Você está na página 1de 66

ALDOUS HUXLEY

O GÊNIO E A DEUSA

tradução de
JOÃO GUILHERME LINKE

Segunda Edição

EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. A. RIO DE


JANEIRO
do original inglês: The Genius and the Goodness

desenho de capa:
EUGÊNIO HIRSCH

do mesmo autor, publicados por esta Editora: O Macaco e a


Essência As Portas da Percepção E
A Ilha

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela


EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A. Rua 7 de
Setembro, 97 RIO DE JANEIRO que se reserva a
propriedade desta tradução.

1965
Impresso nos Estados Unidos do Brasil Printed in the
United States of Brasil
— O MAL DA FICÇÃO — disse John Rivers — é que ela faz sentido demais. A
realidade nunca faz sentido.

— Nunca? — contestei.

— Talvez do ponto de vista de Deus — concedeu ele. — Do nosso, nunca. A ficção


tem unidade, a ficção tem estilo. A realidade não possui nem uma coisa nem outra. Em seu
estado bruto, a existência é sempre um infernal emaranhado de coisas, e cada uma dessas
coisas é simultaneamente Thurber e Miguel Ângelo, é ao mesmo tempo Mickey Spillane e
Thomas Kempis. O critério da realidade é a sua incongruência intrínseca.
— E à minha pergunta: — Com quê? — abanou uma grande mão bronzeada em
direção às estantes de livros.
— Com o Melhor que se Escreveu e se Pensou — declamou com grandiloqüência
burlesca. — Por estranho que pareça, — prosseguiu — as ficções mais vizinhas da realidade
são sempre as que se têm por menos verossímeis. Inclinou-se e tocou a lombada de um
surrado exemplar de Os Irmãos Karamazov. — Isto faz tão pouco sentido que chega a ser
quase real. Tanto não se poderá dizer de qualquer dos gêneros acadêmicos de ficção. Ficção
física e química. Ficção histórica. Ficção filosófica... — Seu dedo acusador moveu- se de
Dirac para Toynbee, de Sorokin para Carnap. — Muito mais do que se possa dizer da ficção
biográfica. Aqui temos o mais recente espécime no gênero.
De sobre a mesa ao lado, apanhou um volume numa sobrecapa azul brilhante e
ofereceu-o à minha inspeção.
— A Vida de Henry Maartens — li, com o vago interesse que nos desperta um nome
familiar. Em seguida ocorreu-me que, para John Rivers, esse nome havia sido algo mais que
um simples nome familiar. — Você foi seu discípulo, não é verdade?

Rivers assentiu sem falar.

— E esta é a biografia oficial?

— A ficção oficial — emendou ele. — O retrato memorável de um cientista de


novela barata — você conhece o tipo — o meninão retardado com intelecto gigante; o gênio
enfermo em indômita batalha contra terríveis obstáculos; o pensador solitário e, apesar disso,
o mais extremoso dos chefes de família; o absorto mestre, com a cabeça sempre nas nuvens,
mas com o coração no seu devido lugar... Os fatos, infelizmente, não eram assim tão simples.

— Então o livro é infiel?

— Não, é tudo verídico — até onde a história chega. O resto são coisas de somenos
— ou antes, não existe... E talvez não deva mesmo existir. Talvez a realidade total careça
sempre por demais de dignidade para ser registrada, talvez seja por demais destituída de
sentido, ou por demais horrível, para mostrar-se ao nu. Nem por isso deixa de ser irritante,
quando se conhece a verdade, chega a ser mesmo um tanto insultante ser-se empulhado com
novelas baratas.
— E você vai dar a versão correta? — aventei.

— Para o público? Deus me livre!

— Para mim, então. Entre nós.

— Entre nós — repetiu ele. — E, afinal, por que não? — Encolheu os ombros e
sorriu. — Uma pequena orgia de reminiscência, para celebrar uma de suas raras visitas.

— Quem o ouvisse haveria de pensar que você está falando de uma droga
perigosa.

— E é uma droga perigosa — retrucou ele. — A gente escapa pelas reminiscências


como escapa pelo gim ou pelo amital de sódio.
— Você se esquece — observei — de que eu sou um escritor, e de que as Musas são
filhas da Memória.
— E Deus — acrescentou ele depressa — não é seu irmão. Deus não é filho da
Memória; é filho da Experiência Imediata. É impossível adorarmos um espírito em espírito, a
menos que o façamos no presente. Chafurdar no passado pode ser boa literatura. Como
sabedoria, é estéril. Tempo Recuperado é Paraíso Perdido e Tempo Perdido é Paraíso
Reconquistado. Que os mortos enterrem os seus mortos. Se quisermos viver cada instante tal
como ele se apresenta, temos de morrer para todos os outros instantes. Esta foi a verdade
mais importante que aprendi com Helen.
O nome evocou-me um jovem rosto pálido, emoldurado na abertura de uma
campânula de cabelos negros, quase egípcios — evocou-me, também, as grandes colunas
douradas de Baalbek, com o céu azul e as neves do Líbano ao fundo. Eu era um arqueologista
nessa época, e trabalhava sob as ordens do pai de Helen. Fora em Baalbek que eu a pedira em
casamento e fora rejeitado.

— Se ela se tivesse casado comigo — falei — teria eu aprendido?

— Helen praticava o que sempre se absteve de pregar — respondeu Rivers. — Seria


difícil deixar de aprender com ela.
— E o que seria das minhas obras, o que seria dessas filhas da Memória?

— Teria havido um meio de tirar o melhor dos dois mundos.

— Um meio-termo?

— Uma síntese, uma terceira posição, subtendendo as duas outras. Aliás, na


verdade, nunca se pode tirar o melhor de um mundo, a menos que se haja ao mesmo tempo
aprendido a tirar o melhor do outro. Helen soube tirar o melhor da vida, mesmo quando
estava morrendo.
No quadro das minhas recordações, Baalbek cedeu lugar ao campus de Berkeley, e
em vez da campânula silenciosamente balouçante de cabelos negros havia um coque
grisalho, em vez de um rosto de menina vi as feições emaciadas e murchas de uma velha. Já
então, ela devia estar doente.

— Eu estava em Atenas quando ela morreu — disse em voz alta.

— Sim, eu me lembro. — Depois acrescentou: — Gostaria que você tivesse estado


aqui. Por causa dela — ela o apreciava muito. E, naturalmente, por sua causa também.
Morrer é uma arte, e na nossa idade deveríamos estar a aprendê-la. É bom ter visto algué m
que realmente o soube. Helen soube morrer porque soube viver — soube viver no lugar e no
momento presente, para maior glória de Deus. E isto necessariamente importa também em
morrer de quando em quando, na consciência do amanhã e do nosso mísero pequenino ser.
No ato de viver a vida como ela deve ser vivida, Helen tinha estado morrendo em prestações
diárias. Quando chegou o acerto de contas, praticamente nada mais havia a saldar. A
propósito — Rivers prosseguiu após uma pausa — eu estive bem próximo do acerto de
contas no ano passado. Com efeito, não fosse a penicilina, eu não estaria aqui. Pneumonia, a
amiga dos velhos. Hoje em dia ressuscitam-nos, para que possamos ainda desfrutar a nossa
arteriosclerose ou o nosso câncer de próstata. Como vê, é tudo inteiramente póstumo. Todos
estão mortos exceto eu, e eu mesmo estou vivendo por empréstimo. Se der a versão correta,
será como um fantasma falando de fantasmas. E seja como for, hoje é véspera de Natal; uma
história de fantasmas será pois apropriada. Além do mais, você é um velho amigo, e ainda
que vá contar tudo em uma novela, que importa?
Seu largo rosto vincado iluminou-se com uma expressão de afetuosa ironia.

—. Se lhe importar — assegurei-lhe — eu não o farei.

Desta vez ele riu-se francamente.

— Os votos mais severos são palha para o fogo do sangue — citou. — Eu confiaria
antes minhas filhas a Casanova, que os meus segredos a um novelista. Os fogos literários são
ainda mais devoradores que os do próprio sexo. E os votos literários são ainda mais palha que
os matrimoniais ou os monásticos.

Tentei protestar; mas ele se recusou a ouvir-me.

— Se eu quisesse ainda guardar segredo — continuou — não lhe contaria. Mas,


quando você publicar a história, não se esqueça, por favor, da nota de costume. Você sabe —
qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Mera coincidência!
Voltemos pois aos Maartens... Eu tenho por aí um retrato. — Ergueu-se da cadeira, dirigiu-se
à escrivaninha e abriu uma gaveta. — Todos nós juntos — Henry, Katy, as crianças e eu. —
E por milagre — ajuntou, depois de remexer por um momento entre os papéis da gaveta —
ele está onde devia estar.
Estendeu-me a ampliação esmaecida de um instantâneo. Este mostrava três adultos
de pé à frente de um chalé de madeira — um homenzinho magro, de cabelos brancos e nariz
pontudo, um jovem gigante em mangas de camisa e, entre eles, loura, risonha, uma
esplêndida Valquíria de ombros largos e seios pujantes, incongruentemente trajada, numa
saia funil. Aos seus pés, duas crianças sentadas: um menino de nove ou dez anos e sua irmã
mais velha, uma adolescente de tranças.
— Como ele parece velho! — foi o meu primeiro comentário. — Suficientemente
velho para ser o avô de seus filhos.

— E suficientemente infantil, aos cinqüenta e seis, para ser o caçula de Katy.

— Um incesto um tanto complicado...

— Mas deu certo — insistiu Rivers — deu tão certo que chegou ao ponto de uma
legítima simbiose. Ele vivia dela. E ela ali estava para dar-lhe a vida

— encarnação da maternidade.

Olhei outra vez a fotografia.

— Que fascinante mistura de estilos! Maartens é puro gótico. A mulher é uma


heroína wagneriana. As crianças, uma autêntica obra de Mrs. Molesworth. E você, você... —
levantei os olhos para a face quadrada e coriácea que me defrontava do outro lado da lareira
e baixei-os outra vez para o instantâneo. — Tinha-me esquecido da beleza que você era. Uma
cópia romana de Praxíteles.
— Você não poderia pintar-me como um original?

— propôs ele.

Sacudi a cabeça.

— Veja este nariz — repliquei. — Veja o contorno do queixo. — Isto não é Atenas;
isto é Herculano. — Mas, por sorte, as pequenas não se interessam pela história da arte. Para
todos os efeitos práticos do amor, você era o artigo autêntico, o genuíno deus grego.

Rivers fez uma careta desgostosa.

— Talvez aparentasse o papel — volveu ele. — Mas se pensa que eu era capaz de
desempenhá-lo... — Abanou a cabeça. — Para mim não havia Ledas, nem Dafnes, nem
Europas. Naquela época, lembre-se, eu era ainda o produto acabado de uma educação
deplorável. Filho de um pastor luterano e, dos doze anos em diante, único consolo de uma
mãe viúva. Sim, o seu único consolo, não obstante o fato de ela considerar-se uma cristã
devota. O pequeno Johnny ficou em primeiro, em segundo e em terceiro lugar. Deus não
conseguiu classificar-se. E, como era de esperar, o único consolo não teve outro remédio
senão tornar-se o filho exemplar, o aluno brilhante, o infatigável detentor de bolsas escolares,
abrindo a duras penas o seu caminho através da faculdade e do doutorado, sem lazeres para
qualquer coisa mais sutil que o futebol e a sociedade orfeônica, ou mais edificante que o
sermão semanal do Reverendo Wigman.
— Mas, e as pequenas lhe permitiam que você as ignorasse? Com uma estampa como
esta? — Apontei o atleta de cabelos encaracolados no instantâneo.

Rivers guardou silêncio, depois respondeu com outra pergunta:

— A sua mãe lhe disse alguma vez que o mais belo presente de núpcias que um
homem pode ofertar à sua noiva é a própria virgindade?

— Felizmente não.

— Pois a minha disse. E o que é mais, disse-o de joelhos, no decurso de uma de suas
preces improvisadas. Ela era exímia em matéria de preces de improviso — acrescentou num
parênteses. — Melhor ainda do que fora meu pai. As sentenças brotavam ainda mais fluentes,
a linguagem era ainda mais consumadamente hierática. Ela possuía a capacidade de discutir a
nossa situação financeira, ou de ralhar-me pela minha relutância em comer pudim de tapioca,
no mais puro estilo da Epístola aos Hebreus. Como modelo de virtuosidade lingüística, era
simplesmente assombroso. Para minha infelicidade, não me era dado analisar o conteúdo
daquele estilo. A protagonista era minha mãe e a ocasião era solene. Tudo o que era dito,
enquanto ela conversava com Deus, tinha de ser ouvido com religiosa compunção.
Especialmente quando dizia respeito ao grande tema proibido. Aos vinte e oito anos, por
incrível que pareça, eu tinha ainda guardado o tal presente de núpcias para a minha noiva
hipotética.

Houve um silêncio.

— Meu pobre John — disse eu por fim. Ele sacudiu a cabeça.

— Diga antes, minha pobre mãe. Ela tinha tudo preparado com tanta perfeição! Uma
docência na minha velha universidade, depois uma assistência, por fim a cátedra. Não
haveria para mim jamais a necessidade de abandonar o lar. E, quando eu andasse por
voltados quarenta, ela me arranjaria um casamento com alguma encantadora donzela
luterana, que haveria de amá-la como à sua própria mãe. Mas, com a graça de Deus, lá se foi
John Rivers — no caminho da perdição. A graça divina era iminente — e agiria com
imprevisível violência.
Um belo dia, poucas semanas depois de receber meu diploma, recebi uma carta de
Henry Maartens. Ele estava então em St. Louis, trabalhando com átomos. Precisava de um
novo assistente de pesquisas, tinha ouvido do meu professor boas referências a meu respeito,
não podia oferecer mais que um salário escandalosamente reduzido, no entanto — estaria eu
interessado? Para um físico principiante, era uma oportunidade em mil. Para minha pobre
mãe, era o fim de tudo. Fervorosamente, agoniadamente, ela orou sobre o caso. Para minha
eterna gratidão, Deus ordenou-lhe que me deixasse partir.
Dez dias depois, um táxi depositou-me ante a soleira dos Maartens. Lembro-me de ter
ficado ali parado, a suar frio, tentando reunir coragem para apertar a campainha. Como um
escolar delinqüente que tem audiência marcada com o prefeito de disciplina. A primeira
euforia pela minha incrível boa-sorte de há muito se evaporara e, no correr dos últimos dias
em casa, como durante as intermináveis horas da viagem, eu não conseguira pensar senão
na minha própria incompetência. Quanto tempo levaria um homem como Henry Maarrens
para ver através de um homem como eu? Uma semana? Um dia? Com certeza não mais que
uma hora! Ele me desprezaria; eu seria o alvo das chacotas do laboratório. E as coisas não
correriam melhor fora do trabalho. Pensando bem, talvez corressem até pior. Os Maartens
haviam-me convidado para ser seu hóspede até que eu encontrasse alojamento. Como eram
gentis! Mas, também, como eram diabolicamente cruéis! No ambiente austero e culto do seu
lar, eu haveria de revelar-me o que era — tímido, bronco, irremediavelmente provinciano.
Entretanto, o prefeito estava à espera. Cerrei os dentes e apertei o botão. A porta foi
aberta por uma dessas velhas babás negras de teatro antigo. Você sabe, do tipo que nasceu
antes da Abolição e insistiu em ficar com Miss Belinda. O desempenho era um tanto vulgar;
mas o papel era simpático e, se bem que adorasse exagerá-lo, Beulah não se limitava a ser um
tesouro; como bem cedo descobri, estava bem próxima da canonização. Expliquei quem era
e, enquanto eu falava, ela me examinava dos pés à cabeça. Devo ter-lhe parecido satisfatório
pois, de pronto, adotou-me como a um membro da família há muito perdido, uma espécie de
Filho Pródigo recém-tornado do exílio. "Vou preparar-lhe um sanduíche e uma boa xícara de
café", insistiu, acrescentando, "estão todos aí". Abriu uma porta e empurrou-me para dentro.
Retesei-me para enfrentar o prefeito e uma barragem de cultura. Mas, o que em
verdade deparei foi algo que, se tivesse visto quinze anos mais tarde, poderia ter confundido
com uma paródia em tom menor dos Irmãos Marx. Eu me encontrava em um living room
amplo e extremamente desarrumado. Estirado sobre um sofá jazia um homem de cabeleira
branca, com o colarinho desabotoado, aparentemente moribundo — pois o rosto era lívido, a
respiração ia e vinha com uma espécie de) estertor (sibilante. Ao lado, numa cadeira de
balanço — com a mão esquerda pousada sobre a testa dele e um exemplar do Universo
Pluralístico de William James, na direita — a mais bela mulher que eu já vira, lia
tranqüilamente. No chão estavam duas crianças — um rapazinho ruivo a brincar com um
trem de corda e uma menina de catorze anos, de calças compridas, deitada de bruços a
escrever poesia (eu podia distinguir a forma das estrofes) com um lápis vermelho. Todos eles
se achavam tão profundamente absorvidos nas suas respectivas ocupações — brincando ou
versejando, lendo ou morrendo — que durante pelo menos meio minuto a minha presença no
aposento passou de todo desapercebida.
Tossi, não obtive reação, tossi outra vez. O rapazinho levantou a cabeça, sorriu-me
com polidez mas sem interesse, e voltou ao seu trenzinho. Esperei mais dez segundos;
depois, em desespero, avancei para o interior da sala. A poetisa em decúbito barrava-me o
caminho. Passei por cima dela. "Com licença", murmurei. Ela não me deu atenção; mas a
leitora de William James ouviu-me e olhou para mim. Por sobre a borda superior do
Universo Pluralístico, seus olhos eram de um azul rutilante. "O senhor é o homem do gás?"
Perguntou. Seu rosto era de um encanto tão irradiante que, por um momento, permaneci
incapaz de pronunciar uma só palavra. Consegui apenas abanar a cabeça. "Boba!" Exclamou
o menino. "O homem do gás tem bigode". "Eu sou Rivers", pude por fim balbuciar.
"Rivers?" Repetiu ela sem compreender. "Rivers? Oh, Rivers!" Houve um súbito despontar
de reconhecimento. "É um prazer..."
Mas, antes que ela pudesse completar a frase, o homem do estertor abriu um par de
olhos espectrais, produziu um ruído semelhante a um grito de guerra aspirado e, saltando do
sofá, precipitou-se para a janela aberta. "Cuidado!" Gritou o menino. "Cuidado!" Houve um
estrépito. "Oh, raios!" Proferiu num tom de desespero contido. Uma Estação Central inteira
jazia em ruínas, reduzida aos seus blocos componentes. "Raios!" Repetiu o menino; e
quando a poetisa lhe observou que ele não devia dizer raios, ameaçou: "Pois então eu digo
uma coisa feia mesmo. Eu digo..." Seus lábios articularam um impropério silencioso.
Da janela, entretanto, vinham os sons horríveis de um homem a ser enforcado aos
poucos.
"Com licença", disse a beldade. Levantou-se, largou o livro e correu em seu socorro.
Ouviu-se um fragor metálico. A barra de sua saia derrubara uma torre de sinalização. O
rapazinho soltou um guincho de raiva. "Sua estúpida", berrou ele. "Sua... sua elefanta!"
"Os elefantes", notou a poetisa didaticamente, "sempre olham onde pisam". Depois
voltou a cabeça e pela primeira vez tomou conhecimento da minha existência. "Eles
tinham-se esquecido completamente de você", explicou-me num tom de enfastiada e
desdenhosa superioridade. "É assim que são as coisas por aqui".
À janela, o enforcamento gradual ainda estava em curso. Dobrado sobre si mesmo,
como se alguém lhe tivesse dado um soco no estômago, o homem de cabelo branco lutava
por ar, travando o que parecia e soava como uma batalha perdida. Junto dele, a deusa dava-
lhe palmadinhas nas costas e murmurava palavras de encorajamento. Eu estava aterrado. Era
a coisa mais medonha que eu já vira.
Algo puxou-me a barra da calça. Voltei-me e dei com a poetisa a encarar-me. Tinha
um rostinho miúdo e intenso, com olhos cinzentos muito separados e um nada maiores do
que deveriam ser. "Sepultura", disse ela. "Preciso três palavras para rimar com sepultura. Já
tenho escura, que dá certo. E tenho transfigura, que eu acho uma beleza. Que tal
desventura?..." Meneou a cabeça; depois, franzindo a testa, leu alto: "A negra sepultura Da
minhalma presa de infinita desventura. Não estou gostando, você está?" Tive de admitir que
não. "No entanto, é exatamente o que eu quero dizer", prosseguiu ela. Tive uma inspiração.
"Que tal amargura?" O semblante dela iluminou-se de prazer e excitação. Mas claro, claro!
Como não pensara nisso antes!? O lápis vermelho pôs-se a rabiscar em ritmo furioso. "A
negra sepultura", declarou triunfante, "Da minhalma repleta de crônica amargura". Devo
ter-lhe parecido dubitativo, pois perguntou-me depressa se eu achava que intérmina
amargura ficaria melhor. Antes que eu pudesse responder, houve um novo e mais forte ruído
de estrangulamento. Relanceei um olhar em direção à janela e dirigi-me outra vez à poetisa.
"Não há nada que se possa fazer?" Cochichei. A menina abanou a cabeça. "Eu olhei na
Encyclopaedia Britannica", respondeu. "Lá diz que a asma nunca matou ninguém". Depois,
vendo-me ainda perturbado, encolheu os pequenos ombros ossudos e rematou: "A gente
acaba se acostumando".
Rivers riu-se consigo mesmo a saborear a recordação. — "A gente acaba se
acostumando", — repetiu. — Cinqüenta por cento das Consolações da Filosofia em cinco
palavras. E os outros cinqüenta podem ser expressos em seis: irmão, quem está morto, está
morto. Ou, se prefere, em sete: irmão, quem está morto, não está morto.

Ergueu-se e pôs-se a avivar o fogo.

— Bem, assim foi que travei conhecimento com a família Maartens — continuou
enquanto colocava mais uma acha de carvalho sobre a pilha de brasas incandescentes. —
Acabei me acostumando com tudo, e bem depressa. Até mesmo com a asma. Ê
extraordinária a facilidade com que a gente se acostuma com a asma dos outros. Após duas
ou três experiências, passei a encarar os acessos de Henry com tanta calma quanto o resto da
família. Num dado momento ele estava sendo estrangulado; no minuto seguinte estava são e
rijo, falando pelos cotovelos sobre a mecânica dos quanta. E continuou a repetir o número até
os oitenta e sete anos. Enquanto que eu dar-me-ei por feliz — ajuntou com um sacão final do
atiçador — se chegar aos sessenta e sete. Eu era um atleta, como você vê. Um desses sujeitos
do tipo forte-como-um-touro. Nunca um só dia de doença — até que, de repente, bumba,
vai-se uma coronária, ou zás, estouram os rins! Enquanto isso, os cacos velhos, como o nosso
pobre Henry, vão vivendo, a lastimar-se dos seus achaques, até chegar aos cem. E não apenas
a lastimar-se — mas a sofrer de fato. Asma, dermatite, mil e uma variedades de dores de
barriga, cansaços inconcebíveis, indescritíveis depressões. Ele tinha um armário no seu
gabinete e outro no laboratório, atulhados de pequenos frascos de remédios homeopáticos, e
nunca arredava pé de casa sem o seu Rhus Tox, o seu Carbo Veg, sua Bryonia ou seu Kali
Phos. Os colegas céticos costumavam rir-se dele ao vê-lo administrar-se medicamentos tão
prodigiosamente diluídos que, numa pílula, só poderia haver se tanto uma simples molécula
da substância curativa.
Mas Henry estava preparado para enfrentá-los. Para justificar a homeopatia, ele tinha
desenvolvido uma teoria completa de campos imateriais — campos de energia pura, campos
de organização incorpórea. Naquele tempo, soava absurdo. Mas Henry, não se esqueça, era
um gênio. Aquelas suas noções disparatadas estão hoje começando a fazer sentido. Mais
alguns anos e elas serão evidentes por si.
— O que eu quero saber — interrompi — é sobre as dores de barriga. Afinal as tais
pílulas surtiam efeito, ou não?
Rivers encolheu os ombros.

— Henry chegou aos oitenta e sete — replicou, retomando o assento.

— E não teria chegado aos oitenta e sete sem as pílulas?

— Eis — volveu Rivers — um exemplo perfeito de pergunta fútil. Não podemos


ressuscitar Henry Maartens e fazê-lo viver outra vez a sua vida sem a homeopatia. Portanto,
jamais nos será dado estabelecer a relação entre a sua automedicarão e a sua longevidade. E
onde não há resposta válida possível, não há sentido admissível na pergunta. Eis porque —
prosseguiu — nunca poderá existir uma ciência histórica — uma vez que nunca existirá a
possibilidade de verificar-se a verdade de uma hipótese. Daí a fundamental inconseqüência
de todos esses livros. E, não obstante, a gente tem de ler essas malditas coisas. De outro
modo, como encontrar uma saída do caos da realidade imediata? Sem dúvida é o caminho
errado; isto é óbvio. Mas ainda é preferível trilhar o caminho errado a andar de todo perdido.

— Uma conclusão não muito animadora — comentei.

— É a melhor a que podemos chegar, pelo menos em nossa condição presente. —


Rivers calou-se por um momento. — Bem, como dizia — recomeçou em tom diferente —
acabei por me acostumar com a asma de Henry, acabei por me acostumar com todos eles,
com tudo. Tanto assim, com efeito, que quando após um mês de buscas consegui localizar
um apartamento barato e não de todo infecto, eles não me deixaram partir. "Aqui você está",
disse Katy, "e aqui você fica". A velha Beulah secundou-a. O mesmo fez Timmy e, embora
numa idade e numa disposição de discordar de tudo o que alguém mais aprovasse, o mesmo,
um tanto amuada, fez Ruth. Até o grande homem emergiu por um instante do seu Reino
Encantado para depositar um voto em favor da minha permanência.
E assim encerrou-se o caso. Tornei-me um agregado; tornei-me um Maartens
honorário. Isto fêz-me tão feliz — continuou Rivers após uma pausa — que eu não pude
impedir-me de pensar com inquietação que algo certamente devia estar errado. E bem cedo
vi o que era. A felicidade com os Maartens implicava numa deslealdade para com o meu
próprio lar. Ela era uma admissão de que, durante todo o tempo que eu vivera junto de minha
mãe, jamais experimentara outra coisa senão constrangimento e um crônico sentimento de
culpa. E, agora, como membro dessa família de estrangeiros pagãos, eu me sentia não apenas
feliz, mas também bom; também, de uma maneira toda inédita, religioso. Pela primeira vez
dei-me conta do que todas aquelas palavras das Epístolas realmente significavam. Graça, por
exemplo — eu estava repleto de graça. O frescor do espírito — eu o sentia todo o tempo.
Enquanto que o mais que eu conhecera com minha mãe fora a mortal decrepitude da letra. E
o capítulo XIII da Primeira Epístola aos Coríntios? Fé, esperança e caridade. Pois, sem
querer vangloriar-me, eu as possuía. Fé antes de tudo. Uma fé redentora no universo e no
meu próximo. Quanto à outra espécie de fé — aquela variedade simplista, luterana, que a
minha pobre mãe tinha tanto orgulho em preservar intacta, como uma virgindade, em meio a
todas as tentações da minha instrução científica... — Rivers deu de ombros. — Nada pode ser
mais simples do que zero; e esta, descobri de repente, fora a fé simplista de que eu havia
vivido no decorrer dos últimos dez anos. Em St. Louis eu descobrira o artigo genuíno — fé
verdadeira em um bem verdadeiro, e ao mesmo tempo uma esperança que atingia a certeza
positiva de que tudo seria maravilhoso, para sempre.
E como acompanhamento da fé e da esperança invadiu-me uma caridade
transbordante. Como seria possível sentir afeição por alguém como Henry — por alguém tão
distante que mal sabia quem eu era, e tão centrado em si mesmo que nem queria sabê- lo?
Não, não era possível gostar-se dele — e ainda assim eu gostava, gostava. Não que o
apreciasse meramente pelas razões óbvias — por ser ele um grande homem, porque trabalhar
com ele era como ter a própria inteligência e visão elevada a um expoente mais alto. Gostava
dele mesmo fora do laboratório, por aquelas mesmas qualidades que
tornavam quase impossível vê-lo sob outra forma que não a de um monstro de alta classe. Eu
estava tão repleto de caridade que teria sido capaz de amar um crocodilo, teria sido capaz de
amar um polvo. A gente lê todas essas ficções dos sociólogos, todas essas parvoíces eruditas
dos políticos teóricos. — Com um gesto de desdenhosa exasperação, Rivers bateu nos dorsos
de uma fileira de alentados volumes alinhados na sétima prateleira. — Quando, na verdade,
só existe uma solução, e ela pode ser resumida em uma palavra de quatro letras, tão chocante
que o próprio Marquês de Sade relutava em usá-la. — Ele a soletrou: — A-M-O-R. Ou, se
alguém prefere a obscuridade pudica das línguas eruditas, Ágape, Caritas, Mahakaruna.
Nesse tempo eu soube realmente o que ela significa. Pela primeira vez
— Sim pela primeira vez. Este era o único detalhe inquietante em uma situação de
outra forma bem-aventurada. Pois, se aquela era a primeira vez que eu sabia o que fosse
amar, que dizer de todas as outras vezes em que eu supusera sabê-lo, que dizer daqueles
dezesseis anos em que eu fora o único consolo de minha mãe?

Na pausa que se seguiu, evoquei a imagem de Mrs. Rivers que vinha, algumas vezes,
com o seu pequeno Johnny, passar uma tarde de domingo conosco na fazenda, cerca de
cinqüenta anos atrás. Era uma imagem de alpaca negra, de um perfil pálido como a figura no
camafeu de Tia Esther, de um sorriso cuja deliberada doçura parecia não condizer com a
frieza dos olhos perquiridores. Ao quadro estava associado um gélido sentimento de
apreensão. "Vá dar um beijo em Mrs. Rivers". Eu obedecia — mas com que horripilada
relutância! Uma frase de Tia Esther emergiu, destacada, como uma bolha única, das
profundezas do passado. "Pobre criança", ela dissera, "ele simplesmente idolatra a mãe".
Idolatrara-a, sim. Mas tê-la-ia amado?

— Existirá uma palavra como desfloreio? — Rivers perguntou de repente.

Fiz que não com a cabeça.

— Pois bem, deveria existir — insistiu ele. — Pois era o processo a que eu recorria
nas minhas cartas para casa. Eu registrava os fatos; mas sistematicamente as desfloreava. Eu
transformava uma revelação em algo de insípido, de vulgar e moralístico. Por que continuava
a morar com os Maartens? Por um senso de dever. Porque o Dr. M. não podia guiar o
automóvel e assim eu tinha ocasião de ser útil nos leva-e-traz. Porque as crianças tinham tido
a má-sorte de esbarrar com um par de professores incompetentes e
necessitavam de todo o reforço que eu lhes pudesse prestar. Porque Mrs. Maartens tinha sido
tão gentil que eu me sentia na obrigação de ficar, para aliviá-la de alguns dos seus encargos.
Claro que eu teria preferido a minha independência; mas, seria direito colocar as minhas
preferências pessoais à frente das suas dificuldades? E desde que a pergunta era endereçada à
minha mãe, é claro que só poderia haver uma resposta.

Quanta hipocrisia, que feixe de mentiras! Mas, a verdade teria sido penosa demais
para que ela a ouvisse, ou para que eu a pusesse em palavras. Pois a verdade era que eu jamais
fora feliz, que eu jamais amara, que eu jamais me sentira capaz de espontâneo
desprendimento, até o dia em que deixara o meu lar e fora viver com aqueles amalecidas.

Rivers suspirou e balançou a cabeça.

— Minha pobre mãe — disse. — Talvez eu devesse ter sido mais generoso para com
ela. Mas, por mais generoso que eu fosse, não teria modificado os fatos fundamentais
— o fato de que ela me amava possessivamente, e o fato de que eu não queria ser possuído; o
fato de que ela ficara só e tudo perdera, e o fato de que eu tinha os meus novos amigos; o fato
de ser ela uma estóica orgulhosa, a viver na ilusão de ser uma cristã, e o fato de que eu me
deixara mergulhar num paganismo saudável, e de que, durante todo o tempo em que
conseguia esquecê-la — isto é, todos os dias, exceto aos domingos, quando lhe escrevia a
minha carta semanal — eu era supremamente feliz.
Sim, supremamente feliz! Para mim, naqueles dias, a vida era uma écloga
impregnada de lirismo. Tudo era poesia. Levar Henry para o laboratório no meu Maxwell de
segunda mão; aparar a grama; carregar as compras de Katy para casa debaixo de chuva
— pura poesia. E levar Timmy à estação da estrada de ferro a ver as locomotivas. E, na
primavera, passear pelo campo com Ruth, à cata de lagartas. Ela mostrava um interesse de
profissional pelas lagartas — explicou, ao notar a minha surpresa. — Era parte da síndrome
sepul-tura-desventura. As lagartas eram, na vida real, o que mais se aproximava de Edgar
Allan Poe.

— Edgar Allan Poe?


—. "For the play is the tragedy, Man", — declamou ele, "and its hero, the Conqueror
Worm" (*). Em maio e junho o campo pululava de Vermes Triunfantes.
— Hoje em dia — comentei — não seria Poe. Ela estaria lendo Spillane, ou alguma
das revistas em quadrinhos mais sádicas.

Ele aquiesceu.

— Qualquer coisa, por pior que fosse, contanto que tratasse de morte. A morte —
repetiu — de preferência violenta, de preferência sob a forma de vísceras — é uma das
fascinações da infância. Quase tão forte quanto a fascinação das bonecas ou dos doces, ou a
de brincar com os órgãos genitais. As crianças têm necessidade da morte como meio de
gozar uma nova, deliciosamente repulsiva, espécie de emoção. Não, não é bem isto. Elas a
necessitam, como necessitam de outras coisas, para dar uma forma específica às emoções
que já experimentam em si. Você se lembra de como eram agudas as suas sensações, da
intensidade com que você sentia tudo, quando era criança? A maravilha dos morangos com
creme, o horror do peixe, o inferno do óleo de rícino! E o suplício que era ter de levantar-se e
recitar diante da classe inteira! A ventura inefável de sentar-se ao lado do cocheiro, com o
odor de couro e de suor de cavalo nas narinas, a estrada branca a estender-se até o infinito, os
campos de trigo e de hortaliças girando lentamente, ao rodar da carriola, lentamente
abrindo-se e fechando-se como enormes leques. ...
Quando se é criança, a mente é uma espécie de solução saturada de sentimento, uma
suspensão de todos os frêmitos mas num estado latente, numa condição de indeterminação.
Ora são circunstâncias externas que atuam como agente de cristalização, ora é a própria
fantasia. A gente quer um tipo especial de sensação, e deliberadamente manipula o
pensamento até consegui-la — um cristal resplandecente e róseo de prazer, por exemplo, um
verde ou violáceo torrão de medo; pois o medo, sem dúvida, é um êxtase como outro
qualquer, é uma sinistra variedade de deleite. Aos doze anos, eu costumava deliciar-me com
o pavor das minhas próprias fantasias sobre a morte e sobre o inferno dos sermões
quaresmais do meu pobre pai. E quão maior era a capacidade de Ruth em apavorar-se! Tanto
maior pavor num extremo da escala, tanto mais transbordante exultação no outro. Creio que
isto se aplica à maioria das raparigas. A solução delas é mais concentrada que a nossa, elas
têm a aptidão de fabricar mais rapidamente um maior número de cristais maiores e melhores.
Desnecessário dizer que eu nada sabia a respeito de raparigas nessa época. Mas Ruth
recebera uma educação liberal — um pouco liberal demais, como ficou demonstrado mais
tarde... Lá chegaremos oportunamente. Já então ela havia começado a ensinar-me o que todo
jovem deve saber a respeito das mocinhas. Era uma boa preparação para a minha futura
carreira de pai de três filhos.

"Que a peça é a tragédia" Homem ". E o seu herói o Verme Triunfante". (POE —
The Conqueror Worm, poema) (N. do T.).
Rivers bebericou o seu uísque com água, depois pousou o copo e por alguns minutos
ficou a chupar o cachimbo em silêncio.
— Houve um week-end particularmente instrutivo — reencetou por fim, sorrindo às
suas recordações. — Foi durante a primeira primavera que passei com os Maartens.
Encontrávamo-nos na sua pequena casa de campo, distante dez milhas de St. Louis. Na noite
do sábado, depois do jantar, saímos, Ruth e eu, para apreciar as estrelas. Havia uma pequena
colina aos fundos da casa. Do seu topo podia-se descortinar o céu inteiro, de horizonte a
horizonte. Cento e oitenta graus de mistério bruto e insondável. Um bom lugar para se ficar
sentado sem dizer nada. Mas, nesse tempo eu achava ainda que tinha o dever de contribuir
para a cultura do próximo. Assim, em vez de deixá-la contemplar em paz Júpiter e a Via
Láctea, pus-me a desfiar a velha e batida preleção — a distância em quilômetros à estrela fixa
mais próxima, o diâmetro da galáxia, a última palavra de Monte Wilson sobre as nebulosas
espirais. Ruth escutava, mas não ganhou em saber. Em vez disso, caiu numa espécie de
pânico metafísico.
Aqueles espaços, aquelas durações, aquela inconcebível infinidade de mundos,
mundos! E a gente aqui, em face do infinito e da eternidade, a quebrar a cabeça com ciência
e com economia doméstica, com chegar na hora, com a cor das fitas de cabelo e com as notas
semanais de álgebra e de gramática latina!
Então, no pequeno bosque ao pé da colina uma coruja começou a piar e, de repente, o
pânico metafísico transformou-se em algo físico — físico, embora ao mesmo tempo oculto;
pois aquele espasmo na boca do estômago vinha da superstição de que as corujas são aves
feiticeiras, portadoras de desgraça, pressagiadoras de morte. Ela sabia, naturalmente, que era
tudo tolice; mas, como era emocionante pensar e agir como se fosse verdade!
Tentei levar a situação para o lado cômico; mas Ruth queria sentir medo, e estava
pronta e racionalizar e justificar os seus terrores. "No ano passado morreu a avó de uma
colega minha", contou-me. "E justamente àquela noite aparecera uma coruja no jardim. Em
pleno centro de St. Louis, onde nunca houve corujas". Como para confirmar a sua história,
repetiu-se o gemido distante. A menina estremeceu e agarrou-me o braço.
Começamos a descer a encosta em direção às árvores. "Eu morreria de medo se
estivesse sozinha", disse ela. Logo depois perguntou-me: "Você já leu A Queda da Casa de
Usher?" Era evidente que queria contar-me a história, e respondi que não. "É sobre um casal
de irmãos chamados Usher", começou, "que viviam numa espécie de castelo à margem de
um lago tenebroso e lívido, com as paredes cobertas de musgo; e o nome do irmão era
Roderick, e ele tinha uma imaginação tão vívida que era capaz de compor poesia sem parar
para pensar; era moreno e belo, com olhos muito grandes e um delicado nariz hebreu,
igualzinho à sua irmã gêmea, que se chamava Lady Madeline; e todos dois sofriam de uma
estranha doença nervosa, e ela era sujeita a crises catalépticas..." E assim seguiu a narrativa
— fragmentos recordados de Poe, de mistura com o jargão escolar da década dos vinte —
enquanto caminhávamos pelo declive atapetado de relva sob as estrelas.
Atingimos a estrada e prosseguimos rumo à negra muralha de mato. Enquanto isso a
pobre Lady Madeline havia morrido e o jovem Mr. Usher vagava entre as tapeçarias e os
musgos num estado de demência incipiente. E não era de estranhar! "Pois não dissera eu que
os meus sentidos estavam aguçados?" Ruth declamou num tremulo murmúrio. "E agora
digo-lhe que ouvi os seus primeiros débeis movimentos no interior do esquife. Eu os ouvi há
muitos, muitos dias".
À nossa volta a treva se adensara: de súbito, as árvores se fecharam sobre nós e nos
engolfaram na dupla noite da floresta. No alto, o dossel de folhagem interrompia-se aqui e ali
em manchas recortadas de escuridão mais pálida e azulada, e de cada lado as paredes do túnel
abriam-se ocasionalmente em misteriosas nesgas de crepe gris ou de prata enegrecida.
Pairava no ar um denso bafio de fermentação. Uma umidade glacial gelava-nos as faces. Era
como se a fantasia de Poe se houvesse consubstanciado em sepulcral realidade. Parecia que
penetrávamos no jazigo familiar dos Usher.
"E então de repente", Ruth estava contando, "de repente houve uma espécie de
clangor metálico, como a queda de uma bandeja num piso de pedra, mas abafado, como se
viesse do fundo da terra, porque, você vê, havia um enorme porão embaixo da casa, onde
toda a família estava sepultada. E, no mesmo instante, surgiu à porta a figura majestosa e
amortalhada de Lady Madeline de Usher. E as suas vestes brancas estavam manchadas de
sangue, pois ela passara uma semana inteira lutando para libertar-se do caixão, porque,
naturalmente, tinha sido enterrada viva. Isso acontece com muita gente", explicou Ruth: "É
por esse motivo que recomendam à gente escrever no testamento — não me enterrem antes
de haver tocado a sola de meus pés com um ferro em brasa. Se eu não acordar, está tudo O. K.
e podem tocar com o funeral. Não tinham feito isto com Lady Madeline, e aconteceu que ela
estava apenas num ataque de catalepsia, até que despertou dentro do ataúde. Roderick tinha-a
ouvido durante todo aquele tempo, mas por alguma razão nada dissera. E, agora, ali estava
ela, toda de branco, coberta de sangue, cambaleando no portal, e aí deu # um grito horrível e
caiu por cima dele, e ele gritou também, e..."
Mas, nesse momento produziu-se na macega invisível uma agitação violenta. Negro
no negrume, um vulto enorme surgiu na trilha bem à nossa frente. O grito de Ruth foi tão
estridente quanto o de Madeline e o de Roderick combinados. Ela atracou-se ao meu braço e
enterrou o rosto na minha manga. A aparição bufou. Ruth tornou a gritar. Ouviu-se outro
bufido, em seguida o estrépido de cascos batendo em retirada. "É apenas um cavalo
desgarrado", disse eu. Mas os joelhos dela haviam fraquejado e ela teria caído se eu não a
sustentasse, depondo-a com cuidado no chão.
Houve um longo silêncio. "Quando você se cansar de ficar sentada na poeira",
observei ironicamente, "talvez possamos ir para casa". "O que faria você se fosse um
fantasma?" Perguntou ela por fim. "Eu sairia correndo e não voltaria antes que estivesse tudo
acabado". "Que quer dizer com tudo acabado?" "Bem, você sabe o que acontece às pessoas
que encontram fantasmas", respondi. "Ou elas morrem de medo na hora, ou então ficam de
cabelo branco e enlouquecem". Em vez de achar graça, como eu pretendia, Ruth afirmou que
eu era um brutamontes e prorrompeu em lágrimas. O grumo escuro que Poe, o cavalo e a sua
própria fantasia haviam feito precipitar na solução da sua sensibilidade era algo por demais
precioso para ser tão levianamente jogado fora. Você conhece esses
enormes pirulitos que os meninos levam a lamber um dia inteiro? Pois assim era o medo dela
— um interminável pirulito, que ela queria aproveitar todo, chupando e chupando, até o fim
deliciosamente amargo.
Custou-me quase meia hora conseguir que ela se pusesse de pé e recobrasse o seu
estado normal. Já passara da hora de dormir quando chegamos em casa, e Ruth entrou direto
para o quarto.
Eu receava que ela tivesse pesadelos. Nem por sombras. Dormiu como uma pedra e
na manhã seguinte desceu para o café alegre como um passarinho. Mas um passarinho que
tivesse lido o seu Poe, um passarinho ainda interessado em vermes. Após o café saímos a
caçar lagartas, e encontramos um espécime verdadeiramente estupendo — uma grande larva
de esfinge, rajada de verde e branco e com um chifre na cauda. Ruth pôs-se a cutucá- la com
um graveto e a pobre criatura se enroscava e desenroscava num paroxismo de medo e raiva
impotente. "It writhes, it writhes", entoou ela exultante:
"It writhes! — it writhes! — with mortal pangs

The mimes become its jood,

And the angels sob at vermin fangs

With human blood imbued". O

Mas desta vez o cristal de medo não era maior que um brilhante numa aliança de vinte
dólares. As ideias de morte e corrupção, com que ela se havia deliciado na noite anterior pelo
seu próprio travor intrínseco, eram agora um simples condimento, um tempero para avivar o
paladar da vida e torná-la mais inebiriante. "As presas da vermina", repetiu, e fustigou mais
uma vez o bicho, "as presas da vermina..." E num rompante de euforia, pôs- se a cantar "Se
você fosse a única mulher no mundo", a plenos pulmões. A propósito — acrescentou Rivers
— como é significativo que essa abominável canção tenha brotado como um subproduto de
cada massacre em grande escala! Ela foi inventada na Primeira Grande Guerra, reviveu
durante a Segunda, e voltou a ser esporadicamente trauteada quando a matança prosseguia na
Coreia. A última palavra em sentimentalismo acompanhando a última palavra em política
maquiavélica do poder e em violência indiscriminada. Será isto para nós motivo de consolo?
Ou será antes de molde a aprofundar a nossa descrença no género humano? Eu realmente não
sei dizer —• você sabe?

Balancei a cabeça.

— Bem, como estava dizendo — recomeçou — ela pôs-se a cantar "Se você fosse a
única mulher no mundo", mudou o verso seguinte para "e se eu fosse as presas da vermina",
depois interrompeu-se e deu um mergulho sobre Grampus, o cocker spaniel, que se esquivou
e saiu em disparada pelo campo afora, com Ruth atrás em encarniçada perseguição.

1
"Avança a rastejar! — em cruciante agonia Os histriões servem-lhe de pasto, E os anjos
soluçam vendo as presas da vermina Tintas de sangue humano". (POE — The Conqueror
W ) (N d T )
Segui a passo e, quando por fim a alcancei, ela estava de pé sobre um pequeno
outeiro, com Grampus aos seus pés. Soprava o vento e ela recebia de face, qual uma
miniatura da Vitória de Samotrácia, o cabelo esvoaçante em torno do rostinho afogueado, a
saia curta lançada para trás a drapejar como uma bandeira, a blusa de algodão premida contra
um corpinho esguio, ainda quase tão chato e juvenil quanto o de Timmy. Tinha as pálpebras
cerradas, e movia os lábios em alguma muda rapsódia ou invocação. À minha aproximação,
o cão voltou a cabeça e abanou o coto de cauda; mas Ruth estava por demais embebida em
seu enlevo para ouvir-me. Teria sido quase um sacrilégio perturbá-la; assim, detive-me a
alguns passos e sentei-me de manso sobre a grama. Enquanto a observava, um sorriso
beatífico entreabriu-lhe os lábios e o seu semblante inteiro pareceu iluminar-se por uma luz
interior.
De súbito a expressão transformou-se; ela emitiu um gritinho, abriu os olhos e olhou
em torno com ar de aterrorizada perplexidade. "John!" exclamou aliviada ao dar comigo,
depois correu para mim e caiu de joelhos à minha frente. "Que bom que você está aqui",
disse. "E ali está Grampus. Eu quase pensei..." Ela se deteve e, com o indicador da mão
direita, tocou a ponta do nariz, os lábios, o queixo. "Eu lhe pareço a mesma?" interrogou- me.
"A mesma", assegurei-lhe, "talvez até um pouco mais a mesma". Ela riu, e era um riso não
tanto de divertimento como de desafogo. "Quase me fui", confiou-me. "Foi-se para onde?"
perguntei. "Não sei", retrucou sacudindo a cabeça. "Foi o vento. Soprando e soprando.
Varrendo tudo para longe de minha cabeça — você, Grampus, e todo o mundo, toda a gente
de casa, toda a turma da escola, tudo o que eu algum dia já soube ou que já me interessou.
Tudo se foi e nada ficou senão o vento e a sensação de estar viva. E as duas coisas estavam se
confundindo numa só e também voando para longe. Se eu me abandonasse, não pararia mais.
Teria cruzado as montanhas por sobre os mares, e talvez me perdesse em algum daqueles
buracos negros entre as estrelas, que estivemos a olhar ontem à noite". Ela teve um
estremecimento. "Você acha que eu ia morrer?" perguntou. "Ou talvez cair em catalepsia, de
maneira que pensassem que eu estava morta, e depois eu acordaria dentro de um caixão..."
Tinha voltado a Edgar Allan Poe.

No dia seguinte, exibiu-me uma lamentável coleção de versos de pé quebrado, nos


quais os terrores notur-nos e os êxtases da manhã se haviam reduzido às costumeiras
sepulturas e desventuras de todas suas rimas. Que abismo entre impressão e expressão!
Assim é o nosso irônico destino — ter percepções shakespeareanas e (a menos que por uma
chance em um bilhão aconteça sermos Shakespeare) descrevê-las em estilo de vendedores de
automóveis, ou de colegiais, ou de mestres-escolas. Praticamos uma alquimia invertida
— tocamos ouro e ele se transforma em chumbo; tocamos o puro lirismo da experiência, e
ele se transforma nos equivalentes verbais de tripas e água chilra.

— Não estará sendo você indevidamente otimista quanto à experiência? — atalhei.


— Será ela sempre tão áurea e tão poética?
— Intrinsecamente áurea — insistiu Rivers. — Poética em sua natureza essencial.
Mas é claro que quem está mergulhado nas tripas e na água chilra cozinhadas no caldeirão da
opinião pública, tenderá automaticamente a poluir as suas impressões na fonte; esse recriará
o mundo à imagem de suas idéias — e, naturalmente, as suas idéias são as idéias de toda
gente; e assim o mundo em que vive cifrar-se-á dos Denominadores Comuns da cultura local.
Mas a poesia original está sempre presente — sempre.

— Mesmo para os velhos?

— Sim,, mesmo para os velhos. Desde que sejam capazes de recapturar a inocência
perdida.

— E você o consegue, se me permite a pergunta?

— Creia-me ou não — replicou Rivers — por vezes consigo. Ou talvez seja mais
exato dizer por vezes me acontece. Aliás, aconteceu-me ontem, por exemplo,-quando
brincava com meu neto. De um minuto para outro — a transmutação do chumbo em ouro, da
água chilra solene e doutoral em poesia, o gênero de poesia que era a existência todos os dias,
todas as horas, no tempo em que vivi com os Maartens.

— Inclusive as horas de laboratório?

— Essas estavam entre as melhores. Horas passadas às voltas com cálculos e


aparemos experimentais, horas de debates e trocas de idéias. A coisa toda era pura poesia
idílica, no género de Teócrito ou de Virgílio. Quatro jovens Doutores em Filosofia no papel
de aprendizes de pastor, com Henry como patriarca a iniciar os seus pupilos nas artes do
ofício, a lançar pérolas de sabedoria, a desfilar inesgotáveis fábulas em torno do novo
panteão da física teórica. Ele tangia a lira e compunha rapsódias sobre a metamorfose da
Massa contingente em celestial Energia. Cantava os amores sem esperança de Electron por
seu Núcleo. Flauteava a melodia dos Quanta, com sombrias alusões aos mistérios da
Indeterminação...
Era idílico, sim. Naquele tempo, lembre-se, você podia ser um cientista sem sentir- se
culpado; podia ainda acreditar que estava trabalhando para maior glória de Deus. Hoje em dia
não lhe permitem ao menos o conforto de enganar-se a si mesmo. Você é pago pela Marinha
e vigiado pelo FBI. Nem por um só momento lhe consentem que esqueça os seus verdadeiros
objetivos. Ad majorem Dei gloriam? Não seja idiota! Ad majorem nominis degradationem
— é para isto que você trabalha. Mas, em 1921, as máquinas infernais pertenciam
inofensivamente ao futuro. Em 1921, nós não passávamos de um inocente grupo de
discípulos de Teócrito, absorvidos no mais cândido dos gêneros de pura diversão científica.
E quando terminava a diversão no laboratório, eu levava Henry para casa no
Maxwell, e então tinham início novas diversões. Ora era o pequeno Timmy em dificuldades
com a Regra de Três. Ora era Ruth que, simplesmente, não podia compreender por que razão
o quadrado da hipotenusa tenha de ser sempre igual à soma dos quadrados dos catetos. Neste
caso, sim; ela estava de pleno acordo. Mas por que sempre
Em tais conjunturas os dois apelavam para o pai. Mas Henry vivera por tanto tempo
no mundo das Matemáticas Superiores que esquecera as contas de somar; e o seu interesse
por Euclides restringia-se ao fato de ser Euclides o exemplo clássico do raciocínio baseado
num círculo vicioso. Após alguns minutos de digressões totalmente incompreensíveis, o
grande homem acabava por se maçar e se escapulia de manso, deixando a meu cargo
solucionar o problema de Timmy por algum método um pouco mais simples que a análise
vetorial, e dirimir as dúvidas de Ruth com argumentos um pouco menos subversivos da fé na
razão que os de Hilbert ou Poincaré.
Depois, ao jantar, havia a diversão ruidosa que eram as crianças contando à mãe os
sucessos do dia no colégio; a diversão sacrílega que era Katy a cortar bruscamente um
solilóquio sobre a teoria da relatividade generalizada, com uma interpelação acusadora a
respeito das calças de flanela que Henry ficara de apanhar na lavanderia; a diversão rústica
dos comentários de Beulah sobre a conversa, ou a diversão épica de alguma das suas
intermináveis e prolixas descrições de como se costumava carnear os porcos outrora na
fazenda. E mais tarde, depois que as crianças iam para a cama e Henry se trancava no seu
gabinete de estudo, havia a diversão das diversões — havia os meus serões com Katy.
Rivers reclinou-se no espaldar da cadeira e fechou os olhos.

— Minha memória visual não é das melhores — disse após uma pequena pausa. —
Mas lembro-me bem que o papel da parede era de um rosa desbotado. E o quebra-luz era
vermelho, com certeza. Não pode ter sido senão vermelho, pois havia sempre aquele intenso
rubor no rosto dela, quando ficava ali sentada a cerzir as nossas meias ou a pregai botões nas
roupas das crianças. O rubor era somente nas faces, nunca nas mãos. As mãos moviam-se na
claridade branca da luz não velada.
Como eram fortes aquelas mãos! — acrescentou, a sorrir para si mesmo. — Como
eram eficientes! Nada desses etéreos e espirituais apêndices! Mãos singelas, aptas a manejar
chaves de parafusos; mãos capazes de consertar as coisas que se desarranjavam; mãos que
sabiam aplicar uma massagem ou, quando necessário, uma boa palmada; mãos peritas no
preparo de quitutes, e que não se importavam de mergulhar na pia de despejo.
E tudo mais nela se harmonizava com as mãos. Um rosto saudável de camponesa num
corpo de matrona jovem e robusta. Não, não me explico bem. Era o rosto de uma deusa,
disfarçada em saudável camponesa. Deméter, talvez. Não, Deméter era triste demais. E não
era Afrodite tampouco; não havia nada de fatal ou de obsessivo na feminilidade de Katy,
nada de conscientemente coquete. A ser uma deusa, devia ser então Hera. Hera fingindo de
pastora — mas uma pastora dotada de intelecto, uma pastora que freqüentara a universidade.

Rivers descerrou os olhos e recolocou o cachimbo entre os dentes, ainda a sorrir.


— Lembro-me de alguns dos seus comentários sobre os livros que, à noite, eu lia em
voz alta. H. G. Wells, por exemplo. Fazia-lhe lembrar os arrozais da sua Califórnia natal.
Acres e acres de água cintilante, mas nunca nada além de duas polegadas de profundidade. E
aquelas damas e cavalheiros das novelas de Henry James — será, conjeturava ela, que
alguma vez se dispunham a ir ao banheiro? E D. H. Lawrence. Como a encantavam os seus
primeiros livros! Todo cientista deveria ser obrigado a passar por um curso de especialização
em Lawrence. Isto ela costumava repetir ao Reitor, quando este vinha para o jantar. Era um
químico ilustre; e se era post hoc ou propter hoc, não sei — o fato é que a esposa tinha um ar
como se todas as suas secreções fossem puro ácido acético. As observações de Katy não
eram absolutamente bem acolhidas.

Rivers deu uma risada gutural.

— E havia outras ocasiões — continuou —em que, em vez de ler, ficávamos a


conversar. Katy contava-me episódios da sua infância em São Francisco, ou dos seus bailes e
recepções, depois que de lá saiu. Falou-me dos três rapazes que estiveram apaixonados por
ela — cada qual mais rico e cada qual, se possível, mais estúpido que o outro. Com dezenove
anos ficara noiva do mais rico e mais estúpido dos três.
O enxoval estava comprado, os presentes de casamento já tinham começado a chegar.
Foi quando Henry Maartens surgiu em Berkeley na qualidade de professoí visitante. Ela
assistiu à conferência que ele pronunciou sobre a filosofia da ciência, e em seguida
compareceu a um sarau em sua homenagem. Foram apresentados. Ele tinha um nariz de
água, tinha olhos pálidos como os dos gatos siameses, parecia-se com os retratos de Pascal, e
o seu riso soava como uma tonelada de coque a despejar-se por uma tremonha. Quanto ao
que ele viu — deve ter sido impossível de descrever. Eu conheci Katy aos trinta e seis anos,
como Hera. Aos dezenove ela deve ter sido Hebe e as três Graças e todas as ninfas de Diana
reunidas em uma. E Henry, veja bem, acabava de se divorciar da primeira esposa. Pobre
mulher! Simplesmente não tivera forças bastantes para desincumbir-se de todos os encargos
que lhe competiam — amante de um amante insaciável, tutora de um débil mental aluado,
secretária de um gênio, e mais, útero, placenta e sistema circulatório do equivalente psíquico
de um feto. Após dois abortos e um esgotamento nervoso, ela arrumara as malas e voltara
para a casa dos pais. Henry, com sua quádrupla personalidade — feto, gênio, débil mental e
sôfrego amante — saíra a procurar com afinco uma mulher capaz de preencher os requisitos
de uma relação simbiótica, na qual todo o dar seria da parte dela, todo o incontentável e
pueril receber, da parte dele.
A busca vinha-se prolongando por quase um ano. Henry começava a desesperar. E
súbito, imprevistamente, providencialmente, ali estava Katy. Foi amor à primeira vista. Ele
puxou-a para um canto e, ignorando por completo todos os demais, pôs-se a falar-lhe. Ocioso
dizer, jamais lhe ocorreu que ela pudesse ter os seus próprios interesses e problemas, jamais
lhe passou pela cabeça que seria talvez de bom alvitre dar-lhe aso de manifestar-se.
Simplesmente despejou sobre ela o que no momento sucedia ocupar-lhe as ideias. Na ocasião
tratava-se de progressos recentes da lógica. Katy, é claro, não entendeu uma só palavra; mas
ele era de maneira tão manifesta um gênio, era tudo tão indizivelmente maravilhoso, que
antes que a noite terminasse ela fez com que a mãe o convidasse para jantar. Ele foi, concluiu
o que tinha a dizer, e enquanto Mrs. Hambury e os demais
convidados jogavam bridge, mergulhou com Katy na semiótica. Três dias mais tarde houve
um piquenique organizado pela Sociedade Audu-bon, e os dois arranjaram jeito de separar-
se do grupo num arroio. E para rematar houve a noite em que foram assistir à Traviata. La-
la-la-La-la-ra. — Rivers trauteou o tema do prelúdio do terceiro ato. — Era irresistível —
como sempre. No táxi, de volta para casa, ele a beijou. Beijou-a com uma intensidade de
paixão, e ao mesmo tempo com um tato e uma proficiência, para os quais a semiótica e o
alheamento tinham-na deixado inteiramente desprevenida.

Depois disso tornou-se evidente que o seu noivado com o pobre Randolph fora um
erro. Houve clamores e lágrimas quando ela anunciou a sua intenção de tornar-se Mrs. Henry
Maartens. Um professor amalucado, sem vintém além do seu salário, divorciado e, ainda por
cima, velho bastante para ser seu pai! Mas, nada do que pudessem argumentar contava. A
única coisa importante era o fato de que Henry pertencia a uma espécie diferente; e esta, não
a de Randolph — Homo sapiens e não Homo moronicus — era a espécie que agora lhe
interessava.

Três semanas depois do terremoto eles se casaram.

Teria ela algum dia lamentado a perda do seu milionário? A perda de Randolph? A
esta pergunta incon-cebivelmente ridícula a resposta era uma gargalhada. Porém os cavalos
dele, ela fazia a ressalva enquanto enxugava as lágrimas, os cavalos eram uma outra história.
Eram legítimos árabes, o gado do seu rancho era Hereford puro-sangue, e havia um grande
açude atrás da casa, com as mais esplêndidas variedades de patos e gansos. A maior
desvantagem em ser esposa de um professor pobre numa cidade grande era não ter nunca
uma oportunidade de livrar-se das pessoas. Sem dúvida, havia muita gente agradável e
inteligente. Mas o espírito não pode viver só de gente; precisa também de cavalos, de porcos
e pássaros. Randolph poderia ter-lhe proporcionado todos os bichos que ela desejasse —
porém a um preço: ele próprio. Ela sacrificara os animais e escolhera o génio — o gênio com
todos os seus percalços. E, com franqueza (ela admitia rindo, com humorístico
desprendimento), percalços havia. À sua própria maneira, ainda que por razões inteiramente
diferentes, Henry podia ser tão estulto quanto o próprio Randolph. Um imbecil no que dizia
respeito a relações humanas, um asno chapado no que se referia às contingências práticas da
vida. Mas que asno insinuante, que magnífico imbecil! Henry sabia ser às vezes
absolutamente insuportável; nem por isso deixava de valer a pena. Nem por um só instante!
E, com toda certeza, concluía ela lisonjeiramente, quando eu me casasse, minha esposa
haveria de ter a mesma opinião a meu respeito: insuportável, mas valendo a pena.

— Creio ter ouvido há pouco que ela era conscien-temente coquete — comentei.

— E é verdade — retrucou ele. — Supõe você que ela estivesse a usar a lisonja como
isca. Mas não. Ela não fazia mais que enunciar um fato. Eu tinha os meus pontos
favoráveis. Mas também eu era intolerável. Vinte anos de educação formalista e uma
existência inteira da minha pobre mãe haviam produzido um autêntico monstro. — Nos
dedos estendidos da mão esquerda ele enumerou os componentes do monstro: —' Eu era um
matuto letrado; um atleta incapaz de dizef "alô" a uma pequena; um fariseu com complexo de
inferioridade, um pedante a invejar secretamente as pessoas que desaprovava. E, ainda assim,
apesar de tudo, eu podia valer a pena. Eu era carregado de boas intenções.
— E, no presente caso, imagino, havia algo mais do que boas intenções... você estava
apaixonado por ela?
Houve uma curta pausa; depois Rivers balançou a cabeça devagar.

— Perdidamente — respondeu.

— Mas você era incapaz de dizer "alô" a uma pequena.

— Ela não era uma pequena — replicou ele. — Ela era a mulher de Henry. "Alô"
estava fora de cogitação. De mais a mais, eu era um Maartens honorário, o que a fazia minha
mãe honorária. E não era apenas uma questão de moral. Eu nunca tive vontade de dizer-lhe
"alô". Eu a amava de um modo metafísico, quase teológico — como Dante amou Beatriz,
como Petrarca amou Laura. Com uma pequena diferença, todavia . No meu caso havia
sinceridade. Eu realmente vivia o meu idealismo. Nada de pequenos Petrarcas ilegítimos por
aí. Nenhuma Madame Alighieri, nenhuma daquelas prostitutas a que Dante achava
necessário recorrer. Era paixão, mas era também castidade; e ambas levadas à
incandescência.

Paixão e castidade — repeliu, e meneou a cabeça.

— Aos sessenta a gente esquece o que as palavras exprimem. Hoje eu não conheço
senão o significado da palavra que as substituiu — indiferença. Ioson Beatrice
— recitou. — E nada conta a não ser Helena. E então? A velhice tem outras coisas em
que pensar.

Rivers silenciou; e, de repente, como para ilustrai suas palavras, ouvia-se apenas o
tique-taque do relógio sobre o consolo da lareira e o leve crepitar das chamas entre os tições.
— Como é possível alguém acreditar seriamente na própria identidade? — continuou
ele. — Em lógica, A é igual a A. Não na realidade. Eu-hoje é uma coisa; eu- então é outra
bem diferente. Quando vejo em pensamento o John Rivers que alimentava aqueles
sentimentos em relação a Katy, é como se fosse um espetáculo de marionetes, é
como ver Romeu e Julieta através de um binóculo invertido. Nem mesmo isto; é como
entrever por um binóculo às avessas os fantasmas de Romeu e Julieta. E Romeu um dia se
chamou John Rivers, e estava enamorado, e sentia em si pelo menos dez vezes mais vida e
energia do que em tempos ordinários. E o mundo em que vivia estava completamente
transfigurado!
Lembro-me de quando ele contemplava a paisagem, como as cores eram
incomparavelmente mais vívidas, as formas que os objetos assumiam no espaço
incrivelmente belas. Lembro-me de como ele olhava em torno quando andava pelas ruas, e
St. Louis, acredite, era a mais esplêndida cidade jamais construída. Gente, casas, árvores,
Fords-de-bigode, cães ao pé dos postes — tudo tinha mais significação. Você me perguntará,
que significação? E a resposta é: significação em si. Eram realidades e não símbolos. Goethe
estava redondamente enganado. Alies Vergdngliche NÃO é uma Gleichnis (1). Em cada
instante, cada transição é eternamente essa transição. O que ela significa é o seu próprio ser,
e este ser (como tão claramente se percebe quando se está apaixonado) é idêntico ao Ser com
S maiúsculo. Por que razão se ama uma mulher? Porque ela é. E afinal não é outra a maneira
pela qual Deus - define a si mesmo: Eu sou Aquele que é. A mulher é aquela que é. E um
pouco da sua qüididade transborda e impregna o universo inteiro. Os objetos e os fatos
deixam de ser meras representações de classes para se tornarem a sua própria unicidade;
cessam de ser imagens de abstrações verbais para se tornarem plenamente concretos. E, no
dia em que a paixão acaba, o universo se desmorona, com um rangido quase audível de
derrisão, e recai na sua insignificância normal. Poderia quiçá permanecer transfigurado?
Talvez possa. Talvez seja apenas uma questão de se amar a Deus. Mas, isto — acrescentou
Rivers — não vem ao caso. Ou, talvez seja, de tudo, a única coisa que vem ao caso; mas se
insistirmos em tal assertiva, passaremos a ser evitados pelos nossos amigos respeitáveis e
provavelmente acabaremos no manicômio. Voltemos, pois, o mais rápido possível, a um
assunto menos perigoso. Voltemos a Katy, voltemos aos mortos pranteados...

Interrompeu-se.

— Você ouviu algo?

Dessa vez ouvi distintamente. Eram os sons, abafados pela distância e pela heróica
contenção, de uma criança a soluçar.

Rivers levantou-se e, enfiando o cachimbo no bolso, dirigiu-se à porta e abriu-a.

— Bimbo? — chamou interrogativamente, depois falou consigo mesmo: — Como


diabo conseguiu sair do berço?
1
Em alemão no original. A frase de GOETHE é: Alies Vergân-gliche ist nur ein
Gleichnis: O efémero é apenas uma alegoria. (N. do T.).
A única resposta foi um soluço mais alto. Ele passou para o hall e em seguida os seus
passos soaram pesadamente nos degraus da escada.
— Bimbo — ouvi-o dizer — meu velho Bimbo! Veio ver se apanhava Papai Noel
com a boca na botija, não é isso?
Os soluços redobraram, num crescendo trágico. Levantei-me e subi as escadas atrás
do meu anfitrião. Rivers estava sentado no último degrau, com os braços, gigantescos no seu
casacão de lã, a envolver uma minúscula criaturinha num pijama azul.
— É o vovô — repetia ele. — É o velho vovô engraçado. Vovô toma conta do
Bimbo. — Gradualmente os soluços se extinguiram. — O que foi que fez Bimbo acordar? —
indagou Rivers. — O que foi que o fez sair da sua caminha?
— Cachôlo — balbuciou o menino, e à lembrança do sonho recomeçou a chorar. —
Cachôlo gande.
— Os cachorros são engraçados — assegurou-lhe Rivers. — Os cachorros são tão
bobos que não sabem falar nada a não ser au-au. Pense quanta coisa Bimbo sabe falar. Mamã.
Papá. Có-có. Gatinho... Os cachorros não sabem falar nada disso. Só au-au-au. —■ Executou
a imitação de um grande mastim. — Ou então au-au-au. — Desta vez era um lulu da
Pomerânia. — Ou então uau-u-u-u. — Uivou de maneira lúgubre e grotesca. Hesitante, entre
soluços, a criança começou a rir. — Isso mesmo — disse Rivers. — Bimbo se ri dos
cachorros estúpidos. Toda vez que ele vê um e escuta os seus latidos bobos, Bimbo dá risada
até não poder mais. — Desta vez o menino riu com gosto. — E, agora — continuou Rivers
— o vovô e Bimbo vão dar um passeio.

Ainda com o pequeno nos braços, pôs-se de pé e caminhou pelo corredor.

— Este é o quarto do vovô — disse, abrindo a primeira porta. — Nada de muito


interessante aqui, receio.

A porta seguinte achava-se escancarada, e ele entrou.

— E aqui é o quarto do papai e da mamãe. E este é o armário com os vestidos da


mamãe. Que cheiro bom que eles têm! — Fungou ruidosamente e o petiz o imitou. — Le
Shocking de Schiaparelli... Ou será Femme? Seja o que for, o objetivo é um só; pois é sexo,
sexo, sexo que faz o mundo girar, como, lamento dizer-lhe, você, meu pobre Bimbo,
descobrirá dentro de mais alguns anos. — Ternamente, esfregou o rosto contra os cabelos
pálidos e sedosos do pequerrucho, depois parou defronte do espelho que revestia em toda a
altura a porta do banheiro. — Olhe para nós — exclamou, dirigindo-se a mim. — Olhe só
para nós!
Aproximei-me e postei-me ao lado dele. Ali estávamos refletidos no vidro — um par
de velhos curvos e alquebrados e, nos braços de um deles, um pequenino e belo
Menino-Jesus.
— E pensar — disse Rivers, — pensar que um dia todos nós fomos assim...
Começamos como um fragmento de protoplasma, uma máquina de comer e excretar. E nos
transformamos em algo como isto — em algo de quase sobrenaturalmente puro e belo. —
Encostou mais uma vez a face na cabecinha da criança. — Depois vem um tempo ruim, com
espinhas e puberdade. Na casa dos vinte, por um ano ou dois, você pode ser Praxíteles. Mas
Praxíteles logo começa a criar barriga e a perder os cabelos, e durante os quarenta anos
seguintes você degenera progressivamente, até transformar-se em alguma das variedades de
gorila humano. O gorila escanifrado — como você. Ou o gorila cara-de-couro — como eu.
Há também a variedade do gorila bem sucedido nos negócios — você sabe, o tipo que parece
um traseiro de menino com dentes postiços. Quanto às gorilas fêmeas, essas pobres velhotas
de bochechas pintadas e orquídeas na proa... não, é melhor não falar nelas, é melhor nem
pensar.
A essas reflexões a criança bocejou, depois reclinou a cabeça no ombro do avô e
fechou os olhos.

— Creio que podemos pô-lo na cama — cochichou Rivers, e saiu do quarto.

Alguns minutos mais tarde, enquanto olhávamos o rostinho que o sono transfigurara
em uma imagem de serenidade extraterrena, ele falou devagar:
— Que pena enorme eles nos fazem! Não têm a menor idéia do que os espera.
Setenta anos de traições e ciladas, de armadilhas e decepções.

— E também de prazer — intervim. — De êxtase, às vezes.

— Sem dúvida — concordou Rivers, afastando-se do berço. — É o que serve de isca


nas armadilhas. — Apagou a luz, fechou a porta de mansinho e acompanhou-me escada
abaixo. — Prazer. . . todas as espécies de prazer. O prazer do sexo, o prazer da comida, o
prazer do poder, o prazer do conforto, o prazer da posse, o prazer da crueldade. Mas, ou há
um anzol dentro da isca, ou então, quando você lhe deita mão, ela aciona um gatilho e lhe
despeja em cima o monte de pedras, ou o balde de porcaria, ou o que quer que o cósmico
humorista lhe haja preparado.

Retomamos os nossos assentos de cada lado do fogo na biblioteca.

— Que espécie de armadilhas estarão à espera dessa pobre criaturinha lá em cima no


berço? É quase insuportável o pensamento. Resta-nos apenas o consolo de que há ignorância
antes do fato, e depois dele o esquecimento, ou quando menos a indiferença. Cada cena de
balcão transformada numa história de pigmeus num outro universo! E, no fim, sempre a
morte. E, enquanto há morte, há esperança. — Ele tornou a encher os nossos copos e
reacendeu o cachimbo. — Onde estava eu?
— No céu — respondi, — com Mrs. Maartens.

— No céu — repetiu Rivers. E, depois de uma curta pausa: — Durou cerca de quinze
meses. De dezembro até a segunda primavera, com uma internipção de dez semanas no
verão, quando a família viajou para o Maine. Dez semanas que deveriam ser as minhas férias
em casa, mas que foram, na realidade, a despeito do lar, a despeito de minha pobre mãe, o
mais desolador dos exílios. E não era só de Katy que eu sentia falta. Tinha saudades de todos
eles — de Beulah na cozinha, de Timmy no chão com seus trenzinhos, de Ruth com seus
poemas extravagantes, da asma de Henry, do laboratório e daqueles seus extraordinários
monólogos a respeito de tudo.
Que júbilo foi, em setembro, recuperar o meu paraíso! O Éden no outono, com as
folhas revoluteando em espirais, o céu ainda azul, a luz cambiando de ouro para prata.
Depois o Éden hibernal, o Éden com as lâmpadas acesas e a chuva batendo nas vidraças, as
árvores nuas desenhadas como hieróglifos contra o crepúsculo ...
E, então, no começo daquela segunda primavera, chegou um telegrama de Chicago. A
mãe de Katy estava enferma. Nefrite — e naquele tempo não existiam as sulfas nem a
penicilina. Katy arrumou as malas e chegou à estação a tempo de embarcar no primeiro trem.
As duas crianças — as três, contando Henry — ficaram aos cuidados de Beulah e aos meus.
Timmy não nos deu trabalho algum. Mas, os outros dois, posso garantir-lhe, os outros
dois mais do que contrabalançaram a sensatez de Timmy. A poetisa recusou-se a comer as
suas ameixas com o desjejum, e não admitia que a importunassem quando se ficava a escovar
os cabelos, negligenciando os seus deveres escolares. O Premio Nobel não queria saber de
sair da cama pela manhã, cancelava aulas, era incapaz de atender com pontualidade aos seus
compromissos. Houve outras in-frações ainda mais graves. Ruth arrebentou o seu cofre e
esbanjou um ano de economias acumuladas num estojo de maquilagem e num vidro de
perfume barato. No dia seguinte ao da partida de Katy, ela parecia e recendia como a
Prostituta de Babilónia.

— Em homenagem ao Verme Triunfante?

— Os vermes estavam superados — respondeu Rivers. — Poe já estava tão fora de


moda quanto Over There ou Alexander's Ragtime Band. Ela estivera a ler Swinburne, e
acabava de descobrir os poemas de Oscar Wilde. O universo era agora completamente outro
e ela mesma era uma pessoa diferente — uma poetisa diferente, com um vocabulário novo
em folha. .. Doce pecado, desejo; unhas de jaspe; a dor dos pulsos rubros; os arroubos e as
rosas do vício; e lábios, é claro, lábios entrelaçados e mordidos até que a espuma tenha o
sabor do sangue — todo aquele mau-gôsto adolescente da rebelião neovitoriana. E no caso
de Ruth os novos vocábulos vinham acompanhados de novas realidades. Ela já não era um
rapazote de saias e tranças, mas uma mulher que desabrochava, com um par de seios em
botão que carregava com delicadeza e cuidado, como se se tratasse de dois espécimes
zoológicos preciosos ao extremo, mas um tanto perigosos e perturbadores. Eles eram a fonte,
percebia-se, de um misto de orgulho e vergonha, de prazer intenso e, por isso mesmo, de um
obsedante sentimento de culpa.
Como é rudimentar e limitada a nossa linguagem! Se deixarmos de parte os correlatos
fisiológicos da emoção, estaremos falseando a realidade dos fatos. Se os mencionarmos,
pareceremos brutais e cínicos. Seja paixão ou atração da mariposa pela luz, seja ternura,
adoração ou anseio de romance — o amor é invariavelmente acompanhado de fenômenos das
terminações nervosas, da epiderme, das membranas mucosas, das glândulas e dos tecidos
erécteis. Quem disser o contrário estará mentindo. Os que o afirmam são acusados de
pornografia. É culpa, não cabe dúvida, da nossa filosofia de vida; e a nossa filosofia de vida é
o inevitável subproduto de uma linguagem que separa em idéia realidades que são de fato e
para sempre inseparáveis. Separa, e ao mesmo tempo avalia. Uma das abstrações é boa, a
outra má. Não julgueis para que não sejais julgados. Mas a natureza da linguagem é tal que
nos torna impossível abster-nos de julgar. O que nos faz falta é um sistema diferente de
palavras. Palavras capazes de exprimir a associação natural das coisas. Muco-espiritual, por
exemplo, ou dermatocaridade. E por que não mastonoética? Por que não viscerosofia? Mas,
traduzidas, é claro, para algo diverso do obsceno hermetismo da terminologia erudita, para
algo que se possa empregar na conversação corrente ou mesmo na poesia lírica.
Como é difícil, à falta dessas palavras ainda inexistentes, explicar-se até mesmo um
caso tão simples e tão óbvio como o de Ruth. Não nos resta senão recorrer a rodeios e
metáforas. Uma solução saturada de sensações, que pode cristalizar-se tanto de fora para
dentro como vice-versa. Palavras e acontecimentos que caem no caldo psico-físico e o fazem
precipitar em flocos de emoção e sentimento, geradores da ação. Depois vêm as alterações
glandulares, e o advento daqueles pequenos e encantadores espécimes zoológicos que a
menina ostenta com tanto orgulho e enleio. O soluto emocional é enriquecido por uma nova
espécie de sensibilidade que, fluindo dos mamilos, através da pele e dos nervos, se irradia
para a alma, para o subconsciente, para o supraconsciente, para o espírito. E estes novos
elementos psico-erécteis da personalidade como que imprimem um movimento à solução,
fazendo-a fluir numa direção específica — em direção à região ainda inexplorada, ainda
indiferenciada, do amor. Neste fluxo de sentimento o acaso deixa cair uma variedade de
agentes cristalizantes — palavras, fatos, o exemplo alheio, fantasias e memórias secretas,
todos esses inúmeros instrumentos manipulados pelo Fado para moldar os destinos humanos.
Ruth teve a infelicidade de passar de Poe para Algernpn e Oscar, do Verme Triunfante para
Dolores e Salomé. Combinada com os novíssimos fenômenos da sua própria fisiologia, a
nova literatura fez com que a pobre criança achasse absolutamente imperioso besuntar os
lábios de bâton e encharcar as combinações com violetas sintéticas. E o pior estava por vir.
— Âmbar gris sintético?

— Pior ainda: amor sintético. Ela persuadiu-se a si mesma de estar


irremediavelmente, swinburneana-mente apaixonada.. . e, dentre todos os homens do mundo,
por mim!.
— Será que não podia encontrar alguém mais próximo do seu próprio tamanho? —
perguntei.
— Ela havia tentado — respondeu Rivers, — mas não dera certo. Eu soube da
história por Beulah, a quem ela fizera confidências. A històriazinha trágica de uma garota de
quinze anos a idolatrar um jovem e heróico futebolista e detentor de medalhas de aplicação,
de dezessete. Escolhera alguém mais próximo do seu tamanho; mas, desgraçadamente, nessa
fase da vida, dois anos podem ser um abismo quase intransponível. O jovem herói só estava
interessado em colegas de maturidade comparável à sua própria — dezoito, dezessete,
quando muito uma bem desenvolvida dezesseis. Uma franguinha magricela como Ruth
estava fora de cogitação. Ela viu-se na posição de uma humilde plebéia vitoriana a adorar
desesperadamente um duque. Por muito tempo o jovem herói nem sequer deu pela sua
existência; e, quando afinal ela fez por onde impor-se à sua atenção, ele mostrou-se a
princípio divertido e acabou por ser rude. Foi quando ela começou a se convencer de que
estava apaixonada por mim.
— Mas, se dezessete anos era muito, por que experimentar vinte e oito? Por que não
dezesseis?
— Havia várias razões. A rejeição fora pública, e tivesse ela escolhido algum fedelho
espinhento para substituto do campeão, as outras meninas haveriam de manifestar- lhe
comiseração e rir-se-iam dela pelas costas. Colegiais estavam portanto fora de cogitação. E
afora os seus colegas de escola ela não tinha outros conhecimentos masculinos a não ser eu.
Não havia alternativa. Se é que tinha de amar alguém — e as novas realidades fisiológicas
arrastavam-na ao amor, o seu novo vocabulário lhe impunha o amor como um imperativo
categórico — então eu era o homem.
Em verdade, a coisa começou várias semanas antes da partida de Katy para Chicago.
Eu havia percebido uma série de sintomas premonitórios — rubores, silêncios, retiradas
abruptas e inexplicáveis em meio a uma conversação, acessos de amuo ciumento se alguma
vez eu parecia preferir a companhia da mãe à da filha. Além disso, é claro, havia os poemas
de amor que, a despeito do meu e do seu próprio constrangimento, ela insistia em exibir-me.
Carícias e delícias. Doçuras e tortura®, ardente e fremente. Anseio, enleio, devaneio, seio.
Enquanto eu os lia, ela ficava a fitar-me atenta, e não era um mero olhar de noviço literário na
expectativa do veredicto da crítica. Era o olhar úmido, intenso e lustroso de um cão fiel para
o seu dono, de uma Madalena de Contra-Reforma, de uma vítima voluntária aos pés do seu
predestinado Barba-Azul. Eu me sentia extremamente contrafeito, e mais de uma vez estive a
conjeturar se não seria de bom aviso, para bem de todos, levar o assunto ao conhecimento de
Katy. Mas, nesse caso, ponderei, se as minhas suspeitas fossem infundadas, eu haveria de
parecer bastante presumido; e, se tivesse razão, iria criar dificuldades para a pobrezinha.
Decidi nada dizer e esperar que passasse por si aquela criancice. Continuei a agir como se os
poemas fossem simples exercícios literários que nada tinham a ver com a vida real ou com os
sentimentos da autora. E, assim continuou a coisa, subterraneamente, como um Movivimento
de Resistência, como a Quinta Coluna, até o dia da partida da mãe. De volta da estação, eu
ruminava apreensivo no que iria acontecer agora que a presença coibitiva de Katy fora
removida. A manhã seguinte trouxe a resposta — faces pintadas, a boca como um morango
maduro, e aquele perfume, aquele cheiro de bordel!

— E um comportamento de acordo, imagino?


— Era de esperar-se, sem dúvida. Mas, por estranho que pareça, ele não se
materializou de pronto. Ruth parecia não sentir a necessidade de viver o seu novo papel;
bastava-lhe representá-lo. Bastavam-lhe os ares e os símbolos externos da grande paixão.
Aspirando a fragrância das suas peças íntimas de algodão e contemplando no espelho a
imagem daquele rostinho absurdamente purpúreo, ela conseguia ver-se e sentir-se como uma
nova Lola Montez, sem a necessidade de justificar a reivindicação do título por qualquer ato
que fosse. E não era apenas o espelho que refletia a sua nova caracterização; era também a
opinião pública, era a turma da escola, assombrada, invejosa ou zombeteira, eram os seus
escandalizados professores. Os ornares e os comentários corroboravam as suas fantasias
secretas. Ela não era a única a sabê-lo; outros reconheciam o fato de que ela se havia tornado
a grande amoureuse, a femme fatale. Era tudo tão novo, tão excitante e absorvente, que por
algum tempo, graças a Deus, eu fiquei quase esquecido. Além do mais, eu havia cometido a
ofensa imperdoável de não considerar a sua mais recente personificação com a devida
seriedade.
Foi logo no primeiro dia da nova ordem de coisas. Ao descer as escadas, dei com
Ruth e Beulah no hall em acalorada discussão. "Uma menina tão distinta", estava ralhando a
velha. "Você devia se envergonhar!" A menina distinta procurou recrutar-me como aliado.
"Você acha que mamãe se importará de eu usar maquilagem, acha?" Beulah não me deu
tempo de responder. "Eu lhe digo o que a sua mãe vai fazer", interpôs com ênfase e
implacável realismo, "assim que ela lhe botar os olhos em cima, ela vai sentar-se naquele
sofá, atravessar você nos joelhos, abaixar as suas calças e lhe dar a maior surra que você já
levou na sua vida". Ruth lançou-lhe um olhar de frio e soberbo desdém e retrucou. "Eu não
estava falando com você". Em seguida voltou-se para mim. "O que é que você acha, John?"
Os lábios de morango retorceram-se num sorriso que pretendia ser sedutoramente
voluptuoso, os olhos enviaram-me uma versão mais ousada da sua expressão adorativa. "O
que é que você acha?" Por simples autodefesa, disse-lhe a verdade. "Creio que Beulah tem
razão", respondi. "Uma surra e tanto". O sorriso desvaneceu-se, os olhos escureceram e se
apertaram, um rubor colérico surgiu por sob o rouge das faces. "Você sabe ser desagradável",
disse ela. "Desagradável!" ecoou Beulah. "Quem é desagradável, eu gostaria de saber?" Ruth
franziu a testa e mordeu o lábio, mas fez por ignorá-la. "Que idade tinha Julieta?" desafiou
com uma nota de antecipado triunfo na voz. "Um ano menos que você", respondi. O triunfo
irrompeu num sorriso escarnecedor. "Mas Julieta", continuei, "não tinha de ir ao colégio.
Não tinha aulas nem deveres para casa. Não tinha nada em que pensar, a não ser em Romeu e
em pintar a cara — se é que ela se pintava, o que aliás duvido. Ao passo que você tem de
pensar na álgebra, no latim e nos verbos irregulares franceses. A você foi dada a inestimável
oportunidade de tornar-se um dia uma dama razoavelmente civilizada". Seguiu-se um longo
silêncio. Depois ela exclamou: "Eu o odeio!"
Foi o brado de uma Salomé ultrajada, de uma Dolores justamente indignada por ter
sido confundida com uma colegial. As lágrimas começaram a correr. Carregando o silte
negro do bistre, sulcaram seu caminho através das planícies aluviais de rouge e pó-de-arroz.
"Vá para o inferno", ela soluçou, "vá para o inferno!" Enxugou os olhos e, em seguida,
percebendo o medonho borrão estampado no lenço, deixou escapar um grito de horror e
precipitou-se escadas acima. Cinco minutos mais tarde, serena e completamente retocada,
saía para a escola.
E esta — concluiu Rivers — foi uma das razões por que a nossa grande amoureuse
dava tão pouca atenção ao objeto da sua paixão devoradora, por que a femme fatale preferiu,
durante as duas primeiras semanas de sua existência, concentrar-se antes em si mesma do
que na pessoa a quem o autor do argumento houvera designado a parte da vítima. Ela me
pusera à prova, e achara-me lamentavelmente indigno do papel. Parecia mais conveniente,
por ora, levar a peça em forma de monólogo. Por aquele período pelo menos, foi-me
concedida uma trégua. Mas entrementes o meu Premio Nobel andava-se metendo em
complicações.
No quarto dia de sua emancipação, Henry escapuliu-se para um coquetel, oferecido
por uma musicista de pendores boêmios. Esses cacos velhos são incapazes de suportar o
álcool como cavalheiros. Chá e conversação era o bastante para pôr Henry eufórico. Martínis
transformavam-no num louco furioso, que caía de repente em estado de depressão e acabava
invariavelmente por vomitar. Ele sabia disso muito bem; mas o criançola que havia nele
tinha de afirmar a sua independência. Katy mantinha-o restrito a um ou outro xerez
ocasional. Muito bem, ele haveria de mostrar-lhe, haveria de provar que era capaz de afrontar
a Lei Seca tão varonilmente quanto qualquer outro.
Na ausência do gato, os ratos se divertem. E divertem-se (tal é a curiosa perversidade
da alma humana) em partidas que são a um tempo perigosas e aborrecidas. Partidas nas
quais, se um perde e bate em retirada, sente-se humilhado e, se persevera e ganha, o único
resultado é um mortal arrependimento. Henry aceitou o convite da musicista, e o que estava
fadado a acontecer aconteceu devidamente. Pela metade do seu segundo copo, ele já fizera de
si um espetáculo. Ao fim do terceiro, segurava a mão da musicista e lhe declarava que era o
homem mais infeliz do mundo. E, mal principiara o quarto, teve de fugir às carreiras para o
banheiro.
Mas, não foi tudo; de regresso a casa — insistira em voltar a pé — deu jeito, ainda,
não sei como, de perder a carteira. Nela estavam os três primeiros capítulos do seu novo
livro: De Boole a Wittgenstein. Ainda hoje, uma geração passada, é a mais primorosa das
introduções à lógica moderna. Uma pequena obra-prima! E talvez fosse ainda melhor se ele
não se tivesse embebedado e perdido a versão original dos três primeiros capítulos.
Eu deplorei a perda, mas dei graças pelo efeito desanuviante que ela produziu no
pobre Henry. Nos dias que se seguiram teve um comportamento exemplar; tornou-se quase
tão razoável quanto o próprio Timmy. Supus que os meus problemas tivessem terminado,
tanto mais que as notícias de Chicago pareciam indicar que Katy logo estaria de volta. A
mãe, pelo que se depreendia, estava nas últimas. A tal ponto que uma manhã, a caminho do
laboratório, Henry fez-me parar numa loja de roupas; queria comprar uma gravata preta para
o funeral.
Foi quando, com grande sensação, chegou a nova de um milagre. No derradeiro
instante, recusando-se a abandonar a esperança, Katy havia convocado um novo doutor —
um jovem recém-saído de Johns Hopkins, brilhante, infatigável, e em dia com os mais
recentes truques da ciência. Este pusera em prática um novo tratamento e lutara com a morte
por dois dias e duas noites a fio. E ao cabo destes, a batalha estava ganha; a doente fora
arrebatada de a um passo da sepultura, e viveria. Katy, em sua carta, estava exultante, e
eu, naturalmente, associei-me à sua alegria. A velha Beulah, em meio aos seus afazeres,
louvava o Senhor em altas vozes, e até as crianças abriram um intervalo nas suas lições e
problemas, nas suas fantasias de sexo e de trens de ferro, para festejar. Todos estavam felizes
exceto Henry. É verdade que ele insistia em afirmar o contrário; mas o seu ar sorumbático
(ele era incapaz de esconder os seus verdadeiros sentimentos) desmentia-lhe as palavras.
Vinha contando com a morte de Mrs. Hanbury para ter a sua placenta-secretária, a sua
mãe-amante, outra vez ao pé de si. E, eis que, inesperadamente, impertinentemente — não
havia outra palavra para defini-lo — aquele abelhudo badameco de Johns Hopkins achara de
intrometer-se com o seu maldito milagre. Alguém que deveria ter tranqüilamente entregue a
alma ao Criador encontrava-se agora contra todas as regras — fora de perigo. Fora de perigo,
mas ainda não em condições de ser deixada só. Katy teria de permanecer em Chicago até que
a convalescente pudesse arranjar-se sem ela. Só Deus sabia quando a única criatura de quem
o pobre Henry para tudo dependia — sua saúde, sua sanidade, sua própria vida — poderia
voltar para ele.
A expectativa procrastinada deu causa a uma série de acessos de asma. Foi então que,
providencialmente, chegou a comunicação de que ele fora eleito Membro Correspondente do
Instituto Francês. Assaz desvanece-dor, com efeito! O resultado foi uma cura instantânea...
mas, ai de nós, não duradoura. Uma semana transcorreu e, à medida que passavam os dias, o
sentimento de privação transformou-se em verdadeira agonia, como a aflição de um viciado
a quem se suprimiu a droga. Sua angústia traduziu-se em selvagem e irracional
ressentimento. Aquela feiticeira velha! (Na realidade, a mãe de Katy tinha dois meses menos
que ele). Aquela megera hipócrita! Pois, era claro que ela não estava realmente doente —
ninguém pode estar doente de verdade por tanto tempo sem morrer. Ela estava pura e
simplesmente simulando. E o motivo era uma mescla de egoísmo e despeito. O que queria
era conservar a filha junto de si, e ao mesmo tempo (a velha bruxa sempre o detestara)
impedir Katy de estar no lugar que lhe competia, isto é, ao lado de seu marido. Dei-lhe
algumas explicações sobre nefrite, e fi-lo reler as cartas de Katy. Deu resultado por um ou
dois dias e, logo em seguida, as notícias vieram mais animadoras. A enferma vinha
experimentando tais melhoras que, provavelmente, dentro de mais alguns dias poderia ser
deixada a salvo aos cuidados de uma enfermeira e da governanta sueca.
Em seu alvoroço, Henry transformou-se, pela primeira vez, desde que eu o conhecia,
em um pai quase normal. Em lugar de encafurnar-se no seu gabinete após o jantar, inventou
brincadeiras com as crianças. Em vez de discursar sobre os seus próprios assuntos, procurou
diverti-las com maus trocadilhos e adivinhações. "Por que é que um frango com a cabeça
caída se parece com a semana que vem (next weak)T' Claro, porque o seu pescoço é fraco (its
neck's weak). Timmy caiu em êxtase e até Ruth condescendeu em sorrir. À noite, jogamos
bezigue e depois uma partida de víspora. O relógio deu as nove. Uma última rodada, e as
crianças subiram para os seus quartos.
Dez minutos mais tarde estavam na cama, a chamar-nos para dar as boas-noites.
Timmy foi o primeiro. "Você conhece esta?" perguntou Henry. "Qual é a planta que nasce
quando se semeiam fardos de cólera?" A resposta, obviamente, era "sacos de raiva" (sackí, o]
rage); mas como Timmy nunca ouvira falar em saxífraga (saxifrage), ficou um tanto frio.
Apagamos a luz e passamos ao quarto contíguo. Ruth estava sob as cobertas, tendo ao
seu lado o ursinho Teddy, que era a um tempo o seu bebé e o seu Príncipe Encantado.
Ostentava um pijama azul-pálido e maquilagem completa. O professor opusera objeções ao
uso do rouge e do perfume na classe e, quando a persuasão resultou baldada, o reitor os
proibira terminantemente. A poetisa vira-se constrangida a se contentar em pintar-se e
perfumar-se à hora de dormir. O quarto inteiro trescalava a violeta artificial, e o travesseiro,
de cada lado do pequeno rosto, estava raiado de bâton e rímel.
Henry, todavia, não era homem de notar tais pormenores. "Que flor", perguntou
aproximando-se do leito, "ou, para ser mais preciso, que planta florífera nasceria se se
plantasse um pacote de velhas cartas de amor?" "Cartas de amor?" repetiu a menina.
Relanceou-me um olhar, enrubesceu e desviou a vista. Com um riso forçado, replicou num
tom superior e entediado que não era capaz de adivinhar. "Labumum (laburno)", revelou o
pai, triunfante; e, como ela não entendesse, explicou: "La, burríem (queime-as). Não
percebe? São cartas de amor, e você encontrou um novo admirador. O que é que você faz?
Você as queima". "Mas por que La?" quis saber Ruth. Henry fêz-lhe uma breve e instrutiva
preleção sobre a arte da blasfémia inofensiva. Gee para God (Deus), Geeze para Jesus, Heck
para Hell (inferno), La para Lord (Senhor). "Mas ninguém diz La", objetou Ruth. "No século
dezoito, diziam", retrucou Henry um tanto impaciente.
À distância, no quarto do casal, a campainha do telefone pôs-se a tocar. O semblante
dele iluminou-se. "Tenho um palpite de que é Chicago chamando", disse, enquanto se
curvava para beijar Ruth. "E outro palpite", acrescentou apressando-se em direção à porta,
"de que a mãezinha estará de volta amanhã. Amanhã!" repetiu, e desapareceu.
"Não será maravilhoso", disse eu com fervor, "se ele tiver razão?!" Ruth balançou a
cabeça afirmativamente e respondeu "sim", num tom que o fez soar como "não". O rostinho
pintado assumiu de repente uma expressão de aguda ansiedade. Pensava, sem dúvida, nos
prognósticos de Beulah sobre o que haveria de passar-se quando a mãe chegasse em casa; ela
via, a bem dizer sentia, Dolores-Salomé de borco sobre um grande joelho maternal, a levar,
não obstante o fato de ser um ano mais velha que Julieta, umas sonoras chineladas.
"Bem, vou andando", disse eu por fim. Ruth agarrou-me a mão e a reteve. "Ainda
não", suplicou. E ao murmurar essas palavras sua fisionomia transmudou-se. A tensão
apreensiva foi substituída por um tremulo sorriso de adoração; os lábios se entreabriram, os
olhos dilataram-se e luziram. Foi como se lhe houvesse de súbito lembrado quem eu era — o
seu escravo, o seu predestinado Barba-Azul, o móvel exclusivo de seu duplo papel de
tentadora fatal e vítima do sacrifício. E amanhã, a mãe chegando, amanhã seria tarde demais;
o espetáculo estaria cancelado, o teatro fechado por ordem da polícia. Seria agora ou nunca.
Ela apertou-me a mão com mais força. "Você gosta de mim, John?", perguntou- me num
sussurro quase inaudível. Respondi com as inflexões joviais e exuberantes de um chefe de
escoteiros extrovertido: "É claro que eu gosto de você". "Tanto quanto gosta da mamãe?"
insistiu ela. Procurei esquivar-me com uma ostentação de impaciência bem- humorada. "Que
pergunta asnática!" retruquei. "Gosto de sua mãe da maneira como se gosta das pessoas
grandes. E gosto de você. . ." "Da maneira como se gosta das crianças", concluiu ela com
amargura. "Como se isso fizesse alguma diferença!" "E não faz?" "Não quando se trata
disto". E quando lhe perguntei o que isto era, premiu-me os dedos e disse,
"gostar de alguém", e lançou-me outro daqueles seus olhares. Houve uma pausa embaraçosa.
"Bem, acho melhor ir andando", ensaiei por fim e, lembrando-me do estribilho que Timmy
sempre achava tão extraordinariamente espirituoso: "até amanhã", ajuntei, desembaraçando
a mão, "durma bem, sonhe com os anjos e não caia da cama". O gracejo caiu no silêncio
como uma tonelada de gusa. Sem um sorriso, com intensa e anelante fixidez que eu teria
achado cômica se não me tivesse gelado até os ossos, ela continuou a fitar-me. "Você não
vai-me dar um boa-noite de verdade?" perguntou. Debrucei-me para administrar-lhe a
beijoca ritual na testa, e de repente os braços dela me envolveram o pescoço, e não era mais
eu que beijava a menina, mas a menina que me beijava a mim — na bochecha direita
primeiro, depois, com pontaria um pouco mais certeira, próximo ao canto da boca. "Ruth!"
protestei; mas antes que pudesse dizer mais, ela beijou-me outra vez, com desajeitada
violência, em cheio nos lábios. Desvencilhei-me de um arranco. "Mas o que é isso?"
exclamei em zangado pânico. Com as faces afogueadas, os olhos brilhantes e enormes, ela
encarou-me, ciciou, "eu te amo", depois virou-se de bruços e enterrou o rosto no travesseiro,
junto do ursinho Teddy. "Muito bem", disse eu com severidade. "É a última vez que eu venho
lhe dar boa-noite", e voltei-me para sair. A cama rangeu, pés descalços ressoaram
surdamente no assoalho e, quando alcancei a maçaneta da porta, ela estava ao meu lado,
dependurada ao meu braço. "Desculpe, John", gaguejava incoerentemente. "Desculpe-me.
Eu farei tudo que você disser. Tudo..." O olhar era agora mais que nunca canino, sem
qualquer vestígio da tentadora. Fi-la voltar para a cama, observando-lhe que, se ela se
portasse muito bem, eu poderia ser magnânimo. Do contrário... E com essa ameaça
indefinida, deixei-a.
Fui antes de mais nada ao meu quarto, remover o bâton do rosto, e voltei em seguida
pelo corredor, em direção às escadas, com destino à biblioteca. Ao atingir o patamar, quase
colidi com Henry que emergia da passagem de comunicação com a ala onde se localizavam
os seus aposentos. "Quais são as novas?" comecei. Mas então vi-lhe o rosto e parei
estarrecido. Cinco minutos antes ele estivera alegremente a propor charadas. Agora, era um
homem velho, muito velho, pálido como um cadáver, mas sem a serenidade da morte; pois
havia em seus olhos e no contorno da boca um ricto de intolerável sofrimento. "Aconteceu
alguma coisa?" indaguei ansioso. Ele sacudiu a cabeça sem falar. "Não mesmo?" insisti. "Era
Katy", disse ele por fim com voz inexpressiva. "Ela não vem. Perguntei se a velha tinha
piorado outra vez. "Este é o pretexto", respondeu àcidamente, depois girou nos calcanhares e
retirou-se na direção de onde viera.
Preocupado, eu o acompanhei. Havia um pequeno passadiço, lembro-me, com a porta
do banheiro ao fundo e outra, à esquerda, que dava para o quarto do casal. Eu nunca estivera
naquele quarto antes, e foi com um choque de surpresa e assombro que defrontei com o
extraordinário leito dos Maartens. Era uma cama de baldaquino em estilo colonial, mas de
proporções de tal modo gigantescas que fez-me pensar em assassinatos presidenciais e em
funerais de estado. Na mente de Henry, por certo, a associação de idéias deve ter sido
bastante diferente. O que a mim se afigurava um catafalco era para ele o tálamo. O telefone,
que acabara de condená-lo a mais um período de solidão, ficava vizinho ao símbolo e palco
de sua felicidade conjugal. Não, este não é o termo preciso — emendou Rivers entre
parênteses. — "Conjugal" implica uma relação recíproca entre duas pessoas plenamente
amadurecidas. No entanto, para Henry, Katy não era uma pessoa; era o seu alimento, era um
órgão vital do seu corpo. Na ausência dela, ele era como uma vaca
privada de pasto, como um doente de icterícia lutando para existir sem fígado. Uma autêntica
agonia. "Talvez seja melhor o senhor repousar um pouco", sugeri no tom aliciante que
automaticamente se adota para falar a uma pessoa enferma. Fiz um gesto em direção à cama.
A reação dele, desta vez, foi como o que sucede quando se espirra ao atravessar um
talude de neve recém-caída — uma avalanche. E que avalanche! Não da espécie branca e
virginal, mas uma quente, uma enxurrada de lama. Lama fétida, sufocante, opressiva. Na
beatitude da minha retardada e imperdoável inocência, eu ouvia com atónito e escandalizado
horror. "É evidente", repetia ele sem cessar. "É mais que evidente". Era evidente que se Katy
não voltava para casa era porque não queria voltar. Era evidente que ela encontrara outro
homem. E era óbvio que esse outro homem só podia ser o novo doutor. Médicos são
sabidamente amantes peritos. Conhecem fisiologia, sabem tudo a respeito do sistema
nervoso autônomo...
Meu horror cedeu lugar à indignação. Que coisas tinha ele a ousadia de dizer da
minha Katy, daquela sublime criatura que não podia deixar de ser tão pura e perfeita quanto a
minha própria, quase mística, paixão? "O senhor pretende seriamente insinuar..." comecei.
Mas Henry não estava insinuando; afirmava categoricamente. Katy estava a enganá-lo com o
janotazinho de Johns Hopkins.
Disse-lhe que ele não estava em seu juízo, e ele retorquiu que eu nada entendia de
sexo. O que sem dúvida era a dolorosa verdade. Tentei desviar o assunto. Não se tratava de
sexo — tratava-se de nefrite, e de uma mãe que necessitava os cuidados da filha. Mas Henry
não me escutava. Seu único desejo agora era o de torturar-se. E se você me perguntar por que,
tudo o que lhe posso dizer é que era porque já estava em agonia. Ele era a metade mais fraca
e mais dependente de uma associação simbiótica que — segundo acreditava — vinha de ser
abruptamente desfeita. Era como uma operação cirúrgica sem anestesia. O regresso de Katy
teria eliminado a dor e curado de pronto a ferida. Mas Katy não regressava. Logo (admirável
lógica!) era necessário a Henry infligir a si próprio todo o sofrimento adicional de que fosse
capaz. E o meio mais eficaz de consegui-lo era pôr o seu tormento em palavras lacerantes.
Falar e falar — não, por certo, a mim, nem mesmo para mim; unicamente para si mesmo —
porém (e isto era essencial para que ele sofresse) na minha presença. O papel que a mim
cabia não era o de coadjuvante, nem mesmo o de um ator de pontas que serve de confidente e
recadeiro. Não, eu nada mais era que o extra anónimo e quase sem rosto, com a função
exclusiva de fornecer ao herói a deixa inicial para pensar em voz alta, e que agora, pela sua
simples presença em cena, emprestava ao solilóquio entreouvido uma monstruosidade, uma
rematada obscenidade, que lhe faltaria se o declamador se encontrasse só.
Impelida pela própria inércia, a avalanche ganhava ímpeto. Da infidelidade de Katy
ele passou — e este era o mais cruel dos cilícios — à preferência dela por um homem mais
moço. Mais moço e por isso mais viril, mais infatigavelmente lúbrico. (À parte o fato de,
como médico, tudo saber sobre fisiologia e sobre o sistema nervoso autónomo). A pessoa, o
profissional, o devotado salvador — tudo desaparecera; e, assim também, por inferência,
Katy. Nada restava além de um par de sexos a se explorarem freneticamente no vácuo.
Que ele pudesse pensar em tais termos acerca de Katy e do seu hipotético amante era
uma prova, como vagamente comecei a perceber, de que pensava da mesma forma com
relação a Katy e a si próprio. Henry, como disse, era um caco velho, e esses cacos velhos,
como você deve ter tido inúmeras ocasiões de observar, soem ter uma disposição ardente. De
uma ardência que chega a atingir as raias do furor. Não, não é o termo apropriado. O furor é
cego. Ao passo que amantes do tipo de Henry jamais perdem a cabeça. Eles a mantêm firme
no lugar, não importa a que ponto cheguem — de modo a terem sempre a plena consciência
da sua própria alienação e da de sua parceira. Na verdade, pouco mais havia, afora o seu
laboratório e os seus livros, de que Henry se preocupasse em ter consciência. A maioria das
pessoas habita um universo que é como um café au lait francês — metade leite aguado,
metade chicória rançosa; cinqüenta por cento de realidade psico- física e cinqüenta por cento
de palavrório convencional. O universo de Heary assemelhava- se antes a um highball: era
uma mistura na qual meio litro das mais borbulhantes ideias científicas e filosóficas diluía
quase por completo uma minúscula dose de experiência imediata, quase toda ela estritamente
sexual.
Cacos velhos são quase sempre intratáveis. Em geral estão por demais ocupados com
suas idéias, com sua libido e com seus achaques psico-somáticos para serem capazes de
interessar-se pelo próximo — inclusive por suas esposas e filhos. Vivem num estado da mais
profunda e voluntária ignorância, nada sabendo de ninguém, mas abundantes em opiniões
preconcebidas a respeito de tudo. Veja a educação dos filhos, por exemplo. Henry podia
discutir o tema com autoridade. Ele lera Piaget, lera Dewey, lera Montessori e os
psicanalistas. Guardava tudo em seus arquivos cerebrais, classificado, catalogado,
prontamente disponível. No entanto, quando se tratava de fazer algo por Ruth ou por Timmy,
ou ele se revelava irremediavelmente inepto ou, o que era mais freqüente, simplesmente
desaparecia de cena. Pois era evidente que eles o aborreciam. Todas as crianças o
aborreciam. Bem como a esmagadora maioria dos adultos. E como poderia ser de outra
maneira? Suas idéias eram rudimentares e o seu saber, inexistente. Que tinham eles a
oferecer? Nada além dos seus sentimentos e da sua vida moral, nada além da sua ocasional
sabedoria e da sua sólita e patética falta de sabedoria. Numa palavra, nada além da sua
humanidade. E humanidade era algo em que o pobre Henry era congenitamente incapaz de
interessar-se. Entre o mundo da teoria dos quanta e da epistemologia num dos extremos do
espectro, e o do sexo e do sofrimento no outro, estendia-se uma espécie de limbo povoado
unicamente por sombras. E entre as sombras estavam cerca de três quartos dele mesmo. Pois
ele era tão pouco cônscio da sua própria humanidade quanto da alheia. Suas idéias e
sensações — sim, estas ele conhecia bem. Mas quem era o homem que tinha as idéias e
experimentava as sensações? E que relação tinha esse homem com as coisas e com as
pessoas que o rodeavam? Qual, acima de tudo, deveria ser a sua relação para com elas?
Duvido que algum dia tenha ocorrido a Henry propor a si mesmo essas questões.
Seja como for, ele não as formulou naquela ocasião. Seu solilóquio não era um
conflito entre o amor e a suspeita de um marido atormentado. Esta teria sido uma reação
plenamente humana ao desafio de uma plenamente humana contingência — e, como tal,
jamais poderia ter lugar na presença de um interlocutor tão estúpido, tão bisonho, tão incapaz
de oferecer compreensão e ajuda, como era o jovem John Rivers de trinta anos atrás. Não,
aquela era uma atitude essencialmente infra-humana; e um dos elementos da sua
infra-humanidade era o fato, o fato sumamente ultrajante e despropositado, de ocorrer na
presença de alguém que não era nem um amigo íntimo, nem um conselheiro profissional —
que não passava de um jovem labrego escandalizado, com uma formação piedosa em excesso
e um par de receptivos mas trémulos ouvidos.
Pobres ouvidos! Lucidamente expressa e ricamente documentada, a científica
imundície literalmente os encharcava. Burton e Havelock Ellis, Krafft-Ebing e os
incomparáveis Ploss e Bartels — como Piaget e John Dewey, estavam todos ali à mão, no
arquivo mental de Henry, em seus mínimos detalhes. E, nesse campo, tornou-se então
evidente, Henry não se limitava a teorizar. Ele havia praticado o que pregava, havia aplicado,
sistematicamente, o que sabia em teoria.
Como é difícil, nos dias que correm, em que é permitido comentar orgasmos à sopa e
flagelações à sobremesa, como é incrivelmente difícil lembrar a força dos antigos tabus, o
profundo silêncio que os cercava! No que a mim tocava, tudo de que falava Henry — as
técnicas amorosas, a antropologia do matrimónio, as estatísticas da satisfação sexual — era
uma revelação do abismo. Era o género de coisas que as pessoas decentes jamais
mencionavam, que, na minha crédula imaginação, nem sequer sabiam; o género de coisas
que não podiam ser discutidas e compreendidas senão nos bordéis, nas orgias dos ricos, em
Montmartre, em Chinatown e no Bairro Francês. E, no entanto, tais horrores eram despejados
em meus ouvidos pelo homem que eu respeitava acima de todos os demais, pelo homem que,
em intelecto e em intuição científica, sobrepujava qualquer outro que eu jamais conhecera.
E os horrores que proferia tinham por obieto a mulher que eu amava como Dante
amou Beatriz; como Petrarca idolatrou Laura. O que ele estava afirmando, como se fosse a
coisa mais evidente do mundo, era que < Beatriz tinha apetites quase insaciáveis, que Laura
rompera os seus votos matrimoniais por amor de sensações físicas da espécie que qualquer
bruto dotado de vigot e de um bom conhecimento do sistema nervoso autónomo seria capaz
de suscitar. E não estivesse ele acusando Katy de infidelidade, ainda assim o que dizia era de
molde a encher-me de estupor. Pois implicava que os horrores eram parte do matrimónio,
tanto quanto do adultério. Muito provavelmente você não me acreditará — Rivers
acrescentou com um sorriso — mas é a pura verdade. Até aquele momento, eu não fazia a
menor ideia do que se passava entre maridos e mulheres. Ou melhor, fazia uma ideia, mas
acontecia não ser a verdadeira. A minha ideia era que, a não ser entre a ralé, gente honesta
não praticava o amor senão para ter filhos — uma vez na vida, no caso dos meus pais, duas no
dos Maartens. E agora, ali estava Henry, sentado à beira do seu catafalco, a desfiar o seu
solilóquio. A monologar com a lucidez do génio e com a desinibida elaboração da
infantilidade sobre todas aquelas coisas estranhas e, para mim, espantosamente imorais, que
se haviam desenrolado sob o seu dossel funéreo. E Katy, a minha Katy, fora sua cúmplice —
não sua vítima, como a princípio me esforcei por acreditar, mas sua voluntária e até
entusiástica cúmplice. Era esse entusiasmo, aliás, que o levava a suspeitar dela. Pois se a
sensualidade significava tanto para ela ali, sobre o catafalco doméstico, deveria por força
significar ainda mais lá em Chicago, com o jovem doutor. E, de repente, para meu indizível
embaraço, Henry cobriu o rosto e desatou a soluçar.
Rivers silenciou.

— E você, o que fêz? — perguntei.

— Que podia eu fazer? — Encolheu os ombros. —■ Nada, a não ser engrolar alguns
ruídos confortadores e aconselhá-lo a ir para a cama. Na manhã seguinte ele haveria de
descobrir que tudo não passara de um tremendo equívoco. Em seguida, com o pretexto de ir
buscar o seu leite quente, fugi às pressas para a cozinha.
Beulah estava sentada na sua cadeira de balanço, a ler um livreto sobre o Segundo
Advento. Disse-lhe que o Dr. Maartens não estava se sentindo muito bem. Ela escutou-me e
balançou a cabeça significativamente, como se já esperasse por aquilo; então fechou os olhos
e, movendo os lábios em silêncio, orou por longo tempo. Depois suspirou e sentenciou:
"Vazio, varrido e enfeitado". Eram as palavras que lhe haviam sido dadas. E, se bem
parecesse uma estranha coisa a ser dita de um homem que tinha mais na cabeça que meia
dúzia de intelectuais comuns, a frase vinha a ser, bem pensado, uma descrição fiel do pobre
Henry. Vazio de Deus, varrido de todo senso humano, e enfeitado, como uma árvore de
Natal, de ideias cintilantes. E outros sete demónios, piores mesmo que a estupidez e o
sentimentalismo, haviam penetrado e tomado posse. Mas entrementes o leite fumegava.
Despejei-o numa garrafa térmica e subi.
Ao entrar no quarto, julguei por um instante que Henry tivesse desaparecido. Mas
logo, de trás do catafalco, veio o som de um movimento. No vão compreendido entre o
cortinado da cama e a janela, estava ele de pé diante da porta aberta de um pequeno cofre
embutido na parede e de ordinário oculto pelo retrato a meio-corpo de Katy em seu vestido
de noiva. "Aqui está o seu leite", comecei num tom de hipócrita jovialidade. Então notei que
o objeto que ele retirara do interior da caixa-forte era um revólver. Meu sangue gelou nas
veias. Lembrei-me de chofre que havia um trem para Chicago à meia-noite. Visões de
cabeçalhos nos jornais do dia seguinte embara-lharam-se em minha mente, FAMOSO
CIENTISTA
ASSASSINA

A ESPOSA E SE SUICIDA. Ou, DETENTOR DO PRÉMIO NOBEL PRESO POR


DUPLO HOMICÍDIO. Ou mesmo, MÃE DE DOIS FILHOS ENCONTRA A MORTE NOS
BRAÇOS DO AMANTE. Larguei a garrafa e, decidido a subjugá-lo, se necessário, com
uma esquerda no queixo ou com um rápido jab no plexo solar, caminhei para ele.
"Com sua licença, Dr. Maartens", murmurei respeitosamente. Não houve luta, quase
nem sequer um esforço consciente da parte dele para conservar a arma. Em cinco segundos
eu a tinha em segurança no bolso. "Eu a estava apenas examinando", explicou numa voz
sumida. E depois de uma pausa ajuntou: "É uma coisa engraçada, quando se pensa nela". E
quando lhe perguntei "o quê?" respondeu: "A morte". E até aí chegou a contribuição do
grande homem à soma do saber humano. A morte é uma coisa engraçada quando se pensa
nela. Esta a razão por que ele nunca o fazia — exceto em ocasiões como aquela, quando o
sofrimento lhe fizera sentir a necessidade de infligir-se mais sofrimento. Homicídio?
Suicídio? Tais idéiais não lhe haviam sequer passado pela cabeça. Tudo o que ele procurava
no instrumento de morte era uma sensação de volúpia negativa um doloroso
momento, em meio a todas as suas outras penas, de que algum dia, daí a muito, muito tempo,
também ele teria de morrer.
"Podemos fechar isto outra vez?" perguntei. Ele assentiu. Sobre uma mesinha ao lado
da cama estavam os objetos que ele tirara do cofre ao procurar pelo revólver. Recoloquei-os
no lugar — o guarda-jóias de Katy, meia dúzia de estojos contendo medalhas de ouro
conferidas ao grande homem por várias associações científicas, diversos envelopes pardos
recheados de papéis. E, finalmente, aqueles livros — os seis volumes da Psicologia do Sexo,
um exemplar de Felícia de Andréa de Nerciat, e uma obra anónima editada em Bruxelas, com
ilustrações, intitulada O Internato Feminino de Miss Floggy. "Pronto", disse eu com o mais
prazenteiro dos sorrisos, trancando o cofre e devolvendo-lhe a chave. Apanhei o retrato e o
dependurei novamente no seu gancho. Por detrás do cetim branco e das flores de laranjeira,
por detrás dos lírios e de um rosto cujo esplendor nem a inépcia de um pintor de quinta classe
conseguira obscurecer, quem teria adivinhado a existência daquele tesouro estranhamente
sortido — Felícia e cautelas da bolsa, Mm Floggy e os símbolos dourados com que uma
sociedade não muito agradecida galardoa os seus homens de génio...?
Meia hora mais tarde deixei-o e recolhi-me ao meu quarto — e com que bendita
sensação de desafogo, de ter-me por fim libertado de um opressivo pesadelo! Mas nem em
meu próprio quarto eu estava a salvo. A primeira coisa que vi ao acender a luz foi um
envelope espetado em meu travesseiro. Abri-o e desdobrei duas folhas de papel malva. Era
um poema de amor de Ruth. Desta vez, paixão rimava com rejeição, amor confessado levara
o cruel bem-amado a partir-lhe o coração magoado, ou coisa parecida. Era demais para uma
só noite: o génio escondia pornografia no cofre; Beatriz cursara o internato de Miss Floggy; a
infância inocente pintava as faces, endereçava baboseiras apaixonadas aos marmanjos e, não
trancasse eu a minha porta, logo estaria transferindo os seus anseios e devaneios de má
literatura para pior realidade.
Na manhã seguinte acordei mais tarde que de costume e, quando desci para o
desjejum, as crianças já iam em meio do seu mingau. "Sua mãe não vai chegar hoje",
anunciei. O desapontamento de Timmy foi genuíno; mas, embora ela articulasse as palavras
convencionais de pesar, o repentino brilho dos olhos de Ruth traiu-a; ficara radiante. A
irritação tornou-me cruel. Tirei o poema do bolso e larguei-o sobre a toalha, ao lado do seu
prato. "Está uma droga", disse brutalmente. Em seguida, sem olhar para ela, saí e subi ao
andar superior a ver o que acontecera com Henry. Ele tinha uma aula às nove e meia e
chegaria atrasado, a menos que eu o arrancasse da cama.
Mas, quando bati à porta, uma voz débil anunciou-me que ele estava doente. Entrei.
Estendido sobre o catafalco, jazia o que parecia já um cadáver. Tomei-lhe a temperatura.
Passava de trinta e nove. Que fazer? Corri à cozinha a consultar Beulah. A velha suspirou e
balançou a cabeça. "Você vai ver", afiançou-me. "Ele a obrigará a voltar." E contou-me o que
acontecera dois anos antes, quando Katy viajou para a França em visita ao túmulo do irmão,
em um dos cemitérios de guerra. Mal se passara um mês, e Henry caiu doente — tão doente
que se viram forçados a enviar a ela um cabograma chamando-a de volta. Quando, nove dias
mais tarde, Katy chegou a St. Louis, ele tinha a vida por um fio. Ela entrou no quarto, posou
a mão na testa do moribundo. "Pode crer", disse Beulah dramaticamente, "foi
o mesmo que ver a ressurreição de Lázaro. Despenhando-se pelas portas da morte e, de
repente, zum! subindo de volta, como num elevador. Três dias depois estava comendo frango
assado e tagarelando como uma matraca. E ele vai fazer a mesma coisa desta vez. Ele a
obrigará a voltar para casa, nem que tenha de chegar às portas da morte para conseguir o que
quer". E foi precisamente até onde chegou —• acrescentou Rivers — às portas da morte.

— Quer dizer que a coisa era real? Ele não estava representando uma farsa?

— Como se a segunda alternativa excluísse a primeira! Claro que representava uma


farsa; mas representou com tanto êxito que escapou por pouco de morrer de pneumonia. Na
ocasião eu não me dei claramente conta do fato. Nesse ponto, Beulah via as coisas por um
prisma bem mais científico que eu. Eu tinha a superstição exclusiva dos germes; ela
acreditava na medicina psico-somática.
Bem, telefonei ao médico e, em seguida, voltei à sala de almoço. Os meninos haviam
terminado sua refeição e desaparecido. Não tornei a vê-los por quase duas semanas; pois,
naquela tarde, ao voltar do laboratório, fiquei sabendo que Beulah os despachara, a conselho
do doutor, para casa de uns vizinhos. Estava livre dos poemas, livre da necessidade de
trancar a porta do meu quarto. Respirei aliviado. Telefonei a Katy na segunda-feira à noite, e
de novo na terça, para comunicar-lhe que tivéramos de contratar uma enfermeira e alugar
uma tenda de oxigénio. No dia seguinte Henry estava pior. E, assim também, quando liguei
para Chicago, estava a pobre Mrs. Hanbury. "Eu não posso deixá-la", repetia Katy
angustiada. "Não posso!" Para Henry, que estivera contando certo com o regresso, a notícia
foi quase fatal. Em duas horas a temperatura subiu de um grau e ele começou a delirar. "É a
vida dele ou a de Mrs. Hambury", declarou Beulah, e foi fechar- se em seu quarto para
invocar a inspiração divina. Meia hora depois a recebera. Mrs. Hambury ia morrer de
qualquer forma; mas Henry estaria salvo se Katy voltasse para casa. Portanto, tinha de voltar.
Foi o médico quem afinal a convenceu. "Não quero ser alarmista", disse ele ao telefone
àquela tarde, "mas..." Isto bastou. "Estarei em casa amanhã à noite", respondeu ela. Henry
vencera. . . ainda que por um triz.
O médico partiu. A enfermeira fêz seus preparativos para uma noite de vigília. Eu
subi para o meu quarto. "Katy estará de volta amanhã", repetia comigo mesmo. "Katy estará
de volta amanhã". Mas qual Katy — a minha ou a de Henry, Beatriz ou a discípula predileta
de Miss Floggy? Seria tudo diferente agora? — perguntava-me. Seria possível, depois da
avalanche, sentir por ela o que sentira até então? Por toda aquela noite e pelo dia seguite as
dúvidas me atormentaram. E ainda me martelavam quando, por fim, ouvi o táxi fazendo a
volta na alameda. Minha Katy ou a dele? Um atroz pressentimento encheu-me de náusea e
deixou-me paralisado.
Passou-se um longo intervalo até que eu me forçasse a ir-lhe ao encontro. Quando
enfim abri a porta de entrada, as malas já se encontravam nos degraus e Katy pagava a
corrida. Ela voltou a cabeça. Como parecia pálida à luz da lâmpada do pórtico, como estava
abatida e desfigurada! Mas, ainda assim, como era bela! Mais bela que nunca — bela de uma
maneira nova e confrangedora; e senti que a amava com um fervor em que os últimos traços
de impureza haviam sido varridos pela piedade e substituídos por um ímpeto de auto-
sacrifício, por um desejo ardente de amparar e proteger, de depor a própria vida ao seu
serviço. E que se passava com o solilóquio de Henry, e a outra Katy? E Miss Floggy, e
Felícia, e os Estudos sobre a Psicologia do Sexo? Para o meu coração repentinamente
palpitante, nada disso jamais existira ou, fosse como fosse, não tinha a menor importância.
Quando entramos no vestíbulo, Beulah veio correndo da cozinha. Katy lançou os
braços ao redor do pescoço da velha e por um longo meio minuto ficaram as duas enlaçadas
num abraço silencioso. Depois, recuando um pouco, Beulah levantou um olhar perquiri-dor
para o rosto da outra. E, enquanto olhava, a sua expressão de lacrimoso júbilo cedeu lugar a
outra de profunda ansiedade. "Mas não é a senhora", exclamou. "Ê uma alma penada. A
senhora está quase tão acabada quanto ele". Katy procurou tranquilizá-la com uma risada .
Estava apenas um pouco cansada, era tudo. A velha sacudiu a cabeça com convicção. "É a
virtude", contestou . "A virtude fugiu do seu corpo. Como fugiu de Nosso Senhor, quando
toda aquela gente doente começou a sa agarrar a ele". "Tolice", disse Katy.
Mas era a pura verdade. A virtude a tinha abandonado. Três semanas à cabeceira da
mãe haviam-lhe sugado a vida. Ela estava vazia, era uma concha ôca animada apenas pela
vontade. E a vontade não basta. A vontade não é capaz de digerir os alimentos, nem de baixar
a febre — muito menos a febre alheia. "Espere até amanhã", implorou Beulah quando Katy
anunciou a sua intenção de subir ao quarto do doente. "Durma um pouco. A senhora não
poderá ajudá-lo agora, não no estado em que está". "Eu o ajudei da outra vez", retorquiu
Katy. "Mas da outra vez era diferente", a velha insistiu. "Da outra vez a senhora estava com a
virtude; não era uma alma penada, como agora". "Você e suas almas penadas!" volveu Katy,
com um toque de impaciência; e, dando meia-volta, subiu as escadas. Acompanhei-a.
Sob a sua tenda de oxigénio, Henry dormia, ou jazia em estupor. Uma barba grisalha
eriçava-lhe as faces e o queixo, e no rosto emaciado o nariz sobressaía enorme, como numa
caricatura. Depois, enquanto o fitávamos, as pálpebras se descerraram. Katy debruçou-se
sobre a janela transparente da tenda e chamou-o pelo nome. Não houve reação, os pálidos
olhos azuis não deram sinal de reconhecimento, ou sequer de que a estivessem vendo.
"Henry", repetiu ela. "Henry! Sou eu. Eu estou aqui". O olhar vacilante procurou o foco, e
durante um momento mostrou um ténue resquício de consciência — por uns poucos
segundos apenas — para apagar-se de novo. Os olhos rolaram em outra direção, os lábios
começaram ■ a mover -se; ele recaíra no mundo do delírio. O milagre malograra; Lázaro
permanecia irressurrecto. Houve um silêncio prolongado. Por fim, pesadamente,
desesperan-çadamente, Katy suspirou: "Acho que é melhor eu ir dormir".

— E o milagre? — perguntei. — Ela o operou na manhã seguinte?

— Como poderia ela? Sem virtude, sem vida em si, sem nada além da sua vontade e
da sua aflição? Que será pior, eu me pergunto — estar você mesmo desesperadamente
doente, ou ver alguém que você ama desesperadamente doente? É preciso começar por
definir quem é "você". — Digo que você está desesperadamente doente. Mas estarei
realmente me referindo a você? Não se trata, na verdade, de uma nova e limitada
personalidade criada pela febre e pelas toxinas? Uma personalidade sem interesses
intelectuais, sem obrigações sociais, sem preocupações materiais. Enquanto que a
enfermeira que o ama continua sendo o seu eu normal, com todas as suas recordações de
passada felicidade, todos os seus temores do futuro, toda a sua apreensiva consciência de um
mundo presente além das quatro paredes do quarto. E, depois, há a questão da morte. Como
reage você à perspectiva da morte? Se está doente bastante, você atinge um ponto em que,
por mais encarniçadamente que possa estar lutando pela vida, uma parte sua de modo algum
lamentaria morrer. Qualquer coisa que não essa abjeção, que não esse interminável e
esquálido pesadelo de achar-se reduzido a uma mera massa de matéria atormentada! "A
libertação ou a morte". Mas, nesse caso, as duas se confundem. A libertação é a morte, é a
busca da felicidade — mas somente para o enfermo, é claro, nunca para aquela que o ama.
Ela não tem direito ao luxo da morte, ao livramento, por rendição, do seu quarto-masmorra.
Seu dever é o de continuar lutando, mesmo quando se tornou evidente que a batalha está
perdida; de continuar esperando, mesmo quando não há razões senão para desespero; de
continuar orando, mesmo se Deus manifestada-mente se voltou contra ela, mesmo se tem a
certeza de que Ele não existe. Pode estar arrasada de dor e pressentimento, mas deve parecer
alegre e serenamente confiante. Pode ter perdido a coragem; mas deve ainda inspirá-la. E
enquanto isso está lidando e velando além dos limites da resistência física. Não há
contemplação; tem de estar sempre presente, sempre à disposição, sempre pronta a dar de si
— a continuar dando, ainda depois de completa-mente falida.
Sim, falida, — repetiu. — Era o que Katy estava. Absolutamente falida, mas
compelida pelas circunstâncias e pela sua própria vontade a continuar gastando. E, para
tornar as coisas ainda piores, o dispêndio era infrutífero. Henry não melhorava;
simplesmente abstinha-se de morrer. Entrementes, ela se matava no incessante, porfiada
esforço de mantê-lo vivo. Passaram-se os dias — três, quatro, não me lembro quantos. E
então chegou o dia que-eu nunca hei-de esquecer. Vinte e três de abril de 1922.
— Aniversário de Shakespeare.

— E o meu também.

— O seu?

— Não do meu nascimento físico — explicou Ri-vers. — Este é em outubro. Mas do


meu nascimento espiritual. O dia em que emergi da semi-imbecilidade para algo mais de
perto assemelhado à forma humana. Creio — acrescentou — que fazemos jus a mais um gole
de uísque.

Reencheu os nossos copos.

— Vinte e três de abril — repetiu. — Que dia atribulado! Henry passara mal a noite e
piorava a olhos vistos. E, quando, à hora do almoço, a irmã de Katy telefonou de Chicago, foi
para anunciar que o fim estava iminente. À noite eu devia ler um trabalho perante uma das
sociedade científicas locais. Ao voltar para casa eram onze horas e encontrei apenas a
enfermeira. Katy, disse-me ela, estava em seu quarto, tentando dormir um pouco. Nada me
restava fazer. Fui para a cama.
Duas horas mais tarde fui bruscamente arrancado à inconsciência pelo toque de uma
mão tateante. O quarto estava escuro como breu; mas minhas narinas de pronto
reconheceram a aura de feminilidade e de lírios que envolvia a presença invisível. Sentei-
me. "Mrs. Maartens?" (Eu a chamava ainda Mrs. Maartens) . O silêncio era prenhe de
tragédia. "O Dr. Maartens está pior?" perguntei ansioso. Não houve resposta imediata,
apenas um movimento ná escuridão, e o rangido de molas quando ela se sentou à beira da
cama. As franjas do chalé espanhol que ela atirara sobre os ombros roçaram-me a face; o
campo de sua fragrância envolveu-me. De súbito, cheio de horror, saltou-me à memória o
solilóquio de Henry. Beatriz tinha apetites, Laura diplomara-se com Miss Floggy. Que
blasfémia, que abominável profanação! Senti-me assoberbado pela vergonha, e a minha
vergonha transformou-se em fundo remorso e auto-execração quando, rompendo o
prolongado silêncio, Katy me anunciou, numa voz igual e vazia de expressão, que houvera
uma nova chamada de Chicago: sua mãe estava morta. Murmurei vagamente as minhas
condolências. Depois a voz monótona falou outra vez. "Estive tentando dormir", disse. "Mas
não consigo; estou cansada demais para dormir". Houve um suspiro de desalentada lassidão
e, de novo, o silêncio.
"Você já viu alguém morrer?" a voz prosseguiu por fim. Não, o meu serviço militar
não me levara à França, e quando da morte de meu pai eu havia sido mandado para junto de
minha avó. Aos vinte e oito anos conhecia tão pouco da morte como daquela outra grande
violência do orgânico ao verbal, da experiência às nossas noções e convenções — o ato do
amor. "É o desligamento que é terrível", ouvi-a dizer. "Você fica ali impotente, vendo os
laços quebrarem-se, uns após outros. Os laços com as pessoas, os laços com a linguagem, os
laços com o universo físico. Não mais vendo a luz, não mais sentindo o calor, não mais
respirando o ar. E, por último, os laços com o próprio corpo começam a ceder. Por último,
ficam pendendo de um único fio — e este se esgarçando, esgarçando, minuto a minuto". A
voz embargou-se e, pelo som sufocado das últimas palavras, percebi que Katy cobrira o rosto
com as mãos. "Sós", sussurrou, "completa-mente sós". Os mortos, os vivos, todos estão sós,
sempre. Houve um leve gemido nas trevas, depois um estremecimento convulsivo e um grito
abafado, quase inumano. Ela soluçava. Eu a amava e ela sofria. E, no entanto, a única coisa
que encontrei para dizer-lhe foi, "não chore".

Rivers encolheu os ombros.

— Se a gente não acredita em Deus ou no além-túmulo — e eu, naturalmente, como


filho de um pastor, não acreditava senão num sentido estritamente pickwi-ckeano — que
mais se pode dizer em presença da morte? Além do mais, naquele caso particular, havia o
fato grotescamente embaraçoso de que eu não me podia decidir quanto a como chamar-lhe.
A sua dor e a minha compaixão haviam tornado impossível dizer "Mrs. Maartens", mas por
outro lado "Katy" poderia parecer atrevido, poderia até sugerir que eu estivesse tentando
prevalecer-me da sua tragédia com os vis objetivos de um canalha incapaz de esquecer Miss
Floggy e o enxurro no infame monólogo de Henry.
"Não chore", continuei a murmurar e, em lugar de carinhos interditos, do prenome
que eu não ousava pronunciar, pousei uma mão tímida em seu ombro e desajeitadamente
dei-lhe umas palmadinhas. "Perdoe-me", disse ela. E em voz entrecortada: "Prometo que
amanhã me portarei melhor". Depois de um novo paroxismo de choro, tomou a falar: "Desde
antes do meu casamento, nunca chorei assim".
Só mais tarde comecei a compreender o pleno significado daquela última frase. Uma
esposa que se permitia chorar, nunca o faria pelo pobre Henry. A crónica fraqueza dele a
compelira a uma inquebrantável fortaleza. Mas mesmo a fortaleza mais estóica tem seus
limites. Naquela noite Katy atingira o ápice. Ela sofrera uma derrota completa, mas uma
derrota que, num certo sentido, lhe era grata. As circunstâncias tinham sido demais para ela.
Mas, em compensação, fôra-lhe concedida uma trégua em sua responsabilidade, fôra-lhe
permitido, ainda que por uns breves minutos, conceder-se o luxo, para ela inédito,, das
lágrimas.
"Não chore", eu continuava repetindo. Mas na realidade ela queria chorar, precisava
chorar. Sem falar em que razões para tanto não lhe faltavam. Estava rodeada de morte. A
morte levara-lhe a mãe; aproximava-se, inevitavelmente, ao que tudo indicava, para o
marido; mais alguns anos e chegaria também para ela própria, e um pouco mais tarde para os
seus filhos. Todos marchavam para a mesma consumação — para a ruptura progressiva dos
elos de conexão, para o lento e fatal desgaste dos fios sustentantes, para o mergulho final e
solitário no vácuo...
De algum ponto distante, acima dos telhados, um relógio bateu os três quartos. As
badaladas eram um insulto humano gratuitamente adicionado a uma injúria cósmica — um
símbolo da incessante passagem do tempo, um lembrete do fim inevitável. "Não chore",
implorei-lhe, e esquecendo tudo exceto a minha compaixão, deslizei a mão do seu ombro
mais próximo para o mais afastado e a atraí para mim. Trémula e sacudida pelos soluços, ela
apertou-se de encontro ao meu peito. O relógio dera as horas, o tempo se esvaía e mesmo os
vivos estão completamente sós. Nossa única vantagem sobre a mulher morta lá em Chicago e
sobre o moribundo no outro extremo da casa consistia em que a nós era dado estar sós em
companhia, em que podíamos justapor as nossas soli-dões e fazer de conta que as havíamos
fundido numa comunhão.
Mas, não eram estes, por certo, os meus pensamentos então. Naquela hora não havia
lugar em meu espírito para nada além de amor e de piedade, de uma preocupação
intensamente prática pelo bem-estar daquela deusa que se transformara de repente numa
criança chorosa, daquela adorada Beatriz que ora tiritava, como um cachorrinho recém-
nascido, no círculo do meu braço protetor. Toquei as mãos com que ela cobria o rosto;
estavam frias como mármore. E os pés descalços — frios como gelo. "Mas a senhora está
gelada!" exclamei quase com indignação. Depois, contente por ter enfim o ensejo de traduzir
a minha piedade em ação útil: "A senhora deve entrar sob as cobertas", ordenei. "E já".
Imaginei-me a agasalhá-la carinhosamente, puxando em seguida uma cadeira e sentando-me
em muda vigília, como uma mãe, enquanto ela adormecesse. Mas quando fiz menção de
saltar da cama, ela agarrou-se a mim e me deteve. Tentei desvencilhar-me, tentei protestar.
"Mrs. Maartens!" Mas era como protestar contra o frenético amplexo de uma criança que se
afoga. O ato era tão desumano quanto inútil. E entretanto ela se enregelava até os ossos e
tremia, tremia incontrolàvelmente. Então fiz a única coisa que me restava fazer.
— Isto é, ficou também debaixo das cobertas?

— Debaixo das cobertas — repetiu ele — com dois braços gélidos envolvendo-me o
pescoço e um corpo tremente e soluçante premido contra o meu.

Rivers bebeu um gole de uísque e, recostando-se no espaldar, ficou por longo tempo a
fumar em silêncio.
— A verdade — disse por fim — toda a verdade e nada além da verdade. Todas as
testemunhas prestam o mesmo juramento e depõem sobre os mesmos fatos. O resultado,
como é óbvio, são cinquenta e sete variantes de ficção. Qual delas está mais próxima da
verdade? Stendhal ou Meredith? Anatole France ou D. H. Lawren-ce? As fontes da nossa
vida mais profundo hão-de confundir-se na dourada pureza da Paixão O, ou O Com'
portamento Sexual da Mulher?

— Você sabe a resposta? — interroguei. Ele balançou a cabeça.

— Talvez se possa tomar emprestada aos geômetras uma sugestão. Descrever o


fenómeno em relação a três coordenadas. — Com a haste do cachimbo Rivers riscou no ar
duas linhas em ângulo reto e do seu ponto de in-terseção acrescentou uma vertical levantando
a mão além da altura da cabeça. — Digamos que um destes eixos represente Katy, outro o
John Rivers de trinta anos atrás, o terceiro o John Rivers que sou hoje. Pois bem, dentro deste
sistema de referência, que poderemos dizer com respeito à noite de vinte e três de abril de
1922? Não toda a verdade, por certo. Mas uma porção bem maior de verdade do que a que
poderia ser expressa em termos de qualquer ficção isolada.
Comecemos pela linha de Katy. — Ele a traçou novamente e por alguns instantes a
fumaça do cachimbo delineou a sua posição no espaço. — É a linha — disse ele — de uma
pagã congénita, arrastada pelas circunstâncias a uma situação que só um autêntico cristão ou
budista saberia enfrentar de modo adequado. A linha de uma mulher que sempre viveu feliz e
à vontade no mundo, e que, de repente, se surpreende à orla do abismo e invadida, corpo e
alma, pelo horrível vácuo negro que a defronta. Pobre criatura! Ela sentiu-se abandonada,
não por Deus — pois era congênitamente incapaz de monoteísmo — mas pelos deuses, por
todos eles, dos pequenos lares e penates domésticos até os grandes do Olimpo. Eles
haviam-na abandonado e tudo levado consigo. Ela precisava reencontrar os seus deuses.
Tinha de reintegrar-se como uma parte da ordem natural, e por isso divina, das coisas. Tinha
de restabelecer seus contactos com a vida — com a vida nas suas mais simples, mais
inequívocas manifestações, como a intimidade física, como a sensação do calor animal,
como as emoções intensas, como a fome e a satisfação da fome. Era uma questão de
autopreservação. E isto não era tudo — ajuntou Rivers. — Ela estava em lágrimas, a padecer
pela mãe que acabava de morrer, a padecer pelo marido que poderia morrer no dia seguinte.
Há uma certa afinidade entre as emoções mais violentas. A cólera

1
Versos do poema Epipsychidion, de SHELLEY: "The fountains of our deepest life shall be
Confused in Passion's golden purity". (N. do T.).
modula-se muito facilmente em luxúria agressiva, e a tristeza, se lhe é dada a ocasião,
fundir-se-á quase imperceptivelmente na mais deliciosa sensualidade. Após o que,
naturalmente, Ele concede aos Seus eleitos o sono. No contexto da dor moral, o amor
equivale aos barbitúricos e a uma viagem ao Havaí. Ninguém censura as viúvas e os órfãos
por recorrerem a tais lenitivos. Por que então condená-los quando procuram preservar a sua
vida e a sua sanidade pelo outro método mais simples?
— Eu não os condeno — assegurei-lhe. — Mas outros têm pontos de vista
diferentes.
— E há trinta anos eu era um deles. — Percorreu com o cachimbo a vertical
imaginária à sua frente. —• A linha de um casto José de vinte e oito anos, a linha de um ex-
luterano e ex-filhinho-de-mamãe, a linha de um idealista petrarqueano. Dessa posição eu não
podia deixar de considerar a mim mesmo como um pérfido adúltero, e a Katy como... o quê?
As palavras eram por demais hediondas para serem articuladas. Enquanto que, do ponto de
vista de Katy, aos seus olhos de deusa, nada sucedera que não fosse perfeitamente natural, e
tudo que fosse natural era moralmente bom.
Olhando a questão daqui — e indicou a linha do John Rivers-Hoje — eu diria que
ambos estávamos certos pela metade e, portanto, completamente errados —• ela por
colocar-se acima do bem e do mal ao nível meramente olímpico (e os olímpicos, sem dúvida,
nada mais eram que um bando de animais super-humanos dotados de poderes milagrosos), e
eu por não estar de modo algum além do bem e do mal, mas ainda atolado até às orelhas nas
noções humanas por excelência do pecado e das convenções sociais. Para estar
completamente certa, ela teria de descer ao meu nível, e depois ultrapassá-lo, para o lado
oposto; ao passo que eu deveria alçar-me ao nível dela e, achando-o insatisfatório, forçar
caminho mais alto para reunir-me a ela no ponto em que se está genuinamente além do bem e
do mal, no sentido de ser, não um animal super-humano, mas um homem ou mulher
transfigurados. Tivesse ela alcançado esse ponto, teria feito o que fêz então? É uma pergunta
irrespondível. E na verdade nós não estávamos naquele nível. Ela era uma deusa
temporariamente caída, que tentava retornar ao Olimpo pela trilha da sensualidade. Eu, uma
alma dividida, a cometer um pecado tanto mais enorme quanto vinha acompanhado do mais
extático deleite. Alternada-mente, e mesmo por momentos simultaneamente, eu era duas
pessoas — um noviço em amor, maravilhado ante a fortuna extraordinária de encontrar-se
nos braços de uma mulher a um tempo desinibida e maternal, profundamente sensual, e um
pobre diabo atormentado pela consciência, cheio de vergonha de haver sucumbido ao que
aprendera a encarar como os seus apetites mais ignóbeis, e escandalizado, positivamente
ultrajado (pois a censura e o remorso se confundiam) ante a tranquila equanimidade com que
a sua Beatriz aceitava a intrínseca excelência do prazer, com que a sua Laura revelava a sua
proficiência nas artes do amor, e o que era mais, revelava-a no solene contexto da
mortalidade. Mrs. Hanbury estava morta, Henry agonizava. De acordo com todas as regras,
ela deveria estar envolta em crepe e eu a oferecer-lhe as consolações da filosofia. Mas na
realidade, na crua e paradoxal realidade...
Houve um momento de silêncio.

— Fantoches — continuou ele pensativo enquanto por detrás das pálpebras cerradas
examinava suas memórias longínquas — fantoches que não pertencem ao meu universo. E
de fato a ele não pertenciam mesmo então. Naquela noite de vinte e três de abril nós
estávamos no Outro Mundo, ela e eu, no negro e mudo paraíso da nudez, do contacto e da
fusão. E que revelações naquele paraíso, que pentecostes! As visitações das suas carícias
eram como aparições seráficas, como pombas descendentes. E quão hesitantes e tardas eram
as minhas respostas! Com lábios que mal ousavam, com mãos ainda temerosas de cometer
sacrilégio contra o que, na minha concepção, ou antes, na concepção materna, deveria ser
uma mulher honrada, contra o que todas as mulheres honradas com efeito são. Não obstante
o que (e isto era tão chocante quanto maravilhoso), as minhas tímidas blasfémias contra o
ideal eram retribuídas com uma exaltação, com uma prodigalidade de carinho
correspondido, que ultrapassava tudo quanto eu pudesse ter imaginado.
Mas, sobrepondo-se àquele Outro Mundo noturno, persistia este mundo — o mundo
no qual o John Rivers de 1922 tinha os seus pensamentos e sentimentos diurnos; o mundo em
que aquela espécie de coisas era manifestamente criminosa, em que um discípulo traíra ao
seu mestre e uma esposa ao seu marido; o mundo a cujos olhos o nosso céu noturno era o
mais sórdido e mesquinho dos infernos e os anjos visitadores não passavam de explosões de
luxúria numa trama de adultério.
Luxúria e adultério — repetiu Rivers com uma risada breve. — Como isso soa
antiquado! Hoje em dia prefere-se falar de impulsos, de motivações, de relações
extraconjugais. Será uma boa coisa? Será um mal? Ou simplesmente não fará diferença?
Daqui a cinquenta anos Bimbo talvez conheça a resposta. Até lá não nos resta senão registrar
o fato de que, no plano verbal, a moral não é mais que o uso sistemático do insulto. Vil,
baixo, torpe — tais são os fundamentos linguísticos da ética; e tais eram as palavras que me
acossavam a consciência /enquanto, lestendido junto a Katy, por horas a fio, eu lhe vigiava o
sono.
O sono. .. o sono é também o Outro Mundo. Mais outro mesmo que o paraíso do tato.
Do amor para o sono, do outro para o mais outro. Ê esta mais diversa diversidade que reveste
o ente amado adormecido de uma qualidade quase sagrada. Sagrada e indefesa — aquilo que
os homens adoram no Menino-Jesus; aquilo que me enchia, naquele momento, de tão
indizível ternura. E no entanto era tudo vil, baixo, torpe. Medonhos vocábulos! Eram como
pica-paus a martelar-me com seus bicos de aço. Vil, baixo, torpe.. . Mas, no silêncio, nos
intervalos das bicadas, eu escutava a branda respiração de Katy; e ela era a minha amada,
adormecida e indefesa, e por isso sagrada, sagrada naquele Outro Mundo onde o insulto,
onde mesmo as boas palavras são inteiramente insignificantes e fora de propósito. Mas isto
não impedia os malditos pica-paus de voltarem a arremeter com irredutível ferocidade.
E então, contra todas as convenções da ficção e do bom estilo, devo ter caído no sono.
Pois de repente era manhã, os pássaros chilreavam nos jardins suburbanos, e ali estava Katy
de pé ao lado da cama, no ato de jogar aos ombros o seu chalé de longas franjas. Por uma
fração de segundo não atinei com a razão de sua presença. Em seguida
lembrei-me de tudo — as visita-ções nas trevas, os inefáveis Outros Mundos. Mas agora era
dia, estávamos outra vez neste mundo e eu deveria chamar-lhe "Mrs. Maartens". Mrs.
Maartens, cuja mãe vinha de morrer, cujo esposo poderia estar morrendo. Vil, baixo, torpe!
Como poderia eu jamais tornar a olhá-la em face?
Mas nesse momento ela voltou-se e olhou-me a mim. Tive tempo de ver delinear-se o
seu antigo sorriso, aberto e franco; depois, numa agonia de vergonha e perturbação desviei o
rosto. "Não queria despertá-lo", ela ciciou e, inclinando-se, beijou-me como um adulto beija
uma criança, na testa.
Eu queria dizer-lhe que, a despeito de tudo, eu ainda a venerava; que o meu amor era
tão intenso quanto o meu remorso; que a minha gratidão pelo que acontecera era tão
profunda e viva como a minha determinação de que nunca voltaria a acontecer. Mas as
palavras não saíram; fiquei mudo. E calada também, ainda que por razões inteiramente
diversas, ficou Katy. Se ela nada dizia sobre o que se passara, era por julgar que em assuntos
dessa ordem as palavras são supérfluas. "Já passa das seis", foi tudo o que disse, enquanto se
endireitava. "Preciso ir e dar uma folga à pobre Miss Koppers". Virou-se, abriu a porta de
manso e silenciosamente fechou-a atrás de si.
Fiquei só, à mercê dos meus pica-paus. Vil, baixo, torpe; torpe, baixo, vil... Quando a
sineta soou para o café, minha decisão estava tomada. Antes que viver uma mentira, antes
que conspurcar o meu ideal, eu partiria. .. para sempre.
No hall, a caminho da sala de almoço, dei de encontro com Beulah. Levava uma
bandeja com ovos e presunto e cantarolava a melodia de As criaturas que na Terra habitam.
Dando comigo, endereçou-me um sorriso radiante e exclamou: "O Senhor seja louvado!" Eu
nunca me sentira menos inclinado a louvá-lo. "Vamos ter um milagre", continuou ela. E
perguntando-lhe eu como sabia disso, respondeu-me que acabara de ver Mrs. Maartens no
quarto do doente, e que Mrs. Maartens voltara a ser o que era. Não mais um espectro, mas o
seu antigo ser. A virtude retornara e isto queria dizer que o Dr. Maartens ficaria bom. "É a
Graça", disse ela. "Eu tenho rezado por isto noite e dia. "Senhor, derramai sobre Mrs.
Maartens um pouco da Vossa Graça. Restituí-lhe a sua virtude, para que o Dr. Maartens
possa curar-se. E agora aconteceu, aconteceu!"
Como para confirmar-lhe as palavras, houve um farfalhar na escada às nossas costas.
Voltamo-nos. Era Katy. Estava toda de negro. O amor e o sono haviam-lhe serenado o
semblante, e o corpo que na véspera se arrastava tão fatigadamente, à custa de tão penoso
esforço, era agora elástico e vigoroso, tão cheio de vida como o fora antes da enfermidade da
mãe. Era outra vez uma deusa — envolta em luto mas radiosa, exuberante mesmo em sua dor
e em sua resignação. A deusa desceu os degraus, desejou-nos bom dia e perguntou a Beulah
se ela me transmitira as tristes novas. Por um momento julguei que algo houvesse sucedido a
Henry. "A senhora se refere ao Dr. Maartens?" comecei. Ela atalhou-me rápida. Tratava-se
de sua mãe. E de repente dei-me conta de que, oficialmente, eu nada sabia ainda do infausto
acontecimento em Chicago. O sangue afluiu-me às faces e desviei o rosto em terrível
confusão. Estávamos já a representar a mentira. . . e que péssimo ator era eu! Tristonha mas
serena, a deusa continuou a contar da chamada telefónica à meia-noite, dos soluços da irmã
no outro extremo do fio, dos últimos instantes da demorada agonia. Beulah
suspirou ruidosamente, afirmou que era a vontade de Deus e que ela o soubera todo o tempo,
a seguir mudou de assunto. "E o Dr. Maartens?" inquiriu. Haviam-lhe tomado a temperatura?
Katy fêz que sim; haviam, e ela baixara sensivelmente. "Eu não lhe disse!" a velha dirigiu-se
a mim, triunfante. "É a Graça de Deus, bem como eu disse. O Senhor restituiu-lhe a virtude".
Passamos para a sala de almoço e sentamo-nos, a comer. Com apetite, ao que me
recordo. E lembro-me também de que o apetite se me afigurou assaz chocante. — Rivers
sorriu. — Como é difícil não ser um maniqueu! A alma é sublime, o corpo é vil. A morte é
um assunto da alma e, partindo desse princípio, ovos com presunto são de mau gosto e o
amor, certamente, perfeito sacrilégio. E no entanto é bastante evidente que ovos e presunto
podem ser veículos da graça, que o amor pode ser o instrumento escolhido da intervenção
divina.

— Você está falando como Beulah — objetei.

— Porque não há outras palavras para exprimi-lo. A irrupção interior de algo forte e
maravilhoso, de algo manifestamente maior que nós mesmos; os objetos e os fatos que, antes
neutros ou francamente hostis, vêm de súbito, gratuitamente, espontaneamente, salvar-nos
— são coisas reais. Podem ser observadas, podem ser experimentadas. Mas se quisermos
descrevê-las, descobrimos que a única terminologia possível é a teológica. Graça, Guia,
Inspiração, Providência — as palavras dizem demais, encerram em si todas as petições de
princípio. Mas há ocasiões em que não podemos evitá-las.
Como no caso de Katy, por exemplo. Quando ela voltou de Chicago, a virtude a
abandonara. Abandonara-a tão completamente que ela se tornou sem préstimo para Henry e
um fardo para si própria. Outra mulher talvez tivesse orado por sua força, e talvez tivesse
sido atendida — pois as preces são atendidas algumas vezes. O que é absurdo, o que é
inadmissível; mas acontece. Não, todavia, a pessoas como Katy. Katy não era do tipo
rezador. Para ela, o sobrenatural era a Natureza; o divino não era espiritual, nem
especificamente humano; estava nas paisagens, na luz do sol, nos animais, estava nas flores,
no cheiro azedo dos recém-nascidos, no calor e na maciez das criancinhas aninhadas em seu
regaço, estava nos beijos, é claro, nos apocalipses noturnos do amor, na mais difusa mas não
menos inefável bênção do simples bem-estar. Ela era uma espécie de Anteu feminino —
invencível enquanto tivesse os pés plantados na terra, uma deusa enquanto estivesse em
contacto com a deusa maior dentro dela e com a universal Mãe exterior. Três semanas à
cabeceira de uma moribunda haviam rompido o contacto. A graça veio quando ele foi
restabelecido, e isto foi o que se deu na noite de vinte e três de abril. Uma hora de amor, cinco
ou seis horas da mais profunda alienação do sono, e o vazio fora enchido, o fantasma
reencarnara. Ela vivia outra vez — não ela mesma, certamente, mas a Grande Incógnita que
vivia nela.
A Grande Incógnita — repetiu. — Num extremo do espectro está o puro espírito, a
Clara Luz do Vácuo; e no outro está o instinto, está a saúde, está o perfeito funcionamento de
um organismo que é infalível enquanto não interferimos com ele; e algures entre os dois
extremos está o que S. Paulo chamou "o Cristo" — o Verbo feito carne. Graça espiritual,
graça animal, graça humana — três aspectos do mesmo mistério subjacente; em ideal, todos
nós deveríamos estar abertos a todos eles. Na prática, em nossa maioria, ou erguemos uma
barricada contra todas as formas da graça, ou, se abrimos a porta, abrimo-la tão somente a
uma delas. O que evidentemente não basta. É certo que um terço de um pão é melhor do que
pão nenhum. Quão melhor foi o que ficou patente naquela manhã de vinte e quatro de abril.
Privada da graça animal, Katy fora um fantasma impotente. Restaurada aquela, voltara a ser
Hera. Deméter e Afrodite gloriosamente reunidas em uma, com Esculápio e a Gruta de
Lourdes de quebra — pois o milagre ia de vento em popa. Após três dias às portas da morte,
Henry sentira a presença da virtude nela, e reagia. Lázaro estava em processo de
ressurreição.
— Graças, a bem dizer, a você!

— Graças, a bem dizer, a mim, — repetiu Rivers.

— Le Cocu Miracule. Que tema para uma farsa francesa!

— Não melhor que qualquer outro. Édipo, por exemplo, ou Lear, ou mesmo Jesus ou
Gandhi — você poderia extrair uma farsa de arromba de qualquer um deles. É simplesmente
uma questão de descrever os seus tipos a partir de fora, sem simpatia e numa linguagem
violenta mas apoética. Na vida real a farsa existe apenas para os espectadores, nunca para os
atôres. Aquilo em que estes participam, ou é uma tragédia, ou um complicado e mais ou
menos doloroso drama psicológico. No que a mim tocava, a farsa do marido enganado e
milagrosamente curado era uma infinda agonia de lealdade traída, de conflito entre o amor e
o dever, de tentações resistidas e de ignominiosas rendições, de prazeres culpadamente
fruídos e de desesperados remorsos, de boas resoluções tomadas, esquecidas, retomadas e
ainda uma vez varridas pela torrente do desejo irresistível.

—■ Pensei que você tivesse resolvido partir.

— E tinha. Mas isto foi antes de vê-la descer aquelas escadas reencamada em deusa.
Uma deusa vestida de luto. Aqueles símbolos de sofrimento mantiveram viva a compaixão, a
religiosa adoração, o sentimento de que a minha bem-amada era um espírito a ser adorado
em espírito. Mas, acima do corpete negro erguia-se a luminosa coluna do pescoço; entre os
caracóis de cabelo côr de mel, o rosto era transfigurado por um como que esplendor
extraterreno. Como são aqueles versos de Blake?
In a wife I would require

What in whores I always found:

The lineaments of satisfied desire.(1)

Mas os lineamentos do desejo satisfeito são também os lineamentos da


desejabilidade, os lineamentos da promessa de futuras satisfações. Meu Deus, com que fúria
eu a desejava! E com que veemência, das profundezas do meu remorso, das alturas do meu
idealismo, eu me abominava por desejá-la!

1
"De uma esposa eu exigiria O que sempre encontrei nas meretrizes: Os
Quando voltei do laboratório, procurei-a para uma decisão. Mas ela se esquivou. Não
era a hora, não era o local apropriado. Beulah poderia entrar de repente, ou a enfermeira.
Seria melhor à noite, quando poderíamos ter sossego. E assim aquela noite ela veio ao meu
quarto. Na escuridão, no campo perfumado da sua feminilidade, tentei dizer- lhe todas as
coisas que não fora capaz de dizer pela manhã — que eu a amava, mas que estava errado; que
eu nunca fora tão feliz, nem tão profundamente desgraçado; que haveria de recordar o que
acontecera com a mais ardente gratidão pelo resto de minha vida, e que no dia seguinte
arrumaria as minhas malas e partiria para nunca, nunca mais tornar a vê-la.
A essa altura a voz faltou-me, e dei por mim a soluçar. Dessa vez coube a Katy por
seu turno dizer-me "não chore", oferecer-me o consolo de uma mão no ombro, de um braço
aconchegante; o desfecho, naturalmente, foi o mesmo da noite anterior. O mesmo e mais
ainda — com mais flamejantes pentecostes, com visitações não de anjos apenas mas de
Tronos, Dominações, Potestades;" e na manhã seguinte (quando, desnecessário dizer, eu não
arrumei as minhas malas), remorsos à altura, pica-paus proporcionalmente ferozes.

— Que a Katy, imagino, não incomodaram?

— E de que ela resolutamente se recusava tomar conhecimento — acrescentou


Rivers.

— Mas você deve ter-lhe falado deles.

— Fiz o possível. Mas são precisos dois para um diálogo. Cada vez que tentava
explicar-lhe algo do que me ia pelo coração e pelo espírito, ela ou desviava o assunto ou,
então, com uma risada, com uma palmadi-nha indulgente nas costas da minha mão, suave
mas muito decididamente fazia-me calar. Teria sido melhor, eu me pergunto, se tivéssemos
saído a campo aberto, se corajosamente tivéssemos chamado as coisas pelos seus nomes e
nos estendido mutuamente as nossas entranhas palpitantes numa bandeja de prata? Talvez
sim. Ou talvez não. A verdade é a libertação; mas, por outro lado, não é prudente acordar o
cão que dorme e muito menos provocar o que não dorme. Convém ter em mente que as
guerras mais implacáveis não são as que se travam em torno das coisas; e sim as que se
travam em torno das tolices que idealistas eloquentes disseram sobre as coisas — em outras
palavras, as guerras religiosas. O que é uma limonada? Algo que se fabrica com limões. E o
que é uma cruzada? Algo que se fabrica com cruzes — um processo de violência gratuita
originada numa obsessão por símbolos mal definidos. "Que ledes, meu senhor?" "Palavras,
palavras, palavras". E o que faz uma palavra? Resposta: cadáveres, milhões de cadáveres. E
a moral disto é: não abra o bico; ou, se não puder deixar de abri-lo, nunca leve muito a sério
o que veriha a sair dele.
Katy mantinha os nossos bicos firmemente trancados. Possuía a sabedoria instintiva
que faz tabu dos insultos éticos (e a fortiori das algaravias científicas), enquanto tacitamente
aceita como fatos consumados os atos diurnos e noturnos a que eles se referem. Em silêncio,
um ato é um ato é um ato. Verbalizado e discutido, ele se transforma num problema moral,
num casus belli, numa fonte de neuroses. Se Katy houvesse falado, eu lhe pergunto, onde
estaríamos nós? Num labirinto de culpas e de angústias intercomunicantes. Há, sem dúvida,
quem encontre prazer nessa espécie de coisas. Outros as detestam, mas
sentem, cheios de remorsos, que merecem sofrer. Katy (que Deus a abençoe!) não era nem
uma metodista nem uma masoquista. Era uma deusa, e o silêncio das deusas é de ouro
genuíno. Nada de folheado superficial. Um sólido silêncio de vinte e quatro quilates, de
ponta a ponta. Os olímpicos mantêm o bico calado, não por um ato de deliberada discrição,
mas porque realmente nada há que dizer. As deusas são feitas de uma só peça. Não há
contradição interna nelas. Ao passo que as vidas das pessoas como você e eu são um
incessante conflito. Desejos de um lado, pica-paus do outro. Jamais um só momento de
verdadeiro silêncio.
O de que eu mais precisava naquele momento era uma dose de boas palavras
justificativas para contrabalançar o efeito de todo aquele vil-baixo-torpe. Porém Katy não
m'as proporcionava. Boas ou más, as palavras estavam inteiramente fora de questão. A
questão, no que a ela tocava, estava ,em experimentar a alienação criadora do amor e do
sono. A questão estava no encontrar-se outra vez em estado de graça. A questão, enfim,
estava na sua aptidão renovada de fazer algo por Henry. Pelos frutos se conhece a árvore.
Prazer dado e recebido, virtude restaurada, Lázaro erguido dentre os mortos — a excelência
dos frutos naquele caso era evidente por si. Portanto, sirva-se, e nada de falar com a boca
cheia — é contra as boas maneiras e lhe impedirá de apreciar o sabor ambrosíaco.
O conselho era bom demais para que eu fosse capaz de segui-lo. Na verdade, eu não
falava a ela; ela não mo permitia. Mas continuava falando comigo mesmo — falando e
falando até que a ambrósia se transformava em fel, ou se contaminava com o ressaibo
horrivelmente adocicado do prazer proibido, do pecado reconhecido e conscientemente
desfrutado.
E nesse meio tempo o milagre seguia o seu devido curso. Rápida e seguramente, sem
um só retrocesso, Henry melhorava.

— Isto não lhe fêz sentir-se melhor? — perguntei. Rivers assentiu com um gesto.

— De um certo modo, sim. Porque, naturalmente compreendi, mesmo então, mesmo


no meu estado de inocência imbecil, que eu era indiretamente responsável pelo milagre. Eu
traíra o meu mestre; mas se não o tivesse feito, o meu mestre provavelmente estaria morto.
Um mal fora praticado; mas um bem, um bem enorme dele adviera. Era até certo ponto uma
justificativa. Por outro lado, como parecia horrível que a graça de Katy e a vida de seu
marido devessem depender de algo tão intrinsecamente indigno, tão superlativamente
vil-baixo-torpe, como sejam corpos e a sua satisfação sexual! Todo o meu idealismo se
revoltava contra a ideia. E no entanto ela era indiscutivelmente verdadeira.
— E Henry? — perguntei. — Até que ponto sabia ou suspeitava ele das origens do
milagre?
— Ele nada sabia — respondeu Rivers com convicção. — Menos que nada. Na sua
disposição de ânimo, ao emergir do sepulcro, a suspeita era inconcebível. "Rivers", disse- me
um dia, quando já se sentia suficientemente bem para chamar-me ao seu quarto e fazer- me
ler em voz alta, "quero falar-lhe. A respeito de Katy", acrescentou depois de uma pausa. Meu
coração parou de bater. Era o momento que eu antecipara com terror. "Você se recorda
daquela noite, na véspera de quando caí doente?" prosseguiu. "Eu estava fora de
mim. Disse toda espécie de coisas que não devia dizer, coisas falsas, coisas, por exemplo,
acerca de Katy e daquele doutor de Johns Hopkins". Mas o doutor de Johns Hopkins, pelo
que acabava de descobrir, era um aleijado. E ainda que o homem não tivesse tido paralisia
infantil em criança, Katy era absolutamente incapaz de sequer pensar em semelhante coisa. E
numa voz que tremia de emoção, continuou a dizer-me de como Katy era maravilhosa, da
indizível fortuna que fora para ele encontrar e conservar uma esposa a um só tempo tão boa,
tão bela, tão sensata e ainda assim tão sensível, tão forte, fiel e devotada. Não fosse por ela e
teria enlouquecido, teria fracassado, sucumbido. E agora ela lhe salvara a vida, e o
pensamento de que pronunciara aquelas palavras más, brutais, absurdas, o atormentava. Que
portanto eu, por favor, as esquecesse, ou pelo menos que somente as lembrasse como
desvarios de um doente.
Era um alívio, sem dúvida, não ter sido descoberto; mas, ao mesmo tempo, num certo
sentido, era pior — pior porque aquela demonstração de tanta confiança, de tão abismal
ignorância, fazia com que eu me envergonhasse de mim mesmo — e não apenas de mim
mes-mo, mas de Katy também. Éramos um par de trapaceiros, a conspirar contra um
simplório — um simplório que, por razões sentimentais que só o acreditavam, se esforçava o
quanto podia por fazer-se ainda mais inocente do que já era por natureza.
Nessa noite, consegui extravasar um pouco do que me ia pelo espírito. A princípio ela
tentou fechar-me a boca com beijos. Depois, quando a repeli, zangou-se e ameaçou de voltar
para o seu quarto. Tive a sacrílega coragem de retê-la à viva força. "Você tem de me ouvir",
disse enquanto ela lutava por livrar-se. E segurando-a à distância dos braços estendidos,
como se segura um animal perigoso, dei largas ao meu sermão de angústia moral. Katy
escutou-me; ao cabo, quando terminei o desabafo, pôs-se a rir. Não sarcàsticamente, não *
com a intenção de ferir-me, mas das radiosas profundezas do divertimento de uma deusa.
"Você não pode suportar", ripostou. "Você é nobre demais para prestar-se a cúmplice numa
traição! Não é capaz de pensar em outra coisa que não a sua preciosa pessoa? Pense em mim,
para variar, pense em Henry! Um génio doente e uma pobre mulher cuja função tem sido a de
manter o génio vivo e sofrivelmente são do juízo. Seu intelecto desmedido e alucinado contra
os meus instintos, sua desumana negação da vida contra a vida que transborda em mim. Não
foi fácil, tive de lutar com todas as armas de que dispunha. E agora aqui está você
obrigando-me a escutá-lo — a impingir-me a sua enjoativa arenga de escola dominical, tendo
a audácia de dizer-me — a mim! — que não pode viver uma mentira — como George
Washington com a sua cerejeira. Você me cansa. Vou dormir". Bocejou e, rolando para o
lado, voltou-me as costas... as costas", ajuntou Rivers com um pequeno riso sufocado,
"aquelas costas infinitamente eloquentes (quando se as esquadrinhava no escuro, como
Braille, com as pontas dos dedos) de Afrodite Calipígia.
E isso, meu amigo, isso foi o mais que Katy em qualquer ocasião se aproximou de
uma explicação ou de uma apologia. Não serviu para aumentar em nada as minhas luzes.
Pelo contrário, deixou-me ainda mais no escuro do que antes; pois suas palavras
conduziram-me a formular para com os meus botões uma série de perguntas, a que ela nunca
se dignou conceder qualquer resposta. Teria ela sugerido, por exemplo, que se tratava de algo
inevitável — quando menos nas circunstâncias de sua própria vida conjugal? Teria aquilo,
com efeito, sucedido antes? E se assim fosse, quando, quantas vezes, com quem?
_ Algum dia você ficou sabendo? — perguntei.

Rivers sacudiu a cabeça.

_ Nunca fui além das dúvidas e das imaginações. ..

e, meu Deus, como eram vívidas! O que bastava, é claro, para tornar-me mais
miserável que nunca. E, ao mesmo tempo, mais freneticamente amoroso. Por que será que a
suspeita de ter a mulher amada praticado o amor com outro provoca uma tamanha
exacerbação do desejo? Eu havia amado Katy até os limites do possível. Agora, sentia que a
amava além de todo limite, que a amava desesperada, insaciavelmente, com um amor
excessivo, se é que me faço entender.
A própria Katy logo o notou. 'Você tem estado a olhar-me", queixou-se duas noites
mais tarde, "como se estivesse numa ilha deserta e eu fosse um bife. Não faça isso. Os outros
vão notar. Além do mais, eu não sou um bife, sou um ser humano e cru. De resto, Henry está
quase bom e os meninos estarão em casa amanhã. As coisas terão de voltar a ser o que eram.
Precisamos ter juízo".
Juízo... — Prometi — para o dia seguinte. Até lá — apague a luz! — aquele excesso
de amor, aquele desejo que, mesmo no frenesi da sua consumação, guardava uma feição de
desespero. As horas se escoaram e no devido tempo chegou o dia seguinte — o clarão da
manhã entre as cortinas, as aves no jardim, a angústia do último abraço, as reiteradas
promessas de que eu teria juízo.
E com que diligência cumpri minha promessa! Após o desjejum subi ao quarto de
Henry e li para ele o artigo de Rutherford no último número da Nature. E quando Katy voltou
da sua feira, chamei-lhe "Mrs. Maartens" e me esforcei o quanto pude por parecer tão
prazenteiro e sereno quanto ela. O que no meu caso, decerto, era hipocrisia. No dela era
apenas uma manifestação da natureza olímpica.
Um pouco antes do almoço chegaram as crianças, de armas e bagagens, num táxi.
Katy fora sempre uma mãe zelosa; mas a vigilância era geralmente temperada por # uma
tranquila complacência para com as faltas infantis. Dessa vez, por alguma razão, foi
diferente. Talvez o milagre da cura de Henry lhe tivesse subido à cabeça, dando-lhe não
somente um sentimento de poder, mas também um desejo de exercer esse poder por outros
modos. É possível, também, que estivesse embriagada pela sua súbita reintegração, após
aquelas semanas de pesadelo, no estado de graça animal, através do desejo satisfeito. Fossem
quais fossem as causas, fossem quais fossem as circunstâncias atenuantes, restou o fato de
que naquele dia particular Katy se excedeu em seu zelo. Ela amava os filhos, e o regresso
deles a enchia de contentamento; não obstante, experimentou como que uma compulsão, tão
logo os viu, de criticar, de censurar, de deitar em torno o peso de sua autoridade materna. Não
fazia dois minutos que haviam chegado, e ela já sacudira Timmy por estar com as orelhas
sujas; aos três, obrigou Ruth a confessar que estava constipada; e aos quatro deduziu, por não
ter a menina querido que ninguém lhe desfizesse as malas, que ela devia estar escondendo
algum segredo culposo. E ali — quando, por ordem de Katy, Beulah abriu a valise — ali
jazia o pobre pequeno segredo revelado; uma caixa atulhada de cosméticos e o frasco pela
metade de violeta sintética. Nos bons tempos Katy teria
desaprovado — mas desaprovado com simpatia, com um sorriso compreensivo. Na ocasião,
a desaprovação foi veemente e sarcástica. Mandou atirar o estojo de beleza na lata de lixo, e
ela própria, com uma careta de nauseada repugnância, despejou o perfume no vaso sanitário
e deu a descarga. Quando por fim nos sentamos para a refeição, a poetisa, com o rosto
vermelho e os olhos ainda inchados de chorar, odiava a todo o mundo — odiava a mãe por
havê-la humilhado, odiava Beulah por ter-se mostrado tão boa profetisa, odiava a pobre Mrs.
Hanbury g por estar morta e assim não mais precisar dos cuidados de Katy, odiava Henry por
ter melhorado o bastante para permitir aquele desastroso regresso ao lar, e odiava a mim por
tê-la tratado como a uma criança, poí ter dito que o seu poema de amor era uma droga, e por
ter demonstrado, o que era ainda mais imperdoável, que preferia a companhia da mãe.
— Ela suspeitou de alguma coisa? — perguntei.

— Provavelmente suspeitou de tudo — respondeu Rivers.

— Pensei que vocês estivessem sendo ajuizados. . .

— Estávamos. Mas Ruth sempre tivera ciúmes da mãe. E agora a mãe a tinha
magoado, e ao mesmo tempo ela sabia — teoricamente, é claro, mas em termos da mais
violenta e redundante linguagem — a espécie de coisas que soem suceder quando um
homem e uma mulher se atraem. A dor dos pulsos rubros; lábios entrelaçados e mordidos.
Etcétera. Ainda que nada se tivesse passado entre mim e Katy, ela o teria imaginado e nos
odiaria por isso, com aquela nova e mais implacável espécie de ódio. No passado, os seus
ódios nunca duravam mais que um dia ou dois. Dessa vez foi diferente. O ódio era rancoroso.
Por dias a fio ela se recusou a dirigir-nos a palavra. Do princípio ao fim de cada refeição,
mantinha-se ali em silêncio sombrio, saturado de mudas recriminações.
Pobre pequena Ruth! Dolores-Salomé era por certo uma ficção, mas uma ficção
fundada nas sólidas contingências da puberdade. Ao ultrajar a ficção, Katy e eu, em nossos
diferentes modos, havíamos ultrajado algo real, algo que era uma parcela viva da
personalidade da menina. Ela voltara para casa com os seus perfumes e cosméticos, com os
seus seios novos em folha e com o seu novíssimo vocabulário, com ideias de Algernon e
sentimentos de Oscar — voltara repleta de vagas e maravilhosas expectações, vagas e
horripilantes apreen-soes; e que lhe acontecera? A injúria de ser tratada como o que de fato
ainda era: uma criança irresponsável. A afronta de não ser levada a sério. A mágoa e a
humilhação de ver-se preterida pelo homem que escolhera para sua vítima e seu Barba- Azul,
em favor de outra mulher — e para piorar as coisas, essa outra mulher era sua própria mãe.
Era de admirar que todos os meus esforços, que os risos e agrados com que eu procurava
arrancá-la de seu mau-humor fossem em vão? "Deixe-a em paz", foi o conselho de Katy.
"Deixe-a cozer no seu próprio caldo até que enfare". Mas os dias passavam e Ruth não dava
sinais de enfaro. Pelo contrário, parecia saborear o gosto amargo do orgulho ferido, do ciúme
e da suspeita. E então, cerca de uma semana depois do regresso dos meninos, algo sucedeu
que transformou o seu ressentimento crónico na mais aguda, na mais feroz animosidade.
Henry já estava bom o bastante para ficar sentado e caminhar pelo quarto. Mais
alguns dias e estaria em plena convalescença. "Que ele vá passar algumas semanas no
campo", aconselhou o médico. Mas com o mau tempo da entrada da primavera e com a
ausência de Katy em Chicago, o chalé ficara fechado desde o Natal. Antes que estivesse
outra vez em condições de ser habitado, teria de ser arejado, limpo e abastecido. "Vamos lá
fazer a faxina amanhã", Katy sugeriu-me uma manhã à mesa do café. De inopino, como um
furão saltando da toca, Ruth emergiu das profundezas do seu malévolo mutismo. Amanhã,
resmungou com irritação, ela estaria no colégio. Pois era por isso mesmo, redarguiu Katy,
que amanhã seria um ótimo dia para fazer as necessárias arrumações. Nada de poetisas
imprestáveis e avoadas a trançar no caminho atrapalhando os outros. "Mas eu preciso ir",
insistiu Ruth com uma estranha inflexão de violência reprimida. "Preciso?" ecoou Katy. "Por
que precisa?" Ruth encarou a mãe por um instante, depois baixou os olhos. "Porque..."
começou; pensou melhor e se deteve. "Porque eu quero ir", concluiu titubeante. Katy riu e
disse-lhe que deixasse de ser tola. "Vamos levantar cedo", continuou dirigindo-se a mim, "e
levar uma cesta de piquenique". A menina ficou muito pálida, tentou comer a sua torrada
mas não conseguiu engolir, pediu licença e, sem esperar resposta, deixou a mesa e saiu da
sala a correr. Quando à tarde tornei a vê-la, seu rosto era uma máscara impassível, mas com
um quê ameaçador de contida hostilidade.
De fora, no hall, ouviu-se o rangido da porta de entrada que se abria e a sua batida ao
fechar-se novamente. Depois o som de passos e vozes em surdina. Rivers interrompeu- se e
consultou o relógio.
— Apenas onze e dez — observou, e balançou a cabeça. Em seguida, levantando a
voz, chamou: —■ Molly! É você?
Entreaberto sobre um alvo retângulo de pele acetinada, sobre um colar de pérolas e o
corpete escarlate de um vestido de noite, um casaco de peles surgiu no limiar. Encimava- o
um rosto jovem, que teria sido belo se não ostentasse uma expressão de tão amargo enfado.

— Que tal a festa? — indagou Rivers.

— Paulificante, — respondeu a moça. — Por isso voltamos cedo. Não é mesmo,


Fred? — acrescentou, voltando-se para um jovem de cabelos pretos que a acompanhara para
dentro da sala. O rapaz relanceou-lhe um olhar de glacial desagrado e virou o rosto. — Não
é? — repetiu ela mais alto, com uma nota quase de angústia na voz.
Um ténue sorriso surgiu na face desviada, seguido de um encolher dos ombros largos,
porém não houve resposta.
Rivers voltou-se para mim.

— Você já conhecia a minha pequena Molly, não é verdade?

— Quando ela era deste tamaninho.


— E este — abanou a mão na direção do rapaz moreno — é o meu genro, Fred
Shaughnessy.
Declarei que tinha muito prazer em conhecê-lo; mas o jovem cavalheiro nem sequer
olhou-me. Houve um silêncio.

Molly passou a mão cintilante de jóias sobre ós olhos.

— Estou com uma dor de cabeça de rachar — engrolou. — Acho que vou para a
cama.

Virou-se para sair; depois deteve-se e, com o que se percebia ser um enorme esforço,
obrigou-se a dizer: — Boa noite.
— Boa noite — respondemos em uníssono. Mas ela já desaparecera. Sem uma
palavra, como se fosse um guarda-costas a cobrir-lhe o rasto, o rapaz a seguiu. Rivers
suspirou fundo.
— Estes chegaram ao ponto, — disse — em que o sexo se tornou insípido, a não ser
como coroamento de uma briga. Veja você o destino que aguarda o pequeno Bimbo. Viver
como filho de uma mãe divorciada, com uma sucessão, enquanto durem os seus encantos, de
amantes ou de maridos. Ou então como filho de pais que deveriam ter-se divorciado, mas que
não conseguem separar-se porque partilham um inconfessável prazer em torturar e ser
torturados. E seja qual fôr a alternativa, eu nada poderei fazer. Suceda o que suceder, o
pequeno terá de passar pelo inferno. Pode ser que saia por isso mesmo melhor e mais forte.
Pode ser que seja completamente destruído. Quem poderá dizer? Por certo não esses
camaradas! — Apontou com a haste do cachimbo para uma comprida prateleira de
freudianos e jungueanos. — Ficção psicológica! É uma leitura agradável, e não deixa de ser
instrutiva. Mas o que explica? Tudo, menos o essencial; tudo, exceto as duas coisas que
determinam o curso de nossas vidas: a Predestinação e a Graça. Veja o caso de Molly, por
exemplo. Ela teve uma mãe que soube amar sem querer dominar. Um pai que quando menos
teve o senso bastante de procurar seguir o exemplo de sua mulher. Teve duas irmãs que
foram crianças felizes e que souberam tornar-se boas esposas e mães. Nunca houve discórdia
em casa, nunca houve tensões crônicas, nem tragédias, nem rompantes. De acordo com todas
as regras da ficção psicológica, Molly deveria ser perfeitamente ajustada e feliz. Ao invés...
— Deixou a frase inacabada. — E depois, existe a outra forma de Predestinação. Não a
Predestinação interior do temperamento e do caráter, mas a Predestinação que nos
espreitava, a mim, a Ruth e a Katy. Mesmo por um binóculo às avessas, não é um espetáculo
agradável.

Seguiu-se um longo silêncio, que eu não me atrevi a quebrar.

— Bem — disse ele por fim — tornemos a Ruth, tornemos àquela tarde da véspera do
piquenique. Ao voltar do laboratório, encontrei Ruth a ler na sala de estar. Não levantou
o olhar à minha entrada. Então assumi o meu ar mais descuidadamente jovial e saudei-a:
"Olá, garota!" Ela voltou-se sem sorrir, fitou-me, um olhar prolongado e maldosamente
vazio, e tornou a mergulhar na leitura. Dessa vez ensaiei um gambito literário. "Você tem
escrito mais alguma poesia?" perguntei. "Sim, tenho", respondeu ela com ênfase, e no seu
rosto estampou-se um risinho ainda mais perverso que a inexpressividade anterior. "Posso
ver?" Para minha grande surpresa, respondeu que sim. Não estava ainda terminada de todo;
mas no dia seguinte, sem falta.
Esqueci por completo a promessa; mas, na manhã seguinte, com efeito, de saída para
o colégio, Ruth entregou-me um de seus envelopes côr de malva. "Aqui está", disse. "Espero
que lhe agrade". E com outro sorriso ameaçador, correu no encalço de Timmy. Estava muito
atarefado para ler o poema de pronto, assim que enfiei o envelope no bolso e prossegui no
trabalho de carregar o automóvel. Roupa de cama, talheres, querosene — acabei de empilhar
os tarecos. Meia hora mais tarde partíamos. Beulah gritou as despedidas dos degraus da
entrada, Henry acenou-nos de uma das janelas do andar superior. Katy acenou em resposta e
assoprou-lhe um beijo. "Sindo-me como John Gilpin", disse-me alegremente ao dobrarmos o
portão. "Toda impaciente por romper montes e vales".
Era um desses líricos primeiros dias de maio, uma dessas manhãs positivamente
shakespeareanas. Chovera à noite, e as árvores faziam reverências sob a brisa fresca; as
folhas novas cintilavam ao sol como jóias; as grandes nuvens marmóreas no horizonte eram
como um sonho de Miguel Angelo num momento de extática felicidade e poder sôbre-
humano. E havia as flores. Flores nos jardins de subúrbio, flores nos campos e bosques além;
e cada flor tinha a beleza consciente de um rosto amado, sua fragrância era um mistério do
Outro Mundo, as pétalas, sob os dedos da minha imaginação, tinham a maciez, a sedosa
frescura e elasticidade de uma epiderme viva. Não é preciso dizer que nós estávamos ainda
sendo ajuizados. Mas o mundo estava ébrio de suas próprias perfeições, estuante com seu
excesso de vida.
Executamos a nossa tarefa, almoçamos a nossa merenda, fumamos nossos cigarros
em espreguiçadeiras ao sol. Mas o sol estava quente demais, e decidimos terminar nossa
sesta dentro de casa; e o que qualquer um poderia ter previsto que aconteceria, aconteceu
devidamente... Aconteceu, segundo descobri de súbito entre dois êxtases, sob os olhos de um
retrato a três quartos de corpo de Henry Maartens, encomendado e a ele presenteado pelos
diretores de uma grande companhia de aparelhos elétricos que se valera de sua assistência
profissional, e tão monstruoso em seu fotográfico realismo que fora relegado ao quarto de
hóspedes da casa. Era um desses retratos que estão sempre olhando para a gente, como o
Grande Irmão no 1984 de Orwell. Voltei a cabeça, e lá estava ele em seu fraque negro, a
dardejar-nos o seu olhar solene — a cor-porificação mesma da opinião pública, símbolo e
pro-jeção da minha própria consciência culpada. E junto ao retrato havia um grande
guarda-roupa vitoriano com uma porta de espelho que refletia a árvore de fora da janela e,
dentro do quarto, parte da cama, parte de dois corpos mosqueados pela luz do sol e pelas
sombras móveis das folhas de carvalho. "Perdoai-os, porque não sabem o que fazem". Mas
ali, mercê do retrato e do espelho, não havia ignorância possível. E a consciência do que
havíamos feito tornou-se ainda mais inquietante quando, ao vestir o casaco, ouvi o estalidar
de papel grosso no bolso interno e lembrei-me do envelope malva de Ruth.
O poema, dessa feita, era uma narrativa, em estancas de quatro versos, uma espécie de
balada a respeito de dois adúlteros, uma esposa infiel e o seu amante, ante o tribunal de Deus,
no Juízo Final. De pé, no silêncio portentoso e acusador, eles se sentem despidos por mãos
invisíveis de todos os seus disfarces, peça por peça, até que por fim estão completamente nus.
Mais do que nus, com efeito; pois seus corpos redivivos são transparentes. Bofes e fígado,
bexiga e tripas, cada órgão com seu excremento específico — todos, asquerosamente
visíveis. E de súbito descobrem que não estão sós, mas sobre um palco, à luz de refletores,
cercados por milhões de espectadores, fila após fila, a contemplá- los com espasmos de
náusea incontida, ou então a escarnecer, a vituperar, a clamar por vingança, a ulular pelo
açoite e pelo ferro de marcar.
Havia uma espécie de malignidade de cristão primitivo na peça, o que se tornava
ainda mais terrificante pelo fato de ter sido Ruth educada inteiramente fora do âmbito
daquele abominável género de fundamenta-lismo. Juízo, inferno, punição eterna — não eram
estas as coisas em que ela fora ensinada a acreditar. Eram noções que adotara para seus
próprios fins especiais, eram meios de exprimir o que sentia com relação à mãe e a mim.
Ciúme, em primeiro lugar; ciúme e amor rejeitado, vaidade ferida, raivoso despeito. E o
despeito devia encontrar um motivo respeitável, a cólera mas-carar-se em virtuosa
indignação. Ela suspeitou de nós o pior, de modo a poder justificar-se por sentir o pior. E
suspeitou com tamanha veemência que, de um momento para outro, já não se limitava a
adivinhar, mas sabia que éramos culpados. E, sabendo-o, a criança nela sentia-se mais
agravada, e a mulher mais amarga e vingativamente ciumenta que antes.
Com um horrível aperto no coração, com um terror que se avolumava em face de
obscuros presságios, li a coisa até o fim, tornei a ler, depois aproximei-me de Katy que,
sentada em frente ao espelho da penteadeira, prendia os cabelos, a sorrir para a imagem
radiosamente sorridente de uma deusa e a cantarolar uma ária das Bodas de Fígaro: Dove
sono i bei momenti Di dolcezza e di piacer? Eu sempre admirara aquela sua divina
despreocupação, aquele olímpico je rríen foutisme. Naquele momento ele de súbito me
exasperou. Ela não tinha o direito de não estar sentindo o que a leitura do poema de Ruth me
fizera sentir. "Você quer saber", disse-lhe, "por que razão a nossa pequenina Ruth tem estado
a portar-se daquela maneira? Quer saber o que ela realmente pensa de nós?" E atravessando o
quarto estendi-lhe as duas folhas de papel de carta lilás em que a menina copiara o seu
poema.
Katy começou a ler. Estudando-lhe a fisionomia, vi o seu ar inicial de divertimento
(pois a poesia de Ruth era permanente motivo de pilhéria na família) ceder lugar a uma
atenção séria e concentrada. Depois uma ruga vertical surgiu-lhe entre os olhos. Ao voltar a
primeira página, o vinco aprofundou-se e ela mordeu o lábio. A deusa, apesar de tudo, era
vulnerável. . . Eu marcara o meu ponto; mas foi um mesquinho triunfo, que só resultou em
dois coelhos assutados na armadilha em vez de um. E era o tipo da armadilha da qual Katy
absolutamente não tinha condições de escapar. A maior parte das situações incómodas tinha
ela por hábito simplesmente ignorar, de deslizar através como se não existissem. E com
efeito, se as ignorava com a devida perseverança e serenidade, elas deixavam de existir. As
pessoas que ofendera a perdoavam, por ser ela tão bela e tão alegre; as que se atormentavam
com preocupações, ou criavam complicações para os outros, rendiam-se ao contágio da sua
divina indiferença e de momento esqueciam-se de ser neuróticos ou
malvados. E quando a técnica do tranquilo desconhecimento não dava resultado, restava- lhe
outro expediente — a técnica de invadir os terrenos proibidos; a técnica de ser graciosamente
indiscreta, de cometer formidáveis ratas com a maior inocência e simplicidade, de enunciar
as mais improferíveis verdades com o mais irresistível dos sorrisos.
Mas no presente caso nenhum dos dois métodos seria solução. Se ela nada dissesse,
Ruth continuaria a proceder como vinha procedendo até então. E se tomasse a ofensiva e
dissesse tudo, só Deus sabe o que uma adolescente conturbada seria capaz de fazer. Ao
mesmo tempo havia Henry em que pensar, havia o seu próprio futuro como único e, era nossa
convicção, indispensável arrimo de um génio enfermo e de seus filhos. Ruth estava em
condições, e bem poderia estar na disposição, de lançar por terra o templo inteiro de suas
vidas pelo puro prazer da desforra. E contra isso uma mulher com um temperamento de
deusa, mas sem a divina onipotência, nada poderia fazer.
Havia, entretanto, algo que eu poderia fazer; e enquanto discutíamos a situação —
pela primeira vez, note bem, desde que havia uma situação a discutir! — tornou-se cada vez
mais claro qual era esse recurso. Eu podia pôr em prática o que sentira ser o meu dever logo
em seguida àquela primeira noite apocalíptica: desaparecer.
A princípio Katy não queria saber de escutar-me, e tive de argumentar com ela
durante toda a viagem de volta — argumentar contra mim mesmo, contra a minha própria
felicidade. — Por fim convenceu-se. Era a única saída da armadilha.
Ao chegarmos em casa, Ruth perscrutou-nos como um detetive à cata de indícios.
Depois perguntou-me se havia gostado do poema. Disse-lhe — e era a pura verdade — que
era a melhor coisa que ela já tinha escrito. Ficou satisfeita, mas fêz o possível para não
demonstrá-lo. O sorriso que lhe iluminou o semblante foi quase instantaneamente reprimido,
e ela quis saber, fixando-me um olhar intencional, o que eu achara do tema. Estava preparado
para a pergunta e respondi com uma risadinha condescendente. Fizera-me lembrar, disse, os
sermões que o meu pobre pai costumava pregar na quaresma. Em seguida consultei o relógio,
resmunguei qualquer coisa sobre um trabalho urgente e deixei-a, pelo que pude ler-lhe no
rosto, um tanto desconcertada. Havia antegozado, sem dúvida, uma cena em que ela
desempenharia o papel do juiz frio e implacável, enquanto eu, o réu, me humilharia em
evasivas abjetas, ou fraquejaria e confessaria a minha culpa. Ao invés, o réu se rira e o juiz
ouvira apenas um gracejo descabido a respeito de clérigos. Eu vencera a primeira
escaramuça; mas a guerra ainda fervia e só teria fim, era mais do que evidente, com a minha
retirada.
Dois dias depois era uma sexta-feira. Como acontecia todas as sextas-feiras, o correio
trouxera a carta semanal de minha mãe, e Beulah, ao pôr a mesa do café, a encostara
conspicuamente (pois era toda pelas mães) de encontro à minha xícara. Abri-a, li, assumi um
ar grave, tornei a ler, depois mergulhei num silêncio ensimesmado. Katy tomou a deixa e
perguntou solicitamente se eu recebera más notícias. Ao que respondi, naturalmente, que não
eram muito boas. A saúde de minha mãe... O álibi fora preparado. Antes do anoitecer tudo
estaria arranjado. Oficialmente, como chefe do laboratório, Henry concedeu-me duas
semanas de licença. Eu tomaria o trem das dez e trinta na manhã de
domingo e; antes disso, no sábado, iríamos todos acompanhar, o convalescente ao chalé, num
piquenique de despedida.
Éramos muitos para um só automóvel. Assim, Katy e as crianças partiram na frente
no Overland da família. Henry e Beulah, com a maior parte da bagagem, seguiram comigo no
Maxwell. Os outros tomaram-nos uma boa dianteira, pois a meia milha de casa Henry
descobriu, como de costume, que esquecera algum livro absolutamente indispensável e
tivemos de voltar a buscá-lo. Dez minutos mais tarde estávamos outra vez a caminho. A
caminho, assim estava escrito, daquele encontro com a Predestinação.

Rivers emborcou o resto do uísque e bateu a cinza do cachimbo.

— Mesmo por um binóculo às avessas, mesmo num universo diferente, habitado por
criaturas diferentes. . . — Balançou a cabeça. — Certas coisas são simplesmente
inadmissíveis.

Houve nova pausa.

— Bem, acabemos com isso — disse por fim. —■ Cerca de duas milhas antes da casa
de campo havia um cruzamento em que devíamos virar à esquerda. Estava situado no meio
de um bosque, e a folhagem era tão espessa que não permitia ver-se o que vinha de um ou de
outro lado. Quando lá chegamos, reduzi a velocidade, buzinei, mudei de marcha e virei. E, de
repente, ao completar a curva, lá estava o conversível dentro da vala, de rodas para o ar, e
mais adiante um grande caminhão com o radiador amassado. E entre os dois carros um rapaz
de macacão azul ajoelhado junto a um menino que chorava. Quatro ou cinco metros além
viam-se dois objetos que pareciam fardos de roupas velhas, ou montes de lixo — lixo
manchado de sangue.
Houve um novo silêncio.

— Estavam mortas? — perguntei afinal.

— Katy morreu poucos minutos após a nossa chegada, e Ruth morreu na ambulância
a caminho do hospital. Timmy fora preservado para uma morte pior em Okinawa; escapou
com algumas escoriações e um par de costelas quebradas. Ia no banco de trás, conforme nos
contou, com Katy na direção e Ruth ao lado dela no assento dianteiro. As duas tinham estado
a discutir e Ruth estava furiosa com qualquer coisa — ele não sabia o que, pois não estava
escutando. Estava a pensar num jeito de eletrificar o seu trenzinho de corda, e de resto nunca
prestava muita atenção ao que dizia Ruth quando se zangava. Prestar-lhe atenção só fazia
piorar as coisas. Mas a mãe tinha prestado atenção. Lembrava- se de tê-la ouvido dizer, "você
não sabe de que está falando", e depois, "eu lhe proíbo de dizer estas coisas". E então haviam
entrado na curva, iam muito depressa e ela não tocou a buzina e aquele caminhão enorme os
colheu em cheio.
— Aí tem você, — concluiu Rivers. — Na verdade foram os dois tipos de
Predestinação. A Predestinação dos acontecimentos, e ao mesmo tempo a Predestinação de
dois temperamentos, o de Ruth e o de Katy — o temperamento de uma criança ofendida, que
era também uma mulher ciumenta; e o temperamento de uma deusa, encurralada pelas
circunstâncias e a dar-se subitamente conta de que, objetivamente, era apenas um ser
humano, para quem o temperamento olímpico poderia em realidade constituir um sério
entrave. E a descoberta foi tão perturbadora que a tornou imprudente, incapaz de avir-se
adequadamente com os eventos pelos quais estava predestinada a ser destruída — e destruída
(mas isto seria para minha edificação, é claro, fazia parte da minha Predestinação
psicológica) com todos os requintes do ultrage físico — um olho arrancado por um estilhaço
de vidro, o nariz, os lábios e o queixo quase obliterados, triturados no pavimento
ensanguentado da estrada. E havia ainda a mão direita esmagada e as pontas denteadas de
uma tíbia partida a perfurar a meia. Foi algo que por muito tempo vi em sonhos quase todas
as noites. Katy de costas para mim; ora na cama do chalé, ora de pé junto à janela do meu
quarto, a atirar o seu chalé sobre os ombros. Depois voltava-se e olhava para mim, e não
havia rosto, somente aquela massa de carne lacerada, e eu despertava aos gritos. Cheguei a
um ponto em que não tinha mais coragem de dormir à noite.

Ouvindo-o, recordei o jovem John Rivers que, para minha grande surpresa,
encontrara em Beirute, em vinte e quatro, a lecionar física na Universidade Americana.

—• Era por isso que você parecia tão terrivelmente doente? — perguntei.

Fêz que sim com a cabeça.

— Falta de sono e excesso de memórias — respondeu. — Eu temia enlouquecer, e de


preferência a ficar doido tinha decidido matar-me. Então, no derradeiro instante, a
Predestinação entrou em cena e acudiu com a única espécie de Graça salvadora que me
poderia valer. Encontrei Helen.

No mesmo coquetel — interpus — em que eu a encontrei. Lembra-se?

Sinto muito, não. Não me lembro de ninguém naquela ocasião, senão de Helen. Quem
é salvo do afogamento lembra-se do salva-vidas, não dos espectadores no cais.
— Não admira que eu não tenha tido chance! — observei. — Na época eu costumava
pensar, com bastante azedume, que era porque as mulheres, mesmo as melhores dentre elas,
mesmo as raras e extraordinárias Helens, preferem as boas aparências à sensibilidade
artística, preferem a inteligência revestida de músculos (pois eu era forçado a admitir que
você tinha alguma inteligência!) à inteligência combinada com esse esquisito je ne sais quoi
que era a minha especialidade. Agora vejo qual era a sua irresistível atração. Você era infeliz.
Rivers manifestou o seu assentimento e ficou silencioso. Um relógio deu doze
badaladas.
— Feliz Natal — disse eu e, terminando o meu uísque, levantei-me para sair, — Você
não contou o que foi feito do velho Henry depois do acidente.
— Bem, ele começou, naturalmente, por ter uma recaída. Não muito grave. Nada
tinha a ganhar, dessa vez, chegando às portas da morte. Nada mais que um dos seus achaques.
A irmã de Katy veio para o funeral e ficou para olhar por ele. Era como uma caricatura de
Katy. Gorda, flórida, turbulenta. Não uma deusa disfarçada em campônia — mas uma criada
a imaginar-se uma deusa. Era viúva. Quatro meses depois Henry a desposou. A essa altura eu
partira para Beirute; assim, não cheguei a testemunhar a sua ventura conubial. De acordo
com as crónicas, foi intensa. Mas a pobre mulher não conseguia evitar o excesso de peso.
Morreu em trinta e cinco. Henry logo descobriu uma jovem ruiva, chamada Alicia. Alicia
queria ser admirada pelo seu busto de trinta e oito polegadas, porém mais ainda pelo seu
intelecto ainda mais vasto. Se alguém perguntava a ele: "Que pensa de Schroedinger?" era
Alicia quem respondia . Acompanhou-o até o fim.

— Qual foi a última vez que você o viu?

— Poucos meses antes da sua morte. Com oitenta e sete anos e ainda
espantosamente ágil, ainda transbor-dante daquilo que o seu biógrafo gosta de descrever
como "a chama sempre viva da pujança intelectual". A mim ele fêz lembrar antes um macaco
de engonço com excesso de corda. Raciocínio mecânico; gestos mecânicos, sorrisos e
esgares mecânicos. E a conversação... que gravações admiravelmente realísticas das velhas
anedotas em torno de Planck, de Rutherford e de J. J. Thompson! Dos seus célebres
solilóquios acerca do Positivismo Lógico e da Cibernética! Das reminiscências sobre os
emocionantes anos da guerra, quando trabalhava na bomba atómica! Das suas especulações
espirituosamente apocalípticas com respeito às maiores e mais perfeitas Máquinas Infernais
do futuro! Podia-se jurar que era um ser humano real que falava. Mas, aos poucos, à medida
que se escutava, principiava-se a perceber que a casa estava vazia. As fitas magnéticas
desenrolavam-se automaticamente, era vox et praeterea nihil — a voz de Henry Maartens,
sem a sua presença.

— Mas não é isso que você recomenda? — sugeri. — Morrer a cada instante?

— Porém Henry não morrera. Esta é a questão. Simplesmente deixara o mecanismo a


funcionar e fora embora.

— Embora para onde?

— Sabe Deus. Enfurnar-se em qualquer toca infantil do seu subconsciente. Por fora,
para todos verem e ouvirem, havia aquele estupendo macaco mecânico, aquela chama
sempre viva da pujança intelectual. Dentro, encolhia-se a mísera e mesquinha criatura que
sentia ainda a necessidade da lisonja e da auto-afirmação, do sexo e de um substituto de
placenta — a pobre criatura que teria de enfrentar o supremo transe no leito de morte de
Henry. Esta estava ainda freneticamente viva e despreparada por qualquer morte preliminar,
de todo despreparada para o momento decisivo. Pois bem, o momento decisivo
passou, e o que quer que reste do pobre Henry anda decerto guinchando e tagarelando pelas
ruas de Los Álamos, ou talvez rondando a cama de sua viúva e de seu novo marido. E
naturalmente ninguém lhe presta atenção, ninguém se importa. Com toda a razão. Que os
mortos enterrem os seus mortos. E agora você quer retirar-se.

Levantou-se, tomou-me o braço e acompanhou-me até o vestíbulo.

_ Guie com cuidado — recomendou-me enquanto

abria a porta. — Este é um país cristão e hoje é o aniversário do Salvador.


Praticamente todo mundo que você encontrar estará bêbedo.

Você também pode gostar