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QUESTÕES DE GÊNERO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL Lourdes de Maria Leitão Nunes Rocha

QUESTÕES DE GÊNERO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL

Lourdes de Maria Leitão Nunes Rocha

Universidade Federal do Maranhão, Brasil

Silvane Magali Vale Nascimento

Universidade Federal do Maranhão, Brasil

Vivian Aranha Saboia

Universidade Estadual do Maranhão, Brasil

Helena Hirata

Centre National de la Recherche Scientifique, França

RESUMO

TEMA 1 - O desenvolvimento do capital no campo no contexto atual e os impactos nas relações de gênero

Silvane Magali Vale Nascimento

Na década de 1970, se consolidava no campo o chamado processo de modernização do campo que tem como principal objetivo o aumento da produtividade através do crescente processo de introdução tecnológica e industrialização do processo produtivo. Uma das questões centrais era superar o atraso nas relações de produção a fim de elevar os padrões de produtividade. O capitalismo expandia-se no campo brasileiro. O desenvolvimento de determinadas regiões em termos de produtividade, convivia com a permanência do latifúndio improdutivo. No atual contexto de desenvolvimento do capital no campo, o agronegócio representa a consolidação de um modelo produtivista em contraponto ao latifúndio. Com elevada produção interna e para a exportação, o Brasil vai reafirmando a sua inserção no mercado internacional através de produtos agrícolas, minério de ferro, carne bovina e outros produtos. Com pouco avanço na manufatura, o Brasil tem se constituído em um grande produtor de commodities. Contudo, os impactos sociais, culturais, ambientais e econômicos do ponto de vista da maioria da população no campo têm sido extremamente negativos, expandindo as relações de expropriação e exploração. Esses impactos ocorrem de formas diferenciadas em relação aos sexos. Às mulheres recaem, os ônus pela (des)territorialização e retorialização das populações dentro da lógica de uso que o capital tem feito dos “espaços vantajosos” para a sua atuação: perda de terra, de trabalho, migração dos maridos, desflorestamento, perda dos recursos naturais em geral, têm representado impactos significativos nas relações de gênero no campo brasileiro.

TEMA 2 - Contradições do crescimento face às relações sociais de gênero na atualidade Vivian

TEMA 2 - Contradições do crescimento face às relações sociais de gênero na atualidade

Vivian Aranha Saboia

A segregação do mercado de trabalho de acordo com o gênero é uma realidade que ultrapassa as fronteiras nacionais. Em diversos países as mulheres trabalhadoras se concentram nas atividades cuja valorização e remuneração são proporcionalmente menores se comparadas àquelas nas quais atuam seus homólogos masculinos. Em geral, essa realidade é identificada tanto nos períodos de crise quanto naqueles de crescimento econômico, reforçando a tese segundo a qual a discriminação de gênero no mercado de trabalho possui raízes históricas, sociais, culturais para além das determinações de caráter econômico, isto é, de acumulação de capital. A partir de um amplo estudo sobre o acesso das mulheres no mercado do trabalho brasileiro, particularmente no segmento da construção civil, buscamos compreender as oportunidades e obstáculos que, por um lado, incitam a crescente participação das mulheres em um segmento cujo domínio persiste masculino e, por outro lado, dificultam sua inserção nesse segmento.

TEMA 3 - O desenvolvimento das políticas de cuidados em uma perspectiva comparada: França, Brasil e Japão

Helena Hirata

Socióloga, Diretora de Pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique / CNRS e Co-Diretora do GERS (Genre et Rapports Sociaux), França (aguardando o resumo ser enviado pela palestrante)

O DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL NO CAMPO NO CONTEXTO ATUAL E OS IMPACTOS NAS RELAÇÕES DE

O DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL NO CAMPO NO CONTEXTO ATUAL E OS IMPACTOS NAS RELAÇÕES DE GÊNERO

Silvane Magali Vale Nascimento 1

RESUMO Este artigo aborda a participação das mulheres frente ao contexto das transformações societárias contemporâneas no campo brasileiro, analisa a participação das trabalhadoras rurais no desenvolvimento do campo,anaisa os impactos do agronegócio e outras expressões de acumulação do capital na vida das mulheres. Palavras-chave: desenvolvimento, relações de gênero, agronegócio

ABSTRACT This currente article women’s in the involvement comtemporary society changes context in the brazilian countryside , analyzes the participation the agricultoras women in the development in the countryside, analyzes impacts of agribusiness and other expression in the acumulation the capital in the life the womens. Keywords: development, relation of gender, agribusiness

1-INTRODUÇÃO:

No contexto do Pós-Guerra ficava evidenciada a necessidade do campo superar

as ditas limitações que condicionavam o avanço do capital e seguir à exemplo das cidades,

o modelo de industrialização. Dessa forma, o fenômeno da modernização da agricultura

iniciado nos anos de 1960, consistia em por em prática a matriz de industrialização da

agricultura; o que significou o incremento da base técnica das atividades agrícolas

representada pelo uso de insumos químicos e maquinários, tendo como fundamento a

Revolução Verde (conjunto de medidas voltadas ao desenvolvimento às técnicas,

equipamentos e agroquímicos na agricultura com vistas ao aumento de produtividade).

A participação do Estado foi decisiva através do Sistema Nacional de Crédito

Rural – SNCR. Embora a participação do Estado-desenvolvimentista seja crucial nesse

1 Doutoranda em Políticas Públicas Universidade Federal do Maranhão (UFMA). magalisilvane@bol.com.br

processo, a modernização da agricultura brasileira não ocorreu isolada das demais estratégias de acumulação do

processo, a modernização da agricultura brasileira não ocorreu isolada das demais estratégias de acumulação do capital em escala mundial, conforme lembra Sá Silva (2008). Dessa forma, a participação de empresas multinacionais nesse processo se fará sentir nas fases a montante e a jusante. A concentração fundiária por empresas nacionais e internacionais demonstrará a característica monopolista do capital nessa fase.

A modernização da agricultura brasileira voltou-se cada vez mais para os produtos de exportação com grande aceitação no mercado internacional, como garantia de lucro para a economia nacional. Tal fato exigia mais concentração de terras (monocultura), mais uso de insumos químicos e maquinários, fato que causou impactos negativos no âmbito socioeconômico e ambiental às regiões e populações onde esses investimentos se instalavam. A prática de grilagem, desmatamento, poluição de recursos hídricos e especulação imobiliária com o dinheiro público também foram práticas recorrentes. Enquanto algumas regiões crescem economicamente em termos de agricultura empresarial, outras se transformam tão somente em exportadoras de matérias-primas. E a agricultura familiar camponesa tende a ser reduzida ou reproduzir-se no limite econômico e social.

Nos anos de 1990, o Brasil adere efetivamente ao ideário neoliberal, realizando a denominada abertura econômica. Isso consiste na forte ingerência que o mercado internacional passa a ter sobre a agricultura através das transnacionais. Nessa perspectiva, atuação do Estado condiciona-se à lógica de mercado que está posta, o capital financeiro adquiriu preponderância nas transações comerciais.

A idéia de modernizar o campo adquire nesse contexto novos contornos, expressando uma integração mais estreita entre os capitais sob o conceito operacional de agronegócio, termo surgido nos EUA nos anos de 1955 para designar que a agricultura não representava mais apenas a produção agrícola, agora englobava a fase a montante e a jusante de forma mais fusionada do que havia sido nas décadas de 1960 a 1980.

O agronegócio diferencia-se do “velho latifúndio improdutivo”. Aqui se trata de um segmento que produz, ainda que sob um arcabouço eminentemente produtivista. O Brasil ocupa um lugar de destaque em vários produtos da pauta de exportação. E isso ocorre à revelia dos impactos negativos causados, uma vez que a marca da inserção competitiva no mercado internacional confere ao país, o seu grau de desenvolvimento, mais uma vez significado como crescimento econômico, ainda que os discursos enunciem a ressignificação desse conceito numa perspectiva de sustentabilidade, equidade e justiça social.

A representação social de desenvolvimento é construída a partir dos discursos e imagens veiculadas. A

A representação social de desenvolvimento é construída a partir dos discursos e imagens veiculadas. A imagem construída é de um espetáculo onde tudo se transforma em mercadoria, em elemento para acumulação, para o lucro. É a sociedade do espetáculo conforme Debord: “O espetáculo é o capital em alto grau de acumulação que se torna imagem” (1997, p.25).

Em relação às mulheres, o desenvolvimento pautado na teoria da modernização,

reforçou a dominação sobre as mulheres com base na divisão sexual do trabalho em que o trabalho por sexo é estruturado com base na separação e hierarquia (KERGOAT,1986), designando prioritariamente as mulheres aos espaços reprodutivos e os homens aos espaços produtivos, além de manter as condições de desigualdades frente à participação das mulheres nas esferas produtivas. Dessa forma, no contexto da ideologia do desenvolvimento a inserção das mulheres se deu com base nessa hierarquização, reduzindo e invisibilizando o trabalho das mulheres. Em se tratando das mulheres rurais, essa invisibilidade acentua-se quando se considera a dinâmica da relação entre esfera produtiva e reprodutiva no campo.

O atual desenvolvimento do capitalismo no campo apresenta numeras

configurações dessa relação e seus impactos na vida das mulheres. É sobre essas

questões que o presente trabalho se propõe abordar.

2- O ATUAL MODELO PREDOMINANTE DE DESENVOLVIMENTO NO CAMPO BRASILEIRO

No governo FHC, a política macroeconômica voltado ao mercado nos moldes de

uma economia globalizada fundamentada no ideal neoliberal, priorizou como mecanismos de desenvolvimento para o campo, as políticas de exportação, a formação de divisas, a liberalização do comércio e dessa forma, o incentivo à entrada de empresas estrangeiras, dentre outras ações que tornava evidente o foco no crescimento econômico como sinônimo de desenvolvimento rural. Dessa forma, foi atribuído às políticas sociais o papel de redutoras dos conflitos sociais no campo, e à reforma agrária a função de política compensatória para aqueles que não possuem condições competitivas no mercado.

Mas no segundo mandato de FHC, as crises do modelo neoliberal evidenciadas em âmbito mundial, levam o governo a redefinir algumas orientações. Assim, a concepção de desenvolvimento no campo, voltou-se ao incremento à política fiscal voltada a subsidiar produtos agropecuários competitivos e a financiar investimentos em infra-estrutura para viabilização de grandes projetos agrícolas e minerais (investimentos do capital nacional e

internacional). Nessa lógica produtivista, fica evidente que nem todos os segmentos agropecuários foram tratados de

internacional). Nessa lógica produtivista, fica evidente que nem todos os segmentos agropecuários foram tratados de forma igual. Assim, a agricultura patronal moderna denominada de agronegócio, assume a direção desse processo juntamente com projetos voltados à exploração dos recursos naturais, a exemplo dos minerais. À agricultura familiar camponesa no Brasil, foi dado um tratamento diferenciado nesse contexto (com recursos financeiros menos volumosos, assistência técnica e créditos seletivos).

No conjunto da agricultura familiar camponesa durante as décadas de 1990, as trabalhadoras rurais continuaram em situação desfavorável frente aos homens. Considerando-se os dados de órgãos como o IBGE ficava evidente a sub-representação das mulheres no conjunto das ocupações agropecuárias, expressão da separação entre trabalho produtivo e reprodutivo na unidade familiar de produção agrícola, fato que indicava o descompasso entre as metodologias adotadas nos levantamentos estatísticos oficiais e a realidade do dinamismo da agricultura familiar camponesa como concluímos das pesquisas realizadas por Melo e Di Sabbato (2008). Os dados do INCRA também mostravam a baixa representação das mulheres como beneficiárias da reforma agrária na condição de titulares, situação que chama ainda mais a atenção quando se considera que a Constituição Federal de 1988 garante direitos às mulheres rurais que não foram assistidos pelo Estado, tais como: a titularização de domínio e a concessão de uso de imóveis rurais, conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil (Art.189, Parag. Único).

A prioridade para as comoditties, para o agronegócio, para a produção agrícola exportadora, deixou à agricultura familiar camponesa, poucas possibilidades de crescimento econômico entendido como aumento de produtividade, de produção, de renda e de geração de emprego. Essa dinâmica de acumulação do capital, reatualiza as desigualdades regionais já existentes no país. Nesse sentido, de certa forma, estratégias contidas em planos de desenvolvimento dos governos militares, a exemplo do II Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND são reeditadas com as devidas adequações à realidade do período, considerando aí a participação das transnacionais no comando do agronegócio como principal expressão do desenvolvimento no campo.

Frente à lógica produtivista neoliberal, as mulheres enquanto trabalhadoras constituía a maioria na produção agropecuária para autoconsumo no campo (em 1998, do total de 10. 995,943 homens na agropecuária, 771.48 (7,0%) estavam ocupados com produção para autoconsumo, enquanto do total de 5.342.151 mulheres na mesma atividade, 2.206.809 (41,3%) estavam voltadas à produção para autoconsumo (PNAD/IBGE 1998,

tabulações Melo e Di Sabbato, 2007). Mas apesar desse número expressivo, essas trabalhadoras rurais permaneciam

tabulações Melo e Di Sabbato, 2007). Mas apesar desse número expressivo, essas trabalhadoras rurais permaneciam no final dos anos de 1990, invisíveis para as estatísticas oficiais; fato que resulta do viés androcêntrico presente na economia neoclássica e mesmo na economia política que não considera as atividades que não tem valor no mercado capitalista (Carrasco, 2008).

A redução da ação do Estado na implementação de políticas públicas como serviço de fornecimento de água potável, energia elétrica, saúde e outros, tem impactos na vida das mulheres de maneira a aumentar a sua carga de trabalho nas tarefas domésticas, assim como no trabalho produtivo sob a sua responsabilidade tais como: hortas, criação de aves, suínos etc. Os cuidados com as pessoas, com a casa, são multiplicados à medida que

o Estado não disponibiliza serviços necessários ao bem-estar das famílias e das

comunidades e nesse caso, são as mulheres as responsabilizadas por essa lacuna, através

do

trabalho doméstico não remunerado e não reconhecido.

Durante a década de 1990 e o início da década de 2000, as trabalhadoras rurais

se

articularam local, nacional e internacionalmente através de lutas que lhes garantissem

direitos, concretizadas em políticas e ações efetivadas pelo Estado, como explicita a Plataforma Política Feminista (2002) 2 . Nos anos de 2000, as mulheres rurais brasileiras

junto a outras mulheres de vários países continuaram as suas lutas, porém numa perspectiva mais consolidada em termos das articulações internacionais. As lutas se voltavam de forma mais direcionada contra o modelo neoliberal, se configurando a luta contra o capitalismo, o imperialismo representado pelo capital financeiro, pelas transnacionais e contra o patriarcado (FARIA e MORENO, 2007).

O governo Lula buscou articular uma política econômica alinhada ao neoliberalismo, com uma forte intervenção do Estado no financiamento de infra-estrutura e investimentos em áreas prioritárias à acumulação de capital, ao mesmo tempo em que desenvolveu políticas sociais, com destaque para o combate à pobreza, a exemplo do programa de transferência de renda conhecido como Bolsa Família. Por conta dessa articulação, alguns(mas) estudiosos (as) têm chamado o governo Lula de pós- neoliberalismo desenvolvimentista, neoliberalismo-desenvolvimentista etc. Mas, o fato é que apesar de o governo Lula, continuar a desempenhar a política econômica do governo FHC, havia no governo um discurso e uma prática de cunho mais nacionalista e no final do

2 - Documento elaborado coletivamente pelas organizações de mulheres e militantes feministas durante o ano de 2001, constituindo-se em “um instrumento dos movimentos de mulheres para o diálogo, crítico e provocativo, para o confronto e para a negociação com outras forças políticas e sociais no Brasil”, aprovado na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras em 2002 (Plataforma Política Feminista, 2002, p. 6).

primeiro mandato e no segundo mandato. Porém, não se pode deduzir daí que o governo

primeiro mandato e no segundo mandato. Porém, não se pode deduzir daí que o governo Lula não tenha reafirmado a política econômica neoliberal cujos impactos negativos continuaram a incidir sobre as vidas das trabalhadoras rurais, em contraposição às conquistas dessas mulheres nesse governo.

2.1- As mulheres, a globalização e o desenvolvimento no campo brasileiro contemporâneo

No ano de 2003, no início do governo Lula, foi lançado o II Plano Nacional de Reforma Agrária que apresentava como diferencial, um texto discursivo voltado à garantia de direitos das trabalhadoras rurais através de políticas que oportunizassem a sua participação em várias esferas da vida.

Nesse mesmo ano, foi lançado, o I Plano Nacional de Políticas para Mulheres – I PNPM implementado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, também criada no referido governo. Em 2008, foi lançado o II PNPM. A implantação desses mecanismos e organismo respectivamente, respondem às demandas das Conferências internacionais das Mulheres (em especial a Conferência Pós-Bejing) que demandaram a sua implantação para efetivação das proposições oriundas de tais eventos.

As trabalhadoras rurais brasileiras buscavam alternativas de lutas frente aos condicionantes impostos. As monoculturas continuaram a expandir-se em decorrência da predominância da política de exportação e da consolidação das transnacionais na economia agrícola com vistas à criar excedentes para o pagamento da divida externa. Diante desse fato, as mulheres do campo e das florestas, passaram a conviver com a diminuição de recursos naturais dos quais retiravam sustento alimentar das suas famílias, bem como auferiam rendas com os produtos dali oriundos, como é o caso das trabalhadoras rurais localizadas em povoados invadidos pelo avanço das monoculturas de soja e eucalipto no Maranhão, Piauí, Mato Grosso, e outros estados.

Algumas políticas agrícolas durante a última década, ainda que atreladas à visão empresarial produtivista, tem propiciado de diversas formas a participação de agricultores familiares e outros segmentos de trabalhadores (as) do campo, como é o caso de regiões com relativo avanço nos denominados nichos de mercados, a exemplo da modernização e expansão da fruticultura em regiões de Pernambuco. Mas a esse respeito Cavalcanti apud Cavalcanti, Mota e da Silva (2006), enfatiza que apesar da participação das mulheres na produção de uva em moldes empresariais corresponder a 70% das atividades, os homens ainda têm predominam no conjunto da mão-de-obra inserida nesse sistema de produção,

sob a alegação de que as mulheres acarretam mais ônus aos custos de produção (licença

sob a alegação de que as mulheres acarretam mais ônus aos custos de produção (licença maternidade, seguridade social, além das conseqüências em decorrência do cuidado com a casa e a família).

Em outras regiões observa-se a multiplicação de experiências fragmentadas, denominadas de empreendedorismo no campo e com expressiva participação de mulheres, algumas constituídas apenas por mulheres. Em determinadas regiões, a mecanização da agricultura através do agronegócio tem deslocado as mulheres, em especial as mais jovens para as cidades em busca de trabalho, em outros casos, a mecanização obriga os homens a se deslocarem deixando as mulheres e os filhos nas localidades, situação em que essas mulheres assumem a chefia da família sob diversas condições, em muitas regiões, as trabalhadoras rurais estão se assalariando nos grandes empreendimentos agropecuários, em outros casos, esses empreendimentos são poupadores de mão-de-obra, sobretudo feminina.

A realidade das trabalhadoras rurais brasileiras, expressa a realidade de muitas dessas mulheres em vários países. O relatório da FAO denominado El estado da la agricultura y la alimentación – Las mujeres em la agricultura: cerrar la brecha de gênero em aras del desarollo, publicado em 2011 expõe que,

Las mujeres se enfrentan a uma importante brecha de gênero em el acceso a los recursos productivos. Controlan menos tierras que los hombres, las que controlan suelen ser de peor calidade y carecen de seguridad sobre su tenencia. Las mujeres

poseen menos animales de trabajo necesarios para la agricultura de los hombres. A menudo tampoco controlan los ingressos gerados por los normalmente pequeños

menos crédito y no suelen controlado cuando lo

animales, que gestronam obtien” (FAO, 2011, p.VI).

utilizan

O citado documento reafirma o desafio de colocar a transversalidade de gênero em programas e projetos voltados ao desenvolvimento de todos os países. E mostra a diversidade de situações que configura a presença das mulheres na agricultura nos vários continentes. O patriarcado aliado ao capitalismo se insere no Estado reproduzindo a separação e hierarquização do trabalho como categoria central na análise do que se convencionou chamar de desenvolvimento, deixando às mulheres a responsabilidade pela produção do viver, em condições adversas e sem reconhecimento da sua participação na esfera produtiva e reprodutiva como indissociáveis; fato que se reproduz na esfera pública e privada.

CONCLUSÃO A macroeconomia do ajuste estrutural neoliberal não tem possibilitado às mulheres desenvolverem as atividades

CONCLUSÃO

A macroeconomia do ajuste estrutural neoliberal não tem possibilitado às mulheres desenvolverem as atividades produtivas que antes asseguravam alimentação às famílias com autonomia em relação à recorrência aos produtos industrializados, as monoculturas ao concentrarem terras, ao imporem o controle das transnacionais inclusive na apropriação do saber e dos produtos que ao longo dos anos estiveram sob o controle dessas mulheres como é o caso das sementes, ao destruírem a fauna e a flora de onde as mulheres retiram parte substancial de sua alimentação, remédios e realizam práticas religiosas, retiram das mulheres parte das condições de continuarem a sua reprodução como trabalhadoras rurais, uma vez que em alguns casos, a própria condição da família reproduzir o roçado vai se tornando inviável. Nesse sentido, não é difícil compreender o papel que assume a aposentadoria rural e o Programa Bolsa Família para muitas dessas famílias em várias regiões do país.

Apesar dos programas sociais de eletrificação, abastecimento de água, e outros implementados durante o governo Lula, cujo impacto positivo na vida das mulheres se faz notar de forma significativa, em muitas regiões e estados do país, esses programas ainda apresentam déficit em sua cobertura, o que carreta sobrecarga de trabalho às mulheres. Em relação aos projetos produtivos de geração de renda voltados às mulheres, a sua característica focalizada, deixa um grande contingente de mulheres fora dessa possibilidade, além da falta de êxito que muitos desses projetos evidenciam diante da sua fragmentação na operacionalização, embora muitas experiências sejam exitosas, não cobrem a falta de um planejamento regional voltado efetivamente às potencialidades regionais. Não quero por outro lado, desconsiderar conquistas significativas para as

mulheres durante o governo Lula.

BIBLIOGRAFIA

CARRASCO, C. Por uma economia não androcêntrica: debates e propostas a partir da economia feminista In: SILVEIRA, M. L. da e TITO, N (orgs.). Trabalho doméstico e de cuidados: por outro paradigma de sustentabilidade da vida humana. São Paulo, Sempreviva Organização Feminista, 2005.

CAVALCANTI, J. S. B. de; MOTA, D. M. da e SILVA, P. C. G. da. A nova dinâmica global/local: trabalho e gênero nos novos espaços de fruticultura no nordeste do

Brasil In: Scott., P. e CORDEIRO, R. (orgs.) Agricultura familiar e gênero: práticas, movimentos e

Brasil In: Scott., P. e CORDEIRO, R. (orgs.) Agricultura familiar e gênero: práticas, movimentos e políticas públicas, Recife, Ed. da Universidade da UFPE, 2006.

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DEBORD, G

A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, contraponto, 1997.

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2011

FARIA, N. e MORENO, R. Feminismo e integração da América Latina e do Caribe. São Paulo, Sempreviva Organização Feminista (SOF), 2007.

KERGOAT, D. Em defesa de uma sociologia das relações sociais: da análise crítica das categorias dominantes à elaboração de uma nova conceituação In:

KARTECHEVSKY-BULPORT, Andrée; COMBES, Daniéle; HAICAULT, Monique et all. O sexo do trabalho. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.

Plataforma Política Feminista. Brasília, 2002.

SABBATO, A. Di e MELO, H. P.de. Gênero e trabalho rural 1993/2006 In: BUTTO, A (org.). Estatísticas rurais e a Economia familiar: um olha sobre trabalho das mulheres. Brasília, MDA, 2009 < disponível em WWW.nead.org.br> acesso em 12 de novembro e 2010.

SILVA, J. R. S. Segurança alimentar, produção agrícola familiar e assentamentos de reforma agrária no Maranhão. São Luís, EDUFMA, 2008.

CONTRADIÇÕES DO CRESCIMENTO FACE AS RELAÇÕES SOCIAIS DE GÊNERO NA ATUALIDADE. Introdução Vivian Aranha Sabóia

CONTRADIÇÕES DO CRESCIMENTO FACE AS RELAÇÕES SOCIAIS DE GÊNERO NA ATUALIDADE.

Introdução

Vivian Aranha Sabóia 3

A segregação do mercado de trabalho de acordo com o gênero é uma realidade que ultrapassa as fronteiras nacionais. Em diversos países as mulheres trabalhadoras se concentram nas atividades cuja valorização e remuneração são proporcionalmente menores se comparadas àquelas nas quais atuam seus homólogos masculinos. Em geral, essa realidade é identificada tanto nos períodos de crise quanto naqueles de crescimento econômico, reforçando a tese segundo a qual a discriminação de gênero no mercado de trabalho possui raízes históricas, sociais, culturais para além das determinações de caráter econômico, isto é, de acumulação de capital.

A partir de um amplo estudo realizado entre julho de 2010 e junho de 2011 sobre o acesso

das mulheres no mercado do trabalho do Município de São Luís, particularmente no segmento da construção civil, buscaremos compreender as razões que, por um lado, incitam

a crescente participação das mulheres nesse segmento cujo domínio persiste masculino.

Por outro lado, buscaremos analisar nesse texto os obstáculos que dificultam sua inserção nesse segmento.

De acordo com o Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Município de São Luís é composta por 1.014.837 residentes sendo 53,19% do sexo feminino e 41,31% do sexo feminino em idade ativa i . Trata-se da capital e do principal centro político-administrativo do Maranhão, o segundo Estado brasileiro com a menor renda per capita do país. Entretanto, nos últimos anos, a

economia maranhense vem se expandindo e, em 2008, alcançou 1,3% de participação no produto interno bruto (PIB) nacional, isto é, um aumento de cerca de 13% comparativamente

a 2005 segundo dados do Instituto de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC,

2010b). Em torno de 40% desta riqueza é produzida no Município de São Luís que tem passado por importantes transformações como resultado da implantação de grandes investimentos empresariais. Dentre eles destacamos as Termoelétricas MPX, Miranda do Norte, a Refinaria Premium da Petrobras, a ampliação da Alumar e do Porto do Itaqui,, os investimentos no setor imobiliário devido a chegada de grandes construtoras como a Cyrela, Gafysa, os investimentos públicos realizados com recursos do PAC e aqueles feitos com

recursos de organismos internacionais (BIRD, BID).

3 Doutora. Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). viviansaboia@hotmail.com

Nesse contexto, compreender os movimentos que acompanham estas mudanças é de suma importância, especialmente no

Nesse contexto, compreender os movimentos que acompanham estas mudanças é de suma importância, especialmente no que tange as suas conseqüências sobre o trabalho das mulheres, tradicionalmente e historicamente excluídas do seguimento da construção civil.

Para tanto, faz-se necessário identificar as linhas gerais que caracterizam a evolução recente do mercado de trabalho local destacando, na medida da disponibilização de dados estatísticos, a posição ocupada pelas mulheres.

Nesse sentido, este texto apresenta um panorama dos aspectos recentes do mercado de trabalho do Município de São Luís com uma perspectiva de gênero. O conjunto de informações se refere, inicialmente, às taxas de atividade, às formas de inserção da força de trabalho na atividade econômica e ao desemprego aberto. Em seguida, apresenta-se a qualificação da força de trabalho e, por fim, os padrões de rendimento de acordo com o gênero.

A partir do panorama supracitado e de uma pesquisa empírica – realizada com 8 empresas privadas atuantes em subsetores da construção civil e 11 associações de mulheres – buscaremos compreender a participação das mulheres na construção civil assim como os obstáculos para a sua inserção nesse segmento do mercado de trabalho.

Um retrato do mercado de trabalho de São Luís

A força de trabalho do Município de São Luís, avaliada por sua População Economicamente

Ativa (PEA) ii , representa cerca de 55%, proporção maior do que a média estadual (cerca de

50%), evidenciando seu forte potencial produtivo. O número de homens na PEA de São Luís

é ligeiramente maior do que o de mulheres. Tendo em vista que elas são majoritárias dentre

a população que possui entre 10 e 59 anos de idade, parte considerável da diferença em termos de PEA masculina e feminina pode ser explicada pelo desemprego feminino oculto, pelo desemprego motivado pelo desalento e, enfim, pelo papel de reprodução tradicionalmente atribuído às mulheres no ambiente doméstico.

No que se refere ao setor formal da economia, a evolução do nível de emprego do Município apontou para uma redução no início do século XXI seguido por uma recuperação a partir de meados de 2003. Este aumento tomou um novo impulso a partir do final de 2005 quando a força de trabalho de homens e de mulheres passou de cerca de 180 000 ativos, número semelhante ao do início do século XXI, para cerca de 280 000 em 2008. iii Este crescimento, de pouco mais de 50%, foi semelhante para ambos os sexos embora as mulheres tenham vivenciado uma pequena estagnação ao longo do primeiro semestre de 2007, conforme mostra o gráfico 1.

Gráfico 1: Evolução do trabalho formal em São Luís segundo o sexo Fonte: PNAD, IBGE.

Gráfico 1: Evolução do trabalho formal em São Luís segundo o sexo

Evolução do trabalho formal em São Luís segundo o sexo Fonte: PNAD, IBGE. No que tange

Fonte: PNAD, IBGE.

No que tange a participação relativa das mulheres no mercado de trabalho, elas representavam 42% em 2008 ao passo que os homens representavam 58% da força de trabalho efetivamente empregada. De acordo com o gráfico 2, estes percentuais são ligeiramente superiores aos encontrados em 2001 para os homens (56%) e inferiores aos disponíveis neste mesmo ano para as mulheres (44%). Sem dúvida, isso significa que o crescimento pelo qual o Município de São Luís vem passando ao longo da última década beneficiou mais os homens do que as mulheres, aumentando o gap das desigualdades salariais de gênero no mercado de trabalho.

Gráfico 2: Evolução da composição relativa do mercado de trabalho de São Luís, segundo o gênero

do mercado de trabalho de São Luís, segundo o gênero Fonte: PNAD, IBGE. A desigualdade também

Fonte: PNAD, IBGE.

A desigualdade também se manifesta na distribuição da força de trabalho masculina e feminina nos diversos setores econômicos. Os dados para 2008 mostram que as mulheres estavam mais presentes no setor terciário (serviços, comércio) que concentrava cerca de

metade da força de trabalho feminina empregada. A outra metade se distribuiu no setor primário

metade da força de trabalho feminina empregada. A outra metade se distribuiu no setor primário (agropecuária) e secundário (indústria e construção civil).

O setor da construção civil do Município de São Luis, atual grande empregador em termos relativos, empregava somente 5% das mulheres efetivamente ativas. Os demais 95% eram compostos por homens, conforme mostra o gráfico 3.

Gráfico 3: Trabalhadores por setor econômico segundo o gênero - São Luís, 2008 (%)

setor econômico segundo o gênero - São Luís, 2008 (%) Fonte:PNAD, IBGE. No Município de São

Fonte:PNAD, IBGE.

No Município de São Luís, a procura de trabalho por pessoas em situação de desemprego é bastante significativa e tende a aumentar se considerarmos sua crescente urbanização. Conforme dados apresentados no relatório de Diagnóstico da Economia de São Luís, a sub- ocupação ou subemprego é bastante visível quando se verifica que, em São Luís, 13,68% do total das pessoas ocupadas trabalham até 29 horas semanais, o que corresponde a menos de 6 horas por dia útil da semana (Fórum de Desenvolvimento Sustentável de São Luís, 2006).

Se as estatísticas indicam um desemprego aberto de 22% para o total da força de trabalho do Município (Cerqueira, 2007), não foram encontrados números relativos ao desemprego feminino. Aliás, vale ressaltar que dados sexuados no que tange o mercado de trabalho do Município são bastante escassos. Todavia, ressaltamos que este percentual é, muito provavelmente, superior ao masculino. Esta afirmação tem por base os diversos estudos realizados em nível nacional e regional que apontam para taxas de desemprego feminino superiores às taxas referentes aos homens. iv

Seguindo a tendência nacional, o mercado de trabalho de São Luís também é marcado por um elevado grau de informalidade v . Os dados do Censo Demográfico de 2000 indicaram que, para a população ocupada de São Luís, 45,03% possuem carteira de trabalho assinada, 14,00% são militares ou funcionários públicos estatutários. Isso implica que 40,97% da população ocupada não possui carteira de trabalho assinada. vi

O setor informal, caracterizado por rendas médias bastante reduzidas, pela falta de vínculo e de

O

setor informal, caracterizado por rendas médias bastante reduzidas, pela falta de vínculo

e

de segurança trabalhista, abriga uma vasta heterogeneidade de atividades que se

concentra em torno do comércio, serviços de reparação, de diversão, domiciliar, construção civil, indústria de transformação, confecção e artesanato. Muitos destes setores empregam uma força de trabalho majoritariamente feminina o que reproduz e acentua as desigualdades já postas no âmbito do trabalho regulamentado e protegido por leis. O maior número de mulheres empregadas no setor informal se explica, também, devido ao fato que, muitas das vezes, os empreendimentos informais se localizam na residência das próprias mulheres. Em outros casos os trabalhos informais se efetuam na residência dos clientes. No primeiro caso, o trabalho permite associar atividade remunerada com tarefas domésticas. vii

Um dos trabalhos mais marcados pela informalidade e cuja ocupação é majoritariamente feminina se trata dos trabalhos domésticos efetuados no domicílio do empregador. A título indicativo, no ano de 2000 o Estado do Maranhão contava com 32 459 trabalhadores domésticos, dentre os quais somente 5 696 tinham carteira de trabalho assinada, o que representa 17,55% da força de trabalho efetivamente ocupada nesta atividade específica.

Os dados relativos à inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho merecem ser analisados sob o prisma dos níveis de instrução obtidos por ambos os sexos. Isso porque o papel da educação formal é fundamental para a qualificação dos indivíduos, para a elevação da produtividade assim como para obtenção de melhores salários.

Os dados disponíveis para o mercado formal do Município de São Luís em 2008 mostram um percentual superior de homens nos níveis inferiores de escolaridade e dentre os trabalhadores analfabetos.

De acordo com o gráfico que segue, os homens representam 88% dos trabalhadores analfabetos, 83% daqueles que cursaram até o ensino fundamental e 58% dos que cursaram o ensino médio. No outro extremo, as mulheres representam a maioria dentre a força de trabalho ativa que concluiu o ensino superior.

Gráfico 4: Trabalhadores por escolaridade segundo o gênero – São Luís, 2008 (%)

Trabalhadores por escolaridade segundo o gênero – São Luís, 2008 (%) Fonte: Instituto da Cidade /

Fonte: Instituto da Cidade / SEPLAN. PNAD, IBGE.

Além de evidenciar o grau de escolaridade dos trabalhadores e trabalhadoras inseridas no mercado formal,

Além de evidenciar o grau de escolaridade dos trabalhadores e trabalhadoras inseridas no mercado formal, estes dados mostram que as trabalhadoras analfabetas e àquelas detentoras de um diploma de ensino fundamental se encontram, de certa forma, excluídas do mercado de trabalho formal de São Luís. Esta revelação se mostra preocupante na medida em que a média de anos de estudo para São Luís é bastante baixa (7,47 anos) sendo 7,54 para os homens e 7,34 para as mulheres (Cerqueira, 2007). Este fato repercute diretamente na renda da população feminina empregada e favorece a desigualdade salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho como um todo.

Com efeito, o elevado desemprego e o baixo nível de qualificação da força de trabalho do Município de São Luís incidem sobre o valor da renda média auferida pela população ocupada. Do total de responsáveis pelos domicílios em São Luís, 26,37% percebiam até 1 salário mínimo de rendimento nominal mensal e 49,88% até 2 salários mínimos (IBGE, 2000). Estes valores incluem os mercados formal e informal.

No que tange o mercado de trabalho formal, dados da RAIS/MTE de dezembro de 2010 mostram que, se a renda nominal média ultrapassa ligeiramente três salários mínimos (R$ 1 722,14) persiste uma diferença expressiva no rendimento da população masculina e feminina ocupada no setor formal. Enquanto os trabalhadores beneficiam de uma renda nominal média de R$ 1 771,87, as trabalhadoras auferem em média 6,4% a menos, isto é, R$ 1 650,60. Todavia, vale ressaltar que este percentual é inferior aos números encontrados para o ano de 2008 quando a diferença era de cerca de 11%.

Ressaltamos, ainda, que este diferencial não considera o mercado de trabalho informal, cuja força de trabalho é majoritariamente feminina e cuja renda média é inferior àquela encontrada para o mercado formal.

As mulheres na construção civil

Conforme verificamos, as mudanças vivenciadas no mercado de trabalho recente do Município de São Luís, como resultado da instalação de novos empreendimentos e da expansão de grandes empresas, dizem respeito ao crescimento da economia formal. Uma pesquisa publicada em março de 2010 pelo IMESC relata que este crescimento se concentra em atividades vinculadas, especialmente, aos subsetores da construção civil viii , aos serviços e ao comércio (IMESC, 2010).

A expansão da economia do Município de São Luís acarretou um grande aumento na demanda por força de trabalho, especialmente por força de trabalho masculina. Entre dezembro de 2009 e dezembro de 2010 a força de trabalho dos homens foi a maior beneficiada por essa expansão no que se refere ao conjunto dos setores da economia do município. A exceção fica por conta do setor agropecuário onde o saldo de empregos

formais criados (admissão – demissão) foi positivo para as mulheres e negativo para os homens

formais criados (admissão – demissão) foi positivo para as mulheres e negativo para os homens conforme podemos verificar na tabela 1.

Tabela 1: Variação do emprego formal, São Luís em 31 de dezembro entre 2009 e 2010

Indicadores

Masculino

Feminino

Total

Total das Atividades

33.103

13.948

47.051

Extrativa Mineral Indústria de Transformação Serviços Industriais de Utilidade Pública Construção Civil Comércio Serviços Administração Pública Agropecuária

79

15

94

1.759

143

1.902

362

56

418

17.438

1.393

18.831

3.608

3.039

6.647

6.612

4.710

11.322

3.317

4.558

7.875

-72

34

-38

Fonte: RAIS 2009 e 2010, MTE.

Devido à falta de profissionais qualificados nas áreas vinculadas aos subsetores da construção civil as empresas instaladas em São Luís foram conduzidas, em um primeiro momento, a aumentar a remuneração da força de trabalho. A demanda reprimida, em termos de contratação, gerada pelas empresas dos subsetores de construção resultou, em um segundo momento, no emprego de mulheres em áreas cujo predomínio permanece, ainda hoje, bastante masculino. Associado às tímidas mudanças culturais, ao elevado desemprego feminino e ao aumento dos salários, a construção civil acabou incitando a participação de mulheres nos cursos de qualificação voltados para a construção civil.

Isso explica porque, em 2008, um cadastro de pessoas interessadas em obter cursos profissionalizantes voltados para a construção civil – realizado pela Prefeitura de São Luís nos bairros do entorno da Bacia do Bacanga – culminou com 16 mil inscritos dos quais cerca de 53% eram mulheres.

Entrevistas realizadas com 8 empresas privadas de médio porte atuantes nos subsetores da construção civil ratificaram essa afirmação. As entrevistas constataram que, as oportunidades de trabalho potencialmente existentes nesses setores para as mulheres aumentaram consideravelmente nos últimos anos, embora seu número absoluto permaneça reduzido. Nas empresas pesquisadas, a presença de mulheres no quadro de empregados variava entre 5% e 10%. A única exceção sendo uma empresa de manutenção e recarga de motores que contava com um efetivo de 19 mulheres para um total de 80 empregados.

Quando consideramos exclusivamente o número de mulheres em atividade no campo, isto é, no canteiro de obra, o percentual não ultrapassa 20 a 30% das mulheres empregadas

pelas empresas. Isso significa que em todas as empresas pesquisadas cerca de 70% a 80%

pelas empresas. Isso significa que em todas as empresas pesquisadas cerca de 70% a 80% das trabalhadoras encontrava-se no ambiente administrativo ou de conservação. Trata- se de auxiliares administrativos, assistentes contábeis, secretarias, recepcionistas, serviços gerais. A presença das mulheres em funções administrativas cuja exigência do ensino médio e/ou superior é mais freqüente explica, em grande medida, a diferença salarial entre homens e mulheres ocupados no setor formal da construção civil, conforme evidencia a tabela 2.

Tabela 2: Remuneração média dos empregos formais, São Luís, dezembro de 2010

Indicadores

Masculino

Feminino

Total

Total das Atividades

1.771,87

1.650,60

1.722,14

Extrativa Mineral Indústria de Transformação Serviços Industriais de Utilidade Pública Construção Civil Comércio Serviços Administração Pública Agropecuária

2.843,24

2.423,01

2.786,26

1.796,36

1.094,64

1.634,61

2.157,09

2.484,44

2.224,36

1.238,98

1.489,91

1.255,30

1.063,51

846,03

973,01

1.467,60

1.259,64

1.382,19

2.983,93

2.176,62

2.523,51

995,29

848,13

952,84

Fonte: RAIS, 2010, MTE

Para além dos trabalhos de cunho administrativo, cuja expectativa de recrutamento a curto, médio e longo prazo é quase inexistente, as mulheres estão presentes nas atividades de soldagem, segurança do trabalho, ajudante de obras, mecânica em refrigeração. Elas ocupam a maioria dos postos de trabalho das atividades vinculadas à limpeza das obras e rejuntamento. Conforme afirmação dos engenheiros civis, elas ocupam esses postos por se tratar de atividades que exigem paciência e minúcia, características (ou competências) atribuídas freqüentemente às mulheres. Trata-se de atividades que se assemelham ao trabalho reprodutivo tradicionalmente executado por elas.

Obstáculos para a contratação de mulheres na construção civil

Partindo do meio empresarial, diversas razões dificultam o acesso das mulheres em áreas vinculadas à construção civil ou no próprio setor. Tais razões são alegadas com freqüência para explicar o número reduzido de mulheres no trabalho de campo ou de produção. As razões mais evocadas pelas empresas entrevistadas são as seguintes:

“trata-se de um trabalho com necessidade de força física que a mulher não possui”;

“as mulheres não se sentem a vontade porque o ambiente é muito masculino”;

“não gostam do trabalho”;

“não possuem experiência”; “não passam no teste de seleção”; “são trabalhos que apresentam risco e

“não possuem experiência”;

“não passam no teste de seleção”;

“são trabalhos que apresentam risco e por isso não atraem mulheres”.

Ressaltamos, aqui, o “risco” de gravidez evocado por empresários assim como pelo sindicato de patrões da construção civil. Há, inclusive, uma prática corrente de solicitação de exame de gravidez, especialmente para contratação de engenheiras e técnicas.

Quando questionados sobre a presença de mulheres operárias nos canteiros das obras da construção civil, os operários não possuem uma posição homogênea. Cerca da metade dos entrevistados, aproximadamente sete, avalia positivamente a inserção das mulheres na construção civil. Os demais manifestam uma posição tradicional segundo a qual a construção civil é uma atividade masculina onde não há espaço para as mulheres. As razões mais freqüentes são:

não possuem força física e, por esta razão, “uma mulher operária na obra sobrecarrega a equipe"

não é um ambiente para mulheres

Partindo do cotidiano das mulheres e das relações sociais de gênero – impregnadas por uma cultura tradicionalmente patriarcal – que caracterizam a sociedade local, entrevistas realizadas com 11 lideranças de comunidades e associações de mulheres evidenciaram diversas razões que dificultam o ingresso e a permanência das mulheres no mercado de trabalho, especialmente o da construção civil.

O primeiro motivo consiste na própria imagem do que “deve ser” o trabalho feminino e na

conseqüente recusa, por parte das mulheres, em integrar atividades historicamente masculinas. Esta razão está sendo abandonada pelas mulheres tendo em vista as oportunidades de emprego na construção civil e o novo perfil das famílias, marcado pela

monoparentalidade e pela chefia feminina. ix

O segundo motivo, fortemente recorrente, é a falta de creches ou estruturas por tempo

integral para bebês e crianças menores de 3 anos de idade. Por esta razão, muitas mulheres se vêem obrigadas a abandonar o trabalho em função do nascimento de um filho.

O terceiro motivo é a baixa estima aliada à suposta “idade avançada”. As mulheres com

idade superior a 40 anos têm maior dificuldade em retornar ou ingressar no mercado de

trabalho devido a idade e/ou o período relativamente longo de ausência do mercado de trabalho com vistas a cuidar dos filhos.

O quarto motivo se refere à falta de capacitação e o baixo grau de escolaridade da

população feminina local.

O quinto motivo se deve à falta de experiência de trabalho que, com freqüência, é alegada

pelos empregadores como fator de recusa para a admissão de mulheres.

Ressaltamos que os motivos acima expostos são, muitas vezes, interligados e complementares e conduzem à

Ressaltamos que os motivos acima expostos são, muitas vezes, interligados e complementares e conduzem à produção de situações extremas que resultam, inclusive, no aumento do tráfico de drogas, da prostituição infantil e de mulheres jovens e adultas moradoras de bairros carentes do município. Com efeito, a falta de perspectiva de segurança econômica favorece a vulnerabilidade social e a expansão de alternativas de atividades remuneradas ilícitas e de alto risco.

Conclusão

O crescimento econômico vivenciado pelo Maranhão e, especialmente, pelo Município de São Luís tem se manifestado através do importante aumento das atividades direta ou indiretamente associadas à construção civil. Este é um reflexo da expansão de grande empresas multinacionais assim como da instalação de grandes incorporadoras imobiliárias e dos investimentos públicos federais e internacionais.

No curto prazo, as conseqüências apontaram para o aumento do trabalho formal para homens e mulheres embora, em termos absolutos, os homens tenham sido os maiores beneficiados. A carência de força de trabalho e o aumento dos salários conduziu, respectivamente, à contratação e à atração de mulheres para este seguimento do mercado de trabalho. Todavia, no interior da construção civil, as mulheres permanecem segregadas em determinados postos de trabalho, comumente associados às supostas afinidades ou competências naturalmente femininas.

Isso nos conduz a afirmar que, mesmo em períodos de crescimento econômico e de elevação consideravelmente importante da demanda por força de trabalho, a divisão sexual do trabalho permanece inalterada. Seus princípios norteadores, segregação e hierarquia, seguem válidos manifestando as origens sociais, culturais e históricas da discriminação de gênero para além daquelas de caráter puramente econômico.

Referências Bibliográficas

CERQUEIRA, Carlos Osório. Estudo sobre o desenvolvimento econômico local e a geração de trabalho e renda na Bacia do Bacanga. Prefeitura Municipal de São Luís. São Luís, junho de 2007.

DIEESE. Pesquisa mensal de emprego e desemprego. São Paulo. 2010.

Mapa Socioeconômico de São Luís. Prefeitura de São Luís (acessado em 25 de novembro de 2010, www.saoluis.ma.gov.br/mapaSocioEconomico).

Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Município de São Luís, Diagnóstico da Economia de São Luís, 2006.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo Demográfico, Rio de Janeiro, 2000.

IMESC. Desenvolvimento econômico recente do Maranhão: uma analise do crescimento do PIB e perspectivas, Cadernos IMESC, n°7. São Luís, 2008.

IMESC. Nota de conjuntura. Indicadores de conjuntura do Maranhão . de 2010. São Luís, março

IMESC. Nota de conjuntura. Indicadores de conjuntura do Maranhão. de 2010.

São Luís, março

IMESC. Produto interno bruto do Estado do Maranhão: 2004-2008, São Luís, 2010b.

Projeto Bacia do Bacanga. MMT Planejamento e Consultoria Ambiental, São Luís, 2007.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise da condição de vida da população brasileira em 2007. Estudos e Pesquisas, Informação demográfica e socioeconômica, nº 21, Rio de Janeiro, 2007.

Organização Internacional do Trabalho – OIT, Economic and Labour Market Analysis Department, www.oit.org.

TEORIAS E PRATICAS DO “CARE”. ESTADO SUCINTO DA ARTE, DADOS DE PESQUISA E PONTOS EM

TEORIAS E PRATICAS DO “CARE”. ESTADO SUCINTO DA ARTE, DADOS DE PESQUISA E PONTOS EM DEBATE.

1 Introdução

Helena Sumiko Hirata 4

A partir dos anos 1980 as teorias sobre o “care” (cuidado) tem se desenvolvido no

mundo anglo saxão, mas a retomada desse debate data na França de meados dos anos 2000 e no Brasil, na América Latina e na América Central de um periodo ainda mais recente. As pesquisas sobre o “care” contemplaram num primeiro momento sobretudo o cuidado com as crianças. Quanto ao cuidado com as pessoas idosas, elas foram desenvolvidas em disciplinas como a geriatria, a gerontologia, a enfermagem, a saude publica, e raramente até hoje no âmbito das ciênciais sociais. Entretanto, a tendência é de interesse crescente também nas disciplinas das ciências sociais e humanas dada a crescente longevidade e envelhecimento da população em todas as regiões do mundo, mas particularmente em paises como o Japão e as dificuldades crescentes de fazer assumir o trabalho de cuidado às mulheres, tradicionalmente sujeitos do “care” no âmbito da familia, em virtude da inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho em praticamente todas as regiões do mundo.

A importancia crescente do “care” também para os organismos internacionais ficou

evidenciado no documento-base da CEPAL (2010) apresentado na XI Conferencia Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe em Brasilia, que contém um capitulo sobre “a economia do care”, capitulo que apresenta a definição do “care” de Joan Tronto

(2009)[1993].

Esse dado ressalta a importância progressiva adquirida pelas ocupações ligadas ao cuidado no mundo contemporâneo. Essa evolução recente aponta também para dois outros aspectos socio-politicos: primeiramente o da globalização e das migrações internacionais e internas, induzidas pela demanda pela mão de obra de “care”; em segundo lugar, a questão das orientações de politica e as modalidades de politicas publicas especificas aos paises considerados, para responder a essa necessidade crescente da externalização do “care”. Na Europa e no Japão, pelo fato dos trabalhadores do “care” serem migrantes de outros

4 Socióloga Centre Nacional de la Recherche Scientifique. helena.hirata@gtm.cnrs.fr

paises (asiaticos, africanos) e muitas vezes sem documentos, observa-se mobilizações pelo direito desses trabalhadores

paises (asiaticos, africanos) e muitas vezes sem documentos, observa-se mobilizações pelo direito desses trabalhadores da parte de movimentos sociais e de movimentos sindicais. Trataremos nesse artigo de apresentar, inicialmente, as teorias sobre "care" e “care work”, para em seguida apontar os principais pontos de debate e controversias sobre o tema. Ao faze-lo, apresentaremos ao mesmo tempo alguns resultados preliminares de uma pesquisa empirica sobre o trabalho de cuidado e sobre cuidadoras no Brasil, realizada no Brasil entre outubro de 2009 e setembro de 2010. Nas entrevistas em instituições de longa permanencia para idosos contamos com a colaboração de Myrian Matsuo, pesquisadora da Fundacentro de São Paulo.

2 Teorias sobre “care” e “care work”

O “care” é dificilmente traduzivel porque polissêmico. Cuidado, solicitude, preocupação com o outro, estar atento às suas necessidades, todos esses diferentes significados estão presentes na definição do “care”. Os estudos filosoficos e de sociologia moral e politica, sobretudo no mundo anglo-saxão, trouxeram contribuições importantes sobre a etica e a politica do “care”. As pesquisas de sociologia do trabalho e de sociologia econômica começam também, muito recentemente, a produzir conhecimentos sobre os serviços às pessoas na realidade atual, tanto no mundo ocidental quanto nos paises asiaticos como o Japão, tanto nos países capitalistas desenvolvidos quanto nos paises em vias de desenvolvimento como o Brasil. O trabalho do “care” embora diga respeito a toda a sociedade, é efetuado principalmente pelas mulheres e a analise da divisão sexual do trabalho do “care” tanto no interior da familia quanto nas instituições de cuidados ainda esta por ser feita. A relação entre o “care” remunerado e o “care” não remunerado (o dos membros da familia) também deve ser melhor apreendido pois a fronteira entre ambas é por vezes bastante tênue. O amor, o afeto, as emoções não parecem ser do dominio exclusivo das familias, assim como o cuidado, o fazer, a técnica, não parecem ser do dominio exclusivo das “cuidadoras”, das “acompanhantes”, das “auxiliares” remuneradas. Carol Gilligan, psicóloga do desenvolvimento, fez uma primeira apresentação analítica do que ela considerava ser o "care", o cuidado (Gilligan, 2008, [1982]. Isso foi resultado de uma série de pesquisas empíricas que ela conduziu sobre temas tão diversos quanto a decisão de abortar ou o desenvolvimento moral do jovem). Gilligan abordou a questão do “care” do ponto de vista de gênero, da diferença entre homens e mulheres. Ela

contrapõe a ética do “care” à ética da justiça, ética kantiana então dominante (cf. Também

contrapõe a ética do “care” à ética da justiça, ética kantiana então dominante (cf. Também Moller Okin, 2008 [1989]). Gilligan propõe uma moral alternativa que se baseie sobre a experiência das mulheres, experiência singular, irredutivel, baseada no concreto e nos sentimentos. Sua afirmação de uma personalidade feminina e maternal diferente da dos homens deu lugar a uma polêmica sobre o “essencialismo” de seu enfoque teorico. Joan Tronto, politologa cuja obra principal data dos anos 90 (Tronto, (2009) [1993], ressalta mais os aspectos políticos do “care”. Ela apreende o trabalho do care enquanto atividade e sublinha a repartição desigual do « care » e a desvalorização de que é objeto. Aqui, moral e politica são tratados conjuntamente e as questões das desigualdades de gênero, classe e raça se tornam dimensões centrais. A definição desigual das « necessidades » de cuidados segundo as classes sociais também é um dos aspectos analisados por Tronto. Ela também se refere à « irresponsabilidade dos privilegiados » quanto à realização do « care » e à necessidade de sua real democratização. Carol Gilligan desenvoveu mais o aspecto ético do “care” e Joan Tronto as questões políticas envolvidas pelo "care" (Borgeaud-Garciandia, Hirata, Makdriou, 2010). Pesquisadoras francesas começaram também a trabalhar com a questão do “care”, do cuidado, a partir dos anos 1995. Nesse caso são sociólogas, especialistas em sociologia moral e política, como é o caso de Patricia Paperman; ou filósofas, como Sandra Laugier; ou psicologas do trabalho como Pascale Molinier (Paperman, Laugier 1995; Molinier, Laugier, Paperman, 2009). Tanto Tronto quanto as teóricas francesas do "care" como Paperman, Laugier e Molinier, partem de uma tese central que todas essas categorias de pessoas são vulneráveis e que, na realidade, todos nós somos vulneráveis em algum momento das nossas vidas. Então, o "care" deveria ser detemporizado, desgenerizado, isto é, deveria dizer respeito a homens e mulheres, não apenas ao cuidadores oficiais e os que têm como oficio e são remuneradas para cuidarem, mas que deveria atingir todas as pessoas da sociedade. Porque a sociedade toda precisa de “care”. E fazendo uma crítica feminista ao que é a realidade do “care”, essas autoras dizem que o “care” tem sido teorizado a partir da figura do homem branco, de profissões qualificadas, de classe média abastada, com saúde, na flor da idade. Portanto, o “care” é visto como alguma coisa só para as pessoas idosas, deficientes, enfêrmos, etc.; quando, na realidade nós não deveríamos ter como modelo essa figura do trabalhador homem, maduro, branco, qualificado, etc. A base de reflexão seria o conjunto da humanidade, porque todos tem necessidade de “care”.

No caso do Brasil, os estudos sobre o “care” e o trabalho do “care” foram

No caso do Brasil, os estudos sobre o “care” e o trabalho do “care” foram feitos, não em sociologia, mas sobretudo, em duas disciplinas, que são a enfermagem (Azevedo dos Santos, Rifiotis, 2006) e a gerontologia. Isso se explica pelo fato de uma série de aspectos do cuidado ser relacionado com a questão da saude. Estas disciplinas estão, assim, mais envolvidas do que a ciência política, a economia, a filosofia e a sociologia. Mas o fato do conceito de “care” ser multidimensional e transversal (como os conceitos de trabalho e de gênero) requer cada vez mais um tratamento interdisciplinar da questão.

3 Controvérsias e pontos em debate sobre o “care”

Nesse debate sobre o cuidado e o cuidar, a SOF está certamente na vanguarda do processo de elaboração no Brasil. Na realidade, acho que a brochura sobre cuidado (Silveira, Tito, 2008) foi praticamente uma das primeiras, que eu tenha conhecimento, a usar o termo cuidado tanto no título da brochura quanto nos artigos. Mas há (cf. supra) muito pouca literatura e elaboração sobre o "care" no Brasil.

- O primeiro tema de debate seria essa questão do estado da arte do "care" e como ela evoluiu no espaço e no tempo, e a relação entre o trabalho de cuidado e o trabalho doméstico. A SOF até agora esteve na vanguarda dessa reflexão sobre o "care" porque se interessou desde há muito tempo e já fêz muitas publicações sobre o trabalho doméstico. Mas também sobre a questão do que é o conjunto das relações sociais envolvidas no trabalho doméstico, e a relação deste com tudo que chamamos reprodução e trabalho reprodutivo, que nem sempre são categorias utilizadas pelas pesquisadoras que analisam o trabalho doméstico. A SOF sempre se interessou pelo tema do trabalho reprodutivo, sofreu varias influências como a de Cristina Carrasco e a partir dessas categorias se interessou pelo trabalho de cuidados. Acho que certamente o "care" faz parte do trabalho doméstico, enquanto trabalho doméstico realizado sem remuneração.

- O que é o trabalho doméstico não remunerado e o trabalho doméstico remunerado nos conduz a um segundo tópico de debate que é a questão da externalização e/ou da profissionalização do trabalho doméstico e de cuidados. Aquele trabalho feito gratuitamente, considerado por muitos uma forma das mulheres expressarem amor aos filhos e aos companheiros, uma maneira de exprimir o amor que elas sentem pelos seus familiares. Podemos dizer que não é essa a forma de expressão que os

homens usam para exprimir amor aos filhos e às esposas. Já que a forma de

homens usam para exprimir amor aos filhos e às esposas. Já que a forma de expressão das mulheres é o trabalho doméstico gratuito e essa relação social de amor, de cuidado e que implica uma parte de trabalhos repetitivos, tais como lavar e passar roupa, limpar a casa, cozinhar. Ou seja, de uma maneira geral existe toda uma série de tarefas domésticas que são repetitivas e que praticamente não têm uma relação direta com um ser humano. Ao mesmo tempo, uma parte de cuidados e de trabalho doméstico tem relação direta com pessoas que podem ser crianças, marido, companheiro ou pode ser também o cuidado em relação aos pais ou outras pessoas idosas vivendo na sua casa.

Se quiséssemos definir de maneira muito rigorosa o que é o “care” seria: é o tipo de relação social que se dá tendo como objeto outra pessoa. Descascar batata é “care”, mas de uma forma muito indireta: é “care” porque preserva a saúde, o outro ser. Fazer com que ele continue com saúde implica cozinhar, alimentá-lo, pois precisa desse cuidado material, físico. Então, pode se dizer que tudo faz parte do “care”, mas aí não teríamos mais uma definição mais rigorosa de “care”. Deixar a casa limpa e agradável, deixar a cama cheirosa, agradável, passar o lençol pode fazer parte do trabalho de “care” da empregada doméstica ou da diarista, que deixou tudo feito. Mas no Brasil oficialmente ha 6 milhões e 300 mil trabalhadores domésticos em 2010, dos quais 400 mil são homens e 5 milhões 900 mil são mulheres. Será que podemos dizer que todas essas mulheres que fazem o trabalho doméstico remunerado são trabalhadoras de “care”? O estudo de uma base de dados do SEADE, a PED (Pesquisa emprego e desemprego), com uma amostra de cuidadoras e empregadas domésticas para o ano de 2009, indica que ha muitas empregadas domésticas que cuidam de idosos ou de crianças. Analisando esses dados é possível observar que essas empregadas não são reconhecidas - e muitas vezes não se reconhecem - como cuidadoras nem como babás, e recebem a remuneração de diaristas ou empregadas. Então, é importante estudar o que é o trabalho doméstico remunerado e o que é a relação social de cuidado, quando ele se profissionaliza.

- Assim, outro ponto de debate é a questão da remuneração e da formação profissional. Podemos dizer que a profissionalização do “care” implica num primeiro nível o recrutamento de empregadas domésticas, muitas vezes sem registro e, portanto, sem reconhecimento pelo seu trabalho enquanto trabalho profissional. Em geral recebem 510 ou 560 reais por mês para efetuar o trabalho doméstico e o de cuidados de pessoas idosas. Cuidadoras, acompanhantes, auxiliares de enfermagem, empregadas domésticas, babás, são funções que podem ter consequências danosas para a saúde, mas como se trata de trabalho doméstico elas não têm direitos. As empregadas domesticas não têm INSS, nem

seguro desemprego, não tem direito a hora extra e nem possibilidade de serem indenizadas por

seguro desemprego, não tem direito a hora extra e nem possibilidade de serem indenizadas por acidentes de trabalho. Como é conhecido, existem produtos tóxicos de limpeza como o éter de glicol, sem falar dos inumeros acidentes domesticos. Atualmente ocorre uma série de mobilizações e lutas para que esses direitos possam ser reconhecidos às empregadas domesticas. Sete milhões de trabalhadoras domésticas exigem esses direitos.

As cuidadoras, quando elas são registradas como cuidadoras, têm todos os direitos assim como todos os outros trabalhadores. Se em uma instituição de longa permanência para idosos (ILPIs) elas ganham um pouco mais de um salário mínimo, em casa de família muitas vezes negociam e há famílias que pagam até R$1200 ou R$1800. Mas, nesse caso, muitas vezes elas dormem no trabalho, cuidam do idoso dia e noite e também muitas vezes aos sábados e domingos. Nesses casos, embora sejam registradas como cuidadoras, não têm todos os benefícios e todos os direitos, pois, por exemplo, trabalham em dia de folga e embora recebam R$1200, se na carteira está registrado apenas R$ 800 (e frequentemente os empregadores registram na carteira salarios inferiores aos que efetivamente pagam) , do ponto de vista da aposentadoria receberão pelo que está registrado na carteira e não pelo que realmente ganham. Trabalhadoras com registro de cuidadoras é muito recente pois o ofício de cuidadora só foi registrado na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) em 2002 .

No caso do Brasil, o terceiro nível de profissionalização é como auxiliar de enfermagem ou técnico de enfermagem, que ganham mais que os cuidadores. O que é paradoxal é que, em 2002, foi oficialmente reconhecida a função de cuidadora/or para ser ao mesmo tempo desacreditada, porque as cuidadoras não estão sendo valorizadas como profissão no Brasil. Todas as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) estão substituindo cuidadores por auxiliares e técnicos de enfermagem, porque esse profissional tem a possibilidade de exercer determinadas funções, pelo COREN (Conselho regional de enfermagem), como ministrar remedios, aplicar sondas, etc. As instituições consideram que as cuidadoras não têm formação e, portanto preferem contratar um auxiliar ou técnico de enfermagem, que tem formação e diploma reconhecidos pelo Estado.

Assim, embora reconhecidas como oficio desde 2002 no Brasil, as cuidadoras têm um lugar pouco legitimado nas instituições, o que faz com que elas acabem trabalhando mais com as famílias, estando novamente sujeitas ao não reconhecimento de sua profissão e à degradação salarial.

Assim, esses são os diferentes níveis de profissionalização do “care”no Brasil, sendo o maior nível

Assim, esses são os diferentes níveis de profissionalização do “care”no Brasil, sendo o maior nível o dos os/as enfermeiras, que estão no topo na profissionalização do cuidado devido à formação e diploma de nivel superior.

- Outra questão que nós podemos colocar em debate é a questão das políticas públicas em relação a cuidados. Nós sabemos que há poucas políticas públicas de cuidados e conhecemos muito mais as deficiências em políticas públicas de cuidados em relação ao que diz respeito a babás, creches e etc., inclusive porque há muitos estudos sobre creches. Para as mulheres metalúrgicas da CUT, uma das reivindicações que permaneceu ao longo do tempo, desde 1978, quando aconteceu a primeira conferência, são as creches nas empresas. Desconhecemos estudos aprofundados sobre o que existe em termos de creches em empresas, mas provavelmente existem alguns. A questão da creche sempre foi estudada, trabalhada, houve pesquisas, mesmo ao nivel de assessoria dos sindicatos, que sempre colocaram a questão da creche como pauta, mas também ao nível dos bairros, das prefeituras.

Mas em relação ao cuidado de idosos, só recentemente encontramos informaçoes sobre políticas públicas de cuidado a idosos. Se os agentes de proteção social (Georges, 2009, Garcia dos Santos, 2010) tem a preocupação de cuidar de toda a familia, inclusive idosos, a Secretaria municipal de saúde de São Paulo conta com um serviço de acompanhamento exclusivamente de idosos e há uma grande ONG que emprega três mil pessoas que conta com um grupo que trabalha num programa denominado PAI - Programa de Acompanhamento de Idosos. Pode-se dispor nessa ONG de um mapa com as regiões onde as UBS atendem os idosos em algumas regiões. Há grupos constituidos por médicos, auxiliares de enfermagem, enfermeiro e mais 15 cuidadores por grupo, sendo 50 grupos ao todo. Há, assim, uma série de cuidadores recrutados com financiamento público. Essa é uma das modalidades de política publica, porém de escopo ainda muito limitado. Evidentemente 150 cuidadores para os 2 milhões de idosos na cidade de São Paulo é uma gota no meio no oceano, mas a tendência é de desenvolvimento desse tipo de serviço aos idosos, dado o crescimento da população idosa no Brasil, e particularmente em metropoles como São Paulo. - A penúltima questão é das migrações, a questão dos fluxos migratórios internos e internacionais em relação à política do “care”. Por si só é um tema bastante amplo. Aqui mencionamos apenas o fato de que se trata de um desenvolvimento bastante importante dos fluxos migratórios dos países do Sul para os países do Norte. Por exemplo, dos países mais pobres da América Latina e Ásia há migração para países da Europa e

América do Norte. Dos paises como o Brasil e dos paises mais pobres da Asia

América do Norte. Dos paises como o Brasil e dos paises mais pobres da Asia ha migração para o Japão. Esse fluxo fez com que a migração de mulheres tenha se tornado mais importante que a migração de homens nos últimos dez anos. Até então as migrações masculinas eram majoritárias, pois tratava-se de homens que iam procurar emprego em outros países, deixando mulher e filhos nos paises de origem. Atualmente cada vez maiores contingentes de mulheres dos paises do Sul partem sos, para o trabalho de cuidados de crianças, idosos, doentes e deficientes físicos em países do Norte. No Brasil trata-se mais de migração interna do que de migração internacional, migração sobretudo dos Estados do Nordeste em direção aos Estados do Sudeste. Portanto, trata-se de migrações internas no caso do Brasil, de migrações internacionais no caso do Japão e França. Trata-se de milhões de mulheres que migram em direção aos países do Norte e vão cuidar de crianças, que vão ter as cuidadoras como segunda mãe. E no caso dos países em que elas deixaram seus filhos, as crianças estão com familiares ou com o pai ou com uma cuidadora. Essas crianças que ficaram com os pais ou familiares, sem a mãe, podem ter problemas escolares ou de saúde mental (cf. Hochschild, in Ehrenreich, Hochschild, 2003; cf. Parreñas, 2001).

- Um último ponto em debate: a questão do “care” e da saude. No trabalho diário com os idosos, entre os problemas de saúde que mais foram notados, primeiro, foi o isolamento da atividade, pois esses idosos são pessoas que vivem sozinhas e a única companhia são os cuidadores. Os idosos têm poucas visitas, uma vez cada duas semanas, por exemplo, os filhos moram longe ou às vezes eles nem têm filhos, ficam em total isolamento. Outro problema é o esgotamento físico e psíquico do cuidador. Cuidar durante muitas horas, por muitos dias sem descanso, dia e noite, sem folga, isso tudo leva a um esgotamento físico e psíquico, além de dores na coluna e outros problemas de saude. As dores na coluna é um dos males mais freqüentes. Um bebê tem 4 ou 5 quilos, mas um idoso mesmo muito magro pesa mais de 40 quilos. Problemas de coluna são uma das causas frequentes de afastamento de funcionarios nas ILPIs. Também nas entrevistas realizadas no sindicato dos empregados domésticos do Municipio de São Paulo, a menção mais frequente é dor na coluna e outras dores físicas, também, como dores no braço, provocadas por idosos que agridem os cuidadores, assim os machucando. No sindicato entrevistamos uma trabalhadora agredida violentamente por sua patroa idosa; ela sofreu um AVC no dia seguinte à agressão verbal e ficou inapta ao trabalho, não conseguindo mais emprego.

Também entrevistamos trabalhadoras que sofreram queda limpando armários, mas isso não era reconhecido como acidente de trabalho, porque as empregadas domésticas, como ja mencionamos acima, não têm todos os direitos trabalhistas, mesmo que sejam

remuneradas para fazer aquele trabalho, não como membro da família, mas como pessoas que cuidam

remuneradas para fazer aquele trabalho, não como membro da família, mas como pessoas

que cuidam profissionalmente de um estranho fora da sua propria casa.

Enfim, em um dos últimos colóquios (coloquio de Cerisy) realizados na França

sobre o "care" em 2010, a maioria dos temas de debate falava sobre o cuidar de si mesmo e

o cuidar a si mesmo. A problemática do “care” se estende assim ao auto-cuidado. Nós,

militantes, fazemos tudo salvo cuidar de nos mesmos porque ficamos nesse produtivismo

em termos de tempo e uso do tempo que realmente contradiz a ética do “care”, tal como

acabamos de apresentar. A situação de hiperatividade é totalmente contrária ao cuidado de

si. Fica aqui, portanto como uma ultima dimensão a analisar no debate sobre o conceito de

“care”.

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i Consideramos, a população cuja idade varia entre 10 e 59 anos.

ii População ocupada e desocupada maior de 10 anos de idade.

iii A partir dos dados extraídos do RAIS/MTE para 2010, constatamos que o emprego formal atingiu, em dezembro de 2010, o número recorde de 324 299 ativos sendo 192 063 homens e 132 236 mulheres.

iv Dados estatísticos mostram que, nas 6 principais regiões metropolitanas do Brasil em 2010, o desemprego feminino é, em média, superior ao masculino em cerca 5% (DIEESE, PED, 2010). No Brasil, o desemprego masculino foi estimado em 6,1% e o feminino em 10% no ano de 2008 (OIT,

2008)

v A OIT define o trabalho informal como sendo a unidade econômica caracterizada pela produção em pequena escala, pelo reduzido emprego de técnicas e pela quase inexistente separação entre o capital e o trabalho, Tais unidades também se caracterizam pela baixa capacidade de acumulação de capital e por oferecerem empregos instáveis e reduzidas rendas.

vi Dados estatísticos referentes ao Censo Demográfico de 2010 sobre o mercado de trabalho do município de São Luís e demais municípios serão disponibilizados pelo IBGE no segundo semestre de 2012.

vii O Maranhão é o Estado brasileiro no qual as mulheres dedicam o maior número de horas semanais para realização de atividades domésticas. Dados para 2006 indicam que neste Estado as mulheres executam uma média de 30,4 horas de trabalhos domésticos por semana ao passo que os homens respondem por 12,5 horas. Os números para o Brasil são, respectivamente, de 24,8 horas e 10 horas (PNAD/IBGE, 2007).

viii Entre 2007 e 2009 o Maranhão registrou um crescimento de 90% na concessão de

viii Entre 2007 e 2009 o Maranhão registrou um crescimento de 90% na concessão de novos financiamentos para aquisição de imóveis (Nota de conjuntura econômica, IMESC, março de 2010).

ixix ix No Maranhão, mais da metade das famílias chefiadas por mulheres (55,3%) viviam com rendimento inferior a meio salário mínimo mensal per capita em 2006 (PNAD, IBGE, 2007).

TEORIAS E PRATICAS DO “CARE”. ESTADO SUCINTO DA ARTE, DADOS DE PESQUISA E PONTOS EM

TEORIAS E PRATICAS DO “CARE”. ESTADO SUCINTO DA ARTE, DADOS DE PESQUISA E PONTOS EM DEBATE.

1 Introdução

Helena Sumiko Hirata

ço

A partir dos anos 1980 as teorias sobre o “care” (cuidado) tem se desenvolvido no

mundo anglo saxão, mas a retomada desse debate data na França de meados dos anos 2000 e no Brasil, na América Latina e na América Central de um periodo ainda mais recente. As pesquisas sobre o “care” contemplaram num primeiro momento sobretudo o cuidado com as crianças. Quanto ao cuidado com as pessoas idosas, elas foram desenvolvidas em disciplinas como a geriatria, a gerontologia, a enfermagem, a saude publica, e raramente até hoje no âmbito das ciênciais sociais. Entretanto, a tendência é de interesse crescente também nas disciplinas das ciências sociais e humanas dada a crescente longevidade e

envelhecimento da população em todas as regiões do mundo, mas particularmente em paises como o Japão e as dificuldades crescentes de fazer assumir o trabalho de cuidado às mulheres, tradicionalmente sujeitos do “care” no âmbito da familia, em virtude da inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho em praticamente todas as regiões do mundo.

A importancia crescente do “care” também para os organismos internacionais ficou

evidenciado no documento-base da CEPAL (2010) apresentado na XI Conferencia Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe em Brasilia, que contém um capitulo sobre “a economia do care”, capitulo que apresenta a definição do “care” de Joan Tronto

(2009)[1993].

Esse dado ressalta a importância progressiva adquirida pelas ocupações ligadas ao cuidado no mundo contemporâneo. Essa evolução recente aponta também para dois outros aspectos socio-politicos: primeiramente o da globalização e das migrações internacionais e internas, induzidas pela demanda pela mão de obra de “care”; em segundo lugar, a questão das orientações de politica e as modalidades de politicas publicas especificas aos paises considerados, para responder a essa necessidade crescente da externalização do “care”. Na Europa e no Japão, pelo fato dos trabalhadores do “care” serem migrantes de outros paises (asiaticos, africanos) e muitas vezes sem documentos, observa-se mobilizações pelo

direito desses trabalhadores da parte de movimentos sociais e de movimentos sindicais.

Trataremos nesse artigo de apresentar, inicialmente, as teorias sobre "care" e “care work”, para em

Trataremos nesse artigo de apresentar, inicialmente, as teorias sobre "care" e “care work”, para em seguida apontar os principais pontos de debate e controversias sobre o tema. Ao faze-lo, apresentaremos ao mesmo tempo alguns resultados preliminares de uma pesquisa empirica sobre o trabalho de cuidado e sobre cuidadoras no Brasil, realizada no Brasil entre outubro de 2009 e setembro de 2010. Nas entrevistas em instituições de longa permanencia para idosos contamos com a colaboração de Myrian Matsuo, pesquisadora da Fundacentro de São Paulo.

2 Teorias sobre “care” e “care work”

O “care” é dificilmente traduzivel porque polissêmico. Cuidado, solicitude, preocupação com o outro, estar atento às suas necessidades, todos esses diferentes significados estão presentes na definição do “care”. Os estudos filosoficos e de sociologia moral e politica, sobretudo no mundo anglo-saxão, trouxeram contribuições importantes sobre a etica e a politica do “care”. As pesquisas de sociologia do trabalho e de sociologia econômica começam também, muito recentemente, a produzir conhecimentos sobre os serviços às pessoas na realidade atual, tanto no mundo ocidental quanto nos paises asiaticos como o Japão, tanto nos países capitalistas desenvolvidos quanto nos paises em vias de desenvolvimento como o Brasil. O trabalho do “care” embora diga respeito a toda a sociedade, é efetuado principalmente pelas mulheres e a analise da divisão sexual do trabalho do “care” tanto no interior da familia quanto nas instituições de cuidados ainda esta por ser feita. A relação entre o “care” remunerado e o “care” não remunerado (o dos membros da familia) também deve ser melhor apreendido pois a fronteira entre ambas é por vezes bastante tênue. O amor, o afeto, as emoções não parecem ser do dominio exclusivo das familias, assim como o cuidado, o fazer, a técnica, não parecem ser do dominio exclusivo das “cuidadoras”, das “acompanhantes”, das “auxiliares” remuneradas. Carol Gilligan, psicóloga do desenvolvimento, fez uma primeira apresentação analítica do que ela considerava ser o "care", o cuidado (Gilligan, 2008, [1982]. Isso foi resultado de uma série de pesquisas empíricas que ela conduziu sobre temas tão diversos quanto a decisão de abortar ou o desenvolvimento moral do jovem). Gilligan abordou a questão do “care” do ponto de vista de gênero, da diferença entre homens e mulheres. Ela contrapõe a ética do “care” à ética da justiça, ética kantiana então dominante (cf. Também Moller Okin, 2008 [1989]). Gilligan propõe uma moral alternativa que se baseie sobre a

experiência das mulheres, experiência singular, irredutivel, baseada no concreto e nos sentimentos. Sua afirmação de

experiência das mulheres, experiência singular, irredutivel, baseada no concreto e nos sentimentos. Sua afirmação de uma personalidade feminina e maternal diferente da dos homens deu lugar a uma polêmica sobre o “essencialismo” de seu enfoque teorico. Joan Tronto, politologa cuja obra principal data dos anos 90 (Tronto, (2009) [1993], ressalta mais os aspectos políticos do “care”. Ela apreende o trabalho do care enquanto atividade e sublinha a repartição desigual do « care » e a desvalorização de que é objeto. Aqui, moral e politica são tratados conjuntamente e as questões das desigualdades de gênero, classe e raça se tornam dimensões centrais. A definição desigual das « necessidades » de cuidados segundo as classes sociais também é um dos aspectos analisados por Tronto. Ela também se refere à « irresponsabilidade dos privilegiados » quanto à realização do « care » e à necessidade de sua real democratização. Carol Gilligan desenvoveu mais o aspecto ético do “care” e Joan Tronto as questões políticas envolvidas pelo "care" (Borgeaud-Garciandia, Hirata, Makdriou, 2010). Pesquisadoras francesas começaram também a trabalhar com a questão do “care”, do cuidado, a partir dos anos 1995. Nesse caso são sociólogas, especialistas em sociologia moral e política, como é o caso de Patricia Paperman; ou filósofas, como Sandra Laugier; ou psicologas do trabalho como Pascale Molinier (Paperman, Laugier 1995; Molinier, Laugier, Paperman, 2009). Tanto Tronto quanto as teóricas francesas do "care" como Paperman, Laugier e Molinier, partem de uma tese central que todas essas categorias de pessoas são vulneráveis e que, na realidade, todos nós somos vulneráveis em algum momento das nossas vidas. Então, o "care" deveria ser detemporizado, desgenerizado, isto é, deveria dizer respeito a homens e mulheres, não apenas ao cuidadores oficiais e os que têm como oficio e são remuneradas para cuidarem, mas que deveria atingir todas as pessoas da sociedade. Porque a sociedade toda precisa de “care”. E fazendo uma crítica feminista ao que é a realidade do “care”, essas autoras dizem que o “care” tem sido teorizado a partir da figura do homem branco, de profissões qualificadas, de classe média abastada, com saúde, na flor da idade. Portanto, o “care” é visto como alguma coisa só para as pessoas idosas, deficientes, enfêrmos, etc.; quando, na realidade nós não deveríamos ter como modelo essa figura do trabalhador homem, maduro, branco, qualificado, etc. A base de reflexão seria o conjunto da humanidade, porque todos tem necessidade de “care”. No caso do Brasil, os estudos sobre o “care” e o trabalho do “care” foram feitos, não em sociologia, mas sobretudo, em duas disciplinas, que são a enfermagem (Azevedo dos Santos, Rifiotis, 2006) e a gerontologia. Isso se explica pelo fato de uma série de aspectos

do cuidado ser relacionado com a questão da saude. Estas disciplinas estão, assim, mais envolvidas

do cuidado ser relacionado com a questão da saude. Estas disciplinas estão, assim, mais envolvidas do que a ciência política, a economia, a filosofia e a sociologia. Mas o fato do conceito de “care” ser multidimensional e transversal (como os conceitos de trabalho e de gênero) requer cada vez mais um tratamento interdisciplinar da questão.

3 Controvérsias e pontos em debate sobre o “care”

Nesse debate sobre o cuidado e o cuidar, a SOF está certamente na vanguarda do processo de elaboração no Brasil. Na realidade, acho que a brochura sobre cuidado (Silveira, Tito, 2008) foi praticamente uma das primeiras, que eu tenha conhecimento, a usar o termo cuidado tanto no título da brochura quanto nos artigos. Mas há (cf. supra) muito pouca literatura e elaboração sobre o "care" no Brasil.

- O primeiro tema de debate seria essa questão do estado da arte do "care" e como ela evoluiu no espaço e no tempo, e a relação entre o trabalho de cuidado e o trabalho doméstico. A SOF até agora esteve na vanguarda dessa reflexão sobre o "care" porque se interessou desde há muito tempo e já fêz muitas publicações sobre o trabalho doméstico. Mas também sobre a questão do que é o conjunto das relações sociais envolvidas no trabalho doméstico, e a relação deste com tudo que chamamos reprodução e trabalho reprodutivo, que nem sempre são categorias utilizadas pelas pesquisadoras que analisam o trabalho doméstico. A SOF sempre se interessou pelo tema do trabalho reprodutivo, sofreu varias influências como a de Cristina Carrasco e a partir dessas categorias se interessou pelo trabalho de cuidados. Acho que certamente o "care" faz parte do trabalho doméstico, enquanto trabalho doméstico realizado sem remuneração.

- O que é o trabalho doméstico não remunerado e o trabalho doméstico remunerado nos conduz a um segundo tópico de debate que é a questão da externalização e/ou da profissionalização do trabalho doméstico e de cuidados. Aquele trabalho feito gratuitamente, considerado por muitos uma forma das mulheres expressarem amor aos filhos e aos companheiros, uma maneira de exprimir o amor que elas sentem pelos seus familiares. Podemos dizer que não é essa a forma de expressão que os homens usam para exprimir amor aos filhos e às esposas. Já que a forma de expressão das mulheres é o trabalho doméstico gratuito e essa relação social de amor, de cuidado e que

implica uma parte de trabalhos repetitivos, tais como lavar e passar roupa, limpar a casa,

implica uma parte de trabalhos repetitivos, tais como lavar e passar roupa, limpar a casa, cozinhar. Ou seja, de uma maneira geral existe toda uma série de tarefas domésticas que são repetitivas e que praticamente não têm uma relação direta com um ser humano. Ao mesmo tempo, uma parte de cuidados e de trabalho doméstico tem relação direta com pessoas que podem ser crianças, marido, companheiro ou pode ser também o cuidado em relação aos pais ou outras pessoas idosas vivendo na sua casa.

Se quiséssemos definir de maneira muito rigorosa o que é o “care” seria: é o tipo de relação social que se dá tendo como objeto outra pessoa. Descascar batata é “care”, mas de uma forma muito indireta: é “care” porque preserva a saúde, o outro ser. Fazer com que ele continue com saúde implica cozinhar, alimentá-lo, pois precisa desse cuidado material, físico. Então, pode se dizer que tudo faz parte do “care”, mas aí não teríamos mais uma definição mais rigorosa de “care”. Deixar a casa limpa e agradável, deixar a cama cheirosa, agradável, passar o lençol pode fazer parte do trabalho de “care” da empregada doméstica ou da diarista, que deixou tudo feito. Mas no Brasil oficialmente ha 6 milhões e 300 mil trabalhadores domésticos em 2010, dos quais 400 mil são homens e 5 milhões 900 mil são mulheres. Será que podemos dizer que todas essas mulheres que fazem o trabalho doméstico remunerado são trabalhadoras de “care”? O estudo de uma base de dados do SEADE, a PED (Pesquisa emprego e desemprego), com uma amostra de cuidadoras e empregadas domésticas para o ano de 2009, indica que ha muitas empregadas domésticas que cuidam de idosos ou de crianças. Analisando esses dados é possível observar que essas empregadas não são reconhecidas - e muitas vezes não se reconhecem - como cuidadoras nem como babás, e recebem a remuneração de diaristas ou empregadas. Então, é importante estudar o que é o trabalho doméstico remunerado e o que é a relação social de cuidado, quando ele se profissionaliza.

- Assim, outro ponto de debate é a questão da remuneração e da formação profissional. Podemos dizer que a profissionalização do “care” implica num primeiro nível o recrutamento de empregadas domésticas, muitas vezes sem registro e, portanto, sem reconhecimento pelo seu trabalho enquanto trabalho profissional. Em geral recebem 510 ou 560 reais por mês para efetuar o trabalho doméstico e o de cuidados de pessoas idosas. Cuidadoras, acompanhantes, auxiliares de enfermagem, empregadas domésticas, babás, são funções que podem ter consequências danosas para a saúde, mas como se trata de trabalho doméstico elas não têm direitos. As empregadas domesticas não têm INSS, nem seguro desemprego, não tem direito a hora extra e nem possibilidade de serem indenizadas

por acidentes de trabalho. Como é conhecido, existem produtos tóxicos de limpeza como o éter

por acidentes de trabalho. Como é conhecido, existem produtos tóxicos de limpeza como o éter de glicol, sem falar dos inumeros acidentes domesticos. Atualmente ocorre uma série de mobilizações e lutas para que esses direitos possam ser reconhecidos às empregadas domesticas. Sete milhões de trabalhadoras domésticas exigem esses direitos.

As cuidadoras, quando elas são registradas como cuidadoras, têm todos os direitos assim como todos os outros trabalhadores. Se em uma instituição de longa permanência para idosos (ILPIs) elas ganham um pouco mais de um salário mínimo, em casa de família muitas vezes negociam e há famílias que pagam até R$1200 ou R$1800. Mas, nesse caso, muitas vezes elas dormem no trabalho, cuidam do idoso dia e noite e também muitas vezes aos sábados e domingos. Nesses casos, embora sejam registradas como cuidadoras, não têm todos os benefícios e todos os direitos, pois, por exemplo, trabalham em dia de folga e embora recebam R$1200, se na carteira está registrado apenas R$ 800 (e frequentemente os empregadores registram na carteira salarios inferiores aos que efetivamente pagam) , do ponto de vista da aposentadoria receberão pelo que está registrado na carteira e não pelo que realmente ganham. Trabalhadoras com registro de cuidadoras é muito recente pois o ofício de cuidadora só foi registrado na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) em 2002 .

No caso do Brasil, o terceiro nível de profissionalização é como auxiliar de enfermagem ou técnico de enfermagem, que ganham mais que os cuidadores. O que é paradoxal é que, em 2002, foi oficialmente reconhecida a função de cuidadora/or para ser ao mesmo tempo desacreditada, porque as cuidadoras não estão sendo valorizadas como profissão no Brasil. Todas as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) estão substituindo cuidadores por auxiliares e técnicos de enfermagem, porque esse profissional tem a possibilidade de exercer determinadas funções, pelo COREN (Conselho regional de enfermagem), como ministrar remedios, aplicar sondas, etc. As instituições consideram que as cuidadoras não têm formação e, portanto preferem contratar um auxiliar ou técnico de enfermagem, que tem formação e diploma reconhecidos pelo Estado.

Assim, embora reconhecidas como oficio desde 2002 no Brasil, as cuidadoras têm um lugar pouco legitimado nas instituições, o que faz com que elas acabem trabalhando mais com as famílias, estando novamente sujeitas ao não reconhecimento de sua profissão e à degradação salarial.

Assim, esses são os diferentes níveis de profissionalização do “care”no Brasil, sendo o maior nível

Assim, esses são os diferentes níveis de profissionalização do “care”no Brasil, sendo o maior nível o dos os/as enfermeiras, que estão no topo na profissionalização do cuidado devido à formação e diploma de nivel superior.

- Outra questão que nós podemos colocar em debate é a questão das políticas públicas em relação a cuidados. Nós sabemos que há poucas políticas públicas de cuidados e conhecemos muito mais as deficiências em políticas públicas de cuidados em relação ao que diz respeito a babás, creches e etc., inclusive porque há muitos estudos sobre creches. Para as mulheres metalúrgicas da CUT, uma das reivindicações que permaneceu ao longo do tempo, desde 1978, quando aconteceu a primeira conferência, são as creches nas empresas. Desconhecemos estudos aprofundados sobre o que existe em termos de creches em empresas, mas provavelmente existem alguns. A questão da creche sempre foi estudada, trabalhada, houve pesquisas, mesmo ao nivel de assessoria dos sindicatos, que sempre colocaram a questão da creche como pauta, mas também ao nível dos bairros, das prefeituras.

Mas em relação ao cuidado de idosos, só recentemente encontramos informaçoes sobre políticas públicas de cuidado a idosos. Se os agentes de proteção social (Georges, 2009, Garcia dos Santos, 2010) tem a preocupação de cuidar de toda a familia, inclusive idosos, a Secretaria municipal de saúde de São Paulo conta com um serviço de acompanhamento exclusivamente de idosos e há uma grande ONG que emprega três mil pessoas que conta com um grupo que trabalha num programa denominado PAI - Programa de Acompanhamento de Idosos. Pode-se dispor nessa ONG de um mapa com as regiões onde as UBS atendem os idosos em algumas regiões. Há grupos constituidos por médicos, auxiliares de enfermagem, enfermeiro e mais 15 cuidadores por grupo, sendo 50 grupos ao todo. Há, assim, uma série de cuidadores recrutados com financiamento público. Essa é uma das modalidades de política publica, porém de escopo ainda muito limitado. Evidentemente 150 cuidadores para os 2 milhões de idosos na cidade de São Paulo é uma gota no meio no oceano, mas a tendência é de desenvolvimento desse tipo de serviço aos idosos, dado o crescimento da população idosa no Brasil, e particularmente em metropoles como São Paulo. - A penúltima questão é das migrações, a questão dos fluxos migratórios internos e internacionais em relação à política do “care”. Por si só é um tema bastante amplo. Aqui mencionamos apenas o fato de que se trata de um desenvolvimento bastante importante dos fluxos migratórios dos países do Sul para os países do Norte. Por exemplo,

dos países mais pobres da América Latina e Ásia há migração para países da Europa

dos países mais pobres da América Latina e Ásia há migração para países da Europa e América do Norte. Dos paises como o Brasil e dos paises mais pobres da Asia ha migração para o Japão. Esse fluxo fez com que a migração de mulheres tenha se tornado mais importante que a migração de homens nos últimos dez anos. Até então as migrações masculinas eram majoritárias, pois tratava-se de homens que iam procurar emprego em outros países, deixando mulher e filhos nos paises de origem. Atualmente cada vez maiores contingentes de mulheres dos paises do Sul partem sos, para o trabalho de cuidados de crianças, idosos, doentes e deficientes físicos em países do Norte. No Brasil trata-se mais de migração interna do que de migração internacional, migração sobretudo dos Estados do Nordeste em direção aos Estados do Sudeste. Portanto, trata-se de migrações internas no caso do Brasil, de migrações internacionais no caso do Japão e França. Trata-se de milhões de mulheres que migram em direção aos países do Norte e vão cuidar de crianças, que vão ter as cuidadoras como segunda mãe. E no caso dos países em que elas deixaram seus filhos, as crianças estão com familiares ou com o pai ou com uma cuidadora. Essas crianças que ficaram com os pais ou familiares, sem a mãe, podem ter problemas escolares ou de saúde mental (cf. Hochschild, in Ehrenreich, Hochschild, 2003; cf. Parreñas, 2001).

- Um último ponto em debate: a questão do “care” e da saude. No trabalho diário com os idosos, entre os problemas de saúde que mais foram notados, primeiro, foi o isolamento da atividade, pois esses idosos são pessoas que vivem sozinhas e a única companhia são os cuidadores. Os idosos têm poucas visitas, uma vez cada duas semanas, por exemplo, os filhos moram longe ou às vezes eles nem têm filhos, ficam em total isolamento. Outro problema é o esgotamento físico e psíquico do cuidador. Cuidar durante muitas horas, por muitos dias sem descanso, dia e noite, sem folga, isso tudo leva a um esgotamento físico e psíquico, além de dores na coluna e outros problemas de saude. As dores na coluna é um dos males mais freqüentes. Um bebê tem 4 ou 5 quilos, mas um idoso mesmo muito magro pesa mais de 40 quilos. Problemas de coluna são uma das causas frequentes de afastamento de funcionarios nas ILPIs. Também nas entrevistas realizadas no sindicato dos empregados domésticos do Municipio de São Paulo, a menção mais frequente é dor na coluna e outras dores físicas, também, como dores no braço, provocadas por idosos que agridem os cuidadores, assim os machucando. No sindicato entrevistamos uma trabalhadora agredida violentamente por sua patroa idosa; ela sofreu um AVC no dia seguinte à agressão verbal e ficou inapta ao trabalho, não conseguindo mais emprego.

Também entrevistamos trabalhadoras que sofreram queda limpando armários, mas isso não era reconhecido como acidente

Também entrevistamos trabalhadoras que sofreram queda limpando armários, mas

isso não era reconhecido como acidente de trabalho, porque as empregadas domésticas,

como ja mencionamos acima, não têm todos os direitos trabalhistas, mesmo que sejam

remuneradas para fazer aquele trabalho, não como membro da família, mas como pessoas

que cuidam profissionalmente de um estranho fora da sua propria casa.

Enfim, em um dos últimos colóquios (coloquio de Cerisy) realizados na França

sobre o "care" em 2010, a maioria dos temas de debate falava sobre o cuidar de si mesmo e

o cuidar a si mesmo. A problemática do “care” se estende assim ao auto-cuidado. Nós,

militantes, fazemos tudo salvo cuidar de nos mesmos porque ficamos nesse produtivismo

em termos de tempo e uso do tempo que realmente contradiz a ética do “care”, tal como

acabamos de apresentar. A situação de hiperatividade é totalmente contrária ao cuidado de

si. Fica aqui, portanto como uma ultima dimensão a analisar no debate sobre o conceito de

“care”.

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