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| zo oo spas 20 es pes ee ae Ee) o rae > Ay te CIDADANIA NO BRASIL O LONGO CAMINHO José Murilo de Carvalho José Murilo de Carvalho Cidadania no Brasil O longo caminho 11*edicao CIYILIZAGAO BRASILEIRA Rio de Janeiro 2008 COPYRIGHT © 2001 by José Murilo de Carvalho ‘capa: Evelyn Grumach PROJETO GRAFICO: Evelyn Grumach e Jodo de Souza Leite (PBRAST. CATALOGACAONAFONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DELIVROS, RJ Carvalho, José Murilo de, 1939- 324 idedania no Brasil: © longo caminho / José Murilo de I ed, Carvalho. ~ 11" ed. = Rio de Janeiro: Civilizagio Brasileira, 2008. Inclui bibliografia ISBN 978-85-200-0565-1 4, Cidadania ~ Brasil ~ Histéria, 2. Democracia ~ Brasil ~ Histécia. 3, Brasil ~ Politica e govern. I. Titulo. ‘DD 323.6098! 01-0103, COU 3232181) ‘Todos os direitos reservados. Proibida a reproducio, armazenamento ou transmissio de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia ‘autorizagao por escrito. 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DIREITOS cIvis $6 NALE 4S CIDADAOS EM NEGATIVO 64 OSENTIMENTO NACIONAL 76 Capitulo I: Marcha acelerada (1930-1964) 85, 1930: Maaco pWiséRio 89 (5 DIREITOS SOCIAIS NA DIANTEIRA (1930-1945) 110 [AYEZ 00S DIREMTOS POLITICOS (1945-1968) 126 CONFRONTO E FIMDADEMOCRACIA. 144 Capitulo II: Passo atrés, passo adiante (1964-1985) 155 Asso ATRAS: NOVA DITADURA (1964-1974) 158 NOVAMENTE OS DIREITOS SOCIA'S 170 PASSO ADIANTE: VOITAM OS DIREITOS CIVisE POLITICOS (1974-1985) 173 UUM BALANGO Do PRioDO MLTAR 190 Capitulo IV: A cidadania apés a redemocratizagio 197 _Atxpa1sho FAL DOS DiRITOS PoLincos 200 DIRETos socins Soa AMEKCA 206 DirTos civs RETARDATANOS 209 CONCLUSAO: A CIDADANIA NA ENCRUZILHADA 219 SUGESTOES DELEITURA 231. Introdugdo: Mapa da viagem O esforgo de reconstrugio, melhor dito, de construgio da democracia no Brasil ganhou impeto apés o fim da ditadura militar, em 1985. Uma das marcas desse esforgo é a voga que assumiu a palavra cidadania, Politicos, jornalistas, intelectuais, lideres sindicais, ditigentes de associacées, simples cidadaos, todos a adotaram. A cidadania, literalmente, caiu na boca do povo. Mais ainda, ela substituiu 0 préprio povo na retérica politica. Nao se diz mais “o povo quer isto ou aquilo”, diz-se “a cidadania quer”. Cidadania virou gente. No auge do entu- siasmo civico, chamamos a Constituigéo de 1988 de Consti- tuigo Cidada. Havia ingenuidade no entusiasmo. Haviaa crenga de que a democratizagao das instituigées traria rapidamente a felici- dade nacional. Pensava-se que o fato de termos reconquista- do o direito de eleger nossos prefeitos, governadores e pres dente da Repéblica seria garantia de liberdade, de participa: ao, de seguranga, de desenvolvimento, de emprego, de justi- gasocial. De liberdade, ele foi. A manifestacio do pensamen- to € livre, a ago politica e sindical é livre. De participacao também. O direito do voto nunca foi to difundido. Mas as coisas ndo caminharam to bem em outras éreas. Pelo contra rio. J4 15 anos passados desde o fim da ditadura, problemas JOSE MURILO DE CARVALHO centrais de nossa sociedade, como a violéncia urbana, o de- semprego, o analfabetismo, a m4 qualidade da educacéo, a oferta inadequada dos servigos de satide e saneamento, e as grandes desigualdades sociais e econémicas ou continuam sem solugo, ou se agravam, ou, quando melhoram, é em ritmo muito lento. Em consegiténcia, os préprios mecanismos agentes do sistema democratico, como as eleigdes, os parti- dos, o Congresso, os politicos, se desgastam e perdem a con- fianga dos cidadaos. Nao ha indicios de que a descrenga dos cidadios tenha gerado saudosismo em relagdo ao governo militar, do qual a nova geracio nem mesmo se recorda, Nem ha indicagao de perigo imediato para o sistema democritico. No entanto, a falta de perspectiva de melhoras importantes a curto prazo, inclusive por motivos que tém a ver com a crescente depen- déncia do pais em relagio & ordem econémica internacional, € fator inquietante, no apenas pelo sofrimento humano que representa de imediato como, a médio prazo, pela possivel tentagao que pode gerar de solugSes que signifiquem retro- cesso em conquistas jé feitas. E importante, entio, refletir sobre o problema da cidadania, sobre seu significado, sua evolugao historica e suas perspectivas. Sera exercicio adequa- do para o momento da passagem dos 500 anos da conquista dessas terras pelos portugueses. Inicio a discusséo dizendo que o fenémeno da cidadania é complexo ¢ historicamente definido. A breve introducao aci- ma jé indica sua complexidade. O exercicio de certos direitos, como a liberdade de pensamento e o voto, néo gera automati- camente 0 gozo de outros, como a seguranga e o emprego. O exercicio do voto nao garante a existéncia de governos atentos aos problemas basicos da populagao. Dito de outra mancira: a liberdade e a participagao nao levam automaticamente, ou ra- pidamente, 3 resolugio de problemas sociais. Isto quer dizer que a cidadania inclui varias dimensdes e que algumas podem estar presentes sem as outras. Uma cidadania plena, que com- bine liberdade, participagio e igualdade para todos, é um ideal desenvolvido no Ocidente e talvez inatingfvel. Mas ele tem ser- vido de parametro para o julgamento da qualidade da cidada- nia em cada pais e em cada momento hist6rico. ‘Tornou-se costume desdobrar a cidadania em direitos d- vis, politicos e sociais. O cidadao pleno seria aquele que fosse titular dos trés direitos. Cidadaos incompletos seriam os que possuissem apenas alguns dos direitos. Os que nao se benefici- assem de nenhum dos direitos seriam ndo-cidadaos. Esclarego 08 conceitos. Direitos civis sio os direitos fundamentais a vida, a liberdade, a propriedade, A igualdade perante a lei. Eles se desdobram na garantia de ir ¢ vir, de escolher o trabalho, de manifestar 0 pensamento, de organizar-se, de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondéncia, de nao ser preso a no ser pela autoridade competente e de acordo com as eis, de no ser condenado sem processo legal regular. Sao direitos cuja garantia se baseia na existéncia de uma justiga independente, eficiente, barata e acessivel a todos. Sao eles que garantem as relagées civilizadas entre as pessoas e a prépria existéncia da sociedade civil surgida com o desenvolvimento do capitalismo. Sua pedra de toque € a liberdade individual. E possivel haver direitos sem direitos politicos. Estes se referem & participagio do cidadao no governo da socieda- de. Seu exercicio € limitado a parcela da populagio e consiste na capacidade de fazer demonstragées politicas, de organizar partidos, de votar, de ser votado. Em geral, quando se fala de direitos politicos, é do direito do voto que se esté falando. Se JOSE MURILO DE CARVALHO pode haver direitos civis sem direitos politicos, 0 contrario nio € vivel. Sem os direitos civis, sobretudo a liberdade de opiniao e organizagio, os direitos politicos, sobretudo 0 voto, podem existir formalmente mas ficam esvaziados de conted- do ¢ server antes para justificar governos do que para repre- sentar cidadaos. Os direitos politicos tem como instituigao principal os partidos ¢ um parlamento livre e representativo. Sao eles que conferem legitimidade a organizacao politica da sociedade. Sua esséncia é a idéia de autogoverno. Finalmente, ha os direitos sociais. Se os direitos civis garan- tem a vida em sociedade, se os direitos politicos garantem a participagio no governo da sociedade, os direitos sociais ga- rantem a participagao na riqueza coletiva. Eles incluem o direi- to a educacao, ao trabalho, ao saldrio justo, & satide, a apo- sentadoria, A garantia de sua vigéncia depende da existéncia de uma eficiente maquina administrativa do Poder Executivo. Em tese eles podem existir sem os direitos civis e certamente sem 08 direitos politicos. Podem mesmo ser usados em sub: tituigao aos direitos politicos. Mas, na auséncia de direitos ci ¢ politicos, seu contetido ¢ alcance tendem a ser arbitrarios. Os direitos sociais permitem as sociedades politicamente or- ganizadas reduzir os excessos de desigualdade produzidos pelo capitalismo e garantir um minimo de bem-estar para todos. A idéia central em que se baseiam é a da justia social. is O autor que desenvolven a distingao entre as varias dimen- sées da cidadania, T. A. Marshall, sugeriu também que ela, a cidadania, se desenvolveu na Inglaterra com muita lentidao, Primeiro vieram os direitos civis, no século XVIII. Depois, no século XIX, surgiram os direitos politicos. Finalmente, os di- reitos sociais foram conquistados no século XX. Segundo ele, nio se trata de seqiiéncia apenas cronoldgica: ela é também ogica. Foi com base no exercicio dos direitos civis, nas liber- dades civis, que os ingleses reivindicaram o direito de votar, de participar do governo de seu pais. A participacao permitiu ’ acleigéo de operarios e a criagéo do Partido Trabalhista, que foram os responséveis pela introdugao dos direitos sociais. Hi, no entanto, uma excecdo na seqiténcia de direitos, anotada pelo préprio Marshall. Trata-se da educagéo popu- lar. Ela € definida como direito social mas tem sido historica- mente um pré-requisito para a expansio dos outros direitos. [Nos paises em que a cidadania se desenvolveu com mais rapi- dez, inclusive na Inglaterra, por uma razio ou outra a educa- 40 popular foi introduzida. Foi ela que permitiu as pessoas tomarem conhecimento de seus direitos e se organizarem para Iutar por eles, A auséncia de uma populagio educada tem sido sempre um dos principais obstaculos & construgio da cidada- nia civil e politica. © surgimento seqiiencial dos direitos sugere que a pré- pria idéia de direitos, e, portanto, a prépria cidadania, é um fendmeno histérico. O ponto de chegada, o ideal da cidada- nia plena, pode ser semelhante, pelo menos na tradigao oci- dental dentro da qual nos movemos. Mas os caminhos si0 distintos e nem sempre seguem linha reta, Pode haver tam- bém desvios e retrocessos, nao previstos por Marshall. © per- curso inglés foi apenas um entre outros. A Franga, a Alema- nha, os Estados Unidos, cada.pafs seguiu seu proprio cami- tho, O Brasil nao é exceg&o. Aqui nao se aplica o modelo in- glés. Ele nos serve apenas para comparar por contraste. Para dizer logo, houve no Brasil pelo menos duas diferengas im- portantes. A primeira refere-se & maior énfase em um dos di- reitos, o social, em relagio aos outros. A segunda refere-se & alteragao na seqiiéncia em que os direitos foram adquirido: JOSE MURILO DE CARVALHO entre nés 0 social precedeu os outros. Como havia Iégica na seqtiéncia inglesa, uma alteragao dessa légica afeta a natureza da cidadania. Quando falamos de um cidadao inglés, ou nor- te-americano, e de um cidadio brasileiro, nao estamos falan- do exatamente da mesma coisa, Outro aspecto importante, derivado da natureza hist6ri- cada cidadania, € que ela se desenvolveu dentro do fendme- no, também historico, a que chamamos de Estado-nagao e que data da Revolugao Francesa, de 1789. A luta pelos direitos, todos eles, sempre se deu dentro das fronteiras geogréficas e politicas do Estado-nacao. Era uma luta politica nacional, eo cidadao que dela surgia era também nacional. Isto quer dizer que a construgao da cidadania tem a ver com a relagao das Pessoas com o Estado e com a nacAo. As pessoas se tornavam. cidadas & medida que passavam a se sentir parte de uma na- 40 ¢ de um Estado. Da cidadania como a conhecemos fazem Parte entio a lealdade a um Estado e a identificagao com uma nagio. As duas coisas também nem sempre aparecem juntas. A identificagao & nado pode ser mais forte do que a lealdade 20 Estado, e vice-versa. Em geral, a identidade nacional se deve a fatores como religido, lingua e, sobretudo, lutas e guerras contra inimigos comuns, A lealdade av Estadu depende do grau de participagao na vida politica. A maneira como se for- maram os Estados-nagio condiciona assim a construgéo da Gidadania. Em alguns pafses, o Estado teve mais importancia € 0 processo de difusio dos direitos se deu principalmente a partir da aco estatal. Em outros, ela se deveu mais & ago dos pr6prios cidadios. Da relagio da cidadania com o Estado-nacéo deriva uma liltima complicagao do problema. Existe hoje um consenso a respeito da idéia de que vivemos uma crise do,Estado-nagio. CIDADANIA NO BRASIL Discorda-se da extensio, profundidade e rapidez do fendme- no, nao de sua existéncia. A internacionalizacio do sistema capitalista, iniciada ha séculos mas muito acelerada pelos avan- {G08 tecnoldgicos recentes, ¢ a criagao de blocos econémicos politicos tém causado uma reducio do poder dos Estados e uma mudanga das identidades nacionais existentes. As varias nagSes que compunham o antigo império soviético se transformaram stados-nagao. No caso da Europa Ocidental. os ado em novos varios Estados-nagao se fundem em um grande multinacional, A reducéo do poder do Estado afeta a natureza dos antigos direitos, sobretudo dos direitos politicos e sociais. Se os direitos politicos significam participagio no governo, uma diminuigéo no poder do governo reduz também a relevancia do direito de participar. Por outro lado, a ampliagéo da com- petigao internacional coloca pressio sobre o custo da mio-de- obra e sobre as finangas estatais, 0 que acaba afetando o em- prego € os gastos do governo, do qual dependem os direitos sociais. Desse modo, as mudangas recentes tém recolocado em, pauta o debate sobre o problema da cidadania, mesmo nos pa- {ses em que ele parecia estar razoavelmente resolvido. Tudo isso mostra a complexidade do problema. O enfrentamento dessa complexidade pode ajudar a identificar melhor as pedras no caminho da construcéo democratica. Nao oferego receita da cidadania, Também nao escrevo para espé- cialistas. Fago convite a todos os que se preocupam com a democracia para uma viagem pelos caminhos tortuosos que a cidadania tem seguido no Brasil. Seguindo-lhe o percurso, o eventual companheiro ou companheira de jornada poderé de- senvolver visio prOpria do problema. Ao fazé-lo, estard exer- cendo sua cidadania, wir! Primeiros passos (1822-1930) A primeira parte do trajeto nos levaré a percorrer 108 anos da historia do pafs, desde a independéncia, em 1822, até o final da Primeira Republica, em 1930. Fugindo da divisio costumeira da hist6ria politica do pais, englobo em um mesmo perfodo 0 Império (1822-1889) e a Primeira Reptiblica (1889-1930). Do ponto de vista do progresso da cidadania, a tinica alteragio importante que houve nesse perfodo foi a aboligéo da escravi- dio, em 1888. A aboligao incorporou os ex-escravos aos direi- tos civis. Mesmo assim, a incorporagao foi mais formal do que real. A passagem de um regime politico para outro em 1889 trouxe pouca mudanga. Mais importante, pelo menos do pon- to de vista politico, foi o movimento que pés fim a Primeira Repiblica, em 1930. Antes de iniciar o percurso, no entanto, é preciso fazer répida excursio a fase colonial. Algumas caracte- risticas da colonizagao portuguesa no Brasil deixaram marcas duradouras, relevantes para o problema que nos interessa. (© PESO DO PASSADO (1500-1822) ‘Ao proclamar sua independéncia de Portugal em 1822, 0 Brasil herdou uma tradigao cfvica pouco encorajadora. Em trés sé- JOSE MURILO DE CARVALHO culos de colonizacao (1500-1822), os portugueses tinham construfdo um enorme pais dotado de unidade territorial, lin- gilistica, cultural religiosa. Mas tinham também deixado uma populagio analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma eco- nomia monocultora e latifundiéria, um Estado absolutista. A época da independéncia, ndo havia cidadaos brasileiros, nem patria brasileira. A historia da colonizagao é conhecida. Lembro apenas alguns pontos que julgo pertinentes para a discussio. O pri- meiro deles tem a ver com o fato de que o futuro pafs nasceu da conquista de povos seminémades, na idade da pedra poli da, por europeus detentores de tecnologia muito mais avan- gada. O efeito imediato da conquista foi a dominagao ¢ 0 exterminio, pela guerra, pela escravizacio e pela doenga, de milhées de indigenas. O segundo tem aver com o fato de que a conquista teve conotacao comercial. A colonizagio foi um empreendimento do governo colonial aliado a particulares. A atividade que melhor se prestou & finalidade lucrativa foi a produgao de agticar, mercadoria com crescente mercado na Europa. Essa produgio tinha duas caracterfsticas importan- tes: exigia grandes capitais e muita mao-de-obra. A primeira foi responsével pela grande desigualdade que logo se estabe- leceu entre os senhores de engenho € os outros habitantes; a segunda, pela escravizagio dos africanos. Outros produtos tropicais, como 0 tabaco, juntaram-se depois ao agticar. Con- solidou- culos a economia e a sociedade brasileiras: 0 latifiindio , por esse modo, um trago que marcou durante sé- monocultor ¢ exportador de base escravista. Formaram-se, a0 longo da costa, nticleos populacionais baseados nesse tipo de atividade que constitufram os principais pdlos de desenvolvi- mento da colonia e Ihe deram viabilidade econémica até o final do século XVI, quando a explorago do ouro passou a ter importancia. . Amineragio, sobretudo de aluvido, requeria menor volu- me de capital e de mao-de-obra. Além disso, era atividade de natureza voldtil, cheia de incertezas. As fortanas podiam surgir ¢ desaparecer rapidamente. O ambiente urbano que logo a cercou também contribufa para afrouxar os controles sociais, inclusive sobre a populagao escrava, Tudo isto contribufa para maior mobilidade social do que a existente nos latifiindios. Por outro lado, a exploracio do ouro e do diamante sofreu com maior forca a presenga da maquina repressiva e fiscal do sistema colonial. As duas coisas, maior mobilidade ¢ maior controle, tornaram a regido mineradora mais propicia a rebe- ligo politica. Outra atividade econdmica importante desde 0 inicio da colonizagao foi a criagao de gado. O gado desenvol- ‘veu-se no interior do pafs como atividade subsididria da grande propriedade agricola. A pecuéria era menos concentrada do que 0 latifiindio, usava menos mao-de-obra escrava ¢ tinha sobre a mineragio a vantagem de fugir a0 controle das autori- dades coloniais. Mas, do lado negativo, gerava grande isola- mento da populagaa em relagio ao mundo da administrago € da politica. O poder privado exercia o dominio inconteste. O fator mais negativo para a cidadania foi a escravidao. Os escravos comegaram a ser importados na segunda metade do século XVI. A importacao continuou ininterrupta até 1850, 28 anos apés a independéncia. Calcula-se que até 1822 te- nham sido introduzidos na col6nia cerca de 3 milhées de es- cxavos. Na época da independéncia, numa populagao de cer- ca de § milhées, incluindo uns 800 mil indios, havia mais de 1 milhao de escravos. Embora concentrados nas areas de gran- de agricultura exportadora e de mineragio, havia escravos em José MURILO DE CARVALHO todas as atividades, inclusive urbanas. Nas cidades eles exer- iam varias tarefas dentro das casas ¢ na rua. Nas casas, as escravas faziam o servigo doméstico, amamentavam os filhos das sinhds, satisfaziam a concupiscéncia dos senhores. Os fi- Thos dos escravos faziam pequenos trabalhos e serviam de montaria nos bringuedos dos sinhozinhos. Na rua, trabalha- ‘vam para os senhores ou eram por eles alugados. Em muitos casos, eram a tinica fonte de renda de vitivas. Trabalhavam de carregadores, vendedores, artestos, barbeiros, prostitutas. Alguns ram alugados para mendigar. Toda pessoa com algum recurso possuia um ou mais escravos. O Estado, os funciond- rios puiblicos, as ordens religiosas, os padres, todos eram pro- prietarios de escravos. Era tao grande a forga da escravidao que 08 préprios libertos, uma vez livres, adquiriam escravos. Acescravidao penetrava em todas as classes, em todos os luga- res, em todos os desvaos da sociedade: a sociedade colonial era escravista de alto a baixo. A escravizagio de indios foi praticada no inicio do perfo- do colonial, mas foi proibida pelas leis ¢ teve a oposicao deci- dida dos jesuitas. Os indios brasileiros foram rapidamente dizimados. Calcula-sc que havia na época da descoberta cer~ cade 4 milhGes de indios. Em 1823 restava menos de 1 mi- Thao, Os que escaparam ou se miscigenaram ou foram empur- rados para o interior do pais. A miscigenagio se deveu 4 na- tureza da colonizagao portuguesa: comercial e masculina. Portugal, & época da conquista, tinha cerca de 1 milhao de habitantes, insuficientes para colonizar o vasto império que conquistara, sobretudo as partes menos habitadas, como 0 Brasil. Nao havia mulheres para acompanhar os homens. Miscigenar era uma necessidade individual e politica. A mis- cigenagao se deu em parte por aceitagao das mulheres indige- nas, em parte pelo simples estupro. No caso das escravas afri- canas, 0 estupro era a regra. Escravidao e grande propriedade nao constituiam ambien- te favordvel & formagao de futuros cidadaos. Os escravos nao eram cidadaos, nao tinham os direitos civis basicos a integri- dade fisica (podiam ser espancados), a liberdade e, em casos extremos, a prdpria vida, ja que alei os considerava propri dade do senhor, equiparando-os a animais. Entre escravos ¢ senhores, existia uma populagio legalmente livre, mas a que faltavam quase todas as condig6es para o exercicio dos direi- tos civis, sobretudo a educacao. Ela dependia dos grandes proprietérios para morar, trabalhar e defender-se contra 0 arbitrio do governo e de outros proprietarios. Os que fugiam para o interior do pafs viviam isolados de toda convivencia social, transformando-se, eventualmente, eles préprios em grandes proprietérios. Nao se pode dizer que os senhores fossem cidadaos. Eram, sem diivida, livres, votavam e eram votados nas eleig6es mu- nicipais. Eram os “homens bons” do periodo colonial. Falta- varlhes, no entanto, o préprio sentido da cidadania, a nocao da igualdade de todos perante a lei. Eram simples potentados que absorviam parte das fungSes do Estado, sobretudo as fun- Ges judicidrias. Em suas mos, a justiga, que, como vimos, é a principal garantia dos direitos civis, tornava-se simples ins- trumento do poder pessoal. © poder do governo terminava na porteira das grandes fazendas. A justia do rei tinha alcance limitado, ou porque néo atin- gia os locais mais afastados das cidades, ou porque sofria a oposi¢ao da justiga privada dos grandes proprietdrios, ou porque nao tinha autonomia perante as autoridades executi vas, ou, finalmente, por estar sujeita a corrupgao dos magis- JOSE MURILO DE CARVALHO trados. Muitas causas tinham que ser decididas em Lisboa, consumindo tempo ¢ recursos fora do alcance da maioria da populagao. O cidadao comum ou recorria & protegao dos gran- des proprietérios, ou ficava 4 mercé do arbitrio dos mais for- tes, Mulheres ¢ escravos estavam sob a jurisdigo privada dos senhores, nao tinham acesso & justiga para se defenderem. Aos escravos 86 restava o recurso da fuga e da formagao de quilombos. Recurso precério porque os quilombos eram si tematicamente combatidos e exterminados por tropas do go- verno ou de particulares contratados pelo governo. Freqitentemente, em vez de conflito entre as autoridades € 0s grandes proprietérios, havia entre eles conluio, depen- déncia mitua, A autoridade maxima nas localidades, por as. Esses capities- mores eram de investidura real, mas sua escolha era sempre feita entre os representantes da grande propriedade. Havia, entio, confusdo, que era igualmente conivéncia, entre 0 po- der do Estado ¢ 0 poder privado dos proprictérios. Os im- postos cram também freqlientemente arrecadados por meio de contratos com particulares. Outras fung6es piblicas, como oregistro de nascimentos, casamentos ¢ dbitos, eram exercidas pelo clero catélico. A conseqiiéncia de tudo isso era que nao existia de verdade um poder que pudesse ser chamado de piiblico, isto 6, que pudesse ser a garantia da igualdade de todos perante allei, que pudesse ser a garantia dos direitos civis. Outro aspecto da administraco colonial portuguesa que dificultava o desenvolvimento de uma consciéncia de direitos era 0 descaso pela educagio priméria. De inicio, ela estava nas mios dos jesuftas. Apés a expulsio desses religiosos em 1759, © governo dela se encarregou, mas de maneira completamen- te inadequada, Nao ha dados sobre alfabetizacao ao final do exemplo, eram os capitaes-mores das mi CIOADANIA NO BRASIL periodo colonial. Mas se verificarmos que em 1872, meio século apés a independéncia, apenas 16% da populacao era alfabetizada, poderemos ter uma idéia da situacao aquela épo- a. £ claro que nao se poderia esperar dos senhores qualquer iniciativa a favor da educagao de seus escravos ou de seus dependentes. Nao era do interesse da administracio colonial, ou dos senhores de escravos, difundir essa arma civica. Nao havia também motivagio religiosa para se educar. A Igreja Catélica nao incentivava a leitura da Biblia. Na Colénia, s6 se via mulher aprendendo a ler nas imagens de Sant’Ana Mes- tra ensinando Nossa Senhora. A situagao nao era muito melhor na educacéo superior. Em contraste com a Espanha, Portugal nunca permitiu a cria- cao de universidades em sua colénia. Ao final do periodo colonial, havia pelo menos 23 universidades na parte espa- nhola da América, trés delas no México. Umas 150 mil pes- soas tinham sido formadas nessas universidades. $6 a Univer- sidade do México formou 39.367 estudantes. Na parte por- tuguesa, escolas superiores s6 foram admitidas apés a chegada da corte, em 1808. Os brasileiros que quisessem, e pudessem, seguir curso superior tinham que viajar a Portugal, sobretudo a Coimbra. Entre 1772 e 1872, passaram pela Universidade de Coimbra 1.242 estudantes brasileiros. Comparado com os 150 mil da colonia espanhola, o nfimero € ridiculo. A situagio da cidadania na Colonia pode ser resumida nas palavras atribuidas por Frei Vicente do Salvador a um bispo de Tucumén de passagem pelo Brasil. Segundo Frei Vicente, em sua Historia do Brasil, 1500-1627, teria dito o bispo: “Verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela no ¢ reptblica, sendo-o cada casa.” Nao havia repiblica no Brasil, isto 6, nao havia sociedade politica; nao 105 MURILO DE CARVALHO havia “repiblicos”, isto é, nao havia cidadios, Os direitos ci- vis beneficiavam a poucos, os direitos politicos a pouquissimos, dos direitos sociais ainda nao se falava, pois a assisténcia so- cial estava a cargo da Igreja e de particulares. Foram raras, em conseqiiéncia, as manifestagdes civicas durante a Colénia. Excetuadas as revoltas escravas, das quais amais importante foi a de Palmares, esmagada por particula- res.a soldo do governo, quase todas as outras foram conflitos entre setores dominantes on reagGes de brasileiros contra 0 dominio colonial. No século XVIII houve quatro revoltas po- Iiticas. Trés delas foram lideradas por elementos da elite € constitufam protestos contra a politica metropolitana, a favor daindependéncia de partes da colénia. Duas se passaram sinto- maticamente na regio das minas, onde havia condig6es mais favordveis a rebelido. A mais politizada foi a Inconfidéncia Mineira (1789), que se inspirou no idedrio ifuminista do sé- culo XVIII ¢ no exemplo da independéncia das colénias da América do Norte. Mas seus lideres se restringiam aos seto- res dominantes — militares, fazendeiros, padres, poetas € magistrados —, ¢ ela nfo chegou as vias de fato. ‘Mais popular foi a Revolta dos Alfaiates, de 1798, na Bahia, a tinica envolvendo militares de baixa patente, artesdos € escravos. Ja sob a influéncia das idéias da Revolugao Pran- cesa, sua natureza foi mais social e racial que politica. © alvo principal dos rebeldes, quase todos negros ¢ mulatos, era a escravidio e o dominio dos brancos. Distinguia-se das revol- tas de escravos anteriores por se localizar em cidade impor- tante e nao buscar a fuga para quilombos distantes. Foi rept mida com rigor. A tltima e mais séria revolta do perfodo co- onial aconteceu em Pernambuco, em 1817, Os rebeldes de Pernambuco eram militares de alta patente, comerciantes, CIDADANIA NO BRASIL senhores de engettho e, sobretudo, padres. Calcula-se em 45 o niimero de padres envolvidos. Sob forte influéncia maconi- ca, 0s rebeldes proclamaram uma repiiblica independente que inclufa, além de Pernambuco, as capitanias da Parafba e do Rio Grande do Norte. Controlaram 0 governo durante dois meses, Alguns dos Iideres, inclusive padres, foram fuzilados. Na revolta de 1817 apareceram com mais clareza alguns tragos de uma nascente consciéncia de direitos sociais e poli- ticos. A reptiblica era vista como governo dos povos livres, em oposigo ao absolutismo monérquico. Mas as idéias de igualdade nao iam muito longe. A escravidao nao foi tocada. Em 1817, houve, sobretudo, manifestasao do espirito de re- sisténcia dos pernambucanos. Sintomaticamente, falava-se em “patriotas” e ndo em “cidadaos”. B o patriotismo era pernam- bucano mais que brasileiro. A identidade pernambucana fora gerada durante a prolongada luta contra os holandeses, no século XVII. Como vimos, guerras so poderosos fatores de criagao de identidade. Chegou-se ao fim do periodo colonial com a grande maio- ria da populagio excluida dos direitos civis e politicos ¢ sem a existéncia de um sentido de nacionalidade. No maximo, ha- via alguns centros urbanos dotados de uma populagao politi- camente mais aguerrida e algum sentimento de identidade regional. 7 1822: OS DIREITOS POLITICOS SAEM NA FRENTE A independéncia nfo introduziu mudanga radical no panora- ma descrito. Por um lado, a heranga colonial era por demais negativas por outro, o proceso de independéncia envolveu José MURILO DE CARVALHO conflitos muito limitados. Em comparagao com os outros pafses da América Latina, a independéncia do Brasil foi rela- tivamente pacifica. O conflito militar limitou-se a escaramu- as no Rio de Janeiro e & resisténcia de tropas portuguesas em algumas provincias do norte, sobretudo Bahia e Maranhao. Nao houve grandes guerras de libertagio como na América espanhola. Nao houve mobilizacio de grandes exércitos, fi- guras de grandes “libertadores”, como Simén Bolivar, José de San Martin, Bernardo O'Higgins, Antonio José de Sucre. Tam- bém nao houve revoltas libertadoras chefiadas por Iideres populares, como os mexicanos Miguel Hidalgo e José Marfa Morelos. A revolta que mais se aproximou deste iltimo mo- delo foi a de 1817, que se limitou a pequena parte do pais e foi derrotada. A principal caracteristica politica da independéncia brasi leira foi a negociagao entre a elite nacional, a coroa portu- guesa e a Inglaterra, tendo como figura mediadorao principe D, Pedro. Do lado brasileiro, 0 principal negociador foi José Bonifacio, que vivera longos anos em Portugal e fazia parte da alta burocracia da metrépole. Havia sem diwvida partici pantes mais radicais, sobretudo padres e magons. Mas amaio- ria deles também aceiton uma independéncia negociada. A populacao do Rio de Janeiro ¢ de outras capitais apoiou com entusiasmo 0 movimento de independéncia, e em alguns momentos teve papel importante no enfrentamento das tro- pas portuguesas, Mas sua principal contribuigéo foi secundar por meio de manifestagées piiblicas a ago dos lideres, inclu- sive ade D, Pedro. O radicalismo popular manifestava-se so- bretudo no ddio aos portugueses que controlavam as posicses de poder e 0 comércio nas cidades costeiras. Parte da elite brasileira acreditou até o tiltimo momento 26 CIDADANIA NO BRASIL ser possivel uma solugéo que nao implicasse a separagéo com- pleta de Portugal. Foram as tentativas das Cortes portugue- sas de reconstituir a situagio colonial que uniram os brasi- Ieiros em torno da idéia de separacio. Mesmo assim, a sepa racio foi feita mantendo-se a monarquia e a casa de Braganca. Gragas & intermediacao da Inglaterra, Portugal aceitou a independéncia do Brasil mediante 0 pagamento de uma indenizagio de 2 milhées de libras esterlinas. A escolha de uma solug4o monarquica em vez de republicana deveu- se A conviccao da elite de que s6 a figura de um rei poderia manter a ordem social e a unio das provincias que forma- vam a antiga colénia, O exemplo do que acontecera e ainda acontecia na ex-col6nia espanhola assustava a elite. Seus membros mais ilustrados, como José Bonifacio, queriam evitar a todo custo a fragmentagao da ex-colénia em varios paises pequenos ¢ fracos, e sonhavam com a construgao de um grande império. Os outros temiam ainda que a agitacao ea violéncia, provaveis caso a opgio fosse pela repiblica, trouxessem riscos para a ordem social. Acima de tudo, os proprietérios rurais receavam algo parecido com o que su- cedera no Haiti, onde os escravos se tinham rebelado, pro- clamado a independéncia e expulsado a populagao branca. © “haitianismo”, como se dizia na época, era um espanta- Iho poderoso num pais que dependia da mao-de-obra eséra- va e em que dois tergos da populagéo eram mesticos. Era importante que a independéncia se fizesse de maneira orde- nada, para evitar esses inconvenientes. Nada melhor do que um rei para garantir uma transigio tranqitila, sobretudo se esse rei contasse, como contava, com apoio popular. O papel do povo, se nao foi de simples espectador, como queria Eduardo Prado, que 0 comparou ao carreiro do qua- JOSE MURILO DE CARVALHO dro Independéncia ou mortel, de Pedro Américo, também nao foi decisivo, nem to importante como na América do Norte ‘ou mesmo na América espanhola. Sua presenga foi maior nas cidades costeirass no interior, foi quase nula, Nas capit: provinciais mais distantes, a noticia da independéncia s6 che- gou uns trés meses depois; no interior do pafs, demorou ain- da mais. Por isso, se nao se pode dizer que a independéncia se fez & revelia do povo, também nio seria correto afirmar que dla foi fruto de uma luta popular pela liberdade. O papel do povo foi mais decisivo em 1831, quando o primeiro impera- dor foi forcado a renunciar, Houve grande agitagao nas ruas do Rio de Janeiro, e uma multiddo se reuniu no Campo de Santana exigindo a reposigao do ministério deposto. Ao povo unjram-se a tropa e varios politicos em raro momento de con- fraternizagao. Embora 0 movimento se limitasse ao Rio de Janeiro, o apoio era geral. No entanto, se é possivel conside- rar 1831 como a verdadeira data da independéncia do pats, 05 efeitos da transi¢ao de 1822 jé eram suficientemente for- tes para garantir a solugio mondrquica e conservadora. A tranqlilidade da transigio facilitou a continuidade so- ial, Implantou-se um governo ao estilo das monarquias cons- titucionais e representativas européias. Mas nao se tocou na escravidao, apesar da pressio inglesa para aboli-la ou, pelo menos, para interromper 0 trafico de escravos. Com todo 0 seu liberalismo, 2 Constituigao ignorou a escravidao, como se elanndo existisse, Alias, como vimos, nem arevolta republi- cana de 1817 ousou propor a libertagio dos escravos. Assim, apesar de constitnir um avango no que se refere aos direitos politicos, a independéncia, feita com a manutengao da escra- vidio, trazia em si grandes limitagdes aos direitos civis. A época da independéncia, o Brasil era puxado em duas 26 diregdes opostas: a diregio americana, republicana, ¢ a dire- 40 européia, monarquica, Do lado americano, havia o exem- plo admirado dos Estados Unidos e o exemplo recente, mais temido que admirado, dos paises hispanicos. Do lado euro- peu, havia a tradigao colonial portuguesa, as presses da San- taAlianga.e, sobretudo, a influéncia mediadora da Inglaterra. Foi esta tiltima que facilitou a solugdo conciliadora e forne- ceu o modelo de monarquia constitucional, complementado pelas idéias do liberalismo francés pés-revolucionario. O constitucionalismo exigia a presenca de um governo repre- sentativo baseado no voto dos cidadios e na separagéo dos poderes politicos. A Constituicao outorgada de 1824, que regeu o pais até o fim da monarquia, combinando idéias de constituigdes européias, como a francesa de 1791 ¢ a espa- nhola de 1812, estabeleceu os trés poderes tradicionais, 0 Executivo, 0 Legislativo (dividido em Senado ¢ Camara) ¢ 0 Judiciatio. Como residuo do absolutismo, criou ainda um quarto poder, chamado de Moderador, que era privativo do imperador. A principal atribuigo desse poder era a livre no meagio dos ministros de Estado, independentemente da opi- nido do Legislativo. Essa atribuigao fazia com que o sistema. nao fosse autenticamente parlamentar, conforme © modelo inglés. Poderia ser chamado de monarquia presidencial, de vez que no presidencialismo republicano a nomeagio de minis- tros também independe da aprovagao do Legislativo. ‘A Constituigao regulou os direitos politicos, definin quem teria direito de votar e ser votado. Para os padrées da época, a legislagao brasileira era muito liberal. Podiam votar todos os homens de 25 anos ou mais que tivessem renda minima de 100 mil-réis. Todos os cidadaos qualificados eram obrigados avotar. As mulheres nao votavam, e os escravos, naturalmen- 29 Jost MuRito De CARVALHO te, nao eram considerados cidadios. Os libertos podiam vo- tar na eleigo priméria. A limitagao de idade comportava ex- cegées. O limite cafa para 21 anos no caso dos chefes de fa- iflia, dos oficiais militares, bacharéis, clérigos, empregados piiblicos, em geral de todos os que tivessem independéncia econdmica. A limitagio de renda era de pouca importancia, A maioria da populagio trabalhadora ganhava mais de 100 mil-réis por ano. Em 1876, o menor salério do servigo publi- co era de 600 mil-réis. O critério de renda nao excluia a po- pulacao pobre do direito do voto. Dados de um municipio do interior da provincia de Minas Gerais, de 1876, mostram que os proprietarios rurais representavam apenas 24% dos votantes. © restante era composto de trabalhadores rurais, artesios, empregados pilblicos e alguns poucos profissionais, liberais. As exigéncias de renda na Inglaterra, na época, eram muito mais altas, mesmo depois da reforma de 1832. A lei brasileira permitia ainda que os analfabetos votassem. Talvez nenhum pafs europeu da época tivesse legislagao tao liberal. A eleigio era indireta, feita em dois turnos. No primeiro, 0s votantes escolhiam os eleitores, na proporgio de um elei- tor para cada 100 domictlios. Os eleitores, que deviam ter renda de 200 mil-réis, elegiam os deputados e senadores. Os senadores eram eleitos em lista triplice, da qual o imperador escolhia o candidato de sua preferéncia. Os senadores eram vitalicios, os deputados tinham mandato de quatro anos, anao ser que a Camara fosse dissolvida antes. Nos municipios, os vereadores e juizes de paz eram eleitos pelos votantes em um 86 turno. Os presidentes de provincia eram de nomeagio do governo central. Esta legislagao permanecen quase sem alteragao até 1881. Em tese, ela permitia que quase toda a populacio adulta mas- 30 CIDADANIA NO BRASIL culina participasse da formacio do governo. Na pratica, 0 niimero de pessoas que votavam era também grande, se leva- dos em conta os padrdes dos paises europeus. De acordo com ocenso de 1872, 13% da populacao total, excluidos os escra- vos, votavam. Segundo célculos do historiador Richard Graham, antes de 1881 votavam em torno de 50% da popu- ago adulta masculina, Para efeito de comparagio, observe- se que em torno de 1870 a participacio eleitoral na Inglater- aera de 79 da populacao total; na Italia, de 2%; em Portu- gal, de 996; na Holanda, de 2,5%. O sufrégio universal mas- culino existia apenas na Franga e na Suiga, onde s6 foi intro- duzido em 1848, Participago mais alta havia nos Estados Unidos, onde, por exemplo, 18% da populago votou para presidente em 1888. Mas, mesmo neste caso, a diferenga néo era tio grande. Ainda pelo lado positivo, note-se que houve eleigbes ininterruptas de 1822 até 1930. Elas foram suspensas apenas em casos excepcionais e em locais especificos. Por exemplo, durante a guerra contra o Paraguai, entre 1865 e 1870, as eleigdes foram suspensas na provincia do Rio Grande do Sul, muito préxima do teatro de operagées. A proclamagio da Repablica, em 1889, também interrompeu as eleigdes por muito pouco tempo; elas foram retomadas jé no ano seguin- te. A freqiiéncia das eleicdes era também grande, pois os man- datos de vereadores e juizes de paz eram de dois anos, havia leigdes de senadores sempre que um deles morria, ¢ a Cama- ra dos Deputados era dissolvida com freqliéncia. Este era 0 lado formal dos direitos politicos. Ele, sem davida, represen- tava grande avanco em relacao a situagao colonial. Mas é pre- ciso perguntar pela parte substantiva, Como se davam as elei- ges? Que significavam elas na pratica? Que tipo de cidadao a4 José MURILO DE CARVALHO era esse que se apresentava para exercer seu direito politico? Qual era, enfim, o conteiido real desse direito? Nio € dificil imaginar a resposta. Os brasileiros tornados cidadéos pela Constituigo eram as mesmas pessoas que ti- nham vivido os trés séculos de colonizagao nas condigdes que ja foram descritas. Mais de 85% eram analfabetos, incapazes de ler um jornal, um decreto do governo, um alvaré da justi 4, uma postura municipal. Entre os analfabetos inclufam-se muitos dos grandes proprietarios rurais. Mais de 90% da populagio vivia em éreas rurais, sob o controle ou a influén- cia dos grandes proprietérios. Nas cidades, muitos votantes eram funcionérios piblicos controlados pelo governo. Nas reas rurais e urbanas, havia ainda o poder dos co- mandantes da Guarda Nacional. A Guarda era uma organiza- cio militarizada que abrangia toda a populagio adulta mas- calina, Seus oficiais eram indicados pelo governo central en- tre as pessoas mais ricas dos municipios. Nela combinavam- se as influéncias do governo e dos grandes proprietérios € comerciantes, Era grande o poder de pressio de seus coman- dantes sobre os votantes que eram seus inferiores hierérquicos. ‘A maior parte dos cidadaos do novo pafs nao tinha tido pratica do exercicio do voto durante a Colénia. Certamente, nio tinha também nogao do que fosse um governo represen- tativo, do que significava 0 ato de escolher alguém como seu representante politico. Apenas pequena parte da populagao urbana teria nogéo aproximada da natureza e do funciona- mento das novas instituigdes. Até mesmo o patriotismo tinha alcance restrito. Para muitos, ele nao ia além do édio ao por- tugués, nao era o sentimento de pertencer a uma patria co- mum e soberana. ‘Mas votar, muitos votavam, Eram convocados as eleigoes 32 pelos patrées, pelas autoridades do governo, pelos jutzes de paz, pelos delegados de policia, pelos pérocos, pelos coman- dantes da Guarda Nacional. A luta politica era intensa e vio- lenta, © que estava em jogo no era o exercicio de um direito de cidadio, mas o dominio politico local. O chefe politico local nao podia perder as eleigGes. A derrota significava desprestigio eperda de controle de cargos pitblicos, como os de delegados de policia, de juiz municipal, de coletor de rendas, de postos na Guarda Nacional. ‘Tratava, entéo, de mobilizar 0 maior niimero possfvel de dependentes para vencer as cleigées. As eleig6es eram freqiientemente tumultuadas e violentas. As vezes eram espetaculos tragicémicos. O governo tentava sempre reformar a legislacao para evitar a violéncia e a frau- de, mas sem muito éxito. No periodo inicial, a formacio das mesas eleitorais dependia da aclamacio popular. Aparente- mente, um procedimento muito democratic. Mas a conse- qiiéncia era que a votagao primaria acabava por ser decidida literalmente no grito. Quem gritava mais formava as mesas, € as mesas faziam as eleigdes de acordo com os interesses de uma facgéo. Segundo um observador da época, Francisco Belisario Soares de Sousa, a turbuléncia, o alarido, a violén- cia, a pancadaria decidiam o conflito. E imagine-se que tudo isto acontecia dentro das igrejas! Por precaucao, as imagens ‘ram retiradas para nao servirem de projéteis. Surgiram varios especialistas em burlar as eleigdes. O principal era o cabalista. Accle cabia garantir a incluso do maior nimero possivel de partidarios de seu chefe na lista de votantes. Um ponto im- portante para a incluso ou exclusio era a renda. Mas a lei no dizia como devia ser ela demonstrada. Cabia ao cabalista fornecer a prova, que em geral era o testemunho de alguém ago para jurar que o votante tinha renda legal, JOSE MuRiLo DE CARVALHO. O cabalista devia ainda garantir 0 voto dos alistados. Na hora de votar, os alistados tinham que provar sua identidade. Af entrava outro personagem importante: 0 “fésforo”. Se 0 alistado nao podia comparecer por qualquer razio, inclusive por ter morrido, comparecia o fésforo, isto é uma pessoa que se fazia passar pelo verdadeiro votante. Bem-falante, tendo ensaiado seu papel, o f6sforo tentava convencer a mesa clei- toral de que era o votante legitimo. © bom fésforo votava varias vezes em locais diferentes, representando diversos vo- tantes. Havia situagdes verdadeiramente cémicas. Podia acon- tecer aparecerem dois fésforos para representar © mesmo Votante. Vencia o mais habil ou o que contasse com claque mais forte. © maximo da ironia dava-se quando um f6sforo disputava o direito de votar com o verdadeiro votante. Gran- de facanha era ganhar tal disputa. Se conseguia, seu pagamento eta dobrado. Outra figura importante era o capanga cleitoral. Os ca- Pangas cuidavam da parte mais truculenta do proceso. Eram pessoas violentas a soldo dos chefes locais. Cabia-lhes prote- Ber Os partidarios e, sobretudo, ameacar ¢ amedrontar os ad- versétios, se possivel evitando que comparecessem a elei¢ao. Nio raro entravam em choque com capangas adversarios, Provocando os “rolos” eleitorais de que est cheia a historia do periodo. Mesmo no Rio de Janeiro, maior cidade do pats, a acao dos capangas, freqiientemente capoeiras, era comum. Nos dias de eleigao, bandos armados safam pelas ruas ame- drontando os incautos cidadaos. Pode-se compreender que, nessas circunstancias, muitos votantes ndo ousassem compa- recer, com receio de sofrer humilhag6es. Votar era perigoso. Mas nao acabavam af as malandragens eleitorais. Em caso de nao haver comparecimento de votantes, a eleigao se fazia assim mesmo. A ata era redigida como se tudo tivesse aconte- cido normalmente. Eram as chamadas eleicGes feitas “a bico. de pena’, isto é apenas com a caneta. Em geral, eram as que davam a aparéncia de maior regularidade, pois constava na ata que tudo se passara sem violéncia e absolutamente de acor- do com as leis. Nestas circunstdncias, o voto tinha um sentido completa- mente diverso daquele imaginado pelos legisladores. Nio se tratava do exercicio do autogoverno, do direito de participar na vida politica do pais. Tratava-se de uma ago estritamente relacionada com as lutas locais. O votante néo agia como parte de uma sociedade politica, de um partido politico, mas como dependente de um chefe local, ao qual obedecia com maior ou menor fidelidade. O voto era um ato de obediéncia forga- da ou, na melhor das hipéteses, um ato de lealdade e de grax tidao. A medida que 0 votante se dava conta da importancia do voto para os chefes politicos, ele comecava a barganhar mais, a vendé-lo mais caro. Nas cidades, onde a dependéncia social do votante era menor, o prego do voto subia mais r4pi- do. Os chefes nao podiam confiar apenas na obediéncia e leal- dade, tinham que pagar pelo voto. O pagamento podia ser feito de varias formas, em dinheiro, roupa, alimentos, animais. A crescente independéncia do votante exigia também do che- fe politico precaugGes adicionais para nao ser enganado. Por meio dos cabalistas, mantinha seus votantes reunidos e vigia- dos em barracées, ou currais, onde hes dava farta comida e bebida, até a hora de votar. O cabalista sé deixava o votante apés ter este langado seu voto. Os votantes aprendiam tam- bém a negociar 0 voto com mais de um chefe. Alguns conse- guiam vendé-lo a mais de um cabalista, vangloriando-se do feito. O voto neste caso no era mais expresso de obedién- JOS MURILO DE CARVALHO cia e lealdade, era mercadoria a ser vendida pelo melhor pre- 0. A eleigo era aoportunidade para ganhar um dinheiro facil, uma roupa, um chapéu novo, um par de sapatos. No mfni- ‘mo, uma boa refeicao. O encarecimento do voto e a possibilidade de frande ge- neralizada levaram & crescente reagao contra 0 voto indireto € a uma campanha pela introdugio do voto direto. Da parte de alguns politicos, havia interesse genuino pela correcao do ato de votar. Incomodava-os, sobretudo, a grande influéncia que 0 governo podia exercer nas eleig6es por meio de seus agentes em alianga com os chefes locais. Nenhum ministério perdia eleigdes, isto é, nenhum se via diante de maioria oposicionistana Camara, Nenhum ministro de Estado era der- rotado nas urnas. Para outros, no entanto, o que preocupava erao excesso de participagio popular nas eleigies. Alegavam que a culpa da corrupgio estava na falta de preparacéo dos votantes analfabetos, ignorantes, inconscientes. A proposta de eleicéo direta para esses politicos tinha como pressuposto 0 aumento das restrig6es ao direito do voto. Tratava-se, sobre- tudo, de reduzir 0 eleitorado a sua parte mais educada, mais rica e, portanto, mais independente. Junto com a ¢liminagao dos dois turnos, propunham-se 0 aumento da exigéncia de renda e a proibigo do voto do analfabeto. Havia ainda uma raz4o material para combater 0 voto ampliado. Os proprietérios rurais queixavam-se do custo cres- cente das eleigdes. A vitoria era importante para manter seu prestigio e o apoio do governo. Para ganhar, precisavam man- ter um grande niimero de dependentes para os quais nao ti- nham ocupagio econémica, cuja tnica finalidade era votar na época de eleigdes. Além disso, como vimos, 0 votante ficava cada vex. mais esperto ¢ exigia pagamentos cada vez maiores. CIDADANIA No BRASIL O interesse desses proprietarios era baratear as eleigdes sem por em risco a vit6ria, O meio para isso era reduzir o niimero de votantes ¢ a competitividade das eleigées. A eleicao ideal para eles era ade “bico de pena”: barata, garantida, “limpa”. Além da participacao eleitoral, houve, apés a independén- a, outras formas de envolvimento dos cidadios com o Esta- do. A mais importante era o servigo do jiri. Pertencer ao cor- po de jurados era participar diretamente do Poder Judiciério. Essa participacao tinha alcance menor, pois exigia alfabetiza- gio. Mas, por outro lado, era mais intensa, de vez que havia duas sess6es do jtiri por ano, cada uma de 15 dias. Em torno de 80 mil pessoas exerciam a fungao de jurado em 1870. A prética também estava longe de corresponder a intengio da lei, mas quem participava do jiri sem davida se aproximava do exercicio do poder ¢ adquiria alguma nogio do papel da lei. A Guarda Nacional, criada em 1831, era sobretudo um mecanismo de cooptar os proprietérios rurais, mas servia tam- bém para transmitir aos guardas algum sentido.de disciplina € de exercicio de autoridade legal. Estavam sujeitas ao servi- go da Guarda quase as mesmas pessoas que eram obrigadas a votat. Experiéncia totalmente negativa era o servigo militar no Exército e na Marinha. O caréter violento do recrutamen- to, 0 servigo prolongado, a vida dura do quartel, de que fazia parte o castigo fisico, tornavam o servigo militar — em ou- tos paises, simbolo do dever civico — um tormento de que todos procuravam fugir. ‘A forma mais intensa de envolvimento, no entanto, foi a que se deu durante a guerra contra o Paraguai. As guerras sio fatores importantes na criacao de identidades nacionais. A do Paraguai teve sem diivida este efeito. Para muitos bra- sileitos, a idéia de patria nao tinha materialidade, mesmo a7 José MuRILO DE CARVALHO apés a independéncia. Vimos que existiam no maximo iden- tidades regionais. A guerra veio alterar asituagao. De repente havia um estrangeiro inimigo que, por oposicao, geravao sen- timento de identidade brasileira. Sao abundantes as indicagSes do surgimento dessa nova identidade, mesmo que ainda em esbogo. Podem-se mencionar a apresentagao de milhares de voluntérios no inicio da guerra, a valorizagao do hino e da bandeira, as cang6es e poesias populares. Caso marcante foi 0 de Jovita Feitosa, mulher que se vestiu de homem para ir & guerra a fim de vingar as mulheres brasileiras injuriadas pelos paraguaios. Foi exaltada como a Joana d’Arc nacional. Luta- ram no Paraguai cerca de 135 mil brasileiros, muitos deles negros, inclusive libertos. 1881: TROPEGO Em 1881, a Camara dos Deputados aprovou lei que introdu- zia o voto direto, ¢liminando o primeiro turno das eleigdes. ‘Nao haveria mais, daf em diante, votantes, haveria apenas eleitores. Ao mesmo tempo, a lei passava para 200 mil-réis a exigéncia de renda, proibia 0 voto dos analfabetos e tornava voto facultativo. A lei foi aprovada por ma Cémara unani- memente liberal, em que nao havia um s6 deputado conser- vador. Foram poucas as vozes que protestaram contra a mu- danga. Entre elas, a do deputado Joaquim Nabuco, que atri- buiu a culpa da corrupgao eleitoral nao aos votantes mas aos candidatos, aos cabalistas, as classes superiores. Outro depu- tado, Saldanha Marinho, foi contundente: “Nao tenho receio do voto do povo, tenho receio do corruptor.” Um terceiro deputado, José Bonifacio, 0 Mogo, afirmou, retérica mas 38 corretamente, que a lei era um erro de sintaxe politica, pois criava uma oragio politica sem sujeito, um sistema represen- tativo sem povo. . Olimite de renda estabelecido pela nova lei, 200 mil-téis, ainda nao era muito alto. Mas alei era muito rigida no que se referia 4 maneira de demonstrar a renda, Nao bastavam de- claragées de terceiros, como anteriormente, nem mesmo dos empregadores. Muitas pessoas com renda suficiente deixavam de votar por nao conseguirem provar seus rendimentos ou por no estarem dispostas a ter o trabalho de prové-los, Mas onde allei de fato limitou 0 voto foi ao excluir os analfabetos. A razio é simples: somente 15% da populacio era alfabetizada, ou 20%, se considerarmos apenas a populagao masculina. De imediato, 80% da populacéo masculina era exclutda do direi- to de voto. As conseqtiéncias logo se refletiram nas estatisticas eleito- rais. Em 1872, havia mais de 1 milhao de votantes, cortes- pondentes a 13% da populacao livre. Em 1886, votaram nas eleigées parlamentares pouco mais de 100 mil eleitores, ou 0,8% da populagio total. Houve um corte de quase 90% do eleitorado, O dado é chocante, sobretudo se lembrarmos que a tendéncia de todos os pafses europeus da época era na dire- io de ampliar os direitos politicos. A Inglaterra, sempre olha- da como exemplo pelas elites brasileiras, fizera reformas'im- portantes em 1832, em 1867 ¢ em 1884, expandindo o elei: torado de 3% para cerca de 15%. Com alei de 1881, o Brasil caminhou para trés, perdendo a vantagem que adquirira com a Constituigao de 1824, O mais grave é que 0 retrocesso foi duradouro. A procla- magio da Reptiblica, em 1889, nao alterou 0 quadro, A Re+ piiblica, de acordo com seus propagandistas, sobretudo aque- 39 JOSE MURILO DE CARVALHO les que se inspiravam nos ideais da Revolugio Francesa, de- veria representar a instauragao do governo do pais pelo povo, por seus cidadaos, sem a interferéncia dos privilégios mo- narquicos. No entanto, apesar das expectativas levantadas entre os que tinham sido excluidos pela lei de 1881, pouca coisa mudou com o novo regime. Pelo lado legal, a Constitui- io tepublicana de 1891 eliminou apenas a exigéncia da ren- da de 200 mil-réis, que, como vimos, nao era muito alta. A principal barreira ao voto, a exclusio dos analfabetos, foi mantida, Continuavam também a nao votar as mulheres, os mendigos, 0s soldados, os membros das ordens religiosas. Nao é, entio, de estranhar que o mimero de votantes te- nha permanecido baixo. Na primeira eleigéo popular para a presidéncia da Reptblica, em 1894, votaram 2,2% da popu- ago. Na tiltima eleicdo presidencial da Primeira Repiblica, em 1930, quando o voto universal, inclusive feminino, jé fora adotado pela maioria dos paises europeus, votaram no Brasil 5,69 da populacio. Nem mesmo o perfodo de grandes re- formas inaugurado em 1930 foi capaz de superar os ntimeros de 1872. Somente na eleigao presidencial de 1945 é que com- pareceram as urnas 13,4% dos brasileiros, nimero ligeiramen- te superior ao de 1872. O Rio de Janeiro, capital do pais, também dava mau exem- plo, Em 1890, a cidade tinha mais de $00 mil habitantes, e pelo ‘menos metade deles era alfabetizada. Mesmo assim, na eleicéo presidencial de 1894 votaram apenas 7.857 pessoas, isto é, 1,39 da populagao. Em 1910, 21 anos apés a proclamagao da Re- piblica, a porcentagem desceu para 0,9%, menor do que a média nacional. Em contraste, em Nova York, em 1888, a par- ticipacao eleitoral chegou a 88% da populagao adulta masculi- na, Lima Barreto publicou um romance satfrico chamado Os 40 CIDADANIA No BRASIL Bruzundangas, no qual descreve uma reptiblica imagingria em que “os politicos préticos tinham conseguido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral este elemento perturbador —o voto”. A repiblica dos Bruzundangas se parecia muito com a repiiblica dos brasileiros. Do ponto de vista da representagio politica, a Primeira Repiiblica (1889-1930) nao significou grande mudanga. Ela introduziu a federagao de acordo com o modelo dos Estados Unidos. Os presidentes dos estados (antigas provincias) pas- saram a ser eleitos pela populacio. A descentralizacéo tinha 0 feito positivo de aproximar o governo da populacao via elei- gio de presidentes de estado e prefeitos. Mas a aproximacio se deu sobretudo com as elites locais. A descentralizacio faci- litou a formagao de sélidas oligarquias estaduais, apoiadas em partidos tnicos, também estaduais. Nos casos de maior éxi- to, essas oligarquias conseguiram envolver todos os mandées locais, bloqueando qualquer tentativa de oposicao politica. A alianga das oligarquias dos grandes estados, sobretudo de S40 Paulo € Minas Gerais, permitiu que mantivessem 0 controle da politica nacional até 1930. A Primeira Reptblica ficou conhecida como “reptiblica dos coronéis”. Coronel era o posto mais alto na hierarquia da Guarda Nacional. © coronel da Guarda era sempre a pessoa mais poderosa do municipio. Jé no Império ele exer: cia grande influéncia politica. Quando a Guarda perdeu sua natureza militar, restou-lhe o poder politico de seus chefes. Coronel passou, entdo, a indicar simplesmente o chefe poli tico local. © coronelismo era a alianca desses chefes com os presidentes dos estados e desses com o presidente da Repti- blica. Nesse paraiso das oligarquias, as praticas eleitorais fraudulentas ndo podiam desaparecer. Elas foram aperfeigoa- at yost munito De CARVALHO das, Nenhum coronel aceitava perder as eleig6es. Os eleito- res continuaram a ser coagidos, comprados, enganados, ou simplesmente excluidos. Os historiadores do periodo con- cordam em afirmar que néo havia eleigéo limpa. O voto podia ser fraudado na hora de ser langado na urna, na hora de ser apurado, ou na hora do reconhecimento do eleito. Nos estados em que havia maior competicao entre oligarquias, clegiam-se as vezes duas assembléias estaduais ¢ duas banca- das federais, cada qual alegando ser a legitima representan- te do povo. A Camara federal reconhecia como deputados os que apoiassem 0 governador e o presidente da Repabli- ca, e tachava os demais pretendentes de ilegitimos. Continuaram a atuar os cabalistas, os capangas, os f6sfo- ros. Continuaram as eleigées “a bico de pena”. Dez anos de- pois da proclamagio da Repiblica, um adversério do regime dizia que quando as atas eleitorais afirmavam que tinham comparecido muitos eleitores podia-se ter a certeza de que se tratava de uma elcigéo “abico de pena”. Os resultados eleito- rais eram as vezes absurdos, sem nenhuma relagio com o ta- manho do eleitorado. Com razo dizia um jornalista em 1915 que todos sabiam que “o exercicio da soberania popular € uma fantasia e ninguém a toma a sério”. Mas, apesar de todas as leis que restringiam 0 direito do voto e de todas as praticas que deturpavam 0 voto dado, néo houve no Brasil, até 1930, movimentos populares exigindo maior patticipacio eleitoral. A tinica excegao foi o movimento pelo voto feminino, valen- te mas limitado. voto feminino acabou sendo introduzido apés a revolugao de 1930, embora nfo constasse do progra- ma dos revolucionérios. Pode-se perguntar se nao tinham alguma razio os que defendiam desde 1881 a limitagéo do direito do voto, com 42 CIDADANIA No BRASIL base no argumento de que 0 povo nao tinha condigdes de 0 exercer adequadamente. Vimos que, de fato, nio houve ex- periéncia politica prévia que preparasse 0 cidadio para exer- cer suas obrigagées civicas. Nem mesmo a independéncia do pais teve participaco popular significativa. Este povo nao seria de fato um fator perturbador das eleiges por néo dispor de independéncia suficiente para escapar as presses do gover- no e dos grandes proprietérios? Nao era este 0 argumento usado em muitos paises europeus para limitar 0 exercicio do voto? O grande liberal John Stuart-Mill nao exigia que o ci- dadao soubesse ler, escrever e fazer as operacoes aritméticas basicas para poder votar? Os ctiticos da participagio popular cometeram vérios equivocos. © primeiro era achar que a populagéo saida da dominagio colonial portuguesa pudesse, de uma hora para outra, comportar-se como cidadaos atenienses, ou como ci- dadios das pequenas comunidades norte-americanas. © Bra- sil néo passara por nenhuma revolucio, como a Inglaterra, os Estados Unidos, a Franca. © processo de aprendizado demo- crético tinha que ser, por forga, lento e gradual. © segundo equivoco jé fora apontado por alguns opositores da reforma da eleigao direta, como Joaquim Nabuco e Saldanha Mari- nho. Quem era menos preparado para a democracia, 0 povo ou o governo e as elites? Quem forcava os eleitores, quem comprava votos, quem fazia atas falsas, quem nio admitia derrota nas urnas? Eram os grandes proprietarios, os oficiais da Guarda Nacional, os chefes de policia e seus delegados, os juizes, os presidentes das provincias ou estados, os chefes dos partidos nacionais ou estaduais, Até mesmo os membros mais esclarecidos da elite politica nacional, bons conhecedores das, teorias do governo representativo, quando se tratava de fazer 43 José MURILO DE CARVALHO politica prética recorriam aos métodos fraudulentos, ou eram coniventes com os que os praticavam. O terceiro equivoco era desconhecer que as priticas elei- torais em paises considerados modelos, como a Inglaterra, eram to corruptas como no Brasil. Mesmo apés as grandes reformas inglesas, continuaram a existir os “burgos podres”, dominados por décadas pelo mesmo politico, ou pela mesma familia, A Inglaterra tinha construido ao longo de séculos um sistema representativo de governo que estava longe de ser democratico, de incorporar 0 grosso da populagio. Foi ao longo do século XIX que esta incorporagao se deu, ¢ no fal- taram politicos, conservadores e liberais, que consideravam inconveniente a extensio dos votos aos operdtios. Um libe- ral, Robert Lowe, dizia que as classes operdrias eram impulsi- vas, irrefletidas, violentas, dadas & venalidade, ignorancia € bebedeiras. Sua incorporacio ao sistema politico, acrescenta- va, levaria ao rebaixamento e corrupgao da vida piblica. A diferenca é que na Inglaterra houve presséo popular pela ex- pansio do voto. Essa pressio forgou a elite a democratizar a participagao. Havia Ié, j4 no século XIX, um povo politico, ausente entre nés. O quarto e tiltimo equivoco era achar que o aprendizado do exercicio dos direitos politicos pudesse ser feito por outra maneira que nao sua pratica continuada e um esforco por parte do governo de difundir a educagao primaria. Pode-se mesmo argumentar que os votantes agiam com muita racionalidade a0 usarem 0 voto como mercadoria e ao vendé-lo cada vez mais caro. maneira de valorizé-lo. De algum modo, apesar de sua per- cepgio deturpada, ao votarem, as pessoas tomavam conheci mento da existéncia de um poder que vinha de fora do pe- Este era o sentido que podiam dar ao voto, erasua 44 queno mundo da grande propriedade, um poder que elas podiam usar contra os mandées locais. Ja havia ai, em germe, um aprendizado politico, cuja pratica constante levaria 20 aperfeigoamento civico. O ganho que a limitagio do voto poderia trazer para a lisura das eleig6es era ilusorio. A inter- rupcio do aprendizado s6 poderia levar, como levou, ao re tardamento da incorporagio dos cidadaos a vida politica. DIREITOS CIVIS SO NA LEt ‘A heranga colonial pesou mais na area dos direitos civis. novo pais herdou a escravidao, que negava a condicao huma- na do escravo, herdou a grande propriedade rural, fechada a acio da lei, e herdou um Estado comprometido com o poder privado. Esses trés empecillios ao exercicio da cidadania civil revelaram-se persistentes. A escravidao s6 foi abolida em 1888, agrande propriedade ainda exerce seu poder em algumas areas do pais ¢ a desprivatizagao do poder piblico é tema da agen- da atual de reformas. Acscravidao Acescravidao estava tao enraizada na sociedade brasileira que nio foi colocada seriamente em questio até o final da guerra contra o Paraguai. A Inglaterra exigiu, como parte do prego do reconhecimento da independéncia, a assinatura de um tra- tado que inclufa a proibigo do tréfico de escravos. O tratado foi ratificado em 1827. Em obediéncia a suas exigencias, foi votada em 1831 uma lei que considerava. trafico como pira- taria. Mas a lei nao teve efeito pratico, Antes de ser votada, 4s Jose MuRILO DE CARVALHO houve grande anmento de importagio de escravos, 0 que per- smitiu certa reduco nas entradas logo apés sua aprovacao. Mas néo demorou até que as importagdes crescessem de novo. Dessa primeira lei contra tréfico surgiu a expressao “lei para inglés ver”, significando uma lei, ou promessa, que se faz ape- nas por formalidade, sem intengéo de a por em pratica. A Inglaterra volton a pressionar 0 Brasil na década de 1840, quando se devia decidir sobre a renovaco do tratado de comércio de 1827. Desta vero governo inglés usow a for- ca mandando sua Marinha apreender navios dentro das éguas territoriais brasileiras. Em 1850, a Marinha inglesa invadiu portos brasileiros para afundar navios suspeitos de transpor- tar escravos. $6 entao 0 governo decidiu interromper o tréfi- co de maneira efetiva. Calcula-se que, desde o inicio do tréfico até 1850, tenham entrado no Brasil 4 milhées de escravos. Sua distribuigéo era desigual. De inicio, nos séculos XVI e XVI, concentravam-se na regio produtora de acticar, sobretudo Pernambuco e Bahia. No século XVIII, um grande mimero foi levado para a regido de exploragao do ouro, em Minas Gerais. A partir da segun- da década do século XIX, concentraram-se na regio do café, que inclufa Rio de Janeiro, Minas Gerais e Sao Paulo. Depois da aboligio do trafico, os politicos s6 voltaram a falar no assunto ao final da guerra contra o Paraguai. Duran- te o conflito, a escravidao revelara-se motivo de grande cons- trangimento para o pais. © Brasil tornou-se objeto das criti- cas do inimigo e mesmo dos aliados. Além disso, a escravidao mostrara-se perigosa para a defesa nacional, pois impedia a formagio de um exército de cidadaos e enfraquecia a segu- ranga interna. Por iniciativa do imperador, com 0 apoio da imprensa e a ferrenha resistencia dos fazendeiros, o gabinete 46 chefiado pelo visconde do Rio Branco conseguiu fazer apro- var, em 1871, a lei que libertava os filhos de escravos que nascessem dai em diante. Apesar da oposigao dos escravistas, allei era pouco radical. Permitia aos donos dos “ingénuos”, isto é, dos que nascessem livres, beneficiar-se de seu trabalho gratuito até 21 anos de idade. A aboligio final s6 comegou a ser discutida no Parlamen- to em 1884, $6 entéo, também, surgiu um movimento popu- lar abolicionista. A abolicéo veio em 1888, um ano depois que aEspanhaa fizera em Cuba. © Brasil era o ultimo pafs de tra- digo cristae ocidental a libertar os escravos. E 0 fez quando ‘© ntimero de escravos era pouco significative. Na época da independéncia, os escravos representavam 30% da populacio. Em 1873, havia 1,5 milhdo de escravos, 15% dos brasileiros. As vésperas da aboligao, em 1887, os escravos nao passavam de 723 mil, apenas 5% da populacao do pais, Se considerar- mos que nos Estados Unidos, as vésperas da guerra civil, ha- via quase 4 milhées de escravos, mais que o dobro dos exis- tentes no Brasil, pode-se perguntar se a influéncia da escravi- dao nao foi maior 1a e se nao seria exagerada a importancia que se da a ela no Brasil como obstéculo a expansio dos di- reitos civis. ‘A resposta pode ser dada em duas partes, A primeira é que a escravidio era mais difundida no Brasil do que nos Estados Unidos. Lé ela se limitava aos estados do sul, sobretudo os produtores de algodao. O resto do pais nio tinha escravos. A principal razo da guerra civil de 1860 foi a disputa sobre a introdugéo ou nio da escravidao nos novos estados que se formavam. Esta separagao significava que havia uma linha divis6ria entre liberdade e escravidao. A linha era geogréfica. O escravo que fugia do sul para o norte, atravessando, por a7 José MURILO DE CARVALHO exemplo, 0 rio Ohio, escapava da escravidio para a liberda- de. Havia até mesmo um movimento, chamado Underground Railway, que se ocupava de ajudar os escravos a fugirem para o norte. No Brasil, no havia como fugir da escravidao. Se € ver- dade que os escravos se distribufam de maneira desigual pelo pais, € também verdade que havia escravos no pais inteiro, em todas as provincias, no campo e nas cidades. Havia escra- vos que fugiam ¢ organizavam quilombos. Alguns quilombos tiveram longa duragao, como o de Palmares, no nordeste do pais. Mas a maioria dos quilombos durava pouco porque era logo atacada por forcas do governo ou de particulares. Os quilombos que sobreviviam mais tempo acabavam mantendo relagées com asociedade que os cercava, ¢ esta sociedade era escravista. No proprio quilombo dos Palmares havia escravos. Nao existiam linhas geograficas separando a escravidao da liberdade. “Acrescente-se a isto 0 fato de que a posse de escravos era muito difundida. Havia propriedades com grandes plantéis, mas havia também muitos proprietérios de poucos escravos. Mesmo em 4reas de maior concentragao de escravos, como Minas Gerais, a média de escravos por proprietério era de trés ou quatro. Nas cidades, muitas pessoas possufam ape- nas um escravo, que alugavam como fonte de renda, Em geral, eram pessoas pobres, vitivas, que tinham no escravo alugado seu tinico sustento, O aspecto mais contundente da difusio da propriedade escrava revela-se no fato de que muitos libertos possufam escravos. Testamentos examinados por Katia Mattoso mostram que 78% dos libertos da Bahia possufam escravos. Na Bahia, em Minas Gerais e em outras provincias, dava-se até mesmo o fendmeno extraordinario a8 de escravos possuirem escravos. De acordo com o depoimen- to de um escravo brasileiro que fugiu para os Estados Uni- dos, no Brasil “as pessoas de cor, tio logo tivessem algum poder, escravizariam seus companheiros, da mesma forma que 0 homem branco”, Esses dados séo perturbadores. Significam que os valores da escravidao eram aceitos por quase toda a sociedade. Mesmo 0s escravos, embora lutassem pela prépria liberdade, embora repudiassem sua escravidao, uma vez libertos admitiam escra- vizar 0s outros. Que os senhores achassem normal ou neces- sdria a escravidao, pode entender-se. Que libertos o fizessem, € matéria para reflex3o. Tado indica que os valores da liber- dade individual, base dos direitos civis, tio caros & modernidade européia e aos fundadores da América do Nor- te, nao tinham grande peso no Brasil. & sintomatico que o novo pensamento abolicionista, se- guindo tradicao portuguesa, se baseasse em argumentos dis- tintos dos abolicionismos europeu ¢ norte-americano. O abolicionismo anglo-sax6nico teve como fontes principais a religido ¢ a Declaragao de Direitos. Foram os quakers os pri- meiros a interpretar o cristianismo como sendo uma religiao da liberdade, incompativel com a escravidao. A interpreta- Gio tradicional dos catdlicos, vigente em Portugal no Bra- sil, era que a Biblia admitia a escravidao, que o cristianismo nao a condenava. A escravidao que se devia evitar eraa da alma, causada pelo pecado, e nao a escraviddo do corpo. O pecado, este sim, é que era a verdadeira escravidao. Os qua- kers inverteram esta posigio, dizendo que a escravidio é que era o pecado, € com base nessa afirmagio iniciaram longa e tenaz luta pela aboligio, primeiro do trafico, depois da pré- ria escravidao, As idéias e valores que inspiraram os textos basicos da fundagéo dos Estados Unidos eram também fonte segura para justificar a luta contra a escravidao. Se a liberdade era um direito inalienavel de todos, como dizia a Declaragao de In- dependéncia, nao havia como negé-laa uma parte da popula- do, a ndo ser que se negasse condigéo humana a essa parte. Os pensadores sulistas que justificaram a escravidao, como George Fitzhugh, tiveram que partir de uma premissa que negava a igualdade estabelecida nos textos constitucionais. Para cles, as pessoas eram naturalmente desiguais, justifican- do-se 0 dominio dos superiores sobre os inferiores. No Brasil, areligiao catdlica, que era oficial, néo comba- tia a escravidao. Conventos, clérigos das ordens religiosas € padres seculares, todos possufam escravos. Alguns padres nao se contentavam em possuir legalmente suas escravas, eles as possufam também sexualmente e com elas se amigavam. Al- guns filhos de padres com escravas chegaram a posicées im- portantes na politica do Império. O grande abolicionista José do Patrocinio era um deles. Com poucas excegdes, o maximo que os pensadores luso-brasileiros encontravam na Biblia em favor dos escravos era a exortagéo de Sao Paulo aos scnhores no sentido de traté-los com justiga e equlidade. Fora do campo religioso, o principal argumento que se apresentava no Brasil em favor da aboligo era o que podia- mos chamar de razo nacional, em oposigéo & razio indivi- dual dos casos europeu e norte-americano. A razao nacional foi usada por José Bonifacio, que dizia ser a escravidao obsta- culo a formagao de uma verdadeira nacio, pois mantinha parcela da populagio subjugada a outra parcela, como inimi- gas entre si. Para ele, a escravidao impedia a integragao social e politica do pafs e a formagao de forcas armadas poderosas. Dizia, como o fez também Joaquim Nabuco, que a escravi dao bloqueava 0 desenvolvimento das classes sociais e do mercado de trabalho, causava 0 crescimento exagerado do Estado e do ntimero dos funcionérios piblicos, falseava 0 governo representativo. © argumento da liberdade individual como diteito inalienavel era usado com pouca énfase, nao tinha a forca que Ihe era caracteristica na tradigao anglo-saxénica. Nao o favo- recia a interpretacao catélica da Biblia, nem a preocupagao da elite com o Estado nacional. Vemos af a presenga de uma tradigao cultural distinta, que poderiamos chamar de ibérica, alheia 20 iluminismo libertério, & énfase nos direitos naturais, a liberdade individual. Essa tradigao insistia nos aspectos co- munitérios da vida religiosa e politica, insistia na supremacia do todo sobre as partes, da cooperacio sobre a competicao € © conflito, da hierarquia sobre a igualdade. Havia nela caracteristicas positivas, como a visio comu- nit ia da vida, Mas a influéncia do Estado absolutista, em Portugal, acrescida da influéncia da escravidao, no Brasil, deturpou-a. Nao podendo haver comunidade de cidadaos em Estado absolutista, nem comunidade humana em plantacéo escravista, 0 que restava da tradicéo comunitaria eram ape- los, quase sempre ignorados, em favor de um tratamento be- nevolente dos sitditos e dos escravos. O melhor que se podia obter nessas circunstancias era o paternalismo do governo e dos senhores. © paternalismo podia minorar sofrimentos in- dividuais mas nao podia construir uma auténtica comunida- de e muito menos uma cidadania ativa. ‘Tudo isso se refletiu no tratamento dado aos ex-escravos apés a aboligao. Foram pouquissimas as vozes que insistiram sos MURILO DE CARVALHO na necessidade de assistir os libertos, dando-thes educagéo ¢ emprego, como foi feito nos Estados Unidos. Lé, apés a guet- a, congregagées religiosas e o governo, por meio do Freedmen’s Bureau, fizeram grande esforgo para educar os ex-escravos. Em 1870, havia 4.325 escolas para libertos, entre as quais uma universidade, a de Howard. Foram também distribuidas terras a0s libertos ¢ foi incentivado seu alistamento eleitoral. Muitas dessas conquistas se perderam apés o fim da intervencao mili- tar no sul. A luta pelos direitos civis teve que ser retomada 100 anos depois. Mas a semente tinha sido langada, ¢ os principios orientadores da agao estavam 14. No Brasil, aos libertos nfo foram dadas nem escolas, nem terras, nem empregos. Passada a euforia da libertagao, mui- tos ex-escravos regressaram a suas fazendas, ou a fazendas vizinhas, para retomar o trabalho por baixo salirio. Deze- nas de anos apés a abolicao, os descendentes de escravos ainda viviam nas fazendas, uma vida pouco melhor do que a de seus antepassados escravos. Outros dirigiram-se as cida- des, como o Rio de Janeiro, onde foram engrossar a grande parcela da populagéo sem emprego fixo. Onde havia dina- mismo econémico provocado pela expansio do café, como em Sio Paulo, os novos empregos, tanto na agricultura como na indtistria, foram ocupados pelos milhares de imigrantes italianos que 0 governo atrafa para o pafs. La, os ex-escra- vos foram expulsos ou relegados aos trabalhos mais brutos mais mal pagos. ‘As conseqiiéncias disso foram duradouras para a popula- gio negra, Até hoje essa populacao ocupa posigio inferior em todos os indicadores de qualidade de vida. E a parcela menos educada da populagio, com os empregos menos qualificados, os menores salatios, os piores indices de ascensao social. Nem CIDADANIA No BRASIL mesmo 0 objetivo dos defensores da razéo nacional de for- mar uma populagéo homogénea, sem grandes diferencas so- ais, foi atingido. A populacao negra teve que enfrentar sozi nha o desafio da ascensio social, e freqtientemente precisou fazé-lo por rotas originais, como o esporte, a misica e a dan- ga. Esporte, sobretudo o futebol, misica, sobretudo o samba, ¢ danga, sobretudo 0 carnaval, foram os principais canais de ascensao social dos negros até recentemente. ‘As conseqiiéncias da escravidao nao atingiram apenas os negros. Do ponto de vista que aqui nos interessa — a forma- gio do cidadio—, a escravidio afetou tanto 0 escravo como o senhor. Se 0 escravo nao desenvolvia a consciéncia de seus direitos civis, 0 senhor tampouco o fazia. O senhor nao ad- mitia 05 direitos dos escravos e exigia privilégios para si pré prio. Se um estava abaixo da lei, 0 outro se considerava aci- ma. A libertagio dos escravos no trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na pratica. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogan- cia de poucos correspondem o desfavorecimento ¢ a humi- Thagio de muitos. A grande propriedade O outro grande obstaculo a expansio da cidadania, herdado da Colénia, era a grande propriedade rural. Embora profun- damente ligada & escravido, ela deve ser tratada em separa- do porque tinha caracteristicas préprias e teve vida muito mais longa. Se € possivel argumentar que os efeitos da escravidio ainda se fazem sentir no Brasil de hoje, a grande propriedade ainda é uma realidade em varias regides do pais. No Nordes- te e nas areas recém-colonizadas do Norte ¢ Centro-Oeste, 0 53 JOSE MURILO DE CARVALHO grande proprietario e coronel politico ainda age como se es- tivesse acima da lei e mantém controle rigido sobre seus tra- balhadores. Até 1930, o Brasil ainda era um pais predominantemente agricola. Segundo o censo de 1920, apenas 16,6% da popu- Jagao vivia em cidades de 20 mil habitantes ou mais (nao houve ‘censo em 1930), € 70% se ocupava em atividades agricolas. A ‘economia passava pela fase que se convencionon chamar de “voltada para fora”, orientada para a exportagio. Exporta- io de produtos primérios, naturalmente. No caso do Brasil, esses produtos eram agricolas. A economia do ouro domina- raa primeira parte do século XVIII, mas ao final do século j quase desaparecera, Na primeira década apés a independén- cia, trés produtos eram responsdveis por quase 70% das ex- portagées: 0 agiicar (30%), 0 algodao (2196) e o café (18%). ‘Na diltima década do Império, as tnicas alteragdes nesse qua- dro foram a subida do café para o primeiro lugar, 0 que se deu na década de 1830, ¢ 0 aumento da participacao dos trés produtos para 82% do total, o café com 60%, 0 agticar, 12% € 0 algodao, 1096. A Primeira Repablica foi dominada economicamente pe- los estados de Sao Paulo e Minas Gerais, cuja riqueza, sobre- tudo de Sao Paulo, era baseada no café. Esse produto tinha migrado do Rio de Janeiro para o sul de Minas e oeste de Sao Paulo, onde terras mais férteis ¢ o trabalho livre de imigran- tes europeus multiplicaram a produgio. Um dos problemas econémicos recorrentes da Primeira Repablica era a superpro- dugao do café. Os governos federal e dos estados produtores introduziram em 1906 programas de defesa do prego do café, ameagado pela superprodugio. Quando as economias centrais entraram em colapso como conseqiiéncia da crise da Bolsa de CIDADANIA WO BRASIL Valores de Nova York em 1929, o principal choque sofrido pelo Brasil foi a redugio & metade dos precos do café e a im- possibilidade de vender os estoques. A crise econémica que se seguiu foi um dos motivos que levaram ao movimento po- Iitico-militar que pés termo a Primeira Repiiblica. Na sociedade rural, dominavam os grandes proprietérios, que antes de 1888 eram também, na grande maioria, propri- etérios de escravos. Eram eles, freqitentemente em aliangacom comerciantes urbanos, que sustentavam a politica do coronelismo. Havia, naturalmente, variagées no poder dos coronéis, em sua capacidade de controlar a terra e a mao-de- obra. © controle era mais forte no Nordeste, sobretudo nas regides de producao de agiicar. Ai se podiam encontrar as oligarquias mais sdlidas, formadas por um pequeno grupo de familias. No interior do Nordeste, zona de criagio de gado, também havia grandes proprietatios, No estado da Bahia, eles eram poderosos a ponto de fugirem ao controle do governo do estado. Em certo momento, o governo federal foi obriga- do aintervir no estado como mediador entre os coronéis ¢ 0 governo estadual. Os coronéis baianos formavam pequenos estados dentro do estado. Em suas fazendas, e nas de seus iguais em outros estados, 0 braco do gaverno nao entrava. O controle nao era tio intenso nas regides cafeeiras e de produgio de laticinios, como Sao Paulo e Minas Gerais. Em So Paulo, particularmente, aentrada maciga de imigrantes europeus possibilitou as primeiras greves de trabalhadores turais ¢ 0 inicio da divisio das grandes propriedades. Em Minas, os coronéis eram poderosos, mas jé necessitavam do poder do Estado para atender a seus interesses. Foi em So Paulo e Minas que 0 coronelismo, como sistema politico, atin- giu a perfeigao ¢ contribuiu para o dominio que os dois esta- 55 Jost MuRILO DE CARVALHO dos exerceram sobre a federagio, Os coronéis articulavam-se com os governadotes, que se articulavam com o presidente da Reptblica, quase sempre oriundo dos dois estados. poder dos coronéis era menor na periferia das econo- mias de exportacio e nas areas de pequena propriedade, como nas coldnias de imigrantes europeus do Sul. Foi nessas regides que se deram as maiores revoltas populares durante o perfo- do da Regéncia (1831-1840) e onde se verificaram movimen- tos messiénicos e de banditismo jé na Reptblica, Para listar s6 65 tiltimos, a revolta de Canudos se deu no interior da Bahias ado Contestado, em areas novas do Parané; a do Padre Cicero, no Ceara, Nas areas de forte controle oligarquico s6 podia haver guerras entre coronéiss nas de controle médio, as per turbagées da ordem oligérquica eram raras. O coronelismo nao era apenas um obsticulo ao livre exer- cicio dos direitos politicos. Ou melhor, ele impedia a partici- pacio politica porque antes negava os direitos civis. Nas fa- zendas, imperava a lei do coronel, criada por ele, executada por ele. Seus trabalhadores e dependentes nao eram cidados do Estado brasileiro, eram siditos dele. Quando o Estado se aproximava, ele o fazia dentro do acordo coronelista, pelo qual 0 coronel dava seu apoio politico ao governador em troca da indicagdo de autoridades, como o delegado de policia, 0 juiz, © coletor de impostos, 0 agente do correio, a professora pri maria. Gragas ao controle desses cargos, 0 coronel podia pre- iar 0s aliados, controlar sua mfo-de-obra e fugir dos impos- tos. Frato dessa situacao eram as figuras do “juiz nosso” e do “delegado nosso”, expressées de uma justiga e de uma policia postas a servico do poder privado. © que significava tudo isso para o exercicio dos direitos ivis? Suaimpossibilidade. A justica privada ou controlada por 56 CIDADANIA NO BRASIL agentes privados é a negagao da justi¢a. O direito deir e vir, o direito de propriedade, a inviolabilidade do lar, aprotecao da honra e da integridade fisica, 0 direito de manifestacio, fica- vam todos dependentes do poder do coronel. Seus amigos e aliados eram protegidos, seus inimigos eram perseguidos ou ficavam simplesmente sujeitos aos rigores da lei. Os depen- dentes dos coronéis nao tinham outra alternativa sendo colo- car-se sob sua protecdo. Varias expressées populares descre- viam a situacao: “Para os amigos, p4o; para os inimigos, pau. Ou entao: “Para os amigos, tudos para os inimigos, a lei.” A iltima expressao é reveladora. A lei, que devia ser a garantia da igualdade de todos, acima do arbitrio do gover- no € do poder privado, algo a ser valorizado, respeitado, mesmo venerado, tornava-se apenas instrumento de castigo, arma contra os inimigos, algo a ser usado em beneficio pré- prio. Nao havia justica, nao havia poder verdadeiramente plblico, nao havia cidadaos civis. Nessas circunstancias, nao poderia haver cidadaos politicos. Mesmo que lhes fosse per- mitido votar, eles nao teriam as condigées necessarias para © exercicio independente do direito politico. Accidadania operéria Se os principais obstéculos & cidadania, sobretudo civil, eran a escravidao e a grande propriedade rural, o surgimento de uma classe operéria urbana deveria significar a possibilidade da formagio de cidadaos mais ativos. A urbanizagio evoluiu Jentamente no perfodo, concentrando-se em algumas capitais de estados. Como vimos, em 1920 apenas 16,6% da popula- sao vivia em cidades de 20 mil habitantes ou mais. Os dois principais centros urbanos eram o Rio de Janeiro, com 790 87 JOSE MURILO DE CARVALHO iil habitantes, e Sao Paulo, com 579 mil. O crescimento do estado e da capital de Sao Paulo foi maior devido a grande entrada de imigrantes, sobretudo italianos. No perfodo entre 1884 ¢ 1920, entraram no Brasil cerca de 3 milhdes. Desses, 41,8 milhao foi para Sao Paulo. Muitos imigrantes dirigiam-se inicialmente para as fazendas de café de S4o Paulo. Mas um grande nimero acabava se fixando na capital, empregados na indastria ou no comércio. Em 1920, a industrializagao também se concentrava nas ccapitais, com destaque para o Rio de Janeiro, ainda a cidade mais industrializada do pafs, e para Sdo Paulo, que se trans- formavarapidamente no principal centro industrial. Cerca de 20% da mao-de-obra industrial estava na cidade do Rio de Janeiro, ao passo que 31% se concentrava no estado de Sao Paulo. Em 1920, havia no Brasil todo 275.512 operdrios in- dustriais urbanos. Era uma classe operdria ainda pequena e de formagio recente. Mesmo assim, j4 apresentava alguma diversidade social ¢ politica. Rio de Janeiro ¢ Sao Paulo po- dem ser tomados como representativos do que sucedia, em ponto menor, no resto do pais. No Rio, aindustrializagao era mais antiga e o operariado, mais nacional. O grupo estran- geiro mais forte era o portngnés, cuja cultura e tradig6es no se distanciavam muito das brasileiras. Havia ainda, no Rio, forte presenga de populagao negra na classe operaia, inclusi- ve de ex-escravos, e também muitos operarios do Estado. Em Sio Paulo, a grande maioria do operariado era composta de imigrantes europeus, italianos em primeiro lugar, mas tam- bém espanhéis ¢ ontros. O operariado do Estado e de empre- sas piblicas era pequeno. © comportamento dos operarios nas duas cidades era também diferente. No Rio, havia maior diversidade de orien- 58 CIDADANIA No aRasiL ages. O operatiado do Estado e de empresas publicas (es- tradas de ferro, marinha mercante, arsenais) mantinha es- treita ligagdo com o governo. Muitos operdtios do Estado votavam nas eleig6es. No setor nio-governamental havia maior independéncia politica. Os operarios do porto nao se negavam a dialogar com patrdes e com 0 governo, mas eram bem organizados e mantinham posigio de independéncia. Na inddstria e na construgao civil, encontravam-se as posigdes mais radicais, influenciadas pelo anarquismo trazido por imigrantes europeus. © auge da influéncia dos anarquistas verificou-se nos tiltimos anos da Primeira Guerra Mundial, quando lideraram uma grande greve que inclufa planos de tomada do poder. Em Sao Paulo, o peso do anarquismo foi maior devido & presenga estrangeira e ao pequeno ntimero de operdtios do Estado. © movimento operério como um todo foi mais agressivo, culminando em uma grande greve geral em 1917. Mas também lé havia obstaculos & ago ope- réria. Os imigrantes, mesmo os italianos, provinham de re~ gides diferentes, falavam dialetos diferentes e freqiientemente competiam entre si, Muitos deles estavam também mais in- teressados em progredir rapidamente do que em envolver- se em movimentos grevistas, Além desses obstaculos internos a classe, os operdtios ti- nham que enfrentar a repressio comandada por patrdes e pelo governo. O governo federal aprovou leis de expulsio de es- trangeiros acusados de anarquismo, e a ago da policia rara- ‘mente se mostrava neutra nos conflitos entre patrdes e ope- rarios, O anarquismo teve que enfrentar ainda um opositor interno quando foi criado o Partido Comunista do Brasil, em 1922, formado pot ex-anarquistas. © Partido Comunista vin- culou-se & Terceira Internacional, cujas diretrizes seguia de 59 JOSE MURILO DE CARVALHO perto. A partir daf a influéncia anarquista declinou ra te. O movimento operario como um todo perdeu forga du- rante a década de 20, s6 vindo a ressurgir apés 1930. Sob o ponto de vista da cidadania, o movimento operario significou um avango inegavel, sobretudo no que se refere aos direitos civis. O movimento lutava por direitos basicos, como 6 de organizar-se, de manifestar-se, de escolher 0 trabalho, de fazer greve. Os operdrios lutaram também por uma legis- lagao trabalhista que regulasse 0 hordrio de trabalho, o des- canso semanal, as férias, e por direitos sociais como o seguro de acidentes de trabalho e aposentadoria, No que se refere aos direitos politicos, deu-se algo contraditério. Os setores operatios menos agressivos, mais proximos do governo, cha- mados na época de “amarelos”, eram os que mais votavam, embora o fizessem dentro de um espfrito clientelista. Os se- tores mais radicais, os anarquistas, seguindo a orientagao clas- sica dessa corrente de pensamento, rejeitavam qualquer rela- ao com o Estado ¢ com a politica, rejeitavam os partidos, 0 Congtesso, ¢ até mesmo a idéia de patria. © Estado, para eles, no passava de um servidor da classe capitalista, o mesmo se dando com os partidos, as eleigées e a propria patria. Ao en- cerrar um Congresso Operario, em 1906, no Rio de Janeiro, tum lider anarquista afirmou que 0 operario devia “abando- nar de todo e para sempre a luta parlamentar e politica”. O voto, dizia, era uma burla. A tinica huta que interessava a0 operério era a luta econémica contra os patrées. Imprensados entre “amarelos” ¢ anarquistas achavam-se 08 socialistas, que julgavam poder fazer avangat os interesses da classe também através da luta politica, isto é, da conquista € do exercicio dos direitos politicos. Sintomaticamente, os socialistas foram os que menor éxito tiveram. Fracassaram em 60 todas as tentativas de formar partidos socialistas operdrios no Rio de Janeiro e em Sao Paulo. A politica das oligarquias, com sua aversio as eleigdes livres e & participagao politica, nfo Ihes deixava espago para atuat. Assim é que os poucos direitos civis conquistados néo pude- ram set postos a servigo dos direitos politicos. Predominaram, de um lado, a total rejeigéo do Estado proposta pelos anar- quistas; de outro, aestreita cooperacio defendida pelos “amare- los”. Em nenhum dos casos se forjava a cidadania politica. A tradigéo de maior persisténcia acabou sendo a que buscava melhorias por meio de alianga com o Estado, por meio de con- tato direto com os poderes piiblicos. Tal atitude seria mais bem caracterizada como “estadania”. Os direitos sociais Com direitos civis e politicos to precérios, seria diffcil falar de direitos sociais. A assisténcia social estava quase exclusiva- mente nas mios de associagdes particulares. Ainda sobreviviam muitas irmandades religiosas oriundas da época colonial que ofereciam a seus membros apoio para tratamento de saiide, auxilio funerério, empréstimos, ¢ mesmo pensées para viti- vase filhos. Havia também as sociedades de auxilio miituo, que eram versao leiga das irmandades e antecessoras dos modernos sindicatos. Sua principal fungao era dar assisténcia social aos membros. Irmandades e associagées funcionavam em base contratual, isto é, os beneficios eram proporcionais as contribuigdes dos membros. Mencionem-se, ainda, as san- tas casas da misericérdia, instituigbes privadas de caridade voltadas para o atendimento aos pobres © governo pouco cogitava de legislacao trabalhista ¢ de ot JOSE MURILO DE CARVALHO protecio ao trabalhador. Honve mesmo retrocesso na legis- ago: a Constituicao republicana de 1891 retirou do Estado a obrigagio de fornecer educago priméria, constante da Constituigéo de 1824. Predominava entio um liberalismo ortodoxo, ja superado em outros paises. Nao cabia ao Estado promover a assisténcia social. A Constituigao republicana proibia ao governo federal interferir na regulamentagao do trabalho. Tal interferéncia era considerada violagao da liber- dade do exercicio profissional. Como consegtiéncia, nao houve medidas do governo fe- deral na area trabalhista, exceto para a capital. Logo no inf- cio da Reptiblica, em 1891, foi regulado o trabalho de meno- res na capital federal. A lei nao teve muito efeito. Em 1927 voltou-se a0 assunto com a aprovacao de um Cédigo dos Menores, também sem maiores conseqiténcias. A medida mais, importante foi na rea sindical, quando os sindicatos, tanto rurais quanto urbanos, foram reconhecidos como legitimos representantes dos operérios, Surpreendentemente, o reconhe- cimento dos sindicatos rurais preceden o dos sindicatos urba- nos (1903 e 1907, respectivamente). © fato se explica pela presenga de trabalhadores estrangeiros na cafeicultura. As representacées diplomaticas de seus paises de origem estavam, sempre atentas ao tratamento que Ihes era dado pelos fazen- deiros e protestavam contra os arbitrios cometidos. $6 em 1926, quando a Constituigo sofreu sua primeira reforma, é que o governo federal foi autorizado a legislar so- bre o trabalho. Mas, fora o Cédigo dos Menores, nada foi feito até 1930. Durante a Primeira Repiiblica, a presenga do go- verno nas relagées entre patrdes e empregados se dava por meio da ingeréncia da policia. Eram os chefes de policia que interferiam em casos de conflito, e sua atuagio nao era exata- 62 CIDADANIA No BRASIL mente equilibrada. Ficou famosa a afirmacéo de um candida- to a presidéncia da Repiblica de que a questo social — nome genético com que se designava o problema operirio — era ‘questo de policia. Outra indicagio dessa mentalidade foram as leis de expulsio de operarios estrangeiros acusados de anarquismo ¢ agitagao politica. No campo da legislagao social, apenas algumas timidas medidas foram adotadas, a maioria delas apés a assinatura pelo Brasil, em 1919, do Tratado de Versalhes e do ingresso do pais na Organizacao Internacional do Trabalho (OIT), criada nes- semesmo ano. Influenciou também a aio do governo a maior agressividade do movimento operdrio durante 0 anos da guerra. Havia muito os operérios vinham cobrando medidas que regulassem a jornada de trabalho, as condigées de higie- ne, 0 repouso semanal, as férias, o trabalho de menores ¢ de mulheres, as indenizagdes por acidente de trabalho. Em 1919, uma lei estabeleceu a responsabilidade dos patrées pelos aci- dentes de trabalho. Era um passo ainda timido, pois os pedi- dos de indenizagéo deviam tramitar na justiga comum, sem interferéncia do governo. Em 1923, foi criado um Conselho Nacional do Trabalho que, no entanto, permaneceu inativo. Em 1926, uma lei regulou o direito de férias, mas foi outra medida “para inglés ver”. O que houve de mais importante foi a criagdo de unia Caixa de Aposentadoria e Pensio para os ferroviérios, em 1923. Foi a primeira lei eficaz de assisténcia social. Suas ca- racteristicas principais eram: contribuigio dividida entre 0 governo, os operarios os patrdes; administragao atribuida a representantes de patrdes ¢ operarios, sem interferéncia do governo; organizagao por empresa. Trés anos depois, em 1926, foi criado um instituto de previdéncia para os funcionarios 63 José muRito DE CARVALHO. da Unido. O sistema das Caixas expandiu-se para outras em- presas. Embora modestas ¢ limitadas a poucas pessoas, essas medidas foram o germe da legislacio social da década seguinte. ‘Ao final da Primeira Repablica, havia pelo menos 47 Caixas, uns 8 mil operdrios contribuintes e cerca de 7 mil pensionistas. ‘As poucas medidas tomadas restringiam-se ao meio ur- bano. No campo, a pequena assisténcia social que existia era exercida pelos coronéis. Assim como controlavam a justica ea policia, os grandes proprietarios também constituiam 0 tinico recurso dos trabalhadores quando se tratava de com- prar remédios, de chamar um médico, de ser levado a um hospital, de ser enterrado. A dominagio exercida pelos co- ronéis incluia esses aspectos paternalistas que Ihe davam al- guma legitimidade. Por mais desigual que fosse a relagio entre coronel e trabalhador, existia um minimo de recipro- cidade. Em troca do trabalho e da lealdade, 0 trabalhador recebia protecio contra a policia e assisténcia em momen- tos de necessidade. Havia um entendimento implicito a res- peito dessas obrigagbes miituas. Esse lado das relagdes mas- carava a exploracio do trabalhador e ajuda a explicar a du- rabilidade do poder dos coronéis. CIDADAOS EM NEGATIVO Em 1881, um bidlogo francés que ensinava no Rio de Janei- 10, Louis Conty, publicou um livro intitulado A escravidao no Brasil, em que fazia uma afirmagao radical: “O Brasil nao tem povo.” Dos 12 milhées de habitantes existentes a época, ele separava, em um extremo, 2 milhGes e meio de indios e es- cravos, que classificava como exclufdos da sociedade politi- oa CIDADANIA NO BRASIL ca, No outro extremo, colocava 200 mil proprietitios e pro- fissionais liberais que constituiam a classe dirigente. No meio ficavam 6 milhdes que, segundo ele, “nascem, vegetam ‘morrem sem ter servido ao pais”. Nao havia em lugar algum, é ainda Couty quem fala, massas organizadas de produtores livres, “massas de eleitores sabendo pensar e votar, capazes de impor ao governo uma diregio definida”. Em 1925, o deputado Gilberto Amado fez um discurso na Camara em que, sem citar Couty, repetia a andlise, atuali- zando os dados. Esse importante politico e pensador dizia que, de acordo com os dados do censo de 1920, em 30 milhées de habitantes, apenas 24% sabiam ler e escrever. Os adultos masculinos alfabetizados, isto é, os que tinham direito de voto, no passariam de 1 milhio. Desse milhio, dizia, no mais de 100 mil, “em calculo otimista, tém, por sua instrugio efetiva € sua capacidade de julgar e compreender, aptidio civica no sentido politico da expresso”. Esse niimero, continuava, poderia ser reduzido a 10 mil, se 0 conceito “aptidao civica” fosse definido mais rigorosamente. Se entendermos as observagses de Couty e Amado como indicagao de que nao havia no pais povo politicamente orga- nizado, opinido publica ativa, eleitorado amplo e esclarecido, podemos concordar com elas e consideré-las fiel descrigao do Brasil em 1881 ¢ em 1925. Nao foi outro o sentido de minha argumentagio até aqui, Mas € preciso fazer duas ponderagées. A primeira € que houve alguns movimentos politicos que in- dicavam um inicio de cidadania ativa. Refiro-me sobretudo a0 movimento abolicionista, que ganhou forca a partir de 1887. Era um movimento nacional, embora predominante- mente urbano. Foi forte tanto no sul como no norte do pai Além disso, envolveu pessoas de varias camadas sociais, desde Jost MURILO DE CARVALHO membros da elite, como Joaquim Nabuco, até os préprios escravos, passando por jornalistas, pequenos proprictérios e operdrios. Principalmente, tratou-se de uma luta por um di- reito civil bisico, aliberdade. O ponto fraco do abolicionismo vyeio do fato de ter acabado logo apés a aboli¢ao, em parte, talvez, pela concepgéo de razdo nacional que, como visto, predominava em sua motivacio, Ele néo prosseguiu a luta, como queria André Rebougas, para quem a aboligao era ape- nas 0 ptimeiro passo na transformacao dos ex-escravos em cidadios. Outro movimento que merece referéncia foi o dos jovens oficiais do Exército, iniciado em 1922. Embora de natureza estritamente militar e corporativa, 0 tenentismo despertou amplas simpatias, por atacar as oligarquias politicas estaduais. A consciéncia politica dos oficiais, sobretudo no que se re- fere ao mundo das oligarquias, tornou-se mais clara duran- tea grande marcha de milhares de quilémetros que fizeram pelo interior do pafs na tentativa de escapar ao cerco das for- gas governamentais. O ataque as oligarquias agrarias esta- duais contribuia para enfraquecer outro grande obstaculo a expansio dos direitos civis e politicos. © lado negativo do tenentismo foi a auséncia de envolvimento popular, mesmo durante a grande marcha. Os “tenentes” tinham uma con- cepsao politica que incluia o assalto ao poder como titica de oposigéo. Mesmo depois de 1930, quando tiveram intensa participacéo politica, mantiveram a postura golpista alheia a mobilizagao popular. A segunda ponderagao € que as afirmagées de Couty & Amado pecam por adotar uma concepgéo de cidadaniaestreita e formal, que supe como manifestagao politica adequada aquela que se da dentro dos limites previstos no sistema legal, sobretudo 0 uso do direito do voto. Esse critério foi usado também até agora neste trabalho. Parece-me, no entanto, que uma interpretagao mais correta da vida politica de pafses como o Brasil exige levar em conta outras modalidades de partici- pagio, menos formalizadas, externas aos mecanismos legais de representagao. E preciso também verificar em que medi- da, mesmo na auséncia de um povo politico organizado, exis- tiria um sentimento, ainda que difuso, de identidade nacio- nal. Esse sentimento, como jé foi observado, acompanha quase sempre aexpansio da cidadania, embora nio se confunda com ela. Ble € uma espécie de complemento, as vezes mesmo uma compensagio, da cidadania vista como exercicio de direitos. A avaliagao do povo como incapaz de discernimento po- Iitico, como apatico, incompetente, corrompivel, enganavel, que vimos nos debates sobre a eleigio direta, revela visio m(ope, ma-fé, ou incapacidade de percepgao. E evidente que nao se podia esperar da populacao acostumar-se da noite para © dia ao uso dos mecanismos formais de paiticipacao exigi- dos pela paraferndlia dos sistemas de representacéo. Mesmo assim, vimos que o eleitor do Império e da Primeira Repiibli- ca, dentro de suas limitagdes, agia com racionalidade e que no havia entre os lideres politicos maior preocupagio do que a dele com a lisura dos processos eleitorais, Além disso, se o povo nao era um eleitor ideal e nem sem- pre teve papel central nos grandes acontecimentos, como a proclamagio da independéncia e da Reptblica, ele achavacom freqiténcia outras maneiras de se manifestar. Ja na indepen- déncia, a populagio do Rio de Janeiro por varias vezes foi & rua, aos milhares, em apoio aos lideres separatistas, contra as tropas portuguesas. Em janeiro de 1822, 8 mil pessoas assi- naram 0 manifesto contra o regresso de D. Pedro a Portugal. Para uma cidade de cerca de 150 mil habitantes, dos quais grande parte era analfabeta, o nimero é impressionante. Em 1831, um levante em que se confundiram militares, povo e deputados reuniu 4 mil pessoas no Campo de Sant’ Ana, for- ou D. Pedro Ia renunciar e aclamou seu filho, uma crianga de cinco anos, como sucessor. ‘Algumas rebelides da Regéncia tiveram caréter nitidamente popular. Nas capitais revoltaram-se com freqiténcia as tropas de linha, cujos componentes eram na totalidade provenientes das camadas mais pobres da populagio. Era comum a expres- sio “tropa povo” para indicar os revoltosos. Mas foi nas éreas rurais que aconteceram as revoltas populares mais importan- tes. A primeira delas deu-se em 1832, na fronteira das pro- vincias de Pernambuco e Alagoas. Chamou-se a Revolta dos Cabanos. Os cabanos eram pequenos proprietirios, indios, camponeses, escravos. Defendiam a Igreja Catdlicae queriam avolta de D. Pedro I. Seu lider era um sargento, filho de pa- dre, que desertara do Exército, Durante trés anos enfrenta- ram as tropas do governo em auténtica guerrilha travada nas, matas da regio. Os iltimos rebeldes foram cagados um a um. nas matas, como anim: Ontra revolta popular aconteceu em 1838 no Maranhao, perto da fronteira com o Piauf, em regiéo de pequenas pro- priedades. Fico conhecida como Balaiada porque um dos lideres era fabricante de balaios. Outro lider era vaqueiro. A eles se juntou também um ex-escravo a frente de uns 3 mil escravos fugidos das fazendas das regides vizinhas. Os “balaios” chegaram a reunir 11 mil homens em armas ¢ ocu- param Caxias, a segunda maior cidade da provincia. Mas di- visdes internas entre livres ¢ escravos enfraqueceram o movi- mento, que foi finalmente derrotado em 1840. O vencedor CIDADANIA NO aRAsiL dos “balaios”, Luis Alves de Lima, foi recompensado com 0 titulo de barfo de Caxias. A revolta popular mais violenta e dramatica foi a Cabanagem, na provincia do Paré, iniciada em 1835. Os re- beldes eram na maioria indios, chamados “tapuios”, negros e mestigos. A capital da provincia, Belém, foi tomada, e boa parte da populagio branca, cerca de $ mil pessoas, formada de comerciantes e proprietarios brasileiros e portugueses, re- fugiou-se, junto com o presidente, em navios de guerra es- trangeiros. A provincia caiu nas maos dos rebeldes, que a pro- clamaram independente, sob o comando de um extraordind- rio lider de 21 anos chamado Eduardo Angelim. A luta conti- nuou até 1840 e foi a mais sangrenta da hist6ria do Brasil. O novo presidente, um general, recuperou a capital abandona- da pelos rebeldes ¢ iniciou uma campanha sistematica de re- presséo. Militarizou a provincia, deu ordens de fuzilar quem resistisse, obrigou todos os nao-proprietarios a se alistarem em corpos de trabalhadores. Violéncia e crueldacle marcaram aagao dos dois grupos de antagonistas. Soldados do governo eram vistos nas ruas exibindo em torno do pescoco rosétios feitos de orelhas de cabanos. Uns 4 mil cabanos morreram somente em prisdes, navios ¢ haspitais. Calculon-se o ntime- ro total de mortos em 30 mil, divididos igualmente entre os dois campos em luta. Esse ntimero representava 20% da po- pulagao da provincia, Foi a maior carnificina da histéria do Brasil independente. Deve-se mencionar ainda a revolta dos escravos malés de 1835, em Salvador. Embora abortada devido a dentincias, foi duramente reprimida. Calcula-se em 40 o nimero de escra- Vos ¢ libertos mortos na luta, 20s quais se devem acrescentar