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CAPíTULO I

Al i, naque l e ambiente

sombrio, onde as luz e s ofu s -

avam como lampiõe s qu er en d o s e a pa ga r

r aroa : ali, on de s uf ocav a a f um a ça d e cig a r r os e o c heiro

l e á l cool, o v oz e r í o vi c i a d o de h o mens e mulhe r e s

em noites de

a dí s

.

u t í rem pro b lem a s

íntimo

s,

um a mulh e r de aspe ct o ' aí n-

I

a m uito jovem , mantinh a - s e

di sta nte , f i ta nd o

abs or t a

r

m copo de

b

e bida

pr êso

e nt re

d e d os fino s

que o

~ o ntornavam como se quis esse m e st r a ngul á -I o.

o ar impregnado

pelo odo r d a luxú ria ,

pare c ia

t er

) rovocadQ nela uma rea ç ão de mo r bidez pe c a mino sa . O s ábios estendidos, solto s, tr a duzi a m c o m m a i s sen s u a lidad e

L expressão bestífícada da sua face .

li

I

1

As pupil a s amortecidas

par e ci a m t er sid o hí p not í-

: adas pela m ag nifi c ên c ia de um olh ar . O de sa linho do s

, 1 :abelos traduziam a p assage m d e d edo s ca ri c ios os , p rát i c os

- rn tecer de se j os.

Um homem ido so, mal firm a n do - s e

n as per n a s,

en -

o n tecid o pel a b e b id a que i n g er i r a ,

ao pa ssa r

p e rto de l a

a f it á -I a . C o m o se p o r lap s o d e

iegundo s a lu ci de z lhe vo lt as s e para q ue ê l e e n t e ndess e um

)OUCO do s eu dram a, s u ss u r ro u

~ e dem o rou um in s t a nt e

p e n ali za d o e curioso :

6

C A SSANDRA

R IOS

Por que so fr erá ? E' t ã o cr ianç a

a inda!

A l g uém re s pondeu num s u ssurro:

-

Vo c ê não a re c onhece? Ela é a dona do a pa r t a - e é aquela que

mento

- Oh!

Aquêle mu r múrio ab a fado d e admir a ção s e prolongou com os cochichos das vozes do s curiosos que se agl o - meravam.

Ela nem s equer se moveu. Já estav a a co s tum a d a a perseguição dos comentários que o s indiscret o s não s e fartavam de fazer , apont a nd o -a como se ela fôsse a lgo de sobrena tural .

Alguém , mais compreensivo , le v ou-os p ar a um cant o e se encarregou de mudar o assunt o .

S em saber a quem, ela ag r ade c eu mentalmente.

Abriu-se uma porta .

Expressões di v ersas se desenharam em c a d a f a ce, e n - quanto os o l hos semi c errav a m- se de sacos tu ma d os di a nte da claridade que invadiu a sal a.

A porta fechou novament e e a ob s curidade v oltou, continuando também os sussurro s abaf a dos.

Passos ecoaram no estreito corredor.

Um vulto desenhou-se no saguão.

No va mente s e fêz si lê nc i o p e la expec t a ti va c urios a .

E

' UDEMONIA

Alguém jamais esperado havia chegado.

Da s c inzas de um inferno surgia uma mulher.

N o ra st r o dos

seus passos s e m a rcava uma história .

7

O drama de uma vida tão cheia de mistérios, de uma mu l her com tão provocantes form as que tornaria uma len - da o encanto co m que el a fôsse descr it a.

! S atânica e altiva, como se trouxesse no olhar um p oder místico de coisa s hed i ondas e no porte tôda uma at ração que se excedia para excitar todos os que a pren- dessem s ô bre o olhar eubiç o so.

" Somente aquela jovem c ontinuou imóvel diante da-
I quel a aparição . Porém, p e rcebia-se no estremecimento d e seus cílios e no vacilar da bebida dentro do copo, que a o utra provocara nela um a e s tr a nha e poderosa reação.

Eudemônia caminhou, imponente como uma estátua . possuída de vida por um assô pro de m a gia.

f:

Seu olha.r . fixou - se direta e demoradamente, na jo- v e m que ainda se mantinha alheia . Um rubor que trans- p a re ceu como que provo c ado por incontida raiva, su- b iu - lh e às fac e s, diante d a e xclamação geral que se des- p ren dia do momen t o s ilencioso de tensão:

- Eudemônia!

A surprêsa, com tôdas suas interpretações , tonalí-

't

zava aquel a s vozes .

Sem se v o lt ar p ar a responder e sem demonstrar se - q u er um simples a b a lo diante da indi g na da acolhida da -

8 CASSANDRA

RIOS

quela jovem, ela caminhou em sua direção, decidida, sem alterar a expressão da fisionomia.

Quando sentiu o perfume, que denunciava a presença

de Eudemônia avançar cada vez mais forte

pelas suas

narinas adentro ê omo se qui se s s e envenená-Ia , diante da-

quela aproximação que quase lhe dava a perceber o há- lito a bater-lhe no rosto, nem a s sim a jovem se moveu. Parecia não querer abrir os olhos, como se temes s e de- frontar-se com um fantasma.

Eudemônia chamou-a baixinho.

Só então, na tonalidade trêmula da voz, percebeu-se que ela também estava nervosa. Tornou a repetir seu nome com carinho vacilante e depois, diante do silêncio ator- doante da outra, quase gritou histericamente:

- Mila!

Alguém acercou-se como se temesse um ataque brutal de Eudemônia, que, inclinando-se, sacudiu-a pelos ombros ao não obter resposta.

Míla descerrou as pálpebras vagarosamente e num gesto moroso afastou dela aqu e l a s mãos, contraindo a

face como se tivesse sido assaltada

sacudiu a saia que ainda não absorvera completamente

por inexplicável mêdo :

a

bebida que Eudemônia havia derramado sôbre ela com

o

seu gesto intempestivo,

A voz de Mila ecoou entre dentes:

- Suma-se! Você me provoca asco.

EUDEMÔNIA

9

Eudemônía confirmou seu aspecto vingativo e ran-

coroso. Suas mãos estenderam-se, como garras afiladas,

e como se nada fôsse o corpo de Mila, ergueu-a pelos om-

bros, depois agarrou-a pela cintura e pelas pernas. Mila mordeu-a. Como se precisasse despender um tremendo es-

fôrço, empurrou-a, caindo para trás ao mesmo tempo que a outra. As duas atracaram-se numa desenfreada luta.

Ninguém se movia. Um silêncio temeroso pesava na atmosfera viciada.

Mila continuou lutando, como um filhote de tigre enraivecido. Eudemônía ergueu o braço, cerrou o punho

e desceu-e com fôrça contra o rosto aterrorizado de Mila.

Esta, contraíu a face ferida, enquanto que o sangue jorrava de seu nariz. Abriu a bôca para falar alguma coisa e se estendeu imóvel sob os olhos de Eudemônia, que a fitavam arregalados e vítreos, como os de uma louca.

Eudemônia sentiu nos braços a leveza do corpo dela, que desfalecia.

Olhou para o rosto que pendia em seu colo e sorriu sarcàsticamente, como se estivesse a vangloriar-se por ter-se vingado de alguma coisa.

Ela olhou para os lados com aquela expressão esga- zeada e sorriu diabõlicamente quando todos recuaram, atemorizados pelo seu olhar.

O olhar de uma louca, diriam de si para

si .

Sentiu uma repulsa de asco e de indignação, diante da passividade daquela gente que a observava sem rea-

10 CASSANDRA

RIOS

giro E pensou que poderia

guém a impedisse de fazê-Io.

ter matado

Míla, sem que nin-

Uma lágrima permanecia suspensa nos cílíos de Mila,

que não se moveu, nem mesmo quando ela a depositou

t

e ndida

num sofá.

es-

Eudemônía

limpou o sangue

que escorria

ainda, po-

rém, em menos quantidade.

resto

p elo rosto dela.

da bebida

que ficara

Embebeu

no fundo

um lenço com o do copo e passou-o

Mila abriu os olhos amortecidos

mula.

e fitou-a

~ ôda trê-

Eudemônia ajoelhou-se ao seu lado e sussurrou

ordem:

uma

- Mande-os que se retirem.

'

,

t

I

Mila movimentou os lábios, como se quisesse protes-

tar. Leu nos

ela sabia. E compreendeu

olhos de Eudemônia a verdade que somente

que ainda poderia confiar.

- Você sabe que eu não sou louca, não lhe farei

nada

a fitava com aquela expressão dominadora.

mande-os embora. -

Disse-lhe de novo enquanto

Mila sentou - se

ergueu-se,

n o sofá, passou as mãos pelos cabelos,

caminhou

até o meio da sala e executou

a or-

dem de Eudemônia. Um dos homens perguntou-lhe

bai-

xinho alguma

coisa ao que ela respondeu

chamar

que não, sa-

Por

Foi o que EQ'

cudindo a cab e ça, fazendo-o prometer

c erto êle pr op usera

que n a da faria.

a polícia.

E

' UDEMôNIA

11

demônia concluiu dos cochichos e das expressões rizadas de Mila.

atemo-

A sala ficou vazia.

Mila continuou

porta que acabara

de f ec har.

em pé perto

da

o silêncio revelava

se fitavam

um receio mútuo com uma expressão

entre

as duas,

ín-

que agora

decifrável, como se acabassem de se conhecer e sofressem

diferente,

a impressão

de que já se haviam

- Vem aqui . - Ordenou Eudemônia.

Mila estendeu

visto antes.

a mão para a m a ç a nêta

da porta, como

se pretendesse

abri-Ia para fugir.

Eudemônía, mais rápida, abrutamente

- Como você veio aqui? -

puxou-a.

Perguntou Mila, cujos

de mim?

meu bem? Será

olhos faiscavam.

Que aconteceu?

O que quer

- Você está realmente embriagada,

que se esqueceu de minha promessa?

- Não me "lembro de nada.

fão que solapou tudo da minha mentar-me novamente?

Você foi como um tu- vida. Por que vem ator-

- Por que você me pertence!

Comprei-a

como se

compram móveis usados

gar o que me f ê z l Não, não tenha

em leilão . Porque

precisa

pa-

mêdo, não vou matá-

Ia, vim apen a s

ah ,

recebeu daquele jeito?

a desprezo

por que disse que eu provoco asco? Por que -

para d ize r-lh e

o qu a nto

Respondeu

com a mesma

me

_

frie-

za e indiferença

que fazia

duvidar dela, antigamente.

Como se tê- Ia para

si fôsse

um a coisa tão natural,

que

seria desnec e ssário explicaçõ es o u provas.

12 CASSANDRA

RIOS

Não sabe que esfôrço precisei empregar para falar -

lhe naquele tom

fingir perante tanta gente? Oh

Eudemônia?

não compreende que era necessário

Você não muda nunca,

- É você que não se acostuma. - Ponderou cinica- mente enquanto a levava pelo braço para o sofá. - Mas se observar com atenção notará, em mim, muita coisa diferente

- Sim. Vooê cortou os

e

- Cortaram, interrompeu ela traduzindo na inflexão

da voz que ela fôra vítima de uma interferência alheia

à

sua vontade. -

E

o que mais você notou?

-

Ficou melhor assim

justifica, positivamente,

o

seu caráter, o cabelo à "Ia garçonne". Outra coisa, você

agora é a milionária e não a filha do milionário "doutor Forbes".

- Não mencione isso! Nunca, entendeu! Respeite- você não é digna de tocar no nome de meu pai

o

É minha cúmplice em sua morte

os olhos com tanta indignação. Papai morreu de um co- lapso cardíaco, d e pois de um mês em estado de coma,

provocado pelo desgôsto que eu lhe dei

Sim. Não arregale

não fui assas- morte

porque a

sina de

o levou em seu lugar

você está viva, Mila

Mila correu para ela e ajoelhou-se aos seus pés agar- r a ndo-lhe a s mão s e beíj ando - as com um frenesi quase hist é rico

E ' UDEMONIA .

13

_ não fale sôbre isso, Eudemônia , não me

eu que -

faça sofrer mais ro

não me obrigue a preciso esquecer

_ Você não pode

Mila, e você vai ouvir

nem eu

' tenho que falar,

E udem ô nia ergueu-a do chão e as duas s e ntaram-se

no sofá .

_ Mila, às v ê zes eu fico pensando que tudo isso a c on-

teceu para que algo se explicasse em minha vi d a . O que

eu sentia por você, não era amor

queles tempos sim, eu estava louca, todos os choques que

sofri depois de meu último acesso de loucura, assim jus- tifico o meu ciúme, com o medo de que você morresse,

com os tormentos de aturar advogados e .

éom a morte de papai, que agonizou um mês enquanto eu

permaneci detida

que o aprisionavam e eu comecei a ver tudo claramen-

te

e não saber, agora que sei e tenho certeza de que es- tou curada, tenho que passar por louca. Sou obrigada a

submeter-me aos tratamentos a que teria sido obrigada antigamente e não hoje. Talvez seja uma pilhéria do destino fazer-me passar duas vêzes pelo que não sou. Normal quando estava louca e louca agora que estou

ciúme

doentio que você cultivava com suas atitudes, proposi-

sã. A minha loucura, Mila, era apenas ciúme

que vejo o quanto sofri por estar louca

era alucinação. N a-

depois

meu cérebro libertou-se das nuvens

, Agora

Não

não me interrompa, sei que a fiz

sofrer também, porém, você foi longe demais. Sabia que

eu não agüentaria vê-Ia nos braços de bia qUI eu •

um homem

sa-

14 CASSANDRA

- Não, Eudemônia

RIOS

eu não acreditava, eu não

compreendia o que se passava com você, quando me

pedia que não a provocasse, que seu instinto era

- Perigoso

sim

eu sentia ímpetos de matá-

I a. " foi num momento de alucinação que levei aquela

arma para casa

você me ameaçou que iria mudar:

tencer aos homens

- Foi para irritá-Ia com aquela mulher

- - Eudemônia, continuou como se ela

não a tivesse interrompido, - atormentada pelo ciúme e

pe l a dúvida, resolvi vingar-se de outra maneira. " e fui falar com aquela mulher que na realidade nenhum ínte-

você foi longe de-

premeditei o crime, na noite em que

que iria somente per-

para vingar-me do seu flêrte

rêsse me despertara mais

Mas você

Os olhos de Eudemônia esgazearam-se e ela segurou

as mãos de Mila com fôrça. Sorriu e assegurou-a: - Não

tenha mêdo

não lhe baterei por ciúme, como

o fazia

em outros tempos, o passado não influencia mais

Quan-

doeu pretendi matá-Ia e acreditei que você morrera, o

que eu havia feito na realidade fôra expulsar de dentro

de mim êsse monstro: O ciúme

eu estou cura-

da

quando nos distraímos um pouco do nosso caráter e per-

sonalidade.

Elas ficaram em silêncio por um momento. Müa mur- murou absorta:

livre dêsse demônio que vem morar dentro da gente

nunca mais sentirei ciúme de ninguém

Nunca mais Mila

~

EUDEMÕNIA .

15

- Eu sofr! tanto

Eudemônia voltou-se para ela e estendeu a mão s ô - bre seu peito. Seus dedos desabotoaram a blusa de Mila q ue seguro u -lhe a mão, num gesto para impedi-Ia de pros- seguir.

quero apenas ver o ferimento Explicou Eudemônia, que puxou com

fôrça a b lu sa, fazendo saltar o resto dos botões. O for- mato d os s e i os túmidos enchiam o soutien. A pele .isa

e r ó se a p arecia nunca ter sido tocada. Mila estendeu os

br a ços p ara ela e puxou-a apertando-lhe a cabeça con-

tra o p eito enquanto murmurava exasperada, vítima de

_ Que r o ver

c i ca t ri zou b em?

u m súbito descontrôle passional:

por que

v oc ê v eio a qu i

perdoe- tan t o .

Eude mônia libertou-se dos seus braços e estendeu-a s ôbre o sofá. Suas mãos ávidas arrancaram a blusa fora

e pu xou-l h e a alça do soutien, arrebentando-a. Imobili-

zou -se e se u s olhos fixaram-se paralisados, naquela pe- que na cicatriz. Houve um remoinho em sua mente e por um ins t ante ela reviveu tão trágica noite.

perdoe o que lhe provoquei por amá-Ia

-

E u demônia

Eudemônia, querida

por que?

Vá - se embora.deixe-me

~Atl ~

~ ,1l

,

CAPíTULO II

P r em ed i tadament e ,

Eudem ô nia

deixou o carro

pa-

a p a ra a outra esquina. C r u -

zou o qu arteir ã o qu a se c o r r endo. Diminuiu os pa ss os

quando se apr o ximou. Empu r r o u o grande portão de ferro

negro e a t raves s ou

En-

trou na sala e olhou a o redor. Ficou gelada quando n ã o

viu nin gué m . Ol h ou para as e sca d a s de m á rmor e e e r - gueu a c a be ça, acomp a nhando com um movim e nt o - le nt e

a dire ção do olhar que persc r u t ava

pelo corr imão. Pa rou o ol h ar. Parec i a querer atr a v essa r

r ad o d i st ante

do pal ac ete

on d e mor av a.

Atravessou

a v e n id a e dirigiu-se a pre s s ad a

o j a r dim,

se m f a zer ruído . A port a

estava aberta ; bastou descer o trinco e empur r á-Ia.

o corredor, la dead o

a madeir a daquela po r ta l á em c im a. E la ofegava e t r ans- pirava, senti ndo onda s de f r io e de calor. O coraçã o p are -

cia querer a r rebentar.

ria pela f a ce . Tôda ela t r emia

turas de desva ri o .

Um riso a bafado veio de lá de cima, por trás daquel a porta.

O suor co r ri a -lhe pela te s ta , e sco r-

e vacilava, sofrend o t o n -

as mãos uma contra a outra. O

sangue fu g iu-l he do rosto, deixando-a branca, como o

mármore daqu e l a e scada.

Eudemô n i a apertou

18 CASSAN

DRA

RIOS

N um impulso i nco n tr o láve l,

la a tr a vess o u

co rre u p ara a escr r va nmn a

e

a s ala, e anriu

e n tr ou na oi o uote c a,

a gav e ta onde gu a rd a ra a quele UOI S meses atrás.

p eda ço ue rer r o n eg ro, n a

Ol hou a a r ma

estendida

s ô bre

o monte

de p a pel e

f i c ou imó v el como se tive s se sido ata ca d a

est ra nha

de um a d o enç a

que a impedia de fazer um só ge s to.

N

ovamente

riso re sso ou

pela ca s a,

dessa

vez reforç a do

o mesmo por um outro mais rou c o.

 

O r i so malicioso de um homem!

E

u demônia correu esca da acim a . E mpurrou

a por t a

e viu -o s .

Do i s vultos e s te n did o s

s ô bre

a cam a . Aquela

cama

ond e ela costumava dormir, com aque l a mulher que al i

es tava, fitando-a

a porta os dois vultos havi a m

recurv a da

s ô bre

o e spaldar .

Ao abrir

se separ a do.

Mila apoiara - se

no encôsto

d a cama e olhava

para

ela com os olhos em chispas. No escuro, Eudem ô nia viu aquêle brilho diabólico.

N u m tempo só ao grito de Mil a, qu a ndo a viu le va n -

tar o braço e apontar

Aqu ê le vu l to

para e la , o rev ól v er

ergueu-se,

disparou.

de homem

agarrou

a capa

jogada

sôbre a banqueta

e p a sso u como um relâmpago,

empurr a n do - a

tombava

contra a porta.

Ao mesmo tempo que Mi l a

desfalec i da para o chão.

Pouco depois a p o l í cia che ga va

se explicar

quem a havia

avisado .

sem que ela soubesse E como e por quanto

EUDEMÕNI. A .

~9

t

Mil a, sem mover-se, se m pensa r

soc orrê-Ia. Co m pl e t a m en t e dade in tensa e podero s a ,

e mp o ficara

na q u e l a

p o sição,

olhando p a r a e m fu gi r,

o corpo de s e m pr o curar

u m a i m o b ili-

d om in ada

p o r que a imped i a

de pe n sar.

E la

e

s t ava m or ta

por d entro, insensível e va z i a .

O u v iu qu and o o m é dico di s s e:

O ferimento

_ ain da es t á viva .••

é grave, pe r t o do c oraçã o, porém, ela

Talvez que Eudem ô ni a

t

pois n ã o se l e mb ra v a

iv e ss e p er di do

o s s e ntid os

qu a n d o a l evaram,

d e nada .

Homens estranh os

fizeram- l h e p erguntas

r

uma a pós

espost a s. Eudemônia per-

outra, porém não obtive r am

m a n ecia num mutism o

com o se não supo r t asse m

i nsano . Se u s o lh os e s gazeav a m-se

o p ês o do so no. A p e n a s uma fra s e

se re petia , fugindo

de s e u s l á bi os ,

e r a um gemido

que

br

otava d o seu c o ração:

 
 

-

M i la

eu a amava

t an to

a mava

Silva-

n

a.

t i tio -

Mila, eu a a m ava t a nt o

Foi então que o médic o s u rg i u

p e r a nte

o Juiz,

p a r a f a zer q ue a levas sem

nó s t ico e exigir

ho s pita l de psicopatas.

s e u diag- o

para

Tr atava-se

de um a d oe nte m e nt a l ,

vá-Ia p a ra a prisão.

não poderiam

le-

Assim foi no ho sp ita l ,

qu e t eve a notícia de que Mila

ã o mo r r era

n

lid

a d e

.

e que o processo pro sseg uia

d e vido

,

com a probabi-

psí-

de ser imp r onunci a d a

a s e u estado

qUICO.

20 CASS A NDR A

RIOS

Eu d e m ôn i a

comp r e e nd e u, muito e m b or a n ão o t i -

vesse visto uma só vez, que seu pa i ag ir a p or t rá s de tudo, arrumando advogado e n a tura l m ente t a m bé m " médico.

Sem que e l a comparecesse ao t rib unal a s e n tença se- ria lida. M esmo depois de ouvirem M i la , t a mb ém, af ir - m a r que el a e ra u ma doente mental , prov à ve rm e n t e ins- t r ui d a p e lo advogado.

M i la negara-se o tempo todo, a con f ess a r o nome do hom e m que e s tava com ela n a quela noite. E um mist é ri o se f ê z e m t ô r no da única testemunha ocul a r daquele crime.

Eu d em ô n i a , d ura n te êss e p erí o d o, so fr e u a taques de ner v os que fo r am aplacados com anest é si c os e perante uma junta m édica d e p s iq u ia t ras res pondeu à s pe r gun- t a s como o faria um a utôma t o.

~ra e la , uma . J é sbíca. c Um a h om osse x u a l com - sé l:i Q[

d i st ú rb i os men t ais.

E diante de todos os diagnósticos apr e sent ad os , ela continuava sendo uma criminosa que dev e ri a cumpr i r s u a sentença.

A atenu a nte permanecia em dúvid a . A pós tanto t e mpo no hospital, viria agora outra prisão, mais humi l hante ainda, poi s que ela sab i a perfeit a mente não estar louca. E s ti v er a s im, alucinada pelo ciúme .

Qua ndo . soub e por intermédio de uma enfe r meira, que casualm e nte m a ni fe stou - lh e o s e u pes a r pelo falecimento . do pai, pensando que já lhe hou v essem dado a notícia, q ue

EUDEMóNI A

21

escondi a m ao . seu c o n hec i m en to, d ev id o ao . s e u est a do, Eu- dôní a re cebeu um tão t e r rív e l c h oque q ue r e a l me n te caiu de cama, p assando . por difíceis momentos.

Um m ês se passou desde en t ão . e ela a l i m e nt a va a idéia d e q ue f ôra a causadora da morte do único se r que consider a r a n o mundo. Prêsa, na qu ele quarto, onde se s u - jeitava a t o m ar injeções e receber as visit a s d o mé d i c o, ela acredit a v a q u e i ria realment e acabar ficando louca .

Fô r a al g u mas vêzes para o . jardim acompanhada por aquela enferm ei r a horroros a, qu e nã o . a largava nunca. Passou a evit a r de ir para l á nova m ente , pois os passean-

I tes imp ressio n avam-na com seus aspectos lunáticos e pas- sivos , como se ti vessem deixado de ser humanos, para se tornarem aut ô m a t os, comandados pelos seus guias: _as

enfermeiras ,

Tinh a en tão í mpetos de gritar que não e stava lo u ca, que não er a n ecessária a electrodermia, qu e deveria e s- tar ali, que não p rec i sava tomar injeções, qu e nã o a obri- gassem a cont a r aque l a cena tantas e tantas vêz e s, que parassem com as pe rgun t as que se repetiam após in t er- valos curtos em que ela ficava só, a remoer s e us pensa- ment o s. E não f ôra capaz de explicar o q u e se passara , seus pensamento s pe r d i am-se numa lacuna sombria qu e se fizera em sua m ente.

Queri a m curá - Ia e traziam- l he a doença do passado para o . pr es e n t e . I riam c o ntamin á -Ia, p o is cada vez que se via n a c o nt ingência de falar sôbre Mila , minuciando cenas e e x pl icando certas familiaridades das duas , revi via a s ensa çã o q ue sel lB ra n aque l e sm o mentos . E e ntão . ela duvid av a s e seria capaz de enfrentar a vida sem ela.

2~

CASSANDRA

RIOS

Q . u ~r i ~ e x pl i c ar-lhe que est a v a sã , qu e não era real-

gost a r de mulher em vez de

h ' õ n i em ; . porém se lembra y a de qu e i ria p a r a a p ~i s ão o nde

estav a m aloj a d a s tantas crimi no sas e e stiemeci: a : : a ê - pa-

vo

Nã o era mai s dona de si .

T er i a que ir para onde êle s a l eva ss e m. Não a diantaria

r ec l a m ar. E nfim , pensou , que o hospital poder i a ser m e -

lh o r d o qu e a out ra prisão e re g ozijou-se querendo ame-

niz a r a rev ol ta, pois que afi na l

em um hospí ci o . Aq uêleedif í cio enorme, ond e ela esta- va ti n ha um letreiro b e m grande no portão, que dizi a:

de contas, n ão e s t av a

m e n t e u m a anormalidade

r e c a l ava. '

--

Ele p er tencia à Ju s tiça.

"Hospit al Psicop a tol ógíc o Hilman"!

Ela p r ofe r iu seu nome b a i xinho - "Eudemôn í a"

Era agora um nome c o nh ecido po r milhares de criaturas.

D ur a nte me s es ê le se r epetira

nais, conta n do sua h is t ória, deturp a da por mil mane i ras.

no s cabeçalhos dos jor-

Era ~ _ lésbi ~ a , filh a de um milioná r io.

Como i s so s e propagara ninguém sabia; o f a to foi

que os repórte r es h a v iam ten tado inv a dir 01 ho s p i t a l com intençõe s de foto g r a f á -I a . Ela, a mulher que tentara mat ar

a

amante , po r que a traíra com um homem. Um homem d es-

c

o nhecido, cujo nome Mi l a não queria revelar .

Rele mb ra ndo -s s de ssas passagens, Eudemônia con-

siderou que r e a lm ente teria que viver escondida, ela era

o ser estranho q u e rendo habitar entre tanta gente dife-

rente. N ã o h a v i a lugar para ela no mundo

dos que se

ju

l gam s ã o s só p o rque conseguem e sconder seus in s tintos

e

refrea r seu s imp ulsos.

EUDE M ÕNIA

23

E ud e m ô n i a, uma mulher lutando c ontra o mund o

tod o, dei xa nd o que d i scuti s se m s ô b r e s ua vi d a e que a

jul gass em louca, quando el a se sen t ia tão ment a lmente

perfe ita , quanto qu a l que r cr i atura qu e v i vi a liv r e , escon- dend o seus pe c ados at rás de u m sorri s o d is f ar çado. Sim, tam bém lo uca, o tanto quanto qu a l q u e r outr a criatura

apai x onad a, s o fre ndo po r ci ú me. 4 . d iferença , sendo tã o

gr

a nde , p ar a el a não tinh a muit a i mportância . Amava

a

al g uém qu e n ã o d evia, po r que n ã o r e produ z i ria

a e s-

P

é cie a união d as duas, s - o m e nte p or i ss o, poi s

o aspec t o

de todos dif er e um de o ut r o , p o rque também n ã o amar o

e o próp ri o se x o , co n f o r me a atração sof r id a , ou

melh o r, conform e o i n stinto?

homem

Eudemônia sorri u ao p assar a s mãos pe l os cabel o s. Curtos como e st a vam ago ra, d e veria parecer realm e nte uma figura e s t ran h a. J á pens a ra uma vez em cort á -lo s

assim, porém , desi s ti ra, acre d i t ando que de s go s taria o

pai

sas que s e debr u çav a m s ô b r e s eus ombros

ouro . O s c abe lo s havi a m sido s em pr e um probl e m a em sua v id a . D esde cri a n ça, nos momen t os de ne rv osi s m o, puxava-os fu r io samente enchendo a s m ã os de punh a dos dêles. Su a m ã e adve r ti a - a de q u e um di a a ca b aria fic a n - do careca , p orém h á bito ou m a ni a el a c re s ceu c om e ssa particularid a d e que punh a em funç ã o , nos m o mentos de contrariedade , p reocup a ndo quem a observ asse .

com o fios de

que a dmi rava t an to as s u as m adeixas lour as e s ed o -

Achav a divertida a e s tr a nha m a-

neira de de mon strar sua r ev olta . E tamb é m um di a p r o- metera qu e c ort ar ia s eu s cab el os, qu an d o e l a e st ivesse dormindo, p ara evit ar qu e a l go de mui to p io r a contecesse .

Mila, r i a - s e d e l a.

24 CASSANDRA

RIOS

Ou que ela acabasse qu a ndo os puxas s e

por arrancar ou qu e aca b asse

a cabeça ju n t ame nte c a r eca

N o hospital prometeram-lhe

uma vez qu e t omari am

e ss a providência

se ela não conseguisse

apren d e r

a r e-

fre a r tal impulso.

zê -l o. Cortaram- n o

E, fin a lm en t e,

um di a, ti ver a m

que Ia-

 

e até p a ssa -

ra m-lhe

a gilet e

bem rente na nuca para

das ore l has raspar

a penu gem

q u e

s

obrara. N o primeir o

d ia estranhou

a falta

dos cabelo s,

s en-

tindo um frioz in ho no pescoço, d epois acostumou-se.

E n-

fim , quan d o quis e ss e , bastaria

abrir a gavêta

e tir a r

de l á a trança

que a enfermeira

fizera

da cô moda ant e s d e

os co r rtarem. Co n s e ntiram

real i dade vam-na

mesmo

que ela a guardasse, eram to d o s sat is fe i to s .

pois na Respe i ta -

mu-

s

e us de s ejos

se n d o l o uca, porque

ela era uma

lher mil i onár i a, ú n ica herdeira de uma fabulo s a fortun a deixada por seu pai, do n o ex clu s i vo d e uma v astí s sim a

área, onde hav i am descob e rto petróleo .

berta,

culá v el, m u ltiplicando-se muitas vêzes. Um homem só , qu a -

Com essa desc o-

vulto incal -

sua fort un a

já considerável

t o ma r a

se dono de uma cidad e , que n ão pe n sava

e m c asar,

poi s

.

tinha

uma filha a quem adorava;

d e

ser um dos homens

m a i s farr i stas

p o r é m não deixava e c on qui s t ador e s ,

d e

quem se fa l ava

nas colunas sociais. Desc oberta

maio r ,

mais feno m e n a l ,

f ôra a ú l tima .

A única promessa

da ge-

ração

dos Fo rb e s

se d e smoronara

diante

da q ue l a sen-

tença.

E ~ _ demônia Forbes, uma lésbic a !

Não fôra por pouco que aquêle homem

a legre e franco consumira

tôd as

s uas e n e rgia s

de aspect o num eho -

EUDE M ôNIA

2'5

q

r a de súbito, depois d e t a ntos anos de fe l i zes primaveras.

ue terrível

que o lev ar a ao túmulo. A temp e stad e

chega-

Surgira

trui r

como um tu fã o, n as sombras o mundo de uma vida.

do ciúme , para d e s -

M o nstro! O terror

dos olhos verdes,

d e garras

f e itas

das l abaredas

t

g u ém acredit a ria

rada belíssim a,

do infe rno

-

O ciúme . Nã o f ôra isso, tu do

pois

n in -

da sociedade .

A mu -

eria continuado

como uma l enda fantásti ca ,

que Eudemônia, aquela mu l her cons i de-

a r a i n h a

d o s s araus

lh

e r que para l i sav a

o lh ar e s e imo b ilizava e xpressões de ad-

m

i ração, que p r ovoc a va e e xcit a va com o timbre miste -

r ioso de su a voz p r ofunda

e

e ro u ca. Aquela mavio sidade

ne r v ante qu e ela bem sa bi a us a r para c on q uistar, sem

nun ca precisar

c

realmente

a i nten ç ão.

S im, porq u e

suas

onquist as n ã o se consumavam e ela desprezava s e us ad-

í r adore s,

m

s

a b e r

como se ê l es n ã o ex ist i s s em.

c on q u i s t a s.

de suas verd a deiras

Agora deveriam Os ún i co s f lêr t es

qu e h a vi a m

ela. Os ol h ares

oculto s

e simula dos

sig nific a do a l g o para que ela havi a t roca d o

com outras mulh e r es.

Deve r i a m

tamb é m co meç ar a relembrar

das f e sta s

e m que só c omp a rec iam

c om de s -

c o brindo o que dev e r i am ser as r e uni õ es f emininas n a

cuida do . E então tir a r i am

mulh e res

que e la escolhia

s

u a s acerta das conc l usões,

mansão dos Forbes.

Nu nca até entã o , ninguém

j u nt as .

h

a via de s confiado

da s u a po r

quando M ila

partic u l ar prefer ê n c i a

v

por M ila. Nin g uém come n t a ra

N i ng u é m r e p a ra ra

ê-Ias semp re

se m udara para a c asa de Eudemônia.

l ação q u e deve ria ter ' surpreendido todos, principalmente

Oscorte j adores

De súbit o a reve -

de Eudemônia :

26 CAS SANDRA

RI O S

ç

"A m an t es".

Com qual dos seus admirad o res

Quem seria o hom em daquela no i te fatal?

Novamen te um rem oi nh o de pergunt as

Mila a t e ri a traído?

e l em br a n-

as a tordoa n tes,

a nu v i o u

o cérebro de Eud e m ôn i a.

Ela cerro u os d ente s, seus o l ho s perceb e ram

de novo

a quela cicatriz peque n a, ba l a a at i ngira.

perto

do s eio de M il a , on d e a

E

udemônia agarrou - a

pe lo s b raço s

e perg u n t o u ,

co-

lér i c a , q u erend o sa be r:

- Quem e ra aq u êle homem que e s tava com você na- quela n o i t e ?

A expr e ssã o de M i la, q u e a observ a ra

todo o tempo em

que el a se perde r a, re l embrando

de s fê z -se em

de pavor, co m o se aquela

o p assado, per g unta

a ti v e sse

s en-

traços ten c iado

para

a m orte.

Estremeceu

e sacud i u

a cabeça

n e g a ndo.

laram - se

e l a se con to rc i a

Não lhe s a ía s o m d e vo z.

e as l ágr im a s

cor r eram

S eu s o lh o s arr eg a-

enquanto

tumultuosa s

nu m a t aque h istérico .

E u demô n ia sacudiu-a exasperada,

ombr o s .

segurando-a

pelos

Aquela aproxi maç ão súbita foi c o mo s e uma l abareda

tivesse sid o l ançada, destruidoramente, um vu lc ão ador m ecido.

pela cratera

de

F oi um caos de torturas

que se ausentav a m.

D

esl i -

zou as mãos frias pe l as carnes nuas de seus ombros, c o n-

tornou

o pe sc oço .

e retezad a s ,

apertando - lhe

a gargan -

E U DEMóNIA

27

ta. A v o z s umindo

t ro , como se viesse do coração aqu e la

num gemido rouco, pelos l ábio s aden-

súplica:

-

M ila

M i

conta-me

Os o lh os fito s

no seu ro s to congestionado,

como se

a lou c u ra a impossibilita s s e

furecia .

d e come ter o gesto que a en-

Mil a meio desfa l eci da, esperan d o

que ela tive s se

C0 -

r

sos, de slizando - m ais

V iu-lhe os l ábios úmidos,

a gem,

C o rage m

p ara

que? S e ntia

os dedos dela convul-

e se contraindo .

r es folegando, lou -

e mais, aperta ndo

entrea bertos,

c os sus p iros. A respira ç ão ofe g ante estu f an do-lhe

As f ac e s v ermelhas.

Tôda ela tremia possu í da

o p e ito . de u ma

s

ensação p erigosa

que se revela va

com mais ímpeto

nas

suas pupilas negras. A penumbra

e aquela e x pre s são

dia-

l i ca d e Eud e m ô nía t r an s bo r dou

o á pice

d a s ua re s i s -

tência. M ila acercou-se m ais, de s es p er a da,

como uma ne-

vró

t i ca

n o momento

de des ab afo

e como bo r bulhõe s

d e

ca

s c a t a s

a s l ágrima s

rolaram

d e s e us

o l h os, en so pando - lh e

todo

de p o rcela n a chin e sa.

o r os t o q ue r e luziu a m o r e n ado

e l iso como um a l as c a

- Mata-me Eudemônia

No a u g e

Mata- me, por Deu s

da aluci naçã o

e n o co n tato

as m ã o s

p e lo s o m bros e nfe br e c ido

d e ntro do pró prio

a f i ladas

d e Mila. Pux o u - a en volveu - a como

e l ongas

de slizara m desenfre a d as

pela c i ntura

1

desceu

I e qui s e sse enterrá-Ia

O rosto en t rea-

ê l es co mo um a s eta.

da s a u -

c orpo.

á vid o à procura.

Os l á bi os e ste nderam- se

p or e n tre

o beijo es t er to ra nte

bertos e a l íngua apontou

B

dade , d o ód io, da dúvid a e d o d ese jo .

ô c a co nt ra

b ô ca s ug aram

2

8

CA SS ANDRA

RI O S

Um beijo misto de sentimentos que s e d e sencon t ra-

v a m provo c ando um tremor de loucura . Não queria ter-

min ar nun c a e naqu e le b eij o e naq u ele abraço fic a ra m as

dua s s uspensas num d e sfale c iment o tota l da ra z ão . Como

s e o único motivo do mal que as hav i a tortu rado fôsse a

lemb ra n ça da s ensação que lhes provocava o contato s e-

dento de suas bôcas apa i xonadas.

A pressão dos b raços conti n uou for te qu an do a que-

la bôca rubra foi afastando a po u co a pouco, co m o se fô s-

se difí c il descolar-se uma da outra .

Um silêncio de cansaço botejou l ágri m as entre e l as.

_ Eudemônia, meu amor

A voz de Mila parecia o u tra, naq u ela maviosidade

an g u s tiante , suplicando re s po s t a s de expressões, p ro - cur a n d o v e stígios de amor naqueles olhos nu b lados, que- rendo s e n t i r o d e sejo estremec e ndo naquele corpo qu e ap e rt ava, qu er endo ouvir daqu eles l ábios e m po l gado s

a i nda pelo beijo, a confissão do sent i mento que só a e l a deveria pertencer .

Eudemônia permanec i a imóvel , fria, sem esboçar pa -

l avra, c omo se aquêle beijo tive s se provocado o torpor de um anest ésico.

E st ava em s eus braços num langor de e s tarrecimeri-

os ímpetos que haviam lhe

destruído a vida.

Mila beijou-lhe o rosto todo, proc u rou suss u rrar aos seu s o uv i d o s as pa lavra s d e a m o r que nunca dante s pro -

to , buscando talvez refrear

f e ri r a .

EUDEMÓNIÁ

29

Eudem ô nia não podia conter por mais tempo o cru-

c i an te desesp ê ro que lhe estraçalhava a alma . : : :;e nt iu de - se jos de gritar, grrtar lou ca mente até Ca i r exangue, sem vi d a , para não sentir tanto. Aquela mulher pe rve rs a que-

r

el a

perdia as f ô rças diante do desej o, desfalecendo de

ho rror e de loucura, pr ê sa daq u ele abraço t ã o d o l o ri do .

i a d omin á -Ia sabendo da atração que exe r cia s ô b re si, e

--V oc ê s e es queceu, Mila ?

-

O que, me u bem ' !

Não eram vozes que quebrav a m o sil ê nc i o , suss u rro s qu e despedaçavam corações.

O q u e me fêz?

a p e n a s

. Não fale m os nisso por Deus. Eu l he exp l i car e i .

V o c ê t e rá qu e co m preender. Mila era o p r ópr i o de s f al e-

os

b r aç o s pen didos num abandono convidativo, e ntre a br i n - do o s l á b io s provocadoramente, passando por ê les a lín- gua u m edece n do-os com uma sensualidade estud a da. Es- tend e u o b r aç o para uma mesinha perto do sofá e a luz frac a d e um abaj u r tornou aquela penumbrá azulada .

N um ges t o s u ave e de l icado, ela passou a mão pelo rosto

de Eudem ô n ía, roçou os dedos pelos seus lábios que se cerra vam num a d ecisão fria, e depois deixou-a cair es - palmad a sôb r e o pe ito.

cim ento esp a rgindo s u spiros. Se u olhar lânguido,

, :/!:ssemovim en t o l evou o olhar de Eudemônia, que se

fixou n aquele s sei o s que pareciam querer saltar fora do sout ie n .

-

Vem

V

e m

Eudemônia

eu quero você

30 CASSA

N

DRA

RIOS

- Não. N ão pOS S o! Nã o que r o .

Nunca, Eudem ôn i a se de br u ç ar a

assi m em pranto s de de s ejo est a m pa -

e

tão h o rrorizada

da no ro s to de M il a. U m pr a ze r ch e io de dor, u ma tris- teza ch ei a de v i n g a n ça , escorre u p ela sua alma , c omo lá-

di a n t e

d a e x pre s são

grim a s gada.

de or v alho e sco rre ndo

na

v i d r a ç a

pel a ma dru-

Mila ofereceu-se mentos provocadores,

mais, aproxim a ndo- s e

com movi-

Nã o podia se deixar vencer. Eu d em ô nia empu r rou-a.

Mila retevê-a

do os braços ao redor

com os lábios muito perto dos seus, p assan-

de seu pescoço ,

- Vem Eude m ônia

ja-me

dá-me

a su a bôc a

bei-

Ela agarrou-a pela cintura

com u ma fôr ça e s t ra nha,

que não combina va c o m seu ti po . As m ãos perc o r r e ram

o corpo de l a d e senfreadamente,

que faria estremecer

co mo a procu r a

da chave

O' desejo.

Foi nessa atitude

que as surpre e nderam.

Elas

não

haviam percebido

quando a port a

e a qu ê le ho-

mem de avental

branco ent r ar a ,

se abrir a ac om pa nh a do

por uma

jovem, também de avental br a nco ,

 

l:le tossira

parachamar-lhes

a atenção.

Eudemônia voltou-se pa ra lis a da de pavor

diante da-

q u e le flagrante

disesse alguma coisa.

e ficou a olh â -los à espera de que alguém

_ Senhorita Eudemôni a ,

não s e i como conseguiu

es-

eapar,

não chamei

a polícia

e também

não trouxe

co-

EUDEMóNIA

migo nin g uém

da e volte c o m i go.

para levá-Ia à f ô rça. Espero

31

que me aten-

Mila qu e se levanta r a

e já

se recompusera ali m e smo

sob os olh ares i n difere ntes

dos

d o is, só entã o, p r eo cup a da

com a pre s e nça de Eudem ô nia que deveria àquelas h or a s

estar no ho spital, provavelmente

muito bem vigiada .

,I
I

então,

liberta da primeira

s e n s a ção

por tê- Ia vist o no v a-

mente

é q ue ela pensou ni s so e indagou

aflita:

- Com o foi que voc ê fugiu Eudem ô nía seguiu loca lizar-me?

? Como c on -

Eu demonia caminhou

altiva

em direção do m é di c o e

disse:

 

-

D r . Jasper,

o senhor sabe perfeitamente

que eu

não e s tou

lo uca. Pode mandar-me

para

a prisão.

É

que éu d ev o e star. Sou uma criminosa,

tudo vim aqui para certificar-me

o q ue provei coisa mo rta

parece - me que eu qu is m atar

mas

não sou? Al é m de

d e

da mulher

que M ila e stava v i v a

horrível

diretor,

foi um g ô sto

que beijei o cadáver

Olh o u p ara M í la com aqu ê le olhar de poder

que so-

mente ela sabia expressar.

Um o l har

que revelava

des-

prêzo e in diferença. M í l a perc e beu o estremecimento ese ace rco u q u erendo comovê-Ia:

dela

-

Eud emônia.

não me olhe assim,

por favor

-

Tenho que cumprir

um ano

de pris ã o

V a mo s, Dr. Jasper, p o r ter atentado

contra a vida de s ta mu l her que

considero

apenas

mort a . Pode levar - me para a outra prisão. Falta a sua pala vra.

32 CASSANDRA

} t IOS

A s e nh or ita es t á enganada.

Vai volt a r pa r a o h os -

e a or - ob-

pital . E x ec ut a d o

d e mconsiste

serva ção . m é dica.

o m a ndado do Tr ib unal

d e J us tiça

e m q u e a senhorita

esteja em constante

 

-

O senhor

sabe que não . So . U lo . u c a

 

a h!

se

te

m mêdo q ue eu vá perverter

as presidi á rias

p o de fica r

t

r anqüilo

são elas que me con qui s t ar ão

-

Eu dem ô -

nia so l tou aquela gargalhada

sar c á stic a

que Mi l a s empre

g

o stara

de ou vir.

Um a garga l hada

que desa fi av a

to do

m

u ndo . e que a fa z i a r ea l m e nte

u ma m u l h er super io r .

Dr. Jasper

se manteve

na mesma atitud e

ca lm a, en-

qua nt o . a l evava p e lo . braço. Corno um cavalhei ro . riu a mi s t o samente:

pr o f 'e-

- Não . seja sarcástica,

eitamente

f

i

n tel i gen t e .

a sua sit u ação.

sei que você c o mp r eende p e r-

Voc ê é um a mu l her

cu lt a

e

Eude m ônía

soltou-se

do . br a ço . dêle e parou

à sua

de deboch e. E

f

re nte

dando . ou t ra vez a q ue l a gargalhada

proferiu exagerando . muita in d ignação.

- Mas, Dr . , como pode o senhor

cometer tamanho . c u l ta e i nt e li gen te " !

d e slize? ! Uma louca c o mpreensiva,

Corno pode dizer semelha n te absurdo?

A e nfermeira também

quando . ê l e a o lhou rancoroso,

- Vo . cê tem às v ê ze s

se riu, porém, logo fi c ou séria,

. : f': l e i a exp l icar-lhe

a respeit o

de seu mal, ela o . im -

pedi u de falar caminhando . à sua frente, desc o ncertando - o

c o m o . seu s a rcasmo:

~UDEMÔNI A

33

Não . precisa expli ca r-me doutor. E u sei perfeita m e nte

taorí a s não . va l em para nada a s sim c o mo também

serviram

tes d a p sicología . V2cê s ~ i v er a m

Di

o

. que tenho,

à s vêzes,

Su as

de nada

outros ama n-

o . que tenho . semp r e.

de tanto s

as teorias

e os estudos

cob aias em o b s e r va ç ão?

go , c r i aturas

~

-

assim como eu? Onde estão . elas? f tpren-

der a m a amar

m e iguic e e um be l o . corpo . de mulher L _

- ao . ho . mem e a

desprezar a f r agilidade,

a

-

--

-

_

Se nh orita

Eu d emôni a ,

todos aqu êles

que qui s e-

i

be r l a r-se

do in s tin t ; " p erv ertido,

suce - c riatu r as no r mai s

t a n -

um n ú mer o . que se d es tac ou por -

f or!lEl ~e ~

Entre

didos em nossas clí n icas . T o r n a ram- se

~

é apena s

na f re n te,

belas da no ssa cidade,

~ muito s desde hoje têm s e u l ar e até filhos.

tos a s e n hor i t a

que tem as c i f r a s

mais

que t ev e a sua desenfre a d a

Isso . tu do . despertou

exist e diferença n enhuma

lésbi c a qu a lqu er .

do . com a ed u c a çã o . qu e tiv er a m ,

mas aten ções.

criatu ra

cumpr o . com o que a lei ex i ge me p ed iu, antes de a gravar- s e

por ser uma das mulher e s

e f i n a lmente

pelo . d e sfecho

paix ã o por aquela

mulher.

mas na realidade

não .

e uma outra

a a t e nção ,

entre a senhorita

Os nos so s clientes são . tratados

Meu d e ver,

de ac ô r-

porém todos com as mes-

uma

como . médico, perante

é o de tê- Ia

n a sua situ a ção

em observ aç ão ,

e com o . que seu pai o seu estado. Êl . e - IDorreu

!!lf e liz _ ill l x . pen s ar . J lue a geração .

dos Forbes

iria ter-

minar

em s u as m ãos .

A última,

de uma família

tradí-

cíonal ,

- - --

-

Qu e se extinguiu

pelo ego í smo.

-

Interrom-

peu

e l a fita nd o- o

revo l tada.

Pouco importa

que seja

assim.

Nem to d o s têm

o . poder

de saber

último . de uma família

que se foi reduzindo .

que serão . o . de doze a

S4

CASSANDRA

RIOS

meia-dúzi a

e de meia-du zi a

que a f o rtun a casaram-se

d

a a pen a s o s F or b e s

uma.

Sabe

p

o r

que? Para

estranhas, brinhas e f i nalmente

mos também. Durante

ao funeral dos meus limitados parentes.

tat i va

l é sbic a

nunca, poi ~

fa l . " O s e nho r n aõ c o mp r e e nde qu e eu j a mais serei uma

i nü Í her pa r a o hom e m? Que eu n ã o quero libertar - me

não caí s se em mã o s

p

t

r imos com primas, meu pai com minha

ô da minha

tios c o m so- mãe, pri -

indo

vida me diverti

Cresci na expec-

S

ou uma

de que um dia fic a ria

com uma fo , rtunaque

só. E eis o final ;

n ã o poderei aproveitar sai r ei daquel~ - hospí-

qu ~ " vejo " jam á i s

do meu in s tin t o, que r econ s truir

emotivas que poderiam i n f lu e nc ia r - me

que n ã o quero pensa r

t ô da

minh a

ni s so, pois teria

v ida, esqu ec er passagens

sobremaneira, po-

rém

nunca capaze s de conve n cer-me

de que não sou

nor-

mal e que sim ha v eriam

de provoc a r

con f usões em

meu

c

ére b ro durante

anos

e mais anos

Tenho vinte e oito ano s , d ou t or

asper. Se pretende

ou persuadir-me, a s seguro-o

J

realmente suge s tionar-me,

de que não o conse g ui rá, se p r et e nde hi p n o tizar-me

zendo-me crer que sou uma mulhe r

fa-

influ e nci a da p e las con-

venções sociais relativas

a o sexo, t e nha certeza

que não o

conseguirá

e que a terap ê utic a

el e c t r otérmica

e a ps i ca-

nalític a redundarão

mude por vontade próp r ia,

onde fugi hoje, velha e sem ter vivido, esta vida que po-

de

que eu

em uma t r ag éd i a .

morrerei

S e espera

n aq uele quarto

d er ia ser a mais bela das quimer a s .

se preocupe

mais comigo. O senhor

Vamos doutor ,

não

leva para o hospital

um corpo s em-alma.

Est á

em s u as m ã os a minha

sen-

tença. A ss ine o diagnóstico

e eu irei p a ra o presídio ,

po-

rém, dentro de um ano estarei completamente

livre. Via-

ar e i nome

j

EUDEM ô NIA

para longe, onde n ing u ém

me conhe ça . Mudarei

por favor,

dout or Ja s per

35

de

J

á e ntão a voz de Eu d emô n í a

perdera todo

sarcasmo

sup l ica va

como uma cria nç a,

pela liberdade.

Os olhos

marej aram-se de l á g r ima s e ela a vançou p a ra ê le to-

m a ndo -lhe as mãos

entre as s u as . Os olhos o fitaram

í n-

quirido r es e suplic a nt es.

Mila que os obse r vava

em si-

lênci o, sem-ânimo p ara fa lar, tam b ém a cercou-se, rand o a resPQsta .

espe-

I

T

ambém a enf e rmeira

p are c i a

ansiosa pela decisão

do Dr . J asper que se manti n h a

ca lado ,

de cabe ça

incli-

nad a, o l h a n do par a

o chão.

 
 

d e tempo. Prometi

a seu

- pai. qu e você não iria

p re c i s o p ara

a pr isão.

Você não pode ir

pa r a

l á de jei to

n enhum,

pro met i t a m I l ém ql l e --. f ur ia de

-

"

YQQ . ê ~ um, !al l Ulher i g Jl8 "l às ou t r as

- compreenda ,

Eude-

mônia que eu somente q ue ro - ã : ; u d á -Ia?

Não pense

que

tudo t er m inou, o advo g ado Supremo Tr i bunal. Tal v ez

vai f azer revoguem

p e tição a pena.

ao Juiz do Até Mila

contri b u irá

para isso, tenho c erteza .

"

e então

, quan-

do n ã o h á salvação para o do e nte, quando não h á mais

nada f azer,

temos qu e cruz ar

as m ã os, rezar

e esperar

que a co n t eça um milagre . dizer?

" compreende

o que eu quero

U

m s u spiro profu n do

e m p o l g ou

o peito de

Eudemô-

nia , pe rcebera

naquelas palavras : a promessa

de liber-

dade. E la o l hou para Milae

sorriu satisfeita.

Despediu-

se s e m -ra n cor, metia.

confiant e

no que o Dr . J asper

lhe pro-

i

36 CASSANDRA

RIOS

Ao entra r no elevad or , v o l tou - se p ara M í la, e avisou-

Volt a rei para descobrir

a. Lembr e- se desta prome ss quem e ra aqu ê le homem

Milacorreu

e gritou para que ela a o uvisse:

não de i xe que

ê

saiu dos lábios trêmulos

era Vitor

Um soluço ress o ou pelo corr e dor enchendo os ouvi- dos ' de Eudemônia que ergeu as mãos par a tapá-elos, não q u erendo ouvir M il a cho ra n do t ã o-d eses p er adamente, re - voltad a com aque la r e velaçã o qu e e l a b e m s abia ser uma terrível e proposital mentira.

Não me e s queça, Eu d emônia

Petran

eu a de Mil a :

_

les a f a çam

E a revelação Aqu ê le homem era

,1.

~

j

CAPí T ULO I I I

Eu de m ônia

pita l s em s e r v i s - ta.

e xpli cara c o mo consegu i ra

sa i r do hos -

S o ube naqu e la t arde que log o m ais à noite h a v e ria

uma reuni ão g e r al d e méd i cos e enfermeir as- assis t e nte s ,

para fe s t ejarem a ch eg a da da dir e t o ra e pre s t ando- lhe hom e n age m por t e r s i do e l a consagrada a mai s co mpe-

tente e um a das p r imei ras

entre os p s iq ui a t ras

for mad o s.

T ev e e ntão a id é ia de sa i r para i r ve r M il a . Não pre -

cisou v encer ob s t ác ul o algu m p ara ex ecu t ar o plano . P e r- maneceu co mo se mpr e . S i lenciosa e ca lm a . Fi ngi u in g er ir ' o sopo r í fero qu e a en fer m e i ra lhe deu e as s i m que el a se

retirou do q u arto,

vestiu-se n ovamente e parando aqui e

ali atrave ss ou o corredo r ,

dim, atraves sou o p á tio como se estivesse pa ssea n d o e

foi dist a n c i a n do - se

uma visit a nt e saiu e ainda

teiro que a pe rscrutou t ô d a gan a ncio s amente .

s a iu calma me nte

para o jar-

até alc a nçar

o port ã o. Como se fôsse

ou s ou cumpriment a r o por-

o ns e -

guiu lo ca liz ar Mi l a que se ha v i a mud a do pa ra um a pa rta-

mento s itu ado no centro da cid a d e . N e n hum

atender a m ao telefone pode riam im agi nar que fôsse ela,

Eud e m ôru i a depoi s d e a l g uns t elefonemas,

c

d os que a

as

CASSANDRA

R I O S

pois além de mudar

ce rta fr a n cesa

viaj a r a p ara o e x t eri or.

d e nome, fi ngiu sota que de u m a

de quem foram amigas, e q u e há mu ito

Uma d a s amigas che g ou a c o n t ar -l he o c aso inteirí-

nho e el a t e ve que fin g ir a dmiraçã o e c ur i os i dad e. At ur ar todos os deslavados comentá rios que ou v iu a o utr a falar

a seu respeito, antes de con s e g ui r o enderê ço d e Mi l a.

Não era saudade, nem vi n gança que a in c itar a a fu - gir para ir à sua p r ocur a . Nã o sabia real m en te a r a z ão

daquele ato . Fôra in s tig ada

po r u m a fô rça sup e rior .

q u e

por intuiçã o , a o gira r a maçan ê ta, percebeu não est ar

tr a ncada à chave. Conse g u i u

fôra a té lá e agi a assim c o m o s e pretendesse cometer um novo crime.

Nem me s mo quando a b riu a po rta d o apa rt amen t o

e xplicar - se p or qu e razã o

ainda s u bmetendo- a ao s

seus testes psic a nalíti c os , f a l ando- l he se m p r e como s e ti- vesse cert e za de que ha ve ri a de ven c er , co m o se c o n si de-

rasse que a sua alma fô s se de argi l a moldá - Ia novamente.

a dou-

tôra Méltsia iria conhec ê- I a. Es t ava inte r essada no seu caso e gostaria de submetê- Ia a a l g u ns d o s s eus tes tes.

o Dr . Jasp e r

c ont i n u ava

mole e se p u d ess e

Uma tarde, o Dr. Jasper infor mou- a d e q u e

Eudemôni a quis esquivar- se, po rém, a i n fo rma ç ã o

d ó Dr.Jasper

qu a l e la teri a que a t ender d e qu alq u er maneira.

não pass a r a de u ma mera for m a lidade à

EUDEMôNIA

89

E l a r e vo l tou-se enquanto esperava que êle voltasse

ac ompa n h ado da psiquiatra , que deveria ser velha e feia como u ma bruxa do s cont o s d a carochinha. M a is uma hum i lh açã o que sofreri a, con si d er ada também um a dé - bil ment a l pelas mulheres , embora esta p r ovàvelmente

f ôs se v e l ha e não lhe importasse

sua opinião . Um dia

aquilo tudo teria que acab a r. Nada cconseguindo êles ha- veriam d e d eixar de pe s quisá -la.

Par a d emonstrar seu d esprê zo , f o i para a janela e re-

s olveu que f icaria de costa s, m e smo depois que el a en-

trasse e a c um primentasse. Nem haveria de lhe respon- der. Eudem ô ni a se intri g ou . Já recebera a visita de t a n-

tos médico s, por que haveria de se importar com a curio- sidade d a d o u tôra! O f a to foi que durante aquêle mo- mento de e sp e ra um nervo s ismo estranho dominou-a , fa- zendo - a trem er.

A port a se abriu lentamente e os passos esperados

ressoaram atrás del a . O Dr. J as per chamou-a pelo nome. Como nã o o btivesse resposta avisou:

- Eude

Ela c on tinuou em silêncio sem se mover.

- N ã o tem importância , Eudemônia

apresento-lhe a doutôra Méltsia .

pode ficar

de costa s você quiser

f alarei com você de qualquer maneira, como

não poderia ser de uma ve-

lha . " Era pausada e experiente , porém cálida e m ac i a como uma n o ta musical .

Eudem ônia continuou tremendo , Estava nervosa. Queria v o l tar- se porém não t in ha cora g em . Não conse-

Aquel a v o z

não .

40 CASSANDRA

RIOS

guia mover-se. Apenas prest a va

fundamente estranha que tr ocav a a l g u mas p al avr a s com

o dr . Jasper.

aten çã o naquel a voz pro-

- Por que você não me avi s ou que e la n ã o q u e r ia

conhecer-me?

Não a teria

vindo

abo r recer

-

Eudemônia

a receberá,

tenho c er t eza ,

d out ô r a.

Méltsia

-

Não

não

a cham e . Dei x e-a. V oltar e mos

o ut ra

vez

quando ela quiser.

 

E ' UDEMONIA

41

o

S eria, como dizi am, u m a lou ca ?

Q

ui s estu dar-se.

Começou por enumerar

os a t os e

s se nt i m e nt os

que poderia julgar

fora do norma l .

P

r i meiramente,

proferiu

baixinho

de

emotíva. Mu i to

si p a ra

si,

era u m a homoss exu a l,

emb o ra não se apaixonasse

exaltada

exa g era d amente

conquista

com facilidad e ,

Segundo,

era sempr e

os í m p etos

em qualquer

mórbido s qu e a i mpeliram

o alív io qu e sentira ,

dament e pela mulher q ue f ôra a cau s a única de sua des-

a praticar

um crime. Depo i s,

tão-ine s pera-

a o p er der

o i n terês s e

Por um seg und o

Eudemônía

pensou que fôsse

so-

graça.

frer um espa s mo, ta l a e x cit aç ã o

qu e lh e pr o v oco u a quêl e

Sõ men te, então, querendo analisar

tudo, s e deu con -

timbre

de voz. Então

acreditou

que estivesse rea l mente

t

a d as poucas

vêzes que Mila s urgir a

louca. Como poderia justificar

mentos

N ã o como outrora,

excitando-a.

em seus pensa- Fazendo-a s o-

piou

tal sens a ção estremecer

dos pés à cabeça, fazendo-a

que a arre- quase que

frer, m as s im como a lguém a quem ela d esejava

rever

num

êxtase divino.

Ouviu a porta

bater

e voltou-se

rá-

para r e corda r

seus

traços e verif i car

se pr o va r ia

nova-

pida como s e pretendesse

já era tarde,

port a. Abriu-a. Fechou-a novamente apertando a m a çanêta e ampar a ndo-s e

t a mente transtornada.

v e r a don a d a qu e l a v o z, porém

para num g e sto rápido , na port a, comp l e-

êles já havi am

se retirado ' .

Correu

a

Que se impressionasse

não seria nada de sobrenatural,

extremo , era realmente inconcebível .

com o timbre

d a qu e la

voz,

porém excitar - se àquele

Ela deu alguns cama.

passo s

e f o i sent a r- s e

a os p és d a

Não podia

se conformar

u e for ta lec ia há meses .

q

a dúvida h orr í vel

c om aq u ela SUp O S IÇao

da qual vin ha

f ugin d o

m e nt e a q uela sen sa ç ã o

provocav a m. Para arrancar

bre aquela n oi t e.

de ê x t as e

q u e os se us be l os o lhos

sô -

dela a verdade esp er ada,

Fin a lme nte,

Eudemônia,

semicerrou

os ol hos e pa-

receu senti r

de novo o arrepio

que a perc o rrera,

p ela

po -

derosa f ôrça d a ressonânría

da voz daquela m u l h er

que

e la n ã o v ira ainda.

Apen as um a voz invadindo-a ,

quem? De uma m édica,

s

um tim bre de voz es t ra nh o e p rovoca nte.

até

ser horrorosa

o coração .

De

e de -

e

que deveria

ajeita d a, p o ssuindo apenas

como dom a inteligência

N

ã o ! Def initivamente,

não es t a v a

louca. E s tava

sim

enfraqu eci d a p e l os aborrecimentos

por que passara.

Que-

rendo ape g a r - se

às coisas mais

ab s urdas,

como para

l i-

42 CASSANDRA

RIOS

EU - DEMONIA

4:1

vrar-se

daquela solidão. Daquele pavor

ao qual ela se

m

e ira q ue, por certo, passara

por a li. Mas, gritara

real-

negava reconhecer:

ao de ser uma prisioneira.

Teria que

m

en t e todos aquêles pensame nt o s

d e revo lta .

sofrer evidentemente

como explicar a sua capacidade

o efeito de t a ntos

choqu e s. Senão

tudo .

para analisar

Haver i a

de exigir d e s e u a dvoga do

tamente,

mesmo que tiv ess e

q u e di spor

que a gis s e imedia- de t ô da s ua for-

tuna

para l ivrá - Ia

daqu e la situação .

Não era justo!

Ou-

tras

como ela estavam

sôltas

e e ra m

c o n s iderada s

nor-

mais, somente oculto pe l a

po r que não desconfiavam face da hipocrisia .

do instinto

Mesmo Mila, com quem

a

tinha m surpree n dido,

não era considerada

assim, ap e -

sua

n

as

e la era

julga d a

anormal .

Ent re t a nt o

E udem ô -

n

i a ergueu-se,

com o se pretendesse

gritar

revo l ta .

A t ravessou

tamento

era sem motivo

e as mu l heres com facilidade

infalível

lésb i ca, t e ndo u m a silhu e ta

eg í p c i a .

a pequena dis t ância

no

até a s al a do s e u apar-

Não e m paz

le va r pela sua

ser uma

e olhou-se

espelho do s p és à c ab e ça .

n ã o a d e i xava m

que os homen s

se dei xa v a m

tática

c o mo se ela pud e sse

realmente

de ninfa e um rosto de Vênu s

 

-

I d i o t a s.

Imbecis

Loucos são v o

i gno-

t es. que i r o s.

ran

médicos

d e me i

psiquiatr as

de co-

A porta abriu-se e ela surpreendeu - se

com a expressão

da e n f erme i ra, q ue tentou aca l má - Ia, acenando com as

mãos. Antes

pedindo-a de f a l ar:

acercou-se im -

qu e e l a falasse,

Eudemônia

-

Cale - s e .

Eudemônia

não podia

crer

que se desco n tro l ara

e

tivesse gritado,

ao ponto d e c ha mar

a a tenção

da enfer-

.,

,

A e n fermeira

acercou-se mai s e estendeu

cando o braço; ia di ze r a l go qu an do E u d e m ônia

su a r aiva, neurastênicamente:

a m ã o, to- e x plodiu

- Louco s são vocês, por não rec o n h e cer em o s ão do doen- te. Onde foram diplom a dos ? N a a cademia dos burros?

por b e m,

compr a r e i

Avi so-o s, d iga- a todos que se

D

eixa-me!

Tira

e s sas

mãos

de cima

de mim!

não sa ir daqui

êste hospit a l

e f a rei

dêle um zoológico

A enfermeira

ria, a f astou - s e

recuou

um p a s s o, olhou-a altiva

mai s , pre ten d e ndo

s air

por

onde

e sé-

en-

tra r a . E udemônia

idéi a s ú bita

aquela j ovem não era na da de s prezível, muito ao contrá -

rio, tinha

ac e rco u- s e que lhe veio à ca b eça.

bem feito ,

d

e la e sorriu

fustiga da pela

então

que

o s

Reparou

um rosto

a p ele lisa e corada ,

olhos m es mo arre g alados

eram

sil e nc i ando

uma expectativa que se conf u n di a

medrosa,

entre o ve ràe e o cinza. Os lábi os s em batom eram v e rme-

se ela o escondia

Foi rápid o

e agra - dizia:

var sua

seu gesto. N em imaginou

debaixo daquele avental

lhos e o c o rp o . " Como poderia

de um azul mesclado

sabe r

sôlto e sem cinto?

que ela pudesse gritar

pa r a

p e rto enquanto

situação.

Puxou-a

- Não tenha m ê do , sab e qu e pelo fato

bem

nem por i sso sou uma corpo

nas ve r o seu

não vou lhe fazer nada. Você

de me con s ideram não

uma l és b ica, quero a p e-

Enqu anto fala v a,

liciosame n te semíc e rrado s,

a v oz e nrouqueci da, os olhos ma-

las-

o s l á bios estendendo-se

44 CASSANDRA

c i vos, Eudem ô nia,

c

o m prec i são

RIOS

nos gest os,

i a d e sab o -

toando

e n quanto

a en-

ferm e ira

um a um os botões do uniforme sem que ela compr ee ndesse

po r que r azão

se

mantinha

calada

e pass i va,

sem ev i tar

s u as at itu des.

 

de pav o r?

E ud e m ô ni a

o lh ou - a

Teri a fi ca do para li sa d a nos olho s e percebe u

q u e e la recobrara

a ca l ma

e que

pensava

alguma

c oi sa

não

de todo

desfav o ráve l ,

p ois

continuava

muda e q ui eta .

 

Sob o av e nta l ,

surgiu

um a s ai a pret a

br a nca .

reação

de gabard in a

e

da e e l a b as-

a combin aç ão de " li n g érie" n e l a u ma

come n tou enquanto fit ava seu s seios q ue a pont ava m

t ante reve l a dores

moça provoco u

A sem i nudez

mais au d a ci osa

por sob a l eve f a z end a :

-

Aqui está uma paisa g em

que c er d e l a . S e i os m aravilhosos.

que jama i s

pod e rei es-

Eudem ô nia Fitou

p e r sc r ut o u - l he

o corpo e sorri u

e co mp r e e n de u

sati s - que

feit a .

aquela im o bilidade

como se conhecess e su fi c i enteme n te

im pedí-la de prosseg u ir.

h

de seg u rança.

os o lho s d e m u i to per t o

era um desa fio.

Acreditava

di a nt e

Aquela mulh er agia

o seu c a r á t er por cer t o

p

a r a

que e l a

tão c h e i a

averia

de recuar

da s u a passiv ida de

Eudem ô nia

se nti a

entre

os braços

o seu corpo, sem

mover um múscu l o.

tremecimento . Eudem ô nía

pe i to. Inclinou

b

estremeciam

ainda , como se e l a es ti vesse

Se nti u també m

diabó l ica com mais

u m ca l or

tom ou co n ta fôrça

e u m e s- de l a e

ao a q u e

Um a fú r i a

agarro u- a

de en contro aprox i m a ndo e v e r m e l h o s

a ca b eça e quis beijá - Ia , d os l ábios po l pudos

então co m o se e l a de s ejass e

ô ca entreaberta

o be i jo ou p i or

d es-

com mêdo . A e n fe r meira

EUDEMÔ N I A

45

viou a cab eça e tentou

de seu s b raços. E u de m ô -

nia, po r é m,

p a r ecia

l i vrar-se resolvida

a n ão solt á -Ia

e d ispo s t a

a

con t inu a r

l ut and o para

con s egui r

o beijo. En qu a n t o

lu

tav a m, Eudem ô ni a,

d i zia enfurec id a

pela

r e vo l t a :

- Po r que se deixou abr a çar ?

N

ão pens o u

o s eu d es p r e z o

que e vo c ê

e

recu as s e?

tam

tirá a se n saçã o .

tenho ce rtez a - di sso , e m bora nunca

é u m h o Va m o s

p

sa fale

ã o vou mordê-Ia

u tive sse c o rage m ?

Q u e eu sen t iss e

V er á q u e p o r u m beijo e po r um a b r aç o

como e

bé m pod e r á ser co n siderada

eu

or a! não r ec u e

n

porqu e s en-

o qu e

di s so ? me e m -

coi-

ver á qu e é a mesma cois a

tenh a pro v ado

que falar

não diga a lguma

mas para

não

evite

u rre

q uero ou vi r su a v o

s e faz ju s à b e leza dêste ho s pita l .

qu e voc ê des p erdiça pelo s corre d ore s

P

are c i a e ntret a n to

q u e aquela

mulher

não qu e ria