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a criança rejeitada

ISABEL ADRAtJOS

As crianças não desejadas, que são rejeitadas antes mesmo


do nascimento, assim como as que não são bem aceitas pelos pais
(especialmente durante a primeira infância) costumam apresentar
problemas que são motivo de preocupação para psicólogos e
orientadores.
A rejeição, de acôrdo com Symonds, pode ser estudada
clImo sentimento ou como comportamento. O sentimento de rejeição
refere-se ao ódio e hostilidade que certos pais experimentam pelo
filho.
Quase sempre os motivos, ou melhor, as motivações pro-
fundas que determinam êsse sentimento, são inconscientes: uma
antiga rivalidade para com um irmão ou contra o próprio pai, às
vêzes completamente esquecida, é reavivada e projetada no filho;
êste pode lembrar certas características físicas ou psíquicas de algum
membro da família pelo qual experimentaram sentimentos negativos
em sua infância. Dessa forma, o ódio ou a hostilidade reprimidos
são deslocados para o próprio filho.
Outras vêzes os pais não rejeitam a "pessoa" do filho, mas
certas características da personalidade que odeiam em si mesmos.
Essa não-aceitação do filho, com suas qualidades e defeitos implica,
igualmente, a rejeição. Nesses casos, o sentimento de culpa disfarça,
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cuidadosamente, a atitude hostil, que se apresenta velada e se mani-


festa apenas em forma de críticas quando ~ses pais se referem a
seus filhos.
N as entrevistas psicológicas, verificamos que certas mães
fazem críticas severas do que elas chamam de defeitos graves dos
filhos e que, muitas vêzes, são apenas manifestações mais ou menos
negativas, correspondentes a comportamentos passageiros que podem
ser considerados perfeitamente normais no desenvolvimento evolutivo
da criança.
O motivo da rejeição pode ser também material e imediato,
como dificuldades econômicas, condições precárias ou inadequadas
de moradia, exigências do trabalho dos pais, etc.
Quanto à rejeição como comportamento pode adotar várias
formas, umas passivas, e outras, ativas. Entre as primeiras, é fre-
qüente encontrar atitudes de fastio e indiferença, adotadas pelos
pais na presença do filho. Costumam, êsses pais, justificar tal atitude
alegando falta de disposição, cansaço, incapacidade para suportar o
barulho e as manifestações próprias da criança, física e psiquica-
mente sadia quando age com espontaneidade.
Da mesma forma, os pais que afastam o filho do lar colo-
cando-o num internato "para seu bem"; os que procuram seu afasta-
mento do lar, mesmo na época de férias, providenciando sua partici-
pação sistemática em colônias de férias, viagens, etc; os que procuram
confiar sempre seus filhos 'a mãos de terceiros; os que estabelecem
comparações pejorativas do filho com os próprios irmãos, ou outras
crianças; os que humilham o filho e o ridicularizam, mediante obser-
vações desnecessárias na presença de estranhos, ou mesmo de pessoas
da própria família. Todos êles adotam um comportamento hostil que
envolve atitude mais ou menos velada de rejeição.
Por vêzes, a hostilidade é aberta, ostensiva e se manifesta
em forma de agressões físicas e punições completamente inadequadas
ao estímulo que as originou. Essa hostilidade não é, contudo, tão pre-
judicial à criança como a hostilidade secreta, oculta atrás de uma
serena indiferença. A mãe indiferente costuma descansar o cuidado
dos filhos na avó, numa irmã mais afetiva, na babá, etc.
A ausência completa da mãe, especialmente seu desa-
parecimento, costuma ter conseqüências graves; essa gravidade
aumenta tanto mais quanto menor fôr a idade da criança (Porot).
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As conseqüências desta carência afetiva se manifestam, de ime-


diato ou mais tardiamente, de arôrdo com a resistência física
e psíquica da criança. Spitz emprega o nome de "hospitalismo" para
designar as alterações específicas do doente quando confinado por
muito tempo num hospital. Faz extensível êsse têrmo ao efeito nocivo
experimentado pela criança quando internada muito nova em insti-
tuições. Todos os psicólogos, que tenham trabalhado para instituições
clêste tipo, conhecem bem os sintomas da criança que sofre de carên-
cia efetiva. Em nossa experiência de alguns anos com a Fundação
Romão Duarte, pudemos constatar que, apesar do esfôrço das irmãs
que abnegadamente dedicam suas vidas a essas crianças, apresentam
elas sinais inconfundíveis de apatia e indiferença afetiva, falta de
concentração, lentidão de reações, vocabulário paupérrimo e retarda-
mento mental. Sua inteligência social é nula, razão porque até as
que apresentem Q. I. normal fracassam, quando entram em contato
com o ambiente externo.
Êste síndrome, embora atenuado, pode apresentar-se
também no ambiente familiar quando a mãe se encontra real ou afeti-
vamente ausente. Assim, Heuyer nos fala de "hospitalismo familiar",
têrmo usado para definir os sintomas precoces da criança com ca-
rência afetiva. Temos encontrado síndromes tardios conseqüentes a
essa mesma carência afetiva, que envolve uma rejeição princi-
palmente da figura materna.

Na revisão dos dados anamnésicos dessas crianças, verifi-


camos que existem fases críticas em seu desenvolvimento evolutivo,
durante as quais os pais se mostram mais propensos a rejeitá-los:
a) faE.e uterina durante a gestação, a mãe é muitas vêzes tomada de
um intenso sentimento de mal-estar perante a idéia de tornar-se mãe.
Dessa forma, age ativa ou passivamente para destrun' o feto; b) o nas-
cimento, quando o sexo da criança não corresponde às expectativas
dos pais; c) entre os 2 e 3 anos, quando o pequeno ser começa a se
afirmar e apresenta os primeiros sinais de independência; d) na fase
escolar, quando experimenta as primeiras dificuldades frustrando a
vaidade dos pais. Dentro da fase escolar existem duas épocas parti-
cularmente críticas: o período de alfabetização e a fase preparatória
da admissão ao curso ginasial, sendo esta. particularmente ingrata
por coincidirem as pressões escolares com as primeiras dificuldades
da fase puberal.
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Quanto às crianças, reagem perante essa rejeição familiar


e, principalmente, materna, como em face de outras frustrações: com
agressividade. Essa agressividade pode ser canalizada pela criança
de diversas formas: contra si mesma, contra o ambiente, ou de ma-
neira oscilante. No primeiro caso adotará um comportamento pas-
sivo, submisso, acompanhado, quase sempre de regressão emocional.
Os pais poucas vêzes reagem a essa atitude que encontram
cômoda, a não ser que tal passividade comprometa gravemente o
rendimento escolar ou vital.
. Procuram entretanto as clínicas e institutos de orientação
infantil, quando a criança descarrega sua agressividade no ambiente,
definindo-se por um comportamento instável, quase sempre com
características pré-delinqüenciais (furtos, mentiras, fugas, etc.), sem
falar nas desordens psicopáticas da conduta que envolvem distúrbios
profundos da afetividade. Tais crianças fracassam ao estabelecer seus
primeiros contatos sociais. Além da falta de capacidade para dar e
receber afeto, assim como para estabelecer vínculos afetivos normais,
mostram-se hostis, descontroladas, desatentas e impenetráveis; os
castigos ou as recompensas não os afetam.
São realmente tocantes os resultados que estas crianças
apresentam nos testes de personalidade. No teste de Rorschach, os
protocolos se caracterizam pela constante ausência de respostas cro-
máticas. Mais do que uma repressão, esta falta de respostas de côr,
parece representar uma verdadeira incapacidade afetiva, como se
êsse importante aspecto da personalidade se encontrasse morto.
Goldfarb (citado por Porot) assinalou semelhanças notáveis entre
os protocolos do teste de Rorschach apresentados por crianças de
instituições e por esquizofrênicos da mesma idade.
Apresentamos a seguir um caso, que nos parece signifi-
cativo para ilustrar êste trabalho.
Trata-se de uma criança de 11 anos, caçula numa família
de dois irmãos. O primogênito está com 13 anos.
O Oro segue o curso de admissão e foi trazido ao ISOP pelos
seguintes motivos: furta há dois anos, mente, falsifica a assinatura
dos pais, tem conduta irregular, comportamento muito agressivo e
rendimento precário no colégio; é irrequieto, desatento e ultimamente
sujeito à tiques.
, !

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Planejamos para o estudo do caso, além do exame médico,


duas provas de personalidade e o Binet-Terman para avaliação de
.seu coeficiente intelectual.
Os dados principais da entrevista com a mãe foram os
seguintes: Ficou grávida do Oro quando o primogênito estava com
um ano e 3 meses. Não desejava ter outro filho, pois já não estava
preparada para receber o primeiro . Jamais gostou de crianças, não
tem jeito para lidar com elas, não sabe dar afeto.
, I,

Tomou vários remédios para abortar, sem contudo conse-


guir seu intento. Em conflito consigo mesma, chegou ao têrmo da
gravidez. Passou mal durante o período da gestação, chegando a
ficar internada durante o mês que precedeu ao nascimento do Or.,
quando ficou frustradíssima ao saber que era outro menino.
Foi desmamado precoce e bruscamente, um mês após o
nascimento quando a mãe resolveu trabalhar fora.
Durante o primeiro ano de vida sofreu tôdas as doenças
imagináveis, ao ponto de o médico achar que não sobreviveria. Com
12 meses ainda não sentava, não pronunciava uma única sílaba e não
tinha dentes. Durante a primeira infância era excitadíssimo, mexia
em tudo, não se fixava em nada. Todavia, "ap~nhou tanto que, no
lar, não deu mais trabalho. Ficou apático, indiferente, sem participar
de nada ou entusiasmar-se com coisa alguma".
No colégio, nos primeiros anos, mostrava-se mais alegre e
expansivo chegando a ganhar prêmios por comportamento e aplica-
ção; gostava da professôra, beijando-o à entrada e à saída da escola.
No 2.° ano primário, mudou de professôra. Esta era ríspida
e estabelecia comparações pejorativas com o irmão de quem também
fôra professôra durante 3 anos.
A partir de então, o Or. começou a apresentar sensíveis
sinais de desajustamento que pioraram de ano para ano. Furta di-
nheiro do pai e tira brinquedos e doces das lojas e revistas dos jorna-
leiros, repartindo entre os colegas, negando que tenha furtado.
Não faz os deveres do colégio, não presta atenção na aula,
dando a impressão de estar sempre alheio. :t!:le próprio assina os
bilhetes que a professôra manda para a mãe, pois aprendeu a falsi-
ficar a assinatura dos pais.
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Mente muito, sem motivo e sem alterar a voz ou o sem-


blante, ao ponto de a mãe duvidar se está meniido ou não. O pai
chega a espancá-lo, quando furta ou falsifica a assinatura, sem con-
tudo conseguir fazê-lo chorar, apenas geme quando recebe os golpes.
Após as surras, fica de olhos sêcos, muito abertos, dando a impressão
de olhar sem ver.
A mãe tem formação superior, 33 anos, trabalha fora do
lar e tem vida social muito intensa. Não se preocupa com os pro-
blemas de casa, descansa esta responsabilidade em mãos de empre-
gados. Teve uma infância triste, seu pai era alcoólatra, e tinha um
caráter violento; estudava o curso secundário, interna, quando os
pais se separaram. Tem um único irmão, 3 anos mais nôvo, doente
mental (esquizofrênico).
O pai do ar. é sêco e pouco comunicativo; todavia, tem
adoração pela espôsa e admira o primogênito que acha parecidíssimo
com êle. Não compreende o ar.: não entende porque furta, "em
casa sempre teve brinquedos e comida sobrando". Suspeita que o
filho é deficiente. Quer saber a verdade a êste respeito e está dis-
posto a colaborar, prometendo seguir à .l'Ísca a orientação do ISOP .
. Não suporta a vergonha das queixas que recebe do filho.
A entrevista com o ar. não trouxe maiores esclarecimentos.
Respondia por monossílabos, mostrando-se indiferente e distraído.

Quanto aos testes o resultado foi o seguinte:


Inteligência:

Binet-Terman: Q. I. = 110. Falhou na memória, tanto


, para números quanto para frases, palavras e formas.
Personalidade:

No PMK apresenta uma base fraca e componentes dis-


rítmicos.
No teste de Rorschach, manifesta uma forte afirmação
: agressiva, mas considerando a orientação predominantemente jntro-
versiva de sua personalidade, sugere uma interiorização dessa agres-
sividade o que desperta no ar. intensa ansiedade. Tal ansiedade pa-
rece ligada à figura humana.
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o resultado do exame médico foi normal. Na entrevista


de aconselhamento, o pai sentiu-se orgulhoso ao constatar que o filho
possuía um Q. I. normal. Aproveitamos esta disposição para desper-
tar sua sensibilidade em relação com o Or. fazendo-lhe compreender
até que ponto o filho precisava do seu afeto e estímulo; da necessidade
de proporcionar ao Or. um pouco de segurança emocional e calor
afetivo para colaborar com o tratamento psicoterápico que julgamos
necessário para a sua recuperação. Sugerimos também a conveniên-
cia de um tratamento psicanalítico para a mãe.

Conclusões: o caso em estudo, assim como todos os que


constam nos arquivos do ISOP, sob o rótulo "crianças rejeitadas",
confirmam o já observado por outros psicólogos: (Borwin, Spitz,
Heuyer, Durfee e Wolf, Roudinesco e Appel, Adler, Stekel, Ada
H. Arlitt, Maurice Porot, Anne Freud, Symonds, Artur Ramos etc.) :

a) as crianças não desejadas, quando intensamente rejei-


tadas pela mãe durante a fase da gestação, costumam apresentar
forte predisposição para enfermar física ou psiquicamente;

b) a deficiente incorporação das figuras parentais, e muito


especialmente da mãe, origina marcas indeléveis na personalidade da
ciança;

c) as carências afetivas primárias, quando não com-


pensadas a posteriori, determinam desajustamentos de gravidade
variável;

d) a gravidade dêsses desajustamentos dependerá da


resistênci:a psíquica da criança, das condições fenotípicas e das taras
hereditárias;

e) o prognóstico é sempre seno quando não se tomem


providências enérgicas para a recuperação emocional da criança.
Todavia, em muitos casos, apesar de tõdas as medidas, a criança não
reage, mostrando-se impenetrável; não é possível recuperá-la afeti-
vamente porque sua afetividade foi totalmente destruída. Como
muito bem afirma Maurice Porot, "não se pode capturá-los afeti-
vamente porque não há por onde. Elas não ocultam porque nada
têm para ocultar".
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BmLIOORAFIA

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