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Revista de

@ntropologia
da UFSCar
R@U, 8 (1), jan./jun. 2016: 131-146.

Etnografia, história e memória entre


moçambicanos no Brasil: possibilidades e
limitações políticas em campo1
Victor Miguel Castillo de Macedo2
Doutorando em Antropologia/Museu Nacional-UFRJ

Resumo
O presente artigo descreve algumas das vicissitudes do contexto e as estratégias de in-
vestigação adotadas durante uma pesquisa etnográfica entre moçambicanos em Curitiba,
no sul do Brasil (2012-2015). Assim, os objetivos do texto são: narrar as disputas por le-
gitimidade da historiografia moçambicana contemporânea; evidenciar os dilemas encon-
trados diante da possibilidade das memórias e opiniões políticas, registradas na pesquisa,
gerarem constrangimentos para os interlocutores da burocracia estatal; e situar o diálogo
com preocupações históricas e historiográficas como meio para o dimensionamento ético
na etnografia. Para tal, utiliza-se a argumentação construída na dissertação, de modo reor-
denado, a fim de reforçar a ideia de que o cuidado com as disputas historiográficas contri-
buiu, sensivelmente, para lidar com as tensões políticas moçambicanas. Portanto, a reflexão
desenvolvida pretende incentivar a incorporação dos obstáculos, éticos e epistemológicos,
de cada pesquisa etnográfica à produção do objeto investigado e suas inquietações.
Palavras-chave: Memória; Guerra; História; Políticas do Conhecimento.

Abstract
The present article describes some of the vicissitudes of the context and the investiga-
tion strategies adopted during a ethnographic research among Mozambicans in Curitiba,
in southern Brazil (2012-2015). Thus, the objectives of the text are to narrate the legiti-
macy disputes of the Mozambican contemporary historiography and also to evidence the
dilemmas founded before the possibility of political memories and opinions, registered in
the research, create constraints to the interlocutors of the state bureaucracy and, finally, to
1 Agradeço @s parecerist@s da R@U pelos valiosos e necessários apontamentos.
2 Mestre em Antropologia pelo PPGA (UFPR).
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situate the dialogue with historical and historiographical concerns as a way to the ethical
measurement in ethnography. For such, it reinforces the idea that the care with historio-
graphical disputes has contributed sensibly to deal with the Mozambican political tensions.
Therefore, the reflection developed intends to incentive the incorporation of each ethno-
graphic research’s ethical and epistemological obstacles to the production of the object
inquired and its concerns.
Keywords: Memory; Warfare; History; Politics of Knowledge.

Introdução
Na manhã do dia 3 de março de 2015, o professor franco-moçambicano especialista
em Direito Constitucional da Universidade Eduardo Mondlane, Gilles Cistac, foi assassina-
do em frente ao café que frequentava todas as manhãs.
Poucos meses antes, em 30 de janeiro, o mesmo professor havia sugerido numa entre-
vista, a possibilidade de existência de uma forma de governo que garantisse mais autonomia
para províncias que apoiam a oposição ao governo moçambicano. A posição do professor
Cistac se referia à controvérsia instaurada após as últimas eleições presidenciais de Mo-
çambique. A disputa pelo governo ao final de 2014 se dividiu mais uma vez entre os dois
principais partidos do país (como ocorreu em 1994, 1999, 2004, 2009), Frelimo e Renamo.3
Como nas outras disputas eleitorais para a presidência, houve acusações e evidências sobre
fraudes eleitorais, urnas preenchidas com cédulas favoráveis ao partido no poder ou ainda
urnas com mais cédulas que o número de eleitores de cada região. As declarações feitas pelo
constitucionalista tinham a ver portanto, com anseios das populações de regiões aonde a
Renamo era mais forte, nomeadamente o Centro e o Norte do país. O caso do professor Cistac
é exemplar de uma linguagem política marcada pelas memórias e a violência da guerra.
Assim delinear formas de funcionamento desta linguagem e as suas implicações éticas e
políticas para aproximações etnográficas à realidade moçambicana se impõe como parte
necessária a qualquer discussão antropológica sobre tal território.
Os eventos brevemente descritos acima compõem uma discussão a respeito de dilemas
metodológicos que surgiram ao longo de uma pesquisa com estudantes moçambicanos na
cidade de Curitiba – é sobre tais dilemas e as estratégias para dar conta deles, que este
artigo versará. A dissertação de mestrado decorrente da pesquisa – intitulada “Memórias,
Silêncios e Intimidades: Sobre a política no Moçambique contemporâneo” (Castillo de Ma-
cedo 2015) – se centrou nas dinâmicas decorrentes de práticas mnemônicas entre os in-
terlocutores, que mobilizavam compreensões e questões candentes da política contempo-
rânea em Moçambique. Meus interlocutores eram homens e mulheres entre 30 e 40 anos,

3 Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), consti-


tuem as duas maiores forças macro-políticas no Moçambique do período pós-colonial. A Frelimo, inicial-
mente conhecida como organização político-militar que de 1962 a 1975, lutou pela independência do
país. A Renamo, compreendida pela história oficial enquanto uma milícia armada e financiada primei-
ramente pela Rodésia e, posteriormente, pela África do Sul (seguindo os eixos em oposição da Guerra
Fria), começou a atuar no solo moçambicano em 1976. Este grupo iniciou no interior moçambicano
uma guerra (1976-1992) contra o Estado independente e socialista (instaurado pela Frelimo) cujos
efeitos são sentidos até hoje.

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que vieram para Curitiba para fazer seus mestrados, quase todos eles eram bolsistas do
Programa Estudante Convênio Pós-Graduação (PEC-PG), com a exceção de um bolsista da
Fundação Ford.4 Minha proposta foi trabalhar com fragmentos etnográficos evidenciando
momentos coletivos e íntimos que continham diversas temporalidades e sensibilidades
políticas de Moçambique.
Diante do espectro do conflito entre as agremiações altamente militarizadas que atuam
de forma violenta no país, acessar e mobilizar parte dos eventos do período da Guerra Civil
foi uma operação cuidadosa.5 Primeiramente, parto da compreensão de que a atenção aos
processos históricos não pode ser mero esforço de contextualização, mas sim uma forma
de qualificar os elementos significativos das relações de meus interlocutores entre si, bem
como de minha relação com eles. Tendo isso em vista, procuro evidenciar a etnografia
como uma forma de compreensão dos fatos que não se deixa enquadrar na disputa epis-
temológico-política entre as duas interpretações predominantes sobre a história do país
do sul-africano.
Uma vez apresentada tal disputa historiográfica, demonstro parte de meu percurso em
campo e cuidados que tive para dar conta de preocupações de meus interlocutores com as
memórias expostas a respeito da guerra pós-colonial de Moçambique. Tais dilemas éticos,
sobre o ‘como’ escrever a respeito do que não se fala, e a compreensão de que evitar tais
cuidados pode comprometer a vida dos interlocutores, são trazidos na sequência do texto.
Finalizando, situo estes cuidados em relação a preocupações já expostas por pesquisado-
res brasileiros que trabalham com contextos africanos (Trajano et al. 2009) – afim de que
as contribuições possíveis sejam compreendidas em perspectiva.

Contextos que se interpõem


O interesse em compreender a presença de estudantes provenientes do continente
africano no Brasil tem crescido desde os anos 2000. Pesquisas exemplares desse movi-
mento como as de Verônica Tchivela Pedro (2000) e Dulce Mungoi (2006), desenvolveram
4 Não pretendo me demorar na descrição do ambiente em que viviam meus interlocutores moçambica-
nos no período da pesquisa. De forma mais resumida, posso afirmar que eles não fazem parte da elite
urbana cosmopolita da capital, Maputo. Jason Sumich descreve que as redes as quais a elite faz parte
“formam estruturas de poder que ligam, elites, o governo, agências internacionais e de negócios de
maneiras mutualmente beneficentes e auto-sustentadoras” (Sumich 2007: 6). Apesar de a maioria ter
vindo do sul de Moçambique, havia alguns do centro e do norte (à margem do poder central da capi-
tal). A maior parte deles era de engenheiros florestais – ainda assim havia pessoas de outras áreas das
ciências exatas, e alguns poucos das ciências humanas. Eu tratei com mais detalhes das condições de
vida deles em minha monografia de conclusão de curso em Ciências Sociais, intitulada “Moçambique,
Novas Machambas: trajetórias e experiências de engenheiros florestais moçambicanos em Curitiba”
(Castillo de Macedo 2013), ao longo dos anos trabalhando nestas pesquisas conheci ao menos vinte
moçambicanos na condição de estudantes de pós-graduação na UFPR, com oito deles (três mulheres
e cinco homens) tive uma proximidade maior, a qual chamo de intimidade, por razões analíticas que
ficarão mais claras ao longo do texto.
5 A guerra do período pós-colonial é uma temática tão controversa, que mesmo a ideia de uma “Guerra
Civil” é questionada. Alguns autores sugerem que ainda não havia um Estado-nação consolidado após a
independência. Logo as populações em conflito não eram cidadãos de uma mesma nação, voltarei mais
adiante a essa controvérsia.

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leituras que giravam em torno de processos de identificação que se produziam no conví-


vio de africanos de diferentes países do continente no Brasil. Apesar de chamarem a aten-
ção para situações de violência que muitos destes estudantes sofrem, estes dois trabalhos
parecem reproduzir um ideal de identidade africana cosmopolita. Ideal proveniente de
importantes movimentos históricos do continente como por exemplo, o pan-africanismo,
que nem sempre é compartilhado no Brasil com a mesma intensidade de quando surgiram.
Por outro lado, as pesquisas de Carlos Subuhana (2005), Danielle Mourão (2006) e Yara
Ngomane (2010), reduziram seus recortes às limitações nacionais ou regionais – manten-
do a questão da identidade nacional de forma mais estabilizada, ou pouco questionada.
À diferença de tais trabalhos, procurei evitar a sugestão de uma identidade anterior e
estável, ou de um significado unificador, fosse de uma comunidade africana, fosse de com-
patriotas (no caso de meu trabalho, de moçambicanos – ainda que não tenha conseguido
abandonar o indicativo de nacionalidade em comum nas descrições). Com uma proposta
mais modesta, a pesquisa que desenvolvi se aproximou do trabalho de Sara Santos Morais
(2012), no qual a preocupação central foi a volta de moçambicanos que estudaram no
Brasil, e a lógica hierárquica que orienta o interesse em estudar no exterior entre moçam-
bicanos de áreas urbanas. Mais especificamente, o que procurei fazer foi mobilizar identi-
ficações em processo, sem no entanto deixar de considerar as fissuras que compunham as
relações entre moçambicanos em Curitiba. Tais fissuras são decorrentes de sensibilidades
históricas – relacionadas com memórias e pertencimentos regionais. Assim, é certo que
havia uma solidariedade entre meus interlocutores por estarem em um país distinto, mas
esses laços estavam abertos a ingerência de marcadores como o gênero, a profissão, a ge-
ração, a região de origem e a religião de cada um.
Esse breve preâmbulo a respeito dos trabalhos publicados sobre a presença de estu-
dantes africanos no Brasil, e/ou a sua experiência aqui, tem o objetivo de destacar a impor-
tância secundária (talvez o caso do trabalho de Morais seja uma exceção), que a compreen-
são histórica teve para as reflexões empreendidas. Não que seja o caso do resgate de uma
historiografia detalhista e positivista das pesquisas concernindo os países do continente
africano. Mas a ausência de qualquer tipo de imaginação histórica (Comaroff & Comaroff,
2010), termina por esterilizar e ignorar algumas das conflitualidades, agenciamentos e per-
tenças que compõem as dinâmicas políticas contidas nas relações analisadas. Em minha
pesquisa, isso significou procurar compreender como os moçambicanos se relacionavam
em Curitiba, mas também levar em conta o quanto os eventos que ocorriam em seu país
ressoavam em seu cotidiano. A medida que esses diferentes níveis de compreensão iam
se tornando mais complexos em minha relação com eles, mais questionamentos a longo
prazo surgiam. O primeiro momento em que me deparei com isso foi quando tentava dar
um ganho analítico para a situação ocorrida com meu interlocutor João Paulo.6
João Paulo, nascido na província de Inhambane, na cidade de Maxixe no ano de 1979,
fez toda a sua vida escolar, anterior à universidade, nesta localidade. Seu pai trabalhou al-
gum tempo nos correios – durante o período colonial – posteriormente, trabalhou em uma
ONG italiana, e ao final da vida foi contabilista de um posto de gasolina. Sua mãe, até o pe-
ríodo do fim da pesquisa, era dona de casa. Meu interlocutor foi viver na capital de Moçam-
bique, Maputo, para fazer seus estudos em Engenharia Florestal na Universidade Eduardo
6 Os nomes dos interlocutores foram todos alterados para preservar a identidade destes moçambicanos,
as razões para tal compõem o argumento do texto.

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Mondlane.7 Após concluir o ensino superior, pôde conhecer melhor as outras regiões de
seu país – e antes da vinda ao Brasil estava trabalhando em Pemba, capital da província de
Cabo Delgado (no norte, na divisa com a Tanzânia). Ele se tornara um dos coordenadores
provinciais para assuntos envolvendo a comercialização de madeiras. Como a maioria de
seus conterrâneos que vivia em Curitiba, João Paulo trabalhava no Estado.8
No período da entrevista que fiz com ele em 2012, minha preocupação central era com-
preender sua trajetória escolar. Naquela ocasião, aconteceu deste meu interlocutor comentar
sobre sua admiração por Samora Machel9 – não por acaso, foi justo quando havia desligado
meu gravador. Nessa mesma hora, lhe perguntei se de alguma forma a Guerra Civil havia lhe
afetado (uma vez que esta durou quase toda a sua infância), ou se ele se lembrava de algum
conflito que o havia marcado. João Paulo, taxativo em sua resposta, me disse que a guerra
havia passado longe de sua cidade, e por isso não tinha muito a me contar sobre tal evento.
Meses mais tarde, no entanto, quando eu e ele já havíamos nos aproximado mais e par-
te de minha pesquisa de então já estava concluída, sua reação ao comentar este tópico foi
outra.10 Havíamos acabado de sair da defesa de mestrado do moçambicano Eusébio, tam-
bém de Inhambane, que foi quem me apresentou a maior parte dos meus interlocutores.
Nós três e mais um amigo brasileiro de Eusébio, fomos naquele dia a um bar próximo da
reitoria da Universidade Federal do Paraná. Lá, enquanto comentávamos o desempenho
de Eusébio na defesa, o tema da guerra surgiu como um ponto controverso da história
moçambicana. Para explicar a intensidade do evento João Paulo comentou a história de
um tio que sobreviveu ao maior massacre da guerra, ocorrido na cidade vizinha da sua,
Homoíne. Seu tio, que perdeu toda a família durante o massacre (conhecido na literatura
como “Massacre de Homoíne”),11 conforme João Paulo nos contou, ficou anos sem con-
seguir falar. O tio, sobrevivente, vive com o resto da família na Maxixe. Posteriormente,
naquele dia, me questionei o que o teria impedido de me contar esses fatos antes – mas a
questão mais sensível e talvez mais reveladora, seja: como foi possível falar sobre aquilo
que se prefere não lembrar?
As condições da conversa naquele dia certamente eram completamente distintas, mas
não deixavam de conter, como em tantas outras situações que experimentei em campo,
7 Universidade Eduardo Mondlane, ou UEM, leva o nome de um antropólogo nascido em Moçambique e
educado em missões protestantes estadunidenses, que posteriormente se tornou acadêmico e professor.
Isso foi antes de voltar a Moçambique para a criação da Frelimo. Mondlane foi assassinado por uma car-
ta-bomba durante a Guerra de Independência, em 1969.
8 Estas informações são resultado de uma entrevista que fiz com João Paulo no ano de 2012, na pesquisa
que resultou em minha monografia (Castillo de Macedo 2013).
9 Samora Machel, ex-presidente de Moçambique, foi quem liderou a Frelimo na luta pela independência,
foi o primeiro chefe de Estado do país. Antes dele, o líder da Frelimo era Eduardo Mondlane e após sua
morte, Machel assumiu a liderança da organização num processo cercado de intrigas.
10 Esse relato foi utilizado também no segundo capítulo de minha dissertação de mestrado (Castillo de
Macedo, 2015: 38-41).
11 O “Massacre de Homoíne” foi a forma como ficou conhecido o ataque das forças da Renamo à cidade de
Homoíne, na província de Inhambane (no sul de Moçambique). Teve início as 5 horas da madrugada do
dia 18 de julho de 1987, por volta das 10 horas da manhã, muitas pessoas que fugiram com o barulho
dos tiros e procuraram retornar foram surpreendidas pelos homens armados. A extensão do ataque
chegou até hospitais e maternidades. A versão oficial relata como principal responsável pelas mortes
a guerrilha da Renamo. Pessoas que estiveram no local, no entanto, afirmam que os ataques à civis vi-
nham tanto das forças do governo como dos “bandidos” (como eram chamados os da Renamo).

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toda a complexidade do passado recente de Moçambique. Conforme já descreveu Thomaz


(2008: 200), em estudo sobre rumores e efeitos da “Operação Produção”12 em Moçam-
bique, não houve na fala de João Paulo, nenhum “compromisso com a sedução do inter-
locutor” – detalhes, ou descrições mais demoradas a respeito de determinada situação. O
momento de comemoração posterior ao ritual de defesa da dissertação por um conterrâneo
talvez tenha levado João Paulo a uma situação exterior ao cotidiano na qual ele já teve o
tempo de “trabalhar a violência” (conforme Das 1999: 41). Antes de relatar de que forma
minha relação com os demais continha uma intimidade semelhante a que desenvolvi com
este moçambicano, quero demonstrar que a despeito de milhares de traumas pessoais
envolvidos na experiência da guerra, as disputas sobre versões e legitimações de fatos,
também fizeram parte de meu campo com moçambicanos. Observei em outra situação
(Castillo de Macedo 2015: 66), com relação ao espectro mais amplo da sociedade mo-
çambicana, que para aqueles que se preocupavam em construir uma história do territó-
rio moçambicano enquanto um país, uma nação, não se tratava somente de produzir o
esquecimento do fratricídio (Anderson 2008). No caso de guerras internas ao território
nacional e recentes, é preciso notar, como chama a atenção Michael Pollak, a dinâmica dos
“enquadramentos da memória” (Pollak 1989: 9), que solem defender fronteiras e cuidar
da manutenção da coesão interna.
Essas modulações de eventos passados, e as controvérsias que as cercam, evidenciam
questões muito interessantes sobre possíveis leituras a respeito do período posterior à in-
dependência. Refiro-me aqui, especificamente, ao embate entre cientistas sociais ingleses
e franceses, que ocorreu nos últimos 30 anos, com relação ao papel da Frelimo, enquanto
organização promotora de uma modernidade socialista no Moçambique pós-colonial.

Historiografias
As disputas a respeito da acuidade na forma de relatar os eventos e fatos que consti-
tuíram o território que hoje chama-se de Moçambique, se deram entre alguns historiado-
res e antropólogos da esquerda europeia. Apesar de estarem próximos, em um panorama
ideológico mais amplo do jogo político ocidental, tais posições informam e definem posi-
cionamentos como o do professor Gilles Cistac – com quem iniciei a discussão do artigo.
Por outro lado, essa é também uma forma de evidenciar o desdobramento de escolhas e
leituras produzidas por trabalhos antropológicos em Moçambique.
No ano de 1968, em meio a Guerra de Independência contra o colonialismo português,
a linha revolucionária (corrente marxista liderada por Samora Machel) assumiu as rédeas
do partido durante o II Congresso. Um ano após a independência, em 1976, criou-se um
centro de pesquisa dedicado a compreender a realidade das populações que habitavam o
território moçambicano, para posteriormente se definirem as melhores políticas de criação
do “homem novo moçambicano”.13 Este foi o chamado Centro de Estudos Africanos – CEA,
12 Esta foi uma política implementada no período socialista pela Frelimo, iniciada em 1983. Tratava-se de
uma ação policial repressiva que enviava aqueles considerados ‘vagabundos’ (delinquentes, prostitutas
ou desocupados) das cidades para campos de trabalho forçado em zonas rurais de baixa densidade
demográfica (Thomaz 2008: 191).
13 Sobre o projeto do “Homem Novo moçambicano” e no que implicou o marxismo da Frelimo, ver Macagno
(2009: nota 17; 2005: 9) – ideia que se popularizou nos movimentos socialistas europeus a partir dos

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da então Universidade Eduardo Mondlane – UEM (dirigido então pelo intelectual moçam-
bicano Aquino de Bragança) (Fernandes 2013). No início a maior parte dos professores da
UEM eram jovens recém-formados, o CEA aos poucos passou a receber pesquisadores es-
trangeiros, na sua maioria marxistas, interessados em acompanhar as mudanças que se ins-
tauravam naquele contexto e compreender quais haviam sido os legados do colonialismo.
Entre os estrangeiros havia uma maioria anglofalante que advinha da luta sul-africana con-
tra o apartheid. Desta leva, veio a jornalista e pesquisadora Ruth First (Fernandes 2013;
O’Laughlin 2014), que marcou uma geração de pesquisadores ao assumir o comando do
CEA, em Moçambique em 1979. Carlos Fernandes (2013: 20) demonstra que houve três
linhas de pesquisa distintas, mas complementares: Núcleo de Estudos da África Austral,
voltada para estudos sobre conjuntura internacional, especialmente a situação da África do
Sul; o Curso de Desenvolvimento, que foi coordenado por First, era o espaço aonde estraté-
gias de crescimento econômico eram pensadas; e a Oficina de História, dirigida por Aquino
de Bragança, se voltava para a compreensão do que foi o colonialismo em Moçambique.
Em 1986, um antropólogo francês, chamado Christian Geffray, publicou um artigo em
que criticava de maneira contundente a atuação do CEA (em 1982, Ruth First havia sido
assassinada na porta do CEA, e Bragança havia sido morto em um suposto acidente de
avião, poucos meses antes da publicação).14 Para este autor, a submissão dos projetos do
centro de pesquisa ao projeto político da Frelimo não permitia uma compreensão críti-
ca da condição em que se encontravam as zonas rurais moçambicanas (Geffray 1988). O
controverso artigo questionou a terminologia utilizada nas análises sobre tais zonas, nas
quais se usava o termo “campesinato” para definir o modo de vida das populações rurais.
Ele situou tal desuso do conceito enquanto um dispositivo que interessaria aos dirigentes
da Frelimo. Pouco tempo após este artigo, Geffray publica a obra que selaria a diferença
entre sua perspectiva e aquela mais comum na produção de língua inglesa – o livro “A
causa das armas” (primeira edição francesa de 1988, e a versão em português de 1991),
na qual procura demonstrar de que forma as populações rurais se relacionaram com o
conflito entre Renamo e Frelimo. E ainda, porque boa parte desta população se envolveu
na guerra, como a tentativa de modernização do campo e produção de desenvolvimento
econômico a todo custo violentaram cosmologias e saberes tradicionais em grande parte
das regiões Centro e Norte do país.
Em “A causa das armas”, Geffray logrou sistematizar uma leitura que diferencia a sub-
sequente produção francesa do que se produziu na Inglaterra e nos Estados Unidos. Essa
leitura compreende que há uma continuidade na atuação do Estado, entre colonialismo e
socialismo pós-colonial. Apesar das evidentes diferenças nos discursos dos dirigentes da
máquina estatal em cada período, o isolamento da população rural e a manutenção das es-
feras de decisão na região sul do país foram fatores predominantes em ambos os momen-
tos. Ainda que hajam notáveis exceções à divisão heurística entre a produção em francês
e em inglês (como o antropólogo Harry West e o historiador Malyn Newitt), ela continua
a ter rendimentos na produção antropológica recente sobre o país. Alice Dinerman (1994,
2006), por exemplo, se coloca na linhagem de um conjunto de autores como John Saul,

anos 1920, e para uma descrição dos processos que compuseram a ritualística do homem novo moçam-
bicano, no período da guerra de independência, ver a obra de José Luís Cabaço (Cabaço 2009).
14 Apesar das críticas tecidas à organização e proposta do centro de pesquisa, Geffray não deixa de render
uma homenagem ao importante papel político-intelectual de ambos os pesquisadores.

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Allen Isaacman, Bridget O’Laughlin e Joseph Hanlon, para caracterizar Geffray e o histo-
riador Michel Cahen (contemporâneo de Geffray), como revisionistas da história moçam-
bicana. A oposição entre as duas leituras, aparentemente não assumida pelos franceses,
quando vista de fora, parece sinalizar que revisionistas são aqueles que não pretendem
reproduzir e justificar as políticas defendidas então pelo governo socialista da Frelimo
(leituras que se aproximam da compreensão de João de Pina Cabral (2004: 384) a respeito
do “silenciamento das continuidades” entre a história colonial e pós-colonial do país). Tais
posições informam não só parte da história dos debates intelectuais em Moçambique, mas
também os posicionamentos e embates políticos da contemporaneidade no país. Cahen,
por exemplo, sofreu uma espécie de contágio em 1994, ao ter se proposto a acompanhar
as primeiras eleições para a presidência junto a campanha de Afonso Dhlakama, o líder
da Renamo (Cahen 2004). Na ocasião, os rumores falavam sobre a possibilidade de Michel
Cahen ser o intelectual da Renamo – o que seria um contrassenso, uma vez que este é um
historiador de formação marxista e as conclusões de seu estudo não foram de forma algu-
ma uma defesa desta agremiação.
As disputas entre Renamo e Frelimo, se estendem ao plano acadêmico e produzem
contendas entre intelectuais. Estes parecem se diferenciar mais por aquilo que enfatizam
do que por má-fé de alguma das partes. O exemplo me serve neste artigo para demonstrar
o quanto o campo de estudos sobre Moçambique é dotado de tensões. Tendo claro que a
mobilização de eventos na história moçambicana pode desencadear contraposições polí-
ticas tanto na academia quanto na esfera pública, retomo as formas pelas quais me apro-
ximei de meus interlocutores e de suas experiências com mais detalhes.

Percursos do campo
Após ter exposto alguns dos lugares estabelecidos nos estudos sobre Moçambique – e
parte de suas consequências políticas, cabe demonstrar as escolhas metodológicas que se
impuseram a medida que me via mais consciente das limitações éticas presentes em meu
campo de pesquisa.
Adicionado aos condicionantes já enumerados, minha ida a Moçambique durante o
período de pesquisa foi impedida por questões de financiamento. Portanto, estar em Curi-
tiba passou a ser uma escolha. Como havia conhecido o país anos antes, em 2005 (em uma
estada de um mês), eu não era somente um brasileiro interessado em Moçambique. Esse
fator contribuiu parcialmente no estabelecimento de uma relação com os moçambicanos
em Curitiba. Nossa amizade se constituiu assim, aos poucos e de forma eventual. Durante
a pesquisa que fiz para a monografia de graduação, alguns moçambicanos ficaram mais
afastados e até mudaram de ideia após haverem marcado entrevistas comigo. Aparente-
mente, com alguns deles minhas conversas não tinham traquejo, isso foi assim até o dia
em que organizamos um convívio no salão de festas do edifício aonde vivem meus pais.
Convívio era expressão utilizada para chamar estas festas organizadas pelos próprios
moçambicanos. Conforme procurei demonstrar em minha dissertação (Castillo de Mace-
do 2015: 28), estas festas se inseriam em um tipo de pedaço em Curitiba (no uso dessa
expressão tal como Magnani (1984: 137) a definiu), comum a estudantes provenientes

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do continente africano – ainda que participar em festas de outros países sugerisse uma
proximidade afetiva, regional ou linguística (em geral moçambicanos, angolanos, cabo-
verdianos e guineenses tinham uma tendência a se relacionar facilmente, embora isto não
fosse algo isento de conflitos). As motivações para tais convívios eram as mais diversas,
poderiam ser festas de comemoração da independência moçambicana, um aniversário,
ou ainda uma despedida. Essa foi a motivação para o primeiro convívio que fui – graças ao
convite de Eusébio – na metade do ano de 2012.
Meses mais tarde, ao final daquele ano, após haver terminado minha pesquisa para a
monografia, João Paulo me ligou perguntando como poderíamos organizar uma festa de
despedida para ele. Após pensarmos algumas possibilidades, chegamos à conclusão que
seria mais fácil fazermos no salão de festas do edifício aonde eu vivo. Essa situação me
colocou em uma posição ao mesmo tempo delicada e interessante pois pude compreender
como se operava a organização de um convívio e como ele contribuía para a distribuição
de papéis de gênero entre os moçambicanos em Curitiba. Para o presente artigo me inte-
ressa mais, no entanto, explorar os efeitos de minha participação (e de minha família) na
organização do convívio de despedida de João Paulo.
É necessário aqui explicar também que minha mãe morou por três anos em Maputo.
Portanto a organização do convívio em minha casa não aproximou somente meus
interlocutores de minha família. Aproximou estes moçambicanos a um ambiente familiar
que lhes remetia a Moçambique. Além de decorarmos o salão com panos moçambicanos,
nos vestimos também com roupas feitas de capulana.15 O evento ocorreu conforme a or-
dem e os papéis que regem os outros convívios – as mulheres cozinharam e os homens
levaram as bebidas. O almoço foi sucedido por um momento de oração e agradecimento
(que na verdade costuma ocorrer antes da comida), aonde o homem moçambicano mais
velho recebe a todos para o evento e dá graças pelos presentes. Naquele dia Arthur, um
engenheiro que fazia seu mestrado em Engenharia Hidráulica, o mais velho, passou tam-
bém a palavra a meu pai – um momento que emocionou a muitos dos moçambicanos ali
presentes. Meu pai, negro e nascido na República Dominicana, falou das dificuldades que
sofreu nos primeiros anos em Curitiba e contou como foi conhecer Moçambique.
Após esse momento, houve o canto de oração, o “Hino da África”,16 que por sua vez aca-
bou emocionando a mim e a meus pais. Na sequência iniciou-se a segunda parte da festa,
após a comida, quando se começa a colocar músicas para as danças brasileiras e moçambi-
canas. Esta festa adentrou a noite e só terminou às 22 horas pois a música alta é proibida
no edifício após este horário.
Me chamou a atenção como minha proximidade com aqueles moçambicanos que haviam
ficado aumentou consideravelmente no que se seguiu àquele convívio. Especialmente com
os quais eu não consegui entrevistar para minha pesquisa anterior, a organização da festa
serviu como uma moeda de troca comigo e com minha família – uma vez que muitos dos que
voltaram ao seu país para as férias trouxeram presentes (como panos e cervejas) como um
15 Pano de origem indiana que é utilizado (e nomeado) de diferentes formas em muitos países do conti-
nente africano.
16 Naquele dia cantado em língua zulu, mas que já foi traduzido em diversas versões locais das regiões da
África subsaariana: é uma canção com temática cristã. O hino foi feito em 1897 por Enoch Sotonga, da
etnia Chosa. Ele era professor na missão metodista em Johanesburgo. É também considerado o hino do
Congresso Nacional Africano (Partido Sul-Africano).

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140 Etnografia, história e memória entre moçambicanos no Brasil: possibilidades...

gesto de agradecimento. Nos convívios que se seguiram, e em outras ocasiões em que está-
vamos juntos eu era apresentado como alguém que conhecia Moçambique, um brasileiro
“moçambicano”.
Para compreender essa forma de apresentação volto a outra situação na festa que su-
geria uma aproximação com meus interlocutores. Uma das coisas que mais havia chamado
minha atenção quando estive em Moçambique foi o costume de homens darem as mãos en-
quanto conversavam com um amigo. Isso ocorrera comigo algumas poucas vezes na minha
estada por lá. No dia da festa, pude conversar com alguns moçambicanos de mãos dadas, e
percebi que essa situação sugeria um tipo de intimidade incomum com a maioria de seus
amigos brasileiros. Pode-se dizer que de minha parte, aquela foi uma prática incorporado-
ra conforme Paul Connerton (1989: 4-5) define, uma vez que há um descompasso entre
praticar o ato e compreendê-lo plenamente (Connerton 1989: 90). Ainda assim tais práti-
cas corpóreas ou corporificadas estão atreladas a momentos rituais ou ainda a memórias
específicas – sendo uma espécie de prática inscritora para estes moçambicanos (lembran-
do que esta situação ocorreu após a oração cantada).
Logo, mesmo que eu não compreendesse plenamente o significado do toque de mãos
que se mantinha ao longo de conversas sobre situações engraçadas ou enquanto se conta-
vam piadas, o fato de fazê-lo me situava num tipo de intimidade negociada (uma vez que
não ocorria igualmente com todos os moçambicanos). Michael Herzfeld (2008), no traba-
lho em que critica o formalismo que compõe os estudos sobre nacionalismo, demonstra
como o trabalho etnográfico permite que se produza uma forma de intimidade cultural
(Herzfeld 2008: 17), que evidencia fissuras e embaraços uma vez que expõe não somente
o pesquisador, como também as impressões e contrassensos dos sujeitos pesquisados.
Em minha pesquisa não creio ter sido tão clarividente a existência de uma única e unívoca
intimidade, mas sim proximidades eventuais – condicionadas ao que remetiam e em qual
situação nos encontrávamos.
Evidenciar parte da forma como a relação com meus interlocutores moçambicanos se
deslocou, me permite demonstrar para o leitor como pude acessar relatos mais exaltados
a respeito da memória política recente de Moçambique, e ao mesmo tempo o quanto este
cuidado tem a ver com o caráter violento da política no país.

Escolhas da pesquisa
Iniciei este texto trazendo algumas informações sobre o assassinato de Gilles Cistac. Sua
morte impactou muito a meus interlocutores, já que ele representava uma intelectualidade
não comprometida com os interesses da Frelimo. Fossem engenheiros ou sociólogos, todos já
haviam ouvido ou visto alguma palestra sua, e sua morte significou um incômodo indicativo
de que a democracia moçambicana estava extremamente fragilizada. Ainda assim, eu estava
diante da tarefa de expor algumas das impressões a respeito do ocorrido. Enquanto sujeitos
que não aparecem na mídia moçambicana suas leituras a respeito do governo não poderiam
gerar consequências tão nefastas como aquelas que ocorreram com Cistac. No entanto, em
minha posição enquanto pesquisador, trabalhar abertamente com os nomes verdadeiros de
meus interlocutores poderia expô-los a situações constrangedoras – especialmente aqueles

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cujos relatos foram utilizados e que trabalham no governo (praticamente todos). Ademais,
reforçar um recorte individualista me levaria a reduzir as complexidades componentes de
tal espectro político a experiências específicas. Não obstante, experiências como a de João
Paulo se mostraram tão reveladoras que parecia não haver um termo entre generalizações
históricas e memórias pessoais que pudesse permitir uma exploração das complexidades po-
líticas de Moçambique sem expor os sujeitos de interlocução às intempéries de seu próprio
funcionamento perverso.
Procurando dar conta das conflituosas dinâmicas epistemológicas e políticas que per-
mearam meu campo de pesquisa, propus um caminho distinto que não me colocava nem
em um limbo de neutralidade entre as posições concorrentes a respeito da história mo-
çambicana, nem deixando de assumir as responsabilidades que a pesquisa antropológica
supõe com os sujeitos pesquisados. Desta forma, me dispus a desenvolver os desdobra-
mentos da proposta de Marilyn Strathern de tomar as imagens enquanto artefatos. Tal
proposta permite que se leiam os eventos de outra forma – “tomado como performance
deve ser conhecido por seu efeito: ele é compreendido em termos do que contém, das
formas que oculta ou revela, do que está registrado nas ações de quem o testemunha”
(Strathern 2014: 214, grifo da autora).
Levando em conta também a inspiração de Peter Fry (2005: 70) ao compreender a guerra
do período pós-colonial enquanto um ‘evento crítico’ (Das 1996: 6) – que transforma as re-
lações sociais e produz novas formas de ação social – compreende-se que os eventos (desde
seus efeitos) são pontos privilegiados para a leitura destas relações políticas. Nas palavras de
Marilyn Strathern, “o tempo não é uma linha que divide os acontecimentos; ele reside na capa-
cidade de uma imagem evocar o passado e o futuro simultaneamente...” (Strathern 2014: 215),
logo as imagens de violência da guerra permeiam também o período democrático contempo-
râneo. Assim, a guerra, enquanto um evento central e produtor de experiências de violência, é
irredutível a qualquer descrição, mas o que ele produz, os constrangimentos que ele contém
podem ser rastreados, compreendidos e delineados a partir de detalhes e fragmentos.
As remitências ao período da guerra ocorrem de forma intencional e não-intencio-
nal. Seja quando se critica o governo da Frelimo, seja quando tensões e constrangimentos
reais podem ocorrer àqueles que já o criticaram. O assassinato de Gilles Cistac remeteu,
entre os moçambicanos em Curitiba, ao atentado que matou o jornalista Carlos Cardoso
no ano 2000.17 Esse movimento pode ser lido também como uma ressonância da violên-
cia da guerra – o estado constante de alerta, de produção de inimigos que se mantém em
Moçambique. Inevitavelmente, para os moçambicanos urbanos a possibilidade de sofrer
qualquer tipo de retaliação é considerada sempre que se emite uma opinião para tal ou
qual pessoa. Principalmente se essa opinião ou posição vai ser gravada ou registrada em
algum documento – por isso que o acesso aos posicionamentos é condicionado a um grau
de intimidade.
Foi em respeito a intimidade construída, que os nomes foram ocultados. E, além disso,
optou-se por evidenciar as fronteiras borradas das temporalidades políticas de Moçambi-
que. Assim o massacre de Homoíne, reconstruído no trabalho a partir de fontes jornalísticas
limitadas (uma vez que não pude ir a arquivos moçambicanos), me permitiu compreender

17 A morte de Cardoso levou a criação do Movimento Art. 74, pela liberdade de expressão em Moçambi-
que. O mandante teria sido o filho do então presidente Alberto Chissano (também da Frelimo).

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que a disputa por tal ou qual versão da história era também um efeito da guerra pós-colo-
nial. Na forma como estas versões se interpuseram no linguajar político ao qual me deparei
em campo, omitir-me dos dados e questões da história (e da historiografia) contemporânea
de Moçambique passava a ser também uma questão ética. É com esse ponto que pretendo
finalizar este artigo.
Há um reconhecimento na literatura de trabalhos antropológicos voltados ao conti-
nente africano sobre a importância da história e do conhecimento historiográfico acerca
de África para a produção teórico-antropológica. O que quero chamar a atenção, enquanto
uma conclusão desta breve discussão, é o quanto esta é uma etapa importante para uma
compreensão ética da pesquisa etnográfica em contextos como este.

O diálogo com a história para o dimensionamento ético


Para a historiografia, assim como para a
etnografia, são as relações entre fragmentos
e campos que colocam os maiores desafios
analíticos (Comaroff & Comaroff 2010: 21).
Em 1992, Jean e John Comaroff publicaram o livro “Ethnography and the Historical
Imagination”, e no primeiro capítulo do livro (homônimo) os autores realizaram, com base
em suas pesquisas teóricas e empíricas, um recorrido pelos diálogos possíveis entre his-
tória e antropologia. Dentre as observações que evidenciam a importância política (tanto
em termos das políticas do conhecimento, como nos embates da política institucional), e
etnográfica – na possibilidade de uma melhor compreensão das subjetividades e agências –
do diálogo com a história e a historiografia, fica implícita também uma contribuição ética
para nossas pesquisas.
Da mesma forma Wilson Trajano (2012: 25) ao comentar os “usos e abusos” nos estu-
dos sobre fluxos no continente africano, chama a atenção para as perversidades do “pre-
sentismo”. O mesmo autor, em debate registrado documentalmente, recorda a compreen-
são geertzeana de que não estudamos as aldeias, mas nas aldeias (Trajano et al. 2009: 9)
– para chamar a atenção para o cuidado com a tentação de submeter os contextos de pes-
quisa às realidades nacionais macrossociais que estão envolvidas, como na ideia de uma
“Antropologia Brasileira na África”. Na ocasião deste debate, importantes questões foram
levantadas a respeito desse movimento (que me parecem pertinentes a todos brasileiros
que trabalham com o continente africano), cito as principais: “1) Qual ‘antropologia brasi-
leira’ na África?; 2) As fronteiras culturais da África e os limites do Império, das noções de
PALOP18 e de CPLP;19 3) A língua portuguesa: potenciais e armadilhas; 4) Outras questões
políticas”. No decorrer das questões abordadas, me parece que as limitações éticas coloca-
das pelos antropólogos participantes eram nuançadas a partir de compreensões e tensões
históricas e historiográficas em comum com relação ao continente.
Dar atenção a estes fatores (históricos) é compreender, como o fizeram os Comaroff
(ex-alunos de Edmund Leach), a sociedade enquanto um processo no tempo (na versão
18 Sigla da Organização dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
19 Sigla de Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

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brasileira, Leach (2014: 69)). Esse movimento, no entanto, não pode ser feito de qualquer
maneira, as leituras sobre o processo guardam interesses e posições que também com-
põem o tecido de uma etnografia. Ter em conta a dinâmica das versões me possibilitou um
maior cuidado na forma como compunha o argumento de minha pesquisa. Além desse as-
pecto, as sensibilidades históricas da política em Moçambique, permitiram que eu ficasse
mais atento aos condicionamentos da produção de dados etnográficos na minha relação
com os moçambicanos em Curitiba.
Se por um lado pude verificar, conforme avaliou Cristian Geffray em seu artigo de 1988,
um comprometimento maior de alguns autores anglofalantes com a proposta da Frelimo,
pude compreender que às análises dos autores franceses subjazia uma utilização mais
purista de conceitos como “nação” e “Estado”. O que não significou que ambas vertentes
não tenham contribuído para a produção sobre a história de Moçambique. É em situações
como no assassinato do professor Cistac que observamos a violência da dinâmica política
de Moçambique se reproduzir e reiterar os constrangimentos que calam os traumas e
memórias do período da guerra pós-colonial. Esta que continua a produzir vítimas, entre
notáveis e anônimos da população moçambicana.

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Recebido em 30 out. 2015.


Aceito em 05 out. 2016.

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