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Vera Rita de Melo Ferreira

Psicanálise e psicologia econômica


A possibilidade de um diálogo

O artigo apresenta o campo da Psicologia Econômica, que estuda o comportamento


econômico dos indivíduos, a partir de teorias psicológicas. É traçada a trajetória
histórica dessa disciplina, e de áreas contíguas, como a Economia Comportamental,
Sócio-Economia e Finanças Comportamentais, e suas linhas de pesquisa e método
são descritos. Ao final, propõe-se que possa haver um intercâmbio de idéias entre
psicólogos econômicos e psicanalistas, uma vez que estes investigam o
comportamento psíquico, do qual o aspecto econômico seria uma das expressões.
O diálogo resultante teria como objetivo ampliar e aprofundar a produção de
conhecimento sobre esse tema.
> Palavras-chave: Comportamento econômico, funcionamento mental, psicanálise,
Psicologia Econômica

The article introduces the field of Economic Psychology, which studies the economic
behaviour of the individual, making use of psychological theories. The history of this
pulsional > revista de psicanálise > artigos > p. 20-29

discipline is presented, along with the neighbouring areas of Behavioural Economics,


Socio-Economics and Behavioural Finance, as well as their lines of research and
method. A proposal is made at the end aiming at the possibility of starting a dialog
between economic psychologists and psychoanalysts, who investigate psychological
behaviour, of which the economic aspect is considered to be one the expressions. The
goal of developing such cooperation is to increase and deepen the production of
knowledge about the subject.
>Key words: Economic behaviour, Economic Psychology, mental functioning,
Psychoanalysis
ano XVII, n. 181, março/2005

Introdução dão origem – Psicologia e Economia. No en-


Psicologia Econômica é uma área ainda pou- tanto, já teve entre seus estudiosos dois ga-
co conhecida no Brasil, mesmo entre os nhadores do Prêmio Nobel, na categoria de
profissionais de ambas as disciplinas que lhe Economia, sendo o último deles, Daniel
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Kahneman, em 2002.1 Kahneman, junto com entre outros), realizados principalmente
o colega Amos Tversky, já falecido, pesqui- por economistas e administradores de em-
sou o tema de processos decisórios, variá- presas, em instituições como FGV-SP, UFPR,
veis que os modificavam, e como fatores FEA-USP, UFRGS, no campo de Finanças Com-
psicológicos podiam ser identificados neles, portamentais. Esta derivação da Psicologia
de formas que se repetiam como padrões Econômica e da Economia Comportamental
gerais (Kahneman, 2002). (área “irmã”, a que se dedicam principal-
De que trata, então, esse campo, que foi ca- mente economistas), concentra estudos so-
paz de chamar a atenção de cientistas e bre o comportamento dos mercados
economistas renomados? A resposta pron- financeiros.
ta é: trata do comportamento econômico Em outras palavras, existe um campo ex-
dos indivíduos. Esta é a definição do seu ob- tenso, representado por Psicologia Eco-
jeto de estudo, de acordo com os seus espe- nômica, Economia Comportamental,
cialistas (Lewis, Webley e Furnham, 1995; Sócio-Economia e Finanças Comportamen-
Webley, Burgoyne, Lea e Young, 2001). Atua, tais, mas ainda pouco investigado em nos-
portanto, na interface dos fenômenos psí- so país.
quicos e econômicos, encontrados na vida A fim de situar melhor a trajetória dessa
das pessoas. área, apresentamos agora uma história su-
Na Europa, onde a Psicologia Econômica sur- cinta de seu desenvolvimento.
giu e se desenvolveu, bem como na Oceania
e América do Norte, onde também pode ser História
encontrada atualmente, já está estabeleci- O primeiro registro do aparecimento do ter-
da, com associações que reúnem seus estu- mo “Psicologia Econômica” ocorreu em 1881,
diosos, periódicos, vasta bibliografia, que com o cientista social francês Gabriel Tar-
inclui manuais, compilações e outras obras, de, que veio também a escrever um livro
sites na Internet, grupos de pesquisa, cur- com este título em 1902. O início do século
sos de graduação e pós-graduação, além de XX viu algumas tentativas, em vários países,
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congressos e workshops regulares. de ampliar o escopo da Economia através de


No Brasil, tivemos uma linha de pesquisa em contribuições de outras ciências humanas,
Psicologia Econômica dentro de um progra- geralmente por parte de pensadores e cien-
ma de Mestrado em Psicologia, coordenado tistas sociais (Van Raaij, 1999).
pela professora Alice Moreira, na Universi- Aliás, vale lembrar que a Psicologia Econô-
dade do Pará, em Belém, estudando de for- mica é considerada uma subdivisão da Psi-
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ma especial o significado do dinheiro. cologia Social, que teria, por sua vez, origem
Alguns outros trabalhos acadêmicos podem na Sociologia (Farr, 2002). Portanto, encon-
ser encontrados em nosso país (Halfeld, tramos entre os seus precursores tanto so-
2001, Mantovanini, 2003, Milanez, 2001, ciólogos, como psicólogos sociais.

1> O outro foi Herbert Simon, em 1978, por suas teorias a respeito de racionalidade limitada (bounded
rationality) (Simon, 1982).

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Na década de 1940, o psicólogo húngaro ra- teorias desvinculadas da observação mais
dicado nos EUA, George Katona, inicia uma direta.
série de pesquisas sobre o comportamento Em 1975, ele publica seus resultados no livro
econômico de grandes amostras da popula- Psychological Economics, que é considerado
ção norte-americana, incluindo hábitos de um marco histórico p a r a a Psicologia
consumo, atitudes e expectativas, e chega a Econômica.
conclusões diversas daquelas obtidas por Antes desta data, outros pesquisadores já
analistas econômicos (Katona, 1975). vinham investigando essa interface também
Os dados de Katona lhe permitiram fazer na Europa, e tinham início as primeiras ca-
previsões sobre o desempenho futuro da deiras de Psicologia Econômica nos cursos
Economia, que se mostraram mais corretas de graduação de algumas universidades eu-
do que aquelas elaboradas por economistas. ropéias, como Estrasburgo, com Pierre-Louis
Além de causar surpresa, isso lhe rendeu o Reynaud, em 1946, e Estocolmo, com Karl-
início de uma parceria com agências gover- Erik Wärneryd, em 1958 (Van Raaij, 1999).
namentais, que passaram a se interessar Em 1976, 12 pesquisadores se reuniram pela
pelas informações que ele e sua equipe co- primeira vez na Universidade de Tilburg, na
letavam periodicamente, através daqueles Holanda, para discutir seus trabalhos (Van
amplos levantamentos. Raaij, 1999). Este encontro modesto é con-
Qual a razão para haver disparidade entre siderado o primeiro colóquio de Psicologia
as análises realizadas por psicólogos e eco- Econômica, de uma série que chega à sua
nomistas, a respeito da Economia? trigésima edição em 2005, ocorrendo de
Observando o método adotado, até hoje, forma ininterrupta desde então, em dife-
pela maior parte dos economistas, verifica- rentes países europeus. (As únicas exce-
mos que estes fundamentam seus estudos ções foram Israel, em 1986, São Francisco,
basicamente em premissas sobre o com- EUA, em 1998, Nova Zelândia, em 2003 e
portamento humano, e a partir daí, em Philadelphia, EUA, novamente, em 2004).
fórmulas e modelos matemáticos, rara- Em 1981, fundou-se o periódico Journal of
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mente buscando dados empíricos a respei- Economic Psychology,* e em 1982, foi insti-
to da realidade que pretendem descrever tuída a International Association for
(Earl, 2003). Research in Economic Psychology – IAREP.
Katona, por outro lado, inovou ao levantar A associação conta atualmente com cerca
seus dados diretamente junto à popula- de 200 membros, entre psicólogos, econo-
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ção, e depois, ao interpretá-los à luz das mistas experimentais, administradores,


teorias da Psicologia Social, baseadas em es- publicitários e outros, espalhados majorita-
tudos de laboratório. Isso significa que riamente por todos os países da Europa,
havia pouco espaço, em suas análises, para mas também Oceania e América do Norte,

*> Disponível na biblioteca do IPUSP (Instituto de Psicologia da USP ), e em formato eletrônico, no Portal
CAPES de periódicos.

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e alguns aqui na América Latina e na Ásia. tas, da qual se derivam os demais funda-
Não se conhece pesquisadores do tema na mentos dessa ciência, é a chamada “teoria
África (Kirchler e Hölzl, 2003). da racionalidade”, ou neo-clássica. Ela pos-
Paralelamente, economistas norte-america- tula que, tendo as informações necessárias,
nos, também no início da década de 1980, o homem – o “agente econômico” – se com-
começaram a se reunir regularmente, e porta sempre de modo racional frente às
constituíram uma sociedade, a Society for decisões que precisa tomar, visando
the Advancement of Behavioral Economics otimizá-las. A partir desse grande pressu-
– SABE, com o objetivo de agregar um mai- posto geral, os economistas elaboram suas
or número de perspectivas ao estudo eco- teorias, análises e previsões. Suas ferra-
nômico, com a colaboração de ciências como mentas habituais costumam ser os modelos
sociologia, psicologia, antropologia, história, matemáticos, e geralmente, dispensam o
biologia e outras. Outros economistas deci- recurso à observação ou à coleta de dados
diram por um viés mais social e político, através de pesquisas ou experimentos
além do psicológico, e fundaram a Society (Earl, 2003).
for the Advancement of Socio-Economics, Está aí o grande pomo da discórdia entre
que conta com seu próprio periódico, o economistas e investigadores da mente.
Journal of Socio-Economics (Kirchler e Hölzl, Psicólogos – e psicanalistas – voltam-se
2003). fundamentalmente para a experiência
Mais recentemente, na década de 1990, uma prática, seja através da clínica, ou por ou-
ramificação dessas disciplinas começou a tros meios, como a pesquisa empírica, para
ganhar importância e visibilidade, as Finan- sustentar suas teorias e descobertas. Ao fa-
ças Comportamentais, que, como foi men- zer uso desses instrumentos, dificilmente
cionado, estudam o comportamento dos conseguem chegar à mesma conclusão a
mercados a partir de pontos de vista tam- respeito do funcionamento psíquico dos in-
bém psicológicos, embora incluam igualmen- divíduos quanto à presença de uma supos-
te a perspectiva histórica, sem abandonar ta racionalidade ilimitada em seu
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de todo os princípios da Economia tradicio- comportamento de modo geral.


nal (Tvede, 2000; Kindleberger, 2000; Para a maior parte dos economistas, porém,
Shiller, 2000). este ponto não está em discussão, e sua re-
Por que a Economia “tradicional”, também ceptividade às contribuições da Psicologia
chamada “mainstream”, por traduzir o pen- Econômica, Economia Comportamental, Só-
samento e linha de atuação predominantes cio-Economia e Finanças Comportamentais,
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dentro desse campo, vem sendo questiona- costuma ser pouco entusiasmada (ibid.). No
da por estas novas disciplinas? entanto, observamos hoje que o panorama
Em primeiro lugar, devemos mencionar a começa a se transformar, lentamente, já
visão de homem que ela defende, que pode apresentando algumas brechas no que diz
causar alguma perplexidade a estudiosos de respeito a uma inclusão desta perspectiva
outras áreas – e a psicanalistas em particu- multidisciplinar para estudar o compor-
lar. A grande teoria adotada por economis- tamento econômico. O prêmio Nobel, con-
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cedido recentemente a Daniel Kahneman, Psicanálise
parece apontar nessa direção, bem como o Teria a Psicanálise alguma coisa a dizer a
financiamento de pesquisas na área, e o respeito de tudo isso?
crescimento do número de cursos ofereci- Os psicanalistas são especialistas em com-
dos, além do interesse que o assunto vem portamento psíquico (Freud, 1911). Se enten-
despertando de forma crescente. demos comportamento econômico – o
As áreas de pesquisa dentro do campo objeto de estudo da Psicologia Econômica –
são variadas, e incluem temas como psi- como um dos aspectos do comportamento
cologia do dinheiro, tomada de decisão, psíquico mais amplo, teríamos, então, uma
bem-estar e meio-ambiente, comporta- importante colaboração a oferecer ao estu-
mento econômico de crianças e socializa- do da Psicologia Econômica (Ferreira, 2000).
ção e c o n ô mica, inflação, psicologia Considerando que o método utilizado por
trans-cultural, economia experimental, psicólogos econômicos não inclui a investi-
representações sociais, psicologia da dívi- gação baseada no contato regular, aprofun-
da, da poupança e do investimento, evasão dado e a longo prazo, entre duas
fiscal, motivação e satisfação no trabalho, personalidades, como pode ocorrer na rela-
e-commerce (comércio via internet), com- ção analítica, e que permite a apreensão
portamento organizacional, psicologia mais rigorosa dos fenômenos da subjetivi-
da pobreza, políticas econômicas, psicolo- dade (Bion, 1979), disporíamos, como psica-
gia do turismo, dentre outras (Kirchler e nalistas, de um conhecimento diferenciado
Hölzl, 2003). para o estudo do comportamento econômi-
Com relação à abordagem metodológica, co dos indivíduos, que acreditamos que po-
tem prevalecido a utilização de estudos deria enriquecer o campo da Psicologia
empíricos, através de levantamentos, pes- Econômica.
quisas de opinião e experimentos em labo- A reflexão acerca deste diálogo – suas pos-
ratório (Webley et. al., 2001; Earl, 2003). sibilidades, oportunidade e desafios – pode-
Muitos estudos seguem as linhas teóricas ria ter início a partir dos psicanalistas, de
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propostas pela Psicologia Cognitiva. Já no resto, acostumados que estamos a tratar,


nosso milênio, teve início também uma pelo ângulo emocional, de assuntos econô-
vertente que procura unir a Economia à micos com nossos clientes, uma vez que são
Neurociência, da n do origem assim à expressão, ao lado de outras, da vida psíqui-
chamada Neuroeconomia, que busca iden- ca. Nesse sentido, portanto, já estamos em
tificar o funcionamento neurológico asso- contato com o objeto de estudo da Psicolo-
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ciado ao comportamento econômico, com gia Econômica, embora não tenha havido
a ajuda de equipamentos modernos da ainda uma grande sistematização dessas
tecnologia de ma p e a m e n t o c erebral, idéias, nem sua divulgação em larga escala,
por exemplo, e trabalho de equipes mul- o que caracterizaria uma produção de co-
tidisciplinares reunindo neurocientistas, nhecimento sobre o tema.
economistas e psicólogos (Camerer et. al., Ao utilizarmos o método clínico (Bleger,
2003). 1984), que nos dá condições para observar,
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levantar hipóteses, formular questões e tro- cluiu que o brasileiro costuma associar te-
car idéias dentro da relação analítica, pode- mas que envolvam sexo e religião ao di-
mos oferecer importantes vertentes à nheiro.
exploração do campo psicológico-econômi- Permanecendo no contexto brasileiro, po-
co, ao lado daquelas habitualmente estuda- deremos constatar a importância capital de
das pelos colegas da Psicologia Econômica. tratar de tudo que se relaciona ao cresci-
Estes indicam manter uma abertura relati- mento socioeconômico, e às dificuldades
va – e talvez pudéssemos acrescentar, prag- envolvidas nesse processo. Um seminário
mática, também – quanto ao aumento do foi organizado em 1991 por pesquisadores de
volume de informações e dados a respeito diferentes disciplinas, na Universidade Fe-
do funcionamento mental. A psicanálise deral Fluminense, para tratar de questões
não é a língua comum do grupo, embora referentes à inflação, ou de modo mais am-
haja um grande interesse em conhecer mais plo, à então chamada ‘cultura da inflação’.
sobre o modo como operamos psiquicamen- Mais tarde, as apresentações foram publica-
te (Lewis et. al., 1995). Encontramos também das sob a forma de livro (Vieira, Barbosa,
algumas referências mais específicas a con- Prado, Leopoldi e D’Araújo, 1993).
tribuições da psicanálise ao tema do dinhei- Chama-nos a atenção, entretanto, a falta
ro, por exemplo, como a seção dedicada à de continuidade em se tratando de iniciati-
“loucura do dinheiro – dinheiro e saúde vas dessa natureza. Não temos notícia de
mental”, em Furnham e Argyle (1998), que outros empreendimentos equivalentes que
citam teorias desenvolvidas por Freud tenham buscado tratar de temas econômi-
(1908), Ferenczi (1926) e Fenichel (1947), cos de forma mais ampla, incluindo aí, por
sustentadas por trabalho empírico (Beloff, exemplo, como foi o caso no seminário cita-
1957; Grygier, 1961; Kline, 1967, 1971; do, a presença de psicanalistas, represen-
Wernimont e Fitzpatrick, 1971; Goldberg e tados por Joel Birman e Jeremias Ferraz de
Lewis, 1978; Howarth, 1980, 1982; Forman, Lima. Uma exceção seria o “Pré-encontro
1987; O’Neill et. al., 1992 e outros). de Psicologia e Economia – fronteiras, con-
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E por parte dos psicanalistas, existe interes- vergências, dilemas”, organizado em São
se em empreender este diálogo? Paulo, quase uma década depois, em 2002,
Em nosso país, Lima (1996), estudou o signi- por três psicanalistas,2 com o objetivo de
ficado de grafite anotado em notas de di- propor debates em torno de questões de
nheiro brasileiro ao longo de 7 anos natureza psíquica e econômica, reunindo
(1979-1986), que haviam sido retiradas de alguns profissionais dessas áreas e outros
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circulação. O autor é professor universitá- interessados.


rio, e realizou pesquisa empírica, nas depen- Conhecemos de perto, no entanto, as agu-
dências do Departamento do Meio das instabilidades da esfera econômica em
Circulante do Banco Central do Brasil. Con- geral, e do mercado financeiro, em particu-

2> Marco Aurélio F. Velloso, Nilton R. Filomeno e Vera Rita de Mello Ferreira.

>29
lar, e suas intensas repercussões no Brasil, tada”, que parece existir apenas em teoria.
bem como o preço salgado que pagamos por Ao contrário, observamos, na realidade, as
elas. Em outras palavras, identificamos a enormes dificuldades que nos confrontam
necessidade de criar um espaço para inves- quando tentamos pensar, alcançar pensa-
tigar e refletir sobre esses temas que nos mentos que ainda não nos estão acessíveis,
atingem de modo direto. encarar o que nos provoca dor e descon-
forto (Bion, 1961). Conseqüentemente, estas
Ilustração limitações de acesso às informações, ao co-
O período que antecedeu a eleição presi- nhecimento da realidade – seja ela interna
dencial de 2002 nos fornece um exemplo ou externa – provocam, de imediato, um
claro das grandes oscilações econômicas sério comprometimento na capacidade de
que sacudiram o país e suas frágeis reser- tomar as decisões mais acertadas, de usar
vas econômicas. Entretanto, a turbulência a “racionalidade” para nos permitir decidir
pareceu ter origem, predominantemente, sempre pelo mais favorável, “otimizar” nos-
no âmbito emocional, e não no econômico. sas decisões, como querem os economistas.
As reações em cadeia, a força dos boatos, o Quando analisamos situações concretas ao
poder de contágio de notícias, freqüente- lado de nossos clientes, na clínica, podemos
mente sem fundamento, entre analistas aprender a respeito da precariedade que
econômicos, agências de avaliação de risco nos acompanha, e estas observações, pen-
e meios de comunicação, as chamadas “pro- sadas e organizadas, poderiam se juntar
fecias de auto-realização”, tudo isso contri- aos dados reunidos por psicólogos econômi-
buiu para que perdêssemos tempo, energia cos, que os obtêm de outras formas.
e dinheiro valiosos (Ferreira, 2003). Ao mesmo tempo, o Brasil possui caracterís-
Não existe indenização por previsões equi- ticas específicas, diversas daquelas encon-
vocadas, que resultam em perdas concretas. tradas no hemisfério norte, onde a
Melhor seria se tais previsões não tivessem Psicologia Econômica tem florescido até o
sido feitas em primeiro lugar, e se em vez momento. Caberia, assim, discutir também
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delas, dados mais corretos e precisos, pro- as nossas necessidades, o nosso contexto e
piciando análises mais cuidadosas, pudes- as nossas alternativas, possivelmente em
sem ter sido oferecidas à população e ao parceria com outros países latino-america-
mercado em geral (ibid., 2002). Dessa forma, nos, como quem compartilhamos inúmeros
podemos pensar que haveria uma maior problemas socioeconômicos, para pensar
possibilidade de que decisões mais apro- como encaminhá-los.
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priadas pudessem ter sido tomadas. Sabe-


mos que o pânico não costuma ser bom Agenda
conselheiro. Em face às exigências, questionamentos e
Sabemos, também, que dispomos, tanto na transitoriedade com que nos deparamos de
coletividade, como na individualidade, de forma ininterrupta neste tempo de trans-
recursos psíquicos limitados, frágeis, muito formações velozes, não dispomos mais de
distantes da propalada “racionalidade ilimi- grandes paradigmas que sustentem nossas
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análises, respostas ou soluções. Por outro Referências
lado, uma multiplicidade de saberes (Santos, B ION, Wilfred Ruprecht (1961). A Theory of
1995), parece indicar, hoje, um outro tipo de Thinking. In: BION, Wilfred Ruprecht. Second
encaminhamento para nossos desafios ur- Thoughts . London: William Heinemann
gentes. É um encaminhamento inclusivo, Medical Books Limited, 1967.
que não rejeita colaborações, mesmo quan- _____ (1979). Making the Best of a Bad Job.
do aparentam ser inesperadas. In: BION, Wilfred Ruprecht. Clinical Seminars
A proposta de uma agenda para discutir and Four Papers. Abingdon: Fleetwood Press,
questões psicológico-econômicas reunindo, 1987.
de modo regular e sistemático, psicanalistas BLEGER, Jose. Psico-higiene e psicologia institu-
a outros profissionais, numa composição cional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
multidisciplinar, poderia ajudar a iluminar o CAMERER, Colin; HO, Teck-Hua e CHONG, Juin-Kuan.
muito que ainda desconhecemos sobre as A cognitive hierarchy of one-shot games. Anais
operações psíquicas que estão presentes do XXVIII International Association for
nos problemas de nossa época, ao lado dos Research in Economic Psychology Annual
outros fatores, mais especificamente so- Colloquium. Christchurch. Nova Zelândia, set.
ciais, econômicos, políticos, culturais. 2003.
Os vários aspectos relacionados ao compor- EARL, Peter. Economics and Psychology in the
tamento econômico individual e coletivo, a 21 st Century. Congresso Economics for the
função do dinheiro, as relações entre o Future, organizado pelo Cambridge Journal of
mundo emocional e o mundo financeiro e Economics. Reino Unido, set. 2003.
do trabalho, desemprego, o papel das infor- FARR, Robert. As raízes da picologia social mo-
mações econômicas, o esclarecimento do derna. Petrópolis: Vozes, 2002.
público a respeito do funcionamento da
F ERREIRA, Vera Rita de Mello. O componente
economia, e de suas próprias mentes, as
emocional – funcionamento mental e ilusão à
possibilidades de exploração de novas fon- luz das transformações econômicas no Brasil
tes de renda, a importância do poupar nas desde 1985 . Rio de Janeiro: Papel e Virtual,
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dimensões pessoal e nacional – são inúme- 2000.


ros os temas que aguardam atenção, pes-
_____ Ilusão e informação: podemos contri-
quisa e reflexão.
buir para aumentar o conhecimento sobre a
O diálogo entre Psicanálise e Psicologia conjuntura econômica? Pré-Encontro de Psico-
Econômica poderia, assim, começar a ser logia e Economia – fronteiras, convergências,
semeado. As duas áreas dispõem de grande
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dilemas. São Paulo, ago. 2002.


produção bibliográfica, e experiência práti-
_____ Again, what is it that you believe? –
ca. Há material para trocar, e a partir das
a study of psychological factors at work over
trocas, evoluir para a investigação mais am-
the market throughout major political-
pla e rigorosa da influência recíproca entre economic events. Anais do XXVIII International
os fenômenos psíquicos e o quadro econô- Association for Research in Economic
mico do país, ou seja, sobre o comporta- Psychology Annual Colloquium. Christchurch.
mento psíquico e econômico dos indivíduos. Nova Zelândia, set. 2003.
>31
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