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Capa

John Douglas & Mark Olshaker

Mentes Criminosas & crimes Assustadores

De Jack, o Estripador a JonBenet Ramsey, o renomado investigador do FBI lança nova luz nos mistérios que
ninguém consegue esquecer

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contra-capa

De todos os milhões de casos de crimes horrendos, cometidos através dos séculos, existem
aqueles que parecem ter vida própria. Apesar da passagem dos anos eles continuam a manter
seu fascínio sobre a imaginação coletiva, e a despertar nosso medo atávico. Por alguma razão,
cada um desses casos e as histórias que os acompanham tocam o âmago do ser humano —
talvez, devido às personalidades envolvidas, à insensatez da corrupção criminal, ao persistente
incômodo da dúvida sobre uma justiça que não se fez ou ao desapontamento de saber que
ninguém foi preso...
Cada um dos casos examinados neste livro é extremamente controverso. E cada um
contém, no fundo, alguma verdade universal, que todos nós podemos vislumbrar. Juntos
formam um quadro bastante representativo do comportamento humano em condições extremas
e nos levam a inevitáveis considerações sobre o bem e o mal, a inocência e a culpa.

ISBN 850001045-2
9 798500 0 10452
Visite-nos: www.ediouro.com.br
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Seria Jack, o Estripador, na verdade, o duque de Clarence, neto mais velho; da rainha
Vitória, ou talvez um médico? E haveria algumas pessoas, na cúpula da Scotland Yard, que
sabiam sua identidade e nunca a revelaram?
Seria Lizzie Borden inocente na morte de sua madrasta e de seu pai, como decidiram os
doze jurados de Fall River ou teria sido sua a mão que segurou o machado e desfechou todos
aqueles golpes?
Teria Bruno Richard Hauptmann, sem nenhuma ajuda, sequestrado o bebê de Charles e
Anne Morow Lindbergh ou seria apenas um inocente bode-expiatório, preso, condenado e, no
final, executado, na pressa ansiosa de levar à justiça o responsável pelo "crime do século"?
Que tipo de pessoa seria capaz de matar, na noite de Natal e dentro de sua própria casa,
JonBenet Ramsey, uma menina de 6 anos?
Com uma abordagem nova e penetrante de cada caso, os autores reexaminam e
reinterpretam os fatos e o histórico das vítimas, usando as técnicas de análise criminal e de
perfis, desenvolvidas por John Douglas no FBI. Este livro desmonta crenças e fatos, tidos
como verdadeiros, e os arruma novamente, com resultados fascinantes e assombrosos.

JOHN DOUGLAS é co-autor com Mark Olshaker de uma série de obras de não-ficção.
Veterano da Força dos Estados Unidos, e autor de numerosos artigos e conferências sobre
criminologia, é conhecido internacionalmente na comunidade policial por seus inigualáveis
conhecimentos no campo da moderna análise de investigação criminal e da criação de perfis da
personalidade criminosa.
MARK OLSHAKER, além de seu trabalho com John Douglas, é um romancista e
realizador de filmes, que escreveu e produziu para a televisão os prêmios Emmy, Mind of a
Serial Killer, para documentário, e Roman City. Seus aclamados romances de suspense
incluem: Einstein's Brain, Unnatural Causes, Blood Race, e The Edge.
John Douglas & Mark Olshaker

MENTES CRIMINOSAS

&

Crimes Assustadores

Tradutor
Octávio Marcondes

3a Edição
Ediouro
Este livro foi disponibilizado pela equipe do e-Livros, com o objetivo de
ser usado somente para fins não comerciais.

e-Livros.xyz
Do original: The cases that haunt us / Copyright © 2000 by Mindhunters, Inc.

Copyright da tradução © by Ediouro Publicações S.A 2002

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 É proibida a reprodução total ou parcial,
por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, da editora.

Diretor executivo: Edaury Cruz / Gerente editorial. Jiro Takahashi

Coordenação editorial. Sheila Kaplan / Preparação de originais. Maria José de Sant'Anna

Produção editorial. Cristiane Marinho

Assistentes editoriais. Juliana Freire, Felipe Schuery, Christiane Cardozo e Gilmar Mirândola

Copidesque. Celso Cunha Jr. / Revisão: Sandra Pássaro e Paulo Corrêa

Pesquisa iconográfica. Mariana Handofsky

Capa, Projeto Gráfico e Editoração: Robson Lima e Kelly Lans

Gerência de PCP. Luciene Baptista / Produção Gráfica: Jaqueline Lavôr

ClP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

D768m Douglas, John E. - Mentes criminosas e crimes assustadores / John Douglas e Mark

Olshaker; tradução Octavio Marcondes. - Rio de Janeiro : Ediouro, 2002

Tradução de: The cases that haunt us - ISBN 85-00-01045-2

1. Homicídio - Investigação- Estudo de casos. 2. Homicidas – Psicologia

- Estudo de casos. 3. Psicologia criminal - Estudo de casos. I. Olshaker,

Mark, 1951—. II. Título.

02-0813. CDD 364.1523 - CDU 343.61

04 05 8 7 6 5 4 3

EDIOURO PUBLICAÇÕES S/A

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Digitalização, Formatação e Correção: Chuncho (LAVRo)


Para as vítimas de todos os crimes violentos não resolvidos, este
livro é dedicado, com respeito e amor.

Eles não devem ser esquecidos nem deixados de lado.


NOTA DO AUTOR

Como das outras vezes, temos uma dívida de gratidão para com as muitas pessoas que
tornaram este livro possível:
Lisa Drew, nossa editora, que com brilhantismo e inspiração sempre nos apoiou.
Jay Acton, nosso amigo e agente, que deu forma à nossa carreira de escritor e a tudo que
isto envolve.
Ann Hennigan, a audaz e destemida caçadora de mentes criminosas e coordenadora das
pesquisas que nos assegurou todas as informações de que necessitávamos.
Katherine Johnston Ramsland, Ph.D., escritora de renome, que pesquisou e trabalhou estes
casos para apresentá-los à consultoria de John.
Jake Klisivitch, assistente de Lisa, que nos manteve na trilha e juntou as peças que
montaram este livro.
Martin Fido, autor agraciado e prolífico, professor, criminologista e, já agora, nosso caro
amigo, por sua extraordinária colaboração para nosso entendimento do caso de "Jack, o
Estripador," e por seus conselhos, sempre oportunos.
Mark W. Falzini, arquivista da Polícia Estadual de Nova Jersey, por sua ajuda de enorme
valor no caso Lindbergh.

Leonard Rebello, historiador de Fall River, por sua importante assistência no caso Borden,
fotos e a generosa revisão do capítulo referente.
Donald Rumbelow, um dos mais famosos especialistas em "Estripador", por seu livro
excepcional e sua profunda intuição.
Paul Cardalucci e todos os outros professores, os residentes e o pessoal da Escola
Highfields, que funciona onde foi a casa da família Lindbergh, em Hopewell, Nova Jersey, pela
hospitalidade em nossa fascinante visita ao local.
John Ross, curador do Museu do Crime, o famoso "Museu Negro" da Nova Scotland
Yard; Kris Radish, autor; Martha e Sally McGinn e todo o pessoal da Pousada Lizzie Borden
em Fall River, Massachusetts, por sua gentileza e simpatia.
E como sempre,
Carolyn C. Olshaker, sem a ajuda de quem...
Bem, vocês sabem o resto...

John Douglas & Mark Olshaker

Junho de 2000
SUMÁRIO

Introdução
1 - Jack, o Estripador
2 - Lizzie Borden
3 - O sequestro Lindbergh

4 - O Zodíaco
5 - Sonhos e pesadelos americanos
6 - O assassinato de JonBenet Ramsey
7 - Perspectivas
"Quantas vezes já lhe disse que, quando se elimina o impossível, o que resta,
por mais improvável que seja, deve ser a verdade?"

Sir Arthur Conan Doyle


O Sinal dos Quatro
INTRODUÇÃO

A criminologia, em seu âmbito mais essencial, estuda as razões que levam os criminosos a
cometerem seus crimes; trata, em suma, da condição humana. De todos os milhões de casos de
crimes horrendos, cometidos através dos séculos, existem aqueles que parecem ter vida
própria. Apesar da passagem dos anos, eles continuam a manter seu fascínio sobre a
imaginação coletiva e a despertar nosso medo atávico. Por alguma razão, cada um desses casos
e as histórias que os acompanham tocam em algo nas profundezas da condição humana —
talvez, devido às personalidades envolvidas, à insensatez da corrupção criminal, ao persistente
incômodo da dúvida sobre uma justiça que não se fez ou ao desapontamento de saber que
ninguém foi culpabilizado. De qualquer forma, os casos permanecem como mistérios que nos
deixam perplexos e nos ferem fundo em nossas considerações sobre nós próprios como seres
humanos e sobre nossas relações sociais.
Cada um dos casos examinados neste livro é extremamente controverso. E cada um deles
contém, no fundo, alguma verdade universal, que podemos vislumbrar. Juntos formam um
quadro bastante representativo do comportamento humano em condições extremas e nos levam
a inevitáveis considerações sobre o bem e o mal, a inocência e a culpa, as expectativas e as
surpresas.

Por meio dos casos que examinaremos, esperamos poder mostrar a utilidade, as vantagens
e, também, as limitações dos modernos métodos de análise de perfis comportamentais e da
investigação criminal, praticados pelas unidades de estudo comportamental do Centro de
Análise de Crimes Violentos na Academia do FBI, em Quantico, Virgínia. A divisão
operacional que, atualmente, faz os perfis e a consultoria, passou por várias mudanças de nome
e designação. Durante o tempo que a chefiei, até minha aposentadoria em 1995, era conhecida
como Unidade de Suporte Investigativo — USI. Algumas vezes conseguimos ir bem longe,
determinando quem seria o criminoso desconhecido. Outras vezes, tudo que pudemos fazer foi
determinar quem ele não seria. Por outras vezes ainda, não conseguimos nem uma coisa nem
outra. Mas temos melhorado em muito nossa capacidade de interpretação das evidências
periciais do ponto de vista da psicologia comportamental. Se tal prática existisse na época dos
casos mais antigos descritos neste livro, acredito que estes teriam sido resolvidos e os
criminosos entregues à Justiça.
Vários dos principais temas enfocados neste livro serão familiares aos leitores de outros
livros nossos. Um deles é o motivo do crime. Por que um indivíduo decide fazer o que fez e
como tentamos determinar isto? Outro é o processo de evolução e desenvolvimento do
criminoso: ninguém acorda, uma bela manhã, e decide cometer um destes crimes sem antes
demonstrar sintomas comportamentais e sem um sério fator de precipitação. Um terceiro tema
recorrente é o do comportamento pós-crime. Que tipo de ação e reação podemos esperar de
uma pessoa depois dela cometer um crime grave? Todos estes fatores entrarão em nossas
avaliações.

Vamos ao que interessa. Será que seremos capazes de resolver o mistério que envolve
estes crimes, que escapam à compreensão e frustram tantos especialistas, por mais de um
século?
Francamente, isto é duvidoso.
O que faremos será abordá-los, a cada um, de uma forma um pouco diferente do que tem
sido a abordagem clássica. Vamos examiná-los como examinaríamos um caso no FBI,
mediante a análise de investigação criminal, para chegar a um perfil do criminoso. Usaremos
as evidências encontradas no crime e na cena do crime para indicar o tipo de pessoa que
estamos procurando. Então confrontaremos os indivíduos suspeitos, acusados e/ou condenados
em cada caso, para verificar como eles se enquadram nesses perfis.
Na maioria das teorias alternativas, criadas para estes casos, os autores tendem a uma
conclusão preconcebida e depois usam apenas aquelas evidências que servem para sustentar
suas teses. Depois disto desafiam os céticos a provarem o contrário. Os exemplos são vários e
ficarão claros durante a leitura deste livro:
Por que não poderia o ex-marido de Mary Kelly matar quatro de suas amigas para
fazê-la, amedrontada, voltar para ele, ou matá-la, ao ver que seu intento não
funcionara, e jogar a culpa de todos os crimes num fictício "Estripador"?
Por que Emma Borden não poderia ter voltado para casa despercebidamente e
matado seus pais?
Por que não poderia ser Patsy Ramsey a assassina da filha, quando num acesso de
raiva descobriu que seu marido vinha molestando sexualmente a menina? E por
que John Ramsey não teria molestado a menina?

Apesar de não existir nenhuma evidência que leve a tais suposições, apesar da exaustiva
investigação, nos três casos, do caráter dessas pessoas, os fatos não interessam nem têm
nenhuma importância para certos "analistas".
"Não ser impossível de acontecer" basta para certos terroristas. Mas não bastará para nós.
Quando há uma discrepância ou mais de uma versão para um fato, nós a levamos em
consideração e a exploramos como possibilidade. Seja o que for que consigamos ou sejamos
incapazes de determinar, chegaremos lá levados pelos fatos e evidências, e não pela
contramão.
OK? Então vamos começar.
1 - JACK. O ESTRIPADOR

No REINO OBSCURO DOS ASSASSINATOS EM SÉRIE, este é o marco zero, o ponto


onde efetivamente toda a história e toda a discussão começam.

Por padrões modernos, o fantasmagórico predador que entre agosto e novembro de 1888
assombrava as sombrias ruas do East End londrino não seria um assunto que chamasse tanta
atenção. Infelizmente, vários de seus sucessores — pessoas que meus colegas e eu tivemos que
caçar — foram mais devastadores no número das vidas que tiraram e na forma cruel e criativa
como o fizeram. Mas nenhum outro capturou de modo tão rápido a atenção do público e durou
tanto tempo na imaginação popular quanto Jack, o Estripador, o assassino de Whitechapel, a
personificação da brutalidade impensada, da crueldade inominável e sem motivo.
Por que ele (embora até hoje certas pessoas garantam que fosse ela)? Há muitas respostas.
De um lado, os crimes — uma série de punhaladas fatais que culminavam em mutilação total
concentraram-se numa área geográfica restrita, direcionados a um tipo específico de vítima
preferencial. De outro, embora já ocorressem no passado assassinatos isolados de motivação
sexual na Inglaterra e no continente europeu, tratava-se da primeira vez que a maior parte dos
vitorianos se defrontava e tinha que lidar emocionalmente com tal fenômeno. Acrescente a isso
um movimento de reforma social, uma nova imprensa, dinâmica e sem rodeios, ansiosa por
chamar a atenção para as deprimentes condições de vida no East End, e você terá todos os
demais ingredientes que, literalmente, tornaram esta uma das maiores histórias de crime de
todos os tempos.
As razões para que esses crimes continuem a fascinar mais do que quaisquer outros são
igualmente fortes, mesmo nesta era moderna, com sua sucessão interminável de "crimes do
século", embora, conforme veremos adiante, baseadas com muita frequência em equívocos.
Apesar de sua barbárie, representam um mistério da vida real da época de Sherlock Holmes —
a era romântica, há muito passada, da alta sociedade vitoriana, dos lampiões a gás e do
envolvente nevoeiro londrino, mesmo que o local onde os crimes na realidade ocorreram pouca
relação tivesse com o esplendor vitoriano e que cada crime acontecesse em noites sem
nevoeiro. Chovia apenas em uma das noites. De fato, na mesma ocasião que os crimes do
Estripador aterrorizavam o desesperado East End, um melodrama baseado em O médico e o
monstro (Ediouro), de Robert Louis Stevenson, estava empolgando platéias no Teatro Lyceum,
situado no elegante e confortável West End. Esses dois eventos juntos, um, seguro e
imaginativo, o outro, horripilante e real, despertaram em muitos o primeiro conhecimento do
mal inerente nas pessoas consideradas comuns e normais.

Embora as duas forças policiais da época alocassem um enorme potencial humano e de


recursos e até dos esforços incontáveis de especialistas no caso — nos mais de 110 anos desde
então — os crimes permanecem insolúveis, atraindo-nos com seu profundo mistério (embora
esteja certo de que os resolveríamos em relativamente pouco tempo, se hoje em dia
estivéssemos trabalhando neles). Alguns dos suspeitos e dos motivos são bastante atraentes —
bem distantes do alcance do assassino serial normal — incluindo, além do médico real, dois
herdeiros diretos do trono.
Outra razão importante para a fascinação contínua vem do nome evocativo, poderoso e
aterrorizante, pelo qual era chamado o elemento desconhecido, ou ED, como a ele nos
referimos em nosso trabalho. Embora, com relação a esse aspecto, sustenho que ele não
escolheu para si essa identidade.

Porém quaisquer que sejam as avaliações ou equívocos, somos forçados a reconhecer que
Jack, o Estripador, originou o mito, o arquétipo pérfido do assassino em série.
Como analista de investigações criminais e o primeiro criador de perfis psicológicos para
o FBI, muitas vezes especulei a respeito da identidade de Jack, o Estripador. Entretanto, foi
somente em 1988, no centenário dos assassinatos de Whitechapel, que realmente abordei o
caso, conforme o faria se este me fosse levado à Unidade de Apoio Investigativo, em Quântico,
para consultoria, por um departamento de polícia local.
A ocasião foi um programa televisivo de duas horas — "A identidade secreta de Jack, o
Estripador" —, veiculado ao vivo de Los Angeles em outubro e apresentado pelo ator, escritor
e diretor britânico Peter Ustinov, com dados fornecidos de Londres, diretamente das cenas dos
crimes, por especialistas, pela Scotland Yard e pela Polícia Metropolitana londrina. Quando os
produtores me sondaram a respeito de uma participação no programa, construindo um perfil
psicológico do assassino, decidi que valia a pena tentar por diversas razões. Em primeiro lugar:
acreditava que o perfil psicológico poderia ser útil no treinamento de novos agentes. Em
segundo: é difícil resistir a um desafio intelectual com o mais famoso assassino da história,
mesmo um século depois. Em terceiro: passados cem anos do evento, não haveria
consequências negativas, a não ser bancar o idiota em cadeia nacional, um medo que já perdera
há muito. Diferentemente do que aconteceria nos casos reais com os quais lidava no dia-a-dia,
ninguém morreria se me enganasse ou desse à polícia informações erradas. Após dez anos,
ainda acredito na análise que fiz, com um acréscimo importante e interessante ao qual
chegaremos mais tarde.
Elaborei o perfil psicológico do mesmo modo que o faria se estivesse trabalhando num
caso atual, que viesse a fazer parte de um arquivo:

ED: ALCUNHA DE JACK, O ESTRIPADOR


SÉRIE DE HOMICÍDIOS
LONDRES, INGLATERRA 1888
CNACV — HOMICÍDIOS (ANÁLISE INVESTIGATIVA CRIMINAL)

O FBI, tal como a maioria das agências governamentais, tem mania por siglas. CNACV é
usada para o Centro Nacional para Análise de Crimes Violentos, programa abrangente,
estabelecido em 1985 e localizado na Academia do FBI para englobar uma série de outras
siglas que incluem: a UCC — Unidade de Ciência Comportamental (ensino e pesquisa); a UAI
— Unidade de Apoio Investigativo, que se encarrega de fato da consultoria, da criação de
perfis psicológicos e da análise investigativa criminal; o PACV — Programa para Apreensão
de Criminosos Violentos, com dados informatizados a respeito de diversos criminosos, porém
não se limitando a estes. Durante o período em que fui chefe da UAI, nós e outras entidades
operacionais, tais como a URR — Unidade de Resgate de Reféns, estávamos abrigados no
GCIC — Grupo de Contingência para Incidentes Críticos. Depois de minha aposentadoria, em
1995, minha unidade foi, durante certo tempo, absorvida num novo grupo, a UCSSI —
Unidade de Crimes em Série e de Sequestros Infantis. De qualquer forma, creio que seja o
bastante para dar uma ideia sobre esta mania.
Aconselhei os produtores, assim como qualquer um que em minha unidade tivesse sido
treinado, a contatar os diversos serviços de polícia com os quais lidaríamos nos Estados
Unidos e no exterior — a qualidade do trabalho dependeria das informações que fossem
fornecidas. Muitas ferramentas que usamos atualmente — impressões digitais, DNA e outros
identificadores sanguíneos, fotografias abrangentes da cena do crime — não estavam
disponíveis em 1888, assim tive que desenvolver minha análise sem elas. Mas naquela época,
tal como agora, começaria meu trabalho com os fatos conhecidos sobre os crimes.

Como a maioria dos crimes seriais, o caso se complica com as várias vítimas e pistas que
apontam para diversas direções. Desse modo, é conveniente narrarmos o caso minuciosamente,
conforme agiríamos se o recebêssemos de uma agência local de segurança pública que
necessitasse de nossa ajuda. Assim, relataremos todas as minúcias, qualquer fato que seja
importante para a criação do perfil psicológico do criminoso, analisando cada elemento no
momento apropriado do processo de tomada de decisão. Dessa forma, poderemos avaliar como
são tomadas as decisões analíticas na caçada mental e em que elas se fundamentam. Na
ocasião em que apresentarmos este perfil psicológico, vocês terão o embasamento e a
perspectiva para compreender as escolhas e conclusões a que chegamos. Poderemos então
aplicar este processo em todos os demais casos que considerarmos. Quanto mais um criador ou
uma criadora de perfis psicológicos conhecer a história do que aconteceu, melhor poderá
avaliar por que e quem o fez.
Sempre que construímos um perfil psicológico ou oferecemos colaboração analítica ou
estratégica às agências de segurança pública sobre crimes seriais não-solucionados, uma parte
importante do material solicitado refere-se a mapas com a indicação das cenas dos crimes e
uma descrição de cada área. Neste caso, sobretudo, a geografia é um aspecto de particular
importância, pois define de modo cuidadoso o tipo de vítima selecionado, além do tipo de
criminoso que aí se sentiria à vontade.

"O ABISMO"

Saliento sempre a importância da compreensão do histórico da vítima e do contexto social


do crime. Você não entenderá este caso sem alguma compreensão de como era a vida no East
End londrino, especificamente em Whitechapel e Spitalfields, nas últimas décadas da era
vitoriana. O escritor de romances de aventuras Jack London caracterizaria essa área como "o
abismo", após passar aí sete semanas durante o verão de 1902. O livro de não-ficção oriundo
dessa experiência, The people of the abyss [O povo do abismo] tornou-se imediatamente um
clássico, tanto quanto O chamado selvagem (Ediouro), publicado no mesmo ano. As condições
e a situação descritas pouco diferiam, em 1902, das existentes 14 anos antes.
As áreas mais extremas do East End — a região margeando a avenida Whitechapel e a
estrada de Whitechapel, bem ao norte da Torre de Londres e das docas londrinas — eram um
lugar estranho, distante e ameaçador para aqueles que tinham a sorte de viver em outros pontos
da metrópole. Embora à distância apenas de um pequeno trajeto de táxi ou de trem do centro
de Londres — a capital do mundo ocidental, à época em que a afirmação de que "o sol nunca
se punha" no mais rico e economicamente produtivo império da história era verdadeira —, esse
distrito constituía uma localidade populosa, dickensiana, de fábricas, de lojas de caldeiras e de
matadouros. Dominada por londrinos pobres, sua população aumentava com imigrantes vindos
diretamente do cais, principalmente judeus da Europa oriental, que fugiam de guetos e
perseguições, com seu idioma estranho, costumes diferentes e desconfiança dos gentios.
Muitos deles juntaram-se a seus compatriotas em alfaiatarias e nos comércios de couros
situados ao redor da travessa Brick. A rua Middlesex, mais conhecida como travessa Petticoat,
passou a ser uma movimentada feira dominical da cultura e das mercadorias judaicas.
Em Whitechapel, o trabalho qualificado era raro e as doenças grassavam. Mesmo os
afortunados com um lugar para morar amontoavam-se em acomodações sujas e primitivas,
sem a menor privacidade. O restante, calculado em aproximadamente uns 10% da população
total de East End, que montava a novecentos mil, viviam o dia-a-dia nas ruas, nos
desagradáveis e notórios albergues, ou nas centenas de imundos alojamentos que ofereciam
uma cama por quatro pences por noite, pagos adiantados.
Mary Ann Nichols, conhecida como Polly, uma prostituta das quase 1.200 que havia em
Whitechapel na época, de acordo com estimativas da Polícia Metropolitana, media 1,60m,
tinha 45 anos e lhe faltavam cinco dentes. Muitas, senão a maioria das mulheres do tipo de
Mary Ann, não eram prostitutas por escolha. A existência para elas (como muitas vezes, para
suas famílias) ficara tão desesperadora que fazer um programa rápido poderia significar a
diferença entre comer e passar fome, entre ter um lugar para dormir ou arriscar a sorte nas ruas
escuras e perigosas. Some-se a isso o alcoolismo crônico com o qual muitas mulheres
tentavam esquecer seu desespero e percebemos um segmento da sociedade vivendo em seu
limite.
Polly Nichols tinha cinco filhos e sobrevivera a um casamento tempestuoso que, por fim,
terminara devido à incapacidade dela manter-se longe da garrafa, uma situação causada
inicialmente, como ela se justificava, pelas traições de William, seu marido. A custódia dos
filhos foi dada a ele. Um pouco depois da 1:00h, na madrugada de sexta-feira, 31 de agosto de
1888, Polly tentava conseguir um lugar num alojamento na rua Flower and Dean, onde dormia
há uma semana. Passara a maior parte do mês anterior em outra pensão, que ficava a uma
quadra, na rua Thrawl, num quarto dividido com quatro outras mulheres. Naquela noite,
porém, não tinha os quatro pences necessários para sua cama, já que acabara de gastar o
dinheiro que ganhara durante o dia comprando bebida no bar Frying Pan, uma quadra abaixo
do local que cruzava a travessa Brick.
O encarregado do alojamento não deixara que ela ficasse sem pagar. Polly pediu-lhe que
não desse sua cama para mais ninguém e declarou, tonta com a bebida: "Logo vou conseguir o
dinheiro para dormir. Olha que chapéu bonito estou usando." Aparentemente fora comprado
por um freguês e a fazia sentir-se mais atraente.
Por volta das 2:30h, encontrou-se com sua amiga Ellen Holland, também conhecida como
Emily. No East End, parecia ser comum usar diversos nomes. Ellen, que anteriormente dividira
com Polly um quarto na rua Thrawl, viera olhar um incêndio, um modo usual de
entretenimento para os pobres demais para terem outros. Ela relatou que Polly, completamente
bêbada, recostava-se na parede para não cair.
Ellen insistiu que Polly a acompanhasse de volta à rua Thrawl, mas Polly confessou-lhe:
"Consegui hoje três vezes o dinheiro para pagar meu alojamento, mas já gastei. Não vou
demorar muito para voltar." Depois, saiu na direção da rua Flower and Dean.
Foi a última vez em que alguém viu Polly viva.
Por volta das 3:40h, dois condutores de carroça, Charles A. Cross e Robert Paul, iam a pé
para o trabalho pela alameda do Buck, mais ou menos a uma quadra de distância do Hospital
de Londres, na estrada de Whitechapel, quando Charles avistou um encerado no outro lado da
rua, perto da entrada de um estábulo. Atravessou a rua para examiná-lo de perto e verificar se
poderia ser aproveitado, mas, ao chegar lá, verificou que se tratava do corpo de uma mulher, de
olhos arregalados, mãos ao lado do corpo, as saias levantadas até a cintura e com as pernas
ligeiramente separadas. Perto de seu corpo havia um chapéu de palha preto com uma fita de
veludo.
Charles chamou Robert Paul. Este colocou a mão no rosto da mulher, ainda quente,
levando-o a crer que ela poderia ainda estar viva. Procurou escutar com atenção seu coração,
parecendo-lhe ouvir uma fraca batida, mas Charles segurou as mãos dela, que estavam frias e
concluiu que estava morta. Os dois homens saíram em busca da polícia.
Encontraram o policial Jonas Mizen, da Polícia Metropolitana, fazendo a ronda na rua
Hanbury, próxima dali, e lhe contaram o que haviam encontrado. Mizen rapidamente
acompanhou-os de volta à alameda do Buck, onde o policial John Neil, por conta própria,
acabara de encontrar o corpo. Com sua lanterna, Neil fez sinal para outro policial, John Thain.
Disse a Thain para procurar o dr. Rees Ralph Llewellyn, o clínico-geral que vivia mais
próximo, depois pediu que Mizen chamasse uma ambulância, o que naquele tempo era uma
carroça de duas rodas, longa bastante para levar uma maca.
Thain acordou o dr. Llewellyn, que chegou ao local para examinar a vítima. Nesse meio
tempo, dois açougueiros locais, Henry Tomkins e James Mumford, também estavam no local,
embora não esteja claro se eles apenas haviam aparecido ou se já estavam com o policial Thain
antes deste ser chamado. O dr. Llewellyn notou diversas lacerações na garganta da vítima, mas
pouco sangue no corpo e na área ao redor. Faltando quase dez minutos para as 4:00h, o médico
declarou a mulher morta, estimando que a morte ocorrera há menos de meia hora, já que suas
pernas ainda estavam quentes, declarou também que fora morta no local. O corpo foi levado
para o necrotério, na enfermaria do albergue da Old Montague. Quando o inspetor John
Spratling chegou, por volta das 4:30h, uma multidão já se formava e a notícia do assassinato
começara a se espalhar por Whitechapel. Spratling mandou os outros policiais darem uma
busca no local do crime, e na área em torno, e se juntou então ao dr. Llewellyn no necrotério
para registrar a descrição oficial do cadáver.
Ali, Spratling soube de informações ainda mais perturbadoras do que as esperadas nos
rotineiros assassinatos de prostitutas — embora, para ser exato, a profissão da vítima ainda não
fosse conhecida, já que não se fizera nenhuma identificação. Mesmo assim, as circunstâncias e
o fato de ela estar na rua àquela hora sugeria fortemente sua vocação. Infelizmente, tanto
naquela época quanto agora, assassinatos de prostitutas não eram incomuns, muitas vezes
envolvendo um simples roubo ou a vingança de um cliente que acreditava ter contraído dela
alguma doença. Quando as roupas foram tiradas do corpo, Spratling pôde observar claramente
que, além dos ferimentos no pescoço, o abdômen havia sido aberto e o intestino exposto.
Na manhã seguinte, o dr. Llewellyn retornou para fazer uma autópsia completa. E notou
arranhões no rosto e pescoço e uma incisão circular no pescoço que secionara todos os tecidos
até a vértebra, bem como as principais artérias do pescoço. Os profundos cortes pareciam ter
sido feitos com uma faca longa e afiada. Llewellyn acreditava que o assassino tinha pelo
menos um conhecimento anatômico sumário e que poderia ser canhoto, por causa de um
arranhão no lado direito do pescoço.

PISTAS COMPORTAMENTAIS
Examinando esse caso hoje, com os conhecimentos e a experiência inexistentes para os
investigadores vitorianos (muitos anos se passariam antes que, mesmo as impressões digitais,
fossem disponíveis), já poderíamos descobrir alguns indícios comportamentais pelo padrão dos
ferimentos. Os fortes arranhões no rosto me sugerem um ataque rápido. Em outras palavras, o
ED tentou neutralizar sua vítima em potencial, rápida e inesperadamente, antes que esta
pudesse se defender. Isso, por sua vez, sugere um criminoso inseguro de si, sem confiança em
sua habilidade de controlar ou levar sua vítima, para onde queria, verbalmente — uma
personalidade inadequada, oposta àquela de alguém confiante por acreditar em poder dominar
facilmente as mulheres. Isso, como poderemos ver, dá-nos mais pistas sobre sua personalidade
e seu histórico emocional.
O arranhão no pescoço indica uma tentativa de derrubar a vítima e torná-la incapaz de
resistir. Então verificamos as diversas e profundas facadas, que sugerem um acesso de raiva
ou, em geral, tensão sexual liberada. O fato de o rosto não ter sofrido, após o ataque inicial,
outros ferimentos significativos faz-me pensar que o ED não conhecia a vítima. Se houvesse
sido um ataque pessoal, esperaria ver mais ferimentos desfigurantes no rosto, o que
representaria sua persona ou humanidade. Como tudo o mais na criação de perfis psicológicos,
esta não é uma regra rígida, como veremos no próximo capítulo. Entretanto, nos casos em que
a motivação para o crime é essencialmente poder e controle — um poder e controle não
disponíveis para o ED em outros aspectos da vida, como acredito ser o caso aqui — o ataque
facial é um fenômeno comum.
Temos também a incisão profunda e circular ao redor do pescoço. Isso me parece claro:
uma tentativa de tirar a cabeça da vítima. Aqueles que leram qualquer de nossos livros
anteriores sabem que um dos modos de caracterizar os assassinos e outros predadores sexuais é
classificando-os ou como organizados ou desorganizados ou, numa combinação desses dois
tipos, como mistos. Um assassino que quer decapitar sua vítima, especialmente na rua, que é
sempre um local de alto risco, eu acho que é alguém que "não regula muito bem". O que
depois é confirmado pelas abertura da barriga e exposição do intestino. Isso não significa que
ele não tenha tido uma motivação criminosa ou não saiba o que está fazendo, como, por outro
lado, também não implica que assassinos organizados sejam indivíduos normais e socialmente
integrados. No entanto, posso perceber que as motivações e fantasias do ED são tão aberrantes
que poderiam interferir com o funcionamento de sua rotina, até mesmo com sua habilidade em
organizar um crime bem-sucedido. Trata-se de alguém que não só odeia mulheres, mas
também tem uma curiosidade bizarra e pervertida a respeito do corpo humano, que pode
caracterizar um demente.
Enquanto estamos abordando esse assunto, devemos esclarecer que todos os assassinos e
predadores sexuais, em minha opinião, têm algum grau de doença mental. Por definição, não
se pode de modo deliberado tirar outra vida assim e ser mentalmente saudável. Entretanto — e
este é um "entretanto" importante —, embora doente mental, isso não significa que ele não
saiba a diferença entre o certo e o errado e que não possa adequar seu comportamento (não
necessariamente suas fantasias, mas sim seu comportamento) às regras da sociedade. Essa é a
essência da Jurisprudência M'Naghten, o texto legal, original britânico, codificado da
responsabilidade penal, que já vinha sendo aplicado por mais de um século, quando dos crimes
de Whitechapel, e que ainda serve de base para os testes de insanidade que são usados hoje.
Por ter sido enunciada no processo contra ele, esta jurisprudência ganhou o nome de Daniel
M'Naghten, aquele que tentou matar o primeiro-ministro britânico, sir Robert Peel, organizador
da Força Policial Metropolitana de Londres.
Dessa forma, alguém pode ser doente mental e ainda assim, penalmente responsável —
faz o que faz porque quer o que quer e não por ser forçado a isso. Alguns psiquiatras referem-
se a esse problema como distúrbio de personalidade, uma descrição que julgo bem apropriada.
É possível, porém, que haja alguns criminosos tão fora de si que não saibam que o que
estão fazendo é errado? É lógico que existem alguns, os quais, acho, baseado em minha
experiência, que também tendem a ter ilusões ou alucinações. Mas estes tipos são fáceis de
serem identificados, de tão desorganizados e loucos, que em geral são apanhados em pouco
tempo. Seria o assassino de Whitechapel um destes? Teria ultrapassado o limite da desordem
de personalidade e chegado à loucura total? Precisamos de mais evidências, antes de
chegarmos a esta conclusão.
A vítima do crime estava usando várias roupas sobrepostas, uma necessidade para alguém
sem teto. Suas únicas posses, além das roupas, eram um pente, um lenço e um espelho
quebrado. Mas, em uma de suas combinações, a polícia descobriu uma marca de lavanderia do
Abrigo Lambeth. Mediante um processo de eliminação, chegou-se à identidade da vítima,
Mary Ann, ou Polly Nichols, embora a tentativa inicial de identificar seu corpo houvesse
falhado, possivelmente devido à mutilação. Ela foi identificada depois por Mary Ann Monk,
que estivera no Abrigo Lambeth na mesma ocasião. Ela foi enterrada em 6 de setembro de
1888, numa cova de indigentes no cemitério da cidade de Londres, em Little Ilford, Essex.

CRIMES PADRONIZADOS?

Havia pouco em que se basear para a solução do crime. O inspetor-chefe da Scotland


Yard, Donald Sutherland Swanson, admitiu que os detetives sentiam-se impotentes para
resolver o crime pela "completa ausência de motivos que levassem à violência e de qualquer
fragmento de evidência, não só direta como circunstancial". De fato, Swanson e seus colegas
não conseguiam entender o motivo. Não tinham razão para tal, já que nunca tinham visto algo
assim antes. Contudo, apesar da falta de experiência com este tipo de crime, tanto o dr. Robert
Anderson, comissário-assistente da Polícia Metropolitana e responsável pelo Departamento de
Investigação Criminal — DIC, quanto o chefe-assistente daquele departamento, Melville
Leslie MacNaghten, afirmaram tratar-se, sem sombra de dúvida, de obra de um maníaco
sexual.
Era possível, porém, que a morte de Polly Nichols se relacionasse ao assassinato anterior
de uma prostituta no East End, mas ninguém estava seguro. Na verdade, até hoje não há esta
certeza.

Martha Tabram, a ex-esposa de Henry Tabran, também conhecida como Emma Turner,
trabalhava num armazém. Após a separação, viveu esporadicamente alguns anos com William
Turner, que, embora carpinteiro por profissão, trabalhava de ambulante. Essa é a razão dos
dois sobrenomes usados por ela. Como acontecia com Polly Nichols, eventualmente era
abandonada por seus homens, por causa da bebida.
Na noite de 6 de agosto de 1888, um feriado, Martha saiu com sua amiga Mary Ann
Connolly, conhecida no bairro como Pearly Poll. Mary Ann testemunhou depois que ambas
visitaram vários bares, inclusive o Two Brewers, onde ficaram com dois soldados da Guarda
dos Granadeiros, uma unidade de prestígio do Exército. Foram, depois, a outros bares, como o
White Swan na rua Whitechapel High, antes de se separarem por volta das 23:45h. Polly e seu
soldado foram para a alameda Angel para praticarem sexo em pé, encostados na parede. Ela
viu Martha e seu acompanhante seguirem para o pátio George, com a mesma intenção
provavelmente.
Por volta das 3:30h, o motorista de táxi Alfred Crow voltava para seu apartamento no lado
nordeste do pátio George, quando viu o que pensou ser um vagabundo dormindo no térreo.
Mais ou menos uma hora depois, outro morador que trabalhava nas docas, John Saunders
Reeves, desceu as escadas e viu o que percebeu ser um corpo.
O dr. Timothy Killeen, que examinou o corpo para a polícia ainda de madrugada,
aproximadamente às 5:30h, estimou que a mulher de uns quarenta anos morrera em torno de
duas horas antes, ou seja, pouco antes de Alfred Crow tê-la notado pela primeira vez. No
conjunto, a vítima recebera 39 facadas, sendo os seios, o abdômen e a genitália as partes mais
atingidas. Muitos dos ferimentos não tinham características especiais que identificassem a
arma usada, exceto um ferimento no centro do esterno, que parecia feito por uma adaga ou
baioneta, sugerindo que o crime fora cometido pelo guarda com quem Martha Tabram fora
vista antes, naquela noite.
Com dois crimes não solucionados no mesmo mês e área, o desconforto se instalou na
Scotland Yard. Mas a não ser aqueles que conheciam alguma das desafortunadas vítimas,
Londres como um todo, mesmo no East End, não tomou conhecimento do assunto. Pensando
bem, prostitutas sem teto eram os dejetos da sociedade e, mesmo que ambos os crimes fossem
anormalmente brutais e sem motivo aparente, não havia razão para as pessoas de bem se
preocuparem com a questão.
Tudo isso mudou na manhã de domingo, 8 de setembro, e, desde então, de certo modo, o
mundo da criminologia nunca mais foi o mesmo.

ANNIE CHAPMAN
Pouco antes das 6:00h, o carroceiro John Davis afinal se levantou, depois de uma noite
inquieta. Saiu do apartamento do terceiro andar que ocupava há quase duas semanas com sua
mulher e três filhos na rua Hanbury 29 e desceu as escadas para ir ao banheiro externo. À
esquerda dos degraus da porta dos fundos, ele de repente avistou um corpo. Uma mulher
estava deitada de costas entre os degraus e a cerca do pátio da propriedade. O vestido tinha
sido puxado para cima de sua cabeça, sua barriga fora aberta e os intestinos estavam não só
visíveis, puxados para fora, mas também, desta vez, jogados sobre seu ombro esquerdo. Outros
moradores e passantes rapidamente se juntaram a John Davis. Alguns foram junto com ele
procurar a polícia. Um deles, Henry Holland, encontrou um policial a algumas quadras de
distância, no mercado Spitalfields, mas este disse que não podia abandonar seu posto. Isto é
apenas um exemplo da rigidez de procedimento das forças policiais naqueles dias, que
impediriam muitas tentativas de levar o ED à justiça.
O primeiro oficial de polícia, de posto mais elevado, a chegar à cena do crime foi o
inspetor Joseph Chandler. Ele estava de plantão na delegacia da rua Commercial, quando viu
homens correndo pela rua Hanbury. Quando percebeu o que estava acontecendo, dirigiu-se
com rapidez para o local do crime, cobriu o corpo e mandou chamar o dr. George Bagster
Phillips, médico-legista da Divisão H., a área onde ocorrera o crime. O dr. Phillips examinou o
cadáver mutilado brutalmente, porém arrumado de forma ritualística. Durante o inquérito,
descreveu o que vira:

O braço esquerdo estava cruzado sobre o seio esquerdo; as pernas, dobradas. Os pés descansando no
chão e os joelhos virados para fora. O rosto, todo inchado, voltado para o lado direito. A língua, muito
inchada, projetava-se entre os dentes da frente, mas não ultrapassava os lábios. E estes dentes da frente,
perfeitos até o primeiro molar, tanto os superiores quanto os inferiores, eram muito bons. O corpo,
terrivelmente mutilado... A garganta mostrava um corte profundo; as incisões na pele, todas irregulares,
atingiam o redor do pescoço... Na cerca de madeira entre o pátio em questão e o vizinho, sangue
esparramado podia ser visto, correspondendo ao local onde a cabeça da morta tombou.

O dr. Phillips continuou observando que todos os ferimentos pareciam feitos com uma
faca afiada de lâmina estreita e a evisceração indicava algum conhecimento médico. Ele supôs
que a mutilação completa deveria ter demorado uma hora pelo menos, entretanto, pelo que
pôde observar até com assassinos seriais relativamente moderados, diria que foi menos tempo.
Tal como no caso de Polly Nichols, não havia evidência de luta. Parecia que, também desta
vez, o ED atacara subitamente, neutralizando a vítima antes que esta pudesse se defender.
Uma mensagem foi enviada ao inspetor Frederick George Abberline, da Divisão de
Homicídios da Scotland Yard, que apareceu em seguida no local. O inspetor Abberline, com
45 anos, casado pela segunda vez (sua primeira mulher morrera tísica no mesmo ano do
casamento), era quase uma lenda nos círculos policiais, embora detalhes de sua vida pessoal
sejam escassos. Fora promovido de policial de patrulha a sargento com rapidez, depois para
operações secretas e finalmente para inspetor. Abberline viria a chefiar todos os detetives na
investigação de Whitechapel.
Enquanto esperava Abberline e outros oficiais da Scotland Yard chegarem, o inspetor
Chandler mandou examinar minuciosamente a cena do crime. O bolso da mulher havia sido
rasgado e seu conteúdo consistia de itens comuns: dois pentes, um pedaço de musselina e um
envelope dobrado contendo duas pílulas. A menos de um metro do corpo, encontrou-se um
avental com manchas de sangue, do tipo usado por açougueiros, ou talvez sapateiros.
Entretanto, como o avental estava seco, era questionável sua ligação com o crime. Além disso,
já que naquela época ainda não havia recursos científicos que possibilitassem identificar o tipo
sanguíneo ou mesmo determinar com certeza se era sangue humano ou animal, uma
vestimenta, assim manchada, com facilidade se explicaria como sendo de um dos muitos
matadouros da área. Desta forma, qualquer pista potencial aparentava ter uma "vida própria",
como esta certamente teve.
O dr. Phillips disse ao investigador que acreditava que três objetos pessoais haviam sido
colocados com muito cuidado — a musselina e os pentes perto dos pés da vítima e o envelope
perto de sua cabeça. Duas moedas também estavam próximas do corpo, embora este detalhe
fosse mantido em segredo pela polícia, como informação privilegiada, para ajudar a identificar
suspeitos. Se esta descrição é acurada, é outra indicação de psicose particular e instabilidade
mental. É comum encontrarmos isso em criminosos desorganizados ou do tipo misto — ou
seja, um ataque brutal e frenético conjugado com elementos ritualísticos que indicam uma
necessidade de controlar ou dominar componentes pequenos e aspectos da cena do crime ou da
vítima.
Um de meus primeiros casos importantes de criação de perfil psicológico relacionava-se
ao assassinato de uma professora de crianças deficientes de 26 anos, ela própria um pouco
deficiente, com uma curvatura da coluna. A professora fora encontrada estrangulada; havia
apanhado muito e sofrerá abuso sexual no topo de uma escadaria de um prédio de
apartamentos onde morava com seus pais, na arborizada av. Pelham, no Bronx, em Nova York.
Havia sido amarrada, braços e pernas abertas, com seu próprio cinto e suas meias de náilon
atados em seus punhos e tornozelos, embora o perito médico verificasse que ela já estava
morta quando isso acontecera. A causa da morte fora estrangulamento por ligadura com a alça
de sua bolsa. As fotos do DPNI (Departamento de Polícia de Nova York) mostravam uma cena
pavorosa de crueldade sangrenta, que me disse muito sobre o criminoso. O que me
impressionou mais ainda foi o fato de seus mamilos serem cortados após sua morte e
colocados sobre seu peito, seu pente posto sobre os pêlos púbicos e seus brincos dispostos
simetricamente no chão, um de cada lado da cabeça. Este tipo de compulsão e o estranho ritual
em meio a um frenesi tal, traduzido em desorganizada lesão corporal, fez-me saber que o
criminoso sofria, havia muito tempo, de profundos problemas psicológicos. O método usado
para o abuso sexual, com o guarda-chuva da vítima enfiado em sua vagina, mostrou-me que
este indivíduo tinha um problema real com as funções sexuais normais e, mesmo que estivesse
na casa dos vinte anos, continuava ainda no estágio pré-adolescente ou inicial da fantasia
sexual, da experimentação e da curiosidade sobre o corpo feminino. Com sua óbvia hostilidade
sociopsicopata, não era necessária muita imaginação para ver que lidávamos com um ser muito
perigoso. Fiquei muito gratificado de poder ser útil na caçada e prisão desse criminoso, o qual,
como previ então, morava na vizinhança, não possuía carro e tinha um sub-emprego de pouco
interesse para si, além de contar com parentes no prédio da vítima.
Baseado ao menos em parte na descrição do dr. Phillips sobre a cena do crime da rua
Hanbury, creio que lá a polícia estava lidando com um tipo similar de criminoso, mas, é claro,
sem a compreensão necessária para percebê-lo. Embora ainda não tivesse toda a evidência,
comecei a criar um perfil psicológico que refletia um criminoso não-sofisticado, tal como esse
criminoso, noventa anos depois, de Nova York, uma combinação de personalidade inadequada,
sexualmente imatura e violenta.
O dr. Phillips providenciou a remoção do corpo não-identificado para o Necrotério de
Whitechapel, na rua Eagle, e naquela tarde fez uma autópsia completa que confirmou algumas
de suas observações anteriores, inclusive os arranhões no rosto que comentamos antes. As
lacerações na garganta mostravam que o assassino tentara separar os diversos ossos do pescoço
após a morte, o tipo de curiosidade anatômica pervertida que eu compararia à tentativa de
remover a cabeça de Polly.
Porém havia ainda mais: não só os intestinos foram separados de seus ligamentos no
abdômen e colocados sob o ombro, mas também o útero, a metade da vagina e a maior parte da
bexiga haviam sido removidos por completo — parecia que cortados com certo cuidado — e
não foram encontrados perto do corpo. O assassinato de prostitutas de rua, como sugerimos,
não era incomum, mas a mutilação post-mortem era, em essência, desconhecida para os
vitorianos.
Infelizmente, não para nós. O que percebíamos no caso não fora apenas uma matança
febril, mas um homem que levava para guardar lembranças anatômicas. A remoção do útero e
da vagina me sugeria alguém que odiava as mulheres e provavelmente as temia. Retirando os
órgãos sexuais internos da vítima, estava, com efeito, tentando neutralizá-la, subtraindo o que
percebia ser uma ameaça sexual. Como, junto com isso, não havia evidência de estupro, o
medo das mulheres e do poder sexual delas é uma forte probabilidade.
A vítima foi identificada como Annie Chapman por uma lavadeira amiga sua chamada
Amelia Palmer. A corpulenta Annie, nascida Eliza Anne Smith, media 1,56m, tinha cabelos
castanhos e olhos azuis. De todas as vítimas, era a mais digna de pena. No final dos quarenta,
sua autópsia mostrou sinais de má nutrição e de enfermidades crônicas do pulmão e da
membrana que envolvia o cérebro, que não demorariam muito a matá-la se o ED não o fizesse.
Casara-se com John Chapman, que ganhava a vida como cocheiro de famílias de posses em
Mayfair. Tiveram três filhos, entre eles uma menina que morrera ainda bebê e um menino que
era deficiente físico — o que era comum acontecer entre os pobres. Seu casamento, tal como
os de Martha Tabram e Polly Nichols, terminara devido à bebida, mas como John morrera
quatro anos antes de cirrose, suspeitamos que o problema não era só dela. De qualquer modo,
ela vivia por seus próprios meios, suplementando as pequenas quantias de dinheiro que
conseguia ganhar vendendo fósforos, flores e trabalhos de crochê feitos por ela com quantias
menores ainda, conseguidas prostituindo-se na área bem ao redor do Mercado Spitalfields. Na
ocasião de sua morte, estava morando no Albergue Comunitário de Crossingham, na rua
Dorset, onde ganhara a reputação de ter um temperamento violento devido a brigas com outras
prostitutas. Afirmava-se também que era uma pequena ladra, e que seu finado marido perdera,
pelo menos, um de seus empregos por causa dos roubos dela.

Annie usava três anéis baratos, os quais não foram encontrados em sua mão. O assassino
— ou alguma alma desesperada — deveria tê-los tirado, ou por seu valor em dinheiro ou para
guardá-los de lembrança.
Os relatos a respeito de sua última noite são tragicamente parecidos com aqueles sobre
Polly Nichols. Mais cedo, na parte da tarde, ela contara a sua amiga Amelia Palmer que estava
muito doente para ir trabalhar, porém teria que fazer alguma coisa para conseguir o dinheiro
para ter uma cama para dormir à noite. Outra residente de Crossingham a vira na cozinha, já
bêbada e tomando duas pílulas de uma caixa que tinha em seu bolso. Ela derrubara a caixa, que
quebrara, e então colocara as pílulas restantes num pedaço rasgado de envelope que estava no
chão. Ela passara bebendo o final da noite de sexta-feira, 7 de setembro, e às primeiras horas
do sábado, 8 de setembro depois voltara ao albergue por volta de 1:35h, quando John Evans, o
vigia noturno, pedira-lhe os quatro pences do alojamento.
Annie respondeu: "Ainda não tenho o dinheiro. Estou doente e fraca e estive no hospital."
Porém, como Polly, acrescentou: "Não alugue a cama, volto logo." Ela desceu as escadas para
dizer a mesma coisa ao gerente substituto, Timothy Donovan, pedindo-lhe que a deixasse ficar
que pagaria depois. Ele recusou, a colocou para fora do lugar e ela saiu para conseguir o
dinheiro do alojamento. Ao sair, gritou para John Evans: "Não demoro, Brummy. Faça o Tim
guardar a cama para mim." Parece que todas as testemunhas que relataram ter visto Annie
bêbada naquela noite provavelmente não perceberam que ela na verdade estava muito doente.
A autópsia mostrou que havia pouco álcool em seu organismo.
Deste ponto em diante, a narrativa se torna um pouco confusa. Alguns julgam tê-la visto
do outro lado do mercado de Spitalfields, no bar Ten Bells, logo depois deste abrir, às 5:00h,
mas parece ser um caso de troca de identidade. Meia hora mais tarde, Elizabeth Darrell,
também conhecida como Elizabeth Long, viu uma mulher que ela pensou ser Annie Chapman
na rua Hanbury, conversando com um homem pouco mais alto do que ela. Elizabeth descreveu
o homem com aparência estrangeira, o que naquele tempo no East End era quase sempre um
eufemismo para alguém que parecesse ser um imigrante judeu. De acordo com Elizabeth, o
homem perguntava: "Você vai?"
Annie respondera: "Sim."
Albert Cadoche, um jovem carpinteiro que morava no número 27 da rua Hanbury, pensou
ter escutado uma luta violenta e alguém gritando "Não!" no prédio ao lado, no número 29. A
polícia, contudo, não ficou convencida do que ele ouvira e, assim, como tantos outros informes
sobre o caso, este fato também permanece ambíguo.
Entre o inspetor Abberline e seus colegas da Scotland Yard, a conclusão era inevitável —
o homem que assassinara Annie Chapman também matara Mary Ann Nichols.
O pânico se espalhou pelo East End. Alguém estava assassinando mulheres e a polícia
parecia ser incapaz de pará-lo. Tudo combinava. O mesmo demônio que matara Polly e Annie
também assassinara Martha Tabram? Parecia, a princípio, que seu acompanhante, o guarda, é
que a matara. Entretanto, se dois outros crimes aconteceram em tão pouco tempo e em lugares
tão próximos, então o primeiro poderia também ter sido cometido pelo mesmo homem. Eu não
descartaria a possibilidade de que o assassino de Polly Nichols estivesse tentando copiar o
assassinato de Martha Tabram.
Alguns até pensaram que ele não era o primeiro. No dia 2 de abril de 1888, outra
prostituta, Emma Elizabeth Smith, que vivia em Spitalfields, fora roubada e estuprada com um
instrumento sem corte, talvez uma garrafa, enfiada em sua vagina. Três dias depois, ela morreu
de peritonite no Hospital de Londres. Na ocasião, a polícia acreditou que ela tinha sido a
vítima de uma gangue local, porém nenhuma prisão foi feita. Agora, parecia aos aterrorizados
moradores que ela fora simplesmente a primeira experiência do assassino de Whitechapel.

"O AVENTAL DE COURO" E OUTRAS TEORIAS

De repente, essa área abandonada de Londres estava na mente de todos. Repórteres de


jornais, que vieram em profusão de toda parte, descreviam os moradores do East End como se
fossem de uma espécie diferente. Os locais de cada assassinato tornaram-se atrações turísticas.
O Ministério do Interior foi aconselhado a oferecer recompensa para informações que
levassem à prisão do assassino, mas o ministro resolveu não fazê-lo, já que acreditava que o
pessoal daquela área estava tão desesperado por dinheiro que daria informações falsas e
tornaria o trabalho do departamento de polícia ainda mais difícil. Embora pudesse estar
reagindo à própria experiência com os repórteres locais, para os quais manipular os fatos em
busca de uma história mais sensacional era um meio de vida, no caso ele seguia a política
oficial do próprio Ministério do Interior. Seu conceituado predecessor, sir William Harcourt,
tinha proibido recompensas quando descobrira que levavam a acusações falsas e mesmo a
crimes de inspiração deliberada.
O East End estava repleto de rumores. Pelo menos um dos médicos que examinaram os
corpos achava que o assassino tinha certo conhecimento médico ou anatômico. Isso significava
ser um médico depravado? Talvez um estudante de medicina? O Hospital de Londres e sua
Faculdade de Medicina ficavam em frente à estrada de Whitechapel, onde Polly Nichols fora
assassinada. Seria o local de treinamento do assassino e de seu refúgio? Os pobres moradores
do East End eram pessoas cínicas e desconfiadas, acostumadas a ser ignoradas ou a receber o
pior de tudo. Assim, não estava além da imaginação pensar que um médico pudesse se
perverter e tornar-se um brutal matador.
Uma das suspeitas que mais prevaleciam surgira do avental de couro encontrado perto do
corpo de Annie Chapman. Quando a polícia começou a questionar as prostitutas das ruas de
Whitechapel, uma das histórias que continuavam circulando falava de um agitador e valentão
local conhecido pelo apelido de Avental de Couro, pois estava sempre levando um,
supostamente por ser fabricante de chinelos. De acordo com os relatos, Avental de Couro
estava constantemente nas cercanias da rua Commercial, explorando mulheres e tomando-lhes
dinheiro. Era geralmente descrito como um homem baixo, troncudo, no final dos trinta ou
começo dos quarenta anos, com cabelos e bigode pretos e um pescoço anormalmente grosso. O
que se dizia nas ruas era que Avental de Couro bem podia ser o assassino de Whitechapel.

Outro indivíduo, a quem aparentemente calhava a descrição era o sapateiro John Pizer,
que dava polimento em botas. Um morador eventual da rua Hanbury identificou-o como o
homem que vira ameaçando uma mulher com uma faca nas primeiras horas da manhã de 8 de
setembro. Pizer tinha a reputação de tomar parte em brigas assim como de maltratar
prostitutas. Foi preso em sua residência na rua Mulberry, no coração de Whitechapel, na
segunda-feira, 10 de setembro. Lá foram encontradas cinco facas de lâmina longas. Foi levado
para a delegacia da rua Leman e colocado duas vezes em fila de reconhecimento pela polícia.
Numa delas, uma mulher que fazia o reconhecimento não conseguiu identificá-lo. Noutra, a
testemunha, um homem, confirmou que o tinha visto no dia 8 de setembro e que ele era
conhecido na vizinhança como Avental de Couro. Pizer mostrou-se atônito e ultrajado com a
denúncia, reclamando não saber ao que a polícia se referia.
Apesar disso, tornou-se um suspeito provável, pelo menos por horas. A seguir, o caso
começou a desmantelar-se. O homem que o identificou não reconheceu o corpo de Annie
Chapman no necrotério como a mulher que vira ameaçada. Depois, os álibis de Pizer para as
noites dos assassinatos de Polly Nichols e Annie Chapman foram verificados e provaram-se
sólidos. Após um dia e meio, Pizer foi solto.
A história de John Pizer serve como exemplo para a necessidade de cautela. Pizer, sem
dúvida, parecia apropriado para os crimes e muitos detalhes superficiais combinavam.
Somente depois que a polícia investigou as circunstâncias que o ligavam ao crime é que ele foi
liberado. Por que menciono isso agora? Porque a maioria dos candidatos a assassino,
principalmente os suspeitos que surgiram muito depois dos eventos, adequavam-se justamente
a convenientes evidências circunstanciais, como veremos adiante. Não existe nada de errado
com evidências circunstanciais. Algumas vezes, como observaremos, será tudo que teremos e
poderá ser bastante convincente para uma sólida convicção. Mas o ponto importante a ser
lembrado aqui é que qualquer um que consideremos suspeito e que na época não pôde ter seu
álibi verificado pela polícia, como foi feito com Pizer, não estará tendo um julgamento justo de
nossa parte. É claro que ninguém terá, tantos anos depois, mas é algo que se deve ter em mente
quando se escuta algumas das versões mais interessantes e, com frequência, mais
estrambóticas.
Tanto a polícia quanto a imprensa fizeram esforços combinados para encontrarem o
verdadeiro Avental de Couro, sem sucesso, enquanto a histeria sobre a identidade do "demônio
de Whitechapel" continuava a crescer.
Uma forte onda de murmúrios surgia com relação a quem ele poderia ser. Os judeus,
emigrando para a Inglaterra para escapar de perseguições na Rússia e Europa oriental,
tornaram-se uma força proeminente no East End. No entanto, falavam uma língua estranha e
conservavam-se juntos e em comunidade, mantendo uma distância cautelosa e desconfiada dos
gentios — em outras palavras, dos "verdadeiros" ingleses. Ao se combinar o ressentimento
geral, de quem quer que seja, contra o mais recente grupo de imigrantes, com o quieto, mas
permanente, sentimento de anti-semitismo que vem sendo parte da cultura inglesa por quase
mil anos, temos uma parcela da população pronta para servir de bode expiatório. Há ainda dois
outros fatores: por mais insuficientes que fossem, as evidências sugeriam que o assassino
trabalhava ou na indústria de abate de animais ou no comércio de sapatos ou couro, ambas
atividades que eram dominadas por imigrantes judeus. Tão importante quanto isso: ninguém
acreditava que um verdadeiro inglês fizesse algo tão horrível; assim, tinha de ser alguém do
maior grupo não-inglês em evidência — os judeus.

Além disso, uma coisa tão horrível, com que poderia ser comparada? Quem matava e
eviscerava apenas pelo prazer disso, sem se tratar de roubo, vingança ou mesmo de um ato
político? Tratava-se de algo que nunca havia sido visto antes. Seria possível que o personagem
de mr. Hyde, o monstro, escapara pela porta do Lyceum e viera morar em Whitechapel?

ASSASSINO POR PRAZER

Em abril de 1980, meu colega da Unidade de Ciência Comportamental, Roy Hazelwood, e


eu apresentamos numa publicação do FBI, Law Enforcement Bulletin, o artigo intitulado "O
assassino lascivo". Escrevemos:

O assassinato lascivo é único e se distingue do homicídio sadista por envolver um ataque com
mutilação ou deslocamento de seios, reto ou genitais. Além disso, mesmo que sempre haja exceções,
basicamente dois tipos de indivíduos cometem o crime lascivo. Estes indivíduos podem ser rotulados
como personalidades anti-sociais organizadas ou associais desorganizadas.

Por serem de difícil entendimento e diferenciação, nós nos afastaremos dos termos anti-
social e associai, mas dizemos que o tipo organizado tende a ser alguém que pode interagir
bem em sociedade — apenas não tem interesse ou preocupação pelo bem-estar de outra pessoa
que não seja ele próprio. Compreende as implicações de seus crimes e os comete porque lhe
dão sentimentos de satisfação e poder que não encontra em mais nada na vida. Embora tenha
um aprofundado sentimento de inadequação pessoal, esta sensação estará em conflito em seu
interior com um sentimento de grandiosidade e merecimento igualmente fortes, que nada tem a
ver com suas realizações bastante limitadas. Planejará seus crimes e será esperto o suficiente
para cometê-los a alguma distância do local onde vive ou trabalha e agirá de forma a mantê-los
encobertos (por exemplo, escondendo o corpo) pelo maior tempo possível.
O criminoso desorganizado, de outro lado, é o tradicional solitário que se sente rejeitado
pela sociedade. Ele não é bastante sofisticado para praticar um ato organizado, bem planejado,
ou para pensar em esconder o corpo. Estes crimes, em geral, serão cometidos perto de sua casa
ou do local de trabalho, onde o criminoso se sente de algum modo confortável e familiarizado.
Embora se espere algum tipo de estupro ou penetração com o criminoso organizado, em geral
eles não são encontrados quando se trata do tipo desorganizado. Como sugerimos antes,
enquanto o tipo organizado pode mutilar o corpo como um sinal de sua raiva ou para esconder
a identidade, a mutilação praticada pelo tipo desorganizado pode representar não apenas seu
medo, mas também uma curiosidade sexual básica sobre o que acontece na superfície ou
abaixo da superfície do corpo.
O que liga os dois tipos de assassinos lascivos é uma fantasia obsessiva com o ato, muito
antes de ser cometido. Em quase todos os casos de assassinatos lascivos que vimos ou
estudamos, a fantasia vem antes do ato. Em particular, no caso de criminosos desorganizados,
a vítima pode simplesmente se apresentar ou tornar-se disponível no tempo e no lugar em que
o sujeito está pronto para agir, pronto para, por meio da força, levar um ser humano para seu
mundo de fantasia. Raras vezes a arma do crime será uma arma de fogo, pois garante muito
pouca gratificação interpessoal ou psicossexual. É mais provável o assassino usar suas mãos,
uma lâmina e/ou um bastão ou objeto pontiagudo de algum tipo. Se for levada alguma
lembrança anatômica, quase sempre simboliza a vontade de possuir por completo a vítima,
mesmo na morte.
O termo lascívia inevitavelmente traz a ideia de sexo e, na verdade, este é um
componente-chave do crime. Porém, como já sugerimos, a motivação para o ato, a necessidade
psicológica a que se relaciona pode ser resumida em três palavras: manipulação, dominação e
controle. São estes os elementos que dão ao perpetrador do crime uma satisfação aumentada
que não pode ser obtida de nada mais na vida.

Então, onde se encaixa o componente sexual? É evidente que para o assassino lascivo o
sexo se junta em sua mente com fantasias de poder e controle. Talvez o melhor modo de
explicar isso seja usar a definição de estupro proposta por minha amiga Linda Fairstein, chefe
da Unidade de Crimes Sexuais do Escritório do Procurador Distrital do Condado de Nova
York e uma das maiores heroínas na luta constante contra esses predadores. No debate
permanente sobre como classificar o estupro, se como um crime sexual ou violento, Linda o
denomina "um crime violento no qual o sexo é a arma". Embora os crimes de Whitechapel não
envolvessem o estupro propriamente dito, a distinção ainda é instrutiva.
Em nosso artigo de 1980, Roy Hazelwood e eu propusemos que a formação de uma
personalidade assassina lasciva acontece cedo na vida, e pesquisas subsequentes não nos
deram razão para alterar nossa opinião. Haverá um padrão de comportamento levando à
violência, que em geral começa com atividades de voyeurismo ou furto de roupas de mulher,
que servem como um substituto para sua inaptidão em lidar com as mulheres de um modo
maduro e confiante. O tipo organizado poderá ser agressivo durante os anos de sua
adolescência, como se quisesse voltar à sociedade por erros percebidos ou insignificantes. Este
tipo terá dificuldade em lidar com a autoridade e estará ansioso para exercer controle sobre os
outros todas as vezes que puder.

Se estivéssemos examinando esses casos hoje em dia, já pelo assassinato de Annie


Chapman, eu suspeitaria de um assassino lascivo, o que será importante quando chegarmos ao
final de nossa lista dos possíveis suspeitos. Apesar de os crimes em grande parte indicarem um
ED desorganizado, os aspectos sugerem uma personalidade mais na linha do criminoso de
personalidade mista.
Existiam assassinatos em série antes dos crimes de Whitechapel? Provavelmente, embora
por alguma razão fossem ignorados como um padrão ou interpretados como roubos ou
assassinatos por vingança, em especial se as mutilações envolvidas fossem extremas em
demasia. É importante observarmos que, antes da Londres vitoriana e da Revolução Industrial,
as cidades eram menores e as comunidades bem mais homogêneas. Pensamos que as histórias
e lendas sobre feiticeiras, lobisomens e vampiros (beber sangue ou cometer antropofagia não
são características incomuns do criminoso desorganizado) podem ser um modo de explicar
atrocidades tão horríveis — ninguém nas pequenas cidades da Europa e da jovem América,
onde todos se conheciam, poderia compreender tais perversões.

O EVENTO DUPLO

A polícia enviou centenas de policiais a mais para o East End a cada noite — um destes
disfarçado de mulher, segundo os relatos — tentando capturar o assassino em flagrante. Este
era um dos poucos meios efetivos de prender um assassino no meio de estranhos. Se a vítima
conhecia o assassino, a polícia poderia seguir uma trilha de relacionamentos e testemunhas
confiáveis. Se o assassino era um ladrão que seguia um padrão em seu empreendimento
criminoso, qualquer uma das vítimas casuais, ou um informante poderia entregá-lo. Mas sem
precedentes para este tipo de crime, a melhor estratégia parecia ser usar recursos humanos para
impedi-lo de ter a oportunidade de matar, ou, caso isso falhasse, ter o mecanismo no local para
pará-lo em sua fuga.
Por volta de 1:00h do domingo, 30 de setembro, depois de uma longa tarde e noite de
vendas, um mascate de jóias, chamado Louis Diemschutz, estava voltando do Clube
Internacional Educacional dos Trabalhadores, na rua Berner, uma organização fraternal
fundada por imigrantes judeus, socialistas e intelectuais. Escutou cantos em iídiche ou russo,
vindos de uma janela aberta do clube. Dirigia uma charrete e ao sair da rua Berner e dobrar na
entrada de Dutfield, o animal parou de repente e recusou-se a seguir adiante. Louis notou um
pacote encostado no portão e cutucou-o com seu chicote de punho longo. Acendeu um fósforo
e viu que se tratava na realidade de uma mulher, que parecia estar bêbada, o que era uma visão
comum na vizinhança naquela hora da noite. Preocupando-se ao pensar que poderia ser sua
mulher, desceu da charrete e entrou no clube onde esta trabalhava. Não era ela e ele logo
voltou com vários outros membros do clube. Examinaram a mulher mais de perto e
perceberam que sua garganta havia sido cortada. Rapidamente, dois deles correram para
procurar um policial, encontrando no caminho outro conhecido, Edward Spooner, que
conversava com uma mulher, provavelmente uma prostituta, do lado de fora do Bar Beehive,
na rua Fairclough, que cruzava a Berner na primeira esquina. Os três encontraram o policial
Henry Lamb na esquina de Fairclough com a rua Grove e voltaram com ele para o local.
Lamb mandou chamar o dr. William Blackwell, que chegou às 1:16h, de acordo com seu
próprio relógio. Ele a declarou morta e que havia morrido há menos de vinte minutos, ou seja,
apenas poucos minutos antes de Diemschutz encontrar o corpo. O tempo que levara para entrar
no clube à procura de sua mulher talvez tivesse permitido que o assassino escondido fugisse. O
dr. Blackwell acreditava que ela fora morta em pé, sua cabeça forçada para trás pelo lenço de
seda ao redor de seu pescoço e sua garganta cortada. Uma grande quantidade de sangue estava
no local, e diferentemente dos crimes anteriores, ferimentos defensivos nas mãos da vítima
indicavam luta.
Uma mulher histérica, Mary Malcolm, casada com um alfaiate do lugar, ficou convencida
de que a vítima era sua irmã, Elizabeth Watts Stokes, e identificou o corpo por uma mordida de
cobra na perna. Afirmava ter tido uma premonição do além de que Elizabeth seria morta
naquela noite.
E a 1:30h, trinta minutos após Louis Diemschutz descobrir o corpo, na saída da Berner, o
policial Edward Watkins, da Força Policial da Cidade de Londres, passou pela praça Mitre, em
sua ronda completa a cada 12 ou 14 minutos, e encontrou a praça vazia e pacífica.
Vocês devem ter notado que identifiquei o policial Watkins como integrante da Polícia da
Cidade e não da Polícia Metropolitana. Em Londres, havia (e ainda há) o mesmo problema que
persegue os órgãos de segurança pública atuais: jurisdições sobrepostas. A cidade de Londres,
ou City, compreende uma área de 1,600m2, que engloba os tradicionais distritos históricos e
comerciais, construídos no local da colonização romana original. Os limites da cidade vão do
norte, desde o Tâmisa, até a Torre de Londres, ao oeste, incluindo a Catedral de São Paulo, o
Banco da Inglaterra, as Cortes de Justiça Reais e o Guildhall. Londres possui sua própria força
policial, que é diferente e separada da Polícia Metropolitana de Robert Peel. Nos Estados
Unidos, isso é um fenômeno comum. Tanto Beverly Hills quanto Santa Mônica têm suas
próprias forças policiais, separadas ambas do Departamento de Polícia e da Delegacia do
Condado, embora geograficamente estejam situadas por completo no território de Los Angeles.
Diversas áreas de Washington, D.C. são patrulhadas pelo Departamento da Polícia
Metropolitana do Distrito de Colúmbia, pela Polícia dos Parques dos EUA, pela Polícia do
Congresso dos EUA, pela Divisão de Proteção Executiva do Serviço Secreto etc. Dessa forma,
pode ser problemático saber quem faz o que e quando. Torna-se mesmo um problema quando
um criminoso não tem consideração o bastante para confinar suas atividades ilícitas a uma só
jurisdição.
Tal problema começou a ser enfrentado em Londres na noite que ficou conhecida como o
"Evento Duplo".

Entre 1:40h e 1:42h, o policial James Harvey fazia sua ronda na Church, uma das três
rotas para a praça Mitre, que fazia parte da jurisdição da Polícia da Cidade. Não viu ninguém
nem ouviu nada suspeito. Três minutos depois, o policial Watkins começou sua próxima volta
pela praça, chegando pelo lado oposto. Desta vez, descobriu um corpo no canto sudoeste. Uma
mulher jazia de costas numa poça de sangue. Quando Watkins iluminou o local, verificou que
a garganta dela fora cortada, seu vestido levantado acima de sua cintura, seu abdômen aberto e
os intestinos puxados para fora. Ele correu para um abrigo próximo em busca de ajuda, depois
voltou depressa para ficar perto do corpo. Um dos oficiais que respondeu ao chamado trouxe
consigo o dr. George William Sequeira, que disse ter a mulher morrido poucos minutos antes.
Dez minutos depois, mandaram chamar o dr. Frederick Gordon Brown, médico legista da
Polícia da Cidade.
O dr. Brown chegou pouco depois das 2:00h e efetuou um exame meticuloso. Um dedal
estava caído próximo dos dedos da vítima ao lado direito. Os intestinos estavam dispostos
sobre o ombro direito. Útero e rins foram removidos do corpo e não estavam no local. O rosto
e a orelha direita estavam muito mutilados, de um modo que parecia ser deliberado e
ritualístico, diferente dos talhos e cortes ao acaso do resto do corpo. O dr. Brown declarou que
a morte deveria ter sido quase imediata, causada por hemorragia da artéria carótida esquerda.
Todas as mutilações foram infligidas após a morte.

A INSCRIÇÃO NA RUA GOULSTON

A polícia de Londres espalhou-se pela área, esperando capturar um assassino cujo rastro
ainda estava fresco. O policial Alfred Long, da Polícia Metropolitana, em sua primeira noite de
ronda, já as 2:20h, passava pela rua Goulston, que vinha do lado norte da rua Whitechapel
High, e estava bem sobre a linha (rua Middlesex) que separava sua jurisdição da jurisdição da
cidade. Nada parecia fora do normal. Porém, 35 minutos depois, algo estava lá. Um pedaço de
tecido ensanguentado, ainda úmido, fora largado no patamar da entrada dos números 108-119
da rua Goulston, um conjunto habitacional conhecido como Wentworth Model Dwellings.
Verificou-se que era parte do avental usado pela vítima da praça Mitre e era provável que fosse
a única evidência documental e física em todo o caso.
Na parede acima do local com o fragmento de tecido, o policial Long leu uma mensagem
escrita com giz branco. Pelo que se recordava, ela dizia: "Os Judeos são os homens Que não
Serão Culpados de nada."
Outros policiais relataram que as palavras e as iniciais maiúsculas eram "Os Judeos não
são Os homens Que Serão Culpados de algo."
A discrepância surgiu por não restar nenhum registro do que se tornou conhecido como "a
inscrição da rua Goulston". O superintendente Thomas Arnold, chefe da divisão H, ao chegar
ao local, alarmado pela implicação da mensagem rabiscada, temendo que, fosse ou não
relacionada com o assassino, pudesse incitar violentos sentimentos anti-semitas, já despertados
pelos rumores sobre Avental de Couro, mandou um policial apagá-la com uma esponja
molhada. Outros policiais, em especial os da concorrente Polícia da Cidade, argumentaram que
logo amanheceria, quando então a evidência poderia ser fotografada antes de ser destruída.
Arnold, entretanto, não queria arriscar-se. O comissário de polícia, sir Charles Warren, chegou
ao local um pouco mais tarde e confirmou a ordem de Arnold, supondo que a inscrição fora
feita por alguém que queria jogar a culpa em geral nos socialistas judeus. A mensagem foi
apagada pouco antes do nascer do sol, às 5:30h da manhã.
Três semanas depois, em consequência de críticas violentas, tanto pessoais quanto
relativas ao modo como a Polícia Metropolitana estava cuidando do caso, Warren demitiu-se
de seu posto.
Mesmo que a inscrição da rua Goulston fosse preservada e que se soubesse ser do
assassino, teria pouco valor forense. Giz numa parede não serve como exemplo de caligrafia
tal como uma escrita à tinta ou a lápis em papel. Desse modo, tentar comparar o rabisco com
qualquer caligrafia conhecida praticamente não faria sentido. No aspecto comportamental,
poderia ter sido de alguma utilidade, mas em sua maior parte para evidenciar que o autor era
instável, anti-semita, ou ambas as coisas.
O lugar onde se encontrou o avental, porém, é uma indicação muito mais importante, pois,
no aspecto comportamental, podemos chegar à conclusão razoável de que a rua Goulston
ficava no trajeto do assassino entre dois locais críticos: a praça Mitre, onde o crime ocorrera, e
o local desconhecido onde o assassino residia ou buscara refúgio naquela noite. Embora
tenhamos que ser cuidadosos com esse fato, pois como a Scotland Yard observou ao refazer o
trajeto suspeito, um cachorro perdido poderia ter pegado o pedaço de tecido onde fora deixado
pelo assassino e o carregado por bem mais de cem metros. Porém creio que ainda podemos
confiar na direção geral. Devemos também mencionar que a praça Mitre fica apenas à
distância de uma caminhada de 12 minutos da rua Berner, onde a primeira vítima da noite fora
descoberta.
Ao dizer tudo isso, contudo, não podemos deixar de lado o importante significado da
decisão de Arnold, referendada por Warren, de apagar a mensagem. Isto deu origem a uma das
grandes teorias conspiratórias sobre o caso — a do envolvimento maçônico — o qual
abordaremos agora.
Muitos, entre os policiais, acreditavam que "Judeos" era uma forma ignorante de escrever
"judeus", com os quais muitas pessoas do East End se sentiam ressentidos e suspeitavam de
seu envolvimento nos crimes. Mas havia outra interpretação. De acordo com algumas pessoas,
a palavra referia-se, nas tradições secretas da maçonaria, a três traidores que trabalharam na
construção do templo do Rei Salomão e haviam assassinado o arquiteto e construtor deste,
Hiram Abiff. Seus nomes eram Jubela, Jubelo e Jubelum. Conforme a tradição, os três
"Judeos" sofreram todos os tipos de torturas insidiosas como punição e advertência, inclusive a
remoção de suas línguas e estripamento, com seus intestinos jogados sobre um ombro. O que, é
claro, nos lembra a mutilação de algumas das vítimas de Whitechapel, em particular no que se
refere aos intestinos. Apesar de todas as lesões corporais infligidas, as línguas não foram
cortadas, o que pareceria do mesmo modo simbólico e, portanto, igualmente importante. Com
relação aos intestinos, havia tanta mutilação que poderia ser relacionada praticamente com
qualquer outra tortura histórica de mutilação e sempre haveria alguma coincidência.

Muitos dos envolvidos no caso eram maçons, inclusive Warren e, por um breve período, o
dr. Robert Anderson. As ideias conspiratórias concluíam que os assassinatos faziam parte de
uma grande trama maçônica e que, ao apagar a inscrição, Warren tentara proteger seus
companheiros maçons, mesmo que isso significasse destruir evidência e atrapalhar a
investigação. É claro que, se aceitamos que se tratava de uma advertência, por que apagá-la
antes que alguém recebesse o aviso? De qualquer modo, a lógica é muito confusa para fazer
sentido de uma perspectiva de análise investigativa. É preciso dizer, porém, que a teoria da
conspiração maçônica continuou a crescer e tornou-se mais elaborada até que, ao final, juntou-
se às teorias já existentes sobre a família real.
Levando-se tudo em conta, minha tendência é concordar com a polícia: a inscrição fora
uma descoberta incidental, sem relação com o crime. Tratava-se de coincidência ela encontrar-
se na parede sobre o avental? Talvez sim, talvez não. Inscrições eram comuns naquela área,
principalmente com os mesmos sentimentos. A primeira coisa que devemos indagar é que
diabos significa "Os Judeos são os homens Que não Serão Culpados de nada" ou "Os Judeos
não são Os homens Que Serão Culpados de algo"? Para a explicação mais lógica, sigo Martin
Fido, o proeminente estudioso, autor e historiador criminal britânico, um dos investigadores do
Estripador de maior conhecimento e recursos. Fido interpreta a sintaxe da inscrição da rua
Goulston como característica da tendência londrina de usar duplas negativas. Fido observa que
a rua Goulston fica bem perto da Middlesex, ou da travessa Petticoat, o maior mercado judeu
de Londres. Ligando as duas havia a rua Wentworth, onde ficava um mercado de sapatos
baratos. Dado o anti-semitismo, e sabendo-se bem que podiam ser conseguidos sapatos, roupas
e outras mercadorias dos comerciantes judeus, Fido explica que no dialeto londrino a inscrição
poderia ser "traduzida" como "Os judeus são os homens que não se responsabilizarão por
nada", e que era provável que tivesse sido feita por algum fanático raivoso do East End (para
não dizer sem instrução), que se sentira enganado por um comerciante judeu que não se
responsabilizara pelo produto que vendia. Assim, foi apenas por mera coincidência que a
mensagem raivosa fora encontrada acima do pedaço de avental ensanguentado.
Se aceitamos a interpretação de Fido sobre a dupla negativa, como é meu caso, por que a
mensagem não poderia referir-se do mesmo modo ao Judeos da tradição maçônica? Por que
não indicaria uma conspiração da maçonaria? Bem, por uma razão: na Londres de 1888, a
referência ao "Judeos" teria sido esotérica demais. De acordo com a pesquisa de Fido, todas as
referências a Jubelo, Jubela e Jubelum desapareceram do ritual maçônico inglês, já muitíssimo
secreto, entre 1811 e 1815. Alguém que tivesse conhecimento de algo tão obscuro não era do
tipo que rabiscaria isso na entrada de um conjunto habitacional, principalmente na fuga de um
crime tão desorganizado e sangrento. Quanto a ser um aviso maçônico sobre o destino que
poderia acontecer com "traidores", caso se tratasse de algo tão sigiloso, por que se entregar de
modo tão rudimentar? Não se justifica.

AS VÍTIMAS IDENTIFICADAS

Na noite de primeiro de outubro, a identidade da vítima da rua Berner foi finalmente


conhecida. Apesar de Mary Malcolm ter identificado a mulher morta como sua irmã Elizabeth
Watts Stokes, a sra. Stokes apareceu bem viva. A verdadeira vítima era Elizabeth Stride, uma
imigrante sueca, de 44 anos, que foi identificada pelo sobrinho de seu antigo marido, o policial
Walter Frederick Stride, da Polícia Metropolitana. Era difícil saber como ela se parecia viva, já
que sua única foto conhecida foi tirada no necrotério, depois de morta. Todos os dentes da
arcada esquerda inferior estavam faltando, o que indica ter sofrido de doenças crônicas e
vivido na pobreza, tal como as outras vítimas.
Do mesmo modo que as outras vítimas, seu casamento havia terminado pelo menos alguns
anos antes. Ela circulara entre o horrível abrigo de Whitechapel e os alojamentos das ruas
Flower and Dean, depois se mudara e fora viver na rua Dorset com um trabalhador chamado
Michael Kidney, que era sete anos mais moço do que ela. Kidney já fora fichado na polícia e
dizia-se que de vez em quando batia nela. Ela era conhecida na vizinhança como Long Liz e
repetidas vezes fora presa devido ao alcoolismo.
De acordo com a melhor reconstrução feita pela polícia, Liz Stride fora vista no bar
Queen's Head por volta das 18:30h, do dia 29 de setembro, depois voltara para a esquina da
Flower com a Dean por volta das 19:00h. Aproximadamente às 23:00h, dois trabalhadores
viram-na deixar o bar Briclayers'Arms, na rua Settles, entre as avenidas Whitechapel e
Commercial. Estava com um homem que parecia ser um inglês bem vestido, medindo próximo
aos 1,65m. Os dois homens caçoaram de Liz, gritando-lhe para tomar cuidado no caso de seu
acompanhante ser o Avental de Couro. Outro trabalhador a viu, 45 minutos depois,
aparentemente com o mesmo homem, na rua Berner. Após um beijo, o homem lhe dissera,
"Você não dirá mais nada além de suas preces". Cinco minutos após, o vendedor de frutas,
Matthew Packer, vendeu 250g de uvas para um homem que os outros viram com Liz. Estava
chovendo e ele notou que o casal permanecera quase meia hora do lado de fora, em frente a
sua loja na Berner. Ainda estavam lá quando o policial William Smith, da Polícia
Metropolitana, notou um casal que combinava com as descrições feitas pelos outros.
Tal como acontecera nos crimes anteriores, este também se torna confuso. O estivador
James Brown viu duas pessoas, que pensou serem Liz Stride e seu cliente, encostadas em uma
parede na rua Fairclough. Ela dizia: "Não esta noite. Talvez outra noite qualquer." Ao ver o
corpo de Liz Stride no necrotério, Brown assegurou que se tratava da mulher que vira.
Ao mesmo tempo, porém, um imigrante judeu húngaro chamado Israel Schwartz estava
voltando do Clube Internacional dos Trabalhadores, na rua Berner, quando julgou avistar um
homem derrubando Liz Stride no chão. Ao atravessar a rua, o homem lhe gritou "Lipski", um
apelido anti-semita que se referia a um assassino judeu que há pouco tempo fora enforcado.
Schwartz contou que, próximo dali, notara outro homem acendendo seu cachimbo e, receando
ser assaltado, fugiu. Fez um relato completo para a polícia e quando o levaram até o corpo de
Liz Stride no necrotério, também a identificou como a mulher que vira.

Decorreram quase 15 minutos depois do encontro de Schwartz, quando Louis Diemschutz


encontrou o corpo aproximadamente no mesmo local. Schwartz vira de fato Elizabeth Stride?
No caso de ser assim, ela teria sido morta pelo homem que a derrubara? Ou se afastara dele
para depois sofrer um ataque fatal de outro homem? Poderia este ser o segundo homem que
Schwartz vira acendendo seu cachimbo? Talvez este homem e o que derrubara Liz não
tivessem nada em comum. Qualquer que fosse o caso, nenhum deles concordava com a
descrição do homem no casal visto pelo policial Smith 15 minutos antes.
Quando é impossível solucionar testemunhos conflitantes — o que acontece com grande
regularidade — estes são guardados no fundo da memória e voltamos para outras evidências,
de cunho forense ou comportamental, que aparentam ser mais sólidas e confiáveis. Ao
surgirem outras pistas, podemos retornar a eles e verificar se combinam.
A vítima da praça Mitre foi identificada com maior facilidade do que Elizabeth Stride.
Vestia e carregava consigo todas as suas posses e entre elas encontrou-se uma lata de mostarda
contendo duas cautelas de penhor. Uma delas estava em nome de Anne Kelly, nome
semelhante a Mary Anne Kelly, dado por uma mulher que fora recolhida bêbada na calçada às
20:30h de sábado e levada para a delegacia de Bishopsgate para curar a bebedeira. Na terça-
feira seguinte, um carregador desempregado do mercado, chamado John Kelly, foi à polícia,
receando que as cautelas de penhor pertencessem a sua mulher, Catherine Kelly, também
conhecida como Catherine Conway, cujo primeiro marido fora um soldado chamado Thomas
Conway. Descobriu-se que a vítima era a mulher que Kelly receava ser, embora ela fosse mais
conhecida pelo seu apelido Kate e por seu nome de solteira, Eddowes. Numa réplica patética
das vítimas anteriores, Conway a deixara oito anos antes por causa do alcoolismo dela. Ela e
John Kelly pareciam se dar muito bem, embora fossem desesperadamente pobres.
Haviam voltado na quinta-feira de uma viagem a Kent, onde tinham ganho dinheiro
colhendo lúpulo, uma espécie de trabalho rural temporário. Esta era uma atividade comum
entre os habitantes do East End. Ficavam ao ar livre enquanto ganhavam um pouco de dinheiro
por seu trabalho. Quando Kate e Kelly voltaram, ainda sem dinheiro suficiente, passaram uma
noite juntos, no Abrigo da aléia Shoe, onde eram bem conhecidos. Na sexta-feira, Kate deu a
Kelly umas poucas moedas para ficar num alojamento das ruas Flower e Dean enquanto ela foi
ao abrigo de Mile End para tentar passar outra noite antes que a pusessem para trabalhar. No
sábado, encontrou-se com Kelly de volta na aléia Shoe e levou um par de botas dele para
penhorar, recebendo dois shillings e seis pences.
O casal usou o dinheiro para comprar alimentos e tomar café da manhã; depois, de novo
sem dinheiro, Kate procurou sua filha para lhe pedir algum emprestado, mas não conseguiu
encontrá-la. A próxima vez em que alguém a viu foi quando, naquela noite, o policial Louis
Robinson, da Polícia da Cidade, encontrou-a bêbada deitada na calçada. Ao não conseguir
parar em pé, terminou sendo levada para a delegacia da Bishopsgate.

Ela acordou por volta de 0:30h e pediu para ser solta. O policial Hutt prometeu libertá-la
quando estivesse "capacitada", enfim, abrindo-lhe a porta à 1:00h, por já ser muito tarde para
ela conseguir mais bebida.
"Vou levar uma surra danada quando chegar em casa" — disse ela, testemunhando a
violência doméstica implacável naquela época.
Ao redor de 1:35h, o vendedor de cigarros Joseph Lawende, o negociante de móveis Harry
Harris e o açougueiro Joseph Levy acreditaram ter visto Kate Eddowes, numa das entradas da
praça Mitre, conversando amigavelmente com um homem. Porém não viram o rosto dele,
apenas o que estava vestindo.
Esta foi a última vez em que Catherine Eddowes foi vista viva.

CONEXÃO

Como criadores de perfis psicológicos, a primeira pergunta que nos fazemos é se os dois
crimes Evento Duplo relatados estão relacionados. A resposta inicial seria sim, mas antes de
chegarmos a alguma conclusão, vejamos as evidências comportamentais.
Os crimes foram cometidos no espaço de uma caminhada de 12 minutos um do outro,
num período de tempo de vinte a trinta minutos e o histórico das vítimas, similar. Quais as
oportunidades de haver dois criminosos lascivos operando nesta área, ao mesmo tempo e com
igual modus operandi? Muitas vezes, os detetives costumam me fazer este tipo de pergunta e,
também mais tarde, ao testemunhar em julgamentos, foi-me pedido para relacionar vários
casos e mostrar um padrão de comportamento.
Com relação a esse aspecto, em 1993, no julgamento de Cleophus Prince Jr., acusado do
assassinato de seis mulheres em San Diego, argumentamos com sucesso. Sentimos que Prince
era extremamente perigoso e, no julgamento, conseguimos provar sua culpa nos assassinatos e
não apenas naquele em que havia evidência sólida pela comprovação do DNA. Foi isto que
permitiu caracterizar o crime, pelas leis da Califórnia, como de "circunstâncias especiais",
tornando-o crime capital. Assim estabelecido, não haveria meios de Prince sair novamente às
ruas para matar mais pessoas. Mostrando a semelhança no histórico das vítimas, o modus
operandi, os elementos de assinatura, armas e locais, demonstramos ao júri não ter sentido que
acontecesse de dois ou mais criminosos diferentes possuírem idênticas características
comportamentais e estarem agindo numa área específica de San Diego ao mesmo tempo.
Porém será que esta situação que estamos abordando é igual à do Evento Duplo de
Whitechapel? Quais são as possibilidades de dois assassinos lascivos operarem nos mesmos
lugar e tempo? Bem, consideremos alguns aspectos.
Em primeiro lugar, a garganta de Liz Stride estava cortada e havia arranhões profundos em
seus rosto e pescoço, mas ela não estava tão mutilada quanto Polly Nichols, Annie Chapman e
Catherine Eddowes. De acordo com a terminologia que usamos em Quantico, o modus
operandi é similar, mas a assinatura parece ser diferente. Modus operandi e assinatura são os
dois termos mais importantes com os quais lidamos. Ambos são usados para avaliar o
comportamento e procurar os EDs. No entanto, são aspectos diferentes de um crime. Modus
operandi se refere às técnicas que o criminoso emprega para cometer o crime; assinatura diz
respeito a elementos que não são necessários para a consecução do crime; ambos utilizados
pelos criminosos para satisfazer suas necessidades emocionais. Se um ladrão de bancos tapa as
lentes de uma câmara de vigilância, isso é modus operandi. Se tem a necessidade de rasgar
suas roupas e dançar nu diante da mesma câmara, isso é assinatura; não o ajuda a cometer o
crime — de fato, nesse caso, o prejudica — mas trata-se de algo que ele tem que fazer para
experimentar satisfação emocional.
Vejamos um exemplo mais sério desses dois elementos, obtido justamente dos assassinatos de
Whitechapel. O assassino atacou rapidamente, Annie Chapman porque pensou que tinha que
neutralizá-la para poder praticar o crime. Entretanto, depois de levá-lo a cabo, com a vítima já
morta, ainda necessitou mutilá-la. A isto nos referimos como crime com assinatura. O crime
não é um meio para um fim, tal como um assalto ou pronunciamento político. Ele é executado
para que o criminoso possa satisfazer, no caso, suas necessidades psicossexuais.
Bem, há alguma maneira razoável de explicar a divergência de assinatura entre Liz Stride e as
outras três vítimas? Certamente que sim. Seu nome é Louis Diemschutz. Uma razão lógica pela
qual o ED não retalhou Liz depois de sua morte é por Diemschutz tê-lo surpreendido antes que
seu trabalho estivesse completo. Porém, seu desejo de sangue não foi saciado, assim teve que
procurar outra mulher, uma prostituta vulnerável, para mutilar. Na próxima ocasião, com Kate
Eddowes, pôde fazer como queria. Na verdade, teve tanto tempo que pôde escrever uma
mensagem cifrada na parede da rua Goulston para seus perseguidores encontrarem e
interpretarem.
Até aí temos uma boa análise criminológica. Porém, existe outra questão potencialmente mais
séria do que a divergência de elementos de assinatura. Ficou claro, a partir da autópsia de
Elizabeth Stride, que ela fora morta com uma faca de lâmina curta e não de lâmina longa,
como as que obviamente foram usadas em Polly Nichols e Annie Chapman. Talvez isso não
seja problema. Provavelmente o assassino possuía mais de uma faca, principalmente se
trabalhasse com abate de animais ou no comércio de couro. Mas é um problema, da
perspectiva de uma análise criminal. Por quê? Porque Catherine Eddowes também foi morta
com uma faca de lâmina longa.
Se a faca de lâmina curta fosse usada na segunda vítima da noite, fosse ou não usada na
primeira, não teríamos um problema de relação. Significaria que o ED mudara de faca por
quaisquer razões em seu modus operandi ou que, depois da primeira morte, temendo ser
descoberto pela faca longa, pensou ser melhor trocá-la por outra. Porém da maneira que
aconteceu, a faca longa sendo usada pouco depois naquela noite em Catherine Eddowes,
lembramo-nos de imediato de Polly Nichols e Annie Chapman, mas não necessariamente de
Liz Stride.
Será que isso significa que havia outro assassino naquela noite? Poderia ser. De fato, muitos
especialistas no caso acreditam que sim.
Poderia ser um imitador. Mas tão próximo no tempo e no espaço? Não seria uma coincidência
grande demais o imitador atacar e, menos de meia hora depois, o verdadeiro criminoso atacar
tão perto? É verdade, coincidências realmente acontecem nesses casos, mas creio que seria
muito pouco provável. Baseado no histórico das vítimas, no modus operandi e na localização,
aconselharia a Polícia Metropolitana e a da cidade a relacionarem o assassinato de Liz Stride
com os outros três (possivelmente quatro).
Mas então, qual seria a resposta comportamental para o uso de uma faca curta em Liz Stride?
Não sei. Não faz sentido. Teria o ED levado duas facas e, por capricho, usado a faca curta para
matar Elizabeth Stride e, depois, teria decidido que não era tão boa? Poderia ser. Esta não é
uma ciência exata. Pessoas, inclusive criminosos, têm todo tipo de atitude sem razão
consciente especial, o que é um fator difícil de ser analisado. A partir de minha experiência,
entendo que todo caso importante parece ter falhas. Quando somos detetives ou criadores de
perfis psicológicos, acostumamo-nos com as ambiguidades. Não as apreciamos, mas
aprendemos a conviver com elas.

"CARO CHEFE"

Se o assassinato de Annie Chapman provocou espasmos de terror no East End, as mortes


de Liz Stride e Kate Eddowes deixaram todos em Londres no auge do pavor. Além disso, o
malfeitor finalmente tinha um nome.
Na segunda-feira, primeiro de outubro, o mundo tomou conhecimento do conteúdo de
duas correspondências — uma carta e um cartão-postal —, colocadas no correio com um
intervalo de quatro dias em duas localidades diferentes no leste de Londres e enviadas para a
Agência Central de Notícias. Ambas foram publicadas no matutino Daily News e no vespertino
Star, após serem entregues para análise na Scotland Yard. A polícia, por conta própria, também
as distribuiu, na esperança de que alguém reconhecesse a forma de redigir ou a caligrafia e os
informasse. A carta, escrita com tinta vermelha e pastel, com caligrafia fluente e bem feita,
dizia:
25 de setembro de 1888
Caro Chefe,

Continuo a escutar que a polícia me apanhou, mas por enquanto ainda não vão
conseguir dar jeito em mim. Acho graça quando parecem tão espertos e dizem que estão
no caminho certo. A brincadeira sobre o Avental de Couro me fez ter verdadeiros acessos
de riso. Estou atrás das prostitutas e não vou parar de estripá-las até me cansar. O último
trabalho foi formidável. Não dei tempo para a senhora gritar. Como poderão me apanhar
agora? Gosto do meu trabalho e quero começar de novo. Em breve vocês terão notícias
minhas e dos meus joguinhos engraçados. Guardei um pouco daquele material vermelho
numa garrafa de cerveja de gengibre, depois do último trabalho, para escrever com ele,
mas ficou muito espesso, parecia cola, e não pude usá-lo. Acho que tinta vermelha já está
bem, rá, rá! No próximo trabalho, vou cortar fora as orelhas da senhora e mandá-las para
os policiais apenas pela diversão, vocês não fariam o mesmo? Guarde esta carta até eu
fazer mais alguma coisa, depois a distribua logo. Minha faca está tão boa e afiada que
quero trabalhar imediatamente, assim que tiver a oportunidade.
Boa sorte.

Atenciosamente,
Jack, o Estripador

Não leve a mal, se assino apenas meu nome artístico.

Havia um segundo pós-escrito, anexado ao lado, e este era escrito com lápis vermelho:
“Não foi muito bom colocar isto no correio antes de tirar toda a tinta vermelha de minhas
mãos, maldita falta de sorte. Estão dizendo agora que sou um médico, rá, rá!”
Isto ficou para sempre conhecido como a carta "Caro Chefe" e foi a primeira aparição do
nome Jack, o Estripador, nome este que rapidamente suplantou a alcunha "Assassino de
Whitechapel" nas conversas públicas e nos pesadelos particulares.
A outra comunicação, conhecida como o cartão-postal "Jacky Safado", também estava
escrita com pastel e dizia:
Eu não estava brincando caro velho chefe quando lhe dei a dica, amanhã você vai
ficar sabendo do Evento Duplo de Jacky Safado desta vez a número um gritou muito e não
consegui acabar logo, não tive tempo de pegar as orelhas para a polícia obrigado por
guardar a última carta até eu voltar de novo ao trabalho.
Jack, o Estripador

Então, afinal o monstro tinha se comunicado com o mundo e espalhado seu nome de gelar
o sangue. Tinha mesmo?
Deixe-me dizer que, embora a polícia suspeitasse de imediato das correspondências,
muitos especialistas, após considerações cuidadosas, continuam a acreditar que a carta "Caro
Chefe" e o cartão-postal "Jacky Safado" são autênticos. Depois de algumas análises pessoais,
estou com a Scotland Yard e acredito que sejam falsas.
O processo que utilizamos para avaliar correspondências de ED tais como notas casuais e
cartas à polícia, é conhecido como análise psicolinguística. Não se trata de análise grafológica
— podemos pedir que outros especialistas nos ajudem quando cremos ser necessário —, mas,
sim, da positivação do uso real da linguagem, do estilo e, é claro, da mensagem subjacente.
De todos os imitadores do estilo Jack, o Estripador, ao longo dos anos, talvez o mais
famoso e notório tenha sido o Estripador de Yorkshire, que nocauteava e esfaqueava mulheres,
a maior parte delas prostitutas, no norte da Inglaterra, de 1975 a 1980. Ocorreram oito mortes e
três mulheres conseguiram escapar. O caso tornou-se a maior caçada humana na história da
segurança pública britânica. Nessa ocasião aconteceu de estarmos em Londres para dar um
curso na academia de polícia de Bramshill, o equivalente inglês de Quantico, que fica mais ou
menos a uma hora de distância de Londres. A polícia já tinha literalmente feito milhares de
interrogatórios.

Como podemos esperar num caso dessa magnitude, tanto a polícia quanto a mídia tinham
recebido muitas cartas de pessoas que pretendiam ser o Estripador de Yorkshire. Todas foram
avaliadas, mas não acredito que a polícia lhes tenha dado muito crédito. Aí então chegou por
correio uma fita, com dois minutos de gravação, para o inspetor-chefe George Oldfield,
zombando da polícia e prometendo atacar novamente. Do mesmo modo que a carta "Caro
Chefe" fora publicada em jornais por toda a Inglaterra, a fita de Oldfield foi ouvida em todas as
partes — no rádio, na televisão, em números telefônicos gratuitos e, até mesmo, nos sistemas
de alto-falantes dos jogos de futebol — na esperança de que alguém reconhecesse a voz e
identificasse o criminoso.
Eu tinha escutado uma cópia da fita em Quantico, e uma noite, após as aulas em
Bramshill, perguntaram-me o que achava. Pedi que me descrevessem os locais. Parecia que o
ED fazia com que as vítimas ficassem em situação vulnerável e depois, do mesmo modo que o
assassino de Whitechapel, atacava-as de surpresa, neste caso com uma faca ou martelo. Assim
como em Whitechapel, ele as mutilava depois de mortas. Achei que a voz na fita era muito
articulada e sofisticada para alguém cujo máximo prazer na vida era matar e mutilar
prostitutas. Respondi, então: "Com base nas cenas do crime que me descreveram e pela fita de
áudio que escutei nos Estados Unidos, não é o Estripador. Estão perdendo seu tempo com a
fita." Em meu trabalho, é muitíssimo importante poder avaliar qualquer uma e todas as pistas
comportamentais, para que a polícia não perca tempo e gaste seus limitados recursos. Com um
assassino serial, perder tempo equivale a perder vidas.

O verdadeiro autor de tais crimes não se comunicaria com a polícia daquele modo.
Deveria ser um solitário quase invisível, no final dos vinte ou no começo dos trinta anos, com
um ódio patológico pelas mulheres, abandonara os estudos e era possível que fosse um
caminhoneiro, já que parecia deslocar-se bastante pelo interior do país. Quando o
caminhoneiro de 35 anos Peter Sutcliffe foi preso por sorte no dia 2 de janeiro de 1981, embora
tenha admitido e ficado provado que era o Estripador de Yorkshire, ele não aparentava
semelhança alguma com quem gravara e enviara a fita. Foi descoberto, então, que o impostor
era um policial aposentado que sentia rancor contra o inspetor Oldfield.
Suspeito que algo semelhante aconteceu com a carta "Caro Chefe". É inteligente e parece
legítima o bastante para enganar muitas pessoas por mais de cem anos. Assim, acredito que foi
forjada, tal como a fita de Oldfield, por alguém que conhecia as regras do jogo. O candidato
mais provável seria um repórter, conclusão à qual podemos chegar por diversas pistas.
Em primeiro lugar, o chefe mencionado não é o chefe de polícia, mas sim o chefe da
Agência Central de Notícias. Embora não seja incomum para um certo tipo de predador
sexualmente orientado comunicar-se com a imprensa para chamar a atenção e fazer com que o
mundo saiba o que pensa de si próprio e como quer ser chamado, deveríamos esperar que a
comunicação fosse feita a um jornal individual. Sabemos, por exemplo, que tanto o Star quanto
o News, entre outros jornais, estavam publicando regularmente e com minúcias
sensacionalistas matérias sobre os assassinatos de Whitechapel. Por outro lado, é necessária
muita sofisticação para que um criminoso, sem ligação maior com o jornalismo, perceba que
existam agências que fornecem notícias aos diversos jornais. Esta classe de informação interna,
em particular, estaria fora do alcance desse tipo de indivíduo, de grande deficiência emocional
e organizativa, que as pistas demonstram ser.
Em minha opinião, isso também é suplantado pelo emprego da linguagem na carta. Sob o
enfoque da psicolinguística, a carta "Caro Chefe" é uma atuação, uma caracterização feita por
uma pessoa articulada e instruída, pretendendo se passar por um assassino enlouquecido. É
bastante organizada, indicando muita inteligência e pensamento racional, além de "bonitinha".
Não acredito que um criminoso deste tipo pudesse jamais pensar em suas ações como
"joguinhos" ou dizer que sua "faca era tão boa e afiada".
Ao contrário, tudo indica alguém que sabe usar bem a língua, que conhece o sistema e que
quer ver sua mensagem divulgada o quanto antes, em vez de fornecer a uma organização
jornalística individual uma matéria exclusiva. Ao observarmos o jornalismo na Inglaterra
vitoriana, verificamos que era feito sem nenhum controle, sensacionalista, no qual a verdade e
a moderação são sacrificadas em benefício de uma grande história.

Todos tinham interesses ocultos nos assassinatos de Whitechapel: o povo do East End, por
ser o alvo em potencial; o resto de Londres, por ter seu mundo insular e confiante abalado; a
polícia, por estar sendo testada como nunca antes; o governo, por ficar cada vez mais
constrangido; e é claro, a imprensa... Os crimes de Whitechapel vendiam jornais e davam
emprego para os jornalistas. Quanto mais poderiam extrair dos assassinatos de Jack, o
Estripador?
Porém, não constituía apenas um assunto lucrativo para a imprensa. O programa de alguns
tornara-se mais complexo. Como Martin Fido observa, era a época de eleições para o Conselho
do Condado de Londres, e os radicais tentavam tomar conta do East End e estabelecer sua
marca. No ano anterior, em 13 de novembro de 1887, a Polícia Metropolitana, sob a liderança
de sir Charles Warren, tinha refreado uma manifestação de desempregados na praça Trafalgar.
O evento ficou conhecido como Domingo Sangrento. Os assassinatos de Whitechapel foram
um assunto sob medida para a imprensa radical. O medo gerado tornou-se um modo de
dizerem: "Vejam as condições de vida aqui! O que está sendo feito? O que fariam se isso
estivesse acontecendo no West End?" Os principais jornais tinham que melhorar a história, ou
ficariam para trás.
Assim, a carta "Caro Chefe", depois de vir a público, logo após o Evento Duplo de 30 de
setembro, ajudou a manter o caso nas manchetes. No entanto, continuo concordando com o
comissário-assistente da Polícia Metropolitana, dr. Robert Anderson, e com o inspetor-chefe
Donald Swanson, que acreditavam ser o autor da carta um jornalista empreendedor. Na
verdade, ambos acreditavam conhecer a identidade do homem.
Além disso, tão significativo quanto estas considerações é o fato de que, assim como o
Estripador de Yorkshire um século depois, este tipo de ED não se comunicaria com a polícia
dessa forma. De modo diverso do tipo organizado anti-social, tal indivíduo não quereria se
anunciar deste jeito e, em particular, falar sobre futuros crimes. Apenas pensa no que está
fazendo no momento. Tampouco arranjaria um apelido para si, principalmente espalhafatoso.
Em meus 35 anos de experiência, todos os criminosos seriais importantes que se comunicaram
com a imprensa ou com a polícia e propuseram nomes e identidades para si próprios tendiam
muito mais para o lado organizado e anti-social do espectro do que para o lado desorganizado e
associal. Por isso, acredito que, ao espalhar as correspondências "Caro Chefe" e "Jacky
Safado", a polícia e a imprensa estavam, na verdade, atrapalhando a investigação, distraindo a
atenção sobre o verdadeiro ED.
Agora, se prestarmos atenção à cronologia do caso, que é outro fator de análise muito
importante em qualquer investigação, notaremos que a carta "Caro Chefe" foi datada de 25 de
setembro e expedida pelo correio no dia 27. O Evento Duplo aconteceu entre a noite do dia 20
e a madrugada de 30 de setembro. E o autor faz uma referência a cortar as orelhas da vítima e
mandá-las para a polícia.
O lóbulo da orelha direita de Catherine Eddowes fora de fato cortado. Seria isto apenas
uma fortuita coincidência? É provável que sim. Catherine tinha tantos cortes, que qualquer
coisa que o autor da carta mencionasse, provavelmente seria encontrada. Se fosse autêntico,
não seria natural que mencionasse uma das mutilações maiores que pretendia fazer? E, no
final, ele não mandou a orelha para a polícia.
No que se refere à data em que chegou, na véspera do Evento Duplo, também pode ter
sido outra coincidência, mas não fortuita para alguém bem informado e empreendedor como,
por exemplo, um jornalista. No caso Nichols, o crime acontecera na sexta-feira, o assassinato
de Chapmam fora no sábado, e no fim de semana seguinte nada acontecera. Então, não seria
difícil imaginar que, se algo fosse acontecer, o próximo fim de semana, 28/29 de setembro,
teria que ser o momento lógico para isso. Além disso, com o escassear das vítimas a história
estava perdendo interesse, o que fazia mais do que oportuno um fato novo.
O cartão-postal "Jackie Safado", expedido em primeiro de outubro, foi uma tentativa de
atualização feita em cima do que realmente acontecera e uma forma de autenticar a primeira
carta: "...desta vez a número um gritou muito e não consegui acabar logo..." As pessoas
acreditam no que querem acreditar e, para um público ansioso por conhecer o monstro com
quem estava lidando, esta era toda a certeza necessária.
Claro que, num certo sentido, a carta "Caro Chefe" se tornou parte real do caso, com a
capacidade de se auto-atualizar. Mesmo que não fosse autêntica, ela assegurou que esta série
de crimes fosse imortalizada. Sem a identidade conferida pelo nome "Jack, o Estripador",
duvido que este criminoso conseguisse capturar a imaginação da história e do público.

"DO INFERNO"

A excitação continuava ainda intensa. Além do aumento no número de policiais de


patrulha, cada área criara sua própria organização de segurança. O mais conhecido era
provavelmente o Comitê de Vigilância de Whitechapel, encabeçado por George Akin Lusk, um
construtor especialista em restauração de teatros musicais. Lusk ficara conhecido por uma carta
que escrevera ao Times sobre o caso.
No dia 16 de outubro, Lusk recebeu um pacote pelo correio. Uma caixa de papelão,
embrulhada em papel pardo e com um carimbo de uma agência postal de Londres. Dentro da
caixa havia um rim pela metade, embebido em vinho para ser conservado. Enrolada em torno
do rim havia uma carta grosseiramente redigida:
Do inferno
Sr. Lusk
Sinhor
Lhe mando metade de um Rins que tirei de uma mulher conservei pro sinhor o otro
pedaço eu fritei e comi estava muinto gostozo posso mandar também a faca que arrancou
ele fora se o sinhor esperar mais um pouco
sinado Me pegue quando puder
Sinhor Lusk

Lusk achou que o órgão e a carta fossem apenas um trote, possivelmente de um estudante
de medicina ou de um grupo de estudantes com acesso ao laboratório de anatomia. Mas foi
persuadido por amigos a levar tudo às autoridades para análise. O dr. Thomas Openshaw, do
Hospital de Londres, acreditava que fosse humano e pertencente a um indivíduo de mais ou
menos 45 anos, que sofria da doença de Bright, o que seria consistente com o rim de um
alcoólatra. Um número de outros especialistas teve a oportunidade de examinar o rim, com
opiniões divergentes sobre sua autenticidade no caso Eddowes. A possibilidade desta
autenticidade nunca foi eliminada e muitos dos estudiosos, ao longo dos anos, sugeriram que o
rim poderia ser realmente o da vítima.
É impossível argumentar, na falta de uma perícia técnica, se o rim seria ou não o de
Catherine Eddowes, mas a carta anexa é bastante intrigante. Apesar das visíveis diferenças na
caligrafia (possivelmente atribuíveis a uma psique em crescente fragmentação), muitos dos
especialistas, que acreditam que as comunicações "Caro Chefe" e "Jacky Safado" são
autênticas, acham o mesmo da "Carta Lusk", e vice-versa. Não estou tão seguro. Os peritos
estão divididos no assunto e, assim, é impossível contar com sua ajuda.
Acho muito significativo que, após toda a excitação provocada pelo pseudônimo Jack, o
Estripador, o autor da "Carta Lusk", não se assine assim. Mesmo depois de agraciado com um
título tão charmoso, ele não o assume. Desde que eu pessoalmente acredito que as duas
primeiras cartas são falsas, intrigam-me as possibilidades desta última. E, apesar de não
acreditar que esse tipo de criminoso sentisse a necessidade de comunicação com o público, é
possível que a carta "Caro Chefe", especialmente por chegar tão próxima ao Evento Duplo,
despertasse nele o desejo de restabelecer a verdade para manter seu controle. Talvez mandasse
o pedaço de rim para estabelecer credibilidade, depois da orelha ser mencionada em "Caro
Chefe". Em outras palavras, não sentiria a necessidade de comunicar-se, se uma outra pessoa
não houvesse reclamado o crédito por seus crimes e tentado definir uma identidade e
personalidade para ele.
Seu próprio senso de identidade e seu estado emocional são definidos de forma mais
exata, quando nos diz de onde a carta está sendo enviada: "do inferno". O próprio estilo da
comunicação é quase uma paródia semi-analfabeta do estilo mais sofisticado e inteligente da
primeira carta, como se o autor estivesse tentando, sem sucesso, igualar-se em ironia e espírito
com o impostor. Posso também dizer que Donald Rumbelow, ex-policial, autor de talento e um
dos maiores especialistas no caso, concorda com a posição que aponta, entre todas as
comunicações, a "Carta Lusk" como a única com possibilidade de ser autêntica.
Alguns estudiosos das cartas sugerem que os erros de ortografia parecem com sotaque
teatral, querendo com isto sugerir uma pessoa instruída tentando parecer vulgar. Embora isto
seja possível, para mim a ortografia dá mais a ideia de alguém sem muito domínio da língua
escrita, provavelmente um imigrante ignorante escrevendo como ouve as palavras.
O fato de a carta não ser endereçada à polícia nem à imprensa, mas ao líder de um comitê
local, também é significativo, porque acredito que este tipo de criminoso desorganizado opere
apenas dentro dos limites de sua própria zona de conforto. Este é um conceito que iremos
desenvolver em maior profundidade um pouco mais adiante.
É também bastante possível que um criminoso desorganizado, que sabemos capaz de uma
pervertida curiosidade a respeito do interior do corpo humano, tente satisfazer esta curiosidade
experimentando o gosto da carne de sua vítima. Quanto à saudação final "Me pegue quando
puder", a frase pode ter dois sentidos. Um é óbvio: desafio e zombaria com a polícia da parte
de alguém que acha que nunca vai ser pego. O outro seria um pedido de socorro, idêntico
àquele "Pelo aMOr de Deus Me PEguem AnTes Que eu Torne a Matar Eu não posso me
controlaR", escrito numa parede com o batom da vítima por William Heirens, um assassino de
Chicago. Uma outra vítima de Heirens, uma menina de seis anos, foi encontrada num esgoto
do subúrbio cortada em pedaços.
Não seria possível que eu me enganasse quanto à "Carta Lusk"? Claro. Vários
especialistas discordam de mim. Mas o que posso dizer é que, diferentemente de todas as
outras comunicações, esta é a única que combina com o tipo de personalidade que suspeito ser
a de Jack, o Estripador.

IDEIAS PROVOCATIVAS

Houve muita especulação sobre qual seria a melhor forma de capturar este criminoso tão
elusivo e sem precedente. Algumas sugestões vieram de pessoas comuns, outras de
"especialistas". Sir Arthur Conan Doyle, cuja primeira aventura de Sherlock Holmes, Um
estudo em vermelho (Ediouro), aparecera um ano antes, sugeriu que o assassino poderia ser um
homem vestido de mulher. Uma parteira com um avental sujo de sangue caminhando pelas
ruas de Whitechapel, nas primeiras horas da manhã, não chamaria atenção nem levantaria
suspeita.
Alguns anos mais tarde, em 1894, Conan Doyle imaginou, durante uma entrevista, como
faria Holmes para resolver o caso. Uma de suas técnicas seria a publicação da carta "Caro
Chefe" com um convite para que o público respondesse a ela. Esta é uma técnica altamente
efetiva, a qual a agente-especial Jana Monroe, da minha unidade, usou com sucesso no
assassinato Rogers, na Flórida, quando um cartaz, com a reprodução da caligrafia do assassino,
levou a uma rápida identificação. Para dar à Polícia Metropolitana o devido crédito, devemos
dizer que, na verdade, cartazes com a reprodução da carta "Caro Chefe" foram colocados por
todo o East End, mas a tentativa em nada resultou. Como acredito que a carta fosse falsa, o fato
não me surpreende.
Um leitor de jornal, como descreve Donald Rumbelow em seu livro Jack the Ripper: The
Complete Casebook [Jack, o Estripador: o livro completo do caso], sugeriu por carta que a
polícia examinasse o cartão-postal "Jacky Safado", procurando por marcas de polegar; segundo
ele, "não existem duas pessoas com polegares idênticos, a impressão digital deve ser
microscopicamente comparada com a que for tomada do polegar do suspeito". Rumbelow
conta que a carta foi arquivada e que, só 17 anos depois, uma impressão digital seria usada
como prova de culpa.
Quando a imprensa começou a veicular a ideia de que o assassino poderia ser um médico
ou um estudante de medicina, Rumbelow conta como uma pessoa sugeriu que se colocasse
num jornal, que o Estripador pudesse ler, o seguinte anúncio:

Médico ou Assistente. Precisa-se para a área de Londres, idade entre 25 e 40 anos,


que não tenha objeções a assistir em eventual post-mortem. Salário compensatório.

Embora eu não acredite que o Estripador fosse um médico ou paramédico, ele teria, sem
dúvida nenhuma, a curiosidade que este tipo de isca costuma atrair; assim, esta isca poderia ser
a técnica justa para capturá-lo.
O dr. Forbes Winslow, médico extravagante e detetive amador, que acreditava ser o
assassino um maníaco homicida motivado por mania religiosa, sugeriu que guardas de
hospícios acompanhassem a polícia nas patrulhas, pois reconheceriam com mais facilidade tais
tendências. Ele também propôs um anúncio de jornal nos seguintes termos:

Um cavalheiro a quem muito desagrada a presença de mulheres caídas nas ruas de


Londres gostaria de cooperar com alguém, com o mesmo ponto de vista, no sentido de
suprimi-las.

A polícia teria apenas que estar escondida no local do encontro preestabelecido e pegar
quem quer que aparecesse.

"BLACK MARY"
Na manhã de sexta-feira, 9 de novembro, Thomas Bowyer, militar reformado do Exército
da índia, conhecido pelos amigos e vizinhos como Indian Harry, foi mandado por seu patrão
para receber um aluguel no prédio de sua propriedade no número 13 de Miller's Court. Era
quase ao lado do mercado de Spitalfields e a poucos passos da rua Goulston, para o sul, e, para
o nordeste, da rua Hanbury, onde acontecera o homicídio Chapman. Com o tipo de pessoas que
vivia no prédio, a cobrança dos aluguéis era sempre um transtorno, tanto para o proprietário
quanto para os inquilinos.
A entrada para Miller's Court era uma passagem estreita junto à loja de velas McCarthy.
Bowyer bateu na porta de Mary Jane Kelly, também conhecida como Ginger, Fair Emma e
Black Mary por seus vários clientes e amigos. Ela era uma irlandesa de 24 anos, que conhecia
as ruas, e, segundo relatos, mulher muito bonita, embora não se conheçam fotografias suas.

Por volta das 10:45h, quando Bowyer chegou — uma boa hora para encontrá-la em casa
—, bateu várias vezes sem resposta e começou a suspeitar que ela não teria o dinheiro do
aluguel e o estava evitando. Pensou em forçar a fechadura, mas, como havia um longo painel
da porta que estava quebrado e apenas coberto com um casaco pelo lado de dentro, ele afastou
o casaco para poder espiar. O quarto media apenas três metros por quatro, e a visão deparada
por Thomas Bowyer era de um tal horror que o deixou paralisado. Havia um corpo caído na
cama, tão mutilado, tão rasgado, com tanta carne arrancada, com as vísceras espalhadas pela
cama e pelo chão, que ele não mais distinguia as proporções do corpo nem os contornos de sua
forma.
Quando sua mente conseguiu enfim registrar o que via, Bowyer desceu correndo para a
loja de velas. McCarthy voltou com ele até à porta do quarto, olhou por ela e, quando viu a
cena, mandou-o imediatamente irá delegacia da rua Commercial.
Bowyer voltou com o inspetor Walter Beck e com o detetive Walter Dew. Homem direto e
durão, apelidado "Sarja Azul", devido ao terno que sempre usava, Dew ficaria conhecido como
aquele que prendeu o dr. Hawley Harvey Crippen, o famoso envenenador. Mas a imagem que
viu em Miller's Court era tão dilacerante que o perseguiu pelo resto da vida. Como este foi o
primeiro de tais crimes a ser cometido num interior, houve um esforço consciente para
preservar a cena do ato e só às 13:30h, quando chegou o superintendente Thomas Arnold, a
porta foi finalmente aberta.
A cama e a área em volta estavam saturadas de sangue. O corpo, como o descreveu o dr.
George Bagster Phillips, mostrava o que só poderia ser o ponto máximo do delírio mutilador
do assassino. O rosto estava retalhado e a cabeça, quase separada do corpo. Os seios haviam
sido cortados fora, o abdômen aberto e os órgãos internos espalhados pelo quarto. Em muitas
partes do resto do corpo, incluindo a zona púbica, a coxa e o glúteo direitos, a carne fora
retirada do osso. O coração fora levado da cena. O criminoso não tentara apenas assexuar esta
vítima, mas também despersonalizá-la e roubá-la de sua humanidade. Alguns dos médicos, que
ou estiveram na cena ou examinaram o corpo depois, estimaram ter o assassino levado pelo
menos duas horas em seu trabalho de mutilação, embora a causa da morte — secção da
carótida — ocorresse muito antes.
E difícil para pessoas normais conceberem um ato tão depravado como uma fantasia
sexual, mas nossas pesquisas mostram que assim é. Parte da fantasia implica a destruição da
pessoa de tal forma, que o criminoso se sente transformado em seu único proprietário. Em 1
970, o assassino mutilador James Clayton Lawson Jr., que se associou ao estuprador James
Russel Odom, que conhecera no Hospital para Doentes Mentais do Estado da Califórnia, em
Atascadero, explicou assim os assassinatos de uma jovem que Odom acabara de estuprar:

Então cortei sua garganta para que ela não gritasse... eu queria mutilar seu corpo para
que não parecesse mais uma pessoa e destruí-la para que não existisse mais. Comecei
retalhando seu corpo. Lembro de tirar fora seus seios. Depois disso, tudo que lembro é que
continuei esfaqueando seu corpo.

Quando pressionado a falar, no interrogatório, de sua relação com as vítimas, em contraste


com aquelas de Odom, Lawson afirmou: "Não estuprei a menina. Só queria destruí-la."
Isto é o que creio foi sabido pelos investigadores em Miller's Court.
O inspetor Frederick Abberline chegou e examinou o quarto. Concluiu, pelos restos e
cinzas na lareira, que o assassino queimara peças de roupa ali, bem como utilizara o fogo como
iluminação durante o crime.
Durante o ano que antecedeu ao crime, Mary Jane Kelly alternara separações e
relacionamentos com um peixeiro do mercado de Billingsgate, de nome Joseph Barnett. A vida
com ele não era sempre harmoniosa. Em julho de 1888 ele perdera seu trabalho devido a um
roubo e, no final de outubro, abandonara o quarto que dividia com ela, porque Mary convidara
uma outra prostituta para viver ali. Continuava, no entanto, a visitá-la quase todos os dias, às
vezes deixando um pouco de dinheiro. Havia histórias de que queria tirá-la das ruas.
Joseph a vira pela última vez entre 19:30h e 20:00h, na noite de quinta-feira, 8 de
novembro, quando esteve em seu quarto. Mary estava em companhia de sua amiga, Lizzie
Allbrook. Por volta das 11:00h alguém pensou tê-la visto no bar Britannica com um jovem.
Mary Cox, uma outra prostituta, viu, 45 minutos depois, Mary com outro homem, com o rosto
cheio de marcas, bigode e chapéu. Estava visivelmente bêbada. E vários vizinhos a ouviram
cantar entre 24:00h e 1:00h.
Às 2:00h, ela abordou George Hutchinson, operário desempregado que conhecia, e pediu-
lhe uma moeda emprestada. Hutchinson estava sem dinheiro e não pôde ajudá-la. Ele a viu ser
abordada por um outro homem, enquanto caminhava, e viu ambos rirem, madrugada adentro.
Achou ouvir o homem dizendo: "Você serve muito bem para o que eu lhe disse."
Hutchinson não pôde ver a face do homem, mas seguiu os dois até Miller's Court e ouviu
Mary dizer: "Tudo bem, querido, venha, você estará confortável."

Na madrugada de sexta-feira, por volta das 3:45h, três mulheres de Miller's Court ouviram
o grito "Oh, Assassino!", que vinha da direção do n° 13. Se foi Mary Kelly quem o deu,
aquelas foram suas últimas palavras.
Joseph Barnett foi submetido a quatro horas de interrogatório intenso pela polícia.
Levaram suas roupas para exame, em busca de manchas de sangue ou de outras pistas. No
final, a polícia se convenceu de que não era ele o assassino. Recentemente, no entanto, ele
surge outra vez como suspeito, no específico trabalho de Bruce Paley, cujo livro Jack the
Ripper: The Simple Truth [Jack, o Estripador: a verdade elementar] foi publicado em 1995. Sua
teoria é que Barnett matou as outras mulheres para assustar Mary e fazê-la deixar as ruas. Não
conseguindo seu intento, terminou por matá-la num delírio de loucura, quando ficou claro que
ela se cansara da relação e não o aceitaria de novo. Durante o interrogatório pela polícia,
Barnett admitiu que, por várias vezes, lera para Mary as notícias nos jornais sobre os crimes.
A teoria oferece uma explicação para tal, no fato de pararem os assassinatos, porque isto
foi o que aconteceu depois da morte de Mary Kelly. Os que propõem esta teoria argumentam
que Barnett era exímio com facas, tinha alguns conhecimentos de anatomia, morava na área,
onde o assassino se sentia confortável, e poderia abordar as prostitutas locais sem despertar
suspeitas ou alarmá-las, além de, em linhas gerais, coincidir com as descrições do suspeito.
Barnett, é óbvio, tinha fácil acesso ao quarto da vítima, e poderia ser mais do que uma
coincidência a carta "Caro Chefe" mencionar uma garrafa de cerveja de gengibre e várias
destas garrafas se encontrarem no quarto.
Paley cita também a análise que fiz, na época da série televisiva, em 1988, junto com
pesquisas mais sérias, feitas por minha unidade em Quantico, sobre assassinos em série,
tentando mostrar como a personalidade de Barnett corresponde ao perfil. Isto seria, em alguns
aspectos, verdadeiro — idade, raça, infância problemática sem pai, zona de conforto e um
acontecimento precipitante como, por exemplo, a perda do trabalho —, mas estas são
características superficiais, que seriam comuns a diversas outras pessoas. Temos que ser mais
específicos para nos certificarmos se realmente tudo combina. Nunca vi nem acredito que
alguém fosse capaz de matar com tanta brutalidade mulheres que conhecia apenas para
assustar a namorada e dar-lhe "uma lição". Na noite do Evento Duplo em particular, alguém
assim entraria em pânico quando do primeiro crime. Jamais iria atrás de Liz Stride. O motivo
não se encaixa. Existem sádicos sexuais que se realizam torturando mulheres. Mas as
mutilações aqui são todas post-mortem. Também não são crimes planejados, é um delírio de
fúria incontrolável que continua depois da morte da vítima. Se o assassino tivesse uma relação
pessoal com a vítima, poderíamos esperar algum tipo de excesso depois da morte, em
particular ferimentos e facadas no rosto, mas não este tipo de mutilação transformada em
ritual. Faltam o padrão e a lógica interna. Ninguém capaz de uma relação normal com uma
mulher, como é evidente no caso de Barnett, poderia cometer este crime.
Então, se não foi Joseph Barnett, que teria boas razões para parar de matar e andar na linha
pelo resto da vida, depois da morte de Mary e do susto de seu interrogatório, por que o
Estripador não voltou a matar depois daquela sexta-feira, 9 de novembro de 1888? Este é um
dos mais persistentes e frustrantes mistérios do caso.

Nossas pesquisas e experiência no FBI mostram que são várias as razões que fazem um
assassino serial parar, mas o medo depois de uma exposição em geral não é uma delas. Em
raros casos, o criminoso consegue "realizar" o que se propôs e pára por conta própria. Um caso
assim foi o de Edmund Kemper, que sequestrou e matou várias residentes, no campus da
Universidade da Califórnia, Santa Cruz, no início da década de 1970. Seu ódio contra as
mulheres era na verdade dirigido contra sua mãe, uma mulher dominadora e autoritária, que,
afinal, teve ele a coragem de matar a marteladas, enquanto dormia. Depois de decapitá-la,
estuprar o corpo decapitado e arrancar sua laringe, que foi jogada pela lixeira, Edmund chamou
então a melhor amiga de sua mãe e, quando esta chegou, atacou-a com o mesmo martelo e
estrangulou em seguida. Tendo exorcizado seus demônios, deitou-se para dormir na cama da
mãe. Após uma boa noite de sono, foi de carro até Pueblo, no Colorado, de onde ligou para a
polícia de Santa Cruz para que viessem buscá-lo. Mas, como disse antes, assassinos que
definam limites para eles mesmos são raros.
É mais frequente que assassinos em série parem por uma de três razões: ou são pegos; ou
postos na prisão por algum outro delito não relacionado com os assassinatos; ou, então,
morrem — durante um crime, assassinados por um cúmplice, por suicídio, por doença, ou por
outra "causa natural". Ou, na verdade, não param, apenas ficam amedrontados com um lugar e
se mudam para outro, onde seus novos crimes não são conectados com os anteriores.
Seria um destes o caso de Jack, o Estripador? Vamos examinar o perfil para ver se nos dá
alguma sugestão.

O PERFIL

Histórico das vítimas

Todas as vítimas eram prostitutas das ruas, com problemas de alcoolismo que iam de
moderado a grave. Estes fatores criam vítimas potenciais de "alto risco", o que dificulta a
seleção de suspeitos. Se alguma evidência, como cabelos, fibras ou sêmen, fosse encontrada e
mesmo que certas técnicas de exame já fossem conhecidas em 1888, seria impossível
determinar se a evidência provinha do assassino ou de algum parceiro ou cliente. E como estas
prostitutas eram independentes, não controladas por um cafetão como costuma ocorrer hoje,
havia muito pouca monitoração de seus movimentos e transações. O que significa que uma
prostituta alcoólatra, trabalhando nas perigosas ruas do East End, estava procurando problemas
e corria muito mais risco naquela época do que hoje.
Apesar das teorias envolvendo Barnett ou mesmo as conspiratórias, todas as evidências
razoáveis sugerem que as vítimas foram escolhidas por serem alvos fáceis. Não precisaria o
criminoso iniciar o contato. Com a exceção da última, Mary Kelly, todas as outras eram
relativamente velhas, acabadas pela vida e pouco atraentes. Elas é que teriam de tomar a
iniciativa do contato. Todas estas são considerações importantes para a investigação.

Relatório médico

Os resultados que interessam à análise de comportamento são:


1. nenhuma evidência de estupro;

2. o elemento matou as vítimas rapidamente;


3. o elemento foi capaz de controlar a vítima durante o rápido ataque inicial;
4. o elemento removeu órgãos das vítimas demonstrando algum conhecimento anatômico, bem
como curiosidade;
5. não há nenhuma evidência de tortura física antes da morte;
6. as sérias mutilações post-mortem;
7. a evidência de estrangulamento com as mãos;
8. na maioria dos casos o sangue se concentrava em áreas restritas;
9. foram levados os anéis de uma das vítimas;
10. a última vítima, morta no interior de um apartamento, foi a mais mutilada. O elemento
passou um tempo considerável na cena do crime;
11. a hora da morte em todos os casos foi durante a madrugada.

Análise do crime e da cena criminosa

Com a exceção do assassinato de Mary Kelly, todos os outros crimes foram cometidos na
rua, e todos a uma distância de poucos passos um do outro. O que faz os crimes serem de alto
risco para o ED, já que esta seria uma área de intenso movimento 24 horas por dia,
especialmente durante os meses de temperatura mais quente, antes do inverno. Os quatro
corpos das vítimas, mortas na rua, foram encontrados poucos minutos depois do crime, sem
aparentar nenhum cuidado do criminoso de escondê-los. Isto, por si só, já seria uma indicação
de um criminoso desorganizado. E todos os homicídios ocorreram nas sextas, sábados ou
domingos, durante a madrugada.

Depois do primeiro crime na alameda do Buck, perto da estação de Whitechapel, o


criminoso se moveu um pouco para oeste. Se traçarmos uma linha, seguindo a trajetória do
assassino da cena do crime dois, às cenas três, quatro, e cinco, veremos configurado um quase
triângulo. Isto já se observou em outros casos de assassinatos em série, e acredita-se que este
triângulo seria uma zona de conforto secundária do ED. Este movimento acontece quando o
criminoso sente que a investigação está chegando muito próxima a sua zona de conforto
primária, que neste caso seria o primeiro homicídio, nas vizinhanças da estação de
Whitechapel. Acredito que houve outros ataques nesta área, que passaram despercebidos ou
que não foram associados a este criminoso.
Se o assassinato de Martha Tabram (que não ocorreu num fim de semana, mas num
feriado) for considerado como um crime do Estripador, devemos notar que aconteceu fora da
área delimitada pelo triângulo, a oeste desta sua zona de conforto secundária. Poderíamos,
então, imaginar que o criminoso foi para o leste para cometer seu crime seguinte, retornando
no sentido oeste durante os crimes subsequentes, voltando, pouco a pouco, à área onde se
sentia mais à vontade.
Embora o modus operandi evolua a cada crime nos assassinatos em série, a assinatura ou
aspectos ritualísticos permanecem os mesmos, apenas ficando mais elaborados com o passar
do tempo, como foi no caso de sua última vítima. Com Mary Kelly, o assassino teve o tempo e
a privacidade necessários para realizar completamente suas fantasias. Se tivessem acontecido
outros crimes — e em especial se acontecessem na rua — não seria de esperar que o assassino
repetisse uma mutilação tão elaborada; ele não teria tempo.

Comunicações supostamente escritas pelo assassino

Não é comum, que um assassino serial do tipo associal desorganizado se comunique com
a polícia, a imprensa, ou a família da vítima etc. Quando acontece, em geral fornece dados que
só podem ser do conhecimento do criminoso. E ainda nos dá, quase sempre, informações sobre
os motivos que o levam a cometer tais atrocidades. Em minha opinião, esta série de
assassinatos não foi cometida por alguém que tivesse como objetivo desafiar as forças da lei.
Embora o criminoso soubesse que receberia a atenção do público nacional e internacional, esta
não era sua motivação primária. Se a polícia devesse gastar tempo e recursos com estas
comunicações, a ênfase deveria ser colocada na "Carta Lusk".

Traços e características do criminoso


Como já dissemos antes, estes crimes podem ser qualificados como assassinatos lascivos.
Isto tem menos a ver com o sentido tradicional do termo e mais com o fato de que o assassino
ataca a área genital e outras ligadas ao sexo. Em geral, quando as vítimas são do sexo
masculino, estiveram envolvidas em relações homossexuais. Embora houvesse especulações
de que o assassino pudesse ser uma mulher (Jill, a Estripadora), nunca me deparei com uma
assassina em série do tipo lasciva, nem entre os casos que pesquisei nem entre aqueles que
recebíamos em Quantico. Donde podemos presumir com confiança que Jack, o Estripador era
um homem. Era branco, já que estes crimes tendem a ser intra-raciais, e porque um negro,
hispânico ou asiático chamaria a atenção na área onde ocorreram os crimes. A idade em que
estes indivíduos começam situa-se, na maioria das vezes, entre o final dos vinte e início dos
trinta anos. Baseado no grau de psicopatologia exibido pelo indivíduo em seus crimes e na
própria habilidade de evitar sua captura, apesar do alto teor de risco envolvido em cada
assassinato, eu calcularia sua idade entre os 28 e os 36 anos. No entanto, devemos dizer que a
idade é sempre bastante difícil de determinar; em consequência, não devemos eliminar
suspeitos apenas por uma questão de idade. Por exemplo, apesar de termos acertado todas as
outras características, subestimamos a idade de um assassino serial que matava prostitutas em
Rochester, Nova York, no final da década de 1980. O indivíduo, Arthur Shawcross, estivera
preso durante 15 anos por ter violentado e matado uma criança. Quando saiu da prisão ele
recomeçou de onde havia parado.
Jack teria uma aparência comum, que não chamasse a atenção. Em meu primeiro perfil,
sugeri que as roupas que usava em seus ataques não seriam suas roupas de todos os dias, pois
desejaria passar uma impressão de riqueza às mulheres. Mas especialistas, na época,
informaram que diferentemente da maioria das prostitutas modernas que tenho encontrado em
minhas investigações, as mulheres de rua do East End vitoriano viviam situação tão
desesperada, que abordariam qualquer um, independentemente de suas roupas. E, na verdade,
depois dos boatos de que o Estripador seria um médico ou um estudante de medicina, elas
deveriam desconfiar e se afastar de um cliente que parecesse deslocado e fora da realidade
local.
Seria de se esperar que o ED houvesse crescido com uma mãe dominadora e um pai fraco,
passivo e/ou ausente. É possível que sua mãe fosse alcoólatra e gostasse da companhia de
muitos homens. Como resultado disto o ED foi negligenciado na infância, não tendo cuidados
constantes nem contato com um modelo de adulto estável, e tornou-se desligado socialmente,
incapaz de responder emocionalmente aos outros. Converteu-se num introvertido e associai,
preferindo a solidão. Sua raiva e frustração se interiorizaram e, durante sua meninice,
expressava tais sentimentos queimando objetos, maltratando e torturando pequenos animais.
Cometendo estes gestos, descobriu gradativamente áreas de domínio, de poder e de controle, e
aprendeu como continuar violento e destrutivo sem ser descoberto ou punido.
Com seu crescimento, suas fantasias desenvolveram um forte componente que incluía o
domínio e a mutilação de mulheres, junto com uma curiosidade a respeito delas jamais
satisfeita na vida real. Como emprego, escolheria uma função em que pudesse trabalhar só e,
de uma forma indireta, viver suas fantasias destrutivas. Dependendo de sua capacidade,
poderia ser açougueiro, ajudante numa funerária ou atendente num hospital ou necrotério.
Trabalhando, estaria livre nos fins de semana e feriados. Era paranóico e andava sempre com
uma ou mais facas para o caso de ser atacado. Sua paranóia seria em parte devida à péssima
imagem que fazia de si. Talvez tivesse algum tipo de anormalidade física, cicatriz, ou
dificuldade na fala, que ele sentia como um aleijão. Não gostava de encontrar as pessoas
socialmente, e a maioria de seus relacionamentos seria com prostitutas. Devido à falta de
higiene das prostitutas da época, somada a inexistência de tratamentos para doenças venéreas,
é possível que fosse infectado, o que aumentaria seu ódio e desprezo por mulheres.
Não seria de esperar que fosse casado ou que mantivesse uma relação sexual normal com
uma mulher. Se no passado fora casado, este casamento seria com uma mulher mais velha e
não durara muito.
Devia parecer um tipo calmo, tímido, solitário, introvertido, obediente e com uma
aparência limpa e cuidada. Talvez bebesse nos bares locais, quando ficaria um pouco mais
relaxado e seria capaz de conversar com alguém. Vivia ou trabalhava na área de Whitechapel e
o primeiro homicídio acontecera próximo de sua casa ou de seu local de trabalho. Devemos
notar que o Hospital de Londres fica a um quarteirão do local do assassinato Nichols.
É provável que a polícia tenha falado com ele mais de uma vez durante a investigação.
Infelizmente, hoje não podemos mais verificar este tipo de informação. Tanto os
investigadores quanto as pessoas da comunidade estabeleceram uma ideia preconcebida de
como seria o Estripador. Devido a esta crença, de que seria alguém estranho ou monstruoso,
podem ter ignorado este indivíduo.

Comportamento antes e depois do crime

Antes de cada crime, o indivíduo estaria num bar local, bebendo e se livrando de suas
inibições. Poderia ser visto caminhando por toda a área de Whitechapel durante as primeiras
horas da noite. Não procurava uma aparência específica nas mulheres; de qualquer forma, não
foi uma coincidência que todas as suas vítimas fossem prostitutas. Tinha o sentido exato da
hora e do local onde podia atacar as vítimas. Várias outras mulheres tiveram contato com ele e
não foram mortas porque o local não era seguro o bastante.
Depois do crime ele voltaria para algum lugar onde pudesse lavar o sangue e trocar as
roupas. Diferentemente de criminosos mais organizados, não seria de esperar que ele se
intrometesse na investigação policial ou criasse falsas informações.
Jack caçava suas vítimas todas as noites. Quando não conseguia encontrar uma, voltava ao
local do crime anterior. Se existissem túmulos marcados de suas vítimas, talvez os visitasse,
nas primeiras horas da manhã, para reviver seu crime.
Este indivíduo não cometeu suicídio depois do último assassinato. E me surpreenderia
muito se tivesse parado por conta própria sem nenhum motivo externo.

Técnicas de investigação e acusação

Se o suspeito fosse preso, recomendaríamos que fosse interrogado bem cedo pela manhã,
quando se sentiria mais relaxado e talvez disposto a falar de seus motivos para matar mulheres.
Não se mostraria indignado ou abalado se acusado diretamente dos crimes, porque os
acreditava justificados tanto quanto a remoção de lixo das ruas. Demonstraria, no entanto,
desconforto físico e psíquico se confrontado com o fato de ter se sujado pessoalmente com o
sangue das vítimas. Não tentaria ser mais esperto que os investigadores, mas ficaria frustrado
com a inabilidade de entenderem seus motivos.

OS SUSPEITOS

Neste ponto, numa investigação normal, depois de apresentar o perfil e sugestões, seria o
momento de analisarmos a lista de suspeitos, feita pelos investigadores locais.
Já lidamos com John Pizer, que acharam poder ser o Avental de Couro, e com Joseph
Barnett, que às vezes coabitava com Mary Kelly. Dois nomes que rapidamente eliminaríamos,
Pizer, porque tinha um álibi, e Barnett, porque não tinha um motivo. Então, quem mais
teríamos?
Bem, uma longa lista, que só fez aumentar com o passar dos anos e das décadas em que
mais e mais pessoas de todo o mundo começaram a se interessar pelo caso até a obsessão. A
busca da identidade de Jack, o Estripador se transformou em algo como a especulação sobre
quem teria escrito "na verdade" as peças de William Shakespeare — como um teste de
Rorschach, que revela mais sobre quem examina do que sobre o assunto examinado. Mas não
custa dar uma olhada.

Príncipe Eddie

Talvez o mais intrigante de todos os suspeitos seja o príncipe Albert Victor Christian
Edward, duque de Clarence e Avondale, filho de Albert Edward, príncipe de Gales (mais tarde
Eduardo VII), e neto da rainha Vitória. O que poderia ser de maior interesse do que um
suspeito que pertencesse à família mais importante e poderosa do mundo? Devemos dizer que,
depois de 25 anos investigando as mais ínfimas formas de vida no baixo mundo, se um policial
me trouxesse um suspeito assim, ele mereceria toda a minha atenção. De qualquer forma, é
bom lembrar aqui que esta teoria não apareceu na época do caso. Na verdade ninguém pensou
nela até o início da década de 1960, o que me deixa um pouco cético quanto a isso.
Conhecido como Príncipe Eddie, na época com 28 anos, era o segundo na linha de
sucessão ao trono. A teoria propõe que o príncipe, que nunca foi conhecido por dar brilho ou
lustro ao nome da família de Hanover, sofria os efeitos de uma sífilis no cérebro, resultante de
uma vida depravada, e costumava farrear em Whitechapel, onde se divertia com as prostitutas
mais vulgares. A loucura fez com que matasse algumas destas mulheres por esporte e, sendo
um exímio caçador de veados, teria a habilidade para eviscerar suas vítimas. Quando o serviço
secreto de Buckingham descobriu o que estava acontecendo, colocaram o príncipe sob os
cuidados do médico da família real, sir William Gull, até sua morte por pneumonia em 1892.
Uma teoria alternativa seria a de ter o dr. Gull "apressado" sua morte, ou supervisionado a
eutanásia, quando ficou claro o grande risco em que se transformara para a coroa. Sua noiva, a
princesa Mary de Teck, casou-se então com seu irmão mais moço. Os dois vieram a ser o rei
George V e a rainha Mary. Outra variação desta história seria que Eddie costumava frequentar
festas homossexuais em bordéis do East End e assassinaria as prostitutas como uma
demonstração do ódio insano e do medo que sentia das mulheres.
Existe ainda uma terceira narrativa — de certa forma a mais interessante delas —, que
propõe que Eddie teria se casado em segredo com Annie Elizabeth Crook e que tivera com ela
uma filha. Como Annie, além de plebéia e pobre, seria também católica (por lei, membros da
família real inglesa não podem casar-se fora da religião anglicana e continuar na linha de
sucessão ao trono), isto seria um enorme escândalo, capaz de abalar a monarquia. O serviço
secreto da coroa então a internou num asilo para loucos, onde ninguém acreditaria em sua
história, e pensou que resolvera o problema. Mas a babá da criança, Mary Kelly, contou o
segredo a algumas de suas amigas — Polly Nichols, Annie Chapman, Liz Stride e Kate
Eddowes —, além de chantagear o governo com o que sabia. Foi então necessário eliminar
todas estas pessoas para manter a história em segredo. Aí entra em cena outra vez sir William
Gull. Junto com um cocheiro e um carrasco, deram-lhe a missão de ir ao Est End encontrar
estas mulheres e, com seus conhecimentos médicos, matá-las. O dr. Gull, que era maçom, usou
a punição ritual dada aos judeus como um aviso para que não interferissem.
Bem, existem vários problemas com todas as teorias envolvendo o príncipe. Para começar
— e isto não tem nada a ver com perfil — ele tinha um álibi para cada um dos crimes e com
testemunhos oculares e uma infinidade de registros nos diários da corte. Claro que para um
príncipe seria possível escapar de um compromisso sem ser visto, mas não de onde estaria sob
os olhos de algumas centenas de pessoas.
Um outro problema, mesmo ignorando o fato de que nada em absoluto na história da
época avaliza as acusações contra o príncipe, é que ninguém poderia cometer estes crimes,
especialmente o delirante massacre de Mary Jane Kelly, e continuar funcionando e interagindo
com as pessoas de forma normal. Alguém notaria algo e isto não ficaria em segredo. Estes são
crimes de alguém que não sabe lidar com mulheres, e fossem quais fossem seus hábitos ou
suas falhas de caráter, o príncipe Eddie fora educado para a vida em sociedade. Mais ainda,
para mim estes são os crimes de um assassino desorganizado e paranóico. Não consigo
imaginar o assassino, menos ainda o príncipe, planejando cometer estes crimes numa área
estranha, com o grande risco de ser reconhecido, com o propósito de matar e mutilar mulheres
que nunca viu. O mesmo raciocínio se aplica ao dr. Gull, que tinha mais de setenta anos na
época, além de já ter sofrido um ataque do coração.
Em criminologia encontramos sempre teorias conspiratórias e a conspiração real é uma
das que provavelmente continuarão despertando a atenção enquanto houver interesse pelos
crimes de Jack, o Estripador. Teorias conspiratórias são atraentes. Dão um sentido ao casual e
banal. É muito mais fácil imaginar, por exemplo, que o presidente dos EUA — o homem mais
poderoso do mundo — fosse assassinado, mudando o curso da história, por um grupo de
homens representando forças ocultas, que, devido ao senso de inadequação de um único
desajustado paranóico, que decidiu fazer algo para dar significado a sua vida.
Mas quando, para montar uma teoria conspiratória de modo que todas as peças encaixem,
fica trabalhoso demais, é porque ela deve ser falsa. Mesmo as conspirações mais simples são
difíceis de funcionar. E criminosos não planejam seus crimes de forma tão elaborada.

Dr. Francis Tumblety

Francis Tumblety nasceu de uma família pobre, na Irlanda, em 1830, o mais moço de 11
irmãos. Ainda durante sua infância, a família mudou-se para Rochester, em Nova York. Desde
jovem demonstrou pendor para atividades marginais e, ainda adolescente, vendia literatura
pornográfica para os passageiros dos barcos que atravessavam o canal. Depois aprendeu alguns
rudimentos de medicina com um farmacêutico de Rochester de péssima reputação. Aventurou-
se então pelo mundo, começando por Detroit, onde se estabeleceu como "médico". De alguma
forma, conseguiu convencer as pessoas de sua aptidão e começou a fazer fortuna. Movia-se de
uma cidade para outra à medida que era desmascarado pelas autoridades.
Começou a usar uniformes e, durante a guerra civil, transferiu-se para Washington, onde
dizia ser cirurgião do Exército e amigo do presidente Abraham Lincoln e do general Ulisses
Grant. Depois da guerra viajou por todo o país, metendo-se e escapando de toda sorte de
problemas com a polícia. Sua vida pessoal de pessoa extravagante era coberta pelo véu do
mistério, embora numa ocasião fosse processado por outro homem, acusado de tentativa de
abuso sexual. Várias pessoas que o conheceram acreditavam que ele não gostasse de mulheres.
No dia 7 de novembro de 1888, chamou a atenção da Polícia Metropolitana de Londres,
quando foi preso por atentado violento ao pudor e agressão armada contra quatro homens,
crimes que vinha cometendo desde julho. Enquanto esperava julgamento sob fiança, escapou
para a França e de lá voltou aos EUA sob o nome de Frank Townsend. Na época de sua
chegada, os jornais americanos já publicavam rumores de que a polícia britânica suspeitava
que ele fosse Jack, o Estripador. Os boatos ganharam força, quando o inspetor Walter Andrew,
que trabalhava no caso, foi mandado para Nova York, e quando, simultaneamente, Tumblety
decidiu deixar a cidade às pressas. Noticiou-se que a Scotland Yard solicitara mostras de sua
caligrafia. Passou uns tempos desaparecido e, depois, retornou a Rochester, onde viveu com
sua irmã. Morreu em 1903, em St. Louis. Sua considerável fortuna foi dividida entre seus
sobrinhos, sobrinhas e várias instituições de caridade. Os obituários mencionaram o fato de
que fora suspeito dos crimes de Jack, o Estripador. Entre suas coisas foi encontrada uma
coleção de úteros humanos conservados.

Apesar deste fato curioso — e de que os assassinatos pararam depois que fugiu da
Inglaterra — e toda a especulação contemporânea sobre ele, não creio que Tumblety possa ser
considerado um sério suspeito. Era aparentemente homossexual e não acho que tivesse tal
paixão e delírio de destruição e mutilação contra o sexo oposto. Não acho tampouco possível
que o assassino de Mary Kelly pudesse continuar uma vida funcional, depois do crime, sem dar
mostras de profundos distúrbios de comportamento. Tumblety era um vigarista, o oposto exato
do ED que procuramos. Seus constantes esquemas e fugas mostram que possuía a mente
organizada de um indivíduo inteligente. Como disse antes, não creio que o assassino quisesse
publicidade, outra vez o oposto de Tumblety. Existem também indicações de que Tumblety
estaria preso, esperando sair sob fiança, quando do assassinato Kelly.

Severin Klosowski Neill Cream

Severin Klosowski nasceu na Polônia, onde começou a aprender cirurgia. Veio para a
Inglaterra em 1887. e trabalhou como cabeleireiro e barbeiro em vários lugares e, finalmente,
numa barbearia, na esquina da rua Whitechapel High com o pátio George, mas isto só
aconteceu em 1890, muito depois do último crime. Transformou-se num suspeito devido a sua
proximidade física com o local dos assassinatos e ao fato de que entre 1895 e 1901, já, nesta
época, usando o nome de George Chapman (o sobrenome fora adotado da mulher que vivia
com ele, que por coincidência tinha o mesmo nome da segunda vítima do Estripador: Annie
Chapman), envenenara sucessivamente três mulheres com quem vivera como marido. Foi
julgado, condenado e enforcado em abril de 1903. Algumas evidências da época sugerem que
o inspetor Abberline acreditava que Klosowski/Chapman fosse Jack, o Estripador.
Podemos eliminá-lo com relativa facilidade e rapidez. Seu tipo físico não coincide com
nenhuma das descrições de testemunhas oculares. Sim, vivia na área, estudara cirurgia o
bastante para conhecer o interior de um corpo humano. Mas continuava sua vida normal
quando os assassinatos cessaram e tinha relações com mulheres, o que acredito não fosse o
caso do Estripador. Era organizado o suficiente para casar-se e despachar, uma depois da outra,
três mulheres, embora não pareça que o motivo fosse dinheiro, já que não era legalmente
casado com elas. Ainda assim, é impossível que um homem corte em pedaços cinco ou seis
mulheres, pare com isso e se comporte por dez anos sem que ninguém note nada de estranho a
seu respeito e, então, reassuma sua carreira de assassino como envenenador, que, junto com
dinamitadores, são os mais covardes e solitários dos assassinos.
Não é assim que as coisas acontecem na vida real.
Outros envenenadores, que foram considerados como suspeitos, podem ser eliminados
pelas mesmas razões. O mais proeminente entre estes foi provavelmente o dr. Neill Cream,
cuja carreira incluía incêndio, chantagem e prática de abortos. Foi condenado, em 1892, pelo
envenenamento por estricnina de quatro prostitutas de Londres, o que, como se pode ver, seria
a razão de seu nome aparecer como suspeito.
Dizem que no cadafalso, no momento de morrer, declarou: "Eu sou Jack, o ...", mas aí o
chão faltou debaixo de seus pés.
Por mais instigante que seja, essa história tem um problema sério também. Sabe-se que
Cream esteve preso na Penitenciária Estadual do Illinois, em Joli, de novembro de 1881 até
julho de 1891. Donde seu álibi é garantido pelo sistema carcerário americano.

James Maybrick

Desde 1993, qualquer um que investigue a identidade de Jack, o Estripador terá que lidar
com a possibilidade de que este fosse James Maybrick. Embora nunca fosse considerado
suspeito antes disso, naquele ano foi publicado um livro intitulado, The Diary of Jack the
Ripper [O diário de Jack, o Estripador]. Na primeira pessoa, contava como um bem-sucedido
negociante de algodão levava uma vida secreta como o assassino de Whitechapel. Maybrick é
um caso interessante, também por uma outra razão. Ele mesmo teria sido envenenado com
arsênico por sua bela mulher americana, que foi julgada, condenada e quase enforcada.
Por volta de 1897, o casamento de Maybrick com a bela sulista Florence Elizabeth
Chandler entrara em crise. Ele tinha uma concubina e Florrie um amante. Com seus negócios
indo mal e para puni-la por suas infidelidades, começou a espancá-la. Hipocondríaco,
costumava tratar-se com arsênico, tanto para a saúde quanto para estímulo sexual.
Em abril de 1889, Maybrick adoeceu, morrendo em maio. Florrie tornou-se suspeita
quando um pacote de arsênico foi encontrado em seu quarto e pela descoberta de que James
mudara seu testamento para excluí-la. Havia de fato traços do veneno no cadáver de Maybrick,
mas como, havia anos, ele se tratava com arsênico, seria difícil determinar a origem da
ingestão. Ainda assim, Florrie foi levada a julgamento.
O juiz do caso era sir James Stephen, cujo filho, James Kenneth Stephen, fora tutor do
príncipe Eddie, em Cambridge, e, por sua vez, tornou-se também suspeito de ser o Estripador,
devido a sua poesia cheia de rancor e de ódio paranóico contra as mulheres. Na época do
julgamento de Florrie, o juiz Stephen estava bastante senil e, segundo a maioria dos relatos,
conduziu muito mal o processo. Depois de condenada, ele sentenciou Florence à forca. A
sentença foi comutada e, depois de 15 anos de prisão, em 1904, ela voltou à América, onde
viveu até sua morte, em 1941.
A evidência de que Maybrick seria o Estripador vinha de um diário de 63 páginas, escrito
nas folhas de um álbum de fotografias vitoriano, que foi dado a Michael Barrett, um vendedor
de ferro-velho de Liverpool, em 1991, por seu companheiro de bar Tony Devereux. Devereux
morreu pouco depois e, segundo Barrett, dissera não saber nada sobre a origem do manuscrito.

O autor do diário não se identifica como Maybrick, mas várias referências no trabalho
demonstram isto. O livro publicado consistia de uma cópia fotográfica do diário, com
comentários extensivos e um histórico do caso, feitos por Shirley Harrison. A data de
lançamento do livro seria descrita como "o dia em que se desvendará o maior mistério policial
do mundo".
Desde Harrison, o diário tem sido submetido a vários testes por especialistas em história,
caligrafia, tinta e papel, com resultados ambíguos. Alguns alegam que é, realmente, da época;
outros acham ser uma elaborada falsificação. A caligrafia não coincide com nenhuma dos
escritos de Maybrick, mas, segundo alguns "especialistas", isto se explicaria pela óbvia
desordem psíquica de múltiplas personalidades do autor. Ou seja, cada personalidade teria uma
caligrafia diferente. Acho a ideia absurda, mas continuemos.
A proposta básica do diário é que as causas dos assassinatos seriam a mágoa e o ódio do
autor, devidas às infidelidades de sua mulher, a qual via como uma prostituta. Não podendo
matá-la, transferira seu ódio, matando no lugar dela prostitutas verdadeiras. Como um
proeminente comerciante, não podia fazer isto em sua própria vizinhança; assim, em suas
frequentes viagens de negócios cometia os assassinatos em outro lugar. Por razões de comércio
ele frequentava a área ao redor da rua Whitechapel, em Liverpool; assim, resolvera cometer
seus crimes. Sem falar em outros achados, como o fato de o nome Jack começar com as duas
primeiras letras de o nome James e terminar com as duas últimas do nome Maybrick.
Na última anotação no diário está escrito:

Declaro meu nome para que todos saibam — e que a história registre — o que o amor
pode fazer de um homem bem-nascido.
Sinceramente
Jack, o Estripador
Datado neste 3 de maio de 1889.

Bem, antes de tudo, deixem-me dizer que o amor é capaz de fazer várias coisas de um
homem bem-nascido, mas entre elas não se incluem as coisas que fez o Estripador.
Vários fatos periciais indicam que o diário é forjado. Evidências há de que foi escrito em
apenas alguns blocos, e não dia-a-dia, como a ideia do diário sugere. Um analista da Scotland
Yard declarou que vários trechos do manuscrito foram adicionados depois que já estava
pronto, para fazê-lo parecer mais autêntico e vitoriano. Martin Fido, um dos especialistas
chamados para analisá-lo antes da publicação, encontrou uns vinte anacronismos no texto. E
algumas das descrições parecem mais baseadas nas notícias publicadas pela imprensa do que
na realidade dos fatos.
Depois, existem certos problemas com a geografia dos crimes. O autor fala de um
esconderijo na rua Middlesex ou na travessa Petticoat. Então por que o assassino de Catherine
Eddowes, que fugia da polícia, passaria pela travessa Petticot para abandonar o trapo de
avental ensanguentado na rua Goulston e só depois voltar para a rua Middlesex? Não faz
sentido.
Direto ao ponto: como é que um homem além dos cinquenta anos, com mulher, filhos e
com histórico psicopatológico inexistente, de repente, torna-se um assassino serial
desorganizado? Não acontece nem aconteceu. Qualquer um que ache sua situação tão
insuportável que decida assassinar prostitutas para se vingar de sua esposa, mas que para fazer
isto tenha de viajar para outra cidade, onde possui esconderijo — e, só então, no meio da noite,
é que ataca as mulheres, as corta e estripa —, voltando depois para casa, não seria o que
chamamos de desorganizado. Na verdade, nunca encontrei um criminoso que fosse tão
organizado assim. Ninguém planeja tão cuidadosamente para entrar depois num delírio
destrutivo de psicopata assassino. Como dissemos antes a respeito de Joseph Barnett, mesmo
que fosse assim, seria impossível retomar sua vida normal sem que alguém reconhecesse nele
sintomas de distúrbio da personalidade.
Já vi vários diários e escritos de criminosos seriais, e o que este tinha de especial não era
tanto o que afirmava, mas aquilo que não revelava. Lee Harvey Oswald, Sirhan Sirhan e
Arthur Bremer, para citar apenas três nomes, todos eles deixaram uma grande quantidade de
material escrito, cheio de detalhes específicos. Se este diário fosse autêntico, seria de esperar
que lançasse uma nova luz sobre os crimes ou sobre sua metodologia, o que não faz. Do diário
de um verdadeiro assassino, esperaríamos um quadro completo de seu problema patológico,
em vez de uma simples desculpa emocional para as razões que o levaram a matar essas
mulheres. Tudo isto falta no chamado "Diário Maybrick", que deve ser julgado como uma
elaborada impostura.
O QUE A POLÍCIA SABIA?

Poderíamos falar aqui de vários outros suspeitos — a lista é enorme —, mas nenhuma das
teorias tem consistência para ser encarada seriamente e tampouco trazem algo de novo aos
crimes ou ao processo de investigação para perdermos tempo com elas.

Neste caso, estaríamos lidando com um gênio do crime e da arte de despistar a polícia? De
jeito nenhum. Jack, o Estripador era alguém que conhecia a área e que teve sorte. Os cantos
escuros e becos sombrios, preferidos pelas prostitutas pobres que não tinham onde acomodar
seus clientes, facilitaram seus crimes.
Passemos agora àqueles indivíduos que a polícia considerou como suspeitos. E enquanto
fazemos isto, farei um perfil da ação policial, baseado nos indícios de comportamento que os
investigadores, de forma coletiva, deixaram.
Será que no final a polícia chegou a ter uma ideia da identidade de Jack? É bastante
possível que sim.
O fato é que, depois do assassinato de Mary Jane Kelly, o tremendo esforço e o emprego
de pessoal no caso começou rapidamente a esfriar. Já falamos antes que a polícia estava sob
uma enorme pressão, tanto do público quanto da imprensa, alvo de críticas e de condenações.
Será que arriscariam outro assassinato, relaxando sua presença em Whitechapel? Conhecendo a
forma como burocratas e funcionários públicos respondem à pressão externa, acho difícil de
acreditar. Então, como alternativa, podemos especular que, apesar de não haver acontecido
nenhuma prisão, eles teriam alguma razão para acreditar que o terror acabara.
E quem, na Scotland Yard, teria ou acreditaria ter razões para pensar assim?
Temos três fontes de informação para isto: o Memorando MacNaghten; as memórias do
dr. (na época da publicação, sir) Robert Anderson, publicadas em 1910 com o título The
Lighter Side of My Official Life [O lado mais leve da minha vida profissional]; e as chamadas
Anotações à Margem, anotações escritas de próprio punho nas margens do livro de Anderson
pelo Inspetor-Chefe da Scotland Yard, Donald Sutherland Swanson, e entregues ao público por
sua família depois da publicação, em 1987, do livro de Martin Fido: The Crimes, Detention
and Death of Jack the Ripper [Os crimes, a detenção e a morte de Jack, o Estripador].
Sir Melville Leslie MacNaghten foi comissário-assistente encarregado do Departamento
de Investigação Criminal da Scotland Yard, onde ingressou em 1889 como chefe-assistente.
Devemos, por isto, ter em mente que qualquer informação obtida por ele seria de segunda mão,
embora tivesse acesso a toda informação relevante. O memorando foi escrito em 1894,
consistindo de sete páginas escritas de próprio punho, marcadas como "Confidencial" e
guardadas em seu arquivo. Menciona três possíveis suspeitos:
(1) um certo sr. M. J. Druitt, de quem dizem fosse um doutor de boa família, que
desapareceu pela época do assassinato em Miller’s Court e cujo corpo (que disseram estaria na
água havia mais de um mês) foi encontrado no Tâmisa a 31 de dezembro — ou seja, sete
semanas após o assassinato. Era sexualmente insano e, a partir de informações privadas, tenho
poucas dúvidas de que sua própria família acreditasse que ele fosse o assassino;
(2) Kosminski, um judeu polonês, residente em Whitechapel. Este indivíduo enlouqueceu
devido a muitos anos de indulgência em vícios solitários. Tinha um grande ódio pelas
mulheres — em especial por prostitutas — e fortes tendências homicidas; foi removido para
um asilo de loucos em março de 1889. Havia várias circunstâncias conectadas com este
homem que o faziam um forte suspeito;
(3) Michael Ostrog, médico russo e condenado, que foi em seguida detido num asilo de
loucos, como maníaco homicida. Os antecedentes deste homem eram do pior tipo possível, e
seus movimentos na ocasião dos crimes não puderam ser confirmados.

Em suas memórias, Robert Anderson fala de um judeu polonês de classe social baixa, de
quem não menciona o nome, e declara que o indivíduo "fora engaiolado num asilo e a única
pessoa que pudera ver bem o assassino o identificara de imediato, mas quando soube que o
suspeito era um judeu como ela, não quis testemunhar".
Esta testemunha que Anderson menciona é provavelmente Joseph Lawende, o vendedor
de cigarros que acreditava ter visto o assassino com Catherine Eddowes na entrada da praça
Mitre. O judeu polonês em questão seria Aaron Kosminski, o segundo nome no memorando de
MacNaghten.
Kosminski era um cabeleireiro que se mudara para a Inglaterra em 1882. Os registros do
grande Asilo de Insanos Colney Hatch, que deveria ocupar-se da quase totalidade dos casos de
doenças mentais na área de Whitechapel, listam seus ataques de loucura datando desde 1885.
Pelo final da década de 1880, era conhecido por vagar pelas ruas, procurando alimentos no
chão e no lixo, e por se recusar a aceitá-los de qualquer pessoa. Não se lavava e uma vez
ameaçara sua irmã com uma faca. A partir de 1890, passou praticamente o resto de sua vida
em asilos para loucos.
Na margem de sua cópia pessoal do livro de Anderson, lá onde fala do judeu polonês e da
testemunha que se recusou a identificá-lo, Donald Swanson escreveu a lápis:

porque o suspeito era judeu como ele e, também, porque seu testemunho condenaria
o suspeito, isso o tornaria o causador do enforcamento do suspeito, o que não queria ter na
consciência.
D.S.S.
E continua:

Depois desta identificação que o suspeito sabia ter havido, nenhum outro assassinato
desta espécie ocorreu em Londres.

No final da folha, escreveu:

Depois de sua identificação na Casa da Praia [provavelmente uma casa de


convalescença da polícia em West Brighton, para a qual suspeito e testemunha foram
levados de forma a evitar publicidade em Londres], para onde fora mandado por nós com
dificuldade, de modo a que pudesse se proceder a identificação, ele sabia que fora
positivamente identificado.
Quando o indivíduo voltou para a casa de seu irmão em Whitechapel, foi vigiado pela
polícia [Polícia da Cidade — Departamento de Investigações Criminais] dia e noite. Em
pouco tempo o suspeito com as mãos amarradas foi levado para o Albergue Stepney e,
depois, para Colney Hatch, morrendo pouco depois — Kosminski era o suspeito.
D.S.S.

OS SUSPEITOS RESTANTES

Quando fui chamado para preparar um perfil, no especial de Peter Ustinov para a
televisão, em 1988, concordei com o combinado de que analisaria apenas o material e os
suspeitos que me fossem apresentados no programa.
Os suspeitos apresentados pelo programa foram Robert Donston Stephenson, que também
se fazia chamar dr. Roslyn D'Onston; Montague John Druitt e Aaron Kosminski, dois dos três
suspeitos de MacNaghten; sir William Gull, médico da família real; e o príncipe Albert Victor
Edward, duque de Clarence.
O único destes cinco que não mencionamos ainda é Stephenson, um vigarista que se
autopromovia como praticante de magia. Estava em Whitechapel na época e era conhecido por
seu interesse pelos crimes, tendo uma vez os encenado para uma platéia atônita. Sendo alguém
interessado em bruxaria, este elemento certamente apareceria ritualizado nos crimes. E poderia
levar suas vítimas para algum lugar seguro em vez de correr o risco de assassiná-las na rua.
Embora a teoria tenha seus adeptos, nada encontrei em seu passado escuso que o qualificasse
como um bom suspeito.
Príncipe Eddie e Gull já foram analisados. Então consideremos Druitt e Kosminski e o
terceiro nome no Memorando MacNaghten, Michael Ostrog.

Ostrog era um imigrante russo, ou polonês, com um passado criminal conhecido e, talvez,
fosse médico. Era velho e alto demais para combinar com a descrição do suspeito feita por
testemunhas. Fora preso em setembro de 1887, mas transferido da prisão para o Asilo de
Indigentes de Surrey, ao demonstrar sinais de loucura (provavelmente fingidos), e libertado em
março de 1888. Como foi sentenciado por roubo em Paris, a 18 de novembro, não parece que
estivesse nem mesmo em Londres, durante todos os crimes. Reapareceu ali em 1904,
semiparalítico, vivendo na Missão Cristã de St. Giles.
A polícia certamente se interessou por ele como suspeito quando, durante a série de
crimes, ele não se apresentou ao ser intimado. Suas entradas e saídas em instituições mentais,
provavelmente, foram a causa do interesse de MacNaghten por ele, mas aqui também não
encontro nada de convincente nos fatos conhecidos que sugira que fosse ele o assassino. Nada
mais em seu histórico indica uma propensão para o tipo de violência selvagem que
encontramos nestes crimes e, apesar dos distúrbios mentais, parece-me bastante organizado e
lúcido para se enquadrar na personalidade que estamos procurando.
O que nos leva a Montague John Druitt. A principal razão do interesse em Druitt como
suspeito é a época em que morreu. Foi retirado do Tâmisa no dia 31 de dezembro de 1888 e a
polícia estimava que estivera lá por mais de um mês. Seu casaco tinha um lastro de pedras para
que ele não flutuasse. Além disso, encontraram com ele dinheiro em espécie e dois cheques de
uma escola para meninos onde ensinava. Deviam ser cheques de acerto final de contas, pois
teria sido despedido, supostamente por avanços sexuais sobre os meninos. Embora fosse
descrito como médico, na verdade era um professor, e apenas começara uma carreira como
advogado. Havia um histórico de instabilidade mental e de depressão em sua família e, após a
morte de seu pai, sua mãe foi internada num hospício.

Sempre me surpreendeu o peso dado a Druitt como possível suspeito de ser o Estripador.
Fora a conveniência de sua morte com a data do último crime, nada mais o liga aos crimes nem
a nenhum contato ou associação com Whitechapel. Não há nenhum indício de violência em seu
passado — e ninguém começa pelo final, neste tipo de crime de que estamos falando.
Já Aaron Kosminski tornava-se um bom suspeito para os assassinatos. Imigrante judeu
polonês, cabeleireiro com um histórico de insanidade mental e uma conhecida ojeriza por
mulheres, ele coincidia fisicamente com as descrições feitas pelas testemunhas e
psicologicamente com a personalidade desorganizada do assassino. A espiral de escalada das
mutilações e a depravação nos crimes era dramática — a morte de Mary Jane Kelly me parece
a obra de alguém que chegou ao fim da linha. Não que com isto ele fosse se entregar, como fez
Edmund Kemper, ou suicidar-se. Diferentemente, sugere que ele não seria mais capaz de
funcionar por muito tempo, o que parece ser o caso de um indivíduo, tão paranóico, que comia
lixo das ruas para não receber comida de ninguém.
É também o único que aparece nos três documentos (embora Anderson não o mencione
pelo nome). Segundo Swanson, quando Kosminski foi colocado sob vigilância, os crimes
cessaram. Embora algumas pessoas tenham questionado as memórias dos três policiais, não
existe nenhuma razão para pensar que estivessem errados na essência de seus raciocínios.
Martin Fido, que pesquisou profundamente os escritos e a vida dos três homens, e também
tudo o que Robert Anderson escreveu, sobre assuntos os mais diversos, é acurado e verdadeiro.
Donde não vejo razão para duvidar dele neste caso.
O indivíduo, é preciso notar, era um imigrante judeu, o mesmo tipo de pessoa que muitos
habitantes de Whitechapel, por preconceito, temiam, suspeitavam, odiavam e desprezavam.
Seria o fato de ser judeu um fator de peso neste perfil, ou na execução dos crimes? Não. Jack, o
Estripador, deveria ser um morador pobre de Whitechapel e, naquele tempo, muitos moradores
pobres da área eram imigrantes judeus. Existem assassinos e indivíduos doentes em todas as
raças e grupos étnicos conhecidos. E isto é um fato.
Embora Kosminski se ajustasse a minha avaliação e perfil, disse no programa de Ustinov
que devíamos ser cautelosos e que, cem anos depois, não se podia provar que era ele o
assassino. O que afirmei foi que Jack, o Estripador, seria ou Aaron Kosminski ou alguém que,
como ele, tivesse o perfil que eu descrevera. E continuo afirmando.
Mas, como soube nos anos que vieram depois daquele programa, pelas informações que
não me forneceram na época, existem alguns problemas com Kosminski. Para começar, as
informações de Swanson se revelaram falsas num fato da maior importância: Kosminski não
morreu pouco depois dos assassinatos, mas, na verdade, viveu em hospícios até 1919! Durante
este tempo, foi muitas vezes desconexo, mas nunca violento e jamais deu qualquer indicação
de que fosse o Estripador. Era de se esperar que um indivíduo paranóico como ele falasse com
frequência do fato. Kosminski parece passivo e dócil demais para ser aquele animal predador
que saía, cada noite, à caça das vítimas da oportunidade.
Outra vez Martin Fido. Ele também acreditara que o homem a quem a polícia se referia
como Kosminski era a resposta para o mistério sobre o Estripador, mas a realidade dos
problemas o incomodou tanto quanto a mim. Sabendo que a descrição do judeu polonês, feita
por Anderson, era mais confiável do que o nome Kosminski, Fido verificou os registros de
todas as prisões e hospícios da área, na época dos crimes. De todos os nomes que examinou
surgiu um candidato fascinante.
David Cohen era um judeu polonês de 23 anos (a mesma idade de Kosminski) na época,
cuja internação em Colney Hatch coincide exatamente com o fim dos assassinatos. Fora detido
pela polícia e levado para o Dispensário de Whitechapel no dia 12 de dezembro de 1888,
depois de ser "encontrado vagando sem destino e incapaz de cuidar de si". Diferentemente de
Kosminski, Cohen era um anti-social violento e foi mantido em isolamento. Quando lhe davam
qualquer roupa, ele as arrancava do corpo, rasgando. Falava pouco e, quando falava, fazia-o
numa língua estrangeira, que os guardas acreditavam ser alemão. Embora saibamos que ele
vivia em Whitechapel na época dos crimes, não sabemos seu endereço ou mesmo se tinha um
emprego.
Adoeceu em 28 de dezembro e, embora parecesse melhorar e recobrar um pouco de suas
forças durante a primavera/verão de 1889, faleceu no dia 20 de outubro. A causa da morte
declarada foi: "exaustão maníaca". O diagnóstico, embora rude para padrões modernos,
encaixa-se à perfeição no perfil. O assassino de Mary Jane Kelly estava emocionalmente no
fim da linha.

Seu endereço foi dado como sendo na rua Leman, 86, uma impossibilidade, já que este era
o endereço do Clube Protestante dos Meninos. Martin Fido, no entanto, descobriu que o
número 84 da mesma rua era o Abrigo Temporário para Judeus Pobres e Desabrigados, o que
pareceu bastante lógico. Esta casa aceitava apenas imigrantes recém-chegados e, apenas, por
duas semanas. Imigrantes judeus, acolhidos desta forma por seus compatriotas, eram com
frequência colocados numa lista para conseguir trabalho numa das atividades controladas na
área por judeus: alfaiates e sapateiros. Cohen aparece na lista como alfaiate, mas é provável
que fosse sapateiro e que houvesse trocado de ramo para evitar conexões com Avental de
Couro.
Não fica difícil entender a troca dos números 86 e 84, mas como explicar a confusão dos
nomes Kosminski e Cohen? Bem, uma explicação possível é a fornecida por Fido, de que o
nome Cohen era um sobrenome muito comum, do tipo "Silva", que as autoridades inglesas
usavam para judeus que tinham nomes complicados demais para serem pronunciados ou
escritos. Então, é possível que, enquanto a Polícia da Cidade seguia Kosminski, a Scotland
Yard se concentrasse em Cohen. A Scotland Yard sabia que o homem morrera, mas não sabia
seu nome.
A situação se complica mais com a existência de um terceiro personagem, que aparece
geralmente com o nome de Nathan Kaminsky, um sapateiro imigrante, com a mesma idade e
aparência de Cohen e Kosminski. Ele foi tratado de uma sífilis no dispensário de um albergue
pouco antes do início dos crimes e depois desaparece dos registros sem nenhuma explicação.
Vivia no coração da área "zona de conforto" do Estripador. E não existe registro de sua morte.

Acho muito possível que estes três judeus poloneses imigrantes, com históricos de
insanidade, tenham sido confundidos e embaralhados pelos diversos investigadores e estruturas
policiais envolvidas no caso. Não acredito muito em elaboradas conspirações para encobrir
delitos, mas vi o suficiente de deslizes e trapalhadas burocráticas, em meu tempo, para
acreditar nelas do fundo do coração. Ainda assim, qual é o elemento de verdade que
transparece com consistência nos três documentos e ainda combina com o perfil do assassino
de Whitechapel?
Como vimos, é impossível dizer com certeza quem foi o assassino depois de todos estes
anos, mas as evidências de comportamento são mais que suficientes para nos dizer que tipo de
pessoa ele era. Desta forma me sinto seguro para dizer que Jack, o Estripador, era David
Cohen... ou alguém muito parecido com ele.
2 – LIZZIE BORDEN

Lizzie Borden, com um machado,


Deu quarenta golpes na mãe;

Quando viu o que tinha feito,


Deu quarenta e um no pai.

NA MEMÓRIA DA MAIORIA DAS PESSOAS é assim que o mais famoso e notório


caso de assassinato na América do século XIX é lembrado. Fosse o autor anônimo da
quadrinha acima mais responsável e tivesse um maior compromisso com os fatos como foram
estabelecidos no inquérito, seus versos dariam outra versão, talvez menos musical, porém mais
acurada do caso, oficialmente não solucionado até hoje:

Um desconhecido, com uma machadinha,

deu dezenove golpes na madrasta de Lizzie.


Noventa minutos depois de ter feito isso,
(ele ou ela) deu, no pai de Lizzie Borden, um golpe
e, depois, mais dez.

Tendo o primeiro golpe sido suficiente para causar a morte, os outros dez seriam um
abuso além da morte. Mas, como descobriremos, este foi um abuso resultante de outro tipo de
distúrbio de personalidade, diferente daquele que vimos nos crimes de Whitechapel.
O que houve neste assassinato brutal e cometido à luz do dia, numa próspera comunidade
da Nova Inglaterra e no auge da Revolução Industrial, que chocou o imaginário, não só da
Nova Inglaterra, mas, em poucos dias, também do país e do mundo, exatamente como os
crimes de Jack, o Estripador, haviam feito quatro anos antes? Uma das explicações estaria no
fato de que não é comum que moças ricas e de boa família sejam acusadas de assassinato a
sangue-frio com uma machadinha. Se no caso das mortes em Whitechapel tratava-se da
descoberta do potencial de brutalidade gratuita e da perda da inocência em relação à presença
do mal num mundo por demais confiante e complacente, neste caso tratava-se do potencial de
violência oculto no seio de uma família aparentemente normal e, muito mais, da profunda e
assustadora perda de inocência que isto implicava.

É difícil evitar os curiosos e estranhos paralelos com um outro caso oficialmente não
resolvido, mas onde também se supõe a violência doméstica, que veio a acontecer 102 anos
mais tarde do outro lado do continente: os assassinatos de Nicole Brown Simpson e Ronald
Goldman no condomínio onde Nicole morava, na área de Brentwood, Los Angeles, em 1994.
Ambos os casos têm como réus pessoas bem-sucedidas e ricas, verdadeiros pilares da
sociedade. Os acusados, clamando com vigor a inocência, foram defendidos pelas melhores
equipes de advogados que o dinheiro podia contratar. Em ambos os casos um homem e uma
mulher foram vítimas de arma branca que não foi encontrada na cena do crime e também
foram oferecidas substanciais recompensas em dinheiro por qualquer informação que levasse
aos assassinos — recompensa que nos dois casos ninguém reclamou. Nestes dois casos, a
atenção do mundo se manteve voltada para cada palavra dita durante os julgamentos e os
acusados não foram chamados para depor nem num nem noutro julgamento; na verdade apenas
disseram frases curtas, sempre declarando inocência.
Quando as pessoas de todo o mundo começaram a se perguntar se um ex-jogador de
futebol americano, bonito, rico e famoso, seria capaz de matar de forma selvagem à própria
esposa e a um amigo dela num acesso de fúria assassina, estavam retornando à pergunta que
outras pessoas se fizeram, um século atrás:
Seria possível que uma jovem de boa família, rica e bem educada, uma antiga professora
de catecismo, uma caridosa ativista religiosa ligada a sua Igreja e membro proeminente da
União das Mulheres Cristãs pela Temperança, fosse na verdade um monstro?
Uma pergunta que, com pequenas variações, tem surgido várias vezes durante o século
que separa esses dois casos. Ela contém, de várias maneiras, a própria essência da criminologia
comportamental.

OS BORDEN DE FALL RIVER

Comecemos com os fatos estabelecidos.


Mais ou menos por volta das 11:15h de uma manhã quente e úmida na quinta-feira, 4 de
agosto de 1892, Rufus B. Hilliard, xerife da cidade de Fall River, Massachusetts, recebeu um
chamado urgente na Central de Polícia. Era de John Cunningham, um jornalista local.
Cunningham se encontrava na Estrebaria do Hall quando viu a sra. Adelaide Churchill chegar
transtornada e dizer a seu cocheiro Tom que corresse a chamar um médico. Seu vizinho de
casa, Andrew Borden, um dos mais ricos e proeminentes cidadãos de Fall River, havia sido
brutalmente atacado na sala de estar de sua casa, na Second Street. Vendo Cunningham,
sugeriu a ele que chamasse a polícia.
E foi o que Cunningham fez. Não sem antes telefonar para a redação do Fall River Globe e
passar-lhes a notícia exclusiva.
A família Borden era constituída de quatro membros: Andrew Jackson Borden, de 72
anos, um dos mais importantes homens de negócio da cidade; sua segunda mulher, Abby
Durfee Grady Borden, de 64 anos; e as duas filhas solteiras de Andrew e de sua finada mulher,
Sarah Anthony Morse Borden: Emma Lenora, de 41 anos, e Lizzie Andrew, de 32. Havia ainda
uma empregada doméstica, já com a família há mais de dois anos: uma imigrante irlandesa, de
26 anos, chamada Bridget Sullivan.
Em 1890 Fall River tinha uma população de oitenta mil habitantes e manufaturava mais
tecidos de algodão do que qualquer outra cidade no mundo. Se havia um nome que podia ser
associado com a origem econômica e a contínua prosperidade da cidade, este nome era Borden.
Embora fosse parente da família que havia fundado Fall River e que vivia há três gerações na
riqueza, Andrew era apenas primo em segundo grau do ramo rico e havia crescido sem
nenhuma das vantagens do dinheiro e da influência dos Borden. Seu avô era irmão do fundador
da dinastia e seu pai nada conseguira na vida. Tudo o que Andrew possuía — e era muito —
havia sido ganho por ele próprio. Tendo começado a vida como fabricante de caixões fúnebres,
passou, depois, a dono de funerária, investindo seu lucro em imóveis, bancos e fábricas. Agora,
com os cabelos e barba brancos, alto e magro, sempre posto num pesado terno negro
independentemente do tempo que fizesse, Andrew Borden era o presidente do Union Savings
Bank, diretor das companhias Merchants Manufacturing, B.M.C. Durfee Safe Deposit and
Trust, Globe Yarn Mills, Troy Cotton and Woolen Manufactory e dono de diversas fazendas.
Em 1892 sua fortuna era estimada em meio milhão de dólares, enorme quantia na época.
Talvez devido ao esforço feito para enriquecer, Andrew ficara conhecido como pessoa
honesta, mas impiedosa nos negócios, e parcimoniosa ao extremo, em sua vida pessoal,
evitando, como luxos, confortos como eletricidade e água encanada, já na época desfrutados
por pessoas de poder aquisitivo bem menor. Em sua casa simples de dois andares, no número
92 da Second Street havia uma latrina no porão, e nos quartos, pinicos que deviam ser
esvaziados pela manhã. Andrew, um homem mal-humorado, não via nenhuma razão para
amenidades; para grande desconsolo de suas filhas, às quais a penúria do estilo de vida do pai
impedia qualquer oportunidade de sucesso social.
Na manhã em questão Emma estava fora, visitando amigos em Fairhaven, a uns 25km, de
distância. Mas na casa havia dormido um hóspede, John Vinnicum Morse, 59 anos, irmão da
primeira esposa de Andrew. Ele vivera vinte anos em Iowa, mas já fazia três que retornara ao
Nordeste e agora morava em South Dartmouth. Ele chegou na tarde de quarta-feira, 3 de
agosto, e foi para uma das fazendas de Andrew em Swansea. Normalmente os ovos da fazenda
eram entregues na quinta-feira pelo administrador, mas na noite de quarta-feira, Morse voltou
trazendo com ele os ovos da semana. Nessa noite, Morse teve uma conversa de negócios com
seu ex-cunhado. Embora se tenha sugerido que os dois falaram de um testamento que Andrew
estaria pensando em fazer, não existem provas nesse sentido.

A casa dos Borden, em seu cotidiano um ambiente pesado, deve ter sido particularmente
desagradável naquela quarta-feira. Às 7:00h Abby atravessou a rua e dirigiu-se à casa do dr.
Seabury Warren Bowen, onde reclamou que tanto ela quanto Andrew haviam passado muito
mal durante a noite com náuseas e vômitos e que receava ter alguém tentado envenená-los.
Depois de um rápido exame, o dr. Bowen mandou-a para casa, dizendo que acreditava que ela
nada apresentasse de sério. Mais tarde, na mesma manhã, Bowen fez uma visita a eles apenas
para se certificar. Andrew, de forma grosseira, disse-lhe que não estava doente e não tinha
intenção de pagar por uma visita que não solicitara. Como Andrew era avarento com a comida,
como com tudo mais, é possível que os vômitos fossem causados por um carneiro que a
família comia havia já alguns dias, apesar do calor de agosto. Bridget, que sentiu os mesmos
sintomas, convenceu-se de que o carneiro estava estragado, mas Andrew não a deixou jogá-lo
fora.
Na quinta-feira, John Morse tomou o café da manhã com Andrew e Abby. Lizzie não
comeu com eles, o que era normal. Embora vivendo juntos na mesma casa, Lizzie raramente
fazia as refeições com o pai e a madrasta. Morse saiu de casa por volta das 8:40h, passou no
correio e depois foi ao outro lado da cidade visitar uns parentes, os Emery. O sr. e a sra. Emery
declararam mais tarde que Morse ficou com eles das 9:40h às 11:20h e que tinham a impressão
de que, depois de deixá-los, Morse havia voltado para casa passando por New Bedford.
Abby determinou que Bridget lavasse todas as janelas por fora e por dentro. Aquilo que
seria um serviço pesado em qualquer outro dia era especialmente duro naquele, quando ela,
que já preparara o café da manhã e limpara tudo, sentia-se tão mal. Às 9:00h ela teve de
interromper o trabalho e correr ao quintal para vomitar.

Alguns minutos depois, Andrew saiu para o trabalho. A sra. Churchill, vizinha da casa
pelo lado norte, viu-o sair. Bridget, ainda nos fundos, continuava vomitando e Abby, no andar
de cima, arrumava o quarto de hóspedes onde dormira John Morse. Quando Bridget voltou dos
fundos, ouviu Abby e Lizzie conversando na sala de jantar.
Numa loja de sua propriedade, que estava sendo remodelada, Andrew Borden disse aos
carpinteiros que não se sentia bem e que ia para casa. Ali chegando por volta das 10:40h, não
conseguiu, com sua chave, abrir a porta, que estava trancada por dentro com um trinco, o que
não era comum durante o dia. Ele bateu e Bridget veio abrir. Ela demonstrou alguma
dificuldade com o trinco e, segundo ela própria, Lizzie estava no alto da escada rindo de sua
falta de jeito.
Andrew carregava um pequeno pacote embrulhado em papel branco. Nunca se soube o
que havia nele. Desde que a casa fora assaltada, um ano antes, mantinha o quarto, onde ele e
Abby dormiam, trancado à chave; por isso pegou a chave do lugar onde a guardava, no
aparador da lareira, e subiu pela escada dos fundos. Quando tornou a descer, Lizzie disse-lhe
que a sra. Borden — a quem Lizzie parara de chamar de mãe havia anos — recebera um bilhete
de uma amiga doente e saíra. Ainda vestido com seu paletó e gravata, Andrew recostou-se no
sofá da sala para um cochilo com os pés no tapete.
Para não incomodá-lo, Bridget saiu da sala de estar e foi limpar os vidros da sala de jantar.
Lizzie veio, para onde estava ela, com um ferro de engomar e começou a passar alguns lenços.
— Você vai sair hoje, Maggie? — perguntou Lizzie.
É interessante que tanto Lizzie quanto Emma chamavam Bridget de Maggie; este era o
nome da empregada que trabalhara na casa antes dela e, aparentemente, o hábito de chamar por
Maggie era forte demais para ser quebrado. Andrew e Abby a chamavam por seu prenome.
— Não sei — respondeu Bridget — talvez sim, talvez não. Não estou me sentindo muito
bem.
— Se você sair, não se esqueça de trancar a casa toda. A sra. Borden foi ver uma amiga
doente e eu também devo sair.
— Quem está doente, srta. Lizzie? — perguntou Bridget.
— Não sei. Ela recebeu um recado esta manhã. Deve ser alguém na cidade.
Bridget achou estranho, já que a sra. Borden, uma mulher tímida, pequena e gorda,
normalmente a avisava quando pretendia sair; o que era, além de tudo, raro acontecer. Mas
Bridget aceitou a história de Lizzie.
Quando Bridget acabou de limpar as janelas, Lizzie disse-lhe:
— Há uma liquidação de tecidos para vestidos na Sargent esta tarde, tudo muito barato,
peças a oito centavos o metro.
Isto provocou uma reação mais entusiasmada na jovem, que declarou:
— Quero um vestido!
Então Bridget deixou Lizzie passando roupas na sala de jantar e subiu a seu quarto no
sótão para descansar um pouco, na esperança de se sentir melhor. Deitou-se por cima da
colcha, sem mesmo tirar os sapatos. Estava quente demais para dormir, mas ela terminou
cochilando e só acordou quando ouviu o relógio da Prefeitura soar às 11 badaladas. Mas ainda
ficou na cama por alguns minutos.
Então ela ouviu Lizzie, que a chamava com urgência:
— Venha cá embaixo, Maggie! Venha rápido! Papai está morto! Alguém entrou na casa e
o matou!
Bridget se levantou e desceu correndo os dois lances de escada e, quando estava na porta
da sala de estar onde Andrew estivera cochilando, Lizzie disse:

— Oh, Maggie, não entre aí! — E, então, Lizzie lhe disse para procurar o d r. Bowen.

A CENA DO CRIME

A sra. Adelaide Churchill voltava para casa com as compras da mercearia quando viu,
saindo da casa do dr. Seabury Bowen, Bridget que não o havia encontrado e voltava correndo
para casa. Ela deixou suas compras e foi até a cerca entre sua casa e a casa dos Borden,
presumindo, pelo comportamento de Bridget, que alguém estivesse doente. Lizzie estava em pé
por trás da porta de tela na lateral da casa e tinha um olhar perdido. A sra. Churchill lhe
perguntou:
— Que foi que aconteceu, Lizzie?
— Oh, sra. Churchill — Lizzie exclamou. — Alguém matou meu pai!
A vizinha atravessou a cerca e veio até onde estava Lizzie.
— Onde está seu pai, Lizzie? — e ela teve que perguntar algumas vezes antes que Lizzie
finalmente respondesse:
— Na sala.
A sra. Churchill entrou e foi à sala de estar, onde viu com seus próprios olhos a
carnificina. Quando voltou, alguns segundos mais tarde, perguntou a Lizzie onde estivera
quando aquilo acontecera.

Lizzie disse que estivera no celeiro, nos fundos, procurando por pedaços de metal que
servissem como peso para uma pescaria que faria em breve. Ouvindo um barulho ela voltara e
vira que a porta de tela estava aberta.
Aí, a sra. Churchill indagou:
— Onde está sua mãe?
— Não sei — respondeu Lizzie. — Ela recebeu um recado esta manhã para ir ver alguém
doente. Mas talvez ela esteja morta também, porque eu acho que a ouvi voltando. Lizzie
continuou:
— Meu pai deve ter algum inimigo, porque estamos todos doentes e achamos que o leite
foi envenenado. Eu preciso de um médico.
Nesse ponto Adelaide Churchill saiu e foi ela própria procurar pelo dr. Bowen; dando
início à cadeia de acontecimentos que acabaram por acionar a polícia.

A maior parte do efetivo da força policial de Fall River estava fora, de serviço, num
piquenique anual em Rocky Point, Rhode Island. Hilliard mandou para a cena do crime George
W. Allen, um policial jovem e, de certa forma, inexperiente, um dos poucos disponíveis.
Enquanto isto o dr. Bowen havia chegado, seguido logo depois por Bridget, que voltava
com a melhor amiga de Lizzie, Alice Russell. Bowen foi direto para a sala, onde encontrou o
corpo de Andrew Borden. O cadáver estava no sofá, meio sentado, meio deitado, com a cabeça
apoiada no paletó cuidadosamente dobrado que servia de travesseiro. As botas ainda estavam
calçadas. Seu rosto ficara irreconhecível. Havia sangue no chão, na parede sobre o sofá e num
dos quadros. Mas suas roupas continuavam arrumadas e não parecia haver nenhum ferimento
em outra parte de seu corpo além do rosto.

A preocupação imediata dos que estavam na casa era com o paradeiro de Abby. Lizzie
declarara que ela saíra para visitar alguém doente. Com o limitado círculo de relações de
Abby, a única pessoa que Bridget podia imaginar que ela visitasse seria a sra. Sarah Whitehead,
sua meia-irmã caçula. Bridget sugeriu que tentassem encontrar a sra. Whitehead e caso Abby
estivesse com ela, que dissessem apenas que o sr. Borden estava muito mal e que Abby deveria
voltar com urgência para casa. Depois lhe contariam a terrível verdade.
Lizzie voltou a falar de sua suspeita de que Abby já houvesse voltado, mas, se era assim,
por que ela não descera ao ouvir a comoção de todos na casa?
— Maggie, por que você não vai lá em cima ver — disse Lizzie.
— Estou certa de tê-la ouvido voltar.
Isto era o que Bridget menos queria fazer e, apavorada com o que poderia encontrar,
respondeu:
— Não quero ir até lá em cima sozinha!
A sra. Churchill ofereceu-se para ir e, juntas, subiram a escada. Quando chegaram em seu
topo, puderam ver Abby no quarto de hóspedes, meio ajoelhada, como caíra, com o rosto no
chão. Voltando para baixo elas encontraram Lizzie também caída, desmaiada.
— Encontraram? — Alice Russell perguntou.
— Sim, ela está lá em cima — respondeu Adelaide Churchill.
Nesse momento o policial George Allen chegou à casa dos Borden. Encontrando na rua,
perto da casa, o pintor de paredes Charles Sawyer, Allen o designou para que ficasse ali
tomando conta enquanto ele investigava. A porta da frente estava trancada, então ele se dirigiu
para os fundos, pelo lado esquerdo da casa, onde encontrou a porta de tela pela qual conseguiu
passar. Quando ele entrou o dr. Bowen já havia saído para telegrafar a Emma pedindo seu
retorno. Abalado com a cena brutal que encontrou na sala, Allen fez um breve reconhecimento
no primeiro andar e, deixando Sawyer guardando a casa, voltou à Central de Polícia para
relatar ao xerife Hilliard o que havia descoberto. Outros policiais já estavam na Central e
Hilliard os mandou acompanharem Allen de volta à casa dos Borden. Por volta das 11:45h
havia sete policiais na cena do crime, além do médico legista do condado de Bristol, dr.
William Dolan. Baseado na comparação da temperatura dos corpos e, mais tarde, no exame
dos alimentos encontrados no sistema digestivo das vítimas, Dolan concluiu que Andrew
morrera no mínimo uma hora depois de Abby.
Andrew Borden fora atingido no rosto. Um olho fora cortado pela metade. Seu nariz fora
decepado e onze cortes se espalhavam do nariz ao olho e à orelha. Havia ainda sangue fresco
correndo de seus ferimentos, quando ele foi encontrado. Apesar da fúria do ataque, suas roupas
continuavam arrumadas. As feridas foram provocadas por uma arma pesada e de corte afiado.
Ele tinha sido atacado pelo alto de sua cabeça enquanto dormia.
A autópsia de Abby Borden revelou, mais tarde, que seu crânio fora massacrado
aparentemente pela mesma arma que causara a morte de seu marido. Um golpe certeiro a
atingira atrás da cabeça, quase na nuca, arrancando um pedaço de seu couro cabeludo. Quando
seu corpo foi encontrado, o sangue já estava escuro e coagulara. Ela também fora morta a
golpes, num total de dezenove, do mesmo instrumento pesado e cortante. Como no caso de seu
marido, é possível que o primeiro golpe tenha causado a morte.
O policial Michael Mullaly perguntou a Lizzie se havia uma machadinha na casa.
— Sim, várias — disse ela — e por toda parte.
Mais tarde, quando interrogada durante o inquérito, ela declarou não saber se havia
alguma machadinha na casa. E esta seria apenas a primeira das várias inconsistências de suas
respostas.

Bridget acompanhou Mullaly até ao porão, onde ele encontrou quatro machadinhas: uma,
enferrujada e cheia de dentes; a segunda, que parecia pouco usada, coberta de poeira; a
terceira, com a lâmina coberta de cinzas, o cabo quebrado e, julgando pelas fibras da madeira,
quebrado recentemente. Na quarta foram encontrados resíduos de cabelos e sangue.
Enquanto isso, John Morse retornara do almoço e saíra para o pomar, no quintal dos
fundos, onde colheu umas peras e perdeu alguns minutos comendo-as, aparentemente sem se
dar conta do que acontecia no interior da casa.
O policial William Medley foi até o celeiro e subiu ao sótão, onde Lizzie dissera ter
procurado por pedaços de chumbo para a pescaria que faria depois de juntar-se a Emma em
Fairhaven. Ele encontrou o chão coberto por uma espessa camada de pó e nenhuma evidência
de que alguém estivera ali recentemente. A essa altura, o dr. Bowen voltara. Ele levou Lizzie
para cima e deu-lhe bromocafeína para sua dor de cabeça e também para acalmar seus nervos
(na noite seguinte ministrou-lhe a primeira de uma série de injeções de sulfato de morfina
como tranquilizante). Alice Russell notou que, enquanto estivera em seu quarto, Lizzie trocara
o vestido azul-claro que usava por outro rosa e branco.

A polícia encontrou uma pequena mancha de sangue na sola de um dos sapatos de Lizzie e
outra mancha, com um milímetro e meio de diâmetro, numa de suas anáguas. Poderia ser
sangue humano e o exame de laboratório determinou que havia uma maior concentração na
parte exterior do tecido. Este dado é importante porque Lizzie explicou a mancha como
resultado de uma picada de pulga, um eufemismo da época para sangue menstrual, o que não
era discutido em público nem mesmo num interrogatório policial.
Às 15:00h os corpos de Andrew e Abby Borden foram levados para a sala de jantar e
colocados em macas funerárias. E o dr. Dolan, ali, onde naquela mesma manhã as duas vítimas
haviam tomado o café, efetuou a autópsia. Retirou e amarrou os estômagos, que foram
mandados imediatamente para o dr. Edward S. Wood, professor de química em Harvard.
No primeiro andar, o vice-xerife John Fleet, interrogando Lizzie, perguntou-lhe se ela
tinha alguma ideia de quem poderia ter cometido os dois assassinatos. Lizzie respondeu que
algumas semanas antes seu pai discutira com um homem que ela não conhecia e que, além
dele, ela não conseguia pensar em mais ninguém. Fleet então indagou se ela achava que
Bridget ou John Morse poderiam ter matado seu pai e sua mãe. Depois de frisar que Abby não
era sua mãe e sim sua madrasta, Lizzie respondeu que não, que teria sido impossível para
qualquer um dos dois cometer os crimes.
Emma voltou de Fairhaven pouco antes das 18:00h. Os corpos dos Borden ainda estavam
na sala de jantar, esperando a chegada do agente funerário. O sargento Philip Harrington
continuou o interrogatório de Lizzie. Finalmente a polícia se retirou, deixando um cordão de
isolamento para manter fora a massa de curiosos que se juntara na rua. Bridget foi dormir com
a empregada do dr. Bowen. Emma e Lizzie permaneceram na casa. John Morse dormiu no
quarto de hóspedes, onde Abby fora assassinada. Alice Russell dormiu no quarto dos Borden.
O policial Joseph Hyde, de guarda na ocasião, relatou que viu durante a noite Lizzie e
Alice descerem ao porão com uma lâmpada de querosene e com um balde. Alguns minutos
mais tarde Lizzie tornou a descer, desta vez só. Ele a viu inclinada sobre a pia, mas não
conseguiu ver o que fazia.

A VERSÃO DE LIZZIE

No dia 5 de agosto o Fall River Globe publicou uma entrevista com o tio de Lizzie, Hiram
Harrington, casado com a irmã de Andrew, Luana. A entrevista declarava que Harrington
conversara com sua sobrinha na noite anterior e que a razão dela não demonstrar nenhuma dor
ou emoção seria o fato de ser uma pessoa "não emocional por natureza".
Isto se transformou num dos principais pontos do processo. Lizzie dera a muitos
observadores a impressão de frieza emocional — não o tipo de resposta que se esperava de
alguém sofrendo pela perda de seu pai, se não por aquela de sua madrasta. Hoje, é claro, nós
olhamos com mais cuidado para um fator como este, na análise do comportamento criminoso,
e evito considerá-lo fora de contexto ou por si só. Décadas de experiência lidando tanto com
criminosos, quanto com vítimas e suas famílias ensinaram-me que a resposta a um trauma
emocional varia bastante de pessoa para pessoa. O que vale para este caso e para mais adiante,
quando considerarmos os casos de Charles Lindbergh Jr. e JonBenet Ramsey.
A natureza de meu trabalho fez-me conhecer inúmeras pessoas que haviam perdido entes
queridos, vitimas de crimes violentos. Algumas, como Jack Trudy e Stephen Collins e Gene,
Peggy e Jeni Schmidt, nomes talvez familiares ao leitor, tornaram-se minhas amigas. Passei
bastante tempo e conversei muito com pessoas cuja dor de tais perdas veio a público; pessoas
como John Walsh e Marc Klaas. E posso dizer que a forma como alguém responde ao indizível
e inimaginável — seja clamando aos céus ou fechando-se em si próprio — é tão intima, tão
interior, que, enquanto não se conhece de verdade o indivíduo em questão, é extremamente
arriscado fazer qualquer julgamento baseado nessa resposta. Por isto, se estivesse me ocupando
do caso Borden não daria, nesta altura da investigação, muito peso, num sentido ou noutro, à
reação emocional de Lizzie.
Mas do ponto de vista forense, existiam áreas muito problemáticas. A primeira era a
questão do tempo. Abby fora morta numa manhã, por volta das 9:30h. Andrew morrera alguns
minutos depois das 11:00h. Teria o assassino permanecido na casa por uma hora e meia,
esperando pela volta de Andrew? Neste caso onde se escondera? A casa tinha um desenho
antigo, sem corredores e apenas com pequenos armários. Passava-se por um cômodo para
chegar a outro. As portas que a família desejava fechar, por privacidade, ficavam fechadas
permanentemente, com móveis encostados a elas. Teria o assassino, prestando atenção ao
movimento de Bridget e Lizzie, conseguido estar fora de vista por noventa minutos? Se ele só
queria matar o casal Borden, não seria mais plausível fazer isso quando estivessem só os dois
na casa, sem a presença de Briget, Emma ou Lizzie? Teria ele saído e voltado depois, vendo
Andrew chegar, e conseguido entrar na casa pela segunda vez, sem ser percebido? Nenhuma
porta fora forçada. Na verdade o próprio Andrew não conseguira entrar em casa até que
Bridget viesse abrir-lhe a porta.
Andrew Borden tinha um anel de ouro, um relógio de prata e oitenta dólares em dinheiro
no bolso, que não foram tocados. Roubo seria um motivo pouco possível.
A forma mais lógica de contornar o problema seria, é óbvio, eliminar a ideia de um
intruso. O que fazia de Bridget e Lizzie as principais suspeitas.
A história de Bridget era bastante clara e não deixava muito espaço para as suspeitas da
polícia. Mas continha detalhes interessantes que, mesmo descontado o efeito do choque,
criavam lapsos e inconsistências.
Nada havia que demonstrasse ter Abby se ausentado naquela manhã. Sua meia-irmã,
Sarah Whitehead, a única pessoa que Bridget podia imaginar que Abby pudesse visitar, não
estava doente nem fora da cidade naquela manhã e tampouco mandara-lhe qualquer bilhete. Na
verdade nenhuma das pessoas conhecidas por ela estivera doente ou mandara bilhete. E a
polícia, que revistou a casa dos Borden, não encontrou nada neste sentido.
Lizzie disse à polícia que, pouco depois da chegada de seu pai, ela fora ao celeiro, o que
explicaria o fato de não estar presente quando Andrew fora morto ou não haver sido
assassinada ela própria. Mas, dependendo de a quem ela contava, a história tinha versões
diferentes. Numa, ela teria ido procurar chumbo para usar como peso numa planejada pescaria.
Já para Alice Russell, ela precisava do chumbo para uma vidraça quebrada que queria
consertar. Nenhuma das histórias se enquadrava com a observação do policial Medley de que o
sótão do celeiro tinha tanta poeira no chão que qualquer pessoa, se ali entrasse, deixaria a
marca de seus pés.
Havia ainda um corolário desconcertante. Um dia antes dos crimes, segundo declarou o
balconista Eli Bence, Lizzie fora à Drogaria Smith, a alguns minutos de sua casa, e tentara
comprar dez centavos de ácido prússico — uma solução de hidrogênio cianídrico — dizendo
necessitar dele para matar insetos num casaco de pele de foca. Bence explicou a ela que não
poderia vender ácido prússico sem uma receita. Ela ficou bastante irritada e declarou que
nunca tivera problemas para comprá-lo antes. Lizzie negou ter estado na drogaria embora outro
balconista e uma cliente se lembrassem de vê-la ali naquela manhã, entre 10:00h e 11:30h.
Mais tarde, outra testemunha declarou que Lizzie já tentara comprar o veneno em outra
drogaria.
Sábado, 6 de agosto, foi o dia dos funerais de Andrew e Abby Durffee Borden. O serviço
foi oficiado pelos reverendos Edwin Augustus Buck e William Walker Jubb, ambos
representando a Igreja Congregacional da cidade. Porém, o enterro no cemitério de Oak Grove
não aconteceu como previsto. A polícia fora informada de que o dr. Wood queria fazer mais
alguns exames. Assim, depois que todos deixaram o cemitério, os coveiros desenterraram os
corpos e as duas cabeças foram removidas e descarnadas. Foram tirados moldes de gesso dos
dois crânios.
(Apesar de falsas, correram histórias de que o crânio de Andrew Borden, por razões
indeterminadas, jamais voltara à sepultura e que seu paradeiro seria desconhecido até hoje. Na
verdade, o crânio foi novamente enterrado e colocado junto a seus pés, como foi feito também
com o crânio de Abby. Outro detalhe mórbido nesta história tenebrosa.)
Naquele dia, Emma e Lizzie publicaram o anúncio da enorme soma de cinco mil dólares
como recompensa para "qualquer pessoa que conseguir a prisão e a condenação da pessoa ou
pessoas que causaram as mortes do sr. Andrew J. Borden e sua esposa".
No mesmo dia, depois do funeral, o prefeito de Fall River, John W. Coughlin, e o xerife
Rufus Hilliard informaram Lizzie de que ela era oficialmente suspeita do crime.
Na manhã de domingo, Alice Russell e Emma viram Lizzie queimando um vestido de
algodão azul no fogão da cozinha.
— O que é que você está fazendo? — Emma perguntou.
— Vou queimar este vestido velho — respondeu Lizzie. — Está coberto de tinta.
— Em seu lugar — disse Alice — eu não deixaria que ninguém me visse fazendo isto,
Lizzie. — E completou: — Receio que queimar este vestido foi a pior coisa que você poderia
fazer.
— Oh, por que é que vocês me deixaram fazer isso? — Foi a curiosa resposta de Lizzie.
— Por que me deixaram queimar esse vestido?
É provável que o vestido estivesse realmente coberto de tinta. Isto foi confirmado por
outras pessoas. Mas queimar o vestido foi, no mínimo, muito estranho. A família Borden, com
seus hábitos de economia, fazia panos de limpeza das roupas que não podiam mais usar.
Talvez tenha sido o primeiro gesto de desafio, consciente ou não, contra esses hábitos.
Um inquérito, presidido pelo juiz Josiah Coleman Blaisdell, teve início na Segunda Corte
Distrital, no qual Lizzie testemunhou. Na época ela ainda não constituíra advogado e, como
veremos mais tarde, isto se transformou posteriormente num fator crítico para sua defesa.
Ela foi formalmente acusada numa intimação do xerife Hilliard. O processo, aberto frente
ao Grande Júri (Júri Permanente), em razão da morte e seu pai, declarava que:

Lizzie Andrew Borden, residente em Fall River, no Condado de Bristol, no dia quatro
de agosto do ano de mil oitocentos e noventa e dois, de forma criminosa, consciente,
intencional e com malícia, perpetrou um assalto sobre e na pessoa de um Andrew Jackson
Borden e, com uma certa arma ou instrumento de talho cortante, cujo nome ou uma mais
particular descrição os jurados desconhecem, atacou, cortando, batendo e ferindo o dito
Andrew Jackson Borden, de forma criminosa, intencional, consciente e com malícia, na
cabeça do dito Andrew Jackson Borden, provocando, consciente e intencionalmente, dez
ferimentos, pelos quais o dito Andrew Jackson Borden, onde e quando foi ferido, morreu
instantaneamente.
Por isso os jurados acima declarados, e sob juramento, declaram que a dita Lizzie
Andrew Borden, na maneira e forma acima mencionadas, ali e naquele momento, matou e
assassinou o dito Andrew Jackson Borden; contra a paz deste Estado e contra o Código
estabelecido para tais casos.

No dia 12 de agosto, seu renomado advogado, Andrew J. Jennings declarou diante da


Corte que a prisioneira protestava sua inocência.
Ela foi levada para a prisão em Taunton, Massachusetts, 13 quilômetros ao norte, porque
Fall River não tinha acomodações para prisioneiros do sexo feminino. A cidade nunca tivera a
necessidade.
No dia 16 de agosto, os corpos do sr. e sra. Borden, sem as respectivas cabeças, foram
afinal enterrados no cemitério de Oak Grove.
Por seis dias, a partir de 22 de agosto, foram feitas audiências preliminares (de instrução)
ante o juiz Blaisdell. Lizzie não testemunhou nestas audiências, mas seu testemunho secreto
durante o inquérito foi usado como evidência.
A arma do crime era, como até hoje ainda é, um problema. Depois de completar seus
exames, o dr. Edward Wood declarou não haver encontrado vestígios de sangue humano em
nenhuma das machadinhas encontradas no porão dos Borden e que o cabelo e o sangue
encontrados numa delas seriam de uma vaca.
Apesar disto, no final das audiências, o juiz Blaisdell lavrou a sentença, que vale ser
examinada por sua tortuosa, mas resoluta lógica:
Concluído o longo exame dos fatos, não resta ao magistrado outra coisa que fazer
senão aquilo que considera seu dever. Seria um prazer para ele —, e teria sem dúvida a
simpatia de todos — se pudesse dizer: "Lizzie, eu julgo provável sua inocência. Você
pode voltar para sua casa." Mas diante das evidências apresentadas por testemunhas,
exaustiva e cuidadosamente examinadas, só há uma coisa a fazer. Suponha por um minuto
que um homem fosse encontrado lá. Fosse encontrado naquele quarto de hóspedes que
para a sra. Borden foi a câmara da morte. Suponha que um homem fosse encontrado ao
lado do corpo do sr. Borden, este homem a primeira pessoa a encontrar o corpo, e a única
coisa que pudesse dizer em sua defesa fosse a descabida história de que fora ao celeiro
procurar por pesos ou de que ele estava fora no jardim, ou em algum outro lugar. Haveria
na mente de alguém alguma dúvida sobre o que deveria ser feito com tal homem? Assim,
eu só tenho uma coisa a fazer, por mais dolorosa que seja — o julgamento desta Corte é
que você é provavelmente culpada e deve ser mantida em prisão aguardando ação da
instância superior.

A 7 de novembro o Grande Júri iniciou as considerações no caso de Lizzie Borden, que


duraram três semanas. Quando o promotor Hosea M. Knowlton terminou sua apresentação do
caso, convidou Jennings a apresentar o caso da defesa. Foi uma grande surpresa e um caso
inédito em Massachusetts. Com efeito, dois advogados estariam conduzindo o julgamento
diante do Grande Júri.
Por algum tempo, ficou a impressão de que as acusações contra Lizzie Borden seriam
arquivadas. Não havia testemunhas oculares nem uma arma do crime e os motivos eram
questionáveis. O argumento circunstancial, chave do caso contra ela, era o fato de ter ela a
proximidade e a oportunidade de cometer ambos os crimes — e de não haver nenhuma outra
hipótese disponível que fosse razoável.

Mas em primeiro de dezembro, Alice Russell testemunhou a respeito do vestido


queimado. No dia seguinte Lizzie foi indiciada três vezes pelo homicídio de seu pai, de sua
madrasta e de ambos. O julgamento foi marcado para o dia 5 de junho de 1893. Tudo somado,
Lizzie passou nove meses na prisão de Taunton antes que aquela data chegasse.

O JULGAMENTO

Emma e Lizzie Borden herdaram todos os bens de seu pai. Juntas elas estavam riquíssimas
e organizaram a melhor equipe de defesa que com muito dinheiro podiam conseguir. Para
trabalhar com Andrew Jennings, elas contrataram um advogado de Boston de 42 anos,
chamado Melvin Ohio Adams. Adams trabalhara como procurador distrital assistente e era
especializado em acusação criminal. E a estrela da equipe de defesa era o honorável George
Dexter Robinson, de 49 anos, ex-deputado, ex-senador e ex-governador do estado de
Massachusetts. No departamento das "coincidências" (ou talvez no departamento "conflito de
interesses", dependendo de seu ponto de vista), quando fora governador, Robinson nomeara
Justin Dewey, um dos três juízes que presidiam o julgamento, para a Suprema Corte do Estado
de Massachusetts. Emma e Lizzie pagaram a monumental quantia de 25 mil dólares a Robinson
por seu trabalho na defesa, mais ou menos cinco vezes o salário anual de um juiz. Há quem
diga que Robinson não concordaria em aceitar o caso se não estivesse convencido da inocência
de Lizzie. Na primeira conversa que tiveram, ele a aconselhou a começar a vestir-se de preto.
Ele também a informou que, no caso de ser condenada, ela poderia ser sentenciada à morte na
forca, embora nenhuma mulher tenha sido executada desde 1778.

Esta é uma das muitas instâncias em que o caso de Lizzie Borden foi precursor. Não sei
quantas vezes eu vi e pude comparar o aspecto de um suspeito no momento de sua prisão e
depois, meses mais tarde, no tribunal. Ele, então, tem um ar de limpeza, o cabelo cortado, terno
discreto e ar intenso, pensativo e vulnerável nos olhos, que dizem aos jurados que ele é um
bom rapaz e que jamais seria capaz das coisas horríveis descritas pela acusação. Às vezes,
quando entro no tribunal e olho para a mesa da defesa, sou incapaz de distinguir quem é o réu e
quem são os advogados. Como assistente de Hosea Knowlton, pela acusação, o procurador-
geral do estado de Massachusetts, Arthur E. Pillsbury, indicou William Henry Moody, de 42
anos, como Procurador Distrital do Condado de Essex, que faria sua primeira aparição num
caso de homicídio. Moody faria carreira como deputado, ministro da Marinha, procurador-
geral da República e juiz da Suprema Corte. Pouco depois do julgamento, Knowlton substituiu
Pillsbury como procurador-geral do estado de Massachusetts.
A 31 de maio de 1893 — cinco dias antes da data marcada para o início do julgamento —
ocorreu, em Fall River, um fato inesperado e surpreendente, por sua proximidade com o
julgamento, e que tornou-se profundo por suas implicações.
Stephen Manchester, um produtor de leite, chegando em casa de sua entrega diária,
encontrou sua filha Bertha, de 22 anos, caída atrás do fogão de ferro da cozinha, morta a
machadadas. Ferimentos feitos enquanto se defendia e as roupas rasgadas sugeriam que ela
havia oposto uma feroz resistência ao assassino. Stephan e Bertha viviam sós na fazenda. Ele
havia sido abandonado por duas esposas por ser, segundo se dizia, uma pessoa cruel e
mesquinha.
O dr. William Dolan, que fez a autópsia, neste caso também descreveu "vinte e três golpes
de machado, distintos e separados, na parte posterior e na base do crânio". Muito parecidos
com os golpes infligidos na cabeça de Abby Borden.
O crime aconteceu pela manhã, por volta da mesma hora em que Abby fora morta. Havia
pouco sangue. Nada de valor fora roubado. Era possível que o assassino houvesse passado
muito tempo dentro da casa.
Em Fall River, as implicações eram muito claras. Um crime quase idêntico fora cometido
enquanto a assassina suspeita estava trancada na prisão de Taunton — um dos melhores álibis
que já vi em minha vida. O advogado Andrew Jennings perguntou aos jornalistas, quase com
um sorriso, se também iriam dizer que Lizzie Borden cometera mais este crime.
De repente havia uma nova teoria para o caso, um desconhecido com o mesmo modus
operandi e que não poderia ser Lizzie Borden. O que mais poderia criar uma "dúvida
razoável?" A promotoria sabia exatamente o que passaria pela cabeça de qualquer um dos
jurados.
Então, no mesmo dia em que devia começar o julgamento de Lizzie, um imigrante
português quase adolescente, chamado José Correira, foi preso. Ele tinha trabalhado como
mão-de-obra migrante para Stephen Manchester e tivera uma discussão com ele a respeito de
seu salário. Aparentemente voltara para acertar as contas com o patrão, mas, como este não se
encontrava, ele se confrontou com Bertha e acabou por matá-la num acesso de fúria. E esperou
na casa por seu alvo principal, mas depois de algum tempo mudou de ideia e partiu.
O fato de Correira ser português, ainda por cima dos Açores, ocasionou nos habitantes de
Fall River o mesmo efeito que o preconceito contra judeus tivera na Zona Leste de Londres a
respeito de Leather Apron, durante os homicídios de Whitechapel. Os imigrantes portugueses,
pobres e analfabetos, eram mal vistos e considerados a mais baixa das castas naquela parte de
Massachusetts. Logo, se alguém seria capaz de um crime tão bárbaro como o assassinato de
Andrew Borden e sua esposa, certamente seria um "deles". Um americano não seria capaz de
tal.
Mas tarde ficou provado que Correira não imigrara dos Açores para os Estados Unidos
senão em abril de 1893, oito meses após as mortes de Andrew e Abby Borden. Mas quando
esta informação foi publicada, o júri para o caso Borden já fora escolhido e isolado de qualquer
informação. Claro que havia, na cabeça de quem soube da notícia, uma outra hipótese, quase
tão plausível quanto a primeira: se um português violento podia entrar na casa, matar Bertha
Manchester com um machado ou machadinha e, depois, se sentar para esperar a volta do
homem da casa, então um outro poderia ter feito o mesmo aos Borden.

O julgamento de Lizzie Borden começou na manhã de 5 de junho de 1893, no Tribunal


Superior do Condado de Bristol. Pode-se dizer que este foi o mais célebre caso penal do século
XIX — rivalizando com os julgamentos de Dred Scott e John Brown, os dinamitadores de
Haymarket, e até com o processo de cassação do presidente Andrew Johnson — tal foram o
interesse e a celeuma criados por este espetáculo. Os crimes eram, há muito, o principal
assunto de todas as conversas,-não só em Fall River, mas em toda a Nova Inglaterra e pelo
país, assim como os assassinatos Simpson-Goldman empolgaram Los Angeles e o mundo 102
anos mais tarde. E, como no julgamento de O. J. Simpson, a imprensa de todo o mundo
convergiu para o tribunal. Pessoas ricas e proeminentes não costumavam ser mortas a
machadadas, nem seus filhos acusados por tal. Se algo assim pudera acontecer com alguém
como Andrew Borden, poderia acontecer com qualquer outra pessoa.
Knowlton, o promotor de Fall River, relutara em ir adiante com o caso e só o fizera por
pressão do procurador-geral de Massachusetts, Arthur Pillsbury, que devia fazer a acusação ele
próprio em casos envolvendo a pena de morte. Mas Pillsbury, com a aproximação do
julgamento, começou a sentir a pressão exercida por grupos que apoiavam Lizzie Borden, em
especial organizações femininas e religiosas. A União das Mulheres Cristãs pela Temperança,
da qual Lizzie fazia parte, proclamou de público "sua fé inabalável na companheira de lutas e
querida irmã". Da mesma maneira, os pastores e membros da Igreja Congregacional — a igreja
de maior importância social em Fall River — também não acreditavam que aquela jovem
gentil, discreta e digna fosse capaz de cometer crime tão inimaginável.
O primeiro dia foi dedicado à escolha dos jurados — todos do sexo masculino e brancos
— e, então, William Moody fez as declarações iniciais pela acusação, apresentando seu caso:
que Lizzie Borden tivera a intenção de matar seu pai e sua madrasta e que ela planejara fazê-lo;
que as provas mostrariam que ela os havia realmente matado e que seu comportamento e
declarações contraditórias eram inconsistentes com sua inocência. Moody, de forma clara,
chamou a atenção para o fato de que a acusada tivera a oportunidade de assassinar sua
madrasta enquanto Bridget estava do lado de fora, lavando as janelas, e não poderia ouvir nada
— e isso era importante. E quando, depois da volta de Andrew Borden, Bridget ficou deitada
em seu quarto no sótão, enquanto Lizzie encontrava-se, não no celeiro como declarara, mas na
sala, com seu pai.
Pela lógica, como não havia vestígios de luta, o assassino seria alguém conhecido das
vítimas, o que não provocara nenhum alarme. A única pessoa a enquadrar-se neste critério,
segundo a promotoria, era Lizzie Borden.
A primeira testemunha chamada pela acusação foi Thomas Kieran, um arquiteto
contratado pelo governo para tomar as medidas da casa dos Borden. Mas examinado pela
defesa, ele admitiu que alguém poderia ter se escondido num armário do vestíbulo sem ser
visto por ninguém da casa. Naquela tarde os juízes fizeram os jurados visitar a casa e examinar
a cena do crime.

Em seu testemunho, John Morse declarou que não vira Lizzie desde sua chegada à casa
dos Borden, na quarta-feira, até sua chegada para o almoço, já depois dos crimes, na quinta-
feira. Ele fora um dos primeiros suspeitos, mas convencera a polícia da solidez de seu álibi e
de seu completo desconhecimento do crime. É interessante notar que ele foi capaz de contar
nos mínimos detalhes tudo que fizera na manhã dos crimes, quantos bondes tomara, o número
no distintivo do condutor e, inclusive, os nomes de todas as pessoas que encontrou; quase
como se soubesse que iria necessitar de todas estas informações e, por isso, tomasse nota de
tudo.
Bridget declarou não ter nenhum conhecimento da comunicação que Lizzie mencionara,
por parte de uma amiga doente de Abby. Quando Robinson perguntou-lhe se alguém poderia
haver entrado na casa enquanto ela lavava as janelas, Bridget admitiu que passara algum tempo
conversando na cerca com a empregada do dr. e sra. Michael Kelly, vizinhos da casa.
Era crucial, para sustentar o caso da promotoria, provas que sugerissem um motivo.
Knowlton e Moody chamaram testemunhas na tentativa de estabelecer que Andrew Borden
intencionava fazer um novo testamento. Porém, este nunca foi encontrado nem jamais se
provou sua existência, embora John Morse, num de seus depoimentos, afirmasse que seu
cunhado lhe dissera haver um. Mais tarde, em outro depoimento, o mesmo Morse disse que
Andrew jamais mencionara qualquer testamento. O "novo" testamento, segundo Morse,
deixaria para Emma e Lizzie apenas 25 mil dólares a cada uma e o restante de sua fortuna,
avaliada em quinhentos mil dólares, ficaria para Abby. Em seguida, Knowlton apresentou
como um motivo ulterior a intenção de Andrew de passar uma de suas fazendas para o nome de
Abby, como já fizera com a casa onde morava a meia-irmã de Abby, Sarah Whitehead. Este
parecia ser um ponto de desavença entre as irmãs e a madrasta e elas temiam que isso estivesse
escrito à mão no testamento, como intenção futura de seu pai.

Hannah Gifford, uma costureira local, lembrou uma conversa que tivera com Lizzie em
março de 1892, na qual se referira a Abby como mãe de Lizzie. Lizzie teria respondido irritada
que ela não era sua mãe e chamado Abby de uma "megera que não valia nada".
— Oh, Lizzie, você não quer dizer uma coisa dessas — teria respondido Gifford.
— Sim, quero — dissera Lizzie. — Não tenho nada a ver com ela.
Bridget declarara em seu testemunho que, em seus dois anos na casa, jamais vira ou
ouvira "qualquer problema na família, alguma discussão ou algo do gênero".
Tudo somado, no entanto, os testemunhos sobre a predisposição de Lizzie eram ambíguos
e contraditórios. Não ficou provado que a relação de Lizzie com seu pai era fria e distante
como também não se provou que fosse calorosa e íntima. Como acontece na maioria dos casos,
quando se trata de relações pessoais tudo depende do observador.
Contudo, duas decisões da Corte foram decisivas para o desfecho do caso.
No sábado, 10 de junho, a promotoria fez uma moção para introduzir como peça do
julgamento o testemunho de Lizzie durante o inquérito. George Robinson objetou, já que
Lizzie, na época, não tinha sido formalmente acusada, ainda, nem constituíra nenhum
advogado para aconselhá-la. Na segunda, quando o julgamento foi retomado, a Corte vetou a
introdução do depoimento de Lizzie. Embora, hoje em dia, a falta de um advogado pese
fortemente em favor da defesa, na época, a decisão da Corte assombrou muitos juristas.
Para explicar outras declarações contraditórias de Lizzie, que constam nos autos, a defesa
obteve o depoimento do dr. Bowen, declarando que a morfina que vinha ministrando à acusada
na época poderia ter afetado-lhe a mente, deixando-a confusa.
O momento mais dramático do julgamento aconteceu no sétimo dia. O dr. Edward Wood,
no banco das testemunhas, afirmou, a respeito do conteúdo dos estômagos, não haver
encontrado nenhum traço de veneno. E que havia examinado a machadinha com o cabo
quebrado, aquela que a polícia acreditava ser a arma do crime, sem encontrar nenhum traço de
sangue. Ele declarou que o assassino devia ter uma considerável quantidade de sangue em suas
roupas (é importante lembrar que a sra. Churchill viu Lizzie poucos minutos depois da morte de
Andrew). Disse que mostraria o crânio das vítimas para explicar como a lâmina penetrara neles
e, então, Lizzie desmaiou. Uma verdadeira senhora, sensível demais para este tipo de
demonstração, Lizzie teve permissão da Corte para abandonar a sala. Certamente os
cavalheiros do júri não pesariam isso contra ela.
Que aquela machadinha fosse a arma do crime não passou da teoria. E, se a polícia e a
promotoria não eram capazes de produzir a arma do crime, então isso queria dizer que ela fora
retirada do local pelo assassino, o que deixava espaço para mais uma dúvida razoável.
Na quarta-feira, 14 de junho, a acusação chamou Eli Bence, o balconista da drogaria. A
defesa objetou. Depois de ouvir os dois lados quanto à relevância da tentativa de Lizzie
comprar ácido prússico, a Corte declarou o testemunho de Bence, assim como todo o episódio,
irrelevante e inadmissível.
Alice Russell, no entanto, fez um relato assustador de uma visita de Lizzie a ela na noite
de 3 de agosto, véspera dos assassinatos. Lizzie haveria dito que ficara deprimida e completara:
"Sinto como se houvesse um peso sobre mim do qual não posso livrar-me, é uma sensação que
às vezes tenho e que me, toma não importa onde esteja."
E, inclusive, depois de contar à amiga que o pai e a madrasta haviam se sentido mal, ela
dissera que às vezes pensava "que o leite poderia estar envenenado".
Quando Alice Russell contou à polícia sobre esta conversa, eles levaram o leite da casa
dos Borden para exame, mas nada de anormal foi encontrado.
Lizzie também teria mencionado que a casa fora arrombada há algum tempo e que, por
duas vezes, alguém entrara no celeiro. Além do que ela teria visto "um estranho rondando a
casa".
— Às vezes acredito que meu pai tenha um inimigo — dissera.
Outro item foi a declaração de Anna Howland Borden recordando a desconsolada
descrição que Lizzie fizera de sua vida em casa quando voltavam (junto com a irmã de Anna,
Carrie Lindley Borden) de uma viagem de 19 semanas pela Europa, que Andrew dera de
presente de aniversário a Lizzie quando ela fizera trinta anos. Algumas histórias se referem a
Anna e Carrie como primas de Lizzie, mas os registros do julgamento declaram que elas não
eram parentes (Borden era um nome comum naquela parte da Nova Inglaterra). Anna Borden
sugeriu que Lizzie não queria voltar a sua sufocante vida caseira, depois da estimulante
liberdade da longa viagem.
Quando a defesa objetou, a Corte decidiu pela ambiguidade das declarações, que não
determinavam claramente que Lizzie estivesse predisposta contra seu pai ou sua madrasta.
Assim, este testemunho também foi excluído.
A defesa usou apenas dois dias para apresentar seu caso. Chamaram testemunhas para
reforçar a história da presença de um misterioso estranho rondando a casa dos Borden. A ideia
do intruso era a teoria alternativa para o caso. Sugeriram, como explicação para o bilhete
desaparecido, o horror feminino pela publicidade; assim, seria natural que ninguém aparecesse
para dizer que pedira a visita de Abby na manhã do crime, para não ver seu nome envolvido no
caso. A defesa enfatizou o fato de que nenhum sangue fora encontrado em Lizzie, ignorando
que, segundo declaração de uma testemunha, da forma que os crimes foram cometidos, o
assassino poderia com facilidade evitar sujar-se de sangue.
Andrew Jennings se esforçou em passar para os jurados os pontos mais importantes:
Lizzie deveria ser considerada inocente, a menos que sua culpa fosse provada acima de
razoável dúvida. A arma do crime não fora apresentada. Nenhum motivo fora estabelecido
com clareza e nada, no caráter da acusada ou em seu comportamento, levava a presumir que
ela fosse capaz de qualquer violência. Outros tiveram oportunidade de entrar na casa na hora
do crime.
Para tentar neutralizar o efeito do testemunho de Alice Russell, no que se referia ao
vestido queimado, Emma foi chamada como testemunha e declarou que ela própria dissera a
Lizzie para queimar o vestido e que fazer isso com roupas imprestáveis era normal na casa
delas. Isto parecia estranho na casa de um homem que todos sabiam ser extremamente
econômico e que usava roupas velhas para fazer trapos de limpeza.
Emma declarou que Lizzie amava profundamente seu pai, e prova disso era o anel que ele
usara por toda a vida. Insistiu que Lizzie, assim como ela, cooperaram em tudo com a polícia
durante as buscas e investigações na casa, demonstrando não terem nada a esconder.
Para a maioria dos observadores, Emma permaneceu como um mistério. Foi tão discreta
que existem pouquíssimas fotografias dela. Ela foi descrita como tímida, pequenina e apagada,
com um rosto magro e anguloso — uma solteirona de 41 anos. Ela deu todo apoio a Lizzie
durante o julgamento, embora uma testemunha, Hannah Regan, guarda da prisão e encarregada
de Lizzie durante as Audiências Preliminares, afirmasse ter ouvido uma discussão entre as
irmãs, no dia 24 de agosto, durante uma visita.

— Emma, você abriu mão de mim, não é verdade? — Lizzie reclamara.


— Não Lizzie, não é verdade — retrucara Emma.
— Você abriu, sim. Mas você vai ver, eu vou em frente!
— Oh, Lizzie, eu não abri mão de você — insistiu Emma.
Lizzie não depôs em sua própria defesa.

Na segunda-feira, dia 19 de junho, Robinson encerrou o argumento da defesa, reiterando


os pontos já passados por Jennings e descartando a possibilidade de que Lizzie passasse a
manhã trocando vestidos empapados de sangue, sem que ninguém percebesse, e se livrasse
deles junto com a arma, sem deixar nenhum vestígio; como deveria ter acontecido se fosse ela
a assassina.
Então Knowlton começou suas alegações finais, que completou no dia seguinte. Com
palavras ele pintou para os jurados o quadro que, segundo ele, seria o mais possível para os
acontecimentos daquela manhã. Lizzie teria matado sua odiada madrasta e, depois, sabendo
que não poderia esconder isso de seu pai, não teve escolha senão matá-lo também.
Quando os dois lados haviam terminado, o juiz Mason perguntou a Lizzie se ela gostaria
de dizer alguma coisa. Pela primeira e única vez, ela abriu a boca durante o julgamento para
dizer:
— Eu sou inocente. Deixo a meus advogados minha defesa.

O VEREDITO

As instruções do juiz Dewey aos jurados antes que estes se retirassem são, até hoje, um
dos aspectos mais controversos de todo o julgamento. Ele os instruiu a que levassem em conta
o caráter e o empenho da acusada em obras de caridade; a que tivessem em mente que todos os
elos não comprovados na cadeia de raciocínio da acusação eram fatais para o caso da
promotoria; e de forma mais incisiva disse que "se houver algum fato estabelecido, tanto no
âmbito das provas apresentadas quanto fora dele, que inviabilize a teoria da culpabilidade da
ré, neste caso, então, a culpa não pode ser estabelecida".
Às 15:24h da terça-feira, 20 de junho de 1893, o júri prestou juramento e foi instruído no
caso. Às 16:32h os jurados anunciaram haver terminado as deliberações e já terem um
veredicto. Mais uma vez o caso prefigurava o julgamento de O. J. Simpson um século mais
tarde. E o veredicto foi inocente de todas acusações — o caso continua sem solução até hoje.

Vários estudiosos consideram este caso e seu veredicto como uma vitória da lei sobre a
paixão emocional da opinião pública e, se examinarmos os registros do caso, é bem possível
que tenham razão. Mas visto de qualquer perspectiva que não seja a da estrita jurisprudência, o
caso continua problemático e aberto à discussão, deixando uma sensação incômoda de que,
quanto a Lizzie Borden, não se fez justiça.
Então como é que nós, analistas de comportamento, avaliaríamos estes crimes? E depois
de avaliarmos, o que poderíamos oferecer de objetivo para nos aproximarmos mais da justiça?

A NATUREZA DO CRIME

Se nos dias de hoje fôssemos consultados num caso como este, o que primeiro faríamos
seria tentar definir o crime segundo classificações e critérios padronizados. Alguns fatos, na
medida em que formos avançando, podem parecer óbvios ou desnecessários, mas é importante,
em qualquer investigação criminal, que se proceda de forma lógica e passo a passo, de modo a
que cada passo nos torne mais confiantes na direção que seguimos. Um bom e experiente
detetive não exclui nenhuma possibilidade. É quase como se fosse a lista de verificações de um
piloto antes do voo. Ele pode já ter feito isto um milhão de vezes, mas se um dos itens for
ignorado e ali houver um problema, tanto ele quanto seus passageiros estão indo de encontro
ao desastre. É fácil — e eu já vi várias vezes — que, partindo de uma simples e única premissa
errada, montemos um raciocínio absolutamente lógico que nos leva a uma resposta racional,
mas completamente errada.

Antes de tudo, estes crimes são o que chamamos de homicídios por motivos pessoais, o
que significa, simplesmente, que são atos originados a partir de agressões interpessoais. Mas
antes de estarmos seguros disto devemos eliminar outras possibilidades.
Nada de valor foi levado das vítimas ou da casa, o que tende a eliminar a hipótese de
homicídio associado a outro crime, como assalto, ou ligado a alguma atividade criminosa.
Ainda assim devemos lembrar que a vítima era um homem de posses e considerar a hipótese
de um assassinato encomendado — o que implicaria um mandante — ou uma morte
relacionada com mudança de herança ou sua asseguração. Às vezes, mais de um motivo se
mesclam e devemos ter em mente todas essas hipóteses enquanto analisamos o caso.
O desenho geral destes casos tampouco se enquadra em duas outras categorias de
assassinatos. Nada há que sugira o homicídio sexual, como vimos nos assassinatos de
Whitechapel, nem que se trate de um homicídio motivado por um grupo, como nos casos que
envolvem extremistas, seitas e situações de reféns, ou daqueles que chamamos de homicídios
por excitamento coletivo, quando duas ou mais pessoas se excitam e espontaneamente matam.
Levando em consideração o lugar onde aconteceram os crimes, temos fortes motivos para
considerá-los como homicídios domésticos, uma subcategoria dos homicídios pessoais. E esta
subcategoria pode ser dividida ainda em homicídios domésticos premeditados ou espontâneos.
A principal diferença entre os dois seria que o primeiro exige algum planejamento antecipado.
Como foi determinado, tanto pela autópsia quanto pelas provas circunstanciais, o primeiro
crime foi a morte de Abby, que pode ter sido ou espontâneo ou premeditado. A subsequente
morte de Andrew seria, forçosamente, planejada, o que nos daria razões, apesar das teorias da
acusação, para pensar que o primeiro crime também fora planejado.
De qualquer forma, a agressão continuada — os repetidos golpes de machadinha contra o
rosto das duas vítimas, muito além do necessário para causar uma morte instantânea — não é
incomum em homicídios domésticos. Acreditamos que isto seja o resultado de um profundo e
antigo rancor que o criminoso sente por sua vítima e, também, uma tentativa de
despersonalizá-la. Nos crimes de Whitechapel, podíamos interpretar a mutilação da genitália e
a evisceração da vagina, do útero e dos ovários como uma tentativa de despir a vítima de sua
identidade e poder sexual. Aqui, a destruição do rosto, seria uma tentativa de despir a vítima de
sua identidade e poder familiar.
É significativo o fato de que Andrew foi atacado enquanto dormia. O primeiro golpe seria
suficiente para causar a morte e o impedira de gritar e alertar alguém. No entanto, analisando-
se os ferimentos de Abby, fica claro que o assassino a imobilizou com as pernas, em algum
momento da luta, o que significa que ele (ou ela) teve que olhar diretamente nos olhos de sua
vítima.

AS VÍTIMAS

Examinamos o importante status de homem de negócios que tinha Andrew Borden na


comunidade e, ao mesmo tempo, sua obsessiva frugalidade, uma quase ostentação de sovinice.
Não há indicações de que fosse uma pessoa muito querida. Mas daquilo que entendemos,
apesar da vida frugal que impunha a si e à sua família, ele, ainda que de uma forma modesta,
sempre foi generoso com sua mulher e filhas. Bem ou mal, dera a Lizzie uma dispendiosa
viagem à Europa por seu aniversário de trinta anos. Era agarrado com o dinheiro, reservado e
ríspido, mas, temos de lembrar dessa forma de ser como comum à sociedade de sua época. Os
homens trabalhavam duro o dia inteiro para sustentar suas famílias e, em contrapartida,
mandavam em suas casas. Especialmente na Nova Inglaterra.
Desde quando a casa fora assaltada em 1891, Andrew mantinha seu quarto trancado,
embora guardasse a chave, ao alcance de todos, no aparador da lareira da sala. Isto pode
parecer estranho, até olharmos os mecanismos internos das relações na família. Embora sem
provas, Andrew suspeitava que fora Lizzie quem cometera o furto. Lizzie tinha, há anos, a
reputação local de cleptomaníaca. Discretamente os comerciantes da cidade apresentavam a
Andrew contas pelas coisas que ela roubara, contas que ele, também discretamente, pagava
para evitar o escândalo e o estigma social. Pelo que sabemos, ninguém jamais tocou neste
assunto na casa dos Borden. É possível que trancar o quarto e deixar a chave à vista de todos
fosse uma forma de mandar um recado para Lizzie.
Quanto na maneira de agir de Lizzie não seria um modo de chamar a atenção do pai e um
terreno aberto para a especulação psicológica? Andrew casara-se com sua primeira mulher,
Sarah Anthony Morse, em 1845, Sarah morreu em 1862. Emma acabara de completar 12 anos e
Lizzie tinha dois anos e meio. Dois anos mais tarde, Andrew casou-se com Abby Durfee
Grady, uma mulher tímida, atarracada, desprovida de humor e de uma família quase tão
importante quanto os Borden. Abby tinha, na época, 36 anos nunca havia se casado.
Somando a rigidez obsessivo-compulsiva de Andrew ao comportamento de Lizzie,
encontramos espaço para especulações de possível abuso sexual. Os traços psicológicos de
Andrew são aqueles de quem os pratica, e os de Lizzie, aqueles das vítimas. Ele mantinha sua
família isolada socialmente e debaixo de seu poder e controle. A escolha de sua segunda
esposa é significativa; como tudo o mais em sua vida, foi uma escolha prática. Ele optou por
uma mulher de boa família, mas pouco atraente e sem nenhuma outra perspectiva de
casamento, o que lhe garantiria seu perene reconhecimento e subserviência, em vez de uma
mais jovem e que talvez lhe desse até um filho, o que ele sempre quisera.
Abby era muito devotada a sua meia-irmã, Sarah Whitehead, bem mais jovem do que ela;
e só na casa de sua irmã dava vazão ao lado generoso e agradável de sua personalidade.
Excluindo Sarah e sua filha, Abby aparentemente não tinha nenhuma outra relação de amizade.
Desde o desentendimento provocado pela transferência de algumas propriedades de Andrew
para o nome dela, Lizzie deixou de chamá-la de mãe e passou a nomeá-la sra. Borden e
tampouco tinha problemas em dizer a seus amigos o quão difícil era a convivência com Abby.

SUSPEITOS E MOTIVOS INICIAIS

Bem, qual é nosso próximo passo?


O próximo passo a ser dado é vermos o fisco relativo. O crime ocorreu durante o dia,
numa área onde não aconteciam crimes, numa rua residencial e comercial, na qual o tráfego,
tanto de pedestres quanto de veículos, era constante. Isto numa época em que não havia
automóveis, o que tornava este tráfego muito mais lento. Além disso, sabemos pelo
depoimento de Bridget que a porta da frente, que Andrew usara quando voltara para casa, fora
trancada por dentro. Seria plausível que um intruso, depois de entrar, trancasse a porta atrás de
si, para impedir a entrada de outras pessoas? Muito duvidoso, porque a primeira preocupação
de um intruso seria com a rapidez, caso tivesse que fugir. Trancar a porta não facilitaria uma
fuga rápida.

Se eliminarmos um arrombador, amador ou profissional, que outro tipo de criminoso se


arriscaria a assumir tais riscos?
Se os motivos fossem imperativos e o pagamento pelo contrato grande o bastante, um
assassino profissional talvez os assumisse. Nós podemos, sem muita dificuldade, supor um
quadro no qual uma das inúmeras pessoas com quem Andrew negociava tivesse motivos para
"tirá-lo do ramo definitivamente". Mas existem dois problemas com essa teoria. Primeiro, a
investigação não encontrou ninguém com tal animosidade contra Andrew. Segundo, um
assassino contratado não teria razão nenhuma para matar Abby. Assim, um desconhecido que
entrasse na casa dos Borden para eliminar Andrew e não o encontrasse, iria embora e esperaria
por uma oportunidade melhor.

Existe, é claro, uma exceção para este raciocínio: se as mortes estivessem ligadas a um
interesse no seguro e/ou na herança. Neste caso Abby seria também um alvo. Mas quem
contrataria o assassino? O universo dos suspeitos seria bastante reduzido: Emma, Lizzie e
talvez Sarah Whitehead, a meia-irmã de Abby.
Não é difícil excluir Sarah. Não só porque ela e Abby eram muito amigas, mas também
por não haver problema algum com os Borden. Andrew até já havia transferido para o nome
dela a propriedade que esta habitava e se preparava para transferir outras para Abby, o que
provocou nas irmãs Borden um profundo ressentimento. Mais que isso, se a sra. Whitehead
pretendesse eliminar a irmã por sua herança, seria imperativo que Andrew morresse antes para
que Abby herdasse a fortuna. Com Abby morrendo primeiro, a fortuna iria para as herdeiras de
Andrew: Emma e Lizzie.
E isso foi exatamente o que aconteceu. Não foi por acaso que Abby foi morta antes. O que
nos deixa com as duas irmãs e um motivo razoável. Mas se Emma, Lizzie ou as duas em
cumplicidade contratassem um assassino, o normal seria que ele, um profissional, fizesse o
crime parecer a obra de um ladrão ou pelo menos de um intruso. Qual seria o sentido de se
contratar alguém que deixasse tanto a cena do crime quanto todas as evidências circunstanciais
apontando diretamente para Lizzie? A menos que Emma houvesse contratado o assassino e
armado tudo para incriminar Lizzie, de forma a receber a totalidade da herança. Mas isto já é
complicar demais as coisas. Não há nada no caráter de Emma que possa sugerir um plano tão
maquiavélico. Ao contrário, quando ela teve a oportunidade de livrar-se da irmã, depois de sua
prisão e processo, Emma sempre a apoiou, insistindo que Lizzie não cometera os terríveis
crimes.
Depois de todas essas considerações eu acho que podemos abandonar a ideia de um
assassino contratado e seguir adiante. Bem, então não foi ladrão nem assassino contratado. Que
tal um desequilibrado? Rumores a respeito de um louco furioso foram abundantes. Talvez ele
houvesse entrado na casa, talvez até tivesse ficado escondido, entre os dois crimes, por mais de
uma hora, no armário do vestíbulo. Mas não depois da fúria demonstrada na carnificina de
Abby, não antes da furor usado contra Andrew. Ninguém com este tipo de distúrbio interno se
controlaria por tanto tempo escondido num armário. Eu nunca vi nem li a esse respeito nada
parecido. Mesmo sem estar fechado dentro de um armário, José Correira não esperou muito
tempo pela volta de Stephen Manchester, depois da morte de Bertha. E o dele era o caso de
alguém com um problema pessoal com Stephen. Surpreenderia-me muito um desequilibrado
que não deixasse um rastro de sangue entre as cenas dos dois crimes; e seria normal haver
vestígios de sangue no interior do armário onde ele tivesse se escondido.
Por isso, o que eu diria à polícia local seria mais ou menos o mesmo que eles já haviam
concluído por conta própria: este fora com toda certeza um crime cometido por alguém íntimo
da família; que conhecia seus movimentos e o interior da casa. Alguém cuja presença não
levantasse suspeita.
Quem se enquadraria nessa descrição e, ao mesmo tempo, teria um motivo? Nós
poderíamos reduzir os suspeitos a três, pessoas, Emma, Lizzie e Bridget. E das três, quem
tivera acesso e oportunidade, naquela manhã de 4 de agosto de 1892, entre as 9:30h e 11:00h?
Como Emma estava fora de casa, em Fairheaven, restariam Lizzie e Bridget.
Que motivo poderia ter Bridget? Que tipo de pressão teria sido o fator precipitador? Ela
não se sentia bem naquela manhã, estava cansada de seu trabalho e, ainda assim, Abby a fizera
lavar todas as vidraças, por dentro e por fora. Talvez ela tenha tido um surto... Perdido a
cabeça. Dois anos de opressão doméstica finalmente transbordaram e ela descontou todas as
frustrações na infortunada Abby. Ela poderia então fugir ou esperar a volta de Andrew e
terminar o que tinha começado, fazendo parecer que fora tudo obra de um ladrão. Mas neste
caso, ela não deveria ter matado Lizzie também? Deixá-la viva seria mais perigoso do que
deixar Andrew vivo.
Existe outro problema com esta teoria. Bridget gostava de seu trabalho e queria conservá-
lo. Não temos nenhuma prova de que tivesse qualquer problema com seus patrões. Eles se
davam bem e o sr. e a sra. Borden a tratavam com consideração e respeito. Eles a chamavam
por seu próprio nome, coisa que Emma e Lizzie não se davam ao trabalho de fazer, chamando-
a Maggie em vez de Bridget.
Bem, então que tal a hipótese de Bridget e Lizzie em conluio? Uma delas, ou as duas,
mata os Borden, Lizzie herda a fortuna e depois paga Bridget por sua ajuda.
Outra vez temos que lidar com a personalidade dos envolvidos, e não existia no caráter de
Bridget nenhum dos traços de alguém capaz de um gesto tão ousado. Ela morreria de medo. Na
polícia, deixou uma impressão de grande timidez. Nada leva a crer que ela se envolvesse com
tal crime, por qualquer que fosse a quantidade de dinheiro. Se Bridget estivesse envolvida, uma
jovem empregada doméstica, vulnerável e com a sua personalidade, não resistiria aos
interrogatórios e às táticas de intimidação policial, usadas na época. Bridget deve haver
suspeitado de Lizzie. Era a única pessoa além dela no local. E Lizzie mencionara a liquidação
de tecidos, numa tentativa de tirar Bridget de dentro de casa.
Embora Emma estivesse fora da cidade no momento dos crimes, não conseguiu evitar que
algumas suspeitas recaíssem sobre ela. Depois de receber o telegrama do dr. Bowen, ela não
tomou o primeiro trem de volta para Fall River nem o segundo nem o terceiro. Ela só chegou
em casa à noite, após ter pego o quarto trem. Para mim isto não implica uma conspiração, mas
não descontaria a possibilidade de que ela, ao receber a notícia, já não tivesse no mínimo uma
vaga noção do que acontecera. O mesmo pode ser dito do tio John que, apesar de todo
movimento em torno da casa, não teve pressa em entrar, ficando pelo pomar comendo peras.
Frank Spiering, que no livro Prince Jack [Príncipe Jack] propôs a teoria de que o príncipe
Eddie, duque de Clarence, seria Jack o Estripador, criou uma trama que tinha Emma como a
assassina do pai e da madrasta em seu livro Lizzie. Ele a imagina indo a Fairhaven, para
estabelecer seu álibi, depois voltando com sua charrete para casa, onde teria passado a noite
escondida, e na manhã seguinte, depois de cometer os crimes, voltara a Fairhaven. E, no
momento que Lizzie foi acusada, as duas trabalharam juntas para se proteger mutuamente.
Num certo momento, parece que Lizzie vai ser traída pela irmã, mas no final esta consegue sua
parte na herança.
O problema com a trama do livro é que não há, na realidade, qualquer prova que o
sustente — só o fato de não ser impossível. Este, para mim, é o exemplo clássico de tentar
adequar os fatos a uma teoria preconcebida, em vez de partir dos fatos. Todas as evidências,
em termos de análise de comportamento, demonstram Emma como uma pessoa tímida,
dominada por Lizzie, que evitava aparecer. Não existe a menor possibilidade de que ela fosse
capaz de um plano tão elaborado para matar a madrasta e o pai.
Outra teoria envolvia um certo William Borden, que teria distúrbios mentais e era filho
ilegítimo de Andrew com uma mulher da cidade, de nome Phebe Hathaway. Arnold R. Brown
propõe em seu livro, Lizzie Borden: the legend, the truth, the final chapter [Lizzie Borden: a
lenda, a verdade, o capítulo final] que William seria o assassino.
Segundo esta teoria, William Borden estaria fazendo exigências a seu pai que na época
fazia um testamento. Não tendo sido atendido em suas pretensões, num acesso de fúria, teria
matado Abby, se escondido na casa com o conhecimento de Lizzie e, depois, matado seu pai.
Então Emma, Lizzie, tio John e o dr. Bowen, com a cumplicidade do promotor Jennings,
abafam seu crime em razão de sua situação de bastardo e para evitar que mais tarde ele possa
reclamar parte da herança. Após isso, os conspiradores o mantêm assustado ou pagam a ele ou
têm ambas as atitudes. Eles decidem que Lizzie será a suspeita do crime, sabendo que em
último caso ela poderá identificar o assassino. William ao que parece era fascinado por
machadinhas e talvez estivesse envolvido com o assassinato de Bertha Manchester. Segundo
Arnold Brown ele teria matado Bertha para desviar as atenções de Lizzie. Por mais intrigante
que esta teoria possa ser, não há nada que a possa sustentar. Leonard Rebello, autor do livro
Lizzie Borden, Past and present [Lizzie Borden: passado e presente], resultado de minuciosa e
exaustiva pesquisa, escreve: "Jamais, nenhuma informação foi descoberta que substanciasse as
alegações de Arnold Brown. Por outro lado, a análise do comportamento de Lizzie é bem
documentada."
LIZZIE

Olhemos, agora, para a situação de Lizzie. De acordo com as fotografias que temos, ela
era bastante bonita na infância e na adolescência. Mas na época dos crimes ela havia se
tornado uma mulher pesada, pouco atraente e com um rosto largo — muito diferente da bela e
talentosa atriz Elizabeth Montgomery que fez o papel de Lizzie num filme para a televisão. Ela
era uma solteirona, vivendo na casa do pai, não se dando bem com a madrasta e sem
perspectiva de mudar esta situação ou escapar dela. O mesmo se poderia dizer de Emma, mas
esta não era o tipo de pessoa que gostasse de convívio nem tinha as ambições sociais de Lizzie.
Desde que perdera a mãe, Emma se dedicara a cuidar de Lizzie, uma promessa que ela
havia feito à moribunda antes que esta morresse.

Lizzie era teimosa, sabia conseguir o que queria e gostava de chamar a atenção, fato que, é
lógico, a colocava em constante atrito com o pai. Durante o processo, por várias vezes,
demonstrou ter um temperamento beligerante. Abandonou a escola na 10ª série e tinha crises
de depressão nas quais se permitia tudo. Ela queria desesperadamente viver o estilo de vida
que achava ser próprio para alguém de seu status; isto incluía, para começar, uma casa "no
Alto", o melhor local da cidade. As pessoas que viviam ali, e que Lizzie invejava, eram na
maioria seus primos ricos, herdeiros do patrimônio de duas gerações e que não tinham nenhum
problema em gastá-lo. Seu pai, que trabalhara duro para ganhar cada centavo, não tinha
nenhum interesse nessas pretensões. Ele dava a Lizzie uma boa mesada, com a qual podia
comprar todos os vestidos que quisesse, mas achava a casa na Second Street bastante adequada
para as necessidades da família. E, se ele não fora seduzido nem mesmo por água encanada e
eletricidade, a ideia de mudar-se com a família para uma mansão no Alto estava
completamente fora de cogitação.
Lizzie estava num beco sem saída. Ela sonhava com poder sair de casa e ter uma vida
social mais interessante. Mas ela não possuía meios para isso e, mesmo que tivesse, não era
próprio para uma mulher solteira viver longe de seus pais enquanto estes fossem vivos; se ela
fizesse isso, jamais seria aceita pela sociedade que sonhava frequentar. A única esperança era o
casamento com um homem rico. Mas, aos 32 anos, esta solução não mais parecia possível. Ela
tivera alguns namorados durante a juventude, mas nenhuma dessas relações havia durado
muito. Os homens de sua vizinhança eram todos inaceitáveis e seria impensável que os jovens
que viviam no Alto fossem procurar por ela ali, naquela casa.
A situação se tornou desesperadora. Andrew, desde 1887, cinco anos antes, havia
começado a passar parte de suas propriedades para Abby e sua meia-irmã. E Lizzie e Emma
temiam serem alijadas da fortuna de seu pai, que já tinha setenta anos. Se isto acontecesse, elas
ficariam à completa mercê de Abby, quando Andrew morresse.
Nós sabemos que, na noite anterior aos crimes, Andrew conversara sobre seus negócios
com John Morse na sala do primeiro andar. Existe a hipótese de que Andrew estivesse se
aconselhando sobre o testamento que pretendia fazer. Então, independentemente ou não de
Lizzie ter tentado envenenar aos poucos seus pais, a conversa com tio John poderia ter sido o
fator precipitador, criando a urgência do ato. Uma vez feito o testamento, com todo o dinheiro
para Abby, seria tarde demais.
Será que existiu um testamento? Nunca saberemos. Não foi encontrado nenhum, embora
seja estranho que um homem meticuloso como Andrew Borden não houvesse feito um. Talvez
o vestido manchado não fosse a única peça a ser queimada.
Há fortes indícios de que Lizzie e Andrew estiveram, em certa época, muito ligados,
embora o casamento com Abby devesse, no mínimo, complicar essa relação. Ele sempre usava
um anel que Lizzie lhe dera como prova de amor e dedicação. Pai e filha iam com frequência
pescar juntos, enquanto Lizzie crescia, e, mesmo depois ela manteve uma paixão por pescarias,
apesar de há cinco anos não ir a uma. Isso também fez a história da procura, no celeiro por
pesos para a linha de pesca um pouco suspeita.
Uma outra história, que alguns autores crêem apócrifa, oferece uma versão interessante
para o que seria o incidente precipitador. Quando alguém arrombou o celeiro em maio de
1892, Andrew suspeitou de que haviam sido meninos tentando roubar um pombal que Lizzie
mantinha ali. Então, para evitar que o fato se repetisse, ele foi ao celeiro e, com uma
machadinha, matou todos os pombos, deixando-a, ensanguentada, onde todos, inclusive Lizzie,
pudessem ver.
A simetria com as mortes, três meses depois, parece óbvia e fácil demais; mas se o fato,
na verdade, ocorreu, seria impossível ignorar sua influência no que viria a seguir. No mínimo,
nos mostraria duas pessoas aparentemente incapazes de lidar com as necessidades e a
sensibilidade emocional uma da outra.
Eu não creio que seria demais dizer que Lizzie se sentia como uma vítima. No capítulo
que trata dos homicídios domésticos em nosso livro Crime classification manual [Manual de
classificação dos crimes], escrevemos: "Entrevistas feitas depois de crimes, com parentes e
amigos, revelam que as vítimas, em sua grande maioria, haviam expressado antes de acontecer
o fato, uma grande preocupação e o medo em relação à própria segurança, quase como uma
premonição." Se Lizzie fizera uma transferência entre o papel da agressora e o da vítima em
sua mente, sua visita angustiada, na véspera dos crimes, a Alice Russell, se enquadraria
perfeitamente no contexto.
No final de julho de 1892, Lizzie foi com Emma a New Bedford, Massachusetts. Segundo
relatos, elas teriam saído de casa depois de um desentendimento a respeito da transferência
para o nome de Abby de uma das fazendas em Swansea, onde ambas as irmãs passavam
tempos na infância. Elas iriam visitar amigos; Emma ia ver os Brownells em Fairhaven e
Lizzie, uns conhecidos em Marion. Mas em New Bedford Lizzie decidiu ficar uns dias com
uma antiga colega de escola antes de voltar para casa no dia 2 de agosto. Foi nesta época que
Andrew e Abby tiveram problemas de estômago e Abby visitou o dr. Bowen com a suspeita de
estar sendo envenenada. (Outra vez devemos lembrar o trecho do Crime classification manual,
citado acima.)
Foi no dia seguinte que Lizzie foi vista na drogaria, tentando comprar ácido prússico (uma
outra tentativa?) e nessa noite ela visitou Alice Russell.

O CASO SOB O ENFOQUE COMPORTAMENTAL

Vimos a personalidade dos envolvidos e os indícios comportamentais antes do crime.


Examinemos agora os indícios comportamentais na cena do crime.
Lizzie declarou que encontrou o corpo de seu pai assassinado ainda fresco, mas ela não
abandonou a casa. Em vez disso, mandou Bridget procurar um médico e chamou uma vizinha,
embora houvesse motivos para presumir que o assassino poderia estar ainda dentro da casa. A
sra. Churchill não notou em Lizzie, naquele momento, nenhum temor pela própria segurança.
Da mesma forma, no primeiro crime, Lizzie disse que acreditava que sua madrasta já
voltara para casa e pediu a Bridget (que subiu acompanhada pela sra. Churchill) para ir a seu
quarto procurá-la.
Com um louco homicida ainda na casa?
Lizzie não tomou nenhuma atitude para fugir da casa ou fazer que os outros fugissem.
Nem ninguém sugeriu ao dr. Bowen ou à polícia que o assassino poderia estar ainda no local.
Nos crimes domésticos, o assassino, quase sempre, arranja as coisas para que outra pessoa
"encontre" o corpo, no lugar dele.
Para imaginar um intruso, temos que assumir todas as implicações que isto representa e
supor que alguém fosse capaz de entrar na casa, permanecer dentro dela por mais de hora e
meia sem alertar ninguém da família. Este alguém teria que ser mortífero e ao mesmo tempo
ter a capacidade de não ser detectado tal qual um moderno caça anti-radar, um avião invisível.
Para mim, com toda a minha experiência, não existe nenhuma possibilidade de que qualquer
pessoa, pura e simplesmente passando na rua, entrasse na casa e fosse direto para o segundo
andar. Ele não saberia quem estaria presente nem a disposição interna da casa. Ele teria receio
de estar entrando numa armadilha da qual não pudesse sair. Mesmo um louco não ficaria ali
por uma hora e meia — e um louco teria, com certeza, matado a Lizzie e Bridget também.
Ninguém invade uma casa sem antes ter todas as informações necessárias; este é um tópico ao
qual voltaremos no próximo capítulo.
Como já dissermos, nunca foi encontrado nenhum bilhete para Abby, apesar de Emma e
Lizzie terem oferecido uma recompensa substancial por ele. A história de Abby haver ido
visitar uma amiga foi usada para impedir que Andrew subisse e a encontrasse.
É normal, em homicídios domésticos, como também já colocamos, que o criminoso tente
fazer a cena do crime parecer um assalto ou tentativa de estupro, que fugiu ao controle e
terminou em morte, ou que possa sugerir alguém estranho à família, o intruso. Penso que a
razão da diferença, no caso, foi a presença de Bridget. Lizzie sabia que eram grandes as
possibilidades de que esta, que se movia pela casa, a visse. E para fazer parecer um assalto, ela
teria que levar alguma coisa. Mas levar para onde, se ela devia permanecer em casa?
Esconder? Ela sabia que a casa seria revistada pela polícia.
As fotografias de Andrew Borden, tomadas na cena do crime, o mostram com a cabeça
apoiada em seu paletó dobrado, usado como um travesseiro. Talvez ele estivesse dormindo
assim, mas me parece pouco verossímil que um homem tão meticuloso com suas roupas fosse
amarrotar o paletó que devia usar mais tarde quando voltasse a seus negócios.
É possível especular que ele, com quase toda a certeza, o tenha pendurado nas costas de
uma cadeira, e que o assassino o tenha vestido para evitar que o sangue sujasse suas roupas,
colocando-o, depois, debaixo da cabeça ensanguentada para explicar o sangue no paletó. E
quem precisaria tanto cuidado para não se sujar de sangue? Alguém que não planejava escapar
logo depois do crime.
E o resto do sangue? É verdade que um vestido de Lizzie, que foi queimado, poderia ter
sido usado num dos crimes. Também é possível que ela se tivesse despido para cometê-los nua
e depois se lavasse rapidamente e se vestisse outra vez. Eu, no entanto, não creio que uma
mulher daquela época — e com as pretensões sociais de Lizzie — fosse capaz de ficar nua,
sem falar no risco de ser vista por Bridget. De certa forma seria mais difícil para ela despir-se
do que matar.
Numa bacia, na casa, havia água com sangue, mas quando o dr. Albert C. Dedrich, um dos
médicos de Fall River que também examinou os corpos, indagou a respeito, responderam-lhe
que um outro médico, ou alguém da polícia, que tocara nos corpos, lavara as mãos ali.
Na mesma tarde, o policial William Medley encontrou, na lavanderia, um balde de água
que continha pequenas toalhas sujas de sangue. Questionada por ele, Lizzie disse que já
explicara as toalhas ao dr. Bowen. Este, por sua vez, declarou ao policial que o sangue nos
paninhos nada tinha a ver com o sangue das vítimas. Seria sangue menstrual, um assunto tabu
para as pessoas daquele tempo. E ninguém iria examinar Lizzie para verificar se estava
realmente menstruada e, também, ninguém se lembrou de examinar o sangue no balde. Lizzie
alegou que os paninhos estariam ali há três ou quatro dias, mas Bridget não se recordava de
havê-los visto antes daquele dia. O mais crível é que não estivesse ali há tanto tempo, ou
Bridget os teria visto quando fosse lavar roupa.
No tribunal, a ideia de haver no balde apenas os panos menstruais foi aceita como fato.
George Robinson disse aos jurados: "O prof. Wood declarou que não poderia afirmar que
aquele sangue não era menstrual... Todos sabem como são tais panos, já os viram em suas
próprias casas. Vocês são homens, seres humanos, e têm sentimentos. Não vou trazê-los aqui
para mostrar-lhes, mas vocês não devem esquecer disso."
Nenhum deles se esqueceu.

ESTRATÉGIAS

Se somos dos que acreditam que Lizzie Borden matou seu pai e sua madrasta, nós nos
perguntaremos se alguma coisa poderia ser feita, na investigação ou durante o julgamento, para
conseguir um veredicto neste sentido. Baseado na experiência dos muitos casos que
acompanhamos na Unidade de Apoio a Investigações, penso que sim. É claro que, como no
caso dos crimes de Whitechapel, há a pressuposição de uma compreensão do comportamento
criminoso e as práticas atuais, que ainda não existiam na época. Mas se existissem, como
conseguir fazer com que Lizzie fosse condenada?
Primeiro, deveríamos tentar avaliar os problemas na relação de Lizzie com Emma,
problemas que foram percebidos pela guarda da prisão. Uma forma de conseguir isto seria
fazer amizade com um dos milhares de jornalistas que cobriam o caso e expor-lhe nossa
análise genérica, mas bastante acurada do caso. Eu lhe diria, por exemplo, que em nossa
experiência, em geral, casos dessa natureza envolvem mais de uma pessoa, quase um
cúmplice-vítima, alguém que sabe o que se passou, mas que, por ser completamente dominado
pelo criminoso, não o denuncia. Diria que esta pessoa deveria estar, naquele momento, muito
preocupada com a própria segurança.
Tentaríamos, a seguir, colocar uma cunha e abrir uma brecha nesta relação psicológica de
amo e escravo. O elemento dominante vai, no final, querer ficar com todo o dinheiro. A
lealdade na relação é uma rua de mão única. Se esta pessoa já se mostrou capaz de matar duas
pessoas a sangue-frio, poderá, com facilidade, fazer isto outra vez. E, mesmo que não chegue à
violência, o criminoso pode inverter a situação e denunciar quem o está protegendo.

Eu me certificaria de que meu alvo lera o jornal, antes de conversar com ele. A notícia
confirmaria um medo que já existiria em algum lugar de sua cabeça. Importante para este tipo
de estratégia seria tentar manter Emma isolada de Lizzie, já que a personalidade de Lizzie era a
dominante.
E também tentaria, não só com Emma, mas com tio John também, já que não sabemos
quem dos dois (ou talvez ambos) poderia ter informações ou suspeitas a respeito de Lizzie.
Faria, inclusive, uma tentativa com Lizzie. Em situações onde o indivíduo pode ser
condenado à morte é muito difícil obter uma confissão. Não há nada a ganhar e tudo a perder
contando a verdade. A solução é oferecer um cenário alternativo que atenue ou divida a culpa e
assim ofereça alguma coisa para que o suspeito comece a falar.
Como os leitores de Mindhunter [Caçador de mentes] se lembrarão, Larry Gene Bell, o
brutal e sádico psicopata que raptou e matou Shari Faye Smith e Debra May Helmick, de 17 e
9 anos respectivamente, em Columbia, na Carolina do Sul, foi caçado e capturado graças a uma
combinação do desenho de seu perfil psicológico com trabalho policial de primeira categoria.
O xerife Jim Metts e seus detetives sabiam que haviam capturado o culpado, mas ele, como era
compreensível, recusava-se a confessar os terríveis crimes que poderiam (como afinal
aconteceu) levá-lo à cadeira elétrica.
Então me deixaram fazer uma tentativa com ele. Comecei contando-lhe da experiência que
tínhamos no FBI com criminosos seriais, de como havíamos conversado com eles para tentar
entender o que se passava em suas mentes.
— Larry, o problema é que quando você for a julgamento, seu advogado não vai permitir
que você testemunhe e tenha oportunidade de se explicar — disse a ele. — Tudo que as
pessoas vão ouvir a seu respeito será o lado negativo, nada de bom, apenas que você é um
assassino a sangue-frio. Nós sabemos que, na maioria dos casos, as pessoas que cometem
crimes assim, agem como quem se move dentro de um pesadelo, e quando acordam, no outro
dia, não conseguem acreditar no que fizeram.
Durante todo o tempo, enquanto eu falava, Bell sacudia a cabeça concordando. Eu sabia
que se fizesse uma pergunta direta, ele negaria os crimes. Então me inclinei para mais perto
dele e perguntei:
— Quando foi que você começou a se sentir mal com tudo isso?
— Ao ler um artigo no jornal e ver a fotografia da família rezando no cemitério — ele me
respondeu.
— Larry, você sentado aí e conversando comigo, diga-me, foi mesmo você quem fez isso?
Você seria capaz de uma coisa assim?
— Tudo que sei — disse, olhando para mim com lágrimas nos olhos — é que este Larry
Gene Bell sentado aqui seria incapaz disso, mas existe o outro Larry Gene Bell que é mau.
Acho que uma abordagem parecida com essa poderia funcionar com Lizzie. Eu começaria
pelo sangue, perguntando o que acontecera com ele. Como foi que ela fez para se lavar? Por
que teve de queimar o vestido? Com Bell isto foi colocado de maneira mais sofisticada, para
que funcionasse, mas com alguém com o grau intelectual de Lizzie, seria algo mais ou menos
assim:
— Sabemos, por experiência, que esse tipo de crime não costuma ser cometido por
mulheres e, certamente, não por mulheres com sua educação e status social. Acho que se você
se envolveu com isso foi porque algo muito forte a compeliu, tão forte que não mais permitiu
seu controle sobre ela. Posso imaginar o que foi perder a mãe na idade em que você perdeu a
sua e, depois, ter que conviver com Abby por todos estes anos. Faço uma ideia do quanto ela
deve tê-las manipulado e tirado vantagem de seu pai e, também, de como, pouco a pouco e
sutilmente, afastou-o de vocês. Sei que você deve ter pensado em Emma, que sempre cuidou e
protegeu você; e que achou já ser hora de fazer alguma coisa por ela, para cuidar, proteger e
garantir-lhe o futuro depois da morte do pai.
Eu acredito que ela me ouviria com atenção. Ficaria quieta, ouvindo e avaliando com
calma minhas palavras, tentando entender o que eu pretendia e como isso poderia afetá-la. Se
eu estivesse lidando com alguém inocente, seria cortado o tempo todo por negativas
veementes. Mas, de qualquer jeito, Lizzie seria receptiva e me ouviria com interesse:
— E seu pai? Sei que ele tentou amar você do jeito que era capaz. Mas, pensando bem,
por baixo das cicatrizes, as velhas feridas estão todas lá. Talvez ele a amasse demais ou da
forma errada? Você sempre foi tão parecida com sua mãe, uma mulher que ele amou de um
modo jamais igual ao de amar a Abby. E Emma sabia disso? Ela chegou a ver alguma coisa?
Você deve ter reprimido tudo isso. Dizem que você não demonstrou muito sentimento pela
morte de seu pai, mas eu sei como tais fatos são dolorosos, já vi acontecer antes. Sei que deve
haver uma razão. O que ele fez com você? Não se pode mudar o passado, Lizzie. Nem as
coisas que aconteceram há muito nem aquelas de há pouco tempo. Mas podemos tentar fazer
com que as pessoas entendam o que você fez. Vou deixar papel e lápis com você e quando
alguma coisa vier em sua mente, quero que você escreva. Às vezes assim é mais fácil.
Então sairia e lhe daria tempo para construir sua história. Mas antes de sair lhe diria algo
assim:
— Lizzie, a pessoa que fez isso não necessita um castigo, ela precisa de ajuda. Ela não
deve ser mandada para a prisão e, sim, para onde possam cuidar dela.
De início, talvez ela não desse muita atenção a este tipo de abordagem, mas se eu
conseguisse manter o diálogo por algum tempo, envolvendo-a nele, estou certo de que algum
fato novo e útil surgiria.
Uma outra variante da mesma técnica seria conseguir um artigo num jornal. Desta vez
seria uma entrevista comigo, em que me apresentaria como um especialista, trazido de fora
para ajudar a polícia local. Na entrevista eu a deixaria perceber minha discordância de alguns
dos investigadores do departamento responsável pelo caso. Diria que a maioria deles via os
crimes como premeditados e executados a sangue-frio. Mas eu acreditava que eles eram
resultado de um impulso de raiva, incontrolado e repentino. E que quem os havia cometido
deveria estar momentaneamente fora de suas faculdades mentais. Diria, ainda, que crimes
como este eram cometidos por pessoas vivendo um sonho e que, mais tarde, caindo na
realidade, dizem: "Meu Deus, será que fui eu quem fez isso?" Isto ajudaria a sugerir uma linha
de defesa e, ao mesmo tempo, criar uma confiança em mim e em meus pontos de vista. Seria
importante que me visse como um aliado quando fosse falar com ela. Que me visse como sua
única via de salvação. Talvez ela não conseguisse se livrar da acusação de homicídio, mas eu
seria capaz de entender.

DEPOIS DE TUDO
Dois meses após o julgamento, Lizzie e Emma se mudaram para uma mansão de 14
cômodos, feita de pedras, no número sete da rua Francesa, no Alto. Lizzie chamou a casa de
Maplecroft, nome que fez gravar na pedra sobre a escada da entrada. Lizzie, que passou a
chamar-se Lizbeth, deixou de frequentar a igreja, devido aos rumores e ao ostracismo social a
que foi condenada. Emma, ao contrário, continuou frequentando a mesma.
Curioso foi o fato de o promotor William Moody ter recebido pelo correio um pacote com
fotografias do julgamento e da cena do crime junto com uma nota, escrita à mão por Lizzie,
dizendo que ele talvez as quisesse guardar "como lembrança de uma situação interessante".
Como podemos esperar de alguém cujos crimes foram circunstanciais e voltados contra
pessoas da própria família, Lizzie jamais cometeu outro ato de violência em toda a sua vida.
Na verdade ela se tornou defensora dos animais e fervorosa adepta do movimento humanista.
Em 1897 Lizzie foi acusada do furto de dois quadros, no valor de menos de cem dólares,
de uma galeria em Providence, a Tilden-Thurber. O problema foi resolvido de forma privada,
mas houve um rumor de que, para não ser processada pelo furto, Lizzie teria assinado uma
confissão pelas mortes do pai e da madrasta. E esta "assinatura", como ficou provado, era uma
falsificação.
Em 1904, Lizzie conheceu Nance O'Neil, uma jovem atriz, linda e charmosa. Durante os
dois anos seguintes, as duas mulheres foram praticamente inseparáveis. E após Lizzie ter dado
um dispendioso banquete em Maplecroft para a companhia teatral de O'Neil, Emma saiu de
casa e foi viver em Providence. Por volta de 1923, Emma mudou-se para Newmarket, New
Hampshire, onde alugou uma casa e viveu quase no anonimato.
Em primeiro de junho de 1927, devido a complicações pós-operatórias numa cirurgia para
remoção de cálculos na bexiga, Lizzie faleceu em Fall River, com 77 anos. Emma não foi
incluída em seu testamento nem presenciou o funeral da irmã. Nove dias depois da morte dela,
Emma também faleceu de uma nefrite crônica. Como Lizzie, também deixou todo o seu
dinheiro para várias instituições de caridade.
As duas irmãs foram enterradas em Fall River, no jazigo da família no cemitério de Oak
Grove, juntas com o pai, a mãe, a madrasta e Alice Esther, a irmã morta ainda criança.
No dia dos crimes, Bridget deixou a casa para nunca mais voltar. Houve rumores de que
retornara à Irlanda, mas esta história nunca foi verificada. No final do século ela estabeleceu-se
em Anaconda, Montana, onde se casou com um homem de mesmo sobrenome que o seu:
Sullivan. Ela nunca disse nada sobre os crimes na casa dos Borden, até 1943, quando contraiu
um caso grave de pneumonia e pensou que ia morrer. Chamou a seu leito uma amiga íntima,
dizendo ter um segredo que queria contar antes de morrer. Mas quando, finalmente, esta amiga
foi encontrada e levada a sua casa, ela já estava no hospital e nada mais chegou a dizer a
respeito de Lizzie, a não ser que sempre gostara dela. Bridget morreu a 25 de março de 1948,
em Butte, Montana, aos 73 anos.

O número 92 da Second Street, em Fall River, continua de pé. Desde 1996 foi
transformado numa pousada, onde os curiosos com inclinações para o mórbido podem dormir
no quarto de hóspedes John Morse, no segundo andar, onde Abby Borden foi morta. Este
quarto e a sala de estar, onde Andrew foi morto, foram decorados para ficar exatamente como
estavam naquela manhã úmida e quente do verão de 1892.
3 – O SEQUESTRO LINBERGR

Lindy, o Sortudo, lá em cima no céu,


Na bonança ou tempestade, alto sobrevoa

Sem temor, cada nuvem conhece, sereno,


Filho que para qualquer mãe é o orgulho seu.

Lindy, o Decidido, solitário voa


Em seu próprio avião pequeno.
Lindy, o Sortudo, mostrou a via,
E, assim, ele é o herói do dia.

COMO SUGEREM ESTAS TROVAS, desde aquela manhã em maio de 1927 — e pelos
anos seguintes até meados da década de 1930 — o coronel Charles Augustus Lindbergh
tornou-se o homem mais famoso do mundo. Extremamente bonito e sem ter completado trinta
anos, era filho de um ex-parlamentar de uma família tradicional do meio-oeste americano.
Corajoso, ousado e visionário, mas ao mesmo tempo, tímido e modesto, fizera o que parecia
impossível. Desafiando a morte por 33 horas, num vôo solitário de Nova York a Paris,
atravessou o Atlântico num pequeno monomotor prateado, batizado como Spirit of St. Louis.
Da noite para o dia ele se transformou em "a Águia Solitária" e em "Lindy, o Sortudo", o herói
definitivo, alguém que personificava todas as melhores qualidades da América. Logo depois
disto, numa viagem ao México, o mais famoso e cobiçado partido do mundo conheceu Anne
Spencer Morrow — a bela, sensível e tímida filha do empresário multimilionário, diplomata e
embaixador, Dwight Whitney Morrow, o financista que tomou a direção do Banco J.P. Morgan
depois da morte de seu fundador. Charles propôs casamento a Anne, e o público americano
viveu a história de amor de sua própria realeza.
O sequestro de seu primogênito, recém-nascido, transformou-se, na mesma hora, no
"crime do século" e na maior história jornalística desde seu vôo solitário, cinco anos antes. E
apesar de todos os casos subsequentes, como a conspiração de espionagem atômica, os
assassinatos dos irmãos Kennedy, aquele de Martin Luther King, os crimes da família Mason,
as mortes de Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman e tantos outros, o sequestro Lindbergh
continua, para muitas pessoas, a ser "o crime do século XX".
Os fatos e as provas do sequestro foram peneirados de forma tão consistente e exaustiva
por todos estes anos, que é improvável surgir alguma teoria que seja completamente nova.
Como nos crimes de Whitechapel, este caso é um exemplo perfeito da tendência emocional a
uma conclusão apriorística e, depois, da tentativa de organizar os fatos para prová-la. O que
queremos aqui é fazer o caminho inverso, o único para uma investigação científica, e, partindo
dos fatos e por meio deles, tentar uma explicação que faça sentido. Seja ela ou não a versão
oficial. Existem milhões de páginas acumuladas com provas, evidências, depoimentos e
testemunhos do caso e seria impossível a uma só pessoa repassá-los todos. O leitor deve ter em
mente, no entanto, que enquanto estiver lendo este capítulo, cada informação vista é de vital
importância para determinar quem causou o que aconteceu.
Como no caso do Estripador, o sequestro Lindbergh trata do potencial de brutalidade
inesperada e sem sentido que pode acontecer a qualquer momento. Como no caso de Lizzie
Borden, é sobre o que pode acontecer atrás das portas fechadas das casas mais respeitáveis. E
como em tantos outros casos, diz respeito à capacidade que tem a fama e o sucesso para atrair
desgraças.
Charles Lindbergh tinha uma relação complicada e problemática com a própria
celebridade. Aceitava a adulação e as paradas em sua homenagem, as recepções e os encontros
com líderes políticos de todo o mundo, os jantares, as comissões, as nomeações e as consultas.
Uma exposição de seus prêmios e troféus, em St. Louis, atraía milhões de visitantes todos os
anos. Entendia que qualquer opinião sua, sobre qualquer assunto, tornava-se notícia imediata.
Que qualquer coisa que experimentasse, fosse uma nova rota aérea ou uma nova tecnologia,
vinha aumentar o brilho de sua glória. Mas, ainda assim, ele suspeitava um pouco de tudo isto,
cansado da intromissão emocional e ressentido com a imprensa, que não deixava de comentar
nenhum aspecto de sua vida. No centro da atenção pública, Lindbergh ficou obcecado com a
própria privacidade.
Quando não estavam viajando pelo mundo, os Lindbergh viviam em Next Day Hill, a
enorme propriedade de Dwight e Elizabeth Morrow, em Englewood, Nova Jersey. Para
construir a própria casa, haviam escolhido um terreno de 425 acres, com bosques, nas
montanhas de Sourland, em Nova Jersey, a poucos quilômetros de Hopewell. A propriedade
atravessava a linha que separa os condados de Hunterdon e Mercer. Lindbergh descobrira o
local do ar, durante um sobrevoo e achara que ele oferecia o tipo de reclusão que desejava.
Outra coisa que o agradara no terreno fora a possibilidade de construir ali uma pista de pouso
particular. O casal construiu, por oitenta mil dólares, uma casa tradicional, caiada de branco,
com vinte cômodos, um sólido telhado e todo o conforto da tecnologia de então. A casa foi
desenhada por Chester Aldrich, o arquiteto que projetara Next Day Hill. Ali, Charles e Anne
esperavam criar sua família. Durante a construção alugaram uma velha casa de fazenda, entre a
propriedade e Princeton.
Depois de meses de rumores na imprensa, chegou afinal a notícia que todos esperavam.
No dia 22 de junho de 1930, dia de seu 24° aniversário, Anne deu à luz um menino, de 3,5kg,
em Next Day Hill. Foi batizado como Charles Augustus Lindbergh Jr. e seus pais o chamavam
de Charlie, mas nas manchetes dos jornais, ele logo se tornou "o Pequeno Lindy", "a
Aguiazinha" e "o Filhote de Águia". Telegramas, cartas e presentes começaram a chegar de
toda a parte. Se seu pai era o homem mais famoso do mundo, Charlie, por seu lado, vinha a ser
o bebê mais famoso. Qualquer detalhe do dia-a-dia da criança tornava-se notícia. Em sua ótima
biografia, Lindbergh (Cia. das Letras), de 1998, A. Scott Berg relata que havia uma
recompensa, paga pelos jornais, de dois mil dólares, por qualquer segredo do cotidiano da
família.
Eram tantos os boatos, que um relutante Lindbergh viu-se obrigado a convocar uma
entrevista coletiva com a imprensa, em Nova York. Cinco cadeias de jornais foram vetadas por
ele, inclusive os periódicos de William Randolph Hearst, que haviam publicado especulações
de que a criança seria deformada ou, de alguma forma, imperfeita. Quando perguntado o que
gostaria que o menino fosse quando crescesse, Lindbergh, sem papas na língua, disse:
— Não quero que ele seja ou faça nada que ele próprio não queira ou não tenha vocação.
Acho que é um direito de cada um a completa liberdade na escolha daquilo que vai fazer na
vida. A única coisa que desejo é que, quando chegar a idade escolar, ele possa fazer isto sem
ser seguido por um bando de repórteres.

A CASA DE HOPEWELL

Os Lindbergh começaram a dormir na casa de Hopewell, que estava quase pronta, nos fins
de semana, voltando para a residência dos Morrow, a oitenta quilômetros de distância, às
segundas pela manhã. A criadagem da família, em tempo integral, consistia num mordomo
inglês, Aloysius "Olly" Whateley, e sua esposa Elsie. Em fevereiro de 1931, contrataram Betty
Gow, uma imigrante escocesa da idade de Anne, para ser a babá de Charlie. Ela fora muito
bem recomendada por alguém do pessoal doméstico de Next Day Hill. Charlie desenvolvera o
mesmo queixo dividido de seu pai e uma cabeleira de cachos dourados; Anne estava grávida
de uma segunda criança. Ela resolvera também se dedicar a um antigo projeto de tornar-se
escritora e começara a escrever um livro de memórias sobre sua recente viagem com Charles
ao Oriente. Seu maior problema doméstico era com a segurança — Charlie devia ser vigiado
todo o tempo para impedir que algum jornalista entrasse para tirar fotos.
Os acontecimentos nos dias que precederam o sequestro são muito bem documentados na
narrativa de Scott Berg. Como era hábito do casal, na tarde de sábado, 27 de fevereiro de 1932,
os Lindbergh saíram de carro, de Next Day Hill, e foram de Englewood a Hopewell para passar
o fim de semana na casa já quase pronta. Mas no domingo, o pequeno Charlie, na época com
vinte meses, pegou um resfriado que o deixou espirrando, com o nariz congestionado e
sentindo-se mal. Na segunda-feira, 29 de fevereiro, a criança continuava doente e, depois do
almoço, Anne telefonou para Betty Gow em Next Day Hill e disse que ficariam em Hopwell
até que Charlie estivesse melhor. Naquela noite Lindbergh telefonou de Nova York
comunicando que dormiria na cidade e só voltaria na noite seguinte. Ele estava trabalhando em
seu projeto de pesquisa biológica no Instituto Rockefeller.

Na manhã de terça-feira, a criança estava melhor, mas Anne havia pego a gripe. Ela
telefonou para Betty Gow outra vez e disse-lhe que viesse para Hopewell. Gow chegou cedo,
naquela mesma tarde, e substituiu Anne, que precisava descansar, nos cuidados com a criança.
Pouco antes das 15:00h, as duas foram ao quarto de Charlie e o encontraram bem melhor. Ele
brincou na sala de estar até às 17:30h, depois Gow o levou de volta para o quarto dele, que
ficava no fundo do corredor do segundo andar, à esquerda, e lhe deu de comer um mingau. Por
volta das 18:15h, Anne subiu e as duas o prepararam para dormir.
Elas friccionaram um descongestionante nele e Gow agasalhou-lhe o peito com um
pedaço de flanela. Trocaram sua fralda, vestiram uma camisa de lã e um macacão de dormir
com os punhos fechados, porque seu pai não queria que ele botasse os dedos na boca para
dormir. Betty o deitou em seu berço com dossel em madeira-de-lei e puxou os cobertores.
Anne tentou fechar as janelas, mas encontrou dificuldades com a da esquerda. Ela saiu do
quarto por volta das 19:30h e Betty Gow ficou ainda alguns minutos, enquanto abria um pouco
uma das vidraças para circulação de ar, antes de apagar as luzes e sair para lavar as roupas do
bebê, não antes de voltar mais uma vez para olhá-lo e prender bem seus cobertores sob o
colchão para mantê-lo aquecido. Então ela desceu e foi à lavanderia para estender as roupas
que lavara, após o que se juntou a Elsie Whateley na sala dos domésticos, para jantar, às
20:00h.

Lindbergh chegou em casa 25 minutos depois. Na verdade, deveria estar num jantar
oferecido pela Universidade de Nova York no Waldorf Astoria hotel, mas houvera uma
confusão com os horários e ele decidira voltar de carro para casa em Hopewell. Da garagem,
Lindberg passou para a cozinha. Junto com Anne sentou-se para jantar às 20:35h. Depois de
comer foram para a sala de estar, que ocupava a parte central da casa, nos fundos do primeiro
andar.
Pouco antes das 21:00h, Lindbergh pensou ter ouvido um barulho estranho, que ele mais
tarde descreveria como um caixote de laranjas quebrando. Anna, se recordaria que uns 15
minutos antes de Charles entrar na garagem, achou que escutara o ruído das rodas de um carro
no chão de brita da entrada da casa, mas quando fora ver, nada havia lá. O cachorro da família,
Wahgoosh, não latira em momento algum, assim Anne não se preocupara muito.
Enquanto isto, Betty Gow recebera uma chamada de seu namorado, Henry "Red" Johnson,
um marinheiro norueguês que trabalhava na época como tripulante de um iate. Eles deveriam
sair naquela noite, mas o encontro fora cancelado porque Betty tivera que ir para Hopewell.
Johnson disse-lhe que, então, aproveitaria para visitar seu irmão em Hartford, Connecticut.
Depois de passar um tempo na sala, Anne e Charles subiram para seu quarto, sobre a sala
de estar, no fundo do segundo andar, e que se comunicava com o quarto do bebê por um
corredor curto que passava pela porta do banheiro deles. Charles tomou banho, vestiu-se outra
vez e desceu para ler na biblioteca que ficava ao lado da sala de estar e bem debaixo do quarto
da criança. Enquanto isto, Anne tomou seu banho e, por volta das 22:00h, foi para a cama.
Nessa mesma hora, Gow subiu para olhar Charlie. Para não incomodar o sono da criança,
ela acendeu apenas a luz do banheiro. Como fazia muito frio, fechou a vidraça que estava meio
levantada e acendeu um aquecedor elétrico.
Mas quando se aproximou do berço, ficou alarmada por não ouvir a respiração do bebê.
Na penumbra, parecia que ele não estava no berço, então tateou para certificar-se: em vão.

Atravessando a porta que ligava ao quarto do casal, encontrou Anne, que saía do banho.
— A senhora está com o bebê? — perguntou, ansiosa.
— Não — Anne respondeu, confusa. — Talvez esteja com o coronel Lindbergh —
sugeriu, entrando no quarto do bebê, enquanto Gow descia rápido para verificar na biblioteca.
— Coronel Lindbergh, o senhor está com o bebê? — Gow perguntou e, então, como
Lindbergh era conhecido por suas brincadeiras, completou: — Sério!
Lindbergh mostrou-se surpreso que a criança não estivesse em seu berço e subiu correndo
para verificar no quarto de Charlie. Ele foi a seu próprio quarto, pegou no armário seu rifle que
carregou e voltou com Anne para o quarto do bebê.
O berço estava vazio e o quarto muito frio. Lindbergh com um olhar viu a janela da
esquerda, a mesma que Anne tivera dificuldade em fechar, apenas encostada. Em cima da
caixa do aquecedor, bem sob a janela, havia um envelope branco. Lindberg teve o controle e a
presença de espírito de não tocá-lo antes da chegada da polícia.
— Anne, roubaram nosso bebê — foi só o que ele disse.

"MEU FILHO ACABA DE SER SEQUESTRADO"

Por volta das 22:25h, Olly Whateley telefonou para o escritório do xerife de Hopewell
para avisar do sequestro. Lindbergh, pessoalmente, chamou seu advogado e amigo íntimo
Henry Breckinridge, em Nova York. Depois ele telefonou para a Polícia Estadual de Nova
Jersey, em Trenton, onde falou com o tenente Daniel J. Dunn:
— Aqui fala Charles Lindbergh — disse. — Meu filho acaba de ser raptado.
Dunn perguntou-lhe quando acontecera, pediu uma descrição da criança e das roupas que
estava vestindo. Depois de desligar, Dunn informou o detetive Lewis J. Bornmann sobre o
chamado e, após descrever o telefonema, decidiu chamar a casa dos Lindbergh para certificar-
se de que a voz que ouvira era mesmo de Lindbergh e de que não se tratava de um trote.
Quando Lindbergh atendeu o telefone, Dunn disse-lhe apenas que a polícia estava a caminho.
Enquanto isto Lindbergh examinou a casa pelo lado de fora, mas nada encontrou.

Os primeiros policiais no local foram os assistentes do xerife, que chegaram às 22:40h.


Eles examinaram o quarto do bebê por dentro e por de fora e, junto à janela do canto
encontraram traços de pegadas no solo. Seguindo estas impressões eles depararam, a uns vinte
metros da casa, na direção sudoeste, com uma escada de madeira, que parecia feita em casa,
caída no chão. Uma construção tosca, mas leve, que se dobrava em duas partes, com os
degraus muito espaçados e, na parte lateral da metade superior, com uma rachadura. Um metro
mais adiante havia uma terceira parte, feita para ser montada sobre as outras duas. Toda
armada a escada media seis metros, mas dobrada se reduzia a apenas dois.
Às 22:46h, um alarme foi colocado no teletipo, instruindo a Polícia Estadual a parar
qualquer carro conduzindo uma criança vestida num macacão de dormir. Às 23:00h havia
barreiras em todas as estradas de Nova Jersey e as Polícias Estaduais de Delaware e
Connecticut também haviam sido notificadas.
O primeiro patrulheiro da Polícia do Estado a chegar ao local foi o cabo Joseph A. Wolf,
de Lambertville, que chegou às 22:55h. Um grupo de outros patrulheiros e oficiais, incluindo o
coronel H. Norman Schwarzkopf, de 37 anos, comandante da Polícia Estadual de Nova Jersey,
graduado na Academia de West Point, veterano da Primeira Guerra Mundial (e pai do
Comandante-chefe da operação "Tempestade no Deserto", contra o Iraque). Ele chegou
acompanhado do seu lugar-tenente, o major Charles Schoeffel.
Betty Gow, por conta própria, revistou a casa inteira, do sótão ao porão, abrindo cada
armário. Anne foi para seu quarto e, enquanto abria uma janela, pensou ouvir um grito, mas
Elsie Whateley assegurou-lhe que se tratava apenas de um gato.
0 cabo Wolf encontrou traços de lama ou barro numa mala junto à janela do canto no
quarto do bebê. Do lado de fora, descobriu pegadas no terreno molhado, debaixo da janela.
Não tendo consigo nem trena nem fita métrica, ele comparou as pegadas a seu próprio sapato,
tamanho 42, e concluiu que eram de um sapato de um número maior. Não fizeram moldes de
gesso.
As 23:15h chegaram outros patrulheiros que relataram a descoberta de pegadas de duas
pessoas diferentes, sob a janela, mas, depois, mudaram suas declarações e disseram que havia
pegadas de uma só pessoa. Isto é um pouco ambíguo, mas é apenas um exemplo das várias
contradições que encontraremos neste caso cheio de problemas. Uma conclusão possível seria
que as pegadas menores eram de Anne. Ela declarou que, mais cedo durante o dia, estivera do
lado de fora da janela, jogando pedrinhas na janela, tentando atrair a atenção do bebê. Mas,
segundo as declarações de Berg e de outros, debaixo da janela, perto de onde a escada estivera,
havia uma pegada com a clara impressão de uma trama, sugerindo um sapato coberto por um
saco ou uma meia. Perto das marcas da escada o policial encontrou outra evidência, um formão
de carpinteiro de 3/4 de polegada, com o cabo de madeira e medindo uns vinte centímetros de
comprimento, fabricado pela Companhia Buck Brothers.
O que os investigadores não entendiam era por que o cachorro não latira, alertando as
pessoas da casa, mas Lindbergh explicou que Wahgoosh dormia no outro extremo da casa e
nada ouviria por causa do barulho do vento.
A esta altura, o advogado de Lindbergh, Henry Breckinridge, já havia chegado. Ele
acompanhou seu amigo e cliente junto com o coronel Schwarzkopf e outros oficiais ao quarto
do bebê. O cabo Frank A. Kelly, do quartel de Morristown, o perito da cena do crime,
polvilhou o quarto em busca de impressões digitais. Com a exceção de um traço meio apagado
e imprestável, nenhuma digital foi encontrada, nem mesmo as de Anne ou Betty Gow, fato que
até hoje é motivo de controvérsia. Kelly tirou fotografias e recolheu amostras do barro
encontrado na mala de couro e no chão de tábuas junto à janela.
Breckinridge telefonou para o diretor do FBI, J. Edgar Hoover. Eles se conheciam do
tempo em que Breckinridge fora Vice-ministro da Guerra, no governo Harding. Por uma ironia,
Hoover fora um dos hóspedes famosos de Lindbergh em Hopewell, como Amelia Earhart, Will
Rogers, Wiley Post e Albert Einstein. Hoover assegurou a Breckinridge a total colaboração do
FBI.
Trouxeram a escada para dentro, antes que Kelly pudesse fotografá-la no local onde fora
encontrada. Ele procurou por digitais na escada, mas não encontrou nenhuma que pudesse ser
aproveitada. O barro na base da escada parecia ser idêntico àquele encontrado dentro do
quarto. No formão de carpinteiro também não havia digitais.
Kelly examinou então o envelope branco e o abriu com cuidado, usando seu canivete. Do
envelope tirou uma única folha de papel, também branco, dobrada. A nota, mal escrita em tinta
azul e numa letra tremida, foi entregue a Lindbergh:

Prezado senhor!
Apronte 50.000$ 25.000$ em notas
de 20$ 1.5000 em notas de 10$ e
10000$ em notas de 5$. Depois de 2-4 dias
informaremos onde entregar
o Dinhero.
Estamos avizando para não fazer
nada de público nem chamar a Polícia
o menino está em boas mão.
A indicação para todas cartas é
assinatura

e três furos.

A última declaração se referia a um desenho no ângulo inferior esquerdo da folha de


papel. Dois círculos em tinta azul, entre-laçados, com um diâmetro de 2,5 cm cada um; a área
onde se cortavam, fora colorida em vermelho e havia três furos, no início, no meio e no fim do
desenho. Não havia impressões digitais na carta.
Quando o dia nasceu, uma enorme quantidade de repórteres chegou à propriedade dos
Lindbergh. Schwarzkopf instalara um comando da polícia na garagem para três carros ao lado
da casa, em frente ao quarto do bebê, que entretanto não foi capaz de proteger a área da
intromissão da imprensa.
Começaram a aparecer histórias de pessoas estranhas no local. Olly Whateley disse que
vira um casal num carro verde tirando fotos da casa. Ele os mandou embora, mas mais tarde
viu a mulher, escondida atrás de um arbusto, tirando fotografias da janela do quarto de Charlie.
Dois homens num sedan azul-escuro foram vistos, na terça-feira, pedindo informações
sobre a estrada que levava à propriedade. O carro foi identificado como pertencendo a alguém
do Brooklyn, mas o dono declarou que o carro havia sido roubado naquele mesmo dia.
Um guarda-freios da ferrovia, que trabalhava no turno da noite, disse à polícia em Trenton
que vira um casal com uma criança esperando na plataforma pelo trem para Nova York.
Segundo ele, o homem e a mulher pareciam nervosos e agitados. Este casal nunca foi
identificado.
Schwarzkopf pediu uma relação de todas as pessoas que haviam trabalhado na casa, para
que fossem verificadas. Ele pediu também uma lista de todos os domésticos que trabalhavam
tanto em Hopewell quanto em Next Day Hill, para verificar a possibilidade de um conluio
interno. Ninguém conseguia entender por que os sequestradores se arriscaram tanto em vez de
esperar até mais tarde, quando todos estariam dormindo e o sequestro passaria despercebido
por muito mais tempo. Isto, somado ao fato de que o cachorro não latira, era como um dedo
apontado para os empregados domésticos.
Ao mesmo tempo a polícia sabia que a distribuição interna da casa dos Lindbergh era
conhecida por muitas pessoas de fora da família. Sua construção, desde o projeto, aparecera
em várias revistas, com fotos e plantas detalhadas. A casa, por se situar no ponto mais alto do
terreno, ficava bem visível, principalmente à noite, para qualquer pessoa escondida nos
bosques. E, com apenas uma estrada para chegar e sair, tornava fácil a monitoração dos
movimentos da família. O fato de que o sequestrador trouxera um formão sugeria que ele não
sabia que a janela em questão não fechava bem. O fato de os cobertores estarem como antes do
sequestro, presos sob o colchão, indicava não só que a criança fora levantada pela cabeça, mas
também que os sequestradores a trataram rudemente. Não havia cheiro de clorofórmio, mas
isto não excluía que algum tipo de produto químico ou droga fora utilizado para silenciar e
neutralizar o bebê.

ASSUMINDO O CONTROLE

Lindbergh construíra sua carreira e sua reputação com autocontrole, o mesmo controle
usado para qualquer situação em que se encontrasse. Aqui, com a vida de seu filho em perigo,
ele não estava disposto a entregar os pontos. E com sua fama, influência e relações, tinha poder
bastante para controlar mesmo uma investigação policial. E Schwarzkopf, um profundo
admirador do herói da aviação, viu-se obrigado a trabalhar com ele.
Depois de consultar Breckinridge, Lindbergh decidiu que a melhor maneira de reaver seu
filho era fazer o que os sequestradores queriam. Isto não seria fácil. Durante os primeiros dias,
depois do sequestro, milhares de cartas chegaram a Hopewell. Três policiais estaduais
trabalhavam em tempo integral para separar as cartas e examiná-las, procurando por pistas.
É importante lembrar que, naqueles anos, durante a Depressão, sequestros se
transformaram numa forma comum de atividade criminosa. Apenas dois anos antes, em 1930,
houve quatrocentos sequestros só em Chicago. Em algumas grandes cidades havia mesmo
quadrilhas especializadas em sequestras. No dia seguinte ao desaparecimento de Charlie
Lindbergh, um menino, em Niles, no Ohio, foi sequestrado. Em março daquele ano, 16
sequestradores foram condenados e mandados para a prisão. A irmã mais jovem da própria
Anne escapara por pouco de ser vítima de sequestro em 1929.
Durante a espera por notícias dos sequestradores, surgiram várias teorias. Lindbergh
acreditava que o trabalho fora obra de profissionais, pelo conhecimento que tinham da casa e
por não deixarem nenhuma impressão digital. Acreditava que uma quadrilha estava envolvida
e queria entrar em contato com o submundo do crime organizado para ver se era possível um
acordo.
Devido ao conhecimento da casa, em especial da localização do quarto do bebê, onde
encostaram a escada, e também pelo resgate modesto que pediram, Schwarzkopf acreditava
que os criminosos eram amadores locais.
O tenente Arthur T. Keaton, o principal detetive de Schwarzkopf, pensava que o sequestro
fora um trabalho interno, que envolvia os empregados domésticos, devido ao fato de saberem
que a família não voltaria para a casa dos Morrow, logo depois do fim de semana, como
costume, por causa da doença da criança. Na verdade era a primeira vez que os Lindbergh
passavam uma noite de terça-feira em Hopewell.
Charles e Anne, desde o princípio, expressaram a mais profunda confiança nos
empregados e conservaram esta opinião até o final.
Como no caso de Lizzie Borden, quarenta anos antes, as pessoas viram com estranheza a
falta de uma reação emocional por parte de Lindbergh e seu estoicismo diante do
desaparecimento de Charlie. Ele se mostrou tão controlado, que choveram comentários de que,
ou ele, na verdade, não amava seu filho de uma maneira humana e normal, ou então, que ele
estaria envolvido com o sequestro. Voltaram à tona os antigos rumores sobre ser o bebê física
ou mentalmente anormal, o que Lindbergh, com seu perfeccionismo, não conseguira aceitar.
Falo nesses boatos aqui com o intuito de desfazê-los. Antes de tudo, não existe a mais
remota evidência digna de crédito que sugerisse haver qualquer algo errado com a criança.
Mas, mais importante, tenho visto tantas vezes a reação de pais diante de horrores como este
para saber que a reação das pessoas diante de uma dor enorme é uma coisa absolutamente
individual. Alguns abrem as comportas, outros mantêm o sangue-frio e o controle. A maioria
mistura ou alterna as duas coisas. Mas não há reação "certa" nem "errada". Cada um, diante do
pior que poderia acontecer em sua vida, reage de maneira própria.
Uma vez, durante o programa de televisão Os mais procurados da América, eu
conversava com o apresentador do programa, John Walsh, sobre este problema em relação a
um caso que era o assunto do debate. Na conversa, Walsh, cuja carreira como caçador de
assassinos teve origem no assassinato brutal de seu filho Adam, colocou o problema de forma
sucinta: "Quem somos nós para decidir como alguém deve reagir a algo assim ou assado?"
No caso de Lizzie Borden, a frieza refletia a determinação de uma assassina calculista. No
caso de Charles Lindbergh, era o resultado da personalidade de um homem que enfrentara
situações-limite a vida inteira e sempre lidara com elas sem perder o controle. Assim cada
reação pode ter significados variados com pessoas diferentes. Se a interpretação do
comportamento superficial das pessoas fosse tão simples, não seria necessário nenhum
treinamento específico e qualquer um seria capaz de determinar perfis psicológicos.
Anne fez o que podia para lidar com a situação, contando muito com o apoio de sua mãe e
usando seu diário como confidente e escrevendo ali seus temores. Seu pai, Dwight, que sempre
fora uma fonte de força, morrera de um derrame cerebral, a 31 de outubro do ano anterior. As
pessoas ao redor dela temiam que o estresse e a insônia prejudicassem sua gravidez. Na
tentativa de fazer algo prático, ela preparara, na manhã seguinte ao desaparecimento de seu
filho, uma lista com a dieta do bebê e a entregara a imprensa. A dieta foi publicada, no outro
dia, na primeira página de quase todos os jornais da América. Anne e Charles publicaram
também uma declaração, nos mesmos jornais, expressando o desejo de fazer contato direto, ou
por meio de intermediários, com os sequestradores. Prometiam manter tudo em segredo e "não
fazer nada contra quem conseguisse intermediar o retorno da criança".
O procurador-geral do estado de Nova Jersey, William A. Stevens fez também uma
declaração à imprensa, na qual dizia que, apesar de entender e se solidarizar com a angústia
dos Lindbergh e seu desejo de reaver a criança, o Estado não ofereceria imunidades aos
sequestradores de forma alguma.
No dia 2 de março, chegou um cartão-postal com a seguinte mensagem: "O bebê está
bem. Instruções mais tarde. Agir segundo elas." Não havia os círculos em azul e vermelho e a
letra era diferente da nota encontrada no quarto da criança, mas, ainda assim, a polícia levou o
cartão a sério. Por seu intermédio chegaram a um adolescente de 17 anos, com distúrbios
mentais, que queria se ver nos jornais.

AS EXIGENCIAS

No dia 4 de março, chegou uma segunda carta de resgate, reclamando do envolvimento da


polícia e aumentando o valor dele para setenta mil dólares, devido ao crescimento dos gastos e
dos riscos que este envolvimento criara para os sequestradores. Desta vez havia a mesma
assinatura com os círculos entrelaçados no final da carta. Fora escrita à tinta nos dois lados da
folha de papel, e colocada no correio em Brooklyn, Nova York:

Prezado senhor. Nós avizamos para não fazer nada público nem avizar a policia.
Agora o senhor vai as consequências pagar, nós vamos cegurar o bebê até as coisas
acalmar. Não podemos nada por agora marcar ainda. Nós sabemos muito bem o
problema que isso vai ser para gente. Era mesmo precizo fazer um cazo internasional
diso? Receber o bebê de volta o mais rápido posível era bem melhor para todos, resolver
tudo só entre nós de uma forma calma e tranquilo. Não si preocupe com o bebê, tem duas
senhora tomando conta dele dia e noite. Elas ta alimentando ele em acordo com a dieta.
Nós queremos mandar ele de volta com saúde. O resgate era pra ser 50000$, mas
agora nós tivemos de contratar mais uma pesoa para ajudar e é provável que tenha que
ser 25000$ em nota de 20$, 15000$ em nota de 10$ e 10000$ em nota de 5$. Não marque
a nota nem ponha da mesma série. Nós informamos mais tarde onde entregar dinhero.
Mas nós não vamos fazer nada inquanto a policia estiver no cazo e os jornais não ficarem
quieto. O rapto nós preparamos por um ano, então nós estamos dispostos a tudo.

Pensando que esta carta poderia ser interceptada pela polícia, os criminosos mandaram
outra para o escritório de Breckinridge, para que fosse entregue a Lindbergh:
Prezado senhor. O senhor recebeu nosa carta de 4 de março? Nos mandamos a carta
de correio perto de Boro Hall, Brooklin. Sabemos que a policia está interferindo com sua
correspondência particular. Como é que nós podi fazer um acordo dese jeito? No futuro
nos vamos mandar nosas cartas para o Sr. Breckinridge, Broadway, 25. Nos achamos que
a policia ficou com a carta que não deixou chegar até o senhor. Nos não vamos aceitar
intermediário de ceu lado. Iso nós vamos arranjar mais tarde. Não si preocupa com o
menino. Ele está bem e comendo em acordo com a dieta. Muitos obrigados por
informação sobre iso. Nos queremos intregar o menino de boa saúde.
Era pricizo fazer um cazo internasional sobre iso? Ou receber seu menino o mais
dipressa possível não seria melhor? Por que o senhor não fez como nos mandamos na
carta que deixamos no quarto? O bebê já estaria voltado há muito tempo. O senhor não
vai conseguir nada com a policia porque nós o sequestro planejamos há mais de ano.
Mas noso medo é que o menino não resista. O resgate que pedimos estava em 50000$,
mas agora temos que botar mais outro para tomar conta do bebê direito por mais tempo
que esperamos, então vai ser 70000$, 20000$ em nota de 50$, 25000$ em nota de 25$,
15000$ em nota de 10$ e 10000$ em notas de 5$. Nos avizamos outra vez que é para
senhor não marcar nota nem uzar notas com o mesmo N2 de série. Depois nos avisamos
onde entregar o dinhero, mas só depois que a policia sair do cazo e os jornais calarem.

Apesar do que disse antes sobre não ser tão simples nem estar ao alcance de qualquer um
fazer um perfil psicológico, há algumas inferências que podem ser deduzidas com facilidade
destas cartas. A língua materna de quem as escreveu não é o inglês. Não se trata de um
americano nato nem mesmo um que fosse semi-analfabeto. Embora a ortografia de certas
palavras simples seja terrível, em outras, bastante mais difíceis, ela está correta, o que sugere o
uso de um dicionário. Em vez de um americano ignorante, a má ortografia fonética sugere um
estrangeiro, com muita probabilidade, de origem alemã.

Assim, parece-me que a teoria de Lindbergh não poderia ser correta. Esta não seria a
forma de comunicação usada pelo crime organizado nos Estados Unidos. É muito pouco
profissional. Além do que, o crime organizado pediria um resgate muito maior e faria ameaças
diretas, caso suas exigências não fossem cumpridas.
Seria possível que mais de uma pessoa estivesse envolvida no sequestro? Talvez sim,
talvez não, isto é algo que não podemos deduzir das cartas. Elas pareciam escritas pela mesma
pessoa e dos numerosos peritos que as analisaram, nenhum discordou desta ideia. É normal
que sequestradores usem o plural "nós", mesmo quando se trata de uma só pessoa. Fazem isto
para dar uma impressão de organização e poder, que na verdade não têm; e este, de forma
óbvia, faz isto, escrevendo que o crime fora "planejado há mais de um ano".
Apesar de tudo, Lindbergh decidiu negociar com o submundo. Al Capone, que fora o rei
do crime organizado em Chicago até ser preso e condenado por sonegar imposto, estava, na
época, na Prisão do condado de Cook, aguardando sua transferência para a Prisão Federal de
Atlanta. Al Capone fora impiedoso com seus concorrentes, como Hymie Weiss. E comandou o
massacre de sete homens numa garagem da Zona Norte, no dia de São Valentim, em 1929, na
tentativa malsucedida de eliminar o sucessor de Weiss, George "Bugs" Moran. Declarou-se
ultrajado e moralmente ofendido pelo crime e ofereceu uma recompensa de dez mil dólares por
qualquer informação que levasse o menino de volta a seus pais. Numa entrevista ao colunista
Arthur Brisbane, dos jornais de Hearst, Al declarou estar seguro de que o sequestro fora obra
do crime organizado e que acreditava ser capaz de libertar o menino se o deixassem sair da
prisão pelo tempo necessário para fazer isso. É claro que os federais não concordaram com a
sugestão.
Mas Lindbergh acreditava na conexão com o crime organizado e anunciou que dois
contrabandistas de álcool Salvatore Spitale e Irving Bitz, estavam autorizados a negociar em
seu nome com os sequestradores. Um associado da dupla, Morris Rosner, foi empregado como
"secretário" de Lindbergh e anunciou, no dia 12 de março, que o bebê estava vivo e as
negociações progrediam. Ele pediu US$ 2.500 para despesas, os quais Lindbergh lhe deu.
Pouco tempo depois, Spitale e Bitz deram uma mostra involuntária de suas conexões no
submundo, sendo presos por fiscais da Lei Seca ao desembarcarem um carregamento de álcool
nas docas de Brooklin. Sua conexão com Lindbergh, no entanto, foi o bastante para que o caso
contra eles fosse arquivado.
Enquanto isto a mais estranha e enigmática figura em todo o caso fazia sua aparição.

JAFSIE ENTRA EM CENA

John F. Condon, de 72 anos, com elegantes bigodes brancos e sempre muito bem vestido
com terno e colete escuro, era um professor de educação física e diretor aposentado de escola
do Bronx, o lugar que considerava o mais belo do mundo. Embora fosse tratado por todos
como Doutor, não conseguimos encontrar nenhuma prova de um Ph.D. em seu currículo e ele,
com certeza não era médico. Jim Fisher, que foi um agente especial do FBI, quando iniciava
minha carreira e é hoje professor e escritor, descreve Condon em seu livro The Lindbergh case
[O caso Lindbergh], como alguém que via a si próprio como um acadêmico e um atleta. Do
comportamento de Condon, tanto com a imprensa quanto com a polícia, eu acredito que fosse
o tipo de professor que gosta de ouvir a própria voz. Por qualquer coisa ele começava um
discurso. Era também um patriota de uma forma ingênua e sentimental. Para Condon o crime
contra o maior herói americano e que o chocara profundamente constituía uma desgraça
nacional; e ele queria fazer algo para ajudar e, ao mesmo tempo, ter uma ligação pessoal e
importante com o que se tornava a maior história jornalística de seu tempo.
Depois de ler no jornal sobre o papel que marginais baratos, como Spitale e Bitz,
desempenhavam no caso, Condon escreveu uma carta para o Bronx Home News, publicada na
edição de 8 de março. Nela propunha seus serviços como intermediário nas negociações com
os sequestradores e oferecia mil dólares de suas próprias economias como uma contribuição
para o resgate, o que, para mim, diz muito do senso de auto-importância que tinha Condon.
Como o jornal tinha sua circulação restrita ao Bronx, nenhum dos investigadores deu
importância a ele, se é que dele chegaram a tomar conhecimento. Lindbergh, com certeza, não
leu o jornal nem soube da oferta.
No dia seguinte à publicação da carta, Condon esteve fora até às 22:00h. Chegando em
casa, como de hábito, o que ele fez primeiro foi verificar sua correspondência. Um envelope
era-lhe endereçado numa letra grosseira. Dentro dele, na mesma letra, encontrava-se a seguinte
carta:

prezado Senhor: Si o senhor está disposto a ser intermediário no cazo Lindbergh, por
favor siga estritamente instruções. Intregue esa carta incluída ao Sr. Lindbergh. Ela tudo
explica, não diga nada a ninguém tão pronto nós descobrimos que a imprensa ou a
Policia foi informada tudo vai cancelado e será mais um atrazo. Depois de pegar o
dinhero com o Sr. Lindbergh ponha estas três palavras no jornal "New York American"
DINHERO ESTÁ PRONTO Depois diso daremos outras instruções. Não si preocupe
que nos não queremos os seus 1000$, guarde eles. Só fasa tudo de acordo. Esteja sempre
em casa entre 6-12:00. nesta hora você recebe contato noso.

Dentro do mesmo envelope havia um envelope menor, com duas linhas escritas na mesma
caligrafia:

Prezado senhor: Entrege a carta incluída ao Coronel Lindbergh. É do interesse dele


que a Policia não seja avizada.

Apesar do aviso para não falar sobre a carta com ninguém, Condon foi incapaz de guardar
para si tão importante segredo. Para começar, ele concluiu que, para levar esta comunicação
até seu herói, precisava de uma condução, e ele não possuía carro. Decidiu então confiar em
seu amigo Al Reich, que tinha um.
Reich era um antigo lutador profissional, que na época trabalhava como corretor
imobiliário e costumava frequentar o restaurante de Max Rosenhain, na esquina da rua 188
com Grand Concourse. Condon foi de bonde até lá, mas, quando chegou, Al não estava. Não
podendo resistir por mais tempo, Condon mostrou a carta a Rosenhain, que sugeriu que outra
pessoa a visse também, o amigo de ambos, Milton Gaglio, um negociante de roupas, na
ocasião presente no restaurante. Gaglio tinha um carro e concordou em levar Condon a
Hopewell. Depois de discutirem o assunto entre os três, ficou decidido que o melhor a fazer
seria telefonar antes e estabelecer o contato.
Condon conseguiu contar sua história só depois de passar por várias vozes até chegar a
alguém que lhe disse que recebia todas as chamadas pessoais do coronel Lindbergh. Era seu
secretário particular, Robert Thayer. Condon explicou quem era, dando uma longa lista de
referências como professor e acadêmico. A partir deste ponto as versões divergem. Condon,
pomposo e megalomaníaco, diz que falou pessoalmente com Lindbergh. Eu prefiro acreditar na
versão de Thayer, na qual Condon teria contado sua história a ele. De qualquer forma, Condon
leu a carta ao telefone e, então, foi-lhe dito que abrisse e lesse o outro envelope também:

Prezado senhor. O Sr. Condon pode agir como intermediário. Pode dar para ele os
70.000$. Fasa um embrulho com o tamanho... (Condon informou que havia o desenho de
um cubo com as medidas de 18 cm X 15cm X 35 cm, e continuou lendo:) nós já
esplicamos como são as notas. Avizamos para não fazer qualquer armadilhas. Si você ou
qualquer outro avizar a Policia vai ser mais atrazo. Depois que o dinhero estiver com
nos, avizamos onde encontrar o menino. Você pode preparar um avião para uma
distancia de 200 km, mas antes de dizer o indereço uma demora de oito horas vai haver.

— Isto é tudo? — perguntou a voz ao telefone (fosse Lindbergh ou Thayer).


Condon disse sim, mas depois completou que, no final da nota, havia dois círculos
entrelaçados. Isto aguçou a atenção de seu interlocutor. Ficou combinado que a carta seria
levada imediatamente para Lindbergh e, assim, Condon, Rosenhain e Gaglio partiram para
Hopewell, pouco depois da meia-noite, no carro de Gaglio. Eles chegaram de madrugada, por
volta das 2:00h e foram recebidos na cozinha, por Breckinridge.

Condon foi levado para um quarto no andar de cima para encontrar-se com Lindbergh.
Logo que viu a caligrafia, os erros ortográficos e a assinatura, Lindbergh compreendeu que a
carta era autêntica. Nada daquilo ainda se tornara público. O desenho do cubo parecia feito por
um carpinteiro, o que condizia com a fabricação caseira da escada.
A descrição que Condon faz daquela noite é tão pretenciosa que chega a ser nauseante.
Sobre seu encontro com Anne ele escreveu:

"... ela estendeu para mim seus braços, no atávico apelo da maternidade:
— Você trará de volta o meu bebê?
— Farei tudo que estiver a meu alcance para trazê-lo.
Chegando mais perto, pude ver o brilho de lágrimas em seus suaves olhos escuros.
Sorri para ela e, com fingida severidade, repreendi-a, balançando meu dedo enquanto
ameaçava: — Se uma só destas lágrimas caírem, eu abandonarei o caso.
Ela limpou os olhos marejados. E, quando suas mãos abandonaram seu rosto, ela
sorria bravamente e com doçura: — Veja, Doutor, não estou chorando.
— Assim está melhor — eu disse. — Muito, muito melhor."

Estas reminiscências de Condon não são apenas de mau gosto meloso, mas também
contrariam o profundo e genuíno retrato de Anne, que transpira de seus próprios escritos. Mas
nos dá uma boa ideia tanto da personalidade quanto do ponto de vista subjetivo de John
Condon.
Rosenhain e Gaglio voltaram para o Bronx, mas Lindbergh convidou Condon para passar
a noite em Hopewell, convite que foi aceito imediatamente. Ele foi ainda mais longe. Na
manhã seguinte entrou no quarto do bebê, olhando tudo e tirando dois alfinetes de segurança
que ainda prendiam os cobertores ao colchão no berço "da Aguiazinha Solitária", como ele
chamava. No cesto de brinquedos, pegou ainda alguns animais entalhados em madeira. Pediu
então permissão a Lindbergh para levá-los, para quando, e se fosse o caso, ao encontrar os
sequestradores, pudesse reconhecer o bebê por sua reação aos brinquedos e também para
identificar os sequestradores perguntando a eles onde haviam visto antes os alfinetes.
Lindbergh concordou e, depois do café da manhã, subiu com Breckinridge e Condon para
redigir uma autorização curta: "Nós, abaixo assinados, por meio desta, autorizamos o dr. John
F. Condon a agir como intermediário em nosso nome." E esta autorização, datada em 10 de
março de 1932, foi assinada por Charles e Anne.
O problema da imprensa então voltou a ser discutido. Breckinridge estava disposto a
colocar o anúncio, "Dinhero está pronto", no New York American, segundo as instruções da
carta. Mas se Condon o assinasse, os repórteres saberiam na mesma hora que era ele o
intermediário e o cercariam. Isto seria o fim das negociações.
Condon sugeriu então usar apenas suas iniciais, JFC, para criar o nome "Jafsie", que
ninguém mais, além dos criminosos, reconheceria.
Antes de ser levado de volta para o Bronx, por Breckinridge, Condon passou mais de uma
hora olhando fotografias de Charlie, para que fosse capaz de reconhecê-lo. Breckinridge
passaria várias noites na casa de Condon, no número 2974 da avenida Decatur, antes que eles
tivessem notícia dos sequestradores.

VIOLET
No mesmo dia, detetives do Departamento de Polícia de Newark começaram a fazer as
entrevistas de rotina com todos os 29 domésticos empregados pelos Morrow em Next Day Hill.
Betty Gow era uma óbvia suspeita na cabeça de Schwarzkopf. Ela não só conhecia todos os
movimentos da criança, como tinha acesso direto a ela. Além disso, ela trabalhara em Detroit,
onde o gângster Scotty Gow já se envolvera algumas vezes em sequestros. Mas nenhuma
conexão foi estabelecida entre eles e as respostas dela a todas as perguntas pareciam
verdadeiras e apropriadas.
A Polícia Estadual de Nova Jersey conseguiu que o Departamento de Polícia de Hartford,
em Connecticut, interrogasse o namorado de Betty, Red Johnson. Além de saber onde estava a
criança no dia primeiro de março, ele também dirigia um Chrysler verde e alguém vira um
carro verde, no dia do sequestro, perto da casa dos Lindbergh. Quase quatrocentos carros
verdes já haviam sido revistados e, no carro de Johnson, a polícia encontrou uma garrafa de
leite vazia. Johnson explicou logo que bebia muito leite e era normal jogar a garrafa vazia no
banco de trás quando dirigia. A polícia o manteve preso por mais de uma semana, mas não
conseguiu mudar sua história e nada em seu passado sugeria que ele estivesse envolvido com o
crime. No final as investigações sobre Johnson levaram a nada e Shwarzkopf fez uma
declaração pública inocentando-o. Infelizmente para ele, as investigações descobriram-no
imigrante ilegal e ele foi entregue ao serviço de imigração para ser deportado.
Geralmente os empregados de Morrow e Lindbergh eram pessoas cooperativas e suas
respostas foram convincentes, com uma única e surpreendente exceção: Violet Sharpe, de 28
anos.
Empregada doméstica, ela saiu de sua terra natal, Bradfield, na Inglaterra, em 1929, indo
para Toronto, onde trabalhara por nove meses antes de mudar-se para Nova York em busca de
uma colocação melhor. Pouco depois de se registrar numa agência de empregos, conseguira o
trabalho na casa dos Morrow. Sua irmã, Emily, trabalhava para Constance Chilton, sócia da
irmã de Anne Lindbergh, Elizabeth. As fotografias nos mostram que Violet tinha uma
aparência simples e agradável, mais para gorda do que para magra, com cabelos castanhos
cortados curtos e grandes olhos também castanhos. Pelo depoimento dos outros empregados,
ela era uma pessoa simpática, trabalhadeira e querida por todos. Supunha-se que tivesse um
envolvimento romântico com Septimus Banks que, antes de trabalhar para os Morrow, fora
mordomo de nobres ingleses e do magnata Andrew Carnegie. Seus colegas de trabalho
acreditavam que algum dia os dois se casariam. O único empecilho ao casamento era o
alcoolismo de Banks, motivo que, várias vezes, o levou a ser despedido. Mas, a cada vez, a sra.
Morrow acabava por perdoá-lo e aceitá-lo de volta. Violet conseguira a promessa dele de não
beber por um ano.
No dia do sequestro, fora Violet quem recebera o telefonema de Anne em Next Day Hill,
chamando por Betty Gow. Antes de partir para Hopewell, Betty contara a Violet que o bebê
estava doente e que, ao invés de os Lindbergh voltarem, era ela quem ia para lá.
Quando chamaram Violet para conversar, os policiais esperavam mais uma entrevista
rotineira, mas não foi o que aconteceu. Ela parecia agitada e nervosa e o relato que fez de seus
movimentos naquela noite acabou sendo uma história mal contada e enrolada. Por volta das
20:00h, recebera o telefonema de um homem que conhecera no domingo, em Englewood,
quando saíra com sua irmã, Emily. O homem passara num carro e acenara para ela; Violet
pensou que o conhecia e devolveu o cumprimento. Ele parou e ofereceu uma carona às duas.
Violet não o conhecia, mas ele era simpático e no final ficou combinado que ele telefonaria
para saírem. E isso, apesar do compromisso que tinha com Septimus Banks.

Violet e este homem saíram com um outro casal na noite do sequestro. Os quatro foram ao
cinema, após o que ele a levara de volta para Next Day Hill, acompanhando-a até a entrada de
serviço, onde se despediram. Combinaram um outro encontro para o dia 6 de março, que ela
desmarcou e não foi.
Bem, quem era este homem? Como se chamava? Violet não se lembrava. O outro casal?
Também não recordava os nomes deles. Que filme haviam visto? Ela não sabia. Pelo menos,
do que tratava o filme? Não fazia ideia. Qual o nome do cinema? Era um cinema em
Englewood, mas seu nome não lhe vinha à mente.
Os policiais disseram entender que podia ser cansativo tantas perguntas e que ela devia
estar nervosa. Ela respondeu, ofendida, dizendo que não estava nervosa e que eles não tinham
o direito de invadir sua vida privada. Pediram-lhe, então, que contasse mais alguma coisa sobre
aquela noite, qualquer coisa, mas ela não tinha mais nada a dizer.
Durante a entrevista, outros policiais revistaram seu quarto. Embora não encontrassem
nenhuma prova, ou evidência direta, numa caderneta de depósitos de um banco em Nova York
havia um saldo de US$1.600. Levando em consideração que estavam no meio da Grande
Depressão, que Violet ganhava um salário de cem dólares mensais, que estava empregada a
menos de dois anos e que mandava sempre dinheiro para a família na Inglaterra, a quantia era
gritante. Como ela não gastava nada com casa e comida, talvez fosse possível juntar aquele
dinheiro sendo extremamente econômica. Mas, este fato, somado à sua hostilidade e à forma
evasiva de suas respostas, fizeram que a polícia a investigasse com muito mais atenção do que
aconteceria se sua reação ao inquérito fosse como a dos outros domésticos.

"JOHN CEMITERIO"

O anúncio assinado "Jafsie" apareceu no New York American no dia 11 de março. Na


mesma tarde, a sra. Condon atendeu o telefone e uma voz, que ela descreveria como tendo um
sotaque carregado e gutural, perguntou por seu marido. Ela disse que Condon estava na
Universidade Fordham e só estaria em casa por volta das 18:00h. A pessoa disse que tornaria a
chamar às 19:00h e deu a entender que o dr. Condon deveria esperar em casa por sua chamada.
Quando o misterioso estranho voltou a ligar, Condon e Breckinridge já estavam em casa.
— Você receber meu carta com assignaturra? — perguntou.
Condon imediatamente percebeu o sotaque alemão, que coincidia com a ortografia da
carta.

— De onde você está chamando? — perguntou Condon.


— Westchester — disse o homem, antes de fazer outras perguntas de identificação,
enquanto Condon o ouvia, com clareza, falando com outra pessoa.

Então, Condon ouviu a voz desta outra pessoa dizer alguma coisa como Statti citto!, que
ele entendeu ser "Cale a boca!", em italiano.
— Nós chamaremos de novo — prometeu o desconhecido. E desligou.
O coronel Schwarzkopf queria colocar um rastreador de chamadas no telefone de Condon,
mas Lindbergh se opôs. O fato de Lindbergh fazer valer sua opinião contra a do homem que
comandava toda a operação policial diz bem do enorme poder que tinha o aviador. Lindbergh
chegara à posição de controle absoluto sobre sua vida pública e privada. Ele acreditava que a
única oportunidade de ter seu filho de volta seria "jogando limpo" com os sequestradores.
Assim a polícia não pôde usar esta chamada telefônica para localizar os criminosos.
Mas algumas das pessoas que Lindbergh escolhera para trabalhar eram difíceis de
controlar. No dia 12 de março, Morris Rosner, seu novo "secretário particular" e contato com o
crime organizado, anunciou para a imprensa saber que o bebê estava vivo e bem, que seria
devolvido a seus pais em pouco tempo. No mesmo dia o procurador distrital de Nova York,
Edward Mulrooney, anunciou a abertura de um processo por fraude contra ele. Rosner foi
inocentado mais tarde, segundo alguns, devido a sua conexão com Lindbergh.
No sábado, 12 de março, Condon procurou um carpinteiro no Bronx e encomendou uma
caixa de madeira com as medidas especificadas pelos sequestradores. Ele pediu que a caixa
fosse a réplica de uma urna de votação que ele ganhara de presente anos atrás. Assim ela seria
identificada facilmente, caso fosse encontrada mais tarde com alguém. O carpinteiro recebeu
três dólares pelo trabalho.
Por volta das 18:00h daquele mesmo dia, quando Condon já estava de volta em casa, na
companhia de seu amigo Al Reich e Henry Breckinridge, a campainha tocou. Deveria ser a
comunicação que esperavam, mas eram Milton Gaglio e Max Rosenhain. Breckinridge ficou
preocupado e temeroso que a visita dos dois pudesse assustar os sequestradores. Então, às
20:30h a campainha tocou outra vez. Era um motorista de táxi, chamado Joseph Perrone, que,
segundo explicou, fora parado por homem vestindo sobretudo e chapéu marrons, na esquina de
Gun Hill Road e Knox Place, que lhe pedira para entregar o envelope que trazia ao dr. Condon,
naquele endereço. Depois de outras perguntas, disse também que o homem em questão falava
com um forte sotaque e que anotara a placa de seu táxi quando partira.
Condon abriu o envelope e todos leram:
Sr. Condon
Nós confiamos no senhor, mas em sua caza não vamos, é muito perigo, nem mesmo o
senhor é capaz de saber se está a policia ou serviso secreto observando.
siga esa instrusão.

Pegue o carro e dirija até última estazão de metro na Av. Jerome aqui. 30 metros da
estazão, no lado esquerdo está um quiosque de cachorro-quente vazio, com grande
alpendre aberto. Na soleira do alpendre debaixo de pedra senhor encontrar notizia.
esa notizia dirá
onde nós encontrar

fasa tudo como mandado.


Depois de 3/4 de hora esteja no local do encontro, traga o dinhero.

No final da nota estava a assinatura, já familiar agora. Dois círculos entrelaçados.


A caixa ainda não estava pronta e nem mesmo o dinheiro, mas Condon achou que era
importante seguir todas as instruções ao pé da letra. Chegando lá poderia explicar-se com
quem quer que encontrasse. Al Reich o levaria até lá em seu Ford.
No quiosque fechado, Condon saiu do carro, e no alpendre encontrou a nota embaixo de
uma pedra. Ele voltou para o carro e a leu.

"Cruze a rua e caminhe junto à cerca do cemitério na direção da Rua 223, encontro
você."

O cemitério em questão era o Woodlawn, quatrocentos acres de sepulturas separadas do


Parque Van Cortlandt por uma cerca de ferro batido. Alguém passou caminhando por Condon,
encarou-o, mas continuou andando. Reich declarou mais tarde acreditar que fosse o cúmplice
olheiro. Condon continuou esperando por mais 15 minutos, até que viu um homem do outro
lado da cerca, que lhe fazia sinais com um lenço. Condon olhou com mais atenção e reparou
que ele usava chapéu e sobretudo marrons, como o taxista descrevera. Segurando o lenço na
frente do rosto o homem lhe perguntou com um forte sotaque:
— Você receber meu carta? Você está com dinhero?
Era a mesma voz que Condon ouvira no telefone.
— Não — respondeu Condon. — Não posso trazer o dinheiro antes de ver a criança.
Neste momento ouviram passos e o homem acusou Condon de trazer a polícia com ele.
Condon negou, insistindo que jamais faria tal coisa. O homem escalou o portão do cemitério,
saltando ao lado de Condon.
— É muito perrigoso — disse. E foi-se embora, desaparecendo na av. Jerome.

Condon então notou que os passos que ouvira eram de um guarda do cemitério. Depois de
tranquilizar o guarda, assegurando que estava tudo bem, Condon tentou seguir o homem, mas
não era uma tarefa fácil para alguém de 72 anos, mesmo que se tratasse de um antigo professor
de educação física.
Afinal ele conseguiu alcançar o homem quase um quilômetro mais adiante, na ponta sul
do lago, no Parque Van Cortland. Quando pararam de correr, Condon disse a ele:
— Que vergonha! Fugir assim! Ninguém está querendo fazer mal a você.
— Isto estar muito arriscado — respondeu o homem, ainda se esforçando para levantar a
gola do sobretudo e baixar a aba do chapéu, tentando proteger sua identidade — eu poder
pegar trinta anos.
Os dois caminharam para perto das quadras de tênis e Condon apontou para um banco
onde podiam sentar. Ele calculou que o outro teria entre trinta e quarenta anos, pouco menos
de 1,80m, com uma boca pequena, maçãs altas e salientes, olhos fundos e quase orientais.
Inseguro, o homem, agora, parecia preocupado. Repetiu que poderia pegar trinta anos de
cadeia se fosse pego:
— Sou apenas um mensagerro e posso queimar.
— Que é que você quer dizer com queimar? — perguntou Condon.

— Se o bebê morrer? Eu não poder queimar, se o bebê estar morto?


Não ficou claro se o homem falava de queimar no inferno ou na cadeira elétrica, mas,
fosse o que fosse, Condon ficou aflito com a ideia.
Ninguém aventara publicamente ainda a hipótese de o bebê estar morto, mas, embora sem
discutir o assunto com Lindbergh ou Anne, Schwarzkopf e seus oficiais com toda a certeza
contemplaram esta possibilidade. Já tinham se passado duas semanas. Sequestro é um dos
crimes mais arriscados, por envolver longas e complicadas negociações com as vítimas, quase
sempre em contato com a polícia. No caso de um sequestro com ampla cobertura da imprensa,
manter a criança escondida é uma tarefa dificílima, com todo o mundo procurando por ela. É
imperativo que tudo seja feito rapidamente. Quanto mais o tempo passa, mais os criminosos
tenderão a desembaraçar-se do refém.
Condon perguntou ao homem o que é que ele queria dizer. Que não havia sentido em
negociar caso a criança estivesse morta.
— O bebê não está morto — insistiu o homem. — Está melhor que nunca. Nós damos
mais para ele comer do que o indicado na dieta que a sra. Lindbergh publicou no jornal. Diga a
ela para não se preocupar. Diga ao Coronel para não se preocupar. O bebê está bem.
Querendo certificar-se de que faiava com o homem certo, Condon fez-lhe outras
perguntas de identificação e, depois, mostrou os alfinetes que levara do berço de Charlie. O
homem os identificou.
— Qual é o seu nome? — perguntou Condon.
— John — respondeu o homem.
Mais perguntas e Condon soube ser ele um marinheiro escandinavo que vivia em Boston.
Conversaram por mais de uma hora e John disse que o bebê estava sendo guardado em algum
lugar a seis horas de distância por avião e que duas mulheres cuidavam dele. Disse ainda que o
bando se compunha de quatro homens e que o chefe era um funcionário público graduado e
que não estavam envolvidos nem Betty Gow nem Red Johnson. Que o crime fora planejado
por um ano e que esperaram que o bebê tivesse idade suficiente para sobreviver longe da mãe.
Disse que na segunda-feira mandaria uma prova de que o bebê estava com eles.
Que tipo de prova? Condon quis saber. O homem respondeu que mandariam o macacão de
dormir de Charlie. Quando o dinheiro estivesse pronto, Condon deveria colocar um anúncio no
Bronx Home News. Levantou-se e foi embora, desaparecendo na escuridão: eram 22:45h.
Condon encontrou Reich e juntos voltaram para casa onde Breckinridge esperava por
notícias. Condon disse estar seguro de poder identificar "John Cemitério" caso o visse outra
vez. Breckinridge telefonou para Lindbergh. E como Condon não sabia do detalhe da carta, que
dizia que o crime fora planejado com um ano de antecedência, isso e outras informações,
como. o sotaque de John, fizeram Breckinridge e Lindbergh mais confiantes de tratarem
realmente com os sequestradores e não com um caso de extorsão oportunista.
Condon e Breckinridge prepararam o anúncio para os classificados do Bronx Home News:

Dinheiro pronto. Nada de polícia nem de serviço secreto, nem jornais. Vou só como
da última vez. Jafsie.

No domingo, 13 de março, a polícia trouxe o dr. Erastus Mead Hudson, médico e perito
em impressões digitais, para ver se ele conseguiria resultados melhores do que aqueles
conseguidos pelos técnicos da própria polícia. Depois de um trabalho meticuloso na cena do
crime, ele conseguiu recolher 13 impressões digitais nos brinquedos de Charlie, o que foi
importante, já que Charlie, por ter nascido em casa e não num hospital, nunca tivera suas
impressões tomadas. Hudson encontrou também um assombroso número de quase quinhentas
impressões digitais na escada. A maioria delas imprestáveis, mas isto dá uma ideia de como os
investigadores foram descuidados no manuseio de provas de importância crucial para o caso.
No dia seguinte, segunda-feira, Condon recebeu um telefonema de John Cemitério:
— Teve um atraso para mandar o macacão do bebê dormir — disse ele. — Mas o
macacão vai chegar. Vai chegar logo — e desligou.
Na terça-feira pela manhã, dia 15 de março, chegou pelo correio um pacote embrulhado
em papel pardo. Condon reconheceu a caligrafia no endereço e chamou Breckinridge em seu
escritório. Em menos de uma hora ele estava na casa de Condon, onde os dois abriram o
pacote. Era um macacão de bebê, dobrado com cuidado. Tinha pés e mãos fechados, no
tamanho dois da marca Dr. Denton e parecia ser autêntico. Dentro do pacote havia também
uma carta, escrita nos dois lados de uma única folha de papel. No verso estava escrito:

Prezado senhor: Noso homem não conseguiu pegar o dinhero. Não mais vai haver
conferências confidenciais. Eses coisas são muito perigosas para nos. Nos num
permitiremos noso homem encontrar como antes mais. Circunstâncias não permitem
fazer um transferimento como você deseja, por que mover o bebê e correr esse risco?
levar outra pessoa no local está completamente fora questão. Parece você ter medo que
nos não ser a pessoa certa e se o bebê está bem. Você tem nossa assignaturra como
sempre especialmente os três furos.

A carta tinha, de fato, a assinatura já bastante conhecida. No reverso da folha estava


escrito:

Agora nós mandamos o pijama do bebê apesar de que custou a nos três dólares extra
para comprar um outro para ele. Por favor diga a Sra. Lindbergh que não se preocupar
que bebê está bem. Nos só temos que dar ele mais comida do que a dieta diz.
Você está disposto a pagar 70000$ invés de 50000$ sem ver o bebê ou não? Fasa
nos saber resposta pelo New York-American. Não podemos fazer deferente porque não
gostar de abrir mão de nosa segurança ou mover o bebê. Se você quiser assim por favor
ponha no jornal.
Eu aceito dinhero está pronto.
noso programa é:
Depois de oito horas que nós temos o dinhero nós avizamos você onde encontrar o
bebê. Se houver armadilha você é responsável pelo que acontecer depois.

Se existia ainda qualquer dúvida, depois de vários indícios em contrário, sobre um


possível envolvimento do crime organizado, esta carta deve ter acabado com elas. A ideia de
aumentar em US$20.000 o valor do resgate de um sequestro, que se alegava planejado há mais
de um ano, era por si só prova suficiente de amadorismo. Mas a ideia de mencionar os três
dólares de custo extra por um novo macacão para o bebê era uma clara imagem do nível da
operação criminosa. Já então, Condon se encontrara com John Cemitério e ouvira seu sotaque,
que era consistente com a ortografia e sintaxe das cartas. De certa forma, pelo menos um dos
criminosos fornecera seu próprio perfil.
À 1:30h da madrugada seguinte, Lindbergh foi em pessoa até a casa de Condon. Chegou
disfarçado, para escapar aos repórteres, e examinou com cuidado o macacão antes de
confirmar sua autenticidade. Ele notou que a roupinha fora lavada desde a última vez que
Charlie a usara. Tanto ele quanto Anne acharam que o retorno do macacão era um bom sinal e
decidiram que as negociações não deviam se arrastar mais do que o necessário. Sabia que a
identidade de Jafsie não restaria secreta por muito tempo e instruiu Breckinridge e Condon a
seguir as instruções dos sequestradores à risca. Colocaram a nota "O dinhero está pronto" no
jornal e adicionaram: "John, seu embrulho chegou e está OK. Dê suas instruções. Jafsie."
Mas não aconteceu nada. Breckinridge colocou outro anúncio no jornal e na segunda-
feira, 21 de março, recebeu uma resposta. A carta fora colocada no correio, no Bronx, dois dias
antes. Outra vez tinha os dois círculos entrelaçados como assinatura.

Prezado Senhor: Você e a Sra. Lindbergh já sabe noso Programa. Se você não
aceitar então nós vamos esperar até concordar com nossa proposta, nos sabemos que
você tem que vir ao noso encontro. Mas por que a Sra. Lindbergh tem que sofrer mais do
que o necessário e nos não vamos comunicar mais até que você ou o Sr. Lindbergh
escrever que concorda no jornal.
nós avisamos outra vez; este cazo de sequestro foi preparado por um ano então a
Policia não vai ter chance de encontar nos ou a criança. Você vai só atrazar as coisas.
Você mandou o
pacote para a Sra. Lindbergh? Este contem
o pijama do bebê.
o bebê está bem.

No outro lado da folha havia uma única linha: "O Sr. Lindbergh está só perdendo tempo
com sua busca."
Breckinridge ficou preocupado com a carta. Dava a impressão de que John não lera os
anúncios publicados no jornal. Tudo parecia estar fugindo ao controle. Publicaram outro
anúncio no Bronx Home News na terça-feira, 22 de março, que acusava o recebimento do
pacote, mas insistia em ver a criança antes de pagar o resgate.
Havia razões óbvias para isto e outras menos óbvias. Ao mesmo tempo que trabalhava
com Jafsie, Lindbergh tentava também várias outras vias, na esperança de que uma delas
levasse ao retorno de Charlie. Existia a conexão Rosner-Spitale-Bitz, que, apesar de toda a
jactância de Rosner, levara a nada. Havia também um empresário de Norfolk, na Virgínia,
chamado John Hughes Curtis, dono de um estaleiro, que fora ver o pastor de sua igreja, Harold
Dobson-Peacock, com uma história a respeito de um contrabandista de rum, que consertara um
barco com ele. Segundo Curtis, os sequestradores contataram o contrabandista para que este
lhe pedisse para intermediar o pagamento do resgate. Dobson- Peacock conhecera os Morrow
na cidade do México. Lindbergh não sabia o que pensar da história de Curtis, especialmente
depois do aparecimento da conexão Condon, mas, ao mesmo tempo, não queria abandonar
nenhuma possibilidade.
Depois, havia ainda Gaston Bullock Means, um investigador de 32 anos, que fora um
veterano do Escritório de Investigações, a agência precursora do FBI, e também acusado de um
assassinato. Means fora inocentado no processo, mas sua reputação ficara manchada. Quando
J. Edgar Hoover assumiu, em 1924, livrou-se dele imediatamente. Depois disto, envolvera-se
numa série de golpes e terminara na Prisão Federal de Atlanta. Quando aconteceu o sequestro,
Means entrou em contato com uma antiga cliente sua, Evalyn Walsh McLean, rica dama da
sociedade de Washington, proprietária do diamante Hope e ex-esposa do dono do jornal
Washington Post. Means disse a ela que conhecera o organizador do sequestro em Atlanta e
que fora convidado a participar do golpe, o que não aceitara por escrúpulos morais. De
qualquer forma acreditava encontrar-se numa posição privilegiada para negociar com eles e,
caso a sra. McLean dispusesse de cem mil dólares, ele estava seguro de conseguir intermediar o
retorno de Charlie em segurança. A rica herdeira, de boa vontade, colocou o dinheiro à sua
disposição junto com fundos adicionais para suas despesas.
No final, tanto Means quanto Curtis resultaram em fraudes e ambos foram processados e
condenados à prisão. Curtis teve sua sentença suspensa.
Nunca passou pela cabeça de Lindbergh não pagar o resgate. Ele vendeu boa parte de suas
ações para levantar o dinheiro. Ele contatou o Departamento do Tesouro para ajudá-lo e foi
encaminhado a Elmer Irey, Chefe do Serviço Policial da Receita Federal. Irey se tornara uma
lenda, porque fora o idealizador da estratégia que levou Al Capone à prisão por sonegação de
impostos. O Herói Solitário pensava ainda em jogar limpo com os sequestradores, mas quando
Irey soube que Lindbergh pretendia pegar o dinheiro no banco J. P. Morgan, sem ao menos
registrar o número das notas, disse que não contassem mais com ele, a não ser que o caso fosse
tratado com um pouco mais de bom senso. Marcar o dinheiro do resgate sempre foi uma das
formas mais seguras de apanhar os sequestradores e, se Lindbergh pretendia impedir que isto
fosse feito, Irey não via como os investigadores poderiam trabalhar. Afinal conseguiram
convencer Lindbergh de que anotar o número das notas não colocaria em perigo a vida de
Charlie e ele concordou em fazê-lo. Seria impossível saber se a numeração das notas havia ou
não sido anotada.

Irey não só registrou o número de todas as notas do resgate, mas imaginou uma forma
bastante criativa de marcar o dinheiro. O Tesouro dos Estados Unidos estava no processo de
abandonar o padrão ouro e trocar as notas, que eram certificados de valor recebido em ouro,
por outras de valor legal. As moedas de ouro em circulação, junto com as notas antigas, seriam
recolhidas. As novas notas de valor legal não tinham estampado o selo redondo em amarelo
das antigas. A ideia de Irey era colocar muitas notas antigas no meio do dinheiro do resgate;
assim quando elas fossem recolhidas pelo Tesouro, seria fácil reconhecê-las. Seus agentes
arrumaram o dinheiro, como especificado pelos sequestradores, em dois pacotes. No primeiro
havia US$ 50.000 e apenas US$ 14.000 não eram em notas antigas. No segundo, com US$
20.000, todas as quatrocentas notas de cinquenta dólares eram certificados de valor recebido
em ouro, que logo seriam identificadas quando passadas. Não havia nenhum número em
sequência, como fora especificado.
O que Lindbergh não aceitou foi que a polícia se aproximasse, de qualquer forma, da
entrega do dinheiro ou seguisse Condon até o encontro com John Cemitério ou qualquer outro
cúmplice. Lindbergh e Breckinridge estavam preocupados com a possibilidade de Condon ser
identificado e então puseram outro anúncio na edição do Bronx Home News de 27 de março:
"O dinheiro está pronto. Informe código simples para usar no jornal. Jafsie."
Na terça-feira, Condon encontrou a resposta na caixa de correio:

Prezado Senhor: Não precisa informar nenhum código. Você e o Sr. Lindbergh
sabem noso Programa muito bem. Nos vamos manter a criança no noso mesmo lugar até
nos ter o dinhero na mão, mas se o trato não acontecer até o dia 8 de abril nos pedir mais
30000$. Não mais 70000$ — 100000$.
Como o Sr. Lindbergh poder seguir tanta pista falsa e saber que nos ser a pessoa
certa nosa assignaturra é ainda a mesma que na carta antes. Se o Sr. Lindbergh gostar de
perder mais um mês nos fazer nada.
Ele vem para nos de qualquer jeito, mas se ele continuar esperando nos dobrar nosa
quantia. Não há preocupação nenhuma a rexpeito da criança está bem.

Lindbergh e Breckinridge subentenderam desta carta que deviam se apressar; o


sequestrador ficara irritado com o que lia nos jornais a respeito de John Curtis e suas alegações
de estar em contato com a quadrilha e, ao mesmo tempo, impaciente com o que lhe parecia
uma enrolação. Eu e meus homens perceberíamos tudo isto como o crescente desespero dos
criminosos, algo que exploraríamos. É claro que todos os envolvidos na investigação tinham as
mãos amarradas, pelo fato de ser o próprio Lindbergh quem orientava o caso. Assim era
impossível preparar uma armadilha, o que fizemos em vários sequestras e tentaríamos neste
também, se nosso serviço existisse na época. Desde então, o FBI lidou com vários outros casos
de sequestro e um dos maiores orgulhos de seus homens é de quase nunca perder o dinheiro do
resgate.
Breckinridge colocou o anúncio "O dinheiro está pronto" nos dois jornais, o Bronx Home
News e o New York Journal, no dia 31 de março. No dia primeiro de abril, Condon recebeu a
carta que estavam esperando. Enviada do correio de Fordham Station, a carta instruía
Lindbergh para colocar um anúncio confirmando ter o dinheiro pronto sábado à noite e, então,
oito horas depois de receber o dinheiro, eles revelariam o local onde estava a criança. Condon
queria propor uma troca direta da criança pelo dinheiro, mas Lindbergh não quis arriscar nem
irritar John.
Lindbergh acompanhou Breckinridge até a casa de Condon, onde entregaram-lhe o
dinheiro para ser colocado na urna de madeira feita de encomenda. O primeiro pacote, com
US$ 50.000, coube na caixa, mas não havia espaço para colocar o segundo, de US$ 20.000 e
Condon decidiu levá-lo em separado.
Na tarde de sábado, 12 de abril, dia em que foi publicado o último anúncio assinado por
Jafsie, Lindbergh e Breckinridge esperaram com Condon e Al Reich por um sinal de John.
Sabendo poder ser a situação muito perigosa, Lindbergh disse a Condon que entenderia se o
professor desistisse da entrega do resgate. Este tranquilizou-o, dizendo que não tinha nenhuma
intenção de abandoná-lo. O coronel Schwarzkopf, ainda que relutante, prometeu que a polícia
se manteria afastada.

A ENTREGA DO RESCATE

Por volta das 19:45h, um taxista tocou a campainha e deixou um envelope no degrau da
porta. Sob os olhos de Lindbergh e Breckinridge, Condon abriu o envelope.

Prezado Senhor: tome um cuidado e siga a Av. tremont leste no sentido leste até
chegar o número 325 da av. Tremont Leste.
É um viveiro.
Bergen
Estufas florista
Terr uma mesa no lado dirreito fora na porta, você encontrar carta debaicho da
mesa coberta com pedra, leia e siga instrução.

Do outro lado da folha estava escrito:

não fale a ninguém no caminho. Se tem alarma para ratiopatrulha, nos avizamos, que nos
ter mesmo equipamento. Tenha o dinhero em um embrulho.
Você ter 3/4 de ora para chegar lá.

O plano era que Lindbergh levaria Condon em seu carro até o local e esperaria ali por ele.
No último minuto, Reich sugeriu que Lindbergh levasse seu Ford. John já conhecia o carro e
não se assustaria com um elemento novo na equação.
O local aonde deveriam ir era outro cemitério. A av. Tremont passava pelo lado norte do
Cemitério de St. Raymond. A Estufa Bergen, a que se referia a carta, ficava no cruzamento das
av. Tremont e Whittemore. Perto da porta da flora eles viram a mesa. Lindbergh parou o carro,
em frente e Condon saltou para procurar a carta, que trouxe de volta para o carro, onde os dois
leram:

Atravessar a rua e ir até a próxima esquina e seguir av. Whittemore para sur
Levar o dinhero. Ir só e andando.

Eu encontrar você

Lindbergh falou que ia também, mas Condon lembrou-lhe que a nota mandava que fosse
só. Lindbergh concordou, com relutância, e entregou a ele o dinheiro, mas Condon disse que
voltaria para pegá-lo depois de encontrar-se com John.
Em vez de caminhar para sul na av. Whittemore, uma rua de terra e mal iluminada,
Condon seguiu para leste pela av. Tremont, bem iluminada e onde se sentia mais seguro. Não
vendo ninguém, voltou para o carro para falar com Lindbergh, mas, antes que este pudesse
responder, Condon ouviu uma voz que o chamava, vindo da direção das sepulturas:
— Hei, Doutor — parecia a voz de John Cemitério.
Aqui existe uma pequena discrepância nas versões, uma das muitas neste caso. Segundo
uma, Condon teria respondido "Sim" e, então, a pessoa repetira "Hei, Doutor. Aqui! Aqui!"
Segundo outra versão, Condon não respondera até ser chamado pela segunda vez. A
importância de tudo isto seria para determinar quanto desta conversa Lindbergh fora capaz de
ouvir, já que ele ficara no carro e, anos mais tarde, seria chamado para identificar a voz. Se a
polícia estivesse monitorando a entrega do resgate, nada disto importaria.

Condon desceu pela av. Whittemore e entrou no cemitério, indo na direção da voz. Então
viu um vulto que se movia paralelamente a ele por entre as sepulturas. Condon seguiu o
homem, descendo uma ladeira até uma estrada de acesso que corria junto a um muro de 1,5m
de altura. O homem saltou o muro, atravessou a estrada e, escalando a cerca baixa do outro
lado da estrada, veio acocorar-se junto a um arbusto, à esquerda de onde estava Condon. O
homem o chamou e Condon, reconhecendo John Cemitério, falou para ele se levantar. Ele
usava o mesmo chapéu e outro terno, agora preto.
— Você trouxe o dinhero? — perguntou.
— Não — respondeu Condon. — Está no carro.
— Quem vir com você?
— O coronel Lindbergh.

— Ele estar armado?


— Não, não está.
Isto não era verdade. Condon sabia que Lindbergh tinha um revólver. Ele perguntou pelo
bebê e John respondeu que só entregaria o bebê oito horas depois de receber o dinheiro. Os
dois discutiram a questão por alguns minutos, com Condon dizendo que queria um recibo pelo
dinheiro e que não o entregaria antes de ver Charlie. John retrucou que era impossível, mas,
enfim, Condon conseguiu uma promessa de ter por escrito o local onde estava o bebê e
concordou em ir buscar o dinheiro.
Então Condon teve uma inspiração e encontrou uma forma de fazer outro favor ao homem
que tanto admirava. Ele explicou a John que os tempos eram difíceis e que Lindbergh não era
tão rico como se supunha. Tudo que conseguira reunir fora os US$ 50.000 originais e que
faltavam os outros US$ 20.000, mas que, se John estivesse disposto a aceitar esta quantia, ele
iria pegá-la no carro e voltaria em alguns minutos.
— Bem — respondeu John, sacudindo os ombros. — É, se não se ter os setenta, o jeito é
se contentar com os cinquenta.
Eram 21:16h. Condon voltou para o carro e explicou a situação a Lindbergh, que lhe deu a
caixa e mais o outro pacote que estava em seu bolso. Condon disse-lhe que podia guardá-lo;
ele conseguira barganhar uma redução do valor do resgate.

Quando Condon encontrou John de novo, pouco antes das 21:30h, este perguntou:
— Você pegar o dinhero?
— Sim — respondeu Condon. — Você escreveu o local?
— Sim.
Condon entregou-lhe a caixa. John a abriu e rapidamente examinou o dinheiro e entregou
a Condon um envelope, dizendo que não o abrisse antes de seis horas. Condon prometeu que
faria assim e os dois apertaram as mãos. Antes de partir, Condon ainda pediu outra vez, em
vão, para ser levado diretamente até o bebê.
John virou-se e desapareceu no cemitério enquanto Condon voltava para o carro,
desapontado por não ter Charlie em seus braços, mas otimista de que logo o teria e satisfeito de
que conseguira economizar US$ 20.000 para Lindbergh.
Na verdade esta manobra foi muito mais um problema do que uma esperteza. O pacote
com os US$ 20.000 continha as notas de cinquenta que eram ainda certificados de valor
recebido em ouro, de fácil identificação. Elmer Irey ficou abatido ao saber o que acontecera. A
esperteza de Condon removera quatrocentos sinais de alerta da investigação.
De volta ao carro, Condon contou a Lindbergh do acordo que fizera de não abrir o
envelope por seis horas. Para sua surpresa, o supercorreto aviador disse que cumpriria o
prometido. Mas no caminho para casa, Condon disse a Lindbergh que parasse o carro.
Argumentou que fora ele quem fizera a promessa e não Lindbergh e que, assim, nada o
obrigava a esperar.
Lindbergh abriu o envelope e leu:

o minino está no Barko Nelly, é um Barko pequeno de oito metros, dois pesoas estar
no Barko. e são inosentes. você encontrar o Barko entre as praias de Horseneck e Gay
perto da ilha Elisabeth.

Afinal tinham alguma coisa para seguir.

A BUSCA

Lindbergh conhecia as águas de que falava a nota, onde encontraria o "barko". Era numa
área perto de Martha's Vineyard, local em que ele e Anne passaram a lua-de-mel.
Depois de parar na casa de Condon para pegar Breckinridge e Reich, e mandar uma
mensagem em código para Hopewell dizendo que o dinheiro fora entregue, seguiram para a
casa que os Morrow tinham na cidade na rua 72 em Manhattan. Lá se encontraram com a
equipe do Fisco, inclusive Irey. Eles fizeram um retrato falado de John, baseado na descrição
de Condon.
Seguindo seu próprio instinto e, mais uma vez, tomando para si a direção das operações,
Lindbergh levantou voo num aeroplano e começou a busca na costa de Massachusetts,
auxiliado por aviões da Marinha e barcos da guarda costeira. Enquanto isso, o Departamento
do Tesouro distribuía uma lista de 57 páginas para todos os bancos, com o número de série de
todas as notas do resgate. Condon levou uma equipe do FBI até ao Cemitério de St. Raymond,
onde buscaram por provas e tomaram moldes de gesso de pegadas no local onde John estivera.
Após um dia de buscas, sem nenhum sinal do Nelly nem de nenhum outro barco suspeito,
Lindbergh voltou para casa, em Hopewell, cansado, desanimado e, finalmente, começando a
crer que tinha sido traído pelos sequestradores. No dia seguinte, com Breckinridge, ele estava
de volta. Pilotando seu próprio Lockheed Vega, examinou a costa até a Virgínia, sem
resultados. Neste ponto, segundo o relato de Scott Berg, mais de um mês depois do sequestro,
Anne começou a perder as esperanças.
Charles continuou com as buscas e enquanto isto a imprensa se inteirava dos fatos. Em 8
de abril, um caixa de banco vazou para os jornais que Lindbergh pagara o resgate, mas que a
criança não fora devolvida. No dia seguinte Schwarzkopf confirmava a notícia. Então, no dia
11 de abril, saiu no New York Times que Jafsie era o dr. John F. Condon. Os repórteres o
procuraram, na mesma hora, em sua casa. Desaparecia, assim, qualquer possibilidade de que
ele pudesse ser ainda um canal de comunicação com John Cemitério.
Ele se transformou, na mesma hora, numa celebridade, cada movimento seu era notícia.
Foi obrigado a mudar seu número telefônico por outro fora da lista. Quando não eram
jornalistas ou completos estranhos a tomar todo seu tempo, era a polícia a mantê-lo ocupado,
fazendo-o olhar fotografias intermináveis ou as longas filas de suspeitos para identificação. Ele
fora a única pessoa que vira o sequestrador cara a cara. Acabou indo para o teatro e escrevendo
o livro: Jafsie tells all [Jafsie conta tudo].
No dia 13 de abril, Harry Walsh, Inspetor do Departamento de Polícia da Cidade de
Jersey, emprestado à Polícia Estadual e amigo pessoal de Schwarzkopf, tomou um novo
depoimento de Violet Sharpe, em Next Day Hill. Era a primeira vez que ela era questionada,
depois que a polícia de Newark fizera as entrevistas rotineiras com todos os empregados da
família, no dia 10 de março. Tendo conhecimento das dificuldades encontradas na entrevista
anterior, Walsh preocupou-se em não assustá-la e ser bastante cordial. Ainda assim Violet não
ficou mais confortável ou relaxada. Desta vez disse lembrar que não fora ao cinema no dia 10
de março, o que explicaria não ter recordado os nomes, nem do filme, nem do cinema, nem dos
atores, na primeira entrevista. Na verdade, ela, seu par e o outro casal teriam ido a um
restaurante de beira de estrada, o Peanut Grill, à uma hora de carro de Englewood. Ela se
recordava também que o nome de seu par era Ernie, porque depois da última entrevista com a
polícia, ele voltara a telefonar para ela. Teria entre vinte e trinta anos, magro, alto e de cabelos
claros. Conversaram sobre o bebê, mas apenas superficialmente. E esta era toda a informação
que ela podia dar.
As respostas de Violet Sharpe não satisfizeram Walsh mais do que haviam satisfeito aos
policiais de Newark. Ele discutiu o assunto com o capitão John Lamb, da Polícia Estadual. A
história de Violet não soava verdadeira. Ela estava praticamente noiva de Septimus Banks, era
correta e agradecida por ter um trabalho no auge da depressão econômica e, ainda assim, ela se
arriscava ao escândalo de ser vista num local de venda ilegal de bebidas alcoólicas, com uma
pessoa de quem ela sequer sabia o sobrenome? Havia ainda outro detalhe curioso. No dia 6 de
abril, sua irmã Emily deixara o país, voltando para a Inglaterra sem avisar a polícia. Ela pedira
seu visto de saída dos Estados Unidos no dia primeiro de março, o dia do sequestro.
Enquanto isso, Evalyn Walsh McLean percebera, finalmente, que Gaston Means estava
tomando seu dinheiro com uma história vigarista e entregara o caso a seus advogados, que
contataram J. Edgar Hoover. Mas um outro golpista continuava operando. No sábado, 16 de
abril, John Curtis anunciou que o bebê estava bem. Lindbergh concordou em recebê-lo na
segunda-feira seguinte, em Hopewell, quando Curtis lhe deu mais detalhes, contando uma
história de uma gangue de cinco escandinavos, chefiada por John Cemitério. Uma enfermeira
alemã estaria envolvida também, seria ela a autora das cartas de resgate.

Curtis descreveu como os sequestradores neutralizaram a criança com clorofórmio (apesar


da ausência de odor no quarto de Charlie), desceram então com ela pela escadaria da casa, e
saíram pela porta da frente, porque a escada que encostaram à janela era muito frágil. Eles
tinham uma planta da casa. E também haviam contado para Curtis que uma chave ficara no
interior de uma das portas que usaram. Quando Lindbergh foi verificar, a chave estava no local
indicado. O bebê fora levado direto para Cabo May, Nova Jersey e dali, de barco, para a área
de Martha's Vineyard. E a gangue queria agora um adicional de US$ 25.000. Além disso tudo,
existia uma outra gangue, ligada ao crime organizado, querendo pagar para ter a criança.
Embora Schwarzkopf não desse muita fé a esta história, alguns fatos dela faziam sentido,
Charles e Anne a levaram a sério. Lindbergh fez uma viagem até Cabo May e as negociações
com Curtis se arrastaram por algum tempo. Após duas semanas, Lindbergh saía com Curtis, no
barco de um amigo deste, o Cachalot, para tentar estabelecer contato com os sequestradores ao
largo da costa de Nova Jersey. Permaneceram no Cachalot por vários dias, porque os
informantes de Curtis disseram que o encontro aconteceria no pesqueiro Mary B. Moss.
Ala tarde de 12 de maio, Lindbergh permanecia ainda em Cabo May, quando um
motorista de caminhão, chamado William Allen, indo pela estrada de Princeton com um
carregamento de madeira, no sentido Hopewell, parou seu caminhão perto de Mount Rose, por
necessidade. Ele entrou uns vinte e poucos metros no bosque e viu o que parecia ser o crânio e
a perna de uma criança, meio enterrados no chão. Chamou então seu ajudante, Orville Wilson,
para ver. Então, os dois foram até a cidade procurar a polícia. Encontraram o patrulheiro
Charles Williamson na barbearia e voltaram com ele até o local, de onde se via com clareza as
luzes na casa dos Lindbergh, que ficava a uns seis quilômetros de distância.
O cadáver do bebê estava numa depressão do terreno, que parecia fora feita pelos pés de
alguém com pressa. Escurecido e saturado de umidade, estava coberto de folhas e insetos.
Pouco restava além do esqueleto, apenas o esboço de uma forma misturada com a vegetação
apodrecida. Faltava a perna esquerda, do joelho para baixo, bem como a mão esquerda e o
braço direito. A maior parte dos órgãos e a parte inferior do tronco desaparecera, comida por
animais. O estado de decomposição do corpo era tal que tornava impossível determinar seu
sexo. Dolorosamente, os olhos, nariz e o queixo assemelhavam-se exatamente com os de
Charlie. Tentando mover a cabeça, para retirar uma peça de roupa, um dos investigadores
quebrou o crânio frágil.
Apesar do terrível estado do corpo, as roupas estavam quase intactas. Dois policiais foram
até a casa dos Lindbergh, onde Betty Gow fez uma descrição de como estava vestido o bebê e
forneceu uma amostra da mesma flanela que usara para agasalhar seu peito.
Norman Schwarzkopf veio em pessoa examinar o local. Não só a flanela era a mesma,
mas a camiseta no corpo tinha a mesma etiqueta das outras nove, ainda no pacote comprado
por Anne. Schwarzkopf então deu a notícia a Betty Gow e depois a Elizabeth Morrow. As duas
se incumbiram de contar a Anne. Elizabeth lhe disse apenas:
— O bebê está com papai.
Anne então pegou o telefone para falar com sua sogra, em Detroit.
O corpo foi levado para a casa funerária Swayze Margerum, na av. Greenwood, 415, em
Trenton. Além de agente funerário, Swayze era também o legista do condado de Mercer. Betty
Gow fez a identificação oficial do que restava de Charlie, ela identificou suas roupas, seus
cabelos, as feições de seu rosto e os dedos de seu pé, que eram sobrepostos.
O exame post-mortem foi oficialmente feito pelo dr. Charles H. Mitchell, mas na prática
foi Swayze que executou a dissecação e o exame; o dr. Mitchell era muito velho e sofria de
artrite. Este fato só veio a público em 1977. O dr. Philip Van Ingen, pediatra de Charlie, estava
presente para comparar as medidas com aquelas em seus registros.
Não havia evidência de estrangulamento ou ferimento a bala. A causa da morte fora uma
fratura craniana, evidenciada por um coágulo em decomposição. Ocorrera na noite do
sequestro, provavelmente quando a escada se partira e o saco onde estava a criança caíra no
chão de cimento ao lado da casa. O saco, com cabelos e sangue, foi encontrado perto da
estrada. Talvez o peso extra da criança tenha feito a escada quebrar.
A descoberta dos restos de Charlie deveria ser o bastante para pôr fim em definitivo aos
desagradáveis e brutais rumores de que Lindbergh seria o assassino de seu próprio filho,
devido a um defeito físico da criança. Infelizmente não foi assim. Algumas pessoas, instigadas
por elementos irresponsáveis da imprensa, pareciam se deleitar com esta ideia. Mas, em minha
unidade, a experiência nos ensinou que a forma como um assassino se livra do corpo de sua
vítima pode nos contar muito de sua personalidade e de seus motivos. É triste o fato de que
pais às vezes matam seus próprios filhos, mas há atos que eles perpetram e outros que são
incapazes de cometer.
Assim, é característica a forma como eles tratam os corpos depois de seus crimes.
Algumas vezes, é claro, os corpos ficam onde estão, como no caso de Susan Smith, na Carolina
do Sul, onde, desesperada e enlouquecida, uma mãe solteira jogou o carro, com seus dois
filhos, dentro de um lago e deixou que se afogassem. Mas sempre que existe um tratamento
post-mortem de filhos mortos por pais, nós encontramos sinais de "proteção" e cuidado com o
corpo. Os enterros são feitos com dignidade e ternura.
No caso Lindbergh o corpo foi abandonado numa beira de estrada quando não tinha mais
nenhuma utilidade para o criminoso. A única razão da tentativa rudimentar de cobri-lo foi
evitar sua descoberta imediata. Este é o tipo de coisa feita por alguém que não se importa com
nada, além de si próprio.
Outro pequeno detalhe: caso o leitor ache que estou entregando segredos de meu ofício e,
assim, ensinando a pais como assassinar seus filhos sem despertar suspeitas, tratando os corpos
de uma certa forma, deixe-me dizer que existem muitos outros indícios comportamentais e que
tentar a esperteza de evitar um deles apenas criaria outros mais, facilitando nosso trabalho.
Tão logo o corpo de Charlie foi encontrado, policiais foram a Cabo May, procurar
Lindbergh a bordo do Cachalot. Informado da descoberta, retornou imediatamente a Hopewell
para confortar Anne e dizer-lhe que o resultado da autópsia mostrava que Charlie morrera sem
sofrer e que, como fora morto no dia do sequestro, nada do que fizeram em seguida, nem
nenhuma decisão que tomaram, fora responsável por sua morte. Depois disso foi até onde
estava o corpo para identificá-lo pela segunda vez. Para ele, a busca afinal terminara.

A POLÍCIA ASSUME O CASO

Tampouco na morte a imprensa deixou os Lindbergh em paz. Um fotógrafo conseguiu


entrar na funerária e fotografar o que sobrara de Charlie. Fotos que se vendiam nas ruas por
cinco dólares cada. Temeroso que sua sepultura se transformasse também num circo,
Lindbergh fez cremar o corpo do filho e, de seu aeroplano, espalhou as cinzas por entre as
nuvens, onde se sentia mais confortável e seguro.
Então, toda a necessidade que Lindberg sentia de controlar o caso desapareceu. A polícia
podia fazer como quisesse para encontrar o monstro — ou monstros — que, de forma tão
horrível e profunda, transformara para sempre a vida de Anne e a sua.
Anne e Charles se mudaram de volta para Next Day Hill, abandonando a casa, quase
pronta, de Hopewell. Nunca mais passaram um único dia ali. O que mais queriam, depois do
segundo parto de Anne, era distância da imprensa e da polícia e, mais do que tudo, distância
das lembranças.
O presidente Herbert Hoover anunciou que a força policial da Federação seria lançada no
caso para auxiliar Schwarzkopf, dizendo: "Moveremos o céu e a Terra, para descobrir o
criminoso que ousou cometer um crime como este."
Apesar do efetivo envolvimento da Receita Federal e do Departamento do Tesouro,
sobretudo aquele de Elmer Irey, o Presidente nomeou o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, para
chefiar as investigações federais. Como se tornou hábito notório em seu longo reinado à frente
do FBI, Hoover afastou todas as outras agências federais da investigação. Ainda assim
restaram diversos departamentos de polícia, tanto de Nova Jersey quanto de Nova York, além
do escritório da Procuradoria Distrital, envolvidos no caso. Tudo somado, havia muita gente
trabalhando no caso e não faltaram oportunidades para que uns pisassem nos pés dos outros. Já
haviam passado meses desde que o crime fora cometido, as pistas já estavam frias e
Schwarzkopf era o alvo de várias críticas, das quais nunca se livrou.
Para testar sua teoria de como o sequestro fora praticado, Schwarzkopf mandou fazer uma
duplicata da escada e, na presença de Lindbergh, reconstituiu a cena do crime. Quando o Chefe
de Polícia, de quase 80 quilos, carregando um saco contendo o peso exato do bebê, começou a
descer a escada, a lateral se rompeu no mesmo lugar onde estava quebrada a escada usada para
o sequestro. Schwarzkopf deixou cair o saco que bateu na saliência de cimento da janela da
biblioteca.

Mandou também todas as cartas de resgate para grafologistas independentes, sendo o mais
importante deles Albert Sherman Osborn, de 74 anos e considerado por muitos o pai da perícia
grafológica. Como outro antes dele, Osborn concluiu que todas as cartas haviam sido escritas
pela mesma pessoa. Que os erros ortográficos, transposições de letras e defeitos de caligrafia
eram consistentes em todas as cartas. Disse que quem as escrevera era alemão. Mesmo as
frases mais torcidas faziam algum sentido na sintaxe alemã. Osborn compôs ainda algumas
frases, usando palavras-chave das cartas, para serem usadas como um teste, fazendo que
suspeitos as escrevessem sem conectá-las com as cartas.
Ao mesmo tempo em que Osborn examinava as cartas, Schwarzkopf fez a madeira da
escada ser analisada por peritos. A pessoa mais credenciada, neste caso, era Arthur Koehler,
técnico em madeiras do laboratório do Serviço Florestal do Ministério da Agricultura, em
Madison, no Wisconsin. Segundo o prof. Jim Fisher, Koehler foi capaz de identificar quatro
tipos de madeira: pinho da Carolina do Norte, pinho Ponderosa, abeto e videira.
Mas, apesar dos esforços de todos os peritos de Schwarzkopf e das intermináveis coleções
de fotografias analisadas por John Condon, apesar das alegadas conexões de John Curtis,
Gaston Means e Morris Rosner com os sequestradores, John Cemitério se evaporou. Tudo que
havia era a descrição de Condon e algumas palavras ouvidas por Lindbergh a mais de trinta
metros de distância.

VIOLET REVISITADA

Do ponto de vista investigativo, o inspetor Harry Walsh acreditava o sequestro como obra
de alguém da casa. Fosse quem fosse, o sequestrador conhecia seu interior, inclusive a exata
localização do quarto do bebê e sabia que os Lindbergh não retornariam a Englewood depois
do fim de semana. A informação a respeito da casa poderia ser resultado da publicidade na
imprensa, que tivera acesso ao projeto arquitetônico e o publicara, mas mesmo os Lindbergh
não sabiam que ficariam em Hopewell naquela noite.
De todos que tinham esta informação, Violet Sharpe parecia a mais suspeita para Walsh, e
Schwarzkopf estava ansioso para trabalhar nela. Mas na segunda-feira, 9 de maio, ela
amanheceu com uma inflamação das amídalas e precisou ser hospitalizada. Enquanto estava no
hospital o corpo de Charlie foi encontrado. No dia seguinte à identificação por Lindbergh e
logo depois da cremação do corpo, ela deixou o hospital contra o parecer de seu médico.
Schwarzkopf esperou passar uma semana e mandou o médico da polícia, o dr. Leo Haggerty,
examiná-la em Next Day Hill, para determinar se ela estava em condições de ser inquirida.
Haggerty e um médico local, o dr. Harry D. Williams, encontraram-na ainda debilitada e
desaconselharam o interrogatório. Apesar disso, Walsh veio vê-la na noite do dia 23 de maio.
Ele estava acompanhado de Schwarzkopf e do tenente Arthur Keaton. Lindbergh também
estava presente.

Na presença de seu patrão, Sharpe foi mais dócil e cooperativa do que nas vezes
anteriores, mas sua história continuava cheia de lacunas e contradições. Ela não era capaz de
explicar por que na primeira vez falara de um filme para depois mudar seu álibi para um
encontro num restaurante. Nem mesmo dar uma razão para ter aceitado o convite de Ernie,
sendo ela uma pessoa que jamais saía com estranhos. E, finalmente, ela admitia seu encontro
com Ernie fora combinado uma hora depois de ter a informação de que Betty Gow estava indo
para Hopewel e que Charlie e seus pais não retornariam para Next Day Hill.
Walsh voltou a interrogar Violet no dia 9 de junho. Ele tinha uma teoria que Ernest
Brinkert, um taxista e malfeitor barato de White Plains, Nova York, poderia ser o Ernie de
quem ela não lembrava o sobrenome. E quando revistaram seu quarto, em março, foram
encontrados seis cartões de visita de Brinkert. Violet estava, desta vez, ainda mais pálida e
fraca do que quando saíra do hospital.
Walsh mostrou a ela uma foto de Brinkert e perguntou se era ele o homem com quem
saíra no dia primeiro de março.
— É ele mesmo — ela confirmou.
Então, como era possível que ela não recordasse seu sobrenome, tendo seus cartões de
visita no quarto? Ela nada sabia sobre os cartões de visita.
Violet começou a ficar histérica e um médico foi chamado. Walsh concordou em
suspender a entrevista, mas disse que continuariam no dia seguinte em seu escritório. Laura
Hughes, secretária da sra. Morrow, estava presente para transcrever o depoimento. Quando
Violet deixou a sala, deu um sorriso e uma piscadela para Laura sem que Walsh ou o médico
percebessem.
Naquela noite, Sharpe teve outra crise histérica, desta vez na presença de Betty Gow e de
outros domésticos, jurando que a polícia não a levaria e que também não responderia a mais
perguntas. Na manhã seguinte, Walsh telefonou para avisar Violet, em Next Day Hill, que um
carro da polícia iria buscá-la para continuar o interrogatório.
Antes da chegada do carro, Violet estava morta. Misturara cianureto, de um preparado
para limpar prata, num copo de água, bebera o veneno e descera a escada para cair na
despensa.
Mais tarde, naquela noite, Ernest Brinkert contatou a polícia de White Plains. Disse não
conhecer Violet Sharpe e que não tinha nada a ver com o sequestro de Charlie Lindbergh.
Declarou desconhecer como seus cartões de visita foram parar no quarto de Violet ou como seu
nome pudesse estar ligado ao caso. Na noite do dia primeiro de março, ele estava visitando um
amigo em Bridgeport, Connecticut. Dr. Condon foi chamado para ver se podia identificá-lo
como John Cemitério; ao primeiro olhar, Condon disse que não era ele.
A polícia de Nova York o entregou à de Nova Jersey, onde continuaram a interrogá-lo.
Fizeram que produzisse amostras de sua caligrafia, escrevendo as frases preparadas por
Osborn. Sua esposa confirmava seu álibi para a noite do crime.
Então, no dia 11 de junho, Ernest Miller, um motorista de ônibus, de 23 anos, informou
aos detetives de Closter, em Nova Jersey, que fora ele o Ernie que saíra com Violet no dia
primeiro de março. Os policiais ficaram sem entender nada. Ele forneceu os nomes do outro
casal que estivera com eles, e a história dele era a mesma que aquela contada por Violet em sua
segunda versão.

Mas por que Violet não o identificara? Miller não sabia. Ele tinha certeza de que ela
lembrava seu sobrenome. E por que ela identificara a foto de Ernest Brinkert, que em nada se
parecia com Miller? Mais uma vez, Miller não fazia a menor ideia. A polícia encontrou o outro
casal e a história contada por eles confirmava a de Miller. Agora havia muito mais perguntas e
muito menos respostas.
Desde o suicídio de Violet Sharpe, estudiosos do caso Lindbergh têm procurado um
significado para ele que ultrapasse a tragédia pessoal. Alguns acusaram Schwarzkopf e Walsh
de a pressionarem até o limite de sua resistência. Sua irmã, Emily, declarou isto sem meias-
palavras, depois de ser investigada e inocentada pela Scotland Yard, na Inglaterra. Outros
acharam que Violet tinha medo de que as investigações policiais, trazendo à luz suas pequenas
faltas, fizessem que ela perdesse o amor de Septimus Banks e que Elizabeth Morrow a
despedisse, deixando-a desempregada. Houve insinuações de que ela se casara anos antes na
Inglaterra e que a investigação revelaria o escândalo. Mas as subsequentes investigações
mostraram que isto não tinha fundamento.
Para mim, o suicídio de Sharpe faz lembrar o caso de Leonard Lake, de 38 anos, que foi
preso pela polícia de São Francisco por causa do furto de um torno de uma serraria, no valor de
US$ 75. A polícia encontrou o torno e uma pistola .22 equipada de silenciador na mala de seu
carro. Lake foi levado para um distrito e autuado por furto e posse de arma. Ele usava uma
carteira de motorista em nome de Robin Stapley com uma foto que não se parecia com ele.
Depois de algumas horas no distrito, ele pediu para beber um copo de água e, antes que os
policiais pudessem fazer alguma coisa, ingeriu uma cápsula de cianureto, escondida com ele.
Entrou em coma e morreu depois de dias.
Quando nós, analistas de comportamento, vemos algo assim, na mesma hora nos ocorre
uma série de perguntas. Por que alguém, preso por um crime menor e rotineiro, resolve se
matar de forma tão dramática? Bem, acontece que estes pormenores não importam. Leonard
Lake sequestrava, violentava e matava mulheres jovens; com seu cúmplice, Charles Ng, fez
várias vítimas e tinha todos seus crimes documentados em sórdidos videotapes. Vídeos que
reviam sem cessar, com enorme prazer. Quando foi preso, por estes outros delitos não
relacionados, Lake imaginou que logo descobririam tudo e que seu jogo terminara.
Não estou sugerindo que Violet Sharpe sequestrou o bebê (Miller e o outro casal
forneceram um sólido álibi para ela), nem mesmo que ela fosse cúmplice dos sequestradores.
Mas a teoria de que seu suicídio se deveria à pressão policial, ou ao trauma criado pelos
eventos, soa falsa para mim.
Pode soar como clichê que nós da polícia, quando ouvimos respostas evasivas,
incompletas ou hostis em nosso dia-a-dia, tendemos a suspeitar, e isso é verdade, e é verdade
por uma questão de bom senso. Durante os interrogatórios iniciais e rotineiros dos empregados
da casa dos Morrow, Violet sabia da importância e seriedade do caso, donde vai contra toda
lógica que sua atitude resultasse de seu aborrecimento em ver sua privacidade invadida. Se sua
preocupação maior fosse com a opinião que a sra. Morrow tinha dela, faria tudo para ser o mais
cooperativa possível, a menos que houvesse algo a esconder. E ninguém se suicida apenas por
estar sendo incomodado pela polícia. Como no caso de Leonard Lake, algo mais deveria existir
por baixo dos panos.
Entre os inúmeros documentos examinados por mim e Mark Olshaker no volumoso
arquivo Lindbergh, guardado pela Polícia do estado de Nova Jersey, em Trenton, estava o
pequeno diário vermelho de Violet Sharpe. Nele encontramos poemas, comentários e vários
relatos breves de sua vida. A impressão mais forte que nos ficou foi seu senso de que a vida
podia propiciar mais do que uma simples existência de empregada doméstica, de que, embora
fosse assim que o mundo a visse, ela possuía uma ótima visão de si e aspirações mais altas e
poéticas, na esperança de um dia poder sair do circunscrito universo em que vivia e realizar a
vida com que sonhava.
Você deve estar se perguntando se, com isto, eu estaria sugerindo que Violet Sharpe
participou deste horrível crime para realizar seu sonho de uma vida melhor? Não. Estaria ela
envolvida no "planejamento por um ano", a que se referiam as cartas de resgate? Tampouco.
Nada em seu passado ou em seu caráter sugere que ela fosse capaz de um crime para conseguir
o que desejava.
Mas a personalidade de Violet Sharpe é a de uma jovem desesperada para melhorar de
vida e para ser amada e apreciada pelos outros, e acho possível que durante algum tempo,
culminando no dia primeiro de março de 1932, ela estivesse dando informações a respeito da
família Lindbergh a uma ou mais pessoas. É quase certo que fizesse isto de uma forma
completamente inocente; mas, quando soube que o bebê fora sequestrado, ela deve ter
raciocinado sobre o que fizera. Talvez a informação dos sequestradores viesse de outra fonte.
Mas o comportamento de Violet, apesar da plena confiança depositada por Lindbergh em todos
os empregados, demonstra uma íntima preocupação, ou sentimento de culpa, de que talvez
viesse dela a informação que possibilitara o sequestro; e que, de alguma forma, ela traíra a
confiança de seus patrões. Seria Violet o "elo perdido"?
Uma pasta do FBI, que encontramos no arquivo da polícia, declara:
Num interrogatório direto ela disse que não tivera outro namorado antes de seu
encontro com Ernie, ainda assim, quando perguntada se não tivera uma amizade com um
fotógrafo chamado McKelvie, que trabalhava como repórter do jornal Daily News, de
Nova York, ela admitiu que saíra várias vezes com ele. (Segundo o inspetor Walsh, o
próprio McKelvie declarara que Violet lhe fornecera a primeira informação sobre o sexo
da criança, diretamente da casa dos Morrow e que esta informação lhe permitira oferecer
a seu jornal o "furo" da notícia, cinco horas antes de qualquer outro jornal.)

Violet Sharpe se recusou a responder se fora ela quem fornecera esta informação a
McKelvie.

Isto significa que, mesmo inocentemente, Violet se dispôs a conversar com estranhos
sobre o que se passava na casa e com a família de seus patrões.
Com o suicídio de Violet e a Scotland Yard inocentando Emily este aspecto do crime foi
abandonado. Mas eu não creio que possamos esquecer Violet tão facilmente nem, como
suspeito, que sua ligação com a cadeia de informações pode ter sido o que possibilitou o
sequestro. Suposição que devemos ter em mente mais adiante, quando analisarmos as
ocorrências subsequentes no caso.

AS PISTAS ESFRIAM

Com a morte de Violet Sharpe, com os outros nomes sendo, uns depois dos outros,
abandonados pela polícia, e com o desaparecimento, sem rastros, de John Cemitério, a pista
dos sequestradores começou a esfriar.
Para algum consolo, no dia 22 de junho, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei
que ficaria conhecida como Lei Lindbergh. Sua provisão mais importante previa que uma
semana após um sequestro, sem o retorno da vítima ou na suposição que os sequestradores
houvessem atravessado as fronteiras estaduais, o caso se tornava federal e da alçada primária
do FBI. Contemplava também a pena federal de prisão perpétua para os sequestradores.
Na terça-feira, 16 de agosto, Anne deu à luz outro menino. Desta vez, o parto foi no
apartamento de sua mãe na rua 66 Leste, n° 4, em Manhattan. Deram à criança o nome de Jon;
e Charles, mais uma vez, pediu à imprensa para que ele e sua família fossem deixados em paz.
Outra vez o apelo não foi atendido.
Algumas das notas do dinheiro do resgate começaram a aparecer em bancos de Nova
York e vizinhanças. Mas quando, finalmente, alguém num banco percebia o número de série,
já era tarde para determinar sua origem. Será que isso queria dizer que John Cemitério estava
ainda na área? Ou seriam segundos (ou terceiros) que as estariam passando, com os
sequestradores já longe e a salvo? O detetive James Finn mantinha um mapa com alfinetes
coloridos marcando os locais onde as notas apareciam.
Naquele outono, Dudley D. Schoenfeld, um psiquiatra nova-iorquino, contatou a polícia
dessa cidade, que o encaminhou à Polícia Estadual de Nova Jersey. Schoenfeld tinha uma
teoria e queria estudar as cartas. Schwarzkopf, que não tinha muitas opções, aceitou.
Segundo Jim Fisher, em seu livro The Lindbergh Case, Schoenfeld acreditava que o
sequestrador sofria de um distúrbio de personalidade: a demência paralítica (hoje considerado
uma forma de esquizofrenia). Embora o criminoso se visse como todo-poderoso, ou
onipotente, na verdade era um indivíduo sem poder nenhum que ocupava uma posição inferior
na escala social. Irritado e frustrado com sua situação, culpava os outros por sua inadequação,
funcionando sob a ilusão de que um complô de certas forças da sociedade o impedia de realizar
seus objetivos na vida.
"Lindbergh era tudo que ele queria ser e não era: poderoso, rico e respeitado por todos. O
sequestrador o via como a um rival; alguém a vencer e humilhar" — relatou Fisher. "Este seria
o motivo inconsciente do crime. Schoenfeld acreditava que um indivíduo assim trabalharia só e
seria capaz de assumir grandes riscos." E Fisher continua: "Schoenfeld concluiu que o
sequestrador era um alemão de quarenta anos, que já estivera na prisão. Tinha tendências
homossexuais, habilidade mecânica, não se abria com as pessoas e seria pouco possível que
confidenciasse a alguém seu crime." Fisher disse ainda que o psiquiatra especulava que o
criminoso era fisicamente parecido com Lindbergh, e que "seria, se casado, um marido tirânico.
Talvez tivesse amigas, mas sua vida revolveria em torno de homens. Por ser uma pessoa
desconfiada, precavida e pouco dada a confidências, seria muito difícil capturá-lo".
É bastante comum criminosos violentos, em especial criminosos sexuais, viverem um
forte conflito entre impotência e inadequação de um lado e onipotência e merecimento do
outro. Uma pessoa assim teria muita inveja de Lindbergh que era um sucesso real e parecia ter
tudo que queria. Uma pessoa assim desejaria derrubar o mito do herói universal e trazê-lo para
uma dimensão mais humana, fazendo-o provar o gosto amargo de uma dor profunda. A
nacionalidade alemã era óbvia.
Aceita a ideia de que o criminoso trabalhava sozinho (o que não quer dizer que eu
concorde), os outros traços de sua personalidade são decorrentes. Ele teria que ser controlado e
fechado para que ninguém mais soubesse do crime. Teria que ter habilidade mecânica porque,
trabalhando sozinho, fora ele quem construíra a escada. Criminosos não nascem feitos, assim
um tempo numa prisão teria servido de escola. Roubar uma criança de seu quarto, com a mãe
no quarto ao lado e o pai no andar de baixo, implica sérios riscos, donde, é claro, ele seria uma
pessoa ousada e capaz de correr estes riscos. E ninguém que cometa um sequestro e tenha a
polícia de três estados mais o FBI em sua busca será dado a confidências. Ainda assim, este foi
um exemplo pioneiro de criação de perfil psicológico e Schoenfeld merece um lugar de
respeito na história e no desenvolvimento desta disciplina.
Em agosto de 1934, Condon, pela janela de um ônibus no Bronx, acreditou ver John
Cemitério, vestido com roupas de operário, andando na rua. Fiel a seu estilo, gritou para o
motorista: "Eu sou Jafsie! Pare o ônibus!" Mas quando ele desceu do ônibus o homem já
desaparecera.

DESCONSTRUINDO A ESCADA

No início de 1933, Arthur Koehler dera a cada componente da escada uma designação
individual. Os degraus foram numerados de 1 a 11; e as seis laterais, formando as três secções
da escada, receberam números de 12 a 17, começando pela secção inferior. A peça-chave do
quebra-cabeça era a ripa 16, o suporte lateral esquerdo da secção superior. Chamou a atenção
de Koehler porque tinha (e só esta ripa tinha) quatro furos a mais, feitos por pregos quadrados,
o que lhe indicava que a madeira fora usada antes em alguma outra coisa. Em outras palavras,
no final do trabalho, quando chegara à última secção, provavelmente faltara madeira ao
construtor da escada, que fora obrigado a desmontar aquele pedaço de madeira de algum outro
lugar.
Além disso, Koehler percebeu que oito degraus, feitos de pinho amarelo, haviam sido
cortados de uma mesma peça aplainada por uma ferramenta defeituosa que deixara marcas
características na madeira. Nas cinco laterais, feitas de pinho comum, essas marcas eram tão
visíveis que ele acreditava que bastariam para identificar a serraria. Ao todo, enviou
questionários para mais de mil e quinhentas serrarias ao longo da costa atlântica com as
especificações da plaina mecânica que ele buscava, a velocidade com que produzia tábuas e o
número de lâminas que utilizava.
Depois de laboriosa investigação, Koehler conseguiu traçar o percurso das tábuas desde
uma serraria em McCormick, na Carolina do Sul, até a Halligan McClelland Company, em
Nova York, e dali até a National Lumber Millwork Company, em White Plains, no Bronx. Lá,
no dia 19 de novembro de 1933, Koehler encontrou em uma prateleira, num dos depósitos o
que considerou uma peça idêntica. Estava convencido de que as laterais — do número 12 ao
15 — haviam sido cortadas pela mesma máquina.
Mas o depósito de madeira não tinha registro de nenhum cliente que pagasse à vista e
levasse a madeira consigo, assim toda a brilhante dedução de Koehler foi apenas uma vitória
parcial. Tomaram mostras da caligrafia de todos os empregados da firma, no entanto não surgiu
nada de promissor.

A PISTA DO DINHEIRO
No dia 5 de abril de 1933, o novo presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt,
anunciou que os Estados Unidos abandonariam o padrão ouro e que toda a quantia superior a
cem dólares em moedas de ouro ou notas de valor recebido deveriam ser trocadas pelas notas
novas antes de primeiro de maio. Como uma vantagem colateral, a polícia esperava que,
quando as notas antigas começassem a entrar nos bancos, os caixas fossem mais cuidadosos e
se lembrassem do documento de 57 páginas, que listava o número de série das notas pagas no
resgate.
De fato, em primeiro de maio, um pacote contendo US$ 2.980 em certificados de valor
recebido apareceu para ser trocado no Federal Reserve Bank, em Nova York. Cada uma das
notas era parte do resgate. O canhoto de depósito estava em nome de J.J. Faulkner, rua 149
Oeste, n° 537. Era falso. Foi a primeira e última vez que se ouviu falar em J.J. Faulkner e a
pista do dinheiro acabou por esfriar como todas as outras que poderiam levar a John Cemitério
e aos sequestradores.
Algumas notas isoladas continuaram a aparecer. Sempre com uma dobra característica,
que as dividia em oito partes. Os caixas e funcionários que receberam estas notas lembravam
de um homem branco, de estatura mediana, com as maçãs altas, queixo protuberante, olhos
azuis. E, é claro, o homem falava com sotaque e usava um chapéu mole, de feltro, com a aba
desabada sobre os olhos. Apesar de vagas, todas as descrições combinavam com aquela de
Condon e também com a que o taxista Perrone fez do homem que lhe dera o envelope para
levar à casa de Condon.
Pela mesma época em que Arthur Koehler conseguiu localizar a companhia National
Lumber Millwork, a polícia descobriu um padrão na passagem das notas de cinco e dez
dólares. Elas apareciam na área da 3ª Avenida e Lexington, no norte de Manhattan, e no
quarteirão alemão de Yorkville. Pouco depois de Koehler terminar esta fase de seu trabalho,
Cecile Barr, na bilheteria do cinema de Loew Sheridan, em Greenwich Village, recebeu uma
nota de cinco, dobrada em oito partes, que chamou sua atenção. Era dinheiro do resgate. A
descrição feita por ela do homem coincidia em tudo com todas as anteriores, até mesmo o terno
escuro e o chapéu de feltro. Mas foi só isto. O crime do século continuava sem solução.
Em janeiro de 1934, o dinheiro do resgate aparecia em maior quantidade, uns quarenta
dólares em média por semana, todo em notas de dez. O criminoso com certeza terminara as
notas de cinco e, em pouco tempo, começaria a passar as de vinte. Mas, no verão, a pista do
dinheiro se apagou do novo. Talvez devido a uma nova série de histórias nos jornais sobre o
dinheiro do resgate, desta vez a respeito de uma recompensa, do cinco dólares, paga pelo
Departamento de Polícia de Nova York, para cada nota do dinheiro do resgate. Confirmando o
perfil que fizera Schoenfeld, o criminoso se acautelou.
Em setembro algumas notas de dez começaram a aparecer de novo e uma de vinte, na área
de Fordham Road, no Bronx. Além disso, outras dez e vinte apareceram ao norte de
Manhattan, em Yorkville e no Bronx.
FINALMENTE, UM SUSPEITO

Uma luz apareceu no dia 18 de setembro de 1934. O caixa do Corn Exchange Bank, no
Bronx, estava organizando o dinheiro depositado e notou duas notas de dez antigas. Ambas
eram parte do resgate. Uma das notas tinha na margem, escrito a lápis, "4U-13-14-N.Y.".
Parecia o número da placa de um carro. A polícia pedira aos frentistas de todos os postos de
gasolina que anotassem a placa do carro de qualquer cliente que pagasse com notas antigas.
Três postos de gasolina, na área, depositavam a féria naquele banco; um deles, o posto Warren-
Quinlan na esquina da rua 127 com a av. Lexington. Quando o detetive James Finn foi até lá,
tanto o gerente Walter Lyle, quanto seu frentista John Lyons lembravam-se do dinheiro. Um
homem branco, de estatura mediana, com um forte sotaque alemão e dirigindo um Dodge azul,
modelo 1930. Ele abastecera o carro com 98 centavos de gasolina (lembre-se que os preços
eram de 1934) e pagara com uma nota de valor recebido de dez dólares, que tirara de um
envelope branco em seu bolso.
Lyle examinara a nota com atenção e o homem dissera:
— Qual é o problema? A nota é boa.
O gerente então comentou que já não se viam mais muitas notas daquelas. O homem
concordou, dizendo:
— Só tenho mais cem dólares delas.
A preocupação de Lyle era de que o dinheiro fosse falso e assim tomou nota da placa do
carro na margem da nota, antes de guardá-la na caixa.
Do Registro de Veículos de Nova York, Finn descobriu que a placa era de um Dodge azul,
modelo 1930, registrado em nome do alemão Richard Hauptmann, um carpinteiro que vivia na
rua 222, Leste, n° 1279, esquina da av. Needham, na área de Williamsbridge, no Bronx. Perto
do Cemitério Woodlawn, a dez quadras da Companhia National Lumber Millwork, a seis
quilômetros do Cemitério de St. Raymond e a 16 quilômetros do posto de gasolina Warren-
Quinlan.
Na mesma hora todas as lâmpadas se acenderam nas cabeças de Finn e seus detetives e o
prédio onde Hauptmann e sua esposa eram inquilinos começou a ser vigiado. Pouco antes das
9:00h, de quarta-feira, 19 de setembro, Hauptmann saiu de casa e entrou no barracão que servia
de garagem nos fundos do prédio. Ele construíra a garagem para seu senhorio em troca de seu
uso exclusivo enquanto fosse inquilino. Pouco depois saía com seu carro pela Av. Needham.
Hauptmann, de estatura mediana, combinava de forma razoável com as descrições.
Se estivesse envolvido com o caso, em 1934, eu também ficaria eletrizado com
Hauptmann como suspeito, mesmo que ainda nada soubesse sobre ele. Com a exceção da cena
do sequestro, que não poderia ser escolhida, toda a movimentação do criminoso acontecera na
vizinhança de Hauptmann. Lá acontecera o primeiro encontro e a entrega do dinheiro, lá o
criminoso comprara a madeira para a escada e trocara o dinheiro do resgate, e até a casa onde
morava John Condon era na mesma área onde vivia Hauptmann. Ali onde se sentia seguro e
confortável. Se Hauptmann fosse o sequestrador, fosse ele John Cemitério, seu endereço seria
perfeito. Somemos a isto os fatos de ele ser alemão coincidir com a descrição física do
criminoso e de ser um carpinteiro e teremos o maior de todos os suspeitos desta história.
Em poucos minutos a polícia o prendeu, revistou e algemou. Em sua carteira encontraram
uma nota de vinte dólares antiga dobrada em oito partes. Ele disse que tinha outras mais em
sua casa e que guardara as notas de valor recebido em ouro como uma garantia contra a
inflação. Na Alemanha, depois da Primeira Guerra, havia uma inflação enorme.
Hauptmann forneceu algumas informações básicas a seu respeito. Seu primeiro nome era
Bruno, mas todos o conheciam por Richard, seu segundo nome. Durante a guerra servira por
vinte meses na 103ª Divisão de Infantaria do Exército alemão, convocado quando tinha apenas
14 anos. Na guerra perdera dois irmãos mais velhos. A primeira vez que viera para a América
fora como clandestino no transatlântico Hanover, mas fora descoberto quando o navio aportara
e mandado de volta à Alemanha. Um mês mais tarde ele se escondeu no mesmo navio, mas foi
novamente descoberto antes que zarpassem. Escapou da prisão atirando-se ao mar. Dois meses
mais tarde, desta vez como clandestino no S. S. George Washington, ele conseguiria, afinal,
entrar nos Estados Unidos. Hauptmann podia ser acusado de tudo, menos de falta de
determinação. Trabalhara como lava-pratos, mecânico e, depois, como carpinteiro. A 10 do
outubro de 1925 casara-se com a garçonete Anna Schoeffler. Oito anos mais tarde tiveram um
filho, Manfred, apelidado Bubi. Anna Hauptmann trabalham numa padaria e num restaurante,
mas, em dezembro de 1932, abandonara o trabalho para dedicar-se aos cuidados de Bubi e da
casa, em tempo integral.
Quando revistaram seu apartamento, para surpresa de Anna, ficaram admirados com a
elegância dos móveis caros e, em particular, com um grande rádio de pé, último modelo, e que
custava trezentos dólares, uma soma enorme naqueles dias, especialmente durante a
Depressão. Voltando da rua, Anna não tinha ideia do que faziam todos aqueles policiais em sua
casa e nenhum deles lhe dava qualquer explicação. Quando entrou em seu quarto, encontrou
seu marido perto da cama, algemado a um policial. Em alemão, Hauptmann lhe disse que a
polícia estava ali por causa de um problema de jogo que tivera na noite anterior.
Os detetives perguntaram onde escondera o dinheiro do resgate do sequestro Lindbergh.
Ele insistiu não saber nada do caso. Apontando através da janela para a garagem, o agente
especial do FBI, Thomas H. Sisk, indagou se era ali que guardara o dinheiro. Hauptmann disse
que não havia qualquer outro dinheiro, além do que estava no apartamento. Inquirido se tinha
ficha na polícia alemã, respondeu que não.
A polícia recolheu 17 livros de anotações com a intenção de comparar a caligrafia. Num
deles encontraram um desenho detalhado de uma escada similar àquela usada no sequestro.
Bruno Richard Hauptmann foi levado para o 2° Distrito do Departamento de Polícia de
Nova York, no sul de Manhattan, onde foi fichado. Uma equipe de peritos passou um pente
fino, em seu carro procurando por sangue, cabelos e fibras. Nada foi encontrado e suas digitais
não combinavam com nenhuma daquelas encontradas na escada. Além dos livros de anotações,
a polícia fez com que Hauptmann escrevesse uma quantidade enorme de textos como amostras
de caligrafia. Vários deles apresentavam semelhanças com as cartas de resgate.
Durante o período inicial de sua prisão, foi espancado e maltratado, além de ficar horas
sem comer ou dormir. O fato de que isto fosse uma prática comum naqueles tempos não torna
menos deplorável e brutal o abuso dos direitos de um prisioneiro.
Em longas horas de interrogatórios, os detetives conseguiram mais detalhes da vida
pessoal de Hauptmann. Ele trabalhara como carpinteiro com o bom salário de um dólar por
hora até abril/maio de 1932, quando decidiu abandonar a maior parte de seus trabalhos para
dedicar-se ao mercado de capitais, onde, segundo ele, fazia investimentos com muito sucesso
desde o ano anterior. Isto, é bom lembrar, no auge da Grande Depressão e sendo ele um
imigrante ignorante. Na época do sequestro, Hauptmann disse que trabalhava como carpinteiro
para o Majestic Apartments, um condomínio em Manhattan. Também reconheceu que já
comprara madeira na Companhia National Lumber Millwork. Admitiu possuir economias no
valor de trezentos dólares em notas antigas de valor recebido em ouro, mas não sabia explicar
como as notas do sequestro lhe chegaram às mãos.
A polícia o colocou numa linha de identificação feita com descuido, todos os homens,
com ele na linha, eram policiais bem mais altos e mais fortes que ele. O taxista Joseph Perrone
o identificou. Condon, para profundo aborrecimento da polícia, não foi capaz ou não quis fazê-
lo. Para os detetives, Condon mais uma vez fazia um de seus joguinhos.
Na quinta-feira, 20 de setembro, enquanto Hauptmann continuava a ser interrogado, a
polícia deu uma busca na garagem nos fundos de seu prédio. Arrancando uma tábua, pregada
entre duas travas de madeira, um detetive descobriu uma prateleira, com cem notas de dez
dólares, cuidadosamente embaladas. Um outro pacote continha mais 87 notas. Um segundo
detetive encontrou, escondidos num galão de verniz vazio, mais doze pacotes com notas de dez
e vinte dólares. Ao todo foram encontrados US$ 11.930 na garagem, todas as notas eram parte
do resgate. Estava explicado por que Hauptmann mantinha a garagem sempre fechada.
Confrontado com esta evidência, Hauptmann admitiu que mentira sobre o dinheiro, mas
insistiu na verdade de tudo o mais que dissera e que não sabia sobre o sequestro. O dinheiro,
segundo disse, fora deixado com ele por seu amigo e sócio num negócio de importação de
peles, um imigrante alemão chamado Isidor Fisch.
Fisch se transformaria no nome mais misterioso associado ao sequestro Lindbergh. Em
dezembro de 1933, sofrendo de tuberculose, Fisch abandonara Nova York e voltara para a
Alemanha. Fora para sua cidade natal, Leipzig, onde faleceu no dia 29 de maio de 1934. De
acordo com a história de Hauptmann, Fisch deixara com ele algumas coisas guardadas,
incluindo várias malas e baús, além de uma caixa de sapatos amarrada com um barbante. Ele
não tivera curiosidade em saber o que continha a caixa e a guardara na prateleira mais alta do
armário da cozinha, onde ela ficara até recentemente, quando uma forte chuva causara uma
goteira que inundara o armário. Removendo as coisas molhadas, ele encontrara e abrira a
caixa, para sua surpresa, dentro dela havia US$ 15.000. Sem dizer nada a Anna, secara o
dinheiro e o escondera na garagem. Ele começara a usar o dinheiro em agosto de 1934.
Achava-se no direito de gastar parte do dinheiro porque Fisch lhe devia US$ 7.000 ao deixar a
América.
Os parentes de Fisch na Alemanha disseram que ele morrera na miséria e seus associados
na América alegaram que ele deixara várias dívidas sem pagar. É interessante notar que, depois
da morte de Fisch, Hauptmann escrevera para sua família contando sobre o que Isidor deixara
com ele, mas não dissera nada do dinheiro ou da caixa.
Então vieram à tona novas informações que pioraram ainda mais a posição de Hauptmann.
Descobriu-se que ele mentira também a respeito de seu passado na Alemanha. Longe de ter
uma ficha limpa com a polícia de sua terra natal, como declarara nos interrogatórios, fora
condenado por furto, furto agravado, assalto à mão armada e receptação em 1919, quando
tinha vinte anos. Havia nove processos no registro do Tribunal de Bautzen, segundo um
memorando da polícia de 2 de novembro de 1934. Numa das vezes, ele entrara na casa do
Prefeito de Bernhbruch, usando uma escada encostada à janela do segundo andar. A acusação
de assalto à mão armada era por roubar as compras de mercado de duas mulheres, usando uma
pistola. Ele terminara passando mais de três anos na Penitenciária de Bentzin, em Seconsen, na
Alemanha. Ele viera para a América porque estava para ser preso por outra série de furtos.
Havia fugido da prisão várias vezes e uma delas escapara saltando de um carro da polícia.
Durante o verão de 1932, quatro meses depois do sequestro, ele mandara Anne numa viagem à
Alemanha, cujo propósito era descobrir se a polícia ainda estava atrás dele ou se poderia voltar
em segurança. Disseram-lhe que se voltasse seria imediatamente jogado na prisão e, assim,
morreu esta esperança.

Apesar das ameaças e dos maus-tratos nas mãos da polícia de Nova York, Hauptmann não
confessava nem admitia saber de algo sobre o sequestro. Havia ainda o problema de Condon,
que recusava a se comprometer com uma identificação definitiva. Ainda assim, com estes
obstáculos, tanto a polícia de Nova York, quanto a de Nova Jersey, sabiam o que tinham nas
mãos. Depois de dois anos de buscas infrutíferas, punham diante dos olhos um grande
suspeito.

RELATÓRIO PÚBLICO
No dia 8 de outubro de 1934, o povo do condado de Hunterdon, em Nova Jersey, acusou
Bruno Richard Hauptmann do assassinato de Charles Augustus Lindbergh Jr. Uma semana
depois, ele foi colocado sob custódia na prisão do Condado de Hunterdon, em Flemington, à
espera de julgamento. O New York Journal, de William Randolph Hearst, contratou os serviços
do proeminente advogado Edward J. Reilly, do Brooklyn, para sua defesa, em troca da história
exclusiva de Anna Hauptmann. Reilly, no fim de uma brilhante carreira, bebendo muito,
parafraseava o personagem de Shakespeare, rei Lear: "para dizer com clareza... não em (seu)
perfeito juízo". Ele estava convencido de que Hauptmann era culpado e, de propósito, evitou
ter um contato mais estreito com ele antes do julgamento. Para a assistência a Reilly, foram
contratados três advogados de Nova Jersey — C. Lloyd Fisher, Frederick A. Pope e Egbert
Rosecrans —, que acreditavam em sua inocência e ofereceram uma defesa bem mais efetiva,
especialmente Fisher, que continuou apoiando Hauptmann até o final.
No dia 2 de janeiro de 1935, começou o julgamento no Tribunal do Condado de
Hunterdon, em Flemington, Nova Jersey, presidido pelo juiz Thomas W. Trenchard. David T.
Wilentz encabeçava a equipe da promotoria. Se o sequestro fora o crime do século, este era o
julgamento do século, com jornalistas de todo o mundo acorrendo para Flemington. Centenas
de linhas extras de telefone foram instaladas no Tribunal e as ruas defronte se transformaram
num parque de diversões. H. L. Mencken chamou o julgamento de "a maior história desde a
ressurreição de Cristo". Pela primeira vez filmadoras sonoras foram usadas para registrar um
julgamento. E, resultado disso, foram depois banidas por meio século.
A imprensa, como a maior parte do público, já decidira que Hauptmann era culpado. A
ideia era que um americano não seria capaz de cometer tamanha barbaridade; apesar dos
frequentes sequestros de pessoas menos famosas, cometidos por esses mesmos americanos.
Embora não o tenha feito antes, no julgamento Condon identificou Bruno Richard
Hauptmann como John Cemitério. Lindbergh também identificou sua voz. Durante cinco dias
de testemunhos, oito peritos em análise de documentos, incluindo Albert S. Osborn e seu filho
Albert D., declararam que, em sua opinião profissional, Hauptmann era o autor das cartas. Um
perito, testemunhando pela defesa, discordou desta conclusão.
Já Arthur Koehler, por sua vez, afirmou que a madeira de uma das laterais da escada usada
no sequestro fora tirada de uma tábua do assoalho do sótão da casa de Hauptmann.
No dia 24 de janeiro, Hauptmann sentou-se no banco das testemunhas, para falar em sua
defesa, dando início a cinco dias de testemunho exaustivo, incluindo 11 horas de uma
acareação brutal feita pelo promotor David Wilentz.
No dia 13 de fevereiro, após 29 sessões da Corte, 162 testemunhos e apresentação de 381
peças de provas materiais, o júri afinal se retirou para considerar o caso. Depois de 11 horas e
trinta minutos de deliberações o júri voltou com o veredicto de culpado de assassinato em
primeiro grau, sem recomendações para clemência. O que, no estado de Nova Jersey,
significava a morte na cadeira elétrica.
Durante o período de apelação, várias pessoas, inclusive Edward Reilly, procuraram
Hauptmann na prisão na tentativa de fazê-lo confessar o crime em troca da comutação da pena
de morte em prisão perpétua. Ele recusou qualquer tratativa, incluindo as de último minuto,
uma feita pelo famoso criminalista Samuel Leibowitz e outra, pelo próprio Governador do
estado de Nova Jersey, Harold G. Hoffman, a quem não convenceram plenamente as
investigações nem o julgamento.

Depois de terem todos os apelos se esgotado, Bruno Richard Hauptmann continuou a


insistir em sua completa inocência. Hauptmann morreu na cadeira elétrica da Prisão Estadual
de Nova Jersey, em Trenton, no dia 3 de abril de 1936. A controvérsia em torno de sua culpa
ou inocência se recusou a morrer com ele.
Com pouquíssimas exceções menores, tudo que dissemos até agora neste capítulo são
fatos — ou uma razoável e aceita interpretação dos mesmos. A partir daqui, o que discutiremos
é matéria de disputa. Um dos maiores problemas com o caso Lindbergh e, também, a principal
razão que o faz intrigante e controverso até os dias de hoje, quase setenta anos depois, pode ser
resumido assim: em que provas ou em que testemunhos devemos acreditar?
Milhões de palavras já foram escritas sobre o caso e a cada nova geração apareceram
brilhantes defensores de ambos os lados. Em nossos dias, o mais bem informado e articulado
defensor da tese da culpabilidade solitária de Hauptmann é Jim Fisher. Em minha opinião, ele
pesquisou o que era possível para a preparação de seu livro, The Lindbergh Case, e do
subsequente, The Ghosts of Hopewell [Os fantasmas de Hopewell], Outro autor que também
chega à mesma conclusão, em seu Lindbergh, é A. Scott Berg, um dos mais famosos e
respeitados biógrafos atuais. Do outro lado temos Anthony Scaduto com Scapegoat [O bode
expiatório], de 1976, e o livro de 1985, de Ludovic Kennedy, The Airman and the Carpenter:
The Lindbergh Kidnapping and the Framing of Richard Hauptmann [O aviador e o carpinteiro:
o sequestro Lindbergh e a inculpação de Richard Hauptmann], Os títulos bastam para explicar
suas posições.

Cada autor aceita um conjunto separado de fatos. E, num desses, a culpa de Hauptmann é
bastante duvidosa, mas, no outro, é óbvia.
Consideremos, a seguir, as peças de evidência que selaram o destino de Bruno Richard
Hauptmann.

O DINHEIRO DO RESGATE

Isto é algo muito difícil de questionar. Hauptmann não só tinha consigo quase um terço do
resgate, mas também ainda mentiu a respeito disso para a polícia. No mínimo ele teria uma
ligação, direta ou indireta, com os sequestradores. Como mencionamos antes, eram tantos os
sequestros no final da década de 1920 e no início da de 1930, que se desenvolveu uma
subindústria para a lavagem do dinheiro. Passou a ser comum que um sequestrador ou
qualquer outro criminoso desse seu dinheiro ilegal para outra pessoa o tornar legal em troca de
uma percentagem e, com isso, impedir que a polícia chegasse até sua real origem. Hauptmann
e/ou o misterioso Isidor Fisch podem ter comprado o dinheiro dos sequestradores. Ou é mesmo
possível que o dinheiro já estivesse legalizado quando chegou a qualquer um dos dois.
No entanto, não consigo aceitar que Hauptmann pegou a caixa de sapatos fechada de
Fisch e, sem a menor curiosidade, guardou-a no armário da cozinha. Isso me parece mal
contado. E, se uma chuva não molhasse o armário, ele nunca olharia seu conteúdo?
Mais importante ainda é a coincidência da data da aposentadoria de Hauptmann, na
carpintaria, com a do pagamento do resgate. A investigação nos mostra que, desde abril de
1932, ele não tinha nenhum dinheiro. E, ainda, devemos acreditar que um carpinteiro
imigrante, que jamais demonstrara habilidade alguma para ganhar dinheiro no mundo dos
negócios, de um momento para o outro, enquanto investidores profissionais estavam indo à
falência, conseguisse ganhar na bolsa de valores o bastante para sustentar a família com o
conforto de móveis novos e de um rádio caríssimo? Basta um olhar sobre o histórico do
suspeito para vermos que, neste caso, este não combina com sua versão.
Depois da prisão de Hauptmann, o dinheiro do resgate parou de aparecer. Por outro lado, é
bom lembrar que mais da metade do resgate nunca foi encontrado.

AS CARTAS DE RESGATE

Ao todo foram 15 as cartas de resgate. A quantidade de poder de fogo concentrado dos


peritos, reunidos pela acusação, foi impressionante. Sem nenhuma dúvida, Hauptmann falava e
escrevia de forma idêntica à fraseologia do sequestrador e muitas de suas palavras e
construções, tomadas das inúmeras amostras escritas, eram muito parecidas às das cartas do
sequestro. Por exemplo, ele dizia e escrevia "asignaturra", como aparecia repetidamente em
várias cartas.
Os advogados de Hauptmann alegaram que os peritos apenas afirmaram que ele escrevia
da mesma maneira — e com o mesmo estilo europeu — de quem escrevera as cartas. E que
chegariam ao mesmo resultado se as comparassem com o modo de escrever de inúmeros
outros imigrantes como ele. Eu não sou um grafologista, mas tenho trabalhado com vários
deles ao longo dos anos; e, apesar de não ser uma ciência exata, as provas são bastante
sugestivas, para mim, de uma grande coincidência entre as cartas de resgate e a caligrafia, a
sintaxe e a ortografia de Hauptmann.
No início da investigação, antes da prisão de Hauptmann, um analista da Scotland Yard
concluíra que a assinatura dos círculos azul e vermelho entrelaçados com furos sugeria as
iniciais BRH, com a cor azul sendo B (blue), vermelho sendo R (red) e os furos sendo H
(holes). A ideia não chega a me convencer, especialmente porque Hauptmann, na época do
sequestro, não usava mais o nome Bruno, mas imagine se fosse assim; seria impressionante.
Com toda a minha experiência em análise psicolinguística e perfil psicológico, admito que isso
jamais me ocorreria.

TESTEMUNHAS OCULARES E AUDITIVAS

A acusação aproveitou ao máximo as testemunhas capazes de reconhecer Hauptmann nos


diversos estágios do caso. A lista incluía vizinhos de Lindbergh, que o viram rondando de
carro pela área antes do crime; o taxista, que levara a carta à casa de Condon; o próprio
Condon; Lindbergh; a caixa do cinema em Greenwich Village; e o frentista no posto de
gasolina, que escrevera a placa do carro na nota de dez dólares deixada por ele.
De todos estes, o testemunho de Condon é o mais importante. Ele fora o único que
estivera com John Cemitério e que, por duas vezes, conversara longamente com ele. Condon
não se sentira seguro para identificar Hauptmann na polícia, ainda assim, quando o caso
chegou aos tribunais, ele o reconheceu com toda segurança como o homem que vira. O que
teria acontecido entre estas duas situações?
O que certamente aconteceu é que a polícia ou a promotoria o convenceu. O físico de
Hauptmann correspondia em tudo à descrição de John Cemitério. Havia uma grande
quantidade de provas contra ele e a polícia estava segura de sua culpa. Mas Condon não estava
completamente convencido de que o homem na linha de identificação fosse o mesmo com
quem lidara. Ele encarava com muita responsabilidade seu papel de testemunha e não queria
incriminar um inocente nem levar a polícia por uma falsa pista. Mas, antes do julgamento,
alguém o procurou, com alguma variante da seguinte argumentação:

Dr. Condon, nós sabemos que Hauptmann é nosso homem, o que, inclusive, coincide
com e confirma sua descrição. Se houver uma identificação positiva de sua parte, nós
conseguiremos condená-lo. Sem ela, o júri ficará confuso e a defesa terá mais
argumentos para tentar colocar em liberdade o brutal assassino do pobre bebê e a dor da
família Lindbergh, que o senhor admira tanto, não terminará nunca.

Condon tinha exatamente o tipo de personalidade narcisista susceptível a este tipo de


apelo. Deixe alguém trabalhá-lo um pouco e ele ficará cada vez mais seguro do que viu. Esta é
a razão pela qual sempre quero que as testemunhas oculares sejam corroboradas por algum tipo
mais objetivo de evidência.
O mesmo tipo de situação poderia ter ocorrido com Lindbergh:
Coronel, nós pegamos o homem certo, o homem que levou seu menino. O senhor já
declarou que a voz tinha um sotaque alemão. Tudo que precisamos é que agora o senhor
confirme que o sotaque era com certeza o de Hauptmann.

Cada uma das outras testemunhas tinha seus próprios motivos. Um dos vizinhos esperava
receber uma recompensa. Outros relatavam encontros tão casuais, que seria pouco possível
lembrar de um desconhecido e identificá-lo meses depois. E isto era tudo que a polícia tinha
que ligasse Hauptmann à cena do crime.
Não estou afirmando que identificaram a pessoa errada. Talvez as testemunhas tenham
visto e ouvido Bruno Richard Hauptmann. Talvez sim, talvez não. O que estou dizendo é que
nenhuma destas testemunhas, inclusive Condon e Lindbergh, parece confiável o bastante. Em
nossa busca pela verdade elas devem ser ignoradas, num sentido ou noutro.
Um fato, porém, vale a pena ressaltar. Se fosse acurada a identificação feita por Cecile
Barr, a bilheteira do cinema, isto significaria que Hauptmann já tinha o dinheiro do resgate
muito antes da data em que, segundo ele, recebera a caixa de sapatos com o dinheiro de Fisch.

O FORMÃO

A polícia encontrou na cena do crime, junto com a escada, um formão de carpinteiro de


3/4 de polegada, da marca Buck Brothers. O criminoso, presumiram, levara o formão para
forçar a janela, caso isto fosse necessário. Quando a polícia examinou a caixa de ferramentas
de Hauptmann, faltava apenas um formão, o de 3/4 de polegada. Não é o mesmo que um
flagrante delito, mais é uma fortíssima prova circunstancial.
Em seu livro The Airman and the Carpenter, Ludovic Kennedy declara que dois formões
de 3/4 de polegada, um da marca Buck Brothers e outro da marca Stanley, foram encontrados
pela polícia, que os guardou até quando foram descobertos por Anthony Scaduto. Indagamos
de Mark W. Falzini sobre o fato. Falzini, arquivista da Polícia Estadual de Nova Jersey, com
um sólido conhecimento do caso e das provas e sem uma opinião formada sobre a culpa ou a
inocência de Hauptmann, disse não ter ideia de onde veio a informação de Kennedy e Scaduto.
E que estes formões nunca estiveram sob a custódia da polícia.
Mais um exemplo de informações contraditórias à escolha.

OS NÚMEROS ATRÁS DA PORTA


Na segunda-feira, 24 de setembro de 1934, quatro dias depois da descoberta do dinheiro
do resgate na garagem, o inspetor Henry D. Bruckman, da Polícia de Nova York, descobriu um
endereço e um número de telefone escrito a lápis no interior da porta de madeira de um armário
no quarto do filho de Hauptmann. O número era do antigo telefone de Condon, antes que ele o
trocasse por um não-listado; ou seja, era o número do telefone de Condon no tempo dos
encontros com John Cemitério. E o endereço também era o da casa de Condon. Bruckman,
inclusive, encontrou os números de série anotados em duas notas, uma de quinhentos dólares e
de outra de mil dólares.
Quando questionado sobre isto pelo Procurador do Condado do Bronx, Samuel J. Foley,
Hauptmann reconheceu que a caligrafia parecia a sua, mas não se recordava de escrever os
números e continuou negando qualquer envolvimento com o sequestro. Perguntado por que
razão escreveria aqueles números no interior da porta, ele sugeriu que poderia se referir a
alguma notícia nos jornais sobre o sequestro.
"Devo ter lido no jornal" — declarou a Foley. "Eu me interessei um pouco pelo caso e
cheguei a tomar algumas notas. Talvez estivesse ali lendo o jornal quando escrevi."
Como?
Ludovic Kennedy sugere que a evidência fora fabricada por algum dos inúmeros
jornalistas que tiveram acesso ao apartamento; na verdade ele chega mesmo a propor um
nome. E argumenta que Hauptmann não teria razão para escrever o número, por não possuir
um telefone em sua casa.
Primeiro, vejamos a segunda parte dos argumentos de Kennedy. As pessoas anotam
números de telefones, até quando não têm um telefone em casa, porque pretendem telefonar,
mesmo que seja de um telefone público. E quando isto é parte de uma atividade ilegal, as
pessoas costumam esconder a anotação; e o interior do armário de uma criança é um
esconderijo tão bom quanto outro qualquer.
Quanto à possibilidade de ser uma evidência forjada? Sim, é possível, especialmente
naquele tempo, quando a cena do crime não era protegida como hoje em dia (mesmo agora,
muitas vezes a cena de um crime não é protegida com o devido cuidado). Mas o que não faz
sentido é que alguém, tão cuidadoso quanto Hauptmann, admita ser a sua caligrafia, se ele não
tinha certeza disso.
Dele eu esperaria algo assim: "Não tenho a menor ideia de como estes números foram
parar aí. É a primeira vez que os vejo. Se isto é uma prova, alguém a forjou e colocou onde
está!" Mas isto não foi o que ele disse. Donde, ou ele sabia que escrevera, ou não se lembrava,
mas sabia que era possível e não queria ser pego em outra mentira.
O ÁLIBI DO MAJESTIC

Um dos aspectos mais controversos do julgamento foi a data em que Hauptmann começou
a trabalhar no Majestic Apartments. Segundo ele, no dia primeiro de março de 1932, o dia do
sequestro, estivera trabalhando ali até as 17:00h, o que tornaria quase impossível que ele
estivesse em Hopewell na hora do crime. A acusação alegou que tanto o cartão de ponto
quanto a folha de pagamento indicavam que Hauptmann só começara a trabalhar no dia 16 de
março.
Ludovic Kennedy mostra evidências de que a folha de serviço, que provaria que
Hauptmann trabalhara em Manhattan no dia primeiro de março, como carpinteiro, foi
adulterada para parecer que ele só começara depois do dia 15. O promotor David Wilentz e o
procurador distrital do Bronx viram o documento e o enviaram para a guarda do Departamento
de Polícia de Nova York. Estas folhas de pagamento desapareceram. As folhas que mostram
Hauptmann abandonando o emprego a 2 de abril parecem também adulteradas. A defesa
intimou o supervisor do Majestic, Edward Morton, para comparecer com seus registros em
outra audiência, mas Morton não compareceu. Existe lama suficiente para jogar sérias dúvidas
sobre o trabalho da promotoria no que se refere ao álibi de Hauptmann.

A RIPA 16

Esta é sem dúvida a peça de prova material mais importante e basilar no caso contra
Bruno Richard Hauptmann, e uma das mais famosas da moderna criminologia, ao lado da
"bala mágica" do assassinato de John Kennedy e da luva do caso Simpson.
Primeiro, consideremos a escada em si. Ela foi descrita, em várias ocasiões, como
rudimentar e artesanal, mas quando vista com mais cuidado ela mostra o quanto é engenhosa.
O que a faz parecer rudimentar é sua leveza e os degraus serem muito mais afastados que
numa escada normal. Devia ser leve para ser transportada com facilidade e, quando Mark
Olshaker e eu a examinamos, pensamos que quem a construíra sabia exatamente o quanto
podia espaçar os degraus e ainda assim ser capaz de subir por ela. Nenhum peso além do
necessário. A forma em que ela se desmonta é também bastante engenhosa. As duas primeiras
secções, unidas por dobradiças, e a terceira, com um encaixe na segunda, caso fosse necessário
alongá-la mais. A escada fora bem planejada por alguém capaz de visualizar o que queria.
Alguém como um carpinteiro.
E não podemos esquecer do projeto de uma escada, desenhado num caderno de notas de
Hauptmann.
E, então, temos as duas frentes de pesquisa de Arthur Koehler. Na primeira, utilizou
amostras da madeira e o padrão de corte da lâmina, utilizada pela serraria, para determinar a
provável localização de origem, embarque e venda das peças. Seria apenas uma espantosa
coincidência terem chegado a uma serraria no Bronx? Mais espantosa ainda se considerarmos
que Hauptmann trabalhara para a National Lumber Millwork. Claro, que como tudo mais neste
caso, houve quem questionasse o método de pesquisa, as técnicas e as intuições de Koehler,
mas não ouvi nenhum argumento que provasse sua análise incorreta.

E agora, entraremos no âmago do caso da escada. Na quarta-feira, 26 de setembro de


1934, dois dias depois que Henry Bruckman encontrara o número de telefone e o endereço no
interior da porta do armário de Manfred, a polícia continuava suas buscas no sótão de
Hauptmann. Segundo a versão oficial, encontraram uma falha no assoalho; uma das ripas do
chão, com 2,5 m de extensão, fora removida. No espaço vazio ainda estavam as marcas de
pregos nos quatro pontos onde ela estivera pregada. Koehler concluiu, pelo tipo da madeira e
pelos furos dos pregos, que combinavam, que a ripa 16 da escada era a mesma ripa retirada do
assoalho do sótão de Hauptmann. A teoria da acusação era que faltara madeira e Hauptmann
usara a que tinha à mão.
Mas, como tudo mais no caso, esta teoria criou polêmica. Os defensores de Hauptmann
argumentam que a polícia já revistara o sótão várias vezes antes de descobrir que havia um
buraco no assoalho de 2,5m. Como é que não notaram antes? Outro argumento foi que a
polícia isolara o apartamento por vários dias e criara um atrito, não permitindo a entrada nem
mesmo ao FBI. O assunto fora resolvido como um mal-entendido sobre jurisdição, segundo
um memorando de 28 de setembro do próprio Edgar J. Hoover, que, embora aborrecido,
aceitava as explicações da polícia. Mas tecnicamente, se a polícia quisesse fabricar uma prova,
tivera uma ótima ocasião.
Bem, havia a oportunidade e o motivo. Mas estudemos com mais cuidado a questão. Nós
examinamos a escada e a análise de Arthur Koehler das fibras da madeira e a achamos
conclusiva, apesar de reduzida de vários centímetros, a ripa 16 da escada seria a ripa retirada
do assoalho.
O que significa que, se policiais de fato forjaram a prova, removeram a ripa 16 da escada
e a substituíram por um pedaço daquela que estava no assoalho. Tiveram que colocar parte da
madeira, com que substituíram a ripa 16, no assoalho, e destruir a original, assegurando-se de
que a substituição se parecesse bastante com ela para que a diferença não aparecesse, se
comparada com as fotografias da escada, feitas logo após o crime.
Além de tudo isso, os policiais envolvidos numa armação deste porte deveriam ter a mais
absoluta confiança uns nos outros e estar seguros de que nenhum dos participantes no esquema
jamais contaria nada. Porque, se descobertos, colocariam em risco todo o caso contra
Hauptmann, perderiam seus empregos e pegariam pesadas penas de prisão por falsificação de
provas. Uma coisa é tentar influenciar uma testemunha para que seja um pouco mais positiva
numa identificação. Outra, muito diferente, é fabricar e plantar uma prova material,
especialmente quando o FBI está envolvido no caso. Fazer desaparecer uma folha de
pagamento que quase ninguém viu é bem diferente de destruir e substituir parte de uma prova
material como a escada.

Apesar de achar estranho que um carpinteiro, com facilidade para conseguir toda a
madeira que precisasse, recorresse a um pedaço do próprio assoalho para conseguir uma ripa,
ainda assim, penso ser muito pouco possível que a ripa 16 fosse forjada por policiais.

JUNTANDO AS PARTES

Acho bastante questionável ter sido o julgamento de Bruno Richard Hauptmann justo.
Mesmo deixando de lado a atmosfera de circo que o envolveu, a sede de sangue e vingança,
que tomou conta da opinião pública, e o preconceito contra estrangeiros, em particular contra
um estrangeiro cujo país fora inimigo dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, vários
outros fatores o prejudicaram muito. O advogado Edward Reilly, chefe da equipe de defesa,
acreditava que seu cliente era culpado e, reservadamente, declarou esperar que fosse
condenado à morte. Reilly teve atritos com o resto de sua equipe sobre a forma de conduzir o
caso e esteve com Hauptmann por apenas 38 minutos antes do julgamento. Trouxe apenas um
perito, cujo testemunho foi pouco convincente para disputar a alegação da autoria das cartas, e
dispensou uma perita em caligrafia, que estava convicta de poder provar que Hauptmann não
as escrevera. Sua defesa final, num discurso de cinco horas, caótico e claudicante, foi feita sob
efeito etílico, após beber muito durante o almoço. A maioria dos presentes achou que Reilly
estava completamente bêbado.

Levando em consideração não apenas que o principal advogado de Hauptmann meteu os


pés pelas mãos, mas também tanto a forte possibilidade de que as testemunhas fossem
pressionadas pela polícia, quanto ter sido Hauptmann torturado na prisão, que mais podemos
dizer deste caso? É indiscutível que Hauptmann não teve um processo perfeito, nem mesmo
justo. Então, é válido discutir se ele era, ou não, culpado.
O leitor talvez tenha notado algo curioso na maneira em que o relato deste caso se
desenrola. Relatando os eventos que começaram na noite de primeiro de março de 1932,
geralmente faço referência a sequestradores — no plural. De fato, tanto a polícia de Nova
Jersey quanto o FBI trabalhavam com o pressuposto de mais de um criminoso. No entanto, a
partir da prisão de Bruno Hauptmann qualquer ideia de que havia mais alguém envolvido foi
abandonada. Na verdade, desde a identificação de Hauptmann cessaram a maioria dos esforços
— senão todos — para a procura de outros cúmplices.
Faz sentido? Para mim não faz.
Existem algumas evidências de outros envolvidos. A primeira é o fato de Condon
acreditar que ouvira John Cemitério confabular com outra pessoa, enquanto falava com ele ao
telefone. Outra é o fato de que Condon, assim como Al Reich, tiveram a impressão de que,
durante o primeiro encontro no cemitério com John, havia mais alguém vigiando o carro e
verificando a ausência da polícia.

Depois há detalhes nas próprias cartas. Não aquele de estarem redigidas no plural;
escrever "nós" ou "eu" na verdade nada estabelece. O que sempre digo a meu pessoal é que
analisem a comunicação e seu sentido como um todo. E, neste caso, há a história bastante
elaborada a respeito de como o bebê estava sendo bem cuidado, por duas enfermeiras e a bordo
de um barco. Uma história falsa, já que o bebê estava morto desde a noite do sequestro, mas
elaborada demais para ter sido inventada por alguém tão pouco sofisticado quanto Hauptmann,
apenas para coletar o resgate. Em minha opinião, a história de como, onde e por quem o bebê
era cuidado representa a versão original do plano, o que "deveria ter" acontecido. A morte de
Charlie alterara tudo, mas, não podendo dizer a verdade e ainda assim cobrar o resgate, a
solução era manter a história original em todos os detalhes, até mesmo chegando a despir o
cadáver de seu macacão antes de abandoná-lo. Tudo isto indica mais de um criminoso.
E a própria cena do crime sugere o mesmo. Mark, eu e nossa pesquisadora, Katherine
Johnston Ramsland, passamos muitas horas examinando a casa em Hopewell. Ela abriga hoje
um colégio estadual para rapazes, mas o prédio continua quase como Lindbergh o deixou, até
nos entalhes das paredes forradas de madeira, na biblioteca, e no aparador da lareira no quarto
do bebê, coberto de azulejos holandeses.
Examinando a casa e os campos ao redor, bem como a logística do sequestro, parece-nos
inconcebível que uma só pessoa fosse capaz de cometer o crime sem nenhuma ajuda. A
maneira mais fácil e eficiente de colocar a escada seria diretamente na janela do quarto do
bebê, mas isto a deixaria em frente da janela da biblioteca, no andar de baixo, onde Lindbergh
costumava sentar-se para ler. Então a escada foi deslocada para o lado, o que corresponde com
as marcas deixadas no terreno, fazendo a entrada e a saída pela janela do quarto extremamente
complicadas. Seria quase impossível para o criminoso, manobrando desta posição, abrir a
janela e entrar. Mais difícil ainda seria sair por ela, carregando o bebê, e alcançar outra vez a
escada sem cair ou deixar escapar de suas mãos o saco com a criança. A única forma de pegar
a criança, com a escada naquela posição, seria se alguém do interior do quarto a entregasse
pela janela.
Seria o trabalho de dois intrusos? Ou algum dos domésticos passou a criança para um
intruso? As duas coisas são possíveis, mas a teoria de dois intrusos parece fazer mais sentido,
porque não existe nenhuma boa razão para suspeitar que os domésticos da casa, presentes
naquela noite, tivessem qualquer envolvimento com o sequestro. Mas alguém teve tempo para
limpar o quarto de impressões digitais, alguém que conhecia bem o lugar para fazer isto sem
perder muito tempo. Não consigo acreditar que uma pessoa fosse capaz de fazer tudo isso:
dirigir até tão perto de casa à noite, carregar a escada, o saco e o formão, subir até a janela,
abri-la, entrar por ela e levar o bebê. E, tudo isso, sozinha? Não, mais de uma pessoa participou
do sequestro naquela noite.
Some a toda esta logística a informação necessária ao crime: os sequestradores sabiam
estar a criança onde não deveria naquela noite. Poucas pessoas sabiam que o bebê não
retornara a Next Day Hill e permanecera em Hopewell. Será que Hauptmann desconhecia tanto
os hábitos da família, que foi apenas uma questão de sorte e coincidência que a criança
estivesse em Hopewell justamente naquela terça-feira em que ele resolveu sequestrá-la? Parece
muito pouco provável.
Ou será que Hauptmann foi primeiro a Next Day Hill e, depois de descobrir que a criança
não estava lá, voltou para o carro com sua escada e dirigiu por uma hora através de meio
estado para chegar a Hopewell e completar sua missão? E como será que descobriu que Charlie
não estava em Next Day Hill? Será que entrou pela janela e, não encontrando o bebê no quarto,
partiu? Ou bateu na porta e perguntou, como quem nada quer, onde poderia encontrar a
criança? E fez tudo sem que ninguém o visse? Não faz nenhum sentido nem combina com o
planejamento de tempo e hora com que o sequestro foi executado em Hopewell.
Quem quer que tenha levado a criança naquela noite possuía informações de dentro da
casa. Não quer dizer que um dos domésticos estivesse participando do crime de forma
consciente, mas apenas que alguém, provavelmente Violet Sharpe, deixou a informação
escapar para alguém ligado aos sequestradores. Apesar de toda a investigação, nenhuma
ligação foi descoberta entre Hauptmann e alguém que pudesse ter-lhe dado esta informação.

QUEM FOI QUE FEZ ISTO?

Mas, afinal, foi ou não foi Bruno Richard Hauptmann?


Bem, certamente, acho que ele fez algo. Se não fez, foi vítima de uma incrível — jamais
vista — falta de sorte em toda a história da investigação criminal. Seria mais do que muita
coincidência, que ele fosse um alemão semi-analfabeto enquanto todas as investigações
apontavam para um imigrante de origem alemã e semi-analfabeto como autor das cartas de
resgate; que sua caligrafia, sintaxe e ortografia fossem tão parecidas com a do verdadeiro autor
a ponto de enganar vários peritos; que ele correspondesse à descrição das testemunhas
oculares; que tivesse mapas da região de Hopewell porque, na verdade, costumava caçar
naquela área; que ele viesse para a América de forma ilegal, depois de cometer uma série de
crimes na Alemanha, que incluíam assalto à mão armada e o de uma casa, no qual usou uma
escada para entrar pela janela do segundo andar; que ele fosse um hábil carpinteiro com os
planos de uma escada desenhados em seu caderno de notas e acusado de um crime cometido
com uma escada artesanal; que numa das cartas de resgate houvesse o desenho de uma caixa,
que parecia feito por um carpinteiro; que ele comprasse madeira e já tivesse trabalhado na
serraria de onde provinha a madeira para a escada do crime; que ele guardasse consigo um
terço do dinheiro do resgate e mentisse à polícia a respeito disso; que ganhasse tanto dinheiro e
começasse a viver uma vida mais luxuosa na mesma época em que o resgate fora pago; que ele
vivesse perto dos cemitérios onde aconteceram o primeiro contato e o pagamento do resgate;
que, por um lapso de memória, esquecesse de que tinha escrito no interior do armário de seu
filho o número de telefone e o endereço de Jafsie; que sua falta de sorte e as coincidências
chegassem ao ponto de levá-lo a comprar pregos idênticos àqueles usados na escada do crime.

A lista poderia ser mais longa, mas acho que esta basta para dar uma ideia.
Hauptmann tinha uma personalidade controladora e compulsiva. Como muitos homens de
sua geração, controlava o dinheiro e tomava todas as decisões em casa. Sua mulher aceitava
isto de forma dócil e voluntária. Ele mantinha segredo sobre várias coisas que não contava a
ela e ninguém jamais sugeriu que ela soubesse algo sobre o sequestro ou sobre o dinheiro
guardado na garagem. Ela não sabia nem que seu primeiro nome era Bruno até ser informada
pela polícia. Ela acreditava nele e é compreensível que ele não quisesse desapontá-la, mesmo
que isto lhe custasse a vida.
Assim, minha conclusão é que Bruno Richard Hauptmann estava envolvido no sequestro,
embora não trabalhasse sozinho nem fosse necessariamente o chefe. Seu histórico mostra ser
ele um homem que gostava de correr riscos, tanto por seus crimes quanto pelas várias
tentativas de entrar nos Estados Unidos. Mais ainda, seu histórico sugere que ele cometia seus
crimes de preferência com cúmplices e não sozinho.
Suspeito que tenha sido contatado por um ou mais indivíduos da comunidade de
imigrantes alemães, devido a seu passado e a sua habilidade como carpinteiro. O dinheiro não
recuperado pode ter sido lavado no depósito bancário de J. J. Faulkner. Sequestros eram
comuns e vistos como uma forma rápida de conseguir dinheiro. E quem poderia ser o alvo
mais tentador do que o homem mais famoso do mundo? Hauptmann pode ter ou não estado na
cena do crime. Talvez tenha dirigido o carro e recebido a criança na escada. Passado tanto
tempo, na falta de provas materiais e impossibilitados de entrevistá-lo, não temos como saber.
Se Hauptmann era mesmo John Cemitério, então creio que ele não esteve na cena do
crime, porque John, em seu primeiro encontro com Condon, fala da carta com a "assignaturra"
como se deixada no berço da criança — talvez fosse assim no plano original —, quando a carta
fora, na verdade, deixada na janela.
Seria possível que um grupo de delinquentes comuns, composto de imigrantes alemães,
conseguisse as informações necessárias sobre a casa para cometer o crime? Creio que seria
possível. A planta da casa fora publicada na imprensa. Não é a mesma coisa que informação de
primeira mão na execução de um crime tão complicado quanto um sequestro, mas é uma
possibilidade aceitável.
Mark Falzini encontrou um documento incrível nos arquivos do caso e nos chamou a
atenção para ele. Um documento do escritório operacional do FBI, em Nova York, pasta 62-
3057, que fazia um sumário do caso em 1932. Numa de suas seções, debaixo do título
"ALOYSIUS WHATELY, também conhecido como OLLY WHATELY", vimos o seguinte:
Whately começou a trabalhar para o Coronel e sra. Lindbergh em 15 de outubro de
1930, junto com sua esposa, como administrador da propriedade dos Lindbergh em
Hopewell, Nova Jersey, onde vivem desde o término da construção da casa. Na ausência
dos Lindbergh, Whately promove visitas guiadas da casa e dos jardins para turistas e
outros curiosos. (O grifo é nosso)

Não é incrível? Qualquer um poderia fazer reconhecimento do local. Isto seria impossível
em Next Day Hill, a residência habitual do bebê, a qual, na verdade, era muito mais
conveniente e perto do Bronx, na outra margem do Hudson. Mas Hopewell, mais vulnerável, é
que seria o local em que o sequestro aconteceria. Isto também era resultado de informação.

Whately morreu em maio de 1933, com cinquenta anos, após prolongada doença; assim,
este ângulo do caso nunca foi explorado.
Seria o misterioso Isidor Fisch o cabeça do bando? É bastante possível, embora pouco se
saiba sobre ele, além do fato de que era um vigarista que lesou amigos e outros investidores,
em milhares de dólares, com negócios duvidosos que incluíam uma fábrica de tortas. Sua
família declarou que chegara à Alemanha sem nenhum dinheiro e sabemos que ele partira dos
Estados Unidos devendo muito; no entanto, segundo Hauptmann ele deixara para trás todo
aquele dinheiro. Inclusive, sabemos que Fisch pediu seu visto de saída dos Estados Unidos no
mesmo dia, 12 de maio de 1932, em que o corpo da criança foi encontrado.
Fisch não correspondia à descrição do tipo físico de John Cemitério, o que significa que
John seria Hauptmann ou então um terceiro membro do bando.
Tenho por várias vezes vindo a público em defesa da pena de morte. Já declarei que seria
capaz de ser pessoalmente o executor de alguns dos monstros que persegui em minha carreira
no FBI. Mas Bruno Hauptmann não se enquadra nesta categoria. As provas que existiam, e
existem, não são suficientes para mandá-lo para a cadeira elétrica. Para executar a única
sentença que não pode ser corrigida, seria necessária uma evidência de culpa que não existe no
caso. Culpá-lo de todo o crime foi uma solução expediente e simplista para um crime que se
transformara numa obsessão nacional.
Uma das coisas que me incomodam é que, mesmo depois de condenado e sentenciado,
após esgotados todos os canais de apelo, quando lhe foi oferecido um meio de salvação,
Hauptmann se recusasse a aceitá-lo. Várias pessoas com autoridade, inclusive o próprio
Governador do Estado, foram a sua cela para dizer-lhe que sua pena seria comutada; bastando
para isto que confessasse sua culpa. Tudo que devia fazer, para salvar a vida e poupar sua
mulher e filho da angústia de uma execução, seria contar quem mais estava envolvido e como
cada um participara do crime.
Ainda assim, Hauptmann se recusou, afirmando ser inocente e não saber quem eram os
sequestradores.
Como não tive a oportunidade de entrevistá-lo, é difícil determinar seus motivos. Baseado
em meu conhecimento de outros criminosos psicopatas, suspeito que sua recusa fosse por
teimosia, arrogância, ou por um código de "honra entre ladrões" que o impedia de delatar seus
companheiros, ou mesmo por desejo de preservar sua família e seu nome. Talvez temesse pela
segurança de sua mulher e seu filho se acusasse os outros. Como já vimos antes, existem
bastantes evidências de um comportamento de alto risco, no histórico de Hauptmann, para
justificar esta suposição.
Mas nada disto é certeza. Tenho que admitir que sua recusa em salvar a própria vida em
troca de uma concessão verbal complica qualquer conclusão. Também é fato sabido que
Hauptmann pediu, por várias vezes, que um teste com um detector de mentiras fosse feito com
ele e com Condon. Quem me conhece, sabe que não acredito muito no teste e desconfio de seus
resultados, mas não seria razoável supor que Hauptmann soubesse da falibilidade do teste ou
que tivesse a mesma opinião que a minha sobre ele. Se ele pediu o teste, a menos que soubesse
de antemão que não o fariam, era porque acreditava que o teste confirmaria sua versão.
Por toda sua longa vida — ela morreu no dia 10 de outubro de 1994, dia do aniversário de
79 anos de seu casamento e com 95 anos — Anna Hauptmann acreditou sempre na inocência
de seu marido e fez tudo que estava a seu alcance para convencer outras pessoas e tentar
reabrir o caso.
Não seria possível resolver este caso de uma forma mais satisfatória e melhor? Sim, eu
creio que sim, mas não depois de cometidos certos erros determinantes.
O maior de todos os erros, embora compreensível, foi deixar que Lindbergh ditasse
limitações para a ação da polícia. Em qualquer sequestro, o momento de maior vulnerabilidade
dos criminosos é quando se faz o pagamento do resgate. Se a polícia pudesse cobrir a coleta do
dinheiro, é quase certo que John Cemitério fosse preso, o que não evitaria a morte do bebê,
mas resolveria o caso.
Não se pode perder o controle de um caso. Quando se o perde é muito difícil recuperá-lo.
Depois do primeiro encontro no cemitério, a polícia deveria questionar Condon para
conseguir informações importantes. Por exemplo, o detalhe na conversa em que há uma
referência a "queimar" caso o bebê estivesse morto poderia ser usado para trabalhar o medo e o
senso de culpa de John e chegar aos outros cúmplices.
Da mesma forma, Schwarzkopf poderia ser mais eficiente no processo de investigação da
teoria de um serviço interno. Se estivéssemos trabalhando neste caso hoje, começaríamos por
recolher o máximo de informações possível sobre os empregados domésticos, depois iríamos a
cada um deles tentando mostrar que não acreditávamos que ninguém houvesse
conscientemente ajudado no sequestro, mas que alguém fora enganado e usado para fornecer
as informações que os criminosos precisavam. Eu faria o possível para que os Lindbergh se
envolvessem com esta tática, de forma que os empregados percebessem a seriedade da
situação.

Durante o primeiro encontro com Condon, o criminoso se deu ao trabalho de tentar


convencê-lo da inocência de Betty Gow e de seu namorado Red Johnson. Por que preocupar-se
com a empregada e seu amigo se este não fosse um rumo nas investigações que ele quisesse
evitar?
Esta é apenas uma das áreas que poderiam ser mais bem exploradas para conseguir mais
informações vitais, quando elas ainda seriam úteis. Além de tantas outras estratégias que
poderiam ser usadas, mas não foram.
Assim, o que nos restou foi uma clássica tragédia americana.
4 – O ZODÍACO

UM DOS ELEMENTOS DE MOTIVAÇÃO DO CRIMINOSO SERIAL é criar e manter a


própria mitologia. A imprensa, na maioria das vezes, colabora de forma voluntária com isto,
dando-lhes nomes como o Fantasma da Auto-Estrada, o Estrangulador de Hillside ou o
Assassino de Green River. Quando a imprensa não chega a este ponto de cooperação, eles
próprios criam seus nomes, como o Filho de Sam ou o Estrangulador ATM (Amarra-Tortura-
Mata).
As razões que os levam a isto são óbvias para nós que trabalhamos em análise
investigativa. Eles são insignificantes nulidades, cuja única realização na vida, o único
momento em que se sentem comandando e satisfeitos com eles próprios, é quando estão
causando sofrimento e pânico a outros.
Entre os criminosos mais bem-sucedidos em criar e preservar sua mitologia está o ED
apelidado de Zodíaco. O mistério dos crimes do Zodíaco permanece sem solução e quem os
cometeu nunca foi identificado ou preso. E, dos casos que as pessoas sempre me perguntam,
este é um dos mais frequentes. Um caso que, especialmente na Costa do Pacífico, ainda
continua a nos assombrar.

OS PRIMEIROS SERÃO OS ÚLTIMOS

Aconteceu na véspera da festa de Halloween, num domingo, 30 de outubro de 1966, em


Riverside, na Califórnia, mais ou menos a cem quilômetros a sudeste de Los Angeles. Joseph
Bates e sua filha de 18 anos, Cheri Jo, começaram juntos o dia. Foram à missa na Igreja de
Santa Catarina e, logo, tomaram o café da manhã no restaurante do Sandy. Depois disto se
separaram, com Joseph rumando para a praia e Cheri Jo planejando voltar para casa e fazer os
trabalhos da faculdade. Chefe da torcida organizada da Universidade de Riverside, como fora
antes, durante o secundário, na Escola Ramona, Cheri Jo era a perfeita garota americana: loura
de olhos azuis, bronzeada pelo sol da Califórnia, atraente, 1,60m de altura e cinquenta quilos.
Caloura do Riverside e estudante aplicada, trabalhava num banco local e sonhava com a careira
de aeromoça. Desde a partida de sua mãe, um ano antes, e com seu irmão servindo à Marinha
no outro lado do país, Cheri Jo vivia só com seu pai, maquinista do Laboratório Naval Corona
Ordnance.

Pelo meio da tarde, Cheri Jo decidiu ir à biblioteca da faculdade. Telefonou a uma amiga
chamando-a para ir também, mas essa estava ocupada e ela foi sozinha. Já tinha ido quando
seu pai chegou em casa, mas deixara um bilhete. Quando ele saiu, Cheri Jo ainda não voltara e
ele deixou-lhe também um recado.
Joseph Bates não se preocupou quando voltou para casa, à meia-noite, e viu que o recado
que deixara para a filha não fora tocado. Afinal ela não era mais criança, sabia se cuidar e tinha
vida social própria. Pensando que ela provavelmente estaria com suas amigas, foi dormir.
Mas na manhã seguinte ela ainda não voltara. Bates telefonou para uma amiga da filha
para descobrir onde ela estava; não a localizando; chamou a polícia para dar parte do
desaparecimento dela.

Menos de uma hora depois, Cheri Jo Bates não era mais uma pessoa desaparecida. Seu
corpo foi descoberto por um zelador da faculdade, caído no passeio que levava ao
estacionamento da biblioteca. Fora esfaqueada no peito e no ombro esquerdo, tinha cortes no
rosto e no pescoço, e a laringe, bem como a jugular, secionada. O ataque fora tão violento que
quase a decapitara.
A polícia tentou reconstruir as últimas horas da vida de Cheri Jo. Uma colega de trabalho
no Banco Nacional de Riverside recebera um telefonema dela, por volta das 17:30h,
perguntando pela bibliografia para um trabalho da faculdade que estava fazendo. Esta fora a
última vez que alguém se lembrava de falar com ela. Pouco depois das 18:00h, uma de suas
amigas a vira, dirigindo seu Volkswagen verde-claro, em direção à biblioteca. Mais outra
pessoa vira uma loura dirigindo um carro como o de Cheri e reparara também que um
Oldsmobile bronze a seguia de perto.
Este detalhe se tornou importante devido ao contexto em que se deu o ataque. Quando os
investigadores examinaram seu fusca, parado no estacionamento e ainda com os livros que ela
retirara da biblioteca empilhados no banco da frente, descobriram que o carro fora sabotado;
entre outras ações, um dos fios do distribuidor fora desligado. A polícia, que fez uma
investigação impressionante e exaustiva, chegou à seguinte teoria: o assassino a seguiu de
carro até à biblioteca, onde avariou seu carro e aguardou que ela voltasse; ele provavelmente
esperou que tentasse a ignição por algum tempo e, então, ofereceu-lhe ajuda ou carona; fosse
ele um desconhecido ou alguém que já conhecia, ela confiou nele o bastante para segui-lo pela
calçada escura em que a atacou.
Apesar de pequenina, Cheri Jo, que fazia esportes e era bastante forte, não morreu sem
reagir. Um repórter descreveu a cena do crime como "um campo recém-arado". Cheri Jo tinha
cabelos e pele humana debaixo das unhas. Um relógio de pulso, que seria do ED, foi
encontrado a três metros de seu corpo. O mostrador fora arrancado da pulseira, arrebentada por
ela em sua luta desesperada.
A hora da morte, no entanto, era confusa. Duas pessoas, que naquela noite transitavam na
área, declararam ouvir gritos entre as 22:15h e 22:45h. Mas a biblioteca fechava às 21:00h, nas
noites de domingo. Teriam Cheri e seu assassino conversado por mais de uma hora antes que
ele a matasse?
Mais importante ainda era a falta aparente de motivo. A bolsa da vítima foi achada ao lado
de seu corpo com sua identidade intacta e pouco menos de um dólar em moedas. O modus
operandi do criminoso — sabotando o carro e esperando o retorno da vítima — fazia-se muito
sofisticado para um assaltante comum e, ainda mais, uma jovem estudante trabalhando até
tarde não seria seu alvo preferencial. Não havia sinais de abuso sexual e nada no histórico da
jovem sugeria que fosse uma vítima potencial de alto risco. Cinco dias mais tarde, no funeral
de Cheri Jo, a polícia analisava quem dele participava, enquanto seu pai sucumbia à dor. Como
Joseph Bates, eles também não conseguiam entender por que ela fora morta.
A primeira resposta chegou à polícia de Riverside, no mês seguinte, pelo correio. Seu
autor fora bastante esperto para datilografar a carta toda em maiúsculas e mediante uma grande
quantidade de cópias em papel-carbono, de forma que as letras ficassem tão borradas que,
embora a carta fosse legível, seria impossível identificar a máquina de escrever. E, é claro, não
havia impressões digitais. Quem escrevera tivera a esperteza suficiente para, não só evitar sua
identificação, mas também para incluir na carta inúmeros fatos a fim de garantir sua
credibilidade como o verdadeiro assassino.
Começava com uma provocante forma de introdução, a palavra "POR" seguida de espaço
vazio. Segue o documento:

ELA, JOVEM E BELA,


AGORA, BATIDA E MORTA.

NÃO FOI A PRIMEIRA E


NÃO SERÁ A ÚLTIMA,
FICO NOITES ACORDADO
PENSANDO NA PRÓXIMA VÍTIMA.
TALVEZ ELA SEJA A LINDA LOURA
QUE CUIDA DA CRIANÇA DO LADO
E TODAS AS NOITES CAMINHA
NAS RUAS ESCURAS POR VOLTA DAS SETE.
OU, QUEM SABE, SERÁ A BELA MORENA DE OLHOS AZUIS,
QUE RECUSOU O CONVITE DE ENCONTRO
QUE NO GINÁSIO LHE FIZ.
QUEM SABE, NÃO SEJA NENHUMA DAS DUAS.

MAS AS PARTES FEMININAS


DE ALGUÉM CORTAREI E COLOCAREI
ONDE TODA A CIDADE VERÁ.
NÃO FACILITEM AS COISAS PARA MIM
MANTENHAM AS IRMÃS, ESPOSAS E FILHAS
LONGE DAS RUAS ESCURAS...

O autor continuava descrevendo minuciosamente como desligara "O CABO DO MEIO


NO DISTRIBUIDOR". E a polícia não revelara esta informação a ninguém. O trecho seguinte
constituía uma grotesca descrição da morte de Cheri Jo, inclusive do momento em que o ED se
transforma de Bom Samaritano em assassino sem dó:

... QUANDO ESTÁVAMOS FORA,


NA CALÇADA QUE LEVA

À BIBLIOTECA DA ESCOLA,
EU DISSE QUE JÁ ERA HORA.
"HORA DE QUÊ?" — ELA ME PERGUNTOU.
EU DISSE: "É HORA DE VOCÊ MORRER."
E PEGUEI SEU PESCOÇO COM UMA MÃO
EM SUA BOCA E UMA FACA NA GARGANTA...

A um certo ponto a carta nos dá o possível motivo: "SÓ TINHA UMA COISA EM
MINHA MENTE. FAZÊ-LA PAGAR POR TODO O DESPREZO QUE MOSTRARA POR
MIM NESSES ANOS."
A polícia realmente encontrou um jovem que poderia ser ligado por circunstâncias a Cheri
Jo. Mesmo depois de vários anos, alguns investigadores o consideraram como o principal
suspeito, mas nunca houve provas bastantes para levá-lo a um tribunal.
A partir de minha experiência, diria que esta passagem, como aquela anterior sobre "A
BELA MORENA DE OLHOS AZUIS", refere-se mais a uma visão generalizada das mulheres
e a um sentimento de rejeição por parte do assassino, do que a alguma mulher ou a uma
relação específica. Digo isto devido ao sentido mais amplo que a carta deixa transparecer em
seu final:

... NÃO SOU DOENTE.


SOU INSANO. MAS ISTO NÃO ELIMINA O JOGO.
ESTA CARTA DEVE SER PUBLICADA
PARA QUE TODOS A POSSAM LER.
TALVEZ ISTO SALVE A VIDA
DAQUELA MENINA NA RUA.
MAS DEPENDE DE VOCÊS,
FICARÁ NA SUA CONSCIÊNCIA
E NÃO NA MINHA...
CUIDADO... ESTOU DE OLHO NA SUA MENINA,

BEM AGORA.

Possivelmente aquilo que o assassino escrevera sobre sua próxima vítima fosse de alguma
forma verdadeiro. Mas, apesar do que escrevera sobre desprezo, o assassino de Cheri Jo devia
estar apenas procurando uma vítima, qualquer vítima, naquela noite. Quando viu a bela loura
passar em seu carro ele a seguiu e preparou a armadilha no estacionamento. Poderia ser uma
loura numa rua escura, quem fosse servia. Com a carta, o assassino conseguiu o que realmente
desejava. Colocou o pânico na vida de toda a comunidade. A próxima vítima poderia ser
qualquer uma. Para ele era apenas um jogo. O que reforça esta teoria é o fato de que, depois de
fazer isto, enquanto a polícia se precavia contra outro ataque, o assassino não voltou a matar. O
ED estava satisfeito com o que conseguira e não precisava matar outra vez. Por hora, podia
observar e esperar.
Esta habilidade de esperar pelo momento certo para atacar de novo estava clara desde o
primeiro crime, que tinha todas as marcas de um criminoso altamente organizado. Apesar do
que escrevera, seu crime não fora o de um insano, mas de alguém esperto e metódico, capaz de
procurar e esperar pela vítima e pelo momento certos, de preferência uma estranha. Este ED
era capaz de preparar sua armadilha com calma, de dar uma aparência normal e prestativa a
seu comportamento para ganhar a confiança da vítima e levá-la a uma área onde a pudesse
atacar em segurança e depois escapar sem despertar suspeitas nem chamar atenção.
Existem, porém, alguns elementos de desorganização, como deixar o corpo onde seria
rapidamente descoberto sem fazer nenhum esforço para ocultá-lo. Também parece que ele teve
mais dificuldade em controlar a vítima do que esperava, como prova o relógio abandonado e a
presença de carne e cabelos sob as unhas de Cheri Jo. Mas estas parecem as marcas de um
criminoso inexperiente e não sinais de uma desorganização de personalidade. Não há nenhuma
indicação de que o crime fosse cometido por mais de uma pessoa. Na verdade este é o típico
caso de um criminoso que pretende adquirir experiência com seus erros para não tornar a
cometê-los numa próxima vez.
Passados meses a polícia não teve nenhuma notícia de que o criminoso cumprira suas
promessas contra outras mulheres. Infelizmente também não fizera nenhum progresso nas
investigações. O único elemento novo no caso fora a descoberta, por um zelador, de um ato de
vandalismo no tampo de uma mesa que estava na biblioteca do Riverside, quando da morte de
Cheri Jo. Cinco meses já haviam passado, mas as palavras, gravadas com uma caneta azul na
madeira, destacavam-se com sua mensagem perturbadora. Era algo como um poema:

Enojado da vida/sem querer morrer


corte.
limpo.

se vermelho/
limpo.
sangue jorrando,
pingando,
se espalhando;
por todo o seu vestido
novo
bem,
era vermelho
também,
vida se esvaindo
na morte incerta,

morrer,
ela não queria,
desta vez
alguém a encontrara,
mas espere até
a próxima vez.
rh

A polícia não podia provar que existisse uma ligação entre o estranho poema e o
assassinato, mas uma cópia fotográfica do tampo da mesa foi anexada ao arquivo Bates.
Tenho notado, em várias ocasiões, que aniversários são a data perfeita para preparar uma
armadilha para criminosos seriais. Estas datas são importantes para eles por várias razões. O
jornal local, o Riverside Press-Enterprise, publicou uma história sobre o crime ainda sem
solução, em 30 de abril de 1967, aniversário de seis meses do assassinato.
No outro dia alguém fez contato; e escolheu três destinatários, a polícia, o Riverside
Press-Enterprise e Joseph Bates. Cada um deles recebeu uma folha de papel com a seguinte
mensagem curta e escrita a lápis: "BATES TINHA QUE MORRER VAI HAVER MAIS",
todas assinadas com o que poderia ser a letra Z ou o número 2. Como não havia com que
comparar a letra, pois a primeira mensagem fora datilografada, e como também não mostrava
marca alguma de credibilidade, a polícia considerou estas mensagens como uma brincadeira,
gerada pelo artigo no jornal.
Crimes cometidos por estranhos — aqueles onde não há uma conexão entre o criminoso e
a vítima — são os mais difíceis de resolver, porque, a menos que exista uma testemunha ou o
criminoso deixe alguma evidência que possa ligá-lo ao crime, a polícia não tem elementos para
encontrá-lo nem mesmo meios para saber quem procurar.
Quatro anos se passariam antes que este crime fosse visto no contexto de um horror maior.
A ALAMEDA DOS NAMORADOS

No dia 20 de dezembro de 1968, uma sexta-feira, os adolescentes David Arthur Faraday e


Betty Lou Jensen tinham um encontro planejado para a noite. Faraday, de 17 anos, era um
excelente aluno e atleta da Escola Secundária Vallejo, na Califórnia, além de escoteiro. Já
Jensen, uma bonita menina de 16 anos, por viver do outro lado da cidade, fazia o secundário
em outra escola, a Escola Hogan, onde também era uma ótima aluna. Embora tenham
enganado seus pais, dizendo que iam a um concerto na escola e, depois, a uma festa, e não
haverem nem mesmo passado pelo concerto, eram conhecidos como bons meninos e nada na
vida de ambos poderia transformá-los em vítimas potenciais de alto risco.
David pegou Betty Lou, com a caminhonete Rambler 61 de sua mãe, e saíram da casa dela
por volta das 20:30h. Ambos foram visitar um amigo e lá ficaram até 21:00h, após o que
pararam no Mr. Ed's Drive-in para uma Coca-cola antes de se dirigirem para a estrada do lago
Herman, conhecida no local como Alameda dos Namorados. Estacionaram fora da estrada,
numa área coberta de brita junto ao acesso ao posto de gasolina do lago Herman: o local ideal
para jovens namorados passarem algum tempo juntos, mas seu isolamento mostrou-o, também,
muito perigoso.
Por volta das 23:15h, uma mulher que vivia naquela estrada a alguns quilômetros de onde
os adolescentes tinham estacionado, passou pelo local quando ia buscar seu filho na saída de
um show. A porta do carona do Rambler estava aberta e David estava caído de costas numa
poça de sangue, com os pés na direção da roda traseira. Betty Lou Jensen estava a uns nove
metros de distância da parte traseira do carro; fora até onde conseguira correr antes que alguém
a matasse com um tiro nas costas. A mulher, horrorizada, foi com seu carro procurar socorro e
encontrou uma patrulha da polícia de Benicia. O capitão Daniel Pitta e o oficial William T.
Warner correram para o local. Quando chegaram lá Faraday ainda respirava. Então chamaram
uma ambulância. O motor do carro ainda estava quente e a ignição ligada, possivelmente, para
manter o aquecimento ligado. Embora a porta do carona estivesse aberta, tanto as outras três
portas quanto a mala do carro estavam trancadas. Isto, mais a posição dos corpos, parecia
indicar que o assassino fizera que os dois saíssem pela mesma porta, para impedir que
escapassem em direções diferentes. Uma trilha de sangue ia do carro até onde Betty Lou caíra e
mais sangue, de seu nariz e boca, empoçava perto de seu corpo. Fora baleada cinco vezes no
alto das costas, todas as balas agrupadas do lado direito, prova de muita pontaria contra um
alvo em movimento e na escuridão da noite. David fora baleado na cabeça à queima-roupa, a
bala vindo por trás de sua orelha esquerda. Betty Lou morrera no local, David foi levado às
pressas numa ambulância, para o Hospital Geral de Vallejo.
Já discutimos antes como uma investigação pode ser complicada e, em muitos casos,
comprometida e prejudicada, quando envolve investigadores de mais de uma jurisdição. Neste
caso os dois oficiais que chegaram primeiro na cena do crime eram de Benicia, porque a
mulher que descobrira o crime os encontrara antes. O crime, no entanto, acontecera fora da
jurisdição de Benicia. Assim, ao mesmo tempo em que chamava o legista do condado, o
capitão Pitta telefonou ao escritório do xerife do condado de Solano, para que mandassem
também seus detetives. Por volta da meia-noite havia representantes das duas jurisdições na
cena do crime. A eles se juntou o sargento-detetive Les Lundblad do escritório do xerife. No
final, todo o trabalho feito pela polícia de Benicia foi repassado ao escritório do xerife.

Enquanto Lundblad investigava a cena, mandou que dois de seus homens fossem até ao
hospital tentar conseguir o depoimento de David. Mas, quando eles chegaram à UTI, foram
informados de que David Faraday já chegara morto ao hospital, às 00:05h daquela madrugada.
Que acontecera então?
Várias testemunhas viram o carro de David estacionado no local que seria a cena do
crime, incluindo um casal que passara no local duas vezes entre as 22:15h e 22:30h, bem como
por dois caçadores que notaram o Rambler pouco depois das 23:00h. Apesar de David ter
mudado o carro de posição, depois que o estacionara, com certeza buscando mais privacidade,
nada havia na cena que despertasse suspeita.
Os policiais se inteiraram de um estranho incidente que acontecera na mesma área,
naquela noite, e que talvez estivesse relacionado com o crime. Um casal de jovens parara no
acostamento da estrada para verificar alguma coisa no motor de seu carro. Eles declararam que
passou por ele um carro que parecia ser um Plymouth Valiant azul, que diminuiu a marcha e,
depois, começou a retornar de ré. A situação os assustou; voltaram rapidamente para dentro do
carro e saíram dali, seguidos pelo misterioso carro até abandonarem a estrada, já na entrada
para Benicia. Isto ocorrera por volta das 21:30h. Algumas pessoas viram também um
Chevrolet Impala, branco e de quatro portas, parado perto do local onde David e Betty Lou
estavam, na entrada do posto de gasolina, por volta da mesma hora. Estes dois carros talvez
pudessem fornecer pistas sobre o que acontecera ou não. As únicas testemunhas do crime,
além do assassino, estavam mortas.
E quase nada havia em termos de provas materiais. Nenhuma impressão digital, nenhuma
marca de pneu, nenhum sinal de luta. Somente marcas indeléveis de sapatos em frente à porta
do carro e, perto, apenas uma boa pegada feita pelo salto de um sapato. O criminoso, por outro
lado, gastara bastante munição em seu ataque e os investigadores recolheram as provas disso;
cápsulas deflagradas de calibre .22 foram encontradas no chão dentro do carro e fora dele. E,
também, extraídas dos corpos e do carro. A análise dos projéteis e das cápsulas determinou que
a arma do crime fora uma J. C. Higgins, modelo 80, automática, ou uma High Standard,
modelo 101, semi-automática. A munição usada era Super-X, encamisada em cobre e
produzida pela Winchester desde outubro de 1967.
Sem sinais de roubo ou violência sexual, a polícia começou a investigar as vítimas em
busca de um motivo para o crime. Os Jensen disseram aos investigadores que Betty Lou fora
molestada por um rapaz com intenções amorosas que não correspondia. Segundo eles, uma
vez, ele havia chegado a ameaçar David. Quando os policiais investigaram esta pista,
descobriram que o rapaz tinha um álibi sólido para a noite do crime. Betty Lou também
confidenciara a sua irmã que tinha a impressão de estar sendo espionada por alguém e sua mãe
disse que encontrara o portão lateral do quintal aberto, algumas vezes, mas disso nada resultou
que ligasse ambos os incidentes aos assassinatos.
Este é um tipo de crime difícil de investigar. Nada nas histórias pessoais das vítimas
indicava quais seriam os motivos do assassino.

QUERO DAR PARTE DE UM DUPLO ASSASSINATO

Darlene Ferrin, uma jovem de 22 anos, sociável, vivia em Vallejo com o marido, Dean, e
uma filha, ainda bebê, chamada Dena. Pouco depois dos assassinatos no posto de gasolina ela
contara a suas colegas de trabalho, no restaurante Terry's, que conhecia as vítimas — ou que
sabia quem eram —, porque fizera o secundário na Escola Hogan, que ficava a um quarteirão
de distância de onde morava Betty Lou. Darlene ficara tão impressionada com o crime que
dissera às colegas que nunca mais passaria naquela área.
Uns seis meses depois dos assassinatos, na tarde de 4 de julho, dia da independência dos
Estados Unidos, Darlene telefonou a um amigo, Mike Mageau, para combinar algo para aquela
noite. Então, depois de deixar o bebê com duas babás em casa, Darlene passou pelo restaurante
italiano onde Dean trabalhava, para dizer que ela e sua irmã mais jovem, Christina, estavam
indo ver um desfile de barcos em Mare Island. Dean disse a ela que convidara alguns colegas
de trabalho para uma festa à noite e pediu-lhe que comprasse fogos de artifício antes de voltar
para casa. Ela e Christina passaram ainda no restaurante Terry's, onde ela trabalhava, para
convidar algumas colegas para a festa, antes de ir para o desfile. Ela aproveitou para telefonar
para Mike de novo. Depois do desfile, retornou ao restaurante onde Dean trabalhava, por volta
das 22:00h. Dali, telefonou para casa para saber como estava o bebê e lhe disseram que alguém
do restaurante Terry's a estava procurando. Então ela voltou a passar em seu trabalho. E, em
seguida, foi levar Christina de carro até em casa, antes de retornar a sua própria.
A ideia inicial era levar as babás e voltar para arrumar a casa para a festa, mas, depois de
dar um telefonema, disse às meninas, que eram irmãs, que esperassem um pouco mais, pois ela
tinha que sair para comprar os fogos de artifício. Ambas concordaram e Darlene foi para a casa
de Mike Mageau, que estava tão ansioso por vê-la que saiu de casa deixando a porta aberta e a
televisão e as luzes ligadas. Logo depois de deixar a casa de Mike, notaram que estavam sendo
seguidos por um carro de cor clara. Tentaram se livrar dele e acabaram na rodovia Columbos,
uma das saídas da cidade. Entraram no campo de golfe de Blue Rock Springs, que, apesar de
não ser tão isolado quanto o posto de gasolina na estrada do lago Herman, também era
conhecido como Alameda dos Namorados. O motor do carro morreu, quando Darlene tentava
colocar seu Chevy Corvair numa vaga. Neste momento o outro carro também entrou no
estacionamento, mas partiu dali em velocidade, apenas para voltar alguns minutos depois.
Como Mike contou mais tarde, o carro parou bem atrás deles, como um carro da polícia faria,
bloqueando sua saída e com os faróis altos iluminando o carro de Darlene. Recordava-se que, a
seguir, viu e ouviu um clarão acompanhado de um barulho de vidro estilhaçado à bala. Os tiros
não pararam. Darlene caiu sobre a direção com nove tiros, dois em cada braço e cinco nas
costas, que atingiram seu coração e um pulmão.
Mike tentou escapar, mas não encontrava a maçaneta da porta e, enquanto isto, viu o
assassino se retirar e voltar para seu carro. O homem se virou e Mike conseguiu vê-lo bem de
frente. Teria quase trinta anos, corpulento, com uns 90kg, 1,75m de altura e com o cabelo claro
e encaracolado, cortado curto. Usava uma japona como aquelas da Marinha e calças vincadas
que não escondiam sua barriga. Enquanto o homem parecia estar indo embora, Mike deixou
escapar um grito de dor, que o fez mudar de direção e voltar ao carro. Ele deu mais dois tiros
em Mike, que desesperado atirou-se no banco de trás. Então, depois da dar mais dois tiros em
Darlene também, retornou a seu carro e foi embora.
Mike conseguiu sair do carro de Darlene, abrindo a porta pelo lado de fora, e caiu. O
rosto, o pescoço, o braço direito e a perna esquerda sangravam. Uma das balas atingira seu
maxilar e a língua e não conseguia nem mesmo gritar. Para sua sorte, três jovens que estavam
ali procurando por um amigo o viram e correram a chamar socorro.
Dez minutos depois da meia-noite a central telefônica da polícia de Vallejo foi contatada.
Os dois primeiros policiais a chegarem na cena foram logo seguidos pelo sargento-detetive
John Lynch e pelo sargento Ed Rust. A cena era horrível. Mike Mageau, com muitas dores,
perdia sangue em profusão e Darlene estava morrendo atrás da direção. Lynch deitou Darlene
no estacionamento, enquanto esperava uma ambulância. Ela tentou dizer algo, mas era
ininteligível. Lynch e Rust já tinham recebido outra denúncia dos mesmos tiros, pouco antes.
Fora um telefonema do filho do zelador do estacionamento do campo de golfe, que ouvira os
disparos e vira um carro partindo em disparada. Mas, por ser o 4 de julho, a polícia pensou
tratar-se de fogos de artifício. De acordo com uma entrevista dada por Lynch a Robert
Graysmith, autor do livro Zodiac [Zodíaco], ele e seu parceiro se sentiram extremamente mal,
mais tarde, ao pensar que poderiam chegar antes à cena do crime e, talvez mesmo, haver
cruzado com o criminoso escapando do local. Pior ainda, quando chegaram ao local,
descobriram que conheciam uma das vítimas. Muitos policiais conheciam Darlene por
frequentar o restaurante onde ela trabalhava. Ela chegara até a sair com alguns deles. E Darlene
e Dean viviam ao lado do escritório do xerife. Ela foi declarada morta ao chegar ao hospital da
Fundação Kaiser, à 0:30h. O estado de Mike Mageau ficou crítico e ele teve que ser submetido
a várias cirurgias, no maxilar, no braço e na perna, mas se recuperou dos ferimentos.
Na cena do crime, os detetives encontraram o carro com os vidros abertos, engrenado em
primeira, com a ignição e o rádio ligados. Darlene não tivera tempo nem mesmo de colocar o
freio de mão, o que era consistente com o relato de Mike, que dissera que o motor morrera,
pouco antes de serem bloqueados pelo outro carro e impedidos de fugir, e não puderam
estacionar direito.
Dentro do carro ensanguentado encontraram, junto com a bolsa de Darlene e a carteira de
Mike, várias cápsulas 9mm. A descrição dos acontecimentos, feita por Mageau, não contava
que o criminoso parasse de atirar para recarregar a arma, donde se deduziu que a arma fora
uma Browning semi-automática.

As comparações entre este assassinato e o crime no lago Herman, a três quilômetros de


distância dali, eram inevitáveis. Nas duas circunstâncias o criminoso disparara contra um casal
dentro de um carro parado num local isolado. Mas neste caso o assassino seguira
ostensivamente o carro das vítimas, quase as forçando na direção da cena do crime. E também,
neste caso, diferentemente do anterior, parecia haver no histórico das vítimas um possível
motivo para o crime, que talvez não fosse obra de um estranho.
Olhando a vida pregressa das vítimas, a polícia descobriu que Darlene talvez não fosse um
alvo ao acaso. Segundo vários amigos e clientes, ela costumava sair na companhia de outros
homens além de seu marido, como Mike Mageau por exemplo. Mas isto parecia incomodar aos
colegas de trabalho e aos amigos de Dean mais do que a ele próprio. Quando a polícia tocou no
assunto, ele a defendeu, dizendo que ela era ainda jovem e tinha um espírito livre; que se
tratava apenas de divertimento e não que ela estivesse tendo um caso com alguém. (Tudo isso
aconteceu no meio da revolução de costumes, na Califórnia de 1969.) E Dean tinha um álibi
perfeito: estivera todo o tempo com seus colegas de trabalho.
Mas havia outros homens na vida de Darlene para investigar, inclusive seu primeiro
marido, Jim, que possuía uma arma. Dizia-se que Darlene tinha medo dele. Mas Jim não
combinava com a descrição de Mike sobre o tipo físico do criminoso e a polícia o afastou da
lista de suspeitos. Outro suspeito, um apaixonado persistente e não-correspondido, também foi
afastado da lista, quando a polícia descobriu que estava em casa com a esposa na noite do
crime.
Algumas testemunhas viram um homem que espiava Darlene de um carro branco em
frente à casa dela. Uma das babás disse que, quando contara isto a Darlene, esta dissera que
conhecia o homem e o vira matar alguém. A irmã de Darlene, Pam, também contara sobre um
homem num carro branco que entregava uns pacotes misteriosos na casa dos Ferrin, inclusive
um pacote que recomendara a Pam para que não abrisse. Ela o vira várias vezes e o descreveu
como um homem bem vestido, de cabelos escuros, que às vezes usava óculos de tartaruga.
Uma outra irmã, Linda, também vira o mesmo homem na casa de Darlene. Ele aparecera
durante uma festa que ela dera para pintar a casa. Segundo Linda, Darlene lhe dissera para ficar
longe dele. Tanto a babá, quanto as irmãs de Darlene disseram que ela parecia ter medo do tal
homem, que também fora visto no restaurante onde ela trabalhava. Na noite de sua morte,
Darlene tivera uma conversa tensa com um tipo igual e num carro branco, no estacionamento
do Terry's. Esta conversa foi presenciada por sua irmã Christina.
Perto do fim de junho, pouco antes de sua morte, Darlene disse a Christina que algo
importante estava para acontecer. Darlene não pôde ou não quis contar o que era, mas afirmou
que, quando acontecesse, ela saberia pelos jornais. Pessoas próximas a Darlene tinham uma
teoria de que esta, quando fora às Ilhas Virgens, durante a lua-de-mel de seu primeiro
casamento, envolvera-se com um grupo de pessoas perigosas. Será que ela vira ou ouvira
contar sobre a morte de alguém? Ou teria se envolvido com drogas? No final, nenhuma dessas
especulações levou a nada que pudesse identificar o assassino.
Mike Mageau também era um personagem interessante. Havia conhecido Darlene no
Terry's quando estava acompanhado de seu irmão gêmeo, David. Parece que os dois jovens, de
19 anos, fizeram uma competição entre eles por Darlene. Na noite do 4 de julho, Mike usava
várias camadas de roupas, umas por cima das outras, o que despertou a curiosidade dos
policiais, até que ele explicou a Lynch que tinha vergonha de seu corpo e usava muitas roupas
para disfarçar sua magreza. Segundo várias pessoas que falaram com Robert Graysmith, Mike
Mageau dera diferentes versões dos fatos, dependendo de quando ou da pessoa com quem
falava. As variações incluíam a forma em que chegaram a Blue Rock Springs. Numa versão
estariam escapando de um desconhecido que os seguia, noutra tudo acontecera depois de uma
discussão entre Darlene e o perseguidor. Além dos desencontros nas descrições do veículo e do
aspecto físico do assassino. A irmã de Darlene, Pam, acreditava que Mike Mageau conhecia o
assassino e que estava protegendo Darlene, a quem amava. De qualquer forma, depois de
recuperado, Mike se mudou dali.
Na madrugada de 5 de julho, quarenta minutos após a meia-noite, a central telefônica da
polícia de Vallejo recebeu um telefonema; Uma voz de homem disse à operadora Nancy Slover
que ocorrera um duplo homicídio. Ele deu informações tão precisas sobre o local do crime que
pareceu à telefonista que o homem ensaiara antes o que ia dizer ou estava lendo uma
mensagem, sem deixar que o interrompesse com perguntas e falando até terminar. Para
confirmar credibilidade, além da descrição precisa do local do crime, vangloriou-se de ter
atirado nas vítimas com uma Luger 9mm. Depois declarou ter matado também "aqueles
garotos, no ano passado", disse adeus e desligou.
Não tenho dúvidas de que estava lendo o que dizia. Tratava-se de um criminoso
extremamente organizado. Sabia que sua chamada seria localizada e que tinha poucos minutos
para dizer o que tinha a dizer, estabelecer sua credibilidade e escapar. Se a polícia chegasse a
ter um suspeito em curto espaço de tempo depois do crime, eu aconselharia que nos mandados
de busca fosse incluído qualquer material escrito, especialmente rascunhos, como é normal
fazer em casos de sequestro e extorsão. A Pacific Telephone gastou sete minutos para localizar
a chamada de uma cabine pública em frente a um posto de gasolina, bastante próxima tanto do
escritório do xerife quanto da casa em que Darlene vivia com seu marido e filha. Uma
testemunha, que passara pela cabine telefônica na hora, declarou que vira um homem e o
descreveu como corpulento, o que combinava com a primeira descrição que Mike Mageau
fizera do assassino. Uma hora mais tarde, por volta da 1:30h foram dados três telefonemas
bizarros, um para a casa de Darlene, outro para o irmão de Dean Ferrin e um terceiro para os
pais de Dean. Nos três casos a pessoa não disse nada e quem atendeu ouviu apenas um ruído
de respiração.
Os telefonemas e a localização da cabina pública de onde o assassino comunicou seu
crime faziam crer que conhecia ao menos uma das vítimas, porque foram feitos antes que o
crime e a identidade das vítimas chegasse a público. Sei, por experiência, que muitos
criminosos têm um prazer especial em comunicar formalmente seus próprios crimes, enquanto
observam a casa das vítimas, na expectativa de ver o efeito daquilo que fizeram. Mas Darlene e
Dean viviam havia apenas há poucos meses naquele endereço, perto do escritório do xerife. Na
lista telefônica ainda estava o antigo endereço. Se o assassino escolheu aquela cabina de
telefone para poder observar a casa dos Ferrin, então ele não só sabia o nome de uma das
vítimas, mas também conhecia bastante da vida dela para saber que havia mudado de endereço
recentemente.
Seria o misterioso homem do carro branco? O homem que Darlene temia? Também é
possível que o assassino escolhesse um telefone próximo ao escritório do xerife apenas para
provocar a polícia.
Faz sentido que a polícia, procurando um suspeito relacionado com uma das vítimas,
desse ênfase às relações de Darlene. Além de seu histórico, o próprio crime a mostra como o
alvo principal do ódio do assassino. Fora ela quem sofrerá o pior ataque, com muito mais
ferimentos — e mais sérios — do que seu companheiro. Num ataque desta natureza, o normal
seria que o homem, que representaria uma ameaça de reação física e um perigo maior para o
criminoso, fosse o mais visado. E seria de esperar, desde que o ataque aconteceu pelo lado do
carro onde estava Mageau, que Darlene tivesse uma possibilidade maior do que ele de
sobreviver aos tiros.
Assumindo que o ED não conhecesse as vítimas, o foco do ataque ter sido uma mulher é
bastante revelador. Vimos isto nos crimes do Filho de Sam, em Nova York, onde David
Berkowitz atacava sempre pelo lado delas, com sua Magnum .44. O homem era um objetivo
secundário.
Segundo Mageau, o assassino voltara para dar mais tiros em suas vítimas antes de partir.
Com Mageau ferido e vulnerável, seria lógico que o assassino se assegurasse de sua morte
desta vez, mas, em vez disso, ele gasta dois de seus últimos tiros em Darlene, que, era óbvio, já
fora ferida mortalmente. Mageau não só foi deixado vivo, mas também com capacidade para
descrever o ED.
Menos de um mês depois da morte de Darlene, o auto-proclamado assassino fez contato
outra vez. Desta vez com a imprensa, e não com a polícia, e pelo correio. Cartas quase
idênticas chegaram a três jornais: San Francisco Chronicle, San Francisco Examiner e Vallejo
Times-Herald. A carta ao Chronicle começava assim:

Caro Editor
Sou o assassino
dos 2 adolescentes
no último Natal
no lago Flerman a garota
no 4 de julho
perto do campo de golfe em Vallejo
Para provar que os matei

Contarei alguns fatos que


só eu a polícia sabemos...

A carta continuava com pormenores de cada um dos dois casos, incluindo a munição
usada e a posição dos corpos das vítimas. Junto com cada carta havia parte de uma longa e
complicada mensagem em código, feita de símbolos cuidadosamente desenhados. Cada jornal
recebera um terço da mensagem. Segundo o autor da carta, quando decifrado, o criptograma
revelaria a identidade do assassino.
Não acho que muita gente na polícia acreditasse que o criminoso fosse, de verdade,
fornecer seu nome. Mas sempre disse que, quando um elemento desconhecido começa a
comunicar-se, é sempre um bom sinal. Compare com casos como Unabomb, quando também
tínhamos pouquíssimas evidências. É muito mais fácil conseguir traços para um perfil
comportamental de uma carta do que da cena do crime.
Quando o ED começa a fazer contato, aí é que podemos pegá-lo. Sua arrogância e
sensação de poder o levam a revelar bem mais dele, dando-nos os meios e as informações para
que alguém do público possa identificá-lo (como no caso do Unabomber, Theodore
Kaczynski), e a elucidar seus motivos de forma que consigamos desenvolver uma técnica
efetiva para neutralizá-lo. Quando acontecem crimes seriais, onde os motivos tradicionais,
como ambição, ódio ou vingança, não se aplicam, a informação subtraída das comunicações é
importantíssima para determinar suas motivações.
Desta vez, o assassino não se limitou a assumir o crédito pelos crimes nem a provocar a
polícia com o quebra-cabeça de seu código. Não bastava a polícia saber que ele era realmente
o assassino, queria também que cada leitor dos jornais soubesse quem era e o temesse:

Quero que imprimam esta mensagem cifrada


na primeira página do seu
jornal...
Se não a publicarem
até à tarde de sexta-feira, 1°
de agosto de 69, sairei para uma ma-
Tança noturna na sexta e passarei
todo o fim de semana matando pessoas solitárias

que andam à noite e


continuarei matando até terminar
com uma dúzia delas
no fim de semana.

Em cooperação com a polícia, os jornais publicaram parte das cartas sem reproduzir o
texto completo. Como em outros aspectos do caso, a polícia queria manter secretas algumas
informações, que só ela e o ED conheciam. Ao assassino interessava que fosse assim, pois
garantia uma forma de estabelecer credibilidade em futuras comunicações. E à polícia
interessava o segredo, na esperança de usar estas informações no futuro, para a identificação e
indiciamento do ED.
Embora o criptograma não revelasse a identidade de seu autor, por uma dessas ironias,
continha valiosas informações que o ED não tivera intenção de fornecer. Para iniciar, quando
um ED se dá ao trabalho de criar este tipo de comunicação, sabemos que não lidamos com um
criminoso comum e ignorante. Não só é uma pessoa meticulosa e sente orgulho em provar sua
superioridade intelectual à polícia (o que compensa seu senso de inadequação), mas é também
alguém que sente prazer em tarefas estruturadas. Pense o leitor no tempo necessário apenas
para desenhar todos os símbolos deste criptograma e, ao mesmo tempo, disfarçar a própria
caligrafia. Um traço feito sem cuidado e o trabalho teria de ser recomeçado do início. É quase
a paciência de um fabricante de bombas.
Depois temos os símbolos em si. Um leitor médio de jornais não conheceria a maioria dos
símbolos usados no criptograma, que incluíam várias letras gregas, símbolos meteorológicos e
astrológicos, além dos códigos Morse e de sinalização naval. Nosso homem é alguém com
conhecimentos em áreas bastante especializadas. E mesmo que não fosse versado em todas
estas matérias, seria necessário que consultasse vários livros de referência para copiar todos
esses símbolos. Embora possamos esperar que este ED fosse um solitário, seus familiares e
associados poderiam reconhecer o trabalho como seu, devido a sua personalidade ou a seu
histórico educacional e profissional.
Como um fabricante de bombas, este elemento vê suas cartas e códigos, assim como seus
crimes, como uma forma de arte. É de esperar que tenha um espaço reservado para este
trabalho, onde fazer o meticuloso desenho de seus símbolos, guardar seus livros de referência
criptográfica, além de recortes dos jornais a respeito de seus crimes e comunicações. Nada
maior do que uma garagem ou um porão que às vezes emita estranhos sons ou deixe escapar
fumaça, mas será sempre um espaço de trabalho organizado e sagrado, compulsivamente
protegido da curiosidade alheia.
Tentemos relacionar estes traços de caráter especificamente com um dos crimes: tanto
assumindo que Darlene conhecia seu assassino, ou não, sua morte não foi o gesto de um
namorado rejeitado nem de alguém queimando um arquivo para se proteger de um crime
anterior. Este ED estava interessado numa campanha de terror e seu alvo era maior do que um
simples indivíduo isoladamente.
Parece de encomenda que, apesar de a polícia ter pedido o auxílio de vários especialistas,
inclusive do Serviço de Informações da Marinha, da Agência de Segurança Nacional, da CIA e
do FBI, no final foi um casal de leitores de jornal que decifrou o criptograma. Os três jornais
publicaram cada uma sua seção da carta cifrada em edições e dias diferentes, mas no domingo,
3 de agosto, as três partes já estavam à disposição dos leitores.
Donald Gene Harden, um professor de história e economia de 41 anos e sua esposa Betty
June gastaram dois dias trabalhando para decifrar o criptograma. Todos os peritos consultados
concordaram que era a solução correta:

EU GOSTO DE MATAR PESSOAS


PORQUE É TÃO
DIVERTIDO MAIS DIVERTIDO DO QUE
MATAR ANIMAIS SELVAGENS NA

FLORESTA PORQUE
O HOMEM É O MAIS PERIGOSO
DE TODOS OS ANAMAIS PARA SE MATAR
ALGO ME DÁ
A MAIS ELETRIZANTE EXPERÊNCIA
QUE É MESMO MELHOR
QUE GOZAR COM UMA GAROTA
A MELHOR PARTE DESTO TUDO
É QUE QUANDO EU MORRER RESSUSSITAREI
NO PARAIZO E AQUELIS QUE
MATEI SE TORNARÃO MEUS ESCRAVOS
NÃO DAREI O MEU NOME
PORQUE VOCÊS VÃO TENTAR

ATRAPALHAR
OU PARAR MINHA COLEÇÃO DE
ESCRAVOS NO OUTRO MUNDO
EBEORIETEMETHHPITI

A solução do criptograma provou a esperteza do autor. No processo de quebrar seu código


os especialistas trabalharam com algumas regras básicas. Por exemplo, na língua inglesa a letra
"e" é a mais usada, assim o símbolo que apareça mais vezes deverá corresponder a ela. Para
dificultar a quebra de seu código, o criminoso usou um total de sete símbolos para tal. Como
podemos constatar da leitura, existem vários erros de ortografia na comunicação, mas é difícil
determinar quais são propositais.
Na análise desta mensagem muita ênfase foi dada às referências do autor à "ressurreição
no paraizo" e ao uso de suas vítimas como "escravos". Acho discutível que esta passagem seja
reveladora de crenças religiosas do ED, vejo-a com mais interesse no contexto de outra parte
da mensagem onde ele se refere ao homem como o mais perigoso "anamal". Isto me faz pensar
no título de um famoso conto de Richard Connell, "A caça mais perigosa". A história, que já
foi filmada várias vezes, é sobre um milionário louco, que vive em sua própria ilha e atrai os
barcos que passam para perigosos recifes de seu litoral, com falsos sinais de farol. Depois dos
naufrágios ele salva os marinheiros apenas para soltá-los na ilha e caçá-los como animais
selvagens.
Não pretendo dizer com isto que o assassino fosse um gênio literário nem mesmo que
lesse muito, já que a história, de 1924, é leitura obrigatória no curso secundário em várias
escolas, ou poderia ser vista no cinema. Mas é uma coincidência incrível que ele usasse estas
duas expressões junto a outras tão confusas. Acho isto revelador de seu grau de instrução.
Acredito também que o autor fosse sincero ao dizer que matar era "melhor que gozar com uma
garota", pois não acho que tivesse muita experiência no assunto. Como já dissemos antes,
homens que têm relações sexuais satisfatórias com as mulheres não costumam atirar nelas.
Vale a pena notar também que, apesar do fato de o San Francisco Examiner ter passado da
data-limite de sexta-feira, e só publicado sua parte do criptograma no domingo, o criminoso
não cometeu nenhum assassinato no fim de semana. O que não me surpreende. O Unabomber
também não cumpriu a ameaça de explodir um avião, partindo do aeroporto de Los Angeles,
no fim de semana de um feriado. Mas divertiu-se com a atenção e o pânico gerados por sua
ameaça. Outra coisa que dá mais prazer a este tipo de indivíduo que uma garota é observar a
polícia, a imprensa e o público apreensivo com medo de que ele cumpra sua promessa. Cada
garota, de algum modo inacessível a ele, cada homem, de alguma forma preocupado com elas,
soube da ameaça pelo noticiário; policiais em toda parte do país trabalhavam sem parar,
tentando resolver o quebra-cabeça. Isto tudo o excitava. Era poder de verdade.
Finalmente havia as letras, que não formavam sentido, no fim do criptograma. Quando a
solução foi publicada, o público precipitou-se em interpretar a última linha como um anagrama
para o nome do assassino. A polícia investigou as várias teorias e nomes que surgiram, mas,
como esperado, foi incapaz de chegar a qualquer suspeito.
Enquanto isso, o chefe de polícia de Vallejo, Jack E. Stiltz, declarou à imprensa ter
dúvidas sobre ser o autor do criptograma, na verdade, o assassino. Embora as comunicações
contivessem dados que não foram revelados ao público, qualquer uma das pessoas que viram a
cena do crime seria capaz de descrevê-los. Stiltz veiculou um apelo ao ED para que mandasse
outra carta com mais informações que só o assassino pudesse saber. Seu desafio funcionou,
rendendo não só uma carta, mas também um nome para o assassino. Um nome criado pelo
próprio ED e que se transformaria, em pouco tempo, em sinônimo de terror no norte da
Califórnia: o Zodíaco. Apesar do fascínio e do magnetismo deste nome, o ED nunca explicou
por que ou como o havia escolhido. Seria de esperar alguma conexão mística com a astrologia,
mas em nenhuma das comunicações subsequentes do criminoso esta ligação é convincente,
embora Robert Graysmith tenha descoberto um "Alfabeto Zodiacal" do século XIII. Talvez o
Zodíaco do século XX tenha usado ou modificado em parte tal alfabeto para criar seu código.
A carta de três páginas foi enviada para o Vallejo Times-Herald alguns dias depois do
apelo de Stiltz. Começava assim:

Caro Editor
Aqui fala o Zodíaco.
Em resposta ao seu pedido de
mais informações sobre os bons
momentos que passei em Vallejo,
Fico feliz em poder
fornecer ainda mais material.
Por falar nisso, a polícia
tem se divertido com o
código...?

O tom solícito e brincalhão do início da carta dá uma pequena ideia do prazer sentido pelo
criminoso em zombar da polícia. Várias pessoas associam a provocação nas cartas do Zodíaco
às comunicações que Jack, o Estripador, fizera por meio de seu famoso "Caro chefe", embora,
como já disse no capítulo um, eu acredite que as cartas de Jack, o Estripador, não foram
escritas pelo verdadeiro criminoso. Ainda assim é possível que nosso ED estivesse seguindo as
pegadas do mito criado em torno do assassino de Whitechapel. Se este indivíduo era capaz de
citar um conto clássico, estudar os crimes do Estripador seria mais do que possível. De
qualquer modo ele se sentia superior à polícia e à imprensa, da mesma forma que o autor das
cartas "Caro chefe" queria que o imaginássemos o assassino do Leste de Londres.

O Zodíaco continuava sua carta com informações pormenorizadas de cada momento do


assassinato de Darlene Ferrin e da tentativa de assassinato de Michael Mageau. Descrições,
como a seguinte, bastariam para provar com segurança ao chefe de polícia Stiltz que o autor e
o assassino eram a mesma pessoa.

No 4 de julho...
O garoto ainda estava sentado no
banco da frente quando comecei
a atirar. Quando dei o primeiro
tiro em sua cabeça ele saltou

para trás atrapalhando a pontaria. E termi-


nou no banco de trás e depois
no chão, tremendo
com força as pernas;
foi assim que baleei seu
joelho...

Ele chega mesmo a descrever a testemunha que o viu na cabina telefônica depois do
crime, "brincando um pouco com o policial de Vallejo", desta forma provando que fora ele
quem fizera, pelo menos, aquela chamada. O Zodíaco incluía também na carta uma seção
sobre as mortes de Jensen e Faraday.

Natal passado
Naquele episodeo que a polícia

não pode entender como pude


atirar acertar no escuro.
Sem dizer claramente eles
dão a entender dizendo que era
uma noite clara e eu podia ver
silhuetas contra o horizonte.
Mentira a área é cercada de
altas colinas arvores. O que
fiz foi colar uma lanterna-lapiseira
ao cano da arma... Colada no cano
a bala acerta no meio
da mancha escura na luz.
Tudo que tive a fazer foi mandá-las...

Com isto ele provava não só estar presente na cena do crime na noite da morte de Jensen e
Faraday, mas também que acompanhava a cobertura feita pela imprensa de seus crimes. Por
isto é que sempre digo que a forma que os fatos são apresentados tem influência sobre o
criminoso. Neste caso é fácil perceber que o Zodíaco ficara irritado por meses pela forma que a
polícia apresentara os fatos, fazendo parecer mais fácil do que fora acertar o alvo em
movimento e no escuro. Esta atitude era capaz de alimentar sua sensação de frustração por ser
incompreendido e subestimado e seu complexo de inferioridade. Ele tinha necessidade de que
o planejamento cerebral do crime e sua boa pontaria fossem devidamente apreciados. Por isso,
muitos meses depois, precisou incluir estas afirmações numa carta enviada com o intuito de
dar informações sobre seu crime mais recente. Outra vez isto mostra o compulsivo amor-
próprio do assassino. Também demonstra que, possivelmente, em suas conversas com outras
pessoas, ele deve reclamar da incompetência da polícia e da cobertura da imprensa nos
assassinatos anteriores. Nos dias após os crimes do Natal, eu o vejo resmungando com algum
companheiro — um outro solitário, menos inteligente do que ele e talvez seu único confidente
— que a polícia não sabe o que diz. Lembra como estava escuro naquela noite?

LAGO BERRYESSA

Sábado, 27 de setembro de 1969, foi um dia ensolarado e quente, um dia para se passar
fora de casa. E sabendo onde caçar, um dia perfeito para um assassino encontrar novos alvos.
O parque do lago Berryessa, a 56km ao norte de Vallejo, era o lugar ideal, com a floresta e suas
praias isoladas ao redor de um lago artificial de mais de quarenta quilômetros.
Cecelia Ann Shepard, 22 anos, despedia-se de seu amigo da Universidade Pacific Union,
Bryan Hartnell, de vinte anos, antes de partir para continuar seus estudos de música na
Universidade da Califórnia em Riverside. Depois de uma manhã na igreja e arrumando malas,
passaram a tarde visitando amigos e fazendo outras coisas na região das vinhas de Napa Valey,
antes de parar no parque no fim da tarde. Era pouco depois das 16:00h, quando chegaram a
uma península no lado oeste do lago e estenderam um cobertor para sentar. Às vezes um barco
passava por eles, mas a maior parte do tempo ficavam completamente sós.
Num determinado momento, Cecelia notou um homem que se aproximava deles. Devido
às vegetação e à topografia, ele desaparecia às vezes atrás de uma colina ou de uma árvore,
apenas para aparecer de novo mais perto. Quando chegou afinal onde estavam, o casal notou
que ele tinha uma arma. E estava vestido com uma bizarra e elaborada fantasia, encapuzado
com uma máscara e com um estranho símbolo no peito. A máscara tinha a forma de um saco
de mercado, achatada em cima e com os ângulos salientes. Era negra e com furos para os olhos
e a boca. Sobre os furos dos olhos, o homem usava óculos escuros. A máscara descia de sua
cabeça cobrindo seu peito e suas costas; na parte que cobria o peito estava costurado o estranho
símbolo: uma cruz dentro de um círculo que fazia lembrar o visor de uma mira telescópica.
Usava o capuz sobre uma jaqueta escura e esta sobre uma camisa negra. Suas mangas
fechavam nos punhos sobre luvas negras, e as calças, largas, metidas dentro do cano das botas.
No cinto trazia uma faca longa numa bainha de madeira. Parecia uma baioneta e seu cabo de
madeira e bronze fora coberto com esparadrapo.
Uma das vítimas descreveria mais tarde o homem como alguém corpulento, com mais ou
menos 1,80m de altura e uns 100kg. Houve um momento em que por um furo da máscara foi
possível ver um pouco de cabelo castanho e alguma coisa brilhando, que poderia ser óculos
usados sob a máscara. Sua voz era a de alguém jovem, na casa dos vinte.
Ele exigiu dinheiro e as chaves do carro, explicando que queria ir para o México. Quando
Bryan lhe deu seu dinheiro e as chaves de seu VW Karmann Ghia, o homem guardou a arma.
Contou que escapara da prisão em Deer Lodge, no Montana, onde matara um guarda. Disse
que estava sem dinheiro e dirigindo um carro roubado; e aconselhou Bryan a não tentar bancar
o herói.

O estudante de direito, por sua parte, tentava acalmar o homem, oferecendo-se para ajudá-
lo em tudo que precisasse. Mas o homem tirou do bolso umas cordas e ordenou a Cecelia que
amarrasse Bryan. Enquanto fazia isto, ela tirou a carteira do bolso dele e a atirou na direção do
homem. Ele ignorou o gesto e, quando Cecelia terminou com Bryan, a amarrou também.
Depois verificou as cordas que atavam Bryan, apertando os nós que achou malfeitos. Então
disse que ia esfaqueá-los e Bryan pediu que começasse por ele; que não queria ver Cecelia
morrer. O homem concordou e o esfaqueou várias vezes nas costas. Depois, voltou sua atenção
para a garota, que estivera todo tempo gritando e pedindo-lhe que parasse. Enquanto se
contorcia tentando escapar, ele a esfaqueou muitas vezes no peito, nas costas, no abdômen e no
ventre. Quando terminou, o atacante partiu, deixando sobre o cobertor o dinheiro e as chaves
do carro.
Suas vítimas ainda estavam vivas e, embora Cecelia, esfaqueada 24 vezes e com a aorta
cortada, estivesse ferida mortalmente, conseguiram se libertar das cordas, com a ajuda um do
outro. Mas haviam perdido muito sangue e ambos não tinham condições de procurar ajuda.
Um pescador, que passava com seu filho, contatou a guarda florestal no balneário do Rancho
Monticello, a três quilômetros do local. O Ranger da guarda florestal, Dannis Land, que
atendeu ao apelo com o carro-patrulha, encontrou Bryan a algumas centenas de metros do
local, até aonde conseguira rastejar. O sargento Ranger William White chegou ao local, pouco
depois, de barco pelo lago. Não havia ambulância no lago Berryessa e o socorro médico mais
próximo, o Hospital Queen of the Valley, ficava a uma hora de distância, em Napa. Apesar de
ainda vivos, depois da longa e dolorosa espera, Cecelia não resistiu aos ferimentos e morreu no
hospital na tarde do dia seguinte. Bryan foi colocado sob vigilância constante.
Por volta das 19:40h, pouco mais de uma hora após o crime, enquanto o casal de jovens
ainda esperava pela ambulância, a central telefônica do Departamento de Polícia do Condado
de Napa recebeu uma chamada. O policial de serviço ouviu um homem que queria dar parte de
um homicídio duplo no parque, com informações sobre o local e uma descrição do carro das
vítimas. Numa voz calma, que parecia de alguém muito jovem, o homem terminou sua ligação
declarando que era o assassino. Quando acabou de falar, largou o telefone fora do gancho,
enquanto do outro lado da linha, o policial podia ouvir o som de pessoas falando e de carros
passando. A ligação viera de um telefone público num lava-carros a menos de oito quilômetros
do Distrito de Polícia. Será que o criminoso fora até ali por gostar de estar perto da polícia sem
ser descoberto? Seria aquele seu caminho para casa? Ou ambas as coisas? Baseando-se na hora
da chamada e no fato de o homem dizer que as vítimas estavam mortas, a polícia concluiu que
abandonara o local imediatamente após o ataque. Uma impressão de palma da mão foi
recolhida do telefone, mas nada havia a comparar com ela.
Um homem fora visto naquele dia, passeando só pelo parque. Três estudantes da
Universidade Pacific Union contaram à polícia que um homem num carro descrito como um
Chevy, azul ou prateado, com placa da Califórnia, parecia segui-las naquela tarde. Quando
estacionaram, ele também parou e ficou dentro do carro, fumando. Isto fora às 15:00h. Por
volta das 16:00h, bronzeavam-se no lago, quando viram o mesmo homem observando-as. Elas
o descreveram como um homem alto, 1,80m ou mais, corpulento com mais ou menos 100kg,
por volta dos trinta anos, e de cabelos escuros e lisos, repartidos do lado. Tinha uma aparência
limpa, vestido com um moleton preto de mangas curtas e uma calça azul, apesar de ter uma
camiseta pendurada no cinto da calça. As garotas ajudaram a um desenhista da polícia na
confecção do retrato falado. Ela veiculou o desenho, mas o xerife de Napa, capitão Don
Townsend, frisou que não era, necessariamente, um retrato do suspeito, mas de alguém com
quem a polícia queria falar.
Um homem que coincidia com a descrição das estudantes também fora visto por um
dentista e seu filho. Ele disse que o homem que vira era alto, com mais de 1,75m, corpulento, e
usava uma camisa escura de mangas compridas com uma calça vermelha e preta. Quando
percebeu que o viram, o homem foi embora e, na hora que voltaram para o carro, o dentista e
seu filho notaram as marcas de pneus de um carro, que estivera parado atrás do deles.
Junto ao carro de Bryan, os investigadores encontraram marcas de pneus e fizeram moldes
de gesso na esperança de logo terem um veículo suspeito com que compará-las. Tiraram a
medida da distância entre os pneus e notaram que os da frente, além de gastos, pareciam ter
tamanhos diferentes. Havia pegadas que iam e vinham da porta do Karmann Ghia até a cena do
crime, feitas por um sapato de número 41; e baseando-se em sua profundidade na areia
comparada com as de um policial, os investigadores concluíram que quem as fizera pesaria uns
100kg. E era alguém com muito sangue-frio, pois as pegadas mostravam, pela marca bem
definida de seus saltos, que ele caminhava calmamente e não corria quando abandonou suas
vítimas para morrer. As pegadas deixaram também um fator de identificação pelo qual os
investigadores conseguiram chegar ao fabricante do calçado. Eram de uma bota conhecida
como Wing Walker, produzida para o governo e distribuída na Costa do Pacífico para a
Marinha e a Força Aérea.
Era mais uma indicação de que o homem que a polícia procurava tinha um histórico de
militar. Ficava óbvio que possuía conhecimento de armas de fogo e uma ótima pontaria, sem
problemas em matar de perto ou mesmo em contato pessoal com a vítima usando uma faca, e
conhecia, também, os símbolos usados por militares e, possivelmente, treinamento com
códigos. Fora descrito como alguém de cabelos curtos e aspecto limpo, e o que não faltava no
norte da Califórnia eram instalações militares.
Eu teria sugerido à policia que procurasse alguém com uma baixa militar por razões
médicas ou sem razão aparente, porque ele não poderia conviver muito tempo no ambiente
estruturado e altamente disciplinado das Forças Armadas. Apesar de muito inteligente e
habilidoso, nosso homem teria problemas para lidar com a autoridade e se ressentia ao receber
ordens.
O ED deixou ainda uma outra chave de sua identidade com a referência que fez a Deer
Lodge, em Montana. Na realidade existia, e ainda existe, uma prisão lá. E, embora fosse falsa
sua história de uma fuga com o assassinato de um guarda, uma conexão entre nosso homem e
aquela prisão não deve ser descartada. Deer Lodge não é um nome que se invente. Eu mesmo,
que estudei durante algum tempo na Universidade do Estado de Montana, em Bozeman, não
reconheci o nome e posso assegurar que poucas pessoas, fora daquele Estado, já ouviram falar
em tal lugar.

O assassino esperava que tanto Cecelia quanto Bryan morressem. De fato, quando
telefonou para a polícia e disse que queria dar parte de um assassinato, ele se corrigiu logo,
falando que, na verdade, tratava-se de um assassinato duplo. Se ambas as vítimas morressem,
não haveria testemunha nem risco ao mencionar um lugar com o qual tivesse alguma conexão.
Este é o tipo de informação que, acredito, poderia ser usada com vantagem pela polícia.
Eis como, em cooperação com um repórter policial, poderiam ter publicado na imprensa
de Deer Lodge, junto com as informações sobre os crimes, um perfil do criminoso e indicar
que a polícia da Califórnia teria razões para acreditar que o assassino possuía ligações com
aquela área, sem explicá-las. Ao lado dos elementos fornecidos por testemunhas — branco,
corpulento, por volta dos trinta anos etc. —, o perfil incluiria os seguintes traços
comportamentais: solitário, paranóico, noturno e muito inteligente e com grande interesse por
armas. E mais, talvez tenha deixado a área, transferido para a Califórnia, por exemplo, por
razões militares e, certamente, deu baixa por motivos médicos. Seria então possível que se
comunicasse com alguma das autoridades de Deer Lodge de forma irônica (como um
precedente para suas cartas e telefonemas provocativos para a polícia e a imprensa da
Califórnia).
Mais tarde, discutiremos mais profundamente as técnicas provocativas, que deveriam ser
tentadas neste caso, mas devo sublinhar que este é o tipo de caso onde esta espécie de
abordagem é mais efetiva. O criminoso está em comunicação com a imprensa, donde sabemos
que acompanha seu noticiário com atenção. Isto o torna bastante vulnerável porque não pode
deixar de reagir ao que esta publica sobre ele. Tanto que, veja o leitor, respondeu rápido às
declarações de Stiltz. Por outro lado, existem inúmeros desajustados que são brancos,
solitários, paranóicos, gostam de armas e não têm muito sucesso com as mulheres. Neste caso,
então, o perfil ajudará apenas a reduzir o número de suspeitos. Para encontrá-lo é necessário
fazer com que saia a descoberto, e o uso da provocação pode ser a melhor forma de conseguir
isto. Acho que devemos, em grande parte, à ausência desta abordagem, o fato de o Zodíaco
nunca ter sido preso. No final da década de 1960, início da de 1970, ele era um moderno
assassino serial sendo perseguido por uma polícia antiga com métodos arcaicos Assassinava
pessoas que não conhecia ou que não podiam ser ligadas a ele. Seus motivos indecifráveis não
eram os tradicionais. Evoluía de crime para crime, usando armas e modus operandi diferentes.
E movia-se de uma jurisdição para outra, manipulando a imprensa e o público onde quer que
fosse.
Como no caso Jensen-Faraday, o crime de Berryessa aconteceu num local de jurisdições
superpostas. Assim, enquanto a Guarda Florestal acorrera ao local e cuidara de socorrer as
vítimas, o xerife do condado de Napa se encarregara das investigações. Quando o sargento-
detetive Keneth Narlow chegou à cena do crime, descobriu que alguém já tivera tempo de
"ajudá-lo" e empacotara os cobertores do casal e as cordas com que foram amarrados. Já
argumentamos antes que, quanto mais gente trabalha na cena do crime, mais confusas ficam as
coisas para quem terminar sendo o responsável pelo caso.
Algo, no entanto, não fora mexido; algo altamente perturbador para Narlow. Antes de
abandonar a cena do crime, o ED deixara uma mensagem; na porta do carro de Bryan estava
escrito com um marcador negro:

Vallejo
20-12-68
4-7-69

27 de set. De 69-6:30
à faca

As duas primeiras datas eram aquelas dos assassinatos Jensen-Faraday e Ferrin. Acima da
mensagem aparecia o símbolo da cruz dentro de um círculo, que o Zodíaco usara como
assinatura em suas cartas enviadas à imprensa no início de agosto. O ED queria ter certeza de
que a polícia realmente soubesse que lidava com um assassino serial.
À primeira vista pode parecer óbvio que esses crimes estavam conectados. Afinal,
estamos lidando com um criminoso que toma como alvo casais jovens, em locais ermos, à
noite ou ao entardecer, e cujos motivos não são os normais de roubo ou violência sexual. Mas
existem muitas diferenças entre este caso e os dois anteriores, e não me refiro apenas à fantasia
bizarra costurada em casa. Sem a pista deixada por ele, devido à mudança de lugar e de
jurisdição, talvez os investigadores não se dessem conta de imediato da ligação entre os casos.
De certa forma o criminoso estava dando uma ajuda à polícia, dizendo aos investigadores que
deviam procurar por uma só pessoa.
Em meu tempo em Quantico, minha unidade viu vários casos de conexões ignoradas. Às
vezes, um criminoso serial muda ou aperfeiçoa seu modus operandi, ou troca de jurisdição —
ou sua violência aumenta, o que é uma progressão típica —, de modo que a polícia pensa lidar
com vários criminosos, quando na verdade é o mesmo homem em todos os casos. Eis um
exemplo: um assassino e violentador começa atacando e estrangulando prostitutas e
abandonando seus corpos na rua onde o crime aconteceu. Depois de algum tempo ele percebe
que seria menos arriscado se levasse sua vítima para outro local, no qual não correria o risco de
ser surpreendido por alguém. Assim, da próxima vez ele pega sua vítima e a leva para uma
área remota onde deixa seu corpo. E, como tem mais tempo à sua disposição, não precisa
violentá-la e matá-la tão rapidamente, então decide torturá-la mais um pouco. Com o tempo e a
prática este mesmo indivíduo pode terminar por pegar mulheres solitárias e vulneráveis em
bares e levá-las para algum lugar, onde possa mantê-las prisioneiras e torturá-las por dias antes
de matá-las e desfazer-se de seus corpos em lugares em que talvez não sejam nunca
encontrados. Sem pistas que possam ligar os crimes, especialmente quando são cometidos em
jurisdições diferentes, de modo que os investigadores de um crime não tenham conhecimento
do outro, é possível que a polícia nunca estabeleça conexão alguma entre eles. E meu exemplo
não é fora do comum. Meu testemunho como perito ajudou a condenar o criminoso serial
George Russell Jr., e a ligação entre os crimes foi a posição dos elementos da assinatura.

Agora consideremos as variações existentes entre os crimes de Vallejo e o do lago


Berryessa. Antes de tudo existe uma grande diferença entre atirar em pessoas dentro de um
carro e esfaqueá-las. No primeiro caso o criminoso sai limpo. Ele vê o que se passa, mas, na
verdade, sem entrar em contato com as vítimas. No caso Berryessa, estamos falando de ficar
algum tempo conversando com as vítimas, ouvindo suas vozes e de alguma forma
estabelecendo uma relação com elas. Então, depois de conseguir aquilo tudo que em aparência
era o que desejava, depois de as vítimas lhe darem as chaves do carro e o dinheiro, mesmo
assim ele ataca brutalmente. Com cada facada, mais sangue sujava suas roupas, enquanto ele
ouvia os gritos e os gemidos de dor. Lembre o leitor também que ele tinha uma pistola, ou seja,
não precisava usar a faca. Se seu objetivo fosse só pânico e controle, poderia usar a faca para
conseguir isto e, no momento de matá-los, usar a pistola. Mas ele escolheu a faca. E como
estava ainda começando o anoitecer, e não noite fechada, ele pôde visualizar claramente o
horror diante dele.
O que nos leva ao próximo ponto. O local e a hora escolhidos para o crime mostram a
disposição do criminoso para assumir riscos maiores. Foi no meio da tarde que as três
estudantes, assim como o dentista e seu filho, viram o tipo suspeito. O uniforme, criado por ele
para matar, que Bryan Hartnell descreveu, era perfeito para esconder seu rosto e cabelo, mas
serviria apenas para chamar a atenção se o usasse o tempo todo no parque. Embora fosse
improvável que alguém aparecesse na cena do crime, enquanto o assassino esfaqueava Bryan e
Cecelia, isso não era impossível acontecer. E, apesar de uma faca fazer menos barulho do que
os tiros de uma pistola, os gritos das vítimas poderiam muito bem chamar a atenção. Se alguém
os visse de um barco, o ED não poderia impedir que denunciasse o ataque. O melhor, aí, seria
escapar rápido deixando para trás várias testemunhas capazes de fornecer à polícia uma boa
descrição dele. E este ED ainda aumentou os próprios riscos, passando um longo tempo
conversando com suas vítimas; e matar com uma faca leva muito mais tempo do que a tiros.
Havia ainda outro fator preocupante. O encurtamento do tempo entre os crimes. Passaram-
se sete meses entre os assassinatos de Jensen e Faraday e o ataque a Darlene Ferrin e Michael
Mageau. O crime do lago Barryessa aconteceu menos de três meses depois. Assim, em todos
os seus aspectos, este crime representa uma progressão em relação aos anteriores. Criminosos
bem-sucedidos, como este, não param de repente de cometer seus crimes, apenas se tornam
mais ousados e, de forma típica, mais violentos e mortais. Era de esperar que o Zodíaco
continuasse a matar.
MOTORISTA DE TÁXI

Eram 21:30h, do dia 11 de outubro, quando o taxista Paul Lee Stine pegou uma corrida na
rua Geary, em São Francisco. Stine estava, na verdade, indo atender à chamada de outro
cliente na Nona Avenida, mas ficara parado no tráfego da área dos teatros naquela noite
enevoada de sábado. Quando um homem se aproximou do carro e deu o endereço que era
dentro de seu percurso para a Nona Avenida, Stine o levou. Escreveu o endereço, Maple com
Washington, no registro e dirigiu-se para Oeste, passando pela área residencial de Presidio.
Embora no registro de corridas de Stine estivesse escrito Maple com Washington, o táxi
parou uma esquina mais adiante, na esquina de Washington e Cherry. Neste local, em vez de
pagar a corrida e descer do táxi, o passageiro deu um tiro à queima-roupa na face direita de
Paul Stine. Então, passou para o banco da frente, roubou-lhe a carteira e também rasgou parte
de sua camisa. Deixou um relógio Timex, um livro de cheques, um anel e pouco mais de
quatro dólares em moedas que o taxista carregava no bolso. Quando terminou, saiu do táxi e
limpou as portas dianteira e traseira, do lado do motorista, e depois se inclinou e limpou o
painel, antes de bater a porta e afastar-se, andando.
O que ele não sabia é que toda a cena fora testemunhada por uma menina de 14 anos que
estava numa festa do outro lado da rua. Ela olhava por uma janela do segundo andar e viu o
táxi a uns 15 metros de distância. No momento em que percebeu o que ocorria, chamou seus
dois irmãos à janela. Enquanto o homem branco e corpulento terminava de limpar suas
impressões do carro, um grupo se reunia na janela, com uma visão clara do que acontecia. E
não parou de observá-lo até que desaparecesse na esquina. E ele foi embora, caminhando
calmamente.
Entrementes, alguém na festa chamou a polícia. Às 21:58h, porém, a telefonista que fazia
o registro do crime em andamento, de alguma forma se atrapalhou, descrevendo o suspeito
como um homem negro. Assim, quando colocaram o boletim no rádio, as unidades em patrulha
nas ruas foram mandadas na direção certa, mas com uma descrição física do suspeito incorreta.
O que aconteceu em seguida é controverso. Segundo vários relatos — inclusive aquele do
Zodíaco, feito por carta, mais tarde — o primeiro carro da polícia, atendendo à chamada,
chegou na esquina de Cherry com Jackson em questão de minutos e viu um homem corpulento
e branco caminhando na direção de Presidio. Se houvesse mais luz, teriam visto que suas
roupas escuras estavam sujas de sangue. E, se soubessem que o ED era branco, esta história
poderia ter tomado um outro rumo. Mas como estavam procurando por um negro, apenas
perguntaram a ele se vira alguma coisa suspeita. Ele disse que vira um homem com uma arma
correndo pela rua Washington na direção leste. Assim eles partiram para lá. Os policiais da
patrulha comunicaram, uma semana mais tarde, que possivelmente haviam visto o assassino e
tentaram, com um desenhista, fazer seu retrato falado. Quando Robert Graysmith pesquisou
este erro de interpretação, descobriu que o relatório desses policiais fora classificado como
confidencial e que a posição oficial da Polícia de São Francisco era de que nenhum de seus
homens vira o suspeito. Mas esta declaração não explica a existência do retrato falado, na
verdade o segundo a ser feito, já que o desenhista da polícia fizera outro antes, a partir da
descrição dada pelas pessoas da festa.
Este desencontro trazia uma ótima oportunidade, não entendida na época, para fazer o
Zodíaco sair à luz. Poderiam fazer uma declaração pedindo a colaboração da comunidade em
seguida a este crime bárbaro. O anúncio deveria informar que várias pessoas, além do suspeito,
haviam sido vistas na área no momento do crime e que a polícia estava identificando todas
elas. E conclamaria qualquer um, que lá estivesse, para dizer se haviam visto alguma coisa. Se
funcionasse, nosso homem apareceria com uma história que explicasse sua presença no local e
desviasse as suspeitas, caso alguém o houvesse visto.
Quando a polícia chegou, encontrou Paul Stine caído para o lado do passageiro no assento
da frente e com a cabeça no chão. Havia muito sangue e, embora as chaves houvessem
desaparecido, o taxímetro continuava rodando. Os policiais chamaram uma ambulância e
expediram o aviso de que, na verdade, o suspeito era branco. Além dos dois policiais que
chegaram primeiro, o inspetor Walter Kracke, Detetive do Departamento de Homicídios, que
estava a caminho de casa, ouviu o chamado e em poucos minutos estava no local do crime. Sua
experiência provou ser de grande valia, ajudando os outros policiais na segurança do local do
crime. Quando os inspetores do Departamento de Homicídios, Dave Toschi e seu parceiro Bill
Armstrong, de serviço naquela noite, chegaram, a ambulância já estava lá. Stine também já
tinha sido declarado morto. E Kracke, ao notificar o legista, requisitara todos os cães
farejadores e os carros com holofotes do corpo de bombeiros para ajudarem na busca.
Enquanto os investigadores trabalhavam na cena do crime, cães, patrulheiros a pé e a
Polícia Militar de uma base vizinha prosseguiam na busca. O Presidio ficava apenas a alguns
quarteirões de distância, e alguns de seus moradores viram um homem, que correspondia à
descrição do suspeito, correndo em direção ao bosque em torno da base militar. Por algumas
horas a área parecia iluminada pela luz do dia, enquanto holofotes e lanternas varriam o local.
Só abandonaram a busca de madrugada, às 2:00h, quatro horas depois que Stine fora declarado
morto, devido a um ferimento por arma de fogo no cérebro. Na autópsia foi recuperado o
projétil, uma bala de 9mm, coberta de cobre e muito danificada. O assassino disparara um
único tiro de sua semi-automática. Era de um tipo pouco comum, menos de 150 unidades
foram vendidas na área da baía de São Francisco, nos três anos que precederam o crime.
Ficava claro, pelas queimaduras na pele da face direita de Stine, que a arma fora encostada
contra sua cabeça. Em sua mão esquerda havia feridas, feitas na tentativa de defender-se.
Olhando o histórico da vítima, descobrimos que Paul Stine, de 29 anos, casado, fazia um
doutorado em inglês na Universidade Estadual de San Francisco. Para pagar seus estudos
vendia seguros, além de dirigir um táxi à noite. Com 1,78m e 80kg, não era um homem
pequeno. Nada em sua vida pessoal ou em seus interesses poderia classificá-lo num grupo de
risco de morte violenta, exceto seu trabalho como taxista, uma profissão arriscada. Uma
atividade que exige o trabalhar com pessoas estranhas, a qualquer hora do dia ou da noite, para
levá-las aonde quer que queiram ir. E, como carregam dinheiro, são alvos frequentes de
assaltos e coisas piores. Menos de duas semanas antes da morte de Stine, outro motorista da
mesma companhia de táxis fora assaltado e, fazia pouco mais de um mês, o próprio Stine fora
roubado por dois homens armados.
Na verdade, à primeira vista, o crime parecia obra de um assaltante pouco sofisticado. O
criminoso escapara sujo de sangue e deixara objetos de valor para trás. Quando a polícia
reconstruíra, pelo registro das corridas, o trabalho de Stine naquela noite, descobrira que o
máximo que o assaltante levara foram US$ 25. Além de ter deixado, na porta em que se
segurara para se inclinar enquanto limpava o painel, a impressão de dois dedos sujos de
sangue.
Ainda havia as testemunhas. Os jovens na festa descreveram o assassino como um homem
branco, de vinte para trinta anos, com cabelos louros avermelhados e curtos. Usava óculos,
calça escura e jaqueta. Era corpulento e teria pouco menos de 1,80m. A descrição e o retrato
falado circularam entre as companhias de táxi da área de São Francisco, alertando para o
modus operandi do criminoso.
Quase tão rápido quanto o tempo que a polícia levou para circular seu boletim, um novo
acontecimento no caso provou que a morte de Stine fora mais do que um simples caso de
assalto a um táxi que degenerara em assassinato. Em outubro, o San Francisco Chronicle
recebeu uma carta. O endereço do remetente no envelope era apenas um círculo com uma cruz
inscrita. A carta começava da mesma forma que outra antes dela: "Aqui fala o Zodíaco...".
O autor se responsabilizava pelo assassinato de Stine e tinha como provar; incluíra um
pedaço da camisa da vítima. Referia-se às "pessoas no norte da baía", por quem se
responsabilizava também. O laboratório confirmou que o retalho era realmente da camisa de
Stine e, quando Toschi e Armstrong se encontraram com o sargento-detetive Nolan em Napa,
este achou a caligrafia igual, o que foi confirmado mais tarde pelo perito Sherwood Morrill,
chefe do Serviço de Documentos da Polícia da Califórnia, em Sacramento.
Apesar de todo o seu trabalho, a polícia não merecia nenhum crédito por parte do
Zodíaco. Nesta sua carta, zombava dos esforços que faziam para prendê-lo, depois da morte de
Stine.

A Polícia de S.F. poderia me prender


na noite passada se procurassem
no parque com cuidado
em vez de apostar corrida
com suas motos para ver
quem fazia mais barulho.
Os motoristas deveriam
estacionar seus carros, sentar esperar
com calma que eu saísse
de meu esconderijo...

Sua mensagem, ao que parece, surtiu efeito. O inspetor-chefe da polícia de São Francisco,
Marty Lee, fez o melhor que pôde diante da imprensa, dizendo que, se o Zodíaco tivesse
estado, realmente, na área naquela noite, mencionaria os cães e os holofotes usados na busca.
Acho que, se o assassino fosse o homem com que a polícia falara naquela noite, isto explicaria
o tom de sarcasmo. Ele quase fora preso e isto o amedrontara, o que não podia admitir nem
para a polícia nem para si. Assim, respondia com petulância e zombarias. É de se esperar que
criminosos como este compensem seu senso de inferioridade com demonstrações de desprezo
por aqueles a quem na verdade inveja. Ele tivera sorte, mas queria fazer crer que fora mais
esperto do que a polícia.
Criminosos assim, para provar sua superioridade, precisam de mais controle e mais poder.
O Zodíaco conseguiu isto, terminando sua carta com uma terrível ameaça:

Crianças de escola são belos alvos,


acho que liquidarei com
um ônibus escolar qualquer manhã. Apenas
um tiro num pneu da frente então

é só esperar as crianças
começarem a sair.

Em cooperação com o Departamento de Polícia de São Francisco, o Chronicle não


publicou nenhuma notícia desta ameaça por vários dias, depois de estampar partes da carta e
um retrato falado do criminoso no jornal. O que resultou apenas em retardar o pânico que se
seguiu. Por toda a São Francisco, Napa e adjacências, várias medidas foram tomadas para
proteger os ônibus escolares e as crianças. Colocaram motoristas extras, para vigiar e assumir a
direção caso o motorista fosse baleado e, em alguns casos, policiais armados dentro dos
ônibus. Usaram os caminhões de coleta do Serviço Florestal e da estação dos rangers no lago
Berryessa e até aviões para monitorar do céu o trajeto de certos ônibus escolares.
Há que haver cautela com ameaças como esta. É óbvio que este ED seria capaz de matar e
precauções devem ser tomadas. Mas eu acho que, na verdade, a ameaça foi feita apenas para
espalhar o terror na comunidade e manipular a emoção do público. Se os ataques no lago
Berryessa e em São Francisco foram muito arriscados, é impossível imaginar algo ainda mais
arriscado do que atirar num ônibus cheio de crianças à luz do dia. Para o criminoso seria quase
uma missão suicida. E todo o aparato montado pela polícia, verdadeiramente, deu ao Zodíaco a
desculpa ideal para não cumprir sua promessa.
Foram empreendidos algumas tentativas para chegar ao Zodíaco pela imprensa. O
procurador-geral da Califórnia, Thomas Lynch, veiculou uma declaração formal, na qual
assegurava ao assassino que seus direitos legais seriam respeitados e que ele receberia ajuda,
caso se entregasse. Lynch tentou apelar para a vaidade do Zodíaco, dizendo que "um indivíduo
inteligente" como ele devia perceber que, no final, seria preso e que o melhor caminho a seguir
seria entregar-se. O Examiner também tentou, mas em nenhum dos casos as tentativas
funcionaram.
Com um outro tipo de abordagem, o dr. C. B. Marsh, presidente da Associação Americana
de Criptogramas, publicou um desafio ao assassino. Usando o mesmo código do Zodíaco,
Marsh compôs uma mensagem que continha um número de telefone que o assassino poderia
usar quando tivesse uma mensagem em código que realmente revelasse sua identidade. O
desafio de Marsh, publicado pelo San Francisco Examiner, nunca teve resposta. Ainda assim
considero a tentativa do dr. Marsh uma grande ideia e o tipo de técnica que aconselharia para o
caso, feita sob medida para a personalidade do ED.
Menos de duas semanas depois da morte de Stine, foi realizada uma grande conferência
no Salão de Justiça de São Francisco. Investigadores de Vallejo, Napa, Benicia, Solano, San
Mateo e Marin se reuniram com representantes do FBI, do Escritório do Estado para
Identificação e Investigação Criminal, do Serviço de Informação da Marinha, da Polícia
Rodoviária da Califórnia, dos Inspetores do Correio dos Estados Unidos e de qualquer um que
tivesse algo a ver com o caso. O seminário cobriu cada fato até então conhecido e comparou
todas as evidências disponíveis.
Se estivesse envolvido com o caso, na época, além da cooperação entre as diversas
jurisdições, recomendaria que se tentasse a comunicação com o assassino. Ironicamente, este
meu conselho seria desnecessário, pois a comunicação já fora iniciada pelo criminoso.
Posso imaginar o Zodíaco, no final de outubro de 1969, vendo que os noticiários e jornais
dedicavam cada vez menos espaço para sua ameaça contra o ônibus escolar. Imaginando o que
poderia fazer de mais terrível, para se suplantar. Conquanto eu talvez não fosse capaz de
predizer com exatidão o que seria, tenho certeza de que faria algo para voltar ao centro das
atenções. Embora não o admitisse, ele estaria ainda se recuperando do susto que levara depois
do assassinato de Stine, assim não estaria pronto para matar outra vez. E, como não cumprira
sua última ameaça, devia perceber que nada que colocasse numa carta teria muito impacto. O
que precisava era de um golpe de publicidade.
Uma técnica que recomendaria seria identificar no público um personagem com quem o
ED fosse capaz de simpatizar. Sabemos que a maioria dos criminosos seriais acompanha seu
próprio noticiário. Assim, dependendo do criminoso e da dinâmica do caso, aconselharia a
polícia a criar um personagem com quem o assassino se sentisse à vontade para comunicar-se.
Por exemplo, enquanto alguém importante na polícia local o rotulava pelos jornais de maníaco
e louco, ela também poderia oferecer aos jornalistas a opinião de um famoso psiquiatra que
discordasse completamente dessas ideias e polemizasse que o ED era na verdade alguém muito
inteligente, tanto que a polícia ainda não o capturara, e que seu maior problema era na verdade
a incompreensão. O psiquiatra poderia ser fotografado em seu consultório, com uma
conveniente menção da área onde se localizava e ter certeza de que seu endereço e telefone
constassem do catálogo telefônico. Então seria só sentar e esperar que o ED fizesse contato
com a única pessoa que ele vê capacitada a entendê-lo e a seus motivos, para servir-lhe de voz
e corrigir mal-entendidos.

O que o Zodíaco fez foi ele próprio criar este cenário. Às 2:00h, o Departamento de
Polícia de Oakland, do outro lado da baía de São Francisco, recebeu um telefonema. O homem
ao telefone se identificou como o Zodíaco e pediu para falar ao telefone com o conhecido
advogado penal F. Lee Bailey ou, se ele não estivesse disponível, com outro famoso advogado
local, Melvin Belli. Disse que queria que um destes dois aparecesse num programa de
entrevistas matinal. Acho interessantes os nomes escolhidos pelo Zodíaco. F. Lee Bailey tinha
uma reputação como um mestre de defesa penal; dos mais de cem assassinos que defendera, só
três foram condenados. E Belli ficara famoso por defender personagens infames como Jack
Ruby e Mickey Cohen. Como ficou provado, nos anos que se seguiram, ambos tinham uma
enorme capacidade para atrair a atenção da mídia. E, é claro, isto era o que o Zodíaco
procurava.
O que se passou foi que o primeiro escolhido, Bailey, não pôde aparecer, mas Belli estava,
naquela manhã, ao lado do entrevistador Jim Dunbar, no Canal 7. Começaram o programa
meia hora antes do horário normal. Enquanto esperavam ansiosamente, com o público
sintonizado no programa, o primeiro de uma série de telefonemas aconteceu pouco depois das
7:00h. Sempre ligando e desligando, o homem se identificou como "Sam" e falou de suas
dores de cabeça e de sua solidão. Foram ao ar 12 de suas 35 chamadas e marcado um encontro.
Belli, à frente de um desfile de carros da polícia e da mídia, dirigiu-se ao local do encontro,
mas, como era de se prever "Sam" não apareceu. As últimas chamadas levaram, mais tarde, a
um doente mental internado no Hospital Estadual de Napa. O policial, que atendera o
telefonema no Departamento de Polícia, em Oakland, achou que quem chamara à televisão
tinha uma voz diferente de quem falara com ele. Mas, do ponto de vista do Zodíaco, quem
realmente chamara Balli naquela manhã não importava. Importante é que ele conseguira a
atenção da mídia e do público, ao vivo. Conseguira, em poucas horas, manipular a todos.
Mobilizar uma famosa personalidade para ficar à sua disposição, esperando por um
telefonema, e colocar todo o público interessado diante de seus televisores. Além de tudo, a
polícia continuava tomando precauções para evitar seu ataque a um ônibus escolar; e tampouco
conseguia identificá-lo e prender.
Mas não era ainda o bastante. No início de novembro ele mandou mais duas
comunicações para o San Francisco Chronicle, um cartão com um criptograma de sete páginas
e um desenho feito à mão do que seria uma bomba para destruir um ônibus escolar. Para
estabelecer autenticidade, outro retalho da camisa de Paul Stine foi colocado dentro de um dos
envelopes, embora a esta altura tanto sua caligrafia quanto seu hábito de colocar mais selos do
que o necessário nas cartas já fossem familiares à polícia. Os selos extras eram, na realidade,
uma medida prática. Assim podia colocar suas cartas em qualquer caixa de correio sem ter que
entrar em contato com ninguém para pesá-las e, ao mesmo tempo, estar seguro de que
chegariam a seu destino. A mesma tática que vimos, mais tarde, usada pelo Unabomber.
Conquanto a polícia tenha dado muita atenção aos desenhos e às referências à bomba,
acho que outros aspectos da comunicação, em particular a mensagem codificada de sete
páginas, são muito mais importantes. Analise o leitor o texto abaixo:

... tem crescido


a raiva que tenho da polícia
pelas mentiras que contam de mim.
Assim vou mudar meus meios
de colecionar escravos. Não
mais anunciarei a ninguém,
quando cometer meus crimes
eles parecerão rotineiros
assaltos, assassinatos de raiva, +
alguns acidentes falsos etc...

Em várias mensagens subsequentes, o Zodíaco faria referências a suas novas listas


atualizadas de corpos. E, depois de cada uma delas, a polícia fazia uma reavaliação de todos os
assassinatos não-resolvidos em cada uma de suas jurisdições, à procura de casos que pudessem
estar relacionados a ele. No início da década de 1980, algumas pessoas chegaram a pensar que
o Zodíaco e o assassino que ficou conhecido como "The Trailside Killer" eram a mesma
pessoa. Mas o julgamento e a condenação de David Carpenter, como sendo este último,
eliminou esta teoria, já que ele estaria na prisão na época em que vários dos crimes do Zodíaco
aconteceram. No entanto, dependendo de quem relata, existem hoje até cinquenta crimes
creditados ao Zodíaco. De uma certa forma este fenômeno é como uma inversão da
incapacidade de conectar crimes a um mesmo criminoso. E, sempre que nos defrontamos com
crimes seriais insolúveis, a tendência é de responsabilizar o Zodíaco. Até hoje se lhe atribuem
os crimes do assassino de Green River, embora o primeiro da série de assassinatos deste
criminoso de Seatle tenha ocorrido em janeiro de 1982.

Na verdade, uma das razões pela qual os crimes do Zodíaco ainda hoje continuam nos
assombrando, é que ele capturou a imaginação de psicopatas tanto quanto a de pessoas de bem,
transformando-se num favorito para crimes-cópias, não só na área de São Francisco, mas em
Nova York e até mesmo em Tóquio. Mas, por razões complexas demais para serem
pormenorizadas, a polícia teve como saber, em pouco tempo, que estes crimes não eram obra
do Zodíaco.
O que o Zodíaco conseguiu fazer, foi criar a ilusão de que permanecia ativo,
independentemente do fato de ter continuado a matar ou não. Enquanto mantivesse as
comunicações aos jornais, declarando-se responsável por crimes, a lenda que o envolvia não
morreria. Culpando a polícia e suas mentiras por tê-lo colocado na posição de ter que ocultar
seus crimes, criou uma situação de incerteza quanto a suas atividades. Mesmo que ele nunca
mais voltasse a matar, ainda assim as pessoas estariam em suspense; e se matasse de novo, se
protegeria, não revelando pistas que pudessem levar a polícia a identificá-lo ou a capturá-lo.
De fato, depois disso ele nunca mais mandou retalhos de camisa de suas vítimas ou
informações sobre seus crimes, como fizera nos casos Jensen/Faraday e Ferrin/Mageau.
Um dos maiores mistérios dos assassinatos do Zodíaco é por que ele parou? Para onde
foi? No capítulo um já discutimos o fato de que criminosos seriais não vão para uma praia e se
aposentam sem mais nem menos. Já que o Zodíaco não parou de escrever, por anos depois do
assassinato de Stine, sabemos que não morreu ou foi preso, como se poderia presumir. Talvez
tenha adoecido, ou alguma outra coisa o incapacitasse fisicamente para continuar matando,
mas eu acho que ele apenas ficou com medo. Encontrar-se com dois policiais, minutos depois
de matar um homem, coberto de sangue e com a adrenalina ainda correndo em suas veias, não
é o tipo de experiência que se esquece com facilidade.
O Zodíaco demonstrara em seus crimes, em suas cartas e na habilidade em evitar sua
identificação e captura, que era alguém muito esperto. Ele viu a luz e entendeu o que estava
para acontecer. Criminosos como este não aceitam a ideia da prisão. De um momento para
outro não ter mais a embriaguez de ser a manchete dos jornais, de ser temido por tantas
pessoas, por tanto tempo, de repente perder todo poder e controle e ir parar numa prisão, são
situações que podem levar uma pessoa assim ao suicídio. No caso do Unabomber, Theodore
Kaczynski, aconselhei às autoridades da prisão que o observassem 24 horas por dia, para evitar
que se matasse.
Ao mesmo tempo, eu acredito que ao Zodíaco incomodava estar numa posição que
considerava de fraqueza. Não podia admitir o medo, que o faria sentir-se ainda mais
marginalizado. Assim, escrevia páginas e mais páginas. E colocava não só a sua raiva, mas
também, como forma de compensar, fornecia uma quantidade de informações para provar sua
inteligência superior.
A polícia nunca me pegará,
porque sou esperto
demais para eles.

1) Eu pareço com a descrição


feita de mim só quando
mato, o resto do tempo
sou muito diferente...
2) Até agora não deixei
nenhuma digital para trás, ao
contrário do que a polícia diz
... uso protetores transparentes
na ponta de meus dedos. Que
é apenas cola de avião passada
2 vezes na ponta dos dedos — bastante
discreto muito eficiente...
... Se você
estiver se perguntando por que limpei o
táxi todo... Só para deixar pistas falsas
para fazer a polícia correr de um lado para outro
com elas...
... me diverte implicar
com os porcos de azul. Hei, porco da farda azul,
eu estava no parque — enquanto você usava
os caminhões dos bombeiros para cobrir o som
das patrulhas em correria...

p.s. 2 policiais meteram os pés pelas mãos 3


minutos depois que deixei o táxi. Eu estava

descendo a ladeira para o parque


quando este carro de polícia parou
um deles me chamou
perguntou se eu vira alguém
em atitude suspeita...
... e eu disse
sim, eu vi um homem que
corria com uma pistola na mão
os tiras partiram cantando pneu
dobraram a esquina para onde
os mandara desapareci
dentro do parque...

Hei, porco, não te incomoda


Que esfreguem teu nariz nas tuas
mancadas?

Como o "Filho de Sam", David Berkowitz também escrevia longas cartas à polícia e, no
final, podia-se ver também sua degeneração.
Em dezembro, o Zodíaco mandou outra carta, com outro retalho da camisa de Paul Stine,
desta vez para Melvin Belli. A mensagem veio num cartão de Natal e seu tom era muito
diferente da ironia da última. Começava desejando a Melvin um "feliz Natal", e continuava
com um pedido de ajuda e demonstrações de insegurança.
Caro Melvin
Quem escreve é o Zodíaco e
lhe desejo um feliz Natal.

A única coisa que lhe peço é


que por favor me ajude.
Não consigo pedir ajuda porque
algo em mim me impede...

O Zodíaco avisava que, sem ajuda, ele poderia fazer sua nona ou, quem sabe, décima
vítima, uma forma indireta de dizer que depois da morte de Stine voltaria a matar, embora não
fornecesse maiores informações. Depois repetia: "Por favor me ajude, estou afundando" e "Por
favor me ajude, não conseguirei me controlar por muito tempo".
Belli deu um sentido positivo a esta carta, declarando publicamente que nela via
indicações de que o Zodíaco, vendo-se na iminência de ser preso, estaria pronto para entregar-
se à polícia e queria um advogado que o ajudasse a evitar a câmara de gás. Belli chegou a dizer
que, em sua ausência, alguém dizendo ser o Zodíaco telefonara para sua casa e falara tanto
tempo com sua empregada que, agora, só faltava que chegasse em casa e encontrasse os dois
conversando.
Anos mais tarde, meu estimado colega e caro amigo, o finado dr. Murray Miron ofereceu
uma interpretação bastante diferente desta carta. Na opinião de Miron, o Zodíaco revelava nela
um estado de depressão. Ele acreditava que este indivíduo estaria sujeito a crises periódicas de
depressão, que poderiam mesmo levá-lo ao suicídio. Concordo que o Zodíaco poderia se
suicidar, mas acredito também que, mesmo numa crise de depressão, seu objetivo ao escrever
as cartas era, antes de tudo, o desejo de manipulação, domínio e controle de seus destinatários
e do grande público que, sabia também, elas atingiriam. Assim, embora fosse normal que o ED
se sentisse solitário e alienado do convívio social na época de Natal, creio que esta carta, na
verdade, constituía uma tentativa de conseguir simpatia, uma emoção que o Zodíaco não
conseguira ainda despertar em seu público. Para confirmar esta minha impressão, temos o fato
de que, apesar das promessas de Belli de fazer tudo para salvá-lo da câmara de gás e ajudá-lo,
o assassino nunca mais o procurou.
Como já disse antes, um dos problemas que confrontamos na tentativa de fazer uma
análise deste tipo de criminoso é a enorme quantidade de casos possíveis de serem associados
ao Zodíaco. Porque estamos lidando com um assassino cujas vítimas são predominantemente
anônimas, que muda com frequência de jurisdição e usa armas e modus operandi diversos em
crimes diferentes, corremos o risco de perder tempo com casos que não fazem parte do quadro.
Ao mesmo tempo, não queremos correr o risco de não ver a conexão.

CEGOS PARA A CONEXÃO

Pesquisei, de forma seletiva, vários casos não resolvidos que poderiam fazer parte da série
de assassinatos perpetrados pelo Zodíaco, mas até agora só examinamos aqueles em que o
próprio assassino declarou sua responsabilidade e incluiu evidências ou ofereceu pistas para
substanciar suas declarações. Examinaremos agora outros casos que são uma boa ilustração
das dificuldades que temos em determinar se um crime faz ou não parte de uma cadeia serial.
Kathleen Johns, de 23 anos, grávida de sete meses, tinha pela frente uma viagem de mais
de seiscentos quilômetros, quando saiu de sua casa em San Bernardino, na Califórnia, em
direção a Petaluma. Era domingo, 22 de março de 1970, e Johns levava sua filha, de dez meses,
para visitar sua mãe, a avó da menina, que estava doente. Devido à distância da viagem e à
idade de sua filha, ela tencionava dirigir a maior parte do percurso durante a noite; assim partiu
no final da tarde.
Por volta da meia-noite, na auto-estrada 132, Johns percebeu que o carro atrás dela
piscava os faróis e buzinava para chamar a sua atenção. O motorista emparelhou com ela e
gritou que uma de suas rodas traseiras estava solta. Pararam no acostamento e o jovem, com
uns trinta anos, barbeado e limpo, ofereceu-se para consertar o problema. Ela agradeceu e
ficou dentro do carro com sua filha, enquanto o homem trabalhava na roda. Quando ele
terminou e Kathleen tentou partir com o carro, a roda caiu. O jovem voltou para o acostamento
e, desta vez, disse que poderia levá-las até um posto de gasolina, mais adiante na estrada e que
podia ser visto de onde estavam. Ela e o bebê entraram em seu carro enquanto o homem ia
apagar as luzes e pegar as chaves do carro dela.
Mas sua gentileza terminou ali mesmo, quando passou pelo posto de gasolina sem parar.
Rodaram por horas com o homem ameaçando matar a ela e ao bebê. Afinal, enquanto faziam
uma curva ela saltou do carro com sua filha e se escondeu numa vala. O homem tentou segui-
la, mas para sorte dela, um caminhão que parou assustou-o e ele fugiu.
O que fez com que muitas pessoas pensassem que Kathleen Johns e sua filha escaparam
por pouco de serem vítimas do Zodíaco foi a descrição que ela deu de seu sequestrador, que
coincidia com aquelas dos casos anteriores. Enquanto rodavam com ele no carro, pusera toda
sua concentração em memorizar os menores detalhes. Contou à polícia que seu sequestrador
era pouca coisa mais baixo do que ela, que tinha 1,78m, e deveria pesar uns 80kg. Usava
óculos com aros grossos, seguros por um elástico em volta da cabeça. Seus sapatos pretos
estavam bem engraxados e usava calças boca-de-sino escuras, camisa branca e uma jaqueta de
náilon, também escura. Seus sapatos junto com seus cabelos curtos fizeram que ela pensasse
que se tratava de um militar.
Enquanto fazia esta descrição, Kathleen viu pendurado no quadro de avisos o retrato
falado do Zodíaco, que circulava desde a morte de Paul Stine e o identificou como sendo o de
seu sequestrador. O crime acontecera num fim de semana e de novo numa jurisdição diferente,
aspectos que correspondiam aos crimes do Zodíaco. E conforme a ideia de o Zodíaco ter a
personalidade de um criminoso organizado, o carro de Kathleen foi encontrado mais tarde,
incendiado e num local distante, numa clara tentativa de eliminar possíveis vestígios
incriminadores. Também é compatível com a ideia de escalada e progressão nos crimes que o
Zodíaco quisesse passar mais tempo na companhia de suas vítimas. Como fizera com Bryan
Hartnell e Cecelia Shepard, com quem conversara algum tempo antes de anunciar sua intenção
de matá-los. Este é um exemplo perfeito de um caso que pode ou não estar incluído entre
aqueles do Zodíaco.
No final de abril de 1970, o Zodíaco escreveu uma carta para o editor do San Francisco
Chronicle, que deixava para trás tudo que escrevera antes. Nela incluía uma provocação em
forma de charada ("meu nome é" seguido de 13 símbolos), dizia já ter matado dez pessoas
(embora a polícia não pudesse identificar nenhuma vítima depois de Stine), uma explicação da
razão pela qual não usara a bomba (danificada pela chuva), o desenho de uma nova bomba e,
para coroar tudo, uma gozação na polícia — a carta trazia a assinatura do círculo com a cruz,
seguida do número dez e as inicias DPSF seguidas de um zero, como um escore do jogo:
Zodíaco 10 x Departamento de Polícia de São Francisco 0.
Para sublinhar a importância de seus feitos muito acima do desempenho da polícia,
mandou outra mensagem, uma semana depois. Num cartão humorístico, ameaçava de novo
explodir um ônibus escolar, a menos que publicassem sua carta com o diagrama da nova
bomba. Sugeria também que as pessoas começassem a usar "botões de lapela do Zodíaco...
como os botões, tipo Black Power, Sorriso etc. Me alegraria bastante ver muitas pessoas
usando meu botão".
Já vimos antes estas mudanças de humor. O Zodíaco devia estar numa de suas fases não-
depressivas quando escreveu estas cartas. Seu ego e seu senso de importância devem ter
inflado quando o chefe de Polícia de São Francisco apareceu diante da imprensa para informar
o público da nova ameaça de bomba feita pelo criminoso. Mas o diagrama da bomba não foi
publicado e ninguém começou a usar botões do Zodíaco.
Se suas cartas são indicativas de seu estado de espírito, o verão de 1970 foi muito
frustrante para o Zodíaco. A frequência de suas cartas foi bem maior, mandando num mesmo
mês três cartas para o Chronicle. Uma destas cartas era a mais longa e, de certa forma, a mais
criativa de quantas já mandara. No final de junho mandou uma breve, na qual expressava seu
descontentamento com "o povo da região da baía de São Francisco". "Não atenderam meu
desejo de que usassem meus belos botões." Em retaliação a isto, como ele prometera "aniquilar
um ônibus escolar inteiro", mas as escolas estavam em férias, "então eu os puni de outra
forma. Atirei num homem sentado num carro estacionado com um .38".
Escreveu de novo um escore, agora marcando: Zodíaco 12 (vítimas) x DPSF ainda zero.
Nesta carta incluiu um mapa rodoviário da área do monte Diablo, do outro lado da baía, em
frente a São Francisco, e um criptograma de duas linhas que, segundo ele, deveriam ser usados
em conjunto para revelar o local onde colocara uma bomba. A carta dava um prazo até o
outono para a polícia "desenterrá-la".

Quanto à declaração de que matara um homem, de fato um policial fora morto em seu
carro com um tiro de .38, mas a polícia já tinha um suspeito do crime e os investigadores não
encontraram nenhuma evidência que ligasse o crime ao Zodíaco.
A próxima carta começava com "Aqui escreve o Zodíaco e estou muito zangado por não
estarem usando ainda meus belos botões". E então, mudando de assunto:

... a muie seu bebê a quem


dei uma carona tão interessante
por algumas houras numa
noite alguns meses atrás e
que terminou no incêndio
de seu carro ...

Como o sequestro de Kathleen Johns recebera pouca atenção da imprensa até aquela
época, muita gente aceitou esta referência como prova de que o sequestrador era na verdade o
Zodíaco.
Dois dias depois chegava a carta seguinte. Continuava no mesmo tom de frustração e
raiva das duas anteriores e aumentava sua contagem de vítimas para 13. Era claro que o fato de
ninguém usar botões com seu símbolo o desagradava muito e queria que soubessem que
pagariam caro por este desrespeito.

Torturei (além de todas outras


coisas) todos os meus 13
escravos que tenho
asperando por mim no Paraizo.
Alguns amarrarei em formigueiros
para vê-los gritar se contorcer.
Noutros enfiarei farpas de madeira
debaixo das unhas queimarei ...

E continuava por aí. O Zodíaco dava vazão então a seu talento criativo com uma paródia
de The Mikado, de Gilbert e Sullivan.

Um dia vai acontecer


e a vítema será encontrada.
Eu tenho uma listinha.
Eu tenho uma listinha
de criminosos sociais
que podem estar enterrados
e ninguém vai sentir falta
e ninguém vai sentir falta.
Há aqueles pestilentes que
escrevem pedindo autógrafos
e aqueles que tem mão mole

e gargalhadas irritantes ...

E continuava com a lista daqueles que achava que deveriam morrer, com passagens
bastante incoerentes. Mas era reveladora da natureza do Zodíaco. Linha após linha, listava
exemplos de pessoas que "nenhuma delas faria falta", quando na verdade quem não faria falta
nenhuma era ele próprio. Era uma lista precisa e minuciosa de vários tipos de pessoa que ele
achava que o haviam prejudicado. A maioria de nós tem esta sensação, uma vez ou outra na
vida, mas a coloca de lado e segue em frente. O Zodíaco não. Sua mente remoía continuamente
como a sociedade o tinha tratado mal. A carta era sua oportunidade de resposta, enquanto ao
mesmo tempo acreditava nos impressionar com seu talento.
Claro, seus versos eram de pé-quebrado, sua ortografia terrível, e as poucas partes que
faziam algum sentido não eram nem ao menos inteligentes. Havia uma metáfora interessante
no fato de que a canção que ele parodiava era cantada pelo protagonista do musical Supremo
Carrasco, uma posição que sem dúvida ele gostaria de ocupar.

Mais um ponto da carta deve ser mencionado. Um post- scriptum dizia: "PS. O código de
Mr. Diablo se refere às radiais # [número de] polegadas ao longo das radiais." Sem entrar em
muitos aspectos técnicos (o que eu não seria capaz de fazer mesmo querendo), radial é um
termo de matemática que representa uma medida de ângulo. Uma teoria a respeito dos crimes
do Zodíaco os relaciona entre si por uma distribuição matemática tanto no tempo quanto no
espaço geográfico. Segundo esta teoria, seria por esta razão que Paul Stine fora morto um
quarteirão à frente do endereço, escrito no registro de suas corridas: o criminoso queria matá-lo
num ponto específico. Seria também a causa da mudança na escolha das vítimas, de casais para
um taxista. Quem mais o Zodíaco poderia levar para uma coordenada exata num mapa com a
mesma facilidade?
É evidente que se pode argumentar que São Francisco era a nova base de operação do
criminoso e que ele precisava de um local para o crime de onde fosse fácil escapar e,
conhecendo a área de Presidio, achasse ser aquele o melhor lugar. Seja qual for a maneira que
olhemos para a coisa, a referência a "radiais" é interessante pelo fato de constituir um termo
pouco usado pela maioria das pessoas e junto com a paródia de uma ária de um musical de
Gilbert e Sullivan, mostra um criminoso que é ao mesmo tempo semi-analfabeto e culto. Uma
combinação fascinante, que talvez explique os lapsos de desorganização nos locais dos crimes,
como por exemplo, ter a preocupação de limpar o carro de Stine e ainda assim deixar para trás
impressões digitais.
Seu campo de informação é amplo, mas pouco profundo. E esta talvez fosse a razão pela
qual uma das vias, usadas por Toschi e Armstrong em suas investigações, não desse resultado
algum. Eles investigaram os atores da The Lamplighters, a companhia teatral que montara na
cidade o musical de Gilbert e Sullivan. É interessante notar que The Mikado estreara uma
semana depois da morte de Stine, no Presentation Theatre, a alguns quarteirões do local onde o
taxista fora assassinado. Minha impressão é que este indivíduo, embora tivesse alguma
informação, não possuía a personalidade de um ator. Seria mais lógico procurar por alguém
atrás do palco, fazendo talvez um trabalho técnico. Mas este tipo de atividade chamaria a
atenção de quem o conhecesse, por seu evidente contraste com outros interesses como códigos
e números.

UMA CARTA À IMPRENSA

Naquele outono, o caso teve um desenvolvimento que abalou as investigações. Tudo


começou com um cartão de Halloween e uma ameaça pessoal, "VOCÊ ESTÁ
CONDENADO", que o Zodíaco enviou a Paul Avery, o principal repórter policial do
Chronicle. Avery começou a usar uma arma e tanto ele quanto os outros repórteres começaram
a usar um botão que dizia "Eu não sou Paul Avery". O cartão recebeu bastante atenção no
Chronicle e nos outros jornais e Avery recebeu um enorme número de cartas, com informações
e sugestões, inclusive uma que vinha do sul da Califórnia.
Uma carta (não do Zodíaco) sugeria que Avery investigasse se o Zodíaco não cometera
seu primeiro crime em Riverside. Tratava-se do assassinato, não resolvido, de uma garota na
época de Halloween. O autor da carta dizia que já levara antes sua suspeita à polícia, mas fora
ignorado.
Quem estiver lendo com atenção compreenderá que a carta se referia ao assassinato de
Cherri Jo Bates, o primeiro caso examinado neste capítulo. Lembrará da carta detalhada que,
vista em retrospectiva, é em tudo similar às descrições feitas pelo Zodíaco dos casos
Jensen/Faraday e Ferrin/Mageau. Sem falar que as cartas para Bates, para a polícia e para a
imprensa vieram assinadas por "Z" e que, como em todas as cartas do Zodíaco, tinham mais
selos do que necessário.

Digo sempre que, na avaliação de crimes seriais, devemos manter a atenção voltada para o
primeiro crime, porque ele mostrará onde o criminoso, ainda inexperiente, sente-se mais à
vontade. O primeiro crime acontece perto de onde vive ou de seu local de trabalho; e como ele
ainda não aperfeiçoou sua técnica, é mais natural e revelador de seu comportamento.
O que aprendera o assassino de Cherri Jo Bates naquele crime? Primeiro, que mesmo uma
mulher pequena pode ser difícil de controlar. Os ataques relâmpagos com tiros de revólver
seriam uma forma de resolver o problema. Segundo, que não havia recebido o crédito que
acreditava merecer por seu engenhoso crime. Depois de todo o trabalho que tivera para
preparar a armadilha e matar sua vítima sem ser pego, ninguém dera atenção às cartas que
mandara ao pai da vítima, à polícia e à imprensa no aniversário de seis meses do crime. Assim,
aprendera que, se quisesse crédito no futuro, teria de fornecer pistas ou provas concretas de
seus crimes.
Mas se o assassinato de Cherri Jo fora cometido por ele, por que o Zodíaco, que gostava
tanto de atenção, não o listara depois que sua credibilidade fora estabelecida? Acho que, em
primeiro lugar, devido a seu complexo de inferioridade-superioridade e sua relação de amor e
ódio com a polícia, ele se divertia com a ideia de saber algo que a polícia não sabia. Deve ter
sentido um prazer especial todas as vezes que lia os jornais se referirem a outro crime como se
fosse o primeiro. Segundo, se aquele fora na verdade seu primeiro crime, é possível que ele
tivesse ligações anteriores com a biblioteca ou com Bates. Não digo que necessariamente ele a
conhecesse, mas tinham a mesma base de operações e é quase certo que já se houvessem visto.
As investigações poderiam chegar perto demais e alguém poderia perceber a coincidência das
datas dos crimes com seus movimentos. Acredito que, mesmo que não fosse o primeiro, o caso
Bates faz parte dos crimes seriais do Zodíaco. E esta crença é avalizada pelas conclusões de
Sherwood Morrill, perito em caligrafia do Escritório de Identificação e Investigação do Estado
da Califórnia, que conecta a mensagem "BATES TINHA QUE MORRER", escrita no tampo
de mesa, com as posteriores comunicações do Zodíaco.
Acho também mais do que uma coincidência o fato de que, depois que esta conexão ficou
estabelecida, as comunicações com o Zodíaco se interromperam. Em março de 1971, ele
mandou uma carta para o Los Angeles Times, a primeira que escrevia para este jornal. Na carta,
mais uma vez, vangloriava-se de que os "Bandidos de Azul" nunca o pegariam e observava
que "quanto mais os bandidos de azul suarem e bufarem, mais escravos eu vou juntando para
minha vida eterna".
Reconhecia o assassinato de Cherri Jo como um de seus crimes, mas continuava
zombando da polícia, dizendo: "Só descobrem os mais fáceis, existem muitos outros." E, desta
vez, seu escore era de mais de 17 contra o zero em que estava estagnada a polícia. Uma
semana depois disso, Paul Avery recebeu um prospecto publicitário com o anúncio de um
condomínio no lago Tahoe, com o símbolo do Zodíaco e algumas frases recortadas de jornais.
Como não havia uma mensagem, os investigadores tentaram interpretar o cartão, procurando
por crimes sem solução, mas nada foi encontrado que pudesse ser concretamente ligado ao
Zodíaco.

"A MELHOR COMÉDEA SATÍRECA"

Não se ouviu mais nada do assassino por quase três anos. Então, no final de janeiro de
1974, chegou outra carta para o San Francisco Chronicle. Na caligrafia já familiar, a carta
dizia: "Eu vi acho 'O Exorcista' a melhor comédea satíreca que já vi", seguido de outros
comentários na mesma ortografia sobre o musical The Mikado. Sua contagem de vítimas já
estava em 37.
As duas cartas seguintes chegaram ao Chronicle em maio e julho do mesmo ano. A de
maio, era uma carta zangada, criticando o jornal por anunciar o filme Terra de ninguém,
baseado na série de assassinatos de Charles Sarkweather e Caril Ann Fugate, durante a década
de 1950, que o Zodíaco achara violento demais para seu gosto refinado. A carta de julho era
também cheia de críticas ao jornal e de modo específico assinalava um certo colunista. O
jornalista ficou assustado o bastante para abandonar o trabalho no jornal por uns tempos.
Finalmente, depois de um espaço de quase quatro anos, a última comunicação confirmada do
Zodíaco chegou em abril de 1978. Nela estava escrito:

Caro Editor
Aqui escreve o Zodíaco estou
de volta com vocês. Diga a herb caen
que estou aqui. Que sempre estive aqui.
o porco da cidade, toschi, é bom, mas eu
sou (algumas letras riscadas) mais esperto e melhor,
ele se cansou e me deixou
em paz. Estou esperando por um bom
filme sobre mim. Quem me interpretará?

Agora controlo tudo.


Sinceramente seu:

No lugar da assinatura havia um novo escore: Zodíaco - ... adivinhe x DPSF - zero.
Penso que o espaço de tempo entre as comunicações é significativo. Talvez nosso homem
tenha passado algum tempo na prisão, por algum delito menor, frustrado, mas ao mesmo
tempo se divertindo com a ideia de que o sistema penal não fazia a menor ideia de quem tinha
nas mãos. Também é possível que seus períodos de silêncio correspondessem a viagens para
fora de sua área de operações, talvez uma transferência militar, se ele continuasse em serviço,
ou quem sabe, uma doença. Também é significativo que nesta última carta ele toque em todos
os temas e forças motivadoras de sua vida. Afirma sua existência ("Eu estou aqui"), seu valor e
superioridade ("Sou mais esperto e melhor"). Revela seu desejo de ser deixado em paz e a
contraditória necessidade de reconhecimento ("Estou esperando um bom filme sobre mim").
No final ele declara o que é a satisfação máxima para este tipo de criminoso: "Agora controlo
tudo." Vindo de alguém que não tem mais nenhum crime novo para cometer nem razão para
continuar o diálogo, parece uma nota de suicídio.
É bem possível que fosse.

EPÍLOGO

Depois de todos esses anos, podemos dizer com segurança que é improvável que o
Zodíaco volte a aterrorizar a área de São Francisco outra vez com seus crimes. Mas ainda me
perguntam se não haveria algo que a polícia pudesse ter feito, na época, para prender o
criminoso.
Em 1980, estava em Quantico há já algum tempo e tinha acumulado a experiência de
várias análises, quando soube que o FBI queria que olhássemos outra vez todo o arquivo com a
literatura sobre o Zodíaco. Lembro que recebi uma pasta de cartas para examinar e tive várias
conversas com Murray Miron sobre alguns pontos do trabalho. Mas, antes que tivéssemos
tempo de nos aprofundar mais, o caso foi retirado de nossas mãos. Nunca descobri o que fez
com que o FBI se interessasse de novo pelo caso nem tampouco a razão por que nosso
envolvimento foi cancelado. Como sempre, e naquele tempo também, estava cheio de trabalho
e não pensei muito no assunto.

Acredito que, se tivéssemos um caso como este nos dias de hoje, teríamos algum sucesso
empregando técnicas provocativas como algumas que mencionamos neste capítulo. Com tal
tipo de criminoso, um perfil é muito menos importante do que essas técnicas, que devem ser
imaginadas para jogar com os interesses e as fraquezas do indivíduo.
No caso do Zodíaco, os botões de lapela podem representar sua necessidade de expressar
superioridade e ridicularizar a polícia, de receber o crédito por seus crimes e estabelecer sua
credibilidade. Minha sugestão é que esta última seria sua maior fraqueza, porque não é comum
que este tipo de indivíduo procure crédito por seus crimes. Pessoas assim são paranóicas e não
gostam de receber muita atenção. O que sublinha a importância do caso Cherri Jo Bates ser um
ponto focal para a investigação. Primeiro ele não desejava o reconhecimento e, depois, sim. Aí
há algo.
O que há em comum com outros assassinos é o hábito de estar sempre em busca de
vítimas, como evidenciam as informações sobre um carro suspeito rondando a área do lago
Herman, perto do local do crime, ou sobre o estranho que foi visto durante toda a tarde no lago
Berryessa, no dia em que Cecelia Shepard e Bryan Hartnell foram atacados. Também, como
outros criminosos, o Zodíaco podia ser influenciado por seu próprio noticiário. Recorde o
leitor a rapidez com que respondeu ao desafio para fornecer mais informações sobre o caso
Ferrin Mageau. Acho que poderia ser induzido a comparecer às cerimônias religiosas nos
aniversários das mortes.
Com o Zodíaco, o complemento de assinatura nos crimes era motivado por sua
necessidade de ridicularizar a polícia. Os próprios assassinatos são apenas uma forma
simbólica de expressar superioridade na tentativa de suprimir seu enorme senso de
inferioridade e inadequação. Qualquer técnica que desse um sentido de competição intelectual
entre ele e a polícia teria um potencial de sucesso. Assim, por exemplo, seria uma ideia voltar
ao local do primeiro crime conhecido (caso Bates, em Riverside) e programar uma reunião da
polícia com a comunidade, onde o principal investigador do caso discutiria com o público o
desenvolvimento do trabalho policial. Para dar mais importância ao encontro, haveria o
anúncio da presença do prefeito e de outras pessoas importantes da comunidade. A reunião
deveria ser realizada num auditório público, talvez de uma escola, mas localizado de forma a
obrigar às pessoas a irem de carro. Depois, seria filmar a audiência procurando por alguém
com um sorriso no rosto e anotar as placas de todos os carros estacionados na área, sabendo ser
possível que seu carro esteja lá. E pedir o envolvimento da comunidade. Qualquer um
interessado em ajudar deveria se inscrever numa lista de voluntários, antes de ir embora. A
lista poderia mesmo ser filtrada, sem ser muito óbvio. Como, por exemplo, os voluntários
deveriam ter mais de 18 anos, ter condução própria e estarem familiarizados com a área.
Conhecimento da forma de procedimento policial seria de ajuda, mas não essencial. Mesmo
que quinhentas pessoas se inscrevessem, na pior das hipóteses, era uma lista. Eliminadas as
mulheres, haveria com o que trabalhar.
Apareceu uma boa ideia, que acho que não foi bem trabalhada no sentido de conseguir as
informações certas, nem na quantidade necessária. Quando o filme Zodiac estreou no Golden
Gate Theater em São Francisco, a audiência foi convidada a preencher um formulário com suas
opiniões sobre as razões do Zodíaco para cometer seus crimes. Uma motocicleta era o prêmio
para a melhor opinião. A ideia era apelar para o forte machismo do criminoso e oferecer uma
oportunidade para mais uma demonstração de conhecimentos ou para mais uma brincadeira
com a polícia. Como sabemos por suas últimas cartas, o Zodíaco era um frequentador de
cinema e desejava ver um filme a seu respeito.
Bem, mas então quem era o Zodíaco? Ou melhor e mais significativo, como era — ou é
— sua personalidade?

Um homem que foi descrito pelo investigador Dave Toschi como um "ótimo suspeito,
ótimo mesmo" e que foi objeto de uma investigação pormenorizada, feita por Robert
Graysmith, tem o perfil exato que eu faria para o assassino: extremamente inteligente, com um
QI de 135; passou grande parte de sua vida adulta vivendo com a mãe, com quem tinha uma
relação difícil; formado em química e com treinamento em códigos; um caçador que uma vez
dissera para um amigo, que o homem era "a mais perigosa das caças". E que estava nas
diferentes jurisdições na época de cada crime do Zodíaco. Estudara na Universidade do
Riverside, morara perto de outras cenas de crime e recebera uma multa por excesso de
velocidade perto do lago Berryessa, na mesma noite do crime. Além disso, sua cunhada o vira,
certa vez, com um pedaço de papel com símbolos estranhos. No dia do ataque no lago
Berryessa, ele tinha em seu carro uma faca suja de sangue que dissera ter usado para matar
galinhas. Durante um dos silêncios do Zodíaco, estivera preso, sentenciado por molestar uma
criança, embora dissesse que fora preso por ser o Zodíaco. Apesar destas e outras evidências
circunstanciais, a polícia nunca teve provas capazes de incriminá-lo concretamente por
nenhum dos crimes do Zodíaco. Este homem morreu de um ataque cardíaco em 1992, com 58
anos.
Existem outros, mas creio que qualquer bom suspeito neste caso tem as mesmas
características e qualidades do homem descrito acima e por isto não citei seu nome. É quase
impossível que um deles seja levado a julgamento. E a consideração mais importante que
podemos fazer agora é que temos de aperfeiçoar nossos conhecimentos para podermos reagir
tão prontamente a este tipo de criminoso quanto ele é capaz.
5 – SONHOS E PESADELOS AMERICANOS

SEMPRE HAVERÁ CASOS QUE CONTINUARÃO a nos assombrar, ou porque a história das vítimas
nos comove, ou pela brutalidade dos crimes, e que nunca serão esquecidos. Mas esperamos
que, com os avanços feitos nos campos da perícia científica e da análise comportamental, cada
vez menos casos continuem a perseguir nosso imaginário apenas porque nunca foram
resolvidos ou tiveram soluções questionáveis. No capítulo anterior vimos como a velha cartilha
de métodos de investigação, usada e aprovada no passado, não era suficiente para lidar com
uma série de assassinatos cometidos por um criminoso moderno. O Zodíaco derrotou os
policiais que investigaram seus crimes, em grande parte porque seus motivos não puderam ser
identificados entre os clássicos, como cobiça, ciúme, ódio, vingança etc., pois faltou aos
investigadores algum fato claro ou que pudesse ser identificado como determinante na escolha
das vítimas, ou do modus operandi; e também pelo próprio curso que tomaram as
investigações.
Neste capítulo examinaremos três casos que são bastante ilustrativos de como os motivos
de um criminoso ou sua aparente ausência podem ser úteis na compreensão de um
direcionamento de uma investigação. E para provar a teoria, começaremos com um caso muito
anterior ao uso da análise comportamental e à criação de perfis psicológicos pela polícia: o
assassinato da "Dália Negra".

A DÁLIA NEGRA

Elizabeth Short tinha grandes sonhos e sua história é aquela da tentativa de uma jovem de
romper com os padrões estabelecidos naquela época para alguém de seu sexo, trocando uma
promessa de casamento e de família própria por um sonho de carreira e fama no glamour de
Hollywood. Por uma ironia, foi sua morte brutal que trouxe a fama com que ela sonhava,
enquanto a imprensa transformava sua vida curta e trágica na história romântica de uma bela
estrela em ascensão.
Como Stuart Swezey escreveu em seu prefácio de editor para o livro de John Gilmore,
Severed [Esquartejada], "O assassinato da Dália Negra — diferentemente de outros crimes
anteriores que também se tornaram manchetes, como 'O Massacre de São Valentim' ou o
'Sequestro Lindbergh' — foi o primeiro crime na América do pós-guerra a chamar a atenção do
público para a nudez sem retoques de seus desvios sexuais".

Na manhã de 15 de janeiro de 1947, por volta das 10:00h, Betty Bersinger fazia um
passeio com sua filha de três anos, quando viu o que pensou ser um manequim de vitrine,
quebrado e caído, no matagal de um terreno baldio, na rua 39, quase na avenida Trenton, na
área de do parque Leimert, em Los Angeles, ao sul de Hollywood. Quando chegou mais perto
viu que se tratava do corpo de uma mulher, nua e esquartejada.
Embora muitos carros fossem vistos na área por várias testemunhas, até às 8:30h nenhum
dos passantes notara o corpo.
Os policiais Frank Perkins e Will Fitzgerald atenderam ao chamado no rádio. Pelo que
podiam ver, o corpo da mulher fora arranjado numa pose sexual, com os braços levantados
acima dos ombros, os cotovelos dobrados e as pernas completamente abertas. Uma angulação
nos quadris dava a ideia de que fora morta numa posição semi-inclinada. Depois de morta seu
corpo fora cortado e separado na cintura, as duas partes estavam alinhadas, com uma distância
de 25 centímetros entre elas. Seu fígado estava exposto. Seu rosto e seus seios tinham
profundos cortes e dois talhos em seus lábios davam a ideia de que o assassino tentara
aumentar grotescamente seu sorriso. Viam-se marcas de ligaduras em seus pulsos, tornozelos e
pescoço e a polícia deduziu que ela fora suspensa pelas pernas e torturada. Uma incisão
vertical entre o púbis e seu umbigo parecia uma cicatriz de cirurgia. Seus pêlos púbicos haviam
sido raspados ou arrancados.
Logo o local se encheu de repórteres, fotógrafos e curiosos. O corpo foi levado para o
necrotério do condado de Los Angeles, onde tiraram suas impressões digitais que, graças às
facilidades do jornal Los Angeles Examiner, foram enviadas para o FBI. Eram de Elizabeth
Short, de 22 anos, que já tinha sido identificada, porque trabalhara para o governo numa
cantina militar e, também, porque fora presa, ainda como menor, com um homem, à noite num
bar, perto de Camp Cooke, em Santa Bárbara.
Os resultados da autópsia sugeriam que o corpo estivera deitado de bruços sobre grama
úmida, antes de ser colocado de costas, e que estaria morta há pelo menos dez horas até que o
criminoso a abandonasse ali. Havia algumas evidências de que talvez o corpo fora conservado
num refrigerador durante este período. As causas da morte foram "hemorragia e traumatismo,
devido a contusões no cérebro e cortes no rosto", mas, como havia evidências de sangramento
numa artéria do abdômen, era possível que ainda estivesse viva quando fora cortada em duas
partes. Não encontraram nenhuma evidência de esperma em seu corpo, mas um exame do
conteúdo de seu estômago revelou que fora obrigada a engolir fezes como parte de sua tortura.
O corpo e o cabelo foram cuidadosamente lavados depois da morte.
O histórico da vítima era este: Elizabeth Short nascera a 29 de julho de 1924, no parque
Hide, Massachusetts, a terceira das cinco filhas de Cleo e Phoebe Short. Ainda bebê se mudara
com a família para Medford, perto de Boston. Cleo abandonou a família, com Elizabeth ainda
criança, fingindo um suicídio. Ele deixou Phoebe sem nada. Anos mais tarde, quando Cleo, já
na Califórnia, tentou uma reconciliação, Phoebe se recusou.
Elizabeth, criança tuberculosa e asmática, fez uma cirurgia séria e demorada nos pulmões,
o que obrigou Phoebe a mandá-la, em 1940, quando tinha 16 anos, para Miami. O que a fez
abandonar a escola e começar a trabalhar como garçonete. Ficou na Florida até mudar-se para
a Califórnia.
Em casa a chamavam de Betty, mas ela trocou seu apelido para Beth. Tinha 1,65m e 54kg,
cabelos escuros e olhos azuis. Descreviam-na como uma garota doce, romântica e sensível, que
queria casar-se com um militar bonito, de preferência piloto. Algumas pessoas achavam que
ela se parecia com a atriz Deanna Durbin, um padrão de beleza para as adolescentes da época,
e costumava vestir-se de preto. Beth começou a vestir-se assim para criar um estilo próprio.
No início de 1943, enquanto trabalhava na base de Camp Cooke, envolveu-se com um
"fuzileiro ciumento" de quem ainda tinha medo. Esta história ela repetiu várias vezes até
tornar-se parte de seu mito pessoal. No verão daquele ano, encontrou seu pai trabalhando na
Base Naval de Mare Island e vivendo em Vallejo. Ele deixou que Beth se mudasse para sua
casa, mas a relação de ambos não era boa. Cleo criticava o que chamava de obsessão da filha
por homens, sua preguiça e seu relaxamento. Depois de sua prisão, perto de Camp Cooke, ele a
mandou de volta para casa em Medford. Sua meta, no entanto, continuava a ser a de ir para
Hollywood e tornar-se uma atriz.
Estava em Miami Beach, em 1945, visitando parentes quando conheceu e se apaixonou
por um piloto chamado Matt Gordon, que estava partindo para a guerra. Segundo um relato,
ficaram noivos antes de sua partida; segundo outro, Matt já era casado e o noivado não passava
de uma fantasia de Beth. De qualquer forma, Beth confidenciou a uma amiga que ainda era
virgem, quando recebera em Medford um telegrama da mãe de Matt com a notícia de sua
morte. O recorte do anúncio de sua morte, no obituário do jornal, estava entre suas coisas, na
época de seu assassinato, dois anos mais tarde.
Foi a seguir para Long Beach, na Califórnia, para visitar um antigo namorado, Gordon
Fickling, também militar. Ele a instalou num hotel a algumas milhas da base, mas a relação
não parecia ter futuro.
Naquela época, foi lançado o filme A Dália Azul, extraído de uma história de Raymond
Chandler, com Veronica Lake e Allan Ladd. Assim alguns de seus amigos militares
começaram a chamá-la de Dália Negra, por causa de seus cabelos e de seu hábito de pôr-se de
negro até em sua roupa de baixo e no anel em seu dedo. O vermelho de seu batom e do esmalte
das unhas, mais o desejo de se tornar atriz, do qual sempre falava, completavam a aura de
fascínio de sua personalidade.
Beth gostava da vida noturna de Hollywood e fazia tudo para ser vista nos lugares certos,
ser reconhecida e descoberta. A maioria dos locais que frequentava ficavam na esquina mítica
de Hollywood com Vine. Mas, apesar de seus sonhos, sua vida parecia sem sentido e de uma
certa forma insegura e mesquinha, sempre no limite, tendo que fazer ou dizer o que fosse para
fazer com que as pessoas a aceitassem ou fizessem sua vontade. Quando não pôde mais pagar
sua parte no aluguel do apartamento que dividia com mais sete garotas, foi para San Diego e se
hospedou na casa de Dorothy French, que conhecera Beth ao encontrá-la dormindo no cinema
onde trabalhava e, assim, a hospedara pela primeira vez. Beth ficou com os French, sem
trabalhar nem contribuir para seu sustento, até quando Robert Manley, vendedor de ferragens
conhecido por Red, ofereceu a ela uma carona de volta para Los Angeles. Eles ficaram juntos
naquela noite do dia 8 de janeiro de 1947 e no outro dia, ele a deixou no Hotel Biltmore, onde
ela disse que ia encontrar sua irmã.
Red Manley se tornou o principal suspeito de seu assassinato. O Departamento de Polícia
de Los Angeles o interrogou exaustivamente e o colocou duas vezes num detector de mentiras.
Dois dias mais tarde foi solto, mas devido ao esgotamento, teve um colapso nervoso e foi
internado em uma clínica e, algum tempo mais tarde, recebeu tratamento de choques para uma
crise de depressão. Em 1954, quando estava internado como doente mental no Hospital
Estadual de Patton, disse alguma coisa a respeito de haver cometido um homicídio, mas
quando lhe deram uma dose de soro da verdade, ele não sabia nada do crime. Morreu em 1986,
exatamente no dia em que 39 anos antes deixara Beth na porta do Biltmore.
A polícia encontrou a bagagem que Beth tinha guardado no depósito da rodoviária. Dentro
havia roupas, fotografias e pacotes de cartas, escritas e recebidas, de sua correspondência com
homens com quem mantivera romances. A polícia foi inundada de cartas e telefonemas de
pessoas que conheceram Beth, mas seu próprio pai se recusou a envolver-se com o caso,
dizendo que não a via desde 1943. Sua mãe — que soube do crime por um repórter que a
localizou antes da polícia — viajou para Los Angeles para reclamar seu corpo. Beth foi
enterrada no cemitério de Mountain View, em Oakland. A polícia esperara que algum estranho
comparecesse ao enterro e que lhe desse uma pista, mas tal não aconteceu.
Não muito tempo depois, no jornal Los Angeles Herald Examiner, chegou um pacote.
Uma nota que o acompanhava, escrita com letras recortadas de jornal, dizia, “Aqui estão os
pertences da Dália Negra" e "Seguirá carta". Dentro do pacote estava o cartão de Seguro
Social, certidão de nascimento, um telegrama, fotografias de Beth com vários amigos militares,
cartões de visita, o recorte de jornal com a notícia da morte de Matt Gordon e os recibos das
malas guardadas na estação rodoviária. Havia ainda um caderno de endereços com várias
páginas arrancadas. Uma carta para a polícia, perto do final de janeiro, dizia que o assassino ia
se entregar, mas outra carta, depois desta, dizia que ele mudara de ideia e que o crime fora
justificado.
No dia 26 de janeiro, uma bolsa e um par de sapatos de camurça pretos foram encontrados
em uma lixeira na rua 25, Leste. Manley os identificou como sendo de Beth. A localização
sugeria que o assassino se movimentava no sentido norte e talvez voltasse para a área do
crime. Mas a descoberta não trouxe resultados.
Algumas das teorias da polícia e da imprensa se espelhavam no caso de Jack, o
Estripador. Um grupo achava que este era o primeiro crime do assassino e que a separação
feita no tronco da vítima demonstrava conhecimentos cirúrgicos.
Outros achavam que o crime era parte de uma serial. Nesta linha de raciocínio, um dos
suspeitos era o "Açougueiro Louco da rua Kingsbury", que matara, mutilara e desmembrara 12
pessoas entre 1935 e 1938. E que acreditavam fosse um homossexual com ódio pelas
mulheres. Estes crimes seriais se interromperam depois de três anos, sem que o assassino fosse
descoberto.

O capitão John Donahoe, do setor de Homicídios do Departamento de Polícia de Los


Angeles, e alguns de seus detetives tinham uma teoria — devido ao fato de Beth Short ter
muitas amigas e à fúria dos ferimentos infligidos — de que o assassino seria uma mulher numa
reedição da teoria de "Jill, a Estripadora", do tempo dos crimes de Whitechapel. Diziam que
alguns arranhões no braço da vítima eram o resultado de um ataque de uma amiga enciumada.
Vários suspeitos foram investigados, presos e interrogados, mas nenhum deles confessou.
Várias outras pessoas, homens e mulheres, apareceram para confessar o crime; a maioria tinha
problemas psiquiátricos.
Com rapidez, a imprensa começou a explorar a imagem da linda e jovem pretendente ao
estrelato, assassinada de forma tão trágica e violenta, e o noticiário logo captou a imaginação
do público. Como acontecera antes — e se repetiu depois com outros casos de ampla
divulgação na imprensa —, o assassinato Short inspirou vários crimes-cópias na área. Três dias
depois que o corpo de Beth fora encontrado, Mary Tate foi brutalmente agredida e
estrangulada com uma meia de seda. Um mês mais tarde, Jeanne French foi encontrada
mutilada e com obscenidades escritas com batom em seu corpo. Outra mulher foi mutilada e,
depois, no verão daquele ano, mais três mulheres sofreram mortes horríveis, provocadas por
espancamento e/ou estrangulação. Em todos os casos havia elementos de coincidência com o
assassinato Short morte num lugar e depois transporte do corpo para outro, muitas eram
frequentadoras de bares, algumas estavam nuas — e os detetives tiveram muito trabalho para
determinar se havia, ou não, uma conexão direta entre os casos.

Enquanto investigavam o crime os investigadores descobriram a enorme diferença que


existia entre a realidade e a imagem criada pela imprensa. A maior parte do tempo a Dália
Negra vivera em extrema pobreza ou, abaixo deste patamar, na miséria e sem teto. A polícia
descobriu muitos boatos a respeito de Beth Short; um dos mais correntes era o de que ela teria
uma vagina não desenvolvida. Havia histórias de que ela, apesar de não fazer sexo vaginal com
seus namorados, era capaz de fazer sexo oral, em troca de qualquer coisa — roupas, sapatos,
um quarto para passar a noite. Mas a pessoa que ela era na realidade acabou se perdendo atrás
do mito.
O caso da Dália Negra continuou a assombrar a imaginação popular devido a sua aura de
glamour e à irônica rapidez com que o sonho americano podia se transformar em pesadelo.
Mas o que vejo aí é ainda mais patético. Elizabeth Short desejava algo que sempre lhe escapou.
Ela tinha dois objetivos na vida, tornar-se uma estrela de cinema e casar-se com um militar;
um representava seu anseio de dinheiro e fama; o outro sua necessidade de uma vida normal e
estável. Naquela época as estrelas de cinema passavam uma imagem de serem o máximo, mas
os militares eram os verdadeiros heróis, haviam acabado de salvar o mundo. Qualquer uma
destas duas realidades a teriam feito feliz, mas seu passado e sua personalidade não permitiram
que nenhum de seus desejos se concretizassem. Como Hollywood, sua imagem também era
vazia de substância. Com pouco mais de vinte anos sua beleza já estava se apagando e seus
dentes apodrecendo, porque não tinha dinheiro para cuidar deles. Ela nunca foi uma estrela de
cinema, nem mesmo uma promessa; fora apenas uma menina pobre e triste, almejando vida
melhor.

Beth Short era jovem, necessitada e emocionalmente vulnerável, com uma personalidade
altamente dependente. Pelo tipo de vida que levava (que escolhera levar?), era uma vítima
potencial de alto risco. Como a personagem de Tennessee Williams, Blanche DuBois, ela
dependia da gentileza de estranhos. Era um alvo fácil para qualquer um com um desejo de
dominar e magoar mulheres. E seu assassino seria um daqueles que está sempre à caça de
vítimas. Ele a reconheceria a quilômetros de distância.
O homicídio foi classificado como assassinato por prazer, como fica claro pela tortura a
que a vítima foi sujeitada antes da morte, mas eu hesitaria em classificar este ED como alguém
tomado de fúria incontrolada, como no caso das mutilações de Jack, o Estripador. A
combinação do desmembramento do corpo em duas partes com sua lavagem indica alguém
que sabe que precisa eliminar evidências. A lavagem é para eliminar as pistas que poderiam ser
descobertas pela perícia técnica e o desmembramento para facilitar e tornar menos aparente o
transporte do corpo. Estas são ações de um criminoso organizado, que combinadas com os
elementos de desorganização do crime, dão-nos um quadro misto da personalidade do
criminoso.
Como o corpo foi encontrado num terreno baldio, sabemos com certeza que teve de ser
transportado pelo menos de alguma distância. Sabemos também que várias pessoas passavam
pela área antes de o corpo ser encontrado e que a descoberta aconteceu pouco depois de ele ser
abandonado. Disto podemos deduzir que, se por um lado é possível que alguém visse o
assassino, por outro ele não despertara suspeitas. O que nos leva à possibilidade de que o corpo
tivesse sido transportado numa saca, ou até mesmo em duas. O transporte seria muito mais
fácil em dois volumes.
É claro que, se ficasse provado pela autópsia que o desmembramento ocorrera antes da
morte, teríamos que reavaliar seu sentido. Eu ainda o classificaria como um assassinato por
prazer, mas, neste caso, o criminoso seria mais do tipo desorganizado e suas aberrações
mentais seriam mais óbvias.
Outra conclusão que podemos assumir é de que o criminoso tinha um carro, porque, com
franqueza, não vejo nenhum outro meio de levar o corpo até o local onde foi abandonado — e
isto não é alguma coisa para ser feita com um carro emprestado. Em geral, não vemos este tipo
de criminoso dirigindo carros. Na maioria dos casos são personalidades bastante
desorganizadas, quase do tipo psicóticas. E, em 1947, quando muito menos pessoas tinham
carros, seria ainda mais estranho que uma pessoa assim tivesse um. O que nos diz algo a
respeito do assassino. Ele funciona, não é alguém desorganizado 24 horas por dia. Pode ser um
alcoólatra crônico, por exemplo, capaz de esconder seu problema o bastante para manter um
emprego. Ele precisaria de dinheiro para manter seu carro, abastecê-lo etc. É provável que faça
um trabalho manual, alguma coisa que envolva sangue, talvez num matadouro. Ou poderia ser
um caçador experiente.

Para fazer o que fez com sua vítima, antes e depois da morte, ele precisaria ter também
um apartamento próprio. Poderia ser um lugar pequeno e barato, mas deveria ser privado e
com água corrente e onde soubesse que não seria interrompido. Sabemos agora que o ED não
poderia ser tão pobre, pelo menos não tanto quanto sua vítima. Tinha de ter dinheiro suficiente,
não só para abastecer seu carro, mas também para pagar um aluguel. Mesmo que seu carro
fosse roubado, ainda assim, seria necessário um local privado para onde ir.
O fato de que o corpo foi abandonado num local onde seria logo encontrado, em vez de
onde a descoberta pudesse ser retardada por dias ou semanas, revela que o criminoso queria
chocar e agredir a sociedade com seu ato. E comunicou-se com a polícia, o que não é comum
com este tipo de criminoso, o que, de novo, mostra as contradições de um caso misto. Este ED
queria reconhecimento por seu crime de forma semelhante ao Zodíaco, embora não fosse nem
de longe tão organizado, inteligente e matreiro quanto ele.
No capítulo 1, já discutimos as motivações do assassinato por prazer. Aqui eu adicionaria
que os elementos de sadismo, a degradação e humilhação impostas à vítima (como fazê-la
engolir fezes, por exemplo) e a escolha do local onde o corpo foi abandonado indicam a
necessidade do assassino de fazer de seu crime uma declaração. Seu ódio não é só contra esta
mulher, mas contra todo o gênero feminino. E, na escolha do local do abandono, estende a
demonstração de sua raiva contra a humanidade inteira.
Todos estes pontos são importantes como indicadores de que este não é o tipo de crime
cometido por um namorado ciumento numa crise passional. Nem é o caso (para desmontar
uma outra teoria) de um pretendente frustrado que, louco de ódio, descobre que a mulher que
gosta de provocar os homens e excitá-los no último momento escapole, porque não está, de
fato, equipada para uma relação sexual verdadeira. Este tipo de roteiro (como o outro
envolvendo uma mulher enciumada) não coincide com os motivos particulares do assassino,
como ficaram evidenciados no crime.
Não haveria tal grau de degradação e de mutilação se o crime fosse de qualquer um destes
outros tipos. Estes são os atos de alguém que fantasia constantemente — e já há algum tempo
— a respeito de machucar alguém. São atos de quem está sempre à caça de alguém para
dominar e punir e que sabe exatamente o que fará com este alguém quando o tiver sob seu
controle.
Enquanto a lavagem e o desmembramento do corpo constituíam elementos de modus
operandi, feitos para proteger-se da polícia, a tortura e o sorriso talhado no rosto da vítima
eram elementos de assinatura, uma necessidade emocional e gratificante para o criminoso.
Fazer tudo isso levou algum tempo. Já vimos os elementos de desorganização na
personalidade deste ED que, ainda assim, conseguiu fantasiar, planejar e realizar este crime
demorado e complicado. Por isso devemos supor que, antes de seu encontro com Beth Short,
ele já tivesse cometido outros crimes e constituído um histórico criminoso. Como já
demonstramos várias vezes, ninguém faz uma coisa assim sem nenhuma experiência anterior.
No crime, como em tudo mais, é necessário desenvolvimento e evolução.
Eu teria aconselhado à polícia que também olhasse com muita atenção para os casos de
supostos crimes-cópias que aconteceram depois. Alguém que leva a este ponto suas fantasias
assassinas não se satisfaria apenas com uma morte. A menos que alguém, ou algo, o
interrompa, ele continuará matando. Chego a dizer que se víssemos, mesmo isoladamente, um
caso assim hoje em dia, saberíamos estar diante de um assassino serial.
Como relata John Gilmore, em seu livro Severed, existem indicações que ligam o
assassinato da Dália Negra a outro crime sem solução, acontecido no ano anterior: o
assassinato de Georgette Bauerdorf, herdeira de uma fortuna em petróleo e uma bela socialite
de Los Angeles, filha de um associado, em Nova York, a William Randolph Hearst. Depois da
morte de Beth Short, Aggie Underwood, um agressivo repórter do Herald Express, jornal do
grupo de Hearst, queria que o Departamento de Polícia de Los Angeles investigasse novamente
o caso Bauerdorf. Georgette, que conhecera Beth Short por intermédio de amigos comuns, fora
estrangulada antes de ser abandonada, com um pedaço de toalha enfiado na garganta, de boca
para baixo, em sua banheira. Os investigadores do xerife não conseguiram localizar um
soldado de pele escura, com 1,90m e manco, que namorara Georgette. Ela rompera a relação
por sentir medo dele. Alguém que coincidia com esta descrição fora visto na cena do crime. Eu
diria que existe a séria possibilidade de que a pessoa que matou Beth Short fosse a mesma que
matou Georgette Bauerdorf. Ambos são crimes de um assassino por prazer — em ambos o
assassino usa uma banheira — e ocorrem num espaço de tempo relativamente curto.
Gilmore fez uma pesquisa minuciosa no caso Short. No início da década de 1980, ele
apresentou uma fita com uma entrevista que fizera com um homem chamado Arnold Smith.
Smith era alto, magro, mancava e tinha uma longa ficha na polícia. Na entrevista, declarava a
Gilmore que alguém chamado Al Morrison matara Beth Short, e que Morrison lhe contara os
detalhes do crime. Gilmore discutiu este depoimento com John St. John o detetive que
assumira o caso na década de 1960. Encontrei e conheci St. John uma vez, quando ele já
adquirira o status de lenda. Seu distintivo de detetive do Departamento de Polícia de Los
Angeles era o de número um. Morreu em 1995, com 77 anos, dois anos depois de sua
aposentadoria.
Segundo Gilmore, St. John acreditava em Smith e Morrison como uma única pessoa. Uma
vez, Smith levara para Gilmore uma caixa com pertences de Beth Short, incluindo um lenço e
uma foto de Beth com uma mulher loura, ele próprio, e um outro homem, que segundo Smith
seria Al Morrison.
Smith fizera uma descrição minuciosa de como o assassino a levara antes para um hotel
em Hollywood onde ficara claro que Beth não entendera que ele pretendia dividir o quarto com
ela. Não quisera ter relações com Morrison e se recusara a beber com ele. Morrison a levara
então para uma outra casa e, quando ela quis ir embora, ele a atacou. Segundo o relato de
Smith a Gilmore, o assassino ameaçou violentá-la, ela gritou, e ele a golpeou várias vezes até
que ela parou de mover-se. Smith contou em pormenores como o assassino a amarrara e
enfiara suas calcinhas em sua boca, antes de cortá-la e deixar sangrar, para depois lavá-la —
incluindo alegações bastante convincentes de como colocara tábuas na banheira a fim de poder
seccionar o tronco e de como embrulhara as partes num oleado e na cortina do chuveiro, para
transportá-las, depois, na mala de seu carro, até o terreno baldio onde a encontraram.

De acordo com Gilmore, Smith fizera ainda uma referência velada "àquela outra mulher",
que fora encontrada também "numa banheira" — possivelmente falando de Bauerdorf. Smith
já fora alvo da atenção de Joel Lesnick, Detetive do escritório do xerife do Condado de Los
Angeles, em conexão com aquele caso. Lesnicck soubera que Arnold Smith seria um dos
muitos nomes usados por Jack Anderson Wilson, um alcoólatra, magro e alto, que tinha uma
perna ruim e uma longa folha corrida na polícia por assaltos e crimes sexuais.
Depois de ouvir a fita de Gilmore e seu relato do encontro que tivera com Smith, St. John
compreendeu que tinha de interrogá-lo pessoalmente. Enquanto isto, uma investigação paralela
não encontrara nenhum sinal de que Al Morrison, o sádico e violento maníaco sexual,
existisse, aumentando ainda mais a suspeita de St. John de que Arnold Smith/Jack Anderson
Wilson era o verdadeiro assassino.
Mas, por infortúnio, antes que St. John e a polícia conseguissem encontrá-lo e interrogá-
lo, Smith — que era alcoólatra e um fumante inveterado — dormiu com um cigarro aceso,
incendiando seu quarto no Hotel Holand. Morreu no incêndio que parece ter queimado também
a caixa com os pertences e fotos de Elizabeth Short, que ele mostrara a Gilmore.
Em outro livro sobre o caso, Daddy was the black dalia killer [Meu pai, o assassino da
Dália Negra], escrito em parceria com o conceituado autor Michael Newton, Janice Knowlton
oferece outra teoria. Knowlton afirma que seu pai já falecido, George Knowlton, era um
violentador de crianças, assassino serial com pelo menos três vítimas, assassino de bebês,
satanista e necrófilo — além de ser o assassino de Beth Short. Ela atinou para a ligação de seu
pai com o caso da Dália Negra, segundo seu depoimento, quando memórias de seu passado,
reprimidas no fundo de seu subconsciente, emergiram enquanto se recuperava de uma
histerectomia. De acordo com Janice, Beth ligou para o seu pai do Hotel Biltmore. Ela se
lembra que ele a golpeou com um martelo até matá-la e usou uma motosserra para desmembrar
o corpo, depois obrigou sua filha a acompanhá-lo até a praia Seal's, onde jogou o corpo no
mar. Quando as ondas devolveram o corpo à praia, ele o lavou e depois levou-o para um
cemitério, mas, mudando de ideia, resolveu abandoná-lo num terreno baldio.
Numa história publicada pelo Los Angeles Times, dois dias depois do crime, alguém se
lembrava de haver ouvido de Beth que ela estaria noiva de um piloto chamado George. No fim
daquele janeiro, alguém chamado George visitou várias vezes um café no Boulevard Santa
Mônica, dizendo ser um agente do FBI, mas sem mostrar nenhuma identificação, e também
saber quem matara Short. Pela descrição, Knowlton acreditava tratar-se de seu pai. Newton
admite que não existem provas que confirmem as afirmações de Janice, mas cita várias
coincidências na vida de seu pai com fatos conhecidos do caso da Dália Negra. Mostra também
as incríveis semelhanças entre o caso e o assassinato não resolvido de Frances Cochran, em
Lynn, Massachusetts, em julho de 1941.

Num artigo no Orange County Register, de junho de 1991, John St. John declarou: "Os
fatos, como me foram apresentados por ela, não são compatíveis com a realidade do
assassinato da Dália Negra." Até hoje o caso permanece sem solução.
Outros aficionados pelo caso afirmam que o Departamento de Polícia de Los Angeles
sabia da identidade do assassino, mas teria encoberto o crime para proteger pessoas influentes.
(Algumas dessas pessoas têm a mesma teoria a respeito da morte de Marilyn Monroe.)
Teorias, tanto de conspirações quanto outras, existem muitas. Mas o que podemos
declarar com certeza é que Elizabeth Short foi vítima da ocasião. Seu assassino era do tipo que
projeta culpa na pessoa da vítima, com justificativas como, por exemplo, "ela estava pedindo"
ou "foi punida pelo tipo de vida que levava". Alguém com necessidade de encontrar uma
pessoa que considerasse inferior a ele próprio, para degradá-la e provar seu ponto de vista.
Alguém capaz de assumir riscos com sinais de comportamento misto em seus crimes. Não me
surpreenderia se, depois do crime, demonstrasse sinais de uma desintegração emocional mais
séria. Se fosse bastante grave, poderia impedi-lo de continuar matando sem ser descoberto,
mas nesse caso ele seria preso e identificado. De qualquer forma, com as técnicas de que
dispomos hoje, seria possível identificar num suspeito o comportamento pós-crime, fosse tal
crime uma crise de loucura ou mesmo um suicídio.
Este assassinato foi provocado por uma fantasia que continuaria a existir depois do crime.
Assim eu vigiaria o local onde foi abandonado o corpo na esperança de que o assassino
voltasse para reviver a cena. Acho que vigiar a sepultura da vítima também seria uma boa
ideia. Seu interesse pelo caso faria com que frequentasse os bares e os cafés usados pela
polícia. Talvez contasse a alguém pormenores do crime, embora este alguém seria, como ele,
uma pessoa vivendo à margem da sociedade, já que nosso ED não teria muitos amigos bem-
sucedidos e "normais". Se confidenciasse sobre o caso com alguém, faria isto num momento
de fraqueza como, por exemplo, durante uma bebedeira e, quando percebesse o que fizera e a
posição vulnerável em que se colocara, a vida de seu confidente estaria em sério risco.
É possível que nunca saibamos com certeza quem matou a Dália Negra. Se St. John
houvesse interrogado Arnold Smith talvez o caso fosse resolvido. Mas descobrir que tipo de
pessoa era o assassino é uma tarefa bem mais fácil. Como em outros casos que discutimos, ele
próprio nos contou seu crime.

LAWRENCIA BEMBENEK

Se Elizabeth Short representa uma versão desbotada e antiga de um símbolo americano,


Lawrencia Bembenek é outra versão mais forte e moderna deste símbolo. De qualquer forma, à
sua maneira é também uma história triste e emocionante como a anterior.
E, de novo, na vida de Bembenek a realidade e o mito correm lado a lado. Ela gostava que
a chamassem de Laurie, mas o público decidiu que ela seria conhecida como Bambi. Uma
fantástica loura do meio-oeste, coelhinha da Playboy que, forte e competente, fez carreira num
espaço até então fechado às mulheres, como era o serviço policial. E encarnou a imagem
romântica de uma bela mulher horrivelmente injustiçada, condenada por um crime horrível que
jurava não ter cometido, e que, depois de presa, foi salva por um belo príncipe que a ajudou em
sua fuga e lhe ofereceu amor sincero. Ao lado disso uma vida de fugitiva encapsulada num
bordão, sonho de qualquer publicitário, Run, Bambi, Run! [Corre, Bambi, Corre!], nas
manchetes, em camisetas, na televisão. Até nesta frase ficam claras as inerentes contradições
desta história, neste retorno a um arquétipo da inocência perdida, criado por Walt Disney. O
apelido fora colocado por seus colegas do sexo masculino quando ela era uma recruta na
polícia.
A realidade de tudo isto era bastante diferente, embora não menos assombrosa.
Na madrugada de 28 de maio de 1981, pouco depois das 2:30h, policiais responderam a
um chamado de emergência no número 1.701 da rua Ramsey Oeste, na Zona Sul de
Milwaukee, no Wisconsin. Foram recebidos por Sean Schultz, de dez anos, e seu irmão de
oito, Shannom. No quarto, os policiais encontraram a mãe dos meninos, Christine Jean
Schultz, de trinta anos, deitada sobre seu lado direito e evidentemente morta. Tinha cabelos e
olhos castanhos e vestia camiseta Adidas amarela e calcinhas brancas. A camiseta tinha sido
rasgada junto a uma perfuração, feita por um tiro, na altura de seu ombro direito. Tinha as
mãos amarradas por uma corda de varal, na frente do corpo, e estava amordaçada com uma
bandana azul. Não havia sinais de arrombamento nas portas com trancas de segurança
reforçadas. A casa situava-se numa rua bem iluminada, em vizinhança segura e perto de outras
casas. Seus fundos, no entanto, com uma porta encoberta e impossível de ser vista de fora,
davam para uma via expressa. O assassino poderia ter usado, assim, esta rodovia para escapar.

Passaram-se duas horas para que o legista chegasse e mais uma para que viesse a
ambulância. Quando os policiais preparavam o corpo para ser transportado, recolheram um fio
de cabelo castanho em sua perna.
Sean contou à polícia que acordara com a sensação de uma corda apertando seu pescoço.
Uma mão grande enluvada cobria seu rosto. Ele reagira se debatendo e gritando e ouvira,
então, seu agressor soltar um gemido e escapar pelo corredor. Sean foi atrás do seu irmão que
saíra do quarto e, do corredor, viram um homem no quarto de sua mãe.
Já Shannon o descreveu como um homem branco, grande e com o cabelo preso num longo
rabo de cavalo, usando um training verde. Achava que vira um revólver com cabo em
madrepérola. O menino menor ouvira então uma voz feminina, no quarto de sua mãe, dizer
"Meu Deus, por favor, não faça isso!" e, depois, um som como o de uma bombinha.
Quando o homem passou por eles e desceu correndo pela escada, os meninos notaram que
usava um casaco verde do Exército e sapatos pretos de amarrar, como os usados pela polícia. E
isto ambos conheciam bem, já que tanto o pai deles — o ex-marido de Christine, Fred —
quanto o atual namorado de sua mãe eram policiais.
Sean correu de volta para o quarto de sua mãe, que ainda estava viva, e rasgou sua
camiseta na tentativa de socorrer seu ferimento. Por volta das 2:30h ele chamou o namorado de
sua mãe, Stewart George Honeck, de 41 anos, pedindo ajuda. Sean se lembrava de ter ouvido
Honeck dizer: "Eu sabia que isto ia acontecer. Acho que foi o Freddie."
Honeck chamou o número de emergência da polícia e foi imediatamente para a casa de
Christine Schultz, acompanhado de Kenneth Retkowski, também policial e que vivia com ele.
Chegaram quase ao mesmo tempo em que o carro-patrulha que Honeck chamara. Na casa,
Honeck subiu ao quarto de Christine e moveu seu corpo para verificar como ela estava.
Embora isto seja uma reação normal da parte do namorado da vítima, chamado à cena pelas
crianças em pânico, do ponto de vista técnico ele desarrumou a cena do crime. Esta seria
apenas uma das várias irregularidades cometidas nesta investigação.
Elfred O. Schultz, ou Fred, divorciado de Christine desde novembro do ano anterior, após
11 anos de casamento, estava de serviço naquela noite quando foi informado do crime. E
dirigiu-se imediatamente para a cena do crime, enquanto o corpo de Christine ainda ali
permanecia. De novo não é difícil entender por que ele foi para a casa, especialmente quando
se pensa que seus dois filhos estavam ali, mas alguém deveria impedir que entrasse. Como ex-
marido, independentemente de seu álibi por estar de serviço, deveria ser considerado um
suspeito potencial. Eu consigo, no entanto, imaginar o que aconteceu, porque já vi fato
semelhante outras vezes, sempre que um crime envolve a família de policial. Seus colegas o
conhecem, sabem que são seus filhos, que é sua casa etc., e o vêem como vítima. É uma reação
comum.
Schultz telefonou e acordou sua esposa na época, Lawrencia Bembeneck, de 21 anos, para
avisá-la do que acontecera. Depois, ele e seu parceiro, o detetive Michael Durfee, foram para o
apartamento onde Schultz vivia com Laurie, a 16 quarteirões da casa de Christine. Fred sentiu
a temperatura fria do capô sobre o motor do carro de sua mulher, segundo declarou mais tarde;
depois, na presença de Durfee, mostrou-lhe sua própria arma. E Durfee examinou e cheirou o
revólver .38. Havia poeira na arma e o parceiro de Schultz constatou que não fora usada nem
limpa naquela noite. Fred pediu a Laurie para ir com ele até a cena do crime e identificar a
vítima, sua ex-esposa; e levou consigo sua arma de uso pessoal numa maleta. No que foi outro
descuido na investigação, Fred deixou de registrar sua arma pessoal, que seria, mais tarde,
determinada como a arma do crime, após exames laboratoriais na polícia. O número de série
da arma não foi registrado e ela permaneceu em seu poder por três semanas antes que fosse
entregue para ser examinada.
Mais tarde, naquela madrugada por volta das 16:00h, dois detetives vieram ao
apartamento de Schultz e Bembenek e perguntaram a ela se tinha uma arma ou uma roupa de
training verde depois fizeram algumas perguntas sobre seu marido e Stewart Honeck. Na
verdade ambos haviam sido amigos e, certa época, até moraram juntos. Mas, nos últimos
tempos, parece que Schultz via com desagrado o namoro de Honeck com sua ex-mulher e eles
se desentenderam.

Laurie declarou que estivera em casa na hora do crime, sozinha e dormindo. Passara a
noite empacotando as coisas para se mudarem para um apartamento menor. Planejara sair com
uma amiga, mas o encontro fora cancelado.
A polícia reconstituiu os acontecimentos da última noite na vida de Christine Schultz. Ela
preparara um jantar para Honeck e beberam vários coquetéis até às 21:00h, quando os meninos
foram dormir. Assistiram televisão até mais tarde quando Christine levou Honeck para casa, a
uns três minutos de distância, em seu carro. Noutra versão ele teria ido embora só, com
Christine recomendando que trancasse a porta ao sair.
Algumas semanas antes do crime, doze moradores da área, inclusive dois policiais, viram
um homem que combinava com a descrição dos meninos correndo pela área. Tinha o cabelo
castanho-avermelhado preso num rabo de cavalo, usava um training verde e um lenço como a
bandana azul usada para amordaçar Christine. Duas enfermeiras, numa instalação a dois
quilômetros do local do crime, notaram, naquela madrugada, um homem deitado no
estacionamento, às 2:50h. Chamaram a polícia e, quando voltaram, viram um homem de
cabelo avermelhado e num training verde, no meio dos arbustos. Ray Kujawa, vizinho da
vítima, disse à polícia que, na noite do crime, enquanto estava fora de casa, alguém entrara em
sua garagem e roubara um training verde e um revólver .38.
O exame post-mortem, feito pela dra. Elaine Samuels indicou que o revólver, quando
disparara, estava encostado nas costas da vítima, tocando sua pele. Um tiro à queima-roupa,
desta natureza, produz um efeito de explosão, em que sangue e tecidos se projetam sobre o
cano da arma.
Parentes e amigos de Christine a descreviam como atlética, em ótimas condições físicas e
uma amante da vida ao ar livre. Era também, segundo diziam, uma pessoa de gênio forte e
achavam impossível que houvesse ficado sem reagir, amarrada da maneira que fora por seu
assassino, se não estivesse sob a ameaça de uma arma. Havia sangue sob suas unhas da mesma
forma que em duas paredes e no alto da escada.
A partir daqui, as coisas começam a se complicar.
Apesar da afirmação de seu parceiro, que dissera que a arma pessoal de Fred não fora
disparada, ou limpa, naquela noite, a análise do laboratório revelou que não só a arma, uma
SmithWesson .38, tinha traços de sangue do tipo A (o grupo sanguíneo tanto de Fred quanto de
Christine), mas também que a bala que matara Christine combinava com as marcas no interior
de seu cano. Além disso, foi encontrada na casa de Fred uma caixa de munição igual à usada
no crime e que este dissera pertencer-lhe. A munição era do tipo regulamentar, distribuída para
as armas do Departamento de Polícia de Milwaukee. E Monty Lutz, um perito em armas
reconhecido em todo o país, declarou que, pelas marcas, a bala fora disparada por aquela arma.
Outros analistas também afirmaram o mesmo. Assim, tanto Fred quanto Laurie se tornaram
suspeitos.
Ex-maridos são sempre suspeitos, pelo menos no início das investigações, e Fred Schultz
poderia ter um motivo. Enquanto ele morava com Laurie num apartamento pequeno, Christine
e os meninos viviam felizes na casa que ele construíra. E mais, para poder equilibrar o
orçamento, já que Fred pagava uma pensão para Christine e os meninos, além da hipoteca da
casa, os recém-casados foram obrigados a dividir por algum tempo o próprio apartamento com
Judy Zess, uma amiga. Segundo Laurie, Fred ficara profundamente amargado com a
quantidade de dinheiro que o acordo de divórcio lhe custava em pensão. Reclamava que sua
ex-mulher ficara com tudo. E Christine, por sua vez, dissera a seu advogado que tinha medo de
Fred, que ele a ameaçara de morte e que queria controlar sua vida e a das crianças. Achava
também que estava sendo seguida. É claro que brigas e palavras duras são comuns em
divórcios e nada indicava que Fred concretizaria suas ameaças.
Laurie era uma suspeita mais viável, porque, embora o revólver fosse de Fred, ele tinha
um álibi, enquanto ela estivera sozinha naquela noite em casa e com acesso à arma. E se
recusara a fazer um teste com um detector de mentiras, aconselhada pelo advogado de Fred,
enquanto ele próprio o fizera. Ele passara, mas o teste fora bastante comprometedor em outros
aspectos. Admitira que esmurrara Christine no passado, que mentira a respeito de uma multa
por excesso de velocidade e, também, sobre onde estivera na noite do crime.
Outra irregularidade neste caso fora o fato de Michael Durfee, o parceiro de Fred, não ser
capaz de apresentar o registro das ocorrências no serviço dos dois naquela noite. Mas tarde se
soube que, embora declarassem haver investigado um roubo com arrombamento, esta
investigação fora feita por outros policiais e que, na verdade, Michael e Fred, passaram a noite
em dois bares, bebendo em serviço. Schultz ainda tinha um álibi sólido, mas a revelação era no
mínimo embaraçosa.
A evidência circunstancial começou a crescer com o testemunho de várias pessoas que
pintaram a imagem de Laurie como a de uma mulher dissimulada, ambiciosa e calculista. A
mãe de Judy Zess, Frances, declarou que ouvira Laurie dizer, durante um jantar alguns meses
antes do crime, que ainda conseguiria ver Christine "afastada". Judy confirmou esta história e
disse que o ódio se devia ao dinheiro que Fred pagava de pensão à ex-mulher. Judy declarou,
ainda, que Laurie contatara seu namorado, Thomas Gaertner, a respeito de conseguir alguém
para "apagar" Christine. E que Laurie tinha tanto uma corda de varal quanto um lenço azul em
sua casa como aqueles encontrados na cena do crime. Várias pessoas se lembravam de Laurie
vestida com um training verde (inclusive Judy Zess, que disse se lembrar de um no
apartamento que dividira com o casal), embora nunca o tenham encontrado.
Mas como vimos em outros casos, depoimentos e pistas levam em diversas direções. Os
cabelos encontrados no corpo e no lenço azul eram da mesma cor do cabelo da vítima, segundo
a dra. Elaine Samuels. Mas depois, Diane Hanson, analista de cabelos do laboratório criminal
de Madison, declarou que dois dos fios eram idênticos às amostras recolhidas na escova de
cabelos de Laurie.
Esta prova, no entanto, é questionável e pode ter sido fabricada. Numa carta de 1983,
citada num artigo do jornal Toronto Star em 1991, a dra. Samuels reafirmava: "Não encontrei
fios de cabelo louro ou ruivo de qualquer tipo ou comprimento. (...) todo o cabelo encontrado
era castanho e semelhante ao cabelo da vítima."
A dra. Samuels continuava: "Não me agrada a ideia de sugerir que as provas tenham sido
adulteradas, mas não encontro explicação para o fato de fios de cabelo louro aparecerem num
envelope lacrado por mim e onde não havia nenhum." E concluía: "Irregularidades nas
investigações, somadas à atitude hostil da polícia (...) me levam à conclusão de que alguma
coisa pode não estar certa."
Uma peruca castanho-avermelhada foi encontrada entupindo o encanamento do edifício
de apartamentos onde viviam Fred e Laurie. Não só era da mesma cor descrita pelos meninos,
mas os cabelos da peruca eram idênticos aos cabelos encontrados no corpo da vítima. Mas
mesmo esta prova cria mais indagações do que respostas. O apartamento dividia sua tubulação
de esgoto com outro, e a moradora deste outro apartamento declarou que fora visitada por Judy
Zess, que usara na ocasião seu banheiro, e que a próxima pessoa a usá-lo constatara o
entupimento, provocando a recuperação da peruca. Juddy Zess admitiu, mais tarde, que
possuía uma peruca daquela cor e com comprimento pelos ombros. Laurie disse que o
namorado de Judy, Thomas Gaertner, culpava Fred pela morte de seu parceiro, um policial
baleado por Fred fora de serviço, e que jurara vingança.
Apesar de tudo, o conjunto das circunstâncias apontava para Lawrencia Bembenek.
Assim, em 26 de junho de 1981, foi acusada da morte de Christine Schultz, basicamente
porque tivera acesso à arma do crime e não tinha um álibi para aquela noite. Embora ela, Fred,
Judy Zess, Thomas Gaertner e o proprietário tivessem chaves do apartamento, Laurie estivera
lá sozinha na hora do crime. Todos acreditavam que, sendo uma ex-policial, ela soubesse como
esconder seu rastro. E como era alta e forte, poderia ter sido confundida com um homem pelos
dois filhos de Christine, embora Sean insistisse que fora um homem que vira e em seu
testemunho excluísse a possibilidade de que fosse Laurie.
Lawrencia Bembenek foi a julgamento em 24 de fevereiro de 1982, acusada do
assassinato em primeiro grau de Christine Schultz. Falou-se muito, tanto no tribunal quanto na
imprensa, da beleza e das posições feministas da ré, o que levou algumas pessoas a dizerem
que Bambi estaria sendo julgada mais por sua imagem do que pela morte de Christine Schultz.
O juiz Michael Skwierawski declarou: "Foi o caso mais circunstancial que já vi, com uma série
de provas que não bastariam isoladamente para condená-la. Mas, consideradas como um todo,
levaram o júri à única conclusão possível."
Um exemplo da ambiguidade de que falava o juiz Skwierawski, dizia respeito à própria
arma do crime. Num artigo de 31 de julho de 1990, em que analisava o caso, o repórter Rogers
Worthigton escreveu no Chicago Tribune: "Os testes de balística demonstraram que a arma
usada no crime era a mesma que fora recolhida com Schultz, mas no tribunal, nem Durfee nem
Schultz puderam identificar com segurança a arma, como sendo a mesma que examinaram na
noite do crime."
O júri, composto de sete mulheres e cinco homens, levou três dias e meio para concluir
pela culpa de Lawrencia Bembenek e entregou seu veredicto no dia 9 de março. Ela foi
sentenciada à prisão perpétua. De dentro da penitenciária, Laurie continuou a declarar sua
inocência, alegando que o caso fora armado pelo Departamento de Polícia de Milwaukee, para
impedir que denunciasse casos de uso de drogas e corrupção na força policial. Esta era uma
das tônicas do caso e parte de seu folclore. E para entender a razão pela qual tanta gente
acreditava que, na verdade, Laurie fora vítima de uma armadilha, é necessário conhecer
alguma coisa de seu histórico.
Lawrencia Bembenek nascera em Milwaukee, filha mais moça de Joseph e Virginia
Bembenek. Joseph fora um policial em Milwaukee, mas abandonara o serviço depois de três
anos, devido ao que via como uma corrupção generalizada na força policial. Assim, se tornara
um carpinteiro. Laurie, como era chamada em casa, crescera com o sonho de se tornar
veterinária, mas lhe faltara formação acadêmica. Fizera um curso superior de dois anos em
merchandising de moda e tivera diversos empregos por curtos períodos de tempo, como
modelo e professora de aeróbica, o que não era surpreendente para alguém como ela, alta e
atlética. Num de seus trabalhos de modelo, ela posou num elegante vestido, como Miss Março
1978, para o calendário da cervejaria Schlitz, o que foi o início de toda a mitologia a seu
respeito.
Mas tinha também fortes opiniões feministas e entrou na Academia de Polícia de
Milwaukee em março de 1980. Desde o princípio, sentiu-se discriminada por ser uma mulher
num universo masculino.
Como conta Kris Radish em seu livro Run, Bambi, Run [Corra, Bambi, corra] Laurie fora a
um concerto em Milwaukee, com sua colega recruta Judy Zess e mais três amigas. Enquanto
Laurie estava no banheiro, Judy foi presa por dois policiais à paisana, por posse de maconha.
No outro dia, seu sargento e outro oficial chamaram Laurie e a interrogaram minuciosamente
sobre sua vida. Judy saiu da academia quando encontraram um cigarro de maconha dentro de
uma xícara, debaixo de sua cadeira, e Laurie foi chamada novamente e, agora, pressionada por
seus superiores que queriam que ela confessasse também usar maconha. Laurie se recusou a
confessar o que não fazia. Tinha a impressão de estar sendo maltratada por ser mulher, mas,
em 25 de julho de 1980, ela se formou, classificada em sexto lugar entre os alunos de sua
classe, e recebeu seu distintivo.
Foi designada para o 2° Distrito, que não era uma área particularmente perigosa, mas
imediatamente se sentiu chocada com o que disse ter visto nas ruas e dentro do departamento:
suborno, corrupção, bebidas alcoólicas durante o serviço, abuso de drogas, sexo oral com
prostitutas e mau tratamento de suspeitos. Ainda assim sentia muito orgulho em ser policial e
gostava do trabalho de patrulha, que fazia por conta própria.
A 25 de agosto, um mês depois de sua formatura da Academia, Laurie recebeu um
telefonema em sua casa de um capitão, dizendo que fora dispensada. Ela não tinha ideia do
motivo. Dois sargentos passaram em sua casa e levaram seu distintivo e seu uniforme. O chefe
de polícia despediu três policiais mulheres naquela semana — as outras duas eram negras —
todas três estavam no período de experiência. A única explicação foi que as demissões seriam
"para o bem do serviço".

Segundo o Milwaukee Journal, três dias depois Laurie "foi acusada de mentir e apresentar
um relatório falso, mas não foram dadas maiores informações".
Semanas mais tarde, quando conseguiu ver pessoalmente sua pasta, Bembenek descobriu
que Judy Zess assinara uma declaração de que Laurie também fumara maconha durante o
concerto. Judy admitiu ter assinado, mas disse que a haviam forçado a isto depois de horas de
interrogatório. Ambas estavam sofrendo com suas demissões e Laurie perdoou a Judy,
sugerindo, inclusive, que morassem juntas.
Esperando o julgamento de seu apelo e precisando muito de dinheiro, Laurie conseguiu
um emprego como garçonete no Clube Playboy no lago Geneva. Ela só trabalhou por algumas
semanas, mas o fato de que fora uma coelhinha solidificou a imagem, que viria a ser associada
a ela, de desconcertante combinação entre policial, feminista e objeto sexual. Como no caso de
Elizabeth Short, o público via uma realidade enquanto ela vivia outra.
O procurador federal James Morrison começou a investigar alegações de que o
Departamento de Polícia de Milwaukee estaria desviando centenas de milhares de dólares de
fundos federais para integração de minorias, enquanto despedia membros destes mesmos
grupos por razões pouco claras. Laurie se apresentou para testemunhar que mulheres eram
contratadas e, em pouco tempo, despedidas, apenas para cumprir as cotas federais que eram
necessárias para receber as verbas. Ela abriu um processo contra o departamento por
discriminação. Em outubro de 1980, conseguiu fotos de policiais do sexo masculino dançando
nus num parque. Depois que apresentou estas fotos a investigadores internos da polícia, teve os
quatro pneus de seu carro cortados, encontrou um rato morto em seu pára-brisa e começou a
receber telefonemas anônimos durante a madrugada. É significante que, quando foi acusada de
assassinato, a investigação da qual era uma peça importante fosse abandonada.
Laurie conheceu Fred Schultz em dezembro de 1980, um mês depois de seu divórcio de
Christine. Algumas semanas depois ele a pediu em casamento, o que ocorreu em 30 de janeiro
de 1981.
Não é difícil ver por que Laurie Bembenek não fora tratada como uma normal suspeita de
assassinato. Já disse antes que as pessoas não se transformam em assassinos da noite para o
dia. No caso de Laurie, o que vemos é alguém o tempo todo tentando fazer a coisa certa.
Acreditava que policiais deviam manter um padrão mais elevado de comportamento e pagou
caro por isto.
Seria impossível então que ela cometesse algum ato ilegal ou fosse incapaz de uma
violência? Não. Mas me parece muito pouco possível que assassinasse a mãe de duas crianças
a sangue-frio.
Christine Schultz estava dentro de sua casa numa área segura da cidade, o que deveria
colocá-la numa situação de pouco risco de tornar-se a vítima de um crime tão violento. Mas ela
achava que estava sendo seguida. Se seu ex-marido fosse uma pessoa tão controladora quanto
dizia, ou se seu namorado fosse alguém com um problema de alcoolismo, como algumas
pessoas disseram, neste caso, um histórico de relações difíceis poderia aumentar seu nível de
risco.

O crime, como se passou, não faz sentido. O que quero dizer é que o desencadear dos
acontecimentos não é lógico. Por que o ED começaria no quarto da mãe, para depois ir ao dos
meninos e finalmente voltar ao da mãe? Seria outra coisa se os meninos acordassem com o tiro
e o assassino fosse obrigado a lidar com eles, mas não foi o que aconteceu neste caso.
Imaginemos que o criminoso surpreendesse Christine em sua cama e ameaçasse matar seus
filhos se ela os acordasse. Depois disso a amarrara. Por que a deixaria viva, e só, para ir ao
quarto dos meninos? Não existe nenhum motivo lógico para uma atitude como esta. Manter os
meninos vivos e dormindo era a melhor maneira de controlar a mãe e fazê-la cooperar; muito
melhor do que a ameaça de qualquer arma.
Quando o indivíduo sai do quarto dela, esta mulher, atlética e de gênio forte, seria como
uma leoa com seu instinto materno de defender os filhotes. No mínimo gritaria para acordá-los
antes que o assassino tivesse tempo de começar a estrangular um deles. O que me faz pensar na
possibilidade de haver uma segunda pessoa no quarto de Christine para vigiá-la, enquanto um
ia ao quarto das crianças.
Especulou-se a possibilidade de que os eventos fossem encenados e acontecessem assim
para assegurar que os meninos estivessem acordados e próximos o bastante do assassino para
testemunhar mais tarde quem ele não era. Não se pode ter certeza disso, mas é sem dúvida
uma explicação para o estranho modo como as coisas ocorreram. A mordaça com o lenço, da
forma que foi feita, não parece ter nenhuma função e pode ser considerada, dentro desta teoria,
como um elemento da encenação, feita para desviar o rumo das investigações.

O que nos leva à grande questão do motivo do crime. Roubo? Primeiro, não me parece
obra de um ladrão, devido à escolha da hora de alto risco; segundo, porque o criminoso
procurou diretamente a vítima. Se Christine ouvisse um barulho e fosse investigar, o crime
aconteceria em outro local da casa e não em sua cama. E é possível que houvesse um chamado
à polícia. Podemos eliminar a violência sexual, porque não existe nenhum sinal disto e o
assassino, na verdade, deixou sua vítima para ir ao quarto das crianças.
Não é um roubo e não é um crime sexual. Então, por que Christine foi morta? E que tipo
de pessoa a mataria?
Antes de tudo é muito arriscado entrar numa casa quando três pessoas estão dentro dela, o
que implica haver alguém acostumado com invasão de domicílios, alguém com experiência.
Não existiam sinais de arrombamento, donde o ED tinha uma chave ou sabia como entrar sem
chamar a atenção. E alguém com uma chave, e/ou que se sentisse à vontade naquela casa,
deveria saber que a vítima era a ex-mulher de um policial e namorada de outro. Deveria
considerar a possibilidade de que ela mesma estivesse armada. Seria um louco? Entre o grau de
risco do crime e a forma pela qual foi cometido, que não é o tipo de crimes que vemos
cometidos por mulheres, acho que o perfil de Laurie Bembenek não é o do criminoso.
Outro problema para mim no caso contra Laurie é que o motivo, como foi apresentado,
não me convence. É claro que ela ficaria feliz com mais dinheiro. Quem não ficaria? Mas se
fosse uma pessoa capaz de matar a sangue-frio por dinheiro, teria matado as crianças também.
Não acredito que quisesse se tornar de um momento para outro a mãe de duas crianças, mesmo
que sua relação com elas fosse ótima durante as visitas. Era recém-casada. E embora a casa
fosse confortável, depois do crime ela teve várias discussões com Fred, porque não queria
morar ali. Seria de se esperar que ela fizesse um pouco de cena para desviar as suspeitas, mas
não a ponto de colocar em risco sua relação com o marido.
Para mim seria necessário que o dinheiro estivesse atrapalhando sua relação com Fred,
para ver a cobiça como motivo. Haveria testemunhas e declarações de como uma ótima relação
azedara devido à amargura de Fred com a perda da casa, ou que os problemas financeiros, que
tinham, estavam arruinando tudo. Mas não era o que acontecia. Ao contrário, em vez de ser um
dos maiores romances do mundo que se estragara, a relação de Laurie e Fred estava
começando. Ele estivera casado com Christine por mais de dez anos, separara-se e, há pouco
tempo, casara-se com Laurie. E o casamento acontecera logo após se conhecerem.
Independentemente da sinceridade de seus sentimentos, a relação era ainda nova e superficial.
Argumentaram que talvez ela não tivesse a intenção inicial de matar a ex-esposa de seu
marido, mas apenas amedrontá-la para fazê-la abandonar a casa, e que se vira forçada a matar,
quando fora reconhecida por Christine. Mas isto faz menos sentido ainda. Primeiro, não
combina com a cronologia do crime, como frisamos antes, além de ser altamente arriscado —
especialmente para uma ex-policial — achar que nenhuma das três pessoas na casa a
reconheceria. Depois seria de se esperar que alguma coisa fosse roubada ou que o corpo fosse
despido para fazer parecer algum outro motivo. E parece absurdo que Laurie — que,
repetimos, era uma ex-policial — fosse capaz de se livrar da peruca de forma tão descuidada
que conduzisse a polícia diretamente para ela, e esquecesse de preparar um álibi.
Bem, se Laurie Bembenek não matou Christine Schultz, quem cometeu o crime? É difícil
responder a esta pergunta, porque a investigação espalhou-se por várias direções levadas pelas
provas conflitantes que apareceram. O que se pode dizer com segurança é que, num caso como
este de homicídio por motivos pessoais, o assassino seria um dos suspeitos óbvios e saberia
que seria suspeito, assim ele (ou ela) faria tudo para conseguir um álibi.
A história de Laurie Bembenek não termina com seu julgamento, sentença e prisão. Em
1983 a sentença foi confirmada pela Corte de Apelos do Estado de Wisconsin. Quatro meses
mais tarde Fred pediu o divórcio, concedido em junho de 1984. Durante o julgamento Fred
dera-lhe todo apoio e, mais tarde, chegara a estabelecer um fundo para a defesa dela. Mas
depois da sentença da Corte de Apelos, disse estar convencido de sua culpa.
Laurie Bembenek lutou sem sucesso por muitos anos para conseguir um novo julgamento.
E, enquanto isto, continuou a inspirar as paixões. Muitos homens se apaixonaram por ela ou
por sua imagem. Um deles chegou a pagar a um assassino na prisão para que confessasse o
crime e inocentasse Laurie. Mas, quando a promotoria se recusou a conceder-lhe imunidade,
recusou-se a testemunhar.
Houve um aspecto positivo em sua notoriedade. Enquanto havia interesse nela, sempre
houve pessoas novas dispostas a trabalhar em seu caso. Uma destas foi Ira Robins, um detetive
particular de Milwaukee, que passou anos investigando o assassinato Schultz. Antes que sua
relação com Laurie terminasse, devido a problemas financeiros, Robins descobriu várias provas
de sua inocência, que mais tarde seriam usadas em suas tentativas de conseguir outro
julgamento.
Então, em 15 de julho de 1990, sua história começou uma nova fase, quando ela passou
por uma pequena janela na lavanderia e escapou com seu belo namorado, Dominic Gugliatto,
irmão de uma outra prisioneira. Embora talvez quisesse apenas uma vida normal, com este
gesto Laurie determinou para sempre seu status de celebridade. Dos telefonemas recebidos por
um popular programa de rádio em Wisconsin, 72% eram de pessoas que diziam que não
informariam à polícia caso soubessem do paradeiro de Laurie. A cobertura do caso e o slogan
Run, Bambi, Run ultrapassaram as fronteiras do Estado.
O casal foi preso três meses depois em Thunder Bay, no Canadá, logo após uma
apresentação do programa Os Mais Procurados da América, que divulgou a informação de que
ela trabalhava como garçonete num restaurante local.
Num gesto interessante, Laurie Bembenek pediu asilo ao governo canadense pelas normas
da Convenção de Genebra, alegando sua inabilidade em conseguir um novo julgamento nos
Estados Unidos, apesar de todas as provas de sua inocência. Depois de várias manobras legais
entre seus defensores e autoridades dos Estados Unidos e do Canadá, incluindo uma
investigação da Justiça Federal americana do caso, ela voltou para Milwaukee.
Os advogados de Laurie prepararam uma moção pedindo um novo julgamento, que incluía
declarações juramentadas de várias pessoas que diziam que um criminoso profissional,
Frederick Horenberger, confessara a eles haver recebido dez mil dólares de Fred Schultz para
que matasse Christine. Mais tarde, Horenberger negou esta afirmação pouco antes de se matar
durante um assalto frustrado com reféns em 1991.
Conseguiram também a declaração de dois peritos patologistas de que o cano da arma
usada para condenar Laurie era inconsistente com as marcas feitas na pele da vítima,
eliminando-a assim como arma do crime. No mês seguinte, a advocacia do governo apareceu
com uma carta de uma conceituada autoridade em balística que contradizia as declarações de
ambos os patologistas. Esta troca de informações prometia, no mínimo, uma disputa acirrada.
Diante da história inicial de Horenberger, da teoria da substituição da arma do crime e de
outros argumentos desenvolvidos pela defesa, tudo somado à perda de várias testemunhas ao
longo de todos aqueles anos, a promotoria estava disposta a negociar. Laurie temia que o novo
julgamento demorasse muito e, como queria passar algum tempo com seus pais, que estavam
velhos, concordou.
No acordo feito em dezembro de 1992, sua condenação anterior era anulada e ela não
contestava acusações de homicídio em segundo grau em troca de sua imediata liberdade
condicional pelo tempo que já cumprira. Nos últimos anos ela enfrentou vários processos, uma
falência e sérios problemas de saúde, inclusive uma hepatite C.
Nós tentamos entrevistá-la para este livro, mas Laurie declinou nosso convite, que é algo
que posso compreender. Vista como inocente ou culpada, esta mulher passou a maior parte de
sua vida adulta marcada pela sombra deste caso e pela imagem que criara na imaginação do
público. Encerraremos com palavras de uma entrevista sua, dada anos atrás, nas quais sintetiza
tudo. "Estou cansada de ser Laurie Bembenek."

O ESTRANGULADOR DE BOSTON

Com os assassinatos do Estrangulador de Boston temos um outro ângulo do tema mito


versus realidade e a procura da satisfação e do reconhecimento: alguém que ganhou fama para
sempre, apresentando-se como o maior anti-herói da América e super-homem do crime serial,
e confessando os assassinatos de forma sádica e brutal de onze mulheres.
Na noite de 14 de junho de 1962, Anna Slesers, uma operária tecelã, terminara de jantar
em seu pequeno apartamento do terceiro andar na casa transformada em edifício de
apartamentos, na rua Gainsborough, 77, na área da baía Back's, em Boston. A maioria de seus
vizinhos eram estudantes ou aposentados com orçamentos limitados. Ela preparou a água para
um banho rápido, antes que seu filho, Juris, passasse para levá-la a um serviço religioso letão,
em sua igreja.
Um pouco antes das 19:00h( Juris bateu na porta de sua mãe, que não veio atender. Bateu
com força na porta trancada, a princípio aborrecido, depois com preocupação crescente. Ele a
achara deprimida na noite anterior, quando falaram pelo telefone. Finalmente, com o peso de
seu corpo, arrombou a porta.
Dentro do apartamento, encontrou-a caída no chão do banheiro e com o cinto de seu
roupão azul atado, como um enorme laço, em seu pescoço. Chamou a polícia e depois sua irmã
em Maryland, para contar que achava que sua mãe se suicidara. Em pouco tempo ficou claro
que não se tratava de suicídio.
Os detetives do Departamento de Polícia de Boston, James Mellon e John Driscoll,
encontraram a vítima num robe de tafetá azul, forrado de vermelho, que estava completamente
aberto na frente, expondo sua nudez dos ombros para baixo. Deitada grotescamente com sua
cabeça próxima à porta do banheiro, a perna esquerda esticada e a direita aberta e dobrada no
joelho. Havia sangue em sua orelha direita e lacerações na base do crânio. Seu pescoço estava
arranhado e havia uma contusão no queixo.
O apartamento fora revirado. Sua bolsa estava aberta e caída, com seu conteúdo espalhado
pelo chão. Cestas de lixo, viradas, e gavetas de armário, abertas e revoltas, davam a impressão
de que o assassino quisera olhar e tocar seus objetos pessoais. Uma caixa de slides coloridos
fora colocada cuidadosamente no chão de seu quarto. O toca-discos estava funcionando, mas o
som fora desligado. Apesar da tentativa de fazer parecer um assalto, um relógio de ouro e
outras joias não foram levados.
A autópsia mostrou que Anna Slesers morrera por estrangulamento, complicado por
contusões na cabeça. Sua vagina mostrava sinais de violação com algum objeto rígido, talvez
uma garrafa.
O histórico da vítima mostrava uma mulher completamente dedicada a sua igreja, seus
filhos, seu trabalho e seu amor à música clássica. Divorciada, vivia sozinha e tinha poucas
relações. Não havia homens em sua vida além de seu filho. A polícia deduziu que o crime
começara como um assalto e que o criminoso, quando a vira num robe, fora tomado pelo
desejo de violentá-la, e que a matara para que não pudesse denunciá-lo.
Entre aquele dia, 14 de junho de 1962, em que Anna Slesers foi assassinada, e o dia 4 de
janeiro de 1964, treze mulheres sozinhas foram vítimas de um ou mais assassinos seriais na
área de Boston. Pelo menos onze delas foram seguramente conectadas ao mesmo ED que ficou
conhecido como o Bandido Fantasma ou o Estrangulador de Boston. A maioria estrangulada
com as próprias meias, ou alguma outra peça de roupa encontrada pelo assassino na própria
cena do crime, como fronhas, lenços e sutiãs.
— Em dez semanas, seis mulheres morreram, as quatro primeiras num espaço de 27 dias.
Depois mais duas, em agosto, com um espaço de nove dias entre elas. Todas eram pessoas
idosas, Anna Slesers fora a mais moça, dez anos mais jovem que qualquer uma das outras, a
segunda vítima tinha 85 anos.

A segunda onda começou em dezembro de 1962, com vítimas bem mais jovens — uma
delas tinha apenas 21 anos — e depois houve uma terceira onda, que aconteceu entre setembro
de 1963 e janeiro de 1964. Esta também de mulheres mais jovens. Um dos problemas, no caso
do Estrangulador, é idêntico ao que já discutimos no caso do Zodíaco, no capítulo anterior.
Com o aumento do número de vítimas, existe uma tendência para conectar a este, correta ou
incorretamente, os crimes seriais seguintes, e isto confundiu bastante as diligências neste caso.
Dos crimes listados acima, houve apenas um caso de uma mulher assassinada num quarto
de hotel. Todas as outras foram mortas em seus apartamentos. Todas foram sexualmente
molestadas. Sempre sem sinais de arrombamento, cada uma das vítimas esqueceu a porta
aberta ou conhecia o assassino e deixou que entrasse. A maioria das vítimas levava uma vida
simples e modesta.
Na área de Boston, a comunidade entrou em pânico. As mulheres foram alertadas para
manter suas portas fechadas e desconfiar de estranhos. O chefe de polícia e antigo agente do
FBI, Edmund McNamara, cancelou todas as licenças e transferiu todos os detetives disponíveis
para o Departamento de Homicídios. Conduziram uma investigação exaustiva de todos os
indivíduos conhecidos com um histórico de violência sexual e/ou distúrbios psíquicos. Mais de
36 mil casos foram examinados e a lista de suspeitos tinha milhares de nomes. Tomaram-se
impressões digitais de centenas de suspeitos e mais de quarenta fizeram o teste do polígrafo.
Seis destes não passaram no teste, mas a polícia não chegou ao assassino.

Perto do final da série de crimes do Estrangulador, em 1964, a área dos estados de


Massachusetts, Connecticut, Rhode Island e New Hampshire estava sendo aterrorizada por um
violentador que ficou conhecido como o Homem de Verde, porque se vestia, na maioria dos
casos, com uma roupa verde de operário. Em alguns casos entrava na casa das vítimas,
alegando que viera fazer um reparo e em outros simplesmente arrombava a porta. Certa feita,
violentara quatro mulheres num mesmo dia. A polícia acreditava que fora responsável por uns
trezentos casos de violência sexual e o pânico era tão grande que as pessoas não deixavam
mais entrar operários ou entregadores em seus prédios.
O Homem de Verde ameaçava suas vítimas com uma faca, as acariciava e depois as
violentava. Mas se comportava de forma amigável e casual e, muitas vezes, pedia desculpas
antes de ir embora. Em outubro de 1964, ele invadiu o quarto de uma mulher de 24 anos, em
Cambridge, Massachusetts, ameaçou-a com uma faca, violentou-a e, depois, pediu-lhe
desculpas pelo que fizera. Quando já ia embora, a mulher reclamou que os nós que a
amarravam estavam muito apertados, ele voltou e afrouxou as cordas. Esta mulher ajudou à
polícia a fazer um retrato do criminoso preciso o bastante para que um detetive notasse que o
Homem de Verde se parecia muito com o Homem das Medidas.
O Homem das Medidas operara na área de Cambridge três anos antes, em 1961. Ele
observava mulheres atraentes para depois procurá-las em casa alegando trabalhar para uma
agência de modelos. Dizendo procurar por novos talentos, perguntava se poderia tirar as
medidas de seu corpo. Depois do que ia embora. A maioria das mulheres só percebia algo
estranho quando, com o passar dos dias, não era procurada pela agência.
Em março de 1961, a polícia de Cambridge prendeu um homem tentando arrombar uma
casa. Ele combinava com a descrição deste criminoso e confessou ser ele o Homem das
Medidas. Albert Henry DeSalvo era um operário de fábrica, de 29 anos, veterano do Exército,
que vivia em Malden com sua esposa alemã e dois filhos. Tinha várias prisões por arrombar
apartamentos e roubar qualquer dinheiro que encontrasse.
Quando lhe perguntaram o porquê da estranha brincadeira de mau gosto com as medidas,
respondeu: "Não sou bonito. Nunca fui a uma universidade, mas consegui enganar estas
pessoas de classe. Eram todas universitárias e eu, que nunca tive nada, fui mais esperto que
elas."
Foi condenado a 18 meses de prisão e posto em liberdade em abril de 1962, dois meses
antes do estrangulamento de Anna Slesers. Conversando com seu assistente de condicional,
disse precisar de sexo no mínimo seis vezes por dia, mas ninguém sugeriu que devesse
procurar ajuda psiquiátrica.
DeSalvo nasceu a 3 de setembro de 1931, em Chelsea, Massachusetts. Seu pai, Frank, era
um homem violento que frequentemente espancava a mulher e seus seis filhos. Frank também
costumava trazer prostitutas para casa e ter sexo com ela diante de toda a família. Com cinco,
ou seis, anos, Albert brincava de sexo com seus irmãos, o que não chega a surpreender dado o
exemplo de seu pai. Desenvolveu compulsões sádicas que se manifestavam em crueldades com
pequenos animais. Durante sua adolescência alternava períodos de delinquência e pequenos
crimes com outros de bom comportamento, em que conseguia evitar problemas. Sua relação
com a mãe, Charlotte, era bastante boa.
Albert esteve no Exército entre 1948 e 1956, servindo por algum tempo numa base na
Alemanha, onde conheceu sua esposa, Irmgard Beck, uma mulher atraente e de família
respeitável. Chegou a ser promovido a especialista E-5, mas foi rebaixado a soldado por
desobediência. Em 1955 foi preso, acusado de atos libidinosos com uma menina pequena, mas
as acusações foram retiradas. No mesmo ano, sua mulher deu à luz sua primeira filha, Judy,
que nasceu com um defeito congênito na pelve. Isto teve um enorme impacto na vida da
família, Irmgard, com medo de ter outra criança com problemas, recusava-se a ter sexo com o
marido, que tinha um apetite sexual voraz. Ele deu baixa do Exército e, de 1956 até 1960,
esteve preso várias vezes por entrar em apartamentos, mas em todos os casos teve sentenças
suspensas. Em 1960 nasceu seu outro filho, Michael, desta vez uma criança normal.
Apesar de seus problemas com a polícia, DeSalvo conseguiu manter-se empregado.
Trabalhou como operador de prensa numa fábrica de borracha, depois num estaleiro e, por fim,
na construção civil. A maioria das pessoas que o conhecia gostava dele e um de seus patrões o
descreveu como um bom trabalhador que vivia para a família. E, diferente de seu pai, Albert
tratava sua mulher e filhos com consideração e carinho.

A polícia prendeu DeSalvo em sua casa pelos crimes do Homem de Verde. Ele ficou
mortificado com o fato de Irmgard vê-lo algemado, mas a mulher o amparou e pediu que
contasse a verdade. Albert admitiu ter entrado em quatrocentos apartamentos e violentado
trezentas mulheres em quatro estados diferentes. Dada sua mania de grandeza e tendência ao
exagero, é impossível saber se este número correspondia à realidade.
Em 4 de fevereiro de 1965, o Tribunal enviou DeSalvo para o Hospital Estadual de
Bridgewater para uma avaliação psiquiátrica. Pouco tempo depois, George Nassar, acusado da
bárbara execução de um frentista num posto de gasolina, também foi enviado a Bridgewater.
Tinha um alto QI e era um hábil manipulador. Os dois foram colocados no mesmo pavilhão e
George se tornou o confidente de Albert. Por esta época, um detetive esteve em Bridgewater
recolhendo as impressões digitais de DeSalvo para as investigações dos crimes do
Estrangulador de Boston. Em pouco tempo, Albert estava dizendo a todos que era ele o
Estrangulador.
Nassar chamou seu advogado F. Lee Bailey, que em pouco tempo seria famoso, que teve
um encontro com Albert, embora este fosse, na época, representado por outro advogado. Bailey
foi informado pela polícia de pormenores sobre os crimes do Estrangulador, de modo a poder
descobrir o que DeSalvo sabia na verdade sobre os crimes. O advogado gravou a entrevista e
levou a fita para que a polícia ouvisse.
Bailey disse estar convencido de que DeSalvo era o Estrangulador de Boston. No final, a
polícia chegou à mesma conclusão. Então havia dois assuntos para tratarem, como lidar com
um assassino confesso e o anseio popular por justiça.
Com Bailey como seu advogado, Albert DeSalvo foi a julgamento em 10 de janeiro de
1967 não pelos crimes do Estrangulador de Boston, mas por aqueles do Homem de Verde.
Durante o julgamento, Bailey admitiu que seu cliente seria o Estrangulador, para conseguir que
fosse mandado para um hospital em vez de uma penitenciária. DeSalvo foi condenado pelos
crimes do Homem de Verde e sentenciado à prisão perpétua.

Enquanto esperava sua transferência para a Prisão Estadual de Walpole, DeSalvo escapou,
com outros dois prisioneiros, de Bridgewater e ficou desaparecido por 36 horas, antes de se
entregar. Enquanto toda a área entrava em pânico com a ideia de que o Estrangulador estava
outra vez à solta, ele disse apenas, ao se entregar, que fugira para reafirmar seu desejo de ser
mandado para uma instituição.,
O estrangulador de Boston foi um enorme fenômeno. O livro de Gerold Frank tornou-se
um best-seller. Foi feito um filme estrelado por Tony Curtis e Henry Fonda. F. Lee Bailey se
tornou uma celebridade e uma estrela nos meios legais. E na prisão, Albert DeSalvo, o Homem
das Medidas/Homem de Verde vivia sua notoriedade como pesadelo americano.
Em dezembro de 1973, DeSalvo morreu esfaqueado na enfermaria da Penitenciária de
Walpole. O assassinato foi relacionado com seu envolvimento com o tráfico de drogas dentro
da prisão. Três pessoas foram levadas ao Tribunal, mas o julgamento terminou por duas vezes
com o júri incapaz de proferir um veredicto. A controvérsia sobre se DeSalvo seria realmente o
Estrangulador de Boston sobreviveu a ele.
Com toda a minha experiência de crimes seriais, parece-me impossível que fosse ele o
Estrangulador.
Por que não? Ele estava lá na ocasião. Tinha a mesma mobilidade do Estrangulador. Já
demonstrara sua experiência como arrombador, seu incrível apetite sexual e sua capacidade
para violentar mulheres. Tinha, com certeza, o tipo de histórico familiar que se espera de um
criminoso sexual. O que faltava a ele?
Comportamento.
Mediante muita pesquisa e experiência prática, nós, do Centro Nacional para Análise de
Crimes Violentos do FBI, em Quantico, dividimos os violentadores em quatro categorias
gerais: O violentador para reafirmação de poder, o violentador oportunista, o violentador por
ódio e o violentador sádico. Pode haver a conjunção ou intercalação de duas ou mais
características, como acontece no caso de criminosos organizados e desorganizados, mas estas
categorias são bastante úteis para nos dar uma ideia do tipo de personalidade de quem comete
um crime sexual específico.
De forma resumida, o violentador para reafirmação de poder é alguém que se sente
inadequado e compensa este sentimento obrigando mulheres a fazer sexo com ele. O
violentador oportunista é do tipo impulsivo que aproveita as ocasiões como se apresentam.
Não tem problemas com seu corpo ou ego e, diferentemente do tipo anterior, não se importa
com a impressão que causa na vítima. O violentador por ódio, também conhecido como
violentador por vingança, usa a violência sexual como forma de expressão para seu ódio por
alguém ou por um grupo de pessoas. A vítima pode representar para ele sua mãe, mulher ou
namorada ou o sexo feminino em geral. Enfim, o violentador sádico ataca para satisfazer suas
fantasias envolvendo domínio, controle e o sofrimento de outra pessoa. Dependendo de suas
fantasias e preferências, a vítima pode ser sujeitada a uma relação de sexo vaginal ou ao vasto
espectro das perversões possíveis, inclusive tortura e morte. Só lhe importa dominar a vítima e
fazê-la sofrer, para seu próprio prazer e satisfação.
Como deve ter ficado claro, embora toda e qualquer violência sexual seja terrível, o
violentador por ódio e o violentador sádico tendem a ser os mais perigosos.
Toda a evidência nos casos do Homem de Verde sugerem que o criminoso fosse um
violentador para reafirmação de poder. Ameaçava as vítimas para conseguir o que queria, mas
não as atacava com a faca. Falava com elas e queria ser desculpado. De uma certa forma, ainda
que estranha e egoísta, parecia mesmo preocupado com o bem-estar de suas vítimas.
Este tipo de comportamento combina com o histórico de Albert DeSalvo como o Homem
das Medidas. Um violentador para reafirmação de poder em geral começa com delitos menores
e não-violentos como voyeurismo e, com o tempo e à medida que adquire confiança, evolui
para crimes mais sérios, mas ainda não-violentos. E, mais importante, este tipo de
personalidade não se transforma numa de violentador por ódio ou sádico. Mesmo seu histórico
familiar não combina com estes crimes. Ele odiava seu pai, mas tinha uma boa relação tanto
com sua mãe, quanto com sua mulher. Esta não é uma característica de um violentador por
ódio. Mas, com o fator precipitante do nascimento de uma filha doente e a resultante antipatia
de sua mulher por sexo, haveria a motivação necessária para que se transformasse num
violentador para reafirmação de poder.
Se olharmos para os assassinatos do Estrangulador de Boston, vemos claras evidências do
violentador sádico. Não apenas ataca mulheres jovens, mas também aquelas mais velhas e
vulneráveis. Ele não só as violenta, mas as espanca. As estrangula com peças de seu próprio
vestuário. As despersonaliza e as abandona em poses degradantes para chocar quem se deparar
com a cena do crime.
Do ponto de vista comportamental, tudo nestes dois crimes seriais é diferente. Lembre o
leitor que o Homem de Verde continuou operando depois do assassinato de Anna Slesers. Seria
impossível que, depois deste crime brutal, DeSalvo ou qualquer outro conseguisse abrandar
seu comportamento e voltar ao patamar dos crimes do Homem de Verde. Albert DeSalvo não
era um violentador por ódio nem um sádico. Se fosse este seu comportamento, isto apareceria
em outros aspectos de sua vida e, com certeza, seria observado em suas relações dentro da
prisão.
Embora fosse incapaz de cometer os crimes sádicos e selvagens do Estrangulador de
Boston, é compreensível que, depois que isto lhe fosse sugerido, ele assumisse a
responsabilidade por estes crimes. Se fosse alguém em busca de reafirmação de poder, de algo
que o colocasse sob uma luz de importância, teria apelo para ele. Se estava a procura de status,
sabia que não ia conseguir isto como neurocirurgião, astro de cinema nem atleta profissional.
De qualquer forma, sabia também que não sairia mais da prisão. E, em seu meio, ser
reconhecido como um famoso criminoso já significa ser alguém.
Mais, não seria a primeira vez que DeSalvo assumia responsabilidade por um crime que
não cometera. Ele confessara um assalto e roubo em Rhode Island em 1964, pelo qual, mais
tarde, outra pessoa foi identificada pela vítima e condenada. Quanto à forma pela qual ele
obteve informação sobre os assassinatos do Estrangulador, ele próprio declarou, mais tarde,
que ficara tão fascinado pelo noticiário na imprensa, que em alguns casos teria arrombado os
apartamentos para olhar as cenas dos crimes.
Além de Nassar, não temos informações de quem mais teria contato com ele em
Bridgewater, mas é claro que ele poderia ter recebido informações adicionais sobre os crimes.
Também é possível que, de forma não intencional, Bailey tenha com suas perguntas fornecido
estas informações. Muita coisa foi publicada nos jornais. E ainda que DeSalvo não fosse uma
inteligência brilhante, era conhecido por ter uma ótima memória. Não só isto, mas também sua
extensa experiência de arrombador pode tê-lo ajudado a intuir as respostas certas, porque ele
sabia como agiria um intruso. Ainda assim Albert DeSalvo forneceu vários pormenores errados
— e outros não pôde lembrar — sobre os crimes do Estrangulador.

Nenhuma testemunha jamais o reconheceu em relação a qualquer dos crimes. Um grande


número de investigadores nunca se convenceu de que fosse o Estrangulador, e muitos achavam
que os crimes eram obra de mais de um criminoso. Várias alternativas de suspeitos apareceram
ao longo dos anos, inclusive o próprio George Nassar, um assassino condenado e sofisticado
criminoso com um QI altíssimo e que admitiu se excitar matando. Ainda assim, sempre negou
que fosse o Estrangulador e nunca houve uma tentativa oficial de ligá-lo aos crimes.
O tenente da Polícia de Nova York, Thomas Cavanaugh, acreditou que descobrira, em
1963, a identidade do Estrangulador, por meio de um assassinato que investigava. O
estrangulamento de uma mulher de 72 anos, ligado a um Charles A. Terry, com 23 anos na
época, natural de Waterville, no Maine.
Terry estivera em Boston durante os seis primeiros assassinatos e várias evidências do
crime em Nova York coincidiam com informações sobre os crimes em Boston, incluindo o
posicionamento do corpo, a utilização de um lenço da vítima para estrangulá-la e o grande laço
no pescoço. Foi diagnosticado como psicopata e sádico sexual e tinha um histórico de ataques
a mulheres. Morreu na prisão, de câncer no pulmão, em 1981.
Depois da morte de Jane Sullivan, de 77 anos, sexta vítima do Estrangulador, em agosto
de 1962, George Snubbs, um homem com um histórico de desvio sexual, suicidou-se a alguns
quarteirões de distância do apartamento de Jane, fazendo um laço no próprio pescoço com um
par de meias. Depois de sua morte, a idade das vítimas do Estrangulador mudou de mulheres
idosas para jovens.
Um homem, que estivera em Bridgewater num período que cobria a estadia de DeSalvo e
que escapara do Hospital Estadual de Boston na época daqueles crimes, tornou-se suspeito das
mortes de Anna Slesers, Jane Sullivan e mais três mulheres da primeira onda de crimes. Este
psicopata, com um QI muito baixo, tentara matar a mãe, a quem espancava regularmente, com
socos e pontapés. E teria dito a sua irmã que era ele o Estrangulador.

Havia ainda um outro interno em Bridgewater, cuja estadia ali se sobrepunha à de


DeSalvo em cinco semanas. Era um universitário da área de Boston na época dos assassinatos.
Um outro psicótico com uma possível esquizofrenia, um alto QI e histórico de uso de drogas e
pequenos crimes. Fora preso por abusar de sua esposa grávida. Seus amigos contaram ser ele
sujeito a ataques de raiva, em que ficava violento e dizia pretender salvar o mundo eliminando
todas as mulheres. Mudou-se de Boston para o Meio-Oeste, coincidentemente com os brutais
assassinatos de sete mulheres em crimes sexuais, dois dos quais por estrangulamento com
meias amarradas no pescoço das vítimas.
Não existe nenhuma evidência de que Albert DeSalvo conhecesse a identidade do
verdadeiro assassino ou assassinos. Ele reconheceu o mistério, somando à sua mitologia e
mística um poema composto na prisão, que terminava assim:

Hoje sentado em sua cela,

No âmago só um segredo a contar.


Pessoas, por toda parte, continuam na dúvida,
O Estrangulador está preso ou ainda anda à solta?
6 – O ASSASSINATO DE JONBENET RAMSEY

NO CASO DO ASSASSINATO DE JONBENET RAMSEY, são reunidos muitos dos temas já tratados
neste livro: família, celebridade, sequestro, avaliação de personalidade, sofrimento de
inocentes, assassinato como resultado de brutal agressão continuada e surgimento da maldade
onde menos se espera. E este é o caso, o único do livro, com que tive um envolvimento
pessoal.
Sendo um caso no qual estive envolvido, talvez fosse bom começar esclarecendo algumas
coisas. Meu propósito aqui não é o de condenar ou defender John e Patricia Ramsey nem de
justificar minhas posições e ações, embora meus motivos fossem questionados e minha atitude
amplamente criticada. O que pretendo aqui é explicar como cheguei às minhas conclusões,
usando métodos de investigação e de análise criminal que ajudei a desenvolver em mais de 25
anos de trabalho.
Como já disse várias vezes em outras ocasiões, o assassinato é, entre todas as experiências
por que podemos passar, a mais perturbadora e devastante. Porque, diferente da morte
acidental ou por enfermidade, o assassinato é um ato intencional, que vira nosso mundo de
cabeça para baixo e nos rouba de toda referência e orientação, com a exceção, para quem tem
esta sorte, da fé. E este assassinato em particular está entre os mais terríveis, tanto pela beleza
da vítima de seis anos, quanto pela impensável maldade que implica a possibilidade de um pai
e uma mãe serem capazes de matar a própria filha.
Este caso é digno de menção — quase único — também por outras razões. Outros crimes
foram julgados pela opinião pública, muito antes de serem levados a um tribunal, como os
casos Borden, Lindbergh, e Simpson-Goldman, para citar apenas alguns. Mas não conheço
outro caso no qual a maioria das pessoas chegasse a uma conclusão baseada em estatísticas;
nenhum outro em que o público acreditasse substancialmente no que os tablóides
sensacionalistas noticiavam, ou em que a imprensa tradicional reportasse as notícias criadas
por estes tablóides. Nem sei também de outro caso em que importantes e respeitados
programas de televisão tenham competido entre si pelo título de o mais sensacionalista. Não
me incomodaria tanto, não fosse pela constatação do dano que tudo isto causou à isenção e à
justiça.
Estarei querendo dizer com isso que eu, e só eu, conheço a verdade? De jeito nenhum.
Ninguém sabe com certeza o que se passou na noite de 25 de dezembro de 1996 e que causou a
morte de JonBenet Patricia Ramsey, com a exceção do assassino ou assassinos. Tudo que
qualquer um de nós pode fazer é usar de bom senso, da análise e das técnicas que possuímos.
Se devo ser criticado por dizer o que creio, o que posso fazer? Não será a primeira vez e
com certeza não a última. Já experimentara esta reação antes, em 1980, quando me chamaram a
Atlanta, durante uma terrível série de assassinatos de crianças. Parti de lá com a polícia irritada
comigo por haver invadido seu território e o público rejeitando minha teoria de que os
assassinatos não eram resultantes de uma conspiração da Ku Klux Klan, mas sim obra de um
jovem negro, solitário e marginal. Estas coisas fazem parte do trabalho.
Mas o fato importante que quero sublinhar é que uma investigação criminal não é um
concurso de popularidade. Não pode — nem deve — ser dirigida pela opinião pública, nem
influenciada pela mídia.

Fui chamado de policial de aluguel neste caso, e é verdade que recebi uma pequena
compensação inicial, como aconteceu em outros casos em que prestei consultoria, depois de
deixar o FBI. Disseram que estava à caça de publicidade e, é verdade, que as câmeras nunca
me incomodaram, especialmente na época em que tentava estabelecer o programa de criação
de perfis no FBI e buscava publicidade em qualquer parte, não só para conseguir apoio para o
programa, mas também para vários casos, de modo a envolver e conseguir a ajuda do público
nas investigações. Mas o que nunca fiz foi oferecer uma sugestão na qual não acreditasse
firmemente, ou que não fosse baseada nos fatos como eu os via.
Um advogado de defesa tem a responsabilidade de alinhar argumentos para provar a
inocência de seu cliente e isso não implica acreditar ou não nela. Um investigador criminal tem
apenas uma responsabilidade, um compromisso solene. Deve ser pautado apenas pelo
compromisso com as vítimas que não podem mais defender os próprios interesses, de fazer o
possível para descobrir a verdade e levar o culpado à justiça dos homens. Não existe no mundo
inteiro nem dinheiro nem fama bastante para fazer-me esquecer a seriedade deste
compromisso. Não importa para quem esteja trabalhando, ou quem pague o salário, não
importa nem promoções na carreira nem glórias pessoais.
E não acho que seja o único a pensar assim. Acredito na sinceridade do ex-detetive Steve
Thomas, apesar de discordar radicalmente de suas conclusões, da mesma forma como acredito
também naquela do detetive Lou Smith, com quem compartilho várias opiniões. Acho que
ambos são homens íntegros, cujo único desejo era o de justiça para JonBenet. Espero que eles
sintam o mesmo por mim.
Depois de tirar este peso do peito, vamos agora analisar com cuidado o caso Ramsey, e as
razões pelas quais continua nos assombrando.
Não creio que seja possível negar que este caso se transformou numa obsessão nacional
por ser a loura e linda vítima tão jovem, filha de pais ricos, importantes e inteligentes, que
vivia numa área elegante e segura, no meio de uma comunidade garantida e autoconfiante. E
que tudo tenha acontecido no Natal. Todos estes elementos sugerem que crime assim não
poderia acontecer. Se existe um caso de inversão na ordem dos fatos, é este. Mesmo o nome da
criança, uma combinação dos nomes de seu pai e sua mãe, contribui para a mística do caso.
E, sejamos claros, desde a primeira vez que vimos aquelas imagens da magnífica parada
com a pequena vedete de Las Vegas, a namoradinha dos cowboys, em patriótico branco, azul e
vermelho, os passos de sapateado, os olhinhos divertidos e travessos e a mãozinha nos quadris,
elas ficaram gravadas para sempre em nossa memória coletiva. O procurador distrital Alex
Hunter opinou que fora este filme a razão que destacara este caso de outros dois mil
assassinatos de crianças. Como numa cruel e bizarra zombaria de nosso culto pela celebridade,
JonBenet se transformou, depois de morta, na "garota da capa" preferida da América.

25/26 DE DEZEMBRO DE 1996

Como abordaremos este caso?


Independentemente de quem foi o assassino, devemos lidar com os fatos reais. Temos que
seguir os passos de uma família, desde a troca matutina de presentes, em meio a visitas e
prazeres infantis, até o jantar de Natal alegre e feliz, na companhia de bons amigos, e a
expectativa com a viagem que fariam pela manhã em seu avião particular para sua casa de
férias — e passar destas emoções para o trauma asfixiante da violência sexual e da morte por
espancamento progressivo de uma criança de seis anos, vista, pela última vez, dormindo em
sua cama.
Estes são os fatos. Quaisquer participação ou motivos que tentemos introduzir no quadro
deverão ter base nestes fatos.
Para a polícia, o caso começa na manhã do dia 26 de dezembro de 1996, às 5:52h, quando
a operadora da central telefônica da polícia recebeu de Patricia Ann Ramsey a seguinte
chamada urgente:

Ramsey: (inaudível) polícia...


Operadora: (inaudível)...
Ramsey: Rua 15, N° 755.
Operadora: O que está acontecendo aí, senhora?
Ramsey: Aconteceu um sequestro. Venham rápido, por favor.
O: Explique para mim o que está acontecendo, ok?
R: Temos uma... Deixaram um bilhete e nossa filha desapareceu.
O: Deixaram um bilhete e sua filha desapareceu?
R: É.
O: Qual é a idade de sua filha?

R: Ela tem seis anos... Ela é loura... Seis anos.


O: Há quanto tempo aconteceu isto?
R: Não sei. Acabo de encontrar o bilhete e minha filha (inaudível)...
O: O bilhete diz quem a levou?
R: Como?
O: O bilhete diz quem a levou?
R: Não. Não sei... há... há um pedido de resgate.
O: No bilhete há um pedido de resgate?
R: Diz "S.B.T.C. Vitória". Por favor...
O: Ok, qual é seu nome? Você...
R: Patsy Ramsey, sou a mãe. Oh, meu Deus, por favor...
O: Eu... Ok, estou mandando um policial aí, ok?
R: Por favor.
O: Você sabe há quanto tempo ela desapareceu?
R: Não, não sei. Acordamos e não estava aqui. Oh, meu Deus, por favor.
O: Ok.
R: Por favor, mande alguém.
O: Estou mandando, querida.
R: Por favor...
O: Respire profundamente (inaudível)...
R: Rápido, rápido, rápido (inaudível)...
O: Patsy? Patsy? Patsy?

Em poucos minutos, o policial Rick French, do Departamento de Polícia de Boulder,


chegava ao número 755 da rua 15, uma casa grande, de tijolos vermelhos em estilo Tudor, na
vizinhança da Universidade Hill. O exterior da casa possuía uma elaborada decoração natalina.
Foi recebido à porta pela mãe da criança desaparecida, Patricia Ramsey, três dias antes de seu
aniversário de quarenta anos, vestida com calças pretas e suéter vermelho. Pouco depois, a eles
se juntou o pai, John Benet Ramsey, de 53 anos, vestindo calça cáqui e camisa de listras azuis e
brancas. Patsy era a segunda esposa de John. Seu primeiro casamento com Lucinda Lou Pasch
terminara num divórcio e casara com Patsy há 16 anos. A impressão do policial French foi que
Patsy estava agitada e nervosa, enquanto John, apesar de tenso, mostrava-se calmo e
controlado. Seu filho de quase dez anos, Burke, ainda não acordara.

Contaram a French que Patsy descera, de manhã, de seu quarto no terceiro andar, às
5:45h, para acordar sua filha JonBenet, de seis anos, e finalizar os preparativos para a viagem
que fariam para Charlevoix, no Michigan, onde ficava a casa de férias da família. Dali
pretendiam voar para a Flórida, onde iriam levar Burke e JonBenet num cruzeiro no Grande
Navio Vermelho da Disney.
O quarto de JonBenet estava vazio. Patsy então descera pela escada em caracol do lado de
fora do quarto da menina no segundo andar. Num dos degraus, mais abaixo, ela notara três
folhas de papel ofício, alinhadas lado a lado. Mostraram então a French a carta, agora colocada
no chão de tábuas da cozinha:

Sr. Ramsey,

Ouça com atenção! Somos um


grupo de pessoas que representa
uma pequena facção estrangeira. Nós (riscado)
respeitamos seus negócios, mas não ao
país a que serve; Neste
momento temos sua filha em nossa
posse. Ela esta segura e não foi machucada
e se você quer que ela veja 1997,
deve seguir nossas instruções
literalmente.
Você deve sacar $ 118.000 dólares
de sua conta. $ 100.000 devem ser em
notas de 100 e os restantes

$ 18.000 em notas de 20. Tome cuidado


de trazer uma pasta do tamanho
certo ao banco. Quando
chegar em casa deve botar o dinheiro
numa saca de papel pardo. Chamarei
amanhã entre 8 e 10 horas
com as instruções para a entrega.
A entrega será cansativa então
aconselho que esteja bem descansado. Se
monitorarmos você pegando o dinheiro cedo,
poderemos chamar mais cedo e
arranjar mais cedo a entrega do
[segunda página]
dinheiro e assim mais cedo
(riscado) pegar sua filha.
Qualquer desobediência as minhas
instruções resultara na imediata
execução de sua filha. E você
não terá nem um corpo
para enterrar. Os dois
cavalheiros guardando sua filha
não gostam muito de você então
aconselho a não provocá-los.
Falar com qualquer um de sua
situação, como polícia, FBI etc.,

resultara na decapitação de sua filha.


Se pegarmos você falando
com um cachorro vira-lata, ela morre. Se
alertar a gerência do banco, ela morre.
Se o dinheiro estiver adulterado
ou de alguma forma marcado, ela morre. Você
será revistado e se qualquer aparato eletrônico for
encontrado, ela morre. Você pode tentar
nos enganar, mas avisamos que
conhecemos os métodos da polícia
e suas táticas. Você leva
99% de chance de matar sua
filha se tentar algum truque
conosco. Siga as instruções
[terceira página]
e terá 100% de chance
de reavê-la. Você e
sua família estão sob constante
vigilância assim como as autoridades.
Não tente ser mais inteligente do que é
John. Você não é o único
manda-chuva na área e não pense
que matar é muito difícil.
Não nos subestime John.
Use o bom senso sulista que

você tem. Só depende de


você agora, John!
Vitória!
S.B.T.C.

A carta estava escrita com um marcador preto de ponta de feltro e a letra de fôrma parecia
de alguém ou muito nervoso, ou conscientemente tentando disfarçar a própria caligrafia
escrevendo com a outra mão.
Pouco depois, o supervisor da patrulha, o sargento Paul Reichenbach, chegava na casa. A
carta instruía que não notificassem a polícia — o que a maioria dos pais faria,
independentemente das ameaças — e se a casa estivesse sob constante vigilância como dizia a
carta, a presença de dois carros patrulhas da polícia não podia ser mais óbvia.
Ao mesmo tempo da chegada da Reichenbach, dois casais de amigos, Fleet e Priscilla
White, e John e Bárbara Fernie, vieram também, em resposta aos telefonemas desesperados de
Patsy. Os White haviam recebido os Ramsey, na noite anterior, para o jantar de Natal. Era o
segundo ano consecutivo que os dois casais passavam juntos o Natal.

Reichenbach chamou por mais policiais, inclusive uma equipe de peritos em cenas de
crimes e alguém do departamento de apoio às vítimas. Deu instruções à companhia telefônica
para que todas as chamadas para a casa fossem gravadas e a origem delas rastreada, e notificou
o fato ao supervisor de detetives em serviço, sargento Robert Whitson. Determinou então a
suspensão de todas as comunicações do ocorrido, via rádio, para o caso de os sequestradores
terem acesso à banda da frequência policial. Reichenbach fez então um rápido reconhecimento
do local, inclusive do quarto de JonBenet. Não encontrou nenhum sinal de arrombamento.
Suas observações, consistentes com as de French, eram de que Patsy estava nervosa, quase a
ponto da histeria, enquanto John permanecia calmo e composto. Segundo testemunhas, não
houve muito contato entre os dois, especialmente depois da chegada dos White e dos Fernie.
As duas amigas levaram Patsy para o solário da sala de estar, a fim de confortá-la.
Mesmo nesta fase inicial, já podemos observar alguns problemas com a investigação. O
local, de onde se presume a vítima fora sequestrada, é a cena de um crime e precisa ser tratada
como tal para preservar pistas potenciais. Todo investigador deve operar levando em
consideração a "lei da transferência", segundo a qual ninguém entra ou sai de um quarto sem
levar ou deixar algo para trás. Donde, quanto mais pessoas no local — e isto inclui os policiais
— maior possibilidade de deterioração da cena do crime. É compreensível que os Ramsey
quisessem a presença de amigos e que a polícia entendesse a necessidade que tinham de apoio
num momento assim, mas valiosas evidências podiam ser destruídas desta forma. A melhor
solução seria levá-los para o distrito policial, ou algum outro local, e isolar a casa. Caso isto
fosse impossível, por qualquer razão — como, por exemplo, esperar por um telefonema do
sequestrador — e todas aquelas pessoas devessem permanecer no local, neste caso, haveriam
de ficar apenas num só lugar, de modo a não poluir todo o local. Não poderia ser permitida a
livre circulação por toda a casa e, em especial, nos lugares críticos como o quarto da menina.
Por infortúnio, erros como este se acumularam durante aquela manhã.
Num certo momento, Fleet White, tentando ajudar, começou a conduzir sua própria busca.
Na parede do fundo de um depósito, no labirinto do porão, uma pequena janela quebrada
chamou a sua atenção. Noutra parte do porão, White passou por uma porta, a do pequeno
quarto da caldeira, para chegar a outro depósito que John Ramsey chamava de adega, apesar de
tanto ele quanto Patsy beberem muito pouco. Estava completamente às escuras e, não
conseguindo encontrar o interruptor da luz, fechou a porta e voltou para cima. Ramsey então
explicou que a janela, observada por White, fora quebrada por ele, John, alguns meses antes,
quando voltara sem as chaves e não havia ninguém na casa para abrir a porta para ele.
A esta altura, dois advogados chegaram para oferecer apoio aos Ramsey e servir de
ligação com a polícia. O que complicou um pouco mais a situação. E enquanto um policial saía
para levar a carta de resgate até à Central, o pastor dos Ramsey, reverendo Rol Hoverstock, da
Igreja Episcopal de St. John, também chegou.
Enquanto isso, Burke despertara e soubera do desaparecimento de sua irmã. Vestira-se e
fora levado para a casa dos White. John e Patsy queriam poupá-lo da tensão e do trauma do
acontecido, mas este gesto também era digno de crítica. Se JonBenet fora sequestrada por
desconhecidos e por motivos ignorados, qual seria o sentido de levar seu irmão para outro local
também inseguro? Por que a polícia concordou com isto?
Como na maioria dos aspectos deste caso, existem duas explicações possíveis. A
explicação positiva seria que, numa situação como aquela, sob incrível estresse, a tendência é o
pensamento linear e orientado para resultados imediatos. John e Patsy não queriam que Burke
ficasse traumatizado pelo resto da vida e, assim, queriam que fosse para um lugar onde ficasse
confortável e alheio ao que estava acontecendo. A polícia concordou com a ideia, sensibilizada
com tal argumentação.
A interpretação negativa parte do princípio de que se um dos Ramsey, ou ambos, era o
assassino, haveria a certeza de que Burke estaria em segurança longe deles. E, neste caso, o
julgamento negativo também recai sobre a ação da polícia por esta não poder permitir em
hipótese alguma que uma vítima potencial e/ou testemunha se afastasse de sua proteção. É
claro que tanto os Ramsey quanto a polícia poderiam argumentar que se o sequestrador
quisesse Burke, o levaria junto com Jon. E que na casa dos White estaria todo o tempo debaixo
dos olhos de pessoas que gostavam e cuidariam dele, e que seria pouco possível que alguém
invadisse a casa durante o dia para levá-lo.

Décadas de experiência pessoal com a investigação de sequestros e assassinatos me dizem


que a escolha de uma ou outra explicação não pode ser feita no vácuo. Cada elemento deve
encaixar na visão geral e isto é o que tentaremos fazer.
O sargento Whitson colocou detetives no caso e informou ao xerife do Condado Boulder,
e à Procuradoria Distrital, esta na pessoa do chefe da Divisão de Crimes Qualificados. Segundo
Steve Thomas, o detetive que teria um papel da maior importância nas investigações, cães
farejadores foram postos em alerta, mas por alguma razão não chegaram a ser usados. Thomas
considera que este foi um outro erro e eu concordo. É impressionante a habilidade que tem um
cão de farejar o rastro do mais leve odor a partir do ponto onde aconteceu um sequestro.

John Ramsey telefonou para seu amigo Rod Westmoreland, um advogado e vice-
presidente da Merrill Lynch, em Atlanta, para conseguir o dinheiro do resgate. John e Patsy se
conheceram em Atlanta e viveram lá até que o bem-sucedido negócio de John, a MicroSouth,
uma firma de distribuição de computadores, associara-se a duas outras para se transformar na
Access Graphics, cujo escritório central seria em Boulder. E John, como presidente da nova
firma, se mudara para ali. Patsy e as crianças vieram depois que Patsy encontrara a casa, da
década de 1920, na rua 15. O pai de Patsy, Donald Paugh, antigo executivo da Union Carbide,
já trabalhava para John em Atlanta e se mudara também para Boulder. A Access Graphics, com
um faturamento de mais de um bilhão de dólares, fora então vendida para Lockheed Martin,
que conservara John como presidente.
Apesar da mudança da família para o Oeste, os Ramsey ainda se consideravam como
sulistas de Atlanta, e Patsy, natural de West Virginia, que representara seu estado no concurso
de Miss América, sentia falta de muitos aspectos da vida no Sul.
Westmoreland, que se encontrava na casa de seus pais em Tupelo, no Mississippi,
começou logo a procurar o dinheiro. Chamou de volta para dizer a John que conseguira uma
linha de crédito de US$ 118.000, em seu cartão Visa, que poderiam ser sacados em dinheiro de
qualquer banco local. Não é necessário dizer que, cada vez que o telefone tocava, a polícia
entrava em alerta, pensando que fosse chamada dos sequestradores.
Pouco depois das 8:00h, o sargento Whitson contatou John Eller, comandante da Divisão
de Detetives do Departamento de Polícia de Boulder. Como tantas outras pessoas, naquela
época do ano, Eller estava fora da cidade, em férias com a família na Flórida. Minutos depois
desta chamada, os detetives Linda Arndt e Fred Patterson estavam na cena do crime, já tendo
lido a carta de regate e sido instruídos nos pormenores do caso. De acordo com todos os
relatos, Arndt tratou os Ramsey com enorme simpatia e toda a consideração, fazendo de tudo
para animar Patsy. Instruiu John na forma como deveria reagir ao telefonema do sequestrador,
recomendando que o mantivesse na linha pelo maior tempo possível.
John telefonou para o piloto particular, Michael Archuleta, que deveria levá-los para
Charlevoix, no bimotor Beechcraft King C-90, 1972, da família, para contar o que acontecera.
Archuleta trabalhava há muito tempo com John e ambos se consideravam bons amigos. Os
dois outros filhos de John, de seu primeiro casamento. Melinda e John Andrew, mais o noivo
de Melinda, Stewart Long, planejavam voar de Atlanta para o aeroporto de Mineápolis, onde o
avião de Ramsey os pegaria para levá-los com a família para Charlevoix. John pediu a Michael
que os pegasse em Mineápolis e os levasse para Denver. A filha mais velha de John, Beth,
morrera em 8 de janeiro 1992, num acidente de carro em Chicago, com seu amigo Matt
Darrington, aos 22 anos. John sofrerá muito com a perda de Beth e ficou por muito tempo de
luto, mas, segundo ele próprio, havia superado a dor com sua fé renovada e fortificada. O
bimotor Beechcraft fora batizado como Beth.
Os policiais começaram a interrogar os Ramsey, na tentativa de organizar os fatos para a
versão oficial do que acontecera. Ambos acreditavam que todas as portas tinham sido
trancadas na noite anterior. Segundo Steve Thomas, havia discrepâncias no relato de Patsy,
quanto à ordem em que as coisas se passaram; se ela encontrara o quarto de JonBenet vazio e
isto a levara a descer a escada procurando a menina e a seguir encontrara a carta, ou se
encontrara primeiro a carta e depois fora até o quarto para verificar. Embora tal fato possa ser
significativo, caso Patsy estivesse, na verdade, "montando" sua história, minha experiência
geral com pais de crianças vitimadas por crime é que muitas vezes eles não se lembram de seus
próprios atos nestes momentos de pânico e tensão. Já vi pais que não se lembravam de nada, da
mesma maneira que vítimas de batidas de carro são capazes de bloquear completamente a
memória do acidente.
Os dois se lembravam de saírem na noite anterior da casa dos White por volta das 20:30h,
fazerem duas paradas breves para deixar os presentes de Natal de outros amigos e chegarem
em casa pouco antes das 21:00h. JonBenet adormecera no carro, e John a levara dormindo até
seu quarto, onde Patsy a preparara para dormir. Segundo eles, JonBenet não acordara durante
tudo isto. John fora então ajudar Burke, mas o menino insistira em terminar de montar um
brinquedo que ganhara. Após John pô-lo para dormir, subira para seu quarto, um espaço
aproveitado do sótão no terceiro andar. Patsy já estava na cama e John, depois de tomar um
comprimido para dormir, colocara o despertador para acordá-los às 5:30h da manhã.
O detetive perguntou a John se poderia imaginar alguém capaz de sequestrar JonBenet ou
que quisesse fazer-lhe mal. A primeira pessoa que ocorreu a John foi Jeff Merrick, um antigo
empregado da Access Graphics, que fora despedido e ficara com muito rancor pelo fato. Fizera
uma reclamação formal com Lockheed Martin e várias pessoas disseram a John que Merrick
prometera destruir tanto ele quanto a Access.
Quando a mesma questão foi proposta a Patsy, o primeiro nome que lhe veio foi o de
Linda Hoffmann-Pugh, a governanta deles. Patsy disse que Linda vinha agindo de forma
estranha e que pedira um empréstimo de US$ 2.500 porque não conseguia pagar seu aluguel.
Patsy se lembrou também que sua mãe, Nedra Paugh, contara a ela que Linda certa vez lhe
perguntara, "JonBenet é tão linda; a senhora não tem medo que alguém a sequestre?"
A polícia mandou detetives para conversar com Linda e o marido na casa deles em Fort
Lupton. Enquanto isto, o tempo previsto para o sequestrador telefonar, entre 8:00h e 10:00h,
passara, a menos que, John Ramsey lembrou ser possível, se referisse ao dia seguinte. Como
ninguém sabia ao certo a que horas o sequestro acontecera, se antes ou depois da meia-noite,
John não tinha certeza. Em certo momento, viram que John lia a correspondência, e até
disseram que saíra da casa para buscá-la. Na verdade as cartas chegavam diretamente dentro da
casa por uma fresta na porta da frente. Muitas pessoas acharam incrível a calma e
despreocupação que isto demonstrava, mas John disse que na verdade estava ansioso para ver
se havia alguma carta do sequestrador.

Pela hora do almoço, nenhuma comunicação chegara e os policiais começaram a ir


embora para trabalhar no caso. Os dois advogados das vítimas também partiram. E assim
Linda Arndt ficou como única policial na cena para supervisionar sete pessoas: John e Patsy
Ramsey, Fleet e Priscilla White (que haviam voltado, depois de levar Burke para a casa deles),
John e Barbara Fernie e o reverendo Rol Hoverstock. Linda Arndt não se sentia confortável
com a situação e chamou o sargento-detetive Larry Manson pedindo reforços, mas, talvez
devido à escassez de pessoal durante o Natal, não veio ninguém.
Por volta das 13:00h da tarde, numa possível tentativa de manter John ocupado, enquanto
ela lidava com todos os demais, Linda pediu-lhe que fosse com um dos outros homens e
inspecionasse à procura de algo que pudesse ter passado despercebido e fosse relacionado com
o crime. John pediu a Fleet White que o acompanhasse e sugeriu que iniciassem a busca pelo
porão, subindo, depois dali, para o resto da casa.

A ADEGA

John e Fleet correram o porão, peça por peça. Depois de passar pela mesa, na qual estava
montado o trem elétrico de Burke, chegaram à janela quebrada, onde encontraram vários cacos
de vidro no chão. John calculou que seriam ainda remanescentes de sua entrada forçada na
casa no verão anterior. Embora, pareça estranho, pensando bem, que a janela não fosse
consertada durante tanto tempo, mas aquela era uma área bastante segura. A casa tinha também
alarme de segurança, apesar de desligado há meses, porque as crianças o viviam acionando por
engano.
John e Fleet notaram uma mala junto à janela quebrada. Se um intruso usara a janela para
sair dali, a mala teria servido de degrau. Mas como moveram-na de sua posição original
durante a inspeção, foi impossível determinar com certeza. Olharam o porão por baixo da sala
de jantar, depois voltaram até o quarto da caldeira de aquecimento e chegaram à porta da
adega, onde Fleet já estivera pela manhã e não entrara por não encontrar o interruptor da luz.
Mas logo que abriu a porta, John viu alguma coisa, e, de acordo com Fleet, gritou: "Oh
meu Deus, meu Deus!"
John entrou às pressas e encontrou JonBenet, deitada de costas com um cobertor branco
enrolado em seu corpo. Tinha as mãos esticadas por sobre a cabeça e amarradas com uma
corda fina. Sua boca estava tapada com um pedaço de fita isolante preta e, perto dela, no chão,
estava uma camisola cor-de-rosa, uma de suas favoritas.
Fleet tocou o tornozelo da criança, que estava frio, voltou-se e correu para cima em busca
de ajuda. John se ajoelhou a seu lado e retirou a fita colada em sua boca, retirou o cobertor e
começou a tentar afrouxar os nós que atavam suas mãos. Durante todo o tempo, disse depois,
não parou de implorar que ela falasse com ele. Seus olhos estavam fechados.
Levantou a menina e a carregou pelas escadas, apertada pela cintura contra seu corpo, até
à sala de estar, onde estava Linda Arndt. Fleet já chegara antes e gritara que alguém chamasse
uma ambulância. John deitou JonBenet no chão, próximo à árvore de Natal, murmurando
palavras de conforto, enquanto Linda Arndt procurava por sinais de vida. Mas a detetive podia
ver que a criança já havia entrado na fase de rigidez cadavérica e seus lábios estavam azuis.
Fleet então desceu e pegou o pedaço de fita isolante. Já eram duas as pessoas, agora, que
haviam tocado na evidência.
Antes que Patsy voltasse à sala, John cobriu o corpo de JonBenet com outro cobertor,
como se a estivesse pondo para dormir. O reverendo Rol Hoverstock viu o que estava
acontecendo e iniciou uma oração em voz alta. Quando terminou a prece, informou a John que
havia feito os últimos ritos por JonBenet, segundo a Liturgia da Igreja Episcopal.
As versões são conflitantes sobre a reação de Patsy neste ponto dos acontecimentos.
Segundo Steve Thomas, que deve ter ouvido a história de sua colega policial, quando Fleet
subiu gritando, Priscilla White e Bárbara Fernie correram em direção dos gritos, enquanto
Patsy permanecia sentada no sofá do solário. Ela só teria chegado, alguns momentos depois,
apoiada pelas duas amigas. Segundo a versão de John Ramsey, Patsy empurrou as pessoas para
entrar na sala, passando direta por ele para ir jogar-se sobre o corpo de JonBenet, chorando e
gritando histericamente. A versão de todos é que, neste momento ela teria implorado a
Hoverstock, alguma coisa assim como "Jesus, Você ressuscitou Lázaro dos mortos. Ressuscite
minha filha!"
Em algum momento, durante estes acontecimentos, John Ramsey e Linda Arndt se
encontraram face a face, ajoelhados ao lado do corpo de JonBenet. Deve ter sido logo depois
de Linda ter procurado o pulso da menina e John perguntar se sua filha ainda estava viva. Ela o
olhou nos olhos e disse que JonBenet estava morta. John soltou um gemido baixo de angústia.
Bem, a partir deste ponto, a narrativa começa a ficar estranha. John e Patsy achavam que
Linda Arndt fora extremamente solícita e mostrara muita sensibilidade com ambos e
continuado com a mesma impressão durante todo aquele dia e ainda por vários dias depois.
Outros membros da força policial tiveram a mesma impressão. Na verdade, algum tempo mais
tarde, outros detetives se mostraram aborrecidos com o fato de que Patsy não falava com eles,
mas apenas com Linda.
Mas três anos mais tarde, quando já deixara a polícia de Boulder, Linda Arndt recordava
esta cena de forma diferente, quando apareceu num programa de televisão em cadeia nacional.
"Quando nos olhamos nos olhos, me lembro de ter apertado minha arma contra mim — usava
um coldre debaixo do braço — enquanto mentalmente fazia as contas de quanta munição tinha.
Tinha 18 cartuchos... Porque não sabia se ainda estaríamos todos vivos quando as pessoas
chegassem." E continuou,- dizendo: "Tudo era possível naquelas circunstâncias. E eu sabia o
que acontecera."
As implicações, acho que é consenso geral, eram de que ela sabia que John matara sua
própria filha ou no mínimo participara da tentativa de acobertar o crime.
Por meu modo de ver, é uma declaração estranha de várias maneiras. Para começar, nada
de tudo isto aparece no relatório de Linda. Em segundo lugar, ela continuou a tratar bem aos
Ramsey, não dando nenhuma indicação de achar que estava lidando com suspeitos. Em
terceiro, mesmo que John Ramsey fosse atacá-la ali — e naquele momento —, que história é
essa de contar mentalmente a munição? Havia apenas sete pessoas na casa e todos estavam
desarmados. Acredito muito em impressões que resultam de contatos cara a cara, mas que tipo
de evidência é essa? Ela viu o crime em seus olhos?
Minha tendência seria associar esta reação à enorme tensão de ter que lidar com a situação
sozinha, sem nenhum reforço, e ter encontrado a criança morta na casa depois que a busca
policial fora incapaz de encontrá-la, e perceber que a cena do crime se desintegrava diante de
seus olhos. Mesmo seus ex-colegas acharam aquela declaração curiosa.

DE SEQUESTRO A ASSASSINATO

Com a repentina transformação do caso de sequestro em assassinato, Linda Arndt instruiu


John para que tornasse a chamar 911, a linha de emergência da polícia. Vendo que a chamada
não dera o resultado imediato que esperava, ela própria telefonou mais duas vezes. Pouco
depois, chegaria o reforço que requisitara, mais policiais, um agente especial do FBI, do
Escritório Local de Denver, do Corpo de Bombeiros e uma ambulância com pessoal
paramédico. O chefe de polícia de Boulder, Thomas Koby chamou o chefe dos Detetives, John
Eller, e disse a ele que sua presença era necessária com urgência.
No meio desta confusão, o sargento-detetive Larry Mason perguntou a John Ramsey quais
eram seus planos. O desejo instintivo de John era voltar para Atlanta, onde estavam seus
parentes, seu irmão Jeff, e onde queria enterrar a filha, junto de Beth, no cemitério de Marietta,
na Geórgia. Mason lhe disse que a família deveria permanecer na área, no mínimo por muitos
dias ainda. Segundo John, ele concordou que ficariam. A polícia disse ter ouvido um
telefonema de John para Mike, pedindo que este preparasse o avião para uma viagem a Atlanta,
e considerou suspeito que ele quisesse sair da cidade tão rápido. Se foi isto mesmo que
aconteceu, não vejo nada de suspeito, que um homem habituado a tudo controlar quisesse
voltar à segurança e ao conforto do lugar que considerava sua casa.

Agora a polícia queria a casa desocupada. Um dos Fernie sugeriu que os Ramsey fossem
para South Boulder. Quando já estavam de partida, por volta das 14:15h, chegou um táxi com
John Andrew e Melinda Ramsey, acompanhados de Stewart Long, que vieram no primeiro vôo
que conseguiram de Minnesota, depois de receber o recado de Mike Archuleta. John foi ao
encontro deles e disse: "JonBenet morreu". Todos tiveram uma nova crise de choro.
Neste momento, o detetive Thomas Trujillo chegou com uma declaração de
consentimento para busca, que entregou a Larry Mason, que, por seu lado, pediu que John a
assinasse. Ele assinou, dizendo mais tarde que pensara estar assinando uma autorização para a
autópsia em JonBenet.
Então os Ramsey foram para a casa dos Fernie, para onde Fleet White levara Burke e onde
teriam uma vigilância policial, de 24 horas por dia. O que não sabiam, ainda, era que estes
policiais estariam tentando ouvir tudo que dissessem.
Embora a cena do crime estivesse irremediavelmente comprometida, os detetives
começaram seu trabalho na tentativa de coletar evidências. A peça mais importante era a carta
de resgate, que por sorte já fora levada e guardada. O sargento Whitson pedira aos Ramsey
exemplares de caligrafia para comparar com a carta e John imediatamente lhe dera dois blocos
de papel ofício pautado. Um estava na cozinha e continha os lembretes de Patsy e suas listas de
compras. O outro estava numa mesa no corredor, não muito longe da escada em caracol onde
Patsy encontrara a carta, e continha anotações de John. Whitson marcou os dois blocos na
página inicial com "John" e "Patsy". Os dois blocos foram levados para a ·polícia e entregues
ao detetive Jeff Kithcart, perito em fraudes e falsificações.
Enquanto olhava o bloco de Patsy, descobriu algo de extraordinário. Pela metade do bloco
havia algumas palavras escritas com um Pilot, "Sr. e Sra.", seguidas de um traço vertical que
poderia ser com facilidade o primeiro risco da maiúscula "R". O papel parecia ser o mesmo em
que a carta de resgate fora escrita. A aparência era de um primeiro rascunho, e de que depois
de pensar, quem a escrevera decidira endereçar a carta apenas ao Sr. Ramsey.
O que significava — o que a polícia podia presumir agora, com uma boa dose de certeza
—, que a carta de resgate fora escrita na casa dos Ramsey e com seu próprio papel de cartas. O
que reduzia bastante as probabilidades. Ou o intruso (ou intrusos) estivera dentro da casa por
um bom período de tempo sem ser descoberto, ou JonBenet fora morta por uma (ou mais) das
três pessoas que estavam na casa: John, Patsy e Burke.
Quando uma criança é assassinada dentro ou perto de casa, os pais e outros membros da
família são sempre colocados na lista inicial de suspeitos. As estatísticas nos mostram que são
eles os possíveis assassinos e, quanto mais jovem é a vítima, maior é esta possibilidade. Isto
era um fato que o agente especial do FBI, Ron Walker, da Agência de Denver, que fora
chamado como consultor para o caso, com certeza conhecia muito bem.
Existem poucas pessoas por quem tenha mais consideração que Ron. Primeiro porque eu o
treinei em criação de perfis e análise investigativa criminal em Quantico, onde ele mostrou um
talento instintivo para o trabalho. Segundo, porque ele salvou minha vida. Em dezembro de
1983, quando trabalhava no caso dos assassinatos de Green River, entrei em coma, em meu
quarto de hotel em Seatle, devido a uma encefalite viral. Ron Walker e seu companheiro Blaine
Mcllwain, preocupados, porque não conseguiam me encontrar, decidiram arrombar a porta de
meu quarto e me salvar.
Ron aconselhou a polícia de Boulder a investigar com cuidado os pais; era uma ideia com
grande percentual de acerto num caso assim. Também prometeu toda a assistência do FBI no
que a polícia local viesse a precisar. Ofertas idênticas chegaram, em pouco tempo, também do
Departamento de Polícia de Denver e da Agência de Investigações do Colorado.
Apenas para esclarecer o assunto, desde a aprovação da Lei Lindbergh, nos Estados
Unidos, sequestro é um crime federal e, como tal, da jurisdição do FBI. Mas a partir do
momento que o corpo fora encontrado, o caso voltara à competência da polícia de Boulder,
porque homicídio é um crime estadual. Neste caso, o FBI não pode fazer mais nada além de se
colocar à disposição para qualquer ajuda que a polícia local desejar. O FBI dispõe de uma
equipe de análise de evidências, serviços de criação de perfis e análise investigativa,
laboratórios, consultoria legal, arquivos computadorizados, investigações fora do estado,
ligações com outras forças de segurança em qualquer parte. Por infortúnio, nenhum destes
serviços foi usado no início, ou de uma forma que pudesse fazer uma diferença nas
investigações.
Este é um fator que deve ser considerado no trabalho policial. Da mesma forma que um
médico envia um paciente seu para ser examinado por um especialista numa área específica,
nenhum agente de segurança pública pode considerar-se um especialista em tudo. E quanto
menor e menos experiente for um departamento de polícia, menor será seu grau de
especialização. É uma coisa bastante compreensível e não há nenhuma vergonha nisto.

O que, embora possamos entender, não é possível de ser aceito é que um departamento de
polícia se recuse a aceitar assistência de uma outra agência que conte com os conhecimentos e
a experiência necessários. O Departamento de Polícia de Boulder era — e é — composto de
policiais eficientes e dedicados. Mas também é verdade — e uma feliz verdade — que a cidade
tinha em média um homicídio por ano. Com toda a dedicação e competência, é impossível
esperar que esses detetives tivessem a mesma experiência daqueles de um departamento de
polícia como o de Nova York ou de Denver. É evidente que este homicídio lhes pareceu claro
desde o princípio, ainda que a própria cena do crime estivesse já completamente
comprometida.
Já vi acontecer de ambas as formas e, quase sempre, quando um departamento nos chama
logo e de própria iniciativa, em vez de só o fazer a pedido ou quando a investigação já se
complicou ou porque tanto a mídia quanto o público estão exigindo resultados, isto significa
que a pessoa no comando deve ser alguém com bastante autoconfiança para não se sentir
ameaçada por estranhos tentando ajudar. Duas dessas pessoas, que me ocorrem de imediato,
são o xerife Jim Metts do condado de Lexington, na Carolina do Sul, que pediu nossa ajuda
quando uma jovem e uma menina foram sequestradas em frente de suas casas, e o capitão
Lynde Johnson, da polícia de Rochester, em Nova York, que pediu nossa ajuda para resolver
uma série de assassinatos de prostitutas. Fui pessoalmente à Carolina do Sul, e meu colega
Gregg McCrary trabalhou no caso de Rochester. Em ambos os casos, uma relação de trabalho
de alta eficiência entre o FBI e a polícia local levou à prisão e ao julgamento dos criminosos.
Desejaria que o mesmo houvesse acontecido em Boulder.

Linda Arndt e Larry Mason foram à casa dos Fernie várias vezes para conversar com os
Ramsey. Até que, num certo momento, Linda pediu que John e Patsy fossem à Central para
responder a um interrogatório formal.
Não quero aqui responsabilizar nenhum dos dois policiais, mas é possível que, por volta
desta época, as relações entre a polícia e os Ramsey tenham começado a ser de animosidade e
antagonismo. Não acredito, tampouco, que fosse algo intencional ou consciente de nenhuma
das partes.
Patsy estava desesperada, sob o efeito de fortes sedativos, e declarando que queria morrer.
John não achava que ela estivesse em condições de sair de casa e ser submetida aos rigores de
um interrogatório policial. A polícia tinha um caso importante de homicídio nas mãos, do tipo
que muitas vezes — ou quase sempre — envolve os pais da vítima, e queriam oficializar a
versão de cada um deles para comprometê-los com suas histórias.
O amigo dos Ramsey, Michael Bynum, estava na casa dos Fernie fazendo uma visita de
condolência quando Linda Arndt fez o pedido a John para que fosse com Patsy até a polícia
para responder às perguntas. Bynum, advogado, que trabalhara como promotor na Procuradoria
Distrital de Boulder, na época estava de volta à prática privada da advocacia. Bynum disse a
John estar preocupado com a forma pela qual ele e Patsy vinham sendo tratados pela polícia, e
perguntou-lhe se confiaria nele para tomar algumas decisões pelo casal. John respondeu que se
sentiria grato de poder contar com a ajuda de um amigo.
Bynum imediatamente disse à polícia que os Ramsey não iriam à Central dar depoimento
algum, naquele momento, porque ele achava que o casal não tinha condições para isto. Depois
telefonou para Bryan Morgan, um famoso advogado de Denver, e um dos sócios do escritório
de advocacia de Haddon, Morgan e Foreman, pedindo-lhe que representasse John. Bynum
conseguiu um outro advogado, Patrick Burke, para representar Patsy. Bynum tinha bastante
experiência do sistema legal para saber que qualquer pessoa que se envolvesse com a justiça
devia contar com um advogado.

POST-MORTEM

O exame post-mortem foi realizado pelo dr. John E. Meyer, patologista e médico legista
do Condado de Boulder. Meyer fora chamado à casa dos Ramsey, por volta das 20:00h do dia
26 de dezembro, para realizar um exame superficial e declarar o óbito. Neste exame de dez
minutos, ele notou marcas de ligadura no pulso direito; depois, virando o corpo, reparou uma
outra ligadura em volta do pescoço, tão apertada que se enterrara na pele. Era um garrote,
amarrado atrás e preso a um pedaço de madeira de dez centímetros que fora usado para apertá-
lo. JonBenet usava um cordão com um crucifixo que estava embaraçado no garrote. Havia uma
pequena marca de abrasão ou contusão na face perto da orelha direita, e uma marca de abrasão
seca, bastante proeminente, no lado esquerdo do pescoço. O pedaço de madeira quebrado,
descobriu-se ser o cabo de um pincel de uma caixa de pintura de Patsy, que estava no porão. O
material de pintura estava junto à porta da adega, o que queria dizer que fora a primeira coisa
que o assassino encontrara à mão.
JonBenet usava roupa de baixo longa por cima de uma calcinha estampada com flores,
ambos molhados de urina. Havia uma mancha vermelha do que parecia ser sangue, no fundo
de sua calcinha. Na época acreditou-se que havia traços de sêmen em sua calcinha e sua perna.
Isto foi desmentido mais tarde.
A verdadeira autópsia se realizou no laboratório do legista, no porão do Hospital
Comunitário de Boulder. Além das observações que já fizera antes, Meyer notou pequenos
pontos de sangue hemorrágico na pele das pálpebras. Havia sinais de hemorragia também nas
bordas do risco no pescoço, provocada pelo garrote. Sangue coagulado foi encontrado na
entrada da vagina e vasos sanguíneos congestionados em suas paredes indicavam a
possibilidade de trauma. O hímen não estava intacto e havia abrasões visíveis nas paredes
vaginais. As unhas foram cortadas para análise no laboratório. Meyer encontrou coágulos
esparsos na superfície de ambos pulmões e na superfície anterior do coração.
Depois de fazer a incisão para levantar o couro cabeludo, Meyer encontrou uma grande
área de hemorragia (18cm x 10cm) no lado direito do crânio e, por baixo dela, uma fratura
ainda maior, de mais de vinte centímetros. Uma hemorragia, sob a membrana que cobre o
cérebro, tomava todo o hemisfério direito, e a própria massa encefálica estava machucada.
O intestino grosso continha pedaços fragmentados de fruta semidigerida, que Meyer
acreditava fosse abacaxi. Este detalhe passou a ter importância na investigação, na medida que
nem John nem Patsy se lembravam de JonBenet comendo coisa alguma depois que saíram da
casa dos White. Na verdade ela dormira no carro, e não despertara quando John a levara para
seu quarto, nem quando Patsy a preparara para dormir. Ainda assim, o estado da fruta no
intestino sugeria que fora comida naquele dia ou noite, e um pote com talhadas de abacaxi foi
encontrado na cozinha dos Ramsey. O pote foi examinado e encontraram impressões digitais
de Patsy e Burke, mas não de JonBenet. A polícia tomou este fato como uma inconsistência na
história de Patsy. John e ela se disseram perplexos com o fato e que não tinham nenhuma
explicação para ele. Acredito que se fossem culpados inventariam alguma explicação.
O resultado do exame era que JonBenet fora estrangulada com um garrote, e sofrerá um
trauma fortíssimo no lado direito da cabeça. Embora ainda existam dúvidas hoje sobre o que
acontece primeiro, qualquer uma das duas ações seria suficiente para causar a morte. A
hemorragia no interior das pálpebras e em outros pontos e a falta de um grande sangramento na
cabeça sugeriam que o estrangulamento acontecera antes e que, quando fora ferida na cabeça,
seu coração estava parado, ou batendo já muito fraco.

A causa da morte foi descrita como asfixia por estrangulamento associada a um trauma
craniano-cerebral.

EVIDÊNCIA

Tudo que tocara o corpo de JonBenet foi recolhido, as roupas, cobertores e até mesmo a
blusa de seda e os jeans que Linda Arndt usava quando se inclinara sobre o corpo da criança.

Na casa, a perícia técnica da polícia reviu a cena no porão, onde o corpo fora abandonado,
e a área perto da janela quebrada. Havia pedaços de vidro do lado de fora da janela e uma
marca de arranhão na parede. Durante a busca, o detetive Michael Everett encontrou a caixa de
pinturas de Patsy, da qual o pedaço de madeira usado no garrote saíra. Lascas da madeira no
chão, perto da caixa, indicavam que fora quebrado ali. Era então lógico assumir que naquele
local, ou próximo dali, é que a criança fora estrangulada, e não lá em cima, em seu quarto. No
segundo andar, no banheiro do quarto de JonBenet, os investigadores encontraram embolado o
pulôver vermelho de gola alta que, de acordo com Patsy, JonBenet usava quando fora dormir.
Ninguém sabia como parara ali. Próximo à escada em espiral e em frente ao quarto de
JonBenet havia uma lavadora e secadora embutida num armário de parede do tipo lavanderia.
Uma das prateleiras estava aberta com um pacote de fraldas bem visível. Isto parecia estranho
numa casa com uma criança de nove anos e outra de seis, mas JonBenet, embora precoce de
várias outras formas, tinha um problema crônico de urinar na cama, e às vezes, nas calças. A
cama molhada era tão frequente, que Linda Hoffmann-Pugh declarou que, antes de ir trabalhar,
todas as manhãs, a primeira coisa que Patsy fazia era retirar os lençóis da cama de JonBenet e
colocá-los na máquina de lavar.
O hábito da criança de urinar na cama tornou-se crítico para a investigação, porque
sugeria um motivo para um dos suspeitos e um possível comportamento para o outro. Sugeriu-
se que Patsy perdera a calma com a criança por causa da cama molhada e a golpeara
fatalmente sem querer. A outra sugestão era que a incontinência de JonBenet era uma reação
aos abusos sexuais que sofria de seu pai.

QUE TIPO DE GENTE ERA AQUELA?

Várias coisas aconteceram numa sucessão rápida que contribuíram para os irremediáveis
desentendimentos entre os Ramsey e a polícia, que, no final, se fixou na imagem pública do
casal.

Para começar, as estatísticas os apontavam como responsáveis pelo crime, os únicos


adultos presentes na ocasião, numa casa sem nenhum sinal de arrombamento. Segundo, eles
não tinham o tipo de atitude "que se esperava" de pais, naquela situação. John, controlado,
calmo e estóico, e Patsy beirava a histeria, mas nunca juntos, nem se consolando mutuamente.
Não ficaram desesperados esperando pelo telefonema do sequestrador, que nunca aconteceu,
nem atormentaram a polícia com pedidos de que o assassino — ou assassinos — fosse
encontrado; todas estas atitudes eram de se esperar de pais "normais". E, finalmente, eles
haviam contratado advogados, quase de imediato. Se fossem inocentes e não tivessem nada a
esconder, por que se recusariam a responder às perguntas da polícia? Por que contratar um
advogado ou, pior ainda, um advogado para cada um?
Podemos abordar estes itens de várias maneiras, inclusive em conjunto. Como já dissemos
no caso do sequestro Lindbergh, cada indivíduo tem uma reação diferente. Várias pessoas
acharam que Charles Lindbergh estaria envolvido no desaparecimento de seu filho, apenas por
causa de sua aparente frieza e falta de emotividade. Na verdade, era um homem que sabia
reagir melhor diante de uma crise, caso conservasse o controle. O mesmo pode ser dito de John
Ramsey, um executivo que se fizera por si próprio, veterano da Marinha e piloto, que já
experimentara a dor da perda de outra filha, passando pelo processo espiritual de desespero e
de renovação que isto implicara. Da mesma forma que John, Anne Morrow Lindbergh
atravessara sua crise mostrando-se publicamente estóica e guardando suas lágrimas para sua
privacidade. Como os Ramsey, Charles e Anne nunca foram vistos consolando um ao outro
nem mesmo como se tivessem alguma coisa em comum. No entanto, a publicação, mais tarde,
do diário de Anne nos mostra o desespero de ambos. Então, antes de tudo, é necessário lembrar
que cada um reage à sua maneira. Isto importa não tanto para defender os Ramsey, mas bem
mais para tratar com a devida consideração e compaixão qualquer pessoa que sofra a perda de
um ente querido num crime violento.

Que tenham contratado advogados tão depressa pode ser interpretado como um indício de
que "precisavam" deles, ou poderia simplesmente ser porque Mike Bynum, amigo do casal,
sabia os riscos do envolvimento com o sistema legal sem nenhuma proteção e intuísse,
acertadamente, que já naquela época o casal se tornara o ponto focal das investigações
policiais. Bynum tem, de forma reiterada, confirmado que a ideia de contratar advogados fora
inteiramente sua. Os Ramsey eram pessoas ricas e sofisticadas, que estavam habituados a agir
por intermédio de advogados e outros profissionais em vários aspectos de suas vidas. De forma
muito parecida com a atitude de Charles Lindbergh, que chamou Henry Breckinridge tão logo
descobriu que seu filho fora sequestrado. E sendo este tipo de pessoas, para início de conversa,
agiram como "bons clientes", aceitando os conselhos e deixando que seus advogados
decidissem por eles. Os advogados, que não tinham como saber se seus novos clientes eram
inocentes ou culpados, agiram profissionalmente no sentido de limitar ao mínimo sua
exposição a riscos. Este tipo de situação, por sua vez, reforçava a impressão dos policiais de
que os Ramsey tinham alguma coisa a esconder.
Se estivesse ainda trabalhando no FBI e fosse chamado na fase inicial deste caso como
consultor, meu primeiro instinto, antes mesmo de examinar as evidências, seria aconselhar a
polícia a investigar o casal. Que foi, é claro, o que fez Ron Walker.
Mas um outro fato que vinha fermentando havia já muito tempo antes do assassinato, e
sobre o qual os Ramsey não tinham nem conhecimento nem controle, contribuiu de forma
decisiva para o pesadelo em que o caso se transformou. O Departamento de Polícia de Boulder,
sob o comando do chefe Thomas Koby, e o Escritório da Procuradoria Distrital do Condado de
Boulder, sob a direção do procurador distrital Alex Hunter, eleito para o cargo há vários anos,
eram campos antagônicos. Não tinham a mesma visão de como a lei devia ser administrada
nesta comunidade rica, livre e muito liberal, que era muitas vezes chamada de República
Popular de Boulder. O índice de criminalidade era baixo, e os poucos crimes que aconteciam a
Procuradoria conseguia, na maioria dos casos, resolver fora do tribunal, o que a polícia via
como acordos inapropriados e de generosidade absurda. Isto é uma explicação simplificada do
problema, mas o resultado foi que, em vez de trabalhar juntos, os dois serviços tinham, no mais
das vezes, propósitos opostos.
Este antagonismo chegara a um patamar explosivo poucos dias depois do assassinato e
contribuiu de forma incrível para a desconfiança mútua entre a polícia e os Ramsey.
Depois que o dr. Meyer terminara a autópsia, ainda havia questões a responder, tanto do
comandante Eller quanto do chefe Koby, em particular no que se referia à causa da morte, à
arma que provocara o trauma craniano e ao significado e importância dos ferimentos vaginais.
Por seu lado, os Ramsey queriam o corpo de sua filha para fazer o funeral. Esta mensagem
chegou à polícia por intermédio da Procuradoria, na pessoa do procurador-assistente, Pete
Hofstrom, encarregado da Divisão de Crimes Qualificados.
Segundo o relato de Steve Thomas, Hofstrom informou John Eller de que os Ramsey
queriam os restos mortais de volta. A polícia já estava aborrecida, porque a comunicação direta
entre os Ramsey e a Procuradoria, em vez de com o Departamento de Polícia de Boulder,
significava que estavam agindo por intermédio de advogados. E em particular, desagradava à
polícia as ligações que Haddon Morgan tinha com vários membros da equipe de Alex Hunter.
Eller disse a Hofstrom, que ele, o chefe de polícia, e o legista tinham decidido conservar o
corpo para ulteriores exames. Outra coisa que irritava Eller era sua incapacidade de trazer os
Ramsey para prestar depoimentos formais e em separado.
Hofstrom disse então a Eller que a polícia não podia usar o corpo para "chantagear" os
Ramsey em troca de um depoimento. Eller não pensava assim. Já Mike Bynum, sim, pensava.
E a consequente animosidade entre os Ramsey e a polícia de uma parte, e entre a polícia e a
procuradoria de outra, não acabou mais.
Os Ramsey acabaram vencendo esta batalha. Graças à insistência de seus advogados e de
Hofstrom, a polícia acabou liberando o corpo, e os Ramsey o levaram de volta para a Geórgia,
para enterrar ao lado de Beth. Mas a guerra fora declarada.
GLOBALIZAÇÃO

No domingo, 29 de dezembro, foi realizada uma cerimônia em memória de JonBenet, na


Igreja Episcopal de St. John, não muito longe do escritório de John na sua Pearl Street Mall, no
centro de Boulder. A data coincidia com o aniversário de quarenta anos de Patsy. Na terça-
feira, 31 de dezembro, a família foi de avião a Atlanta, para o funeral de JonBenet.
No sábado, um dia antes da cerimônia em Boulder, Linda Arndt e Larry Mason foram à
casa dos Fernie com a intenção de tomar os depoimentos formais dos Ramsey. John respondeu
às perguntas deles, por quarenta minutos, na presença de dois advogados, mas informou que
Patsy ainda estava sob efeito de fortes medicamentos e impossibilitada de responder às
perguntas. Enquanto informava aos detetives sobre seus dados pessoais, John contou algo
sobre Patsy que eles aparentemente não sabiam.
Em junho de 1993, depois de sentir dores fortes nos ombros e nas costas, após um
progressivo aumento de barriga, num corpo que sempre fora elegante e bem cuidado, Patsy fez
um exame e descobriu que tinha um câncer no ovário. Diagnosticado no início como sendo de
terceiro grau, em pouco tempo descobriu que se tratava de um tumor que se espalhara muito e
seu caso foi reclassificado como de quarto grau, o pior e mais grave estágio da doença. Os
Ramsey foram outra vez, profundamente abalados, tão pouco tempo depois do acidente de
Beth, pela ideia de mais uma morte na família. Patsy disse que não entendia por que Deus lhe
dera dois filhos lindos, se deviam ficar órfãos quando mais precisavam de uma mãe.
Foi colocada num rigoroso tratamento experimental, no Instituto Nacional do Câncer, do
Instituto Nacional de Saúde, em Bethesda, Maryland. O programa previa que ela passasse uma
semana por mês em Bethesda fazendo quimioterapia, seguida de um período de recuperação e
mais uma bateria de testes em Boulder, antes de voltar para uma nova semana de tratamento
em Bethesda. Perdera todo o cabelo e a maior parte do tempo sentia-se fraca demais para sair
da cama, com a sombra da morte sempre por perto. O tratamento durou meses e durante este
tempo, ela viu muitas de suas amigas e companheiras na luta contra a doença morrerem.
Afinal melhorou, atribuindo sua miraculosa cura — se é possível usar esta palavra para o
câncer — a uma combinação de cuidados médicos de primeira qualidade, apoio emocional de
seu marido e de seus filhos e à graça e intervenção de Deus.
Os detetives deixaram a casa dos Fernie desapontados por não conseguirem o depoimento
que queriam. E, com os Ramsey viajando para Atlanta para o funeral da filha, sentiam que o
casal escapava de suas mãos.
Pela época da cerimônia religiosa em Boulder, este caso, tão incomum e frustrante, já
atraíra um grande interesse público. Os advogados dos Ramsey contrataram Patrick Korten, um
ex-repórter e consultor de mídia, de Washington, D.C., para se ocupar da imprensa e televisão,
mantendo-os afastados de John e Patsy, bem como dos próprios advogados. Este foi outro
gesto que provocou muitas críticas, criando a impressão de que os Ramsey queriam manipular
as notícias. Fleet White, aparentemente preocupado com a impressão que estava causando o
cordão de proteção criado pelos advogados em torno do casal, sugeriu que a melhor maneira de
esclarecer a história era ir à televisão e contá-la.
Eles aceitaram a sugestão, e concordaram em aparecer numa entrevista para a CNN, em
Atlanta, em primeiro de janeiro de 1997, o dia seguinte ao funeral de JonBenet. O entrevistador
seria o veterano repórter Brian Cabell que, por coincidência, foi colega de universidade de
Mark Olshaker.
Perto do final da entrevista, Cabell fez a pergunta que todos queriam fazer:
— A polícia diz que não existe um assassino à solta. Vocês acreditam que existe alguém,
fora de sua casa?
— Existe um assassino à solta — respondeu Patsy.
— Com absoluta certeza — disse John.
— Não sei quem seja — continuou Patsy. — Não sei se é ele ou ela. Mas se eu fosse
residente em Boulder eu diria a meus amigos para manterem... — e Patsy, neste ponto,
começou a chorar, com John tentando consolá-la.
Logo após ela continuou:
— Mantenham suas crianças perto de vocês. Existe um assassino à solta.
A história se expandira de tal forma que o prefeito de Boulder, Leslie Durgin, que
conhecia os Ramsey pessoalmente, convocou uma conferência de imprensa no dia 3 de janeiro,
para dizer: "As pessoas não precisam se preocupar com um assassino à solta pelas ruas de
Boulder, ameaçando suas crianças, como foi sugerido por alguém. Boulder é um lugar seguro,
sempre foi uma comunidade segura, e continua sendo uma comunidade segura."
Um dia antes, acontecera a segunda onda de expansão da história do assassinato Ramsey.
O canal local da rede ABC de televisão em Denver passou os vídeos oficiais — feitos para
venda entre os pais — do Concurso de Beleza Seleção, no qual JonBenet competira, no dia 17
de dezembro. Depois havia um vídeo amador de um concurso para Miss Realeza, feito num
shopping center. E, finalmente, foi mostrado um vídeo oficial do Desfile Nacional Raio de Sol,
que acontecera em Atlanta, durante o verão de 1996, no qual JonBenet usava uma roupa
brilhante de corista, no melhor estilo Las Vegas. Estes vídeos mostraram à grande maioria do
público um mundo que não imaginavam que existisse, e fizeram com que as pessoas se
perguntassem, que tipos de pais são estes capazes de permitir e mesmo encorajar suas filhas a
entrar nestes concursos em que meninas pequenas imitam mulheres.
Os Ramsey foram rápidos em responder que muitas crianças e suas famílias participavam
deles, especialmente no Sul de onde vinham. Era uma escolha pessoal de JonBenet, ela gostava
de se envolver com eles, adorava vestir-se e representar, desde os três anos, e implorara a sua
mãe para que a deixasse concorrer. Em casa chegaram a fazer ensaios, com sua mãe fingindo
ser o apresentador anunciando a entrada de JonBenet na passarela. Segundo eles, era idêntico
ao envolvimento de pais e filhos em outras atividades infantis, como as ligas esportivas dente-
de-leite, os Lobinhos, as Fadinhas, apresentações de patinação ou qualquer outro tipo de
representação. Qualquer pessoa que visse algo de sexualmente sugestivo ou impróprio estava
sendo maliciosa. Os concursos de beleza desenvolviam nas crianças a autoconfiança, o talento,
a postura, e muitas das participantes sonhavam em participar um dia do concurso de Miss
América, como Patsy e sua irmã Pam fizeram.

Mas, apesar de todas as explicações ou das declarações de John e Patsy, feitas num tom
indignado de quem não tem do que se desculpar, para vários milhões de espectadores em todo
o mundo, as imagens falavam por si sós. Aqueles dois eram pais ricos e arrogantes; estavam
sozinhos na casa em que a filha fora assassinada; recusavam-se a cooperar com a polícia,
escondiam-se atrás de advogados e vestiam sua filha de seis anos, com cabelos pintados, batom
e maquiagem, com roupas sugestivas que faziam a menina parecer uma corista de Las Vegas.
Que tipo de gente era aquela?
Enquanto isso, o Departamento de Polícia de Boulder se preparava para o caso mais difícil
e público de toda a sua história. Entre os detetives colocados no caso por John Eller, estava
Steve Thomas, que trabalhava na época disfarçado no esquadrão anti-narcóticos.

ONDE EU ENTRO NA HISTÓRIA

No dia 6 de janeiro, uma segunda-feira, estava em Provo, no Utah, preparando um


seminário de treinamento para policiais com Greg Cooper, um ex-agente do FBI e uma das
estrelas de minha unidade — que era na época o chefe de polícia de Provo. Em minha
secretária eletrônica encontrei uma mensagem de H. Ellis Armistead, um detetive particular de
Denver, que dizia ter sido contratado pela família Ramsey. Queria saber de minha
disponibilidade para dar assistência no caso do assassinato da filha deles. Respondi que estaria
ocupado em Utah por alguns dias, mas, olhando minha agenda, estaria livre pelo final da
semana e, se ainda necessitassem de mim, poderia encontrá-los em Denver. Eu ouvira sobre o
caso Ramsey pela mídia, mas, entre a viagem e a preparação do seminário, não tivera muito
tempo para pensar no assunto e não conhecia seus pormenores.
No dia seguinte, Armistead me contatou no Parque Provo Hotel, onde eu estava
hospedado. Disse que meus honorários e despesas seriam pagos, sem que falássemos no preço.
Disse que Lee Foreman, advogado e associado de Hal Haddon e Bryan Morgan, os advogados
de John Ramsey, se encarregaria de contatar-me.
Foreman telefonou por volta das 21:00h naquele mesmo dia e disse que gostaria que eu
fosse a Denver e Boulder para conduzir uma análise para eles. Continuou dizendo que fizera
uma pesquisa sobre pedófilos e que John Ramsey não tinha o perfil. John era um homem de
negócios bem-sucedido, financeiramente independente, casado com uma ex-miss. Ouvi a
avaliação de Foreman sem comentar. Pareceu-me que o que queria era alguém que fosse
"objetivo" e chegasse às mesmas conclusões que ele.

Dei a Foreman a resposta padrão que dou a todos meus clientes potenciais, sejam eles
agências de segurança pública, sejam pessoa física: "vocês pagam por meu tempo, pelo tempo
que eu tiver, mas minha análise é completamente independente e não será influenciada por
ninguém. Farei meu relatório verbalmente, com o qual vocês podem concordar ou discordar, e
será uma decisão de vocês usá-lo ou não. Se decidirem usar, fornecerei o relatório por escrito,
que, como não sou advogado, pode ser requisitado e usado pela acusação. Não revelarei
nenhuma informação privilegiada ou protegida que me derem, nem direi nada baseado nelas.
Mas me reservo o direito de dar minha opinião baseada em fatos de conhecimento público."
Tomei um avião para Denver na quarta-feira, 8 de janeiro de 1997. Durante o vôo fiz
algumas anotações que de fato devia saber e entender:

I. Fatos do caso
Dia, data, hora. Quando foi determinado que a criança desaparecera? Que foi que fizeram?
A quem chamaram? Chamaram a polícia? A que horas? A que horas encontraram a criança?
Onde? Quem? Descrição do local e da posição da criança, da cena do crime, de como estava
vestida, causa da morte. Sangue? Onde? Violência sexual? Como se sabe?

II. Nota
Onde foi encontrada? Por quem? Bilhete — de onde veio? Revisar mais tarde.

III. Histórico da família


— Negócio.
— Quem vive na casa?
— Casamentos anteriores.
— Quanto tempo casados?

IV. Acesso à casa


— Quem?
— Sistema de segurança.

V. Carreira de modelo (tinha a impressão de que a criança trabalhava como modelo)

— Quem patrocinava?
— Quem fotografava?
— Fotógrafos na família?

Quando cheguei a Denver, encontrei-me com Lee Foreman e Bryan Morgan no escritório
deles, num prédio histórico restaurado, no centro da cidade. Reunimo-nos numa sala de
conferências com paredes de vidro, chamada "a bolha".
Iniciei a conversa dizendo que entendia o fato de terem chegado a uma opinião sobre o
não-envolvimento dos Ramsey baseados em sua experiência e pesquisas com pedófilos. De
toda forma, disse a eles, naquele momento era ainda cedo para assumir que se tratava
necessariamente de um pedófilo. Expliquei as diferenças entre violentadores preferenciais e
circunstanciais de crianças, falando de todas as etapas necessárias a uma análise, e de como tal
seria difícil se eu não obtivesse o relatório da autópsia, as fotos da cena do crime, os resultados
da análise toxicológica; elementos que usava rotineiramente em minhas análises e na criação
de perfis de criminosos.
Afirmei que, baseado na limitada informação que tivera pela mídia, o caso não era
favorável a seus clientes. Fosse esta informação falsa ou verdadeira, ou uma mistura, o fato era
que a percepção do público tendia a ver os Ramsey como responsáveis. Por exemplo, eu
acreditava que eles não haviam chamado a polícia imediatamente depois de encontrar o corpo
da filha. Como se pode ver, meu conhecimento dos fatos na época era bastante limitado.
Disse que ouvira sobre a falta de cooperação dos Ramsey para com a polícia, o que
parecia problemático para mim.
Os advogados retrucaram, dizendo que os Ramsey foram cooperativos com a polícia,
desde o primeiro dia. Apesar da carta de resgate determinar que não contatassem nem a polícia
nem o FBI, eles notificaram a polícia imediatamente. A polícia dera uma busca na casa,
ajudada por amigos do casal, sem encontrar o corpo da vítima. O desespero dos Ramsey era tão
visível que um amigo deles sugerira que John fizesse uma busca junto com um vizinho, para
mantê-lo ocupado. John e seu amigo Fleet White revistaram a casa, terminando no porão,
numa pequena adega, usada como depósito. Este amigo descobrira ali uma janela quebrada e
cacos de vidro espalhados pelo chão. Ramsey dissera então ser ele o responsável pela janela
quebrada, porque ficara trancado fora de casa e arrombara a janela no porão para poder entrar.
Havia uma outra janela, coberta com uma tela e exterior àquela quebrada, e seria necessário
saber da janela quebrada para tentar entrar por ali.
Como se pode ver, havia discrepâncias mesmo na versão dos advogados. A história ainda
não estava clara.
Continuaram dizendo que os dois prosseguiram na busca e que fora John quem entrara na
adega e gritara: "Oh, meu bebê!"
Este era um ponto importante para mim. De nossa experiência com homicídios
domésticos encenados (homicídios cometidos por um membro da família e encenados de
forma a parecer outra coisa, como um crime sexual ou roubo que terminara em morte),
aprendemos que o assassino em geral manipula e manobra para que seja outra pessoa que
descubra o corpo. Fica mais fácil para ele "reagir" se mantiver o distanciamento do crime.

Tive um caso, por exemplo, em que um homem matou sua esposa e foi para o trabalho.
Antes de sair de casa transportou o corpo para um depósito com fácil acesso do exterior,
fazendo parecer que ela fora violentada. Fez isto para que seu filho não a encontrasse, quando
voltasse da escola, e também para que parecesse um estupro que terminara em assassinato. Do
escritório, telefonou várias vezes para casa, de modo a estabelecer um registro das chamadas
na companhia de telefones; depois, à tarde, telefonou para uma vizinha que tinha a chave de
sua casa, dizendo a ela numa voz preocupada que não conseguia falar com a esposa, e pedindo
que ela fosse, por favor, verificar o que estava acontecendo. A vizinha olhou pela casa sem
encontrá-la e o chamou dizendo que sua esposa não estava em casa, mas que o carro estava lá e
que o quarto ainda estava desarrumado (sua esposa era uma dona de casa meticulosa). Então o
homem chamou a polícia e contou-lhes o que ouvira da vizinha. A polícia foi ao local e
encontrou o corpo no depósito. Depois disso, minha unidade foi chamada.
O leitor se lembra de que, no assassinato dos Borden, Lizzie não pudera evitar a
"descoberta" do corpo de seu pai, mas que tivera bastante trabalho para que fosse Bridget
Sullivan a descobrir o corpo de sua madrasta, e que quando Bridget se recusara a subir sozinha
ao segundo andar, Lizzie nem assim foi com ela, e conseguiu que Adelaide Churchill
acompanhasse a empregada.
Por isto, o fato de que fora John Ramsey quem encontrara o corpo chamou a minha
atenção. Na situação descrita pelo advogado, seria fácil para ele ter se separado de Fleet
dizendo, por exemplo, "Eu olho na lavanderia, enquanto você verifica na caldeira e na adega.
Depois nos encontramos aqui". Mas não foi o que fez.
Disseram que, quando JonBenet fora encontrada, estava com o torso enrolado num
cobertor. Perguntei se apenas o torso ou todo seu corpo.
Disseram que só o torso. Suas pernas e braços estavam descobertos.
Esta era outra consideração importante. Como comentamos no caso Lindbergh, a forma
em que o corpo é abandonado em geral diz muito da relação entre a vítima e o criminoso. O
corpo de Charlie Lindbergh fora abandonado no mato, sem nenhuma preocupação, quando já
não tinha mais nenhuma utilidade para os sequestradores. Não fora feita nenhuma tentativa de
protegê-lo dos animais ou do tempo, nem havia nenhuma evidência de gentileza ou cuidado.
No caso do homem que matara sua mulher, por sua vez, o corpo fora coberto com cuidado
numa coberta da cama deles, e apenas o rosto ficara descoberto, demonstrando uma
consideração protetora. Costumamos dizer que é a demonstração de um "interesse de
proprietário" pela vítima. Em alguns casos é mesmo uma posição de remorso dos pais.
No início tivera a impressão de que este "interesse de proprietário" e consideração fosse
evidente quando o corpo fora encontrado, mas parecia que o corpo fora coberto por
conveniência e não devido a um instinto de proteção.
Quando John Ramsey encontrou JonBenet, havia um pedaço de fita sobre sua boca e
ligaduras em seu pescoço e pulsos. O que me interessa aqui é que o primeiro instinto de John,
seu primeiro gesto, foi retirar a fita isolante e tentar desamarrar seus pulsos. Ele conseguiu
afrouxar os nós, mas não soltá-los, antes de levá-la para cima.
A primeira pergunta que me ocorreu foi: se ele matara a filha ou fora cúmplice no crime e,
em seguida, arranjara a cena para que parecesse a obra de um sádico, por que desarranjar tudo,
retirando a fita e tentando desamarrar os pulsos antes que qualquer pessoa houvesse visto a
encenação, especialmente a polícia? Não faz sentido.
Os advogados me disseram que havia uma pequena quantidade de sangue nas calcinhas de
JonBenet, que parecia ser de sua vagina, e uma outra mancha com a aparência de sêmen. O que
sugeria que o assassino fora um homem. E, se o sêmen coincidisse com o DNA de John, o caso
estaria resolvido. Era claro que a principal razão de me chamarem a Denver fora a esperança
que minha avaliação tendesse a favor de seu cliente. E, embora não pudessem dizer isto
claramente, eu tinha a forte impressão de que queriam que dissesse se o achava culpado.

Antes de meu encontro com John Ramsey, fiz uma previsão para os advogados de que o
laboratório de análise da polícia determinaria não existir sêmen nem no corpo nem nas
calcinhas de JonBenet. Por minha experiência com crimes sexuais, especialmente crimes
contra crianças, não acreditava que este criminoso fosse capaz de estuprar uma menina
pequena. Qualquer um capaz de matar com aquela força e agressividade (tanto no
estrangulamento quanto no trauma craniano) não perderia tempo com sexo peniano tradicional.
Talvez abusasse dela de outra maneira e a penetrasse com um objeto ou um dedo para
demonstrar controle e desprezo, como de fato se provou pelas abrasões no interior da vagina.
Mas duvidava da existência de sêmen.
Segundo os advogados, havia sinais óbvios de contusão na cabeça, que o pastor (na época
ainda não sabia seu nome) tentara cobrir para que Patsy não visse. Naquele ponto, já ficara
bastante claro para mim, da mesma forma que para Lee Foreman e Bryan Morgan, que a cena
do crime fora não só desarranjada, mas também contaminada. Sabia que isto seria um
problema, tanto para a polícia quanto para a promotoria, quando (e se) um suspeito fosse
levado ao tribunal.
Foreman me disse que os Ramsey fizeram um depoimento preliminar de mais de duas
horas e que seu filho de nove anos (cujo nome ainda não sabia na época) fora questionado sem
que a polícia notificasse ou pedisse o consentimento dos pais. Fui informado que o menino não
entendia o que acontecera nem que não voltaria mais a ver sua irmã. Além de prestarem
depoimento, os Ramsey forneceram de boa vontade todas as mostras de cabelos, sangue e
caligrafia que a polícia pedira. Não só deles mesmos, mas do filho também.
Na noite do dia 8 de janeiro, Bryan Morgan e Ellis Armistead, o investigador contratado
pelos Ramsey, levaram-me à casa da família. Ellis era um ex-detetive de homicídios, alto e
louro, com um jeito simpático e informal, que contrastava com a maneira amigável, mas
autoritária, com que Morgan controlava a situação. O propósito da visita era que eu me
familiarizasse com a disposição interna da casa e entendesse as circunstâncias e a cronologia
dos acontecimentos na noite anterior e na manhã do crime.
De acordo com o relato dos jornais, que lera recentemente, a casa estilo Tudor, de tijolo à
vista, teria 450m2, distribuídos em quatro andares, incluindo o sótão convertido no quarto do
casal, e estava avaliada em um milhão e trezentos mil dólares. Tinha ainda dois anexos
construídos pelos Ramsey. Pelo que pude observar, quando chegávamos ao local, a vizinhança
não desmerecia sua reputação. Parecia rica e de alta classe, o tipo de vizinhança que a polícia
local devia cuidar com atenção e onde os únicos crimes que se espera são os roubos de joias,
dinheiro e valores. Um ladrão que quisesse entrar numa destas casas não teria dificuldades em
saber o que procurar. Várias das casas, inclusive a dos Ramsey, haviam recentemente aberto
suas portas ao público para festas de caridade e visitas guiadas com o mesmo propósito, o que
infelizmente é uma ótima forma para qualquer um obter informações internas para um roubo.
No interior, reparei que devido ao desenho da casa, e às reformas feitas pelos Ramsey, a
circulação era precária. Não se podia ir de um cômodo a outro sem que se terminasse sem
saída. A casa era bem mobiliada, com uma mistura de peças contemporâneas e antigas. Duas
escadas ligavam o primeiro andar ao segundo, sendo uma delas a escada em espiral onde Patsy
encontrara a carta de resgate. Seria necessária, muita agilidade para carregar por ela, subindo
ou descendo, um volume grande e pesado, como uma criança de seis anos. A suíte do casal, no
sótão no terceiro andar, parecia isolada do resto da casa. John tinha um espaço de trabalho e
tanto ele quanto Patsy tinham banheiros e armários pessoais.
O quarto de JonBenet era o típico quarto de uma menina de seis anos, numa família da
alta classe média. Reparei num sem-número de bonecas e nas recordações de seus concursos
de beleza espalhadas pelo quarto. Um som vindo do quarto, mesmo mais alto, era ouvido com
dificuldade em cima, na ala onde ficava a suíte do casal. Sons vindo do primeiro andar seriam
ainda mais difíceis de ouvir, e os do porão, praticamente inaudíveis.
Para fazer um teste, pedimos a um dos investigadores de Armistead para descer ao quarto
de JonBenet e contar até dez, aumentando o volume da voz a cada número. Não conseguimos
ouvi-lo antes que chegasse ao número cinco. A casa não tinha sistema de comunicação nem
para a monitoração entre a parte de cima e os quartos das crianças.
Além de a casa ter umas seis entradas diferentes no primeiro andar, o quarto da menina
tinha uma sacada que poderia ser alcançada, com facilidade, por qualquer pessoa usando uma
pequena escada ou subindo numa lata de lixo.
Minha impressão era de que o criminoso seria alguém com bastante conhecimento, não só
do interior da casa mas, também, da movimentação da família naquele dia específico. Era
possível que este conhecimento fosse resultado de um trabalho de observação. Além da
família, havia que considerar também os empregados domésticos, outras pessoas de serviço, os
trabalhadores na reforma e os amigos, convidados em repetidas ocasiões.
Era sem dúvida uma empresa de alto risco, do ponto de vista do intruso, mas isto não
queria dizer que fosse obrigatoriamente um criminoso experiente. Olhando pela casa, pensei
que, se o criminoso fosse alguém de fora, seria sem dúvida alguém dedicado à missão de fazer
mal à família Ramsey. Era impossível determinar, pela cena do crime, se o ataque começara na
cama da menina. A polícia recolhera todos os lençóis e recortara pedaços do tapete que
imaginei estariam manchados de sangue ou outro tipo de evidência. Imaginei que a criança
talvez estivesse acordada e fora imobilizada em seu quarto, antes de ser levada para o porão.
O porão seria um local perigoso para um intruso, caso os Ramsey acordassem e
descessem. Estaria numa armadilha sem saída.

O ENCONTRO COM OS RAMSEY

Na manhã de terça-feira, 9 de janeiro, encontrei-me com John Ramsey, por volta das
9:00h, no escritório da Haddon, Morgan e Foreman. O encontro foi com John, porque, como os
advogados ainda acreditavam que fora encontrado sêmen no corpo e/ou na cena do crime, as
suspeitas maiores recaíam sobre ele. Bryan Morgan estava lá, mas Patsy não se fez presente
neste meu primeiro encontro com John.
Encontrando John, apresentei-me, apertei sua mão e ofereci minhas condolências pela
perda que sofrerá. Como acabou acontecendo, era significativo o fato de não saberem quem eu
era — nem ele nem Patsy. Depois disto, várias fontes, inclusive o detetive Steve Thomas,
declararam que Mindhunter, o primeiro livro que escrevi com Mark, estava na mesa-de-
cabeceira de John. Neste livro lidamos com vários crimes encenados e a especulação seria que
John ou Patsy teriam lido o livro e "aprendido" como enganar a policia, fazendo parecer que
um intruso fora o responsável pelo assassinato da filha. Para começar, devo dizer que ninguém
— nem eles — aprenderia tal coisa pela leitura de meu livro. Não escrevemos um curso de
"faça você mesmo" e qualquer bom policial descobriria com facilidade uma tentativa tão
ingênua. Mais que isto, por mais que nos agradasse acreditar que todo mundo lera nosso livro e
que todos nos conheciam, Mindhunter não estava na mesa-de-cabeceira de John nem em
nenhum outro lugar da casa, que examinei com o maior cuidado. Acredite, como autor, o que
não escapa à minha observação é encontrar meu livro, onde quer que seja. Nem estava em
nenhuma das listas de itens removidos da casa, como, por exemplo, um livro de Dave Barry
sobre espaço cibernético. Este é apenas um pequeno exemplo da quantidade enorme de
informações incorretas que se publicou sobre este caso. Embora eu creia que John leu meu
livro mais tarde, na época do crime, ele não conhecia nem a mim nem meu trabalho.
Disse-lhe que, apesar de não ser uma tarefa fácil, seu advogado me contratara para fazer
uma análise do crime e fornecer uma opinião sobre que tipo de pessoa seria o assassino.
Comecei da mesma forma que começara a conversa com Morgan e Foreman, no dia anterior,
dizendo que pela informação publicada sobre o caso, sua situação não parecia boa. Membros
da família são sempre os primeiros suspeitos neste tipo de caso e a informação que circulava
na imprensa era de que ele e sua esposa não estavam cooperando com a polícia.
Respondeu-me, indignado, que nada poderia ser mais distante da verdade, que ele e Patsy
haviam fornecido tudo que fora pedido pela polícia e respondido a inúmeras perguntas. Ainda
assim, ele reconheceu que não haviam de fato feito um depoimento formal.
John tinha um aspecto deprimido e triste. No dia anterior fora o quinto aniversário da
morte de sua filha Beth. Fiz com que recordasse minuciosamente o dia e a noite do Natal e me
contasse o que acontecera até o momento, já no outro dia, em que ele e Patsy descobriram o
desaparecimento de JonBenet.
A manhã de 25 de dezembro fora a típica manhã de Natal, com as duas crianças abrindo
os presentes de Papai Noel e os pais fotografando. Fui informado de que estas fotos estavam
com a polícia de Boulder. Por volta das 16:00h foram para a casa de Priscila e Fleet White,
para um jantar de Natal, como já haviam feito no ano anterior. Os White moravam a seis
quarteirões de distância. Tanto John quanto Patsy bebiam socialmente e tomaram duas taças de
vinho cada um, com os White. Priscila e Fleet tinham filhos quase da mesma idade de Burke e
JonBenet, e as crianças ficaram brincando entre elas. Pouco antes das 21:00h voltaram para
casa, fazendo duas rápidas paradas para deixar presentes com amigos. John disse que carregara
JonBenet adormecida para o quarto e começava a prepará-la para dormir quando Burke o
chamara para ajudá-lo em algo e, assim, deixara Patsy cuidando de JonBenet e fora ver Burke.
Depois de colocar Burke na cama, subira para seu quarto e ajustara o despertador para as
6:30h da manhã seguinte, a tempo para o voo que os levaria a Michigan, com uma parada para
pegar seus dois filhos mais velhos e seu futuro genro. O Jeep da família já estava preparado na
garagem, com as malas e os presentes para os amigos em Michigan.
Prestei muita atenção ao que dizia, concentrando-me na inflexão de sua voz, respiração,
escolha de palavras e linguagem corporal, comparando tudo isto com minha experiência,
adquirida em milhares de depoimentos colhidos, tanto de criminosos violentos, como de
vítimas e suas famílias. Depois fiz que John me contasse tudo que acontecera na manhã do dia
26, até à tarde, quando encontrara o corpo da filha na adega. Enquanto falava de como
transportara o corpo até a sala, começou a piscar, como se estivesse visualizando a cena. E
começou a soluçar.
Depois de passar duas horas com John, ele pediu licença para ir ao banheiro. Virei-me
para Bryan Morgan, que estivera na sala todo o tempo, e disse-lhe apenas:
Eu acredito nele.
Oh, Deus, que alívio! — foi a resposta de Morgan.

Era um homem de mais de sessenta anos, que fazia as coisas com paixão e podia ser
encantador quando queria. Minha impressão era que ele acreditava sinceramente na inocência
de seu cliente, mas precisava de orientação, ou de que outra pessoa o reassegurasse de sua
crença.
Quando Ramsey voltou, disse-lhe que já conversara, face a face, com centenas de
criminosos. Alguns foram tão convincentes que me fizeram voltar a verificar a solidez das
provas e evidências contra eles. E então lhe falei:
Senhor Ramsey, ou o senhor é o melhor mentiroso que já encontrei, ou é inocente. Eu
acredito em sua história.
Ele pareceu gostar de minha reação, e continuei:
Por que não vamos à polícia e conta a eles sua história, do mesmo jeito que acabou
de me contar?
John disse que queria estar do lado da polícia e cooperar. Morgan comentou que
eventualmente era o que fariam e que ele tentaria falar com eles naquela mesma tarde, às
16:00h, para arranjar o encontro.
Disse a Morgan que estava pronto para a entrevista com a sra. Ramsey, mas que mudara
de ideia e não achava mais necessário entrevistá-la sem o marido e que John poderia estar
presente à entrevista. Não disse a eles por que mudara minha estratégia. Talvez tenham
pensado que minha confiança em John era tal que não necessitava mais da versão de Patsy. A
verdadeira razão, no entanto, era que, sendo John o foco primário de minha análise,
interessava-m