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O surgimento da sociologia

Alexandre Carneiro de Souza

A Sociologia pode ser entendida como uma das manifestações do pensamento


moderno. Com o seu surgimento, o saber científico passa a incorporar a realidade do
mundo social.

O contexto histórico de seu surgimento compreende uma constelação de


acontecimentos (políticos, econômicos, filosóficos, científicos, religiosos e artísticos)
que se insere no período que vai dos sintomas que prenunciam a desagregação da
sociedade feudal à consolidação da civilização capitalista.

Pode-se dizer que a Sociologia é o resultado do esforço de um conjunto de


pensadores que se empenharam em compreender as novas realidades da vida social do
ocidente, em curso.

O significado do termo sociologia

O termo que designa a disciplina sociologia antecipa de modo bastante claro a


natureza e o propósito de seus estudos. Sociologia significa a ciência da sociedade – o
estudo dos fenômenos sociais, segundo o método da análise sociológica. No vasto
campo da vida da sociedade, a sociologia pretende estudar aqueles fenômenos de
natureza social. Nem todo o acontecimento que ocorre no interior de uma sociedade é
de natureza social. Nesse sentido, a sociologia não é uma ciência que tome por objeto
de observação o indivíduo; ela é uma ciência do social; e se interessa pelo indivíduo, na
medida em que o seu comportamento afete, dentro de uma certa regularidade, aos
demais, constituindo- se um fato social.

Um enfoque diferenciado sobre o social

A sociedade não é objeto exclusivo de análise da sociologia. Outras disciplinas


voltam seus olhares para a realidade social: história, antropologia, a educação,
psicologia social, economia social, etc. No entanto, o que singulariza a sociologia aponta
para o método próprio através do qual ela interpreta esse campo comum. A realidade
social é vasta, plural e complexa, de sorte que jamais poderia ser objeto de análise de
uma só disciplina científica. A sociologia, entretanto, ao curvar-se sobre a problemática
social o faz de acordo com regras específicas de interpretação social. Trata-se de uma
análise do social pelo social.

Os fatores do surgimento da sociologia

A sociologia possui uma paternidade múltipla. Um conjunto de fatores simultâneos


e alternados atuaram de modo a fazer emergir a necessidade do estudo específico da
sociedade. Na verdade, o surgimento dos diversos segmentos do conhecimento
filosófico e científico é de natureza histórica, processual e cumulativa. A análise
sociológica está relacionada com os acontecimentos do processo de formação do saber
humano desde Platão à Comte (considerado o pai do termo sociologia aplicado ao
estudo da sociedade). No entanto, as influências para a criação de uma ciência do social
extrapolam os limites do saber filosófico e científico. Acontecimentos políticos,
econômicos, religiosos e artísticos deram sua parcela de contribuição para o surgimento
da sociologia.

Nesse sentido o século XVIII consiste um marco importante. Nele se aceleram as


transformações econômicas, políticas e culturais que colocarão problemas inéditos para
a sociedade ocidental européia.

O campo econômico e o surgimento da sociologia

A produção capitalista não apenas introduziu a máquina a vapor e os sucessivos


aperfeiçoamentos dos métodos produtivos, ela desintegrou costumes e introduziu novas
formas de organização da vida social. Um exemplo é que entre 1780 e 1860 (oitenta
anos) a Inglaterra mudara de forma marcante a sua fisionomia. Ao invés das pequenas
e dispersas cidades, surgiram as cidades com grande concentração populacional, nas
quais estavam as indústrias nascentes.
Os fenômenos da industrialização e da urbanização (que efetivaram a transição da
produção artesanal para a manufatureira e desta para a produção fabril) estão no
centro dos fatores de surgimento da sociologia. Com eles surgem:
a) A reordenação da sociedade rural e urbana com a maciça migração do campo para a
cidade,
b) o fim da servidão,
c) o desmantelamento da família patriarcal,
d) a introdução do trabalho feminino e infantil no processo produtivo industrial,
e) O crescimento demográfico das cidades sem a devida infra-estrutura de serviços
básicos,
f) Aumento dos índices de prostituição, suicídio, alcoolismo, infanticídio, criminalidade,
violência, epidemias (tifo e cólera que dizimaram parte da população),
g) O aparecimento do proletariado, tanto como uma nova classe social decorrente do
novo modo de produção, quanto corpo organizado que confrontava os proprietários
dos meios de produção.

O campo político e o surgimento da sociologia

Predominou na França, antes da emersão do capitalismo, o regime feudal, com o


predomínio de uma população camponesa na ordem dos 23 milhões de pessoas, numa
população total de 25 milhões 1. A sociedade feudal estava sustentada numa visão
política e econômica conservadora, cuja ênfase era nociva ao aumento da produtividade
e ao surgimento de novas forças políticas. Uma economia que tinha por pilar a cobrança
exacerbada de impostos (pagos ao Estado, dízimos pagos ao clero e taxas pagas à
nobreza detentora da posse das terras), da qual estava isenta a aristocracia. A
condução da política feudal era sinônimo de estagnação econômico acelerando cada vez
mais os níveis de pobreza. Por outro lado, ocorria simultaneamente a falência financeira
do trono e o progressivo descontentamento das camadas burguesas, ligadas sobretudo
ao comércio. Estas viam-se impedidas do acesso ao poder político e reivindicavam a
liberdade do comércio e da produção.

1
Conforme Denize Rosana Rubano e Melania Moroz: Alterações da sociedade,
efervescência na idéias – a França do século XVIII – In: Para conhecer a Ciência: uma
perspectiva histórica – Maria Amália Andery et al. 1988, p.331.
Pode-se dizer que uma dos marcos básicos que dera insustentabilidade a
manutenção do feudalismo residia na crise de um trono que detinha poder político, mas
não tinha poder econômico; associando a crise da burguesia que detinha poder
econômico, mas não possuía poder político.

Já na segunda metade do século XVIII a burguesia passara a dominar os setores


manufatureiro e comercial, sobretudo o comércio exterior, inclusive o colonial,
tornando-se a categoria econômica mais importante da França. Fazendo um curso
inverso, a aristocracia entrava cada vez mais em colapso. Para manter os custos de sua
elevada posição social explorava cada vez mais os camponeses e se utilizava de
expedientes políticos para manter-se no controle do maior número possível de cargos na
administração do Estado.

A Revolução Francesa que iniciou em 1789 e culminou com a tomada do poder


pela burguesia.

O acontecimento singular que determinou a derrocada do Estado feudal foi a


tomada da Bastilha, uma prisão que simbolizava o poder do Estado monárquico, que
caiu sob o poder dos revolucionários em 14 de julho de 1789.
A aristocracia planejara capturar o poder monárquico e para isto convocara uma
assembléia sem considerar o poder social do terceiro estado constituído pela massa de
camponeses e artesão (rural e urbana) e pela burguesia comercial. Outro aspecto não
considerado nos intentos da aristocracia era a crise sócio-econômica devido ao fracassos
da colheita num período de rigoroso inverno, no meio da qual buscava aumentar seus
ganhos econômicos e políticos. Os Estados Gerais foram convocados. Nesta além do
primeiro e segundo estado (aristocracia e clero respectivamente), o terceiro estado,
formado pela burguesia, camponeses e artesão, estava também representado. Este
último, utilizando-se do amplo apoio popular, ampliou o número de seus deputados e
mudou o sistema de votação, onde o voto era pôr indivíduo e não pôr ordem.

Não alcançando seus objetivos, a aristocracia alia-se ao trono para interromper as


mudanças em curso, tentando pelo uso da força destituir a assembléia, o que já era
tarde, pois a revolução popular já estava nas ruas.

A assembléia instituiu a Monarquia Constitucional, segundo a filosofia iluminista


inspirada nos novos ventos políticos oriundos da Inglaterra. A Constituição de 1891
previa a igualdade de todos perante a lei e o Estado e liberdade no plano religiosos e
econômico. No entanto, uma vez no poder a ideologia burguesa bloqueou a participação
popular, fez aliança com o antigo poder visando atender seus interesse de classe e
manter-se no poder. Ao assumir o poder, a burguesia, antes revolucionária, acomodou o
processo revolucionário e buscou perpetuar o mando político em suas mãos. O final da
Revolução Francesa dá-se em 9 de novembro de 1799 com a tomada do poder pelo
General Napoleão Bonaparte.

A influência do campo filosófico

A contribuição do pensamento filosófico no surgimento da sociologia é atribuída


preponderantemente ao campo da filosofia social. Este é amplo e poder-se-ia dizer que
seu início remonta a Platão. Já na obra A República. o filósofo tratava de problemas
sociais e políticos. Em Os Diálogos encontram-se abordagens significativas sobre o
comportamento humano. Maquiavel, em sua obra: O Príncipe enfocava temas sobre
Estado e cidadania.
O movimento filosófico chamado iluminista, entre os quais figuraram Diderot
(1713-1784), Voltaire /1694-1778), Montesquieu (1689-1765 ) e Russeau (1712-1778),
teve influência decisiva nos rumos em busca de uma análise da sociedade. Os
iluministas viveram num período de transição da passagem das relações sociais segundo
o regime feudal para uma outra organização social de molde capitalista.

Os iluministas se tornaram conhecidos como ideólogos da burguesia, por se


posicionaram de forma revolucionária atacando a os fundamentos da sociedade feudal e
os privilégios de sua classe dominante e as restrições que esta impunha aos interesses
econômicos e políticos da burguesia.
Estes novos teóricos procuraram demonstrar que as instituições da época eram
irracionais e injustas e que atentavam contra a liberdade do indivíduo.

O pensamento iluminista trabalhava segundo os seguintes pressupostos:


a) A razão como instrumentos da realização plena do homem mediante o
obtenção do conhecimentoe transformação da realidade;
b) O valor da experiência e da observação para a construção cognitiva da
realidade social;
c) A rejeição da visão sacralizada do mundo;
d) A defesa do progresso da humanidade.

A evolução do pensamento científico

O emprego sistemático tanto da razão como do livre exame para a compreensão


da realidade já representava um grande avanço para libertação do conhecimento que
estava sob o controle da teologia, da tradição e da “revelação”.

Esse avanço começou a ser construído desde Galileu (1564-1642), com a


chamada ciência moderna, no século XVI, desestabilizara a visão aristotélica do mundo,
reinterpretada pela Igreja Católica. Segundo o pensamento de Aristóteles, o universo
era estático, no qual a realidade em geral obedecia inevitavelmente um determinismo –
tratava-se de uma realidade fechada e imensurável.

Galileu e Newton, introduziram o mecanicismo como a nova visão de mundo,


mediante a qual se descobriu as dimensões matemáticas e geométricas da natureza e
propuseram leis mecânicas do movimento.

Francis Bacon (1561 – 1626) cria o empirismo método que afirmava a


possibilidade real do conhecimento pela via da experimentação.
O argumento de Bacon poderia ser sintetizado da seguinte forma:
a) O bem-estar humano dependia do controle do homem sobre a natureza;
b) Para que o conhecimento seja válido deve estar fundamentado em fatos
através de uma ampla observação;
c) O conhecimento opõe-se a qualquer idéia predeterminada ou especulativa,
somente pela via empírica e experimental se poderá produzir um saber à serviço do
progresso.

René Descartes (1596 – 1650) instituiu o racionalismo mediante a proposição da


dúvida metódica: devia-se duvidar de tudo exceto da própria dúvida. O método racional
explica tudo; a única fonte segura de conhecimento é a racional. Para esse estudioso,
nada deveria ser considerado verdadeiro antes de um rigoroso trabalho de
decomposição do problema em tantas partes quanto for possível, analisando-as a partir
das mais simples. O conhecimento deveria ser elaborado dos aspectos mais simples até
aos mais complexos. Tudo deveria ser pesado e medido; o que exprime uma clara
disposição de aplicar o método matemático à reflexão sobre a realidade.

A religião e o surgimento da sociologia

Qual seria a relação entre a religião e o nascimento de uma ciência do social?


Deveras, a história da formação da sociologia afirma que seus iniciadores se opunham
radicalmente às explicações teológicas vigentes desde a Idade Média. Comte
prenunciara o fim da religião em decorrência de que a razão satisfaria as indagações
humanas antes, insatisfatoriamente, respondidas pela Igreja. Um dos discursos centrais
dos fundadores da sociologia afirma o antidogmatismo religioso.
No entanto, a Reforma Protestante contrapôs-se a cosmovisão unitária da Igreja,
rachando o pensamento religioso na Europa. Esse movimento incorporava os valores da
doutrina liberal, fomentava o individualismo e sustentava um ética do trabalho favorável
à produtividade, à poupança e ao investimento. Na verdade o intento original dos
reformadores não era fomentar uma nova economia para o sistema de produção. O
cerne das idéias reformadas visavam antes de mais nada uma conduta cristã, por meio
da qual o cristão se percebesse e se manifestasse ao mundo social como alguém
vocacionado, sob a graça de Deus, cujo sinal desta eleição se manifestaria numa vida
próspera, sem vício de sorte alguma e devotada aos valores cristãos.
A máxima defendida pela Reforma dizia que mais importante do que a relação das
pessoas com a igreja instituída era a relação direta de cada um com Deus; o que
significava que cada um seria pastor de si mesmo – a doutrina do sacerdócio universal.

A arte e o surgimento da sociologia

O progresso no abandono do dogmatismo de uma visão providencialista não se


restringiu ao meio intelectual, como também atingiu o campo da arte.
O renascimento e o barroco a despeito de constituírem visões diferentes
acabaram tornando-se peças culturais importantes na derrocada do trono e do clero e
deste modo contribuíram para a transição social que motivou o surgimento da
sociologia.

Renascimento significa nascer de novo. Um renascer da arte e da cultura da


antigüidade. Como fato histórico, representa um período de apogeu cultural entre os
séculos XV e XVI, no qual a sociedade européia retorna ao humanismo da antigo. A
proposta central do renascimento era, após a longa idade média que interpretada a vida
sob a luz da religião, restituir ao homem o lugar central do universo. Este homem
deixada de ser reconhecido em sua natureza pecadora (Idade Média) e passa a ser
reconhecido como algo grandioso. Neste período ocorre uma valorização da cultura
grega

Barroco tem origem numa palavra que significa “pedra irregular” e designa um
movimento cultural que realçava as formas opulentas, diferentes da arte renacentista de
formas mais harmônicas e mais despojadas. O período da arte barroca foi marcado pelo
contraste. Num quadro se poderia retratar a vida opulenta e num canto inferior aparecia
uma caveira2. O Barroco conviveu com o contraste entre a miséria do povo e a
ostentação das elites. Um nome expressivo desta época é o de William Shakespeare que
escreveu peças famosas a guerra. O barroco foi celebrizado sobretudo no teatro
representava a ilusão para em seguida desmascara-la.

A sociologia – proposta de racionalização da nova ordem social

Os acontecimentos econômicos, políticos, científicos, filosóficos, religiosos e


artísticos, que se deram nos séculos XVII, XVII e XIX, entre estes, principalmente a
Revolução Industrial e a Revolução Francesa, provocaram transformações radicais no
contexto social.
O estudo desses impactos realizados por Tocqueville, Saint-Simon, Comte e o
próprio Durkheim propiciaram o surgimento da sociologia.
Esses autores buscavam racionalizar a nova ordem emergente, na tentativa de
encontrar soluções para o estado de desorganização reinante, com a finalidade de
restabelecer a ordem e a paz. A proposta de análise inicial pressupunha o conhecimento
das leis que regiam os fatos sociais. Seguindo na mesma direção dos filósofos
iluministas que, após o processo revolucionário, se aplicaram na imposição de uma
ordem moral segundo os interesses da nova classe no poder, a burguesia, os
fundadores da sociologia assumem também a tarefa de estabilizar a nova ordem sem a
pretensão de alterar as estruturas do poder.
A sociedade passou a constituir-se um problema a ser analisado. Antes, a
sociedade não se constituíra problema. A sociedade feudal hierarquizara as relações, de
modo que os privilégios eram garantidos à aristocracia e o crime e a revolta popular
eram reprimidos com rigor pelo Estado absolutista. Os atores da cena social se
encaixavam perfeitamente num modelo administrável. A nota dissonante que
desencadeará a desestabilidade social será o surgimento da burguesia, primeiramente a
comercial, depois a industrial. Essa categoria fermenta o processo revolucionário,
agenciando o caminho das transformações, amparada por extenso apoio popular.

Com as Revoluções Francesa e Industrial, a sociedade capitalista se instala


definitivamente. Embora o termo sociologia só apareça um século depois, são os
acontecimentos da dupla revolução que a precipitam e a tornam possível.

Os pensadores que primeiro se detiveram sobre a problemática social herdeiras


das duas revoluções estavam convencidos de que para introduzir uma higiene na
sociedade era necessário uma nova ciência (Durkheim).
Com isto, a nova ciência deveria repensar o problema da ordem social enfatizando
a importância de instituições como a autoridade, a família, a hierarquia social,
destacando sua importância teórica para o estudo da sociedade.

A primeira abordagem sociológica – o método positivista

A sociologia surge em inequívoca cumplicidade com o espírito da época. Como


ciência, inicialmente, defendia o conhecimento social em decorrência do
estabelecimento de leis imutáveis da vida social, sem qualquer consideração crítica,
assim como as leis físicas determinavam os fenômenos astronômicos, físicos, químicos e
fisiológicos.

2
Jostein Gaarder – O mundo de Sofia, 1997, p.245.
Após a Revolução Francesa, pode-se dizer, duas tendências teóricas estavam bem
definidas: o pensamento iluminista e o pensamento conservador. Como vimos, os
filósofos iluministas emprestaram sustentação intelectual às pretensões da burguesia
(eram chamados profetas da burguesia). O pensamento conservador arvorava o retorno
da sociedade industrial emergente aos moldes da sociedade feudal.

Os conservadores construíram sua crítica em torno das conseqüências da


Revolução Francesa. Eram defensores das instituições religiosas, monárquicas e
aristocráticas. Ou seja, enquanto os filósofos iluministas defendiam os interesses
burgueses, os filósofos conservadores defendiam os interesses da aristocracia.

Foram os conservadores que elaboraram o primeiro ensaio de uma crítica à


modernidade e empreenderam esforços para produção de uma nova teoria sobre
instituições sociais como a família, a religião, o grupo social e a contribuição delas para
a manutenção da ordem social.

Um terceiro grupo de pensadores surge no século XVIII, fundando uma nova


ciência do social: o positivista. Os filósofos positivistas estabeleciam certas relações com
os dois grupos anteriores. Se identificavam com os conservadores no que pesava às
propostas de manutenção da ordem social; e diferenciavam destes, uma vez que estes
defendiam a manutenção da sociedade feudal e aqueles defendiam a ordem na
sociedade industrial.

Como os filósofos iluministas, os pensadores positivistas identificava-se com a


defesa do progresso. No entanto, diferenciavam de ambos antecessores na medida em
que condenavam os conservadores por postularem a ordem em detrimento do
progresso; bem como condenavam os iluministas por postularem apenas o progresso,
sem levar em conta a necessidade de ordem na sociedade.

O postulado máximo do positivismo era a produção de uma ciência do social que


fosse capaz de contribuir para união dessas duas realidades básicas na vida social.

Por que o nome positivismo? Segundo o seu fundador Auguste Comte (1798-
1857), a verdadeira filosofia deveria trabalhar o social com uma perspectiva positiva. Na
verdade, isto era uma crítica direta ao iluminismo que, na opinião dos positivistas
desenvolvera uma filosofia negativa. No, caso, do positivismo, seu objetivo filosófico não
era apenas criticar, mas organizar a realidade.

Michael Lowy diz que três idéias principais definem o positivismo 3:

1- Sua hipótese fundamental de que a sociedade humana é regulada por leis


naturais, ou por leis que têm todas as características das leis naturais, invariáveis,
independentes da vontade e da ação humana, tal como a lei da gravidade ou do
movimento da terra em torno do sol.
Segundo o positivismo, leis sociais, independentes da vontade pessoal, à exemplo
das leis físicas, governam a vida social, econômica e política da sociedade. Assim sendo,
essas leis produzem no ambiente social uma harmonia semelhante a harmonia da
natureza.

3
Michael Lövy. Ideologias e ciência social. Cortez, 1985, pp35,36.S
Exemplos sociais de lei invariável:
* A indispensável concentração de riqueza na mão dos senhores industriais.
* O caráter natural do proletariado.
* A condição submissa da mulher ante a sociedade machista.

2- Os métodos e procedimentos para conhecer a sociedade são exatamente os


mesmo que são utilizados para conhecer a natureza. O que isto quer dizer? A
metodologia das ciências sociais deve ser idêntica à metodologia das ciências naturais,
uma vez entendido que o funcionamento de uma sociedade é regido por leis do mesmo
tipo das que regem a natureza.

3- Da mesma maneira que as ciências da natureza são ciências objetivas, neutras,


livres de juízo de valor, de ideologias políticas, sociais ou outras, as ciências sociais
devem se conduzir exatamente segundo esse modelo de objetividade científica.
Segundo esse pressuposto, o cientista social deve produzir seu pensamento
exatamente com a mesma perspectiva que um geólogo examina um tipo de rocha; ou
seja isento de juízo de valor, sem influência de visões do mundo; neutro.

Segundo tal premissa, a corrente positivista afirma a necessidade e a


possibilidade de uma ciência social desvinculada de interesses, alheia a ideologias, sem
compromisso com posições políticas, sem utopias, sem paixão.

Uma questão fundamental para que se situe o pensamento positivista num


quadro de evolução do pensamento social é a seguinte: O positivismo é filho legítimo da
filosofia conservadora e da filosofia das luzes e surge no século XVIII segundo um
modelo científico-natural.

Por ser decorrente das idéias iluministas, o positivismo possui o elemento utópico,
crítico e, até certo ponto, revolucionário. O seu caráter revolucionário reside na defesa
de um produto científico sem a interferência de interesses das classes poderosas
(aristocracia e clero). O positivismo rompe com a ideologia feudal e cristã. Os membros
dessas classes eram chamadas de parasitas do organismo social.

A proposta central do pensamento positivista era libertar o pensamento social dos


dogmas políticos e religiosos.

O estático e o dinâmico – categorias centrais no positivismo de Comte

Através dos métodos da observação e da comparação, a sociedade deve ser


estudada considerando dois fenômenos essenciais: a estática e a dinâmica.
Segundo a categoria da estática, a sociedade deve buscar o consenso, de maneira
tal que a realidade de cada setor seja compatível com a anatomia geral do corpo social.
Assim como no trato com o corpo humano, um órgão não poderia ser estudado sem ser
situado no conjunto do ser vivo, seria impossível estudar qualquer fato ou setor ou
componente social sem situa-lo no conjunto da sociedade, num dado momento.

Em que reside o aspecto dinâmico da realidade social? Nas palavras de Aron:

A dinâmica, em seu ponto de partida, é apenas a descrição das etapas sucessivas


percorridas pelas sociedades humanas. Partindo do conjunto, sabemos que o devinir
das sociedades humanas e o espírito humano são comandados por leis ...A dinâmica
social percorre as etapas, sucessivas ou necessárias, do devinir do espírito humano e
das sociedades humanas4.

Como se pode ver a noção de estática e dinâmica na vida social segundo o


método positivista atuam de forma disciplinada e complementar. Desta forma não
poderia ocorrer uma dinâmica subversora da ordem estabelecida.

Para Comte existem leis que regem a história humana. As mesmas leis que
conduziram a sociedade no curso das três etapas essenciais da existência humana:
religiosa, metafísica e científico-industrial. Essas leis pressupõem tanto a igualdade entre
todos os homens, como, Porém, as diferenças de funções. É nessa direção que o autor
afirma que a sociedade é naturalmente dominada pela força do número ou da riqueza,
ou por uma combinação entre eles. Por causa da supremacia da força no meio social se
faz necessário que a sociedade desenvolva, em contrapartida, um poder espiritual
(primeiramente pensado por ele como a inteligência, depois como o amor) capaz de
reger, unir, consagrar, moderar e limitar o poder temporal 5.

Bibliografia
ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico, 5a edição, SP,
Martins Fontes, 2000.
ANDERY, Maria Amália... et al. Para Compreender a Ciência. São Paulo,
EDUC, 1988.
GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. SP, Cia. das Letras, 1995.
Lowy, Michael. Ideologias e Ciência Social – Elementos para uma
análise marxista, São Paulo, Cortez, 1985.

4
Raymond Aron. As etapas do pensamento sociológico. Martins Fontes, 5 a edição, 1999,
p.87,88.
5
Raymond Aron. Ibid p.95.