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Africa: Revista do Centro de Estudos Africanos di USP, 2.1979 RESUMO DE TESES OS BASANGA DE SHABA (ZAIRE) * ASPECTOS SOCIO-ECONOMICOSB POLITICO-RELIGIOSOS Kabengele Munanga Universidade Nacional do Zaire Iniciando este estudo sobre os Basanga, nossas amtbigBes’ primeiras tinham sido analisar os processos de mudangas socials ¢ culturais xesultantes da situagdo de contato com a civilizagiio ocidental. Mas, A medida qué’ esse projeto amadurecia, fomos percebendo cada vex. mais, a quase impossibilidade de realizélo sem um certo conhecimento do pano de fundo tradicional sobre o qual se fundam e se constroem as mudangas. ‘Assim, na sua forma atual, 0 trabalho apresenta-se como um estudo monogrifico dividide em quatro capitulos. No primeiro capitulo, procura-se esbogar as condisSes geogrificas, evoldgicas e histéricas nas quais se desenvolveu a culture Sango. No segundo, desenvolvemos alguns aspectos da estrutura social e deserevemos o ciclo vital dos individuos. No terceiro capftulo, relative & vida econdmica, pro- curamos descrever as atividades econdmicas predominantes; analisar fatores @ modos de produgHo; analisar as estruturas sociais oriadas pola sociedade em vista de cumprir a produgAo; descrever os mecanismos de redistribuigao e de troca dos produtos ¢, enfim, tratar das formas de investimento econdmi- co. 0 titimo capitulo, artieulado sobre dois aspectos muito ligados, a saber: ‘a Tose de doutoramento em Antropoogix Socist, Departamento de Ciénoias Socials a Faouldade de Filosofia, Letras e Ciéncias Humanas da ‘Universidade de Sio Paulo. 95 | | a vida politica ¢ a vide religiosa, onde tentamos abordar os problemas relati- : yos ao fundamento do poder politico; analisa as estruturas do poder politico ¢ suas fungSes; abordar a vida religiosa sob dois aspectos, seja como um sis- tema ideoldgico, seja como uma explicagdo do universo (cosmogonia) ¢ do homem (ontologia). Evitamos tirar conclusdes, ou seja, sintetizar as andlises, pois, esta sintese explicativa nfo & f4cil no quadro de um estudo monogréfico baseado nos dados qualitativos. No entanto, terminamos o trabalho com considerag6es finais abran- gendo duas questdes, que sfo: Como os Basanga se definem enquanto grupo étnico? e como se pode, a partir de nossos resultados, abordar o estudo dos processos das transformagées s6cio-culturais? Com relagio 4 primeira questo, chegamos 4 conclus%e que a iden- tificagdio étnica pode ser uma manipulagdo ideolégica que nada tem a ver com o fato de partithar de uma mesma cultura, Quanto @ segunda conclui- mos que, escolhendo como unidade de andlise uma unidade cultural concreta da qual se conhece o witimo fundo tradicional, se pode facilmente abranger os dois niveis de aculturagio: 0 material e o formal! Ao mesmo tempo, se pode estudar as transformagées, nfo apenas das cidades, mas também as das aldeias, Os membros de um mesmo grupo étnico podem ser estudados no seu meio de origem tradicional ¢ em seguida prossegue-se com o mesmo estudo nas cidades sob a forma de interagiio entre a cidade e a aldeia; intera- 80, a nosso ver, decorrendo do mecanismo de parentesco. A anélise desta interagdo, combinada a0 estudo do fendmeno da entidade étnica, pode ajudar a compreender o lento mecanismo de forma- go das classes sociais na Africa nogra. 1 Roger Bastide, no seu livro Le prochain ef le lointain (1970. p. 137 © 144 et seqs.), distingue dois afveis de transformagées. De um lado, as que se situam no dominio do que se chama “acutturagdo material”, e de outro, as que pertencem 20 dominio da “aculturagdo formal”, Ent#o a aculturago material se inscreve entre os fatos Perceptiveis, por exemplo, o fato da difusio ¢ da adogio de um trago cultural, transformacdo de um ritual, etc... 4 aculturagfo formal, entre os que ultrapassam ‘uma simples adogo de uma tragfo cultural ¢ supde uma transformago profunda, Bia se situa no nivel psfquico dos indiviéwos, exigindo deles uma reconversfo mental, 96 Afriea: Revista do Centro de Estudos Africans da USP. 2.1979 O CAFE EM SAG PAULO E NA COSTA DO MARFIM: UM ESTUDO COMPARATIVO" Yassoungo Soro Universidade Nacional da Costa do Marfim © presente trabalho pretende ser uma contribuigfo ao estudo da organizagio do espago, visto na linha da geografia comparativa, E oportuno, lemtbrar que houve excelentes contribuigSes monogrificas no que diz res- peito a cafeicultura numa e noutra rogido; mas a focalizagao de um estudo em base regional, possibilidade metodolégica que se concentra nas andlises comparativas da organizago do espago, nunca foi tertada, ao menos no que nos tem sido dado a conhecer. Sendo 0 objeto do nosso estudo a organizagio dos espagos agré- rios, uma especial importancia é dada aos problemas de geografia agréria Gs que a visto deste rumo da ciéncia geogréfica exige do nosso estudo com- parative uma relago com o espage come sistema de relagSes), onde o ele- mento importante é 0 café, ‘A necessidade imperativa de analisar o proceso de mudanga das estrotwras forjadas pelo café, determinantes no arranjo do espago, conviéa & demonstraggo de como um mesmo produto comercial, devido 4 originalidade des varidveis ecolégicas, humanas ou histéricas para suas lavouras; aos sis- temas de lavouras ¢ seas correlag6es com o mercado consumidor existente, * Dissertago de Mestrado em Geografia, Departamento do Goografir da Faculdade de Filosofie, Letras © Ciéncias Humanas dz, Universidade de Sio Paulo. 7 cuja exploragio intensiva teve inicio em épocas diferentes em ambas as regibes, pode, entrctanto, modelar paisagens geogrificas que, certamente, téin tragos de semelhanga, mas onde as diferengas so muito vivas na orga nizago do espago, para deixarem de chamar a atengfo. Em se tratando de um estudo comparativo, ha que se ressaltar que cada rea possui um cardter proprio em fungdo da integraglo de seus fendmenos relacionados. A expressdo deste cardter & salientada nas diversi- dades profundas que cada 4rea apresenia, quer seja na conjugacdo'dos fatores como solos, climas, relagSes de produgdo, regimes de propricdades, desen- yolvimento de transporte para circulagao geral dentro do sistema; quer seja no desenvolvimento histérico, que essa economia sofreu em cada regio, bem como as condigées atuais de orientago programdtica para a sua so- brevivéncia ¢ manutengdo sob 0 ponto de vista do mercado externo € interno, aléan das conseqiiéncias sociais que ele acarreta. Em $40 Paulo a conjugagdo destes varios fatores com a criagéo de redes fertovidrias e rodovidrias, a presenga de um porto centralizador e ex portador do produto, mais presenga de um mercado externo disponivel sao responsivels em grande parte pela notivel expansfo ovorrida nas Areas interioranas. Jé na Costa do Marfim, foi determinante o sistema de tise en valeur pela marca da presenga directa de agentes e capitais metropolitanos, ¢ mais tarde, a partir de 1960, pela agtio voluntarista de um Estado empreen- dedor. No tocante as técnicas de produg&o notase que, em Sao Paulo, as praticas do oultivo so bem mais evolufdas. As novas técnicas vistas no re- toro do café fazem com que @ produtividade seja mais elevada do que na Costa do Marfim, Mas, essa melhor produtividade, decorrente em parte do uso excessivo de adubos quimvicos, pode resultar, mais tarde, num envene- namento dos solos que tornard mais dificil a manutengfo do potencial pro- dutivo, ov seja, 2 sanidade das lavouras. Neste ponto de vista, a Coste do Marfimn tira vantagens do seu sistema de cultivo sombrado, una vez que as Arvores @ plantas de associugiic resolvem, em parte, o duplo problema de fertilidade ¢ de conservagdo dos solos. © apego a term a partir da nova cafeicultura ¢ a relative depen Qéncia agquela atividade, além da necessidade de se immatzar contra os efei- tos vatasteStioos das geadas, tém favorecido a alco de padities téenicos de cultivo aconselhados pelos institutos de pesquisa. Na Costa do Marfim & importante © passado, prenhe de tradig6es cudturais que se constitul sure o8 impedimento & répida implantagzo dos métodos de cultivo mais avangados; portanto, a superioridade da cafeicultura paulista reside nas suas técnicas de produpfo bastante aprimoradas, enquanto que em ambas as regides as relagBes de trabalho, em sua maioria, so de natureza arcaica, sobressaindo sérios pro- blemas sociais. O cafeicultor paulista encontra no recente uso da maquina tim meio excelente de produgao; jf no caso marfiniano, o problema é grave, uma vez que a maior corrente de mfo-de-obra, além de ser estrangeira, 6 instdvel e tempordria, Na parte da comercializago, pelo que ficow estudado anteriormente, ela & menos dispendiosa em So Paulo do que na Costa do Marfim, Basta Jembrar 0 fato de o fraitant usar seus proprios meios para chegar 40 produtor, ‘0 que deve ser explicado pela pouguissima existéncia de cidades com maxima infra-estrutura capaz de tornd-las pontos de contato com 0 mundo exterior. Entretanto, nesse pais africano, o sistema de comercializagao através di caixa de estabilizagdo, torna estéril o mecanismo interno de concorréncia, protegendo methor o produtor das oscilagSes constantes do mercado inter- nacional que as casas exportadoras costumam servir-se para aumentar seus beneffcios, mantendo uma estabilidade que pode ser vista como um freio a especulago dos exportadores, sendo todos controlados pelo érgfo oficial, ¢ também como um desestimulo 4 competig#o dos produtores, favorecendo patadoxalmente 0 equilibrio intemo da produgio. 34 em So Paulo, a poll- tica € conduzida diferentemente, Ela é formulada com cautelas excessivas em relago 20 nivel dos pregos pata 0 produtor, procurando também favo- recer oulras estruturas econdmicas (cana, soja, gado, ete,), a fim de cosrigir a margem de riscos relacionados ao setor cafeeiro, embora esse fosse ¢ con- tinue a ser um dos setores estratégicos para 0 processo de desenvolvimento econdmice. Para atingir uma répida normalizagio da sttuagdo cafecira foi ne- cessério que se implantasse uma politica de reformulagto que se baseou na aplicagtio de incentivos adequados como © prego estimulante ao pro- dutor, incentivo direto que, sem divida, tornou-se um instrumento efloa aliado a outros subsididrios como créditos, suprimento de “insumos” a pregos “‘vigiados”, e acina de tudo a promessa de uma politica estével. Observa-se que a resolugio dos problemas das respectivas econo- inias esté intimanente ligada 4 consisténcia propria de suas estruturas, Assim, as diferencas entre ambas as dreas s40 0 resultado da ordenagao espacial de modos de produc particulares, onde o arranjo das espagos agrdrios depende 98 dos interesses de economias voltados para mercados externos, Portanto, a organizago dos espagos locais reflete uma organizagio econdmica de ambito internacional. Mas, no arranjo do espago local paulista, no que diz. respeito as modificagSes ocorridas, os interesses econdmicos determinaram a necessi- dade da diversificagtio maxima de atividades agr{colas para a redugo da mar- gem dos riscos, fazendo com que o café se restringisse Aquelas dreas onde © zoneamento ecoldgico determinou um conjunto de caracteristicas ideais para © novo plantio. Diversamesite, no arranjo do espago local marfiniano re- conhecese uma varidvel importante sobre a determinagfo dos. interesses econdmicos: a disponibilidade de reas incultas para a expansio de noves plantagSes. Todavia, considerando a inesgotdvel possibilidade de andlise que um estudo comparativo propicia, procuramos de forma critica os elementos de explicago dos diversos fatores que presidiram a instalagiio ¢ expansfio do café nas duas dreas, salientando por tltimo o surgiento de novas formas organizacionais do espago, dando também, por exemplo, nas cidades, ums forte expresséo. Na Costa do Marfim 0 café, ao chegar, encontrou um quadr de aldeias que, a principio, solidificou-se pelo agrupamento forgado ov esponténeo, cm fungdo das necessidades da instalago da nova cultura; em Sao Paulo, salvo os trechos do Vale do Paratba ¢ do quadrilétero agucareiro, as cidades surgiram predominantemente em fungao do café (casos do oesie paulista ¢ norte paranaense). Finalizando, devemos ressaltar 0 papel de dependéncia que ambas as regides produtoras de café tém no que diz respeito comercializagiio do produto em relacao aos importadores do mesmo, que so os paises industria lizados europeus € norte-americanos. Apesar de existir desde 1962 a OIC-- (Organizagdo Internacional do Café), este 6rgio no conseguiu ainda defender economicamente os paises produtores, como provam ainda recentemente as propostas do México, para que os produtores de café se unam de fato para a defesa do produto. ! 1 De acordo com o noticirio internacional (O Ustado de S, Paulo, Jornal do Brasil, ete.) as duas tiltimas reunides realizadas em agosto de 1977 em México-city ¢ Nairobi (Kenya), apenas sorviram para mostrar mais uma ver a fragilidade dos parses designa- dos como subdesenvolvides, 100 Africa: Revista do Centro de Estudos Africanos da USP, 2. 1979. PERSONAGENS E DESCRICAO NO ROMANCE DE CASTRO SOROMENHOl Carlos Alberto lannone Castro Soromenho utilizou, na descrigfo das personagens masculinas européias dos romances Terra Morta, Viagem @ A Chaga, mamero signifi- cativo de figuras de retérica, A determinagfo: destas, nos varios momentos descritivos, revela ser Castro Soromenho um escritor substancialmente meta- forico, empregando em plano secunddrio as demais figuras, isto é, a sinédo- que, a catacrese, a metonfmia e a hipérbole. A antitese ¢ o pleonasmo sao pra- ticamente desprezfveis em vista da rara freqiténcia. Reforga o cariter metafo- rico da descrigfo o fato de a catacrese ¢ a hipérbole poderem ser consideradas variag6es da metéfora, como, alias, assinala Heinrich Lausberg.2 Por outro lado, dentre os pormenoces descritos, h4 0 predominio da vestimenta, dos alhos, do rosto, do iso, do tronco, este constitufdo por pei- to, dorso, ombros ¢ abdomen, e da boca. A estes seguem, em segundo plano, as milos, a estatura, o cabelo, o bigode, o olhar, as pernas, a testa, a calva, a ‘voz, © pescogo, o narlz ¢, por ditimo, a orelha. A preferéncia por aqueles pos- menores na descrigdo revela a intengdo de Castro Soromenho de colocar dian- te do leitor dois grupos de personagens: de um lado, seres marcados pela fa- diga, miséria ¢ abandono, conseqiiéncia da luta pela sobrevivéncia ¢ contra as adversidades do meio - os colonos-comerciantes; do outro lado, uma mi- 1 Trate-se da sintese da nossa dissertagdo de mestrado, Personagens ¢ Descrigdo no Ro- mance de Castro Soromento, apresentada a disciptina de Literatura Portuguesa da Var culdade de Filosofia e Ciéncias Humnas da USP, sob a otientagio do Professor Doutor Massaud Moisés, 2 Manual de Retorice Literarta. Fundamentos de una cisneia de ta Litereture, Madrid, Gredos, 1966, voll, p.66 ¢ 80. 107 ——=—_™ °° °° © 4 hori, sempre insatisfetta, que vive, contudo, em condigdes invejavelmente suiperiores aos demais — os funciondrios administrativos. ‘A descrigio dat personagens dos romances da segunda fase literéria de Cestie Soromenho, que compreendé 9 romances: jé mencionadot, no s process integralmente, numa Gnica apresettiaggo, come se fosse um quadro que cferecesse uma imagem completa. Faz-se, isto sim, através da associagao de pequenos fregmentcs, através do que o escritor pretende representar, none primeira visio, a decrepitude de colonos-comerctanies ¢ furicionérlos da Administrago. Entretanto, a ocorréncia sistemética de figuras do ret6- rica, notadamente de metéforas, decorre, com toda a certeza, da dificuldade de Castro Soromenho permanecer totalmente objetivo nas descrigBes. Dian- te do exposto, nfo causaré estranheza se se verificar, em alguns momentos, aexisténcia de metéforas que se impem de modo direto ¢ imediato ac Jeitor (orépria da poesia}, com tode « sua carga semantica ou conotativa, 3 Bs. teremos, entZo, diante de uma clareira postica que permiticé que se fale na possibilidede de ume visto pottica da realidade africana por parte do eseritor. A vestimenta, que engloba um ntimero ralttivemente grande de pegas, mesmo no caso das personagens de Terra Morta, Viragem e A Chage, ‘em que se verifica ilimitada pobreza material, tem a fongiio primordial de classifica: ou desclassificar as personagens, isto ¢, destazcdlas ou obscure- cédas, Tem sigaificade em fungio do seu conjunto, porque é exalamente através do todo que a compde que se pode cheger 2 idéia de personagen estereotipadas, isto é, modelades segundo o mesmo padrfo, embore si joitas @ viatiages de grau, tanto do ponto de vista exterior (aspectos feno- (pices), como do ponto de vista interior (aspoctos genotfpicos), Entretento para efeito de andlise torna-se necesséria # sua divisio, segunde @ freqiéncia © & intensidade da descrigto das pegas da vestiments, Desta forma, ter-se-ia, sespectivamente, de urn lado, os elementos farda (incluinde o déiman), ci pacete ¢ botes, do outro lado, calge, camise, temo, chapéy, boné, sepatos ¢ chinelos, atestando a existéneia dos dois grupos tipolégicos assinalados: an- teriormente. 2 "A Hngnagem poética. & nietifosa’” In: Massaud MoisSs, 4 Crizeiio Potice, Sto Pav Jo, Melhoramentor, £277. p-LL-138, 102 ‘A Sarda constitui o principal elemento caracterizador do pessoal ad- ministrative, evidenciando a preferéncia de Castro Soromenho por um ¢le- mento que tende @ generalizagio. Em muitas passagens, contudo, a farda perde o cartter padronizador e, a0 contrério, presta-se a efeitos préprios, A particularizagfo de personagens. E 0 caso, para exemplificar, de Albano. Sampaio, que 2 partir de um dado momento, aparece “sempre impecdvel ng farda branca”4 rompendo’ com o costume generalizade de usi-ta ape- nas nos feriados ¢ domingos. Neste caso, deve-se levar em conta a intencio- nalidade do aspirante que usa essa veete para iludir e conquistar Maria, fi Tha’ mulata do comerciante Alfredo Anacleto, desejosa de ascensio social através da unio com um branco, Por essa razdo, em outro momento, em- prega Castro Soromenho @ construgo figurada (sinédoque) “avistaram. ao Tonge, estrada sbaixo, a farda branca do Sampaio"S Jimitando a descrig#o Aquilo que se apresenta mais significativo. Neste caso, a cor branca adquire valor simb6lico, identificando-se com o anseio de Maria. A. descrigado do secretario Jorquim Bonifacio Pereira faz-se através da unigo de alguns pormenores que se repetem em varios capitulos do romance ‘A Chaga, A partir de um elemento generalizante, a farda de céqui, Castro Soromenhe enfatiza, depois, o uso das botas brithantes ¢ do capacete, que en- contram expressiva sfntese descrita por meio do emprego da sinédeque em: “Capacete ¢ botas comentav Vasco Serra encostado 2 ombreira da porta da Secretdria” 6 LEsses pormenores constituem sfmbolo de autoridade ¢ po- der. Entretanto, as botas esto a indicar, para além das simples aparéncias, a possibilidade de, a qualquer momento, a personagem poder pisotear os seus companheitos e/ou subordinates. Confronte-se, a propésito, a passagem em gue, diante do secretério, o administrador Santiago da Silveira adverte 0 chefe de posto foie Deuséé, Parece-rios, ainds bem sugestivo o contraste constitué do pola alternfucta do claro-escure das botas luzentas e da “aba|do capacete que lhe ocultara 2 cara”,? O escuro provocado pela aba do capacete nfo. “se justifica apenas como me atitude de protecio da personagem ante as condi- Ges climéticas, Bonffécio Pereire esconde o rosto, porque protende diluir 4 4, Chiage, Rio de Janeiro, Civilizag&o Brasileira, 1979. p.133 3 Ioid, #482. 6 hid. v.20. + Bid. P20, 103 uma provavel certeza da vulnerabilidade do seu cardter. Receia revelar no semblante qualquer vestigio de atitudes igndbeis por ele praticadas, como a conhecida (embora ele merega ignorar 0 conhecimento do fato pelos demais companheitos) venda clandestina de “cabecas de alcatrao”, realizada no pas- sado, Nas descrigdes em que aparecem terno, camisa, calga, chapéu, chinelo etc., com nimero reduzido de figuras de retdrica, a inteng4o de Castro Soro- menho foi revelar no individualidades, mas um dos tipos comuns aos seus romances: © colono-comerciante. Desta forma, encontram-se muitos casos de personagens “em mangas de camisa”,8 “de mangas arvegacadas",9 ou “com a fralda da camisa fora das calgas”,!0 sacudindo “a poeira dos fun- dithos das calgas de cotin”,{1 “andando aos saltinhos sobre tacdes al- tos”,12_ ou arrastando “os chinelos”,!3. e, firialmente, com a cabega co- berta por chapéu ou boné, conforme a necessidade de protecdo contra o sol escaldante c os insetos, como em Francisco Bernardo “de boné na cabega calva, por causa das moscas”,!4 em Manuel Santana de “chd- péu ensebado posto as trés pancadas”!5 ¢ ainda em Alfredo Anacle- to” com o chapéu amarrotado atirado para a nuca””.16 © cachimbo e a chibata aparecem em algumas personagens, como seu prolongamento natural. O uso da segunda parece ser circunstancial. Quanto ao do cachimbo, parece indicar assimilagao por parte do europeu dos costu- mes dos povos africanos, caso do comerciante Francisco Bemardo em Terra Morta, ov a tendéncia da personagem a reflexdo, ao exame dos seus proprios pensamentos ¢ sontimentos. Neste caso, destaca-se o comerciante Albino Lourengo de A Chagu, dono de uma filosofia de vida calcada nas suas amargas experiéncias, colhidas na forma de vida a que optou ou que lhe impuseram. 8 Terra Morta, Lisboa, $4 da Costa, 1976. p.197. 9 Ibid. p61. 10 A Chaga. p.169. 11 bid. p49, 12 Terra Morta. p.31. 13 A Chaga. p.l4 14 Terra Moria. p.31, 15 A Chaga. p.28, 16 Terra Morta. p31, 104 A preocupagao de Castro Soromenho € oferecer a descrigdo das perso- nagens masculinas européias de maneira quase fotogréfica. Para tal, con- centra-se, de modo especial, nas partes que compdem 0 rosto. A descriggo contudo no é pormenorizada, mas bem significativa. No rosto em geral ¢ em algumas das suas partes mais expressivas, reflele-se oresultado de todas as ex- periéncias vividas pelas personagens, sugerindo por vezes suas camadas interio~ res © que por si s6 justifica a énfase que o escritor dé a esses elementos. As personagens masculinas européias apresentam basicamente duas variagdes pict6ricas no rosto, 0 vermelho e o verde, também expresso, pelos adjetivos esverdeado ¢ citrino, O fluxo sanguineo na face é, num primeira caso, consegiiéncia da personatidade nervosa ¢ da invitabilidade de algumas personagens, caso de Alfredo anacleto, “muito vermelho",17 — mordendo as pontas do bigode, ou roendo a “ponta da boquitha de cana” J8 ¢ o che: fe de posto Joxo Deusdé, com 0 “cardo vermelho, olhos faiscantes.” 1° Nas démais, 0 vermelho ou provém de situagdes' de momento, na maioria das ve- zes climéticas, como acontece com 0 administrador Santiago da Silveira, com a “cara afogueada”, “congestionada”, “o cabelo Joiro escurecido pelo suor”, “empastado na testa"20_cujos participios (as vezes metéforas) sugerem a situapdo degradante'em que se encontra, ou decorse do estado doentio da personagem, alternando-se com o verde: “o calor e tensiio nervosa afogues- vamhe o rosto esverdeado de doente de figado.21 Esta ultima citagdo diz rospeito ao aspirante Ant6nio Alves, de sonsibilidade rude, haja vista a ma neira violenta e descortés com que se atira A conquista e a posse de Paul Os colonos-comerciantes Manuel Pancério, Jos¢ Calado e Manuel Santana também sio descritos com o rosto esverdeado. © cardter sugestivo da met4fora faz-se presente na descrigfio de Al- bano Sampaio, com o rosto “de um branco encamigado.22 A met4fora “encamiyado” presta-se para enfatizar o cardter cruel da pérsonagem. Cruel, contudo, no sentido de insenstvel. De fato, como j4 assinalamos, o aspirante pre- 47 Ibid, p.135, 18 Ibid. p.135. 19 A Chaga. p.37, 20 Ibid. p.66, 23 Viragem, Lisboa, Ulisséia, 1975. p.74. 22 A Chaga.p.118, 105, tende conguistar ¢ seduziz a mulata Maria, iludindo-a corn falsas promessas, insens{vel, portanto, aos sentimentos da menina. O adjetivo, empregado meta foricamente, macula, em iiltima andlise, 0 rosto de Sampaio, demunciando as suas reais intengbes, ‘A dectepitude e, por conseqii€ncia, a auséncia de iluses, quanto a melhoris das condiges materiais ¢ sociais, apareciam estampadas norosto dos ccionoscomerciantes, de que é excelente exemplo José Paulino, por ter sido bastante explorado pelo romancista do ponto de vista da deserigfo. Castro So- romenho oferece um retrato completo do comerciante como se pode observar através da unitio de pequenos fragmentos: “José Paulino sorria, a mao larga, nodosa, a taparthe a boca desdentada, as pélpebyas a tremer sobre o riso mali- cioso dos olhos enevoados”;23 “sorria, a boca rasgada, de orelha a orelha, a gengiva nua entre os lébios finos escumados nas comissuras, meneando a ca- bega”; “desamorteceram os olhios de José Paulino, brilharam [4 no fundo das Orbitas cavadas, como se caveira, a pele pergaminhosa enegrecida nas o- Iheiras”;25 “a sorrir 4 boca, 0 queixo erigado de barba branca de uma se- mans’”;26 “o sanque alastrouthe na cara até as orelhas, afastadas de créneo despelado, amarelecido, come bola de marfim velho”27 ¢, finalmente, como tlimo texio, uesta longa mas necessiria mostragem que se destaca pela riqueza semantica, “os seus labios murchos moveram-se fechados, como sc mamassem”’.?28_ Num primeiro contato com esses textos deparamos de pronto com um contraste entre a passagem “as pélpebras a tremer sobre o riso malicioso dos olhos enevoados” ¢ as demais, reveladoras do grotesco da personagem. A referida descrigfo parece constituir uma clareira postica, em vista da souoridade alcangada através da arterndncia de grupos consonan- tais sinyples, ¢ em especial, pela riqueza conotativa da metéfora direta, “ene- voados”, sesponsfveis pelo ar onitice de attibutos fisices parece ser a nota marcante, Dit-se-ia que os vestigios de todos os sofrimentos experimentados por Joss Paulino para tentar concretizar os sonhos do passado estariam sepie- 23 Ibid. p47. 24 Bid. P.92. 25 Ibid, P-95. 26 Bid. 9.98 © 96, 27 Mid. p.96, 28 Ibid. 9.105, 408 sentados, no presente, exteriormente no seu fisico. Frustado, restathe pela morte, cujos ind{cios se localizam nas “6rbitas cavadas, como de caveira”, na pele “pergaminhosa enegrecida nas olheiras” ¢ no créineo “‘amarelecido, como bola de marfim velho”. ‘A caréncia ffsica também est4 presente na boca e partes continuas, co- mo atestam as desorigdes dos colonos-comerciantes. Sendo assim, Francisco Bermardo apresenta a “boca desdentada”,29 José Paulino, “a boca aberta num riso de gozo, s6 gengiva ¢ lingua”30 ¢ Atbino Lourengo, “a boca enco- vada"31_¢ “um sorriso inefével nos labios Ifvidos” 32 Chama atengao do leitor atento o tratamento dado por Castro Sorome- nho na descrigdo do administrador Santiago da Silveira, cuja nota predomi- nante é a horizontalidade dos tragos. Apresenta um sorriso alongando-lhe “o bigode fino, uma lamina na borda do lébio delgado”,33_ e os “olhos estreitos como fio de lamina”.34 Qual a razao que teria levado 0 escritor a descrever sua personagem utilizando apenas linhas horizontais? Obvia- mente, uma figura horizontal limita o campo de observagio. F plana e opde-se & disposta verticalmente, isto é, em profundidade. Tudo leva a corer que, através da descrigto, Castro Soromenho pretenden oferecer a representago de uma personage em profundidade psicolégica, sem com- plexidade c, al6m disso, fechada, preocupada com a possibilidade de se tomar vulnerdvel. Entre os Srgios que se situam no rosto, os olhos so os que apresen- tam muior expressividade, prestando-se, na maioria dos casos, A-revelagtio do interior das personagens. As construgbes metaforicas “olhos acesos de raiya” 35 referindo-se a Alfredo Cardoso, ¢ “olhos em brasa’.36 a viladas, sugerom tipos de personalidade nervosa, facilmente irritéveis, come que a indicar individuos prontos a cometer impmidénelas, a exterminar com tudo ¢ com todos, Néfo hf, por outro lado, referénefa alguma a cor dos olhos 29 Terra Morta. p.50. 30 A Chaga. p.107, 31 Mid. p.404, 32 Bbid. p.187, 26, 35 Ibid. P46. 36 Terra Morta. .13, 107 dos comerciantes, embora trés funciondrios administrativos os possuam azuis: Albano Sampaio, Jaime Silva ¢ Anténio Alves. A descrigfo do primeiro, com os “olhos azuis vivos e brilhantes”, 37 ocorre no mesmo instante em que a- presenta um riso torcido, disfargando-o com uma das mos, numa evidente a- litude de cautela e que implica, ainda, em falsidade. Parece ser este, também, © valor simb6lico do-azul na descrigdo dos olhos das outras personagens, co- mo gue @ indicar individuos ardilosos, falsos, prontos a lograrem seus objeti- vos a qualquer custo, Acrescenta-se a isto a possibilidade de se entender azul com uma cor que transmite a sensagao de mistério. E veja-se a atitude e- nigmética com que Sampaio envolve a filha mulata do colono, Por fim, apare- cem os olhos que em determinadas circunstancias, comegam a luzir. O britho momenténéo dos olhos, por exemplo,de Joaquim Bonifacio Pereira, Jaime Sil- va ¢ Antonio Alves, passam a significar cobiga. Os othos tornam-se penetran- tes, ameagadores, violentadores, fitando com atengiio e interesse 0 objeto nf- queis, notas e mulheres, Nas descrigGes das partes secundérias do corpo, que compreendem membros, incluindo méos, dedos ¢ pés, tronco, abrangendo peito, dorso ¢ es- tatura, a metdfora constitui a principal figura responsével pela associagdoentre descrigdo fisica e revelagao psicologica das personagens. Em Jaime Silva, as maos revelam a sua avidez pelodinheiro, levando a personagem a atos descabidos que a indispoe com os companheiros: “disse que ganhou, descansando as mfos papudas, como sapos, sobre as notas © os niqueis, espiando-os com olhar matreiro, idiotamente feliz.38 A passa- gem refere-se ao momento do jogo de cartas, no infcio do romance Terra Morta, A situagdo em que surpreendemos Jaime da Silva, Joaquim Améri- co, Valadase Vasconcelos ieveste-se de muita importéncia, se entendermos 0 jogo como atitude reveladora de uma oposigdo entre as personagens. 1 atra- vés du divistio das personagens em duas fungies que se vSo resseltando os aspectos negatives de Jaime Silva, contra 0 que se unem todos os demais, © que se mantém inalterdvel do infcio ao final do romance. No texto acima transorito, a metafora “papudas” indica, como afirmamos, a avidez da perso- nagem pelo dinheiro, aspecto sugerido também pelas outras figuras (pleonas- iho e antitese) em “espiando-os com olhar matreiro, idiotamente feliz”. 37 Bid. p.118. 38 dbid. p.4. 108 Decorre dat proceso de animalizagtio do homem, expresso pela compara- fo “como sapos”, responsivel pela repugniacia que todos passam a ter de Jaime Silva, Num outro plano, as comparagbes, destacando o abdémen-vo- Iumuso de certos funciondrios, sugerem tipos preocupados quase que ex- clusivamente com a valorizaggo daquilo que a vida Shes proporcions de bens materiais. Bstiio| neste caso o secretirio’ Jaime Silva ¢ 0 administrador Gre- g6rio’ Antunes, ambos em Terra Morta, Castro Soyomenho utilizou-se, neste particular, da conhecida formula ‘de representar fisicamente, os que se situam em posi¢do social privilegiada, ou os que protendem ser abastados economi- camente, através de macigos ¢ arredondados ventres. A explicagéio para tal fato decorre da maneira simples de conceber a obesidade como sindnimo de prosperidade. 0 tipo magro e alto, com rarfssimas excegdes, revela-se psicologicamen- te nervoso € exaltado, com sentimentos tumultuosos ¢ estremamente vari- Aveis, Valadas, em Terra Morta, representa bem o tipo que, do ponto de vis- ta morfolégico, se denomina lontitipo.39 Move-se ¢ gesticula desordenadamente, torce as mios com deses- pero, cerra os punhos ameagadoramente, atira as pemas em longos passos, treme. As figuras que se situam em segundo plano, na maior parte das des- ctiges dos colonos-comerciantes, em especial do pormenor méos, revelant principalmente 0 seu estado de debilidade fisica que, por sua vez, serve como base para que se estabelega um indice da sua condicao social. José Paulino, em A Chaga, em mais de uma oportunidade é escrito como tendo a “mio nodosa”,40 — servindo-se Castro Soromenho da forca expressiva da cata- crese para mostrar a situagdo da personagem. ‘Em sintese, a descrigSo evidenciou que o autor de Viraget viu as per sonagens masculinas européias dos seus romances distribuidos em dois grupos socioldgicos com caracterfsticas bem marcantes e, por vezes, diferencia doras. Para Castro Soromenho 03 funciondrios administrativos so indlvi- duos de formagifo moral deficiente, despersonalizados ¢ sem carter, respei- tadas as pouguissimas excegdes, como por exemplo, Joaquim Américo em Terra Morta, aliés, personagem em nenhum momento descrita, talvez por ser idcalizada, A ganancia, 0 roubo, a crueldade, a insensibilidade, as frustragdes no plano amoroso e sexual, a compensag4o dos matogros por meio da impo- 39 Keht, Renato. Pstcologia da Personalidade. 7.cd. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1975. p.305. 40 A Chitga. B47, sigo da autoridade atribufda em fungdo do cargo administrativo, as atitudes ignominiosas decorrentes, na maioria. dos casos, do abuso da autoridade, so os aspectos interiores dessas personagens, sugeridas através da descri- go do seu exterior. Pode-se afirmar, portanto, que as personagens encat- regadas da Administragdo sto estereotipadas tanto do ponto de vista dos aspectos fenotfpicos, como do ponto de vista dos aspectos genotfpicos, respeitando-se pequenas e sutis variagSes de grau. A mesma afirmagio € v4- lida para os colonos-comerciantes. Pioneirosida colonizagao em Angola, so individuos frustrados e desiludidos, Ambiciosos como os funcionérios, rudes € desqualificados, encontram-se em condigdes de inferioridade em relag4o a0 outro grupo, social e economicamente. De um modo geral, as personagens masculinas européias nfo conseguem vencer 0 meio hostil em que estdo situadas ¢ seguem 0 destino que se hes tra- gou. Encontram-se ou vencidos pela inadaptagdo ao meio ¢ a0 clima, chegam- do, por vezes, 4 doenga, ou entregues & luta desesperada pelo dinheiro, para te tentar, a qualquer custo, escapar da situagao constrangedora em que se encon- tram. Os comerciantes tém rafzes mais profundas no solo africano, Absorvem alguns costumes, uniram-se 4s mulheres nativas, masndo se libertaram(no que se identificam com os funcionérios) da idéia, impossfvel de ser concretizada, de regressar a Portugal. Em consonancia com © que ficou dito ao longo destas paginas, pare- ce licito inferir que Castro Soromenho tem uma visio realista de suas perso- nagens: pretende ser fidedigno, verossimil, procura uma situagao propria aos seus intentos, evitando, contudo, asimplicag6es polfticas, embora existam subjacentemente. Por ovtro lado, verificamos que Castro Soromenho utilizou meta foras que se imp%em de modo direto ¢ imediato .a0 leitor, dando assim toques liticos & descrig#o das personagens. Essas passagens Ifricas nfio afas- tam o autor de Viragem dos demais escritores realistas ¢ neo-realistas portu- gueses que, como ele, pretendendo fixar a realidade da maneira mais objetiva possivel, revelacam um indisfargdvel lirismo em sua obra de ficgao. Com bave nos aspectos examinados, podemos conciuir que a visio de mundo que Castro Soromenhe.apresenita nos romances Terra Morta, Viragem ¢ A Chaga, Jevando-se em conts as personagens ¢ a descrigo, ¢ maniquefs- ta, Para Soromenho, as personagens distribuem-se em dois grandes gru- pos que s¢ caracterizam por princfpios opostos, o do bem, ¢ do mal, 110