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NOVE

O barroco do Noi;o Mundo

o
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,:�.

s altos ideais do 'Renascimento foram postos à prnva durante uma das


mais prolongadas épocas de violência da hist6ria européia: as guerras de . ,i
religião. Entre a Reforma e a paz de W estfália, os ideais e a realidade voltam a se
divorciar. A resposta a essa separação é, novamente, de caráter sensual. A Reforma
protestante 7xpulsou as imagens das suas igrejas, considerando-as provas de idola,.
cria papista. Tal puritanismo, porém, foi transcendido por uma forma extraordinária
de compensação sensual, a da música - e, sobretudo, a de Johann Sebastian Bach. A .·
rígida Contra-Reforma cat6lica também teve de fazer concessão à sensualidade. Foi
esta a arte do barroco, a exceção demasiada -e dinâmica a um sistema religioso e
político que d�sejava ver a si próprio unificado, imóvel e eterno.. O barroco europeu
� transformou-se na arte de uma sociedade cambiante, de mudanças imensas que se
,
agitavam atrás da rígida máscara da ortodoxia. Mas, se isso foi cerco na Europa
cat61ica, haveria de .sê-lo ainda,muito mais nas nasc�ntes sociedades do Novo Mun­
do, onde os obstáculos levantados contra a mudançá eram, calvez, ainda maiores do
que na Europa.
Já insísti em que o descobrimento da América se traduziu, para o Renascimen­
to, no achado de um lugar para a utopia. Rapidamente, porém, canto no Novo
.
Mundo como na Europa, a distância entre os ideais e a realidade só aumentou. O
'
paraíso a,mericano logo se converteu num inferno. Os europeus transferiram para a
América os sonhos das suas próprias utopias fracassadas e estas se tornaram pesade­
los, à proporção que o poder colonial se expandiu e que os povo,s indígenas, em vez.
de serem Õs benefidá.tios da ucopia, P,assaram a ser as _vícimas,do coloriialismoJ despo­
jados das suas crenças andgas e das suas terras hereditárias; forçados a aceicar uma
nova civilização e urna nova religião. Enquanto o Renasámemo europeu permanecia
sànhando com tUD-i w:opia cristã no N,ovo .Mundo, es.ta foi destroçada pela dura reali­
d.d� c-0looiaüsta, de saque, de escravidão e mesmo de genocídio. Como na Europa,
no e'n,caruo. entre-o ideal e a cejilidade surgju o barroco do Novo Mundo" apressando­
st ªf p.reeoche.ç o 11azio� Nes-se piso, porém, no continente americano, º;e.._ece.odo .ªº5
povo cooqu1scado_s um cspa)o, um lugar que nem Colombo nem Copcrn1co podiam
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àr P� proteger e mascarar as suas cren�as 1 e
1vamen ccdcr-llidt . ·-
• ul ção das Am éricas, d e me suços, ctcss:en-
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Qual era o nosso 1ugar nO mundo) A quem
A.

· chas? A quem, ag ora, deve-


i.IS europeus.) A nossas mães quíchuas, astecas ou chib · · ,
Aos deuse s ntigo s ou os novo s? Que 1 d10ma 1 amos
damos dirigir as nossas orações? a a
fez
ar, o dos conquistados, ou o dos conquistadores? O barroco do Novo Mundo
as essas perguntas, Pois nada exprimiu melhor a nossa ambigüidade do que essa
da abundância, baseada na necessidade e no desejo: uma arte de proliferações,
nindamcntada na insegurança, preenchendo rapidamente todos os vazios da nossa
história pessoal e social, depois da conquista, com o que quer que encontrasse à mão;
uma arte do paradoxo: da pujança, ch·egando praticamente a se afogar na sua própria
fecundidade, e também dós que nada tinham, dos mendigos sentados nos átrios das
igrejas, dos camponeses que iam à mesm a igreja para fazer benzer seus animais e
pás s, ou vestiam economias de todo um ano de duro trabalho, inclusive
o v or as co heicas, na celebração do 1a e seu paélroeiro. Ó barrÕco é uma a�
de deslocamentos, semelhante a m espelho em==� constantement , podemos ver
/
nossa identidade em udança. Uma arte dominada pelo fato singular e conside--
vel de que a nova cultura americana se encontrava compreendida entre o mundo
indígena destruído e um novo universo, canco europeu como americano.
No bairro indígena de Pocosí, a grande capital da mineração, no Alto Peru, a
lenda diz que viveu, um dia, um índio órfão proveniente das baixas terras tropicais
do chaco. O mito deu a essa criança o nome de José Kondori e, em Potosí, apre[)deu
a trabalhar a madeira, as artes do estofamen . to e da carpintaria. Por volta de 1728 ,
esse arquiteto índio autodidata estava construindo as m agníficas igrejas de Potosí,
sem dúvida a mais brilhante ilustração sobre o que significa o barroco na América
Latina. Pois, entre os anjos e videiras da fachad a de San Lorenzo, aparece uma
princesa incaica, com todos os símbolos de sua cultura derrotada reanimados por
wna nova promessa de vida. A meia-lua indígena inquieta a tradicional serenidade
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..,..,.l �o � u h,lvn111 ri idam nt ligados à conomia agrfc la, i to,
in n i110 . xe n ivo dos · roducos tropicais. Essa rígid� equ ção - e e n
e n n1ju; __ rí ol foi on1 lica.da pela grande rivalidade ntre s pot. n�.. - i�-

11··..,,..�o t nto do _,. ·ravos provindos da África como d,os produto d



o-prtmidos nrre ssas exigências da política e o comércio int rn.....'--1 n l
. r"vos oegr s nao podiam sequer apelar à cons.cienci crise- dos qu \ -

r v m. Os c:h fes africanos caçavam-nos para e trair lucro com a u: end


1cgo 1 mces uropeus, que alegavam 1 em vista disso, estar livr nda o s r d

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r,"c�'�if.iv' et sreja cristã se justific••• dliê
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le' n d é sa lvos do p a g a .r us
o �risi a n ã o c o n s e g u iu d e st ir o
tdc il â e in justi ç a e hip �
a s. R ev o lt o so s, fu g it iv o s,
�b!ltl.e dt1t escravos negros nas Am�r ic
lib er ta r- se . O u tr as ve ze s,
'llta'entemence fracassavam na intenção de
sã os , ag ri cu lt or s e ca rr eg a­
meguiam, passando a ser capa z s, ar te
ta e e
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ca m po s, m as ta m be m co m o
i1,t;ua.balho sempre foi intenso, não s6 nos
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e ·oalh i..,..fll, i ..,.. ��� · · .. ,.. · at es , sapa teir o§ , co zi n he ir os e ba c­
difí cil ima gin ar um asp ecto do trab alh� da vía à no No vo Mu ndo que
-
nao
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�sido marcado ela cul i.-u.-. ra No Brasil, os negros ajt1daram a explorar e
nq11istar o interior do continente. � imcntos n gro e d comandantes negros
combateram os holandeses e defi nd rnm Rio d J nei o contra os franceses. Os
negros foram essenciais à conqu is ) ovo m nt des nvolvimento do Brasil.
Também se rebelaran1.
Uma das primeiras reb liã s d ser :vos ceve lugar no início do século XVII,
no México, onde o chefe n__ro rebelde Yn.nga conseguiu ocupac uma grande
extensão da costa do golfo do xico, obrigando o vice-rei a renunciar, antes de a
revolta finalmente ser sufoGad pelas armas. Mas se permitiu, aos escravos derrota­
dos, fundar o povoado de a Lorenio de los Negros, em Veracruz. A Venezuela foi
cenário de diversas revoltas negras durante o século XVIII, e que culminaram com
a rebelião de Coro, em 1795. Esse levante, combinado com a revolução da indepen­
dência no Haiti e a criação, nessa ilha, de um império negro, suscitou um verdadeiro
terror contra os ·•pardos·· nas classes altas da Venezuela, durante as posteriores guer­
ras de indep endência. Além disso, durante a rebelião de Manuel Espinosa, na própria
Caracas, os negros não apenas exigiram plenos direitos como o emprego das suas
antigas senhoras brancas como cozinl1.eiras e lavadeiras.
Muitas vezes, os rebeldes simplesmente desapareceram no intecior, fundando
aglomerações cQ,itP.�das quilombos. Um deles, em Palmares, do estado de Alagoas ,
.,
,,,_O_, Brasil, atravessou o século XVII. Seus vinte mil habitantes o converte ram num
iill40 africano no coração da América do Sul, com suas próprias tradições de ori­
,....-. Como no caso dos índios, poré1n, foi no encontro com os europeus que os
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&e tornaram habitantes do Novo Mundo, int egrados numa cultura mestiça.
··--- s escravos tinham de adaptar sua língua, com protéica agilidade, à rápida
���. se queriam compreendet e ser compreendidos pelos capatazes ou
iloU.alhadores, na maior parte n e gros mas d e diferente s re giões da
�JM sna,s novas mulheres. Que língua os filhos deveriam N.l
ElikM ó.reteceram a suas populações negras� ,...._ ,_
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., dá ,�WJCt.i_e�àt�-�i�.�&cna no M�o e no Peru. Em Cuba) por· ém, a religião


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· �.�, , , �crir:� cl1.u ,r seu próprio nome, a. 1anterltt � quando começou a rev·o­
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l'radc •da � trê s q11a no s da pop ula ção.. Assim, do mesmo modo
\_ºº �xi,coi Tooaaoic,� a deusa dos asrecas� se traosfor.tÍlO��a virgem morena
: , ·::: . &,.,. · .· · ope, ,C!JD Cu.ba a deusa africana do mar, feman.já, se cransformo·u em. •

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5-õom.. de Rrght. pad�oeíra dos marinheiros e especialmente do porco de
_.a, eo,j1saoro Ogum, divindade ·africana dos ferreiros, se rr·ansformou em são

� · · ·, a CJlleo1 foiau1 dadas as chaves de fe.cro do paraíso�


·
Uma aasic�ilsção sinctéric� ainda mais notável é a de santa Bárbar.a, a mácrir
- • ··-·�bcerada ou,ou.. cor�� pata ser afastada dos seus pret.endentes. Aí, como na
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ta �al de Calde,ó� sane� Búb.i.ca sonheu. Convercen-se ao· cristianismo.. As
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· romao• deram a seu pai a ordem de assassiná-la. Assim fez ele.,. para ser
pox ':1111 raio, Tão bela� sem dúvida, quan·to um quadro de Zurbarán)
_.· ·o.a�, q11apto 11rB pe.csi>JJ�gem de Calderóo, santa Bárbara foi assimilada à
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- í.ii, jftó , ra ah#oa como Xangô, deus da guer, r a, po r
· que na Europa cristã sanca
u, trre.ca, por sua assocação com os caios, e,m padroeira dos artilheiros
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o e .i .sua são ·parte do contínuo da cultttta afro-americana, acres­
• #. a ideotídadc, de esplêndida persistência, dos procedirn,encos rít-
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f1i11&:dG GGC: o, d a grama
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a mó ica negra autorizou um citmo prjvado, al1tônom.o,
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da do �-.,.ince ou ele quem dança, em vez de sujeit�-lo a um


-·-- , pr•ísf �• ou pé crit0, como cradícionalme�te acontecia na
� n p tam �m de d u suas o,:igens, precils e
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ricas . E , sem dú vid a , nada identificou tanto os
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. . . · - o, a fala e os ritmos da no ssa
" 1:)1 e a) América Latina como a 1mag1naça

de negritude: o sul dos Estados Um'dos e o ean'be , a c


. o munidade cui-

das "ilhas
e se estendeu do Orinoco e do Amazonas até o Mississípi, através
�fite".
-""'· -· A cultura afro-americana seria também o testemunho mais clamo roso da in-
iça nas Américas. Os feitos, o trabalho, as leis e a língua dos negros confluiriam
nar mais poderosa corrente pela justiça que o Novo Mundo conheceu. Além disso , o
resto das Américas acabou por compreender que o destino da cultura afro-americana
seria o denominador comu1n da qualidade da justiça em todo o continente. Ela te ria
de ser adquirida em profundidade, não na aparência, e por isso se mostrava mais difí-
cil de alcançar. É o que nos diz o poeta negro da Martinica, Aimé Césaire, quaqdo
escreve que a qualidade da cultura afro-americana vem de um povo "que se entrega

com êxtase à essência de todas as coisas, está possuído pelo movimento de todas as
coisas e palpita com a própria palpitação do mundo". Todavia, também para d efen­
der essas qualidades por meio do exercício da justiça, a cultura negra produziu alguns
dos mais preclaros cérebros jurídicos, políticos e parlamentares do Novo Mundo .
P orque nenhuma das culturas do Novo Mundo nasceu no meio de tanto sofri­
mento e dor como a dos homens, mulheres a meninos negros que chegaram ao Novo
Mundo nos navios negreiros. Ainda antes de serem embarcados, muitos tentavam
suicidar-se. Uma vez a bordo, eram despidos, marcados a ferro no peito e acor­
rentados em parelhas. Sendo vendidos por jarda, viajavam capturados no espaço de
u�a sepultura, na pro fundeza dos po rões, empacotados co mo sardinhas e sem qual­
quer .cuidado sanitário . A asfixia, a loucura, e até o estrangulamento de alguns a fim
de criar mais e�paso respirável foram fatos comuns, assim como os motins, embora
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estes, em geral, tenl1am fracassado. Pr osper Merimée 1 o autor de Carmen, escreveu
romance chamado Tamango, em que relata o fato real de um motim que teve êxi­
bordo de um navio negreiro. Os rebeldes, no entanto, não souberam manobrar
g.ran.des mooumencos do Novo Mundo: o barroco brasileiro - afro-lusitano - de
Mfoas Geraia, a .Jll1lU opulenta. região de extr:ação do ou.ro no século XVIII.
.A.11, o mulato .AJeijadfobo criou uma obra considerada por muitos a cu.lm.i-
niacia do barroco lacino... americano. Aleijadinho era filho de uma escrava negra e de
.
um arquiteto porruguas, mas tanto os seus pais como o mundo a seu �edor o aban­
donaram.. O jovem era leproso. Dessa maneira, em vez de à sociedade dos homens e i
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das mulhei:es, ele se uniu a. uma sociedade barroca, feita de pedra. As doze estátuas
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dos profetas esculpidas por A.leljadinho na escada que conduz à igreja de Coogonhas
d� Campo evitam a si.merda da. escultura clássica. Como as figuras italianas de 13er­

l
nini (mas a cão colossal distância delas, geograficamente!), estas são estátuas em mo­
vimento, tcidimensiooaís, que descem a escada em direção ªº�-s.sr;crador: estátuas
rebeldes, retorcidas na sua angústia mítica e sua raiva humana. · · .,
O caráter circular do barroco, que exige pontos de vista determinados pelo
deslocamento e pela recusa de dar a nada e ninguém uma visão privile�iada; sua afir­
l
mação da mudança permanente; seu conflito entre o mundo ordenado, de poucos, e
o mundo desordenado, da maioria, tudo isso foi consagrado por esse arquiteto mula­
to na igreja de; Nos.sa Seahorà do Pilar, em Ouro Preto, a grande capitál mine-ira do
Brasil colonial. A parte externa da igreja é um retângulo perfeito; dentro dela,
porém, tudo é curva, polígono, formas ovóides, como o orbe de Colombo, o ovo do
descobridor. O mundo é redondo e pode ser visto desses múltiplos pontos de visra�
A visão do Aleijadinho se soma, assim, à dos artistas ibéricos e do Novo Mundo
indo-americano. Em Congonhas e Ouro Preto, nossos olhos se reúnem, e nossos cor-
. pos estão de novo completos. Paradoxalmente, essa reunião é levada.a cabo por um
homem isolado, um jovem leproso que, ao que se dizia, só trabalhava de noite, quan­
do não podia ser visto. Mas, do Br:asil, já não se disse que o país cresce de noite,
eoquanr, o os brasileiros dormem?
Trabalhando de noite, rodeado pelo sono, talvez o Aleijadinho dê um corpo
ao sonho dos seus contemporâneos. Mas não tinha outra maneira de se dirigfr a eles,
exceto mediante o silêncio da pedra. À medida que adquiriu uma forma própria, essa
nova cultura do barroco americano, essa nova cultura indo-afro-ibérica, precisou de
wna voz e a encontrou no .maior poeta da América colonial.

".MINH'ALMA ESTA DIVIDIDA"


l
N ogti.ém poéüa pc:ever que, de um ,convento no mundo enclausurado - e de
dom.inação .mascµl.iQa - do México colonial, h�veria de se ouvir ucna voz de a:w!her,
-de Ereira1 que se «.aQ$formacla num dos grandes poetas barrocos do século XVII e,
na opiníJo de muitos" num dos grandes poetas de todos os tempos.
Nascida Juana de Asbaje, no México central, em 1648, foi provavelmente
filha iThgícima. Aos �ete anos de idacle� rogou à mãe qt1e a deixasse vesrir-se como
tneníol), para poder estudar na universidade. Sua brilhante inteligência levou-a à

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E,táltca.1 4N
profita.., dt
AkijaJinbtl, em
Congonhas do
Campo, Brasil

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corte do vice-reino, ainda adolescente. Ali assombrou os professores universitários


com o seu conhecimento de todas as coisas sob o sol, do Jacim às maremáticas. Juana
era uma intelectual que parecia saber tudo, apesar da (ou, talvez;} graças a) discân­
�ia, do isolamento e das restrições do mundo político e religioso em que lhe coube
Alcançou o louvor e a fama� embora bem depressa se tenha dado conra das
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�' ,p'.os\lçlio �ló.� -�.ht vigilântia edesiást.ida, co,mo a consumição do seu tempo e a
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�t-,.'àm.eà�. i' sú� .se�â:ffça. ÜlJtOt1, assir):i, pôr eCl'ttat .pa.ra a Igrej a, esp_ erando, quem
s,�e, �nconttar r�o na mesma J.nsticuição qu.e um dia pod�ria atacá-la. Contudo,
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sua çe\a n.o cp1;1vent(tde Sll0. Jeténimp, por algum tempo, afastou codos os perigos,
.
�. Jua,0111· re;litúu all .rruus de):J:1111.tiro. ,. m.11: livt:aS; sCús pap'éls , suas penas, sua cinta, e lns-
.. '

;· tn.tµlentl.Qs mutt®s .. .Bodià en$o escrever sob.te todas as coisas sob o sol, desenvol�
.�
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1ead(l,; .'ctmi.J?,:ra?:'er e �!it:1pliµ>p., sua imaginação e sabedoria . .hli, no mundo da


· i:elíSJ(o e d� lethlS, qQ-e,� uniram por um instante no tempo, ficou cOnhecida como
'ff •f '(' • 1t '
· sÕ(or(J 1Ul]lt. Itté� de la ��.
:� Uma vez' que ninguém- era mais ,silencioso, oa sociedade coloni al, do que as

. '.mullí�i'CS; ca:lve-z só uqia .mulher tenha podido dar voz a essa sociedade, sem deix ar de
acpiilii t, l Qod arnente, as divisões da sua cabeça e do seu coração: "Bn doJ partes dividi-
i • .
,.. ..
. do J.f,ngo d afma .m confaii6n: I una1 !Stlava a La pasión, / y otra, a La rt1Z8n.!t,zedida'' ("En1
.. · -duas ;pa.tt�s·dividlda / t;l:iago a alma em confusão: / uma, esq.ava da pao(ão, / a outra,
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Paixã�? Raiz.ão? Bs.ctllvldã.o? Onde estavam, então, a certeza, a fé, a ce�a acei-
. · .t�ã.o do's }ll'.OCeii;os' rdlgiosos, não os da razão, e muito menos os da pa ixão? Quem
er�, afinal d� ço· ntas., essa monj-a presQnçosa, admirada na Europa amiga íntima e
.

1

'.· · t�lv� Ul'tlljllJ.llhei


.
i;a sexual da vice-rainha, presidindo .u ma corte pessoal a p artir de

s·ua cel� . e admlt· indo ·que t\ p�e�O em qµerer ·e ser querida''?


No· f1.01 sua tt.la monástica nio foi cipaz de protegê-la contra a autoridade, 1

{A,��UÍ J,Oa. e rigid amente ortod�1<, personificada pelo seu perseguidor, o arce bispo
. t • '

\ . dõ·M.!�'j::Q;, �ar y Seixas. Aos ,qu�renta anos de ida de, foi privada de su a bibllo-
t

' reea� M!�, i�'s�ehcos rn:usicaís, .suas pe�s e tinteiros. Atirada ao silêncio nova-
_meote., .m o r
. i
· :eu ,aos 43 anos, em 1695.
• • \�

. · · · .. . Todavia � d,�rotou osS que a silenciaram. Sua poesia ba rroca teve, para s.erop re,

,'. ·l·ll��
·, :: . a ca�ciihde de abraçar as formas e pálav.ras da puj ança do Novo Mundo., seus na�os
s�'ll novag�gr:afta 1 sua flora e fa u a , nunca antes v�s ros por ollios europeus .
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l' lo, amc'.tlcanos, Depois de 1492, a. floi:a e a fauna migi:aram cm abundância de um
àontl,uuu;e pua o outro, às vezes com o mesmo senci�o de alheamearo que acolheu..
no início, pcodutos hoje comuns co.mo os com.ares, o chocolace. Temeu-se. na
Eu.topa, que o tomate fosse venenoso, sendo só mais carde descobertas as suas deli-
cíç,sas virtudes. A palavra vem do 8.$teca .ximmatl, mas foram provavelmente os iral-
.h1.nos que lhe deram seu aom.e mais bonito: pof!l()áoro, .maçã dourada, fruto de our.o,
com sua iL'lsiuu.açio de pac�íso, ou canco de prazer como de pecado, se é que os. dois
podem sepatar•se. O chocolate, x()colatl, é outra �alavra e produto asteca. �o
império dé Montezuma, e:ra ao mesmo cempo precioso e abundante, sendo usado, as
v�,�s, na circulação monetária. . ,
. ·,, · O únpe.tador Mo,;i.tezuma adora va comar choco late , mas na Europ a, a p.nno -
pít>; consideraram-no demasiadamente amargo para a maior parte dos p ala ares . No
d

encanto, as senhoras de Espanha quas e e nlouqueceram ao o::p��encá-lo e, final­


mente
. v,y' casado com uma infanta espanhola, introduzin��f).:a cone de Ver-
' luís �
salhes. E, se havia canco chocola.cc no México, o açúcar es casseav a na Europ.a,
· ada,gíndo altos preços depois de cuidadosame nte pesado nos pratos de uma. balança.
No Novo Mundo, o açúcar floresceu nos trópicos, invadiu antigas terras incul.tas e
fez a fortuna do seu primeiro produ tor, Gonzalo de Víbora, n a ilha de La Esp aíiôla.
Quando os trabalhadores indígenas do Caribe se extinguiram, os escravos negros
toroacam--lhes o lugar, precisamente nas novas plantações de cana-d�açúc.a.r., enge­
nhos Qu cent-ralu.
Poi certamtnce Colombo quem primeiro viu homens e mulheres cruzando
uma . aldeia fumando tabaco, na terça-feka 6 de_ novembro de 1492, naturalmente
em Cuba. �:, como com o resto das novidades que chegavam ,do Novo Mundo ., o
Velho Mundo precisou de cecto tempo para se acosrumar com esses produtos e:xóti­
a>s. Poi :cequerida toda a elegância de Sir Walter Raleigh para fazer com que o taba-
co fose aajto na .IngLtterra, ainda que o rei Jaime I tenha advertido ql1e essa erva
":C(tnvttte �odos- os órgãos internos de um homem numa simples cozinha.; .. .Embora
j Atn�daa.. fosse- descoberta porque os ewopeus queriam mais pimenta �m
suas
mcsu1 a única especiaria encontrada no Novo Mundo foi o chik (pimenta mal.ague-­
�), a pfmena �c:1e fogo que, como escreveu o padre Joseph de Acosta, era o molho A•

pnndpal de:-u,dm os pratas*'. Na sua Historia .114111Tal de la1 bulias. de 159t: o obeso
e no� �de-e, que subiu e desceu sem fôJego pelas grandes altitudes dos Andes,
.ád.veniu sopre aihik "'que, ao entrar e sair, dizem. todos que qucima-... E mais cooci- �
4
>
nua a ltut adv�rtêoda: ingerido em quaocidades excessivas, "provoca a. sensua ).
lida-
,�".. · , .�ta. a f'11ha � CQCS crescia por toda parte dos Aneles e. mascando-a,
·· t� ·---�um.ão� 'pode.s.alt amiobando dois dias inteiros sem com�·.
·OJf�JQ. oa Alemanha, existe um .monw::Jiento a'Francis Dr
e. <lue
�éat� n� mão ·U� ali a inscrição; ªA Sir Francis D.a; kc,
que int.rodtuiu
��u � · lLD.1580... imseguicl &eacttSCeota:�nomrdo1mJlhões
de camponeses que bendizem a sua memória eterna." E, no encanco, quando as pn­
meiras batatas chegaram à Europa, pareciam coisa suja, semelhante, como se disse,
a testículos ou trufas, e "truffles (trufas) kartolfel (batata)". E uma seita religiosa russa,
ao descobrir que a batata não era mencionada na Bíblia, declarou que se cracava de
uma monstruosidade botânica. Não imaginavam que a vodca seria fabricada com a
fermentação da batata.
Uma coisa que Cortés encontrou em abundância em todos os lulfª-t.Ês das
���,��· a�s foi o milho, o pão do No o ndo, o presenc� de Quetzalcóacl. Jf,.. América
o enviou paraa ?furopa, em troca do trigo. Por m�empo, porém, oseuropeus só
usaram o milho para alimentar os porcos, que por sua vez, domesticados, foram apa­
recer no Novo .fyf.undo, junco com os primeiros matadouros.
'-! r-r
Talvez o gado e os cavalos tenham constituído a maior novidade de todas. E,
se Bernal Díaz del Castillo podia precisar quancos cavalos chegaram com Corcés ao
México (16, no cocal), alguns anos mais carde, escapando ao poder dos conquista­
dores, os cavalos· retornaram a seu estado selvagem e formaram enormes rebanhos
que se deslocavam livremente ao longo da imensa distância entre o Colorado e a Pa-
tagônia. O trigo e o gado, emigrando para o sul como as antigas tribos provindas da
Ásia, haveriam de firmar as bases da grande riqueza agropecuária do cone sul: Uru­
guai, Brasil e Argentina. Os rebanhos selvagens foram capturados pelos bucaneiros
ingleses, franceses e holanaeses, assim denominados porque secavam e defumavam
a carne, num processo que os índios caribenhos chamavam de bucan.
Mas nem tudo era paz. Também chegaram ao Novo Mundo os mastins e sa­
bujos, utilizados para seguir e apanhar os índios fugitivos e, mais carde, os escravos ne­
� Bm PQtto Rico, Ponce de león considerava que seus cachorros eram tão impor-
�1 .
.

' •
.•

••

· ''.il��t,S, qü� l. hes petmicia p· rnlhar com ele as comidas, as pill1.agens, e receber os salá­
�lio s! ,p,t:�·�d_ adt?-$'��s soldâdos· �s:panhóis. Ós cães, porém, como os que eram objeco,s
-
.d �. rua. p�rs�g�t�� também fug.irarn e formaram n1atilhas s�lvagens p·elos campos.
Â'S pl'mtat et,l.jopéias gue cl1eg:aram ao Novo Mundo eram mais scdencárlas e
-
3, .- '-:

a��as .for�, ctiirJu.dosan'iente vigit'\das.. As azeitonas, uvas, ..laranjas e limões se


contavam entre· as l\O-Yida.des européi�s nas Américas. As videiras eram consideradas
cão pç�ci�sas que no '
· Çlii le colonlal eram cercadas de guardas armados: excelente
pre<iànçj.pJ em vista da qu.al o Chile continua pro.duzindo o mell1or vi11l10 da América
Latfáa. As la.ranjas si.lveStt�logo se ·estenderam pelas terras sl1bcropicais e, enquan­
c·o. • ovelhas pereciam nos tr6picos, se reproduziram maravilhosamente oas terras
al� e nos pampas. O ·burro veio da Europa cercamente para ficar. Em seu olhac
meb.nc6liÇt,� potém, havia um com de assombro diante dos novos animais ameri­
CaQPs. que ..
tampouco foram mencionado$ na arca de Noé, comq escreveu Acosta..

..... .....
AR:àretera.m, entãot. en�Qrapitados nas alturas dos Andes, vicunhãs,l,guanacos) en-
qu · an�c·.os s.0Jl1:1evoavam aves jamais vistas por oll1os europeus: o condor, forte e rápi-.
do e�;a . bu:cres Q. u urubus de asa veloz e olhar certeiro, limpan-do as cidades e as ruas) •

descendo em •
picada sobre todo ripo de carcaça .
·Qs rapagaios eram falado.r.es. O guaxolotl (em espanhol, guajolote) pauo; em
pónJ!g.µê$'i ,, peru) asteca era delicimo, sendo chamado pelos franceses .dindon, a ave
•, ";,,

da"S: lt1. õias,, ou pélos ingleses, caracteristicamente desorientados> turkey (literalmente,


11 J •

'�q�•a'·) .. O belo qa.etzal se elanguescia n.uma ·gaiola: sua vocação era voar U,,re-
mente.. Um pe·rn à m��a:, um papagaio palrando num pátio; um quetzal moribundo

'
e!p.�Sl.la gaiola; om urubu. voando sobr,e os tell1ados. E, debaixo deles, as novas ci-

'
d�cle� iclas Am.rérl01$. • • -
lo,

A�,cIDADÊ,.
. . . BARRO ' CA. '

Cià�éles ruivas, recém-cunhadas como a pra·ta de Potosí, estenderam o domí-


;
�. e;panbQl ao inretlor d.o continent:e, de modo que as economias agrárias e "mi­
netaS·· pa,_ Agíécicas contavam coro uma base urban.a,, um centro cicadin.o a partir
d� qual a·Espw;iha exercia o ·seu p_oder� Mas, d . entro d-as cidades-, rapidrun·e·nte se de­
� _ olvell\Jn dcsigf
• •
1akiad e$ ext remas
: e fortes tensões. As e.idades portuá�ias (La
�abapa, �]�iln de Puerto !Uco. Carragena de Indias,. Maracalho. Valpa.raíso) de-
,_.·Mw.'w::i:am llfflÍ� ck._B ces&a. \una modern.a civiµ�açãÇ> me. rcanril a.berta as influências
. .
.cstm.qq;e).tas ��p,ed�pDS�· ...� convivêuci� nas st1a.s mas� Dife:tcn�ava.m-se das cidades
-:.� ll\��� ��\ttniltt): ... ·. · ;o, B _ót>n.-� · P.?.., � �;to� Gu.at�·ala ).e ann'b,.é�
'<.� �-'+- jc,.�
q.�
� ' Q-
·- · ".e...... a:·'º·""'," :. ·�
,n.: ,r; -,
:� · ·;ijps � � tort\ll.E11in tt.pi,Jnis de · ice-reino (Lima, Buenos AU.:es), uma
- ': �,�i- > 11� :�...� ', o ún��_coraerds.l foi ret"'""dado em beneficio do ins:tinto palaciano.
··. · O �9ti naô-ité.·...,·. -� 'de m�i� d�as apitais ere. o de c&nven:fr�e em so-
..
a, e·Ú!O ílw�,;;"éll um ffllÚz �si� snblinh�do pela grande divi-
.

. .
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.�J;ye.,·

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nt·(tl� �-·.. ·d · ·azr :;cr} ���;no entre os possuidores e n-o-p·ossuidores. Ba

' ' q� n:t0- _
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•' . . -�
.
2Cl7
_Q barroco do Novo Mundo
uma capital ·e uropé·ia,
. ap esar d e to
intennediário Po r me. das as suas in.Justtças,
. .
to das ati vi da pod1a desenvolver um secor
n h O1a os fi1dalgos so, des comerei ais e profi1ss1ona
o e r · 1S,
. na América espa-
. am p orque p ss ,
obedec1do, se rvido, a � uiam, fora da cidade, minas e fazendas . Ser
d1nitadO e respeitado
pano-americano. R : cal foi o propósito vital do fidalgo his-
. ode av a m- no , ex acamente, aqueles que podiam oferecer-lhe ser-
vtços. Só que, no N
. ovo .1.1-.r
v1undo foi ma·15 dT 1 lCl·1 encontrar o respeito feudal. Sátiras e
pasqu1ns descrevem e . :
nd.Kulanzam as amb1çoes - da alta sociedade, ancora-
da num oceano de pobreza · ·1 · ' - cortesãs
· Os pnvi egiados sao poucos; os marginalizados, muitís-
simos·, e, e ntre uns e outros
, uma camada J. ocosa de mandriõe. s, gatunos, prosticucas
e meq.,d'igos ocupa a cena , como .
_!�- nas cidades barrocas do Século de Ouro espanhol.
_
... °�ensoes entre possuidores e nao-p - ossut'dores. Tensões entre fid 1 algos ncos· e fi1-
, ':
·
dalgos- pobres Entr e to· dos os fid
. >. 1 a1gos de origem espanhola e os mestiços rancorosos,
rnalic�osos, ambiciosos e zombadores, corroendo as rígidas diferença�,.�ncre as classes
.,,, �
a l tas _e, b a1xas.
. E os índios, negros e mestiços pobres não só aumeritit'am, como
anos
ameaçaram as classes superiores. Além das sublevações de índios nos primeiros
cempo. Em
da colônia, numerosos levantes populares se sucederam ao longo do
por uma massa de
1624, o palácio do vice-rei na cidade do México foi incendiado
, em protesto conte?, o "mau
trabalhadores urbanos, encabeçados por frades rebeldes
erno "; o fam oso tumu lto de 1692 , prov ocad o pela escassez de alimentos e pela su­
gov
dos pre ços, tam bén 1 atacou o palá cio e outros edifícios governamentais.
bida
a grande metrópole barroca do
A descrição mais exuberante da vida num
Mu ndo nos foi ofer ecid a por Bernardo de Balbuena, um poeta espanhol que
Novo Ci­
u ao Mé xico aind a cria nça e escreveu sobre o que chamou a grandeza da
chego o",
e do Méx ic o em 160 4. Apenas no capítulo de "presentes, ocasiões de satisfaçã
dad vites,
bu ena fala "de fest as e presentes, de mil maneiras", incluindo conversas, con
Bal e novas co­
os, jard ins, sara us, caçadas, concertos, música, alegrias; de "diversões
jog coches,
os costumes, caprichos senhoriais, a autoridade em
médias a cada dia", nov ; dos seus
u age n s, lite iras e .cadeiras de arruar; de mulheres, toucados e quimeras
carr de bor­
remorsos", e tudo isso banhado "de galões e lavores,
maridos, em "dores e os" ;·e ser­
pérolas e pedras, / entre ouro, prata, aljôfar recamad
dados, / esco;os, jóias, posição
em; e tudo isso, ainda, como prova patente da nova
vidos por coda a criadag
cruzamento de caminhos comerciais:
da Nova Espanh� como

En ti Jt junta E1paf.ía con la China,


ltalía conjapón, y finalmente
,m mundo entero en trata y disclplin.a... *
.;

PHUIS mil d, tS'4ío mttndimi1,nto -,·


tfJrlt.Sdll#l � honf'a a lo �orrado; � (U(r}J y
at1p1illaJ máI tÚ un e11mto. *
...
O vice.rei. nos informa est3:C cercado de "vagabundos, cavaleiros pelados,

4

i dores-sem conta, gariteicos", enquanto a polícia é de "ladrões muito atarefados"'..


Uma cidade> termina por dizer, com "o sol escurecido, pardo desde nascido: é esta.
,, .Lima, e seu freqüente trato'\ Simón de Ayanque, em sua descrição da Lima colonial.
11 � mais long-e e mais perigosamente. Esta é uma cidade, nos recorda, de .. índias
nmbas (filhos de negro e mulato ou de negro e índia) e mulatas, chinos (desccntentcs
de u.mho com índia), mestiços e negros ... Verás em todos os oflcios chi11os, mulatos
e negros. e muito poucos espanhóis... Verás também muitos índios que vieram da.
tt.tn., para não pagar imposto e se fazerem de cavalheiros" .
.· A pretensão de ser algo distinto parece ser uma das marcas das socied des
-• u.cbanas barrocas, divididas entre ricos e pobres, ordens eclesiásticas em disputo.
namoros apaixonados e rejeições igualmente apaixonadas do sexo e do corpo. Ao que
pa.rccc, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de li­
bertinagem. Roland Barthes escreveu que o sadismo prevalece sobretudo nas regiões
subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de
csaic:as delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado
(mrs legiões de criados), o objeco do prazer facilmente desprezado, e a impunidade
desfruada., ainda que praticamente em lugares escondidos As cidades da Am�rica
c.cl.onia.l �anhqla possuíram codos esses atributos, a que se acrescenrou a dimensão
- de impunidade � esconderijo - do mundo religioso, de conventos e mosteiros.
.J· � .,

O escritor mexicano Fernando Benítez, num livro delicioso chamado ú.s d.


'fUOS m J co,wmJol relata muiras das "alucinantes ficções.. que deram às sodcd des d
Am&ica uci� junco com as suas práticas Hbertinas, o çorrespondcnte erocismo
rcpcess · o. O arc�bispo do México aos tempos de sóror Juana, Aguiar y Scins, tinh
l2manho ódio às mulheres que não as permitia em sua presença e, se acidentalmencc
diontava uma> logo cobria o rosto com às mãos. Seu horror à água (outra fobi hi -
nica e católica) era igualmente cáustico e� em sua fúria, havia ainda o fato de que
tilminhava ajudado por muletas, e as usava com violência, como o ficou s bcndo o

etros qur ron-


IPl.rin mil de o entendimento-; / cortesãs s6 de honra já ri$cada; de trap
umm. (N. do T.)
O, OI

. e ncerr -hui no c:on•


i,u · vi t \ p r n nhum hornem. c:rc menc o p • I

n.lt \.Un nd m1 .mero de prosdtucn11 1 trl2 s e nrtis a


fi -1 tl.O corwcnco, os nmn,nces dcss s mulher
r r i • iti r m o locnl e, quaflclo ns anulher s se teb
clre \lC e r qu.ele o céu, l m prefi dnr11 o inferno,
n.icdl nte lntrodt1ç o, h�d ,��co, de uposi-

.in..�"".."' pol, ctf li t o o do sexo proibido, do ide 1 de es•


A'\ t rnid cl vlt innl, muicn freirn mexic� nas, horrorizaclns
t o • v d v n1 �e o olhos, trnnsmitiodo assim o seu desejo
; l n bemn, o piso d s suas celas o.cê formar uma cruz com a
p r su pr6pti criad�s; e se lnmbutarrun com o sangue dos
• P lelnm nte, os monges e sacerdotes, diz Ben(tei, cnm­
.
golpe dos como são Junn de ln Cruz, pojs vio.m nisso
ofrimenco de Cristo no calvário.

FUMEIRO REBEL��;::= --
- --
u.to,Pin no = · suf ·cas do
-
· t1 o um decreto real para libertar os índios gua-
educ -los dentro dos limites de uma república e.ciscá semdhanre
"""''Q.\,Ae d us n Ter . Bm vez de morrer de trabalhos· forç ados e varíola., os
do Pu · aboliram o u o do dinheiro 1 estabeleceram a propriedade co-
, um vid ngr d vell ba.s ada no. distribuição eqüitativa da ri.queza.
muni d utópk , porém. só perdurou por seu isolame aco, e porque o
'ij p nh DJ u os jcsuít s o direi eo de armar-se e nrmar os rndios contra
p nh6l. e portu i.tes nnsloso por npropriac-s e deles e de suas
ter o n tOi d v lido erguntar se um uropia _rmadn � .rea.Jmente uma uco-
o�d d IJl , cl prote o do jct túcas, expulsos da Espanha e dos seus
to i pcl OU!b n e.m 1767, os gunranjs foram jgualrncnre absorvidos pela
m "s de- u1 des d e escr vl'Z'ndas que, .nl.Ul'\ momento d.ramácico,
n rebeU o de Túp e Amaru. A 4 de novembro de 1780, o
fnci. de T:u e nos Andes, José Gabrld Condorcanqui, adocou
211
J.

o nome do último imperador inca, Túpac Amaru e. afirmando-se descendente dos


mona.ccas índios, ergueu.se em armàS contra o governo espanhol. Seguido por uin
�càto de almocreves indígenas, Túpac A.maru estendeu a revolução a todo o Peru.
Foi uma re�lião imersa cm violência e simbolismo. Visto que os espanhóis ha-­
viam mostrado tanta sede de ouro, Túpac Amaro capturou o gove_rnador espanhol e
o exerurou obrigando-o a tomar ou.ro derretido . E, uma vez que os índios só pude­
ram ser derrocados pela cavalaria espanhola, depois da captura de Túpac Amar� em
1781, ele foi executado da seguinte maneira, conforme um anônimo testemunho:

Foi levado para o meio da praça: ali, o carrasco lhe cor­


tou a língua e, já sem grilhões e algemas, puseram-no no chão .
Ataram-lhe às mã os e aos pés quatro laç os e, presos estes à
cilha de quatro cavalos, quatro mestiços os puxaram em qua­
tro diferentes direções: um espetáculo que jamais se vira nesta .l
cidade. Não sei se po rque os cavalos não eram muito fortes, ou J
porque o índio, na verdade, fosse de ferro, não puderam abso­
lutamente despedaçá-lo e após um longo momento o man­
tiveram sendo esticado, de maneira que o tinham n o ar, num
estad o que parecia uma aranha. A tal ponto que o coman­
dante, tomado de c ompaixão, para que o infeliz não padecesse
mais, despachou uma ordem da Companhia, mandando o car­
rasco lhe cortar a cab.eça, o que se cumpriu. Conduziu-se-lhe
o corpo, depois, para debaix o do patíbulo, onde lhe arranca­

ram os b raços e os pés ... Nesse dia, acorreu grande quantidade


de gente e, em tamanho concurso, não se viam índios, ao me­
n os com os trajes que usam e, se alguns havia, estariam dis­
-farçados com capas ou ponchos. Sucedem certas coisas que
patl;nS}Il tramadas e dispostas pelo diab o, para confirmar esse
povo e� seus abusos, agouros, superstições. Digo-o porque,
havend o feit o um temp o muito seco, e dias muito calmos,
aquele amanheceu tão turv o, que se não via sair o sol, e por
toda parte ameaçava ch over; pois às 12, quando escavam os
cavalos a estirar o índi o, levanto u-se um forte pé-de-vento e,
deeois dele, um aguaceiro que fez a gente toda, mesmo os
guardas, retirar-se à pressa. Isso foi eausa de que os índios pas­
sassem a dizer que o cé.u e os elementos sentiram a mo rce do
inca, que os espanhóis desumanos e ímpios escavam matando
com canta crueldade. Desse modo acabaram José Gabriel
Tópac Amaro e Micacla Bascidas.

212
.i!I-"'· 1 - • ••

,,
'

Em nosso próprio tempo,. Pablo Neruda esc.reveria que, nos Andes, .ac� as
'· ..
· . �m:en.ces repetem e.m silêncio: "Túpac ...' Uma cradiçio de revolcas sem fim e traições
,(

.• ,,
�"-�� fim, e outra tt:ad.içià de aspirações utópicas igualmente sem fim, violentas ou
. �oáveis, haviam governado os cerricórios -espanhóis do Novo Mundo. Quando , a
- ' \

.dµ)��qnia dos Bourbon sucedeu à _dos Habsburgo na Espanha, anunciou clara·


. 'm�e que chega.ra a hora da razão. Foi também a época do pintor que imaginou o
.,.
sonho da razão produzindo monstros .

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