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O ponto de partida da filosofia de Schopenhauer é o sistema

hegeliano e suas pretensões absolutas. Na época, a maioria dos


pensadores era contra a ideia de que exista um fundamento
imutável nas coisas. Com isso, a filosofia estava propensa a ceder
espaço à ciência, ou então tratará de reconstruir a partir de bases
totalmente desconhecidas até então.
Cronologicamente, Schopenhauer é o primeiro nome da lista contra
o hegelianismo: propõe uma volta a Kant para, a partir dele,
desviar-se da influência marcante de Hegel.
Sua filosofia é conhecida pelo pessimismo e sua vida pela solidão.
Para ele, a vida é sofrimento; a arte representava apenas uma
trégua temporária a este.
Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o
pensamento indiano na metafísica alemã, pois entendia-os como
uma confirmação da sua visão pessimista do mundo.

Schopenhauer via a existência como um teatro, uma


“representação” em que sempre se encena o mesmo drama, cujo
tema central é a dor e o sofrimento. Para ele, o mundo é um
absurdo que se renova sem cessar, mas sempre tendo como
constante o sofrimento.

Para ele uma força irracional e poderosa dominava o Eu e o mundo. Essa força era a vontade,
a vontade irracional de viver e persistir custe o que custar. O Eu e a razão são marionetes da
vontade. O mundo não é apenas representação (os fenômenos), mas vontade e
representação. A relação conflituosa de Schopenhauer com esses “anos selvagens” é a
linha mestra dessa obra de Safranski.

Nesses anos selvagens e ingênuos, somente Schopenhauer percebeu a verdadeira força que
move do mundo. A razão, tão venerada pelos filósofos desse período, para Schopenhauer
não passava de um “livro caixa” que registra entradas e saídas de dados. Ela tinha utilidade,
mas era superestimada, como é até hoje apesar de Nietzsche e Freud. A razão funda a
ciência, cura as doenças, constrói cidades e máquinas maravilhosas. Mas a vontade lança
as bombas, declara as guerras, domina, destrói e mata. É vontade de poder (e de viver) que
disfarça-se no discurso político e religioso e direciona a irracionalidade da razão. A vontade
não é apenas a energia que impulsiona o poder, o ódio e o egoísmo, mas também
comanda os sublimes atos de amor e entrega. Em tudo a vontade é força motriz. Tomado
de maravilhamento filosófico, Schopenhauer afirmou a fragilidade da razão. Ela nunca
esteve no controle. A razão é venerada pelos que pouco amaram ou pouco odiaram, pelos
que nunca desejaram ardentemente. A vontade irracional é o que nos agarra à vida.
Para ele, o ser humano seria essencialmente vontade, o que o levaria a desejar sempre mais,
resultando em uma insatisfação constante. Essa vontade, que se expressa nas ações humanas,
seria parte de uma vontade que anima todas as coisas da natureza. E, se a essência do ser
humano e do mundo é essa vontade insaciável, Schopenhauer identifica aí a origem das lutas
entre os indivíduos, da dor e do sofrimento.

A história é, para esse filósofo, a história de lutas, em que a infelicidade é a norma. Temos,
portanto, a recusa da concepção racionalista de história elaborada por Hegel, segundo a qual
ela possui um sentido e progride em direção a uma liberdade maior.

Para Schopenhauer, apenas pela arte e ascese – ou seja, o abandono de si – pode o ser
humano libertar-se da dor.

O pensamento de Schopenhauer parte da filosofia de Immanuel


Kant (1724-1804). Kant mostrou ao mundo que o fundamento do
conhecimento humano reside no próprio homem e não nas coisas que ele julga
conhecer. Kant mostrou como certos elementos essenciais que constituem
qualquer objeto não são propriedades do objeto, mas sim do próprio sujeito que
conhece. Antes dele, o filósofo John Locke (1632-1704) já havia lançado uma
teoria que estabelecia que qualidades como cor, som, odor e maciez seriam, em
parte, qualidades subjetivas, pois não pertenceriam exclusivamente aos objetos
- diferentemente de qualidades como a solidez, extensão, figura, que para
ele, Locke, seriam as qualidades reais dos corpos, presentes realmente
neles. Kant vai mais além: para ele, o próprio espaço e o tempo, formas
essenciais de todo objeto possível, residem em nossa própria consciência e não
nos objetos.

Influência direta para seu compatriota Friedrich


Nietzsche, Schopenhauer defendia que é um erro partirmos 'de fora' para
encontrarmos a significação tão procurada deste mundo. Dessa maneira, o
homem deveria mergulhar com atenção em si

Todo objeto é concebido como sendo um objeto no espaço e no tempo. Esta


revista que você tem nas mãos, por exemplo, você a concebe como ela estando
num certo ponto do espaço e num certo instante do tempo. Mas este ponto do
espaço e este instante do tempo não dizem respeito à revista tal como ela é em si
mesma, pois espaço e tempo são formas do seu aparato cognitivo, postas por ele
neste objeto que você tem em mãos. Este seria apenas um exemplo grosseiro
para ilustrar um pouco o pensamento de Kant. Para ele, o homem já traz em si
as formas e as estruturas essenciais com as quais vai perceber o mundo, e os
objetos só são por ele percebidos, experienciados e conhecidos por tais formas e
estruturas.

Sendo assim, o que o homem efetivamente conhece? As coisas como elas são em
si mesmas ou como lhe aparecem? À luz de Kant, vemos que o homem, em
razão de sua própria estrutura cognitiva (que já traz consigo as formas
essenciais constituintes dos objetos), só pode conhecer os fenômenos, isto é,
aquilo que do objeto lhe aparece, e não o objeto tal como é em si mesmo, isto é,
a coisa-em-si.

Partindo da filosofia kantiana, Schopenhauer nos evidencia sem rodeios que


não podemos afirmar que conhecemos de fato isto e aquilo, estes e aqueles
determinados objetos, mas sim que conhecemos o que percebemos deles - sendo
que o que percebemos deles não são os objetos tais como são em si mesmos, em
sua essência. O que conhecemos de tudo à nossa volta é apenas a nossa
representação, termo de Schopenhauer que reelabora o fenômeno de
que Kant fala. Tudo o que conhecemos do mundo, tudo o que dele percebemos,
é nossa representação. Schopenhauer já abre sua principal obra enunciando:
"o mundo é a minha representação.". Quando o homem se dá conta disso,
diz Schopenhauer, "pode-se dizer que nasceu nele o espírito filosófico. Possui
então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas
apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra,
ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua
relação com um ser que percebe, que é o próprio homem"

Segundo Schopenhauer, a essência de todas as coisas, que para ele seria a


coisa-em-si, é a Vontade. Vontade é um impulso cego, um ímpeto, uma força
vital, um esforço de vida, um querer viver incessante que seria o fundo íntimo
e essencial de todo o universo. O universo inteiro seria manifestação e
expressão da Vontade. Ela é que seria o fundo essencial de todos os fenômenos.
O mundo assim apresenta dois lados, como as duas faces de uma mesma
moeda: o mundo como representação e o mundo como vontade.

O mundo como representação é a vontade tornada objeto; é a vontade


objetivada, isto é, tornada perceptível. À vontade objetivada, tornada objeto
perceptível, Schopenhauer chama "objetidade" ou "objetivação" da
vontade. Os fenômenos são todos manifestações da vontade segundo diferentes
graus de sua objetidade ou objetivação. Assim, as forças gerais e primitivas da
natureza correspondem ao grau mais baixo da objetivação da vontade. É a
gravidade, impenetrabilidade, solidez, fluidez, elasticidade, eletricidade,
magnetismo; fenômenos que são as manifestações imediatas da vontade. A
vontade se objetiva em graus cada vez mais elevados, do reino inorgânico ao
reino orgânico, do reino vegetal ao animal, sendo o ser humano sua mais alta
expressão, o grau extremo de sua objetidade. Para Schopenhauer, podemos
reconhecer esse querer viver, essa força vital, esse impulso e ímpeto incessante
de vida que é a vontade em todos esses graus de sua objetivação, desde nas
forças como a gravidade e o magnetismo, nas pedras, no crescimento de uma
planta, na vida de um animal, até no homem. Tudo isso é a objetidade dessa
mesma vontade, é a vontade tornada perceptível, tornada objetos (forças, seres,
coisas etc.). Este, então, é o mundo como vontade.

A vontade é incessante e insaciável. Podemos reconhecer este seu caráter numa


planta, por exemplo, que é uma de suas muitas e variadas manifestações: ela
cresce e se desenvolve a partir de uma semente, forma sua haste, suas folhas,
flores e frutos - frutos que contêm novas sementes que gerarão novas plantas e
assim por diante, num ciclo infindável que exprime o impulso incessante de vida
que é a vontade.

Quando consegue saciar seus desejos, o homem tem um prazer passageiro ou


ainda tédio; tem dor quando não o faz ou quando sua realização se dá de forma
lenta. Quando não sabe o que quer, quando seu desejo não tem um objeto
determinado, o homem se aborrece e se encontra num estado de "languidez
mortal". A vida humana é assim, profundamente marcada por
sofrimento, pois ela é apenas a manifestação de uma vontade
infindável, esfomeada, irresistível e insaciável. Schopenhauer diz que
o ser humano não nasce condenado à morte; o homem nasce condenado à
vida. "Viver é sofrer." Daí sua fama de extremo pessimista.

A vontade insaciável se refaz constantemente por ela mesma; "sob as diversas


formas que reveste, constitui o seu próprio alimento". Um animal só pode
manter sua vida à custa de um outro ou de uma planta; esta, à custa da terra, da
água etc.. A natureza assim se alimenta de si mesma, e por isso é marcada por
constante luta e combate. Na filosofia de Schopenhauer não há um Deus que
engendre e assim justifique tal ordem das coisas; o mundo tal como o
conhecemos é apenas o fenômeno de uma fome insaciável, a manifestação da
vontade de viver sem fim, essência íntima de todo o universo. A vida de um
indivíduo humano, como a vida de qualquer outro ser e como qualquer
acontecimento do universo, não seria algo que obedece a alguma razão, lei ou
dignidade elevada ou divina. Para Schopenhauer, uma vida humana, com
sua história, suas realizações, seus desejos, suas dores, aspirações,
sentimentos, ideais e projetos, nada mais seria do que um fenômeno
passageiro da vontade. Daí também o caráter amargo que muitos conferem à
sua filosofia.

Mesmo o homem sendo o grau mais alto de manifestação da vontade, seria


errôneo se entendêssemos que nele há "mais vontade" do que numa planta. Isso
porque a vontade não se reparte quando se objetiva; ou seja, quando se torna
objetos perceptíveis diferentes, a vontade não se divide neles. Não há mais dela
num leão do que numa pedra. A vontade é una e indivisível; "mais" e "menos"
dizem respeito aos graus de sua expressão: o reino orgânico é um grau maior de
expressão da vontade do que o reino inorgânico, o animal é um grau maior de
sua expressão do que o vegetal, e o ser humano é a sua mais alta expressão.

Do mesmo modo, a vontade não precisa de todos os indivíduos de uma mesma


espécie para se manifestar inteiramente por esta espécie; bastaria apenas um.
Como diz Schopenhauer: "ela manifesta- se tão bem e tanto em um carvalho
como em um milhão de carvalhos.". A vontade apresenta-se una e indivisível
em cada ser, do mais simples ao mais complexo; una e indivisível em cada canto
do universo.
Schopenhauer diz que 3 condições explicam as diferenças na felicidade entre
as pessoas:

1. O que somos: personalidade (o critério mais importante)


2. O que temos: riqueza e ativos (é necessário um mínimo de posses para ser
feliz)
3. O que nós representamos: fama, posição, honra.

1 / O que somos:

Saúde é a condição sine qua non da felicidade. Ser é o que mais importa e
“acompanha-nos ao longo da vida” (ao contrário de riqueza ou reputação que
podem mudar).

Schopenhauer distingue dois tipos de homens: o homem normal e homem


intelectual.

– Para o homem normal, a vida é para passar o tempo para aumentar sua riqueza
externa. No entanto, é efêmera, já que sua vida é uma eterna insatisfação. Incide
sobre as forças reprodutivas (comer, sexo) e os prazeres da irritabilidade (viagens,
guerra). Em outras palavras, o homem normal foge, ele vive fora de si mesmo.

– Para o homem intelectual, a vida é solidão escolhida que enriquece o interior, ele
é “autossuficiente” e não tem nada a esperar dos outros. Suas atividades são as
de sensibilidade: pensar e contemplar, que são “centro de gravidade que cai
dentro de si mesmo”

2 / O que temos:

O homem intelectual deve ter muito pouco porque:

– Ele aprendeu a restringir seus desejos

– Falta de trabalho deixa tempo para pensar

O homem normal baseia sua vida na acumulação, o trabalho que lhe permite
aliviar o tédio

3 / O que nós representamos:

Todo mundo tenta evitar o desprezo e humilhação, para obter um parecer


favorável dos outros. Portanto a opinião dos outros é prejudicial para a nossa
felicidade. O homem sábio deve distinguir entre o valor do que ele é em si mesmo
e o julgamento de outras pessoas. A vaidade é a base deste desejo de
reconhecimento. Outros não podem fazê-lo feliz.

Em outras palavras, o homem sábio deve viver sozinho, no orgulho de seu próprio
valor.

2. A definição de felicidade por Schopenhauer:


Felicidade, segundo Schopenhauer, é medida pelos males que foram evitados, e
não pelos prazeres que provamos. Não viver feliz, mas o menos infeliz quanto
possível, então. A definição de felicidade, de acordo com Schopenhauer é,
portanto, negativa (vide felicidade segundo estoicismo)

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