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Grupo de Trabalho Biopolítica e Comum

O COMUM NO CAPITALISMO MAQUÍNICO

Guilherme Alfradique Klausner1 e Renan Nery Porto2

1. INTRODUÇÃO
Ao analisar o capitalismo contemporâneo para encontrar as melhores estratégias de
subverte-lo, é contraproducente nos pensarmos exteriores aos problemas que criticamos nesse
sistema de produção e trocas que é cada vez mais global. Corremos o risco de
inconscientemente nos cobrirmos com uma espécie de membrana que falsamente dá-nos a
impressão de imunidade à contaminação das relações capitalistas. Um equívoco gerado por esta
posição é a expectativa de que tal sistema poderia ser destruído sem grandes dores para os
sujeitos, que não se percebem implicados nessa rede. Ao contrário, é mais interessante buscar
perceber que destruir as relações que sustentam o capitalismo é também destruir nossas próprias
vidas como estão configuradas e conectadas a esta rede – nossos desejos, necessidades, sonhos,
etc. Assumindo a responsabilidade por isso – responsabilidade aqui num sentido positivo
enquanto demanda de responder às situações contingentes – podemos nos servir de conceitos
elaborados por Deleuze e Guattari para pensar o capitalismo como um sistema que articula
muitos sistemas, um agenciamento de agenciamentos3 , que organiza as conexões que podem
ou não ser estabelecidas entre diferentes instituições, grupos e pessoas. Tarefa na qual o Direito
tem um papel bastante ativo.
Uma determinada forma de organização social deve, para se transformar em verdadeira
instituição social, não só quebrar as resistências dos diferentes elementos que ela correlaciona,
que não são convergentes, mas também superar a inércia destes elementos que são fundadas em
sentimentos de conexão com outras instituições, organizações e – de uma forma ainda mais
ampla e não por isso menos verdadeira – forças sociais. Exemplo disso é a dificuldade que se
encontra para uma nova organização social se articular com componentes já inseridos nas várias
relações travadas costumeiramente, em razão das práticas da ordem social presente (e aqui se

1 Mestrando em Filosofia do Direito no Programa de Pós -Graduação da UERJ.


2 Mestrando em Filosofia do Direito no Programa de Pós -Graduação da UERJ.
3 LAZZARATO, 2014, p. 45.
fala, como se verá mais à frente, com base no exemplo do mercado La Salada em Buenos
Aires). Afinal, os componentes da ordem social, em especial as pessoas – mas também outros,
como as associações comerciais, por exemplo –, têm que responder a outras demandas
decorrentes da necessidade de provimento de suas condições de subsistência em um mercado
competitivo. Intencionalmente ou não, fato é que essas necessidades (e seus geradores) não
deixam tempo suficiente, ou mesmo ânimo o suficiente, para o engajamento por parte da pessoa
naquela nova atividade, o que também é um efeito afetivo cientificamente passível de estudo
dessas mesmas relações. As organizações capitalistas – Estado, mercado e suas simbioses –
manipulam forças, a do dinheiro entre elas, para facilitar a tarefa de organizar os corpos
humanos e não humanos em diferentes dispositivos, inclusive deslocando-os geograficamente 4 .
Mas essas forças não são postas em movimento para atuar apenas negativame nte,
coercitivamente. Elas também produzem subjetividades com desejos e necessidades de se
inserir nessa teia.
A partir desta abordagem, o que nos perguntamos é como pensar a produção do comum
e de comunidades que subvertam as redes capitalistas que agenciam nossos corpos e desejos?
Com exceção de casos como os dos zapatistas, dos curdos, e de outros grupos, indígenas e não-
indígenas, que estão territorialmente e culturalmente menos envolvidos na cadeia de reprodução
das formas capitalistas, produzir comunidades, principalmente para os habitantes das cidades
contemporâneas, dificilmente se dará de modo exterior às redes capitalistas. Essas comunidades
podem ser capazes de criar formas de se relacionar e trocar diferentes daquelas baseadas na
extração de valor, criando ambientes e redes onde seja possível produzir outras subjetividades,
memórias e experiências através da própria criação de redes de subsistência dos sujeitos
envolvidos. Ao mesmo tempo, no entanto, elas terão que lidar com as inércias divergentes dos
corpos que elas tentam envolver.
A partir dessas premissas e desse questionamento, nos propusemos a estudar um
exemplo e a investigar o método que nos permita compreender como este fenômeno, a criação
de comunidades marginais, mas inseridas no coração da ordem capitalista das democracias
liberais ocidentais, pode ocorrer.

2. POR UMA TEXTUROLOGIA DO PODER


Uma questão problemática no livro do Comitê Invisível, Aos Nossos Amigos, é a
tendência para um “fora”. A ideia de organizar comunidades autônomas que funcionem à parte
dos circuitos capitalistas. Esses agrupamentos podem acontecer de modo intensivo e ter uma

4 Como descreve, por exemplo, David Harvey no livro O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
funcionalidade estratégica em determinados contextos, como é o caso citado no livro dos
acampamentos do movimento 15M na praça Puerta del Sol, em Madri. Porém, é difícil que
essas organizações tenham tanta extensividade quanto a dos zapatistas e curdos, a ponto de
conseguir manter a sustentabilidade do grupo. No caso dos zapatistas e curdos, existe o
elemento territorial como base central da organização. Nos movimentos urbanos, isso é muito
mais difícil quando o resto da cidade não compartilha das mesmas ideias e também quer usar
aquele espaço de outras maneiras. Cabe também questionar o quanto esses processos são
desejáveis já que correm o risco de acabar como localismos, isto é, que não conseguem
expandir-se para além da própria localidade. O problema da construção de autonomia hoje não
tem como contornar a questão do trabalho e do emprego, que é o cotidiano da vida nas cidades.
No livro Mundobraz, Giuseppe Cocco diz que “organizar a luta (a ruptura do tempo
como conquista do porvir) é o mesmo que organizar a produção”5 . No posfácio que ele escreveu
ao livro de Antonio Negri, Marx além de Marx, Cocco diz que Negri foi além de si “ao
desdobrar a autonomia operária em termos de autovalorização diante de um capital que não
mais organizava a cooperação social produtiva, não mais podia fazê-lo, mas apenas a
comandava desde fora, de maneira cada vez mais parasitária”6 . O capitalismo não consegue
mais organizar o trabalho como quando disciplinava a produção nos confins das indústrias; os
modos de produção vão se reinventando de modo difuso nas cidades (camelôs, designers,
prestadores de serviços, empreendedores) e o capitalismo consegue explorar e controlar isso.
No livro O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari argumentam que é disso que o capitalis mo
vive e se alimenta, desses fluxos descodificados de produção sob a forma do capital-dinheiro e
os fluxos descodificados do trabalho sob a forma do “trabalhador livre”7 . Daí a importância do
debate suscitado pelo problema do aceleracionismo, principalmente a partir do Anti-Édipo, que
coloca esse problema definindo o capitalismo como a produção cada vez mais alargada de
fluxos descontrolados e desterritorializados, que no entanto precisa ser contida em sua carga
esquizofrênica, devendo assim motivar um movimento com uma mão (desterritorialização) para
com a outra operá-lo dentro das margens do controlável (reterritorialização). Outra coordenada
do problema do aceleracionismo circunda a produção de tecnologias sociais que cada vez mais
podem propiciar dispersão e entropia e menos dependência de centros de produção e
concentração financeira, no entanto, as “receitas” dessas tecnologias são privadas. Direitos de
propriedade intelectual, por exemplo, são questões que o aceleracionismo têm de enfrentar. A

5 COCCO, 2009, p. 93.


6 COCCO, 2016, p. 346.
7 DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 51.
implosão final das enclosures permitiria uma viralização do “faça você mesmo” oriundo da
cultura de resistência punk (depois reprocessada pela cultura digital do software livre, pela ética
hacker, pela defesa dos commons imateriais) e uma dispersão maior dos centros de produção
que também são pontos de condensação de teias de poder, disciplina e valor. O trecho do Anti-
Édipo mais citado pelos aceleracionistas aparece na metade final do capítulo 3:
[…] haverá uma via revolucionária? — Retirar-se do mercado mundial […] Ou ir no
sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da
descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam
suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados .8

Os estudos realizados pela pesquisadora argentina Verónica Gago nos ajudam a pensar
os processos de construção de autonomia a partir do trabalho da cidade. Ela pesquisou o
trabalho dos imigrantes bolivianos nas oficinas têxteis nas periferias de Buenos Aires e o
funcionamento do mercado de La Salada (uma grande feira no centro da capital argentina). A
partir disso, Gago fala como a organização do trabalho informal e precário, os circuitos
distributivos e produtivos atrelados a processos sobrepostos da globalização, as oficinas de
capacitação e autoformação, e os empreendimentos sociais nos mais diversos modelos em meio
à economia popular, são por si próprios um modo de liberdade produtiva e resistência que
disputam a produção de subjetividade nas condições neoliberais, inclusive quando elas se
apresentam e se reproduzem dentro dos arranjos neodesenvolvimentistas (em termos de difusão
de novas teias de consumo, renda e crédito). Nesse contexto, não existe mais uma jornada de
trabalho fixa e o trabalho vai se confundindo com a própria vida social, cuja produtividade
passa a estar atravessada pela lógica da empresa, do empreendedorismo, da eficiência total do
tempo empregado na vida-negócio9 . Percebemos que a racionalidade neoliberal não é tão
homogênea e controlada como se fosse uma “nova razão do mundo”, não é tanto uma ideologia
superior que manipulasse as mentes das pessoas, mas uma corporalidade inteiramente interna
às redes de produção encontradas no chão da feira, das lojinhas, das negociações, dos sonhos
de cada um. É nessa disputa de racionalidade que os trabalhadores conseguem construir alguma
autonomia para si, no plano das estratégias fragmentárias “desde baixo” (múltiplos e sincréticos
rearranjos do tecido existencial) e não de uma contra-hegemonia que procede unitariame nte

8 Ibid., p. 318.
9 “En principio, cuando se habla de los talleres, clandestinidad se le llama a la yuxtaposición de una serie de
condiciones de trabajo de extrema precariedad que mixturan, en un contexto de crecimiento de la economía (tanto
formal como informal), irregularidades desde la óptica de la regulación del trabajo formal, contractual, con
ilegalidades desde el punto jurídico estricto en situaciones de fuerte indistinción entre condiciones de vida y de
trabajo. Sin embargo, las divisiones clásicas entre formal/informal o legal/ilegal ya no alcanzan. La noción de
clandestinidad expone una característica más general de las economías sumergidas: una gestión de la mano de obra
que excede los parámetros jurídicos y que incluye esferas vitales al interior de un gobierno más amplio del cuerpo
y la subjetividad de quien trabaja”. Disponível em: http://www.revistaanfibia.com/ensayo/progreso-clandestino/
“desde cima” (por exemplo, a Esquerda). É uma questão de pensar mercado e concorrência a
partir de outra perspectiva, pensá-los imediatamente como estética da existência continuame nte
explorada e controlada pelos dispositivos biopolíticos que são as engrenagens do
neoliberalismo. “A economia informal tem uma grande capacidade de comércio graças ao
impulso popular e, ao mesmo tempo, desafia e compete com os monopólios. É um tecido capaz
de amortecer e conter as crises econômicas, e põe outras soluções ao ciclo econômico”
(tradução nossa)10 .
Uma grande fraqueza da Esquerda foi sempre focar demais no Estado, na formação de
grandes unidades e frentes para disputar uma hegemonia, e não ter um pensamento de mercado,
que fizesse a descida antropofágica para as microtexturas da vida cotidiana, o modo como a
população se organiza na precariedade, na informalidade, na pobreza, em suma, como constrói
seu corpo dentro das exigências, cobranças e dispositivos de gestão da vida. Outras correntes
como o mutualismo, anarquismo de mercado, mercados não capitalistas ou anticapitalis tas,
mercados negros, agorismo, entre outras, são heresias que nos fornecem elementos para pensar
isso de outra maneira, mas na maioria das vezes, quando transpostas ao projeto político e
organizativo, ainda estão muito amarradas às perspectivas contratualistas e individualis tas,
baseada em acordos e vontade como se consensos fossem sinônimo de justiça e a autonomia da
vontade uma espécie de saúde diante das manipulações e do Poder, com maiúscula. Não é
questão de abolir a noção de indivíduo em favor de alguma totalidade coletivista (criando assim
um Indivíduo Coletivo que apenas reedita os problemas do individualismo noutra escala
enquanto anula o que o conceito de indivíduo tem de libertário), mas de entrever um mundo
povoado não de coisas mas de forças, não de sujeitos mas de potências, não de suportes de ego
mas de ligações entre dividuais. E como colocado pelo autor-duplo do Anti-Édipo, “só
acreditamos em totalidades ao lado. E se encontramos uma totalidade ao lado das partes, ela é
um todo dessas partes, mas que não as totaliza, uma unidade de todas essas partes, mas que não
as unifica, e que se junta a elas como uma nova parte composta”11 .
Entretanto, o problema para o pensamento que se propõe libertário e autonomista não é
de pensar mercado ou o Estado, um contra o outro, mas ir além dessa velha e pesada dicotomia,
cuja retórica dura e anti-pós-moderna apenas esconde a própria impotência e, portanto, seu
caráter conservador diante da dominação neoliberal, que hoje lhe suplanta e dá a volta sem

10 “La economía informal tiene una gran capacidad de comercio gracias al impulso popular y, al mismo tiempo,
desafía y compite con los monopolios. Es un tejido que amortigua y contiene frente a las crisis económicas, y le
pone otras fechas al ciclo económico” . Disponível em: http://www.revistaanfibia.com/ensayo/hay-para-todos/
11 DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 62.
dificuldade. As reflexões sobre a produção do comum vão justamente criticar esse falso
dualismo entre mercado e Estado, que na verdade é uma simbiose, para deslocar os problemas
na direção da produção de subjetividade. As grandes empresas não só são o próprio braço
empreendedor do estado, como se vê claramente no neodesenvolvimentismo das campeãs
nacionais12 , como o Estado (com maiúscula) é o braço político das empresas, mas além disso
tudo, a lógica da empresa governa desde dentro do tecido social, toda a sociedade é
empresarializada de cima abaixo, das grandes multinacionais que comandam o grande negócio
às empresas familiares e precárias do mercado de La Salada, em qualquer metrópole do mundo
hoje. Porém, é dentro dessa “sujeira” que a construção do comum e da autonomia social
precisam ser pensadas e não fora, não como comunidades alternativas, mas como um
alternativismo imanente, ou seja, tendência 13 . Pensar o comum a partir das texturas de vida que
o neoliberalismo organiza e explora. E quando se usa o prefixo “micro” para alguma coisa,
como em microfísica do poder, quando se fala no menor, em “tudo é política” com minúsculas,
a esquerda não entende mais nada, porque já se apaixonou pelo Estado e pelo Poder.

3. ESBOÇO DE UMA NOVA METODOLOGIA PARA O ESTUDO DO NOMOS


Ao analisar o processo de formação sociogenética dos Estados Moderno, ou qualquer
outra proposta explicativa que busque escapar de uma tentativa de imersão nos sentidos
existenciais das experiências vividas pelos atores históricos (ou seja, a maior parte da
historiografia que prescinda de uma história das mentalidades – cujos maiores exemplos podem
ser encontrados em livros didáticos), percebemos uma lacuna deixada que corresponde à
compreensão dos processos sociopolíticos dos quais eles fizeram parte. Ao mesmo tempo, já
não é mais possível recorrer à biografia dos “grandes homens” para que elas conduzam o
entendimento do leitor desses processos e tampouco à assunção da multiplicidade de
mentalidades como paradigma do estudo historiográfico, defendida pela École des Annales, por
si só. Para se entender uma sociedade, enquanto um processo dinâmico e sem rupturas, faz-se
necessária uma leitura mais abrangente, ainda que mais superficial das sutilezas do
entendimento humano.
Essa necessidade é sentida há séculos e diversas propostas antropológicas foram feitas
por filósofos, até que uma ciência assumiu para si a tarefa de investigar, com as ferramentas do
positivismo científico fenomenológico, a sociedade a partir da premissa da possibilidade de sua
compreensão. Essa ciência foi a sociologia. No entanto, a absorção da sociologia no campo dos

12 Empresas que receberam incentivos do BNDES durante o governo do PT no Brasil.


13 Como no método de tendência antagonista apresentado no livro Marx além de Marx. NEGRI, 2016.
estudos jurídicos e mesmo no dos estudos filosóficos tem sido feita de forma pouco orgânica,
constituindo, por vezes, um apêndice artificial nos estudos jurídicos e das demais ciências
sociais. O instrumental que a sociologia traz não é propriamente utilizado por falta de know-
how.
Não se quer aqui propor a releitura do papel da sociologia dentro dos estudos jurídicos
ou dos estudos filosóficos, mas sim, diante da questão apresentada na primeira parte do
trabalho, articular alguns conhecimentos das três áreas acima citadas em torno de um conceito
instrumental que possa ser desenvolvido a partir de inputs dessas três áreas que articulados entre
si componham um todo heterogêneo e dinâmico. Este conceito é o conceito de Ordem.
O conceito de ordem é problemático em decorrência de acepções extremame nte
contaminadas por concepções amplas da realidade formadas a partir de uma perspectiva
normativista (como, por exemplo, as Weltanschauungen religiosas e filosóficas das mais
diversas matrizes) e não se quer aqui buscar uma afirmação definitiva sobre o tema. O que se
quer é propor certas reflexões acerca de como se poderia busca-lo. Ordem, na definição que
será adotada aqui, é a interação sistemática de normas sociais no sentido durkheiminiano, ou
seja, um sistema de comportamentos dotados de sentido dentro de uma determinada
comunidade. Essa definição é extraída a partir de uma abordagem sistêmica ao conceito de fato
social14 .
Essa ordenação, como já se pode imaginar, tem uma relação tensa com a ordem jurídica
e com qualquer outra ordem que tem por intenção explícita organizar a realidade de modo ativo,
mas também é normativa. Há uma relação que, se é pretensioso chamar dialética, em certa
medida só pode assim ser chamada. Por que?
Porque a ordem jurídica e qualquer outra ordem que tem por intenção organizar a
realidade (e por realidade deseja-se referir aos elementos da realidade – a religiosa, por
exemplo, tem esse mesmo ímpeto que Giorgio Agamben chamaria econômico ou
governamental15 ) é uma ordem fundada em leis. A ordem fundada na norma social é
compreendida, em Durkheim, como uma cadeia factual, ou seja, com uma normatividade
próxima a das ciências naturais16 . Mas isso é só uma perspectiva que se impõe sobre ela. As
normas nela apresentadas podem ser buscadas em uma outra perspectiva que, em homenage m
ao trabalho do Weber, pode ser chamada compreensiva.

14 DURKHEIM , 1982, p. 52.


15 AGAMBEN, 2011, p. 17 e ss..
16 DURKHEIM , 1982, p. 134.
A partir desse destrinchamento do conceito durkheimniano de ordem, e excluídas as
normas fundadas em uma causalidade físico-determinística (ou seja, normas que são
involuntárias quando identificadas no campo da ação humana – como as normas que envolve m
reações biológico corporais a escolhas pessoais17 ), apresentam-se normas de duas espécies, uma
organizadora da realidade, de comando, e outra que dá sentido ao objeto “sociedade”. Elas
parecem então estar sendo observadas a partir de dois “observatórios” diferentes: as primeiras,
organizadoras da realidade, são observadas a partir da relação de comando; as segundas,
explicativas da realidade, são observadas a partir da relação “científica” sujeito-objeto. No
entanto, se a partir de uma determinada perspectiva essa constatação é real, ela nega uma outra
mais importante. Que as leis, ou seja, qualquer norma organizadora da realidade, são feitas por
um determinado grupo e para um determinado grupo explicitamente.
Faz-se necessário essa especificação porque o método de Durkheim iguala ambas as
normas18 , ainda que reconheça suas nuances, para fins científicos. Se isso serve à sociologia, o
mesmo não se pode dizer quando se está tratando do Direito, vez que há, no Direito, a
necessidade de se isolar as normas de caráter organizador da realidade mais ativo daquelas,
como certos costumes, que surgem de práticas mais incidentais, onde o grau de voluntariedade
explícita – se contrastada com as normas mais explicitamente destinadas à organização da
realidade – da ação humana é menor e há maior flexibilidade na observância à norma. Um
exemplo disso é a forma de construção das casas e os costumes em relação ao vestuário, dado
pelo próprio Durkheim19 . Mesmo que haja sanções jurídicas pendentes sobre aqueles que
desobedeçam essas normas, na contemporaneidade brasileira, por exemplo, essas não são
normas sociais que, consideradas isoladamente, geram uma sanção grave quando violadas. No
meio militar, no entanto, o hábito, mesmo na contemporaneidade, pode, se considerado
inadequado ou impróprio, levar a severa punição. Logo, a atividade de legislação social pode
indicar a existência de um sentido mais precioso para a sociedade, que se oculta sob aquela
norma; para o Direito, como para a sociologia, cumpre buscar esse sentido, mas não tão somente
com o interesse científico da compreensão do seu papel no sistema normativo social, mas com
interesses propriamente normativos/legislativos.

17 Faz-se necessário incluir aqui o aspecto da escolha pessoal mesmo na consideração de normas biológicas , ou
seja, atinentes à preservação da vida orgânica, porque não se exclui a possibilidade de que o comportamento normal
não seja, em qualquer de seus aspectos, universalizável. A mera manutenção do funcionamento biológico não
impede que seja tomada uma atitude pelo indivíduo que conduza inevitavelmente à morte. Tal comportamento não
pode ser desconsiderado, vez que isso representaria uma leitura não científica, quando não moralizante, e
excludente de práticas sociais universalmente identificáveis de ascetismo ou mesmo de auto -sacrifício. Durkheim
também as exclui (DURKHEIM, 1982, p. 50).
18 DURKHEIM , 1982, p. 50.
19 Ibid., p. 58.
Todas as normas, mesmo as religiosas, retiram sua normatividade, ou seja, seu poder
coercitivo, de uma relação de forças que se dá no seio de uma determinada comunidade 20 . Logo,
em síntese, pode-se afirmar que as normas que se estabelecem em uma determinada
comunidade, baseadas na dinâmica de forças nela existentes, influenciam e são influenciadas
pelas normas de comando com caráter mais deliberadamente organizador da realidade. Mas
como elas são influenciadas? A normatividade organizadora da realidade, ao ser posta em ação
pelos agentes por essa atividade responsáveis, entra novamente no sistema como norma social
e é adaptada às práticas sociais, mantendo seu poder coercitivo em maior ou menor grau, a
depender de sua adequação a essas mesmas práticas.
O que se está tentando fazer aqui é uma curta análise compreensiva da estrutura da
normatividade social a partir da relação entre fatos sociais que se dão em esferas da sociedade
diferentes para mostrar como elas se entrelaçam em um nível bem básico. Como
comportamentos não jurídicos influenciam os jurídicos, como os não religiosos influenciam os
religiosos, como os jurídicos influenciam os religiosos. Tudo isso partindo da premissa que
nenhuma relação que se dá entre quaisquer pessoas em qualquer posição da sociedade é uma
relação unidirecional.
Por que se afirma isso? Porque o estudo da ordem já foi por tempo demais abandonado
enquanto vocação primordial do Direito. O trabalho de Carl Schmitt, em especial a obra O
nomos da Terra no direito das gentes do jus publicum europaeum, é um exemplo de como a
proposta que fazemos é não só passível de ser concretizada, mas coerente com o histórico da
academia jurídica. Schmitt busca, durante o livro, explicar o critério de ordenação da realidade
próprio da Europa do Estado Moderno e suas mutações até o período logo após a Primeira
Guerra Mundial21 , abarcando também algumas circunstâncias que agravaram o constatado
estado de desordem, mas que só surgiram após a Segunda Guerra Mundial com força na política
internacional (como a aviação e outros instrumentos mais apropriados ao que ele chama de
guerra de aniquilação22 ). Mas, logo no começo do livro, ele apresenta outros critérios de
ordenação, como o da Europa medieval e do Sacro Império Romano Germânico, em especial.
E ele usa, dentre outros argumentos, a carta de um monge para substanciar suas alegações
acerca do papel de katechon do Sacro Império23 . O que se extrai dessa fundamentação - que

20 Utiliza-se aqui o exemplo das normas religiosas propositalmente, porque, nesse caso, para o observador
científico, é desimportante a fundamentação transcendente (Agamben, remetendo às discussões medievais chama
isso, em seu O Reino e a Glória, de ordo ad Deum, entre outros nomes) ou imanente (ordo ad invicem) de uma
determinada norma (AGAMBEN, 2011, p. 85).
21 SCHMITT, 2014, p. 79 e ss..
22 Ibid., p. 344.
23 Ibid., 2014, p. 58.
pode ser chamada heterodoxa considerando o positivismo que se impõe como padrão da
discursividade jurídica24 – é que, se o conceito de ordem for um tema adequado ao Direito, não
devemos discuti-lo a partir de uma perspectiva puramente positivista25 . Mas por que esse tema
seria adequado ao Direito enquanto disciplina acadêmica?
Em primeiro lugar, Schmitt mostra, ao comparar a prática política dos Estados europeus
a partir do século XVI e o desenvolvimento doutrinário de uma ordenação territorial terrestre e
marítima no âmbito do direito das gentes, que há, entre esses dois fenômenos, uma vinculação
absoluta26 e que o status jurídico alcançado pelas obras desses doutrinadores não corresponde
a apreciação por parte deles de regras legais exaradas por um soberano, mas sim de uma
apreciação holística de fenômenos culturais e fáticos tendo como premissa a organização da
realidade (que é o sentido de nomos27 ). Na realidade atual, os juristas têm cada vez mais
participado da atividade legislativa, seja substituindo a vontade do legislador através de
decisões propriamente judiciais, seja através da penetração de bacharéis em Direito nos
meandros da atividade legislativa, ou mesmo no Congresso propriamente dito 28 . No entanto, o
desligamento da percepção – e, consequentemente, da produção – do legislador (aqui tomado
amplamente como “aquele que faz as leis”), no Brasil especificamente, da realidade fática gerou
inclusive a “tese” acerca da distinção entre o “Brasil oficial” e o “Brasil real”29 . Isso, mais do
que uma mera deficiência do treinamento cognitivo dos juristas, considerando as relações
multifacetárias que o Direito estabelece com a sociedade, apresenta um risco para a democracia
enquanto governo popular (e isso se explicita porque não estamos querendo tratar aqui do
institucionalismo nas democracias liberais contemporâneas), dada essa nova influência decisiva
nos rumos da política nacional (fato que também ocorre em outros países30 ), vez que certos
detentores de posições de poder no judiciário atribuem a certos órgãos desse poder a função de
vanguarda iluminista31 , e, ainda assim, desfrutam de grande prestígio.

24 Ibid., p. 68 e 206.
25 Ibid., p. 206.
26 Ibid., p. 157.
27 Ibid., p. 67-72; 200-201.
28 Nesse sentido: http://congressoemfoco.uol.com.br/novo-congresso/congresso-652-parlamentares-apenas-1-pos-

doutor/.
29 A distinção original é de Machado de Assis, originalmente feita na seção “Comentários da Semana”, no “Diário

do Rio de Janeiro” de 29 de dezembro de 1861. Incorporada ao senso comum nacional, a distinção foi utilizad a
diversas vezes por Ariano Suassuna que, citando o exemplo de Canudos, reiterou o desgosto que o Brasil real,
composto pelo povo, sentiria em relação às elites e aos governantes, bem como a reaç ão destes à insubordinação
daquele (uma das citações pode ser encontrada aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz27049907.h t m).
30 HIRSCHL, 2007.
31 Como, por exemplo, o Ministro Luís Roberto Barroso, que já defendeu essa tese diversas vezes, e mais

recentemente em sua exposição na Universidade de Nova Iorque. A transcrição da palestra está disponível em:
https://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2015/12/O-papel-das-cortes-constitucionais.pdf.
Em segundo lugar, considerando o aspecto eminentemente hermenêutico das práticas
sociais que envolvem relações jurídicas, mas que ou não estão ainda legalizadas ou que são
alvo de um novo trabalho hermenêutico quando se estabelecem as pontes entre texto normativo,
doutrina, prática social e jurisprudência32 , não há como desconsiderar que, academicamente, o
estudo dessas práticas pode somar muito ao estudo do Direito, apontando aos estudantes não só
o caráter social das normas jurídicas, mas também o caráter essencialmente normativo – e não
só descritivo – das normas sociais, revelando a complexidade da tessitura social e, em
conjunção com o primeiro objetivo, acima elencado, realizando os fins originais de organização
social (ainda que fundada em outras premissas organizacionais) desejados por Durkheim
quando da elaboração de seu método33 .
No medievo havia uma espécie de texto chamado principum specula, o espelho dos
príncipes, que funcionava como uma espécie de guia de bom governo para a autoridade. A
origem muito variada dos conselhos dados nessa espécie de texto quebra com qualquer alegação
de que ele, se certamente advinha geralmente das classes letradas, deixava de refletir em
absoluto as conclusões que a cultura popular produzira acerca do bom governo. E, devido à
ainda baixa complexidade do aparelho de governo, a maior parte das lições era voltada para as
ações do príncipe, constituindo verdadeiros manuais de ética de governo 34 . A tecnicização da
sociedade sem dúvida fez com que o treinamento das autoridades responsáveis pela tomada de
decisões dentro da esfera que hoje chamamos jurídica (mas que inclui temas que antes eram
decididas por outras autoridades fundadas em um sistema normativo em absoluto distinto do
que hoje conhecemos como jurídico, apesar de assim ser considerado à época) focasse muito
mais no aprendizado de justificações causais fundadas em uma leitura superficial (o que não é
necessariamente pejorativo) da norma já produzida (judicialmente ou legalmente)35 . No
entanto, o magistrado, posto diante de uma decisão que envolve a ponderação ética, é incapaz
de toma-la, não no sentido de que é impossível que ele a tome – afinal, de qualquer jeito ele vai
toma-la – mas no sentido de que ele não tem o instrumental necessário para toma-la com
qualidade. Por isso que o estudo da ordem é fundamental hoje (não que o magistrado, enquanto

32 Como, por exemplo, as relações comerciais contratualmente precárias – não em um sentido valorativo, mas para
usar o vernáculo tacanho do positivismo jurídico mais estrito – que se estabelecem em La Salada.
33 DURKHEIM, 1982, 144. O parágrafo que confirma o explicitado no presente texto recebe poderoso reforço pela

nota que o acompanha, confirmando as suposições dos possíveis leitores acerca da permanência de uma concepção
política iluminista dentro desse tratado que se presumia ser tão somente metodológico.
34 Há notável ausência de bibliografia sobre o tema. A melhor obra continua sendo, apesar de não tratar

especificamente acerca do tema, mas engajá-lo repetidas vezes em seu tutano, o Da Tirania, de Strauss, ainda mais
quando acompanhado da correspondência entre o autor e Kojève. O artigo da Enciclopédia Britânica oferece uma
visão mais ampla sobre o tema, mas também mais superficial.
35 SCHMITT, 2014, p. 254-257.
nativo, desconheça a ordem social com a qual trabalha – mas ser capaz de formula-la e dar-lhe
o devido valor enquanto portadora de sentido social legítimo é uma tarefa que exige uma prática
própria, fundada em uma metodologia própria). Assim, esse estudo, pela própria cadeia
produtiva dessa espécie de conhecimento, que envolve atores de diversas áreas, já se apresenta
como meio de regular a atividade da autoridade no exercício de sua discricionariedade, em um
momento pré-decisão.
Mas então como identificar os parâmetros da ordem? Diante desse problema, a questão
da forma-de-vida, que Agamben, através do Wittgenstein36 , trata é útil. Desconsiderando a
ontologia e ética próprias do autor italiano 37 , deve-se voltar ao básico “vida como linguagem” 38 ;
e aqui não uma linguagem que se restringe necessariamente à falada, mas que combina a ideia
que permeia a tese Sapir-Whorf39 da relatividade linguística com todos os demais fenômenos
comunicativos que podem ser encontrados peculiarmente em um grupo específico de seres
humanos. Um determinado grupo tem dezenas ou mesmo centenas de palavras para neve40 ?
Elas são usadas em que contextos? O que está em jogo é a compreensão de um fato social – a
variedade linguística que se relaciona ao conceito de neve das línguas indo-arianas (mais
especificamente ao SAE41 ) no exemplo pode muito bem ser revertido para se aplicar a um

36 AGAMBEN, 2017, p. 269 e ss..


37 As quais são vigorosamente defendidas na parte III da obra citada (O uso dos Corpos).
38 WITTGENSTEIN, 2009, § 19.
39 A tese Sapir-Whorf, formulação mais comumente citada da tese da relatividade linguística, se trata, na verdade,

de uma criação de Harry Hoijer, aluno de Edward Sapir, assim como Benjamin Lee Whorf. Apesar de ambos os
autores terem escrito sobre o mesmo tema, qual seja, relatividade linguística, e de Whorf ter sido aluno de Sapir,
como dito, eles nunca autoraram um trabalho juntos e a proximidade de suas teses é contestada. Resumidamente,
a tese, considerada de forma unitária, afirma que a língua influencia na percepção de mu ndo, não sendo essa
influência absoluta, no entanto.
O trabalho de Hoijer foi o responsável pela evocação da semelhança entre as propostas dos dois autores, mas a
ideia que está por trás delas remete ao trabalho de Wilhelm von Humboldt, tendo tido, no mesmo período em que
evoluía na América, desenvolvimentos independentes do outro lado do Atlântico, nas mãos de autores como
Weisgerber, Vygotsky e Korzybski.
Para uma recuperação ampla da trajetória de construção da tese da relatividade linguística, recomenda-se o texto
de E. F. K. Koerner para a obra Explorations in Linguistic Relativity, Towards a 'full pedigree' of the 'Sapir-Whorf
hypothesis': From Locke to Lucy (p. 1 e ss.), editada por Martin Pütz e Marjolijn H. Verspoor.
40 Deve-se mencionar que esse exemplo, usado por Whorf (WHORF, 1956, p. 207 e ss. – páginas correspondentes

ao artigo de 1940, Science and linguistics), foi descreditado por algum tempo, mas Krupnik e Müller-Wille
(KRUPNIK e MÜLLER-WILLE, Franz Boas and Inuktitut Terminology for Ice and Snow: From the Emergence
of the Field to the “Great Eskimo Vocabulary Hoax”, na obra SIKU: Knowing Our Ice - Documenting Inuit Sea
Ice Knowledge and Use, editada pelo próprio Krupnik e por Claudio Aporta, Shari Gearheard, Gita J. Laidler e
Lene Kielsen Holm – p. 377 e ss.) publicaram recente estudo reabilitando a tese, originalmente formulada por
Boas, da existência, nas linguagens Inuit, de diversas palavras para neve.
41 SAE – Standard Average European é um conceito introduzido por Benjamin Whorf em 1939, no ensaio The

relation of habitual thought and behavior to language, publicado originalmente na obra Language, culture, and
personality, essays in memory of Edward Sapir e republicado posteriormente na obra Language, Thought and
Reality: Selected Writings of Benjamins Lee Whorf. A partir da página 138 deste último trabalho ele define SAE e
utiliza o conceito amplamente para explicar como articulou suas teses comparativistas. Em tradução livre:
“O trabalho começou a assumir o caráter de uma comparação entre a língua Hopi e as línguas da Europa Ocidental.
Também se tornou evidente que mesmo a gramática do Hopi tem uma relação com a cultura Hopi e a gramática
conceito mais especificamente jurídico, como, por exemplo, a distinção entre as formas de
assassínio na Islândia medieval, que em razão de um sistema absolutamente distinto do
atualmente existente no Brasil, são incompreensíveis em suas nuances; ou, ainda, as variadas
formas jurídicas através das quais se dá a relação do homem urbano com a terra no Brasil em
2018 e as formas de relação com a terra estabelecidas pelos indígenas na reserva de Raposa-
Serra do Sol no mesmo ano. Por trás dessas expressões linguísticas ou desses institutos jurídicos
linguisticamente formulados, está uma forma específica de entender o mundo. Esse
entendimento específico da realidade a partir dos olhos de um determinado grupo social
constitui o grande objetivo da sociologia. Entender como entende um membro de um grupo
social sua realidade para produzir, fora das limitações deste entendimento, conhecime nto
científico.
Ao se afirmar que todas as formas de expressão cultural comunicativa constituem a
linguagem, quer-se dizer que essas formas têm sentidos internos que podem ser racionalme nte 42
compreendidos e articulados verbalmente (e, portanto, politicamente, na forma aristotélica de
gênese política fundada na fala, que aqui se expande um pouco 43 ). Esses sentidos podem ser
paradoxais, sem nenhum problema (como no exemplo dado por Becker, citando Malinowsk i,
logo no início de sua obra Outsiders44 ). A política é para a multiplicidade, não para a unidade,
diz Aristóteles contra Platão45 . A compreensão e a formulação desses enunciados vinculados a
formas de vida abre espaço para uma militância esclarecida.
Esclarecida sobre o que? Sobre a real constituição política de um grupo qualquer. Pode
se estar diante de uma sociedade que cultive valores anti-emancipatórios, por exemplo. Pode-
se negar a ideologia do discurso jurídico: os nomes podem esconder ou relações de dominação

das línguas europeias com nossa cultura ‘ocidental’ ou ‘europeia’. E pareceu que a interação (entre as línguas
europeias – Nota do Tradutor) trouxe essas grandes subsunções de experiência por linguagem, como os nossos
próprios termos "tempo", "espaço", "substância" e "matéria". Uma vez que, em relação aos tra ços comparados, há
pouca diferença entre inglês, francês, alemão ou outras línguas europeias, com a exceção POSSÍVEL (mas
duvidosa) das línguas balto-eslávicas e de origem não-indo-européia, reuni esses idiomas em um grupo chamado
SAE, ou ‘Standard Average European’.” (WHORF, 1956, p. 138)
42 É importante pontuar que aqui a razão é tratada como meio, não como ideal de organização social, ou seja, não

como razão iluminista, atrelada à série de valores que caracterizaram o movimento que ficou conhecido como
Iluminismo. A razão-meio deriva do status de racional que caracteriza a normalidade da raça humana, sendo um
conceito, portanto, biológico.
43 ARISTÓTELES, 2004, p. 146. Um autor que trabalha de forma extremamente bem fundamentada com as

implicações práticas dessa formulação é Alasdair MacIntyre, em sua obra After Virtue, especialmente a partir do
capítulo 15 (MACINTYRE, 2007, p. 204).
44 MALINOWSKI, 1926, p. 77-80 apud BECKER, 1963, p. 11.
45 ARISTÓTELES, 2004, p. 170.
“pura”, ou seja, nas quais predominam os aspectos coercitivos 46 , ou ainda relações voluntár ias
de poder “inconvenientes”, ou seja, anti-emancipatórias.
Mas mais ainda. Através de uma compreensão específica das ordens que permeiam
determinados grupos pode-se almejar a construção de meios de existência e de preservação da
cultura de comunidades que vivam formas-de-vida não entregues ao capitalismo maquínico,
uma discussão que não passa por direitos subjetivos, mas por competências legislativas 47 . Um
exemplo disso é o das comunidades intencionais nos Estados Unidos da América 48 . Pode-se
permitir, ainda, a reflexão por parte de uma determinada comunidade acerca dos sentidos e
princípios (e aqui se quer dizer princípios não-jurídicos, mas organizadores da vida, ainda que
não de forma coercitiva – como, por exemplo, fidelidade, honra, coragem etc) que orientam as
atividades dos membros dessa ordem de forma mais ampla.
Esse seria o esboço de um método para uma teoria geral da ordem, que pode se expandir
pelas mais diversas áreas, mas que interessa principalmente não pela variedade dos
instrumentos empregados para sua compreensão, mas pelo que se pode alcançar empregando -
os, para além do acréscimo ao conhecimento sociológico ou jurídico. Quando se está diante de
uma ordem diversa da ordem dominante dentro de uma sociedade, de uma ordem desviante – e
é isso que a feira La Salada é –, verifica-se que o que está ocorrendo é a exploração de outras
possibilidades político- institucionais através do estudo das dinâmicas de forças e de suas
manifestações externas e o construir de uma nova política (que pode ou não ser melhor que a
de hoje).
Quando se diz que se está diante de uma ordem “desviante” reitera-se o termo outsider,
que, quando usado na forma dada a ele por Becker, com toda a sua crítica, se adequa ao caso,
por fugir de moralizações. O que não pode é olhar para essas comunidades, seja a que se constrói

46 Utiliza-se aqui a expressão “pura” de forma muito reticente – se a afirmação de que uma espécie de dominação
é “pura”, ou seja, absolutamente fundada no poder coercitivo , demanda provas, a afirmação contrária, de que crê
impossível provar a existência de uma relação desta espécie, parece mais prudente. Portanto, afirma -se, não parece
ser possível existir uma relação de dominação tão absoluta a ponto de um só lado extrair todas as vantagens sem
voluntariamente o outro lado ou acordar ou ao menos não se insurgir.
47 Há movimentos que defendem que toda a partilha de competências seja rediscutida amplamente, para permitir

a valorização da vontade popular e de minorias territorialmente segregadas no contexto da ordenação territorial


democrática. Nesse sentido, os trabalhos de Bull (BULL, 2002) e Bell (BELL, 2017) acerca, respectivamente, da
sobreposição de ordenamentos jurídicos e da possibilidade de constituição de uma tradição nova de ordenação
jurídica das instituições sociais a partir de uma perspectiva policêntrica – ou seja, uma ordenação na qual o Estado
nacional não ocupe a posição de legislador absoluto, mas abra um espaço maior para o exercício do consenso
enquanto chave maior de compreensão de uma perspectiva contratualista que fuja do kantismo -, ambos fundados
em análises de exemplos bem sucedidos dessas suas teorias, são bons exemplos.
48 A leitura mais esclarecedora acerca do tema é a de Robert P. Sutton, cujos dois volumes da série Communal

Utopias and the American Experience tentam englobar trezentos anos de história das comunidades intencionais
nos Estados Unidos, apesar de excluir grupos marginais, de neonazistas a fanáticos religiosos e panteras negras
segregacionistas, que compõem comunidades intencionais.
em torno dos utilizadores de cannabis49 , seja a de La Salada, seja a dos músicos de Heavy Metal
vinculados à extrema direita50 , e só taxa-las de desviantes. Isso é ser leviano diante de uma
ordem diversa da “normal”, mas que, em uma relação tensa e íntima com ela, não só se define,
mas a define.

4. COMUM, ORDEM E JUSTIÇA

Mas e a questão da justiça? O reconhecimento das amplas possibilidades que se abrem


com o estudo das comunidades por certo não deve carecer de um estudo da justiça que lhe seja
adequado. Como a justiça, então, pode ser possível quando a corrupção é uma tendência
presente desde sempre nas formações sociais como um desajuste encravado? Como um
ajustamento se realizaria se as alianças sociais estão constantemente criando laços de
sociabilidade que escapam às regras hierárquicas de filiação? Sendo um modo de relação
constitutivo da política, as relações de aliança não se limitam às relações de filiação: alianças
constituídas de acordo interesses políticos e econômicos não se limitam à filiações hierárquicas
e administrativas. “A filiação é administrativa e hierárquica, mas a aliança é política e
econômica, e exprime o poder enquanto este não se confunde com a administração” 51 . O
problema da corrupção, considerado de forma ampla como atentado ao vínculo associativo de
uma determinada comunidade política praticado por um de seus associados, está mal colocado
em termos morais. É necessário investigar como isto, que habitualmente consideramos como
“falha”, faz parte do funcionamento das máquinas sociais.
Contradições e conflitos internos às sociedades, como dito antes, existem mesmo
naquelas que não passaram pelo mesmo processo de modernização das sociedades capitalis tas.
Lévi-Strauss, num ensaio intitulado A noção de arcaísmo na etnologia, mostra a partir de
estudos etnográficos como sociedades indígenas de diferentes regiões do mundo não
apresentam harmonia interna, não coincidem consigo mesmo, mas são atravessadas por
discordâncias internas e também externas com outras populações52 . A partir deste mesmo
ensaio, Deleuze e Guattari apresentam o seguinte argumento:
É verdade que há várias maneiras de interpretar tais discordâncias: idealmente, pelo
desvio entre a instituição real e o seu modelo supostamente ideal; moralment e,
invocando um laço estrutural da lei e da transgressão; fisicamente, como se se tratasse
de um fenômeno de usura que faz com que a máquina social já não esteja apta a tratar
seus materiais. Mas, ainda neste caso, parece que a interpretação correta dev a ser,
antes de tudo, atual e funcional: é para funcionar que uma máquina social deve não

49 Estudados por Becker na obra citada.


50 Objeto de estudo de um dos autores desse texto.
51 DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 195.
52 LÉVI-STRAUSS, 2008.
funcionar bem. Foi possível mostrar isto precisamente a propósito do sistema
segmentar, sempre levado a se reconstituir sobre suas próprias ruínas; e é também o
que acontece com a função política nesses sistemas, função que só se exerce
efetivamente ao indicar sua própria impotência.53

Pensando que estas alianças funcionam por síntese disjuntiva, em que elementos de
linhagens diferentes entram em relação sem se identificar, mantendo a distância entre si,
podemos perceber certa flexibilidade nos segmentos sociais que permite um nível relativo de
desterritorialização que faz parte do seu próprio funcionamento. Mas isto coloca as instituições
sociais sempre em risco, o que é também uma fenda que faz proliferar alianças e dá abertura
para a reconfiguração destas instituições ou mesmo sua dissolução. Portanto, aqui seria
interessante pensar que estes segmentos são “sympoiéticos” e não autopoiéticos. Isto quer dizer
que eles evoluem e se produzem em interação com outros sistemas que também se transforma m
através desta relação. Como descreve a pesquisadora Beth Dempster, da Universidade de
Waterloo (Canadá), os sistemas “sympoéticos”,
Em contraste com os sistemas autopoiéticos, são caracterizados por qualidades
cooperativas e amorfas. Os sistemas simpoiéticos produzem recorrentemente um
padrão de relações auto-similar através de interações complexas contínuas entre seus
muitos componentes diferentes. Em vez de delinear limites, as interações entre os
componentes e as capacidades de auto-organização de um sistema são reconhecidas
como qualidades definidoras. "Systemhood" não depende da produção de fronteiras,
mas das contínuas relações complexas e dinâmicas entre componentes e outras
influências. O conceito enfatiza vínculos, feedback, cooperação e comportament o
sinérgico ao invés de limites .54

Na definição da filósofa e bióloga Donna Haraway, da Universidade da Califórnia-Santa


Cruz (EUA):
Sympoiesis é uma palavra simples; significa "fazer-com". Nada se faz sozinho; nada
é realmente autopoiético ou auto-organizado. Nas palavras do "jogo mundial" do
computador Inupiat, os terráqueos nunca estão sozinhos. Essa é a implicação radical
da sympoiesis. A Sympoiesis é uma palavra própria de sistemas complexos ,
dinâmicos, sensíveis, historicamente situados. É uma palavra para “worlding -with”55 ,
em companhia. Sympoiesis envolve a autopoiese e a desdobra e estende
generativamente.56

53 DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 201


54 No original: “In contrast to autopoietic systems, they are characterized by cooperative, amorphous qualities.
Sympoietic systems recurringly produce a self-similar pattern of relations through continued complex in teractions
among their many different components. Rather than delineating boundaries, interactions among components and
the self-organizing capabilities of a system are recognized as the defining qualities. ‘Systemhood’ does not depend
on production of boundaries, but on the continuing complex and dynamic relations among components and other
influences. The concept emphasizes linkages, feedback, cooperation, and synergistic behaviour rather than
boundaries” (DEMPSTER, 2000).
55 “Worlding-with” aqui teria o sentido de produzir mundos colaborativamente.
56 No original: “Sympoiesis is a simple word; it means "making -with". Nothing makes itself; nothing is really

autopoietic or self-organizing. In the words of the Inupiat computer "world game", earthlings are neve r alone. That
is the radical implication of sympoiesis. Sympoiesis is a word proper to complex, dynamic, responsive, situated,
historical systems. It is a word for worlding-with, in company. Sympoiesis enfolds autopoiesis and generatively
unfurls and extends it” (HARAWAY, 2016, p. 58, tradução nossa).
Existe um nível molecular nas relações políticas que escapa aos códigos normativos,
mas que pode ser mais efetivo que estes nas decisões que são tomadas. Há uma tendência maior
de desterritorialização dos “sistemas sociais” nas sociedades contemporâneas, onde a troca de
inputs e outputs entre diferentes sistemas tende a ser mais frequente. Os fluxos comunicativos
de cada sistema se descodificam e se traduzem, se re-codificam, com mais facilidades em outros
sistemas. Então, haverá diferentes inclinações e tendências no funcionamento de cada sistema.
Por exemplo, uma tendência empresarial e privatista na política, uma tendência jurídica na
ciência, uma tendência de soberania no mercado mundial, etc. Isto já colocaria em xeque um
modo de pensar a política que, seguindo o ímpeto moderno, busca uma racionalização cada vez
mais efetiva dos funcionamentos institucionais conforme realização de um ideal ou programa.
Perceber os atravessamentos mútuos entre diferentes segmentos sociais operando desde
sociedades primitivas nos ajuda a pensar a tendência de hibridização nas sociedades
contemporâneas como o processo de atualização de uma profunda memória da formação social
que continua a tocar o presente.
No livro O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari descrevem as máquinas segmentárias –
aquelas que declinam alianças e filiações e produzem segmentos de comprimentos variáveis –
funcionando desde as sociedades primitivas. Cada segmento está associado a uma cadeia
significante que codifica os fluxos que lhe atravessam. Um conceito que poderia se aproximar
da teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann, em que cada sistema também tem seu código
interno que organiza suas funções e lhe diferencia do seu entorno 57 . Nos segmentos sociais, as
linhagens filiativas são inalienáveis e as alianças têm maior mobilidade. Entre filiações e
alianças “aparecem todos os tipos de penetrações recíprocas que derivam da variabilidade e
da relatividade dos segmentos”58 . Continuando com Deleuze e Guattari:
É que cada segmento só mede seu comprimento e só existe como tal por oposição a
outros segmentos numa série de escalões ordenados uns em relação aos outros: a
máquina segmentária trama competições, conflitos e rupturas através das variações de
filiação e das flutuações de aliança. Todo o sistema evolui entre dois polos, o da fusão
por oposição a outros grupos, e o da cis ão por formação constante de novas linhagens
que aspiram à independência, com capitalização de alianças e de filiação. De um a
outro polo, todas as falhas, todos os fracassos se produzem no sistema que não para
de renascer de suas próprias discordâncias .59

Michael Hardt descreveu como a corrupção é ainda mais presente nas sociedades
contemporâneas, que ele considera como sociedades de controle, seguindo uma linha de

57 Ver, por exemplo, como Luhmann descreve o processo de diferenciação e especificação funcional do sistema
jurídico entre as páginas 17 e 26 do livro Sociologia do Direito II (tradução de Gustavo Bayer – Rio de Janeiro:
Edições Tempo Brasileiro, 1985).
58 DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 202.
59 Ibid., p. 203, 2010.
pesquisas iniciadas por Michel Foucault e Gilles Deleuze60 . Para Hardt, diferente das
sociedades modernas, as sociedades de controle não se organizam em torno de um conflito
central, mas de uma rede flexível de microconflitualidades, em que as contradições são
múltiplas e proliferam por todos os lados, os espaços são impuros e híbridos, e a corrupção é
uma “oni-crise”. As formas de controle no capitalismo não só continuam funcionando com a
corrupção, como só funcionam se esfacelando e se reconfigurando continuamente num modelo
de feedback positivo. O capitalismo aprendeu com as máquinas sociais e, assim como elas, está
constantemente aprendendo com suas próprias falhas, “se alimentando das contradições que
provoca, das crises que suscita, das angústias que engendra e das operações infernais que o
revigoram”61 .
Trata-se então de questionar como uma comunidade heterogênea, à medida que busca
realizar uma experiência do comum, gera efeitos de justiça. A realização do comum coincidir ia
com a realização da justiça? Se sim, a justiça, assim como o comum, deve ser pensada mais
enquanto acontecimento que se espraia pelas suas bordas, contagiando os envolvidos e se
multiplicando e se diferenciando através deles, e menos enquanto imposição de uma ordem
exterior e transcendental às relações internas à comunidade. Assim, para pensar o comum
enquanto busca pela justiça, precisamos dar conta do permanente desajuste que os aparelhos de
captura do poder tentam violentamente ordenar. O comum deve ser pensado então como
movimento contínuo atualizando uma justiça virtual e nunca como modelo estático. É assim
que o conceito de sympoiesis pensa o comum: como um sistema sympoiético em constante
interação com outros segmentos sociais.

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