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Contexto Histórico do Novo Testamento

I) A origem e a evolução da Revolta dos Macabeus

O Império Persa foi destruído por ação fulminante de Alexandre Magno na batalha
de Isos (333 a.C.). Em um primeiro momento os hebreus não sentiram as mudanças, pois
Alexandre Magno manteve inalterada a administração da Judéia e os judeus tiveram a
sensação que apenas havia mudado o rei. Era ademais costume pensar que Deus
exercia sua autoridade em Israel por meio do grande rei estrangeiro. Com efeito,
Alexandre continuou com a política de tolerância política e religiosa instaurada pelos
persas, concedendo aos hebreus a oportunidade de viver segundo a lei.
Judá e Samaria passaram do domínio persa ao grego sem impor nenhuma
resistência. Assim, a conquista de Alexandre deixou Judá na situação em que se
encontrava sob o império persa: formando parte da mesma província da Síria, pagando o
mesmo tipo de tributo, gozando da mesma tolerância religiosa e com o mesmo
predomínio das autoridades religiosas na vida da cidade e em todo o território.
Depois da inesperada morte de Alexandre em 322, seu império se desintegrou,
caindo nas mãos de seus generais que em breve, depois de terem assumido o título de
governadores das províncias onde se encontravam, assumiram o título de rei. Houve
divisão em quatro partes entre seus generais. Os dois reinos que nos interessam,
entretanto, foram os Selêucidas (norte) e os Ptolomeus (Egito). A Palestina foi submetida
ao domínio dos Ptolomeus. Em 312 a cidade de Jerusalém foi ocupada e uma parte da
comunidade foi deportada para o Egito onde fundaram a grande comunidade da diáspora
em Alexandria. A Palestina que havia permanecido tranqüila durante a época de
Alexandre, estará agora envolvida em lutas e passará das mãos de uns aos outros
durante todo o período de 323-301, até quando se estabiliza o domínio dos Ptolomeus
que abrange 301 a 200 a.C.
No ano 200, Antíoco III derrotou os egípcios na Batalha de Panion (200 a.C.) e a
Palestina passou a formar parte do Império Selêucida que tinha seu centro na Síria. Na
verdade, segundo Flávio Josefo, “os judeus passaram espontaneamente à parte de

1
Antíoco III, lhe abriram as portas da cidade e lhe ofereceram abundantes provisões para
seu exército e seus elefantes” 1. Um século de domínio ptolomaico havia chegado ao fim.
A derrota de Filipe V da Macedônia frente aos romanos incitou a Antíoco III a
apoderar-se das propriedades macedônicas em Ásia Menor e inclusive a ocupar uma
parte do território grego. Os romanos responderam invadindo a Ásia Menor no ano 190 e
infligindo uma derrota recidiva a Antíoco em Magnésia. As duras condições que os
romanos lhes impuseram provocaram a desintegração do poder selêucida. Antíoco III
morreu em 187, precisamente ao intentar apoderar-se do tesouro do templo de Bel em
Susa para pagar as dívidas.
Em 175 sobe ao trono da Síria Antíoco IV, famoso Antíoco Epífanes, o qual
buscava dinheiro a todo custo para pagar o forte tributo que Roma havia imposto a
Antíoco III. Alvo da sua busca desesperada é o templo de Jerusalém que, como todos os
templos da antiguidade, funcionava como banco. Encontra, no entanto, forte rechaço da
parte do Sumo Sacerdote Onias III e de todo o povo que temia perder a sua capital. Então
um irmão de Onias III, Jasão, promete ao rei o dinheiro do Templo se fosse nomeado
Sumo Sacerdote 2. Isso produz a destituição de Onias. A compra do ofício e a nomeação
de Jasão er intolerável aos olhos dos observantes da lei. Mais grave ainda foi a
cooperação de Jasão e de alguns pro-helenísticos para a total helenização da Cidade
Santa. Ainda que essa reforma não significasse o abandono da Torah como norma
religiosa, senão tão somente como lei constitucional da cidade, para os judeus piedosos e
fiéis à lei, era uma verdadeira apostasia das leis dos ancestrais que haviam regido a vida
do povo desde o período persa e haviam sido confirmadas pelos editos de Antíoco III.
A reforma foi levada a cabo com a autorização real. Um ginásio foi construído não
longe do Templo e inclusive os sacerdotes preferiam participar nas competições atléticas
a dedicar-se ao serviço do culto. A nudez, o rigor nos concursos atléticos, levou a muitos a
ocultar a marca da circuncisão e a associação dos jogos com o culto de Hércules e
Hermes que constituía um ultraje aos fiéis observantes da lei.
A situação agravou quando Menelau sucedeu seu irmão Simão no oficio de
prostates (administrador do Templo) e, como tal, responsável do pagamento do imposto.
Aproveitando uma viagem a Antioquia para pagá-lo, conseguiu comprar para si mesmo a
função de Sumo Sacerdote, oferecendo uma soma maior que a de Jasão. Pela primeira

1
Ant. XII, 133.
2
Os judeus já eram acostumados a algum tempo a considerar o Sumo Sacerdote, de certo modo, como dependente do
grande rei.

2
vez a descendência sadoquita se viu privada do Sumo Sacerdócio. Jasão se viu obrigado
a abandonar Jerusalém e a refugiar-se na Transjordânia.
Menelau, para poder pagar as quantidades prometidas, não hesitou a lançar mão
do tesouro do templo, um fato que revoltou a opinião pública. Logo após a morte de
Antíoco III, Jasão aproveitou a ocasião para atacar Jerusalém à frente de um exército.
Com o apoio da maioria da população obrigou a Menelau a procurar refúgio não muito
distante dali. Toda essa luta entre Menelau e Jasão gerou uma grande rebelião e tumulto
na Judéia. Já frustrado com seu fracasso no Egito (Dn 11,29-30), Antíoco decidiu castigar
a rebelião. Entrou na cidade aproveitando do repouso sabático dos habitantes e a
submeteu ao tratamento habitual das cidades rebeldes: matança dos varões, venda das
mulheres e crianças como escravas e destruição dos muros da cidade.
Com essas medidas, a reforma helenística da cidade chegou ao seu cume. Só
faltava a formulação jurídica da nova situação e essa chegou com os famosos decretos
de Antíoco IV (1 Mac 1,41-51; 2 Mac 6,1-9). Com isso, as prerrogativas do estatuto da
cidade reconhecidas pelos editos de Antíoco III foram anuladas, e a liberdade para seguir
as “tradições ancestrais” foi substituída pela ordem de “que todos formassem um só povo,
abandonando cada um suas tradições” (1 Mac 1,41-42).
Para Jerusalém e Judá isso significava, como precisa 1 Mac, a supressão dos
sacrifícios no santuário, a construção de altares pagãos em todas as cidades, a abolição
da circuncisão e do repouso sabático, a introdução de sacrifícios pagãos e etc. Foram
nomeados inspetores para assegurar o cumprimento das ordens em todas as cidades,
para velar pela execução dos sacrifícios e para perseguir aos que, em público ou em
segredo, se negavam a acatar os mandados do rei. Essas medidas chegaram ao cume
com a supressão do sacrifício perpétuo do templo, com a ereção de um altar pagão junto
ao altar dos sacrifícios em 6 de dezembro de 167, “a abominação da desolação” (Dn
11,31) e a dedicação do templo a Zeus Olímpio. A “reforma” helenística estava assim
completa e Jerusalém do sumo sacerdote Menelau podia integrar-se na grande corrente
helenística do mundo oriental.

1) Rebelião Macabaica

Em 165 toma as armas em defesa da Torah contra Menelau e os sírios que o


apoiava, Matatias, Sumo Sacerdote, que morre no ano sucessivo, mas deixa à frente da

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guerra seus filhos, “os macabeus”. Na verdade, o período que se inicia com a revolta
macabaica se caracteriza por uma transformação progressiva dessa rebelião religiosa em
um movimento de liberação nacional, cuja finalidade será restabelecer o antigo reino
judaico independente. A realização dessa aspiração será possível graças a decadência do
poderio selêucida e a seus contínuos conflitos internos 3.
Ao movimento dos Macabeus se unem os “ASSIDEUS” ou “MASSIDIM” (1 Mac
2,42), que logo se retiram e se refugiam no Egito. Parte desse grupo formou depois o
partido dos “fariseus”. Outros sacerdotes do mesmo grupo decidiram refugiar-se no
Deserto onde adotaram a particular forma de judaísmo chamada “Essênios”.
No início a revolução foi passiva, como mostra o incrível número de mártires (2
Mac 6,18-7,42; 4 Mac 5-18). Contudo, muito cedo essa resistência passou à rebelião
armada. Matatias mata um judeu (disposto a oferecer um sacrifício pagão) e um oficial
grego responsável pelos sacrifícios (1 Mac 2,15-30) . Depois, Matatias e seus cinco filhos
se refugiam nas montanhas. Está assim iniciada a revolta que será caracterizada,
sobretudo, por táticas de guerrilha e terá como êxito a liberação do país. Matatias
começou uma série de rápidos ataques, nos quais destruía os altares pagãos, impunha
por força a circuncisão, eliminava os partidários da cultura helênica e regressava
rapidamente aos refúgios das montanhas.
Matatias morreu pouco depois e deixou como chefe do grupo não o filho maior,
mas sim Judas, que desde o início se distinguiu na luta. Judas recebeu o nome de
Macabeu (martelo) que depois passou a denominar toda a família. Judas aproveitou ao
máximo seu conhecimento do terreno, lançando outros ataques surpresas que lhe
proporcionaram outras tantas vitórias 4. A província da Síria já não foi suficiente para
abafar a revolta, exigindo interferência direta do poder central selêucida. Parece, segundo
2 Mac 11,27-33, que um grupo pro-helenístico pediu ao rei Antíoco IV de oferecer certa
anistia aos judeus, mas essa manobra política não alcançou a meta almejada . De fato,
poucos meses depois, 14 de dezembro de 164, conquista Jerusalém, purifica o templo e
reconstrói o altar. Três anos depois da supressão, retornam a oferecer sacrifícios (1 Mac
4,36-59; 2 Mac 10,3-8). Essa festa da dedicação do templo se perpetua ainda hoje com o
nome de hanukka. Menelau foi deposto e executado pelas mãos dos próprios gregos,
3
KOESTER, H., Introdução ao Novo Testamento. 1 historia, cultura e religião do período
helenístico, São Paulo 2005, 216: “Antíoco começou a perseguir os devotos judeus, não por
razões religiosas, mas para submeter um povo revoltado. A visão tradicional, de que a revolta
foi uma reação a perseguição religiosa, não se sustenta (...) É difícil avaliar a intensidade da
perseguição, porque as informações transmitidas pelos Livros dos Macabeus são
principalmente lendárias”.
4
Segundo 1 Mac 8, Judas usou sua habilidade política para fazer aliança com os romanos e assim incrementou a força
ao menos moral da revolta.

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claro que em resposta à pressão macabaica (asmonéia). O rei da província Siríaca se
retirou para Antioquia, deixando Jerusalém totalmente nas mãos de Judas e seus
partidários.
Terminada a primeira parte da revolta, Judas continuou lutando para amplificar os
limites do território judaico. Judas pôde aplicar seu projeto expansionista sem maiores
problemas com os gregos, pois Antíoco IV morreu em 164 (1 Mac 6,1-16) e a luta por seu
sucessor debilitou mais ainda o reino Selêucida. Contudo, passada a crise, Demétrio I,
sucessor de Antíoco IV, lançou um ataque fulminante no ano 161. A superioridade grega
era evidente e Judas pereceu no campo de batalha e seu exército se debandou (1 Mac
9,1-22).

2) Jônatas (161-143) e Simão (142-134)

Por um breve momento após a morte de Judas, o país esteve novamente em mãos
de todos e de ninguém. Então a maioria absoluta elegeu a Jônatas, irmão de Judas, como
seu líder máximo. Jônatas gozou de certa paz e pode estabelecer sempre com mais
força o seu domínio, de modo que em 153 ele era a única figura política de peso em todo
o país. Ainda em 153 Jônatas começou a exercer a função de sumo sacerdote. O
sucessor de Demetrio I, Alexandre Balas, deu a Jônatas não só essa função de sumo
sacerdote, mas também o governo livre sobre Jerusalém. Jônatas, agora com o apoio
selêucida, continuou ainda mais a sua expansão territorial. Anos depois, já quando os
selêucidas tinham como rei Antíoco VI, filho de Alexandre Balas, Jônatas retomou
relações diplomáticas com Roma e com Esparta. Um ex-amigo de Antíoco VI, Trifão,
revoltou-se contra o rei e temendo intervenção de Jônatas, o aprisionou (1 Mac 12, 39-54)
e o matou (1 Mac 13,12-24) 5.
Após a morte de Jônatas, o povo elegeu a seu irmão Simão como sucessor. O cume dos
seus esforços bélicos consistiu no assédio e a rendição da Acra de Jerusalém. Em Junho

5
Josefo menciona pela primeira vez aos fariseus, saduceus e essênios durante o reinado de Jônatas.
Josefo descreve os três grupos como seitas puramente religiosas, que só se diferenciam entre si por
suas diferentes posições frente aos problemas como a predestinação, a imortalidade, a existência
dos anjos etc. Um dos ramos dos essênios se refugiou no deserto esperando, na solidão de Qumran,
uma salvação puramente escatológica. Todavia, os distintos grupos de fariseus e saduceus
disputaram nos anos seguintes no controle da cena política. Os saduceus como o partido da
aristocracia sacerdotal e os fariseus como continuadores dos hasidim e representantes do povo.

5
de 141 ele tomou posse da fortaleza acabando assim com o último vestígio do domínio
estrangeiro. Em 140 foi empossado como sumo sacerdote e a sua descendência
declarada soberana hereditária (1 Mac 14,41-42) até que surgisse um profeta que
tomasse a frente do povo. Como esse decreto, gravado em placas de bronze e colocado
em um recinto do templo, se instaurava uma nova dinastia hereditária, a dinastia
asmonéa, que conservará o poder político e religioso do país até que esse caia nas mãos
dos romanos. Simão consolidou seu poder mediante renovação do tratado de amizade
com Roma e com Esparta e soube se defender dos ataques selêucidas. Simão terminou
tragicamente os seus dias vítima de uma conspiração familiar. Seu genro Ptolomeu de
Abubos assassinou a Simão e a dois de seus filhos (1 Mac 16,11-16).

3) O Reino dos Asmoneus (135/34-63)

João Hircano (135/34-104) foi o único dos filhos de Simão que escapou do ataque
de Ptolomeu de Abubos. Ele assumiu a função de sumo sacerdote e intentou sem hesito
vingar a seu pai e seus irmãos. Um ataque imprevisto de Antíoco VII obrigou João Hircano
a medidas bem moderadas: abandono das armas, destruição dos muros da cidade,
pagamento de tributos. Conseguiu, contudo, evitar que se fosse instalada uma guarnição
em Jerusalém.
Imediatamente depois da morte de Antíoco VII, Hircano começou uma política de
expansão sem encontrar nenhum obstáculo por parte dos selêucidas. Entre outras
empresas, atacou Siquém e destruiu o templo samaritano de Garizin. Foi o primeiro rei
asmoneu a contratar e a manter permanentemente um exército de mercenários
estrangeiros. Segundo Josefo, para poder pagá-los, Hircano chegou até mesmo a
saquear a tumba de Davi e roubar suas riquezas. Isso nos mostra que a transformação
macabaica não contava com o inteiro respaldo do povo. O antagonismo crescia
veementemente e Hircano se viu obrigado a apoiar nos saduceus, rompendo, portanto,
com o partido dos fariseus, que haviam sido determinantes durante o início da revolta
macabaica. Segundo Josefo, ele não só passou para o lado saduceu como proibiu e
castigou quem observava as normas farisaicas, o que cresceu o ódio das massas contra
ele e contra seus filhos. Com Hircano, o poder asmoneu se estendeu enormemente,
apesar de ter sido sob ele que apareceram os elementos que levaram a dinastia à ruína:

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distanciamento progressivo do povo e abandono dos ideais macabaicos. Antíoco VII
Sidetes preparava-se para invadir a Judéia, mas concluiu um acordo pelo qual Hircano
concordou em renunciar a todas as conquistas feitas por seu pai e em pagar um tributo
substancial; Antíoco, por sua vez, reconheceu a independência de Hircano e deixou a
Acra para os judeus. Quando Sidetes foi morto em batalha contra os partos (129), uma
campanha de que João Hircano foi obrigado a participar, o perigo de interferência siríaca
chegou ao fim, pois o reino selêucida nunca mais recuperou seu poder militar e sua
influência política 6.
Hircano morreu no ano 104 deixando o sumo sacerdócio ao maior de seus filhos,
Aristóbulo, e o poder político a sua esposa. Aristóbulo não aceitou a divisão de poderes,
encarcerou seus irmãos, fez morrer de fome a sua mãe e foi o primeiro asmoneu que
assumiu o título de rei. Aristóbulo I reinou só um ano. Entre seus poucos feitos constam o
assassinato de seu único irmão e a “judaização” forçada da Galiléia.
À sua morte, no ano 103, sua viúva, Alexandra Salomé, liberou a seus irmãos do
cárcere, se casou com um deles e o nomeou sacerdote: Alexandre Ianeu (103-76). A
oposição farisaica lhe foi cada dia mais forte. Segundo Josefo, em retaliação a um
incidente no qual lhe arremessaram limões, Alexandre matou 6.000 fiéis fariseus! O
descontentamento estalou uma verdadeira guerra civil. Os fariseus pediram ajuda a
Demétrio III, então rei selêucida. Alexandre Ianeu se vingou cruelmente exterminando os
insurgentes e crucificando 800 dos sublevados em Jerusalém enquanto banqueteava com
suas concubinas! Instaurou-se um regime tal de terror que, segundo Josefo, 8.000 de
seus oponentes abandonaram a cidade e permaneceram em exílio durante todo o seu
reinado.
Após a morte de Alexandre, lhe sucedeu a sua viúva Alexandra Salomé (76-67).
Aconselhada pelo mesmo Ianeu, antes de sua morte, buscou o apoio dos fariseus, a
quem lhes confiou as rédeas do governo e manteve o poder durante todo seu reinado.
Nomeou sumo sacerdote a seu filho maior, Hircano II, débil e indolente. Permitiu aos
fariseus controlar o órgão supremo do governo. Restabeleceu as leis farisaicas abolidas
por João Hircano e ordenou a seus súditos a obedecê-las, a ponto de Josefo afirmar que
“lhe davam o nome de rainha, mas os fariseus tinham o poder”. A reação do saduceus
era inevitável. Ao final de seu reinado Aristóbulo, seu filho menor, liderava esse grupo e
estava próximo a usurpar-lhe o reino, mas a rainha morreu antes.

6
KOESTER, H., Introdução ao Novo Testamento, 221.

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Seu filho Hircano II assumiu, após a morte da mãe, a função real, mas
imediatamente seu irmão Aristóbulo II (67-63) lhe apresentou batalha, lhe derrotou junto
a Jericó e lhe obrigou a renunciar a realeza e ao sumo sacerdócio em seu favor. Dado o
caráter apático de Hircano II, a coisa teria permanecido assim se Antípater, governador da
Iduméia e pai do futuro rei Herodes, o grande, não tivesse intervindo. Acompanhado de
Antípater, Hircano II fugiu de Jerusalém e se refugiou em Petra, capital do reino Nabateu.
Enquanto isso, Pompeu havia sido enviado pelo Senado Romano para resolver
problemas na Ásia, durante sua viagem, no ano 65, enviou seu legado a Judá. Os dois
irmãos (Aristóbulo II e Hircano II) lhe enviaram mensageiros para apoiar suas respectivas
causas. O legado romano optou finalmente por Aristóbulo II.
No ano 64, Pompeu acabou definitivamente com o reino selêucida transformando a
Síria em província romana. Pompeu recebeu novamente em Damasco Aristóbulo II e
Hircano II, cada um defendendo seus direitos e acusando seu adversário, e uma terceira
comissão do povo que rechaçava a ambos e pediam a restauração da antiga teocracia.
Pompeu, cuja intenção era empreender uma campanha contra os nabateus, escutou a
todos, mas reservou sua decisão para mais tarde. Aristóbulo II, temendo que Pompeu,
dessa vez, desse preferência a seu irmão, fez frente contra Pompeu. O general romano
abandonou sua expedição contra os nabateus e contra-atacou. Quando Pompeu se dirigia
para Jerusalém, Aristóbulo abandonou a idéia de resistir e ofereceu a rendição da cidade.
Pompeu lhe fez prisioneiro e enviou Gabino para tomar posse de Jerusalém. Contudo, os
partidários de Aristóbulo lhe negaram acesso e Pompeu foi pessoalmente assediar a
cidade. Enquanto os partidários de Hircano lhe abriam as portas da cidade sem
derramamento de sangue, os partidários de Aristóbulo II se refugiaram na colina do
Templo dispostos a resistir. Depois de um assédio de três meses, os romanos, atacando
do norte, conseguiram abrir uma brecha nas defesas do templo e o próprio Pompeu
penetrou no Santo dos Santos. Com a tomada do templo, meados do ano 63, sucumbiu o
último vestígio da soberania asmonéia e a independência nacional tão dificilmente
conquistada.

II) Palestina sob o domínio Romano

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1) De Pompeu a Herodes (63-37)

Após a conquista de Pompeu, todas as cidades da costa e da Transjordânia


anexadas pelos asmoneus foram separadas do Estado Judeu e ficaram sob jurisdição da
recém-criada província da Síria. O estado judeu foi reduzido a Judá, Galiléia, Iduméia e
Peréia. Á frente desse Estado, Pompeu instalou a Hircano II, privado do título de rei, mas
conservando o de sumo sacerdote. O território não foi anexado diretamente a Roma,
porém era ligado à Cidade Eterna por meio do sistema de imposto. Nos planos de
Pompeu, Judá, como Estado vassalo, devia formar um cinturão protetor da província
romana, separando o perigo árabe e parto respectivamente. Pompeu se retirou levando
prisioneiros a Aristóbulo II e a seus filhos Alexandro e Antígono. Alexandro conseguiu
escapar no caminho, mas Aristóbulo teve de tomar parte no triunfo de Pompeu, no ano
611, marchando diante do carro do vencedor.
A Palestina não permaneceu tranqüila por muito tempo. No ano 56, Aristóbulo II
conseguiu fugir de Roma com seu filho, Antígono. Ele voltou imediatamente à sua terra na
pretensão de tomar o governo do país, mas foi facilmente vencido e enviado novamente a
Roma. Lá foi assassinado pelos partidários de Pompeu, já que ele era favorável ao
governo de Júlio César. Seu filho Alexandro também foi decapitado em Antioquia por
ordens de Pompeu. O único que sobreviveu foi Antígono para continuar a contenda contra
Hircano II. Esse último, por sua vez, seguia cada vez mais influenciado por Antípater.
Depois que César venceu e matou Pompeu no Egito, Hircano II e Antípater passaram
decididamente ao campo de César.
César confirmou Hircano II em suas funções de sumo sacerdote. César declarou
Antípater governador de Judá, conferindo-lhe ainda o título de cidadão romano e isento de
impostos. Antípater aproveitou a nova situação para fortificar seu controle nomeando a
seus filhos Herodes e Fasael governadores da Galiléia e de Jerusalém respectivamente.
Herodes, futuro Herodes Magno, se distinguiu imediatamente por sua eficiência e sua
falta de escrúpulos, capturando e executando sem juízo um bando de rebeldes
(bandidos). Quando Hircano II, pressionado pela aristocracia sacerdotal, lhe chamou para
ser julgado no sinédrio, Herodes se apresentou acompanhado de sua escolta, intimidando
a seus juízes. Graças à intervenção do governador da Síria escapou sem ser julgado e só
devido à intercessão de seu pai e de seu irmão Fasael, desistiu de vingar-se de Hircano
II.

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O assassinato de César em Roma, no ano 44, obrigou a Antípater e a Hircano II a
uma nova mudança política, já que Cássio, um dos assassinos de César, conseguiu
controlar a província da Síria e a fez base das operações contra Antônio. Pouco depois
Antípater morria, envenenado em uma conspiração.
Quando Cássio e o resto dos partidários de Pompeu foram derrotados por Antônio
no ano 42, a situação de Herodes se fez crítica. Sobretudo quando uma embaixada do
sinédrio se apresentou ante Antônio para acusar a Herodes e a Fasael. Todavia, Herodes
foi pessoalmente defender-se e logrou não só afastar o perigo como ser nomeado tetrarca
juntamente com seu irmão Fasael.
Pouco depois, no ano 40, a situação em Palestina muda bruscamente. Os partos,
inimigos perpétuos dos romanos, conseguiram controlar todo o Oriente Médio durante um
breve período. Com sua ajuda, Antígono logrou se apoderar de Jerusalém. Hircano II e
Fasael foram feitos prisioneiros, mas Herodes conseguiu refugiar-se juntamente com sua
família na fortaleza de Massada e depois fugir para Roma. Os partos instalaram como rei
a Antígono (40-37). Antígono fez cortar as orelhas de Hircano II, incapacitando-o assim
para exercer as funções sacerdotais e ocupou seu posto como sumo sacerdote. Fasael se
suicidou jogando-se contra uma rocha.
Em Roma, Herodes contava com o apoio de Antônio quem convenceu o senado de
nomear a seu amigo rei de Judá nos finais dos anos 40 7. Contudo, somente em 37
Herodes conquistou Jerusalém e começou a reinar efetivamente. De 40 a 37, o que se viu
foi uma contínua luta entre Herodes e Antígono pelo reinado. Essa divisão refletia não só
a oposição entre o poder romano e o poder parto, cada um apoiando seu preferido, mas
também as oposições sociais e internas do país. Herodes, judeu só pela metade (de
origem iduméia) não era aceito como rei pela maioria do povo. Antígono representava a
legitimidade asmonéia, na qual o poder provinha do povo, enquanto Herodes, rei vasalho
de Roma, representava a soberania romana. Com o apoio de Roma, Herodes conquistou
a costa, libertou sua família assediada em Massada, submeteu a Galiléia e sitiou
Jerusalém no ano 37. Durante o assédio, Herodes se dirigiu a Samaria para contrair
matrimônio com Mariamme, neta de Hircano II, tentando assim legitimar aos olhos do
povo sua nomeação real. Antígono foi feito prisioneiro e executado em Antioquia por
ordens de Antônio e petição de Herodes 8. Com ele desaparece a dinastia asmonéia e o
poder passa para a mão de Herodes.
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Aos olhos dos romanos isso soava muito interessante, pois Herodes representa o homem forte capaz de impor limites à
expansão dos Partos.
8
Foi a primeira vez que os romanos efetuaram uma sentença de morte sobre um rei. Tal fato deixa transparecer o moral
de Herodes frente a Roma.

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2) Reinado de Herodes, o Grande (37-4 a.C.)

No ano 37 a.C., Herodes era, de nome e fato, Rei da Judéia, ainda que por ser
idumeu não era considerado verdadeiro hebreu. Tal fato o impedia de exercitar o sumo
sacerdócio. Ele remediou essa carência de poder arrogando-se o direito de nomear e tirar
os sumos sacerdotes. Durante toda sua vida, nunca foi grato nem aos saduceus nem aos
fariseus 9.

9
Esse período se caracterizou por um fenômeno massivo de abandono da cidade, seja por ódio ao império romano, seja
por oposição à classe dominante. Assim o campo e as regiões da periferia em geral se converteram em lugar de revoltas
e onde se cultivavam algumas idéias messiânicas.

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Podemos dividir o reinado de Herodes em três períodos: o primeiro de
consolidação do poder, o segundo de prosperidade e apogeu, o último de decadência,
caracterizado por problemas familiares e de luta pela sucessão.
Na primeira parte de seu reinado (37 a 25), os principais ataques provêm dos
descendentes da família asmonéia. Quando no ano 36, Hircano II foi liberado do cativeiro
entre os partos, Herodes aproveitou a sua incapacidade para exercer a função de sumo
sacerdote para nomear a Ananel, um sacerdote de origem babilônica. Essa primeira
tentativa de privar os asmoneus do sumo sacerdócio, não surtiu efeito, pois, sob pressão
de sua sogra Alexandra e de sua esposa Mariamme, Herodes se viu obrigado a instalar o
legítimo candidato asmoneu, Aristóbulo III, irmão de Mariamme, filho de Alexandra e neto
de Hircano II. Contudo, quando Herodes viu o êxito que o jovem tinha entre o povo,
decidiu eliminá-lo, fazendo-o afogar enquanto tomava banho em uma piscina em Jericó. O
sacerdócio passou a ser apenas um instrumento político nas mãos de Herodes. Suprimiu
o caráter vitalício e hereditário da função e privou o seu ocupante de todo influxo na
esfera política. Com a eliminação de Aristóbulo desaparecia de cena o mais perigoso dos
descendentes asmoneus 10.
O resto da família seguiria a mesma sorte nos anos sucessivos. No ano 30,
Herodes assassinou ao velho Hircano II sob pretexto de uma suposta conspiração. No
ano 29, seria sua própria esposa Mariamme a vítima de Herodes. No ano 28, Alexandra,
filha de Hircano II e mãe de Mariamme, seria executada ao intentar aproveitar-se da
enfermidade de Herodes para ganhar o poder. Mediante essa eliminação sistemática de
todos os descendentes da família dos asmoneus, Herodes consolidou sua posição dentro
do país.
O conflito entre Otaviano e Antônio, porém, ameaçou mais uma vez a supremacia
herodiana. Herodes fôra favorável a Antônio. Quando Antônio, que se refugiara no Egito
depois da batalha de Accio (31 a.C.), cometeu suicídio, Herodes, em um movimento de
astúcia impressionante, viajou para Rodes, onde Otaviano se encontrava, e depositou sua
coroa aos pés do vencedor. Otaviano aceitou o gesto, reempossou Herodes em seus
direitos como rei da Judéia e, um ano depois, acrescentou a costa Palestina, a Samaria e
Jericó à jurisdição herodiana (30 a.C.). Posteriormente, Herodes também recebeu as

10
Ainda que Herodes não tenha suprimido o sacerdócio totalmente, a decadência dessa função é notória durante seu
reinado. Também os saduceus, fariseus e essênios perderam todo o influxo na cena política. O único partido ao qual
Herodes honrou e tratou com respeito foi o dos essênios, que se havia apartado e se mantinha à margem da cena
política.

12
áreas setentrional e oriental do mar da Galiléia. Ele reinou sobre toda essa região até sua
morte em 4 a.C., como déspota absoluto e vassalo fiel de Augusto 11.
O segundo período do reinado de Herodes (25 a 13 aproximadamente) pode ser
descrito como de prosperidade e florescimento. O que mais impressiona são suas
construções. Em lugar da antiga capital do norte, Samaria, Herodes fundou a
12
esplendorosa cidade grega Sebaste . Na costa da Palestina, ele construiu uma nova
cidade, totalmente em estilo helenístico, que se tornou porto importante e mais tarde sede
do governador romano, ela foi chamada de Cesaréia em homenagem a César Augusto.
Inúmeras outras cidades foram recuperadas ou revitalizadas. A segunda preocupação de
Herodes foi reforçar as fortalezas na fronteira oriental do seu reino, incluindo a fortaleza
de Massada no Mar Morto. Finalmente, Herodes gastou grandes somas de dinheiro em
prédios em Jerusalém, principalmente para a construção de um novo Templo. Suas
fundações foram ampliadas (o atual “Muro das Lamentações” é parte dessas fundações
herodianas) e o Templo foi reconstruído totalmente. As obras começadas no ano 20, não
terminaram completamente senão no ano 62 d.C., poucos anos antes de sua destruição!
Em Jerusalém, construiu também a fortaleza Antônia, ao norte da esplanada do Templo.
Herodes também deu atenção a outros santuários sagrados de Israel, como o de Abraão
em Mambré, embora não negligenciasse os cultos pagãos em seu país. Em Cesaréia e
em Jerusalém, estabeleceu jogos quinzenais e financiou os jogos olímpicos da Grécia.
Aliás, ele ajudou financeiramente a muitas cidades, inclusive fora das fronteiras de seu
reino. Durante esse segundo período, Herodes aparece como um príncipe helenístico
modelo, apesar de seu aparente respeito pelas tradições judaicas.
O último período de seu reinado (13 a 4 aproximadamente) é completamente
dominado pelas querelas internas da família real e por conflitos para obter sua sucessão.
Herodes teve uma família numerosa. Josefo lhe atribui nove mulheres. Os filhos com
Mariamme, Alexandro e Aristóbulo, os havia enviado a Roma para que fossem educados
ali, pois os havia destinado a ser seus sucessores. Quando esses voltaram, o medo de
que eles quisessem vingar a sua mãe, fez com que Herodes os acusassem diante do
imperador. No ano 7, os dois foram executados! Antípater (neto) passou a ser o preferido
para a sucessão. O rapaz, no entanto, não teve a paciência necessária e conspirou antes
contra o velho Herodes. Como represária, Herodes o encarcerou e nomeou a Antipas
como futuro sucessor. Poucos dias antes de sua morte, Herodes recebeu a autorização
de Augusto, fez executar a Antípater e mudou novamente seu testamento. Como
11
KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, 392.
12
Sebaste vem de “Sebastos”, tradução grega de “Augusto”.

13
sucessor, com o título de rei, nomeou Arquelau; a Antipas, nomeou tetrarca da Galiléia e
Peréia e a Filipe o nomeou tetrarca da região de Batanéa, Traconítide, Gaulnítida e
Panias. Cinco dias depois, na primavera do ano 4 a.C., Herodes morria em Jericó vítima
de uma larga e dolorosa enfermidade. Tinha 70 anos. Seu cadáver foi solenemente
transportado através do deserto de Judá e depositado no Herodium. Conta-se que para
que houvesse quem chorasse sua morte, ordenou que quando estivesse para morrer,
fossem assassinados alguns nobres da sua corte e velados juntos, assim haveria motivo
de lagrimas durante seu velório 13 !

III) De Herodes, O Grande, à Guerra contra Roma (4 a.C. - 66


d.C.)

1) A sucessão de Herodes

A autonomia do país, conservada por Herodes, o Grande, dependia demasiado de


suas qualidades pessoais para perpetuar-se depois de sua morte. Surgiram numerosos
focos de rebelião após seu falecimento, ao ponto que Varo, governador da Síria, teve que
intervir para restabelecer a ordem. Varo submeteu rapidamente o país, incendiou Séforis,
liberou Jerusalém e limpou o território dos bandos de rebeldes, crucificando 2.000 entre
eles.
Em seu testamento, Herodes havia dividido seu território entre seus filhos. Uma
delegação de Jerusalém procurou convencer Augusto a não dar continuidade a essa

13
Herodes passou para a história como um tirano cruel. Inclusive Mt o retrata assim no episódio da matança dos
pequeninos. Contudo, prescindindo de juízos morais, Herodes mereceu o apelativo de “Grande” com o qual é lembrado.
Soube respeitar as leis judaicas, sem as impor aos que eram de índole helênica. Permitiu desenvolver a agricultura e o
comércio. Com a fundação de Cesaréia e seu grande porto marítimo, proporcionou um novo estímulo ao comércio. As
riquezas pessoais do rei eram enormes. Provinham das possessões iduméias herdadas de seu pai, das propriedades reais
dos asmoneus, dos bens confiscados a outros nobres e das exportações comerciais. Contudo, não poderia ter construído
tanto se não houvesse imposto um pesado sistema de impostos. Foi ele quem introduziu a coleta de impostos por parte
dos publicanos tal como conhecemos no NT. A pressão fiscal era excessiva para a maioria das classes sociais. Depois da
morte de Herodes, uma das primeiras coisas que seus súditos pediram a Arquelau foi precisamente a redução de
impostos. Durante seu reinado não houve fortes rebeliões. Isso foi possível graças à presença do poderoso exército
herodiano, formado em sua maioria por mercenários estrangeiros. Em suma, Herodes, com sua clara visão das
realidades políticas, sua falta de escrúpulos e sua atuação decidida como leal vassalo de Roma, proporcionou ao país um
largo período de estabilidade e de paz e conseguiu conservar um resto de identidade nacional na medida que isso era
ainda possível.

14
dinastia odiada, preferindo mesmo que a Palestina fosse reduzida à província siríaca.
Augusto, contudo, resolveu reconhecer o testamento do seu leal amigo e vassalo.
Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.) recebeu a Judéia e a Samaria, que equivaliam a
aproximadamente metade do território que seu pai havia governado. Ele recebeu o título
de “etnarca”, com a promessa de que mais tarde se tornaria rei, se sua administração
correspondesse às expectativas. Mas esse não foi o caso: o seu reinado é qualificado por
Josefo como “brutal e tirânico”, só soube inspirar o medo entre seus súditos (Mt 2,22).
Acusado de ser extremamente violento, foi deposto em 6 d.C. e exilado para Vienne, na
Gália. Sua deposição provocou uma mudança fundamental na sua região que passou a
ser governada diretamente pela administração romana.
Filipe ( 4 a.C.-33/34) se tornou tetrarca das áreas norte e leste do mar da Galiléia:
Traconítide, Gaulanite e Auranite. Ele construiu sua residência no sopé do monte Hermon
e a chamou de “Cesaréia” em honra a Augusto; para distinguir essa cidade da fundação
de Herodes com o mesmo nome (Cesaréia Marítima), ela se tornou conhecida como
Cesaréia de Filipe (Mc 8,27s). Parece que Filipe foi um governante dependente justo. Sua
mulher foi sua sobrinha-neta Salomé, filha de Herodiades, que pediu a cabeça de João
Batista quando ela estava na corte de Antipas. Filipe morreu em 34 d.C. sem deixar
herdeiros. À sua morte, seu território foi acrescentado à província romana da Síria, mas
pouco depois, no ano 37, passou de novo a um príncipe herodiano, Herodes Agripa.
Herodes Antipas (4 a.C.-39 d.C.) foi nomeado “tetrarca” da Galiléia e da Peréia. Ele
seguiu os passos do pai; astuto e cruel, mas também amante do esplendor, e todavia sem
verdadeira grandeza. Ele continuou o programa de construções do pai, primeiro
ampliando a capital, Séforis – apenas alguns quilômetros distante de Nazaré – em
seguida, construindo uma segunda capital às margens do mar da Galiléia, a que deu o
nome de “Tiberias” (Tiberíades) em homenagem ao imperador Tibério. Essa cidade era
habitada predominantemente por pagãos e, de acordo com os relatos de todos os
evangelhos do NT, Jesus nunca esteve lá. No séc II d.C., Tiberíades tornou-se a
metrópole do judaismo rabínico. Antipas é o “Herodes” mencionado em Lc 3,1; Jesus o
chamou “raposa” (Lc 13,32). Ele também aparece em Lc 23,6-16 como soberano judeu, a
quem Pilatos enviou Jesus para ser interrogado. Finalmente, Antipas é lembrado pelo NT
e por Josefo como o executor de João Batista. Antipas foi casado com uma princesa
nabatéia que o abandonou quando ouviu rumores de que ele pretendia casar com sua
sobrinha Herodíades (irmã do futuro rei Agripa I, neta de Herodes Magno e de Mariana),
que era mulher do irmão de Antipas, Herodes (Mc 6,14-19 erroneamente diz que ela é

15
mulher de Filipe). João Batista havia atacado publicamente Antipas por causa desse
escândalo, um ato que lhe custou a cabeça. Custou, também, a Antipas seu reino, porque
a separação de sua ex-mulher levou à deterioração das relações com o reino vizinho da
Nabatéia. Essa foi provavelmente a razão de sua deposição e banimento para Lion na
Gália por ordem de Calígula (39 d.C.), quando Antipas pediu a Roma para receber o título
de “rei”. Tudo se deu pelo influxo de Herodíades. Ela, invejosa de Agripa, que havia
recebido de Calígula o título de rei, quis que o marido pedisse a mesma coisa. O
resultado foi a perda da Tetrarquia, que passou ao mesmo Agripa, e o desterro de
Herodes 14. Na vida de Herodes se cumpria a palavra do verdadeiro Mestre: a quem não
tem, até o que julga ter lhe será tirado.

2) A Judéia sob a Administração Romana

Depois da deposição de Arquelau (6 d.C.), Augusto administrou os distritos da


Judéia, Samaria e Iduméia por intermédio de um prefeito que era responsável direto
perante o imperador, mas dependia do legado da Síria para ajuda militar. Esse legado
também continuou como administrador romano. Quirino (Lc 2,2) tornou-se o novo legado
da Síria, Coponi o primeiro prefeito da Judéia. Como a Judéia passou para a
administração romana direta em 6 d.C., foi feito um “censo”, isto é, a implantação de um
cadastro de impostos. Lucas usou essa informação para justificar a viagem dos pais de
Jesus desde Nazaré na Galiéia até Belém na Judéia.
A sede do governo foi Cesaréia Marítima. Somente durante os dias de grandes
festas o prefeito residia em Jerusalém; uma guarnição permanente estava estacionada na
fortaleza Antônia, ao lado do Templo. As outras fortalezas do país também eram
guarnecidas por soldados romanos.
O país estava dividido em onze toparquias, cada uma governada por um sinédrio
judeu ou samaritano com jurisdição sobre pequenos processos judiciais. Casos mais
importantes dos sinédrios na Judéia precisavam ser encaminhados para o sinédrio em
Jerusalém. Acusações que envolviam pena de morte precisavam ser apresentadas ao
tribunal do prefeito. O prefeito também era responsável pela coleta de impostos diretos, o
que era feito por meio de funcionários. Impostos indiretos eram recolhidos por exatores
privados (publicanos). Essa prática provocou muitas queixas e tumultos. Os exatores de
14
KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, 395.

16
impostos, que colaboravam voluntariamente com a administração romana e quase
sempre enriqueciam, tinham má reputação 15.
As primeiras duas décadas da administração romana na Judéia parecem ter sido
relativamente livres de atritos. Maiores dificuldades começaram quando Pôncio Pilatos em
26 d.C. foi enviado para a Judéia como prefeito do distrito. Pilatos mostrou uma
acentuada falta de respeito pela sensibilidade religiosa de seus subordinados e uma
grande dureza na repressão de todo movimento revolucionário com a autoridade romana.
Uma de suas primeira ações foi mandar introduzir em Jerusalém durante a noite uns
estandartes com a imagem do imperador. A firme reação do povo o obrigou a levar os
estandartes de volta a Cesaréia. Em outra ocasião, Pilatos decidiu empregar o tesouro do
templo para financiar a construção de um arqueduto para Jerusalém. A revolta do povo foi
então sufocada com numerosos mortos e feridos. Ele não hesitou em comandar
execuções sumárias, como se evidencia por um incidente mencionado em Lc 13,1.
Quando Pilatos atuou intempestiva e brutalmente contra um movimento de fanáticos
religiosos na Samaria, o legado da Síria, Vitélio, recomendou que ele fosse chamado de
volta a Roma. Ele teve de ir a Roma para explicar sua conduta. Parece que foi obrigado a
suicidar-se (36 d.C.).

3) Agripa I (41-44)

Agripa I era o filho de Aristóbulo, o segundo dos filhos de Herodes com Mariamme,
assassinado no 7 a.C. e de Berenice, a filha de Salomé irmã de Herodes, e como tal,
herdeiro tanto da línea asmonéia como da herodiana. Sendo ainda uma criança, foi
enviado a Roma para ser educado. Se fez amigo íntimo do então Calígula, mas terminou
sendo encarcerado pelo imperador Tibério. Quando Calígula ascendeu ao trono no ano 37
d.C., pôs imediatamente em liberdade o seu amigo, lhe concedeu a antiga tetrarquia de
Filipe e ortogou-lhe o título de rei. Mais tarde, no ano 39/40, o imperador lhe deu também
16 17
a tetrarquia de Herodes Antipas . Quando Calígula morreu assassinado , Agripa
influenciou ativamente em Roma a favor de Cláudio, quem, uma vez obtido o império,
recompensou a Agripa seus esforços suprimindo a província romana da Judéia e
15
Ibid, 396.
16
Provavelmente o próprio Agripa tenha auxiliado para a remoção de seu tio.
17
KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, 395: “Calígula deu ordens para que sua estátua fosse colocada
no Templo de Jerusalém. Em 40 o legado sírio Petrônio foi para a Palestina para reforçar a ordem do imperador, mas
recuou ao perceber que essa imposição provocaria uma revolução. Todavia, antes que Petrônio e Agripa pudessem
convencer o imperador a anular sua ordem insensata, Calígula foi assassinado”.

17
acrescentando Judá, Samaria e Iduméia às possessões do rei. O país voltava assim a ter
um rei geral tal como no tempo de seu avô, Herodes Magno.
Tal como o seu avô, intentou ganhar o reconhecimento tanto dos judeus como dos
não judeus. Fora de Judá atuou como um verdadeiro soberano helenista. As moedas
cunhadas fora de Jerusalém levam sua imagem e a do imperador. Patrocinou toda sorte
de espetáculos, tanto em Cesaréia como em outras cidades. Josefo recorda um combate
monstruoso de 1.400 gladiadores organizado pelo rei. Contudo, ao julgar pela imensa
alegria com a qual os habitantes de Sebaste e Cesaréia celebraram sua morte, Agripa
não conseguiu ganhar a simpatias dos súditos não judeus. No âmbito judaico teve mais
sorte. Residindo em Jerusalém, suprimiu parte dos impostos a seus cidadãos. Josefo
conclui que, se Herodes preferiu seus súditos gregos, Agripa mostrou sua predileção
pelos judeus. Talvez tenha sido justamente esse desejo de agradar os judeus que firmou
sua forte oposição à jovem comunidade cristã. Os Atos dos Apóstolos narram a execução
do apóstolo Tiago e o encarceramento de Pedro (At 12,1-19). Não é estranho que a
tradição cristã tenha apresentado a sua súbita morte como um justo castigo divino (At
12,19-23). Segundo Josefo, ele morreu a causa de horríveis dores intestinais. Josefo
concorda com At ao dizer que ele morreu quando era aclamado como um deus pela turba.

4) Segunda Fase da Administração Romana

Ainda que Cláudio tenha pensado ao princípio de transferir o reino de Agripa a seu
filho Agripa II, mudou de idéia e transformou a Palestina inteira província romana e enviou
Fado como procurador.
Agripa deixou um filho de mesmo nome que ainda era menor de idade. Agripa II
não se tornou sucessor do pai mesmo depois de alcançar a maioridade. Recebeu a antiga
tetrarquia de Filipe e mais tarde parte da Galiléia juntamente com Tiberíades. Além disso,
ficou responsável pela supervisão do Templo de Jerusalém. O autor dos Atos dos
Apóstolos o lembra como o rei Agripa que visitou o procurador Festo durante o julgamento
de Paulo (At 25-26). Na ocasião, Agripa estava acompanhado por sua irmã Berenice, com
quem corriam comentários que viviam uma relação incestuosa. Berenice mais tarde se
tornou amante do general e depois imperador Tito 18.
Junto à pequena parte designada a Agripa II, Roma organizou toda a área da
Palestina como província. O primeiro procurador foi Cúspio Fado (44-46). Foi ele quem
18
Ibid, 399.

18
reprimiu a insurreição de Teudas, que o Livro dos Atos situa incorretamente antes da
revolta de Judas, o Galileu. Teudas, profeta e chefe de um movimento messiânico de
libertação, havia reunido uma grande multidão junto ao Jordão prometendo que as águas
se abririam quando passassem. Fado matou a muitos desses rebeldes, decapitando
também o líder (At 5,36).
O sucessor de Fado foi Tibério Alexandro (46-48), sobrinho do filósofo Fílon de
Alexandria. Durante o seu governo, a fome assolou o país e só o socorro externo pôde
salvar o país. O procurador sucessivo foi Ventídio Cumano (48-52), desterrado por não ter
sido capaz de agir com astúcia na ocasião de uma revolta samaritana.
A situação se deteriorou ainda mais durante o governo do procurador Antônio Félix
(52-59), um ex-escravo. Segundo Josefo, “não passava um dia sem fazer guerra a todos
os grupos rebeldes, principalmente os zelotas”. Sua política de terror obrigou os
revolucionários a refugiar-se na clandestinidade e a desenvolver uma nova tática de
assassinatos políticos, cometidos com punhais curtos (sicae) durante as grandes
aglomerações festivas. Esse foi o chamado grupo dos “Sicários”. Muitas pessoas eram
arrastadas por qualquer um que si dizia “profeta”. Félix atuou contra eles com a mesma
força que contra os zelotas. O caso mais famoso foi o do profeta “egípcio” com o qual
Paulo será confundido (At 21,38). Esse profeta reuniu numerosos partidários no deserto e
os conduziu até o Monte das Oliveiras com a intenção de atacar Jerusalém. Félix os
atacou ali mesmo, matou 400 e prendeu 200. Tais atitudes de Félix não suprimiram as
revoltas, antes intensificou a revolta contra os romanos 19.
Como sucessor de Félix, o imperador Nero nomeou a Pórcio Festo (60-62), que se
mostrou incapaz de controlar a anarquia reinante no país. Festo encontrou Paulo
prisioneiro em Cesaréia e terminou por enviá-lo a Roma para que ali fosse julgado (At 25-
26). Festo morreu exercendo seu governo. Aproveitando do intervalo entre sua morte e a
chegada do novo procurador, o sumo sacerdote Anano, saduceu, convocou o sinédrio e
fez executar Tiago, líder da comunidade de Jerusalém.
O novo procurador, Albino (62-64) não tinha outro interesse que o de enriquecer-se
o mais rápido possível, aceitava todo tipo de suborno ao ponto de Josefo afirmar que “as
únicas pessoas que permaneciam no cárcere eram as que não podiam pagar”. Esvaziou
os cárceres, executando os criminosos mais notórios e colocando em liberdade os
demais, de modo que “o país ficou cheio de bandidos”.
19
KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, 399: “Um dos distúrbios neutralizados pelas
autoridades judaicas em colaboração com a administração romana foi o que ocorreu no
Templo, provocado pelo apóstolo Paulo, que foi reconhecido e acusado de ter introduzido um
gentio no recinto sagrado” (At 24).

19
O último procurador foi Gésio Floro (64-66). Com ele a situação piorou ainda mais.
Organizou sistemáticos espólios de cidades e aldeias. Quando se atreveu a tocar o
tesouro do templo, o início da revolta se fez incontrolável.

IV – As Guerras contra Roma (66-135 d.C.)

1) A primeira Guerra Judaica (66-74 d.C.)

O tumulto popular ocasionado pelas atitudes de Géssio Floro foi seguido por uma
repressão sangrenta que ocasionou uma verdadeira batalha em Jerusalém. O povo
conseguiu se apoderar da guarda do templo e a cortar as comunicações com a fortaleza
Antônia. O procurador, demasiado débil para submeter a revolta à força, se retirou a
Cesaréia deixando só uma corte em Jerusalém. A intervenção desesperada de Agripa II
para acalmar os ânimos e convencer os insurgentes da inutilidade da revolta não obteve
nenhum resultado e o rei se retirou a suas possessões.
Ao mesmo tempo, um grupo de rebeldes conseguiu se apoderar da fortaleza de
Massada. Em Jerusalém, os zelotas conseguiram atrair a seu bando a Eleazar, o chefe da
guarda do templo. Esse logrou suprimir o sacrifício diário pelo imperador, o que equivalia
a uma ruptura oficial com Roma e uma declaração prática de guerra. Os rebeldes,
reforçados pelas armas trazidas pelos sicários do arsenal de Massada, obrigaram os
soldados de Agripa a abandonar a cidade, incendiaram os palácios do rei e do sumo
sacerdote, se apoderaram da fortaleza Antônia e do palácio de Herodes e aniquilaram a
corte romana. Os zelotas atacaram também o partido de paz, matando o sumo sacerdote
Ananias e provocando a primeira cisão dentro do movimento rebelde.
A revolta repercutiu inevitavelmente nas demais cidades do país. Os combates se
estenderam até mesmo a Alexandria! O legado da Síria, Cestio Galo, decidiu intervir
(outono 66). Ele apareceu diante de Jerusalém, mas os rebeldes agora controlavam a

20
cidade. Cestio Galo não estava preparado para resistir e, incapaz de tomar Jerusalém,
recuou. Durante a retirada, o seu exército foi atacado pelos rebeldes, que lhe infligiram
pesadas baixas. O próprio legado só escapou com muita dificuldade. Esses
acontecimentos demonstravam que os romanos tinham de lidar com algo a mais do que a
simples indignação do povo causada pela incompetência de um procurador: eles estavam
diante de um movimento inspirado por idéias messiânicas revolucionárias que contavam
com a lealdade de grande parcela da população.
Essa inesperada vitória selou a sorte da revolta silenciando os partidários da paz.
Todos começaram a preparar o país para a inevitável contra-ofensiva romana. Uma
assembléia reunida no templo escolheu como chefes José ben Gurion e o antigo sumo
sacerdote Anano ben Anano. Galiléia, por onde devia começar logicamente o ataque
romano, foi encomendada a Josefo, filho de Matias, procedente de uma nobre família
sacerdotal e fariseu convencido, futuro historiador Flávio Josefo.
Enquanto Nero passava o tempo na Grécia vencendo uma competição depois da
outra em vários jogos gregos, ele confiou a repressão da rebelião ao experiente general
Vespasiano. Vespasiano reuniu três legiões e várias tropas auxiliares durante o inverno de
66/67 e começou a campanha na primavera de 67. Seu primeiro alvo foi a Galiléia. Depois
de um cerco de várias semanas, Josefo teve de se render à conquista. Ele próprio se
entregou aos romanos e, como prisioneiro valioso e conselheiro, foi mantido no
acampamento de Vespasiano. Foi nessa ocasião que ele previu que Vespasiano se
tornaria imperador, o que lhe deu mais tarde a liberdade e a amizade de Roma. Pouco
depois, Tito conseguia importantes vitórias e Vespasiano tomava posse de Tiberíades,
que se rendeu sem combater. Aos finais do ano 67, toda a Galiléia estava de novo
submetida aos romanos.
No ano 68, Vespasiano começou uma série de operações cuja finalidade era isolar
Jerusalém do resto do país. No verão de 68, os sublevados controlavam somente
Jerusalém e a região do Heródio até o Mar Morto. A tomada de Jerusalém teria sido
questão de pouco tempo se a atenção romana não tivesse tido que se centrar em
assuntos mais urgentes para o império.
Em junho de 68, com a morte do imperador Nero, Roma entrou em uma crise
política que assolou o império durante um ano. Galba, nomeado imperador pelo senado,
foi assassinado em janeiro de 69 pela guarda pretoriana, que proclamou a Oton em seu
lugar, enquanto que as legiões germânicas proclamaram imperador a Vitélio. As legiões
do Egito e Síria, por sua vez, proclamaram imperador a Vespasiano. Seus partidários

21
derrotaram a Vitélio em dezembro de 69 e a meados de 70, uma vez restabelecida a paz
em Roma, Vespasiano abandonou Alexandria para instalar-se na capital.
Esses acontecimentos mantiveram inativo durante um ano o exército romano na
Palestina. Os rebeldes, contudo, ao invés de aproveitar a trégua para fortalecer suas
posições, se entregaram a uma luta fratricida dentro de Jerusalém. A ala extrema dos
zelotas com João de Giscala à frente, se fez dono da situação e começou a eliminar
sistematicamente a todos os que poderiam ser considerados simpatizantes dos romanos.
O partido moderado, dirigido pelos sumos sacerdotes Anano filho de Anão e Jesus filho de
Gamaliel, organizou uma revolta popular contra os zelotas e os obrigaram a refugiar-se no
templo. João de Giscala, entretanto, reassumiu o poder, matando Anano e Jesus,
passando a governar Jerusalém como um verdadeiro tirano. O povo então recorreu a um
outro chefe rebelde, Simão bar Giora, mas o que aconteceu foi que agora haviam dois
tiranos lutando em um pequeno espaço. Eleazar separou-se do cumpro de zelotas,
deixando de se submeter a João Giscala. O que havia agora eram três partidos. Simão
fortificou as partes mais largas e distante das muralhas; Juan, o centro da cidade e
Eleazar, o templo.
Essa era a situação de Jerusalém na primavera de 70, quando Tito, a quem
Vespasiano havia encomendado a continuação da guerra, se dispôs a atacar a cidade.
Tito organizou parte de sua tropa no Monte das Oliveiras. Só depois que os romanos
começaram o ataque contra a cidade, e depois que João conseguiu eliminar a Eleazar e
seus partidários, cessaram as lutas internas e os defensores uniram seus esforços para
fazer frente ao inimigo comum. João de Giscala se encarregou de defender a fortaleza
Antônia e o templo; Simão bar Giora, a cidade alta. Contudo essa reconciliação veio
demasiado tarde: os heróicos esforços dos defensores não serviram em nada frente à
formidável máquina de guerra dirigida por Tito.
O ataque começou pelo norte da cidade. Para evitar a fuga dos assediados e forçar
a rendição por fome, Tito fez construir em um tempo brevíssimo um muro de pedra de uns
7 km arredor da cidade. Ao final de julho, os romanos conquistaram a fortaleza Antônia. O
sacrifício perpétuo, que havia continuado ininterruptamente mesmo durante todo o
transcurso da guerra, foi suspenso definitivamente em 6 de agosto. Ao final de agosto
(segundo a tradição judaica, a mesma data da destruição do primeiro templo) o santuário
foi destruído. Tito havia ordenado incendiar as portas para poder apoderar-se dos átrios;
mas, segundo Flávio Josefo, o fogo se alastrou incendiando tudo. Na matança que seguiu

22
ao incêndio, Juan de Giscala conseguiu escapar e se refugiou na cidade alta, ainda
defendida por Simão bar Giora. Em setembro, também a cidade alta foi incendiada.
Tito fez a sua entrada triunfal na cidade. Os habitantes que não haviam sido mortos
na contenda foram executados, vendidos como escravos ou transportados como
prisioneiros a Roma para serem exibidos no triunfo de Tito e Vespasiano, celebrado no
ano 71. Entre os prisioneiros se encontravam João de Giscala e Simão Bar Giora; o
primeiro foi condenado à prisão e o segundo executado imediatamente depois da
cerimônia triunfal.
Próximo à Jerusalém se mantinha ainda refugiado um grande grupo de rebeldes na
fortaleza de Massada. Essa fortaleza ocupava um esplendoroso complexo rochoso à
beira do Mar Morto e era praticamente inexpugnável. Durante toda a contenda
permaneceu sob poder dos sicários dirigidos por Eleazar, filho de Yair, um descendente
de Judas Galileu. Os romanos se viram obrigados a cercar a montanha com um muro e
vários fortes e a construir uma enorme rampa de acesso para chegar aos muros no alto
da montanha. Quando os romanos estiveram em condições de atacar diretamente os
muros graças a essa rampa, a defesa de Massada se fez impossível. Eleazar convenceu
aos defensores de que a morte era preferível à escravidão nas mãos dos ímpios e,
quando os romanos entraram na fortaleza, descobriam que todos haviam preferido o
suicídio coletivo à derrota e à submissão. Com a tomada de Massada, em abril do ano 74,
concluiu-se a larga guerra contra Roma.

2) O Judaísmo depois da Destruição do templo

A Judéia passou a ser uma província autônoma de segunda categoria, com uma
presença romana ainda mais ativa. Ao invés de tropas auxiliares, as tropas de ocupação
incluía ademais uma legião romana estacionada em Jerusalém. A residência do
governador era, como antes, Cesaréia, transformada por Vespasiano em colônia romana.
O país teve que se reconstruir sem o impulso econômico que o templo havia
proporcionado em épocas anteriores. O judaísmo teve de adaptar-se a viver sem um
Estado próprio, sem um sinédrio, sem culto sacrifical e sem o templo como centro da vida
20
religiosa . Foi a ala moderada dos fariseus, os chamados rabinos, quem possibilitou ao

20
Um sinal da nova situação foi a transformação feita por Vespasiano da contribuição que cada judeu pagava
anualmente ao templo de Jerusalém em um imposto a favor do templo de Jupiter Capitolino em Roma.

23
judaísmo adaptar-se e desenvolver as características que fizeram possível a
sobrevivência do judaísmo.
Os rabinos (nome que vem de rabbi, “meu senhor, meu mestre” que como título
começa a se empregado a partir de 70) provêm da união dos fariseus (nome que deixa de
ser usado como designação de um partido depois de 70) e os soferim, os escribas ou
doutores da lei. O sacrifício agora não resguardava ao templo, mas estava ampliado à
vida diária, à casa e à mesa de cada fiel.

3) A Rebelião de Bar Kokba (132-135 d.C.)

Durante esse “intervalo”, houve rebeliões judaicas na diáspora, principalmente em


Alexandria. Mesmo que a forte reação romana não tenha permitido que essas
sublevações chegassem à Palestina, isso não impediu que anos depois se instalasse uma
grande rebelião que pode comparar-se perfeitamente à primeira 21.
A situação econômica e social na qual o país se encontrava depois da derrota da
primeira guerra foi um fator importante no desencadeamento de hostilidades. É nesse
contexto que surge Bar Koba, que se dava o título de nasi, príncipe. Pregava um
messianismo diretamente ligado a esperanças políticas e sociais da época, um
messianismo que encontra sua expressão nos termos “salvação de Israel” e “liberação de
Israel”. É difícil saber se a rebelião se estendeu por toda a província da Judéia ou se
reduziu a Judá em sentido próprio. Não sabemos nem mesmo como começou e se
desenvolveu a guerra. Pensa-se que os sublevados evitaram o confronto direto com o
exército romano, preferindo ocupar posições estratégicas nas zonas rurais ou a construir
galerias subterrâneas como refúgio. Dado que nem mesmo o responsável da província
pode parar os rebeldes que conquistavam uma fortaleza depois da outra, o imperador
Adriano enviou um de seus melhores generais, Júlio Severo, mas sua tarefa tampouco foi
fácil, como mostra o número de tropas que intervieram. Tanto foram as perdas romanas,
que levaram o imperador Adriano a desistir de uma cerimônia de triunfo e omitiu a fórmula
habitual mihi et legionibus bene em sua comunicação oficial ao senado 22.

21
A principal fonte para esse tempo è a chamada Historia Augusta, conhecida também por Orígines. Um dos motivos da
revolta, segundo esse livro, foi a decisão de Adriano de transformar Jerusalém em uma cidade pagã. Com efeito,
Adriano proibiu a circuncisão não só aos judeus, mas a muitos orientais. Todavia, é difícil saber se essas medidas foram
mesmo “causas” da guerra ou só suas “conseqüências”.
22
DION CASIO, Hist. LXIX, 14

24
A tradição rabínica indica o ano 135 d.C. como data da morte de Bar Kokba e da
destruição da cidade. Os últimos confrontos se travaram no deserto onde os rebeldes
23
haviam buscado refúgio nas cavernas. Ali muitos morreram por fome, asfixiados ou
pelas mãos dos romanos.
24
As conseqüências da rebelião para o país foram desastrosas . Jerusalém foi
definitivamente transformada em uma colônia romana: Colônia Aelia Capitolina cujo
acesso foi proibido a todo judeu sob pena de morte. A cidade foi completamente
helenizada. O centro espiritual do judaísmo passa à Galiléia.

Resumo de Datas Importantes

Período Helenístico

333-332 – Conquista da Palestina por Alexandre Magno

323 – Morte de Alexandre


23
Os romanos costumavam incendiar as entradas das cavernas.
24
Ainda que seja exagerada a cifra de meio milhão de vítimas segundo Dion Casio, é certo, contudo, que o número de
mortos foi altíssimo. Como também foi o número de judeus vendidos como escravos que no dizer de Jerônimo, seu
preço no mercado de Hebrom não superava a de um cavalo.

25
300-198 – Palestina sob os Ptolomeus

198 – Palestina sob os Selêucidas de Síria – Vitória dos selêucidas sobre os


Ptolomeus na batalha de Panion

185 – Batalha de Magnésia: os romanos vencem os gregos e lhes impõem forte e


humilhante imposto

175-164 – Antíoco IV (Epífane)

167 – Profanação do Templo

166 – Morte de Matatias

Período de “Independência Judaica”

166-160 – Judas Macabeu

164 – Purificação do Templo

160-143 – Jônatas

142-134 – Simão

134-104 – João Hircano

104-103 – Aristóbulo

103-76 – Alexandre Ianeu

76-67 – Salomé Alexandra, Rainha

Palestina sob o domínio Romano

63 – Domínio da Judéia por Pompeu

63-40 – Hircano II, Sumo Sacerdote e Etnarca

40-37 – Antígono, rei e sumo sacerdote

37-4 a.C. – Herodes, o Grande rei

26
4 a.C.-33/44 – Filipe recebe o norte leste da Galiléia

4 a.C. -6 d.C. – Archelau, etnarca e governador da Judéia

4 a.C.-39 d.C. – Herodes Antipas, tetrarca e governador da Galiléia e Peréia

6-41 – Judéia diretamente sob procuradores romanos

41-44 – Agripa I, rei

44-66 – Judéia, Samaria e parte da Galiléia governadas diretamente pelos


procuradores romanos

48-66 – Agripa II, rei de parte do reino de seu pai

70 – Queda do Templo de Jerusalém

135 – Revolta de Bar Kokba e total destruição de Jerusalém

III - Geografia do Novo Testamento

Introdução

Em um curso sobre o Novo Testamento não pode faltar uma suficiente abordagem
sobre a geografia da Terra Santa. A geografia de fato é um complemento necessário à
história. Não se trata somente de identificar os lugares onde aconteceram os eventos
históricos. Isso vale para história de qualquer país, mas no caso da geografia bíblica a

27
relação da história com a geografia merece uma consideração mais profunda. A
mensagem bíblica se apóia sobre o suporte de uma historiografia. Trata-se sempre de um
povo que narra a sua própria história, na qual revela sua identidade e manifesta suas
características. Entre os fatores dessas características há a sua importância o influxo da
geografia física, à qual são estreitamente ligados o clima, a tipologia das culturas e
mesmo a maior ou menor facilidade de comunicação social para iluminar não só os
comportamentos e as atitudes, mas também o caráter de um povo.
Esse influxo cultural é evidente especialmente no que diz respeito à Terra Santa. Já
sua estrutura física, no âmbito da chamada “Mesalua Fértil”, a coloca em relação não só
de continuidade, mas também de descontinuidade respeito à mesopotâmia e ao
longuíssimo território fertilizado do Nilo. Trata-se, com efeito, de uma faixa de terra em
grande parte montanhosa, que os desertos, a oriente, e o mar, a ocidente, constrange a
ser uma ponte entre a Ásia e a África. Enquanto “ponte” foi alvo de inúmeras guerras na
Terra Santa. Por ser região montanhosa, se explica o porquê foi tantas vezes possível a
resistência judaica contra nações bem mais fortes 25.

1 – Geografia dos Evangelhos

Já os chamados evangelhos da infância mencionam as cidades de Nazaré. Nazaré


era uma pequena aldeia, no alto de um aglomerado de colinas, cujo povo, e estirpe
judaica, se dedicava preferentemente ao cultivo de oliva. Nazaré está somente a 10 km,
da importante cidade de Séforis, capital da Galiléia ocidental. A outra capital, aquela
Galiléia Oriental, era Tiberíades, fundada à beira do lago, 20 anos d.C., por Antipas e
situada a uns 30 km da primeira 26.
Por sua parte, Belém na época de Jesus era uma cidade pequena da Montanha de
Judá. Situada a 8 km, ao sul de Jerusalém, era um lugar com história conhecida, pois
havia sido a pátria do rei Davi e ali se venerava a tumba de Raquel. Herodes edificou não
muito distante um palácio-fortaleza, o Herodium, que preside desde o fundo a paisagem
de Belém.
Os relatos evangélicos que fazem referência à “missão da Galiléia” citam como
centro da atividade de Jesus a cidade de Carfanaum. Situada à beira norte-ocidental do

25
FABRIS, R., Introduzione Generale alla Biblia. Logos Corso di Studi Biblici, 147.
26
É possível que sendo José e Jesus artesãos, e não agricultores, foram com alguma freqüência trabalhar nesses
importantes focos de população.

28
lago de Genesaré, era uma pequena cidade, dedicada à pesca. Sua posição geográfica
fortaleceu o seu desenvolvimento por estar situada na fronteira com a tetrarquia de Filipe.
Possuía até mesmo uma guarnição militar. Ali vivia gente dedicada à agricultura, como
mostraram as escavações arqueológicas.
Todas as outras cidades da margem do Lago da Galiléia foram muito freqüentadas
por Cristo como é o caso de Corazin, Betsáida, cidade de Pedro, André e Filipe. O
fenômeno das tempestades repentinas no lago é conhecido ainda hoje. A pesca constituía
uma das principais riquezas. Jesus também visitou a aldeia de Caná, a norte de Nazaré e
o Tabor, a leste. Adentrou na tetrarquia de Filipe até chegar a sua capital, Cesaréia, nas
fontes do Jordão. Cristo chegou até mesmo à costa mediterrânea do Líbano, visitando as
cidades de Tiro e Sidônia.
Nas narrações evangélicas tem especial importância a “subida” de Jesus a
Jerusalém. Ainda que os sinóticos a reduzam a uma só viagem no final do ministério de
Jesus, João fala várias vezes desse trajeto de idas e voltas entre Galiléia e Judéia. A
viagem a Jerusalém desde a Galiléia, quando se tratava de judeus, se realizava
normalmente descendo o vale do Jordão para não atravessar a Samaria. Seguiam pela
beira esquerda do rio, território de Peréia e tornava a atravessar o Jordão frente a Jericó,
de onde subia para Jerusalém 27. Jericó (considerada a cidade mais baixa da terra), com
efeito, era uma cidade muito citada pelos Evangelhos. Jericó era um lindo oásis de grande
beleza por sua vegetação. O caminho entre Jerusalém e Jericó era difícil e não isento de
perigos. O Evangelho de João diz que Jesus nem sempre seguiu o caminho do Jordão,
mas que outras vezes atravessou a Samaria (Jo 4).
Jerusalém se encontra na Montanha de Judá, a uma altura de 760 m sobre o nível
do mar Mediterrâneo. A cidade é cercada por dois profundos vales: o Cedron e o Hinnom
(Gehenna). A leste do Cedron se encontra o Monte das Oliveiras e um pouco mais ao sul,
O Monte do Escândalo. Próximo ao monte das Oliveiras e cercado pelo vale de Cedron
estava o templo. O calvário era um monte que ficava em outro extremo, fora da cidade.
Suas imediações serviam também como cemitério.
Betânia era uma aldeia de Judá, ao sul de Jerusalém, cujo nome significa “casa do
pobre”. Lugar de Lázaro, Marta e Maria. Lucas localiza também ai a ascensão do Senhor.

27
Jericó é situada no Vale do Jordão. Geologicamente o Vale do Jordão è uma grande fissura tectônica que começa na
Turquia, Líbano, Jordão e termina em Malarvi na África. O rio Jordão surge no monte Hermon (com 100 metros sobre o
nível do mar), já no lago da Galiléia atinge já 200 metros no Mar Morto chega aos 800 metros abaixo do nível do mar. O
Jordão faz um zig-zag e assim sua distância se torna três vezes mais se fosse em linha reta.

29
Cesaréia Marítima era cidade importantíssima na costa mediterrânea a 36 km do
Monte Carmelo. Cidade conquistada pelos romanos e oficialmente entregue a Herodes.
Lugar da residência dos procuradores romanos na Palestina. O NT situa ai uma
importante comunidade crente cuja origem foi a pregação de Felipe. Ali se converteu
Cornélio e ali esteve prisioneiro também Paulo (At 23).
Cesaréia de Filipe era uma cidade situada aos pés de uma das nascentes do
Jordão, aos pés do monte Hermon. Fundada pelos Seléucidas foi dada a Filipe quem
honrou a Tibério César com esse nome.
Samaria, por sua vez, se situa mais ou menos ao centro. No tempo de Jesus era
uma grande urbe. Reconstruída por Herodes, o grande, para seus veteranos estrangeiros,
levava o nome de Sebaste, isto é, Augusta. A maior parte de sua população era pagã.
Outra cidade citada pelos Atos dos Apóstolos é Jope, porto tradicional da
Palestina, próxima à Tel Aviv de hoje. Fora da Palestina, a cidade mais citada é
Antioquia, capital da Síria e uma das maiores cidades do mundo naquela época. Estava
ao norte da Síria, não muito distante da costa. Também se cita Damasco que mantinha
sua indubitável importância na rota comercial que conduzia às grandes nações do norte.

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