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facqueline Russ

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.A.-3DD-C-
À-GítffiB@rrcffi

ffi,-d Os métodos
em filosofia
Segunda edição preparada
por France Farago

Dados lnternacionais de Catalo$ação na Publicação


(CIP)
(Câma.ra Brasileira do Liwo, Sl Brasil)

TR,{muçÃel DI
Russ, Jacqueline
0s métodos em filosofla / Jacqueline Russ ; {lmnntfr n Avml I mm ïtffmr*
tradução de Gentil Avelino Titton -
Petrópolis, RJ : Vozes, 2010.

Título originaì : Les méthodes en phiÌosophie


rsBN 978 85 326-2428-4

1. Filosofla - Estudo e ensino I. Farago'


France. II. Título.

10-07941

Índices para catálogo sistemático:


CDD 107
9*;:r
Petrópolis
1. Filosofla : Estudo e ensino 107 :'l
( ) 2{)011, Arrnand OoÌin

'l'ílrrlrr rrliginaÌ ftancõs: Les méthod'es en pki'l'osophie


S(ìgundà ediqão preparada por France
Farago'

l)ireitos tle pubÌicação em língua poúuguesa - Brasil: Sumário


2010, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, ltX)
25689-900 PetróPolis, RJ
Internet: http://www.vozes'com'br
Brasil Prefácìo,7
Introdução,9
Torlos os direitos reservados. Nenhuma
parte desta obra poderá sor reproduzida ou
e/ou quaisquer meios (eìetlônico ou mecânico' in-
transmitida por quaìquer tbrma Parte I A teoria do método, 13
em quaÌquer sistema ou banco de dados
cluindo fotocópia e gravaçao) ou arquivada I A ideia de método, 15
sem permissão escrita da Editora'
ll As regras e conceitos especíÍicos do método ÍilosóÍico, 27
Diretor editorial
lll Os íundamentos íilosóficos do método,41
Frei Antônio Moser
lV Retórica e filosoÍia, 57
V Saber ler, 79
Editores
AÌine dos Santos Carneiro Parte ll O mótodo da dissertação filosófica, 87
José Maria da Silva Vl Definição da dissertação filosófica, 89
Lídio Peretti Vll Os diferentes tipos de enunciados, 95
Marilac Loraine Oleniki Vlll Os diferentes tipos de planos, .l 05
lX O trabalho de preparação da dissertação, 'l 15
Secretário executivo X A dissertação redigida, .l 39
João Batista Ifueuch
Xl Exemplos de preparação e de redação, 157
Eiti'toraçd'o:l{aria Paula Eppinghaus de Figueiredo
Parte lll O método do comentário de texto, 187
Projeto grrif'co: Victor Mauricio Bello
Ilustraçã'o d,e capa:Fragonard,'4 inspi'raçd'o'plntura
a óleo Museu do Louwe' Paris' Xll Dissertação e comentário de texto, 189
Capa: Dominique ChaPon e Emma Drieu Xlll O método e seus princípios diretores, 193
Airc-lnattAquarella Comunicação Integrada XIV O método da preparação: uma estratégia de trabalho, 199
XV Exemplos de preparação e de redação
ISBN 978 85 32 6 2428 4 (edição brasileira) do comentário de texto, 21.1
ISBN 9?8 2-200-35496-1 (edição francesa)
Conclusão,235
Bibliografìa relativa ao método, 237
índìce dos termos ou conceitos principais,24l
peia Editora Vozes Ltrla' índice geral,247
Iìsl,e livro foi composto e impresso
Mffiffi

ffiffiffisffimtrmçffim ffi
ffiffiffinffiwrutraffiwffiw
W

ffim ffiwruffim
Este capítulo XII dedica-se a0 mesmo tempo à semelhança existen-
te entre a dissertação e o comentário e à especificidade deste último:
análise que reflete o procedimento de um autor, o comentário de texto é
a escoÌa da fldelidade ao pensamento.
Xll Dtsçt l(t\a\ílt{oMt \tARIr)t)T tt\tu

ao próprio pgl$I$91!glgtor: não se trata, propriamente falando, de intro-


duzir suas próprias ideias, mas de sgp*e$91gq!9$g g Í!q.l0ppgr;ry a gtg.coq
lgq!rl{.+d. _q_-la!g!gqÌgia. Se a dissertação é a escoÌa au UUggACq!9!9$g
mentq, o comentário de texto é a escola du 444i&Êg uulglg*gllo.

AtXqn"xmmru mhsc*rwmçffies sffi[]re ru


.Ëmrmum
elwcn"üt;t m mrm$
0 comentário de texto consiste em trazer à luz_Apfg!lg11!1.3:jl,r9!!-9l1?_ (,
qgl$tttlpl.qg-gm.te$9 (que supõem, eüdenternente, a compreensão do tema
Analisaremos aqui, sob um ângulo unitário, o método do comentário de tex- e da tese do autor). Tfata-se de esclarecer o problema contido no texto pene-
t,o, quer se trate de uma prova escrita (prova de ordem geral do exame de admis- trando o tema e a tese, em seguida de bem deslindar a organização conceitual
são aoprimeiro ano do Instituto de Estudos Políticos de Paris; opção fllosofia do e, por fim, de proceder, eventualmente, a um estudo reflexivo sobre o trecho
concurso de admissão às ENS; trabaÌho escrito de mestrado etc.) ou oral (oral proposto. Esta parte reflexiva, embora não exigida, aparece, no entanto, como
do concurso de admissão à UÌm/Sèwes; oraì do concurso de admissão às ENS desejável. A concÌusão efetua um balanço rápido.
Lyon; oral do Capes teórico etc.). Sem dúvida, estas provas não se apresentam
de maneira idêntica e o fato de que um exercício seja escrito ou oral não pode
ser considerado como secundário ou acidental: existe um método específico da
eqrosição oral, scndo a diferença resultado do meio de comunicação: a palawa
num caso, a redação escrita no outro.
Vamos tratar como um todo o método do comentário de texto, privilegiando,
por outro ìado, a Íbrma escrita. 0 estudante deve, de qualquer maneira, exer-
citar-se por escrito, mesmo para um exame oral: sua preparação deverá adotar
então a expressão redigida, que acrescenta rigor às análises, sem esquecer que
uma exposição é enunciada em voz alta e deve ser viva.

[] ü ssffi ff' {'mqlffi ffi tr ü{:$vyr#nü;,.{r ü


q} r

c$un;xu; 6*N^mur;x$ $sfilffi çf$1üü&$r trÏ''[ffis


q{.$ffi mk}ü{.$ff {:ulüïr h$ ffi"!u*$mrí$$ wxfi gffi n"ncüms

Altofg 4g3pryg!4_ti9 possui ao mesmo tempo uma semelhança profunda


com a prov4_4a dlssertação e uma especificidade que a torna irredutíveÌ a este
último exercício: embora, sob certo ângulo, o método seja o mesmo, não se trata,
,jamais, de produzir uma dissertação sobre o autor.

Unidade de exigência
No cntanto, apesar desta semelhança, a clivagem é reaÌ: na dissertaçã0, as
Ir;rrrr:ir.s cxaminadoras exigem que os candidatos realizem e conduzam um traba-
llru.butLut,ï.tgal (utilizando, evidentemente, os conhecimentos filosóficos).
o lorrrcrrl:i,r'io dc texto, pelo contrário, deve obedecer, sem nenhuma paráfrase,

I r,{) 191
KilNI

ffi rryndtmdm ffi


0"f{
sffi[^ü$ prrnffifipmffi$
df;mmtmtrffis
Canalizar com eflcácia sua atençã0, confrar no texto e, por flm, pro-
ceder de acordo com uma estratégia conceitual, eis os princípios direto-
res do comentário de texto.
Xlll O uÉrooo r srus pnrncípros DTREToREs

a descreve em sua essência e em sua intençã0, a atenção não é diretamente


utilitária, mas espiritual e desinteressada. Capacidade de concentrar-se e de
abrir-se (sem pensar demais no resultado imediato), espera autêntica, ela per-
mite descobrir melhor o objeto, nos torna disponíveis e receptivos e, assim, nos
põe na direção dos textos.
Prümcfgrims elüretores Contra as distrações e as dispersões, a atenção verdadeira dirige o estudan-
te para o próprio objeto do texto, para o sentido do trecho, sentido no qual se
Saber ler
deve "apostar".
0 primeiro princípio diretor diz respeito à necessidade de uma leitura aten-
ta, destinada a identiflcar os corlc,eilos Lmport4ntes, que desempenham um pa- Apostar no texto e no sentido do texto
pel estratégico, e a fornecer as deflnições de base desses conceitos.
AUqstajqlg*sgÍi4-o lo
Por que sublinhar particularmente a importância da leitura atenta? Em _t.{9, em vez de enveredar imediatamente por uma
crítica "acerba", "maldosa", ou desprovida de verdadeira compreensão - eis o que
nossa cultura, formas de comunicação visuais ou auditivas relegam a segundo
pedem todas as bancas examinadoras: "Se é perfeitamente permitido não aderir
pÌano o exercício tradicional da leitura, cuja função centraÌ na boa condução
às teses de um autor, ainda assim seria necessário não transformar a incompreen-
dos exercícios fllosóflcos é necessário ressaltar âqui. rc_fli14jJq_cqllBlg çgt
prova são de seu sistema em objeções contra ele. Bergson, nem mais nem menos aìiás do
_-oÂgqg$gq tg$!g.e,não se timite às obras de segunda ou terceira mão. A
que qualquer outro filósofo, não é certamente inatacável. Mesmo assim é preciso,
de comentário não se improvisa. Fruto de um trabalho de reflexão inseparável
antes de apontar suas possíveis contradições, dar-se ao trabalho de compreendê-
de uma frequentação permanente dos autores, ela supõe que o candidato saiba
lo e de explicá-lo. 0ra, de uns anos para câ, e tratando-se de autores tão dife-
realmente ler e aprofundar um texto.
rentes quanto Platã0, I(ant ou Bergson, a banca examinadora encontra-se diante
"0 comentário requer [...] uma leitura atenta e mesmo ügilante. Como os
de comentários cuja única ambição parece ser a de denunciar a incoerência e a
textos selecionados não exigem dos candidatos nenhuma erudição (mas aten-
absurdidade de posições consideradas como sendo as do autor [...]" (Concurso de
ção, leitura, julgamento), eles trazem em si próprios o princípio de sua expli
admissão a Ulm/Sèwes; parecer da banca examinadora, sessão 1989).
cação" (Exame de admissão ao Instituto de Estudos Políticos de Paris; observa-
Com efeito, compreender um texto é fazer do trecho proposto à reflexão
ções da banca examinadora, sessão 1989).
um todo signiflcativo, tornado claro e esclarecedor. Ora, muitos candidatos não
conflam no texto: não levando sua atenção até às suas possibilidades extremas,
Canalizar a atenção
perdem assim pelo caminho elementos signiflcantes e decisivos e) por vezes,
Nesta leitura do teúo proposto, permaneça senhor de sua atenção: este chegam até a caricaturar e deÍbrmar frases portadoras de sentido. É preciso
controle da atenção desempenha um papel central na condução do comentário. captar, através da atençã0, a lógica interna do texto e seu verdadeiro sentido.
Não existe comentário bem-sucedido sem uma vontade de conceltrar-se sobre Esta intenção permitirá compreender um pensamento que, na parte reflexiva,
todog*g!_g]g-[g$g_?!r,9!gntaggs, para estar em condições de destacar aqueles será reintegrado, compreendido historicamente e, às vezes, criticado. Mas o ato
que desempenham um papel essencial. Adquire-se a compreensão do texto pro- de confiança no texto deve necessariamente preceder toda crítica.
cedendo com atenção. É preciso lembrar-se aqui das palawas de Malebranche:
"A atenção tla mente é [...] uma oração natural, pela qual obtemos que a Razão
nos ilumine". ffi *'gan"nixar r"$ffiìâ e$trütdgüa cmnrceitua[
Ao contrário de uma inteligência distraída, que caiu na armadilha de re-
Ler bem, mostrar atenção, apostar no sentido do texto, tudo isso são
presentações anedóticas, o pensamento atento parece fazer parte integrante
regras fundamentais. Por fim, mencionaremos, c0m0 princípio estruturan-
do trabalho reflexivo atuante no comentário. Como mostra Simone Weil, que

195
194
( ),, i\lt r{ )t )( )s I M I Ilos()FlA Xlll O vÉrooo E sEUs pRtNciptos DIREToRES

L0 rlc l,0do trabalho de comentário, o plin-cípio da."estratégia conceitual". A paráfrase


S. a e straté gia signiÍica aqui um . onl unÌõ-ffi Oeïì oonilerüdas*GiTìnadb
"0 obstáculo mais comum continua sendo a paráfrase, muitas vezes con-
a permitir a compreensão do texto, ela será antes de tudo conceitual; é fundida com a fidelidade à letra, sem benefício para a compreensào e para o
apoderando-se dos conceitos, esclarecendo-Os, que o estudante elucidará,
sentido" (Mestrado de fllosofla. Parecer da banca examinadora, sessão 1988).
progressivamente, o sentido do trecho. AÌguns desses conceitos assumem,
E, com efeito, quando se trata de explicitar os conceitos, de sublinhar sua
no interior do texto, uma função central. A estratégia atuante no c0mentá-
organização interna, sua articulação, o movimento pelo qual cada conceito im-
rio consiste, antes de tudo, num esforço por desÌindá-los, torná-los claros e
portante exige um outro, seu significado real e dinâmico na lógica do raciocínio,
explicá-los (cf. supra, P. 154s.). a paráfrase representa, de acordo com sua etimologia, uma "frase ao lado": falar
paralelamente ao teú0, ao seu sentido, contentar-se em reaÌizar desenvolvi-
mentos proÌixos e difusos, em repetir 0s mesmos termos em vez de deslindar-
r\rmmdüüh;ns dm çcnnn'lwmt;$rüm de texter
lhes o signiflcado, esta é a essência da paráfrase. Ameaça constante, a paráfrase
É preciso apontar escolhos e armadilhas diversos para evitar ao estudante procede paralelamente ao desenvolvimento em vez d. tJ3z.r àlql qry-gpk_
trajetos absurdos ou itinerários perigosos. gãq reaLEIa não anaìisa o sentido dos conceitos, não dá o seu porquê: ela repe-
te, modiflcando-os, alguns elementos gramaticais. Ao contrário do trabalho de
Estudo parcial, que privilegia fragmentos do texto hermg4.êuüca- que é a interpretação de qualquer texto que grug-gr-ffinsão"

Alguns estudantes procedem ocupando-se unicamente de uma passagem


g gxplicpç3g e que, portanto, é constitutivo da tarefa do comentário filosóflco -
a paráfrase, permanecendo passiva, não interpreta nada; ela não transcende o
do texto, pondo assim de lado certas partes. Ora, todo estudo fllosófic0,
pela
dadofEnquanto a explicação e o estudo hermenêutico são ativos e dinâmicos, a
própria deflniçã0, tem por objeto um encadeamento AÌob 0r conse-
paráÍrase, a0 mesmo tempo passiva e tautológica, Ìimita-se a redizer a mesma
guinte, a abordagem parcial e unilateral revela-se rigorosamente defeituosa.
coisa sem fazer o leitor progredir. À inventividade produtiva da hermenêutica,
Ela é denunciada unanimemente pelas bancas examinadoras de concursos ou que fornece esquemas de inteligibilidade antes inexistentes, a paráfrase con-
de exames, um bom estudo deverá flxar-se no conjunto global: na unidade de trapÒe a esterilidade. I
um pensamento. .à
A redução do comentârio a uma dissertação
Estudo "pontilhista"
Por fim, convém, evidentemente, não reduzir o comentário a uma disserta-
0que é o estudo pontiÌhista? É o estudo que se perde em cada palawa,
ção. A especiflcidade do primeiro nem sempre é percebida pelos estudantes.
detendo-se em cada ponto, em cada fragmento) em vez de proceder de manei- Não se trata absolutamente de pôr o teúo de lado ou entre parênteses * c0m0
ra global, flxando-se no essencial. A abordagem pontilhista quer agarrar-se às
porções infinitesimais do texto, não deixando que se perca, ao passar, nenhum
se ele representasse um eÌemento não essencial - e de levar a bom termo um
outro exercício: é o próprio texto que tem a primazia e deve ser o objeto, por
termo. Ela "soletra" literalmente - e laboriosamente - cada fragmento, circuÌa excelência, do trabalho.
impacientemente no interior de todos os "microelementos". Embora este cuida-
do de dissecação parta de uma boa intençã0, ele não corresponde absolutamen-
te àverdadeira tarefa analítica, interessada em ater-se aos elementos reais, sem
atomizar o conjunto. Além disso, a paráfrase está à espreita!

197
XIV
m mrétodo da
preparação;
u,#ffirffi mstratégtm

dw trabat[rm
UtiÌizaremos um texto de Ifunt para embasar as etapas do trabalho
preparatório e expor as grandes linhas do método.
XIV O rraÉrooo DA pREpARAÇÃo: uMA ESTRATÉcIA DE TRABALHo

ele, um animal que tem necessidade de um senhor. Seja


como for que ele se arranje, é impossível imaginar como ele
poderia conseguir, para instaurar a justiça pública, um che-
fe justo por si mesmo: seja escolhendo para isso uma pessoa
única, seja dirigindo-se a uma elite de pessoas selecionadas
ffi hserrv;tq:ffi es rw$mthvmw *x
no interior de uma sociedade. Pois cada uma delas abusará
mï$$$üs el*trmtdgfi m ç'xwu*glmr;x{ffi
ril;n sempre da liberdade se não tiver ninguém acima dela para
Aqui a meta é, em primeiro Ìuga! efetuar, juntos, um trabalho preliminar impor-lhe a autoridade das leis".
(KANT. "ldée d'une histoire universelle
para dominar o texto, para desentranhar uma espécie de "esquema operacio- au point de vue cosmopolitique".
nal". 0 objetivo não é fornecer regras, comO que mecânicas por assim dizer, às ln: La philosophìe de l'hìstoire. Paris:
quais você deveria obedecer rigidamente. Um esquema idêntico, absolutamente Aubier-Montaigne, p. 67-68).
impositivo, não pode ser útil, de maneira universal, para expÌicar, de acordo com *Eis o problema tal como Kant o enunciou na proposiçào
uma abordagem uniforme, um texto rigorosamente abstrato de Hegel ou frases precedente: "O problema essencial para a espécie humana,
aforísticas de Nietzsche. aquele que a natureza obriga o homem a resolver, é a ins-_
lauraqào de uml Sociedacle civil que administre o direiiõãË
%

maneira universal".
Texto de Kant que ilustra o método de preparação

Algumas linhas de Kant nos Íornecerão um ponto de


partida:
" Este problema+ é o maìs dìfícÌl; e é também o que será A pu'm6x;xm"mçffiel u:firn c{}ür"fr ffi-ffïtáN'üffi
resolvído por último pela espécìe humana. A dificuldade A primeira operação consiste na leitura atenta do texto, No decurso des-
que salta aos olhos, desde que concebemos a simples ideia ta leitura vai delinear-se, e em seguida aflrmar-se, a preparação propriamente
desta tareía, é a seguinte: o homem é um animal que, a par-
dita, que consiste:
tir do instante em que vive no meio de outros indivíduos de . em revelar o moúmento e a progressividade do texto, seu encadeamento,
sua esoécie, tem necessidade de um senhor. Pois ele abusa
sua "estrutura dinâmica", e isto graças a0 estudo da forma gramatical e da
com toda certeza de sua liberdade em relação a seus seme- análise conceituaÌ rigorosa;
Ihantes; e embora, enquanto criatura razoável, deseje uma . em deslindar, a partir destas análises: o tema, a ideia geral ou tese, a pro-
lei que limite a liberdade de todos, sua tendência animal ao blemática e 0 problema, as implicações.
egoísmo o incita todavia a Íeservar-se, na medida do pos- 0 texto a ser comentado inscreve-se num contexto preciso. Em particular, a
sível, um regime de exceção para si mesmo. Ele precisa, análise conceituaÌ, para ser bem conduzida, implica a posse de conhecimentos
portanto, d" u11:S1!pl*g!9-Uig!g:93 fggdgp3lllçu--. fllosóflcos globais. Mesmo que, em certos casos (exame de admissão ao Instituto
- lal e o-íorce a gbedecer a utla vontade unìversalmente de Estudos Políticos de Paris etc.), o comentário de texto não exija um saber
a q""t ;"d" ,rrl È;tta sei livre. traã*õïrGïã*
-Jdid";g,;i"i
ele encontrar este senhor? Em nenhum outro lugar senão
preciso, não deixa de ser verdade que a posse da cultura fllosófica constitui um
apoio eficaz em toda a pesquisa.
na espécie humana. Ora, este senhor, por sua vez, é, como

201
200
()s ,r.lÉrooos EM FlLosoFlA XIV O vÉrooo DA pREpARAÇÃo: UMA ESTRATEcTA DE TRABALHo

A estrutura gramatical O estudo conceitual preciso: pôr em


evidência a progressão e a estrutura dinâmica
ordem e gramática. As formas gramaticais representam estruturas lógicas
que remetem às próprias bases e fundamentos do pensamento e, nestas condi- Conceitos essenciais. A análise conceitual precisa fornecerá a chave do tre-
ções, a estrutura gramatical reflete
o itinerário reflexivo do pensador. Assim' cho apresentado para a reflexão. Procedamos ao estudo dos núcleos semânticos
os termos de ligação exigem uma atenção toda particular: advérbios e locuções essenciais: não à deflnição de todos os termos sem exceção - o que nos levaria
diversas são signiflcativos. Do mesmo modo, a pontuação articula o pensamen- ao pontilhismo e ao parcelamento absoluto, à fragmentação da reflexão - mas
to. Para compreender um texto, temos aqui outros tantos elementos de análise à deflnição dos conceitos fundamentais. Através desta abordagem (coqjugada
muito reveladores. 0s "portant0", "por conseguinte", "assim", que escandem a com a análise gramaticaÌ), chegamos a apreender e descrever o dinamismo do
demonstração ou a argumentação, marcam o encadeamento das proposições ou pensamento, mas também a descobrir, para além do tema, a ideia geral, a pro-
argumentos e traduzem o modo de organização das ideias' blemática e o problema subjacentes (o problema que iremos reveÌar, não aquele
expresso por Kant).
Exemplo. No texto de Kant, a primeira frase ("Este problema ["'] espécie EscoÌhamos, portanto, os termos fundamentais, cuja importância é efetiva
que vai for-
humana") está em itálico; estamos aqui diante de uma proposição e que desempenham um papel decisivo. Seu número varia, evidentemente, de
necer ocasião para uma explicitação no teú0. 0 problema será ao mesmo tempo acordo com o trecho estudado; mas c0m0 assinalálos? 0 entendimento desem-
explicitado e iniegrado numa demonstração rigorosa. Deve-se distinguir bem o penha, sem dúúda, uma funçã0, mas, uma vez mais, a "cultura" desempenha
problema de Kant, expresso no início do texto, e nosso futuro problema' surgido plenamente seu papel. É graças a ela que o estudante está em condições de
da probtemática. É preciso excluir toda confusão' apreender as ideias ou noções verdadeiramente portadoras de sentido. Será ne-
conjunção de coordenação que introduz uma e4licaçfu ("pois ele abusa"),
,,Pois,,, cessário fixar-se nos termos relacionados com a fllosofla, veriflcando que eles
precisa, porhanto")'
e,,portanto", co4lunção que permite hazer a consequência ("ele desempenham um papel decisivo no teúo. Procurar-se-á em seguida outros ter-
e de
deinam ver uma estruhua lógica precisa: estamos diante de uma argumentação mos não filosóficos importantes (esta regra, evidentemente, constitui uma in-
uma demonstração que levam a uma primeira conclusão assinalada por'!orta,nto". 0 dicação de método muito flexível). Eis a lista destes termos: problema, homem,
pensamento está igualmente ritmado pela conjunção "mas" ('mas onde") e também animal, senhor, liberdade, criatura razoítvel, lei, egoísmo, vontade particular,
por "ora" (ora, este senhor") e, novamente, pela conjunção "pois" ('!ois cada uma de- vontade universalmente válida, ser liwe, justiça pública.
,1as", em particular ("mas onde irá ele"), nos mostra uma evolução É preciso então passar dos termos aos conceitos, ou seja, de expressões ou
ias"). 0 primeiro
posto em questã.o. palawas ainda gerais e mal delimitadas, muitas vezes polissêmicas, a acepções
importante no raciocínio: aquilo que precede será, sob certo ângulo,
No caso bem particuÌar de nosso texto, os termos gramaticais indicam ritrnos lógicos, fllosóficas precisas, válidas ejustas no interior do texto, e não apenas no quadro
demonstrações e conclusões. Seria absurdo não tirar partido disto' geral do pensamento do autor. Na verdade, é aqui que a tarefa se torna extre-
mamente complexa e difícil. Com efeito, num mesmo autor, termos importantes
A estrutura primária do texto através são muitas vezes portadores de diversos sentidos (ex.: "transcendental" signifl-
ca, em alguns textos de Kant, "que constitui a condição apri,ori, dos objetos" e,
da mediação do estudo gramatical
em outros teúos, "que pretende ir além do domínio da experiência").
o trabalho efetuado pela mediação da análise gramatical permite chegar Portanto, é o trabalho de delimitação precisa do sentido dos conceitos que,
pela
a este resultado, inteiramente proúsório, de uma estrutura constituída na pesquisa, irá desempenhar um papel centraÌ. É preciso, por assim dizer, ca-
proposição (,,este problema humana") que enuncia o problema e por uma
[...] çar os signiflcados adaptados ao texto. É aconselhável proceder com a ajuda
demonstração em duas Partes: de um bom dicionário, de preferência adaptado ao ensino superior, parafazer
. "A diflculdade [...] ser liwe": primeira parte da demonstração' a triagem e refletir sobre os significados múltiplos fornecidos. Assim, vamos
. "Mas [...] das leis": segunda parte da demonstraçã0. registrar as definições obtidas:

202 20i
Os uÉrooos EM FtLosoFlA
XIV O vÉrooo DA pREpARAÇÃo: UMA esrn,qrÉcr,q DE TRABALHo

. r "Justiça pública": neste teúo, estadojurídico em que os homens, no seio


"Problema": aqui, diflculdade teórica e prática cuja solução permanece úü
priori incerta (trata-se da instauração de uma sociedade ciül que adminis- do Estado, gozam de seus direitos de maneira igual, segundo a ideia de uma
vontade legisladora universaÌ.
tre o direito de maneira universal),
r "Homem": todo o texto de Kant analisa o homem como realidade ambi Muitas explicações conceituais estão acompanhadas do termo "aqui": as pa-
gua, a0 mesmO tempo como ser biológico pertencente à espécie animal mais lawas são explicitadas no seu contexto. Quando Kant vê na liberdade uma par-

evoluída da terra e c0mo pessoa que se eleva ao reino do universal e da Ìei.


ticipação narazáo e um ideal, esta concepção é própria dele (embora encontre
suas raízes na grande corrente racionalista).
É preciso notar esta ambiguidade e esta polissemia do termo: o homem per-
tence ao reino da natureza e ào reino dos fins. Qual a flnalidade desta pesquisa conceitual? Ela permite perceber melhor o
. "Animal": aqui, um ser vivo, peltencente ao reino natural' Kant realça sentido e a estrutura dinâmica do texto.
Assim, o elenco de conceitos e a análise dos termos fundamentais põem
amplamente este aspecto da essência humana: o homem integra-se no rei-
em condições de captar o sentido da passagem, mas também sua organização e
no da naturezal existe como ser vivo que busca seu interesse próprio para
sua progressão. 0s conceitos não devem ser compreendidos isoladamente, mas
satisfazer suas necessidades (individuais).
. "Senhor": o senhor é umapessoa que exerce uma dominaçã0, de maneira através da unidade orgânica do texto (isto é bem claro no que diz respeito a
não arbitrária, pois sua intenção é - o que o texto assinala - elevar o ser "vontade" e a "ser liwe").
humano (particular) ao universaÌ' a saber, àquilo que vale para todas os
indiúduos. Estrutura dinâmica do texto: sua descoberta. A combinação da análise
o "Liberdade": designa, em primeiro lugar, uma faculdade de agir sem co- gramatical (que havia desembocado numa primeira estruturação) e do estudo
açã0, ultrapassando toda medida em relação aOs seus semeÌhantes, facul-
conceituaÌ que acaba de ser efetuado deve levar a destacar uma organização em
partes, organização não estática, mas móveÌ e que traduz uma caminhada.
dade inscrita em nOssa natureza. Notar-se-á mais adiante a expressão "ser
liwe", que se opõe diametralmente à liberdade natural. Estamos, em primeiro lugar, diante do enunciado de um problema (frase
. "Criatura razoável": o homem, o sujeito, enquanto participa datazão,fa- em itálico). Este problema não é expresso distintamente por Kant no início da
passagem e é por isso que nós o apresentamos aos estudantes para eliminar as
culdade dejulgar que nos faz aceder ao universal. "Razoâvel" (rai'sonnable)
aplica-se antes à conduta, a0 passo que "racional" (rati'onnel) qualifica o ambiguidades. Toda a primeira parte (e a segunda) têm como finalidade expli-
conhecimento. citar a própria natureza da aporia, do probÌema considerado centraÌ por Kant.
. "Lei": aqui, uma regra imperativa universal, válida para todos, que rege a Esta primeira parte pode ser apreendida c0m0 um conjunto demonstrativo que
chega a uma primeira conclusão sublinhada por "portanto" ("ele precisa, por-
atir,idade dos homens. Somente esta lei (ciúI, política etc.) põe o homem
em condição de escapar ao império de suas tendências animais e egoístas. tanto, de um senhor"). Mas a segunda parte constitui, também ela, umavigorosa
. "Eg0ísm0": tendência a procurar exclusivamente seu prazer e seu interes- "demonstração-argumentação" que reforça a primeira. Evidentemente, esta se-
gunda parte obedece parcialmente a uma forma dedutiva.
se individuais.
. ,,vontade particular,': opõe-se radicalmente àvontade universal. Avontade A combinação da análise conceitual e da análise gramatical nos Ìeva, por-
designa, com efeito, a faculdade de agir de acordo com regras. Se estas re-
tanto, à enunciação de um duplo raciocínio, no qual se explicita a própria natu-
gras são particulares, ou seja, referentes a um só indiúduo ou a alguns indi- reza da diflculdade sublinhada no início da passagem. Estamos diante de uma

úduos apenas, a faculdade de agir permanece subjetivamente particular' cadeia de argumentações, em que os argumentos se sucedem uns aos outros.
.
'Vontade universalmente válida": trata-se aqui da faculdade de agir de
Eis, para o leitor atento, como se apresenta esta "cadeia", esta "argumentação-

acordo com regras válidas para todo ser razoável. demonstração" ritmada por conjunções:
. "Ser liwe": é eúdente que "ser liwe" designa aqui não um fato, mas um ideal 1) "Este problema [...] humana". Enunciação da diflcuÌdade (relativa à ins-
e um devir, o acesso a uma existênciatazoítvel e submetida ao universal'
tauração de uma ordem políticajusta).

204 205
XIV O vÉrooo DA PREPARAÇÃo: UMA ESTRATÉcIA DE TRABALHo
()s vt'rot-ros ËM FìLosoFlA

por flm, afirma que se trata de "instaurar a justiça pública", o trabalho con-
2) "A dificuldade [...] ser liwe". Primeiro elemento da aporia, da diflculda-
ceitual nos mostra que estamos diante do tema, a saber, a instauração de uma
de: "0 homem tem necessidade de um senhor" para fazer a passagem do paúi-
ordem política justa, concernente ao Estado e suas relações com 0s cidadãos
cular ao universal.
("pública"), ordem que administre o direito de maneira universal.
Elos demonstrativos no interior deste conjunto: deflnição do homem como
E quanto à tese ou ideia diretriz? Para alcançáìa parece possível condensar
animal que precisa de um senhor ("4 dificuldade [...] um senhor"); justificação
novamente (em 2 ou 3 linhas) as diferentes partes do texto -já reunidas no
do enunciado precedente: a vontade do homem obedece às tendências egoístas
estudo da estrutura dinâmica - e fazü aparecer assim a ideia geral, que corres-
particulares ("Pois [...] para si mesmo"); o senhor elevará, portanto, o homem
ponde, quase sempre, à tese do autor. Aqui, obtemos o enunciado seguinte: "0
ao universal ("Ele precisa [...] ser liwe").
problema dajustiça pública, ligada ao Estado, é muito difícil porque os dirigen-
A argumentação-demonstraçã0, conduzida por Kant com rigor, estabeleceu
tes são homens egoístas e submetidos a tendências individuais, não levando em
que o homem tinha necessidade de um senhor para aniquilar suas vontades
consideração o universal da lei: todo senhor requer um senhor".
particulares. Mas a aporia ainda não foi estudada em seu cerne. É na terceira
A ideia diretriz do texto exprime geralmente a tese do autor - o objeto de
parte clue Kant vai ao centro do problema' A demonstração irá explicitar o nú-
sua demonstração * distinta do tema, muito mais geral. Passar do tema à tese
cleo da dificuldade. A conjunção "mas" assinala um obstáculo fundamental' Daí
é ir do explícito ao impÌícito, de modo a chegar à ideia central dominante, ao
o enunciado do segundo elemento da aporia:
redor da qual o trecho se organiza.
3) "Mas [...] das leis". Explicitação da diflculdade (enunciado n. 1)' Já que
o próprio senhor tem necessidade de um senhor, a instauração dajustiça repre-
Problema e implicações
senta uma tarefa difÍcil.
Elos demonstrativos no interior deste conjunto: 0 próprio senhor tem ne- É questionando o texto e a ideia geral que faremos surgir 0 problema, a
cessidade de um senhor ("Mas [...] espécie humana"); todo chefe (humano) aporia central do texto. Eis algumas destas perguntas:
tentará deste modo abusar de sua liberdade ("Ora [".] leis"). o Como passar, na sociedade organizada, do império das paixões à esfera do
Conclusão deflnitiva: não só o homem tem necessidade de um senhor, mas direito universal (dominando racionalmente estas paixões)?
o próprio senhor tem necessidade de um senhor. Por conseguinte, a instauração . E, cont efeito, o governante não é ele próprio um homem, um ser finito, no
dajustiça choca-se com um problema antropológico essencial. Encontramos uma qual as paixões devem ser domadas (por um senhor) e que, portanto, muito
série de consequências lógicas, a última consequência explicitando finalmente a dificilmente acede ao universal?
dificuldade do problema enunciado na frase em itálico que se encontra no início. . Como instaurar uma ordem políticajusta e universal se nenhum governan-
Como a estrutura dinâmica foi posta em eúdência? Foi a combinação do te escapa ao egoísmo e transcende os desejos particuÌares inerentes à sua
trabalho gramatical e conceitual que levou a explicitar a progressão do pen- natureza de homem?
samento do autor. Notemos o seguinte: desde o início sabemos que se trata da . A coação é um meio necessário para aceder a uma ordem políticajusta?
enunciação de uma diflculdade ("este problema"). 0 primeiro parágraÍo retoma A última pergunta representa o problema central colocado pelo fllósofo. Esta
a ideia de problema ("A diflculdade" ) e começa a expÌicitáìa' Na sequência da determinação clo problema constitui o momento mais delicado do trabalho. (Mais
passagem, as séries demonstrativas esclarecem o problema levantado por Kant uma vez, o problema explicitamente formulado por Ifunt deve ser distinguido do
no início do trecho. Assim, a atenção prestada aos conceitos e a análise grama- problema resultante do trabaìho pessoal de hermenêutica')
tical permitem efetivamente avançâr e elucidar a estrutura dinâmica' Por fim, é necessário fazer a apresentação das implicações, apresentação
cuja formulação determinará a qualidade da análise reflexiva uÌterior; o que
Tema e tese do texto o texto nos faz ganhar? Qual o seu alcance? Estas linhas permitem esclare-
cer a essência do problema poÌítico, esclarecimento este que tem um alcance
Como chegar, agora, ao tema e à tese? Primeiramente o tema: este permane-
prático.
ce inscrito em flligrana e continua impìícito até à terceira parte. Quando Kant,
207
246
()s laír<>n<.ls EM FrLosoFrA XIV O vÉrooo DA pREpARAÇÃo: uMA esrn,qrÉcr,q DE TRABALHo

A parte reflexiva
Preparaçãoìf de texto:
Muito mais que fixar-se na resposta, a parte reflexiva sublinha, neste caso
preciso, a importância da pergunta e do problema analisados, já que na verdade,
iï:ï'"
neste texto, Kant lança luz sobre um problema sem explicitar realmente uma I -Análise das formas gramaticais ou gerais
soluçã0. Mas é preciso não se iludir: bem colocar os problemasjá é, em parte, 1. Apresentação geral do texto (parágrafos etc.)
estar em condição de resoÌvêìos. Atenhamo-nos, portanto, a alguns elementos, 2. Termos ou expressões de ligação
nesta parte reflexiva, nos quais brota do problema um início de solução: 3. Fórmulas, expressões, conceitos sublinhados pelo autor
o 0 homem é "mau" porque é liwe para satisfazer seus interesses indMdu- (em itálico, em negrito etc.)
ais, às custas da lei universal da quaÌ ele participa. 4. Pontuação signiÍicativa
. A irstauração de uma ordem políticajusta não pode ser feita senão sob coaçã0. 5. Estrutura primária
. Kant soube admiravelmente ligar o problema político a uma antropologia:
deste ponto de vista seu questionamento é particularmente enriquecedor.
Longe de perder-se na pura teoria, Kant estabelece uma Ìigação entre fllo- ll - Estudo conceitual
sofia política e antropologia fllosóflca. Não é colocar o problema político de . Flenco dos termos essenciais
I

forma admiráveÌ? 2. DeÍinição dos termos e conceitos (no quadro do texto)


3. Estrutura dinâmica:
o as partes

ü nesufitadm finml eta prepanação, rmodCI de usar . a progressão do raciocínio e da argumentação


Temos agora em mãos um material importante que permite uma redação Ill -Tema e tese
metódica e rigorosa do comentário. .1
. Tema
Eis aqui um "modo de usar" destinado a levar você a perceber e penetrar nas 2. Tese
etapas preparatórias do comentário de texto, Deve ser utilizado sem nenhuma
rigidez, suprimindo as etapas inúteis (por exemplo, em certos casos, a pesquisa lV - Problema e implicações
das formas gramaticais etc.). 1. Queslionamento
2. Problema
3. lmplicações

V - Parte reflexiva
1. Situação do texto na história das ideias
2. Interesse filosóÍico do problema (e da eventual solução
do autor). Estudo sistemático do alcance do Íragmento
3. Eventualmente, comentários diversos

20u 209
XV
Ëxernplos de
preparação e
de redmção dm
c0nïemtárüm
de texto
XV Exrrrapros DE pREpARAÇÃo e or nto,lçÃo oo cove NrÁnro DE TEXTo

O estudo reflexivo (3" momento), embora não obrigatório, permite fazer


um balanço concernentq èq sq!uElgslflazid_1s ao problema filosófico principal.
0 estudante deverá fixar-se no interesse destas soluções e explicitar as implica-
ções e contribuições fecundas; poderá também apresentar uma crítica e realçar
assim certas dificuldades ou contradições do texto, dificuldades que geralmente
Affguxm*mt; trtrffitrffitl rmffmtiç'mu à w'eu$nçffiul só têm sentido do ponto de ústa histórico.
A fldelidade ao texto é a regra fundamental'
Aredaçãodocomentáriopodedesenrolar-seemquatromomentos: A conclusão (4" momento) expõe sucintamente a natglggg!1sglgão tra-
zida ao problema essencial. Este quarto momento pode, eventualmente, Íundir-
ela reinte-
A introdução (1" mornento) sIgqg-tgÚqleltro-(a obra do autor: se com o terceiro.

gra o trecho em seu contexto ntoroì.'.


po,,*ta iguartõïãïìffi, mas também
problema subjacente à
a tese (ideia diretriz que estrutura o texto) bem como o

passagem - sem trazer soluçã0. Por flm, fornece o plano breve


.Apesardesteconteúdodenso(deacordocomaquiloqueexigemasbancas
do texto' $iuennpfrms de prepar;nçffim u- c$e redaçffiw
0s dois exemplos de comentário de texto aqui tratados permitirão a você ver
0 estudante
examinadoras), a introdução deve limitar-se a este estrito mínimo. como se utiliza o "modo de usar" (cf. p. 209) da preparação e como os elementos
deve banir todo Palawório inútil. deslindados (indicados na coluna da direita do trabaÌho deflnitivo) permitem
uma redação acertada e inteligente do comentário.
A explicação do texto (2" momento) fgZgUglttgggt-!9lfe$4fru-lt-g1o
por meio dç-U!p 9ryll9ita94-0 qqltel[gs, transformados assim em conceitos Primeiro exemplo
;C-ór.tõpt..it* At..d.". *aticamente às deflnições, vendo nelas os
guias
ufoior. as bases do trabalho analítico e sintético, o estudante adquire Tema: texto de Ibnt que se encontra no capítulo XIV (p. 200).
(como na dissertação'
*ãUOo, . permanece fixado no texto, em toda segurança
a digressão representa uma ameaça constante)'
Preparação
entre
Esta explicação anaÌítica não é suficiente: siga as relações existentes Lembremos a preparação deste teúo formalizando-a mais e utilizando o
os termos que se exigem mutuamentel este conjunto se
exprime ao longo da "modo de usar" anteriormente apresentado.
caminhada do pensamento do autor. 0 esquecimento desta dimensão sintética
exporiavocêaoperigodafragmentaçãoeprivariaseutrabalhohermenêutico . Análisedas formas gramaticais ou gerais
de qualquer sentido real. 1) Termos e expressões de ligação:
Aoredigirocomentário,épreferívelexplorarotextonaordememquese . "Pois": conjunção de coordenação que introduz uma expÌicação (,,pois ele
(do autor) indica ge-
apresentam as diferentes estruturas. A ordem das razões abusa").
ralmente a série lógica a respeitar. . "Portanto": conjunção que permite trazer a consequência (,,ele precisa,
pensamento'
A expticitação analítica e sintética do texto, flel à ordem do portanto").
ou proposições presentes na
pode ser feita por um recurso a termos' conceitos . "Mas": esta conjunção introduz aqui uma ideia nova, indispensável, uma
doutrina do autor. precisão e uma quase-objeção ou, pelo menos, um núcleo suplementar de
É preciso banir todo resumo de doutrina' dificuìdade ("mas onde").
desenvolü-
Assim aparecem, progressivamente, elementos que podem ser . "Ora": esta conjunção marca o inÍcio de uma demonstraçã0, lembrando
dos no estudo reflexivo. uma proposição precedente ("ora, este senhor").

212 213
OS MÍ'IOIX)S EM FILOSOFIA
XV Exr,çlpros DE pREpARAÇÃo E DE REDAÇÃo oo coueNrÁnro DE TEXTo

. "Pois": conjunção de coordenação que introduz uma explicação ("pois


o "Lei": regra imperativa universal, civil ou política, que habilita o homem a

cada uma delas"). escapar às suas tendências egoístas.


. "Egoísmo": tendência a procurar exclusivamente seu prazer e seu interes-
se individuais.
2) Termos ou expressões realçadas pelo autor
(em itálico, em negrito etc.):
. "Vontade particular": faculdade de agir de acordo com regras referentes a
um só indMduo (ou a alguns indiúduos).
0 itálico leva a realçar a existência de uma proposição ("este problema [...] . "Vontade universalmente válida": faculdade de agir de acordo com regras
humana"), a importância do termo "animal" (ser úvo organizado) e da expres-
válidas para todo ser razoíweL
são "tem necessidade de um senhor". Este úttimo termo é posto em evidência e
. "Ser liwe": esta expressão designa aqui não um fato, mas um ideal e um
desempenha, portanto, um papel central.
devir, o acesso a uma existência razoáwel e submetida ao universal.
. "Justiça pública": aqui, estadojurídico em que os homens, no seio do Esta-
3) Estrutura primária
do, gozam de seus direitos de maneira igual, segundo a ideia de umavontade
. "Este problema [..,] humana": enunciação da proposição que causa pro- le gisladora universal.
blema.
. "A diflculdade [...] ser liwe": primeira parte da demonstração. 3) Estrutura dinâmica do texto
. "Mas [...] das leis": segunda parte da demonstraçã0.
As partes:
. "Este problema [...] humana". Enunciação da dificuldade (relativa à ins-
. Estudo conceitual
tauração de uma ordem políticajusta).
1) Elenco dos conceitos essenciais: . "A dificuÌdade [..,] ser liwe". Primeiro elemento da aporia, da dificuldade:
Problema, homem, animal, senhor, liberdade, criatura razoâvel,lei, egoís- "0 homem tem necessidade de um senhor" parafazer a passagem do parti-
mo, vontade particular, vontade universalmente válida, ser lfire, justiça pública cular ao universal,
desempenham, n0 texto, um papel decisivo. Elos demonstrativos no interior deste conjunto: deflnição do homem como
animal que precisa de um senhor ("a diflculdade [ ... ì um senhor") ; justiflcação
2) Definição dos conceitos: do enunciado precedente: a vontade do homem obedece às tendências egoístas
.
"Problema": diflculdade teórica e prática cuja solução permanece incerta. particulares ("pois [...] para si mesmo")1 o senhor elevará, portanto, o homem
.
"Homem": uma realidade ambígua, a0 mesmo tempo ser biológico e pes- ao universal ("ele precisa [...] ser liwe").
soa, pertencente ao reino da natureza e ao reino dos valores e dos fins (o . "Mas [...] das leis". Explicitação da dificuldade (enunciada na 1u parte).
reino da ética). Já que o próprio senhor tem necessidade de um senhor, a instauração da
. "Animal": ser úvo organizado (que se insere no reino da natureza). justiça pública representa uma tarefa difícil,
. "Senhor": aqui, pessoa que exerce uma dominação não arbitrária, destina- EIos demonstrativos no interior deste conjunto: 0 próprio senhor tem ne-
da a elevar o ser humano ao universal. cessidade de um senhor. ("mas [...] humana"); todo chefe (humano) tentará
. "Liberdade": designa, em primeiro lugar, uma faculdade de agir sem co- deste modo abusar de sua liberdade ("ora [...] leis").
açã0, ultrapassando toda medida em relação aos seus semeÌhantes, facul- 0 itinerário do raciocínio e da argumentação: Kant enuncia uma di-
dade inscrita em nossa natureza. Notar-se-á mais adiante a expressão "ser ficuldade fundamental relativa à justiça pública e se orienta para o nú-
liwe", que se opõe diametralmente à liberdade natural' cleo antropológico que ilumina esta dificuldade: a essência parcialmente
. "Criatura razoírvel": o sujeito que participa datazáo, faculdade dejulgar animal do homeml este se liga, sob certo ângulo, ao reino da natureza
que faz aceder ao universal. e tem necessidade de um senhor, o qual precisa também de um senhor,

'.!14 215
( )s rr,1t ttltl<ls [M FlLosoFlA XV Exrvpros or enre,ln,rçÃo E DE REDAÇÃo oo courNrÁnro DE TEXTo

pertencente também este ao reino da natureza e precisando igualmente Comentário de texto redigido
de um senhor...

. Tema e tese O início deste texto constitui a sexta proposição do opúsculo Situação do texto
1) 0 tema diz respeito à instauração de uma ordem política justa, que admi de Kant /dera de uma história universal do ponto de vista
cosmopolítìco (l 284), em que Kant se esforça por descobrìr, no
nistre o direito de maneira universal (corresponde ao problema levantado
curso absurdo das coisas humanas, um desígnio da natureza: ele
explicitamente por I{ant). desenvolve, com efeito, uma reÍlexão sobre a história unifìcada,
2) Tese. 0 problema dajustiça pública é difícil porque os dirigentes' sujeitos coníorme a um plano determinado. Na quìnta proposição, Kant
às suas tendências egoístas, não levam em consideração o universal da lei. considerou que o problema essencial para a espécie humana era
o da instauração de uma ordem política justa, que administre o
direito de maneìra universal. É este problema que Kant continua
r Problema (o nosso e não o analisado explicitamente por Kant) a Ìevanlar e lrdtdr nestd sexla proposiçáo.
1) Questionamento:
Esta instauração de uma ordem política justa, relacionada a Iema e te-se
o Como passar, na sociedade organizada, do império das paixões à esfera do
uma Iei e a um direito universais, constitui o tema do texto, (ideia diretriz)
direito universal (dominando estas últimas)? que, portanto, diz respeito à esfera da justiça. Quanto à tese
. Com efeito, o governante não é ele próprio um homem, um ser flnito, no propriamente dita, pode ser circunscrita da seguinte maneira: o
problema da justiça púbìica é, nas palavras de Kant, muito diíícil
qual as paixões devem ser domadas (por um senhor) e que, portanto, muito
porque os dirigentes são homens egoístas, sujeitos a tendências
dificilmente acede ao universal? individuais e quei por isso mesmo, não levam em consideraçào
. Como instaurar uma ordem políticajusta e universal se nenhum governan- o universal da lei-
te escapa ao egoísmo e transcende os desejos particulares inerentes à sua O texto coloca uma série de perguntas: como passar, na Problemática
natureza de homem? sociedade organizada, da infìuência das paixões à esíera do
2) Problema: A coação não é porventura um meio necessário para aceder a direito universal? A diíiculdade não provém do fato de que o
próprio governante é um ser Íinito, que tem a maior diíiculdade
uma ordem política justa?
em aceder ao universal? Sendo assim, não é a coação um meio
3) Implicações: Esclarecimento da essência do problema político, esclareci- necessário para aceder (com dificuldade) a uma ordem política
mento que tem um alcance prático, .justa? Esta última pergunta representa o problema central,
problema próprio deste texto e diÍerente do problema tratado
. Parte reflexiva
explìcitamente por Kant, e que constitui o tema do texto. As
implicações do texto, portanto, dizem respeito ao esclareci-
1) Situação do texto na história das ideias: Antes de Hegel, Kant esboça uma mento da essência do problema político, esclarecimento não
rica flgura do senhoq forma que conduz ao universal' Ele nos mostra o papeÌ desprovido de signiíicado prático.
(ambíguo) do senhor nas formações históricas.
O texto divide-se em três partes: na primeira ("Este problema Breve enuncìa-
2) Interesse fllosóflco do problema: A mediação de uma coação parece ne- [...] humana"), Kant enuncia sua sexta proposição, relacionada ção do plano do
cessária para impor uma justiça pública que emane da autoridade das leis. com a dificuldade de resolver o problema da.iustiça pública. texto
Na segunda ("A diÍiculdade [...] ser ìivre"), ele sublinha que é
necessário um senhor para elevar o homem, animal egoísta, à
universalidade. Na terceira 1"Mas [...ì das leis"), Kant mostra que
a instauração da justiça pública representa uma tareía difícil,
pois o próprio senhor tem necessidade de um senhor.

216 217
( )s XV Exrupros DE pREpARAÇÃo E DE REDAÇÃo Do coMENTÁRto DE TEXTo
ut'totros EM FtLosoFrA

Primeiro movimento: "A dìficuldade [...Ì tem necessidade de um o homem tem


senhor". necessidade de
um senhor no
. Prìmeira parte: uma aporia teórica e prática ("Este [...] especle Retomemos a ideia de aporia ou de problema, teórìcos mas so- universo da
humana"). bretudo práticos, como deixa entrever o termo "tarefa": o trabalho coex istênc ia
humano de ediíicação política justa parece diíícil de realìzar. soci a l.
A sexta proposição é enunciada de forma muito sucinta por Enunciado Mas onde reside a dificuldade? O primeiro elemento explicativo
Kant: não é indiferente que ela esteja relacionada, imediata- (alusivo) de um enraíza-se na coação que todo homem deve necessariamente
mente, a uma aporia fundamental e que o primeiro tema im- problema. Aten- sofrer: com efeito, o homem é um animal - um ser vivo com
portante encontrado pelo leitor seja o de um problema, a saber, necessidades orgânicas, peítencente ao reino da natureza e em
ção: trata-se do
problema analì- busca de seu próprio interesse - que necessìta de um senhor, ou
uma dÌficuldade teórica ou prática cuja solução permanece
seja, de uma pessoa que exerça uma dominação, segundo um
incerta. Com eíeito, todo o texto vai nos colocar diante de um sado por Kant e
modo não arbitrário, pois a finalidade do senhor não é deter o
problema central, aguçá-lo ao máximo, sem nos permitir, com não do problema poder em si mesmo e para si mesmo, mas conduzir o governado,
eíeito, resolvê-lo totalmente. Kant concebe e enuncia claramente que nós mesmos o discípulo ou o aluno pelo caminho da cultura ou da forma-
um problema quase insolúvel ou, em todo caso, suscetível de detectamos ção universal. lntroduzindo a ideia de "senhol', Kant aponta,
encontrar apenas em últìmo lugar uma solução para a espécie acima (cí. p. portanto, imediatamente a primeira Íunção deste: fazer nossa
humana, a saber, o conjunto uniÍicado da humanidade. A aporia 202s. e 206s.). natureza animal aceder à esfera da cultura e da coexistência ("a
considerada (distinta do problema analisado acima) não está, . Remissão a partir do instante em que vive no meio de outros indivíduos de
sua espécie"). O "senhor" não representa o ser em busca do poder
portanto, relacionada com o destino do indivíduo partìcular, uma história
propriamente dito, mas o mediador entre a nãtureza e a cultura.
mas com o da humanidade considerada como uma totalidade. É totalizante
nesta perspectiva global que existe tanto aporia quanto soluçào relativa à espécie
Segundo movimento: "Poìs [...] para si mesmo". Embora aspire à
talvez possível. Mas qual é este problema complexo? O de- humana.
lei universal, o
monstrâtivo "este" remete à quinta proposição do opúsculo, a Mas por que o homem tem necessidade de um senhor? Neste homem está, com
saber, o problema da instauração de uma ordem política justa, segundo movimento, Kant explicita a razão profunda do recurso efeito, sujeito
que administre o direito de maneira universal. E, portanto, em à coação, a saber, a dualidade humana e a oposição entre os dois a necessidades
função da possibilidade de instaurar normas políticas universais reinos, o da natureza e o da lei, aos quais o homem está ligado: a particu Iares.
que o texto adquire, imediatamente, seu pìeno sìgnificado. liberdade designa primeiramente não um acesso à moralidade e
à razão, mas uma íaculdade de agir sem coação, superando toda
medida em relação a seus semelhantes, faculdade inscrita em nossa
Mas qual é esta aporìa ìnscrita no cerne da reflexão poìítica? Transição: Mas natureza. A liberdade, longe de representar então uma obediência à
Iei no respeito aos outros, uma autonomia repleta de racionalidade,
É isto que Kant vai nos fazer entender mediante uma série de qual é a aporia
é primeiramente um fazer natural, cego à pessoa dos outros. E este
argumentos destinados a iluminá-la, a íazê-la surgir em seu em questão?
o reino da natureza, o reino do homem concebido como ser vivo
núcleo essencial. organizado sujeito a necessidades egoístas. Sem dúvida, enquanto
. "criatura razoável" , que participa da razão, íaculdade de julgar
Segunda parte: necessidade de um senhor e de uma coaçào Necessidade
que nos faz aceder ao unìversal, o homem deseja uma ìei regra
("4 dìficuldade [...] ser livre"). de um senhor, imperativa unìversal na qual todos se reconhecem e compreendem
mediador entre assim que o limite da liberdade nada mais é do que a presença do
a natureza e a outro - lei que reprima os abusos particulares: a razão exige normas
cu ltu ra: válidas para todos e, po(anto, a ausêncìa de privilégios; no entanto,
o homem nem sempre sabe conter sua liberdade dentro dos iimites
requeridos pela lei universal nascida da razão. Kant fala aqui de
uma "tendência animal ao egoísmo", um apego excessìvo a si
mesmo de tal magnitude que as pessoas procuram exclusivamente
seu interesse pessoal. Este egoísmo onipresente provém de nossa
existência natural e "biológica" e deita raízes em nossas necessi-
dades vitais. Sendo assim, o homem aspira ao universaì da ìei,
mas, como ser vivo que procura seu interesse próprio, permanece
mergulhado na particularidade de suas necessidades. Esta oposiçào
entre o universal da lei e o particular inscrito no homem naturaì vai
permitir-nos compreender o recurso à coação de um senhor.

) lll 219
( )s ir,1r.rr lr.rr ls t:M Ftt.osoFlA XV Exrupios DE pREpARAÇÃo E DE REDAÇÃo Do coMENTÁRto DE TEXTo

É o senhor que Primeiro movimento: o senhor não transcende a natureza ("Mas O senhor está
Terceiro movimento: "Ele precisa, portanto [...] ser livre".
força o homem [...] espécie humana"). enraizado na es-
a obedecer à lei: pécìe (biológica):
O primeiro movimento desta terceira parte nos leva ao núcleo naturalìdade do
A demonstração kantiana reíerente à necessidade da coa- a coação é, por-
antropológico que torna tão diíícil a solução do problema políti- sen hor.
ção conclui a primeira parte da análise. Estamos, com efeito, tanto, necessária. co. O senhor, o governante que permìte o acesso a uma vida
dìante de uma conctusão. O senhor tem a íunção de subme- A verdadeira razoável que acontece através da Iei válida para todos, íaz parte
ter a particularidade das necessidades ao universal da lei, de liberdade é racio- ele próprio da espécie humana. Onde, portanto, encontrará o
dominar a sìmples vontade particular, que é a íacuìdade de agìr nal: ela é acesso homem um "dominante" senão no seio da espécie, ou seja, de
segundo regras referentes apenas a um só ìndivíduo ou a alguns à existêncìa um conjunto de indivíduos semelhantes que têm em comum
razoável. certas características e que são movidos por interesses egoístas
indivíduos. Sob este ânguìo, a vontade ainda não se liberta de
arraigados na natureza? A espécie humana é um campo comum
seus interesses subjetivos. É, portanto, o senhor, a pessoa que
natural no qual o próprio senhor está integrado e do qual ele
excrce uma autoridade, que irá atuar através da coação, para não pode escapar! O que Kant nos lembra aqui é, portanto, a
fazer o governado obedecer a interesses universais. Ele "força" naturalidade (o estado natural) do senhor, que não transcende
os súditos a obedecer: longe de ser paradoxal e de representar ele próprio a esíera animal, embora deva supostamente guiar c)
um ataque à nossa liberdade, esta operação de coação atualiza homem para a lei. Esta imanência da natureza no senhor, Kant
racìonalmente a liberdade natural; permite a cada um "ser ìr;i explicitá-la no último núcleo de sua argumentação.
livre", or,r seja, aceder a uma existência razoável e submetìda ao
Segundo movimento: o exercício da justiça, o mais dìfícil dos O senhor está su-
universal- Ser tivre, portanto, não é agir a seu bel prazer, mas
problemas políticos ("Ora 1...1 das Ieis"). jeito ao particular
submeter se à lei válida para todos, obediêncìa tornada possível
e necessita ele
pela coação do senhor. Note-se que "ser Iìvre" opõe-se diame- Com este segundo movimento, o círculo volta a íechar-se: o próprio um
tralmente à "liberdade" da qual se falava algumas linhas antes senhor, este governante que permite o acesso ao universal, é ele senhor para
("abusa [...] de sua liberdade"). Se a liberdade do início não se próprio um animal, ou seja, um vivente orgânizado que deve aceder ao uni-
distingue de um "fazer" natural, exteriorização a seu bel-prazer Assim, eíetua-se, satisfazer necessidades egoístas e não vive sob o reìno daquilo versal.
e que pode prejudicar a pessoa do outro, estamos agora diante graças ao senhor, que é válido para todos. Portanto, o círculo político é absoluto,
de uma lìberdade ética, de um acesso à existêncìa razoável: é a passaSem porque o universal requer a mediação de um ser que está ele
da natureza à próprio submetido ao particular. Toda a sequência do texto pode
uma vontade unìversalmente válida, ou seja, uma íacuìdade de
assim delìmitar o núcleo das dificuldades inerentes à justìça
agir segundo regras que se aplicam a todo ser razoável, que, cultura. A difi-
pública: definamos esta última , omo u estado juridico no qual
doravante, parece poder regular o funcionamento da socìedade cuìdade parece
os homens, no seio do Estado, gozam de seus direitos, segundo
civil. Passamos realmente da natureza à cultura, à instauração resolvida. a ideia de uma vontade legìsladora universal. Este reinado do
de uma sociedade que administra o direito de maneira universal. direito deveria exigir um cheíe justo em si mesmo, ou seia, capaz
de reÍerir-se diretamente à lei, sem nenhuma relação com os
ìnteresses egoístas. Um cheíe justo por si mesmo Íaria reco-
E não é só isso. Parece que aqui a aporia desaparece, que o nhecer e respeitar os direitos e méritos de cada unl, sem nenhuma
senhor designa a própria pessoa que, por meio de coação, opera submissão ao particular. Ora, trate-se de um chefe únìco ou de
â passa8em desejáveì. Mas a sequência do texto de Kant vai unra elite de pessoas, de um governante ou de um grupo, eles nào
se livrarão da liberdade natural que invade os direitos dos outros DiÍiculdade
fazer aparecer o nó real do problema.
sc não houver nenhuma força superior que os leve, por meio de fundamental para
coação, para o universal da lei. Assim parece concluir-se o círculo fazer reinar o
. Terceira parte: o círculo político ("Mas [...Ì das ìeis") Mas o próprio
político: sem instância que represente a lei universal, os gover- direito.
senhor tem ne-
nantes, que são homens afetados pela rustìcidade de sua natureza, Vê-se apare
cessidade de um prejudicarão os direitos dos outros. Pouco a pouco, surgem diante cer nitidamente,
senhor. de nós, por um estranho.jogo de espelhos, todas as diíiiuldades aqui, o problema
da justiça pública. Como poderão o senhor, o chefe ou o governo fundamental: a
suscitar nos governados o respeito à lei e fazê Ios aceder ao uni necessidade de
versal quando lhes íalta, precisamente, o respeito à justiça e à Ieì uma coação.
e quando a Iiberdade pode sìgnificar, neles, um fazer natural e um
abuso? Não têm, eles próprios, necessidade de um senhor?

220 221
Os uÉrooos EM FtLosoFìA XV Exrvpros DE pREpARAçÃo E DE REDAÇÃo Do coMENTÁRro DE TEXTo

Aos poucos, portanto, Kant remeteu ao problema central da


política (como, aliás, também da educação): todo senhor vive
I
I
Um núcleo
aporetico no seio
;i*iiÌrïiriïrtïr m
Assim, respondemos ao problema relativo à necessidade de uma Resposta ao
sob o reinado do particular e tende a estabelecer seu poder. I da politica
coação para instaurar a justiça pública, problema levantado pelo problema levan
Como íazer reinar o direito, se o próprio Sovernante não passa
texto: os verdadeiros progressos da cívilìzação e da história só tado.
de um ser egoísta? podem ser alcançados por meio da coação, forçando os homens
a ser ìivres. Crande lição da antropologia kantìanal

Em primeiro lugar, a definição kantiana de senhor é rica em O senhor kan-


prolongamentoi e em perspectivas teórìcas e práticas. O senhor tiano: uma rica Segundo exemplo
lantiaú leva o governado a inclinar-se diante de uma vontade e figura da história.
de uma lei universaÌs sob as quais cada um pode tornar-se livre.
O tema é um texto de Hegel extraído da fstética.
Mediador entre a natuÍeza e a cultura, ele destrói as particulari- 0 espírito não se Ìimita à simpÌes apreensão através da úsão ou da audição
dades e a arbitrariedade das vontades individuais. Ele leva ao
dos objetos exteriores, eÌe os usa em sua vida iÍÌterior, que é moüda primeiramente
respeito à lei, estando embora ele próprio sujeito a tendências
egoístas brotadas de sua natureza animal. As análises kantianas a tomar, também eÌa, a forma da sensibiÌidade, reaÌizando-se nas coisas exteriores;
nós põem diante dos olhos, portanto, uma rica figura da história este modo de reÌação com as coisas exteriores é o desejo. Nestâ espécie de relação,
e da política. Antes de Hegel, Kant nos mostra o papel (ambíguo)
o homem encontra-se, enquanto indiúduo sensível, diante de coisas igualmente
do senhor nas Íormações históricas.
indiúduais. Não é nem o pensado\ nem seu âtsenal de determinações gerais que

Esboçando esta rica íigura do senhor, íorma que conduz ao uni- Sempre mais intervêm aqui; é o homem que, ao sâbor de seus impulsos e de seus interesses in-
versal apesar da particularidade das tendências, Kant nos permite poderl dividuais, volta-se para objetos eles mesmos indMduais, que extrai deles sua sub-
compreencler melhor a dìficuldade central do problema político'
sistência, fazendo uso deles e consumindo-os, e que os sâcdfica à sua satisfação
Quando um senhor ou um chefe deve instaurar a justiça, ele
tende a esquecer o interesse universal da razão: sempre mais pessoaÌ. Nestas condições, o desejo não se contentâ com â aparência supeÌflcial
poder! Esta palavra-chave da política encontra uma iluminaçào das coisas exteriores, mas quer mantê-Ìas em sua existência sensÍvel e concreta.
surpreendente nas análises kantianas. Assim, Kant soube situar
Ele não tem neúuma necessidade de quadros que representem â madeira de que
o problema político ligando-o à antropologia. Mostrou que a
questão do bom governo é a mais diííciì de todas. se serve 0u os ânimais que eÌe gostâria de consumir. O desejo também não pode
deixar o objeto subsistir em sua liberdade, pois sua natureza 0 impelejustamente a
Mas, bem colocar um problema não é iá resolvê-ìo? O interesse A coação
suprimir â independênciâ e a Ìiberdade dos objetos exteriores e a mostrâr que eles
do texto de Kant consìste também em mostrar que a coação (ou, necessária: o
só estão aí para ser destruídos e utilizados até âo esgotamento. Mas paralelamen-
em todo caso, um mínimo de coação) aparece como horizonte Estado.
necessárìo da política. É preciso encontrar uma organizaçào, te o sujeito, prisioneiro dos interesses indiüduais limitados e medíocres de seus
provavelmente coativa, que constitui a condìção da justiça desejos, não é livre nem em si mesmo, porque as determinações que eÌe toma não
pública. Para que seja possível a coexistência pacífìca e justa vêm de umavontade essencialmente universal erazoâvel, nem diante do mundo
entre os homens, não são porventura desejáveìs o Estado e outras
exterior, porque o desejo permanece essencialmente determinado peÌos objetos e
formas jurídicas de coação? Na Doutrina do direito (1 796), mttito
posterior ao nosso texto, Kant afirmará que o direito está ligado apegado a eÌes.
.l
à íaculdade de coagir (Doctrine du droit. Paris: Vrin, p. 05). As relações do homem com a obra de arte não são da ordem do desejo. Ele
Se formas coativas são matrizes de dìreito e de iustiça, elas cor- deixa a obra de arte existir por si mesma, liwemente, diante dele; ele a consi-
respondem parcialmente à aporia analisada. O esclarecimento
últìmo retorno às dera, sem desejáìa, como um objeto que não concerne senão ao lado teórico
l<antiano da essência do problema político não está desprovido
do signif icado prático. implicações do espírito. Por isso, a obra de arte, tendo embora uma existência sensível, não

).
)') 223
( )\ Mr'ì ( )rx )s EM FILosoFìA XV Exrl,tpros DE pREpARAçÃo E DE REDAçÃo Do coMENTARto DE TEXTo

tem necessidade de ter uma reaÌidade tangivelmente concreta nem de ser efe- váÌida para todos os espíritos e segundo uma conformidade com a faculdade
tivamente úva. EÌa nem sequer deve demorar-se neste terreno, porque não visa (absoÌuta) de distinguir o verdadeiro do falso.
satisfazer senão interesses espirituais e deve excluir todo desejo. . "Obra de arte": conjunto de materiais e de sinais que exprimem o belo e
(HEGELEsthéti'que-rexteschosisPariïi,iJll;#r1i.ÏlilJl';;,Tïilïïr""it'ï não comportam a menor relação com a negatividade do desejo.
3) Estrutura dinâmica
As partes: 0 texto representa quatro movimentos.
Preparação . 1o movimento ("0 espírito [...] o desejo"): Hegel enuncia a essência do
. Análise das formas gramaticais ou gerais desejo; forma dele um conceito, que vai ser expÌicitado de maneira rigorosa
1) A apresentação geral em dois parágrafos é aqui fundamental e dá acesso na segunda e terceira partes.
à estrutura global do texto. o 2o movimento ("Nesta espécie [...] consumir"): realça-se a negatiúdade
2) Ausência de outros marcos gramaticais signiflcativos. atuante no desejo.
3) Estrutura primária. Duas partes que correspondem aos dois parágrafos Elos demonstrativos neste movimento: a negatiúdade destruidora do desejo
(a reestruturar em seguida): ("Nesta espécie [...] pessoal"); a distância e a clivagem entre o desejo e
. Primeira parte: "0 espírito [...] a eles". a obra de arte, clivagem esclarecida peìa negatividade do desejo ("Nestas
. Segunda parte: "As relações [...] desejo". condições [...] consumir").
. 3n movimento ("0 desejo [...] a eles"): a "não-liberdade" do desejo é subli-
. Análise conceitual nhada pelo fllósofo.
1) Elenco dos conceitos essenciais: espírito, desejo, existência sensível e Elos demonstrativos: existe um fosso entre desejo e liberdade do objeto ("0
concreta, Iiberdade, ser liwe, vontade essencialmente universal e razoável, desejo [...] esgotamento"); da mesma forma, desejo e liberdade do sujeito
obra de arte desempenham aqui um papel central. opõem-se em profundidade ("Mas [...] a eles").
2) Deflnição dos conceitos: r 4o movimento ("As relações [...] todo desejo"): tendo assim descrito o de-
r "Espírito": aqui, o princípio da reflexão humana (não se trata exatamente sejo como negatividade privada de real liberdade, Hegel pode realçar que
do sentido especiflcamente hegeliano, ou seja, do pensamento que se clari- a arte se situa para além de todo desejo e diz respeito apenas às nossas
flca progressivamente para chegar ao absoluto, embora os dois signiflcados necessidades espirituais.
possam ser aproximados). Elos demonstrativos: explicitação da natureza das relações do homem com
. "Desejo": tendência e movimento pelos quais 0 homem se exterioriza, a obra de arte ("As relações [...] do espírito"); resultado da análise: a es-
nega o objeto transcendendo-se em direção a ele e o sacriflca à sua satisfa- sência da obra de arte diz respeito às nossas necessidades espirituais ("Por
ção individual. isso [...] desejo").
. "Liberdade": o fato de não estar sujeito a uma outra realidade ou a um A progressão do raciocínio e da argumentação: uma vez sublinhadas a ne-
outro ser. gatividade e a não-liberdade do desejo, Hegel demonstra que a obra de arte
. "Ser liwe": aceder à compreensão daquilo que vale para todos, fazer uma transcende esta esfera e diz respeito às faculdades teóricas de nosso espírito.
escolha nascida ila razâo e do universal.
(A liberdade neste texto é, portanto, tomada em duas acepções distintas). . Tema e tese
. "Existência sensível e concreta": presença individual hic et rrunc, dada 1) O tema geraÌ diz respeito à essência da obra de arte.
aos sentidos, Iigada a coisas que se pode ver ou tocar. 2) Tese ou ideia diretriz: A arte liga-se ao Ìado teórico de nosso ser; ligada a
. "Vontade essencialmente universal erazoâvel"'. aqui, faculdade de deter- uma liwe contemplação espiritual, eÌa se situa para além de todo movimento
minar-se por razões, concebida fundamentalmente através de uma dimensão de negação do objeto,

224 225
XV Exe,r,rpros DE pREpARAçÃo E DE REDAÇÃo Do coMENTARto DE TEXTo
Os uÉrooos EM FtLosoFtA

r Problema Se o tema geral é o da essência da obra de arte, o problema Tema e problema


Ievantado pelo texto - para além desta questão primeira inscrita
1) Questionamento nele: a arte visa satisfazer o desejo? é saber quais são as ne-
. 0 que signiflca a clivagem entre a negatividade desejante e o universo da cessidades espirìtuâis mais elevadas do homem. Este problema
contemplação estética? está presente em íiligrana por úás de um possível questionamen-
to do texto de Hegel. Quanto à ideia diretriz, pode ser resumida
. C0m0 afastar a ausência de liberdade (tanto do lado do sujeito quanto do da seguinte maneira: a arte liga-se ao lado teórico de nosso ser;
lado do objeto) que resulta da negatiüdade do desejo? ligada a uma livre contemplação espiritual, ela se situa para
r A contemplação (teórica) do real, sem nenhum apelo à negatividade de- além de todo desejo. As implicações filosóíicas são múltiplas:
Ideia diretriz e
permitir-nos forjar um conceito (claro) da essência da obra de
sejante, não é, afinal, o estágio mais elevado que o espírito humano pode arte, mas também conceber a essência humana mais elevada:
implìcações
atingir? especulativa e teórica.
2) Problema: Quais são as necessidades espirituais mais elevada"s do homem?
3) Implicações. O texto desdobra-se em quatro movimentos (que constituem Breve enuncìação
. Permitir-nos formar um conceito claro da essência da obra de arte. outras tantas partes principais): no primeiro ("O espírito [...1
desejo"), Hegel enuncia a essência do desejo; forma dele um
do plano do texto
. Permitir-nos conceber a essência humana mais elevada: especuÌativa e conceito, explicitado de maneira rigorosa nas partes segunda
teórica. e terceira. Durante o segundo movimento ("Nesta espécie [...]
consumir"), é posta em destaque a negatividade atuante no
desejo e, no terceiro ("O desejo [...] a eles"), o filósoío realça
. Parte reflexiva a "não-liberdade" do desejo. Tendo assim descrito o desejo
1) Situação do texto na história das ideias: Este fragmento prolonga, sob como negatividade privada de real liberdade, Hegel pode, no
momento do quarto movimento ("As relações [...] todo desejo"),
certo ângulo, as análises feitas por I(ant na Críkca do juízo. Este filósofo, com
destacar que a arte se situa para além de todo desejo.
efeito, sublinhou o desinteresse inerente à contemplação estética. Hegel renova
o problema fixando-se na "selvageria" do desejo, que é movimento de destrui
çã0.
2) Interesse fllosófico do problema: Chegar, pela mediação da obra de arte,
à contemplação do espírito, em sua transparência, nã0 é uma das maiores sa- . Primeira parte: primeira deíinição do desejo ("O espírito [...] A relação prática
tisfações do homem? Deste ponto de vista, Hegel nos faz compreender, neste o desejo"). com o real é
deselo.
texto, uma das forças motrizes de nossa alma. (Na religião e na filosofla, esta O movimento é, no próprio interior desta primeira parte, muito
satisfação se depurará ainda mais.) bem estruturado. O problema é captar a verdadeira intenção do
espírito, que Hegel especifica, primeiramente, sob uma de suas
primeiras Íormas, através da simples "intuição" ou "representaçào
Comentário de texto redigido sensível", e depois sob o aspecto da negatividade do desejo, íorma
espiritual inÍinilamente mais elevada do que "a simples apreensão
atraves da visào ou da audiçào dos objetos exteriores". O que é esta
iltlÍiilrüiiiitÍiii,Ì capítulo ll
intÌtulado "As
;it ;i,r
SituaÇão do texto
apreensão? E, sem dúvida, a compreensão intuitiva das realidades,
mas também a estrutura perceptiva, na qual o espírito organiza o
Este trecho de Hegel encontra-se no campo da experiência. Esta apreensão do mundo exterior indica já
teorias empíricas da arte" do primeiro volume da fstétlca. Estu- uma primeira íorma, ainda medíocre, do trabalho do espírito, termo
dando as relações entre o sensível e a obra de arte, Hegel íixa se que, em nosso texto, depende de uma abordagem não unívoca.
prìmeiro na intuição sensível ìndÌvidual e depoìs no desejo
prãlico, objelo de nosso rexto.

227
226
( )s lrt tr )l x )s I M t:lt osoFtA XV Exrvpros DE pREpARAÇÃo E DË REDAÇÃo oo coMENTÁRlo DE TEXTo

Sr', rrrnr efeito, o Espírito hegeliano, em sua intenção profunda, é O nível da Na primeira subparte, Hegel põe em evidência a natureza . A negativiclade
,r cxpressão do pensamento que se clarifica progressivamente para representação individual e sensível do dese.jo.Este, tendência que impele o do desejo per
r lrcg:rr finalmente ao Absoluto, este conceito de espírito designa sens ível; homem a negar o objeto, situa-se sob o signo do individual, manece sujeita
igualmente, aqui, o princípio da reflexão humana. Prestemos daquilo que pertence como próprio a um ser concreto que forma ao individual.
:ìtenção ao fato de que se trata, com efeìto, do espírito (e não do um todo reconhecível. Já se percebe imediatamente uma certa
Espírito), mas a teleologia hegel iana surge, não obstante, por trás do inferioridade espiritual do desejo, iníerioridade que o porá,
simples princípio da reflexão e do pensamento. de alguma forma, a mil léguas de distância da obra de arte. O
Ligado primeìramente à simpìes intuição sensível dos objetos, o homem desejante permanece um ser enraizado na sensibilidade.
O nível da nega-
princípio do pensamento se encontra e se exprime, muito mais Prisioneiro das simples determinações sensíveis e individuais,
tividade sensíveì.
profundamente, "realizando-se nas coisas exteriores": esta rea- ele não pode aceder à arte enquanto tal. O homem do desejo
lização designa não mais o comportamento "passivo", "intuitivo" não é o pensador, ou seja, aquele que privilegia uma forma
ou "representativo" em relação ao mundo, não mais a simples de atividade propriamente inteiectual ou racional e usa ideias
apreensão sensível, mas o movìmento de exteriorização ativo, gerais. Esta oposição entre o homem desejante e o homem pen-
dinâmico, negativo, que já constitui, num nível superior, o espírito sante tem a finalidade de nos mostrar que, se o desejo é uma das
e o próprio ser do homem. Note-se o equilíbrìo "vida interior" / primeiras íormas da atividade espiritual, ele não é o modo mais
"coisas exteriores", ou seja, existência subjetiva / vida objetiva: com elevado desta atividade.
efeito, o que é próprio do homem é este movÍmento pelo qual ele
exterioriza sua existência espiritual subjetiva. A negatividade do No desejo, não são as determinações gerais ou universais que se . A ação (indi-
desejo corresponde, precisamente, a este processo de exterio- impõem: o campo do homem desejante permanece inscrito no vidual) do desejo
rização. O que designa o desejo? Desìgna a tendência pela qual o individual. Portanto, Hegel contrapõe aqui o geral, quase contrapõe-se ao
homem exterioriza, para fora, seu princípio espiritual (interior). Peìo sinônimo aqui de universal, enquanto diz respeito a todos os trabalho (geral)
desejo, o homem se exterioriza, nega o objeto transcendendo-se
casos ou a todos os indivíduos sem exccção, e o individual, do pensador.
em dircção a ele e o sacriíica à sua satisfação individual.
inseparável das diversas realidades singulares. O homem do
O ponto de chegada deste movimento inicial nos é dado, por- Definição hege- desejo pertence à segunda esfera, está ligado a "impulsões"
tanto, por uma primeira deíìnição do desejo, modo de relaçào (forças psíquicas que levam à ação) ou "ìnteresses" (disposiçòes
liana do desejo:
com as coisas externas que se compreende através de uma acerca de uma coisa) que continuam absolutamente prisioneiros
relação prática, de uma objetivação no mundo exterior. Aqui, do particular. Assim, no final desta primeira subparte, Hegel
o homem apodera-se, para íormar-se, do objeto que ele nega está em condições de nos descrever este movimento um tanto
e utiliza. O desejo designa assim uma primeira transformaçào "selvagem" que atua no desejo: o homem desejante consome,
do mundo, uma primeira realização no universo objetivo. No ou seja, Ieva as coisas à sua destruição utilizando a substância
entanto, o estudo do desejo exige um aprofundamento, a fim de delas; fazendo delas um uso que permite sua própria sobrevivên-
captar melhor sua possível relação com a obra de arte. E esta cia, ele as imola de certa íorma (as "sacrifìca") e as destrói. Ele
análise que Hegel vai conduzir nas partes segunda e terceira. manterá sua própria realidade individual mediante a supressào
da realìdade dìferente da sua, mas esta negação "selvagem"
. Segunda parte: a destruição atuante no desejo ("Nesta especie . Se o desejo é
não lhe permitirá chegar verdadeiramente a um Eu espiritual e . A consuma-
universal. O desejo, que recai sobre um objeto, ainda não nos ção do desejo é
[...Ì consumir"). negaÇão, então
faz aceder ao espírito autêntico. "sacrifício" .
ele está afastado
A demonstração de Hegel vai prosseguir nesta segunda parte. da obra de arte,
Assim, ele irá explicitar a natureza profunda do desejo, a nega- concebida como
tividade nele inscrita, para bem realçar a insuficiência desta pura aparência das
aparência própria da obra de arte. A demonstração é íeita aqui coisas.
em doìs tempos: uma primeira subparte é dedicada à fenomeno-
logia do desejo ("Nesta espécie [...] pessoal") e a segunda à dis-
tâncìa entre o desejo e a arte ("Nestas condições [...] consumir").

229
( )s çlt tot-rits rM FtLosoFtA
XV Exrupros DE pREpARAÇÃo E DE REDAÇÃo Do coMENTARTo DE TEXTo

Scrrdo assim, a segunda subparte ("Nestas condições 1...1 con- A simples aparên-
sunrir") nos mostra que o desejo negador e destruìdor nos deixa cia (estética) não O segundo movimento ("Mas [...Ì a eles") desta terceira parte . No desejo,
lxrm longe da esfera artística. A "aparência superficial" da obra de pode satisfazer o contrapõe o desejo e a liberdade do sujeito. Ser livre seria o sujeito não é
arte opõe-se a "existência sensível e concreta", o próprio objeto desejo. aceder à razão e ao universal, compreender aquilo que vale para mais livre do que
do desejo. O que designa a primeìra? Aquilo que é simplesmente todos. Ora, o homem desejante não penetra nesta esíera. Hegel o obieto.
dado das coisas, em nossa representação artística, indepen- .já notou que aquele que deseja não chega ainda ao pensamento
dentemente de todo objeto concreto. A existência sensível, ao e às determinações gerais ou universais. Aqui sua análìse apoia-
contrário, manifesta uma presença hìc et nunc, individual, dada se ainda sobre a limitação do desejo, sujeito aos interesses
aos sentidos, Iigada a coisas que se pode ver ou tocar. A obra de
imediatos e individuais, não ultrapassando em nenhum caso o
arte contenta se com aparências, ela privilegia a simples Íorma
dos oLrjetos, ìndependentemente de toda presença concreta. Ora, nível do ser concreto que forma um todo reconhecível (aquilo
o desejo negador não pode ter como objeto uma simples íorma que se liga ao indivíduo e ao individual).
estética: ele precisa destruir, negar, dar satisíação a interesses ou
a pulsões de essência puramente individual ou biológica. Ele nào É por um duplo motivo que o desejo permanece limitado: por Dupla limitação
é, portanto, desinteressado: ligado a interesses imediatos, ele nào um lado, a negatividade (individual) não pode ligar-se a uma do sujeito dese-
pode senão negar e destruir - para seu próprio fim e sua própria atividade aitamente consciente que busca uma escolha válida jante.
disposição vital - uma realidade sensível imediata. para todos e conforme à norma absoluta do pensamento hu-
Assim, o desejo nos deixa ainda longe do verdadeÌro espírito, Balanço da mano (a "uma vontade essencialmente universal e razoável,,). O
longe da obra de arte, longe do unìversal do pensamento. Toda segunda parte do desejo não é nem universal nem razoável. Por outro Iado, a he-
a dialética do desejo leva a sublinhar sua iníerioridade espiritual textoi inferio- teronomìa do desejo parecc manifesta num segundo nível: apa-
Resta aproíundar a essência do desejo e esta iníerioridade, para ridade espìritual nhado na armadilha dos objetos externos e subordinado a eles,
melhor compreender a relação com a obra de arte. do desejo. condenado a projetar-se para as coisas numa busca que renasce
sem cessari o homem desejante não acede a uma ìiberdade
. verdadelra. Negando o objeto e destruindo-o, recomeçando sem
Terceira parte: no desejo não há liberdade nem independência O desejo não
("O desejo [...] a eles"). significa a ìiber- cessar este movimento de destruição, o desejo não é realmente
dade: acesso ao espiritual nem à liberdade. Resta agora considerar as
Que existe iníerioridade espiritual do desejo, iníerioridade consequências destas análises no que concerne à relação com a
espiritual que leva a pensar que a arte deve excluir todo desejo, . Não há liber- obra de arte.
é o que esta terceira parte nos irá mostrar, numa análise estru- dade do lado do
turada em dois movimentos. objeto. o Quarta paíte: a arte situa-se para além de todo desejo (,,As

Seu primeiro movimento ("O desejo [...] esgotamento") nos mostra


relações [...Ì todo desejo").
o Íosso que existe entre desejo - ou seja, negatividade destrutiva e
liberdade do objeto, sendo a liberdade concebida aqui como o Esta última parte conclui perfeitamente a íenomenologia do A conclusão
íato de não estar sujeito a uma outra realidade ou a um outro ser, desejo que Hegel acaba de descrever duíante toda a sua de Hegel diz
como o estado de uma coisa que não tem relação com outra, como análise. Ele nos mostrou a "selvageria" e a negatividade de um respeÌto à obra
a situação de um ser que pode subsistir em si mesmo, tal como ele movimento heterônomo, escravizado aos objetos, dependente de arte.
é, sem estar sujeito à boa vontade de um outro. Evidentemente, o das necessidades imediatas, incapaz de distanciar-se da esÍera
desejo, deíinido como tendência que impele o homem a negar o
biológica e vital. Se ó esta a essência do desejo, o que resulta
objeto, não pode, pela própria deíinição, deixar subsistir tal qual
no que diz respeito à relação com a obra de arte e igualmente à
este objeto, ou seja, determinada realidade dada. O trecho de He-
gel nos mostra esta busca sem Íim, este movimento da consciência própria essência da obra de arte? Hegel irá examinar este duplo ldeia geral desta
que, sem descanso, não respeita o ser dado, mas o nega, tende sem ponto de vista em dois movimentos e, ao mesmo tempo, revelar quarta parte: a
cessar a apoderar-se concretamente das coìsas e a íazê-las suas. a natureza das verdadeiras necessidades e interesses espirituais obra de arte está
Toda esta análise é clássica e ocupa um lugar central em Hegeì. Ela do homem, problema central, como vimos, em todo o desen- ligada a uma
Íìgura na Fenomenologìa do espírito, onde Hegel nos mostrou que volvimento. A obra de arte, ìigada a uma livre contemplação do contemplação
o objc.to indlvidua! do desejo nunca é um objeto coìocado em sua
inrkpendêncìa. A verdade de todo objeto é ser negada para que as-
. Pano de fundo: espírito humano, responde às nossas necessidades espirituais espiritual.
A fenomenologia mais elevaclas.
sirn .r r onsc:iência possa formar-se e tornar-se una, num movimento
irì(r'ss,ìrìlc c quc renasce indefinidamente. do Espírito.

Ìto
231
()s r,tÉrooos EM FrLosoFrA
XV Exrupros DE pREpARAÇÃo E DE REDAÇÃo Do coMENrÁRto DE TEXTo

Examinemos primeiramente o primeiro movimento: a relação o Uma relação Compreende-se assim a importância da última frase: a verdadei- Balanço'. a obra
entre o homem e a obra de arte ("As reìações [...J do espírito"). ra finalidade da obra de arte é "satisfazer interesses espirituais,,, de arte satisÍaz as
desinteressada e
Note-se que pela primeira vez aparece, no texto, este conceito teórica- ou seja, contentar nossa aspiração supremai aquela aspiraçào mais altas aspira-
de obra de arte. O que designa este conceito? Um conjunto de pela qual queremos compreender-nos enquanto espírito. Com ções espirituais.
materiais e de sinais que maniíestam uma intenção estética. Este eíeito, a que aspira, fundamentalmente, o ser humano? Aspira a
conjunto que expressa o belo não pode comportar a mínima apreender-se nas coisas, não como expressão de uma subjetivi-
reìação com a negatividade do desejo. Tendo sublinhado acima dade sensível e finita, mas como pensamento universal e como
o impulso selvagem e sensível que atua no desejo, Hegel está forma que reflete a ldeia. Quando, na arte, capta um desdobra-
em condições de contrapor, a este movimento irrefletido, a mento exterior do Espírito, o ser humano satisfaz seus interesses
livre contemplação estética. Retenhamos aqui essencialmente a mais elevados. Assim, criada ou contemplada, a obra de arte
fórmula "o lado teórico"; lembremos a etimologia: teórico vem traz satisfação à parte mais nobre do ser humano, o espírito. A
do grego theôrein, contemplar. O lado teórico designa o lado arte é o espírito tomando-se por objeto. Por isso ela não pode
da pura contemplação, em oposiÇão à ação e à prática. O que nos enSanar.
Hegel nos mostra aqui é o desapegar-se das realidades sensíveis
imediatas que acontece na contemplação estética; o objeto es- Assim a arte, expressão espiritual alienada no sensível, mas mais A art€ está para
próxima do espírito que do sensível, é estranha ao desejo e se além do desejo.
tético não é desejado, não é negado, destruído: ele permanece,
independente e livre. Hegel insistiu mais acima na heteronomia situa muito além desse impulso puramente empírico.
do desejo. Na contemplação estética afirma-se, pelo contrário,
uma relação livre e desinteressada. Desejar o objeto é, por isso
mesmo, não compreendê-ìo esteticamente. No iado oposto, a
participação no belo afasta para bem longe dos desejos carnais
e sensíveis, ela diz respeito à contemplação, estranha a toda
negatividade. Estas anáiises de Hegel só são compreensíveis hìstoricamente: Pano de {undo
Hegel herda, aqui, teses de Kant, teses que ele prolonga e l<antiano.
No segundo movimento ("Por isso [...] desejo") desta última o A obra de arte, enriquece. Detenhamo-nos, primeiramente, neste pano de fundo
parte, movimento que conclui a demonstração, o que se resgata "quase-objeto". kantiano.
é a essência da obra de arte. Esta possui, sem dúvida, uma
"existência sensível", uma realidade concreta, encarnada, Com eíeito, afirmar que a arte, livre contemplação pelo espírito,
trazida hic et nunc, através de determinações empíricas. Mas situa-se para além do desejo é, implicitamente, reíerir-se à
não se trata de uma verdadeira realidade imediata, dada Crítica do juízo. Nesta obra, Kant demonstrou (análìses que
realmente no mundo: trata se, com eíeito, de uma aparência constituem, no Íundo, o centro de qualquer reflexão estética
do sensível. Relacionando-se ao concreto, a obra de arte é, nào possível) que a satisíação produzida pelo belo é independente
obstante, obra espiritual e, como tal, não pode ser da mesma de todo interesse sensível: se um objeto corresponde, em mim, a
natureza que o sensível. Lembremos que Hegel, na Éstética, sub- um desejo ou a uma necessidade, se ele me faz sentir um prazer
llnha que o Belo é unidade entre a forma sensível e a ldeia. Nós ligado a possíveis satisÍações, então experimento algo agradável
compreendemos que a obra de arte não pode de íorma alguma (ligado ao desejo) e não capto o belo propriamente dito. Por
possuir realmente um estar-aí imediato: isto seria negar, nela, a conseguinte, o sensível e o agradável não podem desembocar
ideia e o Espírito. Se a obra de arte exprime o espírito através de num juízo estético puro. Antes de Hegel, Kant nos mostrou que
uma Íorma sensível, esta última, no entanto, não possui nenhum o belo pertence a uma outra esíera diferente da esfera do prazer
prlvilégio: nem a cor nem o som são dados em nosso mundo, ou do desejo. Assim a doutrìna de Kant constitui, sob certo
mas são sinais de outra coisa e anunciam o espiritual. É isso ângulo, o horizonte da doutrina de Hegel, mesmo se as reflexòes
que Hegel nos mostra com muito vigor em toda esta passagem. estéticas dos dois pensadores se expandam em direções muito
Na arte, tudo me arrasta para a ldeia e o Espírito. A realidade diferentes.
empírica dada é estreitamente modelada por eles.

1)1
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Os vÉrctoos ËM FrLosoFtA

Mas, se a análise de Hegel é inseparável deste pano de íundo, Alcance do


não se pode, porém, reduzi-la ao prisma kantiano. O que texto de Hegel:
aparece como central, no texto proposto para nosso estudo, é a a cìivagem entre
clivagem, sublinhada por Hegel, entre a negatividade do desejo a negativìdade
sensível e o universo da contemplação estética. É aqui que se e o universo da
manifesta a perspìcácia do pensador de Berlim. Mostrando, de contemplação
forma brilhante, atravós de anáìises que prolongam a Fenomeno- estética.
logia do Espírito, que, na relação desejante, objetos são inces-
santemente destruídos pelo sujeito, pondo assim claramente em
evidência que nem o objeto nem o sujeito são, no desejo, livres ^d-q M ro
e independentes, Hegel nos traz aqui elementos de reílexão
importantes e ilumina a clivagem entre a esíera sensível e vital e
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a obra de arte, sob um ângulo novo em relação a Kant.

A novidade da análise hegeliana:


Ao Ìongo de todo este Ìiwo esforçamo-n0s p0r descobrir e apresentar
Assim, aquilo que, para o leitor, é fundamentaì e decisivo é O belo hegeliano
os procedimentos sucessivos que permitem Ìevar a bom termo os exer-
a análise hegeliana do desejo, movimento incessante de des- anuncia o ver-
truição, posto à distância por aquele que contempla a obra de dadeiro saber do cícios filosóficos. Para isso descrevemos e explicitamos regras e "modos
arte. Bem longe da negatividade do desejo, a arte anuncìa o espírito. de usar" destinados a orientar 0s estudantes universitários.
verdadeiro saber do Espírito, no qual, como sabemos, o belo Mas não podemos nos iludir sobre o sentido destes procedimentos.
e a arte cedem íinalmente o lugar à reìigião e à filosofia: ao
Um método (verdadeiro) nunca se confunde com um conjunto de re-
pensamento enquanto tal.
ceitas. Sendo assim, a fim de evitar todo mal-entendido, lembremos,
para conclui! o caráter fleível das regras do método. Que os esquemas
metodológicos explicitados neste liwo não induzam você a0 engano.
Longe de se destinarem a produzir mecanicamente 0 resultado, eles
Para além desta perBunta primeira, inscrita em nosso texto (a A resposta ao têm a finalidade - programa ambicioso... - de ensinar a pensar. 0 mé-
arte visa satisfazer o desejo?), descobrìmos um problema mais problema levan- todo desenvolvido e apresentado nesta obra representa, antes de tudo,
profundo: quais são as necessidades espirituais mais elevadas tadc: pelo tema. uma atitude ordenada e coerente em relação aos objetos considerados.
do ser humano? O texto nos ensina que uma das necessidades
É neste sentido que ele pretende ser um instrumento de cuÌtura e de
espirituais mais elevadas consÌste, para o ser humano, em
apreender sua íorma espiritual no mundo, em compreender se liberdade espiritual.
a si mesmo, enquanto espírito, no real e nas coisas. Quando
o ser humano contempla seu espírito fora dele mesmo, então,
reconciliado consigo mesmo, ele pode alcançar a serenidade. É
justamente este um dos privilégios da arte.

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