Você está na página 1de 72

UMA EXPOSIÇÃO DE T I A G O .

RUSSELL P. SHEDD EDMILSON F. BIZERRA.

A carta de Tiago difere das outras cartas do Novo Testamento pelo seu estilo, conteúdo e
apresentação. A carta demorou a ser incluída no cânon do Novo Testamento. Martinho Lutero
descreveu-a como uma epístola de palha. Mas todos, que confiando em sua inspiração divina e no
fato que é a Palavra de Deus» serão ricamente compensados pela meditação e aplicação à vida
de suas palavras. Agostinho confessou para Deus: “O que tuas Esciituras dizem, tu dizes!”.
Kierkegaard tinha Tiago como sua Escritura predileta.
Quanto ao seu estilo, Tiago omite, quase por completo, uma discussão teológica. Suas
pressuposições são ortodoxas. Seu estilo ê direto e objetivo. Combate pecados e atitudes que
prejudicam a vida e o testemunho dos cristãos. Apresenta o imenso valor de se viver segundo a
sabedoria do alto, isto é, de acordo com a revelação de Deus.

Introdução.
A carta de Tiago difere das outras cartas do Novo Testamento pelo seu estilo, conteúdo e
apresentação. A carta demorou a ser incluída no cânon do Novo Testamento. Martinho Lutero
descreveu- a como uma epístola de palha. Mas todos, que confiando em sua inspiração divina e no
fato que é a Palavra de Deus, serão ricamente compensados pela meditação e aplicação à vida de
suas palavras. Agostinho confessou para Deus: “O que tuas Escrituras dizem, tu dizes!”. Kierkegaard
tinha Tiago como sua Escritura predileta.
Quanto ao seu estilo, Tiago omite, quase por completo, uma discussão teológica. Suas
pressuposições são ortodoxas. Seu estilo é direto e objetivo. Combate pecados e atitudes que
prejudicam a vida e o testemunho dos cristãos. Apresenta o imenso valor de se viver segundo a
sabedoria do alto, isto é, de acordo com a revelação de Deus.
O livro foi escrito aproximadamente entre 10 e 15 anos após a morte de Jesus. O discipulado que
Jesus ordenou na Grande Comissão a seus seguidores para ensinar foi obediência a tudo que ele
mesmo tinha passado para eles. Não nos surpreende descobrir que há doze nítidos paralelos entre o
Sermão do Monte e Tiago (cf. Bíblia Almeida Século 21, p. 1238). Por isso, muito daquilo que vemos
aqui podemos sentir as palavras de Jesus, como pano de fundo, temperando as palavras de Tiago.
Mas além de ter Jesus como sua fonte, Tiago é um dos livros que mais tem referências diretas ou
indiretas aos livros do Antigo Testamento. E dos 39 livros que com-
Pm m o Antigo Testamento, ele faz algum tipo de referência a pelo menos 22 livros.
l í c]iiem era Tiago? Esse nome pertencia a vários personagens do Novo 1 estamento. O primeiro
mártir da igreja foi Tiago, o irmão de |oao, filho de Zebedeu. Tiago, filho de Alfeu se encontra na lista
dos
1 1 isc ípulos de Jesus, mas o Tiago que se destaca era coluna da igreja de Jerusalém (G12.9). Esse
último Tiago foi incluído na lista dos irmãos de Jesus (Mc 6.3; Mt 13.55). Foi designado como
“apóstolo” em (i;í latas 1.19. O fato de o Cristo ressurreto ter aparecido a Tiago (1 Co 15.7) e de Paulo
argumentar em favor do seu próprio aposto- lado com a frase “não vi Jesus, nosso Senhor?” (ICo 9.1),
talvez explique porque Tiago estava incluído nesse círculo maior (além dos 1 )oze) de líderes que
foram reconhecidos como apóstolos. No concilio de Jerusalém (49 d.C), ele teve papel importante
como bispo dessa igreja (At 15.13-21), sugerindo o envio da carta recomendando quatro abstenções
que os crentes gentios deveriam observar (v. 20).
Os destinatários dessa carta foram as doze tribos dispersas entre as nações. Havia colônias de
judeus em muitas cidades do império, e em algumas delas havia cristãos judeus, como sabemos que
era o caso em Roma. Foram os distúrbios provocados por um “ Chres- tos’ (muito provavelmente,
Cristo), segundo o historiador Suetônio, que levaram o imperador, Cláudio, a expulsar os judeus da
capital no ano 48 d.C. (At 18.2).
Os destinatários eram evidentemente judeus convertidos a Cristo que, naquela época, viviam
dispersos por todo o mundo conhecido. A descrição deles como “as doze tribos dispersas entre as
nações” rcllete a maneira pela qual os escritores judeus falavam do Israel cscatológico, uma vez que
deixaram de existir as tribos do norte quando foram misturadas com o mundo gentio.
Como vemos em Atos, no episódio do Pentecostes da descida do Espírito Santo, vários judeus
estavam vindo de diversas partes para Jerusalém, e esses judeus eram conhecidos como o povo da
dis- I xT.sao, I provável também que Tiago esteja fazendo uma referência
A SAmxmiA /)/; DWS
espiritual a essas pessoas. Ou seja, ele está escrevendo para o Israel de Deus que hoje é a igreja de
Jesus.
Segundo Josefo, Tiago foi martirizado no ano 62 d.C. Nesse caso, a data de origem dessa carta
teria que ser anterior. Pelas condições refletidas na carta, podemos identificar as regiões costeiras da
Palestina e Síria, (em 5.7, há uma referência às chuvas do outono e da primavera, características
daquela região) e dos que viviam luxuosamente da terra (5.5), latifundiários, frequentemente
ausentes. Por isso, não devemos estar longe da verdade se atribuirmos essa carta a Tiago, irmão de
Jesus e líder da igreja de Jerusalém.
Como Tiago não toca na controvérsia que os judaizantes provocaram e que desembocou no
Concilio de Jerusalém (49 d.C), podemos sugerir a data de 45-47 d.C. (cf. Douglas Moo, Tiago,
Edições Vida Nova, 1990; pp. 33,34).
Tiago 1
SAUDAÇÃO — 1.1
Humildemente, Tiago se denomina como “servo” (doidos, lit. “escravo”) enquanto Judas, além de
se descrever com “servo” (dou- los), acrescenta “irmão de Tiago” (Jd 1.1). E ele, embora fosse “meio
irmão de Jesus”, introduz sua carta se colocando não em uma posição de privilégio, mas de servo de
Cristo, servo de Deus. Lembramos que durante a vida de Jesus na terra, seus irmãos não creram nele
como o Messias ou o Filho de Deus (Jo 7.5). E provável que os irmãos de Jesus, pelo menos Tiago e
Judas, converteram-se depois de ter se encontrado com Jesus após sua morte. O poder de
transformar incrédulos em crentes convictos foi usado pelo Espírito Santo para transformar corações
como daqueles que o rejeitaram, mesmo diante dos milagres estupendos que Jesus operara.
Certamente, foi o caso desses irmãos, Tiago e Judas.
“Saudações” traduz a palavra grega chairein que vem da mesma raiz de “alegria” (charan, alegria),
que aparece logo no versículo seguinte. Ela enfatiza o fato de que os cristãos, pertencentes à família
remida por Cristo, têm motivos especiais para se alegrar no relacionamento que tem uns com os
outros por causa dessa redenção.
PROVAÇÕES DEVEM NOS ALEGRAR — 1.2-8
Grandes companhias gastam bilhões na pesquisa, mas ainda não descobriram uma pílula que
produza a felicidade. Os eruditos que escrevem tomos sobre a psicologia ainda não responderam de-
finitivamente qual a razão da vida e o porquê da alienação. Quando, pelas circunstâncias, deveríamos
ficar contentes e satisfeitos, um
i .|ni Ko amargurado reclama e sofre do enfado. Como reagiríamos se csi i vcsscmos sofrendo as
perseguições que centenas de milhares ilr irmãos nossos enfrentam? Os destinatários para os quais
Tiago escreveu essa carta também sofriam. Os leitores, irmãos de Tiago na lé, elevem considerar os
múltiplos tipos de provações que têm que passar como motivo de grande alegria. J. B. Phillips em
Cartas às igrejtis novas foi feliz em parafrasear as dificuldades, como “dar boas- vindas às provações
como a amigos”. Se existem 85.000 variedades de moscas no mundo, acredito que pode haver um
número igual ou maior de provações, portanto, Tiago não especifica quais seriam as aflições que
muitos estavam enfrentando.
Ele também não poderia ser mais direto e prático na abertura de sua carta, abordando temas que
todos nós sabemos o quão difícil são de ser tratados, principalmente para todos que se dedicam ao
Senhor. O salmista Asafe enfrentando dificuldades contemplou até abandonar a Deus. No Salmo 73,
ele apresenta diante de Deus seu desabafo:
“Certamente Deus é bom para Israel, para os puros de coração. Quanto a mim, os meus pés
quase tropeçaram; por pouco não escorreguei. Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a
prosperidade desses ímpios. Eles não passam por sofrimento e têm o corpo saudável e forte. Estão
livres dos fardos de todos; não são atingidos por doenças como os outros homens. [...] Certamente
foi-me inútil manter puro o coração e lavar as mãos na inocência, pois o dia inteiro sou afligido, e
todas as manhãs sou castigado” (SI 73.1- 5,13).
Blaise Pascal afirma acertadamente que a única motivação humana para agir é a busca pela
felicidade, mas seguramente, ninguém imaginaria que o sofrimento seja o caminho para a felicidade.
Tiago por certo aprendeu com Jesus que os bem-aventurados (makarioi, “felizes”) são os perseguidos
por causa da justiça (Mt 5.10). É claro que não porque sofrer seja gostoso, mas porque o fruto da
provação confirma que a fé do crente não é imaginária.
.-i SABEDORIA Dli/)/:/«
13
Os cristãos fiéis, por vezes, não compreendem o porquê das provações e dos problemas que
enfrentam, quem dera os que os incrédulos enfrentam. As pessoas acham injustiça demais da parte
de um Deus amoroso permitir que seus filhos sejam atordoados, abalados e até sofram problemas
nessa vida. Alguns têm uma ideia formada de que o sofrimento em si é, no mínimo, uma crueldade da
parte de Deus. Junto com esse questionamento vem também a questão da existência de Satanás no
mundo que também aflige o mal. E se ele é Deus como diz ser, por que não acabar com esse
problema de uma vez por todas? Ou como disse uma criança um dia, por que Deus não mata o Diabo
a pauladas e acaba logo com esse problema?
Temos uma ideia errada de que tudo que traz algum tipo de alegria prazerosa deve ser buscado,
ao mesmo tempo que tudo que não é agradável precisa ser deixado de lado, evitado. Assim, Tiago
começa nos desafiando a ter uma atitude totalmente diferente com relação aos problemas e
dificuldades que já enfrentamos, teremos que enfrentar, ou até estamos enfrentando no momento.
O apóstolo Pedro certamente concordaria com as palavras de Tiago. Como ele mesmo declarou:
“Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo
[poikilois, literalmente uma variedade] de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a
fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é
genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado” (lPe 1.6,7).
Naturalmente, quem sofre assaltos, aflições ou ataques, pode pensar que um azar cego e cruel o
atingiu. Ou que talvez o Diabo esteja, como no caso de Jó, por trás das provações. A opinião geral
acusa o Diabo de ser o inventor do prazer, e não Deus. Aquele que pensa dessa forma, seria o
mesmo a concluir que sofrimento, sendo
o oposto do prazer, vem também do Diabo. Consequentemente ficaria angustiado e abandonaria o
caminho espinhoso da vida para viver mais feliz. Mas Tiago e Pedro aprenderam com Jesus que a li
11 < nl.uk- não depende das circunstâncias exteriores ou materiais, mi.is ilc uma atitude produzida
pelo Espírito. O sofrimento em si é .1 1 1 1 .ugo, mas o fruto amadurecido tem um sabor delicioso e uma
qualidade excelente. Antecipando os benefícios produzidos pelas pi ovações, podemos regozijar.
I lá também uma tendência errada de ligar o sofrimento ao pá ado. Se ofendemos a Deus, então
ele nos punirá até que a ofensa .seja retirada. Mas não podemos confundir as conseqüências diretas
do pecado que geram sofrimento com retaliação da parte de Deus. “O Senhor disciplina a quem ama”
(Hb 12.6). Mesmo as dificuldades devem ser vistas como disciplina, como Deus nos tratando como
filhos amados (Hb 12.7). Por outro lado, não temos como saber afirmar categoricamente que todo
sofrimento é fruto do pecado, como a história de Jó nos ensina.
Tiago nos instrui a considerar as provações (peirasmoi, provações, tentações) como motivo de
grande alegria por causa do caráter que elas produzem na pessoa que as suporta. Como diria um
amigo, será que Tiago não se esqueceu de incluir o advérbio “não”? “Não considerem motivo”, não
seria a leitura mais fácil do texto? Pois afinal de contas, a experiência diz que ninguém considera
naturalmente o fato de estar enfrentando problemas algo para se alegrar.
0 pior não é que devemos apenas considerar motivo de alegria, mas de grande alegria e mais,
não apenas algumas provações, mas várias provações. Alguns argumentam que aqui seria apenas o
11 to de sermos perseguidos por causa do Evangelho, pois as palavras de Tiago aqui lembram as
palavras de Jesus no Sermão do Mon- ic em Mateus quando Jesus disse: “Bem-aventurados serão
vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem iodo tipo de calúnia
contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da
mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (5.11,12).
1 .ni parte é verdade que Tiago deveria estar pensando na questão d.i perseguição aqui, só que
sua definição de provação ou tribulação f bem mais abrangente, uma vez que no contexto mesmo ele
vai incluir questões espirituais (oração por sabedoria, w. 5-8), questões econômicas (ricos e pobres na
igreja, w. 9-12), questões morais (ser tentado e cair na tentação, w. 13-15). Por conta disso, podemos
entender que as provações aqui abrangem várias áreas da vida — a espiritual, a moral e a econômica
— e, até mesmo, a questão da perseguição.
Tiago também espera, portanto, que seja qual for nossa situação devemos ter uma atitude que,
com certeza, seja totalmente diferente daquela que o mundo esperaria. E a atitude que precisamos
aprender a ter é de alegria independentemente da circunstância. O que quer dizer que o Senhor
espera de nós não é uma atitude de desespero, mas de confiança.
Por que a provação não é sem razão na nossa vida, mas ela tem um propósito que nos beneficia.
E esse considerar as provações geram quatro resultados que ultrapassam em muito o preço do árduo
e caro investimento no sofrimento.
Primeiro, gera a perseverança ou constância (hupomonen, literalmente paciência refere-se a essa
virtude, produzida pela aflição aguentada, Rm 5.3). Mas o cristão que não foge, mesmo quando a
porta de escape está aberta, tem de ter a certeza que o investimento vale a pena.
Ninguém aqui ficaria triste ao saber que teria que enfrentar uma fila gigantesca, como é de praxe
em um banco em dia de pagamento, estando ciente de que depois de fazer seus pagamentos
receberá um cupom premiado que lhe dá direito a uma casa. Qualquer um nessas condições
certamente enfrentaria não uma hora de fila, mas um dia de fila e com um grande sorriso no rosto. Da
mesma forma, exercitamos a alegria no processo de teste pela convicção que o resultado final e, até
mésmo, o processo — por mais doloroso que este de fato seja — são instrumentos de Deus para
produzir uma fé perseverante e também nossa aprovação. Pois, primeiro, temos garantia que pas-
saremos pelo teste e, segundo, que algo bom ficará desse teste para o resto de nossa vida.
1 'MA EXPOSIÇÃO DK TIAGO
16
Conheci uma pessoa que trabalha em uma empresa que desenvolve softwares de simulação. As
empresas, por intermédio desses sofiwares de simulação, podem não somente economizar uma for-
tuna em testes como também podem prever vários problemas. Agora imagine se uma empresa de
aviação não tivesse como fazer testes? Ou se ela nem se preocupasse em fazer testes antes de voar
uma aeronave? Se você estivesse com passagem marcada para passar férias em alguma cidade
brasileira em um desses aviões novinhos recém-chegados da fábrica, você entraria nesse avião?
Você viajaria mesmo sabendo que ele nunca tinha sido testado nem por simuladores nem por
ninguém, e seu voo serviria de voo teste?
Devo confessar que seria a primeira pessoa a cancelar a minha passagem. E acredito que a
grande maioria dos passageiros faria o mesmo. Agora alguns de nós poderíamos até questionar Deus
sobre a razão de ele permitir e até planejar que nossa fé fosse proposital- mente testada. Mas
quantos de nós gostaríamos de saber que em virtude de nossa fé nunca ter sido testada que ela corre
o risco de jamais nos conduzir ao destino final que tanto esperamos? Será que, ainda assim, alguém
se aventuraria a abrir mão do teste sabendo que sem esse teste seu destino não seria o destino que
sempre esperou?
Creio que ninguém aprovaria esse tipo de situação insegura. Por isso, Tiago pode nos encorajar
nos lembrando de algo que deve ser sabido de todos nós, isto é, que neste mundo passaremos por
aflições, e isso não quer dizer que seja totalmente ruim, muito ao contrário, a prova, o teste que nossa
fé passa tem o objetivo de produzir em nós perseverança.
É importante também ressaltar que o teste se mostrará eficaz em produzir perseverança se
encararmos a provação como motivo de alegria, do contrário, não cresceremos em perseverança,
mas cresceremos em murmuração, lamento, rancor, ira, mau humor, medo, desconfiança ou falta de
fé.
Exatamente como aconteceu com o povo de Israel quando Deus o colocou a prova e eles se
recusaram a abraçar aquela experiência
A SABEDORIA DE DEUS
17
como parte dos testes necessários antes de entrar na terra prometida. Diante da circunstância
adversa, eles desconfiaram da presença e bondade de Deus. Em vez de agir com confiança diante de
tudo aquilo que Deus já tinha feito e prometido, eles acabaram ficando paralisados com o medo e o
resultado não podia ter sido dos piores diante de tamanha murmuração (Nm 14).
O que o Senhor espera de nós é a mesma atitude demonstrada pelo patriarca Abraão quando foi
posto à prova com relação à entrega do seu filho. Isaque era o filho da promessa, o filho tão espe-
rado, o filho da velhice, o que significa que ele teria de abrir mão de todos os sonhos que ele tinha
projetado para aquela criança, mas a reação dele foi até surpreendente. Ele confiou que Deus
proveria uma resposta para seu dilema. O que coube a Abraão, ele fez — obedeceu à palavra do
Senhor. Sua fé foi provada, e seu teste, como
o processo de purificação da prata, produziu perseverança.
Por isso, a perseverança aqui não é uma atitude passiva de entrega; muito ao contrário, é uma
atitude de ação, ativa e de força e coragem. É uma resposta desafiadora mais do que uma simples
entrega passiva diante da situação quando não temos o que fazer a não ser esperar. Perseverar,
então, é se segurar em Deus e estar confiante em seu poder e fidelidade. E, para se fazer isso, é
preciso sim uma atitude verdadeira de nossa parte.
Muitos podem pensar que, nas provações, a entrega pode parecer o caminho mais fácil diante do
grau de dificuldade e o tamanho dos problemas, pelo menos momentaneamente, mas, na verdade,
entregar-se não deixa de ser o caminho mais improdutivo e prejudicial a longo prazo. Pois quando nos
entregamos ao medo e à falta de confiança em Deus, abrimos mão de ter nossa fé provada, ou seja,
de aprender perseverar.
Segundo, quando a perseverança completa sua ação, ela produz maturidade ou perfeição (teleioi).
Jesus também falou: “Sejam perfeitos [a mesma palavra no grego], como perfeito é o Pai celestial de
vocês” (Mt 5.48). Paulo entendeu que o alvo do seu ministério
UMA KXPOSIÇAO Di: TiAC

i nino uni todo seria desenvolver homens perfeitos (teleioi). “Nós o pioi Limamos, advertindo e
ensinando a cada um com toda a sabe-
i li Ji ia, para que apresentemos todo homem perfeito [teleios\ em Cristo” (i I 1.28). Paulo reconheceu
que não eram apenas provações que produzem maturidade, mas fé acompanhada por ensino bíblico.
( ria as certezas que seguram a árvore na tempestade com raízes que crescem e se aprofundam em
circunstâncias adversas.
Talvez alguém pudesse até questionar se valeria à pena pagar um preço que seja tão alto diante
das circunstâncias que passa. E sua conclusão talvez fosse que seria bem melhor se a vida fosse
uma brisa do começo ao fim. Mas quantos de nós que precisamos comer temos uma dieta alimentar
só de frutas verdes ou comida crua? Isso seria contrário ao que é natural na vida?
Da mesma forma, a falta de maturidade para um cristão é contrária ao seu propósito de existência
como filho de Deus em um processo de aperfeiçoamento. Pois o propósito maior de Deus para nós é
que sejamos pessoas aperfeiçoadas de tal forma que possamos atingir a maturidade e a integridade
total para que não tenhamos falta em nada. Ou seja, Deus está nos preparando para a perfeição.
A nossa resposta positiva à palavra de Deus, e, nesse caso, nossa atitude com relação aos
nossos desafios nessa vida — de considerá- los como motivo de grande alegria, sabendo que eles
produzem perseverança; e a perseverança, caráter aprovado — exercerá influência direta na vida
eterna. Quantos de nós nos damos conta que tudo o que fazemos hoje e como nos portamos agora
tem efeitos para toda a eternidade?
E rejeitar a prova de Deus, no sentido de agir totalmente na contramão daquilo que Tiago coloca
aqui, com medo, rancor, raiva diante das provas, rouba de nós a oportunidade de darmos mais um
passo para o nosso crescimento e amadurecimento para atingir a vontade de Deus em nossa vida.
( reio que o grande dilema que temos aqui é que confundimos o I .u <) de sermos adultos, já com
idade, com seus privilégios e direitos
SABUDORIA DHDHUS

na sociedade, com o fato de sermos já adultos na vida cristã. E essas coisas são totalmente
diferentes. Não é a mesma coisa dizer que porque sou maior de idade que eu já atingi a fase adulta
da fé cristã. Na verdade, a grande maioria de nós adultos não passa de crianças em nossa fé. E se
não nos damos conta disso passaremos o resto da nossa vida sendo provados e reprovados,
mantendo-nos no maternal no que diz respeito a nossa vida espiritual. O que é uma vergonha para
nós.
Terceiro, produz integridade (holokleroi, veja lTs 5.23 em que foi traduzido por “irrepreensíveis”,
ARA), no sentido de preencher as lacunas e buracos escondidos no caráter. Uma árvore que tombou
no temporal perto de nossa casa alguns meses passados, não teria caído se o tronco não tivesse
partes enfraquecidas, mas que, aos nossos olhos, não eram visíveis. As aflições, por outro lado,
revelam o interior do coração dos filhos de Deus.
Como um pequeno sache de chá, somos colocados na água quente a todo o instante, e isso dói.
Mas a garantia é que abraçando a vontade de Deus e considerando motivo de grande alegria, por
mais difícil que seja, chegaremos do outro lado confirmados e aprovados. Seremos pessoas
realmente aperfeiçoadas para a eternidade. Será que só por conta dessa promessa não valeria a
pena todo o sofrimento?
A vida crista será repleta de dificuldades e de testes, e esses testes não são para nos destruir nem
para destruir nossa fé, mas para que possamos vencê-los. Não são para roubar nossa energia, mas
para revigorar nossa fé e força naquele que nos chamou e nos equipou para vencer as lutas. Eles não
são para nos desanimar, mas para nos motivar a prosseguir. Não são para nos paralisar, mas para
nos motivar a continuar no caminho do Senhor. Por que o alvo do Senhor é o nosso amadurecimento,
nossa integridade.
Quatro, “faltando nada”, isto é, tendo o caráter que agrada a Deus e fica em pé a despeito de
todas as forças que surgem para abalá-lo. O apóstolo explicita essas virtudes em 2Coríntios 4: “De
todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não
desamparados, somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (w. 8,9).
Uma cintilante ilustração dessa maturidade é ilustrada na pessoa de Wilberforce, que viveu a
quase duzentos anos atrás em Londres. William Wilberforce lutou no Parlamento Britâncio de 1787-
1807 até promulgar a lei contra o comércio de escravos. Sofria de uma doença dos intestinos que
somente melhorou com pílulas de ópio tomadas três vezes por dia, o único remédio conhecido na
época, que aliviava as dores e diarréias. Aos poucos, o ópio produzia cegueira progressiva. Mal podia
ler nas manhãs. Sua esposa Bárbara ficou deprimida. William, o filho mais velho se desviou da fé,
provocando uma agonia angustiante (voltou para a fé depois). Suas derrotas sucessivas no
Parlamento, em vez de derrubá-lo, pareciam dar-lhe mais coragem, a despeito das críticas
incessantes.
William Corbett, também membro do Parlamento, tinha 1.300 escravos. Foi um dos mais ferrenhos
opositores às repetidas tentativas de Wilberforce de promover a aprovação da lei contra a comer-
cialização de escravos. Corbett declarou no parlamento que Wilberforce nada fez pelos pobres da
Inglaterra, as crianças forçadas a subir nas chaminés para tirar a fuligem, os cortadores de pedras,
tão pobres que cobriram as costas com sacos de pano e amarravam palha em volta das pernas para
combater o frio. Corbett disse que eles teriam alegria em lamber os pratos dos escravos negros
gorduchos. Além disso, a proibição ameaçava provocar a ruína da economia inglesa.
Disse, John Piper em sua biografia de Wilberforce: “Alicerces, edificados na rocha das doutrinas
bíblicas da sua fé, seguraram esse determinado e alegre servo de Deus até sua morte aos 74 anos —
apenas alguns dias após a abolição da escravatura no Império Britânico .
Winston Churchill disse: “As críticas servem o mesmo propósito da dor”. Tiago acrescentaria: e as
dores físicas e os sofrimentos mentais seivem para fortalecer sua fé, a não ser que essa fé seja
espúria.
A SABEDORIA Dh Dh
Disse um líder dos cristãos na China: “Mao tse Dong foi o principal agente usado para produzir o
avivamento chinês”.
E triste pensar que muitos de nós sejamos tão relutantes com o crescimento espiritual. Ou quando
somos a favor, queremos que ele aconteça de forma suave, sem qualquer trabalho nem dificuldade,
nem esforço da nossa parte. Mas a vida cristã nem sempre é assim. Um jovem, aluno de um curso de
alfabetização, trabalhara por vários anos em um grande supermercado. No entanto, ninguém sabia
que ele não sabia ler nem escrever. Depois de vários anos, veio finalmente uma promoção e, na hora
de preencher a ficha para a promoção, descobriram que ele era incapaz de escrever. Em vez de ser
promovido, ele, por ironia do destino, acabou sendo dispensado por conta do seu “despreparo”,
justamente quando estava se empenhando para aprender. Ele não teve uma segunda chance porque
no mundo infelizmente a realidade é dura e cruel.
Mas, ao contrário do mundo, vemos por intermédio da vida dos servos de Deus como Paulo,
Atanásio, John Hus, John Wycliff, Lutero, Calvino, Spurgeon, Bonhoeffer, e tantos outros de nós que
poderíamos ser incluídos nessa lista, que temos o privilégio de enfrentar não uma provação, mas
várias delas e das mais variadas possíveis — doença, falta de trabalho, dificuldades emocionais,
financeiras, espirituais e por aí afora, mas crescer com todas elas.
Podemos ignorar essas oportunidades e nos permitir o fracasso, reagindo com revolta, indignação,
medo, frustração, raiva, murmuração ou podemos nos voltar para o Senhor confiantes, alegres e
certos que ele tem nos julgado dignos de provação. Pois pela provação, ele está testando nossa fé.
Para que pelo teste, possamos aprender a perseverar. E perseverando, possamos nos tornar pessoas
maduras, íntegras e sem qualquer falta em nossa vida.
A SAÍDA PARA OS IMATUROS — I.5-8
A falta de sabedoria se reconhece nas aflições, e a carência de maturidade se sobressai na
adversidade. O sofrimento e os revezes
podem ser esclarecidos. No entanto, precisamos talvez rogar a Deus para que sonde o nosso
coração, como clamou Davi: “Sonda-me, ó Deus e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as
minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno” (SI
139.23,24).
Conhecer a Deus e a si mesmo é o vestibular mais importante e compensador pelo qual um
cristão pode passar. As autocríticas que não levam a mudanças e conversão não passam de
autoflagelos. Provações têm a enorme vantagem de nos dar uma visão de nós mesmos, incluindo
nossos pecados e carências. A experiência de passar por provações gera autoconhecimento.
E provável que o elemento perdido na história da nossa vida, seja exatamente esse ingrediente
que Tiago está mencionando e que devemos pedir: a sabedoria. Tiago ainda é generoso em dizer que
“se” algum de vocês tem falta. Eu diria que todos nós realmente carecemos grandemente dessa
sabedoria. A prova disso está na forma tão imatura que a grande maioria de nós enxerga as nossas
dificuldades e principalmente na forma como reagimos a tudo que acontece conosco.
Basta pensar no exemplo de Jó quando recebeu uma notícia atrás da outra de que seus rebanhos,
suas propriedades e até seus filhos, tudo o que ele tinha, tinha sido destruído da noite para o dia.
Mais surpreendente foi sua resposta diante de tamanha desgraça: “Jó prostrou seu rosto em terra, em
adoração, e disse: nu sai do ventre de minha mãe, e nu partirei, o Senhor o deu, o Senhor o levou,
louvado seja o nome do Senhor” (Jó 1.20).
Parece ser uma reação tão simples e tão fácil, mas quantos de nós reagimos assim diante de uma
doença, um desemprego, uma dificuldade com o namorado ou com a falta de um amor? Creio que
nossa rapidez não é para a adoração, mas para a murmuração e reclamação. Por isso, Tiago tem
razão ao dizer e nos ensinar que o que nos falta,
o que carecemos nessas horas, não é uma vida sem problemas nem dificuldades, mas a necessidade
de recebermos sabedoria.
A SABEDORIA OH Dl: VS
23
Em seu livro Quatro amores, C.S. Lewis escreveu: “Aqueles, que, como eu mesmo, cuja
imaginação em muito excede sua obediência, são sujeitos a uma penalidade justa; nós, com
facilidade, imaginamos condições muito acima do nível que atingimos. Se descrevermos o que nós
imaginamos, podemos fazer com que os outros, inclusive nós mesmos, creiam que já estivemos lá”.
Disse o sábio Salomão: “Você conhece alguém que se julga sábio? Há mais esperança para o
insensato do que para ele” (Pv 26.12).
Mas para aquele que reconhece a falta de sabedoria, Tiago admoesta, “peça-a a Deus, que a
todos dá livremente” e de boa vontade (1.5). E lhe será concedida.
No entanto, como há requisitos para chegar à maturidade e nada faltar, há requisitos para Deus
responder às nossas orações. Primeiro, ele exige fé que não tem espaço para dúvidas (v.6). Se-
gundo, ele exige uma mente unida, íntegra.
Não se deve perder de vista a visão de “fé” que Tiago tem. Para ele, fé não quer dizer
simplesmente “crer”, mas é um seguro, firme e inabalável compromisso com Deus e o Senhor Jesus
Cristo (cf. D. Moo, p. 45).
A fé não admite o luxo de duvidar ou de titubear. Fé convence que o que se pede será concedido
não porque Deus pode, mas porque ele quer dar. Por isso, a fé que não desenvolve um forte desejo
de se obedecer não passa de uma fé morta, uma fé imaginária (2.14). Uma fé semelhante à onda do
mar, isto é, levada e agitada pelo vento (v. 6), não alcança nenhum dos seus alvos, porque Deus dá
mais atenção à mente e ao coração do cristão do que às palavras. Além disso, essa comparação nos
lembra que como uma onda jamais é idêntica a outra, por conta da mudança do vento, assim também
é a pessoa dividida. Ela não tem doutrina fixa nem uma direção única na sua vida.
Por conta disso, todo vento de doutrina e tempestade de oposição e perseguição e problemas
afetam sua lealdade a Deus. Ela é jogada para onde o vento a leva, como se ela mesma não tivesse
o] >1 1 1 1 . 1 0 própria, não tivesse raízes. Em vez de experimentar tudo >|iu n mundo oferece, de
abraçar todo tipo de opinião e seguir
i (>d< i (ipo de receita nova, ela precisa apenas depositar sua confiança ei n 1 )eus. Essa confiança
precisará ser inabalável e não é influencia- d i pela adversidade nem pela variedade de opiniões.
Tiago aqui vai além ao dizer (w. 7-8) que infelizmente tudo aquilo que a pessoa mais quer, ela não
vai receber. Muito ao contrário, sua própria desconfiança redundará em prejuízo próprio. Mesmo
diante de toda a generosidade de Deus, ela continuará no escuro, sem entender nem saber os planos
de Deus, pois ela é incapaz de se firmar em Deus por conta de sua mente dividida.
John Mackay, missionário por vários anos no Peru, e presidente do seminário teológico de
Princeton, EUA, ao passar da morte para a vida, aos 14 anos, disse: “Eu vi um mundo novo... tudo
ficou novo... Tinha uma nova visão, novas experiências, novas atitudes para com outras pessoas.
Amava a Deus. Jesus Cristo passou a ser o centro de tudo...” (citado por J.R. W. Stott, God's New
Society, IV Press, 1979, p. 15). Este é o coração que Deus procura porque é movido na oração por
uma confiança alicerçada na Rocha
— Deus mesmo.
Mas, para o religioso, que busca a Deus e ao mundo ao mesmo tempo (Mt 6.24), não encontrará a
paz esperada nem receberá nada de Deus.
Por se sentir, como Salomão (2Rs 3.7-9), carente de sabedoria, pode ser que Tiago se refira à
sabedoria (3.5) que cristãos necessitam para se firmar e perseverar. Ninguém seria sábio, segundo
Jesus, se começasse a construir uma torre, mas não pudesse terminá-la (Lc 14.28). Sair à guerra
com apenas dez mil soldados, enquanto seu adversário vem contra ele com vinte mil (Lc 14.31) seria
mais loucura do que sabedoria.
Sabedoria tem seu lado prático, mas Tiago está mais preocupado com a sabedoria que vem do
céu, isto é, de Deus, a única fonte de caráter cristão. Mais adiante ele pergunta: “Quem é sábio e tem
entendimento entre vocês?” (3.13). Sua resposta se encontra nas palavras que se seguem: “Que o
demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que procede da
sabedoria”.
Salomão também escreveu: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu
próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos e ele endireitará as suas
veredas” (Pv. 3.5,6). Aqui temos o cerne da sabedoria: confiar no Senhor e não em seu intelecto e
experiência terrena, mas colocar diante dele em humilde oração todas as decisões para se escolher
os caminhos dele.
Como disse um autor: “A sabedoria é a suprema e divina qualidade da alma de um homem que
sabe e pratica a justiça. E também aquela qualidade do coração e da mente que é necessária para a
conduta certa na vida. Conhecimento profundo das coisas de Deus, e conhecimento esse que é
colocado em prática” (William Barclay, p. 53).
O mais importante aqui é que essa sabedoria da qual precisamos não é para saber que tipo de
investimento faremos que nos trará melhor rendimento. Não! Essa sabedoria é para que possamos
conseguir entender o problema do sofrimento e das provações em nossa vida. Pois ela é a base da
sustentação para que possamos nos manter firmes nas dificuldades. “A sabedoria é um presente do
Espírito Santo que nos capacita a ver a história da perspectiva divina” (Peter Davis, p. 72).
A sabedoria não é adquirida em um curso, mas ela vem de Deus. Ela jamais deve ser confundida
com inteligência. Uma pessoa inteligente, instruída e culta não é necessariamente sábia. Se fosse
assim, os mestres e doutores seriam exclusivamente as pessoas mais sábias do mundo. Por outro
lado, isso não quer dizer que alguém inteligente não possa ser sábio. A regra aqui é que não existe
uma regra rígida para o tipo de pessoa que recebe a sabedoria, a não ser que a sabedoria é
concedida a todos aqueles que pedem a Deus;
•IA l-XPOSIÇÃO 1 )1 - TIAGO

(mi (|iu- I )cus e Jesus são a fonte de toda a sabedoria. Como Paulo c m icvcu: “Nele [em Cristo] estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3, ICo 1.24).
I por que sabedoria? Por que ela leva ao temor, pois o temor é
o princípio do saber, como escreveu o autor de Provérbios (1.7). E cm imi outro provérbio mais
adiante completou: “Como é feliz o Immem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento,
pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro. [...] A sabedoria é
árvore que dá vida a quem a abraça; (|iiem a ela se apega será abençoado” (Pv 3.13,14,18).
É importante mencionar que só buscamos aquilo que entendemos não ter. Se alguém se acha
muito sábio jamais pedirá sabedoria. Talvez, por isso, nesse contexto de tribulações é que ele esteja
incluindo a necessidade de se buscar sabedoria, porque nesses momentos de dificuldade é que
percebemos nossa verdadeira carência.
Podemos até achar que nossa grande necessidade nessas horas é de paz, mas Deus nos indica
aqui que o que realmente nos falta é sabedoria. A razão para isso está no fato de que mediante um
problema acabamos agindo de forma imprudente e insensata. Até porque somos normalmente
tentados diante das circunstâncias adversas a decidir de forma irracional; e pelo impulso, sem a ajuda
de Deus. Só depois que tomamos nossas decisões impensadas é que percebemos o grande engano
que cometemos.
Em muitos casos nossa preocupação maior é se livrar do problema, mas muitas vezes, no
processo, fazemos simplesmente uma limpeza parcial, como aquelas pessoas que, em vez de pegar
a sujeira, apenas a empurram para debaixo do tapete na pressa. Em vez de tratar o problema da
perspectiva divina, apenas camuflam causando mais mal.
Podemos assim tirar quatro conclusões desse primeiro parágrafo. 1’riiiK‘iro, uma vida sem
problemas e provações tende a criar passividade e fraqueza — árvores que sobrevivem às
tempestades sem abri- j’,< > e proteção se tornam seguras e fortes. Muitas vezes os problemas sao
benéficos para o nosso crescimento. E quando eles vêm para a superfície não devemos forçá-los
para baixo, sem antes pedir de Deus a sabedoria para saber como lidar com ele. Não adianta apenas
pedir que Deus passe de nós o nosso cálice.
Segundo, o benefício que o sofrimento pode produzir na vida cristã, quando ela for repleta de fé
real, é maturidade e sabedoria. Devemos pedir sabedoria para que, fazendo uso correto dela, pos-
samos ser completamente moldados e transformados nos tornando tudo aquilo que Deus quer que
sejamos. O grande encorajamento para nós é de nos aproximar dele com toda ousadia, pois ele é
gracioso em conceder esse pedido. A única limitação em receber não está naquilo que pedimos, a
sabedoria; mas na forma como pedimos, “com fé”. A razão que o nosso pedido pode ficar sem ser
atendido é devido nossa falta de confiança em Deus. Tiago provavelmente tinha em mente as
palavras de Jesus quando do episódio da figueira que apesar de ter folhas não dava frutos. Jesus
então diz à figueira que ela nunca mais daria frutos e, na manhã seguinte, a figueira estava totalmente
seca. Os discípulos se espantaram e perguntaram a Jesus como aquilo tinha acontecido. E a resposta
de Jesus foi que isso aconteceria não somente com a figueira, mas também com o próprio monte no
qual eles se encontravam, pois se eles dissessem para aquele monte se atirar ao mar com fé e sem
duvidar que isso aconteceria. Por que tudo o que pedissem em oração, se cressem, receberiam (Mt
21.21ss).
A fé que Jesus espera de nós é aquela que confia nele plena e exclusivamente. Pois duvidar é o
mesmo que colocar Deus no banco dos réus. É questionar seu caráter, é discordar dele, é ter divisão
em nossa fidelidade, ou seja, é disputar nossa lealdade entre Deus e algo mais, como muitos fazem
com Deus e o dinheiro. Dividindo- se entre um e o outro. E Deus não aceita de forma alguma esse
tipo de divisão em nosso coração.
Terceira, se nos falta sabedoria e, consequentemente, sofremos dos problemas causados por
nossa estupidez, cabeça dura, orgulho
i vli IO.S, devemos buscar com fé, a sabedoria que Deus dá livre- nu Mif. Podemos ter plena confiançí
que nossa oração não será ig- iioi.ul.i, l’ois da mesma forma que um pai jamais negará comida a uIII
lillio, mesmo ele sendo mau e imperfeito, Deus, que é per- Inio, jamais deixará de nos dar coisis boas
e, principalmente, sua sabedoria. Por que Deus é Deus generoso. Ele nos concede sabedoria sem
restrições de forma liberal.Esse presente está condicionado ao caráter generoso do próprio Senhor
que dá de boa vontade, assim como ele fez com Salomão, presenteando-o de forma tão abundante.
Quarta, Gregório disse sabiamente: “Aos perversos toda situação é uma cilada. São corrompidos
pela prosperidade e machucados pela adversidade; mas para os homens de Deus, cada estado é
uma bênção. Sua prosperidade produz gratidão; e sua adversidade, paciência.” Isso só é possível
para aqueles que não têm a mente dividida (lit. que não tem duas almas).
Uma pessoa de duas almas vive exatamente o caos de tentar caminhar para uma direção, ao
mesmo tempo, que algo lhe diz para ir para a outra direção. Ela é urra pessoa totalmente dividida.
Uma hora está aqui outra hora está ali. E, nesse caso, uma hora ela confia em Deus e, na outra, ela
confia em si mesma. Deus hoje é maravilhoso. Amanhã, Deus é terrível. Hoje ela ora antes de tomar
qualquer decisão. Amanhã, ela faz tudo e depois pede para Deus abençoar as suas decisões.
Hoje Deus é o protetor da sua vida. Amanhã, Deus não passa de um deus perverso. Ela parece
político em campanha eleitoral. No domingo está na parada gay, na segunda-feira vai receber passe
no centro espírita, na terça-feira se encontra com os líderes evangélicos, na quarta-feira com os
mulçumanos, na quinta-feira com os católicos, na sexta-feira com os adventistas, no sábado com os
judeus.
Além disso, a divisão em nossa fidelidade exclusiva para com ICMIS gera em nós instabilidade,
inconstância. Existem pessoas que .•1 SABEDORIA DE DEUS
29
crescem igual o pé de feijão da história de João e o pé defeijão, ou seja, crescem de forma
astronômica da noite para o dia, gerando raízes sólidas e fortes. Em contra partida, outras pessoas
parecem andar como se estivessem amarradas por um elástico não tão flexível. Elas fazem muito
esforço, mas nunca saem do lugar. E se saem do lugar, logo em seguida são atiradas de volta para o
ponto de partida. A vida está cheia de baixos.
Mas o que o Senhor espera de nós é exatamente o contrário. Ele deseja que sejamos descritos,
conforme diz o Salmista, como pessoas que têm o coração completo, íntegro, sem divisões de
lealdade (SI 119.2). Pois um coração dividido pertence ao homem perverso (SI 12.2).
Ele espera de nós que cumpramos o maior mandamento: que possamos amar a Deus de todo o
nosso coração, de toda nossa alma, de toda nossa força e de todo o nosso entendimento (Mc 12.30;
Mt 22.37; Dt 6.4s). Pois quando amamos o Senhor de forma completa, deixamos de ser inconstantes,
deixamos de ser pessoas divididas, para sermos sábios.
POBRES E RICOS — 1.9-11
Se devemos reconhecer uma conexão entre esses versículos e os que os precedem, como
também os que os seguem, podemos inferir que a provação que alguns dos leitores estavam
passando era a pobreza. Houve crises no Oriente Médio, incluindo fome, como podemos notar em
Atos 11.28-30. Barnabé e Saulo levaram ajuda para os necessitados na Judeia. Se essa conclusão
estiver correta, entenderíamos que entre os leitores haviam indivíduos humildes e necessitados. Mas,
longe de ser motivo de lamento, esses irmãos que dependiam seguramente de um Deus todo
poderoso com uma fé genuína deveriam se orgulhar e se alegrar.
E também talvez, por conta dessa desgraça, alguns irmãos estivessem tendo grande dificuldade
de considerar motivo de grande alegria o fato de passar por diversas provações e privações, no caso
dos irmãos pobres, como Tiago afirmou em 1.2. Há uma grande chance de que eles não estivessem
entendendo que todo aquele problema pudesse, de alguma forma, contribuir para seu próprio ama-
durecimento.
É necessário ressaltar que Tiago não está falando de qualquer pobreza ou pessoas pobres em
geral, mas de irmãos na fé que eram pobres. Isso é importante dizer porque o texto não está
colocando uma regra geral sobre a condição social dos milhões de pessoas que se encontram no
mundo sem condição básica de sobrevivência.
Textos como esse e tantos outros que falam da pobreza e da riqueza, infelizmente, foram mal
interpretados por várias pessoas que liam neles uma defesa de que Deus é pelo pobre. E não so-
mente isso, que há certa virtude espiritual na própria pobreza material. Assim a pobreza passou a ser
quase que um meio de salvação, como algumas pessoas argumentam e propagam com uma teologia
chamada Teologia da Libertação. Só que isso é errado. Deus se importa sim com os pobres, e os
necessitados, e os oprimidos, mas daí ver virtude na pobreza em si, como um meio de salvação já é
outra história e totalmente fora do contexto bíblico.
Tiago diz que o irmão pobre, aquele que está bem baixo em uma escala socioeconômica — sem
condições financeiras, sem poder
— que esse irmão que se encontra nessa situação, deve se orgulhar. Orgulhar não é a atitude errada
da arrogância, mas é uma atitude de orgulhar-se alegremente por valorizar aquilo que Deus valoriza.
É uma exortação, um apelo de Tiago para se gloriar, exaltar, orgulhar na posição de exaltação que a
pessoa pobre se encontra.
Paulo falando de nossa condição diante de Deus que, embora não sejamos absolutamente nada
em relação aos padrões desse mundo, ainda assim Deus tinha nos escolhido, “para reduzir a nada o
que é, a fim de que ninguém se vanglorie diante dele”. E se nós línliamos algo do que nos orgulhar,
era daquilo que Cristo tinha leito por nós. Por isso, então ele diz, “quem se gloriar [ou orgulhar- sc|,
(■Jorie-sc no Senhor” (ICo 1.26-31).
. 1 SABEDORIA DF. DEUS
31
No caso de Tiago, seu apelo é que os irmãos, apesar da posição baixa que tinham na sociedade,
deveriam se orgulhar por estar sendo exaltados. Como é que os irmãos pobres em Cristo estão sendo
exaltados? Por que agora em Cristo, mesmo sendo pobre, temos a certeza e a realização de que nos
encontramos entre dois mundos. Estamos em São Paulo ou Natal, no Brasil, mas pertencemos a
Jerusalém celestial, pois somos cidadãos celestiais (Fp 3.21). Por que o Senhor transformará o nosso
corpo de humilhação em corpo de glória (Douglas Moo).
Além disso, uma pessoa pobre e desprezada pode se orgulhar no fato de que hoje foi exaltada em
Cristo, não pelo fato de ser pobre, mas em Jesus Cristo e por intermédio dele, ela se tornou herdeira
do universo (Mt 5.3). Como Paulo disse em 2Timóteo 2.11,12a: “Se morremos com ele [com Jesus
em seu batismo], com ele também viveremos; se perseveramos, com ele também reinaremos”. Esse
orgulho é baseado na alegria que transcende o presente e, até mesmo, nossa situação presente. A
razão disso é porque Deus chamou os rejeitados e até os de situação humilde para uma posição
exaltada (Peter Davis).
É provável também que Tiago tivesse em mente as palavras de Jesus proferidas no Sermão do
Monte: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus” (Mt 5.3). Assim, esse
orgulhar-se é um chamado para olhar além do estado atual dessa vida e vê-la de uma perspectiva
futura das ricas bênçãos celestiais já alcançadas hoje a partir da nossa conversão.
De certa forma, poderíamos dizer que Tiago está espiritualizando nossa situação econômica de
necessidade, de dificuldade e de falta, exortando-nos a abraçá-la com uma atitude e perspectiva to-
talmente diferente. Mesmo estando em um estado de carência ou independentemente da
necessidade que temos, hoje estamos vivendo em abundância, pois o Senhor tem nos exaltado (Lc
18.14).
Talvez o exemplo de vida de George Muller possa nos explicar melhor o que isso significa na
prática. Muller foi ricamente abençoado por Deus alcançando centenas de crianças por intermédio
dos orfanatos que fundou. O impressionante é que ele tinha decidido que jamais pediria ajuda
financeira, exceto em oração a Deus. E foi isso que fez durante toda sua vida. Em uma manhã,
quando todas as crianças do orfanato estavam sentadas para o café, elas não tinham o que comer.
Surpreendentemente, sua oração foi de agradecimento pelo alimento que o Senhor estava
provendo. Mas que alimento, se os pratos estavam vazios? Sem leite e sem pão! Mas logo ao término
da sua oração bateram palmas à sua porta. Ele foi atender. Era o padeiro do vilarejo onde moravam.
Ele disse que o Senhor o havia incomodado na noite anterior dizendo que o senhor Muller e suas
crianças não tinham o que comer. E, por isso, ele tinha acordado às duas horas da manhã para fazer
pão fresquinho para eles. Minutos depois, foi a vez do entregador de leite bater à porta, perguntando
se eles aceitavam leite, pois o carro dele tinha quebrado, bem em frente de sua casa. Por isso, ele
gostaria de dar parte do leite fresquinho que estava carregando para esvaziar as garrafas e tirar o
peso do carro para que assim pudesse consertá-lo. Eles então tiveram leite e pão para o café. Foi
uma resposta direta de uma oração de um servo pobre que se orgulhava da sua condição de
exaltado, por saber quem era o Deus que ele servia.
Creio que seja a essa posição exaltada que Tiago esteja se referindo. Que independentemente do
nosso estado de pobreza material, que devemos considerar motivo de grande alegria o fato de
passarmos por provações, não nos limitando à visão do mundo material. Pois em Cristo, somos
exaltados, por que pela mão dele é que somos cuidados. É poder agradecer de antemão àquilo que o
Senhor já está fazendo. Ainda que pobres materialmente, podemos nos orgulhar de sermos ricos,
material e espiritualmente, pois em Cristo temos toda nossa provisão e cuidado completo.
O rico, igualmente, deve se orgulhar em sua posição humilde, ik-mibada por alguma crise ou revés
financeiro. Ou talvez humi- lli.iVio pela rejeição da sociedade e família. Se os campos não foram
SABEDORIA DE DEUS
33
regados pelas chuvas que Deus, às vezes, segura, a produção encolhe, e os donos dos campos
deixarão de produzir as colheitas costumeiras. Como a flor do campo que murcha, cai e desaparece,
o rico depende também da graça comum. Os ricos orgulhosos e au- tossuficientes são como as
plantas que não aguentam o calor do sol. Sua beleza desaparece de um dia para outro. Os ricos
incrédulos, da mesma forma, murcharão em meio dos seus planos.
Por isso, o ensino principal para o rico diferente do ensino ao pobre é sobre o vazio e a
insignificância daquilo que o mundo valoriza e dá relevância nessa vida diante da realidade da morte.
Não é a segurança financeira nosso porto seguro. Não é o nosso emprego, carro ou dinheiro. Nada
disso é o nosso porto seguro nem mesmo aquilo que nos dá garantia para o resto da vida. Nossa
única garantia, por mais prudentes que devemos ser no uso daquilo que temos, é que toda nossa
riqueza não dá segurança alguma para nós. Somente Jesus pode dar e ser nossa garantia. Como o
autor de Provérbios diz, é o Senhor que “guarda a vereda do justo e protege o caminho de seus fiéis”
(2.8). Não são as suas posses que lhe dão segurança nesta vida, mas o próprio Senhor.
Jesus disse: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e
onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a
ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu
tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21).
Talvez alguns daqueles irmãos ricos estivessem usando daquele momento difícil da fome como
uma oportunidade para ficarem mais ricos ainda, como aconteceu com alguns alemães durante a
guerra. Uma mulher achando que se daria bem depois da guerra começou a esconder comida,
mesmo quando isso era contrário às determinações governamentais. Tudo porque achava que tiraria
proveito do período de dificuldades e começaria a vender os produtos por um preço alto. Até que ela
foi descoberta pelo governo.
Seja qual for o contexto, não era naquilo que eles possuíam que deveriam ser orgulhar. Mas na
sua humilhação. E por que o rico deve se orgulhar na humilhação? Os versículos 10 e 11 explicam
que é por conta da própria natureza transitória dessa vida. Pois tudo nesse mundo passará (Is 40.6-
7). Tudo passa, mas Deus permanece. O salmista no Salmo 49 resume bem essa questão:
“Ouçam isto vocês, todos os povos; escutem, todos os que vivem neste mundo, gente do povo,
homens importantes, ricos e pobres igualmente: A minha boca falará com sabedoria; a meditação do
meu coração trará entendimento. Inclinarei os meus ouvidos a um provérbio; com a harpa exporei o
meu enigma: Por que deverei temer, quando vierem dias maus, quando inimigos traiçoeiros me
cercarem, aqueles que confiam em seus bens e se gabam de suas muitas riquezas? Homem algum
pode redimir seu irmão ou pagar a Deus o preço de sua vida, pois o resgate de sua vida não tem
preço. Não há pagamento que o livre para que viva para sempre e não sofra decomposição. Pois
todos podem ver que os sábios morrem, como perecem o tolo e o insensato e para outros deixam os
seus bens. Seus túmulos serão suas moradas para sempre, suas habitações de geração em geração,
ainda que tenham dado seus nomes a terras. O homem mesmo que muito importante não vive para
sempre, é como os animais que perecem. Este é o destino dos que confiam em si mesmos, e dos
seus seguidores, que aprovam o que eles dizem. Como ovelhas, estão destinados à sepultura, e a
morte lhes servirá de pastor. Pela manhã os justos triunfarão sobre eles. A aparência deles se desfará
na sepultura, longe das suas gloriosas mansões. Mas Deus redimirá a minha vida da sepultura e me
levará para si” (1- 15).
Tudo nessa vida passa, somente Deus permanece para sempre. I;. por mais que alguém com
posses possa ser exaltado diante do mundo, sua posição diante de Jesus é completamente diferente.
E pivi iso que ele mantenha sua perspectiva no caminho certo diante de I K-us. Como Jesus disse:
“todo aquele queasi mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar
será exaltado” (Mt 23.12).
A grande dificuldade é que nós mesmos não conseguimos acreditar nisso, porque temos algo
dentro de nós que nos impulsiona a viver em função de conquistas e de ter e possuir posições e bens.
Naquela ideia errada de que somos aquilo que possuímos. E assim vivemos em função do dinheiro.
Existe uma linha divisória muito sutil que precisa ser considerada. Muitos alegam que estão à
busca de conquistas materiais porque estão pensando no futuro, sendo prudentes. Quando, na
verdade, estão vivendo dependentes e escravos da mentalidade de que não podem ser como foram
nossos pais, que não podem enfrentar as mesmas dificuldades financeiras que eles enfrentaram.
Tudo porque aquele estado era humilhante, e não queremos agora passar por algo semelhante.
Só que essa razão é exatamente o oposto daquilo que Tiago está nos dizendo aqui. Pois ele nos
diz que se temos algo, se somos ricos, devemos nos orgulhar no quê? No fato de Deus o ter
abençoado com tantas posses e tantas vitórias na vida material? Não! Mas na nossa humilhação. Por
quê? Por que a riqueza é enganadora. Ela pode nos dar uma falsa ideia de conforto e segurança a tal
ponto de a substituirmos por Deus. A Bíblia não é antirriqueza. Muitos dos servos do Senhor foram de
fato abençoados ricamente. Os reis, Jó, e tantos outros servos foram abençoados financeiramente.
Mas junto com a riqueza, infelizmente, herdamos o engano principal de que devemos nos acomodar
nessa vida buscando o máximo de conforto. Só que isso normalmente acontece em desprezo à vida
eterna com Cristo. Em outras palavras, a riqueza faz com que tenhamos uma visão muito materialista
e humana da vida, quando, hoje, aquilo que Deus está fazendo é nos preparar para a próxima vida.
Quando nos orgulhamos daquilo que possuímos, em vez de nos orgulharmos na nossa
humilhação, como a palavra diz, perpetuamos o ciclo vicioso pregado pelo mundo. Só que o ciclo
dessa
i. 11
ma liXPosiçAo nr. v

vida é enganoso. Quanto mais temos, mais achamos que precisamos ter. E, à medida que adquirimos
mais, mais tempo precisamos para cuidar do que temos. Quanto mais tempo dedicamos àquiJo que
temos, menos tempo dedicamos ao Senhor.
Outra questão muito importante é que tanto a riqueza como a pobreza estavam sendo motivo de
provação para aqueles irmãos, como também é para muitos de nós hoje. E precisamos nos perguntar
o porquê disso. Talvez por que na abundância, somos testados a não confiar em Deus. Pois
confiamos no dinheiro que pode comprar um remédio, que pode pagar uma consulta médica, um bom
tratamento, e assim por diante. Já na falta, somos testados a desconfiar de Deus. Pois culpamos
Deus pelo que não temos e achamos que deveríamos ter. Assim, lançamos dúvida com respeito ao
caráter perfeito de Deus, que não parece ser tão bom como a Bíblia afirma ser.
A diferença entre o irmão pobre e o rico basicamente está na nossa atitude para com a falta e para
com a abundância. A falta pode levar ao desespero. Enquanto a abundância pode levar a
autossuficiên- cia. Tanto uma como a outra atitude é problemática e errada. Ambas devem ser
abandonadas, e substituídas pelo orgulhar-se no estado exaltado, e orgulhar-se no estado humilhado.
Teoricamente, alguém pode achar que seja mais fácil para o rico na sua abundância se humilhar
do que para o pobre na sua pobreza se exaltar. Isso por ser aparentemente mais fácil para o rico, que
já tem tudo, contentar-se com aquilo que ele um dia terá do que para o pobre, que não tem nada,
alegrar-se com essa perspectiva. Mas, na pratica, os problemas são tão sérios para aqueles que
convivem com ele e apenas mais fáceis de ser vistos de cima do murro. O irmão pobre pode viver
frustrado e angustiado em função do que não tem, mas sonhando em um dia ter. E o mundo e a
sociedade fazem bem esse papel de constantemente trabalhar os nossos apetites materialistas.
Ao mesmo tempo em que o irmão rico talvez sonhasse em abrir mão de tudo, simplesmente para
poder descansar e ter uma vida simples sem preocupação, mas como já está vivendo em uma bola
de neve e acostumado com os sabores da vida, torna-se muito difícil simplesmente ignorar tudo e
abrir mão desse pesadelo.
Por outro lado, a própria Bíblia explica que existe sim um perigo maior na questão da riqueza do
que na questão da pobreza. Pois tudo aquilo que foi adquirido, que uma pessoa conquistou e colocou
seu coração nessas coisas, desaparecerá, e, com esse desaparecimento, a própria pessoa que
confiou sua vida nas coisas, também desaparecerá junto. Ela morrerá e com ela todas as suas
conquistas. Mas, além disso, ela também será julgada, pois sua conduta aqui será também transferida
para o juízo eterno.
Por fim, o cântico de Maria, mãe de Jesus, expressa o pensamento paralelo ao de Tiago: “Encheu
de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1.53). O Deus misericordioso,
que enviou seu Filho para viver em um lar pobre, certamente tem um cuidado todo especial pelos
carentes. Contudo, a única base para pobres e ricos se orgulhar depende de sua relação salvadora
com o Senhor exaltado.
PROVAÇÕES E TENTAÇÕES — 1.12
Provação, dificuldades, problemas, sofrimento, tribulação, depressão, seja qual for o nome que
damos às adversidades e às tragédias da vida, a verdade absoluta é que não é fácil enfrentá-las. O
ser humano pode ser forte, inteligente, brilhante ou, até mesmo, o maior gênio da matemática, e ainda
assim não estar imune aos dramas da vida. Como aconteceu com John Forbes Nash Jr. que ainda
jovem fez uma descoberta revolucionária no campo da matemática que anos depois lhe renderia o
prêmio Nobel de Economia. Mas mesmo para uma mente brilhante como a de Nash não foi suficiente
para que ele ficasse imune à esquizofrenia que quase destruiu sua vida, carreira e casamento.
A adversidade não escolhe a classe social, baixa ou alta; a escolaridade, analfabeto ou doutor; a
beleza, bonito ou feio; a religião, cristão ou pagão nem o grau de espiritualidade, infiel ou compro-
metido. Ela é uma fatalidade, parte de um mundo caído. É parte de um mundo que vive no mal, que
herdou as conseqüências da rebelião do primeiro casal que teve o privilégio de ver Deus face a face.
Mas independentemente desse drama que vivemos, nós, como servos do Senhor, podemos
experimentar e viver de forma diferente mesmo diante dos problemas e das provações que o mundo
nos prepara.
E no versículo 12, Tiago, novamente, vai de forma contundente contra tudo aquilo que o mundo
nos apresenta como resposta fácil quando afirma que existe maior alegria no fato de perseverarmos
na provação, porque depois de aprovados receberemos o grande prêmio, a coroa da vida, que Deus
garantiu entregar àqueles que o consideram acima de tudo nessa vida.
Tiago começa dizendo “feliz” ou “bem-aventurado” é a pessoa que persevera na provação. O
grande dilema e mesmo ironia dessa bem-aventurança é que ela pressupõe a felicidade quando nós
nos encontramos em um estado deplorável. É fácil abraçar aquilo que o salmista diz: “Como é feliz
aquele que não segue o conselho dos ímpios” (SI 1.1). É certo que ninguém em sã consciência iria
para a porta de um botequim para se aconselhar com bêbados sobre sua vontade de abrir um
negócio. Qual a felicidade que alguém encontraria seguindo conselhos dessas pessoas?
Por isso, é muito fácil perceber que feliz é aquele que tem sua satisfação na lei do Senhor (SI 1.2).
Por outro lado, é muito mais difícil aceitar que exista felicidade em se perseverar na provação. Todos
nós já tivemos nossos dias difíceis. E quantos se animam com os famosos: “Não chora”; “Deixa disso,
não vale nem a pena se estres- sar”; “Ah, isso vai passar”; “Levanta a cabeça, esquece isso, tudo vai
ficar bem”; “Nada como um dia após o outro”; “Você tem que ser forte”. S_e tivéssemos essa força,
não seria exatamente isso que es- taríamos fazendo?
Mas independentemente de ser tão difícil abraçar o que Tiago diz, ainda assim, é verdade que
feliz é aquele que persevera. Por mais doloroso que seja aceitar, há felicidade mesmo quando nos
encontrarmos em um estado miserável. O próprio mundo nos dirá que somos coitados por estarmos
nesse estado. Ou muitos de nós olham para as pessoas em dificuldade como coitadas e miseráveis.
A razão disso é que definimos a miséria das pessoas pelo que elas passam. Só que Deus define
nossa miséria não pelo que passamos, mas pelo que deixamos de alcançar. Por essa razão, Tiago
nos ensina que feliz é a pessoa que persevera na provação.
A felicidade aqui está ligada a perseverança. Como Tiago já havia mencionado nos versículos 3 e
4: “pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. [...] E a perseverança deve ter ação
completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros[...]”.
Não temos outra saída, pois, como cristãos, precisamos praticar a perseverança a fim de alcançar
um caráter perseverante. Da mesma forma que um atleta persevera ou passa por estresse físico para
alcançar um grau maior de resistência, assim também acontece conosco, os cristãos. Precisamos
resistir aos testes ou às tribulações da vida a fim de obter a perseverança espiritual que trará
perfeição.
Diante dos problemas, temos que zelar pela nossa atitude diante de Deus. Não devemos permitir
que entremos na murmu- ração que leva ao desespero. Mas como o autor de Hebreus escreveu
devemos “suportar as dificuldades como disciplina. Deus nos trata como a seus filhos. Ora, qual o
filho que não é disciplinado por seu pai?” (Hb 12.7). Tribulação para o não cristão é punição, mas para
o cristão é teste, uma verdadeira prova de amor do Pai.
Como escreveu Thomas M.: “Uma pessoa pode não ser sempre feliz quando tudo acontece
segundo os seus próprios desejos, mas ela pode resistir e perseverar o mal com vitória e paciência”.
E a perseverança é alcançada na provação, ou seja, durante a tempestade.
Deus quer de nós dependência, confiança nele, ou seja, quer que nos apoiemos nele. O cristão
chora. O cristão sente dor. O cristão se luimilha diante de Deus. Ele clama ao pai por socorro. Ele
perse- vera na provação. Como Jesus disse: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice;
contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.39). Quando Jesus disse isso ele
estava sendo poético e politicamente correto com suas palavras? É claro que não. Jesus estava
prestes a enfrentar a morte e ele sabia muito bem disso. Seu próprio sentimento demonstra isso. No
versículo anterior, ele dissera que sua alma estava profundamente triste, “tristeza mortal” (Mt 26.38).
E o evangelista Lucas nos informa que sua angustia era tamanha que ele orava intensamente, e seu
suor era como “gotas de sangue que caíam no chão” (Lc 22.44).
Não podemos ser cínicos. Não podemos negar que o sofrimento existe e que ele dói. Ele
machuca. As dificuldades física, emocional e econômicas desta vida são reais. A vida é repleta de
problemas. Não temos como fugir dessa realidade. Somos pessoas vulneráveis a tudo. Basta um
vírus, e ficamos de cama. Basta uma mudança de tempo, e pegamos uma gripe. Basta uma noite mal
dormida, um pouco de estresse, falta de comida e uma queda na pressão sanguínea que perdemos
os sentidos, como acontece com aqueles que sofrem de síncope do vaso vagai.
Mas será que Deus está pedindo que tenhamos fé a ponto de ignorar ou fazer de conta que não
estamos sofrendo ou que não sofremos de forma alguma porque somos supercrentes? De forma
alguma! Não é vergonha nem pecado um cristão ficar doente ou sofrer, sentir-se frágil. Isso é ser
humano. Como Paulo afirmou: “por amor de Cristo, vos foi concedido não somente crer nele, mas
também sofrer por ele” (Cl 1.29, A21). Contudo, o Senhor espera que não vivamos presos, limitados
nem acorrentados pelas tragédias da vida de tal forma que nos impossibilite de ver além do nosso
próprio problema. Pois assim deixamos de enxergar tudo aquilo que de mais precioso ele tem nos
dado e nos preparado para receber.
Como disse o profeta Habacuque: “mesmo não florescendo a ligurira, e nao havendo uvas nas
videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimentos na lavoura, nem
ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no
Deus da minha salvação” (3.17,18). As aflições externas só serão o mal maior, se Deus não for nosso
bem maior. Por isso, rejeitar nossa situação não é o caminho, mas o caminho é perseverar na nossa
provação.
Provação e tentação traduzem a mesma palavra grega (peiras- mos). Esta deve ser a razão que
Tiago trata dos dois sentidos nesse parágrafo. Primeiro, ele trata da felicidade do homem que
persevera na provação (certamente, a melhor opção no v. 12). Todo tipo de sofrimento atinge o
homem em conseqüência da queda de Adão e a maldição que foi pronunciada contra o mundo por
Deus. O apósto
lo Paulo escreveu: “Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a
glória que em nós será revelada. A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de
Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por
causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será
libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos
de Deus” (Rm 8.18-21).
A felicidade dos que perseveram nas provações e são aprovados (dokimos, v. 2) culmina no
galardão de receber a coroa da vida (v. 12). Essa coroa (stephanos, grinalda, uma coroa de folhas)
correspondia nos jogos olímpicos à medalha de ouro nos dias atuais. A aprovação do Senhor resulta
na honra concedida a um vencedor. Todo cristão que não desiste, mas persevera, será reconhecido
como vencedor, recebendo a coroa da vida, prometida por Deus para aqueles que o amam.
Paulo afirma que ele corre para ganhar o prêmio que ele também chama de coroa (stephanon).
Enquanto os que correm no estádio correm para uma coroa ou grinalda que perece, Paulo esmurra
seu corpo para ganhar a corrida de Deus. A grinalda que o Senhor lhe dará não perece (ICo 9.25),
mas durará para sempre. A permanên- ( i.i duradoura confirma que a vida eterna nunca acabará.
Novamente, em 2Timóteo, Paulo, pouco antes de sua decapitação em Roma, expressa sua confiança
em ser galardoado com uma coroa (stephanos) de justiça (4.8). Todos os justificados (declarados
justos pela graça) receberão a coroa que os identifica como perfeitos, sem mácula ou mancha de
pecado.
A coroa é o emblema de sucesso espiritual concedido pelo Rei do universo àqueles que mantêm
sua fé. Talvez tenha sido desse versículo que C. S. Lewis tenha tirado a ideia de coroar os jovens
vencedores Pedro, Edmundo, Susana e Lucia, no final de sua primeira aventura, contra a Rainha má
de Nárnia, pois eles passaram no teste da fé e perseveram até o fim.
E coroa da vida aqui pode ser entendida como a coroa que é a vida que Deus nos premiou. Essa
vida é sem dúvida a vida eterna, o desfrutar da presença de Deus na eternidade. Em Apocalipse 2.9 e
versículos seguintes, Jesus diz para os cristãos que estão sofrendo que aqueles que perseverarem
que o prêmio será a vitória sobre a morte. “Estas são as palavras daquele que é o Primeiro e o Ultimo,
que morreu e tornou a viver. Conheço as suas aflições e a sua pobreza, mas você é rico! Conheço a
blasfêmia dos que se dizem judeus, mas não são, sendo antes sinagoga de Satanás. Não tenha
medo do que você está prestes a sofrer. O Diabo lançará alguns de vocês na prisão para prová-los, e
vocês sofrerão perseguição durante dez dias. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida.
Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. O vencedor de modo algum sofrerá a
segunda morte’.” .
Jesus conhece nossa aflição. Ele sabe onde está localizada nossa dor. Ele conhece exatamente o
que estamos passando. E ele pede de nós coragem? Ele diz para nós “deixarmos disso”, ou “sairmos
dessa”? Não. Ele pede de nós fidelidade. Ser fiel, mesmo em caso de ter que enfrentar a morte.
Esse versículo de Tiago é um dos mais apocalípticos de todo o livro. Pois ele está olhando para o
presente: as nossas dificuldades e provações hoje, mas nos chamando para uma disposição futura. É
impressionante como, em grande parte da Bíblia, a questão do sofrimento está relacionada com o
presente e o futuro.
O presente sempre sendo o momento que experimentamos nosso sofrimento, e o futuro sendo
sempre nossa âncora na qual devemos nos apoiar. Parece que, de alguma forma, o Senhor quer nos
ensinar que o sofrimento nessa vida, no presente, é inevitável. Em parte, é inevitável por estarmos em
um mundo caído, corrompido e contaminado pelo pecado.
E focalizar no sofrimento, na dor, no problema, na tribulação só agrava o fato como se fosse uma
forma que o mundo encontrou para nos distanciar de Deus. Mas o encorajamento do Senhor está em
nos ensinar e nos impulsionar a olhar para além do sofrimento na expectativa e na esperança daquilo
que ele está reservando para nós para toda a eternidade.
Por pior que sejam os nossos sofrimentos, e eles são legítimos e verdadeiros, Paulo diz que eles
ainda assim se quer podem ser comparados com a glória que em nós será revelada (Rm 8.18). Ou
ainda que eles, embora nada mais sejam do que leves e momentâneos estão produzindo para nós
uma glória eterna que pesa mais do que todos eles (2Co 4.17). Por essa razão, precisamos fixar os
olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se
vê é eterno (v. 18).
De alguma forma sobrenatural encontraremos força mudando nosso foco do problema para a
glória aguardada da herança que receberemos no momento prometido. Além disso, é necessário re-
conhecer a própria limitação do período de sofrimento atual que é passageiro, mesmo que para
muitos de nós algumas horas de angústia pareçam representar uma vida inteira de sofrimento.
E se falhamos em ter uma visão correta e certa de nosso futuro, falharemos em uma abordagem
correta e equilibrada do nosso presente. Viveremos no tormento da dor sem esperança. Ficaremos
desanimados e desmotivados com a própria vida, e muito mais ainda com a vida cristã. Estaremos
nos culpando por não agirmos como ilcvci (.mios, e a tendência de correr para mais longe de Deus,
por
i OIII.I da própria sensação e sentimento de falência espiritual, por \.IIKT como devemos agir e acabar
agindo de outra forma.
('orno é lastimável pensar que existem muitas pessoas enga- n.indo e sendo enganadas com essa
ideia diabólica de que o crente 1 1 . 1 0 sofre, o crente não fica doente. Quando o que a Bíblia mais
afirma é que o sofrimento é real. Que os problemas machucam, doem. Que essa vida não é fácil não.
E essa mentira nos tenta a encobrir uma realidade que é impossível de ser coberta. E tão impossível
encobrir e mascarar o sofrimento como cobrir o mar ou impedir que o sol apareça. Podemos e
tentamos fazer de tudo — correr para médicos, tomar remédios, fazer tratamentos, praticar esportes,
alimentar-se bem, mas a verdade é que a vida neste mundo pressupõe dor, angústia e tribulação.
Seria utopia achar que o sofrimento é injusto tanto quanto que Deus é injusto por permitir que o
mundo seja assim. Por outro lado, o lado melhor da moeda, é que Deus não nos criou para a terra,
mas para o céu. E pode um crente viver no presente sem a visão do céu? O presente que recebemos
no meio de tudo é um chamado para focalizarmos nossa pátria verdadeira (Fp 3.20).
Por isso, a constância e a perseverança têm grande valor para Deus. O apóstolo Paulo disse que
Deus “ ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’. Ele dará vida eterna aos que, persistindo
em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade” (Rm 2.6,7). Na competição dos jogos, a
perspectiva de ganhar o prêmio serve de estímulo para os atletas. Também, para todos os que perse-
veram na corrida cristã, apesar das aflições e oposição, Deus oferecerá a coroa da vida.
TENTAÇÃO — 1.13-15
Nós, os seres humanos, nascemos com várias tendências. Uma delas é a mania de se desculpar,
até como forma de se eximir de responsabilidades. E a grande maioria de nós nem percebe isso.
Quantos aqui já quebraram um copo ou um prato? O mais engraçado é que quando quebramos
alguma coisa, a primeira reação que temos é de não saber o que aconteceu. Estava segurando o
copo, mas ai ele simplesmente caiu!
Alguns anos atrás, assistindo a um programa de televisão, um debate sobre a questão do
homossexualismo, havia um pastor, um homossexual, algumas pessoas da sociedade e um jornalista.
O homossexual então começou argumentando que o problema todo era das pessoas que o taxavam
como doente, como se ele tivesse algum problema de saúde. E, à medida que ele foi ficando sem
argumentos, ele simplesmente disse: “Eu nasci assim. Deus me criou dessa forma, o que eu posso
fazer. Esse é um problema, se é que eu posso chamar de problema, de questão genética ou
biológica. Eu não tenho controle sobre ele”.
Basicamente, o que ele fez, é o que todos nós temos a tendência de fazer. Nós nos esquivamos
da nossa responsabilidade diante dos nossos problemas, das nossas falhas, dos nossos erros e
transferimos a culpa para algo ou alguém. Em grande parte é exatamente sobre isso que Tiago está
falando aqui nesses versículos: da nossa responsabilidade diante das nossas ações e do cuidado que
temos que ter para que não saíamos culpando os outros ou, mais especificamente, Deus, porque
somos responsáveis pelos nossos atos.
Tiago nos alerta aqui para o fato de que não podemos olhar para nossa situação, para nossas
provações nessa vida, e cair no pecado, seja ele qual for, e depois nos voltarmos para Deus para
dizer que se pecamos a culpa é toda dele. Não podemos fazer isso, pois Deus jamais nos colocaria
em uma situação que nos forçaria ao pecado. Pois o pecado é responsabilidade individual de cada
um de nós.
Tentação distinto da provação trata de pecado. Dificilmente, compreende-se a verdadeira natureza
do pecado sem a orientação da revelação divina. L. S. Chafer afirmou: “Pecado é o que Deus diz que
é, e nesse ponto a opinião e a filosofia humanas têm que se dobrar diante do testemunho da Palavra
de Deus em que ele declara . 1 verdadeira natureza do pecado” (citado por H. Hendricks (tese de
Mestre de Teologia, p. 37) da Systematic Teology, Dallas, 1947, 11.226). Porque Deus é santo, seu
caráter estabelece o padrão de santidade que o pecado anula.
Tiago quer que seus leitores entendam como a tentação atua para arrastar o homem para o
abismo da destruição. Quase todos querem ser perfeitos, exatamente o que Deus exige de nós (Mt
5.48). Mas a fraqueza da carne, a busca pelo prazer e a força da tentação vence nossa determinação
de não ceder. Tiago traça o processo de modo singular.
Ninguém que está no meio da tempestade da tentação deve dizer, “Estou sendo tentado por
Deus”, pois como Deus não pode ser tentado (gr. apeirastos) pelo mal, a ninguém tenta.
Talvez essa nossa tendência de transferir a culpa para outras pessoas tenha sua origem no jardim
do Éden, como aconteceu com o primeiro casal. Logo depois que Eva comeu do fruto e deu para
Adão comer, eles imediatamente perceberam que estavam nus e fugiram, com medo, da presença de
Deus. Quando Deus perguntou a Adão se ele tinha comido do fruto da árvore da qual ele tinha
proibido, qual foi a resposta de Adão?
“Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gn 3.12).
Adão não somente culpa a mulher por ter-lhe dado do fruto proibido, mas, principalmente, ele culpa
Deus. Na sua resposta, Adão insinua que se Deus não o tivesse presenteado com uma mulher tão
perversa, ele não teria desobedecido à ordem de Deus para não comer do fruto. Por isso, Deus, em
primeiro lugar, era o grande culpado, depois a mulher.
Em seguida, Deus pergunta para a mulher: “Que foi que você fez?”. E como a mulher já tinha um
bom professor nas coisas erradas, ela copia o marido e diz que a culpa era da serpente que a tinha
enganado, por isso ela tinha comido do fruto proibido.
Apesar de cada um deles ter tentado transferir a culpa para o outro, com exceção da serpente que
não tinha para quem transferir a culpa, todos eles sem exceção foram punidos, por todos terem peca-
do.
Alguém poderia até argumentar que eles, se Deus não tivesse colocado a árvore no jardim, jamais
teriam sido tentados. Ou se eu não tivesse sido promovido no meu emprego passando a ser respon-
sável por muitas pessoas e a ter livre acesso ao dinheiro da empresa, jamais teria colocado a mão
naquele dinheiro. Ou se eu não tivesse tanto prestígio no meu cargo, jamais teria sido assediado
como sou. Ou se eu não fosse tão bonito, como Deus me fez, as pessoas não olhariam tanto para
mim. Ou o contrário, se Deus não tivesse me feito tão feia ou feio, não teria tanto problema com baixa
autoes- tima, e não me sentiria tão deprimida. Se Deus não tivesse permitido que eu fosse tão pobre,
não teria essa ganância no meu coração.
Se, se, se! Poderíamos falar de tantas outras possibilidades, mas a verdade é que vivemos no
campo da realidade, e não da possibilidade. Independentemente do que somos, temos ou fazemos, o
fato principal é que não podemos culpar Deus nem ninguém por algo que somos totalmente
responsáveis. E a razão é bem simples e objetiva como Tiago afirma: Deus não pode ser tentado pelo
mal, nem Deus tenta ninguém.
Por que Deus não pode ser tentado pelo mal? Muito simples, a tentação é algo impossível de
acontecer devido ao próprio caráter santo de Deus. É comum as pessoas questionarem um incidente,
questionando-se como é que alguém pôde fazer algo assim. As pessoas podem até dizer, olha fulano
tem um caráter irrepreensível, e eu garanto que ele jamais faria algo assim. Mas isso é realmente
verdade? Infelizmente não. Somos pessoas falhas. Podemos hoje não ser tentados em uma área,
mas isso não quer dizer que jamais seriamos capazes de cometer tal crime.
Por exemplo, em uma classe de aconselhamento durante o seminário, a professora que era
psicóloga apresentou um caso verídico de um pai e líder de uma igreja que abusava sexualmente das
suas três filhas. Apesar de ter conhecimento de tudo, a mãe nunca tinha feito
ii. nl.i pura dar fim àquela situação. A filha mais velha, que já não morava mais em casa,
confidenciou isso para ela durante os encon-
1 1 < >s. C 'omo os alunos deveriam abordar esse problema? Depois de muito debate, os alunos
divididos em grupos chegaram a algumas conclusões.
O mais interessante é que um dos grupos, como os integrantes ci am todos pais, não podia conter
sua indignação e desejo de vingança. Mas a conclusão que outro grupo chegou, conclusão nada fácil,
c que aquele episódio só demonstra o quanto todos nós precisamos desesperadamente da graça de
Deus em nossa própria vida. A realidade demonstra que estamos sujeitos aos mesmos crimes,
porque somos humanos como aquele homem e vivemos em um mundo caído como aquele homem. A
única diferença é que não fomos nós que fizemos o que ele fez, talvez fizemos outras coisas
diferentes ou piores, ou até menores, mas fizemos algo. E todas elas são abomináveis diante de
Deus.
Ao contrário de nós, porém, Deus é completamente santo e perfeito. Nele não há ganância. Não
há mancha, cobiça ou qualquer outro sentimento que possa levar o Senhor ao pecado. A tentação é
um impulso para o que é mal, para o que é errado, para o pecado. Mas como Deus não é susceptível
ao desejo pelo mal, pelo pecado, porque o mal não afeta a Deus, ele jamais poderia desejar mal para
ninguém (Laws). É por isso que Deus não pode ser tentado pelo mal. Porque o mal é contrário a
natureza de Deus. E, consequentemente, ele não pode tentar ninguém.
O mesmo pode-se afirmar em relação à experiência que Israel teve com Deus no deserto. O modo
que Deus provou ou testou o povo no deserto não foi nesse sentido. Não envolveu nenhum mal ou
injustiça em Deus. É verdade que Deus prova os seus filhos, mas não para produzir uma reação
pecaminosa.
Jesus mesmo foi “levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo
Diabo” (Lc 4.1,2). Jó passou por horríveis provações que o Diabo maquinou. Certamente, embutidas
IK.-I.IS houve tentações de amaldiçoar a Deus e se suicidar. No entan- ■IBEDORIA DE DEUS
49
to, o que Tiago ensina aqui é que a tentação ao pecado, em si mesma, não pode ter origem em Deus.
W. H. Griffith Thomas considera a distinção entre provação e tentação (ambas traduzem a palavra
grega, peirasmos) assim: “Satanás nos tenta para provocar o mal; Deus nos prova para provocar o
bem” (Hendricks, op.cit. p 39).
Se é errado atribuir a Deus a fonte da tentação, ainda há duas outras possibilidades. No caso de
Jesus, a fonte claramente veio de fora, do inimigo de Deus. No caso de homens caídos a tentação
vem de dentro. A culpa é do mau desejo (o que os judeus chamaram tradicionalmente em hebraico,
yetzer hará, “inclinação para o mal”.
E é nosso próprio mau desejo, nossa própria inclinação para algo ruim, contrário a vontade de
Deus, que pode nos conduzir ao pecado. A palavra desejo nem sempre tem sentido negativo na
Bíblia, como em Lucas 22.15, quando Jesus disse que “desejou” comer aquela última páscoa com os
discípulos. E é claro que a tentação em si ainda não é pecado. Mas, em Tiago, o sentido da palavra
“desejo” tem que ver com desejo carnal e egoísta, um desejo ilícito, englobando também todo tipo de
paixões sexuais ou não. Assim, ele diz que nossa tentação é movida por um impulso individual próprio
de nosso ser caído que é por algo ruim.
Ela é paralela à doutrina do pecado original que, além de nos incluir no pecado e na culpa de
Adão, macula-nos com coração egoísta e impuro. Jesus descreveu essa fonte venenosa assim: “Pois
do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos,
os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a
arrogância e a insensatez” (Mc 7.21,22). Somente poderá sair de dentro o que já existe em forma de
semente. Uma vez estimulada e germinada nas circunstâncias da vida, o pecado será cometido.
Tiago descreve a força da tentação com a palavra “arrastado” (iexelko que sugere seqüestro
forçado), vencendo as forças que resistem e os argumentos que reconhecem que a atividade é
errada.
Ao usar essa palavra, intenção de Tiago parece ser para demonstrar o eleito da força que o prazer
pode ter sobre nossa vida a tal ponto dc nos conduzir para um abismo.
Em seguida, a tentação seduz (deleazo, incitar, engodar), persuadindo a vítima que o prazer de
ceder à tentação criará uma satisfação compensadora. Essa linguagem, os comentaristas nos infor-
mam, originalmente falava da pescaria. Nesse caso, o desejo seria o anzol; a sedução, a isca; e a
conceição, a linha que arrasta o peixe para fora da água. Uma vez lançado na água, ele se torna
atraente. Mas tão logo a vítima seduzida pela isca agarra o anzol com sua boca, sua morte está
praticamente decretada. E assim é o que acontece com os nossos maus desejos. Nós os nutrimos, os
alimentamos e, quando menos esperamos, estamos totalmente entregues a eles, sendo seduzidos e
arrastados por eles. Por outro lado, se o processo é abortado aqui, ainda há esperança, como ainda
assim há esperança, mesmo que mínimas, para que o pescador mesmo depois de ter pegado um
peixe o arremesse de volta para a água. Do contrário, entramos no processo de gestação do pecado,
conforme ilustrado por Tiago.
A palavra “concebido” trata da união entre a célula masculina e
0 óvulo da mulher que concebe uma criança. Aproveitando o raciocínio, a mente pecadora imagina
cenários em que o pagamento não seria pesado demais para ele pagar.
Como alguém que se deixa seduzir para comprar uma máquina de lavar ou um carro, mas
somente se for obrigado a fazer o primeiro pagamento três meses depois. Em um país como Abu
Dabhi, em que devedores delinqüentes são encarcerados, não é surpresa saber que milhares de
carros foram abandonados no aeroporto pelos trabalhadores que perderam seus empregos e agora
não têm com que pagar suas dívidas. O salário do pecado é mais alto —
1 própria morte. Esse é o filho, conforme diz Tiago, a que o desejo gi-rn e dá a luz (v. 15).
l .sse processo todo, tão bem descrito em Provérbios 7, é muito u ilisi.i. “l)a janela de minha casa
olhei através da grade e vi entre os inexperientes, no meio dos jovens, um rapaz sem juízo. Ele vinha
pela rua, próximo à esquina de certa mulher, andando em direção à casa dela. [...] A mulher veio
então ao seu encontro, vestida como prostitua, cheia de astúcia no coração. [...] Ela agarrou o rapaz,
beijou-o e lhe disse, descaradamente: ‘Tenho em casa a carne dos sacrifícios de comunhão, que hoje
fiz para cumprir os meus votos. Por isso saí para encontrá-lo; vim à sua procura e o encontrei! Estendi
sobre o meu leito cobertas de linho fino do Egito. Perfumei a minha cama com mirra, aloés e canela.
Venha, vamos embriagar- nos de carícias até o amanhecer; gozemos as delícias do amor! Pois
o meu marido não está em casa; partiu para uma longa viagem’. [...] Com a sedução das palavras o
persuadiu, e o atraiu com o dulçor dos lábios” (6-21). O fim desse encontro mau fadado foi uma flecha
atravessando seu fígado (23).
Bruce Wilkinson, em seu livro Santidade pessoal em tempos de tentação (São Paulo: Mundo
Cristão, 2002), afirma que a tentação sexual é a área que mais atinge os homens. Segundo uma
pesquisa realizada nos Estados Unidos, 62% dos homens lutam contra essa tentação. Na Internet, os
sites que se tornaram mais populares são aqueles dedicados à pornografia. Se Tiago estava
pensando em pecado sexual ou não quando disse o seguinte: “Então esse desejo, tendo concebido,
dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte” (Tg 1.15), não sabemos. Mas,
que o grande desafio para homens de Deus é buscar e manter a pureza de coração, isso podemos ter
certeza.
Paulo escreveu para os tessalonicenses: “A vontade de Deus é que vocês sejam santificados:
abstenham-se da imoralidade sexual. [...] Porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a
santidade” (lTs 4.3,7). O padrão bíblico de moralidade sexual, claramente, diz: “nenhuma prática de
sexo fora do casamento”. Pense bem.
1) Sexo antes do casamento com qualquer pessoa que não seja a esposa legitima é proibido. 2)
Suscitar desejo sexual ou pensamentos impuros dirigidos à outra pessoa é pecado, a menos que seja
sua esposa ou esposo. 3) Pensamentos impuros, o que a Bíblia chama ilc “lascívia ou paixão”,
conforme Colossenses 3.5, é condenado pelo Senhor.
Pela graça de Deus e pelo poder do Espírito Santo devemos criar hábitos que expressam
santidade e não ignorar a força da inclinação para satisfazer qualquer desejo que não tenha o apoio
do Senhor. O pecado mata (v. 15; Rm 6.23). A santidade fortalece nosso relacionamento com Deus e
nossa capacidade para resistir à tentação.
Essa palavra de conclusão de Tiago é um grande alerta para todos nós. Felizmente, as coisas não
acontecem por acaso, conforme muitas vezes alegamos que simplesmente aconteceu. De forma
alguma! As coisas acontecem em um processo, tanto quanto um nascimento acontece em um período
de tempo. Se alguém está irritado, por uma noite mal dormida, terá que se redobrar no cuidado para
não ofender ninguém. Precisará pensar antes de falar para não sair falando sem pensar.
Essa palavra também serve de alerta para a igreja. Muitos têm se alimentado de dietas
contaminadas dia após dia. Sem se quer achar mal nisso. Depois dizem que as coisas acontecem.
Não! Muitas coisas são reflexo de um processo. Quando discípulos de Jesus se alimentam de novelas
e filmes que nada oferecem, não têm como não esperar um resultado final desastroso. Pois ninguém
pense que os valores que esses programas estão passando não estão afetando a mente, porque
estão.
Ideias e práticas erradas não nascem da noite para o dia. À medida que nos alimentamos de
conceitos contrários à vontade de Deus não podemos esperar que depois faremos a vontade de
Deus. Nesse processo de namoro, aquilo que é errado se torna certo ou, no mínimo, sem muita
importância. “Todo mundo faz. Todo mundo aceita. Isso é tão normal.” Pode ser até normal para o
mundo, mas isso não quer dizer que seja para Deus nem para seu povo. Igual a uma reportagem que
saiu a alguns anos atrás de pais que
j/VM nr m-vs
cstavam comprando camas para os namorados ou namoradas dos
I i Ilios para que eles não fossem dormir na motéis. Só porque todo inundo dá propina para conseguir
as coisas nesse país, isso quer dizer que a igreja também deve fazer o mesmo? Que mensagem pas-
samos fazendo isso? E todas essas ideias não nascem da noite para o dia, elas são alimentadas em
nossa mente e, com o passar do tempo, elas passam a fazer parte de quem somos e nos
impulsionam a agir erradamente.
É por essa razão que, no que se trata do pecado, não podemos brincar, não podemos o ficar
alimentando, mas, antes que ele seja gerado, temos que abortá-lo. Do contrário, poderá ser tarde de-
mais. Por isso, se o anzol já está em nossa boca, é melhor que ele nos fira agora e possamos nos
livrar dele do que nos entregar totalmente e nos deixar ser arremessados para fora da água.
Se, por um lado, aqueles que perseveram recebem a coroa que é a vida eterna (v. 12), por outro
lado, somos lembrados aqui que aqueles que não perseveram e caem em tentação, pecando o
resultado é a morte.
CONTRASTES E PAR AI.EI .OS ENTRE A TENTAÇÃO E A
SANTIFICAÇÃO — I.l6-l8
O paralelo entre a tentação e a pessoa que culpa a Deus pelo seu pecado deve ficar muito claro.
As duas atitudes são ilusões, e não a verdade revelada acerca de como Deus de fato é. Assim,
acusar Deus de ser o tentador (v. 13) e não resistir ao engano que racionaliza uma tentação
pecaminosa é uma atitude que põe nossa paz e esperança eternas na UTI. Pode ser fatal. Deus nos
ama. Ele quer nosso bem. Imaginar que porque nasci pecador, tenho que pecar em um determinado
momento é puro engano. Os recursos necessários para vencer a tentação ficam disponíveis para
aqueles que humildemente dependem do Senhor. Paulo declara, inspirado pelo Espírito Santo: “Se
viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as práticas do corpo vivereis”
(Rm 8.13, A21).
( (ilt-r . 1 tentação é sério, tal como seria deliberadamente tomar um
i <>p<> de veneno.
C) engano que amados irmãos poderiam atribuir a Deus seria i|iie ele seja a fonte da tentação. Ele
não somente é bom e incapaz de tentar com o mal ou ser tentado pelo erro, mas porque ele é, por
natureza, doador das dádivas boas (Gr. dosis), e todo dom (Gr. dorema) perfeito, as duas palavras
provenientes da raiz “dar” (didomi, isto é, “dar”).
Nossa vida dependente requer de Deus tudo que for necessário para viver e nos alegrar nele. O ar
que respiramos, a água que bebemos e que mantém a vida das plantas que nos alimentam, e
inúmeras outras doações de Deus devem nos persuadir que ele é bom. Paulo falando para o povo de
Listra os lembra disso: “Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes [às
nações] chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um
coração cheio de alegria” (At 14.17). Sua perfeição está sempre em evidência por meio dos dons
perfeitos que ele distribui, mesmo para aqueles que nunca lhe agradecem.
Não podemos negar que Deus manda para seus filhos algumas experiências doloridas e
desagradáveis, porém as provações não são enviadas para nos provocar à blasfêmia ou a nos
escravizar ao pecado, mas para que odiemos a rebeldia e busquemos um relacionamento de filhos
amáveis com ele. Seria por isso que Tiago chama Deus de Pai, e não o Criador das luzes?
Distinto das “luzes” físicas, como o sol e a lua, que ao seguir seu percurso nos céus criam
sombras variadas, nosso Pai celeste não muda seus tratos conosco. Todos são bons e beneficentes.
“Sabemos”, diz Paulo, “que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam [...]” (Rm
8.28). “Nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que
pesa mais do que todos eles” (2Co 4.17). Seus propósitos não mudam de sorte que, em um dia, ele
manda um problema para nos desanimar e, em otilm, uma bênção para nos animar. Não!
A bênção maior que Deus concedeu para nós foi decidir nos gerar, dando-nos vida eterna pela
palavra da verdade. Essa “palavra” {logo aletheias “palavra” ou “mensagem verdadeira”) refere-se ao
evangelho. Tem de ser a mesma “palavra de Deus, viva” e regeneradora, conforme lemos na carta de
Pedro (lPe 1.23). A decisão foi de Deus que, pelo Espírito Santo, gera vida eterna no coração dos que
creem. E a milagrosa operação de Deus fazer a mensagem da cruz e da ressurreição de Cristo se
tornar verdadeira para o pecador com o resultado que este nunca mais duvide que a morte expiatória
de Cristo foi por ele. Ele tem direito de ser “filho”, incluído na família do Pai.
Tiago ainda acrescenta o fato de que o propósito que Deus teve em nos gerar pela palavra foi “a
fim de sermos como que os primeiros frutos de tudo o que ele criou”. Duas verdades sobre essa
finalidade de Deus em decidir salvar perdidos devem ser observadas. Primeira, as primícias das
colheitas foram oferecidas a Deus em reconhecimento de sua bondade por ter enviado as chuvas e o
sol para produzir condições necessárias para a sobrevivência.
Gratidão deve ter uma expressão sacrificial. Em Romanos 12.1, encontramos o tipo de sacrifício
que agrada a Deus: nosso corpo vivo oferecido em santidade e dedicação total a ele. Em Levítico
27.28, lemos: “todas as coisas assim consagradas ao Senhor são santíssimas”, isto é, totalmente
dedicadas a ele. Os primeiros frutos da colheita da cruz devem se encaixar na descrição da vida
consagrada em ICoríntios 10.31: “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa,
façam tudo para a glória de Deus”.
Segundo, “os primeiros frutos de tudo o que ele [Deus] criou”, sugere a conclusão de que toda a
criação, agora sujeita à inutilidade e futilidade, seja “libertada da escravidão da decadência em que
ela se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8. 21). As primícias são a
amostra do que o resto da colheita deve ser. A grandiosidade do que será o futuro Reino, quando
todos os inimigos estarão colocados debaixo dos pés de Cristo, ainda não se manifestou.
OUVINDO E AGINDO CONFORME A PALAVRA — 1.19,20
l fascinante como funciona o processo de comunicação. Uma pesquisa revelou que, via de regra,
as pessoas em geral ouvem 100% daquilo que é dito apenas nos primeiros cinco minutos. E que,
proporcionalmente, a capacidade de se ouvir e reter vai diminuindo à medida que o tempo vai
passando. Não seria exagero dizer que, em parte, o problema está na falta de interesse de ouvir e em
uma necessidade gritante de falar. Esse não é um problema moderno, mas é um problema bem
antigo, como o próprio Tiago nos apresenta nesses versículos.
Tiago exorta para que “Meus amados irmãos [...]: sejam todos prontos para ouvir, tardios para
falar e tardios para irar-se” (v. 19). Uma das leis da natureza se encaixa bem aqui. Temos que
primeiro ouvir e aprender antes de opinar. Nossas opiniões valem muito pouco se não pararmos
primeiro para ouvir e refletir sobre a verdade. O certo e errado não surgem automaticamente, de
cabeças impacientes para comunicar seus pensamentos, sem primeiro ter ouvido o que Deus tem
para dizer.
Rick Warren, pastor estado-unidense, escreveu: “Conta-se uma velha história de um jovem que
procurou o renomado filósofo Sócrates, para ser instruído em oratória e discurso em público. Ao ser
apresentado ao grande pensador, desandou a falar sem parar. A situação persistiu por longo espaço
de tempo durante o qual Sócrates não foi capaz de pronunciar uma única palavra. Ele finalmente
silenciou o tagarela colocando a mão sobre a boca dele. “Meu jovem”, disse-lhe Sócrates, “vou ter
que cobrar-lhe o dobro pelo treinamento”.
O homem reclamou: “O dobro? Por quê?” Sócrates respondeu: “Porque para fazer de você um
grande líder, vou ter que lhe ensinar duas técnicas: em primeiro lugar, aprender a arte de refrear a
língua; para depois poder aprender a arte de usá-la corretamente!”
Em uma democracia equilibrada e justa as opiniões de todos valem para decidir quem governará,
porém, isso não quer dizer que a sabedoria de todos tem o mesmo peso. Aquele que lê os melhores
livros, e que mais reflete no que ele lê, tem maior chance de estar certo do que um analfabeto que
nunca leu nada nem usou sua mente para refletir seriamente sobre coisa alguma.
Essa observação vale para os que se dizem “irmãos”. Pronto (;taxus, “rápido”) quer dizer, ávido
perseguidor da verdade. Cachorro acomodado, sonolento, não pega o coelho nem o andarilho que,
sem pressa, poe-se a caminho para chegar à próxima cidade quando lá chegar. O crente que Tiago
tem em mente seria aquele que valoriza o conhecimento da Palavra. Ele não está pensando naquele
aluno que se senta na sala de aula para discutir com o professor e mostrar a todos quanto ele
conhece. Mas, humildemente, busca como garimpeiro as pepitas de ouro e procura diamantes
escondidos na terra.
O termo “rápido” é também usado algumas vezes nos evangelhos por Jesus enfatizando a
necessidade de se agir sem demora ou agir depressa. Em Apocalipse 3.11, Jesus diz à igreja de
Filadélfia que ele viria “em breve” ou “sem demora” (ARA). A ênfase, portanto, recai sobre a
necessidade de ouvir com urgência, sem demora, estando em estado de prontidão. Isso implica que,
para o Senhor, a urgência e a prioridade não é falar, mas ouvir.
Por que devemos ouvir sem demora? Creio que seja porque o ouvir pressupõe obediência.
Principalmente, no que diz respeito ao se ouvir a palavra de Deus, que é o que Tiago certamente
tinha em mente nesse contexto. Todos nós, por experiência própria, sabemos muito bem como é tão
difícil ser pessoas ávidas por ouvir a Palavra de Deus.
Essa necessidade de ouvir para obedecer fica clara por intermédio da Bíblia. Em Deuteronômio 6,
o famoso Shemá dos judeus, nada mais é que o verbo ouvir no hebraico. O Senhor diz o seguinte nos
versículos 4 a 6: “Ouça ó Israel: o SENHOR, o nosso Deus, é o imu o SI-.NI IOR. Ame o SENHOR, O seu Deus, de
todo o seu coração, clc ioda a sua alma e de todas as suas forças. Que todas estas palavras (|iic- hoje
lhe ordeno estejam em seu coração.” Ou seja, deem ouvido ao que estou lhes dizendo, diz o Senhor,
para que assim possam colocar em prática a minha vontade!
O próprio chamado de Deus para ouvir também leva à vida: “Ouçam-me, para que sua alma viva”
(Is 55.3), conforme escreveu o profeta Isaías. Deus disse a respeito de Jesus no monte da trans-
figuração: “Este é o meu Filho amado em quem me agrado. Ouçam- no!” (Mt 17.5). É claro que o
chamado aqui não é apenas para dar ouvidos, mas ouvir aquilo que Jesus diz e obedecer a ele.
Paulo também enfatiza a necessidade de ouvir a mensagem de Deus, pois como ele escreveu em
Romanos, a pregação depende de ser ouvida. “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram?
E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”
(Rm 10.14).
O próprio Senhor Jesus tinha como prática, logo após algum ensino importante ou mesmo de
depois de falar alguma parábola, dizer como fechamento: “Aquele que tem ouvidos, ouça” (Mt 13.43).
Ou seja, se você ouviu, obedeça. Falando às igrejas da Ásia no livro de Apocalipse, no desfecho de
cada mensagem, repete-se a mesma frase: “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às
igrejas” (2.7,11,17,29, 3.6,13,22). E óbvio que o Senhor não tinha em mente que apenas ouvíssemos
aquilo que nos estava sendo dito como ouvimos uma música no rádio, ou o barulho de um carro
passando. O objetivo principal é que, se ouvimos sem demora, também obedecemos sem demora.
Pois quem está pronto para ouvir terá uma mente dócil e ávida para aprender, que espera na palavra
do Senhor.
A humildade do ouvinte se percebe claramente na hesitação (.bradus, “tardio”) dele em falar. À
medida que o discípulo escuta seu mestre e digere suas instruções, ele se torna sábio. Sabedoria,
como já notamos, tem muito valor para os seguidores de Cristo. l;Jcs sabem que as verdades que têm
valor eterno não se escutam nas aulas das faculdades seculares, mas nas Sagradas Escrituras. Tiago
reforça sua exortação aqui com sua advertência 110 capítulo 3: “[...] não sejam muitos de vocês
mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor” (1.1). Os
que falam serão responsabilizados pelos desvios da verdade, bem como serão galardoados pelos
acertos e as palavras edificantes que comunicarem.
Talvez não fosse necessário Tiago ter dito que devemos ser tardios no falar, já que esse parece
ser nosso maior mal. Os faladores estão sempre propensos a grandes quedas. O livro de Provérbios
está cheio de exemplos dos tropeços que o falar demais provoca. Em Provérbios 10.19, o autor diz:
“Quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato”.
Falar demais não é sinal de sabedoria, para o autor, muito ao contrário, aqui ele diz que isso pode ser
sinal de que haja pecado. Talvez a referência aqui ao pecado em falar demais esteja associada ao
fato de que os faladores têm a tendência de aumentar tudo.
O próprio mundo reconhece que é um problema falar demais. Conforme disse o falecido poeta
mundano Renato Russo em uma de suas canções: “aquele que fala demais é por não ter nada a
dizer”. Por isso devemos seguir o conselho do autor de Provérbios quando diz que: “Quem tem
conhecimento é comedido no falar, e quem tem entendimento é de espírito sereno. Até o insensato
passará por sábio, se ficar quieto, e, se contiver a língua, parecerá que tem discernimento” (Pv
17.27,28).
Tiago diz que também devemos ser tardios em nos irar, porque nossa ira não produz a justiça de
Deus. Talvez a razão por que Tiago mistura ouvir e falar com irar-se seja bem óbvia, como escreveu o
autor de Provérbios 15.1,2: “A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira. A
língua dos sábios torna atraente o conhecimento, mas a boca dos tolos derrama insensatez”. Ou seja,
a tendência daqueles que falam prontamente sem pensar é que eles sejam pessoas também
explosivas. E a melhor cura para isso é ser pronto para ouvir. Pois como escreveu o autor de
Eclesiastes: “As palavras dos sábios devem ser ouvidas com mais atenção do que os gritos de quem
domina sobre tolos” (Ec 9.17).
SANTIDADE — 1.21
Parece ser algo incoerente, algo incompreensível que quanto mais meditamos na Palavra de Deus
tanto mais se revelam as nossas dificuldades de cumpri-la, pois as nossas falhas se mostram mais e
mais evidentes. Quanto mais próximos queremos estar do Senhor, maiores são as nossas
dificuldades de se aproximar dele.
Talvez seja por essa razão que Davi teve que escrever não apenas um, mas vários salmos. E a
impressão que se tem é que eles, na sua grande maioria, eram de luta, de desafio, de desabafo, de
choro, de busca por socorro. Apesar da sua grande proximidade com Deus, estava constantemente
em apuros, resolvendo algum conflito físico, emocional ou espiritual. E quando a luta não era contra
um exército inimigo, era contra ele mesmo, contra seu próprio pecado.
Só alguns exemplos disso: “Senhor muitos são os meus adversários! Muitos se rebelam contra
mim! [...] Levanta-te, Senhor! Salva-me, Deus meu!” (3.1,7). “Responde-me quando clamo, ó Deus
que me fazes justiça! Dá-me alívio da minha angústia, tem misericórdia de mim e ouve a minha
oração. Até quando vocês, ó poderosos ultrajarão a minha honra?” (4.1,2). “Escuta Senhor, as minhas
palavras, considera o meu gemer. Atenta para o meu grito de socorro, meu Rei e meu Deus, pois é a
ti que imploro!” (5.1,2). “Misericórdia, Senhor! Vê o sofrimento que me causam os que me odeiam.
Salva-me das portas da morte, para que, junto às portas da cidade de Sião, eu cante louvores a ti e a
ali exulte em tua salvação! (9.13,14). “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás
tão longe de salvar-me, tão longe dos gritos de angústia? Meu Deus! Eu clamo de dia, mas não
respondes; de noite, e não recebo alívio! [...] Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e
não há ninguém que me socorra. Muitos touros me cercam, Como leão voraz rugindo, escancaram a
boca contra mim. [...] Meu coração se tornou como cera, derreteu-se no seu íntimo. Meu vigor secou-
se como um caco de barro, e a minha língua gruda no céu da boca, deixaste-me no pó, à beira da
morte. Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus
pés. Posso contar todos os meus ossos, mas eles me encaram com desprezo...” (22.1,2,11,12,13-17).
“Não escondas de mim a tua face, não rejeites com ira o teu servo; tu tens sido o meu ajudador. Não
me desampares nem me abandones, ó Deus, meu salvador!” (27.9). “A ti eu clamo, Senhor, minha
Rocha; não fiques indiferente para comigo. Se permaneceres calado, serei como os que descem à
cova. Ouve as minhas súplicas quando clamo a ti por socorro, quando ergo as mãos para o teu Lugar
Santíssimo” (28.1,2).
E porque na vida cristã temos que estar constantemente clamando, suplicando, orando, gritando
por socorro? Por que que na vida cristã parece que as aflições estão constantemente misturadas com
as coisas boas? Não seria o caso de crermos, sermos salvos e então só alegria? Só vitórias! Só
momentos de prazer?
A resposta nitidamente tem que ser não. Por que infeliz ou felizmente, nao é esse o plano de Deus
para a vida cristã. Pelo menos não ainda. E uma das grandes razões para isso está associado à exor-
tação que Tiago nos apresenta neste versículo: Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da
maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa
para salvá-los.
Na vida cristã, experimentamos e sempre experimentaremos o conflito entre o presente e o
passado. O conflito entre nossa vida passada e a vida presente. Entre o pecado e a santificação.
Entre o mundo e a Palavra de Deus. Entre a vida e a morte. Não existe uma porção mágica no
processo de mudar do mundo para Cristo em que, automaticamente, tornamo-nos perfeitos. Muito ao
contrário, entramos em um lento e duradouro processo de reconstrução de i|iicm somos, que durará a
vida inteira, reconstrução essa que envolverá nosso caráter, nossa vida até que, finalmente, após a
morte seremos completamente conformados a imagem do Filho Jesus Cristo.
Enquanto isso não acontece, percebemos que estamos sendo equipados para nos mantermos
com o pescoço acima da água, sobrevivendo em um mundo caído, corrompido e dominado pelo
pecado. Um mundo onde Satanás e seus anjos, unidos com o mundo e com nossa inclinação para o
pecado, lutarão com todas suas forças para nos derrubar do nosso propósito de realizarmos no
presente e alcançarmos no futuro aquilo que o Senhor tem nos preparado para toda a eternidade.
Por essa razão se torna tão urgente que sejamos não apenas tardios no falar e no se irar, mas
cristãos que ouvem sem demora a Palavra de Deus, pois, do contrário, como é que poderemos cum-
prir aquilo que Tiago diz para aceitarmos humildemente a palavra implantada em nós?
Aceitar ou receber significa que não estamos terminados com a Palavra de Deus. Começamos um
processo que levará a vida inteira para que finalmente cheguemos próximos do ponto que o Senhor
tem para nós, para vivermos perfeitamente por toda a eternidade. Por isso temos que viver pela
palavra. É aceitar que aquilo que a palavra diz é verdadeiro e digno de se colocar em prática,
aceitando sua autoridade para guiar e direcionar nossa vida.
Quando Tiago fala que devemos receber a Palavra, não significa que devemos apenas ter a
Palavra como mais um livro entre tantos livros na prateleira da nossa estante. Como discípulos de
Jesus, não podemos ser inconsistentes e só aceitar aquilo que nos é conveniente. Não podemos
fazer acepção da própria palavra.
O mundo ama reproduzir e vender quadros com o Salmo 23. Mui- las pessoas até sabem recitar pelo
menos o primeiro versículo que afirma que o Senhor é nosso pastor que não permite que nada nos
l.ilu1. F confortante saber que nada nos faltará. Só que o salmista pressupõe que também não faltarão
dificuldades, vales cobertos com a sombra da morte e dos perigos. Além disso, se o Senhor é mesmo
nosso pastor, isso quer dizer que estamos dispostos a aceitar sua direção e correção quando nos
desviarmos do caminho por ele determinado, mesmo que isso implique disciplina, com sua vara?
E quando o Senhor nos diz para esperar e descansar nele? Por que nossa tendência é
resmungar, brigar, reclamar, lutar contra isso e querer fazer da nossa forma e no nosso tempo? Se
fazemos isso, não estaremos sendo inconsistentes? Se a palavra do Senhor é para confiar, e
desfalecemos e nos tornamos pessoas que não param nem perdem oportunidade de reclamar, será
que temos aceitado realmente a palavra do Senhor?
Conforme Davi escreveu: “Coloquei toda a minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mim e
ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os
meus pés sobre uma rocha e firmou-me em um local seguro. Pôs um novo cântico na minha boca, um
hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão isso e temerão, e confiarão no Senhor” (Sl 40.1-3). Fica
claro que quando Davi aceitou a Palavra, não somente o Senhor
0 ouviu, restaurando sua situação, mas Davi também se tornou testemunha do Senhor. Isso não
implica dizer que Davi deixou de enfrentar dificuldades, mas que o Senhor o ajudou na dificuldade.
Por isso, precisamos aceitar toda a Palavra de Deus, sem acepção nem exceção. “Toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a
instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa
obra” (2Tm 3.16,17). E ao aceitarmos toda a palavra de
1 )eus e recebê-la, temos a convicção e a certeza de que, como afirma Tiago, ela é a palavra
poderosa implantada para salvar nossa vida. ( omo Paulo também afirmou: “Não me envergonho do
evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (km 1.16). Não
encontramos salvação e cura em outro lugar a não ser na própria palavra.
(iomo é que podemos receber a palavra? Tiago diz que é humildemente se livrando de toda sujeira
e toda abundância do mal.
i ',k- enfatiza que esse se livrar do mal é um ato que temos que fazer humildemente, pois só faremos
isso reconhecendo nossa total e completa dependência da graça de Deus. Legalmente, por mais dis-
ciplinada que uma pessoa possa ser, ela jamais poderá, por muito tempo, manter o padrão necessário
para se livrar da sujeira que contamina sua vida.
Temos que depender da ajuda do Senhor, do contrário, não sairemos do lugar. Pela graça fomos
salvos, e pela mesma graça seremos santificados. Seremos conformados a imagem do Senhor Jesus
não por mero esforço próprio ou por algum tipo de sacrifício como aconteceu com Agostinho e alguns
outros pais da igreja primitiva, que se mutilavam com chicotes com ferro nas pontas. Eles achavam
que só assim poderiam livrar-se dos pecados que os atormentavam. Não é pagando penitência,
privando-nos ou machucando- nos que seremos transformados.
Tiago diz que devemos nos “livrar” de todo o mal. Literalmente, a imagem que ele passa é que
devemos arrancar aquela roupa que nos incomoda de uma vez por todas. A expressão usada aqui é
também utilizada por outros autores do NT. Pedro escreveu: “Portanto, livrem-se de toda maldade e
de todo engano, hipocrisia, inveja e toda espécie de maledicência. Como crianças recém-nascidas,
desejem de coração o leite espiritual puro, para que por meio dele cresçam para a salvação, agora
que provaram que o Senhor é bom” (1 Pe 2.1 - 3). Paulo disse: “Quanto à antiga maneira de viver,
vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a
serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a
Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef4.22-24, ver Cl 3.8). “A noite está quase
acabando; o dia logo vem. Portanto, deixemos de
l. ulo as obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz” (Rm 13.12). K ainda o autor de
Hebreus disse: “Portanto, também nós, ■imxmiA DI-: DI-VS
65
uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que
nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é
proposta” (Hb 12.1).
O apelo em cada um desses textos é para olhar para aquilo que
o Senhor já fez por intermédio da crucificação. Agora precisamos viver de acordo com o que já foi
recebido, colocando de lado tudo aquilo que fazia parte do passado, e viver em função desse novo
modo de vida. Ainda que Tiago não detalhe quais são esses males, sabemos que a sujeira a qual ele
se refere abrange todo tipo de hábito perverso ou sórdido. A abundância do mal poderia ser definida
como tudo aquilo que é malicioso, ou revestido de malícia. E tudo aquilo que é sutil, igual a um
câncer, a ponto de ir penetrando silenciosamente de tal forma em nosso organismo até que, quando
nos damos conta dele, nosso corpo todo já foi totalmente contaminado. Por essa razão que a NVI
traduz como “da maldade que prevalece” (Tg 1.21), por causa do poder destruidor que essa malícia
pode ter em nossa vida.
Seja o que for que estiver contaminando nossa vida — a sujeira ou o mal — só conseguiremos
receber a palavra poderosa para nos salvar à medida que humildemente nos lançamos nos braços do
Senhor. Precisamos ser como pedintes miseráveis para reconhecer que, sem a graça e o amor leal
dele, continuaremos vivendo como trapos sujos, encardidos, repletos de vômito e todo tipo de sujeira.
Pois só pela graça, estaremos habilitados para nos livrar da avareza, da imoralidade, da malícia e de
todos os tipos de câncer que carregamos nesta vida, ficando assim livres para abraçar toda a cura e
libertação e salvação que só a Palavra pode nos dar.
Creio haver uma semelhança interessante aqui nesse se despir daquilo que é pecaminoso e se
revestir daquilo que é proveitoso com aquilo que era comum acontecer nos tempos do AT. Quando
alguém percebia algum tipo pecado, sua reação imediata era de rasgar as roupas e se vestir com
pano de saco, atirando cinzas para cima.
I ;il vez Tiago tivesse essa mesma imagem em mente quando escreveu esses versículos no que diz
respeito à necessidade que temos de nos livrar de vestimentas que, apesar de aparentemente
bonitas, nada mais são do que fachadas que encobertam cavernas sombrias, de pessoas cujo
coração está sobrecarregado com os pecados (2Sm 13.31; Jr 36.24; IRe 1.27; 2Re 6.30).
Mais importante ainda, o objetivo de Tiago, não era apenas apontar para a realidade do mal, mas
nos impulsionar para fazer a coisa certa. Se, para o povo do AT, era necessário se vestir de saco e
atirar cinzas, bastaria, para nós, confessarmos nossos pecados diante de Deus, e pedir que ele nos
perdoe e purifique de cada um deles.
PRATICANTES DA PALAVRA — 1.22,25
Já imaginou se Deus mandasse um anjo para se sentar do nosso lado durante alguns dias só para
anotar tudo aquilo que fazemos? Se ele viesse para observar as atitudes, os pensamentos, as
reações que temos nos nossos relacionamos e em nossa fala? Aí, imagine que a partir de tudo que o
anjo tivesse ouvido, ele começasse a escrever um manual de descrição bíblica da nossa vida e anotar
a partir da nossa conduta e ação tudo aquilo que estivesse casando com a Palavra de Deus. Quantos
versículos ou princípios bíblicos comporiam nosso manual de descrição bíblica?
Na prática, creio que a exortação de Tiago expresse algo assim: que sejamos tão cheios da
Palavra de Deus em nossa vida e que sejamos praticantes da palavra de tal forma que nossa vida
reflita em todos seus aspectos a própria Palavra. Mas para que isso aconteça, precisamos ser
praticantes da palavra. Literalmente, o texto diz que devemos ser “fazedores” da Palavra. Isso não
quer dizer que devemos criar a Palavra, como um artista cria uma obra de arte, mas que devemos,
obviamente, cumprir tudo aquilo que a Palavra nos ensina. Devemos ser assim o povo do Livro.
Ouvir, sem praticar, para Tiago e para nosso Senhor, não passa de loucura e autoengano. A
palavra implantada que tem poder para s.ilvar é imprescindível, mas tem de ser praticada. Ela é a
única mensagem salvadora que oferece a vida eterna de graça, mas não pode ser “graça barata” que
não produz fruto de justiça. Olhar para um
ii llexo em um espelho sem se preocupar com o que o espelho
i cvcla, mostra a atitude do perdido que peca sem a mínima preocupação pelas conseqüências.
A grande batalha aqui para sermos praticantes é que nossa relação
i om a Palavra de Deus pode estar muito descompromissada. Torna mo-nos praticantes quando
reverentemente aceitamos o fato de i|iie é Deus quem está falando diretamente conosco por intermé-
dio da sua Palavra. Quantos, honestamente, antes de abrir a Bíblia para ler oram pedindo que Deus
os corrija, ensine-os, exorte-os, repreenda-os e eduque-os em toda a justiça e guie-os para que aquilo
que for ler não seja apenas em um exercício mental, mas que possa ser colocado em prática? Não
basta apenas ler para ter consentimento mental. O ouvir tem que levar ao fazer.
Deus criou Adão e Eva à sua imagem para que eles pudessem reconhecer e compartilhar a
santidade dele. Sua infinita perfeição somente poderia ser apreciada e imitada por seres que podem
distinguir entre o perfeito e o imperfeito (Is 6.3). Deus nos remiu para restaurar o propósito original,
isto é, tornar-nos coparticipantes de sua natureza (2Pe 1.4). Deus predestinou os membros da sua
igreja para que fossem conformes a imagem de Jesus Cristo (Rm 8.29). O Pai fica tão satisfeito com
seu Filho unigênito e se agrada dele que decidiu criar muitos outros filhos à imagem dele. Procede,
portanto, que se alguém vê algo que pode e deve ser mudado, segundo o espelho da Palavra, mas
não quer se esforçar para fazer essa mudança, simplesmente nega a realidade da Palavra implantada
nele. Essa pessoa, desse modo, revela uma falta de compromisso com a Palavra e com aquele que
inspirou o texto sagrado.
O fato de que o crente “depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência” (v.
24) sugere que ele deve ser um membro da comunidade. Escuta as mensagens, percebe que falam .1
verdade a seu respeito, porém, como não se importa, em vez de produzir algum efeito duradouro, a
mensagem acaba por o endurecer. Ler um trecho da Bíblia ou assistir a um culto em que o pastor
expõe a Palavra, mas sem sentir qualquer desejo de cumpri-la, vale somente para condenar esse
“ouvinte”.
Outros escutam a mensagem com o desejo de julgar os membros da igreja que vivem abaixo do
padrão requerido pelas Escrituras. A engraçada história que se segue pode exemplificar esse perigo.
Um casal vivia isolado no interior há muitos anos atrás. Em certa ocasião, o marido viajou e,
inesperadamente, encontrou um espelho a venda. Nunca tinha visto algo tão maravilhoso! Comprou o
tesouro, pensando em presentear à esposa com sua inédita descoberta. Embrulhou-o
cuidadosamente e o levou para sua casa. Enterrou-o no fundo de um baú para oferecer à sua amada
no aniversário dela. Antes de viajar novamente, falou de forma solene para sua mulher para não subir
ao sótão, e muito menos abrir o baú. A mulher ciumenta suspeitava do pior. Não aguentou a pressão
da curiosidade. Encontrou o pacote. Com mãos trêmulas desembrulhou o espelho. Depois de
demorada contemplação, exclamou aliviada: “Ela não é tão bonita como eu imaginava”! Confundiu o
espelho com uma foto. E muito mais fácil ver, disse Jesus: “cisco que está no olho do seu irmão, e
não se dá conta da viga que está em seu próprio olho” (Mt 7.3).
Muito diferente é o indivíduo que observa atentamente a lei perfeita, que traz a liberdade (v. 25).
Duas palavras contrastam a seriedade com que ele contempla a Palavra: 1) observa atentamente
(parakupsas — a palavra que comunica a maneira como João olhou para o sepulcro de onde Jesus
ressurgira pouco antes, em João 20.5);
2) persevera (parameinas) que sugere que, além de se preocupar com o ensino da Palavra, ele
contínua praticando a Palavra.
Ninguém jamais disse que colocar em prática tudo aquilo que ouvimos de Deus é fácil. Quando
Jesus chamou o apóstolo Paulo para ser seu discípulo, ele disse que mostraria para este o quanto lhe
importava sofrer pelo seu nome (At 9.16). Em algumas ocasiões até mesmo os discípulos foram
desafiados na sua forma de pensar, para que entendessem que o chamado que Deus tinha para eles
era um chamado para perseverar, porque haveria muitas dificuldades pela longa jornada que teriam
pela frente ao seu lado.
Também não podemos esperar vida fácil. Quando a Palavra nos diz que devemos confessar
nossos pecados uns aos outros, em nenhum lugar afirma-se que isso seria fácil. Ou que devemos
suportar as falhas uns dos outros. Ou perdoar constantemente alguém. Nada disso acontece
naturalmente. Mas se torna mais fácil à medida que perseveramos em colocar essas verdades em
prática.
“A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma” (SI 19.7) possivelmente é a fonte dessa afirmação.
Essa perfeição deve enfatizar a realidade da Palavra inspirada por Deus que não pode desviar aquele
que seriamente procura saber o que Deus requer do homem. Tudo que é necessário para ser salvo e
agradar a Deus está nesta “lei”. Como é implantada nos que creem, ela é poderosa para salvá-los (v.
21), claramente diferente da lei mosaica, incapaz de salvar os que confiam em suas boas obras. É a
“lei” da nova aliança que Jeremias profetizou muitos anos antes de Cristo.
“ ‘Estão chegando os dias’, declara o Senhor, ‘quando farei uma nova aliança com a comunidade
de Israel e com a comunidade de Judá. Não será como a aliança que fiz com os seus antepassados
quando os tomei pela mão para tirá-los do Egito; porque quebraram a minha aliança, apesar de eu ser
o Senhor deles’, diz o Senhor. ‘Esta é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois
daqueles dias’, declara o Senhor: ‘Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações.
Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu
irmão, dizendo: ‘Conheça ao Senhor’, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior’,
diz o Senhor. ‘Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados’ ” (Jr
31.31-34).
No (amos o cerne da nova aliança em quatro gloriosas promessas: 1) “Porei a minha lei no íntimo
deles e a escreverei nos seus iorações”. 2) “Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo”. 3) “Nin-
guém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao Senhor’ ”. 4) “Porque
eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados”. Os sábios que observam
atentamente essa lei perfeita vivem transbordando de paz e alegria. Este parece ser o motivo de
chamá-la de a lei da liberdade. Não se trata de obrigações maçantes, mas de privilégios e prazeres. O
filho pródigo, reintegrado na casa do Pai, obedece às ordens do pai com entusiasmo e alegria. Tiago
confirma que o irmão que persevera na prática da lei perfeita será feliz naquilo que fizer (v. 25).
RELIGIÃO VERDADEIRA — 1.26,27
A índia certamente é um país muito religioso. Além do hin- duísmo, religião predominante, há
também ali várias outras religiões tradicionais, como o próprio cristianismo e islamismo. Espalhadas
nas suas diversas tribos e vilas, as pessoas podem encontrar jainis- mo, siquismo, derivações ou
seitas do budismo, além de tantas outras milhares de misturas e crenças regionais.
Não muito longe disso, o próprio Brasil também poderia ser considerado um país onde seu povo é
também extremamente religioso. Apesar de cada vez mais haver um número cada vez maior de
pessoas que se dizem ateus, que não acreditam na existência de Deus, ainda assim é bem mais
predominante o número daqueles que participam que algum tipo de religião.
É provável que pudéssemos fazer uma ligação direta ou indireta da miséria na índia e da própria
pobreza do Brasil, com os vários problemas socioeconômicos, frutos talvez da nossa própria religi-
osidade. Parece-me que, quanto maior a criatividade de um povo em relação a sua forma de cultuar e
buscar o sobrenatural, maior parece ser sua escravidão, miséria e cegueira espiritual.
Se por um lado, o materialismo nos países ricos se torna o grande deus provedor de todas as
coisas, alimentando o orgulho e a ambição que leva à autodeificação do indivíduo, com o culto às
próprias pessoas e suas conquistas, e consequentemente ao abandono total do sobrenatural, por
outro lado, nos países mais religiosos, tudo parece se tornar parte do sobrenatural. Vacas se tornam
animais sagrados. Pernilongos, antepassados reencarnados. E o resultado final é claro: uma tragédia
completa em que tudo é deus, e deus é tudo, um verdadeiro sincretismo escravizador em que a lição
transmitida é que quanto mais melhor.
E Tiago nos alerta — para opor-se a essas deturpações tão gritantes do Deus verdadeiro, Senhor
de todos e do Universo — para a necessidade de aprendermos a diferenciar a religião ou a religi-
osidade verdadeira da falsa e vazia. A diferença daquela religião que agrada a Deus e daquela da
qual Deus não se agrada.
Tiago afirma que o indivíduo que se considera religioso (tbreskos — de threskeia, v. 27, trata de
envolvimento em práticas religiosas), mas não refreia sua língua, engana-se a si mesmo. O
considerar aqui quer dizer achar-se religioso, mas que não é necessariamente. É comum alguém usar
a expressão que ele se “acha o máximo”. A primeira contradição aqui é que a religiosidade de uma
pessoa não é definida por aquilo que ela própria pensa ser. Podemos até vislumbrar ser a pessoa
mais religiosa do mundo, mas isso não passará de uma suposição até que seja comprovado na nossa
conduta.
Além disso, não somente nosso achar não nos define como pessoas religiosas, mas também
nosso falar. É contraditório achar que pelo fato de ficar falando para todo mundo sobre Deus isso nos
fará pessoas religiosas. Só que o muito falar pode ser um grande sinal de estar longe da religiosidade
verdadeira que Deus aceita e que o agrada. Em parte, a expressão “não refreia” ou “não controla” sua
língua tem um duplo sentido. O primeiro de ser aquela pessoa que não pára de se gabar do quão boa
ela é. O segundo é de que ela é uma pessoa sem controle algum quanto ao que fala.
Nesse segundo caso, Tiago já havia dito que o padrão que devemos seguir é de sermos sempre
prontos para ouvir e “tardios para lalar” (v. 19), destacando que aquele que fala demais não tem
condições nem aptidão para receber a Palavra de Deus. Porque enquanto ele está preenchendo o ar
com suas próprias palavras, ele deixa de receber as palavras que realmente farão diferença na sua
vida — as palavras vindas de Deus.
É muito importante também perceber essa relação que Tiago faz aqui do controle ou a falta de
controle no uso da nossa língua com a questão de sermos religiosos. Pois o texto nos ensina que não
somente nossas atitudes são relevantes, mas também nossas palavras, principalmente em uma
época em que as palavras de uma pessoa não parecem ter muito valor. As palavras importam. E pre-
ciso estar muito atento para que no nosso falar não haja contradições com nosso adorar.
Como aconteceu com aquela jovem e sua amiga na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Durante uma caminhada à noite, percebi que as jovens estavam fazendo algum tipo de despacho na
praia. Segundo elas, aquilo era para ajudar alguém. Elas estavam acendendo uma vela, em forma de
uma cabeça, toda branca. Ao tentar falar de Jesus para elas, disseram de imediato que também
acreditavam em Jesus. Elas verbalizaram claramente que Jesus era importante para elas, mas, ao
mesmo tempo, não consideravam problema algum fazer aqueles “trabalhos”. Para elas, era Jesus e
algo mais. Esse algo mais é que é o grande problema. Isso, no mínimo é uma religiosidade
inconsistente.
Mas não só para as pessoas do mundo, pois Tiago aponta para aquelas pessoas que se dedicam
aos atos de culto que a igreja promove e espera dos seus membros, porém, não tem coração ligado a
l )eus. A palavra “religião” em português vem do latim que nos dá o conceito de religar ou reatar um
relacionamento. Nossa vida nesse mundo nos desvia de ficar envolvidos em atos “religiosos”, então,
lemos a necessidade de religar nosso coração à fonte da vida. As batidas do coração fazem o sangue
voltar aos pulmões, e estes são as fontes de energia para recarregar o oxigênio e combustível para
manter as células vivas.
Os atos piedosos identificados com religiosidade podem ser apenas externos, enquanto o interior
continua sem a transformação efetuada pelo Espírito Santo. Daí Tiago pode falar do engano de si
mesmo, uma vez que ele não refreia a língua. A fala reflete o verdadeiro coração como Jesus mesmo
falou: “O que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Pois do interior do coração dos homens vêm os
maus pensamentos, [...] a calúnia, a arrogância e a insensatez” (Mc 7.20-22). “No dia do juízo, os
homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado. Pois por suas palavras vocês
serão absolvidos, e por suas palavras serão condenados” (Mt 12.36,37).
Por outro lado, a religião que Deus e Pai, (“nosso” não existe no original) aceita como pura e
imaculada tem duas vertentes. 1) Cuidar das pessoas necessitadas e desamparadas da comunidade.
2) Vencer as tentações do mundanismo. Esse trecho não limita nem define a verdadeira religião, nem
quer dizer que não haja outros elementos fundamentais no culto genuíno cristão. Mas é esse cuidado
pelos que nada tem que não deve ser omitido. A inclusão do título “Pai” certamente enfatiza o amor
paterno que Deus tem para seus filhos menos favorecidos social e materialmente.
Por que os órfãos e viúvas? O cuidado que Deus tem pelos fragilizados pelas circunstâncias da
vida tem fortes raízes no Antigo Testamento. Naquela sociedade, eles eram, sem sombra de dúvida,
os mais desesperados por conta da sua condição econômica, emocional e social. A mulher dependia
completamente do sustento do pai ou do marido. E na ausência deles, ela ficaria totalmente a mercê
das ajudas e esmolas de pessoas da família ou amigos próximos. Sem falar das crianças. O profeta
Zacarias escreve: “ ‘E quando comiam e bebiam, não era para vocês mesmos que o faziam? Não são
essas as palavras do SENHOR proclamadas pelos antigos profetas quando Jerusalém e as cidades ao
seu redor estavam em paz e prosperavam, e o Neguebe e a Sefelá eram habitados?’ E a palavra do
SENHOR veio novamente a Zacarias: ‘Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Administrem a verdadeira
justiça, mostrem misericórdia e compaixão uns para com os outros. Não oprimam a viúva e o órfão,
nem o estrangeiro e o necessitado. Nem tramem maldades uns contra os outros’ ” (Zc 7.6-10).
O Salmo 68.5 mostra porque Tiago se detém nessa preocupação. “Pai para os órfãos e defensor
das viúvas é Deus em sua santa habitação”. Se Deus dá prioridade para órfãos e viúvas, a igreja não
deve se congratular com sua piedade sem se preocupar com os mesmos. Era essa preocupação que
também estimulou a primeira igreja cristã em Jerusalém a organizar um sistema para acudir as viúvas
que faziam parte da comunidade (At 6). Tão importante foi essa atividade social que Paulo passa um
plano detalhado para Timóteo tratando de como a igreja deveria cuidar das viúvas em Éfeso (lTm 5.
3-16). A responsabilidade social na igreja moveu o apóstolo Paulo a levantar a oferta nas igrejas na
Macedônia e Acaia. Alguns dos ensinamentos sobre mordomia mais impressionantes de toda a Bíblia
se encontram em 2Coríntios 8 e 9. Resumidamente, aprendemos que o desejo de contribuir para os
irmãos necessitados tem raízes na graça que Deus concedeu às igrejas das comunidades de Filipos,
Amphipolis, Apolônia, Tessalônica e Bereia. “No meio da mais severa tribu- lação, a grande alegria e
a extrema pobreza deles transbordaram em rica generosidade. Pois dou testemunho de que eles
deram tudo quanto podiam, e até além do que podiam. Por iniciativa própria eles nos suplicaram
insistentemente o privilégio de participar da assistência aos santos. E não somente fizeram o que
esperávamos, mas entregaram-se primeiramente a si mesmos ao Senhor e, depois, a nós, pela
vontade de Deus” (2Co 8.2-5).
Provavelmente, as pessoas mais necessitadas em Jerusalém e na Judeia foram os órfãos e as
viúvas; portanto, aqueles que seriam os primeiros a se beneficiar da bondade de Deus demonstrada
por
■lABmORIA />/.
intermédio dos irmãos distantes que não os conheciam pessoalmente.
Apesar de Tiago enfatizar o órfão e a viúva, é importante reconhecer que hoje não devemos nos
limitar apenas a esses dois grupos de pessoas. Podemos dizer que estariam inclusos na lista aqui
todas as pessoas que se encontram em situação desesperadora que não têm condições de prover
para si mesmas sequer o mínimo necessário. Pois como vemos em Zacarias, viúvas e órfãos estão
no mesmo patamar dos mais pobres e dos estrangeiros também.
No início do seu ministério em sua primeira pregação, Jesus se levantou na sinagoga leu um
trecho do profeta Isaías que dizia o seguinte: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me
ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e
recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc
4.18,19). Na conclusão da leitura, Jesus disse que essas palavras tinham se cumprido nele, deixando
claro que esse cuidado seria algo que marcaria seu ministério. O que é indicação para nós que a
igreja e as pessoas também já se preocupavam com essas pessoas necessitadas, que representam
um grupo social dos desprivilegiados. É impossível enfatizar demais que partilhar bens materiais com
pessoas que não são filhos, pais ou parentes é uma marca inconfundível da maravilhosa graça
operando no coração dos filhos renascidos pelo Espírito de Deus que deu seu Filho para salvar o
mundo.
Fica muito nítido que o culto que o Senhor espera de seus adoradores não é subjetivo, mas muito
prático. Deus não pede nada mirabolante, mas algo simples e objetivo. Queremos oferecer algo a
Deus, então devemos oferecer justiça, misericórdia e compaixão como ele mesmo oferece para nós.
Como escreveu o profeta Miqueias: “Com que eu poderia comparecer diante do Senhor e curvar-me
perante o Deus exaltado? Deveria oferecer holocaustos de bezerros de um ano? Ficaria o Senhor
satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais
velho | >or c ausa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do pecado que eu cometi?
Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a
fidelidade e ande humildemente com o seu” (Mq 6.6-8). Ou como escreveu Isaías: “ ‘Governantes de
Sodoma, ouçam a palavra do Senhor! Vocês, povo de Gomorra, escutem a instrução de nosso Deus!
Para que me oferecem tantos sacrifícios?”, pergunta o Senhor. “Para mim, chega de holocaustos de
carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de
cordeiros e de bodes! Quando vocês vêm à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés
em meus átrios? Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas
novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembléias cheias de iniqüidade. Suas festas
da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais!
Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que
multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se!
Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a
fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a
causa da viúva” (Is 1.10-17).
Em Isaías 58, o povo se achava muito religioso também, estava até jejuando e reclamando que
Deus não estava olhando para o jejum deles. Então Deus responde ao povo dizendo: “O jejum que eu
desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os
oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre
desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo” (Is 58.6,7). Este, sem
dúvida, é o culto verdadeiro que o Senhor espera de todos nós: nosso envolvimento nas questões
sociais. Não é responsabilidade do governo, nem de instituições de caridade, nem de ONGs, por mais
benéficas e bem-vindas e necessárias que todas elas sejam. Mas c responsabilidade e privilégio da
igreja, do povo de Deus se fazer presente e fazer diferença neste mundo tão carente. O único requi-
sito que necessitamos aqui é nos tornar imitadores de Deus.
“Não se deixar corromper pelo mundo” destaca a ameaça das influências e práticas da sociedade
na qual a igreja está inserida. O mundo, sem preocupação com a lei de Deus se apodera do coração,
transformando o amor exigido por Deus em interesses do ego não regenerado. Os “ídolos” que
parecem inocentes, como amor ao dinheiro, entretenimento, conforto, relacionamentos apaixonados,
busca pelo poder e fama, aquilo que os mundanos “adoram”, levam o crente a perder o primeiro amor.
Dorothy Sayers comenta a atitude da Francesca de Rimini, segundo Dante. “Todo o bem está aí, o
charme, a cortesia, a resposta imediata, a afeição, o desejo grato para agradar, mas também todo o
mal — a entrega fácil ao pecado, a incapacidade para dizer ‘não é a autocomiseração intensa. Disse
Charles Williams: ‘A desculpa é justamente o pecado, [...] o constante brincar com a ocasião do pecar,
[...] a doce, prolongada preguiça no amor erótico é a primeira entrega da alma ao inferno, pequena,
mas certa ”.
A contaminação que Tiago tem em mente refere-se principalmente à inveja e às paixões (cf 4.1-4)
que podem produzir uma satisfação temporária. Mas a longo prazo, no fim da vida, o ímpio tem de
admitir que sua vida foi perdida. Além do mais, ainda tem o juízo de Deus pela frente. Tiago quer
deixar claro que não é apenas uma questão de caridade ou boas obras, cuidando dos necessitados,
mas também temos a necessidade de nos guardar livres de tudo aquilo que pode manchar,
corromper, contaminar nossa vida. Tudo aquilo que tem origem nesse mundo.
Por isso, não permitir que o mundo corrompa o coração que pertence a Deus teria prioridade se o
cristão percebesse a natureza do veneno embutido nos interesses da sociedade em volta. Respira-
mos os valores deste mundo pela mídia, pela Internet, pelas revistas seculares e pela educação
necessária para conseguir um bom emprego. Ninguém recomendaria uma vida de mosteiro. Mas se
não nos imunizarmos pelo repúdio dos moldes deste mundo e não nos transformarmos pela
renovação da nossa mente para experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de
Deus (Rm 12.2), o corromper-se pelo mundo ocorrerá sem nos darmos conta.
As boas obras precisam ser acompanhadas pela vida moral e ética. Não adianta deixar de pagar
impostos o ano inteiro, explorar os funcionários, trapacear os outros e, depois, chegar no final do ano
e fazer uma grande festa de confraternização. Como escreveu Isaías: “Quando vocês estenderem as
mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não
as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más
obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça,
acabem com a opressão” (Is 1.15-17a). O Senhor não somente preza pela nossa integridade, como
também ele espera de nós uma vida moral condizente com seu caráter.
Há um detalhe final aqui muito importante que infelizmente não está tão claro nas nossas
traduções: que nossas obras de caridade ou nosso nos guardar da sujeira do mundo, devem ser
realizados diante de Deus. Talvez uma das tentações nessa área aqui, em se tratando do nosso culto,
é que façamos como fez várias vezes o povo de Israel: apenas para aparecer diante dos homens.
Mas como Jesus disse: “Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está
fazendo a direita” (Mt 6.3). E a razão apresentada por Jesus foi para que “de forma que você preste a
sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará” (v. 4).
Em outras palavras, nossa religiosidade, culto ou adoração não deve ser motivada para que cause
admiração nas pessoas ao nosso redor, mas para que o Senhor seja nosso grande expectador. Para
que não sejamos tentados ao exibicionismo ou à busca de aprovação das pessoas, precisamos fazer,
em segredo, tudo para o Senhor e diante dele.
Muitas vezes, pessoas se perguntam a razão por que igrejas idôneas não divulgam mais as boas
obras que fazem. Talvez, a maior razão esteja aqui. Enquanto o mundo faz comercial das suas boas
ações, o cristão se esconde no Senhor para adorá-lo no seu serviço, despreocupado se alguém vai
ou não dar um tapinha nas suas costas agradecendo. O princípio maior a ser seguido deve ser aquele
expressado por João Batista: “É necessário que ele [Jesus] cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).
Tiago 2
ACEPÇÃO DE PESSOAS — 2.1-13
Alguns anos atrás, uma igreja tradicional, conhecida e bem estabelecida, resolveu trazer um grupo
de teatro para ministrar para a igreja sobre a importância de se investir nas comunidades carentes. O
grupo ficou hospedado na casa de membros. Pouco antes do início da programação, alguns
participantes do grupo se dirigiram para a igreja. Coincidentemente, eles estavam vestidos como
mendigos, bem maltrapilhos. Ao chegar à igreja, ainda meio vazia, foram se acomodar nos bancos,
esperando pelo resto do grupo. De repente, um dos diáconos, percebendo a presença daqueles
mendigos ali, não perdeu tempo e foi logo tratando de colocá-los para fora, porque ali não era lugar
para eles ficarem. E eles foram literalmente escoltados para fora da igreja. Sem falar nada, eles se
retiraram. Logo em seguida, reuniram-se com o restante do grupo que entrou pelos fundos da igreja
para dar início à peça que falava sobre a importância de alcançar as pessoas necessitadas.
Sem sombra de dúvida, esse tipo de situação não é um fato isolado, nem muito menos do
passado. Por isso Tiago faz aqui um apelo para que todos evitem cair no mesmo erro: a acepção de
pessoas.
Esse trecho continua o pensamento que Tiago desenvolveu no texto anterior. A prática da Palavra
não tem espaço para admitir um trato diferenciado no culto da igreja para alguém que tem uma
posição econômica melhor do que um irmão pobre. No mundo, os ricos recebem regalias e honras
como os heróis da sociedade, porém, os cristãos são cidadãos do céu (Fp 3. 20) onde Deus é dono
de tudo.
I' impossível que ele se impressione com quem tem mais dos bens deste mundo simplesmente em
razão de ter adquirido mais riquezas. J esus chamou de insensato o rico que gastou sua vida arma-
zenando grande quantidade de bens para um futuro sem preocupação (Lc 12.20). Em Romanos 2.1,
Paulo escreveu: “Portanto, você, que julga os outros é indesculpável; pois está condenando a si
mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas”. E, em Efésios 6.9,
ele disse: “Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma. Não os ameacem, uma vez que
vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está nos céus, e ele não faz diferença entre as
pessoas”. Na própria lei, Deus já tinha deixado isso muito claro para Moisés. Em Deuteronômio
10.17,18, ele escreveu: “Pois o SENHOR, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos
soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno.
Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa”. E em
Levítico é dito: “Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem
agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça” (19.15).
Tiago até nos oferece um exemplo bem prático de algo que, possivelmente, estava acontecendo
ou tinha acontecido no meio da igreja para qual ele escrevia. Ele se refere a duas pessoas de classes
diferentes entrando no meio deles para fazer uma visita. Uma delas, uma pessoa rica muito bem
vestida, com roupas finas e anel que brilhava, e outra pobre mal vestida e suja. E qual estava sendo a
reação das pessoas? Ir até o rico e dizer, por favor sente-se bem aqui, este é nosso melhor lugar. Em
contrapartida, ir até o pobre e dizer que ele deveria ficar em pé onde estava, ou pior ainda, sentar-se
no chão mesmo perto dos seus pés.
Aparentemente, alguns da igreja talvez não achassem que a ati- tude deles, só porque estavam
tratando os ricos de forma especial, ao mesmo tempo em que desprezavam as pessoas pobres, fosse
algo tão problemática assim. E Tiago contesta essa atitude na sua conclusão em forma de pergunta...
não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? (v. 4) Ou seja,
será que não estão percebendo que o critério que estão usando para tratar as pessoas está
totalmente errado, pois é baseado em fatos externos e pensamentos corrompidos por critérios do
mundo?
A discriminação contra os pobres surge de pensamentos errados {poneron, maus, iníquos). Estes
são pensamentos contrários à maneira que Deus pensa. Paulo tem o mesmo pecado em mente ao
condenar a prática dos coríntios que comiam e bebiam na ceia do Senhor sem discernir o corpo do
Senhor (ICo 11.29). Ele não admite que irmãos possam participar dessa refeição memorial sem
esperar, uns pelos outros, provavelmente os pobres, os escravos e os trabalhadores impedidos de
chegar na hora ou trazer refeições como os ricos. Estes se reuniam e cearam sem se importar com a
discriminação dos pobres. Assim desprezam a igreja de Deus e humilham os que nada têm (ICo
11.22). Os pobres ficavam com fome, uma vez que não podiam trazer seu jantar, enquanto os mais
abastados se fartavam e se embriagavam. A conseqüência dessa maneira de tratar os irmãos trouxe
condenação resultando em doenças e morte (v. 30).
Tiago chama nosso Senhor Jesus Cristo de “Senhor da glória” (Tg 2.1, ARA; tes doxes), frase
única na Bíblia (v. 1, cf. “o Senhor da glória” [ICo 2.8]; “o Deus da glória” [SI 29.3]). Talvez devamos
entender que Jesus, dentro dos limites de sua vida terrena, reflete perfeitamente a glória de Deus.
Possivelmente, Tiago queria identificar o Senhor Jesus Cristo com a “shekind’ (em hebraico,
“presença gloriosa de Deus”. João disse algo semelhante ao declarar que “aquele que é a Palavra
tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de
graça e de verdade” (Jo 1.14). Seria o propósito de Tiago atribuir essa descrição ao Senhor Jesus
para frisar a incoerência de discriminar os pobres quando Jesus nasceu e viveu sem ser dono de
nada a não ser suas próprias roupas?
A palavra “reunião” traduz a palavra “sunagoge” que reconhecemos como sinagoga local das
reuniões dos judeus onde havia dez ou mais homens que podiam servir de anciãos. Não distingue
entre o significado “reunião” ou local. Parece que em algumas cidades e vilas, a sinagoga servia para
reunir os cristãos. Se a maioria dos judeus em um determinado lugar se convertessem não haveria
razão para não reunir em um prédio que antes servia para a leitura do ’ 1 exto Sagrado e ouvir os
comentários de “mestres” que aplicariam o texto para os assistentes. Paulo fez isso em Antioquia da
Psídia (Atos 13.14-42).
Tiago faz uma pergunta para seus amados irmãos: “Não escolheu Deus os que são pobres aos
olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam?” (v.
5). Podemos concluir que os pobres “ricos em fé” têm mais facilidade para crer. Eles têm menos
riquezas e valores mundanos para perder quando decidem seguir a Cristo. Eles têm mais interesse no
Reino que os ricos, cujo reino muitas vezes é deste mundo. Jesus ensinou na parábola do semeador
que as sementes que caíram entre espinhos são os que ouvem. Mas ao seguirem seu caminho, eles
“são sufocados pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem”
(Lc 8.14).
Paulo explica mais explicitamente porque Deus age dessa maneira, escolhendo os menos
favorecidos nesta vida. “Mas Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os
sábios, e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte. Ele escolheu o
que para o mundo é insignificante, desprezado e o que nada é, para reduzir a nada o que é, a fim de
que ninguém se vanglorie diante dele” (ICo 1.27-29). A igreja que se posiciona como um clube da alta
classe contraria o plano de Deus de humilhar os que almejam intimidade com ele.
Três pecados dos ricos são mencionados por Tiago (v.6). 1) Desprezam os pobres. 2) Arrastam os
pobres para os tribunais, evidentemente para tirar algum bem deles injustamente. Pobres não têm !/•
!)I\US
A SAP-
acesso a um bom advogado nem bons meios de se defender. 3) Blasfemam o bom nome (o nome do
Senhor Jesus) que foi invocado sobre os crentes. Aqui há referência à cerimônia do batismo em que a
declaração do nome de Jesus, proclamado como “Senhor” (kurios, cf. Rm 10.9), era a porta de
entrada na igreja.
Obedecerá lei do Reino (v. 8) deve ser o desejo de rico e pobre. Essa lei não discrimina entre
classes nem raças, mas inclui todos os descendentes de Adão.
Por todos da raça humana ser descendentes de um só pai, todos somos parentes, forte motivo
para se tratar a todos com amor e respeito. “Ame cada um o seu próximo como a si mesmo” ( Lv
19.18) reflete a obrigação que Deus impõe sobre seus filhos. Se os irmãos da igreja são de fato filhos,
tratar a todos com amor seria conformar-se com essa lei áurea. Tratar irmãos com parcialidade,
portanto, é cometer pecado. A lei condenará tais transgressores como condena ladrões, idólatras e
adúlteros.
Quebrar um dos mandamentos significa ser culpado de ser transgressor de todos os
mandamentos, uma vez que a lei é mais do que as obrigações particulares. Paulo também
reconheceu que toda a lei se resume ao mandamento de amar o próximo como a si mesmo (G1 5.13).
O primeiro mandamento, amar a Deus com todo o coração, alma, força e entendimento, inclui todas
as obrigações impostas por Deus, incluindo guardar o segundo mandamento. Mas, este sendo difícil
de observar, inclui todas as obrigações relacionadas com nosso próximo. Por amor a Deus
procuramos cumprir esse mandamento na igreja, na família e no mundo. O inter- relacionamento
entre as leis torna-se mais claro no versículo 11. “Aquele que disse: ‘Não adulterarás’, também disse,
‘não matarás’ ”. Cometer qualquer um desses pecados representa transgredir a lei.
O cristão não deve imaginar que, guardando a lei, ele seria justificado, uma vez que já foi
justificado pela graça salvadora de Deus. Se o Espírito Santo mora nele, haverá forte desejo de
guardar a lei. Podemos entender que é isto que Tiago quer dizer ao exortar seus
Iriiores a falar e agir como quem será julgado pela lei da liberdade (v. 12). Como já vimos, entre as
promessas da nova aliança, Deus porá sua lei no íntimo dos seus filhos (Jr 31.33). Certamente, a
marca desse milagre de Deus no coração de todos os regenerados é um desejo de obedecer a Deus,
e evitar quebrar suas proibições, especialmente as que são expostas claramente na Palavra.
“Juízo sem misericórdia” será aplicado no caso dos que não mostram misericórdia. Zacarias
recebeu uma palavra do Senhor que fundamenta o ensino de Tiago. “Administrem a verdadeira
justiça, mostrem misericórdia e compaixão uns para com os outros. Não oprimam a viúva e o órfão,
nem o estrangeiro e o necessitado” (Zc 7.9,10).
Na parábola do servo impiedoso, Jesus também endossa, de modo contundente, esse mesmo
ensinamento. O servo foi perdoado, provisoriamente, uma dívida de proporções absurdas, 10.000
talentos, ou um total de 350.000 quilos de prata. Quando encontrou um conservo que lhe devia uma
soma irrisória de 100 denári- os (bem menos do que um quilo), ele não deu atenção a um pedido de
aguardar até que ele pudesse pagar sua obrigação. Lançou o pequeno devedor na prisão. Quando o
seu credor ouviu do triste modo de tratar o conservo, o chamou e disse: “Servo mau, cancelei toda a
sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu
tive de você? Irado, o seu senhor, entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt
18.32-34).
A maneira que os irmãos desprezaram os pobres da congregação mostrou uma falta de
misericórdia. Se assim agirem, podem esperar juízo da parte de Deus, sem misericórdia. Por outro
lado, se os mais ricos mostram uma preocupação em mostrar honra para os que menos têm bens
materiais podem esperar misericórdia, em vez de juízo.
A SABEDORIA Dl .> «/
FÉ e obras — 2.14-26
A oração de Salomão registrado em IReis 8 tem o seguinte pedido: “Quando um homem pecar
contra seu próximo e tiver que fazer um juramento, e vier jurar diante do teu altar neste templo, ouve
dos céus e age. Julga os teus servos; condena o culpado, fazendo recair sobre a sua própria cabeça
a conseqüência da sua conduta, e declara sem culpa o inocente, dando-lhe o que a sua inocência
merece” (v. 31,32).
Nesse trecho e em muitos outros, não devemos entender um comportamento justo, sem pecado,
mas lealdade à aliança. Deus declara inocentes aqueles que se conformam aos padrões estipulados
na aliança. Seriam declarados justos se fossem íntegros, honestos e inocentes.
Em Mateus, a j ustiça é um compromisso com Jesus, mas j ustiça é o comportamento esperado de
um discípulo. Veja um exemplo em Mateus 12.37: “Por suas palavras vocês serão absolvidos, e por
suas palavras serão condenados”.
Tiago ensina que há uma relação íntima entre fé e obras. A fé opera juntamente com (sunergei) a
obra de Abraão. Deve-se notar
o tempo imperfeito (contínuo e repetido).
A fé completa (teleioo, aperfeiçoa). Ela não pode existir sem obras em uma pessoa moribunda.
Obras não podem ser separadas da fé. Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus,
e isso lhe foi creditado como justiça” (Gn 15.6). Não se trata de profecia, mas cumpriu no sentido de
dar significado último a um evento. “Agora sei que você teme a Deus” (Gn 22.12). Tiago, portanto, não
nega que Abraão teve posição santa diante de Deus pela fé antes de ter oferecido a Isaque. Tiago
quer mostrar a vitalidade de sua fé.
Para Paulo, fé é o meio de unir-se a Cristo, e inclui um compromisso de obediência a Cristo
(“obediência da fé” Rm 1.5 e G1 5.6). Afinal de contas, ele é Senhor, e o “escravo” não se torna tal
sem esperar servir e obedecer a ele. Calvino disse: “Tal como Paulo declara que somos justificados
sem ajuda das obras, Tiago não permite que aos que faltam boas obras sejam reconhecidos como
justos” (Inst. II xxxvii, 12).
Raabe se identificou com o povo de Deus, não simplesmente dando hospitalidade. Como Lutero
disse: “Ou essa fé é uma ativa, viva, operante, coisa poderosa, ou ela não existe. F impossível para
ela não fazer coisas boas incessantemente. Ela não pergunta se boas ações devem ser feitas. Quem
não faz tais obras, porém, é um não crente. Ele procura e busca fé e boas obras, mas não sabe nem
o que é a fé nem as boas obras. Mas fala muito sobre fé e boas obras”.
D. Bonhoeffer identificou a falta de boas obras na vida dos que professam fé em Cristo como
“graça barata”. “Graça barata é um inimigo mortal da Igreja... Graça barata quer dizer graça a venda
no mercado como qualquer produto. Os sacramentos, o perdão dos pecados, as consolações da
religião são jogados a preço de queima”. “E graça oferecida como tesouro inexaurível da igreja que
ele derrama em forma de bênçãos com mão generosa, sem questionar e sem limites. Graça sem
preço, sem custo. A essência da graça é que a conta já foi paga, e uma vez paga, tudo fica a nossa
disposição sem ter que pagar nada”.
“Uma vez que o preço foi infinito, as possibilidades para usá-la e gastá-la são infinitas. Que seria a
graça se não fosse barata?” “A graça barata é a negação da Encarnação, da realidade do Espírito
Santo, graças e fruto, figueira sem fruto. Graça barata quer dizer justificação do pecado sem a
justificação do pecador”. Nessas citações do livro de Bonhoeffer, O custo do discipulado, percebemos
claramente o perigo que é imaginar ser possível ter fé salvadora sem seguir a Cristo. Se cremos que
ele é o Senhor que precisamos obedecer e imitar, estaremos caminhando no trilho real da fé.
O Congresso de Evangelismo em Berlim, 1966, patrocinado pela Fundação Billy Graham, fez a
seguinte declaração: “Evangelismo é a proclamação do evangelho do Cristo crucificado e ressurre- to,
o único redentor do homem, segundo as Escrituras, com o propósito de persuadir pecadores
condenados e perdidos a colocar sua confiança em Deus por meio do recebimento e aceitação de
Cristo como Salvador por meio do poder do Espírito Santo, e a servir Cristo como Senhor em toda
vocação da vida e na comunhão da sua igreja, antecipando o dia da sua vinda em glória”. Uma
confiança em Cristo como Salvador não poderá separar-se do compromisso com ele, como Senhor!
Tiago pergunta naturalmente (v. 14), como seus irmãos poderiam esperar algum proveito ou
reconhecimento de Deus, apenas dizendo que têm fé, se não tiverem obras, isto é, obras produzidas
pela fé? É claro que tem muitas boas obras praticadas no mundo (Médicos sem Fronteiras é apenas
um exemplo), mas tais médicos não professam nenhuma fé no Senhor Jesus. Necessariamente, en-
tão, temos de entender que Tiago fala de cristãos professos que podem imaginar que são aceitáveis a
Deus simplesmente porque afirmam sua fé? Não! O imprescindível seria mostrar que sua fé está
enraizada no amor de Cristo derramado no coração (Rm 5.5), fé que pelo amor divino mostra sua
realidade.
O imperador Juliano iniciou uma campanha no Império Romano para revitalizar o paganismo em
362 d.C. Percebeu que para fazer isso teria que mostrar a mesma benevolência que os cristãos
praticavam. Em uma carta escrita para um sacerdote importante, comentou: “Penso que quando os
pobres por acaso foram negligenciados e esquecidos pelos sacerdotes, os impiedosos galileus
notaram isso e eles mesmos se devotaram à benevolência. [...] Sustentam, não apenas seus próprios
pobres, mas os nossos também; todo mundo pode perceber que nosso povo carece de ajuda da nos-
sa parte” (citado em Rodney Stark, Cities ofGod [Cidades de Deus],
I larper one, New York, 2006, p.31)-
Tiago, nos versículos 15 e 16, passa a usar uma ilustração hipotéti-
i a. Se um irmão ou uma irmã precisarem de roupa e lhes faltar alimento necessário, e um irmão
disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem lhe dar nada, não há proveito al-
gum! Um trato de um irmão assim não passa de um cristianismo da boca para fora. Falta-lhe
autenticidade. João, ainda mais diretamente, questiona a salvação do irmão que, possuindo recursos
deste mundo, vê seu irmão padecer necessidade, mas não abre seu coração para lhe dar algo.
“Como pode permanecer nele o amor de Deus” (ljo 3.17)? Está morta a fé que age de tal forma (v.
17).
Jesus, na parábola do bom samaritano, enfatizou com palavras fortes a necessidade absoluta de
se mostrar a fé com boas obras. Enquanto o sacerdote e o levita não sentiram qualquer necessidade
de auxiliar o viajante ferido, o samaritano mostrou pelas suas ações que a transformação que o
Espírito Santo opera, controlava suas ações.
Tiago conclui seu pensamento com a observação: “fé, por si só, se não for acompanhado de
obras, está morta” (v. 17). Com essas palavras, então, podemos discernir o significado de fé. No
original, fé (pistis) é o substantivo do verbo crer (pisteuein). Há o nível mais raso que trata de acreditar
que uma realidade seja verdadeira, ou uma afirmação corresponda à verdade. Tiago fala dessa fé no
versículo 19: “Você crê que existe um só Deus? [...] Até mesmo os demônios creem — e tremem”.
Creem no fato de que Deus existe, mas não se submetem voluntariamente a ele.
Um nível mais profundo inclui o conceito de convicção, isto é, que inclui envolvimento pessoal. No
sentido mais profundo, fé envolve a pessoa como um todo, orientando sua visão do mundo e do
futuro. Envolve certezas que a pessoa em que se confia não pode falhar. Cumprirá por completo suas
promessas. Implica também que essa pessoa tem direito total sobre a vida, de modo que confiar nela
significa tornar-se “escravo voluntário” dessa pessoa. Por isso, Jesus declarou que é impossível servir
(douloo) a dois mestres, sendo que esses mestres impõem exigências distintas (Mt 6.24).
Se alguém disser: “ ‘Você tem fé; eu tenho obras’. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe
mostrarei a minha fé pelas obras” (v. 18), não há dúvida que obras têm que mostrar a fé genuína. E
claro que algumas pessoas podem, porém, realizar obras que se confundirão com as obras praticadas
pelo filho de Deus, aquele que vive na “obediência que vem pela fé” (Rm 1.5). Cada igreja deve ter
alguns “crentes” que agem como convertidos, mas que nunca nasceram do Espírito (Jo 3.3,5,6).
A grande comissão que Jesus deu para os seus discípulos também acrescenta ao batismo o
ensino dos novos convertidos e a obedecer a tudo que Jesus ensinou. Não se pode esperar que
pessoas sem fé transformadora venham praticar as boas obras que a fé genuína realiza.
Alguns anos atrás, uma multidão dos seguidores da Linha Direita (chamada “Moral Majority” na
América) ouviram Cal Thomas, escritor e comentarista de TV em âmbito nacional. Esperavam pa-
lavras para confirmar o que acabaram de ouvir, a mensagem em que creram piedosamente. Cal
Thomas disse: “Parece que quando a voz não está sendo ampliada pelo serviço do som da política ou
da mídia, ela é irrelevante. A realidade é bem diferente, porque temos uma definição diferente de
“poder”. Diferente dos políticos que manobram debaixo dos panos; diferente dos ativistas. [...] É o
poder de fazer discípulos, de ajudar os pobres, visitando os enfermos, criando uma criança e
confortando os moribundos. Pode transformar uma sociedade porque pode mudar o coração
endurecido”.
Thomas continuou argumentando que Cristo não correu atrás do poder, não porque o poder é
inerentemente mau, mas porque é trivial em comparação com sua missão. “Nosso alvo deve ser mu-
dar o coração e as atitudes, não mudar o governo. Não há meio mais eficaz para alienar homens e
mulheres que estão procurando a verdade do que adulterar o evangelho com denúncias ideológicas e
políticas. Nosso objetivo e destino é manter a visão de outro Reino, um Reino que expande suas
fronteiras, não lei por lei, mas alma por alma”.
Acredito que Tiago apoiaria totalmente esse modo de pensar e agir. Obras sem fé muitas vezes
encobrem como uma máscara, intenções políticas e ideológicas. O Reino que Jesus mandou seus
seguidores buscar em primeiro lugar é aquele que reflete o amor de Deus derramado no coração pelo
Espírito Santo.
“Você crê que existe um só Deus?” (v. 19). Não somente os demônios creem nessa verdade, mas
também os xiitas e sunitas do Iraque que demonstram seu ódio uns para com os outros com chacinas
de milhares de pessoas inocentes, incluindo criancinhas. Paulo cria no Deus único do Antigo
Testamento, mas não foi capaz de tirar o impulso assassino que motivou a promoção do martírio de
Estêvão. Tiago lembra seus leitores que os demônios também creem. Fé em Deus por si só não
transforma pessoas. É necessário o poder do Espírito Santo que Deus dá a todos os que
verdadeiramente creem no Senhor Jesus.
Por isso, a fé salvadora não pode se limitar a uma declaração que Deus é um. O monoteísmo não
se limita aos crentes evangélicos, uma vez que os demônios creem e até tremem de medo. Eles não
têm como não crer porque eles observam sempre sua atuação em oposição a suas atividades
inimigas. Possivelmente, os inimigos mais hostis do evangelho são os muçulmanos, que também
creem em um só Deus.
Tiago, aqui, está enfatizando aquilo que esse tipo de pessoa acredita, não em quem ela confia.
Por isso, esse tipo de fé é tão descomprometida e impessoal quanto à fé dos próprios demônios. Por
que o que adianta esse tipo de crença na existência de Deus sendo que não leva o indivíduo a viver
submisso ao Senhor? E por isso que esse tipo de fé sem dependência de Deus, na verdade, é uma fé
inferior à fé dos demônios. Porque a favor dos demônios está, pelo menos, o fato de que não somente
acreditam que Deus exista, mas também tremem.
Tiago continua chamando a atenção do leitor com espírito impulsivo. “Insensato!” (v.20). “Quer
certificar-se que a fé sem obra é inútil” (gr. argon, isto é “ocioso”, “inoperante”). Abraão, o patriar- .1
dos judeus, foi justificado por obras quando ofereceu seu filho
Isaque sobre o altar no Monte Moriá. Tiago não quer dizer com isso que Abraão justificou a si mesmo
com esse ato de profunda abnegação. Ele mostrou que Deus de fato tinha transformado seu coração
pela fé que ele demonstrou por meio desse ato sacrificial estupendo.
“Você pode ver que tanto a fé como as obras estavam atuando juntas” (v.22). A fé não pode existir
sem se mostrar, tal como a vida corporal de uma pessoa não pode deixar de se mostrar pelo enchi-
mento dos pulmões, batidas do coração e ondas no cérebro. Evidentemente, não são todas as
atividades que podem ser classificadas como “obras” que certificam a existência da fé salvadora.
Pessoas não convertidas, espíritas ou adeptos de religiões pagãs podem agir para beneficiar pessoas
necessitadas, mas com essas ações não demonstram “obras” que agradam ao Senhor. O que Tiago
tem em mente são obras que o Espírito Santo produz na vida do cristão. O fruto da verdadeira videira
não é produzido pelos ramos sem o suprimento da seiva que mantém a vida nos ramos; sem Cristo
não há vida eterna e sem fé salvadora, não há possibilidade de agradar a Deus (Hb 11.6).
“A fé foi aperfeiçoada (eteleothe, “é completada”) pelas obras” quer dizer que os ramos produzem
fruto (obras) somente se permanecem em Cristo. Ramos desligados da verdadeira videira são
incapazes de produzir obras segundo o coração de Deus. As palavras de Jesus registradas por João
são: “Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não
podem fazer coisa alguma” (Jo 15.5). O aperfeiçoamento em vista em Tiago pode ser alcançado
unicamente por meio de um relacionamento muito estreito com o Senhor Jesus.
“Cumpriu-se assim a Escritura que diz: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça
” (v. 23; cf. Gn 1 5.6). Que o patriarca colocou sua fé em Deus não pode ser negado se acreditamos
no relato de Gênesis. Deus o declarou (creditou ou imputou) justo. Em várias ocasiões Abraão
expressou sua fé dando hospedagem aos estrangeiros, recusando os espólios oferecidos pelo rei de
Sodoma e ofertando seu filho Isaque no altar (cf. P. Davids, James [Tiago], Harper and Row, S.
Francisco, 1983, p. 42). Além da justificação, Abraão, o amigo de Deus (Is 41.8), mostra que a fé do
patriarca agradou a Deus pela obediência praticada. Produziu uma intimidade e comunhão entre os
dois.
Todos os justos são amigos de Deus, como foi o caso de Lázaro (Jo 11.11) e dos discípulos (Jo
15.13-15). A reconciliação de inimigos, tornando-os amigos, veio por intermédio da cruz justifi- cadora
(Rm 5.1-11). Nossa inimizade contra Deus, mostrada pela nossa rebelião pecaminosa, passou a ser
amizade com o amor de Cristo derramado em nosso coração pelo Espírito Santo. Pela fé recebemos
a justiça de Cristo, imputada como foi também na pessoa de Abraão.
“Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé” (v. 24). Superficialmente,
contradiz diretamente o ensino pauli- no: “Ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na
obediência à Lei” (Rm 3.20). Devemos entender que Paulo se refere à dependência da Lei, e não à
transformação de vida de uma pessoa egoísta e avarenta transformado em indivíduo humilde,
generoso, capaz de se sacrificar por órfãos e viúvas. Por isso, a fé salvadora é também
transformadora.
A ilustração de Raabe confirma a verdade que Tiago quer sustentar. Ela tinha fé depois de
perceber que Deus agia em favor de Israel. A fé não foi suficiente para salvá-la. Tinha que agir de
acordo com essa fé acolhendo os espias e poupando suas vidas. Hebreus
11. 31 também aponta para a fé de Raabe. “Pela fé a prostituta Raabe, por ter acolhido os espiões,
não foi morta com os que haviam sido desobedientes”.
Finalmente, Tiago usa a ilustração do corpo (v. 26) que sem espírito está morto, para mostrar a
conclusão que deseja confirmar. Um corpo sem espírito não passa de um cadáver, inerte, sem possi-
bilidade de se movimentar, pensar agir ou mostrar qualquer sinal de vida. Boas obras não podem ser
realizadas por pedras; nem um corpo morto pode produzir ações. Igualmente impossível seria que a
fé transformadora deixasse de produzir manifestações dessa fé. A fé como a própria vida mostra que
existe por suas açoes.
O autor de Hebreus também concorda com esse ensinamento de Tiago. “A terra, que absorve a
chuva que cai frequentemente, e dá colheita proveitosa àqueles que a cultivam, recebe a bênção do
Senhor. Mas a terra que produz espinhos e ervas daninhas, é inútil e logo será amaldiçoada. Seu fim
é ser queimada” (Hb 6.7,8). Fé morta, como terra cheia de espinhos e ervas daninhas, produz apenas
“obras mortas” (Hb 9.16), isto é, atos que não revelam um relacionamento vivo com Deus por meio do
Espírito Santo. Se um cristão professo não nasceu de novo (Jo 3.3,5), suas obras devem ser
enterradas como o são os cadáveres!
Tiago 3
O PERIGO DA LÍNGUA DESCONTROLADA — 3.1-6
O pastor Tiago agora volta para um assunto abordado em uma pincelada no primeiro capítulo: “Se
alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não
tem valor algum!” (26). Ele introduz o parágrafo com a seguinte exortação: “Não sejam muitos de
vocês mestres” (v. 1). Poderia nos chocar no início; porém, uma vez entendido o contexto, fica perfei-
tamente compreensível. Como a fé que não evidencia obras generosas, a língua também pode
demonstrar uma falta de transformação pelo amor de Deus.
A igreja de Corinto foi condenada por Paulo pelas divisões que surgiram em conseqüência de
líderes que enfatizaram ensinamentos que separaram irmãos em grupos rivais. Eles se orgulhavam
pelos seus heróis mais brilhantes e sua “melhor doutrina”. Fomentaram críticas e desprezo pelos
irmãos que não pertenciam às suas “leis”.
Evidentemente, algo semelhante ocorria nas igrejas para as quais Tiago endereçava essa carta.
Divisões existem porque mestres as criam. O tipo de mestre que traz esse tipo de juízo sobre si
mesmo é aquele que ensina com espírito arrogante, egocêntrico e dominador. Pedro, após sua
experiência humilhante, negando seu próprio mestre, escreveu para os pastores das igrejas das cinco
províncias da Ásia Menor: “Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como
exemplos para o rebanho” (1 Pe 5.3). Exemplos como aqueles que imitam o Supremo Pastor. Mestres
devem ser canais de bênçãos divinas, e alimentatlores dos que não têm a maturidade de discernir
entre o certo e o errado.
Por isso, Tiago disse: “Nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor”. Um fato,
muitas vezes esquecido, encontra-se nessas palavras. Ele tem que ver com aquele que despreza a
maneira que outro professor explica o texto, ou cria um racha no “templo” santo do Senhor, com
intuito de arrastar membros incautos para seu lado, ou cometer pecado grave. Estes profanam o
“templo” do Senhor. Despedaçam o Corpo de Cristo. Paulo escreveu para a igreja de Corin- to:
“Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém
destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado”
(ICo 3.16,17).
A razão que ele oferece é porque aqueles que participam do ministério de ensino serão julgados
com maior rigor. Primeiro, é óbvio que o ser mestre aqui está única e exclusivamente vinculado ao
ensino da Palavra de Deus. Não tem nada que ver com o ensino em geral. Segundo, alguém poderia
perguntar, mas os dons não são todos iguais? Por que então alguém que tem o dom de ensino será
cobrado mais do que os outros? A razão principal para esse rigor não está no fato de o ensino ser
superior, mas na própria natureza daquilo que envolve o ensino, isto é, a questão da vida prática
daquele que ensina.
A questão para Deus não é quanto alguém conhece intelectualmente a Bíblia, mas quanto
vivência o que conhece. Um bom professor de História, por exemplo, não será necessariamente um
bom professor de Bíblia. O contrário pode ser verdade. O que o Senhor espera de um mestre no
ensino de sua Palavra não é seu conhecimento intelectual, ainda que seja importante, mas
principalmente do quanto ele é submisso a Palavra que ele ensina.
Uma pessoa pode ter 50 anos de igreja, ter feito cursos, ter mestrado, doutorado em Bíblia, e se
achar mestre, só que acredita que o divórcio é algo normal para o cristão. Ou então, não acredita que
mentir é pecado, ou que homossexualismo é algo normal. Uma pessoa pode até pensar assim, só
que ela será julgada com mais rigor. Principalmente porque ela que deveria conhecer a Palavra, não
ensina segundo a Palavra de Deus. Como Jesus mesmo disse em Lucas 12.48: “A quem muito foi
dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido”.
Aqui, outra questão importante certamente está vinculada à motivação errada para se ensinar. E
natural que o ensino acabe recebendo certo prestígio por conta da própria posição de destaque que
recebe. E pode ser que Tiago tenha encontrado pessoas naquela igreja que poderiam estar querendo
ensinar ou adquirir conhecimento pela motivação errada. Ele, portanto, está dando o contraponto
dizendo que não é só uma questão de adquirir conhecimento, mas de colocar em prática esse
conhecimento. Deus pedirá conta de tudo aquilo que aprendemos e passamos adiante.
Isso quer dizer que ensinar é uma grande responsabilidade. O maior conhecimento, na vida cristã,
vem acompanhado por uma maior responsabilidade de viver de acordo com o que se conhece. No
mundo podemos aprender ou até nos tornar mestres de diversas coisas, só porque queremos
aprender. Mas na vida cristã é diferente. Aprender por aprender sem a motivação e o objetivo certo é
errado. Acumular conhecimento das coisas de Deus sem propósito nem vida é errado.
Além do mais, a grande questão do ensino bíblico é que a pessoa que se compromete a liderar
outras no aprendizado das coisas de Deus precisa estar vivendo essas coisas. Precisa permitir que
aquilo que está aprendendo venha refletir na sua vida, na sua conduta, no seu pensamento. No final
das contas, teremos de prestar contas de nosso aprendizado e ensino, pois Deus é quem o julgará
com rigor. Como Jesus também disse em Mateus 18.6: “Mas se alguém fizer tropeçar um destes
pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se
afogar nas profundezas do mar”.
Tiago, com essa palavra sobre o rigor de I )eus, não quer obviamente desencorajar as pessoas
que foram abençoadas por Deus para ensinar de continuar ensinando. Ao contrário, ele apenas está
alertando para a seriedade desse chamado e da sua grande necessidade de se manter fiel àquilo que
aprendeu com a Palavra.
Por isso, esse “rigor” que Tiago tem em vista pode ser o mesmo que acontecerá no dia de juízo
final quando a qualidade da obra dos mestres será julgada por Deus. Como uma casa feita de palha
ou madeira será queimada, mesmo que o líder escape por intermédio do fogo (lCo 3.15).
O juízo com rigor pode também emanar de outros irmãos que, reconhecendo a falta de amor no
mestre, levantam-se contra ele em oposição. Não são poucos os pastores que, com espírito de crítica
e censura, têm levantado oposição contra sua própria pessoa (Mt 7.1,2; Rm 2.1-3). Qual é a ovelha
que segue o pastor que bate na cabeça de sua ovelha e nas dos seus seguidores?
Há outro perigo ainda maior. Um ensino distorcido das Escrituras que o “mestre” declara como a
vontade de Deus, mas que engana o ouvinte. Marília Camargo César, autora do livro, Feridos em
nome de Deus, em uma entrevista publicada na revista Cristianismo Hoje, observa: “O líder impõe sua
visão do mundo sobre a ovelha, e esta a aceita como uma ordem divina que precisa ser obedecida,
sob pena de punição” (Junho, Julho 2009, p. 20).
“Todos tropeçamos de muitas maneiras” (v.2). Jesus usou outra palavra no original {skandalizo —
Mt 18.6-9) para denotar a queda definitiva de alguém que fez outro cair, uma pessoa nova na fé ou
uma criança (“pequenino”). Aqui outra palavra (ptaio, aparece cinco vezes no NT) em Tiago (2.10 e
3.2 duas vezes; Rm 11.11 e 2 Pe
1.10) , fala de errar, desviar-se. Por isso, nota-se que somos demais propensos a errar com a língua,
não intencionalmente. “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (teleios, completo), não
no sentido de “sem pecado”, mas mais como em 1.4, para comunicar o pensamento de “inteiro,
completo e maduro”. Aquele que perfeitamente controla a língua teria de ser uma pessoa suficiente-
mente disciplinada para controlar todas as outras ações do corpo
A SAHF.nORlA DE DE,
101
inteiro. Caso domine o que é mais difícil, é de esperar que controle o menos complicado. Mas Tiago
não declara que haja um cristão que não tropeça.
Será que Tiago, a quem Eusébio chamou de o “Justo”, imaginava que haveria a possibilidade de
viver sem pecar? Não acredito! Ele acabou de incluir a si mesmo entre os que “tropeçam”. João
declarou que enganamos a nós mesmos se declaramos que não temos pecado (ljo 1.18). “Quem
poderá dizer: ‘Purifiquei o coração; estou livre do meu pecado’ ” (Pv 20.9). Paulo cita o Salmo 14 para
observar que “não há nenhum justo, nem um sequer; [...] não há ninguém que faça o bem” (Rm
3.10,12).
A verdade que Tiago deseja frisar na comparação entre os freios na boca de um cavalo e a língua
não é difícil de perceber. Freios pequenos controlam um animal centenas de vezes maior. A língua
pequena, controlada, sugere a probabilidade de o dono da língua controlar o corpo que é muito maior.
Navios, desproporcionalmente maiores do que o leme que os mantém navegando na direção
desejada pelo timoneiro (v. 4), mesmo contra as forças do vento que o impelem, obedecem à vontade
do capitão que controla a nau tão enorme, mas cujo leme, aparentemente é tão insignificante. A
língua, igualmente insignificante em tamanho, fala com arrogância, grandes ideias. Por trás da imensa
dificuldade de controlar a língua está o espírito orgulhoso.
Igualmente impressionante é a fagulha que incendeia um bosque enorme. Insignificante em
tamanho, a fagulha tem em seu efeito danos imprevisivelmente maiores. A língua também, como
fogo, espalha estragos pelas críticas e denúncias, fofocas e comentários nada encorajadores. Como
aquela simples bituca de cigarro arremessada por um motorista que passava pela estrada da
Califórnia na época de seca em 1994. Algo tão pequeno foi capaz de causar um dos piores incêndios
da história daquele Estado. A perda foi incalculável!
O pastor Isaltino (op.cit. p. 92) cita apropriadamente William Barclay sobre o perigo de uma
palavra não pensada, ou um ensinamento sem raízes na Palavra da verdade. “Há três coisas que não
regressam: a flecha lançada, a palavra falada e a oportunidade perdida. Uma vez pronunciada a
palavra, não há maneira de fazê-la regressar. Nada é tão difícil de sufocar como um rumor, nada há
tão difícil de cicatrizar como os efeitos de uma história maligna e ociosa. Lembre-se o homem que,
uma vez dita a palavra, esta foge do seu controle. Portanto, pense bem antes de falar porque, mesmo
que não possa fazer a palavra voltar, terá que responder pela palavra pronunciada” (The Daily Study
Bible [Bíblia de estudo diário], Edinburgh, 1958-1965, p. 100-101).
“Assim também, a língua é um fogo” (v. 6). Isto ilustra como é imprevisível a destruição causada
por um incêndio não controlado. Palavras mentirosas podem construir uma ideologia que assassina
milhões. Karl Marx não poderia ter alcançado a extensão do efeito de suas ideias espalhadas no livro
Das Kapital [O capital]. Milhões morreram na Rússia, na China e continuam morrendo na Coreia do
Norte sob a liderança comunista de Kim Jong II. Cristãos tratados como entulho vivo mantêm sua
existência precária. Estima-se que um milhão de pessoas, incluindo mulheres e crianças, teriam
padecido em campos de concentração. Além disso, estima-se que já morreram pelo menos quatro
milhões de fome na Coreia do Norte desde 1995. Muita comida tem sido enviada para aliviar o
sofrimento, mas não chega até os famintos porque os líderes desviam assistência externa para o
exército e os que controlam com mão de ferro esse regime sem piedade alguma. Tudo por causa de
palavras escritas e faladas por Karl Marx que foram aplicadas nos países comunistas.
Verdadeiramente, a língua é um fogo. Escute o desabafo de Malcom Muggeridge, um dos
palestrantes no Congresso Internacional de Lausanne na Suiça em 1974. Estas palavras foram publi-
cadas em um dos seus livros antes dele morrer: “Eu ouvi um louco .msii íaco anunciar o
estabelecimento de um reich que duraria mil •liu>s. Vi um palhaço italiano dizer que ele pararia o
calendário e o reiniciaria com sua própria ascendência ao poder. Encontrei-me com um bandido
georgiano no Kremlin que foi aclamado pela elite do mundo como mais sábio do que Salomão, mais
humano que Marco Aurélio e mais iluminado que Ashoka. Tenho visto a América mais rica, armas
militares mais poderosas que o resto do mundo todo, de modo que se o povo estado-unidense
quisesse teria ultrapassado César ou Alexandre na escala de suas conquistas, tudo em uma vida só.
Levado, levado pelo vento!”
“Eu vi a Inglaterra, parte de uma ilha pequena próxima à costa da Europa, ameaçada com
desmembramento, seguida pela bancarrota; Hitler e Mussolini mortos na infâmia; Stalin, ter seu nome
vetado pelo regime que ele mesmo fundou e dominou por três décadas; a América assediada pelo
temor de faltar aquele fluido que mantém as estradas rugindo e a poluição descendo; memórias per-
turbadoras e doloridas da campanha desastrosa no Vietnã e os Don Quixotes da mídia atacando os
moinhos de vento de Watergate. Tudo em uma vida só, tudo em uma vida só. Levado, levado pelo
vento.”
“Atrás do entulho destes solenes super-homens, autodirigidos diplomatas imperiais, fica em pé a
figura gigantesca de um homem, por causa de quem, por meio de quem e em quem tudo subsiste —
um só homem em quem a humanidade pode esperar, Jesus Cristo. Por mais que eu contemplo os
salvadores dos homens, mais lindo me parece o Cordeiro de Deus!”
O que não ficou tão evidente nessa visão da história recente, descrita por Muggeridge, foi como
todo esse mal, incluindo as dezenas de milhões de pessoas inocentes, morreram em conseqüência
das ideias divulgadas pelas línguas desses homens. Mas sabemos que foi a língua “incendiada pelo
inferno” o instrumento da mais incrível devastação.
“A língua é um mundo de iniqüidade”, e somente pode ser entendido como uma conseqüência da
conexão entre a língua e o coração. Se ela fala do que está no coração, que poderemos esperar da
boca senão sujeira? Jesus ensinou: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34b), e que: “Do
interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os
homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a arrogância e a insensatez” (Mc
7.21,22). Se o coração, por ser a fonte de toda essa iniqüidade, está ligado à língua, não podemos
admirar que a língua repasse aquilo que a fossa suja do coração esteja criando. Tiago,
evidentemente, está expressando a realidade da língua não conectada ao Espírito no coração do filho
de Deus. Se o coração não pertence ao Senhor de verdade, não se pode esperar uma língua
purificada com o mel das palavras do Senhor (SI 119.103).
Como dizem os Provérbios: “Os sábios de coração aceitam mandamentos, mas a boca do
insensato o leva à ruína” (10.8). “A boca do justo é fonte de vida, mas a boca dos ímpios abriga a vio-
lência” (10.11). “Quem faz uma cova, nela cairá; se alguém rola uma pedra, esta rolará de volta sobre
ele. A língua mentirosa odeia aqueles a quem fere, e a boca lisonjeira provoca a ruína” (26.27,28). Ou
ainda: “A conversa do tolo é a sua desgraça, e seus lábios são uma armadilha para a sua alma”
(18.7).
Voltando para nosso texto no versículo 6 a expressão “colocada entre os membros do nosso
corpo, contamina a pessoa por inteiro”, deixa mais clara ainda que a língua tem incalculável
possibilidades de corromper o ambiente comparado aos outros membros do corpo. “É pela língua que
os homens podem desculpar e defender e passar por cima e procurar justificar seus próprios atos
maus; é por meio da língua que os homens podem persuadir e seduzir e atrair os outros para o
pecado” (William Barclay, op.cit, p. 101). Talvez seja por isso que um filho que cresceu ouvindo o
tempo inteiro que é burro, que não presta, que não sabe fazer nada, vai ter certamente problemas
emocionais que afetarão sua relação com outras pessoas, mesmo depois de adulto. E por via de
regra, isso afetará no seu trabalho, na escola e até na rua. Pois palavras têm conseqüências.
“Incendeia todo o curso [grego troxos, “roda”] de sua vida” simplesmente quer dizer que, em todos
os dias de nossa vida, a língua não controlada pelo Espírito Santo será um instrumento de estrago, de
envenenamento, de manifestação de nossa origem e destino que não seria o céu. Daí a importância
de uma entrega real do coração ao senhorio de Cristo para que sejamos guiados como filhos de Deus
(Rm 8.14). Por que a língua é um mundo de iniqüidade? Será que Tiago aqui não estaria
exagerando? Certamente que não! Principalmente quando ele afirma o lugar que dá origem a essa
perversidade: o próprio inferno. O caso é muito sério. Pois isso implica em dizer que ser controlado
pela nossa língua é o mesmo que ser controlado pelo inferno.
Se a origem desse mundo de iniqüidade que é nossa língua é infernal, e nossa língua, como um
leme de um navio nos conduz, logo seriamos como que controlados pelo inferno. Muitos de nós
achamos que uma palavrinha não tem muita importância, só que ela demonstra que tipo de
procedência temos, se celestial ou infernal. Se as nossas palavras são de Deus ou do Diabo.
O DOMÍNIO DA LÍNGUA — 3*7,8
Tiago agora passa a comparar a habilidade dos homens em domar “animais, aves, répteis e
criaturas do mar” com a incapacidade que eles têm de dominar a língua. A domesticação de animais
para fazer a vontade do homem se observa no mundo inteiro. Bois, cavalos, jumentos e cães, todos
são treinados para aliviar as tarefas de cultivar a terra, de transportar cargas ou de arrastar trenós
pelo gelo do ártico.
Mas a língua ninguém consegue domar sem o poder sobrenatural do Espírito. Esse simples fato
deve confirmar a queda da humanidade nas garras do pecado. “O mau se enreda em seu falar pe-
caminoso, mas o justo não cai nessas dificuldades” (Pv 12.13), con- lirma a conclusão que somente
uma boca santificada pelo Senlioi escapa às mais perniciosas maneiras de usar a língua.
Paulo também concorda com a contaminação da língua. “Não há nenhum justo, nem um sequer;
não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. [...] Suas gargantas são um túmulo
aberto; com suas línguas enganam. Veneno de serpentes está em seus lábios. Suas bocas estão
cheias de maldição e amargura” (Rm 3.10-14). Não havendo nenhum justo, fica provado que não
pode haver uma boca santificada que fale de acordo com a verdade divina ou que procure a glória
dele naquilo que expressa com a língua.
Realmente, a língua “é um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero”. Desse modo, Tiago
resume tudo que tem declarado até o momento. A boca dos filhos de Adão recebe sua inspiração do
diabo, o “espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência” (Ef 2.2b). Nossa luta
contra as forças destrutivas do diabo de focar em particular como ele assedia nossa língua.
INCOERÊNCIA NO EMPREGO DA LÍNGUA— 3.9-12
Tiago já fez referência ao homem de ânimo dobre (1.7,8). Agora ele passa a apontar para a
incoerência de imaginar que se possa expressar espiritualidade e carnalidade com a mesma boca.
“Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança
de Deus” (v. 9). Duplicidade não expressa santidade. Pregar paciência, mas agir como um estopim
curto certamente desonra àquele para quem juramos nossa plena lealdade. Louvar ao Senhor no
domingo e soltar palavras hostis na segunda-feira contra um cliente, contra um motorista que nos cor-
tou a frente ou contra um filho que nos irritou, mostra quão longe estamos de reproduzir a imagem do
Filho de Deus (Rm 8.29).
Jesus então faz um convite, a nós todos, os que nos cansamos de lutar contra um gênio tão
avesso ao dele, contra hábitos tão enraizados e contra provocações tão diabólicas: “Venham a mim,
todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o
meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso
para as suas almas. Pois meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt
11. 28-30). Novamente, devemos estar convencidos que nossa incoerência somente será
vencida tomando nossa cruz, aceitando a agonia e a humilhação da crucificação de Cristo como a
nossa. Pedro escreve para escravos maltratados: “Ele não cometeu pecado algum, e nenhum engano
foi encontrado em sua boca. Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas
entregava-se àquele que julga com justiça” (lPe 2.22,23). A oração de Davi será sempre apropriada:
“Coloca Senhor, uma guarda à minha boca; vigia à porta de meus lábios” (SI 141.3).
“Da mesma boca procedem bênção e maldição” (v. 10). Se aquele que fala pode pronunciar uma
bênção, deve ser cristão. Somente crentes professos abençoam as pessoas. Amaldiçoar não convém
ao seguidor de Cristo que se preocupa em andar nos passos de Jesus. E difícil imaginar um coração
em que Deus ocupa o trono que o diabo também ocupe. Amaldiçoar é próprio do inimigo das almas
redimidas. Por isso, Tiago gentilmente disse: “Meus irmãos, não pode ser assim!”
Tiago, para destacar a incoerência de se usar a boca para servir ao Senhor com bênçãos e ao
diabo com maldições, escolhe três ilustrações. A primeira ilustração destaca a verdade que acaba de
declarar. “Acaso podem sair água doce e água amarga da mesma fonte?” Impossível! Se sai água
amarga da fonte alguma vez, pode- se confiar que sempre seja amarga? Se a boca solta veneno, não
dá para concluir que outras declarações sejam confiáveis. Igualmente duvidoso seria esperar de uma
árvore que produziu azeitonas no passado, encontrar figos no futuro. Também seria irracional
procurar água doce em uma fonte da qual jorra água salgada.
A segunda ilustração no versículo 11 aponta para a impossibilidade de uma figueira colher
azeitonas. Jesus usou urna ilustração semelhante ao declarar que os crentes podem reconhecei' os
falsos profetas pelos seus frutos. “Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas
daninhas?” Toda boa árvore produz bons frutos.
Pessoas submissas ao Espírito, transformados pela graça não têm possibilidade de agir na contramão
de suas novas relações com Cristo (cf. Mt 7.15-18). A natureza criada por Deus é consistente. É de
esperar que a nova fonte de vida em Cristo também produza conduta consistente com essa vida.
“Da mesma forma, uma fonte de água salgada não pode produzir água doce” (v. 12b), retorna a
ilustração da fonte e a natureza da água que jorra dela. Quando a fonte é Jesus, como ele mesmo
prometeu para a mulher de Sicar, a água da vida jorraria para vida eterna (Jo 4.10,14). Não é possível
que Jesus possa produzir palavras mortíferas, envenenadas pelo ódio e egoísmo, na vida de um dos
seguidores verdadeiros.
Esses versículos têm algumas lições imprescindíveis. Primeira, não podemos ser ingênuos, pois
palavras têm conseqüências. Alguns não pensam para falar e falam tudo sem pensar. Ou muitas
vezes até são conscientes daquilo que estão falando, mas acabam sendo ingênuos achando que não
é nada demais. E nossa ingenuidade não pode nos cegar para o fato de que podemos causar danos
irreparáveis. Precisamos nos dar conta da urgente necessidade de controlar nossa língua, do
contrário nossas palavras malditas podem causar grande destruição. Seja na hora de disciplinar um
filho, seja naquilo que falamos dos outros ou para os outros. Por isso, como filhos da verdade,
precisamos viver na verdade. E a primeira verdade é que não podemos ignorar o poder destruidor da
nossa língua.
Segundo, precisamos ser pessoas perfeitas, completas, não faltando em nada. Tiago diz que
aquele que não tropeça no falar é uma pessoa perfeita, pois é também capaz de dominar todo seu
corpo. Ou seja, não podemos achar que a famosa afirmação: “Eu sou assim mesmo”, é desculpa
diante de Deus. Pau que nasce torto, Deus endireita! A pergunta não é: o que farei se sou alguém que
fala demais? A pergunta é: estou disposto a entregar essa área de minha vida para Deus trabalhar
nela também? Quero que Deus trabalhe em minha vida nessa área? Então, é preciso reconhecer,
antes de tudo, que tenho um problema com a língua. Então, devo confessar esse pecado e pedir
perdão. Se ofendi alguém, então também devo ir e reparar o meu erro.
E necessário que busquemos a perfeição a todo o instante. Se dominar a minha língua, assim
terei também o meu corpo sob controle. Precisamos fazer o que for necessário para exercer o
domínio próprio. Essa será uma batalha até a morte, mas jamais podemos desistir.
Terceiro, é preciso cuidar daquilo que falamos, pois é possível que estejamos contaminados por
inteiro. Talvez Tiago tivesse em mente aqui as palavras de Jesus em Mateus 15.18,19, quando ele
disse: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem ‘impuro’.
Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais,
os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias”. Ou seja, a causa da nossa contaminação verbal
pode ser fruto de uma contaminação cardíaca. O problema superficial é a forma como falamos, de
quem falamos e o que falamos, só que o problema mesmo pode estar no nosso coração. Por isso,
precisamos fazer um check-up minucioso de como anda nosso coração, pois nossas palavras podem
ser fruto da amargura que estamos vivendo. Jesus também disse algo muito sério em relação a essa
questão: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra
inútil que tiverem falado. Pois por suas palavras vocês serão absolvidos, e por suas palavras serão
condenados” (Mt 12.36,37). Ou seja, é preciso muita cautela, porque o Senhor pedirá conta de tudo
aquilo que falarmos.
Quarto, nossa língua precisa ser sempre fonte de vida e benção. Infelizmente, alguns de nós
podem estar em cima do murro, divididos. Mas essa divisão é uma incoerência total. Ou somos fonte
de bênção ou de maldição. Não tem como sermos os dois ao mesmo tempo. E se somos fonte de
bênção, então nossas palavras são medidas com amor, com cuidado e com zelo. Ela está alicerçada
na sabedoria de Deus que adquirimos na sua própria Palavra, exercendo o domínio próprio e o amor.
Mas se ela é fonte de maldição, as chances serão grandes de que viveremos de forma isolada.
Pois quem é que gosta de ficar ao lado de alguém que só tem críticas destrutivas para oferecer? Pior
ainda, dependendo do que você fala, pode ficar muito claro que sua fonte, como Tiago diz, não é do
céu, mas do inferno. Ou seja, você tem ouvido muito mais as coisas do inferno do que as coisas do
céu! Nesse caso, suas palavras servirão para demolir, destruir, desmoralizar e jamais edificar a vida
de alguém. Muito ao contrário, só servirão para arruinar sua própria vida e, no processo, a vida de
outras pessoas ao seu redor, como o afirma o autor do livro de Provérbios.
Fica claro, que na visão de Tiago, a língua é uma espécie de medidor de espiritualidade,
revelando onde está nosso coração. Um discípulo maduro, que busca a perfeição, domina sua língua.
Sua fonte é de água doce, e não amarga. Os seus frutos são bons, pois como Jesus mesmo disse:
“pelos seus frutos vocês os reconhecerão!” (Mt 7.20). Pois uma árvore boa produz bons frutos, ou
uma língua, de um coração transformado, cheio de vida, produz transformação e vida, não morte nem
destruição, como muitas línguas fazem. E para essas pessoas que não produzem frutos autênticos, a
palavra de Jesus é muito dura: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!”
(Mt 7.23).
E POSSÍVEL IDENTIFICAR A QUALIDADE DA SABEDORIA PELA SUA FONTE — 3.I3-I8
Sabedoria em Tiago tem mais que ver com uma conduta que reflete a natureza e a vontade de
Deus do que com um intelecto aguçado. Tiago lança um desfio: “Quem é sábio e tem entendimento
entre vocês?” Tanto sabedoria como entendimento andam bem juntos. Sabedoria direciona os
passos, e entendimento informa o destino das decisões. Segundo Tiago, ela é demonstrada pelo
A SAHtüORlA 1)1:
bom procedimento. A questão não é o quanto sabemos na nossa mente, mas quanto esse
conhecimento é refletido no nosso procedimento. Por exemplo, quem não acharia um tanto estranho
ver um médico que orienta pacientes na disciplina de uma vida regrada, mas que não passa de uma
chaminé ambulante de tanto que fuma?
O cristão deve demonstrar pelas suas boas obras a mansidão que a sabedoria genuína requer.
Como em 2.18, as obras comprovam a fé genuína. A humildade mostra a verdadeira sabedoria que o
cristão tem. Thomas Manton diz: “Um cristão é mais bem conhecido pela sua vida do que pelo seu
discurso” (London: Banner ofTruth, 1693 e 1962, p.299). O Senhor Jesus convidou os cansados e so-
brecarregados a tomar sobre eles o jugo dele para aprender com ele que é manso e humilde de
coração. Quando tratamos pessoas com paciência e amor, mesmo aqueles que não têm posição de
destaque na sociedade, imita-se a sabedoria e a humildade de Cristo. Jesus incluiu mansidão nas
bem-aventuranças. A felicidade dos mansos inclui herdar a terra (Mt 5.5). Em Tiago, mansidão deve
certificar a origem da sabedoria que se professa.
Na antiguidade, sabedoria e humildade eram praticamente inimigas. A visão grega da sabedoria
pressupunha o orgulho. Uma pessoa “sábia” tinha que se orgulhar de sua posição. Para Tiago,
porém, afirmar que se prova ser uma pessoa sábia executando obras com humildade era algo
totalmente contra aquela cultura. Algo que é também contra nossa cultura hoje. A tendência que
temos é de exaltar-nos e orgulhar-nos de nossos próprios feitos.
O oposto se mostra na sabedoria dos homens que não conhecem a Deus. É o caso dos que
“dizendo-se sábios, tornaram se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens” (Rm
1.22,23). A sabedoria que não tem respaldo na Bíblia é carente de mansidão. Sem entendimento, os
intelectuais do nosso tempo carecem, na maioria dos casos, da sabedoria que o temor do Senhor
produz (SI
111.10) . Especular sobre as origens do universo, sobre as origens das espécies, carecem de
humildade e sabedoria. Excluir o Criador de todos as explicações das maravilhas da natureza parece
loucura do mais alto grau. Certamente, Manton está certo ao afirmar: “O mais evidente da sabedoria
verdadeira é que seu possuidor é manso” {op. cit. p. 300).
Tiago, no versículo 14, fornece uma lista das “obras” características da ausência da mansidão.
1) Inveja {zelos, e no v. 16) amarga é o contrário da mansidão. É verdade que “zelo” pode ser um
termo positivo (Rm 10.2; 2Co 7.7,11; 9.2), mas, em outros textos, claramente se refere à inveja (Rm
13.13; 2Co 12.20 e G1 5.2). Como um dos pecados capitais, Richard Gordon observou: “Os
ressentidos, aqueles homens com câncer na psique, tornam-se os grandes assassinos” (Citado por
Os Guiness, Sete pecados capitais, Shedd Publicações, S. Paulo, 2006, p. 81). “Não há muitas
pessoas capazes de reprimir o segredo da satisfação com o infortúnio de seus amigos” (La
Rochefoucauld, citado por Os Guiness, op. cit., p. 76). Lucas explica que a raiva do sumo sacerdote e
dos saduceus no Sinédrio, que provocara a prisão dos apóstolos, brotou da inveja (At 5.17; cf. 13.45).
Foram a inveja e as contendas que levaram a igreja de Corinto a rachar em quatro partidos (lCo 3.3).
Foi esse pecado que corroeu o coração de Saul. Após Davi vencer Golias, as mulheres cantavam
e dançavam, dizendo: “Saul matou milhares, e Davi, dezenas de milhares”. Saul ficou muito irritado e
aborrecido. Daí em diante, Saul olhava com inveja para Davi (ISm 18.7).
Tiago descreve a inveja como amarga (pikria, “amarga”, “áspera”), no sentido de zelo fanático na
promoção de uma causa. Não dá abertura para outro irmão apresentar seu ponto de vista, mas dis-
cute com veemência que a posição dele é a única que deve ser considerada.
2) Ambição egoísta {erithian), junto com a inveja amarga, é incluída por Tiago. Essa ambição
carrega o sentido de utilizar meios /I SABFÜOKJA UEÜFUS
1 1 3

indignos e divisores para promover interesses próprios. Paulo usa essa palavra em Romanos 2.8 para
descrever o egoísmo daqueles que “rejeitam a verdade e seguem a injustiça”. Paulo temia que che-
gando em Corinto encontraria “brigas, invejas, manifestações de ira, divisões [eritheiai], calúnias,
intrigas, arrogância e desordem” (2Co 2.20). Se tais atitudes e hostilidade mútua podiam aparecer na
igreja de Corinto, também poderiam surgir nas igrejas para as quais Tiago destinou essa carta.
Poderão despontar na nossa igreja! Daí a advertência contra o perigo de se tornar um canal para
ação demoníaca (v. 15).
3) “Não se gloriem disso” (v. 14). Jactar-se e orgulhar-se por causa das divisões na igreja, parece
completamente incoerente. Possivelmente, alguém concordava com Paulo: “Pois é necessário que
haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados” (ICo
11.19). Mas a jactância que Tiago tem em mente, sem sombra de dúvidas, não tem nada de positivo.
Nesse contexto, gloriar-se da ambição egoísta nega a verdade que se prega. Somente amando-se
uns aos outros como Cristo os amou é que todos saberão que vocês são discípulos dele (Jo
13.34,35).
Além disso, sabedoria que não tem sua origem na revelação bíblica, que se expressa em inveja
amarga e ambição egoísta, que tem sua origem na natureza caída humana, combate a verdade do
evangelho. Na oferta da salvação a todos que creem, Deus oferece dignidade e aceitação. As atitudes
egoístas separam e excluem. Endurecem as opiniões que podem ser falsas e nocivas. Por isso, Tia-
go, “o justo”, exorta seus leitores para que demonstrem sabedoria com mansidão.
Tiago, no versículo 15, explica a fonte dessa sabedoria que não vem de cima, mas da terra (Fp
3.19; Cl 3.2; ICo 15.47). Ela carece de espiritualidade por ser demoníaca e mundana. Paulo concorda
com a verdade desse texto quando aponta para o “príncipe do poder do ar, o espírito que agora está
atuando nos que vivem na desobediência” (Ef 2.2). Tiago não explica até que ponto os demônios têm
acesso aos gênios e às paixões humanas, mesmo nas igrejas. Mas declara que certas atitudes de
pessoas, que agem sem amor ou sem respeito, dominadas por sentimentos de inveja e ambição
egoísta, rivalidade e hostilidade, não vêm do Espírito que habita no cristão renascido (veja 4.5). A
fonte dessas maneiras de agir vem de uma inspiração de demônios.
Podemos concluir desse trecho que a carnalidade e o mundanis- mo de cristãos não podem ser
explicados como evidência de que não se converteram ainda. Parece que atitudes demoníacas
podem conviver no coração do cristão mesmo juntamente com o Espírito Santo. “Pois a carne deseja
o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o
outro” (G15.17). Esse conflito somente pode ser vencido pelo poder do Espírito e pela oração de fé
(Rm 8.13). Tiago não distingue entre as duas fontes, a terrena e a demoníaca, como observamos no
versículo 15. A carne e o demônio andam juntos cooperando para estimular o crente a pecar.
O que, seguramente, não cabe na doutrina bíblica de conversão seria um espírito acomodado,
uma carência do desejo de vencer o pecado. “Esforcem-se [...] para serem santos; sem santidade nin-
guém verá o Senhor” (Hb 12.14). Como pode um cristão professo ser, segundo o versículo 15, “não
espiritual” (psuchike, lit. “da alma” como também em 1 Co 2.14) ? Judas usou essa palavra para
descrever as pessoas que dividem a igreja, seguem a tendência de suas próprias almas e não têm o
Espírito. Essa descrição dificilmente poderia descrever um crente cujo nome está registrado no Livro
da Vida.
Jonathan Goforth, avivalista do início do século XX, disse: “Os mesmos pecados cometidos pelos
não cristãos são praticados nas igrejas, mas possivelmente com menos intensidade”. O que não
podemos admitir: que ele aceite essa prática como natural. Quando o pecado se desenvolve na vida
do cristão, é necessário que ele questione qual seria o “senhor” que ele serve (Mt 6.24). Paulo disse
que no “íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do
meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente” (Rm 7 22,23). Quando Paulo não tinha forças
para vencer essa “outra lei”, ele ficou desesperado e se entregou à dependência do Senhor Jesus
(Rm 7.25).
“Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (v. 16).
Confusão (gr. Akatastasiá) significa desordem e transtorno. O sentido se aproxima daquele de nossa
palavra “anarquia”. Para a igreja de Corinto, Paulo escreveu: “Mas tudo deve ser feito com decência e
ordem”. A confusão em Corinto foi fomentada pela ambição egoísta e pela politicagem partidária. A
igreja não se submetia à liderança de sua Cabeça. Acontece hoje também, motivo pelo qual a Palavra
de Deus condena a “confusão e toda espécie de males”. A palavra “males” (phaulos, vil, ruim e
corrupto) caracteriza práticas e atitudes que reconhecidamente carecem de humildade e do amor
ágape. Quando Cristo não reina no coração, todo tipo de podridão floresce (veja Mc 7.21,22).
SABEDORIA QUE VEM DO ALTO — 3.17
“Sabedoria” nesse trecho quer dizer o modo de Deus pensar, sabedoria essa que encontramos na
Palavra de Deus, nos ensinamentos de Cristo e dos apóstolos. Vem do alto precisamente porque sua
origem é a mente e a vontade de Deus (cf. Cl 3.1). Mesmo que Tiago não repita a lista das qualidades
do fruto do Espírito (G1 5.22,23), as semelhanças são óbvias.
1) Essa sabedoria é primeiramente pura (hagnos, “santo, sem mancha ou mistura”). Quer dizer, é
uma sabedoria que não fica contaminada com raciocínio e filosofia humanos. Não é a reflexão da
ética de Aristóteles, ou das mentes iluminadas de razão pura de Kant. A sua pureza é de uma
“virgem” (2Co 1 1.2) sem qualquer contaminação moral. Como o “leite espiritual puro” que crianças
recém-nascidas desejam (lPe 2.2), essa sabedoria tem as próprias marcas do Deus que o criou e
revelou em sua Palavra. “Sabedoria é como a luz, penetrando em todos os lugares, porém, não é con-
taminada pelos objetos terrenos que ela ilumina” (E.M. Sidebottom, James, Jude, 2 Peter [Tiago,
Judas, 2Pedro], The New Century Bible, Eerdmans, Grand Rapids, 1967, p. 50).
2) Depois, essa sabedoria é pacífica. Mostra a pureza da sabedoria no fato de que o fruto do
Espírito é a paz. Os que agem para produzir a paz são abençoados. Serão também chamados “filhos
de Deus” (Mt 5.9).
3) Amável (epieikes) significa “sensível, generoso, bondoso, amável, tolerante e compreensível”.
O fruto do Espírito em Gálatas 5.22 “amabilidade” traduz a palavra chrestotes, portanto, um sinônimo
da palavra que Tiago escolheu para descrever a maneira que pessoas sábias, com a sabedoria do
alto, tratam os seus próximos. “Bondade” (epieikeias) foi a palavra que a NVI escolheu para repre-
sentar o cerce do conceito dessa palavra grega. Paulo escolheu o mesmo termo, junto com
“mansidão”, para descrever a natureza do espírito de nosso Senhor Jesus (2Co 10.1). Em Filipenses,
Paulo exorta os filipenses a demonstrar sua “amabilidade” (epieikes) a todos.
4) “Compreensiva” (eupeithes, “eu” = boa, peithes = persuasão) significa “complacente”,
submisso. Essa qualidade ajuda os irmãos a tolerar as idiossincrasias que aparecem na comunidade
dos santos.
5) “Cheia de misericórdia” (meste eleous, “repletos de compaixão e misericórdia”) fortalece o
conceito que Tiago enfatiza nesse trecho, isto é, que os santos têm um alto índice de aceitação
mútua.
Um dos mandamentos recíprocos do Novo Testamento é de se aceitar uns aos outros (Rm 15.7).
O Apóstolo não está advogando a tolerância do pecado ou de se aceitar a raiz de amargura (Hb 12.
15), que envenena os relacionamentos entre irmãos, mas tratar os irmãos da maneira como Jesus
tratou a mulher de Samaria, que estava vivendo em adultério (Jo 8.1 -12), e da maneira que restaurou
Pedrc) após sua vergonhosa queda na noite da prisão de Jesus (veja João 21.15-17). “Se alguém for
surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão” (G1
6.1), este seria o padrão que a sabedoria celestial criaria.
“Esforcem-se para viver em paz com todos” (Hb 12.14), um mandamento, tantas vezes ignorado
pelos cristãos dentro e fora da igreja local, cria vergonha para aqueles que se identificam com o Se-
nhor Jesus. A misericórdia de Jesus, tão evidente na maneira que tratou os seus amados discípulos e
seguidores, deve ser o padrão de resolver os problemas de relacionamentos fomentados pela
pecami- nosidade dos que evidentemente não correm atrás da paz com todos. Certamente, nada
seria mais útil para casais e igrejas que receber uma boa dose de “sabedoria do alto”.
6) “Cheia de bons frutos” refere às qualidades que mantêm a paz e que mostram o amor de Deus
derramado no coração dos que nasceram dele (Rm 5.5). Tiago repete a frase que Jesus usou no
Sermão do Monte. “Toda árvore boa dá frutos bons [...]. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a
árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao
fogo. Assim, pelos seus frutos vocês o reconhecerão!” (Mt 7.17- 20).
7) “Imparcial” (adiakritos formada da palavra diakrino — duas vezes em Tg 1.6 “duvidar”) significa
sem julgar, (nota-se a palavra em português, “criticar” com a alpha privativa). Possivelmente, a
radução, “imparcial” seja a melhor possível. A ênfase continua sobre a aceitação dos irmãos na
comunhão em que o amor reina.
8) “Sincera” (anupocritos), isto é, sem hipocrisia. Paulo usa a mesma palavra em Romanos 12.9,
2Coríntios 6.6 e lTimóteo 1.5.
I bdos os casos aparecem para descrever amor ágape. Em 2Timóteo 1.5 aparece com descrição de fé
sincera.
Conclusão — 3.18
O versículo 18 forma uma espécie de conclusão tirada das animações que o precedem. Em um
ambiente de desarmonia, de lutas pelo poder, de críticas amarguradas, pouca evidência da justi^.i pmlr
.1 parecer.
“O fruto da justiça” quer dizer o fruto que a justiça produz. O autor de Hebreus usa a frase paralela
fruto pacífico da justiça (12.11). Ou como Paulo escreveu: “Cheios do fruto da justiça, fruto que vem
por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Fp 1.11). Pelos textos do AT em que essa
frase aparece, podemos verificar que é a justiça que produz o fruto (cf. Pv 11.30; 13.2; Am 6.12).
Devemos entender que esse “fruto da justiça” se planta no meio de uma comunidade em que a
paz reina. Ao contrário, onde brigas, intolerância e falta de sinceridade predominam dificilmente se
pode esperar crescimento da justiça.
Pacificadores são os que “semeiam a paz” bem como aqueles irmãos que vivem pacificamente.
Agem de maneira oposta aos mencionados no versículo 16. São portadores de inveja e ambição
egoísta. A transformação que uma conversão genuína desenvolve não seria outra senão aquela que
produz bons frutos, frutos da justiça.
Podemos aprender algumas lições desses versículos. Primeiro, é preciso reconhecer que a
sabedoria é um presente de Deus. Por mais que tentemos buscar ser sábios, naturalmente jamais
alcançaremos nada. Tiago mesmo disse, em 1.5, que se alguém tem falta de sabedoria deve pedir a
Deus, que a todos dá livremente. E, obviamente, se a sabedoria é algo que pedimos, e que vem do
alto, ela não pode ser apenas uma qualidade aprendida ou adquirida à medida que se passam os
anos. Ela é um presente divino.
Segundo, se alguém tem dúvidas de que tipo de sabedoria tem produzido em sua vida, por
intermédio do seu procedimento, Tiago pode lhe dar um diagnóstico. A lista descrevendo a sabedoria
do céu é um bom modelo para se comparar com nosso proceder para tomarmos conhecimento de em
qual área podemos estar falhando. São seis os itens que devem ser averiguados. 1) Pureza: temos
tido uma vida irrepreensível? Existe algo hoje que possa manchar meu caráter? Posso dizer que
sinceramente estou comprometido a seguir a Palavra de Deus?
2) Paz: o meu objetivo principal é reconciliar a inimizade que existe entre os homens e Deus?
Como a Bíblia ensina, os homens sem Jesus estão em inimizade com Deus, literalmente em guerra
contra seu Senhor. Por isso, somos chamados para o ministério da reconciliação. Além disso, nas
relações com outras pessoas, tenho também promovido a mesma paz?
3) Amável ou gentil: sou uma pessoa que tem consideração por outras pessoas? A minha atitude
e a minha conduta promovem a justiça com misericórdia?
4) Compreensiva ou tratável: poderia dizer que sou uma pessoa que está aberta para aprender
mais, não sendo irredutível nem inflexível, mas maleável e aberto para ser persuadido pela Palavra?
5) Cheia de misericórdia: tenho podido não somente ouvir a vontade de Deus, mas também
colocá-la em prática em benefício das pessoas, agindo com misericórdia?
6) Não dividida ou imparcial e sincera: sou alguém transparente, genuíno, que não busca se
exibir, nem chamar a atenção? Sou alguém imparcial, não faço nem falo uma coisa hoje e outra
amanhã?
Terceiro, também aprendemos que um coração que é abrigo de inveja, ambição e orgulho jamais
produzirá a sabedoria que vem do céu. Todo coração que é alimentado por esses pecados, precisa
de uma grande e urgente faxina em sua casa. A dureza de coração não pode se prolongar por meses.
Isso causará sofrimento e im- produtividade. Ou pior, a produtividade será demoníaca, com frutos de
inveja, ambição e orgulho. Mas não precisa ser assim. O Senhor nos dá a oportunidade para abrir
mão de todo pecado que gera frutos de confusão e males, para que o supliquemos para derramar
sobre nós a produtiva sabedoria do alto.
Tiago 4
MUNDANISMO E SANTIDADE CONTRASTADOS — 4*1-3
“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês?” Uma pergunta um tanto
desconcertante, principalmente se levarmos em consideração que essa pergunta não é feita para não
crentes, para pessoas do mundo, para pessoas que não têm conhecimento de Cristo, nem qualquer
envolvimento ou conhecimento com a Palavra de Deus. Não! Essa pergunta está sendo direcionada
para cristãos, aqueles que estavam reunidos em uma igreja local, e que pertenciam ao mesmo Corpo.
Ele está escrevendo para a igreja de Deus. Como é que pode a igreja do nosso Senhor Jesus Cristo,
ter problemas, ter guerras e contendas no seu meio?
Não existe dúvida sobre o solo de onde brota a guerra entre os irmãos. Sua fonte não é outra
senao a busca desenfreada do prazer. A vontade própria sem orientação ou sem controle divino
conduz
o homem sempre em direção a guerrear pelos seus direitos e pelos seus desejos. Filo de Alexandria,
contemporâneo de Paulo e de Jesus, escreveu: “Portanto considere a guerra contínua que prevalece
entre os homens, mesmo em tempo de paz, e que existe não apenas entre nações e países e
cidades, mas também entre casas particulares, ou, eu poderia dizer, é presente com cada homem
individual; observe a indescritível tempestade furiosa nas almas dos homens que se exaltam pela
corrida violenta dos afazeres da vida; e teria razão para questionar se qualquer pessoa poderia gozar
de tranqüilidade em tal tempestade e manter a calma no meio deste mar turbulento” (De gig. 11,
citado por Espistle ofSt. James [Epístola de São Tiago], ICC, T.&T. Clark, Edinburgh, 1916, 252).
Spinoza, filósofo judeu, escrevendo no século XVII, deu a seguinte opinião sobre as pessoas que
se diziam cristãs: “Muitas vezes tenho ficado pasmado diante do fato de pessoas que se vangloriam
de professar a religião cristã, isto é, amor, alegria, paz, domínio próprio e boas obras diante dos
homens, brigarem com uma animosidade tão rancorosa e, diariamente, demonstrarem umas às
outras um ódio tão amargo, a ponto de tudo isso (que é ruim), em lugar das virtudes que professam,
ser o principal critério de sua fé” (Douglas Moo, p. 137). Talvez Spinoza tivesse alguma razão nos
seus comentários e nas suas observações quando afirma que muitos de nós fazemos do ódio, da
amargura e do rancor o critério da nossa fé, exatamente o contrário daquilo que nossa fé deveria ser.
Tiago escolhe dois termos para descrever os conflitos e discussões que prevalecem na
comunidade. “Guerras” (polemon, conflitos) seriam rixas que se travam pelos interesses pessoais.
“Contendas” (machai) significa batalhas e inimizades que separam as pessoas. A pergunta, “De onde
vem?”, tem sua resposta na frase “das paixões” (ek ton hedonon, dos prazeres procurados com
intenso desejo). “Guerreiam” (strateuomenon) criam e manejam a guerra quando os desejos pelo
prazer de alguns entram em conflito com os desejos dos outros. Contendas entre maridos e mulheres,
entre pais e filhos e entre irmãos na igreja sempre se levantam porque os indivíduos estão procurando
alguma vantagem, algum prazer que lesa ou prejudica aquele que reage. Assim, o conflito se cria
entre pessoas e países, entre companhias e competidores. Advogados, juizes, tribunais e exércitos
são levantados para procurar resolver as contendas que surgem apenas porque o forte desejo pelo
prazer mexeu com outro que quis aumentar ou manter seu prazer também.
Essa guerra se trava nos membros (en tois melesin), “dentro de vocês”. Os membros nos quais
brotam os desejos que almejam prazer nos lembra de Colossenses 3.5-9 em que Paulo nos exorta a
fazer morrer os nossos membros que estão na terra, tais como imoralidade sexual, impureza, paixão,
desejos maus e ganância que é idolatria, além da ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem
indecente e mentira. Considere Tito 3.3: “Houve tempo em que nós também éramos insensatos e
desobedientes, vivíamos enganados e escravizados por toda espécie de paixões e prazeres.
Vivíamos na maldade e na inveja, sendo detestáveis e odiando uns aos outros”. “Os membros sobre a
terra” se refere simplesmente à nossa natureza adâmica disposta a lutar pelos nossos “direitos”.
“Vocês cobiçam coisas” (v. 2). Desejar coisas mais do que desejar a Deus focaliza o cerne do
problema humano. Jesus manda buscar em primeiro lugar o Reino e sua justiça. Em seguida, todas
essas coisas serão acrescentadas. Quando podemos honestamente dizer com Davi: “O Deus, tu és o
meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti,
numa terra seca, exausta e sem água” (SI 63.1)? A busca pelo prazer de ter mais coisas, de sugar
mais do desejo de prosperar e de gozar da felicidade de se sobressair em cima dos competidores,
pode diminuir. Pode até desaparecer. Para isso será necessário alegrar-se sempre no Senhor. Essa
deve ser a melhor solução para se vencer o mal da cobiça.
“Não as têm” é uma frase ligada à oração. Orações que oferecemos para gratificar nossos desejos
carnais não devem ser respondidas. “O princípio de Tiago é: torne o serviço de Deus sua finalidade
suprema e, depois, seus desejos serão tais que Deus poderá supri-los em resposta à sua oração”
(J.H. Ropes, op.cit. p. 258).
“Matam e invejam” (v. 2) surpreendentemente coloca o homicídio como conseqüência da inveja.
Isto pode se referir aos distúrbios iniciados pelos sicari (nacionalistas que instigaram a guerra contra
Roma, provocando a destruição de Jerusalém e indescritíveis sofrimentos entre 66-70 d.C.). Talvez,
refira-se a assassinos figurados como Jesus falou em Mateus 5.21-25. João exorta os irmãos da Ásia
a não imitar Caim (ljo 3.12). Seria menos radical pensar que
I iago se refere às rixas e às contendas da comunidade que provocam o afastamento dos irmãos
menos firmes. Jesus foi taxativo quanto ao perigo de fazer tropeçar um “pequenino”. “Mas se alguém
fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de
moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar” (Mt 18.6). Crentes mal firmados e instáveis
se escandalizam com os maus exemplos de “irmãos” mais antigos na fé.
No evangelho de Marcos, uma das razões que o evangelista apresenta para a decisão dos
principais sacerdotes para entregar Jesus a Pilatos é atribuída à inveja (Mc 15.10). Em Atos, Lucas
relata que a perseguição à igreja foi incitada por conta de ciúmes (At 5.17, 13.45, Fp 3.6). “Então o
sumo sacerdote e todos os seus companheiros, membros do partido dos saduceus, ficaram cheios de
inveja. Por isso, mandaram prender os apóstolos, colocando-os numa prisão pública” (At 5.17,18). E
em Atos 13.45, os judeus também tentaram minar o ministério de Paulo, por conta da inveja: “Quando
os judeus viram a multidão, ficaram cheios de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo estava
dizendo”.
Aquilo que Tiago está dizendo aqui é muito sério. Pois da forma que ele, por intermédio do Espírito
de Deus, vê as lutas e guerras é como resultado dos ciúmes, inveja e cobiça, que podem em última
instância gerar morte, e mais destruição. E podia até ser que aqueles irmãos não tivessem chegado
àquele ponto, mas isso não quer dizer que não chegariam. Em outras palavras, algo verbal poderia se
tornar físico.
“Não conseguem obter o que desejam”. Novamente, percebemos que pedir mal não surte efeito.
Deus não atende orações que não têm a glória dele com seu principal objetivo.
“Vocês vivem a lutar e a fazer guerras” (v. 2). Essa frase repete e enfatiza o fato de que a inveja
produz a frustração que pode provocar violência.
“Não têm, porque não pedem” (v. 2). Quando Deus não responde à oração dos seus filhos, a
tendência ganha fôlego para não orar. Não parece fazer diferença alguma. Mas a lógica não deve
levar alguém a parar de orar, mas a indagar porque Deus não está respondendo! Existem muitos
motivos legítimos para orar. Lastimável é parar de orar porque Deus não responde, quando, de fato, o
motivo do silêncio de Deus são os pedidos errados (v. 3). Se Deus respondesse positivamente, ele
providenciaria meios para o cristão pecar. Oração endossada por Deus sempre tem de ter a mesma
justificação com a qual Jesus condicionou sua oração no Jardim de Getsêmani: “Seja feita a tua
vontade”! Orações egoístas não movem a mão de Deus.
“Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”
(v. 3). Gastar (gr. dapanesete, “gastar sem preocupação”) tem a conotação de “esbanjar” como o filho
pródigo que “desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente. Gastar em seus prazeres
(hedonais) especificamente aponta para a motivação da oração dos membros carnais da igreja.
“Adúlteros” (gr. moichalides, “adúlteras”, palavra feminina, v. 4) relembra vários trechos do AT que
usam essa palavra metafórica matrimonial (cf. Is 54.1-6 e Jr 2.2; 3.20) para descrever a apostasia
espiritual, especialmente a idolatria. O adultério da igreja significa amizade (philia) com o mundo. O
mundo que os cristãos gostam porque fornece todos os prazeres daqueles que buscam essas fontes
de satisfação. Bem disse Soren Kierkegaard: “No dia que o cristianismo e o mundo se tornarem
amigos, o cristianismo deixará de exis- • » tir .
Todo o mundo jaz no maligno, segundo o apóstolo João (ljo 5.19). Satanás é o deus deste século
(aion) (2Co 4.4) e cega o entendimento dos incrédulos “para que não vejam a luz do evangelho da
glória de Cristo”. Quando João diz que “Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito,
para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” refere-se ao mundo dos homens.
São eles que, por causa da cegueira satânica, não podem enxergar a glória de Cristo como o eterno
Filho de Deus.
Há várias tentações que surgem do mundo. 1) A distração de valorizar o temporário em lugar do
eterno (ICo 7.32,33). 2) A cobiça dos olhos e a ostentação dos bens “não provém do Pai, mas do
mundo” (ljo 2.16b). 3) Há a tentação de ter mais até o ponto de ganhar o mundo inteiro e perder a
alma (Mt 16.26; Lc 9.25). O mundo produz uma segurança falsa como Jesus mostrou na parábola do
“tolo” que continuou levantando mais galpões para estocar os seus bens até concluir que tinha o
suficiente. Só que, naquela mesma noite, o Senhor exigiria sua vida (Lc 12.19-21). Jesus correta-
mente identificou a realidade humana quando declarou que: “Pois onde estiver o seu tesouro, aí
também estará o seu coração” (Mt 6.21).
O mundanismo seria outra maneira de falar da secularização. É um deísmo na prática. “Como foi
nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. [...] comendo e bebendo, casando-
se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca” (Mt 24.37-39).
Na parábola que Jesus contou sobre o rico e Lázaro, notamos
o mundanismo do rico. Nada de errado; nada de bom, simplesmente o homem vivia absorvido com o
mundo, ignorando completamente a Deus. Paulo escreve para Tito que a graça que se manifestou
salvadora a todos os homens os ensina a negar paixões mundanas (seculares, gr. aiones) para viver
uma vida sensata, justa e piedosa (Tito 2.11,12). João confirma que o amor pelo mundo (não dos
homens, mas dos valores e prazeres) é totalmente incompatível com o amor pelo Senhor (ljo 2.15).
Os perigos do mundo são múltiplos. Há o perigo de seguir a multidão para fazer o que é errado
(Ex 23.2) e de imitar os pagãos (Dt 12.30). Tal como os incrédulos seguem o “curso” (aion) deste
mundo (Ef 2.2), Demas amou o presente século {aion). Há o imenso perigo de buscar a glória do
mundo no atletismo, empilhar dinheiro, e buscar a fama no mundo político, mas se esquecer que a
glória deve ser o verdadeiro valor que somente Deus pode conceder (Jo 5.44).
Esses três primeiros versículos nos ensinam algumas lições práticas. Primeiro, é possível que
experimentemos problemas em nossas igrejas. Apesar de a igreja ser a comunidade dos santos, dos
salvos em Cristo, seus membros estão em um processo de santificação, de separação, de mudança
dos valores antigos, para abraçar novos valores. E é exatamente isso que Tiago está fazendo. Ele,
por intermédio do Espírito Santo, está nos dizendo que não podemos fazer vistas grossas para o fato
de que disputas, guerras e contentas que existem em nosso meio, são coisas que não pertencem aos
filhos de Deus.
Esses problemas têm sua origem na nossa natureza caída e corrompida. Nosso desejo carnal é
de saciar o insaciável, de nutrir um estômago igual a um abismo sem fundo. Esses prazeres são fruto
da cobiça e da inveja, e os seus filhos são a destruição e o vazio. Sim, teremos problemas na nossa
igreja local, mas isso não quer dizer que estes sejam fruto da vontade de Deus, muito ao contrário,
são frutos do nosso próprio pecado.
Obviamente, o fato de afirmar que teremos problemas por sermos falhos e sujeitos à queda não
significa de maneira alguma que isso seja justificativa para nossas falhas, nem que devemos nos
contentar com esse fato. Temos que abandonar o egoísmo e a cobiça que busca sempre satisfazer
seus próprios prazeres.
Não se pode fazer vistas grossas para o pecado, mas é necessário confrontá-lo com a verdade,
em amor. É preciso reconhecer que ele está presente, porque ele está em nós, mas, ao mesmo
tempo, temos de buscar a todo o custo extirpá-lo do nosso meio. E, para que isso aconteça, temos
que ser sinceros com nós mesmos. Por isso, o arrependimento, o perdão e o amor precisam ser
dosados com muita sabedoria, como Tiago nos lembra.
Segundo, é importante também se questionar: o que vamos (ázer diante das nossas contendas?
Ou parafraseando Tiago: vocês não sabem que as brigas e as discórdias que existem entre vocês são
Iruto das suas próprias paixões pecaminosas, de desejos vãos, contrários à vontade de Deus? Então
o que vocês vão fazer a respeito disso? Vão matar uns aos outros com palavras mais cortantes que
espadas? Vão brigar da mesma forma que as torcidas organizadas o fazem? Ou escolherão orar e
pedir sabiamente, sem motivos egoístas nem interesseiros clamando pela vontade do Pai?
A pergunta não é se existe um problema, porque problemas sempre teremos, mas como é que
vamos agir diante do problema? Carnal ou espiritualmente? Não existe igreja perfeita, mas, ao mes-
mo tempo, não podemos permitir que vivamos, como igreja, na imperfeição total, pois isso significaria
morte certa, espiritualmente falando.
O alvo precisa então ser uma igreja imperfeita, mas que esteja à busca da perfeição.
Reconhecemos que falhamos e falharemos, mas persistiremos para que, a cada dia, o pecado seja
menos evidente em nosso meio. E, por conta disso, confrontaremos sempre o pecado. Não porque
somos legalistas nem moralistas, mas porque amamos uns aos outros. E por conta desse amor,
sabemos o quão devastador é a cobiça na vida de um irmão e da igreja. A inveja é destruidora da
comunhão e, por amor ao Senhor, lutaremos para eliminá-la do nosso meio. Pois essas coisas só
tendem a nos consumir e destruir, e jamais a edificar.
Terceiro, a oração deverá ser uma arma a ser utilizada a todo instante. Se não somos atendidos
quando pedimos por motivos errados, certamente o seremos quando nosso pedido for motivado pela
vontade do Senhor. Nesse contexto, então, por que não pedir para que sejamos uma igreja cada vez
mais protegida contra todo tipo de contenda e brigas e guerras? Será que essa não é a vontade de
Jesus para sua igreja? Não foi Jesus que orou pedindo, antes de sua partida, para que todos nós
fossemos um, como o Pai e ele são um, para que assim o mundo acreditasse que o Pai o tinha
enviado (Jo 17.20)? Nao foi Jesus também que disse que um reino que luta contra si mesmo se
dividiria? Pois todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto, e toda cidade ou casa dividida
contra si mesma não subsistirá (Mt 12.25ss)? Por isso, nada melhor do que orar segundo sua
vontade. E sua vontade é que como membros do Corpo de Cristo, sejamos sempre um.
Os PERIGOS DA AMIZADE COM O MUNDO 4.4-6
No final do século passado, Karl Barth, grande pensador neo- ortodoxo, afirmou que para a igreja
ser relevante, os seus líderes teriam que estar com a Bíblia e o jornal abertos sobre sua mesa. A ideia
de Barth é que só poderemos ser biblicamente relevantes para nossa geração à medida que
compreendermos nossa cultura. Para entendermos nossa cultura, temos que estar dispostos a ouvir o
que ela nos diz, e permitir que ela nos informe à respeito do texto que lemos.
Até certo ponto, Barth estava certo. É necessário ser relevante, principalmente quando se abre a
Bíblia e se percebe que existe todo um universo de distância cultural entre os povos que ali são apre-
sentados com nossa própria cultura. Se não conseguirmos encurtar essa distância, podemos nos
tornar irrelevantes na transmissão da sua mensagem. Por outro lado, Barth foi longe demais, fazendo
com que sua cultura prevalecesse sobre a mensagem da Bíblia. Ele acabou importando ideais da
cultura do mundo moderno para dentro da cultura bíblica, e assim sua teologia se tornou distorcida
demais, partindo para caminhos extremos e abraçando o liberalismo de sua época.
John Stott, renomado pastor britânico, reconhecendo a importância do tema, publicou um livro
sugerindo a necessidade do cristão ser contemporâneo. Para tanto, segundo Stott, o cristão precisa
“ouvir o Espírito e ouvir o mundo”. Temos que concordar o quão importante é conhecermos o mundo
para o qual ministramos para que possamos comunicar a verdade da Palavra de forma que alcance a
cada nova geração. Por outro lado, é sempre preciso muito cuidado. Conversando com dois
seminaristas, mencionei que o livro que um deles tinha sobre sua mesa não traria muita edificação,
por ser de teor bem liberal. Sua resposta, que se tornou comum nos dias de hoje, foi: “É eu sei. E
estou lendo porque eu preciso conhecer o que eles pensam”.
Será que “precisamos” conhecer mesmo? É preciso experimentar todos os tipos de religiões para
se ter certeza qual é a correta? E preciso passar por todo tipo de dor para saber que é ruim? É
preciso experimentar a droga para saber que não é boa para nosso corpo? Não é preciso flertar com
o mundo nem coisas as coisas do mundo para poder opinar sobre elas. Pois quando o fazemos,
corremos um grande risco de entrar em um processo de amizade com o mundo.
Principalmente porque sabemos que amizade com o mundo, para Deus, é sinônimo de inimizade
com ele. “Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus”, afirma Tiago. Além do mais, essa
amizade se torna inimizade para com Deus por que o inimigo de Deus é o Diabo. E sendo ele o deus
deste mundo {aion), como já vimos, se comportar com as atitudes e ambições do Diabo quer dizer ser
inimigo de Deus também. Jesus dialogou com os judeus: “Todo aquele que vive pecando é escravo
do pecado” (Jo 8.34). “Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele.
[...] Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).
“Ou vocês acham que é sem razão que a Escritura diz que o Espírito que ele fez habitar em nós
tem fortes ciúmes?” Essa maneira de entender esse texto no original pressupõe que o Espírito seja o
Espírito Santo. Ele certamente não fomenta inveja nos indivíduos no quais ele habita. Buscar a
amizade do mundo é o mesmo que viver debaixo da sua influência, dependência e segurança como
se isso fosse o mais importante de tudo. Esse tipo de namoro com o mundo, esse andar de mãos
dadas, não é apenas perigoso, mas é fatal, pois a infidelidade leva à apostasia. Nenhum marido ou
esposa se contentaria com menos do que exclusividade total em seu relacionamento conjugal. Assim,
Deus jamais tolerará qualquer tipo de divisão entre ele e o mundo. Pois Deus é “ciumento” quando se
trata de sua “esposa” ou “noiva”, a igreja.
E, por conta dessa amizade, Deus pode nos considerar adúlteros. Por que Tiago usaria da
linguagem de adultério nesse contexto? Primeiro, porque o povo de Deus é, de fato, como uma
esposa para o Senhor. Em Isaías 54.4-6, o profeta diz o seguinte: “ ‘Não tenha medo; você não
sofrerá vergonha. Não tema o constrangimento; você não será humilhada. Você esquecerá a
vergonha de sua juventude e não se lembrará mais da humilhação de sua viuvez. Pois o seu Criador
é o seu marido, o Senhor dos Exércitos é o seu nome, o Santo de Israel é seu Redentor; ele é
chamado o Deus de toda a terra. O Senhor chamará você de volta como se você fosse uma mulher
abandonada e aflita de espírito, uma mulher que se casou nova apenas para ser rejeitada, diz o seu
Deus.” No NT, Paulo afirma que o povo de Deus, que é a igreja, é sua noiva e esposa de Cristo
também. Falando sobre a igreja em 2Coríntios 11.2, o apos- tolo afirma: “O zelo que tenho por vocês
é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apre- sentá-los a ele
como uma virgem pura”.
Como o grego não faz distinção entre letras maiúsculas ou minúsculas, é possível também que
Tiago tenha feito referência a Gênesis 2.7, em que o espírito seria o “espírito de vida” soprado por
Deus. A versão atualizada, a NVI e muitas outras optam para a maiúscula, portanto o Espírito Santo.
Parece mais do que estranho atribuir “fortes ciúmes” (gr. phthonos que em Tg 3.13—4.3 sempre
denota uma atitude pecaminosa) a Deus. Ambas das opções são quase igualmente possíveis. (Veja o
comentário de D. Moo, op.cit. p. 144).
Deus “nos concede graça maior” (v.6) para vencer qualquer espírito pecaminoso, ou para nos
encorajar a resistir à carnalidade que herdamos de Adão. Essa graça provavelmente não seria a
salvadora, mas aquela que nos fortalece diante dos fortes desejos que contrariam o Espírito que
habita em nós. Pedro também chama atenção à graça que Deus concede aos humildes (1 Pe 5.5). J.
B. Phillips, Cartas às igrejas novas traduz o versículo 6, dando o sentido de que Deus “dá-nos a graça
suficiente para enfrentarmos esse outro espírito que é mau”. O que Tiago quer dizer é que existe
esperança para todos que estiverem dispostos a reconhecer em que pontos têm “jantado” com o
inimigo, para reconhecer em que áreas da vida têm sido alimentadas pelos valores do mundo. E
graça para reconhecer e se arrepender.
Em seguida, Tiago cita Provérbios 3.34 (LXX). “Ele [Deus] zomba dos zombadores,
\huperephanos, lit. alguém que se mostra acima dos outros], mas concede graça aos humildes”. Um
espírito de soberba e egoísmo é oposto a tudo o que Deus quer criar em seus filhos. “Nada façam por
ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos”
(Fp
2.3) . O Filho de Deus se esvaziou a si mesmo, vindo a ser servo {doulos, “escravo”). Todos nós
estamos familiarizados com a história de Jesus na noite em que foi traído. Lavou os pés dos
discípulos, mostrando assim, uma humildade que os censurou e humilhou. Como será que o Pai
valorizaria qualquer dos seus filhos que se exaltasse e se tornasse arrogante?
C. S. Lewis observou corretamente: “Um homem nunca é tão orgulhoso como quando adota
conscientemente uma atitude de humildade” (Sete pecados capitais, op.cit. p. 64). Ser orgulhoso de
sua humildade é uma tentação dos que se enganam a si mesmos. Tomás à Kempis escreveu há
quase 500 anos atrás: “Por meio da humildade me mostrarás o que sou, o que fui e de onde vim, pois
não sou coisa alguma e não o sabia. Se me abandonares, não sou nada, e tudo é fraqueza e
imperfeição; mas tão logo me restauras, mesmo que pouco, me farás forte e estarei cheio de nova
alegria. É grande maravilha que eu, um miserável, seja tão rapidamente levantado de minha
instabilidade na contemplação de coisas celestiais e seja sustentado com tanto amor, eu que, por mim
mesmo, sempre me inclino para as atrações mundanas. Isso é obra do teu amor, ó Senhor, teu amor
que vai adiante de mim e me ajuda em iodas as minhas necessidades e me protege carinhosamente
de todos os males e perigos nos quais me encontro diariamente propenso a tropeçar” (Imitação de
Cristo, Shedd Publicações, 2001).
A graça que Maria recebeu em Lucas 1.28 foi bem explicada pelo Professor Gerald Bray. “Nele
Gabriel descreve Maria com o termo ‘agraciada’, essa versão da palavra grega kecharitamene possui
a clara intenção de desbancar a expressão latina, encontrada na Vulgata, muito conhecida
Çgratiaplena ), usada para apoiar as declarações mais extravagantes a respeito de Maria. Não
necessitamos discutir com Jerônimo sobre sua tradução pelo fato de o latim ser menos sutil que o
grego, além da menor quantidade de expressões. Também podemos reconhecer, do lado protestante,
que a palavra ‘agraciada (icharis, graça, faz parte de kecharistamene) poderia dar a impressão de ela
ter sido coberta com uma fina camada de algo designado ‘graça’, ou mesmo que ela tenha sido
perdoada por alguma coisa que jamais realizou. Apesar disso, existe uma dificuldade real com a
expressão gratia plena que não se pode ignorar. A teologia católica considerou a Vulgata em pé de
igualdade com os textos originais para a resolução de questões doutrinárias, usou-a para apoiar a im-
pecabilidade de Maria desde seu nascimento; sua posição de corre- dentora da raça humana e até de
comediadora no céu. Todavia, é impossível interpretar o adjetivo kecharitomene nesse sentido. Maria
foi um receptáculo de graça, não sua despenseira em potencial. O contexto esclarece o recebimento
da graça de Deus para cumprir um propósito particular — dar à luz um filho. Inexiste a sugestão de
que o favor divino a eximiria da necessidade de ser salva, ou que isso a colocaria no nível de quase
igualdade com o Salvador em relação ao mundo!” (Quem é Jesus, Shedd Publicações, 2008, pp.
27,28). Maria humildemente aceitou a escolha divina, uma operação graciosa em sua vida. Os
humildes que assim agirem são galardoados com “graça maior” (v. 6).
OS MANDAMENTOS DA PIEDADE — 4.7-IO
Tiago menciona, de passagem, os demônios no capítulo 2.19, no contexto de fé, dizendo que eles
creem e até tremem. No capítulo 3.6, ele fala sobre o inferno, de onde é a origem do fogo que arruí-
na, tudo causado pela língua. Em 3.15, Tiago fala da origem demoníaca da sabedoria desse mundo.
Depois, fala em 4.4, do próprio mundo e do problema tão sério de inimizade com Deus que é o
resultado da amizade com o mundo. Agora Tiago chega ao ponto central da origem do mal, o próprio
Diabo. “Portanto, submetam- se a Deus. Resistam o Diabo, e ele fugirá de vocês.”
É impressionante perceber as mais diversas reações que as pessoas têm com relação ao Diabo.
Ela vai desde não acreditar na sua existência, não passando de um personagem mitológico, ao fruto
da imaginação e criatividade de alguns. No concilio de um seminarista, foi perguntado se ele
acreditava na existência do Diabo. Confiante e sem vacilar, respondeu com um retumbante não! Ao
que o examinador retrucou: “Bem, nesse caso, podemos encerrar o concilio, porque seria um
desperdício permitir a ordenação de alguém que não durará mais de um mês no ministério pastoral”.
Nos primeiros séculos da era cristã, as pessoas que estavam prestes a serem batizadas
confessavam em voz alta não apenas sua fé em Jesus Cristo, como também sua renúncia ao Diabo.
O Diabo existe, e recusar essa verdade é tudo o que ele quer para levar vantagem.
Mas para que não sejamos presas fáceis do inimigo, Tiago nos apresenta estratégias muito
práticas de como lidar com o Diabo, e como devemos agir para termos uma vida piedosa.
O primeiro passo é a submissão a Deus. O favor que Deus concede aos humildes se concentra
principalmente em se submeter alegremente a Deus (Tg 4.7). A oposição que Deus levanta contra os
orgulhosos se mostra nas atitudes daqueles que, como os israelitas no deserto, queixaram-se e
murmuraram. Trouxeram a ira divina contra sua rebelião e não entraram no descanso de Deus (Hb
3.8-11).
Submissão a Deus é a porta de entrada para a paz e felicidade. Ele é o Pai amoroso, conhecendo
perfeitamente o que será o melhor para os seus filhos. Quando ele manda sofrimento e dor,
perseguição e perda, temos de entender que “o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele
a quem aceita como filho” (Pv 3.11,12 citado em Hb 12.6).
Submeter-se ou sujeitar-se a Deus é estar debaixo da sua autoridade, e seguir as suas direções,
as suas ordens, sua Palavra. E ter ouvidos para sua voz que é Cristo, o verbo encarnado. Creio que
muitos se submetem a Deus, seguem as suas direções e instruções mais ou menos como pegam e
seguem direções de como chegar a um lugar. Primeiro, já partem do pressuposto que sabem como
chegar antes mesmo de ter saído, sem sequer ter estado no lugar antes. Ou se já estiveram, acham
que seu conhecimento passado já é suficiente para os levar ao destino final. Segundo, quando ou-
vem, não prestam atenção. A tendência assim é se perder ao longo do caminho. Terceiro, quando
prestam atenção, não ouvem. Daí, fazem aquilo que acham ser melhor.
E quando se pensa em submissão a Deus, muitas vezes a ideia é fazer o que bem entende para
depois orar pedindo que Deus abençoe aquele empreendimento. No entanto, submissão é
exatamente o oposto disso. É estar completamente dependente de Deus em tudo nessa vida, de tal
forma que nada é feito sem antes consultar sua Palavra, e ouvir dele a orientação. Pois quem assim
age crê que sua vontade é boa, perfeita e agradável (Rm 12.2). Por essa razão que o se submeter
não é um peso, mas uma grande alegria e prazer.
Segundo, “resistam ao Diabo, e ele fugirá de vocês” (v. 7b). Tanto Jesus como o apóstolo Pedro
recomendaram que a resistência ao Diabo requer vigilância e oração. Mesmo sendo posicionada em
Cristo, nossa condição requer revestir-se de toda a armadura de Deus (Ef 6.10-18) e resistir ao Diabo
(Tg 4.7; lPe 5.7,8). Aquele cristão que dá lugar ao Diabo (Ef 4.27), em vez de resisti-lo, poderá
facilmente ser derrotado. Por outro lado, a instrução bíblica depende do todo-poderoso braço do
Senhor. Firmada nas promessas de Deus, uma pessoa que resiste ao Diabo tem a possibilidade de
provocar sua fuga.
James Fraser, missionário da Missão para o Interior da China, cerca de cem anos atrás, labutando
entre as tribos do norte de Laos, depois de sofrer alguns ataques satânicos, escreveu o seguinte:
“Descobri que muito do ensinamento espiritual que se escuta por aí parece não funcionar. De
qualquer forma, a minha apreensão de outros aspectos da verdade tinha falhado. O lado passivo de
deixar tudo nas mãos do Senhor Jesus, como fiz em minha vida, mesmo sendo abençoadamente
verdadeiro, não era tudo que precisava nesse encontro. Resistência, definida na base da cruz, foi o
que trouxe luz. Senti-me como um homem morrendo de sede, para quem água fresca e transparente
tinha começado a fluir. Descobri que funcionava. A nuvem de depressão desapareceu. Descobri que
podia alcançar a vitória no mundo espiritual em qualquer hora que quisesse. O Senhor mesmo disse:
‘Retire-se, Satanás!’. Em dependência humilde do Senhor, fiz o mesmo, falando com Satanás, usando
as promessas das Escrituras como armas. E funcionou. Nesse exato momento a terrível opressão
começou a passar. Tinha que aprender aos poucos como usar esta novel arma de resistência” (Mrs.
Howard Taylor, Behind the Ranges [Atrás das cordilheiras], 1964, pp. 119,120).
Se não nos submetermos a Deus, como poderemos resistir ao Diabo, para que ele fuja de nós? A
resposta é a seguinte: não poderemos de forma alguma! Pois seria como tentar equilibrar uma
pirâmide de cabeça para baixo, impossível. Um episódio bem conhecido, que chega a ser irônico, na
passagem do apóstolo Paulo por Éfeso, ilustra bem isso. Em Atos 19, Paulo chega à cidade de Éfeso.
Durante três meses, ele ensinou a respeito do Reino. Lucas, o autor da carta, relata que Deus fazia
milagres extraordinários por meio de Paulo, de modo que enfermos eram curados das suas doenças,
e os espíritos malignos saiam deles.
Mas alguns judeus, que não tinham nada que ver com Deus, os chamados exorcistas da
antiguidade, tentaram invocar o nome de Jesus sobre os endemoninhados. Eles acharam que
poderiam reproduzir aquilo que Deus estava fazendo por intermédio de Paulo, como um passe de
mágica. Eles disseram: “Em nome de Jesus, . 1 i|iirm Paulo prega, eu lhes ordeno que saiam!” (At
19.13). Para a surpresa, e lição para eles e todos os que presenciaram o ocorrido, os demônios
retrucaram de forma irônica: “Jesus, eu conheço, Paulo, eu sei quem é, mas vocês, quem são?”. Em
seguida, o endemo- ninhado saltou sobre eles (sete homens) e os dominou, espancando-os com
tamanha violência que eles fugiram da casa nus e feridos (At 19.16). Não é uma questão de mágica,
mas devida, dependência, obediência total, ou seja, de submissão a Deus. Sem isso, não podemos
resistir ao Diabo.
O nome Diabo é a tradução direta da LXX, versão grega do AT, da palavra “Satanás”, que significa
adversário. Isso quer dizer que o Diabo é o adversário de Deus. Por conta disso, ele fará de tudo para
que aqueles que são inimigos de Deus, aqueles que não entregaram sua vida em submissão a Jesus,
continuem no mesmo estado, sendo adversários de Deus, como Tiago mesmo disse no versículo 4.
Ao mesmo tempo, intentará contra os servos submissos para que se desviem do seu propósito de
sujeição a Deus.
Como o apóstolo Pedro mesmo disse: “Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês,
anda ao redor como leão, rugin- do e procurando a quem possa devorar” (lPe 5.8). Apesar de agir
assustadoramente como um leão prestes a devorar sua vítima, a Palavra de Deus deixa claro que ele
é um adversário para ser resistido.
Resistir ao Diabo é manter-se firme ou opor-se a ele. Tiago admite que o Diabo tenha sua parcela
de culpa em nossas quedas, mas temos que nos manter firmes. Se resistirmos, ele fugirá de nós. Ele
é poderoso, mas fomos capacitados para resistir aos seus ataques em Jesus. Quando resistimos ao
Diabo — ao poder da sua sedução
— acontecerá conosco o mesmo que aconteceu com Jesus quando ele foi tentado no deserto no
início do seu ministério. Os evangelistas Mateus e Lucas nos informam que o Diabo o deixou. Ainda
que, como Lucas acrescentou, ele tenha deixado Jesus, até o tempo oportuno (4.13).
Com isso, entendemos que o resistir é um ato necessariamente contínuo e diário. Resistência
passada, não é garantia de resistência futura. Nossa única garantia aqui é que, se continuarmos nos
submetendo a Deus e resistindo ao Diabo, este fugirá de nós.
Terceiro, “aproximem-se de Deus” (v. 8) põe em palavras a gloriosa verdade de que aqueles que
buscam a Deus o encontrarão. Pela adoração verdadeira, em Espírito e em verdade, um pecador
lavado no sangue purificador de Jesus Cristo se acercará do único Deus vivo (veja Êx 19.22 em que
os sacerdotes que se aproximam do Senhor devem se consagrar para não ser fulminados). Além de
convidar aos cansados e sobrecarregados a vir para ele, Jesus proclamou que ninguém pode chegar
ao Pai senão por ele (Jo 14.6). Essa declaração serve também de convite para nós achegarmos até
ele em confiança e com a certeza de que ele não lançará fora ninguém (Jo 6.37). O autor de Hebreus
disse: “Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé,
tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada, e tendo os nossos
corpos lavados com água pura” (10.22). Tanto o autor de Hebreus como Tiago reconhecem o
extraordinário privilégio de aproximar-se de Deus na adoração. Os sacrifícios que ele aguarda de nós
são: nosso corpo (Romanos 12.1), as pessoas que estamos orientando no discipulado (Rm 15.16),
nossas ofertas missionárias (Fp 4.18), uma oferta contínua de um sacrifício de louvor e finalmente o
sacrifício de repartir nossos bens com os outros (Hb 13.15,16). São esses cinco sacrifícios que o
Novo Testamento ordena no lugar das ofertas sangrentas que eram depositadas no altar localizado
em frente do templo em Jerusalém.
Quando Moisés estava pastoreando o rebanho do seu sogro no monte Horebe e se deparou com
aquela imagem de uma sarça em chamas que não era consumida pelo fogo, ele se impressionou.
Imediatamente resolveu chegar mais perto para averiguar o que estava acontecendo. Em Êxodo 3.4 e
versículos seguintes, o texto diz o seguinte: “O Senhor viu que ele se aproximava para observar. E
então, do meio da sarça Deus o chamou: ‘Moisés, Moisés!’ ‘Eis-me aqui’, respondeu ele. Então disse
Deus: ‘Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra santa’ ”.
No passado, éramos proibidos da aproximação a Deus, mas agora por intermédio de Jesus, do
seu sacrifício, não somente temos livre acesso pela mediação de Jesus, como também o Senhor
espera que estejamos próximos dele.
Tiago promete que Deus se “aproximará de vocês”, isto é, que a adoração verdadeira será
galardoada pela sua própria presença. Essa é adoração que ele procura dos seus filhos (Jo 4.23). A
tais filhos ele concede: 1) sua graça (v. 6); 2) sua presença (v. 8); e 3) sua alegria espiritual (lPe 1.8).
Esse é um lembrete crucial para todos, quando as coisas não estiverem indo muito bem. Quando a
resistência não estiver muito firme, não se pode desistir, mas é necessário se aproximar ainda mais
dele.
Quantas pessoas, travando lutas espirituais terríveis em sua vida, quase chegaram ao ponto de
achar que não valia mais a pena continuar lutando? Algumas, até mesmo, estavam prontas a se
distanciar de Deus e do seu povo por completo. Vez após vez, o Diabo tentará lançar o engano, o
desânimo, a mentira. Ele tentará persuadir os discípulos de Jesus para que fujam e abandonem a
igreja e o Senhor. Que tremendo engano? E exatamente o oposto que Deus nos exorta a fazer.
Quando as dificuldades vierem, é necessário que nos aproximemos mais ainda de Deus, pois a
garantia que temos é que ele também se aproximará de nós.
Quarto, “pecadores, limpem as mãos” (v. 8b), ou seja, tornem sua conduta pura e irrepreensível. A
prática dos judeus de limpar as mãos antes de cumprirem seus deveres religiosos era comum (Mc
7.3) . Agora, figuradamente, o autor nos confronta com a importância de manter nossa vida livre da
sujeira do pecado. Esse preparo para adorar por intermédio de um arrependimento sincero
corresponde ao preparo que os judeus praticavam para se aproximar de Deus.
Enquanto a bacia de bronze no tabernáculo deu oportunidade para Aião e seus filhos lavar as
mãos e os pés com a água da bacia (Êx 30.19,20) “para que não morram” (w. 20,21), purificar as
mãos, espiritualmente, tem elevada importância na busca pela santidade.
Por isso, lavar aqui se torna simbólico de mudança de comportamento com vistas para a adoração. E
abrir mão dos nossos comportamentos pecaminosos para que possamos adorar a Deus em Espírito e
em verdade.
Quinto, “vocês, que têm a mente dividida [gr. dipsuchos, lit. de duas almas], purifiquem o coração”
(v. 8c). A condenação da hipocrisia (a BLH traduz “coração dividido” como “hipócritas”), ou “espírito
vacilante” (Isaltino G. Coelho Filho, op.cit. p. 113) corresponde à denúncia dos leitores como
“pecadores” na frase anterior. Tiago está pensando nos cristãos que perderam seu primeiro amor
(como os efésios em Apocalipse 2) ou os cristãos mornos de Laodiceia que orgulhosamente se
achavam ricos, por adquirir riquezas e não precisarem de nada (Ap 3.17). Essa linguagem demanda
um autoe-xame. Será que os leitores são genuinamente nascidos pelo Espírito Santo? De qualquer
forma, um arrependimento sincero dos pecados e atitudes apresentados em Tiago 3-13—4.3 são
essenciais para eles se aproximarem de Deus. Arrependimento, necessário para o pecador que toma
o primeiro passo na vida cristã (At 2.38), mas é também essencial para tomar passos de fé para longe
dos hábitos da carnali- dade (Lc 13-5).
Aquele que tem a mente dividida é aquele que talvez tenha grande vontade de seguir Jesus, mas,
ao mesmo tempo, não tem coragem nem está disposto a abandonar os princípios do mundo para
abraçar os valores de Deus. Ele acha que pode ser amigo de Deus e do mundo ao mesmo tempo. Ele
acha que pode ter sua lealdade dividida entre Jesus e o dinheiro, servir seu prazer e Deus, ser leal ao
mundo e a sociedades secretas, como a maçonaria. Isso é impossível. Por isso, Paulo diz em
Romanos 6.8-14: “Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Pois
sabemos que, tendo sido ressuscitado dos mortos, Cristo não pode morrer outra vez: a morte não tem
mais domínio sobre ele. Porque morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas; mas
vivendo, vive para Deus. Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para
Deus em Cristo Jesus. Portanto, não permitam que o pecado continue dominando os seus corpos
mortais, fazendo que vocês obedeçam aos seus desejos. Não ofereçam os membros do corpo de
vocês ao pecado, como instrumentos de injustiça; antes ofereçam-se a Deus como quem voltou da
morte para a vida; e ofereçam os membros do corpo de vocês a ele, como instrumentos de justiça.
Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da Lei, mas debaixo da graça”.
Sexto, “entristeçam-se, lamentem-se e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por
tristeza” (v. 9), mostra que Tiago está esperando um quebrantamento que precede um avivamento.
Erlo Stege, missionário entre os Zulus, na África do Sul, conta sua experiência em Mapumulo em
1966. O chefe dos correios e o chefe da polícia estavam no lado de fora do local de oração. Decidiu
fechar as janelas para não ser tachado de “louco”. Em suas próprias palavras: “Levantei-me e,
quando fechava a primeira janela, ouvi algo. Era como se alguém me dissesse: ‘Está certo, feche a
janela e eu ficarei de fora, e você do lado de dentro, e eu não poderei entrar’. [...] Eu sabia que não
era a janela que deixava Deus do lado de fora, mas, o meu orgulho. Pela primeira vez na minha vida
percebi que o Espírito de Deus é Santo. Não havia me conscientizado disso. Centenas, talvez
milhares de vezes, eu mencionara o Espírito Santo em pregações, mas nunca me apercebera, nunca
me fora revelado, nunca vira antes a santidade do Espírito de Deus. Eu dizia Espírito ‘Santo’, mas
isso não significava nada para mim. [...] Pela primeira vez na minha vida eu estava consciente da
santidade do Espírito de Deus”, afirma o missionário Erlo.
“Ao mesmo tempo, Deus me mostrou um lampejo de quão odioso é o orgulho aos seus olhos.
Orgulho é um pecado hediondo. Eu vi algumas palavras escritas diante de meus olhos. Eram estas:
‘Deus resiste ao soberbo’. Então disse: ‘O quê? Eu não sabia disto’. Sempre pensei que era o Diabo
que tornava as coisas difíceis para mim e que me oferecia resistência. E agora a Bíblia dizia que
Deus é quem está resistindo a mim! O Espírito Santo começou a colocar o dedo em meus pecados,
um atrás do outro. Ele fez exatamente aquilo que está escrito em João 16: ‘ [...]convencerá o mundo
do pecado, da justiça e do juízo’. A primeira coisa que o Espírito faz quando desce sobre a vida de
uma pessoa é convencê-la de seu pecado. Há quebrantamento. As pessoas choram por causa dos
seus pecados. Elas ficam angustiadas, e não alegres. Deus desceu, seu Espírito está se movendo. As
pessoas em quem tal obra ocorre não estão cheias de riso, mas cheias de lágrimas; elas estão
chorando” (Avivamento na África do Sul, Editora Puritanos, São Paulo, 1997, PP. 51-55).
A experiência de Erlo Stegen em Mapumulo em 1966 foi precisamente o que Tiago pede a seus
leitores. A conseqüência desse avivamento foi tal que milhares de pessoas entre os Zulus e os Xosas
se converteram em uma semana e até houve casos em que milhares se converteram em um só dia. O
poder de Deus, que foi demonstrado tão espetacularmente no dia de Pentecoste em Jerusalém, foi
repetido entre os sul-africanos. Tiago exorta: “Troquem o riso por lamento e a alegria pro tristeza”
(katepheian, lit. “olhar para baixo”. Compare o caso do publicano na parábola de Lucas 18.13 que não
se sentiu digno de levantar os olhos para o céu.) Isso comunica a depressão que acompanha a
tristeza da vergonha. O que Deus espera é o arrependimento verdadeiro e genuíno.
Como Tiago afirmou, o Senhor é Deus zeloso. Ele não nos dividirá com o mundo nem com o
Diabo, por isso temos que nos limpar externa e internamente das motivações mundanas e seguir
somente a Jesus e seu Reino. Para que isso aconteça, precisamos nos arrepender de forma
verdadeira e apropriada, demonstrando sinais apropriados de lamento e choro, de tristeza e
humildade, marcas de um avivamento verdadeiro.
Jesus mesmo disse: “Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar” (Lc
6.25b). As pessoas hoje estão marcadas por uma alegria superficial, ignorando uma terrível realidade
do
i, ' /. .j a tj Ac m 1 ' 1 ;3

juízo de Deus. Contudo, se escorregamos e caímos não podemos ter uma atitude casual com relação
ao pecado nem muito menos com relação ao Diabo. E preciso buscar o arrependimento verdadeiro
para obter o perdão de Deus. Pois só arrependimento verdadeiro pode produzir a verdadeira alegria.
Em contrapartida, a falta de arrependimento verdadeiro é também a certeza para se abrir as portas
para a tristeza e dor, só que uma tristeza que não conduz à vida, mas à morte, como Paulo disse em
2Coríntios 7.10: “A tristeza segundo Deus não produz, remorso, mas sim um arrependimento que leva
à salvação, e a tristeza segundo o mundo produz morte”.
Sétimo, “humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará” (v. 10). Tiago volta ao início desse
apelo para os irmãos se aproximarem de Deus da única maneira que seja aceitável a ele. A desejada
exaltação tem uma condição — a humilhação. Sujeição ao Senhor, desistência da atitude de soberba
que resiste a submissão ao Senhor, é o passo essencial para se viver em comunhão com ele.
Humilhar-se significa reconhecer nossa própria pobreza espiritual, e assim admitir nossa
desesperadora necessidade de ajuda de Deus nos submetendo à sua vontade completa em todas as
áreas de nossa vida, como aconteceu com a história que Jesus contou sobre o fariseu e o publicano
(Lc 18.1 Os). Pois se assim procedermos, não nos exaltaremos, mas o Senhor futuramente exaltará
seus servos que se submetem alegremente a sua vontade. Essa exaltação será principalmente a
honra que Deus dará semelhante ao servo na parábola dos talentos. “ ‘Muito bem, servo bom e fiel!
Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’” (Mt
25.21,23).
JULGAR OS IRMÃOS É TOMAR O LUGAR DE DEUS — 4.11,12
“Não falem mal uns dos outros” tem o sentido no tempo presente do grego: “Parem de falar contra
seu irmão”! Palavras amargas dirigidas contra um irmão na fé contrariam o ensinamento de Jesus no
Sermão do Monte. “ ‘Não julguem, para que vocês não sejam julgados’ ” (Mt 7.1). As críticas, que
como dardos nas conversas da antiguidade, continuam nos contextos atuais, dentro e fora da igreja.
Elas não têm cabimento, porque julgar significa falar contra a Lei. Viola a lei real ou do Reino (2.8)
porque não se submete à lei do amor. Aquele que ama “o seu próximo como a si mesmo” evitará o
rebaixar de seu irmão com palavras amargas e cortantes.
“Fala contra a Lei” pelas suas críticas lançadas contra um irmão, uma vez que assim agindo anula
a Lei de amor. É possível que Tiago tivesse o texto de Levítico 19.16 em mente: “Não espalhem
calúnias entre o seu povo. Não se levantem contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor”, uma vez
que ele já havia mencionado Levítico 19.18, em 2.8, quando ele escreveu sobre a obediência a lei do
Reino que diz: “ame o seu próximo como a si mesmo”. Além disso, aquele que age assim julga a
própria Lei porque Deus é a única pessoa que tem o direito de julgar finalmente no dia do Juízo.
Foram tais julgamentos dos irmãos que Jesus condenou tão severamente. O réu corre o risco de ir
para o fogo do inferno (Mt 5.22). Julgar irmãos novamente expressa o orgulho do coração, tomando
sobre si o direito de Deus. Mostra a mais altiva arrogância e cria brechas na igreja e na família.
Certamente Tiago também tinha em mente aqui as palavras de Jesus quando enviara os doze
discípulos para anunciar o evangelho. Jesus disse: “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o
servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu
senhor. Se o dono da casa foi chamado Belzebu, quanto mais os membros da sua família!” (Mt
10.24,25).
Isso quer dizer que, segundo esse contexto, quando criticamos outras pessoas estamos
pronunciando nosso próprio veredicto sobre a espiritualidade e o destino eterno delas. Só que, na
verdade, é Deus quem pode emitir juízos perfeitos. Só ele tem a capacidade de determinar o destino
eterno de suas criaturas. Além do mais, essa atitude de condenação poderia ter surgido como fruto de
um espírito amargo e egoísta (3.13-18), que talvez tivesse originado de brigas no meio da igreja (4.1-
2).
Por outro lado, é também necessário dizer que isso não significa que não exista lugar na igreja
para que se emitam juízos com relação à vida dos seus membros. É importante entender o contexto
aqui para não cairmos no erro de generalizações vazias que não são bíblicas. A igreja é sim
responsável pelo cuidado da vida de seus membros, como vemos claramente em ICoríntios 5—6. Ali
Paulo demonstra claramente sua indignação, pois a igreja estava enfrentando problemas de ordem
moral, e não estava tomando nenhuma atitude apropriada para corrigir o engano.
As palavras de Paulo foram bem duras. Ele disse que a igreja nem deveria se associar com
irmãos que vivem em imoralidade, idolatria, avareza, roubalheira, alcoolismo e inclusive caluniando.
Pois é nosso dever julgar os irmãos da igreja (ICo 5.12), uma vez que Deus nos atribuirá a função de
julgar o mundo. E se vamos julgar o mundo, pergunta Paulo, como é que não temos condições de
julgar causas de menor importância dentro da igreja (ICo 6.2)? Em outras palavras, como é que
podemos deixar de cumprir nosso papel?
Se existe um pecado, temos que tratá-lo biblicamente. Por outro lado, a grande preocupação de
Tiago aqui é que o juízo feito entre os irmãos não tinha o propósito nem a motivação correta de
reparar um dano. Pelo contrário, falar mal dos outros e contra eles eram sinais de que estavam
causando danos. A critica não era construtiva, mas destrutiva, o que não cumpria a lei de Deus.
No entanto, já imaginou se para cada juízo que emitíssemos, em vez disso, orássemos por
aqueles que criticamos? Já pensou como tudo seria diferente? Por vezes, esquecemos que não cabe
à igreja separar o joio do trigo. Como observamos em Mateus 13.24-43, na parábola do joio e do trigo,
Jesus diz que o papel de separar o trigo, os filhos do Reino, do joio, os filhos do maligno, que estão
crescendo juntos não é do trigo, mas dos anjos de Deus. Mesmo que na igreja tenhamos filhos e
bastardos, nosso papel não é de separação, mas de compaixão, tolerância e amor. Deus, por inter-
médio dos seus anjos, fará a separação no dia certo. Esse papel é dele. O nosso é de cumprir sua
vontade, e sua vontade é que amemos uns aos outros assim como ele nos amou.
“Quando você julga a Lei, não a está cumprindo.” Julgar a Lei quer dizer que a desprezamos até o
ponto de decidir que não tem importância obedecer a ela. Toda vez que desobedecemos aos man-
damentos do Senhor, julgamos a Lei do Senhor indigna de nossa prática e observação. Por isso, a ira
de Deus se manifesta contra toda injustiça que suprime a verdade pela injustiça (Rm 1.18).
Um trecho que comunica um conceito semelhante ao de Tiago se encontra em Romanos 2.1:
“Portanto, você, que julga os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em
que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas”. Paulo ainda pergunta em Romanos
14.4: “Quem é você para julgar o servo alheio?”. A mensagem do Novo Testamento deve ficar cris-
talina — “Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz” (Tg
4.11b). Críticas e julgamentos dos irmãos cabem ao Autor da Lei e não pertence a nós o direito de
substituí-lo como Legislador e Juiz. “Há apenas um Legislador e Juiz” (v. 12), coloca o fundamento
seguro e imutável que a mensagem toda da Bíblia nos dá. O todo poderoso Criador do universo
— e tudo que nele há, fonte da vida e feitor do homem em sua imagem e semelhança, tem plenos
direitos de fazer o que quer.
Ao enfatizar que somente Deus tem o direito de julgar, Tiago focaliza duas verdades: atrás de
todas as leis justas humanas, tem de brilhar a lei divina do único Legislador. Quando os
representantes do povo em Brasília, Washington ou Luanda promulgam leis que contrariam a
revelada vontade do Legislador, temos direito de afirmar o que Pedro falou para o Sinédrio israelita:
“É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (At 5.29). A pena máxima que os juizes
humanos têm poder para aplicar seria a morte, porém, Deus tem o poder para “salvar e destruir” (v.
12b).
Com essa frase, nosso autor, repete o pensamento do Senhor em Mateus 10.28: “Não tenham
medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode
destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (gr. geenna). Tanto Jesus como Tiago desejam
relembrar seus leitores que o poder de salvar e destruir é infinitamente mais importante do que toda
decisão ou penalidade impostos por homens.
“Quem é você para julgar o seu próximo?” Para que isso ocorra, é preciso ser feito com toda
humildade, aconselhando-o a se submeter à Lei de Deus. Afinal de contas, é isso que Tiago faz nessa
carta geral às igrejas destinatárias. A inspiração das Escrituras (e dessa carta) nos garante que os
julgamentos de Tiago são infalíveis declarações da vontade do único Legislador e Juiz, cujas leis
serão a base para condenação ou absolvição no dia do Juízo final (Ap 20.11- 15).
A PRESUNÇÃO DOS RICOS E A INCOMPETÊNCIA EM PLANEJAR — 4.I3-I7
“Ao homem pertencem os planos do coração, mas do Senhor vem a resposta da língua. Todos os
caminhos do homem lhe parecem puros, mas o Senhor avalia o espírito” (Pv 17.1,2). Creio que nas
últimas décadas, mais do que em qualquer outra época da história da humanidade, temos vivido em
meio a uma enxurrada de livros, ideias, palestras, seminários, cursos e tantas outras técnicas que
visam unicamente propagar a necessidade de se planejar estrategicamente. Isto é claro, se é que
queremos realmente obter sucesso nos nossos empreendimentos. Alguns gurus da área
administrativa certamente chegariam ao extremo de dizer que sem planejamento estratégico é até
impossível sobreviver no mercado.
Aquilo que simplesmente era feito naturalmente até alguns anos atrás se tornou algo muito mais
organizado, programado e planejado com muita antecedência. Antes da década de 1990, as
empresas não se preocupavam muito em planejar, porque as coisas simplesmente aconteciam. Havia
uma grande estabilidade no mercado, a maioria das empresas não enfrentava muita concorrência, por
isso os lucros eram exorbitantes.
Hoje mudou, e muito. Sem competência, muitos diferenciais como preço, qualidade, e estratégias
bem definidas, não dá para sobreviver mais no mundo dos negócios. O planejamento virou a palavra
da moda, algo muito comum entre as pessoas. Não é apenas no contexto dos negócios, mas também
no dia a dia das famílias. Nós falamos agora em planejar um orçamento, planejamento familiar,
planejar a aposentadoria, e assim por diante.
Mas até que ponto o planejamento da nossa vida e dos nossos negócios pode ser prejudicial para
o cristão como Tiago parece indicar? “Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para
esta ou aquela cidade passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’.” Afinal de
contas, não é exatamente isso que a maioria de nós fala quando fazemos planos, a respeito de
alguma coisa que se refere ao trabalho, ao sustento?
Até esse ponto em sua carta, Tiago tem tratado principalmente das causas de desarmonia na
comunidade. Queixas, críticas e atitudes que são caracterizadas pelo mundanismo. Enquanto os po-
bres, sabendo que dependem de Deus pelo suprimento de suas necessidades, naturalmente suplicam
ao Senhor por aquilo que não têm, os ricos, por outro lado, vivem no luxo da falsa segurança.
Descansam em suas contas bancárias e poupança.
Acerca desse pequeno parágrafo, devemos concluir que o cerne do pecado está em tentar fazer
prevalecer a vontade humana quando ela é alheia à vontade do soberano Deus. Os males virão em
conseqüência de se ter escolhido a vontade própria, não são o mal ou pecado por si só. Igualmente
correto é reconhecer que o bem total não é o fruto que se colhe pela obediência, e sim a
conseqüência desta. O homem vive fazendo planos. Os rumos de sua vida procuram seguir esses
caminhos traçados de antemão. No entanto, nem sempre se anda como se quer e quase nunca se é
o que se esperava.
Nesse versículo, Tiago omite seu costumeiro “meus irmãos”. Ele não os trata com a descrição
“ricos”, como em 2.6 e 5.1 em que podemos concluir que não são crentes. De qualquer forma, esses
endereçados agem como não cristãos. Evidentemente, são comerciantes interessados em ganhar
dinheiro por meio de bons negócios. Lendo o livro de Atos e conhecendo um pouco do mundo romano
no primeiro século, ganhamos uns vislumbres do comércio. Apocalipse 18 nos informa de um número
grande de escravos e produtos que foram comercializados em Roma. Navios grandes, como aquele
em que Paulo foi conduzido como preso (At 27), velejavam pelo Mediterrâneo. Caravanas
aproveitavam as excelentes estradas. Elas criaram uma rede de transporte que facilitou o comércio e
troca de produtos. Entre as mais famosas estradas, encontra- va-se a via Egnátia que cruzava a
Macedônia e o Iliricum e a via Apia que chegava do sul da Itália até Roma e além da capital (veja
M.C. Tenney, O Novo Testamento: sua origem e análise, Shedd Publicações, pp.71-72).
Judeus, contemporâneos de Tiago, eram notáveis negociantes na época. Cidades novas estavam
sendo edificadas. Os fundadores convidaram judeus para essas cidades porque negociantes judeus
atraíram comércio que criaria riqueza. Não é ganhar dinheiro por meio de negócios que seja errado,
mas o pensamento secularizado que não inclui o Senhor nos planos. Nem oração nem dependência
na bênção dele faziam qualquer parte dos planos para ganhar o máximo de lucro.
Tiago percebe nitidamente o problema de se excluir Deus do futuro, porque ele é o único que
controla a história ainda não vivida ou contada de todos. Não sabemos o que acontecerá amanhã, de
modo que planos que excluem Deus são pecaminosos. Sendo ele o criador de tudo, o controlador da
história, dono de toda vida, seria loucura arrogante falar de planos para viajar e ganhar dinheiro sem
consultá-lo. Planos independentes de sua vontade são uma afronta. “Não se gabe do dia de amanhã,
pois você não sabe o que este ou aquele dia poderá trazer” (Pv. 27.1). Somos completamente des-
conhecedores do amanhã.
“Que é a sua vida?” (v. 14). No século I, a expectativa de vida não ultrapassava os vinte e cinco
anos. Doenças contagiosas, em muitos casos, não tinham curas conhecidas. A ignorância sobre os
alimentos e a higiene acrescentou mais uma razão para preocupação. Uma mulher tinha que dar luz a
cinco filhos em média para manter a população estável. Hoje a expectativa de vida aumentou três
vezes. Todavia, isso não diminui a dependência no Senhor, porque ele escolhe o dia de nosso
nascimento e o dia de nossa morte, sem nos consultar nem nos informar. De fato, o propósito da vida
não pode ser outro do que a glorificação de Deus e não planos feitos se apoiando em seu próprio
entendimento. “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento;
reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas”, é a palavra do
sábio Salomão (Pv 3.5,6).
Jó também teve seus momentos de reflexão diante do problema que estava vivenciando. Ele
disse: “Lembra-te, ó Deus, de que a minha vida não passa de um sopro; meus olhos jamais tornarão a
ver a felicidade. [...] Assim como a nuvem se esvai e desaparece, assim quem desce à sepultura não
volta. [...] sinto desprezo pela minha vida! Não vou viver para sempre; deixa-me, pois os meus dias
não têm sentido” (Jó 7.7, 9,16). Diante da sua desgraça física, emocional, espiritual e material, Jó não
teve como não refletir na fragilidade da vida, que vivemos nesse corpo, nesse mundo.
O próprio Rei Davi também parou para refletir na fragilidade da vida. No Salmo 39.1-6, ele
escreveu o seguinte: “Eu disse: Vigiarei a minha conduta e não pecarei em palavras; porei mordaça
em minha boca enquanto os ímpios estiverem na minha presença. Enquanto me calei resignado, e
me contive inutilmente, minha angústia aumentou. Meu coração ardia-me no peito e, enquanto eu
meditava, o fogo aumentava; então comecei a dizer: Mostra- me, Senhor, o fim da minha vida e o
número dos meus dias, para que eu saiba quão frágil sou. Deste aos meus dias o comprimento de um
palmo; a duração da minha vida é nada diante de ti. De fato, o homem não passa de um sopro. Sim,
cada um vai e volta como a sombra. Em vão se agita, amontoando riqueza sem saber quem ficará
com ela”.
Além da questão da fragilidade da vida, Tiago também enfatiza a questão da transitoriedade, de
como tudo aqui é realmente passageiro. “Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de
tempo e depois se dissipa”. A vida assim é comparada a um vapor, que basta o sol sair para dissipar
a neblina, ou um vento soprar para que aquela nuvem seja espalhada. Tudo isso acontece de repente
e rapidamente. Como aquele jovem de dezenove anos que um dia foi diagnosticado com câncer na
garganta, e, depois de cinco meses, sua família pranteava em seu enterro.
Jesus, avisando sobre a atitude de uma pessoa com relação às riquezas, ilustra seu ponto com
uma parábola que descreve claramente a transitoriedade dessa vida. Ele disse: “Então lhes disse:
‘Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na
quantidade dos seus bens’. Então lhes contou esta parábola: A terra de certo homem rico produziu
muito. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’.
Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali
guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande
quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. Contudo, I
)cus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o
que você preparou?”’ (I,c 12.1 5 .’()), Por mais que aquele homem tivesse agido de forma plaiu-jada,
rir não considerou sua fragilidade nem que sua vida rr.i p.iss.igrn ,i .npii e, infelizmente, foi pego de
surpresa.
O desconhecido amanhã fica inteii.imriiir n.r. m.ni'. <l<> I >> ir. onipotente. Somente ele pode talar
do luiuin (<mi tnir/.i, M III dúvidas e sem falhar. Como no caso da neblina que falta permanência; logo o
sol a faz dissipar, assim também a vida humana enfrenta o desconhecido dia de amanhã. O homem,
ao fazer planos independentes, isto é, aqueles que dependem unicamente dele, torna-se arrogante e
presunçoso. O homem de Deus tem uma atitude completamente oposta. Ao traçar os planos para o
futuro, um cristão humilde que busca a direção de Deus tem perspectivas excelentes de alcançar
seus objetivos.
“Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’” (v. 15).
Nossa expressão “oxalá” vem do árabe, “en sha allá (Deus)”, e quer dizer se Deus quiser, hoje perdeu
sua seriedade. A leviana repetição de uma frase que perdeu completamente seu significado não tem
valor algum, mas se o planejamos com um espírito de oração e avaliação, segundo o padrão de
Deus, então podemos confiadamente afirmar essa frase.
A vida do cristão pertence exclusivamente ao Senhor. As escolhas, os sonhos e planos devem ter
o endosso de Deus, o Pai amoroso que sempre escolhe o que é melhor para nós, mesmo que o
caminho seja espinhoso e íngreme. Os missionários John e Betty Stam foram aprisionados pelas
tropas comunistas de Mao tse Dong em uma cidade no interior da China, em 1934. Eles foram conde-
nados porque, corajosamente, ambos confessaram Jesus como o único Senhor. Foram
vergonhosamente despidos e decapitados. Sua filhinha de um ano foi miraculosamente salva da
morte e resgatada. Não é possível enfrentar uma provação como essa sem que primeiro se tenha
absoluta certeza de que a vontade de Deus estava sendo realizada. Tanto provações como bênçãos
são dispensadas pelo Senhor de acordo com sua perfeita e soberana vontade. Muitas vezes não é
possível ver qualquer benefício sendo extraído do sofrimento. A vida condicionada pela fé, contudo,
continua confiando na verdade declarada em Romanos 8.28: “Sabemos que Deus age em todas as
coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito”.
“Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões” (v. 16). A palavra “vangloria” (gr.
alazoneia) era originalmente a característica do curandeiro farsante e enganoso. Ele oferecia curas
que não aconteciam e se jactava de coisas incapazes de realizar. “Alazoneia” é a característica do
homem que reivindica aquilo que ele não possui, mas faz propaganda do que ele não tem capacidade
de fazer” (William. Barclay, op.cit., 134,135).
“Toda vangloria como essa é maligna” (v. 16b). A palavra que Tiago usa duas vezes nesse
versículo (além de alazoneia) é o verbo kauchasthe e o substantivo kauchesis, termos usados por
Paulo para dizer como ele se gloriava e regozijava em seu ministério, seus sofrimentos e visões (17
vezes em 2Co 10.8—12.9). Aqui seria negativo, portanto, “vangloria”. Paulo se alegrava nos seus
sofrimentos em favor da igreja (Cl 1.24).
Em outras palavras, pensar que vamos fazer o que bem entendemos sem considerar a vontade de
Deus é sinal de arrogância, e essa arrogância nada mais é do que pecado. Sua procedência não é de
Deus, ela é maligna por substituir Deus e seu conselho e sabedoria, pela nossa própria vontade. O
problema do orgulho arrogante está no fato de que ele nos leva a acreditar em uma autossufxciência
e confiança demasiada do valor de nossos próprios esforços e empreendimentos. Essa atitude nos
faz desconsiderar Deus como o centro dos nossos planejamentos, e passamos a focar o eu e
esquecemo- nos de Deus.
Como já vivemos em um mundo dependente e influenciado por planejamentos estratégicos,
acabamos nos tornando pessoas autoconfiantes demais, achando que por usar do bom senso nos
negócios, por meio de planejamentos, que isso também funcionará na vida cristã. Só que é claro não
é tão simples assim. O que deve prevalecer é a vontade e a dependência de Deus em tudo na nossa
vida.
Mas é importante dizer que, com isso, Tiago não quis dizer que não devemos jamais fazer
qualquer tipo de planejamento. Jesus mesmo disse, que o próprio discipulado requer de nós
planejamento, como ele mostrou em Lucas l4.25ss, dando o exemplo de uma pessoa que quer
construir uma torre. A primeira coisa que ela faz é sentar e calcular o custo envolvido para saber se
ela terá dinheiro suficiente para começar e terminar a obra. Da mesma forma que um rei que vai a
guerra. Só que antes de partir, ele verifica se seu exército é grande e capaz o suficiente para ir
combater contra o outro rei. Ou seja, o planejamento não é proibido nem ignorado, mas submisso a
vontade de Deus. Ele é importante e necessário, mas não substitui a vontade de Deus, ele depende
dela.
“Pensem nisto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado” (v. 17).
Parece, à primeira vista, não ter conexão alguma com os versículos anteriores. No entanto, quando
notamos o contexto, concluímos que Tiago chama atenção dos negociantes que frequentemente
caíram na tentação de guardar para si o que deveriam compartilhar. O amor às riquezas que Jesus
combateu: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde
os ladrões arrombam e furtam” (Mt 6.19), necessita de seu contraponto: “O que vocês deixaram de
fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê- lo” (Mt 25.45). Ou seja,
aquele que sabe que deve depender da vontade de Deus e não depende, peca.
Tiago 5
UMA PALAVRA AOS RICOS — 5.1-6
“Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a desgraça que lhes
sobrevirá” (5.1). O vocabulário usado aqui no original é o mesmo usado pelos profetas do AT no
contexto do dia do juízo, quando o Senhor faria sua prestação de contas com seu povo e o mundo. O
profeta Isaías escreveu: “Chorem, [chorai ou lamentai, é a mesma palavra usada na tradução grega
do AT], pois o dia do Senhor está perto; virá como destruição da parte do Todo-poderoso” (13.6). O
profeta Amós disse: “ ‘Naquele dia, declara o Senhor, o Soberano, ‘as canções no templo se tornarão
lamentos [choros, lamentos], Muitos, muitos serão os corpos, atirados por todos os lados! Silêncio!”
(8.3). Ou seja, para Tiago, estava claro que os ricos deveriam dar um carinho muito especial para
aquilo que ele estava dizendo, pois o juízo do Senhor estava sobre eles.
Tiago certamente conhecia bem os ricos opressores que perseguiam os pobres cristãos de
Jerusalém (compare 1.11; 2.6). Ele conhecia bem o tipo de indivíduo que “não temia a Deus nem se
importava com os homens” (Lc 18.2b). Como pessoas que dominavam a sociedade, mesmo debaixo
da mão de ferro romana. Foram os principais sacerdotes e líderes fariseus entre os judeus como
Nicodemos (Jo 3.1; 7.50) que promoveram a crucificação de Jesus.
Josefo descreve o incrível sofrimento dos judeus que resistiram o cerco de Jerusalém pelos
romanos nos anos 66-70 d.C. Se Tiago tem em mente os sofrimentos que Jesus predisse ou não é
impossível dizer, mas não seria remota essa possibilidade. Jesus também se pronunciou sobre a
desgraça que os ricos teriam que experimentar. “Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua
consolação. Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão fome. Ai de vocês, que agora riem,
pois haverão de se lamentar e chorar” (Lc 6.24,25). As crises, as guerras e as perseguições, todas
desmentem a segurança que, aparentemente, muito dinheiro parece garantir.
Tiago apresenta quatro acusações de crimes capitais que os ricos estavam cometendo, e ainda
cometem, que os faziam totalmente culpados diante de Deus.
A primeira acusação é contra aquilo que poderíamos chamar da inutilidade dos bens materiais.
Que, no caso dos ricos, são normalmente adquiridos com tanto cuidado (w. 2,3). “A riqueza de vocês
apodreceu, as traças corroeram as suas roupas” (5.2). O apodrecimento das riquezas é uma
indicação sobre a duração do tempo em que foram guardadas. Roupas arruinadas por traças
confirmam que as roupas foram guardadas enquanto os pobres passaram sem roupa suficiente para
se vestir. Estocar esses bens materiais durante o período em que poderiam ter sido investidos em
obras de misericórdia e aliviar os sofrimentos dos necessitados constitui uma afronta a Deus. O
apóstolo João escreveu: “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não
se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus”? Sabemos, pela preocupação
que Paulo teve com a oferta que levantava para os pobres na Judeia no fim da década 50 d.C., que a
situação financeira dos cristãos no sul da Palestina nao era boa (veja 1 Co l6;2Co8,9;Rm 15.25-28).
Paulo pôs em prática os ensinamentos do seu mestre. Paulo exortou Timóteo a ordenar “aos que são
ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da
riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê ricamente para a nossa satisfação. Ordene-lhes que
pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir. Dessa forma eles
acumularão um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim
alcançarão a verdadeira vida” (lTm 6.17-19). Paulo queria que os membros da igreja de Éfeso, capital
da Ásia, não imitassem os ricos da Palestina e da Síria que Tiago desafiava nessa carta.
Facilmente podemos entender a frase do versículo 3: “A ferrugem deles testemunhará contra
vocês e como fogo lhes devorará a carne”. O testemunho das riquezas guardadas será apresentada
contra eles no tribunal de Deus. A acusação contra os ricos não terá desculpa. Não haverá defesa
diante do Juiz divino no dia do juízo. A condenação de Deus será muito mais severa do que de um
juiz em um tribunal humano. Além disso, seu veredicto contra os ricos é pela culpa diante do acumulo
improdutivo. Pois a preocupação dos ricos foi acumular bens materiais em vez de investir nos te-
souros celestiais. O que é indicação de que o coração deles está no lugar errado. Como Jesus disse:
“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões
arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não
destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também
estará o seu coração” (Mt 6.19-21).
A segunda acusação é que os ricos defraudam os seus trabalhadores. “Vocês acumularam bens
nestes últimos dias”, oprimindo os trabalhadores, não pagando os salários devidos (w.3b,4, “últimos
dias”, revela o pensamento do Novo Testamento todo). A vinda de Jesus, o Messias, encerra a velha
época pré-messiânica e inaugura o tempo do fim. “Os últimos dias” (At 2.17) foi o quadro em que
Pedro encaixou sua mensagem no dia de Pentecoste. A ressurreição de Jesus definitivamente
marcou o começo da era messiânica. O autor de Hebreus contrasta os dias dos profetas com os dias
do Filho: “Nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho...” (Hb 1.2).
Na antiguidade, uma das formas que as pessoas se enriqueciam era por intermédio do acumulo
de terras produtivas. Uma vez que a pessoa perdia sua terra, ela praticamente se tornava escrava do
novo dono, por uma questão de sobrevivência. A pessoa continuaria trabalhando na terra para tirar do
seu sustendo, mas ela não mais lhe pertencia. Foi algo semelhante que aconteceu com os egípcios
nas mãos de José, na época das vacas magras. O povo perdeu as terras, mas em troca José permitiu
que continuassem vivendo no mesmo lugar, contribuindo com uma parte do que produziam como
forma de pagamento ao faraó.
Na própria lei, Deus determinou regras claras para que o povo não oprimisse os pobres. Em
Deuteronômio 24.14,15, Moisés escreveu: “Não se aproveitem do pobre e necessitado, seja ele um
irmão israelita ou um estrangeiro que viva numa das suas cidades. Paguem- lhe o seu salário
diariamente, antes do pôr-do-sol, pois ele é necessitado e depende disso. Se não, ele poderá clamar
ao Senhor contra você, e você será culpado de pecado”. Em Levítico 19.13, lemos: “Não oprimam nem
roubem o seu próximo. Não retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista”.
A preocupação do Senhor era que, retendo o pagamento dos diaristas, aquelas pessoas poderiam
até morrer dependendo da sua condição financeira. Mas é claro, porque haveria o rico de se preocu-
par com seus subordinados? Se eles não tinham condições o problema era deles. E pior ainda, além
de não se preocuparem, ainda roubavam das pessoas o que lhes era devido.
“Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos”. Muitas vezes a riqueza
acumulada reflete atos injustos, algo comum na época. A miséria do filho pródigo na parábola de
Jesus não foi o desemprego ou mau salário apenas, mas um emprego em que “ninguém lhe dava
nada” (Lc 15.16b). Passava fome.
“O salário [...] que vocês retiveram com fraude, está clamando contra vocês” (v. 4). A injustiça
social frequentemente não fere a consciência dos homens, mas provoca a ira de Deus. Peter Davids
observa que “a economia palestina empregou trabalhadores diários, em vez de escravos, em parte
porque o escravo ficaria mais caro no caso dele se converter ao judaísmo (James [Tiago], sem data,
S. Francisco, p. 87).
“O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (4b; cfMl 3.2; 4.5). Deus
não fica indiferente quando suas leis que combatem a injustiça são burladas. Jesus contou para os
seus discípulos como será a volta dele para julgar às nações. As ovelhas serão separadas para a
direita, e os bodes para esquerda. Para as ovelhas dirá: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam
como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês
me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram”
(Mt 25.34,35). A explicação será: “O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o
fizeram” (v. 40). A condenação eterna, igualmente surpreendente, foi que “os bodes” não se
compadeceram de Jesus, identificado com seus pequeninos irmãos (w. 44-46).
Tudo porque aquilo que parece ser feito em segredo, na verdade, não está oculto aos olhos do
Senhor. Pois assim como os clamores do povo de Israel, durante a escravidão do Egito chegaram aos
ouvidos do Senhor, assim também os lamentos dos trabalhadores chegam aos ouvidos de Deus,
como disse Tiago, o Senhor que guerreia pelo seu povo.
Esse texto é muito encorajador, principalmente para aqueles que se sentem injustiçados e talvez
queiram resolver seus problemas com suas próprias forças. Nada melhor do que ter Deus como
aquele que trava nossas lutas. Enfrentamos guerras, sentimo-nos humilhados e muitas vezes
totalmente exaustos prontos para desistir. Independentemente da exploração, Tiago diz que o Senhor
não está indiferente nem alheio ao nosso problema. Muito ao contrário, o Senhor dos Exércitos está
atento ao nosso choro. Em vez de brigar e lutar com armas carnais, devemos lutar e guerrear com
armas espirituais, não em pé, mas de joelhos dobrados. Devemos clamar por socorro, não para que
nosso chefe nos reconheça como profissionais, mas para que Deus atente para nossa situação, e ele
venha ao nosso socorro.
A terceira acusação é contra a vida luxuosa, egoísta e despreocupada com as necessidades dos
outros. Quem não se lembra dos personagens interpretados por Paulo Gracindo, o Primo Rico, e
Brandão Filho, o Primo Pobre? As cenas sempre enfatizavam a discrepância entre a necessidade
básica do Primo Pobre com os desperdícios supérfluos do Primo Rico. Apesar de parecer sempre
cenas exageradas, é exatamente esse tipo de atitude que Tiago está condenando no comportamento
egoísta, narcisista, centrado em si mesmo, que certas pessoas ricas têm.
A vida do rico na terra aproveita o luxo e os prazeres da vida no corpo. Como aconteceu com o
rico na parábola do rico e Lázaro (Lc 16.19-31) em que o contraste entre a vida do rico e o mendigo
fica em relevo. O primeiro viveu no luxo todos os dias, enquanto Lázaro, cheio de feridas, ansiava
comer as migalhas que caiam da mesa luxuosamente carregada de iguarias suculentas. A
incoerência do egoísmo que marca a vida dos ricos e a miséria dos que não têm nada, isso não pode
passar despercebido do Criador dos dois, especialmente quando são os “justos” que sofrem pelo
descaso dos ricos.
Os ricos carecem o conceito de suprir a necessidade como Paulo afirma em Efésios 4.28, quando
diz que devemos trabalhar “para que tenha[mos] o que repartir com os que estiverem em
necessidade” (grifo do autor). Esta é sem dúvida uma forma completamente diferente de se enxergar
a vida.
A quarta acusação é de assassinato. Tiago continua apontando a injustiça dos donos ricos da
terra no versículo 5: “fartaram-se de comida em dia de abate”, provavelmente quer dizer “o dia de juí-
zo”. Douglas Moo mostra boas razões para entender “o abate” como o juízo futuro à luz de Isaías
30.25 que emprega a frase no hebraico (op.cit. p. 165).
“Vocês têm condenado e matado o justo”. Os inocentes pobres não resistem por causa de sua
fraqueza e de sua falta de recursos para combater a injustiça dos fortes dentro e fora dos tribunais.
Ou pode ser que Tiago tinha em vista aqueles que, perdendo suas terras e sofrendo os efeitos da má
nutrição e fome, morressem impiedosamente. São mortos tão injustamente como foi Nabote de
Jezreel (IRs 21.1). O plano de Jezabel, executado por Acabe, teve sucesso na esfera terrena, mas
não escaparam o juízo justo de Deus. Nabote foi acusado falsamente por homens vadios, o que
provocou a morte dele que era inocente, mas a sentença de Deus foi muito mais severa. Compare as
palavras de Elias pronunciadas acerca de Jezabel e os descendentes de Acabe (IReis 21). “Não se
deixem enganar”, escreveu Paulo para os Gálatas, “de Deus não se zomba. Pois o que o homem
semear, isso também colherá” (6.7).
Por que Tiago levantaria essas acusações contra pessoas ricas, sem Deus que agem de forma
tão brutal, narcisista, indulgente? O que tudo isso tem que ver conosco? Por que essa descrição tão
precisa? E por que Deus diria algo assim para cristãos, quando sua mensagem parece ser para
descrever e condenar incrédulos?
Calvino disse que era para que os fiéis, uma vez ouvindo sobre o fim miserável dos ricos, não
invejassem sua fortuna. Mais ainda, sabendo que Deus é o vingador dos males que sofreram
pudessem ter calma e suportá-los de forma mais apropriada. É certo que Tiago quer persuadir seus
leitores contra a avareza e a inveja daqueles que nesse mundo prosperam. Cabe ao cristão fugir do
desejo das riquezas. Como Jesus mesmo afirmou: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo
de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lc 12.15). Além do
mais, como Tiago deixa claro, enquanto os ricos pensam que estão armazenando para si riquezas, na
verdade estão apenas acumulando miséria sobre miséria. Riqueza na terra pode representar pobreza
no céu. Como Jesus alertou em Lucas 6.25s: “Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão
fome”. Quando enriquecemos para nós mesmos, deixamos de ser ricos para com Deus (Lc 12.21).
Por isso, se temos sofrido com o problema da inveja da prosperidade; se temos priorizado o
enriquecimento pessoal; se temos perdido o sono na tentativa de enriquecer; o que Tiago coloca
diante de nós é: choremos com lamento, em outras palavras, busquemos o arrependimento. Não
fiquemos namorando o mundo, que nada tem a nos oferecer a não ser condenação e destruição.
PACIÊNCIA — A ATITUDE ESSENCIAL DOS CRISTÃOS
MALTRATADOS — 5.7-H
Tiago exorta seus leitores “irmãos” a esperar com paciência a vinda do Senhor. Duas palavras
gregas corretamente traduzem a palavra “paciência”. Makrothumia, juntamente com o verbo da
mesma raiz, quer dizer “aguardar com paciência”, como o servo em Mateus 18.26 que promete pagar
tudo se seu credor tiver paciência com ele. Mais claro ainda é a explicação de Jesus na sua parábola
a respeito da viúva persistente. “Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele
dia e noite?” (Lc 18.7). Continuará fazendo-os esperar (makrothumei)? Considere também a frase: “E
foi assim que, depois de esperar pacientemente, Abraão alcançou a promessa” (Hb 6.15).
A palavra “hupomone”tende mais a comunicar a ideia de perse- verar sob a pressão e a
perseguição. Tiago 1.3 é bem traduzido como “perseverança”. Considere também 5.11, em que
encontramos: “Nós consideramos felizes aqueles que mostraram perseverança ’ (grifo do autor). Aqui
apresenta a mesma realidade: paciência na adversidade. Vale à pena ouvir as apropriadas palavras
descritivas por William Barclay: “Hupone, a palavra descreve paciência, mas não passiva, e sim um
espírito grandioso que pode enfrentar as marés de dúvida e tristeza e desastres, e ainda se manter
firme, e chegar ao outro lado com fé ainda mais forte. Pode haver uma fé que nunca reclamou ou
questionou durante sua vida, mas fé ainda maior é aquela que explodiu com reclamações e foi
torturada por questionamentos — e ainda creu” (op.cit. p. 148).
A paciência aqui (v. 7) é longanimidade, a paciência necessária para esperar sem agitação,
desespero ou a perda do ânimo. A vinda (parousia, palavra usada para uma visita oficial de um rei) do
Senhor pode demorar. Não devemos marcar uma data para dizer quanto tempo a volta de Cristo
demorará ainda, mas a atitude de continuar com bom ânimo não deve ser substituída por impaciência
ou desanimo.
O agricultor aguarda com paciência o tempo necessário para a sementeira germinar, crescer e
amadurecer antes da chegada da colheita tão desejada. Ela precisa das chuvas do outono e
primavera (conforme Dt 11.14; Jr 3.24, incerteza sobre essas chuvas eram de grande preocupação)
essenciais para que o círculo orgânico de desenvolvimento se processe. Deus tem um plano para a
história pouco entendido pelos membros de sua família. Que o plano dele é soberano e perfeito
sabemos em teoria, mas a demora exige muita paciência. Crianças cansam de esperar pelas férias na
praia porque não entendem nem a necessidade de preparativos ou os negócios do pai que não
podem ser protelados.
“Sejam também pacientes” (makrothumesate, v. 8), isto é, como os agricultores. “Fortaleçam
[sterixate, a palavra usada por Lucas para descrever como Cristo determinou resolutamente ir para
Jerusalém, Lc 9.51] o seu coração” quer dizer “sejam fortes e confiantes”, uma vez que as promessas
do Senhor não podem falhar. Dúvidas acerca da real volta de Cristo poderiam criar incerteza sobre a
validade da promessa de Cristo, provocando letargia e desistência na corrida cristã (cf. Hb.
12.1,12,13).
“A vinda do Senhor está próxima” (v. 8b). Estar próxima a parousia de Cristo reflete a linguagem
de Jesus proclamando na Galileia as boas-novas de Deus: “O Reino de Deus está próximo” (eggiken,
mais de 40 vezes no Novo Testamento para comunicar a proximidade de tempo ou local). Pedro
também se refere àparousia de Cristo com a frase: “O fim de todas as coisas está próximo” (lPe 4.7).
Fácil não é para a igreja entender como quase dois mil anos se passaram e ainda a vinda de
Cristo estar “próxima”. Talvez a melhor maneira de contornar esse problema na interpretação bíblica
seria entender que, após a morte, o cristão experimenta a realidade do tempo segundo Deus: “para o
Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3.8). Quer dizer, para os santos que
faleceram no século I, como Paulo e Tiago, 2010 não completa mais do que dois dias! Os eventos da
história transcorrem os séculos com lentidão, mas os que dormem em Cristo experimentam a
sensação do tempo como quem sonha. O relógio de Deus não é o mesmo que regula os eventos da
história à luz do fato de que todas as etnias ainda não foram discipuladas (Mt 24.14; 28.19,20). “O
Senhor não demora”, diz Pedro, “em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é
paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento”
(2Pe 3.9).
“Irmãos, não se queixem uns dos outros, para que não sejam julgados” (v. 9). A segunda vinda de
nosso Senhor, em vários textos do Novo Testamento, serve para exortar discípulos e leitores a viver
em estreita comunhão. Ter atritos com um “irmão” seria como os condenados que não creram na
mensagem de Noé. “O povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o
dia em que Noé entrou na arca” (Mt 24.38). O tempo para consertar qualquer rixa, briga ou amargura,
qualquer falta de perdão ou qualquer maledicência, é agora. O dia pode chegar inesperadamente.
Este tempo antes da vinda nos é concedido para nos preparar para o encontro com o Rei e Juiz.
William Barclay disse com razão: “Devem ficar sóbrios” (lPe 4.7). Eles devem adquirir santidade (lTs
3.13). Pela graça de Deus eles devem se tornar inculpáveis em corpo e em espírito (lTs 5.23). Devem
despir-se das obras das trevas e vestirem-se com a armadura da luz, uma vez que a noite está quase
acabando; o dia logo vem’” (Rm 13.11-14, op.cit. pp. 145,146). O velho apóstolo João exorta:
“Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não
sejamos envergonhados diante dele na sua vinda” (ljo 2.28).
“O Juiz já está às portas” (cf. Mc 13.29). Novamente, refere-se à volta de Cristo, não mais para
salvar (veja Ap 3.20), mas para julgar e separar o trigo do joio (Mc 4.29; cf Mt 24.48-51 e Ap 14.14-
16). O juízo final será presidido pelo Senhor que morreu para redimir o mundo. A rejeição do seu
amoroso apelo acarreta um pavoroso juízo. João escreve para as sete igrejas da Ásia: “Observei
quando ele abriu o sexto selo. Houve um grande terremoto. O sol ficou escuro como tecido de crina
negra, toda a lua tornou-se vermelha como sangue, e as estrelas do céu caíram sobre a terra como
figos verdes caem da figueira quando sacudidos por um vento forte. O céu foi se recolhendo como se
enrola um pergaminho, e todas as montanhas e ilhas foram removidas de seus lugares. Então os reis
da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos todos, escravos e livres, esconderam-se
em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam às montanhas e às rochas: ‘Caiam
sobre nós e escondam-nos da face daquele que está assentado no trono e da ira do Cordeiro! Pois
chegou o grande dia da ira deles; e quem poderá suportar?’ (Ap 6.12-17). O motivo do pavor tem sua
explicação no terror criado pela culpa que o pecado cria e a antecipação da sentença que o Juiz
pronunciará!
“Irmãos tenham os profetas que falaram em nome do Senhor como exemplo de paciência diante
do sofrimento” (v. 10). Os profetas são exemplos de paciência no sofrimento. O motivo que os
profetas sofreram foi sua proclamação da palavra do Senhor. Inexplicavelmente, reis e autoridades se
opuseram aos profetas quando na realidade eles apenas pronunciavam de forma audível o que Deus
mandou que eles falassem. É patente a insensatez de esmagar o telefone porque trouxe uma
mensagem desagradável, ou rasgar a carta que pronunciou uma sentença de condenação, mas é
igualmente sem sentido aprisionar ou apedrejar um profeta unicamente porque pronunciou a
mensagem que Deus mandou por seu emissário.
A referência aos profetas que Tiago tem em mente nao se limii.i aos profetas que escreveram os
livros do Antigo lesiamruio, m.i\ inclui aqueles indivíduos que são apresentados como homem qtn
resistiram às investidas do Diabo e do mal, como i asos .tlr.udm nu Hebreus 11. As vidas e as
mensagens deles lomunii .mi ,i mtj>< >i i.m cia da paciência {makrothumiá). Sofrer In snlu t n m i l )
provoca naturalmente reações de ving.mç.i r ii.i M.is '„iorv,.r, n ,IMH ■■ que as Escrituras condenam e os
prolci.is rei us.ii.im
“Consideramos felizes aqueles que mostraram constância” [a forma verbal de hupomone\ (v. 1 la).
A felicidade que atribuímos aos perseverantes tem raízes na firme certeza que esta vida não encerra
a existência dos que estão em Cristo. Como no caso de Jó, que ilustra dramaticamente que o fim da
história não pode ser percebido durante as provações. Os que confiam no Senhor, mesmo recebendo
maus tratos, receberão uma recompensa maior do que jamais se poderia esperar. Jó perdeu tudo,
filhos, riqueza e saúde, mas Deus interveio transformando a aparente maldição em bênção. O autor
bíblico disse: “O Senhor abençoou o final da vida de Jó mais do que o início” (Jó 42.12a). A mesma
coisa ocorre com os perseverantes. Nas palavras de Jesus: “Bem-aventurados serão vocês quando,
por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.
Alegrem-se e regozijem- se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma
perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5 . 1 1 , 1 2 ).
“O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (v. 11b). A compaixão do Senhor tem
confirmação no fato de que Jó não morreu, que sua depressão e incompreensão não chegou a ponto
de criar desespero total. Jó lutou, questionou, até duvidou, mas não seguiu o conselho de sua esposa:
“Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!” (Jo 2.10). A misericórdia do
Senhor foi demonstrada na revelação que Deus o presenteou em momentos oportunos. “Eu sei que o
meu Redentor vive e que no fim se levantará sobre a terra. [...] verei a Deus...” (Jó 29.25,26).
A frase “cheia de compaixão” (grego, polisplangchnos) somente ocorre aqui no Novo Testamento.
Foi uma palavra criada por Tiago ou pela igreja primitiva para descrever a intensidade do amor que
Deus demonstrou em enviar Jesus Cristo para pagar o incalculável preço de nossos pecados. Essa
excedente e incomparável compaixão forneceu um meio pelo qual podemos receber o perdão e um
relacionamento libertador com Deus. A palavra “misericórdia” (oiktirmon) combina com “compaixão”
(splangchna) em Colos- senses 3.12 para ser a base para a tradução “profunda compaixão”. Sua
compaixão e misericórdia contrabalançam com sua ira (Rm 1.18).
PALAVRAS FINAIS — 5.12
“Sobretudo, meus irmãos, não jurem, nem pelo céu, nem por qualquer outra coisa. Seja o sim de
vocês sim, e o não, não, para que não caiam em condenação” (v. 12). O costume na época para os
gregos era para terminar uma carta literária com um juramento. Tinha a finalidade de garantir a
veracidade do conteúdo da carta (cf. Peter Davids, A Good News Commentary [Um comentário sobre
as boas-novas], Harper and Row Pubs., S. Francisco, sem data, p 92). Ainda que Jesus também
proibisse juramentos, a lei do Antigo Testamento permitiu que alguém confirmasse suas palavras com
um juramento.
A proibição por parte de Jesus (Mt 5.34-37) — repetida por Tiago aqui — evita tomar o nome do
Senhor em vão (Ex 20.7), evita usar qualquer coisa como garantia pela promessa feita. Como Deus
não pode mentir, seus seguidores também devem ser conhecidos como um povo íntegro, confiável e
completamente comprometido com sua palavra. Jesus e Tiago queriam que os leitores evitassem a
criação de duas categorias de promessas — algumas que poderiam ser quebradas sem maiores
conseqüências e outras garantidas por juramentos. O sim do cristão sempre deve ser sim, e o não,
não.
A prática de jurar frequentemente tira a seriedade dos juramentos. “Filo disse, ‘freqüentes
juramentos seguramente gerarão mentiras sob juramento e impiedade’. Os rabinos judeus disseram:
‘Não se acostume a jurar, porque mais cedo ou mais tarde você jurará uma falsidade’” (William
Barclay, op.cit., p. 149). Quando o sim do crente é sempre sim e o não sempre não, evita-se a
condenação de Deus que declara: “mas os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os
que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos — o
lugar deles será o lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte” (Ap 21.8; grifo do
autor).
A ORAÇÃO DE FÉ — 5.I3-I9
Dentro do contexto da perseverança na vida cristã surge a pergunta. “Entre vocês há alguém que
está sofrendo?” (5.13). “Sofrendo” é a mesma palavra do versículo 10 acima (kakopathias). Inclui
perseguição, acidentes, pragas, crise econômica e dificuldades. Alguns desses males externos
atingem a população em geral. Mas doença derruba o indivíduo. Deus seleciona um filho dele para
sofrer. “Porque acontece isto comigo, e não com os outros?”, seria a dúvida suscitada. Tiago
recomenda a oração. Oração abre uma janela para o céu, para falar com Deus.
A oração serve para acalmar o espírito. Ela serve para receber do Senhor sabedoria, de perceber
mais claramente que o Senhor é bom e que sua misericórdia dura para sempre, mesmo quando
passamos pela tempestade. A oração deve incluir petições: se for para reclamar, vai ao encontro dos
versículos acima. Pela petição apresenta-se pedidos pelo alívio, mas também espera que, por meio
da aflição, será possível alcançar os propósitos de Deus na experiência do sofrimento. Uma vez que a
palavra inspirada de Deus afirma: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles
que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28), podemos
descansar na infinita sabedoria de Deus que não pode errar.
“Há alguém que se sente feliz?” (v. 13b). Ele deve cantar louvores. A reação certa para a emoção
de satisfação e de alegria seria transbordar com gratidão e cânticos de louvor. Aliás, a presença do
Espírito Santo na vida dos renascidos produz o fruto dele, fruto de amor ágape, alegria e paz... (G1
5.22). A felicidade que carece de explicação humana estimula gratidão e louvores oferecidos àquele
que cria em nós um espírito alegre. “Ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor” (Hb
13.15), partilha o mesmo espírito que detectamos em Tiago. A ordem de louvar e agradecer sempre
(cf. ICo 14.15,16; Ef 5.19; Cl 3.16 e Fp 4.4) no Novo Testamento emana dos imensuráveis benefícios
que Deus derrama sobre os seus filhos. A igreja, diz Barclay, sempre tem sido um povo que canta.
Plínio, governador de Bitínia (província romana na Ásia Menor) escreveu para o Imperador Trajano,
informando sobre uma seita nova (os cristãos) em 111 d.C.: “Eles estão com hábito de se reunir em
um certo dia antes de amanhecer, cantando em versos alternados um hino a Cristo como Deus”
(op.cit., p. 152).
“Entre vocês há alguém que está doente?”, deve chamar os presbíteros da igreja. Eles são os
homens que têm a incumbência de governar e de ensinar a igreja local (lTm 5.17). São os líderes da
igreja que devem ser chamados e não os que têm o dom específico de curar (cf. ICo 12.9, 28, 30)
(Peter Davids, op.cit. p. 93). Os presbíteros devem orar, passando azeite de oliva no doente no nome
do Senhor. Será que a elevação à posição de presbítero (bispo, pastor, veja Atos 20.17,28) incluiria o
poder de curar? Não sabemos. Apenas podemos confiar que devemos convidar a equipe de líderes
da igreja para ungir e orar pelos doentes.
Os presbíteros da igreja devem ser da “sinagoga”, (.sunagoge, em Tg 2.2, “reunião” na NVI). Em
Atos 5.11, a palavra “igreja” foi usada por Lucas para se referir a toda a igreja de Jerusalém e não
apenas a uma congregação. Como havia milhares de cristãos recém- convertidos na cidade,
aparentemente, era possível falar a respeito de todos os crentes ou de uma congregação {sunagoge)
(cf. E.M. Sidebottom, James Jude, 2Peter [Tiago, Judas, 2Pedro], Grand Rapids, 1967, p. 61).
Hipólito, escrevendo no fim do século II nos Cânones de Hipólito, declara que somente aqueles
que têm dom de curar sejam escolhidos para o presbitério. Na oração de consagração do presbítero
deve-se fazer os seguintes pedidos: “Conceda, ó Senhor, [...] o poder de romper todas as algemas do
poder do mal dos demônios, para curar todos os doentes e rapidamente esmagar Satanás debaixo
dos seus pés” (William Barclay, op.cit. p. 153).
Oração em primeiro lugar e, depois, a aplicação de óleo reflete a importância das duas atividades.
O óleo poderia ser aplicado com o propósito medicinal (Lc 10.34), porém, aqui não há qualquer
indicação de que o óleo seria usado como remédio. Talvez seja um meio físico para animar a fé do
doente. “Durante muitos séculos, a igreja consistentemente ungiu com óleo para curar os doentes”
(ibid., p. 153). Nos primeiros séculos da história eclesiástica, o propósito da unção era para curar os
doentes, e não ungir moribundos para prepará-los para a morte (extrema unção).
A oração deve ser oferecida “em nome do Senhor” (v. 14b). Os discípulos foram instruídos a orar
com o endosso do Senhor Jesus, portanto, deve ser em nome dele que deveria ser feita a oração. “E
eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13).
“A oração feita com fé curará o doente” (v. 15). A oração da fé sugere que tanto quem ora como o
doente receberão uma revelação que transmite a confiança que Deus quer curar o doente. Há mu-
lheres na China que têm regularmente orado por pessoas desenganadas depois de receberem a
revelação da parte do Senhor que ele levantaria o moribundo do seu leito. Dessa maneira aqueles
que oram não ousam prometer que Deus agirá de forma miraculosa sem ter antecipadamente a
segurança sobre o plano dele.
Parece que o dom (charisma de fé e os charismas de curas estão juntos em ICo 12.9) seria uma
exigência para Tiago afirmar que o doente seria curado. A falta de fé impediu que Jesus operasse mi-
lagres em sua própria terra de Nazaré (Mc 6.5).
“E se houver cometido pecados, ele será perdoado” (v. 15b). A palavra “se” não deve passar
despercebida. Fica claro que a conexão entre a doença e o pecado, em alguns casos, é o(s) pecado
(s) cometido(s). Tal foi o caso do homem curado por Jesus em Marcos 2.1-12. O perdão dos pecados
do paralítico ficou intimamente relacionado com sua cura. No entanto, nem toda enfermidade indica
que o doente trouxe sobre si o castigo que tomou a forma de doença.
Jesus também ensinou que há doenças que não têm nada que ver com pecados. A aflição de Jó
não foi punição por um erro ou deslize moral do temente a Deus, mas para ensinar grandes lições
tanto a Jó como também àqueles que meditam no livro dele. O cego de nascença que Jesus curou no
sábado sofreu “para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele” (Jo 9.2,3).
“Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros” (v. 16). O comentarista Sidebottom nos
lembra que confissão de pecados perante a congregação inteira foi a prática nos primeiros séculos
(cf. Didache 4.14; 14.1), mas Tiago recomenda que a confissão seja feita diante dos presbíteros
(op.cit. p. 62). Jesus ensinou que a confissão e arrependimento sejam, em primeiro lugar, perante o
irmão ofendido. Mas se o pecador se recusar a assim fazer, seria requisitado o confronto com “duas
ou três testemunhas” (Mt 18.16). “Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a
ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano” (v. 17). A confissão de pecados uns aos
outros pode ser entendida como parte desse mesmo conjunto de ordens para manter a disciplina da
igreja. Reuniões na igreja e em pequenos grupos caseiros abrem a porta para confissão de
ressentimentos e ofensas não perdoadas. Quebras de relacionamentos confessados renovam as
expressões de amor fraterno e comunhão no Espírito. Quando orações “uns pelos outros” se seguem,
Deus restaura os relacionamentos e o entendimento. Alcançar e manter a comunhão na família de
Deus deve ser a prioridade dos dirigentes.
Essa confissão diante dos presbíteros que Tiago tem em mente é um passo em direção à
remoção de pecados do Corpo de Cristo que entristecem o Espírito Santo (Ef 4.30).
“Ore uns pelos outros para serem curados” (v. 16b). Tanto a confissão como a oração intercessora
parecem combinar para alcançar o efeito da cura. Na igreja de nossos dias, tornou-se muito comum
confiar mais na oração do que buscar alguma razão pela doença no pecado da vítima. Tiago deseja
manter o equilíbrio entre os dois. Obviamente, doenças têm causas outras que o pecado do indivíduo
que esteja sofrendo.
“A oração [deesis, lit. petição] de um justo é poderosa e eficaz”. Essa frase põe em relevo um fato
às vezes esquecido. Para sermos atendidos por Deus precisamos estar em paz com Deus e com os
irmãos (William Barclay, op. cit. p. 15 5). A rainha Maria da Escócia concordava inteiramente com
Tiago nesse ponto. Declarava: “Não temo nada a não ser as orações de John Knox” (1513-1572),
reformador da igreja daquele país. Sua piedade, simplicidade, sinceridade e incansável esforço para
transformar os escoceses em um povo santo deram razão à rainha. Isaías reforça essa observação
com as seguintes palavras: “Vejam! O braço do Senhor não está tão encolhido que não possa salvar,
e o seu ouvido tão surdo que não possa ouvir. Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus;
os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá” (Is 59.1,2). Sem um
arrependimento sincero, de coração, da desobediência, como foi o pecado de Saul, não é possível
alcançar o perdão almejado (veja ISm 15).
Elias, por outro lado, ilustra o princípio bíblico: justiça de caráter junto com intimidade com Deus
produzem eficácia na oração. Ele era tão humano quanto nós, mas isso não impediu que Deus
atendesse a sua oração. “Ele orou fervorosamente” [gr. “em oração orou” uma expressão vinda do
hebraico, cf. a palavra de Jesus na ceia: “Com desejo tenho desejado”, Lc 22.15]. Ainda que o texto
de IReis 17 e 18 não mencione que Elias pediu especificamente para que não chovesse, ele orou
para realizar outros milagres.
S. D. Gordon disse: “A maior coisa que qualquer pessoa pode fazer para Deus e pelos homens é
orar. Você pode fazer mais depois de ter orado. Contudo, não pode fazer mais do que orar até você
ter orado.”
Blaise Pascal disse: “Deus instituiu a oração para conferir sobre as suas criaturas a dignidade de
serem causas”. Devemos entender que o poder de um homem de oração como George Müller, de
Bristol, surgiu de uma fé inabalável em Deus bem como uma submissão incontestável à soberania
divina. “O que Deus quer fazer por nosso intermédio?”, foi a pergunta que regeu suas orações.
“Meus irmãos, se alguns de vocês se desviar da verdade...” (v. 19). De acordo com Tiago, a
verdade é muito mais do que uma lista de doutrinas ou verdades na qual o cristão crê, mas uma vida
em que a verdade tem que ser crida e obedecida, na qual se confia, mas também se compromete. O
“se desviar da verdade”, portanto, pode ser esfriamento, falta de vigiar ou se afastar do primeiro amor.
O afastamento da igreja da verdade ocorre aos poucos. O texto tem em vista apenas “alguns de
vocês”. Em Hebreus, encontramos uma advertência para cuidar “que ninguém se exclua da graça de
Deus; que nenhuma raiz de amargura [isto é, venenosa] brote e cause perturbação, contaminando
muitos” (12.15).
A palavra “desviar” {planethe, de planao, raiz de nossa palavra planeta porque os planetas
vagueiam entre as estrelas) leva o sentido de “seduzir” ou “enganar”. O autor de Hebreus usa esse
verbo para descrever os perseguidos e maltratados que “vagaram pelos desertos e montes, pelas
cavernas e grutas” (Hb 11,38b). O mundo não era digno deles, portanto, devemos notar que nem
sempre fala de engano. Pode ser nada mais do que negligência e o perigo de vagar sem rumo.
“Alguém o trouxer de volta” (19b). A palavra “trouxer de volta” traduz o grego epistrepse da raiz
epistrepho. Tiago volta a usar essa palavra no versículo 20: “Quem converte um pecador” mostra que
se trata, não de incrédulo, mas de um irmão que anda em um caminho errado. Deve ser erro moral
indicado pelo termo “caminho” ou “prática errada”.
“Salvará a vida dessa pessoa” (literalmente, “o salvará da morte”). Nesse caso, trata-se da morte
eterna. “E fará que muitíssimos pecados sejam perdoados”. Fica evidente que os pecados que serão
“cobertos” seriam do irmão que se desviara. O irmão que se desvia para o mundo e se entrega
novamente ao lamaçal do pecado vive em perigo incalculável. Pedro diz que: “Teria sido melhor que
não tivessem conhecido o caminho da justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem as
costas para o santo mandamento que lhes foi transmitido”. Compara essa apostasia com “a porca
lavada [que] volta a revolver-se na lama” (2Pe 2.21,22). Seria o pecado presunçoso do qual o
“suposto” irmão não quer ou não pode se arrepender?
“Muitíssimos pecados sejam perdoados” (lit. “cobrirá uma multidão de pecados”). Em 1 Pedro 4.8
é o amor que cobre uma multidão de pecados. Podemos entender o sentido como o amor de Deus
que perdoa pecados por meio do sacrifício eficaz de Cristo na cruz e não um amor de irmão que
generosamente se esforçou para restaurar um irmão desviado.
CONCLUSÃO
Nessa epístola, Tiago nos legou uma exortação de imenso valor, ainda que Lutero a tivesse
avaliado como uma “carta de muita palha”. O cristão não deve se entristecer pelas duras provações
que vêm ao seu encontro. Elas produzem sabedoria do tipo que produz perseverança. As tentações
aproveitam sua capacidade de seduzir e enganar aqueles que não buscam a Fonte de caráter cristão.
Valiosíssimas lições sobre a oração se espalham ao longo de sua mensagem. A oração pode ser
o meio de alcançar objetivos santos, mas nunca interesses puramente carnais.
Advertências não faltam, exortando aos irmãos a não permitir que o pecado acumule, que as
viúvas e órfãos não sejam esquecidas se os crentes querem servir a Deus de verdade. Os pobres e
os necessitados clamam a Deus contra os abastados se forem tratados com desprezo. Fé sem obras
evidentes não vale nada. A língua domada é a marca da verdadeira santidade, bem como a vida
dominada pela sabedoria vinda do céu.
Acima de tudo, Tiago comunica uma visão da imutabilidade de Deus, um Deus de justiça e
compromisso com os necessitados e desprovidos de direitos na sociedade. Quem estuda essa carta e
assimila sua mensagem prática será sábio de acordo com os padrões do céu, mesmo que, de acordo
com os interesses deste mundo, seja uma tolice.