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Douglas Wilson (org.), John MacArthur, R. C. Sproul, John Frame e outros Eu nao sei mais em quem tenho crido é uma ajuda original e proveitosa para a compreensdo do crescente debate sobre a teologia relacional. Ele contém criticas biblica, filosdfica e teoldgica. Eu espero que ele seja lido por muitos. Eu o recomendo tanto aos que estdéo tendo seu primeiro contato com 0 teismo relacional quanto aqueles que ja estao profundamente envolvidos nesse debate tao importante. Infelizmente, eu tenho de concordar com a observagdo da conclusdo de Douglas Wilson de que “se esse ‘novo modelo’ de teologia ndo é uma heresia, entao heresia nao existe”. John Armstrong Douglas Wilson 6 pastor da Christ Church, em Moscow, Idaho, editor da revista Credenda/Agenda, e membro do Conselho de Teologia e Filosofia do New St. Andrews College. www.cep.org.br Exc nao sti mais em quem tenho crido, © 2006 Edirora Cultura Crist. Traduzido de Bound Only Once, Copyright @ 2001 by Douglas Wilson et al, publicado por Canon Press, PO. Box 8729, Moscow, ID 83843, Todos os direitos sio reservados. 1? ediggo ~ 2006 3,000 exemplares Tradugio ¢ revisdo Vagner Barbosa Leitura final ‘Wendell Lessa V. Xavier Editoragiio OM Designers Capa Lela Design Conselho Editorial Cléudio Marra (Presidente), Ageu Cirilo de Magalhaes Jr., Alex Barbosa Vieira, André Luiz Ramos, Fernando Hamilton Costa, Francisco Solano Portela Neto, Mauro Fernando Meister, Valdeci da Silva Santos e Francisco Baptista de Mello. Wilson, Douglas 1953 - W747e Eu nao sei mais em quem tenho crido / Douglas Wilson (org.); [tradugio Vagner Barbosa) ~ Sao Paulo: Cultura Crista, 2006. 208p. 5 16x23cm. Tradugao de Bound only once: the failure of open theism ISBN 85-7622-109-8 L.Apologetica Crista. 2. Tefsmo Aberto. 3.Soberania de Deus. LWilson, D. IL-Titulo. CDD 2led. - 231 € €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles Jéinior, 394 — CEP 01540-040 ~ Sao Paulo ~ SP C.Postal 15.136 - CEP 01599-970 — Sao Paulo ~ SP Fone (11) 3207-7099 ~ Fax (11) 3209-1255 Ligue gritis: 0800-0141963 — www.cep.org br ~ cop@cep.org br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Claudio Antonio Batista Marra Sumario Prefacio Beleza 1. O Encanto da Ortodoxia ... Douglas J. Wilson 2. Metéfora em Exilio ... Douglas M. Jones 3. Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade. R. C. Sproul, Jr. Verdade 4. Teologia Drag Queen .........0. Ben R. Merkle 5. A Teologia Relacional e a Presciéncia Divina John M. Frame 6. O Ataque dos Tefstas Relacionais 4 Expiagio .... John MacArthur, Jr. 7. Deus sem Disposigaio de Mudar . Phillip R. Johnson 8. Trindade, Tempo e Tefsmo Relacional: Uma Passada de Othos pela Teologia Patristica ..... Peter J. Leithart 9, Fundamentos do Conhecimento Exaustivo ... Douglas J. Wilson Bondade 10. Implicagdes Pastorais do Tefsmo Relacional . Thomas K. Ascol 11. A Sarga de Moisés ou a Cama de Procrusto? ... Steve M. Schlissel 12. Idolatria Relacional ...... Joost F. Nixon Epilogo .. Douglas J. Wilson Notas...... - 193 Colaboradores Thomas K. Ascol, PhD, é 0 editor de The Founders Journal e pastor da Igreja Batista da Graga, Cape Coral, Flérida. John M. Frame é Professor de Teologia Sistemitica e Filosofia no Semindrio Teoldégico Reformado, Orlando. R. C. Sproul, Jr. é 0 editor de Table Talk, pastor da Igreja Presbiteriana de Sio Pedro e diretor do Highlands Study Center. Phillip R. Johnson é 0 diretor executivo de Grace to You e presbitero da Grace Community Church, Sun Valley, Califérnia. Douglas M. Jones é pesquisador-docente do Departamento de Filosofia no New St. Andrews College, Moscow, Idaho, e editor sénior da revista Credenda/Agenda. Peter J. Leithart, PhD, é pesquisador-docente do Departamento de Teologiae Literatura no New St. Andrews College, Moscow, Idaho, e ministro ordenado da PCA. John MacArthur, Jr. é presidente do Master’s Seminary and College, Santa Clarita, Calif6rnia, destacado professor de Grace to You e pastor da Grace Community Church, Sun Valley, Califérnia. Ben R, Merkle é professor de Teologia no New St. Andrews College e editor colaborador da revista Credenda/Agenda. Joost F. Nixon é pastor da Christ Church, Spokane, Washington, e editor * colaborador da revista Credenda/Agenda. Steve M. Schlissel é pastor da Messiah’s Congregation, Brooklin, Nova York. Douglas J. Wilson é pastor da Christ Church, Moscow, Idaho, editor da revista Credenda/Agenda e Pesquisador-Docente de Teologia e Filosofia no New St. Andrews College. Prefacio Para surpresa do cristdo evangélico descuidado, ataques contra a visio clas- sica de Deus tém sido feitos pela principal corrente liberal h4 mais de um século. O que tem sido totalmente surpreendente, dos tiltimos dez anos para ca, é que esses ataques agora estiio vindo de dentro do campo evangélico. Como foi ob- servado pela publicagao de vanguarda Christianity Today, desde 1990 a assim chamada “mega mudanga” tem ocorrido dentro das escolas e ministérios evan- gélicos, Essa mudanga nao somente altera a visio de mundo do tefsmo classico, mas também enfraquece seriamente a teologia evangélica ortodoxa tanto de seu poder quanto de seu apelo pastoral. Essa mudanga afeta varias doutrinas rela- cionadas a doutrina de Deus que tém estabilizado o testemunho e a vida de oragao da Igreja ha muitos séculos. Essa mudanga causa impacto particular- mente na forma pela qual nés entendemos a soberania, a onisciéncia e a provi- déncia de Deus. Essa mudanga ndo apenas modifica a forma pela qual nés falamos sobre Deus, mas também atinge o proprio coragdo da doutrina de Deus, a mais basica verdade da fé cristé. Um dos resultados dessa mega mudanga é que a palavra “evangélico” tem se tornado tanto sem sentido quanto sem utilida- de para muitos de nés. Um mega virus teolégico, que provoca uma infinidade de conseqiiéncias sérias, tem atacado o préprio sistema imunolégico da fé cristd. Esse virus atingird mortalmente toda uma geragiio de professores e ministros cristos se a cura nao for disseminada rapida e eficazmente. H importante que o leitor desse livro entenda que o princfpio que esta pre- sente nesse rebuligo nao é 0 intermindvel debate entre calvinistas e arminianos, como alguns tefstas relacionais insistem em dizer.! Greg Boyd, professor do Bethel College, uma respeitada i ituigdo evangélica, insiste em dizer que cré 10 Eu nao sei mais em quem tenho crido na onisciéncia de Deus, mas a define como “Deus sabendo tudo o que é possf- vel saber”. O ponto de Boyd e de seus aliados tefstas € que Deus simplesmente nao sabe quais serao as agGes futuras de pessoas “livres” (isso no se encaixa no pensamento arminiano de qualquer periodo histérico). O leitor desse livro rapidamente entenderd que os autores sio fortemente agostinianos em sua perspectiva, mas isso nao deve tirar de foco a principal questo. Ser forte- mente agostiniano nao é um vicio. Pelo contrario, ser fortemente agostiniano, em quase todos os sérios conflitos teolégicos, tem sido uma virtude. A aborda- gem, em si mesma, também é clara no presente debate. Como 0 leitor percebe- r4, ela é rigorosamente submetida as Sagradas Escrituras. “A lei e ao testemu- nho! Se eles nao falarem desta maneira, jamais vero a alva” (Is 8.20). Os argumentos do tefsmo relacional geralmente estao arraigados na nogio de que a visio classica de Deus 0 apresenta como um déspota ou como um soberano dominador. Eles insistem que Deus tem conhecimento, mas ndo todo o conhecimento, Ele nao conhece os atos futuros de seres livres, caso contra- rio esses atos no poderiam ser praticados por criaturas verdadeiramente li- vres. J4 que Deus ndo sabe 0 que aconteceré na sua vida amanhi, ele nao é uma Divindade isolada e distante, mas um Deus envolvido e pessoal. O deus do tefsmo relacional est4 pronto para entrar em novas experiéncias e tornar-se profundamente envolvido em nos ajudar, 4 medida que nés, juntamente com ele, encaramos os eventos que nés nao sabfamos que aconteceriam. Clark Pinnock, um telogo adepto do tefsmo relacional, afirma que a onipoténcia de- veria ser entendida como 0 poder de Deus em lidar com qualquer nova situa- ¢ao. David Basinger, outro adepto do teismo relacional, sugere até mesmo que “Deus voluntariamente perdeu o controle sobre os assuntos terrenos”.? No sentido mais basico, esses te6logos negam o “simples conhecimento” em Deus, j4 que créem que a liberdade humana requer que se chegue a essa conclusio. O leitor que aborda esse assunto pela primeira vez precisa entender que os tefstas relacionais apelam consideravelmente as préprias Escrituras. Alguns deles, como 0 exegeta Greg Boyd, recorrem as Escrituras com mais perspica- cia que outros. Sendo esse 0 caso, todos eles recorrem as Escrituras de forma que, geralmente, parecem bem firmados. No entanto, isso é uma estranha fic- ¢40. Embora esses escritores recorram consistentemente ao texto da Escritura (por exemplo, “God Repenting” e outros textos), 0 leitor desse livro rapidamen- te descobriré que os tefstas relacionais recorrem a um uso seletivo de alguns textos. Eles também empregam uma hermenéutica que é carente tanto de cla- reza quanto de consisténcia. Apesar dos esforgos feitos pelos tefstas relacionais para rejeitar uma iden- tificagéio com a teologia do processo, é necessdrio um certo esforgo para se Prefacio 11 enxergar alguma diferenga substancial entre o antigo pensamento do processo e essa moderna heresia “evangélica”, exceto pelo fato de que 0s tefstas relacionais insistem em que Deus criou 0 mundo e é, portanto, distinto dele. A teologia do processo tenta construir um quadro da realidade, baseado na fisica de Newton, que vé Deus como participando das mesmas categorias de realidade humana que os seres humanos. Nessa posi¢o antiga, Deus, com respeito a realidade, é contingente, dependente, temporal, relativo, e esté em constante mudanga. Nesse caso, nao adianta cantar “Ao Rei eterno, imortal...”. Mas 0 que 0 teismo relacional deve a essa corrente liberal primitiva? Greg Boyd, um dos defensores mais biblicamente embasados do tefsmo relacional, livremente admite que “a posigao fundamental da visdio de mundo como espo- sada por Charles Hartshorne est4 correta”.> O significado disso é simples: 0 tefsmo relacional compartilha da posi¢do de “tefsmo bipolar”, estabelecida pela teologia do processo. O tedlogo Millard Erickson esta correto quando observa que “essa bipolaridade concebe Deus tanto como absoluto quanto como relati- vo, tanto como necessdrio quanto como contingente, tanto como eterno quanto como temporal, tanto como imutdvel quanto como mutdvel”.* As concepgies classicas de Deus no sao sempre completamente afirma- das. Elas precisam ser ajustadas por um contfnuo trabalho exegético no texto da Sagrada Escritura. Nés somos devedores tanto dos Pais da Igreja quanto dos reformadores nesse ponto, mas devemos admitir que, as vezes, idéias filo- s6ficas e culturais tém influenciado a obra da teologia biblica e nosso entendi- mento de Deus. Eu, pessoalmente, creio que os teistas relacionais se opdem a varias concepgées equivocadas sobre Deus que vieram & tona na histéria da teologia crist’. Nés devemos ser gratos por isso. A grande tragédia & que, no processo de rejeitar a idéia de Deus como “poder irrestrito... eles muito rapida- mente divorciaram 0 conceito biblico de poder da coergaio”.> Essa nao é uma mudanga pequena. Essa realmente é uma mudanga enor- me, de imensas proporgées. Recentemente, tem sido publicado um grande ntimero de artigos e livros titeis que tratam diretamente do tefsmo relacional. Eu ndo sei mais em quem tenho crido € um livro assim. Ele reflete uma sauddvel variedade de aborda- gens ao tema, pois é uma obra composta por varios artigos de varios autores. Ela inclui critica filoséfica, bfblica e teolégica. Ninguém tem que concordar com cada palavra escrita aqui para desfrutar da experiéncia e da abordagem ampla feita pelos escritores. Isso faré com que alguns leitores fiquem um pouco mais melindrosos com 0 livro, pois muitos evangélicos nao estdo acos- tumados a tratar a teologia com seriedade em nossa época, mas essa é uma critica necessdria, e eu espero que ela tenha ampla divulgagao. Eu a reco- 12 Ewndo sei mais em quem tenho crido mendo aqueles que esto dando sua primeira passada de olhos no tefsmo relacional também aqueles que jé esto profundamente imersos nesse de- bate profundamente importante. Infelizmente, eu tenho que concordar coma observacao de Douglas Wilson, de que “se esse ‘novo modelo’ de teologia nao é uma heresia, entao a heresia nao existe”. John H. Armstrong Presidente de Reformation & Revival Ministries Carol Stream, Ilinois Uma vez preso, 0 Cordeiro de Deus foi morto, O hissopo vermelho, a culpa, cancelada e branca. Diante do mundo foi o Cordeiro Sacrificado, e nunca mais morrer4. Mas a mente humana essa riqueza ainda desdenha Pois eles cegam e escarnecem de nossos senhores menores, De nossas palavras gravidas que carregam a luz encarnada, Das metdaforas que falam da grande verdade. Eassim eles moem 0 seu silogistico grao Para fazer seu pao oco, seus bolos de ar; E assim eles pisam suas pequenas uvas cuclidianas Para fazer e beber seu fino e tépido vinho. Mas os homens farao mundos etéreos em vao, Uma vez preso, 0 Verbo de Deus reinara. VZj144 1 O Encanto da Ortodoxia Douglas J. Wilson Introdugao O bispo Warburton certa vez disse que a ortodoxia “é minha doxia; a heterodoxia é a doxia de outro homem”. A maxima tende a nos agradar, pois apela para nossa moderna nogio de que, no fundo, todas as questdes de verdade e erro so subjetivas e questio de preferéncia pessoal. Dois ministros de dife- rentes denominagées conversam, e um diz ao outro: “Claro, nés servimos ao mesmo Deus — vocé da sua forma e eu da forma dele”. E, assim, a modernidade, sorrindo silenciosamente, parece ter perdido a propria nogao de ortodoxia. claro, O conceito de ortodoxia é realmente inescapavel, en m pode agir fora de suas limitacdes. Apalavra grega_ @ihosignifica direto, ou correto, e@oxia 1 ignifica pensar..A palavra.doxa,o.ancestral ime 2 i to, Grtodoxia) significa uma crenga correta ou uma opii que alguém possa ser contra isso. Podemos verificar que ninguém €¢ é contra isso— todo homem afirma que o que ele mesmo sustenta é a verdade. Cada pessoa no mundo, durante todo o dia, cada dia, pensa que est certa. Até mesmo aqueles infelizes relativistas e niilistas pensam que entendem que a verdade nao existe. E bom eles irem até onde puderem. Eles nao vao muito longe. Ninguém jamais censurou a ortodoxia, a ndo ser em nome de outra ortodoxia. Aqueles muitos que reclamam fidelidade a “nenhuma ortodoxia” sdo evidéncia nao de que essa observaciio esteja incorreta, mas de que o pensamento confuso est4 se tornando uma virtude nacional. De fato, nés apenas estabelecemos orto- doxias e absorvemos agées ortodoxas como heresias._Dessa forma,.cada_posi- $80.€.uma ortodoxia..A tinica questo. é “de quem?”. A questio, para os cristdios, 18 Eu néo sei mais em quem tenho crido refere-se ao modo pelo qual a linha reta deve ser tragada. Nés definimos que algo € verdadeiro correto de acordo com as palavras dos homens? Ou nao? Nés apelamos a Palavra de Deus? Ou nao? A antftese de reto € torto ou torcido. Continuando a analisar a questao da ortodoxia, nés temos apenas duas opgGes. Ou os homens dizem que a Palavra de Deus é torta ou Deus diz que a palavra dos homens é torcida. Um pronunciara juizo sobre o outro, e, necessariamente, nesse juizo, o juiz pressupée ser o arbitro de tudo aquilo que € bom, verdadeiro e amAvel, e, assim, a questo chega a um ponto inevitdvel - qual alegacéo, a do homem ou a de Deus, é correta? O apéstolo Pedro fala, e néo muito rebuscadamente, daqueles que mercadejam a verdade de Deus: “B tende por salvagao a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente nosso amado irmao Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que Ihe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epfstolas, nas quais hd certas coisas dificeis de entender, que os ignorantes e instaveis deturpam, bem como também deturpam as demais Escrituras, para a propria destruigao deles” (2Pe 3.15,16). A palavra traduzida como deturpam é streblao, que se refere_a colocar -alguma coisa’ sobre uma mesa facer até ficar irreconhectvel, E claro que aqueles que esto ocupados nessa atividade nao se descrevem dessa forma. Eles nao advertem seus seminaristas de que esto sendo instrufdos por pessoas ignorantes e inst4veis. A afirmagdo de Pedro, aqui, talvez seja um pouco ten- denciosa. Sua opiniao sobre sua principal atividade é a de que eles esto certos. Mas sera que esto mesmo? Quando nés nos voltamos para a Palavra de Deus como o padrao, como devemos fazer, nds descobrimos que devemos ter mais do que assentimento profissional. Quando trabalhamos dentro de categorias biblicas, vemos que a ortodoxia envolve muito mais do que mero conhecimento intelectual. A ortodo- xia exige todas as nossas faculdades, nossa razio, nossa imaginagio, nossos habitos corporais e nossas afeigées. O pensamento reto.€ inconsistente com tortas. A fé sem obras é morta; as hist6rias sem dragées sao entediantes; Oo culto € uma questio de s6lida doutrina e de uma comida bem feita no fogao; e um deus ligado 4 terra, porém como uma pintura nobre, é algum tipo de Prometeu, e nao o Deus de Abraao. O fato de que, para muitos, 0 precedente parece ser uma corrente de non sequiturs ajuda a demonstrar nosso proble- 6s falhamos em. ver que a ortodoxia é realmente um hdbito corporal que, naturalmente, tem que incluir a mente. Esse é 0 motivo pelo qual a verdadeira ortodoxia é amavel e envolve o homem integralmente. Assim nés podemos expandir nossa observagao anterior. Ou os homens alegam que a Palavra de Deus é feia, ou Deus diré que a palavra do homem é O Encanto da Ortodoxia 19 feia. Ou os homens alegam que 0 doce é amargo, ou Deus alegaré que os homens 0 esqueceram, a fonte da gua viva. Assim, o caminho da salvagao pode ser encontrado nao na afirmagao das verdades da ortodoxia com confian- ga, mas pelo reconhecimento de que as palavras de Deus sao vida em si mes- mas. Elas siio ouro refinado, séo como mel aos labios, séo vinho envelhecido, elas nos convidam a um banquete no reino. O nosso préprio Senhor est sentado & mesa com atavios transparentes, roupa branca de linho, e a prataria est4 perfeitamente alinhada, 4 moda ortodo- xa. O cristal é glorioso, e cada taga est cheia de vinho tinto, o vinho rubro da alianga perpétua. Ao Jado de cada assento est4 uma pedra branca servindo de craché, com um nome escrito sobre ela, a mao, antes do infcio dos tempos. O mistério é glorioso — se nao h4 tempo, ento como nés podemos ter referentes temporais Como antes? ~ e a comida € ainda melhor Mas quando nds olhamos para essa festa, e quando nés esperamos por ela, h4 alguns homens instdveis que tentam nos distrair. Eles tém uma concepgao alternativa para a festa, mais de acordo com nosso estilo de vida contempora- neo, sem parar, 24 horas por dia, sete dias por semana. A vida é relacional, e a ceia nao est preparada porque nds temos que ajudar a prepari-lae nds estamos muito ocupados. A vida um processo, eles dizem, ¢, assim, a verdade pode ser encontrada em uma loja de conveniéncia perto de vocé. Eles querem alguma ajuda para tirar o invélucro de plastico, como uma embalagem a vacuo que fica agarrada a uma caixinha de bala, e se nds colecionarmos um niimero suficiente de cupons nés podemos, eventualmente, resolver o problema do mal. A relacionalidade de Deus C. S. Lewis, certa vez, comentou que tudo o que nao é eterno é eternamente out of date, mas esse é um sentimento inaceit4vel para os americanos contem- pordneos. Nés cremos no progresso irresistfvel, e nés queremos “‘novas e me- Ihores” pompas em tudo, inclusive em nossa teologia. Uma chamada na capa de um recente livro sobre o tefsmo relacional diz: “Esse livro € um importante ato de coragem que nos convida a um novo e corajoso pensamento”.' Mas, para que haja esse tipo de-melhoria, tudo 0 que nés afirmamos tem que ser improvavel” em principio, e, assim, manter-nos fora de qualquer dogmatismo. Considere esse exemplo: “O modelo trinitariano parece superior ao teismo do processo na questo da relacionalidade divina”.? Isso é improvavel? Claro, varias coisas aT nos fazer suspeitar do que esté 14 fora. Ey acho que foi Charles Hodge ‘que disse que, se € verdade, entao nao € novo, e, se € novo, entio nao € verdade, Quando tribos, especialmente tribos letradas, co- megam a descobrir que 0 que a Biblia tem dito por varios séculos é realmente 20 Eu ndo sei mais em quem tenho crido 0 que nés, aqui em nossa época, s6 agora conseguimos descobrir, s6 é necess4- rio dar mais um passo para se dizer que nao importa o que a Biblia disse duran- te todo esse tempo. Isso acontece porque todo 0 projeto é racionalista desde o principio, e quer que a autoridade resida dentro do homem, e niio em Deus. Um de meus filhos, certa vez, me perguntou em que Deus se baseou quando fez o mundo. Esse tipo de erro € compreensivel em uma crianga, e até mesmo amével, mas, quando os tedlogos do tefsmo relacional cometem 0 mesmo erro repetidas vezes, isso deixa de ser uma gracinha agradavel. O erro age da seguinte forma: uma afirmacio biblica sobre Deus é considerada, enquanto todas as outras afirmagies sobre Deus sao ignoradas. A diregio de todas as afirmagées também ¢ ignorada, e a afirmagiio escolhida é inter- pretada em termos humanos. A questo é feita. Deus fez o mundo, e quando eu fago alguma coisa eu me baseio no mundo. E ja que Deus deve se basear em alguma coisa, como eu também me baseio, e o mundo ainda nao havia sido feito, em que ele se baseou? Observe o método. “Deus repetidamente enviou Elias para chamar Acabe ao arrependimento, mas o rei se recusou a arrepender-se. Deus estava brin- cando de gato e rato com Acabe? Se Deus sabia, desde 0 momento em que enviou Elias, que 0 convite seria recusado, entao Deus estd sendo desonesto em criar uma falsa esperanga”} Em outras palavras, se eu fizesse algo seme- Ihante, eu seria culpado de criar uma decepgdo. Quando eu fago alguma coisa, eu tenho que me basear no mundo, e é claro que, se eu destruo cidades com terremotos, eu sou culpado de genocidio. Tudo isso foi dito nao para alegar que todo tefsta classico seja inocente desse mesmo problema. Isso acontece, e com freqiiéncia. Mas, quando isso ocorre, é porque 0 exegeta ou tedlogo, inconsistentemente, permite que preo- cupagées racionalistas e préprias da criatura ditem ao texto o que ele deve dizer. Esse é exatamente o mesmo problema que nés encontramos nos escrito- res tefstas relacionais. Um exemplo de um erro tefsta cl4ssico, nesse contexto, pode ser encontrado no comentario de Albert Barnes sobre o Salmo 2. Seu comentério € sobre a frase “no seu furor”. “E claro que essas palavras devem ser interpretadas de acordo com o que nds sabemos ser a natureza de Deus, e no de acordo com as mesmas paixdes nos homens. Deus se opée ao pecado, © expressard sua oposi¢ao quando se inflamar em sua ira, mas isso sera da forma mais calma, ¢ no como resultado de uma paixio descontrolada”.* E claro que isso é assustador, mas é o exemplo de um exegeta ortodoxo adotando os métodos que nés condenamos nos tefstas relacionais. A Biblia nos diz que o furor de Deus sera muito grande. A expressao literal se refere a calor ou queima, como quando uma pessoa est inflamada em ira. O tedlogo tefsta relacional diria que essa é uma expressio da ira de Deus, e, entao, forcaria sua interpretaciio em termos da ira humana. Mas Barnes tam- O Encanto da Ortodoxia 21 bém traz a interpretagao para o nfvel da criatura, interpretando a expressaio em termos de um lago em um dia de verao — calmo. Um diz que a ira de Deus € como a ira humana e 0 outro diz que a ira de Deus é como a calma humana, mas ambos ignoram 0 propésito das figuras de linguagem. As expressdes biblicas sobre Deus,.todas elas juntas, conyidam-nos a penetrar mais acima e mais adentro. Simbolos e figuras de linguagem)sio menos do que aquilo que repre- sentam, e nao mais. Eles apontam para algo além de si mesmos, e, no caso de Deus, a algo transcendente,, E claro que Deus nfo perde o controle, como acontece com um ser humano pecaminoso. Sua ira é muito mais terrivel que isso. Ela transcende a ira. E claro que Deus nao é paciente da mesma forma que o homem é paciente - sua serenidade é permanente e nao tem limites. Ela transcende a serenidade. john Sanders)fala com mais sabedoria ao afirmar que “uma expressio nio-literal nao resolve o problema, porque ela tem que significar alguma coi- ‘sa, Essa expressao antropomérfica é uma expressiio exatamente de qué?”.> Ela é a expresso de algo semelhante 3 figura usada, ¢ aponta para algo calém da figura usada, Quando nés olhamos para além de uma figura espect- fica, nés devemos nos lembrar de que toda a Biblia nos ensina sobre Deus e olha, pela fé, para além de cada palavra pela qual ele revela seu cardter e sua natureza. ot Deus se revela na narrativa hist6rica, na poesia e nas porgées didéticas da Escritura. Nao € 0 caso de nés encontrarmos aproximadamente todas as ex- pressdes antropomérficas na poesia e algumas poucas nas historias. Até mes- mo as porgées didaticas nos falam de uma forma franca que nos leva a olhar em fé para 0 que est dito além das palavras. Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocagiio; nao segundo as nossas. obras, mas conforme a sua prépria determinagdo e graga que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9; cf. Tt 1.1-3). A frase traduzida aqui como “antes dos tempos eternos” é literal. Como isso é possivel? Como nés podemos ter uma referéncia temporal antes da propria temporalidade? Nos precisamos considerar todo o ensino biblico sobre esse assunto, onde quer que ele se encontre. Nés agimos corretamente quando nos humilhamos em adora- gdo. Essa adoragdo ndo significa que nés no saibamos que estamos usando palavras finitas para glorificar o Deus infinito. “Se eu disser que Deus est4 ‘fora’ ou ‘além’ do tempo e do espago, eu quero dizer a mesma coisa quando digo que ‘Shakespeare est4 fora de A Tempestade’, isto é, suas cenas e perso- nagens nao exaurem seu ser”.® Dizer que Shakespeare est4 fora de uma de suas pegas é usar uma figura de linguagem. Nés podemos facilmente dizer que ele esté acima dela, antes dela, dentro dela ou abaixo dela. E se nés comparar- mos a relagio de Shakespeare com sua obra com a relagdo entre Deus e sua criagiio, nés seremos forgados a usar as mesmas preposigées. 22 Eu ndo sei mais em quem tenho crido Mas 0 uso da ilustragao de uma pega de teatro é ofensivo para nés. Nés dizemos que Hamlet é um personagem de ficg&o, enquanto nds somos reais. Essa nao é uma boa comparaciio, nés murmuramos, mas observe onde e por qual motivo nés nos ofendemos. Nés somos muito maiores que Hamlet, e 0 zelo pela gléria da humanidade enche o recinto. Ninguém esta preocupado em dizer que Deus é muito maior que Shakespeare. E claro que a analogia é limitada — assim como a analogia do oleiro e do barro, feita nas Escrituras - e no cobre completamente cada aspecto de nossa discussao. Mas a ilustragao ainda fun- ciona, porque esté apontando, por meio de uma metéfora, para algo muito maior e mais misterioso que uma pega de teatro. “[O Senhor] faz estas coisas conhecidas desde os séculos” (At 15.18). A visio do tefsmo relacional também deye ser rejeitada, porque seus defen- sores nao afirmam realmente scus métodos e pressupostos, Como eles querem continuar (por algum tempo) sendo considerados evangélicos, eles querem co- locar algumas coisas fora dos limites. Por exemplo, Pinnock diz que a oniscién- cia de Deus é claramente um item necessdrio. “Obviamente, Deus deve co- nhecer todas as coisas que podem ser conhecidas e conhecé-las verdadeira- mente”.’ Mas como é isso? Isso nao é um ataque aos versiculos biblicos quan- do usado de acordo com a tendéncia dos proponentes do teismo relacional? “Disse mais 0 Senor: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem se multiplicado, ¢ o seu pecado se tem agravado muito. Descerei e verei se, de fato, o que tém praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim; e, se assim nao é, sabé-lo-ei” (Gn 18,20,21). Eu descerei e verei, diz o Senhor. Ele no apenas n&o sabe © que aconteceré no futuro, mas também parece nao saber 0 que esté acontecendo nesse momento em Sodoma e Gomorra. Relaci- onado a isso estd o fato de que ele nao conhece o passado — ele descerd para investigar o que eles tém praticado. Os préprios proponentes do teismo relacional recuam diante da feitira de seus préprios métodos de narrago de histérias. Isso acontece tanto porque eles mes- mos hesitam em andar tao perto do abismo quanto porque, menos piedosamente, eles estdio com a consciéncia endurecida e sabem que os evangélicos que eles esto tentando seduzir ndo gostariam de ir tio longe. Mas dé tempo ao tempo. Dentro de uma geragio, os evangélicos comegarao a adorar um deus mais pare- cido com Thor do que com o Deus de Abraao, Moisés, Davi, Jesus ¢ Paulo. Thor, como nés sabemos, é conhecido por experimentar dissabores, e esse novo deus “expressa frustracdio”.* Onde nés chegaremos depois de mais uma geragao? “Deus no é calmo e imperturbavel, mas é profundamente envolvido e pode ser ferido”.° Um deus que pode ser “ferido” € um deus que pode eventualmen- te ser morto. A morte de Deus é a esperanga permanente do homem pecador ~ porque isso abriria uma vacdncia a qual o homem aspira—e esse é 0 objetivo de todas as formas de liberalismo teolégico. E todas as formas de abertura O Encanto da Ortodoxia 23 teolégica sao, muito certamente, uma tendéncia do liberalismo teolégico. Quan- do nés finalmente matarmos esse deus, alguns podem querer chorar no funeral, mas nao haverd unt lagrima sequer em seu corago. Esse nao seré um creptis- culo divino rodeado por pagaos desesperados, mas a remogio final de um deus enfadonho que, apesar de nossos maiores esforgos para promover a idolatria, ainda nos lembra muito o Deus da Escritura. A falha da imaginasdo Quando nos é dada uma visio biblica do Deus vivo, a imaginagiio humana cambaleia e cai por terra. Isafas est perdido, € um homem de labios impuros, e Moisés esta escondido na fenda de uma rocha para que nao seja dissolvido.Na_ tevelacio de si mesmo ands, Deus se descreve em inumerdveis formas para que nés nao cometamos 0 erro de confundi-lo com uma criatura. Ele est acima, abaixo, atras e na frente, de forma que nds podemos saber, que ele é tudo issoe, estritamente falando, nada disso. Ele é um guerreiro, um pastor, um rei, um cons- trutor, um marido, e, nessas imagens, a imaginacao santificada € convidada a reunir todas elas e a transcendé-las, para louv4-lo e adoré-lo. A linguagem humana é sempre inadequada quando o homem fala sobre Deus, 0 Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. Mas hé uma inadequagao prépria da criatura, uma limitagao santa, revelada virtualmente em cada pala- vra da Escritura, e portanto ha uma inadequago clara. O que diferencia os dois tipos de inadequacdo no sao as imagens antropomérficas (que esto em toda parte e so inevitaveis), mas uma diferenga ética e estética. Certas ima- gens de Deus que encontram paralelo nas criaturas sao dignas dele, e outras nio sao. Sua graga em perdoar nossos pecados pode ser prontamente compa- rada com a cura da lepra, mas nado pode ser comparada com um descongestio- nante nasal realmente bom. Sua salvagdo é como a Agua viva, e nao se parece nem um pouco com a vigorosa dieta do Dr. Pepper. A inadequagao daqueles tedlogos tefstas que tentam ver como a descrigaio de Deus est acorrentada, é,no fundo, uma falha da imaginagao. A majestade da poesia biblica sempre abre nosso pensamento. A expresso poética biblica é encarnacional, o que significa que hd um corpo de “carne”, mas é um corpo que revela o Pai. A expressao poética idélatra nada revela de cima, e empenha sua energia em reorganizar o que est4 aqui embaixo. As imagens idGlatras do divino sio consistentemente mds metiforas, porque siio muito truncadas e trazem nosso pensamento para o nivel humano, dando-nos imagens ridiculas e torcidas de Deus. Considere algumas afirmagées grossei- ras ¢ inadequadas sobre Deus, ¢ reflita sobre como elas fazem sentir que nosso deus do tefsmo relacional mais se parece um convidado no programa de entre- 24 — Eu ndo sei mais em quem tenho crido vistas do J6 Soares. “Deus é o melhor de todos os alunos”.'? Nés esperamos ler na préxima linha que ele interage bem com os outros e nao corre com tesouras na mao. “Obviamente, Deus sente a dor de relacionamentos rompi- dos”. & mesmo? Ser que ele nao precisa fazer terapia? Entdo compare essas afirmagdes (e muitas outras semelhantes a essas) com a exaltagio da gléria de Deus, encontrada em Isafas 40.9-11: Tu, 6 Sido, que anuncias boas-novas, sobe a um monte alto! Tu, que anuncias boas-novas a Jerusalém, ergue a tua voz fortemente; levanta-a, no temas e dize as cidades de Juda: Eis af est o vosso Deus! Eis que o Senhor Deus vird com poder, ¢ 0 seu brago dominard; eis que 0 seu galardio esté com ele, e, diante dele, a sua recompensa. Como pastor, apascentar4 o seu rebanho; entre os seus braos recolherd os cordeirinhos © os levard no seio; as que amamentam ele guiard mansamente. As imagens so simples, terrenas, limitadas, e ainda assim sao gloriosas. Quando Isafas lamenta que nés nos afastamos de nosso Deus, ele 0 faz de forma que n&o nos encoraja a nos enfiarmos embaixo da cama. Essa lamentagio nfo se tora fragilizada pelo uso de uma imagem extrafda da ordem criada. Até mesmo aqui, cada imagem singular, apesar de maravilhosa, se for absolutizada em isolamento das outras, pode nos afastar dos profundos e ortodoxos oceanos e nos conduzir para as sombras da heresia. O Senhor certamente € nosso pastor, mas ele nao € apenas um pastor. E, assim, o profeta apresenta uma outra imagem: Quem na concha de sua mao mediu as éguas ¢ tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terga parte de um efa o pé da terra e pesou ‘0s montes em romana e os outeiros em balanga de precisio? (Is 40.12) Nos temos aqui uma série de questées retéricas, e a resposta pressuposta em todas elas é que quem quer que tenha medido as Aguas na palma da mio, ou medido os céus a palmos, ou pesado os montes em romana, nada tem a ver com a quantificagao de toda a criagdo. As maos, palmos e balangas sfio men- cionadas para nos ensinar que tudo isso nada tem a ver com medidas e escalas. Somente Deus sustenta os oceanos na palma de sua mao, e ele é capaz de fazer isso, porque ele ndo tem mos. Quem guiou o Espirito do Senor? Ou, como seu conselheiro, o ensi- nou? Com quem tomou ele conselho, para que Ihe desse compreensio? Quem o instruiu na vereda do juizo, e Ihe ensinou sabedoria, e Ihe mos- trou 0 caminho de entendimento? Eis que as nagdes so consideradas por ele comno um pingo que cai dum balde e como um grio de pé na OQ Encanto da Ortodoxia 25 balanga; as ilhas so como pé fino que se levanta. Nem todo 0 Libano basta para ser queimado, nem os seus animais, para um holocausto. Todas as nagdes so perante ele como coisa que nfo é nada; ele as considera menos do que nada, como um vacuo (Is 40.13-17). Quem dirigiu o Espirito do Senhor? Vocé no sabe? Nunca ouviu falar? Foi Clark Pinnock. Quem foi seu conselheiro para ensinar-lhe 0 caminho do juizo? Ora, alguém de coragio vagaroso e de alma cabeguda - Greg Boyd. Quem o ensinou, e quem lhe mostrou 0 caminho do entendimento? Bem, vocés sabem, sempre ha John Sanders, cujo livro tem muitas notas de rodapé ¢ respeitabilida- de académica. Injusto? Eles nao afirmam isso sobre si mesmos? Bem, realmente eles afir- mam isso sim, ¢ nado somente sobre si mesmos, mas também sobre todos nés, equenos e frégeis criadores de deuses, cujo folego esta em nossas narinas, No {tefsmo relacional,)p futuro é imprevistvel, e vem A existéncia como resultado de uid cooperacao de esforgos entre Deus eo homem, em cujo processo Deus aprende muitas ligbes profundas. Ele 6 surpreendido a cada dia, e aprende com aquilo que nés fazemos. Em resumo, ele nao. é 0. Deus de Isafas. Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele? O artffice funde a imagem, ¢ 0 ourives a cobre de ouro ecadeias de prata forja para ela. O sacerdote idélatra escolhe madeira que nao se cor- rompe e busca um artifice perito para assentar uma imagem esculpida que no oscile. Acaso, nao sabeis? Porventura, nfo ouvis? Nao vos tem sido anunciado desde o princfpio? Ou ndo atentastes para os fundamentos da terra? Ele é 0 que esta assentado sobre a redondeza da terra, cujos morado- res sfio como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina ¢ os desenrola como tenda para neles habitar; é ele quem reduz a nada os principes e torna em nulidade os juizes da terra. Mal foram plantados e semeados, mal se arraigou na terra o seu tronco, j4 se secam, quando um sopro passa por eles, ¢ uma tempestade os leva como palha (Is 40.18-24). Somente o mais profundo tipo de cegueira espiritual pode impedir uma pessoa de ver o que Isafas est4 fazendo aqui. “A quem comparareis a Deus?”. Ora, Isafas esté comparando Deus a todos os tipos de coisas no decorrer de todo esse capitulo, e, portanto, o ponto central de cada comparagao deve ser mostrar que todas elas entram em colapso sob o peso da gloria eterna. Essas -comparacSes_sio metdéforas santas que chamam nossa atenc4o para cima, ‘para o que transcende todas elas. E, quando nos alegramos nessa linguagem escrituristica, alguns exegetas se juntam a nés, com um ouvido poético com- pardvel a uma placa de metal, e querem nos fazer reconhecer que © texto 26 Ew nao sei mais em quem tenho crido compara Deus a um pastor, e eles nunca viram um pastor que tenha conhe- cimento do futuro. A quem, pois, me comparareis para que eu Ihe seja igual? —diz.o Santo. Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair 0 seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em forgae forte em poder, nem uma s6 vem a faltar (Is 40.25,26). O que pode ser semelhante a Deus? A resposta, caros amigos, 6: nada. E nés mostramos que podemos comparar Deus a nada comparando-o com tudo o que é adequado para isso, e, logicamente, nada é totalmente adequado, Nele nés vivemos, e nos movemos, ¢ existimos. Isso nao é um Cristianismo zen, mas 0 reconhecimento de que a Biblia nado nos d4 uma versio esquematica dos atributos de Deus, cuidadosamente elaborados em forma de tabela. Em vez disso, a Biblia aponta, canta, grita, come, alitera, ensina, glorifica, compara e exulta. Vocés nao véem? Elevem seus olhos para 0 alto, diz Isafas. Por que, pois, dizes, 6 Jacé, ¢ falas, 6 Israel: O meu caminho estd encoberto a0 SENFoR, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus? Nao sabes, nao ouviste que o eterno Deus, 0 Senor, 0 Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Nao se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado e multiplica as forgas ao que nao tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, ¢ os mogos, de exaustos, caem, mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forgas, sobem com asas como Aguias, correme néio se cansam, caminham e nao se fatigam (Is 40. 27-31). A conclusao a que Isafas chega nessa passagem maravilhosa é notavel. Ele chega ao fim dessa gloriosa exaltagao fazendo uma afirmagiio do conhecimento de Deus. Considerando o que acabamos de ler, por que Jacé e Israel dizem que 0 seu caminho esté encoberto ao Senhor? Vocés nao saber, pequenos e tolos teSlogos — perdao, importantissimos e esmerados tedlogos — que nao hd inquiri- ¢4o fora do entendimento de Deus? Ele conhece o fim desde 0 comego, ¢ é precisamente isso, na mente de Isafas, que o distingue daqueles fdolos cegos que, de fato, niio podem nos dizer o que esta por vir. Ele ressalta precisamente isso nesse capitulo. Eles nado conhecem o futuro no porque o futuro nao exista para ser conhecido, mas porque eles nfo so deuses verdadeiros (Is 41. 23,24). Deu- ses que nao conhecem o futuro nao habitam nos altos céus, como o nosso Deus, mas sao paparicados nas rufnas da Babilénia, habitadas por corujas e chacais. Quando passagens como essa sdo lidas, e preferencialmente em voz alta, h4 uma tentacao de se concluir que o problema do tefsmo relacional nao é sua O Encanto da Ortodoxia 27 exegese, mas sua surdez. O erro do tefsmo relacional é uma profunda caréncia de imaginagao. Conclusdo Samuel Butler, certa vez, repudiou aqueles que “provam sua doutrina ortodo- xa com socos e pancadas”. Nem tanto. E facil debochar da ortodoxia em um mundo cafdo, mas somente porque nossa carne ama 0 que é torto. A severidade do tesbita nao nos lisonjeia adequadamente. Mas se nds mudarmos umas poucas palavras para mostrar o tipo de coisa que realmente est4 acontecendo nos deba- tes teolégicos, o gancho nao funciona to bem. “Com zelo e empenho apostélico ele tentou salvar sua amada esposa”. Somente um grosseirao nao faria isso. Faz parte da humildade permanecer calado se Deus deixou algo sem ser revelado. “As coisas encobertas pertencem ao SeNHoR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nés e a nossos filhos, para sempre, para que cum- pramos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29). Mas se Deus revelou algo de forma clara, como ele fez com relago ao seu conhecimento do fim desde o comego, ndo é humildade fazer de conta que ele nada disse sobre esse assun- to. Também nfio é humildade acusar de arrogancia aqueles que tém ouvido e se lembrado das palavras de Deus. Esse nfo € um debate sobre a natureza do tempo. Se alguém afirmar que Deus nao conhecia 0 tracado de Dakota do Sul, nosso debate subseqiiente nao sera sobre a natureza da geografia, mas sobre se Deus estd sendo honrado como Deus ou se esta sendo insultado. A esperanga do evangelho esta realmente em jogo aqui. Nossa redengao foi realizada “pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem macu- la, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundagdo do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vés” (1Pe 1.19,20; of. Ef 1.4). As idéias tém conseqiiéncias e destinos, e uma das conseqiiéncias de nés tentarmos ler as Escrituras sem qualquer poesia em nossa alma ser a destruigio eventual de qualquer possibilidade de ministrar 4s almas. Apenas imagine o compositor do hino tentando animar 0 abatido. “Bu ndo sei o que o futuro reserva, mas eu conhego aquele que também nao conhece muito bem o futuro”, 2 Metdfora em Exilio Douglas M. Jones O projeto do Iluminismo estava destinado ao fracasso, porque ele foi ineren- temente imperfeito com relagio 4 dimensao estética da vida, especialmente a dimensao da metéfora. Sem uma apreciagdo saudavel da pervasividade e do poder da metéfora e da imaginagdo, uma histéria de qualquer tipo nao teria éxito. A metdfora nao é alguma decoragio periférica da linguagem. Ela envol- ve padrées de associagio e inferéncia que interagem com os mais importantes aspectos do conhecimento. A prépria criagdo, especialmente a da vida humana a imagem de Deus, é entretecida com a metdfora, e a falha de qualquer ten- déncia em se relacionar com essa profunda realidade sempre produzira histérias insatisfat6rias. O conto iluminista era particularmente chato, e por isso perma- neceu apenas por alguns séculos. O Cristianismo ortodoxo, porém, expandindo as realidades do Antigo Testamento, sempre viveu, moveu-se e se alegrou den- tro de um mundo de profundos significados e imagens, conexdes que desven- dam a verdade, bondade e beleza trinitarias, ressuscitando as culturas que abraga. Tudo isso significa que nés nao podemos ignorar a dimensio estética quando avaliamos perspectivas de qualquer tipo, ¢ no apenas teoldgicas. A falha na estética aponta para a falha na verdade ¢ na bondade, pois elas estao intima- mente relacionadas na Escritura. Mas o que ha, especificamente, sobre as categorias iluminista/modernista que sufoca a dimensio estética da vida? Essa é a pergunta motivadora desse ensaio. Especificamente, a resposta dada pelos defensores do tefsmo relacional da teolo- gia de Deus é a mesma que foi dada pelo Iuminismo. Ambas as respostas aca- bam matando a estética, ¢ isso é um indicador de sua falsidade. Mas nds precisa- mos examinar pontos especfficos para que essa alegaco seja bem fundamenta- da. Minha estratégia, entdo, é comegar examinando uma intrigante tensao que 30 — Eu nao sei mais em quem tenho crido salta aos olhos na forma pela qual John Sanders, um defensor do tefsmo relacional, trata a metéfora. Para resolver essa tensio, Sanders segue um certo caminho anti-estético, que acaba determinando quase todos os outros pontos de sua defe- sa da teologia relacional. Essa encruzilhada no caminho é central para todo o seu projeto.(Minha conclusio'seré que a teologia relacional nao é algum tratamento “honesto” ¢ “corajoso” de textos biblicos, n na posigao que os deixa A mar- gem, quase que de forma inimagindvel, partindo dos pressupostos iluministas que objetivam triturar a dimensio estética da teologia escrituristica, Sanders e a metdfora Nas paginas iniciais de The God Who Risks, a tensio fundamental que imediatamente se nos apresenta é 0 conflito entre a posigo de Sanders sobre a metéfora e a consisténcia légica. Ele quer manter as duas, mas nao conse- gue. Ele se vé como levando a metéfora muito a sério, e vé 0 projeto relacional como apresentando uma nova e iconoclasta metdfora: A sensibilidade de muitas pessoas sera chocada pela nogdo de que Deus assume riscos, pois a metéfora vai contra a semente de nosso costumeiro modo de pensar a providéncia divina. Os tedricos da metéfora, contudo, afirmam que uma boa metéfora, supostamente, desafia as formas conven- cionais de se ver as coisas e sugere uma perspectiva alternativa... Quando certas metéforas (por exemplo, Deus como Rei) reinam por muito tempo na teologia, nés corremos 0 risco de sermos condicionados a negligenciar aspectos do relacionamento de Deus conosco. Quando isso acontece, nés precisamos de novas metéforas “‘iconoclastas” que nos revelem algo que esteja sendo negligenciado. Minha luta é para que a metifora de Deus como alguém que assume riscos abra novos caminhos para que nds pos- samos entender 0 que est em jogo para Deus na providéncia divina.! A tensdo em questdo surge em sua explicagio sobre a linguagem metaféri- ca/antropomérfica e a restrigiio imposta pela consisténcia Iégica. Por um lado, ele corretamente reconhece que “as met4foras tém a qualidade peculiar de dizer que algo ‘é’ e ao mesmo tempo ‘nao €’”.? Isso significa que ele afirma que metéforas e antropomorfismos em geral comunicam por meio de contradigées implicitas e categorias de erro implfcitas ~ “é” e “nao €”, Paul Ricoeur e outros expositores da metdéfora observam a mesma caracteristica: “O paradoxo con- siste no fato de que nao ha outra forma de se fazer justiga 4 nogao de verdade metaférica a nao ser incluir a incisao critica do “nao é” (literal) dentro da vee- méncia ontolégica do “é” (metaférico)”.? Da mesma forma, Gemma Fiumara Metdfora em Exilio 31 observa que ‘‘o paradoxo de uma metéfora é que ela parece afirmar uma iden- tidade enguanto também, de alguma forma, a nega”.* Por.exemplo, quando a. Escritura revela que “Cristo é0 Cordeiro”, ela nos comunica que Cristo, ao mesmo tempo, ¢ ¢ ndo é um cordeiro. Em parte, uma metéfora nos leva a imaginar ou a abragar uma coisa em alguns, mas nao em todos os termos de outra (em contraste, o literalismo atribui todas as caracterfsticas de uma & ou- tra). Nés realmente no temos dificuldade em compreender esse tipo de verda- de. Ela nao “mata” a comunicagio. Ela é uma parte excedentemente natural de nosso discurso normal. A maior parte de nossa linguagem e de nosso pensamen- to é metaférica, e todos nés comunicamos e interpretamos as tensdes e contra- digdes internas da metdfora com pouca dificuldade na conversa do dia-a-dia. Apesar disso, apenas uma pagina adiante, Sanders nos diz que todos os modelos teoldégicos, inclusive o seu, devem satisfazer as demandas do “publi- co” e da “intelegibilidade conceitual”. Parte dessa demanda de intelegibilidade € que “se um conceito é contraditério, ele é reprovado em um teste-chave de intelegibilidade publica, pois 0 que é contraditério ndo tem significado” > Para que o modelo faga sentido, o conjunto de conceitos que ele envolve deve ser desembrulhado e examinado para a verificagao de sua consis- téncia interna, coeréncia com outras crengas que nés afirmamos, compreensividade... Se os conceitos que integram o modelo so mutua- mente inconsistentes, a coeréncia do modelo é questionada. Um modelo com muitas tensdes internas carece de coesio.° A primeira¥ronia aqui ¢ que, como a maior parte das tentativas em proteger © mundo dos perigos da metéfora, essa propria afirmacao emprega as tensdes implicitas da metéfora. Observe que os conceitos s4o0 coisas que podem ser “desembrulhadas” ¢ colocadas dentro de um modelo cujas restrigdes, se fo- rem muito frageis, podem fragilizar a “coesio” e causar sua rufna. Os concei- tos, para Sanders, sao e nao sio embalados, e esto e nao estao unidos dentro de outras coisas. A 'segundale mais importante ironia é que ele positivamente quer levar a metafora a sério, até mesmo em sua forma implicita “é e nao é”, embora aqui ele alegue que “o que é contradit6rio nao tem significado”. Em tais padrées, a met4fora, mais do que qualquer coisa, deve ser totalmente carente de significado (juntamente com a maior parte da Escritura). Apesar disso, nds entendemos essas metaforas muito bem, muito embora elas nao satisfagam as exigéncias de uma consisténcia estritamente Idgica. Portanto, um aspecto de sua abordagem aceita afirmagdes como “Cristo é 0 Cordeiro”, enquanto 0 ou- tro insiste que frases como essa nem mesmo tém significado. Toda a sua tese para a interpretacao de figuras antropomérficas da Escritura depende da toma- da de um desses dois caminhos. 32 Eu nao sei mais em quem tenho crido Mas © que mais especificamente produz essa tensio com a metéfora na abordagem iluminista/tefsta 4 razao? Nés percebemos que o Iluminismo foi um reavivamento de muitos aspectos do antigo Helenismo, sem a existéncia das formas platénico-aristotélicas. Os dois perfodos ainda compartilham do mesmo comprometimento com o valor maximo da razio e de seu intelectualismo, a visio de que o conhecimento é primeiramente uma realidade mental. Tanto Plataio quanto Descartes e todos os seus amigos modelaram o conhecimento em termos de precisio matemiatica, tanto nas definigGes socraticas quanto nas “claras e distintas idéias” de Descartes. Para que uma mente auténoma preep- cha as fungées divinas, cada alegacgio de verdade tem que ser examinada claramente, de forma que 0 individuo tenha poder ¢. controle absoluto. sobre ela. Mas isso significa gue tudo que nao seja claro ou diretamente intelectual tem que ser considerado. menos que realidade, Dessa fi forma, os gregos e seus netos iluministas denegriram o corpo, as emogées, a imaginagao, a metdfora, etc., pois nada disso pode ser capturado pelo seu estreito intelectualismo. ParaQrisidtelesya metéfora era um desvio e um mero ornamento do literal. Tudo o que é Thetaférico pode, por r fim, s sere reduzido a ao que é literal, A metéfora ndo pode se ajustar as proposigdes de um silogismo, porque a légica no pode processar os mistérios nio-cognitivos da metéfora. A antiga oposigao & meté- fora ainda se vé nos livros contempordneos de ldgica. Considere o seguinte movimento, aparentemente inocente, contra a metdfora, na obra The Art of Reasoning, de David Kelley: No contexto do arrazoado... onde nds estamos preocupados com as rela- Ges I6gicas entre as proposigdes, uma traducio literal geralmente se faz necesséria. Para saber como uma certa proposicio é logicamente relacio- nada a outras, nés temos que saber exatamente 0 que essa proposi¢o diz © 0 que ela nfo diz. Se duas pessoas usarem termos metaféricos em uma argumentagio, nés nao saberemos se elas esto realmente falando sobre 0 mesmo assunto até que formulemos suas posiges em termos literais.” Aqui, como na maior parte da tradigao helenista/iluminista, a metdfora é considerada um obstdculo confuso a ser transposto para que nés alcancemos as alegacGes literais “reais”. Observe que isso é feito para satisfazer uma con- cepgao especifica de conhecimento: “nds temos que saber exatamente o que essa proposigao diz”. Somente objetos plenamente transparentes podem ser contados como conhecimento. Presumivelmente, a metfora esconde a verda- de, e 0 termo literal a revela. Nés encontramos um contraste ainda mais forte entre a l6gica e a metafora em varios pensadores iluministas, tais como Galileu, Montaigne, Descartes e Leibniz. Thomas Hobbes (1558-1679) resume o con- traste iluminista entre ldgica e metdfora da seguinte forma: Metdfora em Exilio 33 [E.um abuso da linguagem] quando eles usam as palavras metaforicamen- te, isto é,em um sentido diferente daquele para o qual elas foram criadas, e, portanto, enganam outros... a luz da mente humana é sensfvel as palavras, mas por exatas definigdes isentas de ambigiiidade: a razdo € 0 passo, 0 aumento da ciéncia é 0 caminho, ¢ 0 beneficio da humanidade, o fim. E, ao contrério, as metéforas e as palavras ambiguas e sem sentido sfio como 0 ignes fatui, e arrazoar sobre elas é perambular entre inumerdveis absurdos, e seu fim é a contenda ¢ a sedigao, ou 0 desprezo* Da mesma forma, John Locke (1632-1704) argumenta: Ja que a inteligéncia e a imaginagio encontram mais facilmente diversao no mundo que a seca verdade e o conhecimento real, a linguagem figu- rativa ¢ a alusao na linguagem dificilmente sero admitidas, como uma imperfeig&o ou abuso dela... Mas, se nés quisermos falar das coisas como elas so, nés devemos admitir que toda a arte da ret6rica, além da ordem e da clareza, toda a aplicagao figurativa das palavras, inventada pela eloqiiéncia, servem somente para insinuar idéias erradas, levar a paixGes, e, portanto, turvar o juizo, e, além disso, sao puro logro... Elas, certamente, em todos os discursos que tém 0 objetivo de informar e instruir, devem ser completamente evitadas, e onde a verdade e 0 conhe- cimento so pretendidos nao se pode pensar em algo mais danoso, seja a linguagem ou a pessoa que faz uso dela.” Observe, novamente, como é tipico, que no se pode lutar contra a metéfora sem que se faga uso dela. Hobbes nos diz que as palavras sao “ordenadas” como um pastor; a mente é uma “luz” que pode ser apagada e aumentada. Locke descreve a verdade como “seca” que pode recusar a “aceitagio” da metdfora; as palavras podem ser “aplicadas” como tinta; a eloqiiéncia — uma profusio de simbolos — pode “inventar”, “lograr” e ser “danosa” — uma fenda enorme. Apesar de serem falsos, esses recortes so totalmente compreensiveis e significativos. O uso que eles fazem da metdfora nio mata a comunicagdo. Mas por que esses pensadores se aventuram a fazer negagoes to truncadas? Com a devociio ifuminista 4 matemitica como 0 modelo de pensamento, so- mente itens claros e quantificveis podiam ser qualificados como conhecimen- to. A metéfora revela muitos aspectos de nosso ser (emocional, moral, estético, imaginativo e fisico) que sao centrais para o conhecimento, mas ndo podem ser colocados dentro de caixas matematicas (veja mais abaixo). Dessa forma,.a Inetéfora ¢ a visio iluminista de. consisténcia ldgica no podem permanecer lado a lado. Uma das duas precisa sair de cena, e esses pensadores iluministas alegremente abriram mao da metdfora. Mas Sanders e os relacionistas afir- 34 Eu ndo sei mais em quem tenho crido mam querer sintetizar os dois mundos —e abragar tanto a met4fora quanto uma visdo estrita da razio. Alguma coisa saird no prejuizo. Como, entio, Sanders (e outros defensores do relacionismo teolégico) re- solve esse dilema de abragar e ao mesmo tempo rejeitar o discurso metafori- co? Ele precisa abragar as profundezas nao-cognitivas da met4fora e uma rica abordagem a razao dentro dos limites metaf6rico/escriturfsticos (veja abaixo) ou colocar-se ao lado do Iluminismo e abragar sua estrita concepgao de racionalidade, que procura reduzir todas as metéforas a alegagdes logicamente aceitdveis. Ele opta pela segunda possibilidade, e isso se revela em sua discus- sio sobre o antropomorfismo. ¢. Sanders e o antropomorfismo Movendo-se em diregio a sua consideragio reducionista da metdfora, Sanders esquematiza quatro aspectos-chave de antropomorfismo que podem ser resumidos como segue: 1) A Biblia ensina as coisas ocultas e a incompreensibilidade de Deus, mas isso nao se deve a inadequagao da lingua, mas & distingao entre Criador € criatura e ao fato de que nenhuma pessoa pode ser plenamente circunscrita pela linguagem.” 2) O antropomorfismo é tinico ¢ pervasivo no Antigo Testamento em con- traste com compreensées mais abstratas. Além disso, na encarnagio, o préprio Deus tem caracteristicas humanas atribufdas a si."' 3) Os contextos de passagens tradicionalmente reconhecidas como transcendentais, especialmente Isafas 55.8, nao se referem a diferengas ontolégicas ou epistemolégicas entre o homem e Deus, mas somente a diferengas morais.'? 4) No sentido mais amplo de antropomorfismo, toda a nossa linguagem so- bre Deus é linguagem humana, isto é, toda linguagem inevitavelmente atribui propriedades a Deus que sao derivadas de categorias humanas. O antropomorfismo é uma forma inevitdvel de dizer que Deus é incognosctvel."? Os primeiros dois pontos acima nfo so objetaveis em si mesmos, sua rejei- gio depende de como eles so influenciados pelo quarto ponto. Para explicar 0 quarto ponto, Sanders tem que invocar o ponto trés, e, por isso, vamos tratar dele agora. Meu foco seré colocado sobre a dicotomia que 0 ponto quatro coloca entre 0 agnosticismo e a pregacao univoca (isto €é, uma consideracaio reducionista da metdfora). Eis como 0 argumento do ponto quatro acima funci- ona pelas premissas nas pr6prias palavras de Sanders: 4a. “Se Deus fala a nés por meio da Escritura, entao Deus sabe como usar a linguagem e os conceitos humanos de forma que eles sejam adequados ao entendimento daquilo que ele deseja que nés saibamos”."* Metdfora em Exilio 35 4b. “Isso requer que nés presumivelmente possamos compartilhar 0 contex- to entre Deus e a criago” (“compartilhar 0 contexto” significa compartilhar “as condigdes de nossa existéncia, inclusive nossa linguagem, hist6ria e mundo espago-temporal”).!> 4c. “Deus entra nesse contexto conosco por estar em relago conosco”. 4d. “Estando em relagdo conosco... Deus faz uso das formas humanas de conhecer e de falar para se comunicar conosco... nés nada sabemos de um Deus que ndo se relaciona conosco”.!” 4e. “Relagdo conosco”, portanto, significa uma predicagdo unfvoca (em con- traste com a predicagdo meramente analégica): “Tem que haver algumas pro- priedades que sio usadas para Deus no mesmo sentido em que sio usadas para coisas na ordem criada. De outra forma, voltarfamos para a caverna do agnosticismo”.'® As conexées conceituais nesse argumento, portanto, sao as seguintes: a revelagao divina requer um contexto compartilhado, que requer relacionamen- to, que requer uma predicagdio univoca. Observe como essa nogées fluem jun- tas na conclusio do seu argumento: A linguagem antropomérfica nao exclui a pregagao literal de Deus. E claro que a questo deve ser feita: a que os antropomorfismos se referem? Se Deus desfruta do mesmo contexto conosco entrando em relagao conosco, como a revelagdo biblica pressupée, entdio nds temos uma base para a nossa linguagem usada para fazer referéncia a Deus. O que eu quero dizer coma palavra literal é que nossa linguagem sobre Deus ¢ realidade descri- tiva (veridica), de tal modo que haja um referente, um outro, com o qual nés estamos em relagao e de quem nés temos conhecimento genufno.'? Portanto, de acordo com Sanders, nosso modelo teolégico de Deus deve optar por uma pregagao univoca (literalidade forte) ou pelo agnosticismo (total falta de relag&io). Como um silogismo disjuntivo, o argumento de Sanders se reduz a: ou ndés temos uma pregagao univoca de Deus ou nds temos que ser agnésticos sobre ele. Mas nés ndo somos agnésticos, considerando que nés temos a genusna revelagao de Deus. Portanto, nossa pregaciio deve ser univoca. ‘Todavia, Sanders usa esse argumento para responder ds objecdes & importancia que ele dé ao antropomorfismo, principalmente objegdes oriundas de preocupagées com a transcendéncia radical e com a antinomia (que so levantadas primariamen- te pela tradigdio reformada). Suas respostas a essas objegdes sao relevantes aqui, porque elas ajudam a elaborar sua explicaco reducionista sobre a metéfora. Contra a primeira objegdo — a transcendéncia radical — levantada por tedlo- gos mais especulativos, tanto pagdos quanto cristdos, que tém posicionado Deus como o “totalmente outro”, totalmente além da apreensiio humana, infinitamente 36 Eu nao sei mais em quem tenho crido diferenciado de nés, Sanders argumenta que isso € impossivel, e, para fundamen- tar seu argumento, ele remete as formas das premissas 4d e 4e acima: [Nés] no podemos saber como Deus é em si parte de nés, porque todo 0 nosso conhecimento de Deus esté embebido dentro de circunstancias nas quais Deus nos colocou. Deus pode ser diferente em si mesmo (in se) daquilo que & conosco (quoad nos), mas nés nfo podemos ter conhecimento dessa diferenga. Nosso Senhor, Criador e Redentor € o que Deus € realmente em. elacdo conosco. Se Deus € diferente em si mesmo, nés no podemos dizer® Sua segunda principal resposta & objegdo da transcendéncia radical tam- bém emprega um aspecto de 4d acima Como aqueles que alegam que o finito nao pode conter o infinito sabem que esse € 0 caso? E logicamente possivel que a realidade ultima esteja além do conhecimento humano, mas como a pessoa que faz essa afirma- do pode saber disso?... Essa pessoa alega que algo € incognoscivel e que ela pode saber algo sobre o incognoscfvel" A segunda e, conforme penso, mais forte objecao ao antropomorfismo de Sanders é um apelo a antinomia ou aparente contradigao. Aqueles de nds que, na tradigdo reformada, geralmente elucidam a relagdo entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana em termos de mistério, paradoxo ou antinomia, de forma semelhante apelam ao mesmo recurso para elucidar a Trindade ¢ a encarnagiio. Onde 0s te6logos relacionais defendem a busca de uma explica- ¢4o légica, clara e distinta para a relago entre a soberania de Deus e a respon- sabilidade humana, nés, reformados, geralmente negamos que essas realidades sejam compreensfveis de uma forma racionalista. Como ensina a Confissdo de Fé de Westminster, Deus “ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acon- tece, porém de modo que nem Deus é 0 autor do pecado nem violentada € a vontade da criatura” (III.1) — a predestinagdo e a vontade livre lado a lado. ssa verdade, declara a Confissdo de Fé, é um “alto mistério” (II.8) na “sa- bedoria inescrut4vel” de Deus (V.4). Sanders rejeita essa réplica por varias raz6es, a maioria das quais sao ninharias semanticas sobre “antinomia”, mas a resposta mais interessante é uma elaborgdo sobre 4d e 4e acima. Sua resposta é tio relevante que eu vou fazer uma citagao completa: Um ponto final contra a objeco da antinomia é que ela procura escapar das regras que circundam a intelegibilidade. O que os fildsofos chamam de con- tradigdo, alguns tedlogos chamam eufemisticamente de antinomia ou para- doxo Idgico. Mas, ao fazer teologia, nds temos simplesmente que “jogar Metdfora em Exilio 37 pelas regras” do jogo, e uma dessas regras 6 que nosso discurso deve fazer sentido. Interessantemente, os tedlogos que reivindicam o direito de serem inconsistentes esperam fazer sentido com o que esto dizendo, Minha posi- io aqui néo elimina o paradoxo ou.o mistério (como definidos acima) ou as metaforas e enigmas. Ela simplesmente exclui o discurso que se encontra fora dos limites da consisténcia e da coeréncia — isto 6, 0 nonsense... Ser racional na prética da teologia é entrar no dominio do critério paiblico de intelegibilidade. A exclusdo das contradigdes do discurso teolégico nio ¢ idiossincrética, mas uma excluso publica imposta pela comunida- de, Para sermos inteligiveis, nds temos que ser capazes de nos comuni- carmos uns com os outros. Isso significa que nds devemos agir dentro dos limites nos quais Deus nos criou. N6s simplesmente nao temos outra escolha além de pensar e falar dentro desses limites. Se cairmos na contradigo ou na incoeréncia, violamos algumas das condigdes do eri- tério puiblico pelos quais a teologia é considerada significativa. Isso nao significa que a lgica seja 0 padrdo ao qual Deus esteja sujeito, mas € 0 padrao para que nés tenhamos um discurso significative sobre Deus. Podem existir realidades incompreensiveis a nds, realidades que estejam completamente fora de nossa habilidade para entendé-las. Contudo, se Deus deseja se comunicar significativamente conosco, entio ele terd que fazer isso dentro das condiges de sua propria criagdo. Uma dessas condig&es € que a intelegibilidade exclui a antinomia.” As duas teses entrelacadas nessa passagem sio: a) todo discurso que viola os “limites” da consisténcia légica (observe a metéfora) é carente de sentido; b) toda comunicagio significativa deve ser reduzida ao literal (isto &, deve po- der ser inserida em um silogismo légico). Esse reducionismo légico é a chave para todo o projeto da teologia relacional. Em resumo, a teologia relacional de Deus € exatamente 0 que acontece quando todas as descrigées divinas sio forgadas nas categorias de positivismo légico da segunda metade do século 20. Os pressupostos epistemolégicos séo os mesmos. No recorte acima, Sanders diz que “a légica... 6 0 padrao para que nés tenhamos um discurso significativo sobre Deus” e que “se Deus deseja se comunicar significativamente conosco, entao ele terd que fazer isso dentro das condigdes de sua prépria criagdo”. Qualquer coisa além desses limites ldgicos é “incompreensfvel” ¢ irrelevante. Wittgenstein disse a mesma coisa: “Os limites de minha linguagem sao os limi- tes de meu mundo. A l6gica pervade o mundo: os limites do mundo sio os seus limites também... O método correto da filosofia seria esse. Dizer nada além do que pode ser dito”.E, com esse positivismo légico primordial, A. J. Ayer expli- cou a conexdo intelegibilidade-literalidade da seguinte forma: “somente se algo for literalmente significativo... uma afirmagio de verdadeiro ou falso pode ser 38 Ew ndo sei mais em quem tenho crido feita com propriedade... [de outra forma] 0 objeto nao poderia ser entendido no sentido em que hipéteses cientificas e de afirmagdes do senso comum so entendidas”* E, assim, toda a linguagem antropomérfica e metaférica deve ser reduzida a uma linguagem literal e univoca. Considere trés breves exemplos do argumento relacional que revelam esse reducionismo comum: (a) John Sanders: Se nés levarmos a sério nosso status de criatura, entio nds temos que nos contentar em conhecer e falar sobre Deus dentro das condigdes de nossos limites de criatura. Em outras palavras... 0 uso de metéforas ¢ linguagem antropomérfica (no sentido amplo) quando falamos de Deus é necessétrio... O propésito desse livro ndo é reduzir Deus aos limites da compreensio humana, mas propor que, dentro dos limites de nossa condigio humana, Deus pode ser conhecido, ¢ propor um modelo de relacionamento divino- humano que reexplore antigas perspectivas de nosso entendimento de Deus eaprofunde nossa apreciacio da liberdade, do amor, da sabedoriae do poder de Deus... Se Deus decide revelar-se ands como um ser pessoal que entra em telagao conosco, que tem propdsitos, emogdes, desejos e que sofre por nds, entdo nds devemos nos regozijar nessa representagdo antropomérficac aceité- la como revelando a nés a prépria natureza de Deus.?> Sanders, aqui, comega com a linguagem metaférica e com o antropomor- fismo. Mas nés j4 sabemos, devido As suas restrigdes racionalistas, que essa linguagem nao pode ser verdadeiramente figurativa. Ela deve ser reduzida ao literal. Dessa forma, quando Sanders menciona os assuntos em questao, a saber, propésitos genuinos, emoges, desejos, amor, sofrimento, nés sé pode- mos entender essa citagado em sentido estritamente unfvoco. Nenhuma outra opgio € aceitavel. O literal (0 “antropomorfismo” de Sanders) agora revela univocamente “a propria natureza de Deus”. A imaginagiio metaférica € po- dada. Nés nao podemos mais dizer que Deus “é e nao &” emogao ou amor em qualquer sentido criativo. Ele tem que se prender as restrig6es do silogismo. E eu concordo plenamente que muitos tedlogos classicos caem no mesmo erro ao contrério (muitos deles seguem Platao,”° enquanto os tedlogos relacionais preferem Descartes e Locke: nao ha grande diferenga). Mas por que pegar algum caminho? Por que no ver a linguagem metaférica como confidvel, embora nao seja matematica? (b) Gregory Boyd (em uma série de desafios separados, mas similares): Quando uma pessoa esta em relacionamento genuino com outra, a dis- posigo de ajustamento entre elas € sempre considerada como uma virtu- de, Por que isso deveria se aplicar a pessoas ¢ nfo a Deus? Metdfora em Exilio 39 Como alguém pode estar sinceramente disposto a fazer algo que sabe que nunca faré? E como alguém pode mudar sua opiniio se sabe que sua opiniao é eternamente constituida? Se a posigdo cléssica esté correta, n6s temos que estar dispostos a acei- tar que Deus podia ao mesmo tempo dizer que 0 comportamento dos israelitas “nao entra na minha mente” e que o comportamento dos israelitas “esta eternamente na minha mente”. Se isso ndo é uma contradigao, entdio o que €? ‘Vocé pode genuinamente procurar uma moeda na sua casa se vocé sabe que nao vai encontra-la? O bom senso nos diz que nés sé podemos lamentar uma decisao se essa decisdo resultou de outra que nés nao estévamos esperando.” Todos esses tipos de questées retéricas esto baseados nas redugdes metaf6- ticas também. Em cada caso, ¢ em intimeros outros, Boyd oferece algum item psicol6gico para consideracAo: ajustes relacionais, sinceridade, arrependimento, familiaridade, busca e lamentagéio. Nés podemos conceber duas op¢ées de inter- pretacdo: nés podemos entendé-los em um sentido metaférico que revela a ver- dade ou imediatamente reduzi-los a um silogismo. A abordagem metaf6rica, pelo menos, deixaria aberta a questo de se esses itens esto falando de forma pura- mente unfvoca ou se permitem versGes transcendentes e genufnas de cada tese. Mas, considerando a abordagem iluminista de Boyd a metéfora, ele nao pode permitir que uma passagem especifica ou toda a Escritura determine essas ques- tdes. Como Sanders, ele tem que reduzir cada met4fora ao nivel mais literalista, pois isso é 0 que o “bom senso” exige. Como Boyd observa: E necessario nos esforgarmos para termos uma teologia plausivel por- que, para muitos de nés, a mente deve ser totalmente convencida para que 0 coragao seja transformado... A posigao da teologia relacional sobre Deus e sobre o futuro faz mais sentido intelectual do que a posigao classica... A posigdo relacional é a tnica opgdo que evita o paradoxo impenetravel (ou, como muitos argumentariam, a contradigao) de se afir- mar que livres agGes autodeterminadas foram estabelecidas uma eterni- dade antes que os agentes livres as realizassemn.” Nés podemos ouvir Hobbes cochichando ao fundo. Boyd parece querer di- zer que a fé é a substdncia de um intelecto plenamente convencido, a evidéncia de coisas deduzidas. (c) William Hasker: ‘A nogao de que Deus est4 no controle é simplesmente ambfgua. Os pais de criangas pequenas certamente desejam estar no controle de tudo 0 que 40 Ew nao sei mais em quem tenho crido acontece.., ¢ geralmente tém esse desejo em um grau considerdvel. Mas, se eles forem sabios, eles ndo tentardo exercer esse controle determinando cada detalhe daquilo que seus filhos fazem e experimentam... Uma conside- ragGo similar no deveria ser feita sobre o controle de Deus sobre nés?” Aqui a paternidade de Deus é reduzida. Uma abordagem saudével a meté- fora, novamente, pelo menos deixaria aberto algum mistério poético quanto a de que forma Deus é ou nao é um pai. Talvez ele aja de alguma forma maravilhosmente superior na qual ele controle todas as coisas, como um escul- tor ou um autor, mas na qual nés tenhamos liberdade genuina. Mas essa nio pode sequer ser uma alternativa legitima para Hasker. A metdfora deve ser exilada. Hasker também joga de acordo com as regras iluministas: Uma doutrina inteligivel deve poder ser expressa em sentencas gramati- calmente bem elaboradas... Nés também podemos exigir que uma doutrina inteligivel nao seja contraditéria ou de qualquer forma impossivel. Parece, ainda, que uma proposigdo ndo é bem entendida a menos que seja possf- vel dar um relato de pelo menos algumas relagdes inferenciais ndo- que se coloquem entre ela e outras proposigGes relevantes.*° Vviais A metdfora genufna nao pode jogar por essas regras, e, muito embora as metéforas tenham abundancia de relagdes inferenciais, muitas das quais nés podemos mostrar, mas no podemos dizer, essas relacGes so demasiadamente sutis para as estruturas iluministas. Os problemas com o reducionismo estético da teologia relacional Minha proposi¢ao original é a de que a teologia relacional deve ser falsa porque ela obstrui as caracteristicas da estética. Especificamente, ela assume uma posigiio reducionista da metéfora, excluindo toda a significagiio que nao se encaixa em uma referéncia quantificdvel e na literalidade. Embora eu tenha feito criticas pelo caminho, eu agora as colocarei juntas: 1) Violagao da Disjungao da Metéfora: 0 argumento central sobre 0 qual toda a exegese de Sanders foi construfda € 0 silogismo disjuntivo: ou nés temos uma pregagiio unfvoca de Deus ou nés temos que ser agnésticos sobre ele. Mas. n6s nao somos agnésticos, pois nds temos a revelacdo divina. Portanto, nossa pregacdo sobre Deus deve ser univoca. Nas palavras de Sanders, “Deve haver algumas propriedades que sao usadas pra Deus no mesmo sentido em que elas sfio usadas para coisas da ordem criada”.*! A primeira premissa falha se nds pudermos encontrar pelo menos uma outra opgdio além da inequivocidade e 0 agnosticismo. E a outra opgdo nem sequer é a clara opgdo anal6gica explicada Metdfora em Exilio 41 pelos medievais. Os pressupostos da metéfora so realmente mais sutis que a predicagdo analégica, pois a metéfora evoca aspectos racionais, porém nao- cognitivos, de nosso ser (veja abaixo). Mas uma outra opgdo pode quebrar a disjungdo exclusivista da teologia relacional. E, de fato, como citado acima, o fato de que os tedlogos relacionais podem comunicar argumentos em favor da literalidade somente por meios de metéforas nao-unfvocas é uma prova suficien- te de que a inequivocidade e o agnosticismo nao sio as tinicas possibilidades. Se 08 tedlogos relacionais podem se comunicar fora da disjuncdio que eles exigem para a revelacio divina, entao pode ser que Deus também possa. 2) Significagao dos principais discursos: mesmo sem levar em conta as questées da univocidade, as exigéncias de légica e comunicabilidade so dife- rentes. Se a significabilidade s6 pode ser aplicada aquilo que é logicamente consistente, a maior parte de nossa lingua e muitas disciplinas devem ser expul- sas pelos tedlogos relacionais. A légica s6 toleraria afirmagGes indicativas com- pletas, e somente afirmagGes indicativas seriam capazes de preencher 0 crité- rio iluminista/relacional de “consisténcia légica”, j4 que somente eles tém refe- rentes claros, distintos e identificdveis. Nao somente toda a linguagem figurati- va deve ser exclufda, mas também a maior parte de perguntas, imperativos, exclamagées, etc. Nada disso se eleva ao patamar privilegiado de afirmagées indicativas. A teologia relacional ndo somente exclui muito de nossa lingua (e da linguagem biblica também) como carente de sentido, mas, & moda do positivismo Iégico, os campos da ética, da estética, das emogées, da imagina- cao e etc. também devem se manter em siléncio, pois grande parte de sua area de atuaciio ndo pode ser reduzida a forma silogfstica. 3) Fatha de significado como referéncia: 0 problema apenas identificou a raiz de uma nogdo comum, mas simplista, de significado-como-referéncia que permeia os escritos dos tedlogos relacionais. Esse 6 0 primeiro laco para as categorias iluministas, especialmente para os tipos de afirmagées positivistas légicas observadas anteriormente. O significado lingiifstico, obviamente, é um assunto complexo, e a filosofia do século 20, sempre que péde, evitou falar em idéias ou intelecto quando discutiu 0 significado (a filosofia medieval era muito mais sofisticada sobre esse assunto). Mas uma das mudangas ocorridas no século 21 foi que se deixou de falar no significado como mental e passou-se a falar do significado como referente no mundo (o projeto extensional), Para que anogao da teologia relacional sobre a univocidade possa funcionar, assim como seu desejo de receber somente afirmagées capturadas pela l6gica, ela também tem que admitir que o significado é referncia. Observe esse pressuposto tra- balhando na discussao de Sanders sobre o antropomorfismo: “O que eu quero dizer com a palavra ‘literal’ é que nossa linguagem sobre Deus é realidade representativa (confidvel), de tal forma que h4 um referente, um outro, com o qual nés estamos em relagao e de quem nés temos conhecimento genuino”.? E esse tipo de vinculacio do significado ao referente que anula a metéfora e 42 > Eu ndo sei mais em quem tenho crido todos os outros tipos de linguagem relacionados acima. Mas muitos pensado- res, cristéos e nao-cristéos, tém mostrado que o significado é mais que um referente. Uma boa parte de nossa linguagem nao pode sequer ser vinculada a um referente no mundo (““o”, “e”, “para”, etc.), mesmo assim possui signifi- cado. Além disso, essa posig&o comega a fazer com que meros simbolos fisicos assumam propriedades quase mAgicas. Simbolos inertes repentinamente ga- nham a habilidade de “referir-se” e “apontar” para objetos no mundo, como rochas fazendo nascer setas. O significado 6 muito mais complexo, e envolve nao somente referentes, mas também convengées sociais, intengdes mentais e muito mais. Reduzir o significado ao referente permite que a univocidade da teologia relacional brilhe ¢ cause seus danos, mas, quando nés enxergamos que 0 projeto se baseia em uma visdo simplisticamente falsa do significado, 0 proje- to se apaga. Em uma nota de rodapé, Sanders tenta fracamente se distanciar dessa acusagio: “afirmar a univocidade no nos compromete com o ‘quadro tedrico’ de significado de acordo com o qual uma palavra se refere a um refe- rente empirico”.> Mas isso confunde o assunto em questdo. Sanders est pre- ocupado aqui exatamente em permitir miiltiplos referentes, mas ele nao aban- dona seu pressuposto mais bisico de que significado é referncia, como oposto A combinagdo de uso, intengdo, etc. E ele no pode abrir mao dessa alegagio sem derrubar todo 0 projeto da teologia relacional. 4) Irredutibilidade da metdfora: 0 principal ponto sobre referéncia permite um aumento de detalhes da hostilidade da teologia relacional 4 metéfora genuina. Para os tedlogos relacionais e outros pensadores iluministas, cada metdfora pode e deve ser reduzida a um nticleo literal antes que possa ser admitida como signifi- cativae logicamente apresentavel, ¢ redutibilidade significa o encontro do referen- te. Mas os referentes da metafora geralmente sao imagens (as vezes imagens ou padrées mentais reais) que nado podem ser transformadas em proposigdes indicativas ou evocam referentes que séo cognitivamente importantes, mas que nao sao puramente intelectuais no sentido iluminista, isto é, esquemas emocionais, atitudes estéticas, conotagdes subjetivas, virtudes éticas, etc. Como varios pensa- dores tém observado, a metéfora é muito mais parecida com a miisica do que com a matemiatica. A musica é cognitivamente muito poderosa e significativa, embora nao possa ser reduzida a simples proposigdes. A mtisica pode se relacionar a partes de nosso ser que nunca poderio ser qualificadas como fungdo silogistica, embora elas sejam geralmente mais determinantes na armagao de julgamentos mentais. A metdfora age da mesma forma. De forma totalmente ir6nica, Sanders solidariamente cita varios pensadores (Lakoff, Johnson, Gill)* que tém uma posi- g4o semelhante & minha com relagio 4 metéfora, mas ele aparentemente falha em perceber como suas conclusées corroem totalmente todo 0 projeto da teologia relacional. Jerry Gill, por exemplo, resume a profundidade e a irredutibilidade da metdfora de uma forma que reflete muito do meu criticismo acima: Metdfora em Exilio 43 A metéfora ¢ utilmente entendida como um fenémeno mediatario no qual certos aspectos ¢ qualidades intangfveis entre as varias dimensdes da realidade experimentada podem ser expressos por meio do contexto, uso € configuragdo de certos aspectos e qualidades tang{veis dessa realida- de. O que isso significa, claro, € que o sentido de uma profunda e rica metéfora ndo pode ser exaurido por alguma quantidade de andlise, que hé mistérios em nossa experiéncia que ndo podem ser encontrados © usados mediativamente. De fato, pode ser que a propria natureza da metéfora seja um mistério em si mesmo, um mistério que nao pode ser abordado de forma indireta.** A teologia relacional nao somente é hostil 4 metafora e & dimensao estética em suas redugées da metdfora divina, mas ela também revela um intelectualismo quase gnéstico que alimenta sua inclinago matematica. Embora Sanders e outros, especialmente Boyd, objetivem corretamente censurar qualquer apri- sionamento do Cristianismo em categorias helenistas, eles mesmos abragam a primazia do intelecto (uma caracteristica permanente do Helenismo e do Mo- dernismo) de uma forma que faria com que até mesmo Plato ficasse enrubescido: “a mente deve estar totalmente convencida para que 0 coragio seja plenamente transformado”.** 5) Aplicagao equivocada da légica: a \égica, € claro, tem seu lugar, mas a teologia relacional, em vez de fazer o balanco adequado da aplicago da légica, éacausa de sua confusdo. Quando nés vemos pessoas usando cegamente cate- gorias pagiis, é importante descobrir qual é a motivaco original. O que foi que motivou a disciplina da l6gica? Tanto para o Helenismo quanto para o Iluminismo, 0 objetivo da légica era ajudar a preservar a objetividade do conhecimento contra oceticismo relativista. A matematica foi o modelo da objetividade epistemolégica, com suas formulas universais e suas provas dedutivas. Na esperanga de imitar essa objetividade em outras areas do conhecimento, eles tentaram matematizar 0 pensamento humano encontrando um calculo intelectual que pudesse produzir 0 conhecimento objetivo. Deixando de lado 0 século 20, a maior parte das eras percebeu que a matemética ndo pode se aplicar a todas as areas da vida. Nem tudo pode ser quantificado, nem tudo tem 0 tipo de enquadramento necessario ao cAlculo. Mas essa verdade foi especialmente negligenciada com relagao a légica. Embora tenha suas origens na imitacdo da matemitica, a l6gica foi rapidamente aplicada também a todos os aspectos da realidade. Portanto, a “soberania da razio” tornou-se um selo de qualidade do Iluminismo, e até mesmo pensadores como Immanuel Kant tentaram reinar nesse campo. As origens da légica devem nos dar uma nogdo de seus limites. Como a matemitica, 0 mundo da légica (como foi observado acima) é limitado Aquilo que é quantificado e medido. Para que algo possa ser contraditério, ele tem que ser simples e sujeito 4 negacio. E, 44 Ew nao sei mais em quem tenho crido como a matemitica, o campo fisico atende habilmente a essa finalidade (com qualificagdes menores). Nés podemos facilmente falar sobre a impossibilidade fisica de se ter uma bola que é vermelha e nao-vermelha ou uma porta que é retangular e ndo-retangular ao mesmo tempo. As diividas comegam a surgir quan- do nés comegamos a tentar aplicar a légica em arenas nao-fisicas, nas quais nds nao temos certeza de onde as extremidades comecgam e terminam. Admitindo que os antigos platonistas estavam equivocados em tentar colocarem-se no lugar do Deus cristo, os cristios deveriam estar apreensivos sobre qualquer mengao de necessidades nao-sobrenaturais flutuando sobre 0 universo. Mas, deixando isso de lado, a teologia relacional envolve uma aplicagdo muito equivocada da l6gica, apresentada acima. Em vez de confinar a Iégica naturalmente ao campo fisico, ela nao hesita em admitir que 0 campo divino é clara e distintamente quantificavel. Aplicando a légica ao campo divino, a teologia relacional pressupde conhecer todos os limites e possiveis negag6es, mas isso parece ser um equfvoco fundamental sobre a natureza e habilidades da légica. 6) Revelando o incompreenstvel: os defensores da teologia relacional nao sao polémicos ao desafiar aqueles especuladores nfio-revelacionais que falam sobre 0 que é impossfvel falar: se Deus est totalmente além das categorias humanas, entdo nés nado podemos falar sobre ele. Mas os tedlogos relacionais apelam a essa tese contra aqueles de nds que esto um pouco desemparelhados com a epistemologia revelacional - “Sem a revelagao nés ndo podemos saber que alguma coisa existe fora de nossos limites, e se, pela revelacdio, nés somos informados sobre uma existéncia transcendente, nds sé podemos entendé-la pelo uso de nossas condigées” [isto é, univocidade/literalidade iluminista].” Primeiro, observe como a transcendéncia é rejeitada a priori, {4 que nada pode quebrar a barreira da literalidade (mas veja a primeira critica acima). Segun- do, os tedlogos relacionais sao totalmente confiantes de que nenhuma das passa- gens “tradicionais” referentes a transcendéncia (por exemplo, Is 58.8) “se refere a diferengas individuais entre Deus e 0 homem, nem a diferengas ontolégicas ou epistemolégicas. Para Isafas, Deus nao pode ser comparado aos homens no sen- tido de que ele ama aqueles que nio deveria amar”. Mas 0 fato é que, no con- texto, nenhum limite ético semelhante a esse é apresentado aqui. Em vez disso, a passagem abertamente se refere a varias caracteristicas epistemol6gicas: ouvir, buscar, encontrar, conhecer e pensar. E como diferengas éticas ou de cardter nao sao espécies de epistemologia e ontologia? Esse estreitamento s6 pode ser super- ficial. E, terceiro, varios textos da Escritura revelam a verdade da incom- preensibilidade além de nossas categorias. Até mesmo em termos da teologia relacional, Deus pode expressar a nés, em linguagem humana, o fato de que seu ser e seu conhecimento sao categoricamente diferentes dos nossos, sem especifi- car seu contetido em termos unfvocos. Esse tipo de revelacdo seria assim: Metdfora em Exilio 45 profundidade da riqueza, tanto da sabedoria quanto do conhecimento de Deus! Quio insondéveis sio 0s seus juizos, e quao inescrurdveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? (Rm 11.33,34). Conhecer 0 amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, aquele que € poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nés... (Ef3.19,20). Ironicamente, considerando o argumento da teologia relacional sobre a univocidade, a questo retérica “quem conheceu a mente do Senhor?” rea mente é respondida. Nés conhecemos a mente do Senhor, jA que Deus pode falar a nds somente de forma unfvoca — ou, como diz Sanders, “tudo o que nés podemos saber é 0 que Deus é em relag4o a nds... Nosso Senhor, Criador e Redentor é 0 que Deus é realmente em relagiio a nés”.° B, mais uma vez, os cristaos abragam esse aspecto do projeto iluminista tanto quanto os tedlogos relacionais, e no leva muito tempo para que a Trindade e a encarnagiio sejam eliminadas. Elas, também, s4o muito mais complexas e interessantes que as simplicidades matematicas de Aristdteles e Descartes. O tempo dira. Considerando tudo 0 que foi dito acima, é evidente que a teologia relacional estd profundamente comprometida com os critérios iluministas para a metdfora e arazio. E, ainda, apesar de todas as suas queixas contra o Helenismo, eles nao hesitam em abracar seu reavivamento no Tluminismo e na filosofia analitica do século 20. Observe esta afirmagao reveladora de William Haskers: Muitos de nés também tém encontrado seu lar filoséfico na tradigao analitica. E € simplesmente fato que o habito de pensar engendrado por essa tradigio no é particularmente cong@nito & tcoria da etemidade de Deus... Um possfvel comentétio sobre isso é que a atual preferéncia pelo modo analitico de pensa- mento é simplesmente um fato contingente sobre um segmento de nossa comunidade filoséfica, ¢ ndo deve mais ser dada a ela amesma lealdade imrefle- {ida que era dada as inclinagGes platOnico-misticas de algumas geragSes ante- riores de fildsofos. O comentrio é justo, mas o problema é inescapavel. $6 se pode ver 0 mundo e Deus do lugar de onde de fato se esta. Uma pessoa pode rejeitar as categorias plat6nicas do eternalismo divino e ainda ser aturdida com essa admissiio. Isso nao somente historicia ¢ trivializa toda a contribuigdo da teologia relacional, mas também coloca em evidéncia o problema da maior parte da filosofia cristd contemporanea. Nés ainda somos suficientemente complacentes para niio tentarmos esclarecer as antiteses biblicas e descartarmos tanto os pressupostos helenistas quantos os pressupostos iluministas sobre modalidade, conhecimento e linguagem. Nés ainda gastamos 46 Eu ndo sei mais em quem tenho crido muito tempo imitando os adoradores de Baal e chamando o que temos feito de nova experimental teologia biblica. Se minhas criticas acima tiverem algum mérito, entéo nds estamos diante de uma poderosa ironia: a teologia relacional alega permitir a criatividade divina e novos discernimentos estéticos: Se a posigio classica sobre a presciéncia divina estiver correta, hd coisas positivas que os humanos podem fazer e coisas que eles néio podem. Nés podemos apreciar novidades — novas cangdes, poernas novos, pin- turas originais, reviravoltas na historia, um divertimento espontaneo, dangas criativas, e assim por diante, Nés podemos nos admirar, experi- mentar aventuras ¢ desfrutar de surpresas quando encontramos 0 ines- perado. Embora a Biblia seja explicita em atribuir muitas dessas experién- cias a Deus, a posig&o classica as descarta. Isso nao é limitar Deus?" A gloria de novas cangdes e novos poemas e da criatividade, contudo, depen- de do tipo de metdfora e da dimensio estética matematicamente selecionada pelos métodos da teologia relacional. Seus pressupostos centrais sobre a metafo- ae a Tazo sao os préprios agentes que destroem a criatividade genuina. Des- cartes, Hobbes e Locke ndo podiam ter inspirado uma tradigo poética (¢ nao inspiraram), pois eles eram hostis a ela. Tudo se torna matematizado e domesti- cado, inclusive o Deus Tritino. Nao se podem afirmar os pressupostos da teologia relacional ¢ ao mesmo tempo compreender as profundezas da poesia. Nenhum artista genuino jamais ficaria impressionado com as simplicidades relacionais. Por outro lado, a ortodoxia histérica, despida de todo Helenismo, é o préprio coragao da beleza, da bondade e da verdade. Onde quer que a teologia relacional negue novas cangdes, novos poemas e criatividade tanto a Deus quanto ao homem, a ortodoxia cristé tem as profundezas metaféricas para abragar os mis- térios divinos na medida em que Deus tem o controle de todas as coisas, preserva a genufna liberdade humana toma-lé-d4-cé e ainda é 0 modelo transcendental de toda aventura, divertimento e criatividade nos seus caminhos insondaveis (Rm 11.33), caminhos que maravilhosamente excedem todo o entendimento (Ef 3.19), dos quais a criatividade humana pode ser apenas uma sombra. Mas, para chegarmos até |, ns néio podemos seguir apés o paganismo, inqui- etados, como Boyd, por estarmos cada vez mais e “mais fora de sincronia... com nossa cultura”. Em vez disso, nés devemos ser desejosos por sermos tolos diante das estreitas perspectivas tanto do Helenismo quanto do pensamento iluminista: Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vés se tem por sdbio neste século, faga-se estulto para se tornar s4bio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto esta escrito: ele apa- nha os sabios na sua prépria estulticia (1Co 3.18,19). 3 Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade R. C. Sproul, Jr. O pés-modernismo, a atual mascara usada para encobrir 0 ceticismo e a descrenga, tem uma hoste de campos diferentes nos quais procura espalhar sua incerteza. Embora o termo em si mesmo seja um tipo de garra de poder, o equivalente filos6fico de “novo e aperfeigoado”, ele nao é novo nem aperfeigo- ado. Em vez disso, ele é somente outra narrativa, como todas as outras que o precederam, que nos diz que nés nao sabemos o que estamos dizendo. Ele faz sua investida sobre a literatura sob a aparéncia externa de descons- trucionismo, argumentando que nao hé um sentido inerente em um dado textoe que o evento da leitura é a colisdo do leitor com 0 escritor desconhecido, incognoscivel, apesar da politica toda-poderosa e dos pressupostos culturais. Isso quer dizer que Shakespeare escreveu e eu desfruto de The Taming of the Shrew somente porque n6s somos dois mis6ginos reacionérios, e Toni Morrison escreve © que escreve, e eu desfruto disso, somente porque ele sofre sob a brutal opressdo de misdéginos reaciondrios como eu. No campo da Histéria, 0 p6s-modernismo nés dé uma ficha limpa, levando a premissa essencialmente valida de que os vitoriosos escrevem a hist6ria a um extremo absurdo. Isso também nos dé ficgdo histérica. Se a Hist6ria é somente a imaginagao de coisas passadas (escrita por brancos), por que nao escrever uma histéria diferente? Nessa nova histéria, os oprimidos serao os heréis € os benfeitores da humanidade. O telégrafo seria tanto uma invengao de alguma tribo antiga de Pago Pago quanto uma obra de Samuel Morse. Provavelmente mais do que isso, pois Samuel Morse foi um deles, um dos garotos maus que escreveu a histéria como a conhecemos. © pés-modernismo, contudo, é uma erva daninha que nao somente faz germi- nar sua presenga to nociva quanto “cipé de bruxa”! em uma variedade de 48 Eu ndo sei mais em quem tenho crido campos sortidos de pesquisa. Ele também ataca as prOprias rafzes da civilizagao. Ele opera abaixo da superficie, destruindo o solo que edifica 0 mundo. Abaixo da civilizagao esté 0 leito de rocha, essa triade de virtudes, beleza, verdade e bonda- de, sobre a qual a civilizagao supostamente esta edificada. E ele vai ainda mais abaixo do leito de rocha e tenta atacar a fundagao dos pilares, o préprio Deus. Foi Platao que colocou a bondade, a verdade e a beleza como os maiores bens. Ele descreveu essas trés virtudes como a fonte de toda virtude, no senti- do de que todas as outras virtudes sao virtudes somente 4 medida que todas elas servem a essas trés. Essas trés sozinhas, na mente de Platao, so propri- amente fins em si mesmas. Elas devem ser possufdas por causa de si mesmas. A coragem também é uma virtude, nao em si mesma, mas somente porque ela serve & bondade, a verdade e a beleza. A fidelidade também. Mas essas trés virtudes so boas, porque so boas. Elas siio verdadeiras, porque siio verdadei- ras. E elas sio belas porque, sio belas. Elas sao dados, da mesma forma que toda a geometria de Euclides foi construfda sobre os pressupostos do ponto, da linhae do plano. Platio, em um sentido limitado, estava certo. Ele, pela graga comum do tinico Deus verdadeiro, topou com trés dos atributos fundamentais do préprio Deus. Deus, embora Platao provavelmente nao admitisse, é o fundmento sobre 0 qual esses pilares estiio estabelecidos. Ele é a fonte da fonte e o fim do fim. Sem ele, esses pilares se perdem no espaco sem fim. Esse é 0 objetivo do pés-moder- nismo: que essas trés virtudes sejam banidas de toda carne. O pés-modernismo é filho da modernidade destrutiva, que j4 pavimentou de forma bem-sucedida 0 caminho para o parafso da universidade e estabeleceu uma influéncia poliglota. Poucos de nés, contudo, vivemos na universidade. O pés-modernismo, por toda a sua obtusidade aparente, no esta restrito a uma torre de marfim. A investida contra o nosso mundo didrio é mais direta, menos matizada. Nés habi- tamos um mundo em que cada um é convencido de sua impossibilidade de ter acesso a verdade, o que nao é verdade. Talvez esse seja 0 nosso credo mais amplamente difundido. Nossa epistemologia ¢ que ndo existe epistemologia. Nés sabemos somente uma coisa: que nés nada sabemos. Isso vicia qualquer ética. Até mesmo se nds quisermos afirmar uma ética objetiva, dizer que X & bom, ndo-X é mau, nés nao poderemos elaboré-la, pois nao hd verdade objetiva. Com uma epistemologia relativista, nds naio podemos dizer que é verdade que X & bom. Dessa forma, nds aceitamos como boa a crenga de que o bem nao existe. Tudo é apenas uma questo de ponto de vista. Assim, da mesma forma que seria falso afirmar que alguma coisa é falsa, é errado afirmar que alguma coisa seja errada. Eu sei, eu sci. Mas vocé nao pode levar essas pessoas a uma consisténcia légica, como se isso tivesse algo a ver com a verdade. Afirme a um relativista, seja epistemolégico, moral ou ambos, que o sistema contradiz a si mesmo € vocé receber4 nao um olhar perplexo, mas um sorriso aberto. A con- Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade 49 sisténcia, afinal de contas, é a fonte de preocupagiio de umas poucas mentes, e a contradigao € o selo de garantia da verdade (que, logicamente, nao existe). Na Igreja, contudo, nés estamos alarmados. Se nao hd verdade, entdo Jesus nao é a verdade. Se nao ha bem, ent’io nem mesmo 0 Pai é bom. Quando nés finalmente percebermos que o dinossauro do modernismo com o qual nés esté- vamos lutando estava morto ha algum tempo, nés voltaremos a atengao para o Filho que est4 no trono. Nés argumentamos feroz € persuasivamente que a verdade existe e pode ser conhecida. Nés argumentamos com igual ardor que certo e errado ndo sdio meros fantasmas pessoais ou sociais. Mas, quando chegamos na beleza, nds seguimos 0 ritmo imposto pelos pés-modernistas. Quan- do a beleza é relegada a uma simples questo de gosto, quando o pés-moder- nismo insiste que nao hd um padro transcendental para a beleza, a Igreja tem respondido com um ressoante “amém”. O problema, contudo, € 0 mesmo. Nés nao podemos colocar a verdade fora do pasto, porque ela est baseada na propria natureza de Deus. Quando Jesus diz “eu sou a verdade”, é isso o que ele quer dizer. Ele nfo é a verdade para alguns ¢ ndo-verdade para outros. Ele é imutavelmente a verdade. Quando os anjos celestiais cantam “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos”, eles esto descrevendo seu carater, Eles niio esto sugerindo que ele serd justo para alguns, justo e {mpio para outros impio ao mesmo tempo e na mesma relagio. Eles também nao esto louvando a Deus porque ele é santo agora enquanto, no fundo de seu coracao, esto preocupados com o que acontecer4 quando isso mudar. Ele é imutavelmente santo. E, quando a Escritura nos diz para louvar ao Senhor na beleza da santidade, ela, da mesma forma, esta atribuindo beleza a Deus nao somente como um termo descritivo, mas como sua prépria natureza. Sua beleza nao € como a nossa, sujeita as vicissitudes do tempo. Deus nao esta em seu céu aplicando creme anti-rugas para manté-las 2 distancia. Ele imuta- velmente € beleza. Se ele é beleza, entdo nossa preocupagdo deve ser ter nossa compreensao de beleza refletida nele. Nés nado somos livres para formar nossa prépria compreensdo de beleza mais do que o somos para formar nossa compreensio de verdade ou de bondade. Nés nado devemos chamar o feio de bonito da mesma forma que nao devemos chamar o mal de bem. EDeus também nao. Como a Igreja tem contendido como relacionamento de Deus com seu mundo, assim também ela tem contendido com o relacionamento de Deus com Deus. Por exemplo, quando a Escritura nos diz que Deus € bom, 0 que ela est nos dizendo? Ela est dizendo que ha um padrao de justiga que precede a prépria existéncia de Deus? Ela esta dizendo que a bondade é algo que transcende até mesmo 0 préprio Deus? Se for assim, de onde vem esse padriio? Haverd um deus acima de Deus, um criador do padrdo, sobre 0 qual Deus est4 estabelecido para ser to puro? Ele teria autoridade sobre a bondade ao ponto de amanha determinar que é mau dar ao pobre e é justo roubar o que ele 50 Eu nao sei mais em quem tenho crido tem? Deus é sub lego, abaixo da lei, ou supra lego, acima da lei? A Igreja sempre respondeu que ele nao é nem uma coisa nem outra. Deus é auténomo, a lei para si mesmo. Deus nao est4 abaixo da lei, de forma que ele seja bom porque se submeta a algum padrdo que ele nao criou. Ele também nao esté acima da lei de forma que possa mudé4-la de acordo com seu querer. O bom é bom, porque corresponde ao cardter de Deus. E Deus & bom, porque esse é seu cardter. Ele nao pode chamar o mau de bom, pois isso contradiria a si mesmo. O mesmo princfpio se aplica a beleza. Ns nao dizemos que Deus é beleza porque exista um padrao eterno de beleza que transcenda Deus, mas ao qual ele é favoravelmente comparado. Mas a beleza também nao é uma mera cria- g&o de Deus, com a qual ele pode, por direito de propriedade, fazer o que Ihe agrade. A beleza é beleza, porque Deus é beleza. Ele €, em uma palavra, auto- estético, isto é, beleza em si mesmo. Ele é imutavelmente assim. Sua bondade, sua verdade e sua beleza prece- dem a ordem criada, e por isso nao ha forma de modificd-la pela criagio, e é aqui que esté o tropeco para os tedlogos relacionais. Como 0 pés-modernismo, a teologia relacional nao é nova. E, como no pés- modernismo, as recusas em reconhecer qualquer relacZo com seus primos mais velhos simplesmente no sfio verdadeiras. A teologia do processo se desenvolveu no mesmo cemitério de descrenga que foi 0 liberalismo do século 19, isto é, os proponentes dessa idéia de que Deus muda sairam das principais correntes das instituigGes liberais. Sua tradig’io era de descrenga. Assim como 0 arqui-herético Marcion, que os precedeu, sua motivacao era, em parte, separar-se do repugnante Deus do Antigo Testamento e agarrar-se ao doce e temo Deus do Novo Testa- mento. Eles fizeram um deus & sua prépria imagem, e quando o Deus Vivo pare- ceu nfo ser igual ao deus que eles tinham criado, eles alegaram que ele estava pelo menos tentando. Os tedlogos relacionais, contudo, nao vieram das fileiras da incredulidade, mas da ala arminiana da Igreja. Eles desonestamente se apresentam como evangélicos, embora, de fato, eles ndo sejam nem mesmo tefstas histéricos. Contudo, essa é sua “tradig&io de £6”. Um dos grandes problemas do Arminianismo, ou semi-pelagianismo, é que ele quer percorrer dois caminhos. O homem toma decisées livres, como esco- Iher abragar o evangelho, e Deus conhece o futuro. Nos debates sobre sua posigiio equivocada sobre a relago entre a vontade do homem e a providéncia de Deus, muitos apologistas reformados tém perguntado com vigor cada vez maior como Deus pode conhecer um futuro que ele nao estabeleceu. Os tedlo- gos relacionais admitem a questio, e, para sustentar a vontade livre do homem, retiram de Deus 0 absoluto preconhecimento de todos os eventos futuros. Um pequeno prego a pagar pela liberdade. Eles sao simplesmente arminianos que escolheram a porta com o tigre. Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade 51 Deus, de acordo com esses homens, deve ser desculpado, é claro. Nao é culpa de Deus que ele nao possa conhecer 0 que ndo pode ser conhecido. Se nado aconteceu ainda, como ele pode saber? E esses homens argumentam até mesmo que sua concepgio de um deus que no conhece o futuro é ainda maior do que o onisciente conhecedor de todas as coisas, que é 0 Deus da Igreja. Além disso, o Deus deles tem que ser rapido no gatilho. Ele tem que ajustar seus planos ¢ ficar sempre um passo a nossa frente, ¢ isso sem saber qual ser © nosso préximo passo. Mas esse Deus nao é, no fundo, tio terrivelmente grande. Rejeitando 0 co- nhecimento da verdade daquilo que é futuro, nés rejeitamos também o conhecimento da beleza. A beleza se torna uma bestialidade nas maos desse deus ignorante, e essa feitira necessariamente afeta nossa adoragao. Nés nao podemos adorar o Senhor na beleza da santidade, se Deus nao sabe o que esta por vir. Uma das razdes, segundo creio, pelas quais a Igreja tem abandonado tao prontamente qualquer defesa de uma natureza objetiva da beleza é que a bele- za € claramente menos quantificdvel que a bondade e a verdade. A verdade é aquilo que corresponde a realidade, e Deus deu a todos os homens faculdades racionais e empiricas pelas quais ela pode ser conhecida. A bondade também & comparativamente facil de se quantificar. Deus nos deu sua Palavra, e essa Palavra contém sua lei. Dessa forma, nés sabemos que o mal & qualquer falta de conformidade com essa Iei ou a transgressiio dessa lei. Mas como podemos medir a beleza? Se tentarmos dissecar a beleza, corté-la em fatias finas e colocd-las sob 0 microsc6pio, vamos descobrir que a matamos. Alguém pode atribuir a ela ntimeros e notas e traduzir o Concer- to Brandenburg em ntimeros, mas qualquer um, até mesmo o maior amante da aritmética, reconhece que algo significativo é perdido na tradugao. Ha algo de misterioso na beleza, assim como hd algo muito misterioso em Deus. Contudo, o fato de que Deus é beleza coloca fim no debate sobre a relativi- dade da beleza. Se a velocidade da luz € a constante no universo de Einstein, pela qual 0 tempo e o espago podem ser relativizados, assim também Deus & a constante necessaria da beleza, tanto porque ele é beleza em si mesmo quanto porque ele é beleza imutavel. Embora a beleza seja misteriosa, como seu oposto, nés a conhecemos quan- do a vemos ou quando a ouvimos. Até mesmo o mais grosseiro relativista sabe que est mentindo quando afirma que os rufdos errdticos que escapam de uma bomba hidrdulica so tao belos quanto os sons da melodia Canon in D, do compositor Pachelbel. Nés afirmamos a objetividade da beleza, pelo menos em parte, na pratica. Nés plantamos flores em vez de ervas daninhas; nés pendu- ramos quadros, em vez de bolotas de tinta; nés colocamos Bach em nosso aparelho de som, em vez de som de batidas de carro. 52 Ew nao sei mais em quem tenho crido A praticidade é um grande ponto de venda dos gurus da teologia relacional. Eles argumentam que parte daquilo que deve ter apelo para nés é se ha ligagiio com a pratica. Nés somos informados no prefacio de The Openness of God, de Clark Pinnock e outros, que: 1nés precisamos de uma teologia que seja biblicamente fiel e intelectual- mente consistente, e que reforce, em vez de tornar problemética, nossa experiéncia com Deus. A visiio de Deus apresentada nesse livro pode parecer nova para quem estiver fora dos cfrculos eruditos, nos quais ela bem conhecida. Mas se nds nos lembrarmos de que ela apresenta uma forma sistematica daquilo que a maioria dos cristdos jé experimenta em sua vida devocional, entio ela no parecerd tdo estranha. David Basinger, professor de filosofia no Roberts Wesleyan College, recebeu a tarefa, em The Openness of God, de explicar aos leitores as implicagdes préticas da teologia relacional. Embora em nenhum momento ele tenha dito que a questao da estética afeta diretamente nossa adoragao, ele disse como a teologia relacional afeta nossas orag6es, uma parte vital de nossa adorag4o. Sua aborda- gem consiste em expor os fundamentos da posi¢ao cléssica sobre um certo tema, como a oragao, e a posigao dos tedlogos do processo, e entao ele tenta colocar sua prépria posigao nos limites seguros do meio termo entre uma e outra. Para aqueles que afirmam um futuro estabelecido, nés certamente n&o temos motivo para fazer nossas petig6es em oragao, pois tudo ja foi decidido. Para 0 pobre publico do processo, também nao hd motivo para fazer petigdes em oragdo, pois Deus ndo pode fazer nada. Na posigéio da teologia relacional, quando oramos, nés somos graciosamente convidados por Deus para participar com ele da cria- g4o de um futuro desconhecido. Onde esse é 0 alegado meio termo? Ao contratio dos proponentes da soberania especitica [a posigio de que Deus ordenou tudo 0 que acontece], nds nao cremos que Deus possa unilateralmente garantir que tudo e somente 0 que ele deseja que acontega em nosso mundo de fato aconteceré. Nés afirmamos, em vez. disso, que, ja que Deus escolheu criar um mundo no qual nés possuimos significativa liberdade, e ja que nds podemos ser significativamente livres somente se ele ndo controlar unilateralmente a forma como essa liberdade € utilizada, Deus voluntariamente abre mao do controle dos assuntos terrenos naque- les casos em que ele nos permite exercer nossa liberdade. Contudo, a0 contrério dos proponentes do tefsmo do processo, nés afirmamos que Deus conserva o direito de intervir unilateralmente nos assuntos terrenos, isto é, nds cremos que a liberdade de escolha é um dom concedido por Deus a nés, e, portanto, Deus conserva o poder e a prerrogativa moral de desabilitar ocasionalmente nossa habilidade de fazer escolhas voluntdrias para manter as coisas em seu rumo.? Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade 53 A soberania de Deus ¢ a liberdade do homem, em outras palavras, sao como um pouco de dinheiro guardado em uma conta corrente. Aquilo de fato € bom dinheiro, mas o dono nao pode passar muitos cheques por més. O que isso tem a ver com a nossa adoraciio? A adoragdo se envolve com a beleza, quando nds nos reunimos na presenca de Deus para renovar a alianga com ele. Nés comegamos essa renovagdo no contexto em que nos lembramos dos grandes e graciosos atos de Deus em nosso favor no passado. Muitos dos salmos de Davi, que eram cantados na adoragao do povo de Deus desde o tempo em que foram escritos, consistem em recontar os grandes feitos de Deus. Mas aqui hé um problema. Quando nés praclamamos os louvores de Deus por suas bén¢aos, nés achamos, com base na teologia relacional, que, afinal de contas, ele nao fez tanto assim. Nés nao podemos adoré-lo em seu santudrio, porque ele foi passivo. Nés nao podemos agradecé-lo por confundir os inimigos de Gidedio, mas devemos louvar Gidedo. Nés nao devemos louvé-lo por ter aberto o Mar Verme- lho, pois, aparentemente, ele ficou tio surpreso quanto Moisés por tudo o que aconteceu. Ou, pelo menos, ele nao sabia que os filhos de Israel atravessariam a pé seco enquanto os exércitos de Farad seriam cobertos pela agua. Nés estamos no mesmo barco. O que nés temos que agradecer a Deus em nossos dias? N6s temos que ser gratos a ele pelo primeiro cristo que nos falou sobre a obra de Cristo? Certamente que nao. Ele nao sabia que isso acontece- ria, muito menos determinou que isso acontecesse. Devemos agradecer a ele por nos livrar de todos os perigos e incertezas pelos quais temos pasado? Nao, pois essas incertezas foram incertezas para ele também. Eu devo louvar a Deus pelas pequenas béngaos com as quais ele tem agraciado meu lar? De jeito nenhum. Meus filhos existem somente por causa de decisées tomadas por minha querida esposa e por mim, é por causa do curso natural das coisas. Nossa adoragiio e nossas oragGes, quando nés nos reunimos para renovar a alianga, contudo, nao se concentram em torno das muitas béngaos que fluem dessa alianga com Deus, mas na obra de Cristo na cruz. Nés nos reunimos para nos lembrar que Jesus Cristo, no Calvario, redimiu-nos de tal forma que nés agora temos paz com Deus. Mas aqui, novamente, nés somos deixados a posigao relacional, com pouco pelo que louvar. A crucificago de Cristo nao aconteceu em um vacuo. Esse evento central para a adoragao e para a Histéria aconte- ceu na histéria, através dos eventos inter-relacionados de uma hoste de deci- s6es humanas. O que aconteceria se os fariseus tivessem aceitado alegremen- te o ensino de Jesus? Ou suponha que Judas tivesse escolhido nao trair nosso Senhor. Suponha que Pilatos tivesse apenas repreendido Jesus. Suponha que a multiddo, em um ato inesperado e consciente, tivesse pedido que Barrabds fosse condenado a morte ¢ que Jesus continuasse vivo. Suponha que Jesus preferisse a vida simples de um carpinteiro. Nés acabamos ficando sem moti- Yos para louvar a Deus. Além disso, alguém pode se maravilhar com 0 modo 54 Eu ndo sei mais em quem tenho crido pelo qual o Pai se desesperou quando testemunhou a crueldade imposta sobre seu Filho. Nés adoramos ao Pai por ter realizado nossa redencdo, mas na teo- logia relacional ele nao fez isso. Nossa adoragio nao somente é diminufda, mas esvaziada. A beleza do evangelho é perdida, pois ele nada é além de uma série de eventos casuais imprevisiveis. E claro que nés também perdemos a forma encantadora na qual ele causou ocumprimento das profecias referentes ao Salvador. O que trouxe José e Maria a Belém além de um censo para pagar impostos a César? Como nés temos uma pessoa sendo um produto de Belém, Nazaré e Galiléia separada para interagir com uma hoste de decis6es humanas? O mesmo se aplica, contudo, a todas as profecias da Escritura. Quando Daniel revela o sentido do sonho de Nabuconosor, em Daniel 2, ele apresenta um futuro muito especifico. O Impé- tio Medo-Persa destruiria a poderosa Babilénia. A Grécia seria o préximo grande império, e depois viriam os romanos. Quantas decisdes humanas foram neces- sdrias para trazer A existéncia essa sucessiio de quatro poténcias mundiais? Qual o grau de clareza da profecia? Daniel nos diz que “certo é 0 sonho, e fiel sua interpretagio” (Dn 2.45). Parece que, afinal, Deus conhece 0 futuro. Nossa adoragio comega com o reconhecimento de nossos pecados e das muitas béngdos de Deus a n6s. O préximo passo é a lembranga da obra de Cristo em nosso favor, no cumprimento de todas as promessas, de Genesis 3.15 a Malaquias 4.4-6. Mas nés niio paramos ai, como a revelagao de Deus também nfo para por af. Sabendo que nés mesmos fomos abengoados pelo onipotente e onisciente Deus do universo, sabendo que nés mesmos estamos em paz com ele, nés aguardamos © cumprimento das futuras béngdos de Deus. Nés 0 adoramos por estarmos na plenitude dos tempos e por provarmos a consumagio do reino. Daniel nos dé uma idéia disso, quando explica a tiltima parte do sonho de Nabuconosor: Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitard um reino que nio sera jamais destrufdo; este reino no passard a outro povo; esmiucard e con- sumiré todos estes reinos, mas ele mesmo subsistira para sempre, como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxilio de maos, ¢ ela esmiucou o ferro, o bronze, o barro, a prata e 0 ouro. O grande Deus fez saber ao rei o que hd de ser futuramente (Dn 2.44,45). A beleza da adoragao alcanga seu dpice na certeza da consumagao do reino. Nés nos alegramos porque sabemos que todas as coisas acontecero correta- mente, que nés seremos como ele e que nds 0 veremos como ele é, porque nés sabemos que, naquele grande dia, todo joelho se dobraré e toda lingua confessa- rd que Jesus Cristo é 0 Senhor. Nés nos alegramos porque sabemos que ele enxugard toda ldgrima. E tudo isso se reduz a um talvez no ensino da teologia relacional. Em vez de ouvir suas promessas, nés nos reunimos para ouvir seus Atlas Encolheu os Ombros: Adorando na Beleza da Santidade 55 desejos e seus sonhos. Em vez de descansar em seu poder, nés somos chama- dos para nos cingir e tentar realizar seus objetivos. Em vez de encontrar paz em saber 0 que acontecerd, nés nos reunimos para nos preocuparmos com 0 Nio- Tao-Grande Preocupado no céu. Sim, como eles prometem, nds encontramos um deus que é mais acessfvel, mais ligado a nés, porque nés nfo encontramos 0 capitio dos exércitos do Senhor, mas um deus que , como um profeta, um de nés, “um porcalhio como nés”. Nés nao somos uma noiva adornada para o rei, mas uma colegio casual de flores daquele que nao é o Senhor da Danga, mas que vai fazendo as coisas conforme segue pelo caminho. E aqui esta a chave da beleza e da adoragio — a intencionalidade. Ela esta na extremidade oposta do espectro da casualidade. A beleza exige uma uniiio intencional entre a harmonia e a complexidade. O universo é bonito e declaraa gloria de Deus, em parte por causa da danga das estrelas, da danga das parti- culas subatOmicas e da danga das particulas subatOmicas na danga das estre- las. Apesar das alegagdes de Heisenberg, nao existem movimentos casuais de matéria sem propésito. A Histéria reflete a gléria de Deus da mesma forma, quando Deus combina conjuntos cambaleantes de particulas, do surgimento ao ocaso dos impérios ao par de meias que eu estou usando, em uma delicada danga de beleza. Todas essas coisas vém a acontecer nio porque Deus as deixou a seu bel-prazer, mas porque cle nao fez isso. Ao tirar Deus de cena em seu papel de causa tiltima de tudo 0 que aconte- ce, nds ficamos sem causa tiltima. Nés somos deixamos sem intencionalidade, e ficamos somente com a colisdo casual de tempo, espago e matéria. Os tedlogos relacionais sio piores que os cientistas materialistas que esticam nos- sa credulidade aos limites do universo alegando que toda realidade é um aci- dente. Em vez disso, os tedlogos relacionais afirmam que toda realidade é um acidente e Deus é um espectador. Eles sfio defstas que negam até mesmo que Deus deu corda no reldgio. Eles roubaram Deus de sua gléria e querem que nés nos alegremos com isso. Ha, contudo, boas noticias. Os tedlogos relacionais, pelo menos, alegam estar abertos em sua relacionalidade, chegando até a considerar aceitdvel a teologia do processo, que, segundo eles, nao os descreve adequadamente. Basinger argumenta: Eu nfo considero nosso modelo teologicamente superior a todos os outros no sentido de que eu creia que nosso sistema deva ser 0 tinico modelo auto-consistente e abrangente que pode justificavelmente ser reivindicado por seus proponentes como uma perspectiva plaustvel do relacionamento entre Deus e 0 mundo, Eu também nao creio que o mode- Jo relacional seja experimentalmente superior no sentido de que eu creia que esse seja 0 tinico modelo que qualquer pessoa sincera e atenta possa achar racionalmente satisfatério. Assim como nem todas as criangas 56 Ew nao sei mais em quem tenho crido concordam com estilo mais apelativo dos pais € nem todos os alunos con- cordam com 0 estilo mais apelativo de ensino, nem todos os cristdos concordam com o estilo mais apelativo de interaciio do humano com o divino. E eu no vejo base objetiva para negar que os proponentes de outros modelos possam justificavelmente continuar a ver suas perspec- tivas sobre o relacionamento entre Deus ¢ nosso mundo como o mais plenamente pessoal. Ha alguma diferenca? Mas ha uma profunda diferenga. As boas-novas so que nés nao precisa- mos nos curvar ao {dolo que esses homens criaram em suas proprias imagina- ges borbulhantes. Nés podemos orar com confianga de que, em sua graca, Deus ndo permitird que seus redimidos caiam nessa heresia destruidora. Além disso, como nés continuamos a adorar o Deus gue nao somente conhece, mas determina o futuro, n6s podemos orar para que ele destrua as obras idélatras de iniqiiidade e seus trabalhadores. N6s podemos confiar nao que nossas oracdes mudem a soberana e eficaz vontade do Deus exaltado sobre todas as coisas, mas que ele quer, ¢ ele prometeu, por sua gléria eterna, zelar pelo seu préprio nome. E quando ele trouxer a danga da histéria a um fim, entdo nds dangare- mos com ele, na grande, final e certa festa de casamento do Cordeiro. VERDADE 4 Teologia Drag Queen Ben R. Merkle Ao contrario da forma pela qual costumam falar, os defensores da teolo- gia relacional de Deus niio estéo necessariamente explorando um novo e excitante territ6rio. Como disse Salomio, “o que foi é 0 que hd de ser; e o que se fez, isso se tornaré a fazer; nada hA, pois, novo debaixo do sol. Hé alguma coisa que se possa dizer: isso é novo? Nao! Ja foi nos séculos que foram antes de nés” (Ec 1.9, 10). O Pregador sabia disso muito bem, tendo experi- mentado pessoalmente as vas folias, e suas obras falam sobre o assunto em questao. A doutrina relacional de Deus é meramente uma reedigado de uma das mais detestaveis partes da teologia do século 16, com Socfnio. Ou, mais recentemente, a teologia relacional de Deus é uma verso rebatizada daquilo que tem sido formado na Universidade de Chicago hd pelo menos cingiienta anos sob a lideranga da teologia do processo, Esse capitulo tentard provar a validade do provérbio de Salomfo: “nao h4 nada novo debaixo do sol”. O ensino relacional de Deus é uma antiga heresia. Socinianismo Nos primeiros anos da Reforma, Calvino tinha grande esperanga de avan- car a doutrina protestante na Polénia. O rei polonés, Sigusmund Augustus, tinha alegremente recebido encorajamento regular e conselhos de Gene- bra. De fato, Calvino dedicou seu comentario sobre o livro de Hebreus ao rei, que também tinha as /nstitutas lidas e expostas em sua presenga duas vezes por semana por um pastor italiano.! Nesse tempo, muitos viam os poloneses como tendo a possibilidade de se desenvolverem em uma naciio 60 Eu nao sei mais em quem tenho crido totalmente protestante, onde a teologia reformada poderia verdadeiramen- te langar raizes e florescer. Infelizmente, ainda durante a vida de Calvino, provou-se que esse nao era o caso. O povo polonés tornou-se totalmente receptivo a teologia anti-trinitariana, e logo formou uma forte comunidade unitariana-anabatista, que, mais tarde, tomou o nome de seu mais influente mestre, Fausto Socinio. Fausto nasceu em Siena, Italia, em 1539. Seu tio, Laelius Socfnio, foi um tedlogo influente, conhecido por experimentar os ensinos anti-trinitarianos e outras extravagancias heréticas. Laelius se empenhou na discussio teoldgica com Calvino, Melanchton e Bullinger. Calvino o advertiu sobre os perigos de seus ensinos, mas isso foi em vao. Laelius morreu, sem arrependimento, em 1562, e Fausto continuou a obra de onde seu tio havia parado. Trabalhando com uma hermenéutica altamente racionalista, Fausto Socinio experimentou varias heresias cristolégicas enquanto vivia em Lyons, Florenga e Basiléia, eventual- mente se estabelecendo na Polénia com a jd formada Igreja Unitariana. Embo- ra tenha se recusado a ser batizado pela Igreja na Pol6nia, logo ele se tornou seu mais famoso porta-voz. Juntamente com seus ensinos anti-trinitarianos, Socfnio afirmava a posigaio pelagiana da expiagio (a crucificagao serviu como um exemplo para nés, mas 0 perdao é encontrado somente por meio de nosso préprio arrependimento e boas obras), negando tanto a predestinagio quanto a presciéncia. No fim do século 17, Francis Turretin fez um contraponto com os ensinos de Socinio em suas /nstitutes of Elenctic Theology. De fato, as Institutas de Turretin parecem um jogo cés- mico no qual a bola est4 presa a um poste, por uma corda, recebendo pancadas de todos os lados, com Socinio sendo espancado em todas as paginas. Embora Socinio defendesse varias outras heresias, é sua posigdo sobre a presciéncia de Deus que é mais relevante aqui. Turretin descreve muito bem a posigdo de Socinio. Outra questo de grande importancia se refere ao futuro contingente das coisas, 0 conhecimento do qual os socinianos se esforgam para que Deus estabelega mais facilmente a diferenga entre livre vontade (sua liberdade de toda necessidade, até mesmo daquilo que é geralmente em- pregado pela presciéncia de Deus)... eles abertamente afastam dele o conhecimento de contingéncias futuras como nao sendo 0 tipo de coi- sas que se possa saber, dizendo que ele absolutamente nao as conhece ‘ou que sé as conhece como probabilidade indeterminada. Socinio diz: “J4 que nao hé razdo, nenhuma passagem da Escritura da qual possa ser claramente inferido que Deus conhece todas as coisas antes que ela acontegam, nds devemos concluir que nao devemos afirmar que Deus tenha essa presciéncia, especialmente quando muitas razées e 0 claro testemunho nao pedem isso, e até se opdem totalmente a isso”? Teologia Drag Queen 61 Teologia do processo O ensino de Socinio dominou a Poldnia durante 0 século 18 ¢ serviu como precursor do criticismo racionalista do século 19. Uma seita especifica que se desenvolveu a partir do criticismo do século 19 foi a teologia do processo, a “filha intelectual” de Alfred Whitehead (1861-1947). Whitehead, filho de um vigdrio da Igreja da Inglaterra, foi um matemético e fildsofo do inicio do século 20. Whitehead comecou a se intrometer em teologia por causa de suas proprias teorias sobre a natureza do tempo e sobre como 0s eventos acontecem no tempo. Para Whitehead, 0 proceso era fundamental. O tempo, em vez de fluir como uma corrente est4- vel, “vem a existéncia em pequenas porgdes”.? Em cada momento, todas as entidades reais sao intuitivamente sentidas (na terminologia de Whitehead, “preendido”).* Quando 0 momento formador culmina, desfrutando de sua imediaticidade subjetiva, entao ele preende todas as outras entidades reais. Essa metaffsica, embora nfo muito excitante ao redor da mesa, foi aplicada vigoramente a 4rea da teologia por um dos alunos de Whitchead, Charles Hartshorne. Embora Whitehead tenha aplicado sua especulago & teologia, ele sempre foi um matemitico de coragao, ¢ sua aplicagdo teolégica nunca pareceu ser 0 material de que os sermGes sao feitos. Hartshorne, por outro lado, pegou a metafisica de Whitehead e a descrigio da Divindade que Socinio tinha feito e, com as duas, fez uma religiio & qual qualquer racionalista poderia pertencer. Hartshorne, embora nunca tenha sequer passado perto de fingir que a Escritu- ra fosse autoritativa (ou pelo menos relevante para esse assunto), enfeitou a teologia do processo com uma vestimenta crista de festa. O que era filosofia com Whitehead tornou-se teologia com Hartshorne Hartshorne claramente viu a teologia do processo como um reavivamento sociniano, Nés temos alguma outra raziio para rejeitar que a velha proposicdo sociniana de que até mesmo a mais elevada forma concebivel de conhecimento € do passado-e-definido como o passado-e-definido e do futuro e parcialmente indefinido como futuro e parcialmente indefinido?... Deus € onisciente? Sim, no sentido sociniano. Nunca uma grande descoberta intelectual pas- sou pelo mundo de forma to discreta do que a descoberta sociniana do sentido proprio de onisciéncia, Até hoje as obras de referéncia falham em nos falar sobre isso... Como dizem os socinianos, de uma vez por todas, os eventos futuros, eventos que ainda nfo aconteceram, ndo podem ser co- nhecidos, ¢ a alegagio de conhecé-los s6 pode ser falsa.* A inexisténcia do futuro é importante para os tedlogos do processo pela mesma razo que a impossibilidade de presciéncia foi importante para Socinio. 62 Eu nao sei mais em quem tenho crido Um futuro concreto significa que, de algum modo, todas as ages so restritas. Ja que a teologia do processo requer 0 mesmo tipo de vontade auténoma como. 0 socianismo, a teologia do processo também vé a mesma solugio negar algum conhecimento do futuro, Sua exegese, embora alegue pertencer, sempre to obscuramente, ao Cris- tianismo, nunca se submete a Escritura. Em vez disso, Hartshorne e os adeptos atuais da Teologia do Processo somente se preocupam com 0 criticismo que recebem da Filosofia, repudiando qualquer apelo a Escritura como divagagao de fundamentalistas ignorantes. Eu descreverei a impressio que Hartshorne tem de Deus na préxima segdo para estabelecer comparagées com a Relacionalidade de Deus, mas é importante lembrar que os Socinianos sacrifi- caram a presciéncia de Deus por causa de uma existéncia capaz de ter um livre arbitrio absoluto. Veremos que os tedlogos da Teologia do Processo e da Teologia Relacional fazem o mesmo. A relacionalidade de Deus Embora 0 arranjo de varios pensamentos da teologia do processo tenha aces- s6rios mais alarmantes, varios canalhas tém denunciado o maior ponto fraco da teologia do processo, a negacao da presciéncia de Deus, para fazer sala para uma vontade livre racionalista, dando-lhe uma completa remodelagem e atirando- o bem no meio do campo da ortodoxia. Sob a aparéncia externa da relacionalidade de Deus, essa heresia assumiu a posigdo de jogador da terceira fila, correndo desesperadamente e procurando alguém para lhe dizer que ele realmente perten- ce aqui ao chio.° Geralmente nao fica muito claro se os autores dos livros da teologia relacional esto tentando convencer o resto da cristandade ou a si mes- mos de que eles realmente esto dentro dos limites da ortodoxia. Tanto os proponentes da teologia relacional quanto os filésofos do processo comecam sua argumentag&o com a acusagiio de que a descrig&o classica ortodoxa da onipoténcia e da onisciéncia de Deus é algum tipo de resultado do Helenismo. Pois nossa contenda € que os ‘erros teolégicos’ em questo dio & palavra Deus um sentido que nao é verdadeiro de acordo com os escritos sagrados e com a concreta piedade religiosa. Esse resultado surgiu, em parte porque os tedlogos na Europa medieval e no Oriente Préximo estavam como que apren- dendo da filosofia gregae eram muito ignorantes de qualquer outta filosofia,? Hartshorne, entdo, passa a descrever a proposi¢Ao platénica em A Repiibli- ca de que ser perfeito deve significar ser completamente imutavel, e, como ele cré, esse pressuposto platénico permanece na fundagao do Cristianismo histé- tico. John Sanders escreve um capitulo inteiro fazendo essa mesma acusagio Teologia Drag Queen 63 no livro The Openness of God. Quando Sanders pergunta de onde vem a posi¢o ortodoxa, ele d4 sua propria explicagao: “A resposta, em parte, é en- contrada na forma em que os pensadores cristos tém usado certas idéias filos6ficas gregas”.’ E estranho como ambas as heresias parecem esquecer que foi a ortodoxia classica que defendeu a encarnagao. O que é uma escolha real? A partir daqui, tanto 0s tedlogos do processo quanto 0s tedlogos relacionais come- gam a desenvolver sua elogiiéncia sobre as virtudes de uma Divindade mutavel. Hartshorne comega com um retrato horroroso da posig&o histérica sobre Deus. Esse é 0 mais elevado ideal de poder para governar sobre marionetes as quais é permitido pensar que tomam decisdes, mas que so realmente toma- das por outros para fazer exatamente 0 que eles querem fazer? Por vinte séculos nés temos tido tedlogos que parecem dizer sim a essa questio.® Ele é totalmente claro em seu conceito sobre 0 Cristianismo histérico: “Nenhum. tedlogo jamais esteve tio comprometido com o conceito que eu estou criticando do que 0 cristo Jonathan Edwards. E ele pensava, com consideravel justificagao, que representava a tradigdo”.'° Hartshome se recusa a adorar um Deus Todo-Poderoso, e em vez disso exige um deus que lhe permita participar também. Mas como é isso se Deus é 0 supremo e, contudo, benevolente tirano? Nés podemos adorar um Deus tio destitufdo de generosidade a ponto de nos impedir de participar, apesar de submissos, na determinagiio de detalhes do mundo, como participantes menores no processo criativo que é realidade?."" Essa tiltima citagio descreve a relacdo central entre a teologia do processo e a teologia relacional, e, incidentalmente, a forca orientadora por tras das duas. Hartshorne pede para ser inserido no “processo criativo”, mas sua defini¢do desse processo criativo inclui a razao pela qual ele quer tanto participar dele. Esse proceso criativo é realidade. Em outras palavras, ser real, no sentido que significa sua existéncia, significa tomar parte nesse momento culminante do pro- cesso, preendendo todas as outras entidades reais. Contudo, nds devemos enten- der que, no momento crucial, todos os jogadores participam em pé de igualdade. O Espirito Santo pode me influenciar, mas é igualmente provavel que eu o influ- encie. Se alguém imutdvel participasse de nosso momento de preensiio isso es- tragaria toda a brincadeira. Se Deus entrasse no momento culminante como um ser imutdvel, isso seria como 0 valentiio entrar em nosso jogo de bolinhas de gude com a precondig&o de que ele nao perderia nenhuma bolinha. Obviamente nés 64 — Eu ndo sei mais em quem tenho crido nao gostariamos de jogar bolinhas de gude sob essas restrigGes. Afinal, esse nao seria um jogo real. Agora, se nés pensarmos em coisas maiores e melhores, nds veremos que um Deus dessa natureza roubaria nossas vidas da realidade. Hartshore exige um deus cujas bolinhas de gude também estejam em jogo. Assim nés vemos que, para que algo seja uma parte do processo, Hartshorne exige mutabilidade. Se alguém nao € mudado pelo proceso, entio esse alguém nunca esteve no processo. Essa posig&io nfo somente deve elevar 0 homem a condigo de co-criador, mas também deve trazer Deus infinitos pontos para baixo. De acordo com Whitehead, 0 relacionamento bisico é preensdio, que, na forma mais concreta (chamada de “‘preensio” fisica), é definida como ‘sentimento de sentimento’, significando 0 modo pelo qual um sujeito sente os sentimentos de um ou mais sujeitos. Em outras palavras, ‘simpatia’ no sentido mais literal... Deus disse conhecer 0 mundo por preensées fisicas, em outras palavras, sen- tindo os sentimentos de todos os sujeitos que compéem 0 mundo."? Deus deve ser outro jogador nesse momento culminante, no qual todos nés influenciamos uns aos outros. Para que Deus seja real, ele deve estar sujeito a ser mudado por mim. Ele deve ser mutavel. Dolado relacional, Pinnock, embora passando por cima da matemitica e da fisica de Whitehead, pula direto para um argumento paralelo ao de Hartshorne. Para Pinnock, somente uma visio relacional nos dé um Deus que permite que nossa vida seja real e significativa. Nés cremos que a Biblia apresenta uma visio relacional de Deus como vivo e ativo, envolvido na histéria, relacionando-se conosco e mudando em relagdo a nés. Nés vemos 0 universo como um contexto no qual ha escolhas, alternativas e surpresas reais, A relacionalidade de Deus signi- fica que Deus est aberto as realidades mutaveis da histéria, que Deus cuida de nés e permite que nés 0 impactemos. Nossas vidas fazem dife- renga para Deus — elas so verdadeiramente significativas.” Novamente hd esse pressuposto de que, a menos que Deus seja de alguma forma afetado por minhas decisGes, entéo minhas escolhas nao podem ser re- ais ou significativas. Agostinho lidou com essa tolice quando discutiu com Cicero sobre o mesmo assunto. Agora, contra o sacrflego e impio atrevimento da razao, nés afirmamos tanto que Deus conhece todas as coisas antes que elas venham a existir quanto que nés fazemos por nossa livre vontade 0 que quer que nés saibamos ou sinta- Teologia Drag Queen 65 mos que deva ser feito por nés somente porque nés queremos assim... mas isso no significa que, embora haja para Deus uma certa ordem de todas as causas, nada dependa da livre escolha de nossa prépria vontade, pois nossa propria vontade estd inclufda nessa ordem de coisas que € certa para Deus ¢ € abracada por sua presciéncia, pois a vontade humana também causa agdes humanas; ¢ aquele que preconhece todas as causas de todas as coisas certa- mente, entre essas causas nio seria ignorante de nossa prépria vontade.'* Influéncia divina Na teologia do processo, a habilidade de Deus para controlar a hist6ria é limita- da a sua habilidade de nos controlar ou de nos incitar: “O poder de Deus é persua- sivo, nao controlador”.!5 Nesse momento de apreensio, o homem sente a vontade divina incitando-o para um caminho ou outro, mas 0 que o homem faz com esse impulso depende totalmente de si mesmo. A possibilidade de um homem rejeitar o estimulo de Deus existe porque, de outra forma, nossas escolhas nao seriam reais. Deus nao criou criaturas como nés, com nossa grande capacidade para discordar da auto-determinagio e com grande valor instrumental destrutivo, simplesmente porque a liberdade 6, em si mesma, de grande valor, mas porque seres capazes dos valores que nés desfrutamos de- vem necessariamente ter essas capacidades.'6 A teologia relacional defende uma descrigao similar das interagdes divinas com esse mundo. Deus ndo manipula os cristaos, ele os incita. “A disputa é somente que Deus, como regra geral, deve permitir que a escolha seja volun- tdria no sentido de que seja livre de manipulago coerciva divina”."’ Deus no tem um plano para nossa vida. Como diz John Sanders, ele tem objetivos. E desejo de Deus que nés entremos em um relacionamento de amor do tipo toma-lé-d4-c4, e isso néo é realizado por Deus forcar seu projeto sobre nés. Em vez disso, Deus quer que nds atravessemos a vida com ele, tomando decisdes juntos. Juntos nés decidimos o curso real de minha vida."* Mas Sanders salienta a exist@ncia de um obstaculo. Com relagdo & lideranga do Espitito, o modelo de risco implica que nés podemos ou nao falhar em entender a diregao do Espirito. Nés podemos no entender 0 que Deus espera de nés em um caso especifico. Nés podemos no compreender exatamente a sabedoria divina que Deus ten- 66 Eu ndo sei mais em quem tenho crido ta nos dar para resolver algum problema. Deus faria tudo 0 que estivesse ao seu alcance para nos ajudar, mas. como ele depende de nés para algumas coisas, nfo ha garantia de que nds vamos nos apropriar da sabedoria divina... O mais profundo de nosso relacionamento com Deus desenvolve, contudo, o melhor que nés experimentamos de seu amor, que nos capacita a um melhor entendimento de como nés devemos viver ¢ de como podemos dar mais de nds mesmos em amoroso servigo a0 Senhor. Ao fazer isso, nés seguimos sua lideranga.”® Sanders ressalta 0 mesmo ponto que a teologia do processo, mas ele remove todaa terminologia filoséfica ¢ a substitui por uma linguagem evangélica. Em vez de “apreender todas as realidades”, nds temos “relacionamento pessoal”. E interessante observar que tanto os tedlogos do processo quanto os tedlo- gos relacionais véem essa mudanga de pensamento como uma mudanga de uma propensiio masculina de nossa percepgiio de Deus para uma forma mais feminina de concebé-lo. Pinnock alude a esse fato em uma nota de rodapé, quando ele descreve 0 modo como Deus, em vez de se apegar ao seu direito de dominar, convidou todos para serem seus parceiros.”” Em sua nota de rodapé, ele ressalta que essa é uma concepgao que as feministas provavelmente abra- caraio, “tendo experimentado o poder dominador masculino”.2! Hartshorne devo- ta varias paginas a esse mesmo ponto. A queixa feminista de que elas tém adorado uma Divindade masculina pare- cepertinentee bern fundamentada... Muito mais apropriada é idia de uma mie, influenciando, mas simpatica com e, portanto, influenciada por seus filhos e se alegrando no aumento de sua criatividade e liberdade. Os tedlogos relacionais freqiientemente tentam se distinguir dos tedlogos do pro- cesso sobre a questo de como o poder de Deus pode agir, insistindo que a teologia relacional descreve um Deus que, embora geralmente limite sua interagdo conosco ao estimulo, ainda é capaz de coergao real, € as vezes age assim. Nés somos livres porque ele escolhe nos dar a oportunidade para fazermos escolhas livres, mas, em qualquer ponto, se as coisas ficarem perigosas, ele pode interromper nossa liberdade para dar um jeito na situagao. Nés somos como uma criancga pequena sentada no colo do pai, que nos permitiu assumir a diregdo e nos deu a sensagdio de completo controle sobre 0 automével da familia. Nés realmente estamos dirigindo. Mas, a qualquer momento, se nds dirigirmos para o acostamento ou se sairmos da faixa, nosso pai corrige nosso erro, embora isso nos tire o privilégio de estarmos em rea/ controle: “Os tefstas da vontade livre reconhecem que Deus nao controla muito daquilo que aconte- ce. Contudo, ao contrario dos tefstas do proceso, eles so inflexiveis em sua crenga de que esse & 0 resultado de uma escolha moral, ¢ nao de uma restricdo externa”? Teologia Drag Queen 67 William Hasker, enquanto discutia a relago entre como o poder de Deus pode ser exercido e como é a presciéncia que ele tem, colocou a questo dessa forma: Formalmente as duas teorias [teologia do proceso e teologia relacional] esto de acordo aqui: Deus sabe 0 que é logicamente possivel que ele saiba, e isso nao inclui o que depende das livres agdes futuras de suas criaturas, Mas, de acordo com o tefsmo da vontade livre, Deus é capaz de saber muito mais do que segundo o tefsmo do processo, porque ele 6 capaz de fazer mais para garantir a realizagdo de seus planos.”* De acordo com Hasker, o Deus relacional pode saber mais do que o Deus do processo, porque ele tem a mao mais livre para controlar nossa vida. Mas nem mesmo essa distingao é levada em conta pelo tedlogo relacional David Basinger. Em seu ensaio Divine Power: Do Process Theists Have a Better Idea? Basinger sugere que as limitagdes colocadas sobre Deus pela teologia do processo sao realmente inconsistentes com as premissas do tefsmo do pro- cesso. Por fim, Basinger conclui que é inconsistente com as premissas do tefsmo do processo que exista a possibilidade de que Deus controle no mesmo nivel que o deus relacional, em vez de simplesmente influenciar nossas decisées. “Em resumo, enquanto podem existir boas raz6es pelas quais o deus do proces- s0 possa nunca controlar nosso comportamento por meio de manipulagao psi- coldgica, eu nao vejo razdo para negar que esse controle seja possivel”.25 Com isso, parece posstvel que 0 deus do processo ¢ 0 deus relacional sejam capazes da mesma influéncia (embora Basinger negue com veeméncia). Diferencas Uma das coisas totalmente cémicas sobre ler livros do género relacional é 0 fato de que os autores relacionais sentem uma obrigagao de explicar, muito freqiientemente, por que a teologia que eles defendem nao é a teologia do proces- so. O efeito lembra um garoto apavorado que, ao olhar para a mae, diz imediata- mente: “Eu nao estava brincando com fésforos, honestamente eu nao estava”. A propria negaciio da acusagdo é suficiente para nos deixar desconfiados. Os escritores relacionais tendem a se distanciar dos tedlogos do processo essencialmente por dizerem: “Sim, € verdade que o Deus que nés estamos des- crevendo age de forma muito parecida com o Deus da teologia do processo, mas a diferenga é que o nosso Deus niio tem que agir assim, ele escothe agir assim”. O Deus da teologia do processo nao é ontologicamente separado da criag%io, mas 6 necessariamente dependente dela. Os defensores da teologia relacional afir- mam que Deus é separado da criagiio, mas escolhe ser dependente dela. Embo- 68 Ew ndo sei mais em quem tenho crido ra essa distingdo esteja muito longe de ser suficiente para distanciar a teologia relacional da teologia do processo, ela deve ser admitida como uma distingiio. Os tedlogos relacionais so totalmente criticos da linha da teologia do processo e fazem um bom trabalho mostrando como um deus que é ontologicamente depen- dente de sua criagio nao pode ser Deus. Pinnock escreve: A teologia do processo nega a independéncia ontolégica, afirmando que Deus precisa do mundo tanto quanto 0 mundo precisa de Deus. Isso deixa de fora a distingdo entre Deus e © mundo, tao central na descrigao da Escritura. Isso faz com que Deus seja passivo demais, capaz somente de experimentar o mundo e organizar os elementos que se apresentam a ele. A Biblia descreve Deus como mais presente no mundo do que isso, como uma Divindade realizando a salvacdio na histéria e movendo todas as coisas em diregiio a uma nova criagiio.° Para alguém que afirma a visao cldssica da soberania de Deus, essa ultima citagao pode ser totalmente frustrante. Quando alguém ouve um proponente da teologia relacional criticando outra posigio por fazer com que Deus seja “pas- sivo demais” ¢ insistindo que nds devemos crer em um Deus que esta movendo todas as coisas, um crente na soberania de Deus pode somente ouvir 0 sujo gritando mal lavado para todo semelhante que vé passar. Distingdes como es- sas podem ser dificeis de se ver para aqueles que esto a alguma distancia de afirmar a posigéio em questiio. Por exemplo, hé algum tempo atrés, enquanto eu estava no centro da cidade fazendo evangelismo, encontrei por acaso um personagem de aparéncia estranha que estava pronto para realizar um show drag em um clube noturno naquela noite. Quando eu comecei a explicar a condenagao biblica ao homossexualismo ele me parou para explicar que ele ndo era homossexual, cra apenas um artista ilusionista-transgenérico, Essa dis- tingdo, embora seja totalmente ridicula para a maioria de nés, parecia a diferen- ¢a entre a noite e o dia para esse homem. Mas, olhando a fundo, tanto a drag queen quanto os defensores da teolo- gia relacional tém seus pormenores. Talvez haja uma diferenga entre a prati- ca homossexual e uma drag queen, e uma diferenga similar existe entre os tedlogos do processo ¢ os relacionais. Contudo, isso nao remove a acusagio de que a teologia relacional é a irma cacula da teologia do processo, pois pequena diferenga nao é um ponto consistente. Se um homem condena o homossexualismo, mas usa um vestido e anda todo enfeitado para despertar a fantasia homossexual de outros homens, nds temos todo o direito de ques- tionar sua auto-professada distancia do piblico gay. Os autores encontram- se em uma posicao igualmente embaracosa, difamando a soberania de Deus em uma tentativa de aumentar sua prépria vontade aut6noma, enquanto rei- Teologia Drag Queen 69 vindicam ser membros da boa ortodoxia. Nés devemos desafid-los: tirem o vestido ou admitam que gostam de garotos. Os tedlogos relacionais tentam manter distancia da teologia do processo recusando-se a negar a creatio ex nihilo, a doutrina de que Deus criou todas as coisas do nada. De muitas formas, essa doutrina se refere 4 propria bondade de Deus, Quando Paulo quer estabelecer diferenga entre os idolos dos atenienses e 0 Deus da Biblia, 6 A criagio de Deus que ele recorre. Quando Jé questiona Deus, Deus o censura apontando para a criacao. E essa divisaio entre Criador e criatura que requer que nds sejamos adoradores ¢ ele seja adorado. Portanto, nés devemos elogiar os te6logos relacionais por afirmarem esse atributo vital de Deus. Mas essa tentativa de se apegar aos remanescentes da ortodoxia coloca os teélogos relacionais em dificuldade. Eles agora tem um pé em cada canoa. Eles devem escolher entre a teologia do processo e a ortodoxia, ou cairo na dgua. Sua atual indecisio nao pode ser mantida. A raziio para isso € simples. Os fil6sofos do processo j4 mostraram qual é 0 preco que deve ser pago pelo homem que quer um Deus distante. Whitehead foi um filésofo brilhante, e ele sabia exatamente 0 que estava fazendo quando fragmentou sua cosmologia. Para alcangar 0 tipo de autonomia de que precisa- va, a destruigao da creatio ex nihilo era absolutamente necessdria. Cobb e Griffin comecam sua introdugao a teologia do processo citando Whitehead: “Whitehead observou que ‘o que quer que sugira uma cosmologia sugere uma religido’”.”” Whitehead sabia que uma religiao é formada por ¢ depende de sua cosmologia. A teologia do processo pressupde que o que ela pensa é verdade sobre a vida nesse mundo (primariamente, o fato de que nossa vontade é auté- noma) e entéo parte desses pressupostos para a cosmologia que deve existir para dar suporte a sua conclusio. Eles concluem, corretamente, que esse tipo de vontade requer um deus que nao nos criou. Eles véem claramente que de- vem se afastar de forma ampla e clara da idéia de um Deus Criador, pois um Deus Criador é necessariamente um Deus Controlador. “A teologia do proces- so rejeita a nogdo de creatio ex nihilo, se isso significar criagdo a partir do nada absoluto. Essa doutrina é parte e parcela da doutrina de Deus como o absoluto controlador”.** Observe que nem mesmo os tefstas do processo véem um meio-termo nesse debate. Ou Deus criou tudo a partir do nada e é 0 Controlador absoluto de todas as coisas ou ele nao criou tudo do nada e niio é tao poderoso. A creatio ex nihilo requer a soberania de Deus. Tentar ficar com um pé em cada canoa é tomar a parte do heterossexual e da drag queen. E, infelizmente para os defensores da teologia relacional, para mudar a metifo- ra, o homem que fica entre dois exércitos toma tiros dos dois lados. Também é interessante a forma pela qual os tefstas relacionais organizam. suas prioridades. De uma forma central, o deus da teologia do processo é me- Ihor que o deus da teologia relacional. Se essa habilidade de dar as criaturas 70 Eu ndo sei mais em quem tenho crido essas escolhas “reais” faz com que um deus seja um deus melhor, entéo um deus que é ontologicamente construfdo nao seria melhor que um deus que ape- nas tenta agir assim na maior parte do tempo? Por exemplo, se nés admitirmos que 0 comportamento moral é uma virtude, entio que tipo de deus seria um deus melhor, um deus que tem comportamento moral edificado sobre sua ontologia ou um deus que tenta ser moral na maior parte do tempo, mas que eventual- mente falha um pouquinho? Obviamente, todos nés concluirfamos que o deus que tem perfeig3o moral fundamentada em seu préprio ser € um deus melhor. Se, como os defensores da teologia relacional afirmam, a mutabilidade de Deus é uma virtude, entdo um deus cuja mutabilidade esté fundamentada em sua ontologia (isto 6, o deus da teologia do processo) parece ser um deus melhor. O fim da linha Para se distanciarem da teologia do processo, os proponentes da teologia relacional sdo obrigados a forgar todos os tipos de inconsisténcia em sua teolo- gia. Os tedlogos do processo, sendo completamente livres das restrigdes da ortodoxia, t¢m o privilégio de poder levar suas premissas a sua conclusao l6gi- ca. De muitas formas, as conclusdes dos tedlogos do processo sao a redutio que os relacionais engolem com relutancia. Por exemplo, tanto na teologia do processo quanto na teologia relacional, pensar em liberdade de escolha € 0 teste para uma existéncia valida. Nossa vida ndo € genuina se nés nao pudermos fazer escolhas livres. Hartshorne, 0 teélogo do proceso, leva essa premissa ao seu fim ldgico. Como a escolha é a condigdo sine qua non de uma existéncia valida, entdo as criangas, que nao nos dao razio para crer que estdo fazendo qualquer escolha real, certamente no devem ser consideradas vida valida. As pessoas sfio muito mais conscientes do processo de decisio do que supomos que os animais sejam. Mas quando nos aproximamos disso, qudio consciente é uma crianga em determinar suas atividades? Se os chimpanzés ndo tém liberdade, muito menos liberdade tem uma crianga, que, pelo teste que parece aplicavel, 6 muito menos inteligente que um chimpanzé adulto (nunca se poderd conjecturar esse fato daquilo que os defensores da vida dizem sobre o feto ser uma pessoa sem qualificago, to frouxo € seu critério de personalidade).” Hartshorne, mais tarde, ressalta ~ “Os psicdlogos sabem que as células de seu [de uma crianga pequena] cérebro devem ter sido amadurecidas definidamente além do estado do recém-nascido, ou de um feto, que alguns Teologia Drag Queen 71 psicélogos tém comparado com as células do cérebro de um porco”.” A vida do feto, para 0 tedlogo do proceso, tem o valor equivalente da vida de um porco. Por qué? Porque os psicdlogos podem nos dizer que esse bebé nao toma decisées, que formariam sua habilidade de fazer escolhas “livres”, que sfio a medida de seu valor. Hartshorne vai além ao dizer que: praticamente toda sociedade até séculos recentes tinha por certo que matar humanos adultos era uma questo muito mais séria do que o infanticfdio (se o infanticidio fosse cometido pelos pais). Isso é suficien- te para mostrar que a idéia de um feto como uma pessoa em pleno sentido ndo € to verdadeira que possa ser usada como uma premissa no-con- trovertida para conclusdes politicas ou morais.*! Por outro lado, o Cristianismo diz que a crianga é uma vida real. Por qué? Porque Deus decretou que fosse assim. Nossas escolhas sio reais e vantajo- sas porque Deus decretou que seria assim. Os defensores da teologia relacional podem se colocar ao lado da ortodoxia classica na questo do aborto, mas eles fazem isso apesar, nao por causa, de suas premissas. Afinal, para eles, somente aqueles que fazem escolhas sao verdadeiramente uma existéncia “teal” viva. Oakland e Miami Enquanto é verdade que os defensores da relacionalidade de Deus nao trans- mitem exatamente a mesma mensagem ensinada pelos tedlogos do processo, a relacionalidade de Deus certamente esté bebendo da mesma fonte. Os defen- sores da relacionalidade tentam se distanciar da teologia do processo dese- nhando um grande espectro e colocando a ortodoxia (sempre retratada como uma retomada do deus ultra-transcendente helenista sem interagao real com este mundo) de lado e a teologia do processo (um deus ultra-imanente que nao € realmente um deus) do outro. Entao, depois que nds ficamos totalmente hor- rorizados com essas duas tinicas opgSes, nds supostamente temos prazer em descobrir que a teologia relacional se coloca exatamente no meio, com um deus que € tanto transcendente quanto imanente. Aqueles de nés que pensam que isso ja foi aleangado em Nicéia obviamente ainda esto sofrendo com a lava- gem cerebral helenista. F claro que colocar 0 Helenismo e a ortodoxia classica lado a lado no es- pectro é algo como dizer que Salt Lake City e Boston sao duas cidades do Noroeste. E chamar a teologia relacional de ponto de equilfbrio entre o Calvinismo ea teologia do processo € algo como dizer que Oakland esté a meio caminho