantes para que a reorganização
importante não é a beleza e sim o resultado final.
ocorra por meio da repetição dos temas impressos.
Os preenchimentos são os recheios das formas e
São as repetições que fazem com que o inconsciente
dos espaços que existem entre elas. Com o preen-
se reorganize por dentro, exatamente como são fei-
chimento, adquire-se uma sistemática apreensão do
tas as organizações de roupas num armário, de en-
espaço trabalhado, fazendo com que a consciência
feites numa estante, de materiais numa bancada. A
passe por todas as regiões daquele contexto ali pro-
simetria é a distribuição dos caracteres de forma e
jetado. Segundo a tradição tibetana, preenchem-se
posição idênticas, dentro de cada fatia e anel dese-
todos os espaços como uma religação com o próprio
nhados. A simetria é a técnica que fundamenta toda
Ser Divino Interior, numa alusão à Totalidade. É im-
a estrutura de organização interna no inconsciente.
portante lembrar que nas mandalas terapêuticas, o
Cada símbolo, grafismo, contorno ou preenchimento espaço vazio é neutro, e é o mandalante que dará o
representado deve passar pelo crivo da consciência significado ao espaço vazio aparente.
por mais de uma vez, simetricamente. A primeira
representação na primeira fatia é a extrojeção pura, * Arthur Fernando Drischel é graduado em educação artística com
e as subsequentes nas outras fatias, são a confir- habilitação em música e pós-graduado em arteterapia junguiana e
mação desta nova Ordem Interior em construção na valores humanos. Com mais de 40 cursos de extensão universitária
Mandala. A simbologia são os desenhos que surgem nas áreas de artes e psicologia, atualmente cursa especialização
na mente e que devem ser aplicados na mandala. É em psicologia analítica na Faculdade de Medicina da Unicamp.
importante entender que, enquanto se desenha uma Especialista em mandalas desde 2002, atua como arteterapeuta
mandala, surgem imagens, sons e símbolos em nos- facilitador de contato com o inconsciente por meio de imagens e
sa mente, e que são esses os conteúdos para serem símbolos no ato criativo via mandalas.

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Revista de Psicologia — Especial

41
Revista de Psicologia — Especial

FREUD E JUNG
Faróis da alma nos mares do inconsciente

Ó mar salgado [...]


Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar.
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Fernando Pessoa

I
maginemos a seguinte cena: é noite,
estamos navegando em um mar
imenso e profundo, que nos pare-
ce maravilhoso e convidativo às mais
belas inspirações, mas que, ao mesmo
tempo, nos parece terrível, pois não
sabemos onde ele nos levará. Ele nos é
desconhecido, e, quiçá, cheio de perigos.
Que alívio não sentiremos ao encontrar-
mos, no meio da escuridão da noite e do
oceano, um farol! Uma luz, pequena que
seja, que poderá nos indicar algum ca-
minho, ou pelo menos, mostrar que por
aqui ou ali há um povoado, um pouco de
terra, um traço de humanidade, que nos
aliviará um pouco do medo que temos
de que esta imensidão aquática, tão fa-
bulosa aos nossos olhos, nos engula. Por
certo o farol não impedirá que o oceano
continue misterioso e gigantesco em re-
lação à nossa pequena embarcação, mas
certamente sua luz haverá de nos dar
uma certa segurança para seguirmos
nossa jornada.

42
Psicanálise — Freud e Jung

É com esse espírito de navegador que convido a Passou alguns meses estudando com Charcot, um
você, leitor, que embarque neste texto. Traçarei, nele, famoso neurologista, em Paris. Charcot estudava a
alguns caminhos e descaminhos que Freud e Jung per- histeria como resultado de processos físicos patoló-
correram, ora juntos, ora separados. Esses dois gigantes gicos, e não psíquicos. Freud, no entanto, postulava
da psicologia foram, no meu ponto de vista, verdadeiros que poderiam haver questões psicológicas por trás
faróis para a ciência ocidental na virada do século XIX da doença, e, no aprofundamento de suas pesquisas
para o século XX; e nós, seguidores entusiastas de suas (e na troca de conhecimento com outros estudiosos
descobertas, ainda estamos longe de vislumbrarmos o da histeria, como Josef Breuer), concluiu que a causa
que eles viram, tanto em extensão quanto na profundi- maior da doença histérica provinha de traumas de
dade dos mares do inconsciente. Falo em “mares” do cunho sexual (APPIGNANESI e ZARATE, 2012).
inconsciente porque o conceito de inconsciente foi jus- Enquanto isso, Carl Gustav Jung, 19 anos mais
tamente um dos grandes pontos de convergência (e de- jovem que Freud (Jung nasceu em 1875, em Kesswil,
pois de divergência) entre os dois estudiosos da psique. Suíça), crescia e direcionava sua vida para a psiquia-
Vale ressaltar ainda que, como psicóloga tria. Jung (1963, p. 133) afirma que seu “desenvolvi-
junguiana, escrevo sobretudo a partir de tex- mento interior, intelectual e espiritual, havia come-
tos de Jung, buscando informações sobre Freud çado pela escolha da psiquiatria”; e que as pesquisas
dadas pelo próprio Jung. Devo adiantar que es- de Breuer e de Freud, além dos trabalhos de Janet,
taremos longe de percorrer todas as ondas que foram fontes de estímulo e riqueza para suas próprias
embalam as idas e vindas das ideias desses ho- investigações, já que ele também se preocupava em
mens geniais. O que peço, no entanto, é que nos saber o que acontecia na personalidade do doente
deixemos embalar pelo que aqui foi possível re- mental. As afirmações de Freud sobre a existência
gistrar, sem que percamos o equilíbrio da nossa de um mundo subjetivo inconsciente, que poderia
embarcação. Iniciemos a viagem. ser investigado através dos sonhos e do método de
Sigmund Freud nasceu em 1856, em Freiburg. associação livre, foram decisivas para que Jung se
Em 1860 sua família mudou-se para Viena, e foi lá voltasse para a psicanálise.
que Freud iniciou e desenvolveu seus estudos e tra- Jung (1963) considerou o método de associação
balhos como médico neurologista. Antes de começar livre semelhante ao que ele próprio havia desenvolvi-
as atividades em seu consultório particular, ele tra- do com seus pacientes no hospital psiquiátrico de Bur-
balhou em clínica médica e psiquiátrica, recebendo ghölzli, em Zurique: o método de associação com pa-
influência da visão mecanicista da ciência daquele lavras. Este consistia em medir o tempo de resposta e a
período. Freud desejava ser um cientista, e realizou intensidade emocional que a acompanhava, a partir de
importantes trabalhos sobre o sistema nervoso até determinadas palavras-estímulo que eram dadas pelo
direcionar-se, definitivamente, para a neurologia. pesquisador. Para cada palavra-estímulo, o paciente
deveria associar a primeira palavra que lhe viesse à
mente. Com este experimento, Jung percebeu que havia
“As ideias da psicanálise viriam a ser o marco inicial um mecanismo de recalque atuando no sujeito a cada
de uma abertura para o mundo de subjetividade e
vez que a palavra indutora tocava em uma dor moral ou
inconsciência que trazemos conosco.”
conflito; ou seja: havia um complexo psíquico incons-
ciente por trás das reações do paciente. Os resultados
da pesquisa de Jung foram confirmados pela leitura de
A interpretação dos sonhos, de Freud. Este livro, se-
gundo Jung, era revolucionário para a época.
A interpretação dos sonhos, publicada em 1900,
causou, sobretudo, uma revolução cultural. As ideias
da psicanálise viriam a ser o marco inicial de uma aber-
tura para o mundo de subjetividade e inconsciência que
trazemos conosco. Aspectos humanos como fantasias,
sonhos, imaginação, linguagem mítica, emoções e tudo
o mais que diz respeito ao lado profundo e obscuro da
psique, começavam a vir à tona para serem analisados,
a partir daquele momento, com a respeitabilidade das
lentes científicas, que, apesar de ainda estarem sob a
influência do intelectualismo mecanicista, atribuiriam
um valor cada vez maior para esta nova perspectiva
(GRINBERG, 1997).
Freud e Jung foram pioneiros e entusiastas de
todo esse movimento científico- cultural proporciona-
do pela psicanálise, e travaram uma amizade intensa

43
Psicanálise — Freud e Jung

mais ou menos, acrescentando que poderia


talvez adiantar algo mais, se ele me desse al-
guns detalhes suplementares, relativos à sua
vida particular. Tal pedido provocou em Freud
um olhar estranho — cheio de desconfiança – e
disse: ‘Não posso arriscar minha autoridade! ’
Nesse momento, entretanto, ele a perdera! Esta
frase ficou gravada em minha memória. Prefi-
gurava já, para mim, o fim iminente de nossas
relações. Ele punha sua autoridade pessoal aci-
ma da verdade.
As palavras de Jung denotam o quanto ele
se preocupava em não encobrir verdades, nem
mesmo em nome de sua sincera amizade por
Freud. Mas, ao mesmo tempo, Jung (1989) reco-
nhece que não é possível afirmarmos verdades
absolutas sobre a essência da natureza psíqui-
ca, pois o que temos ao nosso alcance são ob-
servações subjetivas sobre a psique. Por mais
que nos pareça seguro de que o material psico-
lógico que se apresenta para nós seja verdadei-
ro, ele não é mais do que uma forma pessoal de
percepção: ele não é mais do uma verdade par-
ticular, subjetiva, a “nossa” verdade. É por isso
que, para Jung, o que podemos fazer de melhor
em nome da ciência é apresentarmos ou confes-
sarmos sobre a coisa observada da forma mais
verdadeira que nos for possível.
Foi justamente a importância extremada que
Freud atribuía à sua própria verdade que fez com
que a relação entre eles fosse se desgastando.
Mesmo que Jung, apoiado por suas próprias ex-
“É por isso que, para Jung, o que podemos fazer de
melhor em nome da ciência é apresentarmos ou periências, discordasse desde o princípio da ideia
confessarmos sobre a coisa observada da forma mais de Freud de que todas as neuroses são causadas
verdadeira que nos for possível.” por recalques ou traumas sexuais, ele continuou
apoiando-o até 1913. Sonu Shamdasani (2005) es-
a partir de 1906. Interesses comuns fizeram com que clarece que mesmo antes de 1913 já havia, na cor-
eles se correspondessem regularmente, mas foi apenas respondência entre eles, acusações mútuas. Es-
sas acusações tiveram seu ápice numa carta que
em 1907 que os dois se encontraram pela primeira vez.
Freud enviou para um outro colega suíço, na qual
Jung foi até Viena visitar Freud, e eles conversaram
criticava Jung abertamente. Nas trocas de corres-
durante treze horas seguidas. Jung tornou-se um im-
pondências entre os colegas que acompanhavam
portante apoiador da psicanálise, estando diretamente
o movimento psicanalítico, surgiu a questão das
vinculado a Freud até 1913. Jung, inclusive, tornou-se
diferentes visões de mundo que se avolumavam
o primeiro presidente da Associação Internacional de entre o grupo de Viena e o de Zurique. Shamda-
Psicanálise (IPA), e eles passaram a ter uma relação sani explica (2005, p. 67): “Os vienenses achavam
cada vez mais direta, inclusive analisando os sonhos que o grupo de Zurique tinha abandonado a psi-
um do outro e participando de conferências ao redor do canálise e se perdera no misticismo, em virtude
mundo (HYDE e McGUINNESS, 2012). de complexos paternos negativos”.
Em 1909, Freud e Jung foram convidados a darem Jung já havia percebido que Freud havia
conferências nos Estados Unidos. Foram de navio, pas- adotado uma postura paterna em relação a ele.
sando sete semanas juntos, e nessa viagem apareceram Na viagem para os Estados Unidos isso havia fica-
tensões importantes na relação deles. No exercício de do muito claro, tanto na questão do medo da per-
analisarem os sonhos um do outro, Freud não quis reve- da de autoridade de Freud, quanto nos conteúdos
lar alguns aspectos pessoais para Jung, temendo perder que apareceram nos sonhos de Jung, interpreta-
sua autoridade, e justamente por isso a perdeu. Vejamos dos por Freud como um desejo de Jung de matá-lo.
as palavras de Jung (1963, p. 142): Mas o fato mais marcante do complexo paternal
Freud teve um sonho. [...] Interpretei-o de Freud para Jung, no meu entender, aconteceu

44
Psicanálise — Freud e Jung

no segundo encontro que eles tiveram em Viena, a sexualidade, para Freud, havia tornado-se nu-
em 1910. Conta Jung (1963, p. 136): minosa, isto é, sagrada, sendo vivida por ele como
Tenho ainda uma viva lembrança de Freud uma verdadeira religião.
me dizendo: ‘Meu caro Jung, prometa-me nun- Jung percebia que Freud sentia-se amea-
ca abandonar a teoria sexual. É o que importa, çado por conteúdos religiosos do inconsciente,
essencialmente! Olhe, devemos fazer dela um mas Freud jamais admitiria que a atitude que
dogma, um baluarte inabalável.’ Ele me dizia estava tendo para com sua teoria fosse religio-
isso cheio de ardor, como um pai que diz ao fi- sa. A consciência de Freud foi tomada pela sua
lho: ‘Prometa-me uma coisa, meu caro filho: vá própria teoria sexual, e esta, na opinião de Jung
todos os domingos à Igreja! ’ Um tanto espanta- (1963, p. 137), “não era menos premente, imperio-
do, perguntei-lhe: ‘Um baluarte contra o quê? ’ sa, exigente, ameaçadora e moralmente ambiva-
Ele respondeu-me: ‘Contra a onda de lodo ne- lente” (e até temível), do que a ideia religiosa de
gro do...’ Aqui ele hesitou um momento e então um Deus que se oculta em cada um de nós. Mas
acrescentou: ‘... do ocultismo! ’ Jung mantinha essas percepções secretamente.
Jung (1963) ficou assustado com as palavras Ele via em Freud uma amargura muito grande,
baluarte e dogma, proferidas por Freud de for- e a despeito de toda a numinosidade que a teo-
ma tão incisiva, e sentiu, então, o quanto ele es- ria do trauma sexual acendia nele, ela acabava
tava apegado à sua própria teoria sexual, além restringindo-se a apenas uma parte — mesmo
de tomado por uma vontade pessoal de poder. O que de fundamental importância — do sistema
desejo de Freud de que a psicanálise se tornasse psíquico: os instintos biológicos.
algo indiscutível e inabalável contrariava o es- Ainda que Jung entendesse que a teoria da se-
pírito crítico de Jung, que considerava qualquer xualidade, quando tomada subjetivamente, poderia
verdade científica de forma relativa e hipotéti- incluir a religiosidade, sua linguagem a restringia
ca. Naquele momento, Jung sentira que o cerne significativamente, justamente por ser muito con-
da amizade deles estremecia ainda mais. Ele não creta e biológica. Ela era vista por uma perspec-
entendia porque Freud negava tão acentuada- tiva causal e apenas de fora (da consciência) para
mente os conteúdos religiosos, filosóficos ou pa- dentro (para o inconsciente pessoal do indivíduo).
rapsicológicos do inconsciente, tomando-os como E a dinâmica psíquica, para Jung, deveria ser con-
ocultismo. Para Jung, a teoria sexual tinha um siderada em todos os seus aspectos, não só a partir
conteúdo tão oculto quanto esses outros aspectos do inconsciente pessoal, mas também do que emer-
da alma humana; e ele compreendeu, então, que ge do inconsciente coletivo, ou seja: deveríamos

“O desejo de Freud de que a psicanálise se tornasse algo indiscutível e inabalável contrariava o espírito crítico
de Jung, que considerava qualquer verdade científica de forma relativa e hipotética.”

45
Psicanálise — Freud e Jung

considerar tudo o que a totalidade inconsciente


mobiliza em nós, inclusive a dimensão filogenéti-
ca e histórica da humanidade. A psique é formada,
para Jung, nos embates da consciência com a di-
mensão pessoal e com a dimensão coletiva do in-
consciente, e devemos ter cuidado com os termos
que tentam descrever a riqueza de processos que
envolvem a dinâmica psíquica.
Jung (1989, p. 323) esclarece que as divergên-
cias entre os seus pontos de vista e os de Freud
deveriam ser encarados como “diferenças entre
as ideias que se chamam Freud e Jung”. Ele pre-
tende assegurar, com este rigor linguístico, que é
impossível haver imparcialidade ou objetividade
absolutas em qualquer construção científica, e,
principalmente, em psicologia. Para Jung, não so-
mos nós que temos ou fazemos as ideias. São elas,
na verdade, que nos têm e dominam, somos seus
serviçais. O máximo de inteireza científica que
podemos alcançar é confessar nossas ideias com
sinceridade, pois elas brotam em nós de algo mui-
to maior do que a nossa subjetividade, ou de nos-
sa psique pessoal. Por isso Jung não se vê como
um opositor de Freud. Ele crê que Freud, justa-
mente por ter seguido sua verdade pessoal com
tanta dedicação, contribuiu para o florescimento
de verdades que estão profundamente enraizadas
em todos nós.
Jung afirma que inúmeros casos — e nenhu-
ma pessoa que trabalhe com saúde mental há de “Para Jung, não somos nós que temos ou fazemos
negar isso — de doenças psíquicas se encaixam as ideias.”
perfeitamente na teoria de Freud. O que ele dis-
cute é que não dá para tomar todos os casos por é extremamente dinâmico, impulsionador ativo
alguns, mesmo que estes sejam numerosos, e que e incessante do fluxo de energia vital em nós.
haverá outras formas de ver a psique, sempre No Self estariam, de forma indiferenciada, for-
conforme o tipo psicológico da pessoa e o modo ças psíquicas opostas ou complementares entre
de vida daquele que tem a visão. Ele cita, por si, como esses aspectos abordados por Freud e
exemplo, Alfred Adler, que foi um dos primeiros Adler. Jung reuniu a diversidade de impulsos e/
discípulos de Freud, mas que acabou tomando um ou forças psíquicas primordiais (arquétipos)
outro rumo para entender a doença psíquica. En- sob o conceito de energia, para não diminuir as
quanto Freud fixou-se no recalque de Eros em intensidades de valores da alma/psique a uma
nós, ou nos efeitos psíquicos acarretados pela re- terminologia reducionista e limitadora, como a
pressão do princípio de prazer, Adler dedicou-se da sexualidade. É na interrupção ou nas dificul-
aos problemas decorridos de uma fraca vontade dades de relação entre a consciência e o fluxo
de poder, ou de uma afirmação insatisfatória do energético natural que temos os diferentes graus
indivíduo perante o mundo. Já para Jung (1963, p. de patologias e/ou dissociações psíquicas.
139), eros é “uma força que se sofre passivamente, O polo oposto dos instintos biológicos estaria
e o instinto de poder [é uma] força ativa, e vice- ligado à função religiosa da psique. Esta função
-versa. O eros recorre tantas vezes ao instinto diz respeito à experiência humana em relação ao
de poder como o instinto de poder ao eros. O que espírito — ou ao sentido que damos às nossas vi-
seria um desses instintos sem o outro?” das. Jung 1989, p. 328) entendia a função religiosa
Um dos aspectos criticados por Jung em re- como a “única possibilidade de romper o círculo
lação às psicologias desses pesquisadores é que vicioso dos eventos biológicos”; e afirma que, por
elas dão uma importância exagerada ao lado causa de seu interesse e preocupação por este
patológico da psique. Jung entende que a psi- importante aspecto da totalidade psíquica, o acu-
que é fonte de saúde e criatividade, e não ape- saram de misticismo. Mas Jung parecia estar mais
nas de doenças e recalques. Para ele, há um nú- ocupado em viver sua própria totalidade psíquica
cleo psíquico central, o Self ou Si-mesmo, que do que se preocupar com as acusações sobre ele.

46
Psicanálise — Freud e Jung

Ele compreendia que assim como cada cientista escolas de psicologia: todo o analista deveria
só pode confessar as ideias que dominam sua psi- passar por uma análise didática. Essa prática foi
que pessoal, também cada pessoa é o resultado de prontamente reconhecida por Freud, e se mantém
tudo o que viveu e conseguiu (ou não) integrar de até os dias de hoje tanto na psicanálise quanto na
seus acontecimentos psicológicos anteriores. psicologia analítica (como também é chamada a
Jung não estava interessado em criar uma psicologia junguiana) (SHAMDASANI, 2005).
escola de psicologia. Ele queria entender a alma Jung tinha a esperança de que a análise
humana em todas as suas dimensões e, para — direcionada ao analista ou a qualquer pes-
isso, debruçou-se sobre uma variedade enorme soa — auxiliasse o sujeito para que ele viesse
de temas, que iam desde a dimensão biológica a tornar-se ele mesmo; isto é, que o ajudasse a
chegar a um nível de individuação onde a sua to-
instintiva do ser humano até a alquimia medie-
talidade psíquica pudesse travar uma nova forma
val, passando pela filosofia, mitologia, história
de relação tanto com o mundo da consciência — o
das religiões, gnose, literatura, artes em geral,
mundo de nossas relações cotidianas ordinárias,
entre outros. Ele via uma complexidade imensa extrovertidas — quanto com o universo incons-
na psicologia, e tentou conduzi-la para além de ciente, seja em sua dimensão pessoal (incons-
sua própria equação pessoal. Para ele, a psico- ciente freudiano), ou coletiva (onde está a poten-
logia exigiria o sacrifício do autoconhecimento, cialidade criativa essencial do ser humano). É no
e esse seu modo de pensar acabou tornando-se inconsciente coletivo que a polaridade do espíri-
uma proposta que viria a ser adotada por muitas to pode ser experimentada, pois é onde a intro-
versão e as reflexões têm seu lugar assegurado.
“O apego à novela familiar ou aos aspectos passa- Quanto menos unilateral for a visão do analista,
dos da psique pessoal podem aprisionar a energia mais possibilidades de ir além do inconsciente
psíquica (...)” pessoal terá o analisando, e mais criatividade
poderá ser liberada em sua psique. O apego à
novela familiar ou aos aspectos passados da psi-
que pessoal podem aprisionar a energia psíquica,
gerando desde neuroses leves até patologias mais
severas, como as psicoses (SHAMDASANI, 2005).
Não podemos subtrair de nós o viés subjetivo de
nossa alma, mas ele pode ser ampliado e relativi-
zado conforme nossa abertura para com o pro-
cesso de individuação.
Após a ruptura entre Freud e Jung, cada
um levou adiante suas pesquisas psicológicas.
Tanto a psicanálise quanto a psicologia analí-
tica são fontes de inspiração e formação para
centenas de analistas ao redor do mundo. E elas
também se tornaram populares, pois, aos pou-
cos, os termos psicanalíticos e analíticos foram
inserindo-se na linguagem das mais diversas
áreas, estando cada vez mais acessíveis ao co-
nhecimento de todos.
Podemos observar, portanto, que as luzes
de Freud e Jung continuam acesas. O foco de
seus faróis segue guiando aqueles que se de-
cidem pela travessia dos mares da psique in-
consciente. Mesmo que uma e/ou outra ilumine
apenas dentro de um certo alcance, elas permi-
tem que sigamos com maior segurança nossa
jornada, pois sabemos que não estamos total-
mente perdidos, ou à mercê de uma absoluta e
completa escuridão.

* Gisela Cardoso é psicóloga.


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47
Revista de Psicologia — Especial

PERSPECTIVAS
E PILARES
DA PSICOLOGIA ANALÍTICA DE

CARL JUNG
Compreendendo os
pontos centrais da
teoria junguiana

É
bem comum, quando começamos
a estudar a psicologia analítica,
ouvirmos alguém dizer que Jung é
difícil ou mesmo termos dúvidas a respeito
das diferenças entre psicologia analítica e
outras abordagens que lidam com o in-
consciente, especialmente a psicanálise.
Certamente, Jung é um autor que exige um
pouco mais do leitor e as dúvidas com rela-
ção à psicanálise são ainda mais comuns,
visto que colaborou com Freud durante um
período de sete anos (1907-1914). Nosso ob-
jetivo, neste texto é ajudar a dissipar esse
preconceito de “Jung ser difícil” e essas
dúvidas comuns, refletindo sobre alguns
aspectos fundamentais do pensamento que
chamamos de “perspectivas” e “pilares”.

48
Psicologia — Perspectivas e pilares da Psicologia Analítica de Carl Jung

As perspectivas falam dos pontos de partida, e a doença é uma tentativa da natureza de cura-la”
uma compreensão geral e a priori necessárias para (Jung, 2000, p.161).
olharmos o fenômeno psíquico e que possibilitam Assim, a perspectiva da saúde é um dos aspec-
compreendermos alguns “pilares” teóricos ou eixos tos mais fundamentais da psicologia junguiana, pois
que sustentam a construção teórica junguiana. As dú- a partir dessa perspectiva não só mudamos nossa
vidas acerca do que diferenciaria ou que seria mais forma ver, perceber e vivenciar a psique, mas tam-
próprio da psicologia analítica não são exclusividade bém podemos compreender um pilar fundamental da
de nossos dias. Também na época de Jung haviam psicologia analítica: a autorregulação psíquica. Para
essas dúvidas. Frente a essa situação Jung acabou es- Jung, a autorregulação é a capacidade de a psique
crevendo um pequeno artigo chamado “A divergência encontrar o próprio equilíbrio. Toda atividade psíqui-
entre Freud e Jung” (1929), onde ele buscou esclarecer ca visa o equilibro dinâmico, isso quer dizer que a
suas diferenças com Freud e terminou dizendo que “A psique possui uma dinâmica natural que visa a pre-
oposição entre Freud e eu repousa essencialmente na servação e manutenção da vida. A autorregulação
diferença de pressupostos básicos” (Jung, 1989, p. 329). mantém o equilíbrio da atividade psíquica através da
Assim, vamos “conversar” um pouco com esse texto formação dos símbolos (que veremos mais adiante)
de Jung, para compreender os pressupostos e, assim, que se manifestam através dos sonhos, sintomas, das
nossas perspectivas e pilares. invasões, enfim, de toda formação do inconsciente.
Nesse pequeno texto de 1929, Jung explicitou um A autorregulação está intimamente ligada aos
dos pontos mais importantes para compreender sua processos da consciência, pois, a tende a corrigir e
teoria, ele afirmou “eu prefiro compreender as pes- reintegrar a atitude da consciência à atividade sau-
soas a partir de sua saúde” (Jung, 1989, 325). Ao romper dável da psique. Isso quer dizer que sempre que as-
sua relação com a psicanálise e com Freud, em 1914, sumimos uma postura unilateral, ou seja, sempre que
Jung rompeu com toda a concepção que valorizava nossas escolhas conscientes estiverem exclusivamen-
a neurose em detrimento da pessoa em sofrimento. te relacionadas a adaptação exterior, sem levar em
Ao buscar compreender os processos saudáveis, Jung consideração nosso mundo interior, nossa história,
compreendeu que era um equívoco pensar a neurose nossos afetos, gerando um estado de divisão ou dis-
em si mesma, pois a neurose não expressava apenas sociação interior, o inconsciente reage compensato-
o sofrimento e adoecimento psíquico, mas, expressa- riamente visando modificar a atitude da consciência
va a tentativa de toda a psique em se transformar e para equilibra-la e integra-la a totalidade psíquica.
restabelecer a saúde. Dessa forma, adotou uma nova Essa ação autorregulatória do inconsciente
perspectiva diante do paciente, onde, ele buscava no pode se manifestar desde processos mais simples
sujeito os processos vitais, saudáveis e restauradores como sensações (que popularmente chamamos de
que se escondiam na neurose. A confiança que Jung “intuição”) ou uma lembrança que aparece de repen-
tinha no inconsciente e em suas produções era de tal te que nos faz pensar ou repensar nossas escolhas
forma que chegou a afirmar que a neurose “não é naquele momento até quadros mais graves como, por
curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente exemplo, transtornos de pânico ou transtornos ob-
sessivos dentre outros. O processo de autorregulação
“Para Jung, a autorregulação é a capacidade de a psíquica nos possibilita entrever outra perspectiva
psique encontrar o próprio equilíbrio.” fundamental da psicologia analítica a perspectiva
teleológica. O termo “teleológico” vem de teleos, que
em grego significa “fim, objetivo ou propósito” e logos
“estudo”, assim, a perspectiva teleológica compreende
que vida é direcionada para um fim, ou seja, uma
causa final. Equivaleria a dizer que na psique nada é
por acaso, tudo tem um objetivo.
Jung compreendeu que através das manifes-
tações do inconsciente (sonhos, sintomas, fantasias
etc.) poderíamos entrever a intencionalidade do in-
consciente, ou seja, para onde o processo psíquico se
dirigiria. Assim, poderíamos compreender processos
inconscientes nos atentando para onde o processo se
dirige ou mesmo questionarmos para que o incons-
ciente usou tal imagem ou símbolo.
Nessa perspectiva teleológica, Jung afirmava
“não é apenas o passado que nos condiciona, mas,
também o futuro, que muito tempo antes já se en-
contra em nós e lentamente vai surgindo de nós
mesmos.” (Jung, 2006, p. 115) A perspectiva teleológica

49
Psicologia — Perspectivas e pilares da Psicologia Analítica de Carl Jung

nos abre a possibilidade para compreendermos pilar


central da psicologia junguiana que é o processo de
individuação. O processo de individuação é o proces-
so natural de desenvolvimento que pode ser descrito
como “tornar-se si mesmo”. Esse processo levaria a
uma relação o mais adequado possível tanto com o
inconsciente (realidade interior) quanto com nossas
relações sociais (realidade exterior), promovendo, as-
sim, uma integração da personalidade. Jung observou
que esse processo ocorria mais ou menos no “meio
da vida” e frequentemente seria acompanhando cri-
se, que é chamada de “crise de individuação” ou po-
pularmente de “crise da meia-idade”.
Devemos esclarecer um pouco sobre a “crise de
individuação” para não termos uma visão negativa. O
processo de individuação é um processo de desenvol-
vimento ou amadurecimento que, por um lado, con-
fronta o indivíduo com a realidade que o cerca. Nesse
sentido, o ele se vê confrontado com as relações e
papéis sociais que assumiu assim como a imagem
social que construiu para si mesmo na relação com “Essa ação autorregulatória do inconsciente pode se
o mundo exterior. Por outro lado, o indivíduo é con- manifestar desde processos mais simples como sen-
sações (que popularmente chamamos de “intuição”)
frontado com sua própria história, com as próprias
ou uma lembrança que aparece de repente (...)”
origens, medos e as sombras de si mesmo que ele
sempre evitou.
pessoa. Ao longo de toda a vida do indivíduo, a psique
Se confrontar com sua própria história é uma
visa a integração, o desenvolvimento da personali-
experiência que gera humildade, que desperta a
dade. Concomitante ao processo de individuação, há
atenção aos processos que ocorrem internamente. O
uma dimensão da experiência humana que, ao longo
inconsciente não é mais experimentado como “algo
da história da humanidade, se manifestou na forma
meu”, mas como algo totalmente diverso de mim, mui-
de símbolos religiosos. Jung compreendeu que havia
tas vezes representado na forma de uma mulher (nos
homens) ou de homens (nas mulheres) — essas ima- na psique uma função religiosa, que nos coloca diante
gens que surgem no inconsciente apontam para uma de uma perspectiva religiosa da psique. Temos que
relação de alteridade, isto é, com o outro, o totalmente tomar cuidado para não a confundir nem com misti-
diferente de mim, que se configura no inconsciente. cismo, nem com instituições religiosas, nem com so-
Enfim, todo o processo conduz a uma relação brenatural. A perspectiva religiosa compreende que a
saudável com o “si-mesmo”, estabelecendo um eixo psique humana sempre produziu imagens e símbolos
integrador e estabilizador da personalidade. A inte- carregados de significado e energia que serviram de
gração desses elementos gera no indivíduo uma di- base para o desenvolvimento das religiões.
mensão nova de honestidade, integridade e humilda- Jung afirmava “minha atitude é, portanto, posi-
de consigo mesmo e com os outros. tiva com relação a todas as religiões. No seu conteúdo
Essa experiência, descrita acima, é concebida doutrinário reconheço aquelas imagens que encon-
como uma “crise” dada a dificuldade do indivíduo em trei nos sonhos e fantasias de meus pacientes.” (JUNG,
se permitir a mudança e transformação. O apego 1989, 326). Ele compreendeu que as religiões traziam
seja aos papéis sociais ou às fantasias que criou so- em si grandes verdades práticas da psique.
bre si ou outras pessoas dentre outras; faz com que a Para compreendermos essa dinâmica psíquica
experiência de integração seja vivenciada como uma associada às religiões, devemos perceber que a psi-
crise. que é formada pela consciência, inconsciente pessoal
Jung observou o processo de individuação na e o inconsciente coletivo. A camada mais profunda
meia idade, como parte do desenvolvimento adulto. da psique e inacessível a consciência é o inconscien-
O analista junguiano Michael Fordham observou que te coletivo. Este é formado pelos arquétipos que são
símbolos similares aos do processo de individuação padrões basais de organização psíquica que se cons-
na vida adulta aparecem na infância, no processo de tituíram ao longo da evolução humana. Os arquétipos
estabelecimento e desenvolvimento do ego infantil. possuem uma forma própria de energia, cuja inten-
Assim, o processo de individuação se manifestaria na sidade fascina e pode subjugar o ego. Jung percebeu
primeira infância, integração do ego e sua manuten- que a força que o arquétipo apresenta é similar ao
ção como centro da consciência. O processo de indi- que Rudof Otto, teólogo e filósofo da religião, des-
viduação ocorre desde o nascimento até a morte da creveu como numen, isto é, o aspecto irracional do

50
Psicologia — Perspectivas e pilares da Psicologia Analítica de Carl Jung

sagrado e que seria a essência da experiência das


religiões.
A similaridade entre os fenômenos arquetípicos
e a manifestação do sagrado fez com que Jung com-
preendesse que as religiões eram produções saudá-
veis e inerentes a psique, isto é, através das religiões
que qualquer indivíduo teria a possibilidade de ter
contato com a força criativa e autorreguladora da “Ao longo de toda a vida do indivíduo, a
psique coletiva. Assim, Jung não pensava a religião psique visa a integração, o desenvolvimento
da personalidade. ”
como uma expressão metafisica ou do sobrenatural,
ou do divino, mas uma produção da psique que era
rica e cheia de possibilidades. de caráter religioso, outros apenas estruturam e
A perspectiva religiosa aponta para a capacida- fortalecem o ego atuando discretamente na psique.
de natural e criativa da psique que está intimamente Em todo caso, são os símbolos e a riqueza da vida
relacionada um outro pilar da teoria junguiana: os simbólica que dão sentido e significado a existência
símbolos. A compreensão acerca dos símbolos é fun- do indivíduo. Os símbolos são polissêmicos, ou seja,
damental pois, atravessa todo o pensamento junguia- possuem uma infinidade de sentidos e significados.
no. Quando falamos em sonhos, sintomas e outras Isto nos coloca sempre o desafio da compreensão
formações do inconsciente necessariamente nos refe- acerca do que os símbolos nos dizem, isso exige
rimos aos símbolos. Estes constituem a unidade fun- uma dada postura diante dos símbolos, isto é, uma
damental e estruturante da nossa psique. Mas, o que perspectiva hermenêutica.
são os símbolos? Todo conteúdo psíquico que chega a Primeiro precisamos entender o que é her-
consciência é potencialmente um símbolo. Pois, todo menêutica. A hermenêutica nos fala das possibili-
conteúdo que atinja consciência, mas que possua um dades de interpretação incialmente era relacionada
significado inconsciente é um símbolo. Quando um interpretação de textos, que foi ampliada para os di-
conteúdo está na consciência, mas sem uma relação versos meios interpretativos, no nosso caso a inter-
inconsciente, é apenas um sinal. pretação dos símbolos. Assim, cada abordagem psi-
Por exemplo, quando lemos ou ouvimos uma cológica possui uma hermenêutica condizente com
palavra, esta pode trazer lembranças e afetos ocultos sua teoria. A perspectiva hermenêutica junguiana
em nosso inconsciente — essa palavra é um símbo- compreende que nós não temos uma relação direta
lo, pois traz essa carga energética de afeto/memória e objetiva com o mundo em si, mas nos relaciona-
para a consciência, e não podemos predizer a exten- mos com a imagem ou representação psíquica que
são desse significado inconsciente. Quando, por outro fazemos do mundo. E, mesmo essa representação
lado, ouvimos uma palavra em outro idioma, que não psíquica é parcial, pois nós só captamos o que está
fez parte de nossa história e nos é desconhecida, ela diante de nosso ponto de vista, e este é limitado nos
é apenas um sinal, não traz nada além do que é ex- nossos órgãos do sentido, pela nossa história pes-
presso na imagem ou som. soal e cultura.
Jung dizia que os símbolos poderiam ser cul- Um exemplo desse condicionamento é a ca-
turais, fazendo parte do acervo comum de um povo, pacidade de perceber tonalidades de cores, sabe-
como no caso dos mitos, contos de fada e de símbolos mos que os esquimós percebem diferentes tons de
religiosos ou poderiam ser criados pelo inconsciente branco, assim como os índios em nossas florestas
individual. Por isso, para compreender o significado tropicais diferentes tons de verde. Essa percepção
de um conteúdo, se ele se configuraria enquanto sím- foi culturalmente desenvolvida para uma adaptação
bolo, deveríamos ouvir o indivíduo ou paciente. Jung melhor. Por isso Jung afirmava que “nosso modo de
alertava que sempre “depende da atitude da cons- ser condiciona nosso modo de ver. Outras pessoas
ciência que observa se alguma coisa é símbolo ou tendo outra psicologia vêem e exprimem outras coi-
não” (JUNG, 1991, p.445). De qualquer modo, os símbo- sas e de outro modo.” (JUNG, 1989, p.326)
los são meios naturais de integrar a psique, pois, são Jung compreendia que as teorias psicológicas
como pontes que ligam a consciência e o inconsciente seriam autoconfissões subjetivas, isto é, elas ex-
e, possibilitando assim, a transformação (passagem primiriam a forma de cada teórico compreender
ou mudança) da energia entre essas duas instâncias. e perceber a realidade. Assim, para que a minha
Em outras palavras, os símbolos possibilitam a dinâ- concepção teórica seja verdadeira, eu tenho que ne-
mica psíquica, garantindo que haja energia disponível cessariamente aceitar que o ponto de vista oposto
ao ego para desenvolver suas atividades normais. também é verdadeiro. Por isso a psicologia analíti-
Os símbolos são uma expressão da capacida- ca está sempre dialogando com outras concepções
de criativa da psique, que sempre de renova criando psicológicas.
novos símbolos. Alguns deles dotados de carga ener- A perspectiva hermenêutica é necessária
gética que fascina e subjuga a consciência, dotados para a compreendermos outro pilar da psicologia

51
Psicologia — Perspectivas e pilares da Psicologia Analítica de Carl Jung

A compreensão de Jung acerca desses fenôme-


nos se ampliou através de dois encontros que mar-
caram e ampliaram a compreensão de Jung. O pri-
meiro foi Richard Wilhelm, um importante sinólogo,
que lhe apresentou o modo oriental de pensar, que
compreendia a interdependência da integração do
homem com a natureza. Foi através de Wilhelm que
Jung teve contato com a alquimia chinesa, desper-
tando seu interesse em estudar alquimia em geral. O
segundo encontro foi com o físico Wolfgang Pauli, de
quem Jung foi amigo de 1932 até sua morte, em 1958.
“Isso significa que devemos compreender tanto os Com Pauli, Jung explorou os fenômenos não
indivíduos em sua complexidade ou como integran- causais, isto é, fenômenos que produziam significado
tes de um sistema ecológico complexo (...)” para quem os vivia, mas sem uma relação de causa
e efeito. A esses fenômenos Jung havia nomeado de
“sincronicidade”. A perspectiva do unus mundus está
analítica: a realidade psíquica. A realidade psíquica é intrinsecamente ligada ao pilar da sincronicidade,
a realidade do indivíduo — que é, na verdade, a única pois, ambos nos permitem vislumbrar dimensão da
realidade que experimentamos em nossa vida. Ape- totalidade.
sar de termos uma base de experiência comum, ou
A parceria Jung-Pauli não se restringiu ao es-
seja, o mundo objetivo, cada um de nós o experimen-
tudo da sincronicidade, mas a partir dela eles amplia-
ta e o percebe de forma singular. Isso implicaria em
ram a compreensão acerca dos processos arquetípicos
buscar compreender cada indivíduo em seu próprio
e a relação psique-matéria. Esses estudos pioneiros
contexto, em sua própria realidade.
anteciparam e, consequentemente, inscreveram a psi-
Na relação terapêutica a realidade psíquica do
cologia analítica no que hoje compreendemos como o
paciente é o eixo entorno do qual gira o processo,
paradigma da complexidade. A sincronicidade, como
pois, mais importante que a teoria é o paciente. Jung
um modelo de cosmovisão, ampliou a compreensão
sugeria que cada caso deveria ser considerado único
primordial de Jung acerca da psique coletiva que não
e que para cada paciente haveria uma teoria pró-
seria apenas uma herança comum, mas um sistema
pria, essa concepção não só coloca o indivíduo como
o centro do processo terapêutico, mas, compreende complexo, ativo, vivo e atuante ao qual todos estamos
que a teoria é um meio para compreender a reali- integrados.
dade psíquica do paciente e não uma verdade sobre A perspectiva de unus mundus exige uma aten-
o paciente. ção ampliada do analista ao todos os fenômenos que
Toda análise de sonhos, de sintomas ou de sím- envolvem a prática da clínica. A conhecida afirmação
bolos deve sempre levar em consideração a realidade de Jung que “ o encontro de duas personalidades é
psíquica do paciente, pois, ela é chave para compreen- como a mistura de duas substâncias químicas dife-
der o significado inconsciente dessas manifestações. rentes: no caso de se dar uma reação, ambas se trans-
Uma última perspectiva fundamental para falar da formam. ” (JUNG, 1999, p. 68) se refere justamente ao
psicologia analítica é o unus mundus. Unus Mundus campo transferencial que integra o inconsciente do
era um termo utilizado pelos alquimistas que signi- analista e do analisando. A Sincronicidade se institui
ficava “mundo unitário”, ou seja, toda realidade visí- como uma expressão do inconsciente que rompe as
vel e invisível corresponderia a uma só realidade, ou dicotomias, se manifestando na matéria ou através de
seja, mundo seria uma unidade dinâmica. situações diversas. Isso significa que devemos com-
Ao longo de seus estudos e sua prática Jung se preender tanto os indivíduos em sua complexidade ou
confrontou com inúmeros fenômenos que rompiam como integrantes de um sistema ecológico complexo,
com as dicotomias corpo-mente, fenômenos internos onde somos continuamente atravessadas interações
— fenômenos externos. Ele reconhecia que havia di- sociais, os padrões arquetípicos ativos coletividade
versos fenômenos que não poderiam ser explicados ou pelos complexos culturais. A individualidade e a
pelo paradigma cientifico de seu tempo, como sonhos pluralidade são faces de uma única e mesma moeda.
e visões premonitórias, como o despertar com uma Essas perspectivas e pilares da psicologia ana-
forte dor de cabeça no mesmo horário que um pa- lítica que apresentamos são meios para iniciarmos
ciente em outro país se suicidava com um tiro na uma aproximação à teoria e prática junguiana. Jung
cabeça, uma paciente sonhar com um besouro e no foi um autor a frente do seu tempo e por isso mesmo
meio da sessão ouvir um barulho na janela, e ao não foi bem compreendido. Felizmente, com os avan-
abrir ver que era um besouro similar ao sonho. Mes- ços da ciência e os conhecimentos da atualidade cada
mo frente a esses fenômenos Jung nunca os atribuiu vez mais podemos compreender e atualizar a obra
um sentido “sobrenatural”. de Jung.

52
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