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Claudio Bazzoni

Licenciado em Letras e professor de Língua Portuguesa para a EJA


Heloisa Cerri Ramos
Licenciada em Letras e formadora de professores para a disciplina de Língua Portuguesa
Mirella Laruccia Cleto
Licenciada em Letras e professora de Língua Portuguesa para o Ensino Médio

1a edição, São Paulo, 2013


© Ação Educativa, 2013
1a edição, Global Editora, São Paulo 2013

Global Editora Ação Educativa


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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
B349m
Bazzoni, Claudio
Manual do educador : língua portuguesa / Claudio Bazzoni, Heloisa Cerri Ramos,
Mirella Laruccia Cleto. - 1. ed. - São Paulo : Global, 2013.
352 p. : il. (Viver, aprender)
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-260-1875-4
1. Língua portuguesa (Ensino fundamental) - Estudo e ensino. I. Ramos, Heloisa
Cerri. II. Cleto, Mirella Laruccia. III. Título. IV. Série.
13-00591 CDD: 372.6
CDU: 373.3.016:811.134.3

Colabore com a produção científica e cultural.


Proibida a reprodução total ou parcial desta obra
sem a autorização do editor.
No de Catálogo: 3490

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APRESENTAÇÃO

O s anos finais do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos são muito


procurados por aqueles que buscam enfrentar as exigências profissionais, sociais e
culturais do mundo contemporâneo. Essas pessoas fazem parte de um grupo bastante he-
terogêneo, tanto em relação às necessidades formativas como em relação às experiências
e formas de participação na sociedade.
São pessoas que vivem em cidades e no campo, jovens e adultos que sentem necessi-
dade de completar os estudos para terem oportunidades de emprego, ou que não tiveram
acesso à escolarização na infância e na adolescência, ou ainda trabalhadores de diversos
ramos profissionais que sentem a ameaça do desemprego. Além disso, existem também
aqueles que desejam retomar os estudos para ampliar seus conhecimentos e desenvolver
habilidades.
Para contemplar as necessidades de um universo tão amplo, com histórias de vida e
experiências escolares distintas, é preciso um projeto educativo diferenciado em relação
àqueles comumente destinados ao Ensino Fundamental regular, idealizados para crian-
ças e adolescentes.
A maneira mais apropriada de garantir avanços na qualidade da EJA é elaborar um
currículo diversificado e participativo. Na prática, isso significa definir o currículo com
base nas necessidades e nos interesses dos sujeitos envolvidos no processo de ensino-
aprendizagem, levando em conta a realidade sociocultural, científica e tecnológica em
que as pessoas estão inseridas. Suas histórias de vida estão carregadas de sabedoria e
conhecimento, e isso precisa ser considerado.
Com base nessas concepções, esta coleção propõe ações educativas para que os alu-
nos, com atitude crítica, possam desenvolver novas habilidades e adquirir conhecimen-
tos para tomar decisões apoiadas em uma consciência solidária e que valorize a diver-
sidade presente nos grupos sociais; aprender a investigar a realidade para interpretá-la;
buscar soluções para os problemas que os afetam; ter acesso a bens culturais que apoiem
e fortaleçam a conquista e a garantia de direitos de cidadania.
Nas páginas que se seguem, o professor vai encontrar considerações específicas sobre
a metodologia de ensino da disciplina, incluindo o tema da avaliação, comentários espe-
cíficos sobre cada um dos capítulos e atividades, além de sugestões de atividades comple-
mentares, sites, livros e filmes adequados à proposta de trabalho realizada.
Os autores
SUMÁRIO

1. Concepção e estrutura da obra 7


2. Os pressupostos metodológicos que embasam a proposta para a disciplina Língua
Portuguesa 9
2.1. Pressupostos 9
2.1.1. Finalidade do ensino da Língua Portuguesa 9
2.1.2. Objeto do ensino da disciplina Língua Portuguesa 9
2.1.3. Objetivo geral 9
2.1.4. Objetivos específicos, conteúdos, atividades e avaliação 9
2.2. As boas práticas docentes 9
2.3. Ensino de Língua Portuguesa hoje 9
2.3.1. Ensino da leitura 9
2.3.2.Ensino da linguagem escrita 9
2.3.3. Ensino dos gêneros textuais orais 9
2.3.4. Ensino da literatura 9
2.3.5. Avaliação 10
2.3.6. Gêneros textuais: reflexão e prática 10
2.3.7. Linguagem oral: escuta e produção de textos 11
2.3.8. Análise linguística 11
2.3.9. Alguns procedimentos didáticos que ajudam a enriquecer a aula 11
2.3.10. Currículo em espiral 12
3. Pressupostos para avaliação na Educação de Jovens e Adultos 12
3.1. Projetos coletivos de trabalho 12
3.1.1. A procura de uma situação-problema 13
3.1.2. O estabelecimento de temas e subtemas 13
3.1.3. A busca de fontes 13
3.1.4. O planejamento sai do papel 13
3.1.5. Avaliação do processo 13
4. Comentários sobre cada um dos capítulos por volume 14
Livro do aluno – 6o ano
Capítulo 1 – O mundo da leitura, a leitura do mundo 9
Capítulo 2 – A vida contada em versos 20
Capítulo 3 – Acesso ao universo da ciência 33
Capítulo 4 – O que é que o jornal tem? 49
Bibliografia 70
4.1 Comentários sobre o 6o ano 15
Livro do aluno – 7o ano
Capítulo 1 – Que texto é este? 9
Capítulo 2 – Contos muito populares 26
Capítulo 3 – Estudando obras de referência 44
Capítulo 4 – Deu no jornal! 60
Bibliografia 83
4.2 Comentários sobre o 7 anoo
27
Livro do aluno – 8o ano
Capítulo 1 – Texto: onde autor e leitor se encontram 9
Capítulo 2 – Poesia, poemas e poetas 22
Capítulo 3 – A escola pesquisa o mundo 41
Capítulo 4 – Atrás dos furos de reportagem 60
Bibliografia 85
4.3 Comentários sobre o 8o ano 43
Livro do aluno – 9 ano
o

Capítulo 1 – Tecendo o texto 9


Capítulo 2 – Crônica: histórias do cotidiano 22
Capítulo 3 – A arte de argumentar 39
Capítulo 4 – A opinião (assumida) do jornal 59
Bibliografia 68
4.4 Comentários sobre o 9o ano 61
5. Referências bibliográficas 74
1. Concepção e estrutura da obra dividem-se em capítulos. Cada capítulo da obra está subdividi-
do em seções que organizam a proposta de trabalho por tipo de
Esta obra destina-se a jovens e adultos que frequentam cur- atividade. Além disso, as seções permitem que os professores
sos dos anos finais do Ensino Fundamental. A coleção contempla tenham mais flexibilidade no uso da obra, uma vez que podem
propostas voltadas às práticas de leitura e escrita em diferentes planejar a utilização do capítulo com base nas seções mais ade-
gêneros textuais, conhecimentos matemáticos e estudos sobre quadas ao grupo-classe.
temas fundamentais da realidade contemporânea brasileira e As atividades estão diretamente relacionadas ao texto di-
mundial. Apresenta conhecimentos de todas as áreas do currícu- dático e trazem informações e conceitos essenciais para o tema
lo, que se entrelaçam com base nos focos e temáticas escolhidos estudado.
para o volume. A seguir, está o quadro explicativo com as seções utilizadas
Cada volume está organizado em unidades que se apoiam na coleção. Apresentamos todas as seções existentes, sendo que
em temas e áreas de conhecimento. Essas unidades, por sua vez, nem todas estão presentes em todas as disciplinas.

Seção Descrição

Aplicar conhecimentos Atividades variadas que têm como finalidade retomar ou ampliar conceitos e temas estudados nos textos didáticos.

Atividade com áudio Utilizada nas disciplinas de língua inglesa e espanhola para compreensão auditiva e prática oral. Para realizá-la, o aluno
e o professor devem usar o CD de áudio que acompanha cada volume da coleção.

Conhecer mais Informações adicionais sobre o tema estudado no capítulo, que podem sugerir novas abordagens ou reflexões.

Debater Propõe um diálogo entre o grupo-classe para desenvolver ideias e argumentos com base em um tema de estudo. Exige
preparação prévia apoiada nos assuntos estudados, que podem ser enriquecidos com pesquisas realizadas pelos alunos.
Trata-se de um importante procedimento para torná-los parte efetiva do processo de aprendizagem por meio do diálogo
e da construção coletiva.

Exercitando mais Seção apresentada ao final de cada capítulo de Matemática com o objetivo de rever o conteúdo estudado no capítulo.
Nesta seção são propostos atividades, problemas e questões que aprofundam o estudo dos temas abordados. Pode ser
utilizada como instrumento de avaliação.

Experimentar Situações em que os alunos são convidados a realizar experimentos práticos levando em conta uma determinada apren-
dizagem.

Ler mapa Permite ao aluno desenvolver gradativamente capacidades de compreensão e aplicação de fundamentos da lingua-
gem cartográfica. Envolve localizar, correlacionar e compreender diferentes fatos e fenômenos geográficos e apreender
elementos estruturais dos mapas (título, legenda, escala cartográfica, orientação, projeção cartográfica, fontes, bases
de dados etc.). Em mapas temáticos, implica dedicar especial atenção às modalidades de representação (qualitativas,
quantitativas, ordenadas e de movimento) e aos modos de implantação das informações (ponto, linha e área).

Ler gráficos/tabelas/ A leitura de gráficos, tabelas e esquemas está presente em diferentes momentos, uma vez que se trata de habilidade
esquemas importante para compreender e analisar dados relacionados a um tema. Com base nessa leitura, podem-se construir
argumentos para analisar e sintetizar um conjunto de problemas similares.

Ler imagem Imagens são textos não verbais com potencial cognitivo que precisam ser observados, descritos e decompostos para
que se aproveitem seus elementos na produção de novos textos e argumentos acerca de um tema. Toda imagem, assim
como um texto escrito, tem um autor, que a produziu com uma intenção, em um contexto histórico específico, ou seja,
uma imagem também precisa ser interpretada para conhecer seus possíveis significados.

6o ao 9o ano 7
Ler... (texto literário, Em muitos capítulos da obra, há gêneros selecionados para estudo e aprofundamento em sequências didáticas. As ati-
texto jornalístico, vidades de leitura, de produção escrita e de análise e reflexão propostas levam os alunos a interagir com o(s) gênero(s)
texto científico, canção, focalizado(s) no capítulo. A leitura de texto científico tem caráter informativo e complementar às problematizações e
poema, anúncio atividades de exploração (experimentos, debates, conversas). Não é esperado que a leitura do texto seja suficiente para
publicitário, tira, charge, a aprendizagem científica.
receita, entrevista,
biografia, documento)

Para ampliar seus Seção presente no final de vários capítulos, traz indicação de livros, sites, vídeos educacionais e filmes sobre o tema
estudos estudado no capítulo.

Para criar Estímulo à criatividade com base em um ou mais temas, técnicas ou conceitos estudados.

Para refletir Ampliação de um tema estudado, a fim de promover uma reflexão que leve os alunos a buscar novas respostas conside-
rando os conhecimentos trabalhados.

Pesquisar A realização de pesquisas, devidamente orientadas pelos professores, é um procedimento importante para possibilitar
que os alunos se tornem protagonistas do trabalho em sala de aula. A pesquisa é também uma das formas de estimulá-
-los a trazer conhecimentos para a sala de aula com base em suas experiências nas localidades onde vivem.

Planejando a fala Esta é a seção da fala/oralidade/exposição oral. É um momento importante da aprendizagem, uma vez que não é co-
mum explorar a linguagem oral (fala) como objeto de ensino. No livro do aluno, propõem-se maneiras de organizar as
atividades que envolvem oralidade. Trabalhar textos orais (debate, relato de observação, seminário) requer organização
e planejamento para que todos possam participar. Reforce aos alunos que a fala pública exige preparação anterior, ano-
tações e ensaio. Comente também que as anotações são um apoio a que podem recorrer durante suas falas.

Roda de conversa Momento em que os professores convidam os alunos a refletir e conversar sobre um tema, levando em conta infor-
mações preliminares ou os conhecimentos prévios destes. É uma importante oportunidade para estimular os alunos a
trazer suas experiências para a sala de aula, criando um ambiente coletivo de aprendizagem, no qual eles não ocupem
apenas uma posição passiva como aprendizes.

Momento da escrita Proposta de produção de textos de diferentes gêneros nas diferentes áreas do conhecimento. Os alunos devem ser
orientados e acompanhados durante as produções, a fim de que haja compreensão da estrutura de composição do texto
no gênero indicado, etapas de reescrita e troca de textos entre colegas para realização de observações. É conveniente
que as propostas de produção de texto levem em conta a existência de leitores e de espaços de circulação, e a situação
de produção precisa ser explícita. Os procedimentos do processo de produção textual são: planejamento, rascunho,
revisão, edição final/publicação.
PLANEJAMENTO – consiste em uma etapa importante para que os autores ampliem seu repertório, delimitem os temas,
escolham o ponto de vista que irão adotar, elejam a finalidade com que vão escrever, prevejam quem são os possíveis
leitores, considerem a situação em que os textos vão circular, façam as escolhas textuais para adequar os textos à situ-
ação de comunicação.
ESCRITA – consiste em uma etapa para pôr no papel o que foi planejado e monitorar a escrita para garantir que os itens
planejados sejam cumpridos. Isso se faz revendo o texto a todo momento, enquanto se escreve.
REESCRITA – consiste em uma etapa para que os autores revejam o que escreveram, confirmem se os objetivos foram
cumpridos, avaliem se não fugiram do tema, observem se os períodos e os parágrafos estão concatenados; avaliem a
adequação do texto às condições da situação comunicativa, revejam a correção da linguagem de acordo com as normas
de concordância e regência, revejam aspectos da superfície do texto: a pontuação, a ortografia e a distribuição do texto
em parágrafos. É importante que os professores recolham e avaliem as produções dos alunos, apontando o que eles
podem corrigir na reelaboração de seus textos, e examinem possibilidades de publicá-los, para que tenham circulação
mais ampla. (ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. p. 54-8,
adaptado. Série Aula: 1.)

8 Língua Portuguesa
2. Os pressupostos metodológicos 2.3. Ensino de Língua Portuguesa hoje
que embasam a proposta para a disci-
plina de Língua Portuguesa 2.3.1. Ensino da leitura
Depois da alfabetização inicial, é preciso continuar ofere-
cendo condições para o desenvolvimento cada vez mais inten-
2.1. Pressupostos so e extenso das habilidades de leitura. O ensino da leitura, em
muitos casos, confunde-se com o despertar do gosto e do hábi-
2.1.1. Finalidade do ensino da Língua Portuguesa to da leitura. Pedir aos alunos que leiam obras literárias é um
No século XXI, a finalidade do ensino de Língua Portu- bom procedimento para incentivar a leitura literária, mas não é
guesa é possibilitar que os alunos adquiram as habilidades ne- suficiente para torná-los leitores de diferentes gêneros textuais.
cessárias para transitar pelo mundo da escrita. Isso significa Para ensinar a ler é preciso ensinar o aluno a fazer uso da leitura
que a escola deve ensiná-los a reconhecer os diversos gêneros nas práticas sociais. É preciso selecionar objetivos e conteúdos,
textuais, orais e escritos, que circulam socialmente e a usá-los planejar atividades e propor avaliações. Ler não é uma atividade
adequadamente em diferentes situações sociais. natural, pelo contrário, é uma atividade cognitiva complexa que
se aprende. É importante que ela seja vista assim para que as es-
2.1.2. Objeto do ensino da disciplina Língua colhas didáticas sejam eficientes na formação de um leitor.
Portuguesa
Para atingir a finalidade do ensino de Língua Portu- 2.3.2.Ensino da linguagem escrita
guesa, o objeto de estudo dessa disciplina não pode ser Para que o aluno aprenda a produzir um texto de deter-
outro que não o próprio texto nas modalidades oral e es- minado gênero, é preciso que o professor planeje o ensino
crita, conforme o modo como circulam na sociedade. A deste. Apenas solicitar que o aluno escreva, sem lhe dizer a
pretensão desse ensino é, então, chegar aos usos sociais situação de produção, não leva à aprendizagem da linguagem
da língua, na forma como ela acontece no dia a dia, isto escrita. Nas situações reais, toda pessoa que pretende produ-
é, ocorre sempre entre pessoas, com alguma finalidade zir um texto eficaz precisa ter clareza da finalidade do que vai
comunicativa, num contexto específico e sob a forma de escrever, saber quem será seu leitor e em que âmbito o texto
um texto, de variados gêneros. será publicado. Assim, é importante que as condições de pro-
dução estejam muito claras para o aluno a cada proposta de
trabalho apresentada pelo professor.
2.1.3. Objetivo geral Então, para escrever textos, o aluno precisa saber:
O objetivo geral de qualquer programação de estudo de Lín-
t qual a finalidade da escrita: entreter, sensibilizar, explicar
gua Portuguesa deve ser a ampliação da competência linguística
um tema, ensinar um procedimento, convencer alguém de
do aluno em relação a fala, escuta, leitura e escrita. algo etc.;
t quem é o leitor do texto: o professor e os colegas da turma,
2.1.4. Objetivos específicos, conteúdos, atividades e outros professores e colegas de outras turmas, a comunida-
avaliação de escolar de uma forma geral, a família, os leitores de um
A escolha dos objetivos específicos, dos conteúdos, das ati- determinado jornal ou revista etc.;
vidades e da avaliação deve estar condicionada ao objetivo geral. t qual o gênero em que o texto se materializará: saber o gêne-
Esses elementos precisam ser coerentes e estar interligados para ro textual determinará o suporte em que circulará (jornal,
garantir a aprendizagem do aluno. revista, cartaz, folheto, livro etc.), a forma (superestrutura,
silhueta) e a estrutura linguística (sequências textuais, va-
2.2. As boas práticas docentes riedade linguística, estruturas gramaticais e seleção voca-
Tomando como base os pressupostos mencionados, são bular específicas).
boas práticas aquelas que:
t têm como objetivo desenvolver a competência linguística 2.3.3. Ensino dos gêneros textuais orais
dos alunos nas seguintes habilidades: ler, escrever, escutar É preciso que a diversidade de gêneros textuais orais che-
e falar, em uma dada situação de interação; gue à sala de aula para o aluno aprender a produzi-los e/ou es-
cutá-los: declamação de poesia, entrevista, debate, seminário,
t tratam a língua como atividade social com intenção comu-
mesa-redonda, palestra, painel, teatro, filme, sermão, leitura
nicativa;
em voz alta para o outro, contação de histórias etc. Assim como
t apresentam coerência entre os objetivos, os conteúdos, a com a leitura e a escrita, também no trabalho com a comuni-
metodologia e a avaliação; cação oral não se pode perder de vista o caráter comunicativo
t selecionam conteúdos relacionados com o desenvolvimen- da linguagem.
to da competência linguística dos alunos;
t deixam clara a intencionalidade do professor; 2.3.4. Ensino da literatura
A formação do leitor literário deve ser um objetivo em todas
t explicitam as expectativas de aprendizagem; as etapas da escolarização e, para isso, é preciso incluí-la no cur-
t recorrem a referências bibliográficas. rículo desde o início da escolaridade.
6o ao 9o ano 9
2.3.5. Avaliação de ação social e histórica que constitui a realidade. A literatura é
Para avaliar, é preciso que o professor tenha clareza do que fonte inesgotável de conhecimento, de descoberta, de reflexão e
os alunos necessitam aprender, de seus objetivos de aprendi- de divertimento.
zagem e do que de fato aprenderam, depois de uma etapa de Sabemos que a inserção dos alunos da EJA no mundo letra-
ensino. A finalidade da avaliação é acompanhar o processo do é muito variada. É comum que, em uma mesma sala de aula,
de aprendizagem dos alunos e registrar esse acompanhamento convivam alunos que têm pouca familiaridade com a língua es-
para analisar as possibilidades de aprendizagem de cada um e crita e alunos que escrevem e leem com certa facilidade. Há ado-
do grupo. Com base no registro e na análise, o professor pode lescentes recém-evadidos da escola que buscam as classes da EJA
planejar e replanejar suas ações. para terminar o Ensino Fundamental mais rapidamente e, assim,
obter mais qualificação para enfrentar o mercado de trabalho;
2.3.6. Gêneros textuais: reflexão e prática homens e mulheres adultos que, depois de muitos anos afastados
da escola, querem realizar o antigo sonho de completar os estu-
dos, entre outros. Assistem à mesma aula pessoas com diferentes

Photo Scala, Florença


graus de letramento e com diferentes propósitos.
Esse quadro heterogêneo constitui um desafio para o pro-
fessor. O ritmo diferente dos alunos, a falta de familiaridade
com a língua escrita, o pouco domínio dos protocolos escola-
res exigem do professor estratégias de trabalho que explorem
a diversidade e ajudem a superar dificuldades e a aperfeiço-
ar competências leitoras. Por isso, o ensino de leitura (assim
como o de escrita, de oralidade e de análise linguística) deve
estar associado ao ensino de estratégias de abordagem que
favoreçam a compreensão e a construção dos sentidos dos
textos. O trabalho de leitura deve ser planejado com base nos
gêneros discursivos e em conteúdos procedimentais que per-
mitam aos alunos interagir com os textos.
Um professor que quer tornar o trabalho de leitura pra-
zeroso e estimulante tem o desafio de fazer os alunos dialoga-
rem com o texto que estão lendo; de saber colher suas impres-
sões, ensinando-os a rastrear as pistas linguísticas deixadas
pelos autores, a relacioná-las com ideias e informações pré-
vias ou que lhes são fornecidas pelo texto. Quanto mais pistas
são rastreadas em um texto, mais consistentes se tornam as
hipóteses interpretativas.
É importante perceber que o diálogo entre o leitor e o tex-
to começa antes mesmo de a leitura ser iniciada. Antes de ler, é
importante inspecionar o texto, sua forma (se é um poema, um
artigo de divulgação científica, uma notícia etc.), observar deta-
lhes gráficos (tabelas, ilustrações, linhas, colunas, palavras des-
tacadas), referências bibliográficas. Devem-se antecipar sentidos
Ernst Barlach. Dois monges. Escultura. Coleção de Arte Religiosa Moderna, do texto, refletindo sobre o título e os subtítulos. Quanto mais
Vatiano. ideias os alunos puderem adiantar sobre o tema que será aborda-
do, mais significativo será o trabalho de leitura.
A escultura Dois monges, de Ernst Barlach, é emblemática. As atividades propostas em cada seção visam explorar a
São comoventes a serenidade e a entrega desses leitores. O olhar natureza dialógica da linguagem. Atividades antes, durante
deles pousa na página do livro que está em suas mãos. Que pala- e depois da leitura colhem impressões, oferecem subsídios,
vras estariam lendo que recriam o mundo? Leem um romance? proporcionam aprofundamentos. As questões propostas re-
Um livro de filosofia? De poesia? As palavras que leem são profe- cuperam ideias dos textos lidos, procuram mostrar caminhos
ridas por alguém que habita alguma terra longínqua ou que vive para a compreensão das passagens difíceis, fazem compara-
num lugar próximo? A que tempo elas os remetem? Quais serão ções e analogias com ideias ou outros textos etc. Em todas as
as descobertas reservadas para as próximas páginas? O que vai seções, é fundamental que o professor possibilite interações
mudar depois de terminar o livro? entre o texto e o aluno. É importante utilizar como matéria-
Os textos e, principalmente, as diversas maneiras de lê-los -prima as considerações de cada um.
ajudam a construir nosso olhar para o mundo. O trabalho de lei- Se a linguagem serve para agir no mundo, se interagimos
tura deve envolver reflexão e construção de sentidos, não mera com textos que se manifestam sempre em um ou outro gênero,
decodificação. Lemos para entender o espírito do ser humano, os gêneros textuais devem orientar o curso de Língua Portugue-
em sua relação com o mundo que o cerca. A língua é uma forma sa. Trabalhar com gêneros é uma oportunidade de lidar com a
10 Língua Portuguesa
língua em seus mais diversos usos no dia a dia. Poema, conto A discriminação linguística é uma entre tantas outras formas de
popular, crônica, notícia, reportagem, artigo de divulgação cien- exclusão provocadas pela desigualdade social.
tífica, texto de opinião são gêneros em que se focalizam os volu- Ensinar língua oral, portanto, significa desenvolver o domí-
mes desta coleção. nio dos gêneros que apoiam a aprendizagem da Língua Portu-
Na exploração dos gêneros, procuramos ultrapassar os as- guesa e das outras áreas. Para tanto, devem-se empregar meios
pectos estruturais e formais do texto, colocando diante dos alu- como seminários, relatos de experiências, debates, narrativas
nos seus aspectos comunicativos e interacionais. Os textos dizem orais de contos lidos, poemas etc. Uma boa estratégia para traba-
alguma coisa a alguém, de determinada forma, em determinado lhar os textos orais é desenvolver atividades de escuta orientada,
contexto histórico, em determinada circunstância de interlocu- que possibilitem ao aluno construir, progressivamente, modelos
ção. Os aspectos sociocomunicativos e funcionais são evidencia- apropriados ao uso dos gêneros orais. Seria interessante organi-
dos pela situação de produção e de recepção dos textos, sendo zar um acervo de áudio e/ou vídeo que apresente exemplos de
bastante explorados nas atividades de leitura. textos orais a serem produzidos pelos alunos.

2.3.7. Linguagem oral: escuta e produção de textos 2.3.8. Análise linguística


Na escola, cada vez mais, os gêneros da oralidade são objeto A análise linguística é mais do que estudar gramática. Se a
de pesquisa e trabalho por parte de professores e coordenadores. unidade que orienta o trabalho de Língua Portuguesa é o texto,
A oralidade, assim como a escrita, é um fenômeno linguístico que se manifesta num ou noutro gênero, os conteúdos que ga-
que pode e deve ser trabalhado na escola. Mas isso não pode sig- nham relevância são aqueles que ajudam o aluno a ampliar os
nificar, em hipótese alguma, estigmatizar o aluno pelos traços recursos expressivos. Por isso, a análise linguística deve funcio-
que marcam sua fala. Trabalhar a oralidade significa promover o nar como ferramenta para que o aluno aprimore a compreensão
debate e a interlocução, convidar o aluno a expor seus pontos de e a produção de textos orais e escritos e reflita sobre os fatos da
vista, defender direitos, argumentar, ou, em outras palavras, esti- língua e as implicações sociais que ela produz.
mular capacidades cada vez mais exigidas nos espaços profissio- Fazer análise linguística é pensar sobre a linguagem, ten-
nais e na vida pública. Falar sem se intimidar diante de qualquer tando compreender de que maneira os discursos cristalizam
interlocutor, expor com clareza e fluência temas para além da determinadas práticas sociais; é estudar as características que
esfera cotidiana, avaliar o que o outro fala para não se deixar en- os textos assumem, refletindo sobre aspectos comunicativos e
ganar ou para reformular posições são as capacidades essenciais interacionais dos gêneros.
para o exercício da cidadania em uma cultura tão fortemente oral As hipóteses interpretativas nascem das pistas que os auto-
como a brasileira. res dão aos leitores. As pistas nada mais são do que os recursos
Nas aulas de Língua Portuguesa, as atividades que envol- de linguagem presentes nos textos. Uma vez que as práticas de
vem a modalidade oral, propostas nesta coleção, criam situações leitura e produção são convertidas em objeto privilegiado do tra-
para que os alunos possam atuar em debates e outros gêneros balho em sala de aula, acreditamos que o aluno tenha de lidar
nos quais os usos da linguagem apresentam registros diferentes não com todos os conteúdos gramaticais, mas apenas com os ne-
daqueles empregados em situações cotidianas. Não se trata de cessários para a abordagem e a produção dos textos.
aprender a falar “certo” ou como prescreve a gramática norma- Um curso de Língua Portuguesa deve ensinar conteúdos que
tiva, mas de perder o medo de se expressar, monitorar a fala de levem o aluno a interagir com textos, por isso precisa centrar o
acordo com a reação da plateia, organizar o conteúdo da fala con- trabalho em conteúdos de natureza procedimental e em conteú-
forme o tema proposto. dos linguísticos que permitam a construção de significados. O
Muitas vezes, a fala é vista como algo que se opõe à es- grande desafio no trabalho de análise linguística é fornecer os
crita. Alguns estudiosos, contudo, apontam que a oralidade e subsídios necessários para que os alunos possam rastrear as pis-
a escrita são mais semelhantes do que diferentes, ainda que tas dos textos (gêneros) usadas na construção dos significados.
cada uma tenha suas especificidades. Tanto a fala como a Quanto mais pistas forem capaz de rastrear, mais consistente
escrita têm funções interativas e apresentam dialogicidade, será a leitura.
situacionalidade, coerência, envolvimento, constituindo seus O texto não pode tornar-se um pretexto para o estudo da
sentidos nas situações de uso. Na fala não estão o caos nem os gramática. Para não incorrer nesse equívoco, propusemos um
erros dos falantes. caminho inverso: os recursos linguísticos presentes no texto são
Uma importante questão para ser trabalhada, quando lida- focados para sustentar a interpretação. Os conteúdos seleciona-
mos com a linguagem oral, diz respeito às variações linguísticas. dos nos capítulos nasceram, portanto, da necessidade de apro-
A variação é um fenômeno inerente a todas as línguas. O portu- fundar o domínio dos gêneros escolhidos.
guês que se fala hoje é tão bom quanto o que se falava antigamen-
te; nenhuma região do país fala melhor do que outra; nenhum 2.3.9. Alguns procedimentos didáticos que ajudam a
segmento social se expressa mais “corretamente” do que outro. enriquecer a aula
Na verdade, existem diferentes formas de dizer, que variam de Cuidados/organizações do espaço da sala de aula –
acordo com a época, o grupo social, a situação comunicacional. Manter o espaço organizado, de modo que diversas atividades
É inegável que algumas variedades são valorizadas de modo dife- possam ser realizadas simultaneamente. A distribuição de me-
rente pela comunidade de falantes. As variedades mais prestigia- sas e cadeiras não deve ser fixa, pois os alunos trabalharão indi-
das são aquelas faladas pelos segmentos mais ricos da população. vidualmente, em duplas, em pequenos grupos, em círculo, em
6o ao 9o ano 11
semicírculo etc. Organizar murais para comunicados, exposição e alunos, indicando objetivos a serem atingidos, conteúdos
de trabalhos, ilustração de assuntos da aula, jornal da classe etc. a serem estudados, tarefas a serem realizadas, responsabi-
Utilizar os recursos de aparelhos eletrônicos nas aulas: celular, lidades a serem cumpridas. O contrato didático também
computador, televisão, aparelho de DVD, câmera fotográfica e de pode conter acordos sobre organização, comportamen-
vídeo, rádio, CD player etc. De acordo com a situação didática, tos e atitudes, tempo e outros aspectos importantes para
procurar diversificar o mobiliário (cadeiras, mesas, bancos, ban- a realização do trabalho. Na avaliação é feita a análise do
quetas, almofadas etc.) ou utilizar outros espaços disponíveis na cumprimento desses acordos e são tomadas decisões sobre
escola. as ações necessárias para corrigir erros e melhorar o ren-
Visitas, saídas, passeios, convidados – Para comple- dimento.
mentar o trabalho em sala de aula, levar os alunos a eventos t Observação do professor: manutenção de registro aber-
culturais significativos e convidar à escola pessoas que tenham to de fatos, acontecimentos, conversas e comentários e ano-
histórias interessantes para contar, esclarecimentos sobre áreas tações estruturadas com pautas de observação de aspectos
profissionais ou orientações diversas pertinentes aos interesses e predeterminados.
necessidades dos alunos. Ir ao teatro e ao cinema, visitar museus t Testes e provas: rotineiros, desafiadores, prova em gru-
e bibliotecas, participar de concursos, entrevistar um escritor, po seguida de prova individual, testes-relâmpago, testes
visitar uma editora ou uma redação de jornal, conhecer uma es- cumulativos.
tação de rádio ou de TV, entre outras, são atividades que favore- t Questões ou situações-problema: podem ser tradicio-
cem muito a aprendizagem e que ampliam o universo cultural e nais, desafiadoras, abertas, elaboradas pelos alunos.
vivencial dos alunos. t Atividades que exigem justificativas: justificativas es-
Biblioteca de classe – Organizar uma biblioteca de classe critas e orais, em questionários, entrevistas informais ou
com acervo variado. Livros, jornais, revistas, CDs, DVDs etc. po- estruturadas.
dem ficar à disposição dos alunos. Convidar os alunos a auxiliar t Mapas conceituais: feitos para realizar diagnósticos, ex-
na montagem do acervo. plorar e aprofundar conteúdos, orientar a sistematização de
conhecimentos, verificar aprendizagens.
2.3.10. Currículo em espiral t Atividades com linguagem escrita ou oral: memórias,
Os conteúdos das unidades de Língua Portuguesa foram se- diários, redação de cartas, poesias, crônicas, músicas e jo-
lecionados para atender aos objetivos da aprendizagem em uma gos, diálogos, histórias em quadrinhos.
perspectiva de progressão. Assim, se o objetivo é a aprendizagem t Atividades de culminância de uma unidade didáti-
de um determinado gênero textual, todos os conteúdos de uma ca: projetos; campeonatos; olimpíadas; seminários; exposi-
unidade de ensino estão voltados para esse gênero. Além disso, ções; portfólios (BRASIL, 2002, p. 135).
estão distribuídos em espiral, isto é, retornam a cada ano, mas Utilizando instrumentos variados, é possível não só rea-
com aprofundamentos. Esse retorno constante dá aos alunos a lizar uma avaliação processual, como também identificar di-
ferentes aspectos da aprendizagem, que envolvem conceitos e
oportunidade de avançar no desenvolvimento de sua competên-
habilidades.
cia linguística.
Para construir uma avaliação adequada, é preciso tam-
O objetivo é que aprendam a narrar, relatar, argumentar,
bém que se tenham objetivos claros no que se refere à apren-
expor e poetar em praticamente todas as etapas desse nível de
dizagem. Isso vale tanto para professores como para alunos.
ensino. E, a cada nova fase, aumenta o grau de complexidade do
É importante que se explicitem os objetivos de aprendizagem
que eles devem aprender.
de cada disciplina naquele período, de forma que professores
e alunos tenham clareza de seus propósitos e de como serão
avaliados.
3. Pressupostos para avaliação na Esses pressupostos podem fazer parte do contrato didático,
Educação de Jovens e Adultos no qual os professores explicitam também seus objetivos e as for-
Para começar a refletir sobre a avaliação, sempre vale a pena mas de avaliação.
fazer a seguinte pergunta: Para que serve avaliar? Para os alunos
é mais uma oportunidade de aprender, para o professor, uma 3.1. Projetos coletivos de trabalho
oportunidade de planejar os próximos passos de acordo com os Outra abordagem, no que se refere à organização dos cursos
resultados obtidos. e da avaliação, são os projetos coletivos de trabalho.
Assim, uma avaliação não pode restringir-se a testar conhe- O principal objetivo do ensino por meio de projetos é
cimentos assimilados pelos alunos. Ela deve ser mais abrangente colocar os alunos no papel de sujeito de sua própria apren-
e procurar incluir também o processo de aprendizagem, ou seja, dizagem. Os projetos objetivam trazer para a sala de aula si-
qual foi o ponto de partida de cada aluno e onde cada um conse- tuações semelhantes às que se apresentam no mundo e nas
guiu chegar. Para registrar esse processo, podemos nos valer de relações sociais estabelecidas fora do espaço escolar. Na busca
algumas estratégias oferecidas pela Proposta Curricular para a de resolução para situações-problema, os projetos coletivos
Educação de Jovens e Adultos para o segundo segmento: de trabalho articulam diversas áreas do conhecimento, um
t Registro do contrato didático: texto no qual se regis- espaço sempre aberto para inovações e recriações por parte
tram as negociações e os acordos realizados entre professor dos professores.
12 Língua Portuguesa
Essa perspectiva toma como ponto de partida a ideia de 3.1.2. O estabelecimento de temas e subtemas
que a educação deve responder às demandas da atualidade. Com base na situação-problema, estabelece-se o tema e
Assim, contribui para a formação de sujeitos capazes de atuar elaboram-se, de modo coletivo, redes, negociando significados e
e intervir na sociedade da qual fazem parte. A aprendizagem conexões possíveis entre professores e alunos sobre os subtemas
envolve participação, tomada de posições, delineamento de e assuntos relativos aos projetos. Os professores selecionam os
planos e seleção de procedimentos para o alcance de objetivos. conteúdos, os conceitos, as habilidades e os procedimentos ne-
A proposta educativa deve proporcionar experiências proble- cessários para desenvolver o projeto e abordar o tema. Os alunos
matizadoras, em que os alunos coloquem em jogo seus conhe- realizam um levantamento sobre o que já sabem e o que desejam
cimentos e avaliem até que ponto eles são suficientes para a saber.
busca de soluções.
Os projetos também permitem a incorporação de diferentes 3.1.3. A busca de fontes
dimensões da realidade dos alunos, bem como suas representações O projeto é um trabalho atribuído a uma comunidade que
pessoais sobre essa realidade. Seus conhecimentos, indagações e investiga determinada questão e no qual se valoriza a coopera-
opiniões são o ponto de partida para a aprendizagem. ção. O professor não é um especialista, mas sim um orientador.
Essa forma de organizar o processo educativo não é apenas O percurso não é fixo, mas deve existir um fio condutor para
uma mudança de ordem metodológica, não representa somente auxiliar o trabalho.
uma maneira diferente de ensinar as mesmas coisas. A mudança A pesquisa deve valorizar a diversidade de fontes e as di-
está na própria definição de como se produz o conhecimento e de ferentes linguagens: livros, periódicos, filmes, vídeos, internet,
como os sujeitos se relacionam com ele. O estudo e a aprendiza- pessoas comuns, profissionais, especialistas. Não existe apenas
gem não se definem em razão dessa ou daquela disciplina, mas um único meio de se buscar informações.
em razão dos temas e das indagações que geraram esse estudo. O professor orienta as ações e cria condições para o de-
Não se trata de negar as áreas do saber, mas de tomá- senvolvimento do projeto e das aprendizagens a ele associa-
-las como referências possíveis à medida que se desenvolve o das. Nesse sentido, ele também é um aprendiz e tem uma fun-
processo de investigação e de estudo. Para compreender, por ção no grupo. A diferença entre o professor e os alunos não
exemplo, os modos de ocupação e utilização do solo no espaço está na experiência de vida ou no conhecimento específico de
urbano, é preciso conhecer e estudar economia, política, His- determinado conteúdo, mas em sua maior experiência com
tória, Geografia. É necessário ler, tomar notas, fazer cálculos, os discursos e as formas de representação da cultura escrita,
desenhar esquemas e mapas, produzir quadros e tabelas. É em seu maior nível de letramento. É essa experiência, não as
fundamental planejar o próprio trabalho e monitorá-lo para informações específicas acumuladas, que justifica a ação pe-
que funcione a contento. Se o processo pedagógico considerar dagógica.
a intervenção no espaço social como uma dimensão intrínseca
à formação do aluno, é preciso também planejar ações, fazer 3.1.4. O planejamento sai do papel
registros e avaliações. Para evitar que o propósito do projeto se perca, delineiam-
Quando se trabalha com projetos, é outra a relação que se -se coletivamente os objetivos e produtos a serem alcançados. Os
estabelece entre sujeito e conhecimento. professores elaboram atividades e os alunos planejam o trabalho
O desenvolvimento de um projeto não precisa seguir fórmu- individual e o coletivo, contemplam as etapas e as atividades em
las ou regras inflexíveis, muito menos um método passo a passo. sequência e os objetivos delineados.
A seguir, apresentamos algumas propostas de como um projeto Ao executar o projeto, também devem-se rever os planos
pode ser. Elas são apenas referências, pontos de partida para a e as estratégias à medida que surgem problemas e imprevistos.
elaboração de um projeto de trabalho coletivo. Novas questões aparecem e decisões precisam ser tomadas. Os
professores organizam meios de reflexão, recursos materiais, in-
3.1.1. A procura de uma situação-problema formações. Os alunos realizam as atividades e dão tratamento
A escolha da situação-problema é o início do diálogo en- adequado às informações necessárias ao projeto: sistematizam,
tre alunos e professor, que poderão negociar aquilo que todos ordenam e refletem sobre o andamento das etapas.
têm interesse em estudar e conhecer. Ao professor cabe propor
situações-problema que tenham valor educativo e promovam a 3.1.5. Avaliação do processo
mobilização de conhecimentos prévios e o levantamento de hi- Os professores favorecem, recolhem e interpretam as hipó-
póteses. Assim, é adequado que o professor lance questões que teses e as produções dos alunos. Analisam o processo coletivo e
indiquem a necessidade de elaborar novos conhecimentos e a o individual. Os alunos, por sua vez, fazem uma autoavaliação
aprendizagem de habilidades por meio da pesquisa e da elabo- e, juntos, comparam e reconhecem o processo de aprendizagem
ração de planos de ação. empreendido e os resultados alcançados.
Os alunos expõem seus conhecimentos, representações, A execução de um projeto deve levar em conta alguns itens
valores e crenças, tomando-os como ponto de partida para a básicos para se obter sucesso. Nesse sentido, é importante ob-
aprendizagem. Também indicam o que querem saber e em que servar se:
aspectos esses desejos podem promover aprendizagens. Juntos, t o projeto possui objetivo claro e justificativa coerente;
professor e alunos estabelecem os objetivos e o percurso que se- t as fontes, os recursos e os materiais estão disponíveis para
rão desenvolvidos. a execução do projeto;
6o ao 9o ano 13
t o professor investiga o que os alunos conhecem e o que t o projeto traz atividades desafiadoras que promovem a ação
querem saber sobre o tema em questão; intelectual dos alunos, admitindo diferentes estratégias
t o conteúdo do projeto é significativo em si, permitindo o para as produções esperadas;
estabelecimento de um grande número de relações e possi- t o projeto é suficientemente flexível para acomodar impre-
bilitando aos alunos colocar em jogo tudo o que sabem para vistos e/ou incorporar novas etapas;
ampliar esses saberes; t o produto final torna visíveis as aprendizagens realizadas.
t os alunos conhecem e compartilham o objetivo do projeto;
t o projeto apresenta continuidade e progressão;
t as atividades preveem orientações didáticas específicas 4. Comentários sobre cada um dos
para o objeto do conhecimento em questão; capítulos por volume
t o projeto favorece a interação entre alunos e outros seg-
mentos envolvidos; Nas páginas a seguir encontram-se a reprodução das pági-
t o tema e seus desdobramentos estão incluídos em práticas nas do livro do aluno, seguidas de comentários específicos sobre
sociais, a fim de transcender os muros da escola; seus capítulos, do 6º ao 9º ano.

14 Língua Portuguesa
Capítulo 1
LÍNGUA O mundo da leitura,
PORTUGUESA
a leitura do mundo

E stamos sempre lendo. Quando avaliamos o que nos cerca e atribuímos um


sentido a isso, com base na nossa experiência, estamos fazendo leituras. Le-
mos o ambiente, as atitudes das pessoas, seus olhares... Enfim, lemos o mundo.
Leia a tirinha abaixo, criada pelo quadrinista baiano Antonio Cedraz. Veja
como o que lemos (um gesto, por exemplo) pode ter mais de um sentido.

Estúdio Cedraz/Intercontinental Press


GLOSSÁRIO

Banho de folha: conhecido também como banho de ervas, banho de cheiro, banho-cheiroso. É um banho no qual se misturam ervas, cascas, flores, essências, folhas,
resinas etc., ou seja, componentes que popularmente são considerados medicinais e também capazes de afastar o azar.

RODA DE CONVERSA

Pensando nos muitos sentidos que podemos atribuir a um


texto, reúna-se com seus colegas para responderem juntos às se- Turma do Xaxado
guintes questões: É formada por personagens
tipicamente brasileiras. A princi-
1. No primeiro quadrinho, Zé Pequeno entrega algumas ervas fres- pal é Xaxado, menino despacha-
cas a Xaxado. Que finalidades podem existir nesse ato? do, que está sempre alerta para
preservar as tradições herdadas
2. O que o porquinho achou que os dois fariam com aquelas ervas? do avô, um dos cangaceiros de
3. As pessoas constroem sentidos diante de uma situação ou de um Lampião. Ele é acompanhado por
outras personagens, como o pre-
texto, como o porquinho da tira. Que exemplos do dia a dia vocês guiçoso Zé Pequeno, a intelectual
podem citar para confirmar essa declaração? Marieta, o arrogante Arturzinho, a
ecologista Marinês e seu irmão, o
músico Capiba. As histórias, que
Intercontinental Press

Antonio Cedraz têm humor e um toque de crítica


Nasceu em Miguel Calmon, na Bahia, em 1945. Além social, falam dos encantos e pro-
de ser quadrinista, trabalhou também como professor e blemas da nossa terra: a seca, a
bancário. Em 1998 criou a Turma do Xaxado. Já recebeu rotina mais lúdica da vida na roça
prêmios importantes por suas histórias em quadrinhos. e as figuras do folclore nacional.

6º ano 9
O PAPEL DO LEITOR
Um texto pode ter vários significados. E o sentido que damos a cada um des-
ses possíveis significados pode variar de acordo com o ponto de vista de quem lê.
Suponha, por exemplo, que uma amiga de Zé Pequeno e Xaxado também tenha
observado a cena, como os animais, e que ela tenha pensado nas mesmas possibi-
lidades que o porquinho. Você acha que ela teria a mesma reação que os animais?
Provavelmente nenhuma das possibilidades deixaria a amiga deles preocupada, já
os bichinhos teriam o que temer...
Podemos então afirmar que essa menina e os animais atribuíram sentidos di-
ferentes às mesmas ideias. Leram o mesmo gesto de formas distintas, ainda que
tenham entendido a mesma coisa por meio do gesto.
Tudo isso mostra que o leitor é muito importante no processo de leitura. O
sentido do que lemos não é único, nem imutável. O sentido não está pronto nas
coisas, mas esperando ser descoberto. O sentido depende do leitor, precisa dele...

LER CARTA

Para esta atividade, você vai ler um trecho de um documento muito importante na história do
nosso país. Trata-se da carta do achamento do Brasil.
Nas esquadras que faziam as longas e perigosas viagens marítimas nos séculos XV e XVI,
havia um escrevente. Sua função era relatar ao rei tudo que acontecia, como eram as terras
recém-conhecidas e que expectativas havia em relação às explorações das terras. No caso da
esquadra que chegou ao Brasil em 22 de abril de 1500, o escrevente era um português chamado
Pero Vaz de Caminha.

Leia a seguir um trecho de uma carta que ele escreveu a dom Manuel:

[...] O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em GLOSSÁRIO

uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, Alcatifa: tapete espesso e bem macio.
com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço [...]. E eles Castiçal: peça que tem um bocal para
apoiar uma vela.
entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar
Conta: peça pequena usada em rosários,
ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do colares, pulseiras etc.
Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à Cortesia: gentileza.
terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que Escrevente: pessoa que escreve.
havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e Estrado: suporte sobre o qual se apoia
assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, algo; banquinho para descanso dos pés.
Fitar: olhar fixamente.
como se lá também houvesse prata! [...]
Folgar: ficar satisfeito, alegrar-se.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez
Mui: forma antiga da palavra “muito”.
sinal que lhas dessem e folgou muito com elas, e lançou-as
Rosário: fileira de contas usadas para fazer
ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e orações, como o terço. Tem três vezes o
acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar tamanho do terço.
do Capitão, como se dariam ouro por aquilo. [...]
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a el rei d. Manuel.
Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000292.pdf>. Acesso em: 17 jul. 2012.

10 Língua Portuguesa
Responda às questões a seguir. Elas ajudarão você a interpretar o texto. CONHECER MAIS

1. A quem o escrevente se refere quando redige “eles”, no primeiro parágrafo? A carta do


2. Qual é o nome do capitão que o escrevente cita na carta? achamento
do Brasil
3. No início desse trecho da carta, o escrevente descreve o capitão.
Um navio da
a) Que detalhes são apresentados? esquadra levou a
b) Com base nesses detalhes, que leitura você faz do capitão? carta de Pero Vaz de
Caminha para Por-
c) Você acha que os nativos do Brasil fizeram a mesma leitura? Explique tugal. Depois de ser
sua resposta. lida pelo rei, a carta
foi guardada como
4. Em “Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a documento secreto,
alguém”, Pero Vaz de Caminha mostra que provavelmente esperava certo para evitar que os
espanhóis soubes-
comportamento dos nativos. sem dessas terras
a) Qual era o comportamento esperado? que os portugueses
haviam conhecido.
b) Por que o escrevente teria essa expectativa? Ficou guardada (e
c) Que leitura você faz dessa expectativa do escrevente? esquecida) por mui-
tos anos no Arquivo
5. O escrevente Pero Vaz de Caminha lê alguns gestos dos nativos. No pró- Central do Estado
prio texto reproduzido, sublinhe a parte que indica esses gestos e marque Português, que se
chama Torre do
com pares de colchetes – [ ] – a parte que mostra a interpretação que ele Tombo. Uma cópia
fez dos gestos. da carta foi encon-
trada no Brasil em
6. Só bem depois de a carta ter sido escrita foram encontrados ouro e prata 1817 no Arquivo da
no Brasil. Na sua opinião, o que fez Caminha interpretar que havia essas Marinha Real do Rio
riquezas nas nossas terras? de Janeiro. Foi nessa
época que ela se tor-
7. Caminha poderia ter atribuído outros sentidos aos gestos dos nativos. Cite nou pública.
ao menos um.

AS PALAVRAS, OS SENTIDOS
Uma árvore que cai no meio da floresta, sem ninguém ali por perto para ouvir,
faz barulho?
Essa pergunta, que parece brincadeira, tem um sentido profundo e ajuda-nos
a refletir sobre a necessidade de haver alguém para testemunhar as coisas. Se não
há olhos para ver nem ouvidos para escutar, parece que as coisas não acontecem.
Essa reflexão revela também que, quando observamos e sentimos as coisas
que nos cercam, trazemos o mundo para dentro de nós.
Mas, na maioria das vezes, não nos satisfazemos apenas em perceber ou
sentir. Ao trazer o mundo para dentro de nós, logo somos dominados por
uma vontade de comunicá-lo, expressá-lo, de repartir com outras pessoas o
nosso testemunho. Daí a importância da linguagem verbal, isto é, da lingua-
gem que usa palavras.

6º ano 11
Para refletir sobre o funcionamento da linguagem verbal, vamos partir de um
exemplo.
Na Grécia antiga, quando alguém recebia a visita de um hóspede, costumava lhe
dar, em sinal de afeição, um objeto. Era um sinal de reconhecimento. Também era
comum, entre os amigos, partir uma moeda pelo meio, cabendo uma parte a cada
um – cada metade era um sinal de amizade. Costumava-se também usar desse meio
para reconhecer pessoas, depois de uma longa separação. Os pais, quando tinham
de separar-se dos filhos por longo tempo, lançavam mão de algum símbolo para
posteriormente reconhecê-los.
Assim, por trás da moeda partida ou de qualquer outro sinal ou símbolo, havia
sempre um significado: a amizade, o amor, a união. Um sinal ou símbolo sempre se
refere a outra coisa; por trás deles está o que é simbolizado por eles. Nesse sentido,
sinais e símbolos são considerados signos, isto é, uma coisa que torna presente outra
coisa.
Mas o que tudo isso tem a ver com o estudo de língua portuguesa? Muita coisa!
Vamos esclarecer!
A palavra também é um signo, um signo linguístico. E, como signo, ela evoca
algo, representa algo. Pois bem, estudando a língua portuguesa (na verdade, estu-
dando qualquer língua), você refletirá sobre os diversos modos como as palavras
são usadas. Não há como negar: as palavras são signos com os quais lidamos a
todo instante.
Palavras faladas ou escritas nos levam a refletir sobre fatos da realidade, fazem-
-nos conhecer experiências humanas que alimentam os desejos e os sonhos. Se para
fazer barulho a árvore precisa de alguém que a ouça, as palavras também precisam
de alguém que revele seus sentidos. É por isso que temos de assumir nosso papel
de leitores, leitores das palavras e do mundo. Aprimorando nossa maneira de ler,
poderemos ampliar a capacidade de compreensão e admiração do mundo.

OS TEXTOS, OS SENTIDOS
As palavras não são empregadas isoladamente. Elas são organizadas em textos
para expressar sentidos aos leitores e ouvintes.
É importante lembrar que a palavra texto tem relação com tecido. Podemos
perceber essa aproximação quando pensamos em indústria têxtil. Texto, em seu
sentido original, significa aquilo que foi tecido. Tanto no texto como no tecido,
está presente a ideia dos fios que são tramados, entrelaçados para criar um todo.
E quando olhamos para esse todo – seja o tecido, seja o texto – nem percebemos
os vários fios, enxergamos algo que é uma unidade.
Assim, o que define um texto não é a presença de palavras, pois há também
textos visuais (um quadro, uma foto), sonoros (uma sinfonia), verbais e visuais
(um filme, uma história em quadrinhos). O que define um texto é o sentido ou
os sentidos que o autor pretendeu alcançar quando o criou, certa unidade, que é
perceptível para quem o lê, ouve e vê.

12 Língua Portuguesa
Essa definição e a ideia de que “textos são objetos simbólicos que pedem para
ser interpretados” nos dão uma dica importante: não é possível ler sem interpre-
tar. E a interpretação de um texto não ocorre depois, mas durante a leitura. Ao ler,
o leitor vai estabelecendo relações entre as ideias apresentadas, refletindo sobre
a maneira como o texto foi organizado, inferindo a intenção do autor, enfim, vai
descobrindo os sentidos.

LER TIRA

Leia a tira da turma do Xaxado. Em seguida, responda às questões.

Estúdio Cedraz/Intercontinental Press


1. Ginuíno levantou suspeitas contra o goleiro. Em que dado a leitura dele se baseia?
2. O colega de Ginuíno não fez a mesma leitura.
a) O que ele alega para justificar sua discordância?
b) Em que circunstância a justificativa do colega de Ginuíno seria coerente?
3. Em um diálogo, as falas podem revelar a imagem que as pessoas têm umas das outras. Que ima-
gem Ginuíno provavelmente tem de seu colega?
4. Que nome se dá à situação que envolve o goleiro?
5. A tira usa a linguagem verbal? Justifique sua resposta.
6. A tira usa alguma linguagem não verbal? Em caso afirmativo, mencione.
7. Quando queremos mencionar o que está no interior dos balões, costumamos usar a palavra texto.
Neste caso, a que tipo de texto, especificamente, estamos nos referindo?
8. Essa tira da Turma do Xaxado, formada por dois quadrinhos, é um texto. Que característica da
tira nos permite fazer essa afirmação?

TEXTOS FICCIONAIS E NÃO FICCIONAIS


Para ler bem um texto, um procedimento importante é avaliar logo de início se
ele é ficcional ou não ficcional. Ficção quer dizer “invenção”, “simulação”, “imagi-

6º ano 13
nação”. O autor de um texto ficcional inventa um mundo que pode ser totalmente
diferente do nosso ou reinventa nosso mundo real na imaginação dele. Como fez o
quadrinista Antonio Cedraz, autor da tira que você leu no começo deste capítulo.
Os textos ficcionais podem ser escritos em prosa, ou seja, organizados em
frases e parágrafos. É o caso dos romances, por exemplo. E também podem ser
escritos em versos, organizados em estrofes, com ou sem rimas, conforme você
verá no próximo capítulo.
Os textos que apresentam um “toque poético” são considerados obra de arte,
pois produzem um tipo de emoção que as obras de arte costumam provocar. Você
já ouviu uma música ou uma história, ou viu um quadro ou uma foto, e sentiu
o coração bater mais forte? Sentiu um nó no peito, os olhos cheios de água, uma
vontade maluca de rir? Emoções assim costumam ser geradas por obras de arte,
entre elas o texto literário.
Para fazer a leitura pessoal do mundo, o autor de um texto literário seleciona
e combina palavras. É essa combinação cuidadosa de palavras que torna o texto
artístico. Por isso, diante de textos artisticamente pensados, é importante obser-
var o que o autor “diz” (o conteúdo) e “como ele diz” (a maneira como o texto está
escrito). A maneira especial como as palavras estão organizadas e encadeadas
produz efeitos que geram reações emocionais.
Já o autor de um texto não ficcional não se preocupa com isso. Um cientis-
ta, por exemplo, procura apresentar de forma objetiva a realidade. Ele busca en-
tender a natureza e escrever os textos científicos a partir do que observa. Claro
que ele pode imaginar teorias e escolher palavras belas para seu texto, mas sua
intenção principal não é inventar. O cientista quer explicar, com objetividade, o
funcionamento do mundo.

LER TEXTOS FICCIONAIS E NÃO FICCIONAIS

Leia os três textos a seguir.

Coveiros da natureza
A vida de um organismo costuma ser dividida em quatro fases: nascimento,
crescimento, reprodução e morte. Após a morte, o ser vivo será consumido aos poucos
por diversas criaturas – como fungos, bactérias e animais – chamadas necrófagas,
palavra de origem grega que significa “que come os mortos”. [...] a atividade dos
necrófagos é fundamental para o equilíbrio da natureza, pois promove a reciclagem de
nutrientes da cadeia alimentar.
Os besouros do gênero Coprophanaeus formam um grupo interessante de
besouros-carniceiros. Ao encontrarem um animal morto, usam as pernas e a cabeça
para arrancar pedaços de carne, que são usados para alimentar suas larvas.
[...]
COSTA, Henrique Caldeira. Coveiros da natureza.
Disponível em: <http://chc.cienciahoje.uol.com.br/coveiros-da-natureza>. Acesso em: 18 maio 2012.

14 Língua Portuguesa
O velho ambicioso
Um velho tinha um filho muito trabalhador. Não podendo ganhar a vida como
desejava em sua terra, despediu-se do pai e seguiu viagem para longe a fim de trabalhar.
A princípio mandava notícias e dinheiro, mas depois deixou de escrever e o velho o
julgava morto. Anos depois, numa tarde, chegou à casa do velho um homem e pediu
agasalho por uma noite. Durante a ceia conversou pouco e deitou-se logo para dormir.
O velho, reparando que o desconhecido trazia muito dinheiro, resolveu matá-lo. Relutou
muito, mas acabou cedendo à tentação e assassinou o hóspede, enterrando-o no quintal
do sítio. Voltou para a sala e abriu a mala do morto. Encontrou a prova de que se tratava
do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa. Cheio de horror, o pai e
matador foi entregar-se à justiça e morreu na prisão, carregado de remorsos.
Contado por Mons. Alfredo Pegalo, em Natal, Rio Grande do Norte
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil para jovens. São Paulo: Global, 2006. p. 56.

Cidade italiana cria lei que proíbe moradores de morrer


Município com 4 000 habitantes alega que não tem mais onde enterrar mortos
O prefeito da cidade de Falciano Del Massico, Giulio Cesare Fava, assinou um
decreto inédito para o município com cerca de 4 000 habitantes. A lei proíbe que os
residentes morram, como indica o texto:
“Os cidadãos não poderão cruzar as fronteiras da vida terrestre e adentrar o além.”
Fava alega que o cemitério da cidade está lotado e que não tem verba suficiente
para construir outro. O município da cidade vizinha, Carinola, também está cheio.
O prefeito não divulgou como será feita a punição para o decreto. Desde que ele
anunciou a lei, dois idosos morreram.
Fava diz que pretendia provocar as autoridades do governo central e a prefeitura
de Carinola, que não estaria colaborando ao abrir novas vagas no cemitério. Ele afirma que
os moradores de Falciano Del Massico se divertiram muito com a medida.
“As pessoas na cidade estão fazendo abaixo-assinados e já tem dono de terra
prometendo oferecer áreas para a prefeitura usar para construção de cemitérios.”
Disponível em: <http://noticias.r7.com/internacional/noticias/
cidade-italiana-cria-lei-que-proibe-moradores-de-morrer-20120315.html>. Acesso em: 21 set. 2012.

Classifique os textos em ficcional ou não ficcional. Em seguida, justifique por que você deu
essa classificação.

a) “Coveiros da natureza”

b) “O velho ambicioso”

6º ano 15
c) “Cidade italiana cria lei que proíbe moradores de morrer”

PLANEJANDO A FALA

No seu dia a dia são comuns as situações de fala. Nesta seção você também vai praticar a lín-
gua portuguesa na modalidade oral. A diferença é que a fala aqui será planejada, pois fará parte
de uma situação de apresentação pública.
Junto com alguns colegas, você vai se encarregar de contar uma história a um grupo da classe.
E esse grupo também vai se organizar para contar uma história a vocês.

Sigam estas etapas:

1. Conforme as orientações do professor, formem grupos de 4 ou 5 alunos.


2. Leiam o texto que o professor indicar a cada grupo. Será um dos tex-
tos transcritos nas páginas seguintes. O professor também vai orientá-los
como realizar a leitura.
3. Dividam o texto em algumas partes. O tamanho dessas partes pode va-
riar, o importante é que cada uma tenha unidade de sentido.
4. Encarreguem cada componente do grupo de contar uma parte do texto.
5. Estudem, individualmente, o conteúdo que ficou por sua conta.
6. Ensaiem, no próprio grupo, a apresentação oral. Para isso, o aluno que fi-
cou com a primeira parte começa a contar a narrativa, seguido por aquele
que ficou com a parte seguinte, e assim sucessivamente até o última pes-
soa do grupo.
7. Comentem a apresentação de cada colega, observando:
t o tom de voz;
t se a pessoa transmitiu o conteúdo do texto original;
t se deu destaque aos detalhes importantes;
t se buscou envolver quem estava ouvindo.

8. Ensaiem quantas vezes julgarem necessário.


9. No dia marcado pelo professor, dois grupos que prepararam narrativas
diferentes ficarão juntos. Um grupo conta sua história ao outro.
10. Após o término da apresentação, conversem sobre o que acharam das
histórias e da experiência de falar em público.

16 Língua Portuguesa
Uma questão de interpretação
Havia certa vez, em certo reino, um mosteiro habitado por monges jovens e
idosos, que passavam o dia em preces, contemplações e estudos.
Um dia, um novo rei subiu ao trono e quis conhecer melhor seus domínios.
Ao passar pelo mosteiro, ficou maravilhado com os jardins e a paisagem do
lugar. Imediatamente cobiçou o mosteiro para si, já pensando em transformá-lo em
residência de veraneio.
No entanto, não podia expulsar assim, sumariamente, os religiosos. Isso o indisporia
com seus súditos e ministros. Resolveu, então, conseguir o que queria de modo mais sutil.
Proclamou que desconfiava de que aqueles monges não tivessem, ali, a austeridade e
a vida dura necessárias para ampliar seus conhecimentos. Assim, seria melhor saírem de lá e
mendigarem pelas aldeias. Para comprovar que os monges eram ignorantes, promoveria um
debate. Os monges poderiam escolher um dentre eles para debater com o sumo sacerdote
da corte. Se o sacerdote ganhasse o debate, ficariam comprovadas as desconfianças do rei, e
os monges seriam expulsos. Mas se, porventura, o sacerdote viesse a reconhecer sua derrota,
então os monges ganhariam o direito de habitar o monastério para sempre.
Os monges tremeram ao saber da resolução do rei. O sumo sacerdote era famoso
por seus conhecimentos, sendo especialista em filosofia, teologia e todas as outras ciências
da época. Convocaram uma reunião e tentaram decidir quem seria o debatedor. Porém,
nenhum dos monges se propunha a tão difícil tarefa. A reunião estava num momento de
impasse, quando o jardineiro do convento, um homem muito simples, apresentou-se como
voluntário. Houve um murmúrio de desaprovação, mas o monge superior foi prático:
– Não temos voluntário algum. Isso quer dizer que, se não há outra saída, esta
é a única saída.
E no dia marcado para o debate, o jardineiro, acompanhado por alguns
monges, apresentou-se no palácio, onde já o esperavam o rei, o sacerdote e todos os
homens doutos e poderosos da corte.
Teve início o debate. O sacerdote prometera a si mesmo que derrotaria o
adversário sem nem sequer pronunciar uma palavra. Depois de olhá-lo com desprezo,
apontou o dedo para cima. O jardineiro, sem se perturbar, apontou o dedo para o chão.
O sacerdote pareceu ficar desconcertado. Mostrou-lhe então um dedo, diante de seu
nariz. O jardineiro não teve dúvidas: mostrou-lhe os cinco dedos, com a mão toda aberta.
O sacerdote titubeou. Com uma expressão de raiva e desespero, tirou do bolso
uma laranja. O jardineiro, muito tranquilo, tirou do bolso um pãozinho.
O sacerdote empalideceu e pediu ao rei que encerrasse o debate. Ele reconhecia
a derrota e declarava que nunca encontrara um oponente tão sábio.
O rei foi obrigado a cumprir sua palavra e assinou o compromisso de que os monges
conservariam o monastério para sempre. Assim que os vencedores deixaram o palácio, todos
se reuniram com o sacerdote, querendo que ele explicasse, o que, afinal, tinha sido discutido.
– Quando apontei o dedo para cima – disse o sacerdote –, quis declarar que só a
sabedoria dos céus é o que conta neste mundo. Mas ele, apontando para a terra, rebateu
dizendo que, embora não possamos deixar de considerar os céus, somos homens e
vivemos na terra. Então, mostrando-lhe um único dedo, argumentei que somos frágeis,
pois estamos sozinhos. E ele sabiamente me fez pensar que não, que estamos cercados
por outros homens, nossos irmãos. Finalmente, ao mostrar a laranja, rebati suas ideias,
lembrando-o de que a natureza é mais forte do que o homem, pois sabe criar coisas que
ele jamais criaria. Foi aí que ele me deu o golpe de misericórdia: ao mostrar-me o pão,
lembrou-me de que o homem é capaz de conhecer e modificar a natureza, criando obras
que, sozinha, ela não pode fazer.

6º ano 17
Todos ficaram estupefatos com a sabedoria revelada pelos monges.
Enquanto isso, no monastério, os monges se reuniam ao redor do jardineiro,
que explicava:
– Foi muito simples. Quando ele apontou para cima, mostrando que ia chover,
eu mostrei-lhe o chão, dizendo que seria bom, pois a terra necessita de chuva. Depois
ele me pareceu aborrecido e me mostrou um calo no seu dedo. Querendo ser gentil,
mostrei-lhe minha mão toda, para que ele visse que isso não tem importância: eu
tenho calos em todos os dedos! E, quando ele tirou a laranja do bolso, pensei que
fosse hora do lanche e peguei meu pão.
PAMPLONA, Rosane; MAGALHÃES, Sônia (Org.). O homem que contava histórias. São Paulo: Brinque-Book, 2005. p. 28-31.

Os três homens atentos


Três homens caminhavam juntos por uma estrada quando passou por eles um
velho muito apressado.
– Por acaso vocês viram o meu camelo? – ele perguntou, cheio de preocupação.
O primeiro homem respondeu-lhe com outra pergunta:
– Seu camelo é cego de um olho?
– É sim – disse o cameleiro.
– Ele não tem um dos dentes da frente? – continuou o segundo homem.
– É isso mesmo.
– É manco de uma perna? – completou o terceiro.
– Com certeza – ele afirmou.
Os três homens o aconselharam a seguir na direção de onde eles tinham
vindo, que logo encontraria seu camelo. O cameleiro agradeceu muito a indicação e se
foi. Mas nem sinal do camelo.
“Vou voltar correndo para falar mais uma vez com aqueles viajantes”, ele disse para
si mesmo. “Quem sabe poderão me dizer mais claramente em que lugar eles o viram.”
No final do dia, já quase sem forças, o dono do camelo avistou os três homens
descansando debaixo de uma amendoeira à beira da estrada.
– Não achei nada – ele gritou.
– O camelo levava duas cargas, de um lado mel e do outro milho? – perguntou
o primeiro homem.
– Sim – respondeu o cameleiro, bastante ansioso.
– Uma mulher grávida estava montada nele? – quis saber o segundo.
– Era minha mulher – falou o cameleiro.
– Sinto muito – disse finalmente o terceiro homem. – Nós não vimos o seu camelo.
O cameleiro foi embora desapontado, mas no caminho começou a juntar os fatos.
“Se eles sabem de tudo isso, é claro que estão escondendo de mim alguma coisa importante.
E se estão escondendo, é porque foram eles que roubaram meu camelo, a carga e também
minha mulher. São ladrões perigosos, mas não vão me enganar.” Correu até o juiz e contou
toda a história, muito nervoso. O juiz achou que o cameleiro tinha motivos mais que justos
para suspeitar daqueles homens, e ordenou que os prendessem como ladrões. Enquanto
isso, iria mandar investigar os fatos, para confirmar a culpa dos viajantes.
Algum tempo depois, o cameleiro voltou para casa e encontrou a mulher
cozinhando um delicioso carneiro para o jantar. Ela disse que deixara o camelo no
campo perto da casa de sua comadre, onde tinha parado para conversar.
O cameleiro retornou à corte e, pedindo desculpas por ter se enganado, disse
ao juiz que podia libertar os homens.

18 Língua Portuguesa
O juiz mandou chamar os três viajantes.
– Se vocês nem sequer tinham visto o camelo, como podiam saber tantas
coisas sobre ele? – perguntou, cheio de curiosidade.
– Bem – disse o primeiro homem –, nós vimos suas pegadas no caminho.
– Uma das pegadas era mais fraca que as outras, por isso deduzimos que era
manco – disse o segundo.
– Além disso, ele tinha mordiscado o mato de um lado só da estrada e, assim,
devia ser cego de um olho – continuou o terceiro.
O primeiro seguiu falando:
– As folhas estavam rasgadas, o que indica que o camelo tinha perdido um dente.
E o terceiro:
– De um lado do caminho vimos abelhas sobre os restos de alguma coisa no
chão e, do outro lado, havia formigas sobre um outro monte. As abelhas comiam o
mel que havia caído da carga, e as formigas recolhiam os grãos de milho.
– Também vimos alguns fios de cabelo humano bem compridos que só
podiam ser de uma mulher. Eles estavam bem no lugar onde alguém tinha parado um
animal e depois descido – disse o primeiro homem.
– No lugar onde a mulher sentou, observamos as marcas das duas palmas das
mãos, o que nos levou a pensar que ela precisara apoiar-se, tanto para sentar como para
levantar. Assim deduzimos que a mulher estava grávida – completou o segundo homem.
O juiz ficou impressionado.
– Mas por que não se defenderam, se não tinham culpa de nada?
– Porque nós sabíamos que ninguém iria roubar um camelo manco, cego
de um olho, sem um dente, levando uma mulher grávida! E que logo seu dono iria
encontrá-lo. Sabíamos também que ficaria envergonhado e viria até a corte para
corrigir o erro – disseram os três juntos.
Naquela noite, o juiz, antes de dormir, ficou um tempão sentado na cama
lembrando do seu camelo. Nunca tinha reparado se ele era manco, ou se era cego de
um olho, ou se lhe faltava um dente.
Quanto aos três homens, até hoje viajam pelos caminhos do mundo, realizando
o trabalho que lhes foi destinado.
MACHADO, Regina. A formiga Aurélia e outras formas de ver o mundo. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998. p. 19-22.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS


Livro Dezenove poemas desengonçados
O poeta apresenta várias situações em que ocorrem experiências de leitura e que não têm
obrigatoriamente relação com o texto verbal.
Aula de leitura. In: AZEVEDO, Ricardo. Dezenove poemas desengonçados. São Paulo: Ática, 1999.

Sites Série formação do leitor – parte 1


O site traz um episódio do programa Categorias Literárias, exibido pela Biblioteca Virtual do
Estudante de Língua Portuguesa (BibVirt). É possível baixar um arquivo de áudio que descreve
o processo de leitura e as habilidades necessárias para entender um texto. Inclui a narração do
conto “A primavera da lagarta”, de Ruth Rocha, para exemplificar.
Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2792>. Acesso em: 18 jul. 2012.

Série formação do leitor – partes 8 e 9


Mais episódios do programa Categorias Literárias, exibido pela Biblioteca Virtual do Estudante
de Língua Portuguesa (BibVirt). Aqui é abordada a “certidão de nascimento do Brasil”, ou seja, a
carta de Pero Vaz de Caminha.
Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2799>; <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2800>. Acesso em: 18 jul. 2012.

6º ano 19
Capítulo 2
LÍNGUA A vida contada em versos
PORTUGUESA

N este capítulo, você vai ler e analisar poemas que se referem a momentos
pessoais e especiais da vida. Um dos poemas expressa o sentimento de sau-
dade e nostalgia de quem está vivendo longe da terra natal; o outro relembra um
episódio querido da infância, e o terceiro mostra a euforia de quem está chegando
saudoso para rever sua cidade.

Francisco Aragão/Getty Images


Retirantes nordestinos, escultura do pernambucano Abelardo Germano da Hora. Além da literatura, o tema do exílio ou do abandono
da terra natal está muito presente em outras expressões artísticas, como as artes plásticas.

RODA DE CONVERSA I

Nossa identidade está relacionada à origem, isto é, a nossos antepassados e à terra onde nas-
cemos. Quando estamos na nossa terra, sabemos quem somos e nos sentimos seguros. Viver fora
do nosso país pode ser uma experiência rica, mas também é difícil, pois são muitas as diferenças
que precisam ser enfrentadas: climáticas, ambientais, geográficas, culturais, linguísticas etc.

20 Língua Portuguesa
Antes de continuar refletindo sobre isso, faça uma dupla com um colega e respondam juntos
às seguintes questões:

1. Você já ficou fora de seu país ou de sua cidade por algum tempo? A saída foi obrigatória ou vo-
luntária? Como foi essa experiência?
2. Quais foram seus sentimentos ao se lembrar da terra distante?
3. Explique o que você entende por exílio.
4. Compare sua resposta com as explicações do significado da palavra exílio abaixo.

Etimologicamente, a palavra exílio tem origem


em exsilium, de exsul, e se refere ao significado de
exílio.(z). [do lat. exiliu.] S. m. 1. Expatriação forçada ou “ausência de solo pátrio”. Historicamente, o sentido
voluntária; degredo, desterro. de exílio tem se modificado ao longo dos séculos. Entre
Novo dicionário da língua portuguesa.
os romanos, era um direito, uma atitude voluntária do
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 741. cidadão a fim de evitar incorrer em pena mais grave.
Somente a partir de 63 a.C. o exílio passa a ser incluído
no direito penal, sendo considerado uma punição.
QUEIROZ, Flávia Tebaldi Henriques. A poesia de exílio de Jorge de Sena. Dissertação
(Mestrado). Rio de Janeiro: UFRJ/Faculdade de Letras, 2006. p. 13-14.

5. Você sabe de alguém que já viveu no exílio? Por que essa pessoa se exilou? O exílio foi forçado ou
voluntário?
6. Peça ao professor de História que fale sobre exilados políticos da história recente do Brasil.

LER IMAGENS

Observe as imagens a seguir. Se você tivesse que escolher entre esses dois lugares para viver,
por qual deles optaria? Explique oralmente sua escolha.
Charles Chusseau-Flaviens/George Eastman House/Getty Images

Cidade de Coimbra, em Portugal, no início do século XX.

6º ano 21
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Johann Moritz Rugendas retrata a natureza brasileira no século XIX. Barbacena, Minas Gerais, 1835.
Gravura publicada em Viagem pitoresca através do Brasil.

LER POEMA I

O primeiro poema que você vai ler é “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Antes, saiba um
pouco sobre o poema e a vida do poeta nos textos abaixo.

Canção do exílio Antônio Gonçalves Dias


O poema “Canção do exílio”, de Nasceu em 1823 no Maranhão, filho de pai português e mãe pro-
Gonçalves Dias, foi escrito em 1843 vavelmente cafuza. Orgulhava-se de ter no sangue as três raças forma-
e é sem dúvida um dos mais conhe- doras do povo brasileiro: a branca, a índia e a negra. Após a morte do
cidos da literatura brasileira. É um pai, sua madrasta mandou-o para a Universidade em Coimbra, onde
poema autobiográfico, isto é, nele ingressou em 1840. Atravessando graves problemas financeiros, Gon-
o poeta conta um momento real de çalves Dias é sustentado por amigos até se graduar bacharel em 1844.
sua vida. Inspirou inúmeras paródias Retornando ao Brasil, conhece Ana Amélia Ferreira do Vale, o grande
e até versos de Osório Duque Estra- amor de sua vida. Em 1847, publica Primeiros cantos. Esse livro lhe trou-
da para o Hino Nacional do Brasil: xe fama e admiração e, a partir de então, o Imperador Dom Pedro II o
“Teus risonhos, lindos campos têm nomeia para diversos cargos públicos. Procurou formar um sentimento
mais flores. / Nossos bosques têm nacionalista na nossa literatura ao incorporar
mais vida, / Nossa vida no teu seio assuntos, povos e paisagens brasileiras. Em
mais amores”. Gonçalves Dias com- 1851, quis casar-se com Ana Amélia, mas
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

pôs o poema em Coimbra, cinco a família dela não o aceitou por ele ser
anos depois de partir para Portugal, mulato. Casa-se, então, no ano seguinte,
onde fora estudar. Seus versos mistu- com Olímpia da Costa. Em 1862, seria-
ram nostalgia e nacionalismo. O tex- mente adoentado, vai se tratar na Europa.
to compara a paisagem da terra do Já bem debilitado, em 1864, embarca no
exílio com a paisagem da terra natal. navio Ville de Boulogne para retornar ao
Mas esses lugares não são nomea- Brasil. O navio naufraga na costa mara-
dos em nenhum verso do poema. A nhense no dia 3 de novembro de 1864. Sal-
terra do poeta é apresentada com o vam-se todos a bordo, menos o poeta.
olhar de quem está longe dela e que, Jornal de Poesia – Gonçalves Dias. Disponível em: <www.jornaldepoesia.
saudoso, exalta os valores que não jor.br/gdias1bio.html>. Acesso em: 2 jul. 2012.

encontra no exílio.

22 Língua Portuguesa
O objetivo desta seção é ler para encantar-se com os poemas, com a linguagem poética e sentir
a emoção que os versos são capazes de provocar no leitor.
Antes de iniciar a leitura, relembre todas as informações que conseguiu reunir até aqui: o tí-
tulo do poema, quem é o autor, em que momento da vida ele escreveu o poema, o significado de
exílio etc. A partir desse conhecimento, o que você pensa que o poeta dirá?
Leia o poema em voz alta, ou escute um colega lendo-o. Observe como o poeta, no exílio,
expressa seu sentimento em relação à terra natal, da qual está distante.
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
DIAS, Gonçalves. Gonçalves Dias – Poesia.
Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1967. p.11.

1. Durante a leitura do poema, suas expectativas se confirmaram? Explique sua resposta.


2. Quando lemos um texto, é importante estabelecer um diálogo com ele. É esse diálogo entre leitor
e texto que facilita a compreensão do que lemos. As questões a seguir têm o objetivo de auxiliar
seu diálogo com os versos de “Canção do exílio”.
a) De que lugar fala o poeta, da sua terra natal ou da terra onde ele está exilado? Justifique sua resposta.
b) O que o poeta diz que a sua terra tem?
c) O que o poeta chama de “lá”?
d) O que ele chama de “cá”?
e) O que a terra do poeta tem mais do que a terra do exílio?
f) Qual é o provável nome do lugar exaltado pelo poeta? Explique sua resposta.
g) Qual é o desejo do poeta?

6º ano 23
RODA DE CONVERSA II

Conversar sobre um texto lido numa roda favorece sua compreensão e interpretação. Os co-
mentários das outras pessoas nos ajudam a elaborar ou reelaborar interpretações que, às vezes, não
faríamos sozinhos. Faça um círculo com seus colegas e conversem sobre as seguintes questões.

1. De que aspectos da natureza da sua terra você provavelmente teria saudade, estando em terra
estrangeira? Explique.
2. Escolha uma cidade brasileira e compare-a com sua cidade natal, enaltecendo as qualidades de
sua terra.
3. Como seria a última estrofe da “Canção do exílio”, se você fosse o autor do poema? Explique.
4. Segundo o poeta José Paulo Paes:

[…] a poesia não é mais do que uma brincadeira com as palavras. Nessa
brincadeira, cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao mesmo tempo:
isso aí é também isso ali. Toda poesia tem que ter uma surpresa. Se não tiver, não é
poesia: é papo furado.
PAES, José Paulo. É isso ali. 2. ed. São Paulo: Salamandra, 2005.

a) Qual verso surpreendeu você no poema “Canção do exílio”? Por quê?


b) Compare sua escolha com a de um colega. Vocês escolheram versos iguais ou diferentes? Con-
versem sobre o motivo da escolha.
5. Sabemos que dois casos gerais delimitam o uso da letra maiúscula:
a) em começo de um enunciado ou frase;
b) em nomes próprios.

Em dupla, discutam por que o poeta teria escrito Sabiá com letra maiúscula, se a palavra sabiá
é um nome comum, e não próprio?

6. O poeta repete algumas expressões e alguns versos. Ele usa a repetição para enfatizar a superiorida-
de da terra natal em contraponto à terra do exílio. Vocês concordam com essa afirmação? Por quê?
7. O poeta não diz o nome de sua terra nem da terra onde está exilado. Que palavras ele usa para
indicá-las?
8. Por que o poeta teria omitido o nome dos países? Que efeito de sentido tem essa omissão?

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DOS POEMAS


Os poemas apresentam uma estrutura própria e também algumas caracterís-
ticas particulares. Conheça algumas delas.

VERSO E ESTROFE
Na linguagem oral, chamamos de verso cada unidade rítmica de um poema.
Na escrita, verso é cada linha de um poema. Poemas são escritos em versos.

24 Língua Portuguesa
Um agrupamento de versos chama-se estrofe. As estrofes são separadas entre
si por um espaço em branco.
O poema Canção do exílio tem 24 versos distribuídos em 5 estrofes. São estro-
fes de 4 versos e de 6 versos.

RIMA
Rima é um recurso sonoro baseado na repetição de sons semelhantes ou idên-
ticos no final dos versos e, às vezes, no interior deles.
A percepção da rima não é visual. Não são os olhos que a percebem, mas sim
os ouvidos. Ou seja, as rimas são percebidas pela audição.
Mas não é obrigatório que o poema tenha rimas.

APLICAR CONHECIMENTOS

1. Veja os versos e as estrofes do poema. Para isso, faça uma moldura em cada estrofe e numere os versos.
2. Releia o poema “Canção do exílio” em voz alta para perceber as rimas. Quais são as palavras que
rimam com Sabiá e flores? Destaque no texto essas palavras.

LER POEMA II

Agora leia em voz alta o poema “cometa poesia”, de Nicolas Behr. É um belo poema sem rima,
sem pontuação e sem letra maiúscula.

Nicolas Behr
cometa poesia Nasceu em Cuiabá, em 1958, e vive em Brasília des-
era noite de julho de 1967 de 1974. Em 1977, lançou seu primeiro livrinho, Iogurte
com farinha, em mimeógrafo. Vendeu 8 mil exempla-
mamãe nos acordou de madrugada res de mão em mão. Em 1978, foi preso e processado
para vermos o cometa ikeia-seki durante a ditadura militar, sendo julgado e absolvido
no ano seguinte. Poeta marginal, foi integrante da Ge-
(ela sabia que nós
ração Mimeógrafo.
nunca o esqueceríamos) A poesia de Nicolas Behr é sim-
ples, sem rodeios. Ele tem mais
o cometa seguiu seu curso
de vinte livros editados pelas pró-
nós voltamos pra cama prias mãos. Os temas de seus
poemas passeiam pelas memó-
caixeiro-viajante do céu,
rias da infância, pela crítica aos
o cometa aparece e desaparece poderes, pela questão ecológica,
pelo amor e pela cidade de
o cometa volta
Nilson Carvalho

Brasília, de Kubitschek aos


a infância não dias de hoje.
BEHR, Nicolas. Boa companhia: poesia. Disponível em: <www.nicolasbehr.com.
São Paulo: Companhia das Letras, 2003. br> e <www.travessa.com.br/LARANJA_
SELETA/.../90967367-d4f5-42ed-...>.
Acesso em: 4 jul. 2012. (Texto adaptado.)

6º ano 25
CONHECER MAIS

Geração Mimeógrafo
A utilização do mimeógrafo para publicação e distri- sanal, poesia e outros gêneros literários, manifestos e
buição de mão em mão era uma forma de driblar a cen- textos de protesto. Movimento cultural que marcou a dé-
sura da ditadura militar. Valia-se de uma tecnologia hoje cada de 1970, revelou poetas como Nicolas Beher, Waly
em desuso para publicar, de forma extremamente arte- Salomão, Capinam, Torquato Neto, Chacal, entre outros.

Disponível em: <www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/06/01/biblioteca-nacional-comemora-dia-da-imprensa-com-exposição-


de-impressos-da-geração-mimeografo>. Acesso em: 28 jul. 2012.

Responda agora às seguintes questões sobre o poema “cometa poesia”:

1. O poema revela lembranças do poeta de um tempo que já passou:


a) Quais são essas lembranças?

b) Que sentimentos provocam no poeta?

c) Que sentimentos o poema provocou em você? Compartilhe com a classe o que sentiu.

2. Como vocês interpretam o título do poema?


3. Observem que a palavra cometa pode estar relacionada
aos seguintes significados: cometa. S. m. Astr. Corpo celeste que se move
em torno do Sol em trajetória mais excêntrica que
a) Agora, conhecendo dois significados possíveis da a dos planetas e com maior grau de inclinação em
palavra cometa, mudou o sentido que vocês atribuí- relação à eclíptica; consiste em um núcleo de fraca
luminosidade formado por pequenas partículas
ram ao título? Ou o título pode ter tanto um sentido sólidas, cercado por um envoltório gasoso e
como o outro? Expliquem a resposta. apresentando, por vezes, ao aproximar-se do Sol,
uma cauda luminosa que pode atingir milhões de
b) Como vocês podem perceber, o sentido do título é quilômetros de extensão.
ambíguo, isto é, tem duplo sentido, tanto pode ser
cometer. V. levar a efeito, fazer, executar.
uma coisa como outra. A ambiguidade é uma das
características da linguagem poética. Nessa obra de Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2009.
Nicolas Behr, a palavra cometa pode ser um verbo e
um substantivo. Explique essa afirmação.
4. Que expressão o poeta usa para designar o cometa? Destaque no texto.
5. Por trás da expressão “caixeiro-viajante do céu” existe uma comparação. Que comparação fez o
poeta para chegar a chamar o cometa de “caixeiro-viajante do céu”?

26 Língua Portuguesa
O POETA BRINCA COM AS PALAVRAS
Para um poeta, não serve qualquer palavra. Ele escolhe palavras e frases que
melhor expressam seus sentimentos e sua visão da vida. Escolher palavras e brin-
car com elas é o trabalho do poeta. Por esse motivo, afirma-se que o poeta é um
artesão da palavra. Olavo Bilac (1865-1918), no poema “A um poeta”, já dizia que
o poeta, quando está criando, “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua”.
A linguagem da poesia emociona por causa da sonoridade e do ritmo. E emo-
ciona também porque é a expressão de sentimentos comuns a todas as pessoas,
mas dita de um jeito original, diferente do comum, que surpreende o leitor ou o
ouvinte. Os poetas exploram o ritmo e a sonoridade, dão novos sentidos a pala-
vras conhecidas e fazem uso criativo dos recursos da linguagem.

LER POEMA III

O terceiro poema deste capítulo mostra a euforia


de quem está chegando saudoso para rever sua cidade. Adelmar Tavares
O poeta está chegando ao Recife, capital do Estado de Advogado, professor, jurista, magistrado e
Pernambuco. O autor Adelmar Tavares nasceu no Re- poeta, nasceu no Recife (PE), em 1888, e faleceu
no Rio de Janeiro, em 1963. Seu nome ficou co-
cife, mas viveu no Rio de Janeiro. nhecido em todo o Brasil como o maior cultor
do gênero poético trova.
Chegando a Recife Suas trovas sempre mereceram referência
na história literária brasileira. Sua obra poética
Lá vêm as jangadas, de velas inchadas,
caracteriza-se por romantismo, lirismo e sensi-
bojando de vento, branquinhas no mar.
bilidade, sendo recorrentes temas como o da
Meu Deus, minha terra! Meu Deus, vou chegar! saudade e o da vida simples na natureza.
Olinda, distante, lá longe, aparece... Disponível em: <www.academia.org.br>. Acesso em: 3 jul. 2012. (Texto adaptado.)

Lá está uma torre... Diviso o farol...


Lá vêm as jangadas branquinhas de sol...

Que céus diferentes! Tão verdes as águas!


Que leves os ares, que gozo aspirar!
Escuto umas vozes que vêm das jangadas...
Ilustração digital: Llinares
Meu Deus, minha terra! Meu Deus, vou chegar!
Vocês, jangadeiros, já não me conhecem?...
Não me reconhecem? Mudei tanto assim?
– Você, João da Penha, que nova me traz?
Aquela morena dos olhos magoados
se lembra de mim?
me espera no cais?
Que lenço querido me espera no cais?

Mas vão as jangadas bojando no vento,


tal como a minha alma bojando ansiedade,
gritando tão alto que abala a amplidão:
– Alô, Pernambuco, da minha saudade!...
– Recife, querida, do meu coração!...
KURY, Adriano da Gama. Meu livro de português. São Paulo: Lisa, 1973. p. 35-36.

6º ano 27
1. Agora observe o mapa. Que cidades estão indicadas nesse mapa? Você as conhece? Em caso afir-
mativo, conte aos colegas que não as conhecem como são sua cultura, música, artesanato etc.

O Estado de Pernambuco

Ilustração digital: Mario Yoshida


N

O L

0 890 1 780 km

N
0 80 160 Km
O L

Fonte: Atlas geográfico S


escolar. 5. ed. Rio de Janeiro:
IBGE, 2009. p.90.

2. Que cores o poeta cita na descrição da paisagem que ele avista, chegando ao Recife? Copie os
versos em que as cores são citadas. Que efeito de sentido tem essa referência a nome de cores? Se
o poeta não citasse as cores, que diferença faria para o sentido do poema?

3. Em que transporte o poeta está chegando: avião, ônibus, trem, automóvel, jangada ou navio?
Justifique sua resposta.

4. De que lugar está falando o poeta: do continente ou do mar? Por quê?

28 Língua Portuguesa
5. Releia o poema “Chegando a Recife”. Com um colega, identifiquem as palavras que rimam com:

Inchadas

Mar

Farol

Assim

Traz

Ansiedade

Amplidão

6. Analise os usos dos sinais de pontuação que o poeta usou, sabendo que:

t Ponto de interrogação (?): empregado no final de frases interrogativas.


t Ponto de exclamação (!): empregado no final de frases exclamativas, com a finalidade de indi-
car estados emocionais de espanto, surpresa, alegria, dor, súplica.
t Travessão (—): usado para indicar a mudança de interlocutor nos diálogos, para isolar a fala da per-
sonagem da fala do narrador, para destacar ou isolar palavras ou expressões no interior das frases.
t Reticências (…): indicam a interrupção da frase, com a finalidade de sugerir dúvida, hesita-
ção, surpresa; quebra de sequência na fala ou no pensamento do narrador ou da personagem;
supressão de trecho sem grande importância no texto.

a) Por que o poeta usou tantos sinais de pontuação? Esse uso tem algum efeito para o sentido do
poema? Qual seria a intenção do poeta, na sua opinião? Explique sua resposta.

b) Os sinais de pontuação do poema também têm influência na leitura em voz alta? Explique sua
resposta.

7. A expressão “tal como” indica uma comparação. Explique a comparação que o poeta faz entre sua
alma e as jangadas:

Mas vão as jangadas bojando no vento,


tal como a minha alma bojando ansiedade,

6º ano 29
8. Releia os poemas “cometa poesia”, “Canção do exílio” e “Chegando a Recife” para responder às
questões a seguir:
a) Relate quais são as lembranças dos poetas em seus poemas.

b) De qual poema você mais gostou? Justifique sua resposta.

CONHECER MAIS
Trovas
Trova é o nome dado a pequenos poemas de quatro versos com sete sílabas poéticas e esquema rímico de rimas
alternadas (abab) ou cruzadas (abba), sem título. A trova, para ser bem-feita, tem de ter um achado.
Achado é algo diferente, uma surpresa, uma conclusão no último verso.
Adelmar Tavares diz: “Nem sempre com quatro versos setissílabos a gente consegue fazer a trova; faz quatro ver-
sos, somente”. Ou seja: não é trova se não houver o achado. O verso de sete sílabas, ou redondilha maior, é o mais
simples, do ponto de vista das leis da métrica. Basta que a última sílaba poética seja acentuada, os demais acentos
podem cair em qualquer outra sílaba. Talvez por isso ele seja predominante nas quadrinhas e canções populares.
Esse verso, tradicional em língua portuguesa, já era frequente nas cantigas medievais.
Uma definição interessante para o que é trova é do próprio trovador Adelmar Tavares:

Que linda trova perfeita, 


que nos dá tanto prazer!  
Tão fácil, depois de feita,
tão difícil de fazer!
Métrica
A métrica é a medida dos versos. Para determinar a medida de um verso, dividimos o verso em sílabas poéticas.
Esse processo recebe o nome de escansão.
Por ter base na oralidade, a divisão silábica poética segue princípios diferentes da divisão silábica gramatical. As
vogais átonas são agrupadas numa mesma sílaba. Elas são pronunciadas como uma unidade sonora. E a contagem
das sílabas é feita até a última sílaba tônica.

Observe a diferença:

1 2 3 4 5 6 7 8 Este verso tem oito


Divisão silábica gramatical:
Que lin da tro va per fei ta, sílabas gramaticais.

1 2 3 4 5 6 7 Este verso tem sete


Divisão silábica poética:
Que lin da tro va per fei ta, sílabas poéticas.

O verso de sete sílabas poéticas é chamado de redondilha maior, ou verso setissílabo. Os versos da trova devem
ser obrigatoriamente redondilha maior.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 1991 e TEIXEIRA, Nilton Manoel de A.
Didática da trova. Disponível em: <www.falandodetrova.com.br/didaticadatrova>. Acesso em: 20 jul. 2012. (Texto adaptado.)

30 Língua Portuguesa
MOMENTO DA ESCRITA

1. Nesta seção, você vai praticar a escrita, imitando os poetas. Escreva um poema, com ou sem rimas.
Pode ser uma trova. Lembre-se de que nenhum texto nasce pronto. Para um texto ficar bom, é
preciso escrevê-lo e reescrevê-lo muitas vezes, como fazem os escritores experientes. Planeje, faça
rascunhos, revise e, quando se sentir satisfeito, passe a limpo seu poema. Dê um título a ele. Mas, se
for uma trova, não ponha título. Você pode se inspirar numa das trovas abaixo, de Adelmar Tavares:

Eu vi o rio chorando
quando te foste banhar,
por não poder te banhando,
dar-te um abraço, e ficar...

Para esquecer-te, outras amo,


mas vejo, por meu castigo,
que qualquer outra que eu ame,
parece sempre contigo...

Quando eu morrer, levo à cova,


dentro do meu coração,
o suspiro de uma trova
e o gemer de um violão...

Para definir o Poeta,


Só mesmo em versos defino.
– É um homem que fica velho,
com o coração de menino...
Disponível em: <www.academia.org.br>. Acesso em: 3 jul. 2012.

2. Com os colegas, montem um painel no pátio da escola expondo as produções da turma. Esco-
lham um título para o painel e caprichem na apresentação dos trabalhos.
3. Junto com um colega, redijam um texto relatando livremente o que vocês aprenderam neste capí-
tulo. Relatem o que mais gostaram de aprender.

PLANEJANDO A FALA

Agora você vai praticar a modalidade oral da língua. A fala será planejada, pois fará parte de
uma situação de apresentação pública.

1. Você e seus colegas vão organizar um sarau na sala de aula, ou seja, um encontro literário. Nesse dia, cada
um declamará, de preferência de cor, o poema que elaborou e também outro poema, de livre escolha.

Ao preparar sua apresentação, considere o seguinte:


t Recursos audiovisuais: A linguagem predominante é a verbal, mas se quiser use outros recur-
sos, como música.

6º ano 31
t Postura: Fale em pé, olhando sempre de frente para seu público.
t Fala: Fale alto, claro e com entonação variada.
t Linguagem: Cumprimente a todos. Diga o que vai falar. Evite certos usos da linguagem oral,
como: “né”, “tá”, “ahn”, “aí”, entre outros.

2. Ao final do sarau, comentem a apresentação de cada colega.


3. Conversem sobre o que acharam da experiência de fazer um sarau. Vocês gostariam de repeti-la
em outros locais, como em casa com os familiares, no bairro ou no clube, por exemplo?

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Recital Combinem com o professor uma ida à biblioteca para todos escolherem alguns livros de
poesia. Dos livros escolhidos, selecionem um ou mais poemas para decorar ou para ler em
voz alta na sala de aula, no pátio ou no lugar que vocês preferirem.

32 Língua Portuguesa
Capítulo 3
LÍNGUA Acesso ao universo da ciência
PORTUGUESA

P or muito tempo, o acesso do grande público ao universo da ciência foi impedido


pela dificuldade da linguagem do texto científico. Escrito por cientistas, era compre-
endido apenas por especialistas. Foi só no início do século XX que surgiram no Brasil os
primeiros jornalistas especializados na divulgação científica. Hoje, blogs, sites e seções de
ciência nos jornais e revistas marcam a presença da divulgação científica no país.
A finalidade dos artigos de divulgação científica é permitir o acesso à ciência. São
escritos pelos próprios cientistas ou por jornalistas. O texto é mais leve do que o cien-
tífico, com linguagem mais próxima do leitor leigo. Essa divulgação cumpre o papel
democrático de facilitar a inserção de todos os indivíduos no mundo do conhecimento.
Saber ler textos que abordam temas científicos é fundamental para quem quer pros-
seguir os estudos, ampliar conhecimentos e participar do mundo contemporâneo.
Neste capítulo você vai ler um artigo que discute um tema atual e muito importante
para nós, habitantes do planeta Terra.
Ilustração digital: Llinares

RODA DE CONVERSA

Leia a lista de temas a seguir:


anencefalia biodiversidade
célula-tronco desenvolvimento sustentável
biotecnologia hipertensão arterial
obesidade dengue
aquecimento global quimioterapia
fontes de energia alternativas acidente vascular cerebral (AVC)
produto biodegradável transgênicos
reciclagem DNA

6º ano 33
Em grupo, conversem sobre as questões:

1. Vocês conhecem os assuntos do quadro?


2. Como esses conhecimentos chegaram até vocês?
3. Qual tema lhes interessa mais?
4. Que tema vocês acrescentariam nessa lista?
5. Marquem onde buscariam informações, se quisessem estudar algum dos temas:
( ) site de busca ( ) jornal ( ) revista ( ) livro

LER ARTIGO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Para que assuntos científicos cheguem ao conhecimento de todos, é necessário que saiam
dos limites dos livros, das universidades e dos laboratórios e ganhem espaço nos meios de co-
municação: sites, blogs, rádio, cinema, televisão, jornais e revistas. O grande desafio é conseguir
transmitir conhecimento científico em linguagem interessante e clara para o grande público.

Examine a imagem das estátuas da ilha de Páscoa:

Viktor Gmyria/Dreamstime.com
Estátuas de pedra na ilha de Páscoa, no Pacífico Sul, 2011.

34 Língua Portuguesa
Responda às perguntas:

1. Você tinha conhecimento dessas enormes estátuas de pedra?


2. Quem você acha que as construiu? Há quanto tempo?
3. Como você acha que elas foram construídas?
4. Em que lugar do mundo elas estão?
Se você sabe responder a essas perguntas, provavelmente é porque viu ou leu uma explicação
para a origem desses monumentos em documentários, jornais ou revistas que fazem divulgação
científica. No entanto, se você não faz a menor ideia de qual seja a resposta para essas perguntas,
leremos a seguir um artigo de divulgação científica que vai ajudar a esclarecê-las.
Antes de ler o texto a seguir, converse com o professor e os colegas sobre as próximas questões:
5. O título do artigo que você lerá é “A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa”. Qual será o assunto de
um texto com esse título?
6. O texto foi publicado no jornal Folha de S.Paulo, na seção de ciência, e o autor é o cientista Mar-
celo Gleiser. Sabendo dessas informações, responda:
a) Qual é a provável intenção desse texto?
( ) Narrar uma história de suspense.
( ) Divulgar conhecimento científico.
b) Qual é o provável público-alvo do autor?
( ) O leitor adulto do jornal.
( ) O leitor infantil do jornal.
7. Justifique as respostas dadas.
Agora leia o texto.

A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa


1 Poucos lugares despertam tanto fascínio quanto a ilha de Páscoa, com suas
gigantescas e sombrias estátuas. Localizada a 3 500 quilômetros da costa do Chile, a ilha
é local da mais completa desolação. Nenhuma árvore com mais de três metros pode ser
vista em toda a sua superfície. Não existem animais nativos ou pássaros. Somente as
enormes cabeças esculpidas em rocha vulcânica, centenas delas, a maioria com ao menos
cinco metros de altura, algumas chegando a vinte, todas pesando dezenas de toneladas.
2 O mistério da ilha de Páscoa já existia quando o primeiro explorador europeu,
o holandês Jacob Roggeveen, desembarcou lá em 5 de abril de 1722, durante a Páscoa.
Como, perguntou-se Roggeveen após encontrar a pedreira de onde saíram as estátuas,
elas foram transportadas e erigidas, se não existe material na ilha para fazê-lo?
3 Durante quase três séculos, centenas de livros e artigos foram escritos tecendo
teorias fantásticas sobre a origem e a função das misteriosas estátuas. Teriam elas
sido produzidas por seres extraterrestres usando ferramentas ultramodernas antes de
voltarem ao seu planeta, como sugeriu o escritor suíço Erich von Däniken? Ou talvez
elas tenham sido feitas por incas ou egípcios que, de algum modo, chegaram até lá no
passado, sugeriu o explorador norueguês Thor Heyerdahl, que atravessou oceanos em
embarcações primitivas para ilustrar a sua hipótese.
4 Décadas de investigações por antropólogos e arqueólogos resolveram o
mistério das gigantescas estátuas. Dois livros publicados recentemente nos EUA, Os

6º ano 35
enigmas da ilha de Páscoa, de John Flenley e Paul Bahn, e Entre os gigantes de pedra, de
Jo Anne van Tilburg, contam uma história talvez não tão fascinante como a dos incas
ou alienígenas, mas muito mais importante para a nossa sobrevivência.
5 Entre 1914 e 1915, a arqueóloga Katherine Routledge visitou a ilha, obtendo relatos
dos descendentes das tribos polinésias que chegaram lá em torno do ano 900 d.C. Várias
ferramentas usadas para esculpir as estátuas foram encontradas na região de RanoRaraku,
uma cratera. A ilha chegou a ter uma população de 15 mil pessoas, em 11 tribos. Os chefes
competiam entre si, erigindo as estátuas como símbolo de seu poder. Quanto maior,
melhor. Na Idade Média, cidades faziam o mesmo com suas catedrais.
6 E como as estátuas foram transportadas e erigidas? Como nenhum europeu
viu isso acontecer, o que se pode fazer é construir uma explicação consistente com
os achados científicos. Pedras gigantescas foram transportadas por várias outras
civilizações, em geral apoiadas sobre grades feitas de madeira e puxadas por cordas,
como um trenó. Mas como se não existem árvores na ilha?
7 Não existem agora, mas certamente existiram no passado. Flenley, usando técnicas
que permitem identificar o pólen e restos carbonizados de plantas extintas, provou que, antes
da chegada dos humanos, a ilha continha uma floresta subtropical rica em árvores enormes,
incluindo uma palmeira gigante encontrada no Chile, que chega a ter 30 metros de altura.
Todas elas foram sistematicamente derrubadas para serem usadas nas grades de transporte
e em grandes canoas para a pesca de atum, golfinho e outros animais transoceânicos.
8 Estudos de ossos encontrados pela ilha mostram que, no passado, existiam seis
espécies de aves nativas e 25 de aves marinhas. Todos essas aves desapareceram. Foi
possível também reconstruir como a alimentação dos nativos variou durante os séculos.
Ossos de atum e golfinho, abundantes durante os primeiros séculos, desapareceram
em torno de 1600: com todas as árvores derrubadas, não era mais possível construir
canoas transoceânicas. Os nativos passaram a devorar sistematicamente os animais
da ilha. Quando acabaram, ou quase (sobraram principalmente ratos), eles passaram
a devorar a si próprios: em torno de 1700, a ilha entrou em uma era de canibalismo.
9 O homem é um predador ineficiente, imediatista, que tende a não calcular o
quanto pode consumir antes de se autodestruir. O atum, o salmão e o bacalhau estão
ameaçados. Florestas inteiras são derrubadas diariamente. A poluição continua crescendo.
Talvez todos devêssemos fazer uma visita, real ou imaginária, à ilha de Páscoa, e aprender
com sua trágica história, antes que só restem nossas estátuas e monumentos.
GLEISER, Marcelo. Folha de S.Paulo, 21 mar. 2004. Caderno Ciência. Disponível em:
<www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2103200402.htm>. Acesso em: 11 maio 2012.
Joseph Mehling

Marcelo Gleiser

É físico. Defende a necessidade de levar a ciência ao conhe-


cimento de todos. Segundo ele, o objetivo da divulgação não é
formar cientistas, é tornar o conhecimento mais acessível. Nas-
ceu na cidade do Rio de Janeiro em 1959. É autor de vários livros
sobre Física, Astronomia e História da Ciência.
MAZOCCO, Fabricio. Entrevista com Marcelo Gleiser. Disponível em:
<www.univerciencia.ufscar.br/n_2_a1/entrevista.pdf>. Acesso em: 11 maio 2012.

36 Língua Portuguesa
Releia o texto. Ao fim da leitura de cada parágrafo, responda às perguntas em dupla.

Parágrafo 1:
1. Onde está situada a ilha de Páscoa?
2. Por que é um lugar que desperta tanto fascínio?
3. O autor escreve que “[...] a ilha é local da mais completa desolação”. O que significa “desolação” no texto?
Para responder, escolha, no verbete a seguir, os significados mais adequados.

desolação. [Do lat. desolatione.] S. f. 1. Ato ou efeito de


desolar(-se). 2. Devastação, ruína, destruição. 3. Isolamento,
solidão; desamparo. 4. Estrago causado por calamidade.
5. Grande tristeza; consternação.
FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

4. Sublinhe no texto o trecho em que o autor descreve esse quadro de desolação.


Parágrafo 2:

1. Reproduza a pergunta feita nesse parágrafo pelo holandês Roggeveen, no século XVIII.
2. O que levou o explorador holandês a fazer essa pergunta?

Parágrafo 3:

1. Nesse parágrafo, grife as hipóteses pensadas pelo suíço Däniken e pelo norueguês Heyerdahl para
explicar a origem e a função das estátuas.

Parágrafo 4:

1. Hoje sabe-se quem e como as estátuas foram construídas. Quem resolveu esse mistério?
2. Que livros americanos contam a história das estátuas da ilha de Páscoa?

Parágrafo 5:

1. Leia no verbete a seguir o que é “arqueologia” e grife no parágrafo 5 a palavra que indica o espe-
cialista em arqueologia.

arqueologia. [Do grego archaiologia.] S. f. Ciência que


estuda a vida e a cultura dos povos antigos por meio de
escavações ou através de documentos, monumentos, objetos
etc., por eles deixados.
FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

2. Que motivo levou os chefes das antigas tribos da ilha de Páscoa a construir gigantescas estátuas
de pedra, de acordo com a arqueóloga Katherine Routledge?

6º ano 37
Parágrafo 6:

1. Existe uma explicação para o transporte das enormes pedras. Acredita-se que elas foram trans-
portadas apoiadas sobre grades feitas de madeira e puxadas por cordas, como um trenó. Qual é a
dúvida que o autor tem e que vai ser explicada para o leitor no parágrafo seguinte?

Parágrafos 7 e 8:

1. Os cientistas dizem que antes da chegada dos humanos existiram árvores na ilha. Existia uma
floresta subtropical com árvores enormes e a ilha era habitada por espécies de aves nativas e aves
marinhas. Como os cientistas têm essas informações a respeito do passado da ilha?
2. Por que ossos de atum e golfinhos desapareceram da ilha, por volta de 1600?
3. Sem embarcações para sair para o mar e pescar, o que os nativos passaram a comer?
4. Leia o verbete no quadro a seguir e responda: Como os nativos da ilha se tornaram canibais?

canibalismo. S. m. Ato de um animal devorar outro da


mesma espécie ou da mesma família.
FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

Parágrafo 9:

1. O autor prova que o homem é um predador. Complete os itens com os argumentos citados no
texto que comprovam que o homem é:
a) predador da fauna;
b) predador da flora;
c) predador do ambiente.

predador. [Do latim praedatore.] Adj. e s. m. Diz-se do


ser que destrói outro com violência.
FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

2. Como agiria o homem se ele não fosse um predador ineficiente, nem imediatista?
3. Por que o autor sugere uma visita, real ou imaginária, à ilha de Páscoa?
4. Para quem ele dá a sugestão? Explique sua resposta.

PARA REFLETIR

Um dos objetivos do artigo de divulgação científica é levar informações da área científica ao


leitor leigo. Ele incorpora tanto os recursos da linguagem científica como os da linguagem jorna-
lística. Veja como isso acontece.

38 Língua Portuguesa
Leia o verbete a seguir:

botânica. S. f. Parte da biologia que estuda as plantas.


FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

1. Leia o título de um artigo publicado em uma revista de botânica. É possível identificar para que
leitor ele foi escrito? Justifique sua resposta.

Fenologia da floração e biologia floral de


bromeliáceas ornitófilas de uma área da Mata
Atlântica do Sudeste brasileiro
Caio Graco Machado e João Semir

Revista Brasileira de Botânica, v. 29, n. 1, p. 163-174, jan.-mar. 2006.


Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-84042006000100014&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 11 maio 2012.

2. Leia o título e a chamada de um artigo de zoologia. Pelo título, é possível identificar para que
leitor o texto foi escrito? Explique.

Caramujo pode disseminar doenças


Estudo brasileiro comprova que o caramujo-gigante-africano pode se infectar
naturalmente por vermes que são transmitidos aos humanos por meio de
alimentos mal lavados e podem causar grave infecção intestinal, meningite e
até a morte.
FARIA, Júlia, Revista Ciência Hoje. 268, março, 2010.
Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2010/268/caramujo-pode-disseminar-doencas>. Acesso em: 11 maio 2012.

3. Compare os títulos dos artigos de botânica e de zoologia citados. Qual deles é mais fácil de en-
tender? Por quê?

LINGUAGEM CIENTÍFICA
A linguagem científica é usada por especialistas para expor um assunto
a outros especialistas. Ela está presente em revistas e livros científicos. Lei-
gos, isto é, não especialistas, têm dificuldade de entender textos de botânica,
biologia, química, medicina, física, astronomia, engenharia e tantas outras
ciências.
Leia no quadro a seguir algumas características da linguagem científica:

6º ano 39
t Emprego de linguagem objetiva. Essa linguagem não admite expressões
como: “eu penso”, “eu acho”, “parece-me”, porque tais expressões são associa-
das ao ponto de vista pessoal, subjetivo, de quem escreve, e não ao conheci-
mento científico, que deve ser fruto de pesquisas e experimentos.
t Linguagem concisa e formal, própria da modalidade escrita culta da língua.

t Verbos em geral no presente, na 3ª pessoa do singular ou na 1ª do plural


“nós”– ocasionando o apagamento do sujeito (eu). O objetivo do uso de tais
recursos é dar ao discurso científico um caráter de neutralidade. O discurso
científico tenta fazer com que seu leitor creia que o que está sendo exposto é
verdadeiro.
t Emprego de vocabulário técnico. Cada ramo da ciência possui termos téc-
nicos próprios. Utiliza as palavras em seu significado mais comum; não há
ambiguidade, ou seja, duplo sentido; a linguagem figurada/metafórica (co-
notação) é evitada; evitam-se termos polissêmicos (aqueles a que se pode
atribuir mais de um significado). Quando a polissemia não pode ser evitada,
o termo é definido dentro do contexto em que está inserido.
t Desenvolve um conceito ou expõe uma teoria com base em dados objetivos,
em observações ou experiências. Normalmente apresenta descrição do ob-
jeto observado.
t Geralmente termina com uma conclusão ou uma síntese das ideias expostas.

t O título permite rápida identificação do assunto.

t Habitualmente utiliza recursos ilustrativos, como imagens, mapas, gráficos,


tabelas, fotografias para complementar o texto.
t As obras de referência, isto é, os livros e artigos que foram consultados para
a elaboração do artigo devem ser citados no final no texto, nas Referências
bibliográficas.
BARBA, Clarides Henrich de. Orientações básicas na elaboração do artigo científico.
Disponível em: <www.unir.br/html/pesquisa/Pibic/Elaboracao%20de%20Artigo%20Cientifico2006.doc>. Acesso em: 11 maio 2012. (Texto adaptado.)

Linguagem jornalística
A linguagem jornalística busca parecer impessoal, nião, mesmo quando não é explicitada. A escolha de
objetiva, direta. Ela deve ser precisa e estar de acordo uma palavra sempre implicará uma interpretação, que
com o padrão culto da língua. É dever do jornalista não revelará certo ponto de vista. Mesmo nas matérias in-
expressar explicitamente sua opinião sobre os fatos e formativas, a objetividade, a imparcialidade e a neutra-
acontecimentos que relata. Para conseguir um efeito de lidade são impossíveis, pois a linguagem está sempre
objetividade, ele não emprega verbos e pronomes na 1ª carregada de um ponto de vista. No texto de Marcelo
pessoa. No entanto, é impossível não expressar a opi- Gleiser, ele expressa um ponto de vista.

40 Língua Portuguesa
LINGUAGEM DO ARTIGO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Características da linguagem do artigo de divulgação científica estão presen-


tes no texto “A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa”. Observe:

a) Presença da voz do cientista:

Para dar credibilidade ao ponto de vista defendido no texto, é comum o autor


citar nomes de pesquisadores ou de órgãos e institutos renomados. Assim, o leitor
vai crer no que está lendo porque outros cientistas já disseram a mesma coisa.
Exemplo:

“Dois livros publicados recentemente nos EUA, Os enigmas da ilha de Páscoa,


de John Flenley e Paul Bahn, e Entre os gigantes de pedra, de Jo Anne van Tilburg,
contam uma história talvez não tão fascinante como a dos incas ou alienígenas,
mas muito mais importante para a nossa sobrevivência.” (4º parágrafo)

b) Apagamento do sujeito:

Verbos na 3ª pessoa do singular ou na 1ª do plural são usados para dar ao tex-


to um caráter de neutralidade, isto é, ao utilizar essas pessoas do verbo, parece que
não é o autor que está fazendo tais afirmações. Ele não diz “eu penso”, “eu acho”,
“parece-me”. Exemplo: “O homem é um predador ineficiente, imediatista [...]”.

Quando se opta pela 1ª pessoa do plural (nós), o efeito criado é o de que toda
a comunidade em questão dá aval para aquela declaração, ou seja, ela é sustentada
por um grupo, não se trata de uma opinião pessoal.

c) Dar exemplos:

“O homem é um predador [...], que tende a não calcular o quanto pode con-
sumir antes de se autodestruir. O atum, o salmão e o bacalhau estão ameaçados.
Florestas inteiras são derrubadas diariamente. A poluição continua crescendo”.

d) Estabelecer comparações:

“Os chefes competiam entre si, erigindo as estátuas como símbolos de seu
poder. [...] Na Idade Média, cidades faziam o mesmo com suas catedrais.”
“[...] em geral apoiadas sobre grades de madeira e puxadas por cordas, como
um trenó.”

6º ano 41
CONHECER MAIS

O adjetivo e a construção de sentidos

Adjetivo é a palavra que tem a função de atribuir ca- lavras: lobo, copo, fada, Sergipe, Pedro e alegria. O adjetivo
racterística ao substantivo. Lembre-se de que a gramática deve concordar com o substantivo em gênero e número. Se
chama de substantivo o nome dos seres em geral, sejam um substantivo for masculino e singular, o adjetivo que se
eles animados ou inanimados, reais ou imaginários, con- refere a ele também deverá ser masculino e singular. Essa
cretos ou abstratos. Por exemplo, são substantivos as pa- concordância chama-se concordância nominal.

Exemplos do texto “A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa”:

Substantivo Adjetivo

Explorador norueguês

Rocha vulcânica

Animais transoceânicos

Estátuas misteriosas

APLICAR CONHECIMENTOS I

Nesta seção, você vai estudar alguns conteúdos gramaticais relacionados ao efeito de sentido
que eles provocam no texto “A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa”.

1. O texto de Marcelo Gleiser sobre a ilha de Páscoa contém muitos adjetivos. Observe como o autor
os utiliza e responda:
a) Por que o autor caracteriza a ilha de Páscoa com os adjetivos “misteriosa” e ‘trágica”?

b) No título “A misteriosa (e trágica) ilha de Páscoa”, substitua a “ilha de Páscoa” por “arquipélago
de Fernando de Noronha”. Que modificações na linguagem você precisou fazer? Por quê?

42 Língua Portuguesa
c) Leia os adjetivos que acompanham os substantivos a seguir. Todos eles expressam ideia de
exagero. Que efeito de sentido esses adjetivos provocam no texto?

Substantivo Adjetivo

Estátuas gigantescas

Cabeças enormes

Teorias fantásticas

Ferramentas ultramodernas

Árvores enormes

Palmeira gigante

História trágica

Canoas grandes

Floresta rica

d) Responda junto com um colega:


As expressões a seguir indicam mistério ou desolação? Justifiquem a resposta.

estátuas sombrias estátuas misteriosas

seres extraterrestres nenhuma árvore

2. Por meio de números, a ideia da grande devastação que a ilha de Páscoa sofreu fica reforçada,
pois os números são uma prova inquestionável.
Localize no texto as expressões que citam números e sublinhe aquelas que se relacionam com
a história da devastação da ilha.

6º ano 43
3. Parênteses são um sinal de pontuação usados para incluir no texto uma informação que não é
essencial, que pode ser uma explicação, uma reflexão ou um comentário.

Explique qual efeito de sentido o uso dos parênteses produziu no título do texto “A misteriosa
(e trágica) ilha de Páscoa”. Que mudança de sentido provocaria no título, se os parênteses fossem
excluídos?

INDAGAÇÕES E O TRABALHO DO CIENTISTA


O trabalho do cientista é investigar problemas para os quais ainda não exis-
te solução, ampliar o estudo sobre determinado assunto ou modificar conceitos
estabelecidos, por meio de novas pesquisas. Ele inicia o trabalho levantando hi-
póteses para a solução do problema. Depois, começa a investigação em busca de
comprovação dessas hipóteses, a fim de saber se elas estavam certas ou não. Para
encaminhar bem o processo de investigação, é necessário que o cientista saiba
transformar em perguntas aquilo que quer descobrir.
Esse é um procedimento que você deve pôr em prática quando realiza uma
pesquisa: transformar em perguntas aquilo que quer descobrir.

APLICAR CONHECIMENTOS II

Leia mais uma vez o texto de Marcelo Gleiser e responda às questões a seguir:

1. Identifique no texto as perguntas dos cientistas para o mistério das estátuas gigantes da ilha de
Páscoa.

2. Converse com seu colega sobre alguma dúvida que vocês tenham em alguma área científica.
Transformem a dúvida em uma pergunta que poderia ser o início de uma pesquisa científica.

44 Língua Portuguesa
3. Relacione as frases da coluna da esquerda com as afirmações da coluna da direita:

a) “O homem é um predador ineficiente, ( ) O autor faz uma advertência.


imediatista, que tende a não calcular o
quanto pode consumir antes de se auto-
destruir.”
b) “O atum, o salmão e o bacalhau estão ( ) O autor exemplifica como o homem
ameaçados. Florestas inteiras são derru- tem se autodestruído.
badas diariamente. A poluição continua
crescendo.”
c) “Talvez todos devêssemos fazer uma visi- ( ) O autor dá uma sugestão.
ta, real ou imaginária, à ilha de Páscoa, e
aprender com sua trágica história.”
d) “antes que só restem nossas estátuas e ( ) O autor expressa seu ponto de vista a
monumentos.” respeito do ser humano.

4. Na frase “Talvez todos devêssemos fazer uma visita, real ou imaginária, à ilha de Páscoa, e apren-
der com sua trágica história”, o autor se inclui entre aqueles que devem visitar a ilha de Páscoa.
Qual é a palavra que indica essa inclusão? Destaque no texto.
5. Como ficaria a frase da questão anterior se o autor não tivesse se incluído entre os que devem
visitar a ilha? Escreva-a.

DEBATER

Organize-se em roda com seus colegas para discutir a seguinte questão:


O autor do texto tem razão quando diz que “O homem é um predador ineficiente, imediatista,
que tende a não calcular o quanto pode consumir antes de se autodestruir”? Usem argumentos
para defender o ponto de vista de vocês e convencer os colegas.

CONHECER MAIS

Infográfico
Infográficos são quadros que apresentam informa- vo para a leitura das matérias jornalísticas. A imagem
ções mesclando texto e imagem. É cada vez mais co- facilita a compreensão do texto, pois coloca diante dos
mum que apareçam em reportagens e em artigos de olhos do leitor informações que são usadas no texto
divulgação científica. Os infográficos são grande atrati- escrito.

6º ano 45
LER INFOGRÁFICO

Observe o infográfico e responda às questões propostas:

CIVILIZAÇÕES

Teoria do pulinho
O passeio dos gigantes Outra explicação para o transporte da
O transporte dos moais deve ter estátua afirma que eles a levantavam com
consumido boa parte da madeira da Ilha cordas e tábuas e usavam um suporte de
de Páscoa madeira em forma de um “V” invertido.
Conforme puxavam o suporte, o moai era
projetado para a frente.
Fábrica de moai
Com ferramentas de pedra, as estátuas
eram esculpidas nas paredes do vulcão
Rano Raraku, em uma das pontas da ilha.
Eram feitas para “incorporar os espíritos”
dos mortos mais ilustres do local.

Teoria dos trilhos


Não se sabe como os rapanuis
transportavam cada estátua. Uma teoria
diz que as imagens eram carregadas sobre
um trilho de madeira. Usando hastes, Coque vermelho
dezenas de homens empurravam, como se Os moais mais recentes têm um adorno
remassem. Outros puxavam. na cabeça, o pukao. Feito de um tipo
avermelhado de rocha, representava o
cabelo do morto – os rapanuis usavam um
coque no topo da cabeça.

1. Qual é o sentido da palavra passeio no título “O passeio dos gigantes”?


2. Identifique pistas que indicam que o infográfico está apresentando hipóteses de como aconteceu
o transporte das estátuas.
3. Em sua opinião, qual das teorias apresentadas no infográfico parece ser mais consistente? Por quê?
4. Observe os pontos brancos, o título grifado e o texto explicativo. Você acha que o texto e a ilus-
tração se completam? Por quê?

46 Língua Portuguesa
Olhai por nós
As estátuas eram colocadas sobre um altar
de pedra, o ahu. Os olhos eram a última
parte a ser feita. O moai saía do vulcão
com a cavidade pronta e tinha seus olhos
esculpidos na aldeia, decorados com coral
e pedras. Para os rapanuis, o morto usava
o olhar para transmitir bons fluidos ao
vilarejo.

Para o alto
Não se sabe como as estátuas eram
levantadas. É possível que elas fossem
postas num suporte de madeira e erguidas
com a construção de uma rampa de pedra.
Os moai que hoje estão em pé foram
levantados com modernos guindastes.

Ilustração digital: Beto Uechi/Estúdio Pingado

5. O infográfico ajudou na compreensão do texto de Marcelo Gleiser? Por quê?

MOMENTO DA ESCRITA

1. Junto com um colega, escrevam um texto que explique a história dos gigantes de pedra da ilha de Páscoa.
Antes de iniciar a produção, pensem no que vocês diriam a quem não sabe nada sobre a ilha e
suas famosas estátuas. Releiam o estudo que fizeram do texto. Utilizem a imagem do infográfico

6º ano 47
como complemento ou ilustração. Usem em seu texto escrito o que descobriram graças a esse
recurso. Considerem também:
a) a intenção do texto: explicar a história dos gigantes de pedra da ilha de Páscoa;
b) o leitor do texto: escolham o leitor que querem atingir e escrevam um texto adequado a ele;
c) onde o texto será publicado: jornal da classe, mural da escola etc.
Vejam um quadro do plano do texto. Com a ajuda desse quadro, planejem o que vão escrever, façam
um rascunho e, antes de passar a limpo, façam uma revisão. Lembrem-se de dar um título ao texto.

PLANO DO TEXTO
Localização e descrição da ilha:

Qual é o mistério?

Principais hipóteses para explicar o mistério:

Informações importantes do infográfico:

Posicionamento do autor do texto:

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Filme Rapa-Nui: uma aventura no paraíso


O filme é uma aventura que envolve o romance de um jovem casal. É possível perceber no
filme algumas das hipóteses mais aceitas sobre como as grandes estátuas foram construídas
e levadas até os mais diversos pontos da ilha, bem como sobre costumes e tradições dos
antigos povos que habitaram Rapa-Nui ou a ilha de Páscoa.
Direção de Kevin Reynolds. Estados Unidos, 1994.

revistas revistas especializadas


A produção do conhecimento científico é divulgada para o público em revistas especializadas
para despertar a curiosidade e o interesse pela ciência. Essas revistas em geral têm também
páginas na internet, com resumos de seus artigos. Algumas delas:
Ciência Hoje. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/>. Acesso em: 20 jul. 2012.
Superinteressante. Disponível em: <www.superinteressante.com.br>. Acesso em: 20 jul. 2012
Galileu. Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com/>. Acesso em: 20 jul. 2012
NationalGeographic. Disponível em: <http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic>. Acesso em: 20 jul. 2012
Aventuras na História. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia>. Acesso em: 20 jul. 2012

48 Língua Portuguesa
Capítulo 4
LÍNGUA O que é que o jornal tem?
PORTUGUESA

R epetidas vezes ouvimos que ler jornal é importante, que aquele que lê jornal
é bem informado, sabe das coisas. No entanto, também é comum ouvir que
ler jornal é difícil, que ele é meio “desajeitado” para manusear, que é muito grande
e fica complicado encontrar nele o que estamos procurando...
Observe estas imagens. Em que lugar estão as pessoas das fotos? Você acha
que elas têm o mesmo objetivo ao ler jornal? É provável que elas estejam lendo a
mesma matéria?

Delfim Martins/Pulsar Imagens

Gary Buss/Taxi/Getty Images

O jornal tem uma enorme variedade de gêneros de texto, cada um com uma
finalidade. Esses gêneros todos não são lidos da mesma maneira – nem quando
são lidos pela mesma pessoa... Por isso, é possível fazer leituras muito diferentes
de um jornal.
Você conhece todos os gêneros e assuntos presentes nesse meio de comuni-
cação?
Nele você pode se informar sobre acontecimentos relevantes, que repercu-
tem sobre sua vida, mas também sobre fatos curiosos. Pode obter informações
práticas, como o resultado da loteria, um índice econômico, a programação de
cinema e TV. Pode também encontrar diversão e entretenimento (nos quadri-

6º ano 49
nhos, palavras cruzadas, crônicas), descobrir uma vaga de emprego, um imóvel
para alugar, um carro usado que pode comprar, receber dicas de passeios, livros,
viagens, orientações de como proceder em certas situações etc.
Se você não costuma folhear o jornal, pode achar difícil localizar tudo isso.
Pode até se sentir desmotivado a procurar. Mas é uma questão de hábito. Neste
capítulo você terá a oportunidade de se familiarizar com o jornal impresso e vai
começar a desenvolver estratégias para ler seu conteúdo.

RODA DE CONVERSA

Para começar, vamos fazer um levantamento entre os alunos da classe. O professor vai fazer
um quadro na lousa para anotar os resultados.

a) Quantos alunos têm o costume de ler jornal pelo menos uma vez por semana?
b) Quantos leem jornal de vez em quando no mês?
c) Quantos alunos nunca leem jornal?
d) Entre os que leem, em que dia(s) da semana isso é mais comum? (Investiguem se há um mo-
tivo para isso.)
e) Onde leem jornal?
f) O que costumam ler no jornal? (Por exemplo: notícias da cidade e do país; horóscopo; resumo
de novela; classificados; propagandas etc.)
g) Entre os alunos que nunca leem jornal, qual é o motivo para isso?
h) Entre os que leem (não importa com qual regularidade), o jornal é lido na versão impressa ou digital?
i) Entre os que leem a versão impressa, o jornal é comprado, entregue gratuitamente ou de uso
público (da biblioteca da escola, por exemplo)?

COMO FAZER A LEITURA DO JORNAL?


Com diversos gêneros de texto, fotografias e variados recursos gráficos, o jor-
nal é uma vasta fonte de informações sobre o mundo. A questão é que, muitas
vezes, essa fonte é renovada a cada 24 horas! Esse dado em princípio pode até
assustar, mas naturalmente não há nenhuma pressão para que o leitor leia da pri-
meira à última página de um jornal no espaço de um dia...
O objetivo deste capítulo é justamente proporcionar experiências para que você
conheça a estrutura e a organização do jornal e possa tirar proveito de sua leitura.
Sobre o acesso a esse veículo de comunicação, o jornal pode ser vendido por
assinatura (e nesse caso é entregue no local indicado pelo assinante) e pode tam-
bém ser vendido nas ruas: em bancas de jornal, lojas, livrarias e supermercados.
Além disso, pode ser lido gratuitamente em bibliotecas e salas de leitura e acessa-
do pela internet.

50 Língua Portuguesa
LER JORNAL I

Nesta atividade, você vai começar a pôr as mãos no jornal. Para isso, a classe vai se dividir em grupos.

1. Seu grupo vai receber alguns jornais (um por vez). Em cada um é preciso observar:
t o formato (tabloide: 29 × 39 cm ou padrão: 38 × 58 cm);
t o número de páginas;
t o tipo de papel;
t a organização das folhas (separadas em vários maços de papel ou em um único maço);
t as cores (preto e branco ou colorido);
t o número de colunas na página;
t o tamanho da letra nos textos (pequena ou grande, segundo a avaliação subjetiva do grupo);
t o preço do jornal;
t o público provável;
t a periodicidade (diário, semanal ou outra).

Depois de examinar um jornal, o grupo vai entregar o exemplar manuseado para outro e vai
receber um novo exemplar. O rodízio vai continuar até todos os jornais disponíveis circularem
por todos os grupos. Em cada etapa é preciso anotar o que foi visto.
Para registrar o que você observou, faça tabelas com base no modelo a seguir. O número de
colunas que você vai usar depende de quantos jornais forem examinados. Escreva na primeira
linha o nome do jornal examinado.

Nome do jornal

Formato do jornal

Número de páginas

Tipo de papel

Número de maços de folhas

Cores

Número de colunas na página

Tamanho da letra

Preço

Público provável

Periodicidade

6º ano 51
2. Manifeste sua opinião: qual dos jornais examinados você escolheria para ler? Por quê?
O professor vai realizar uma pesquisa na classe para todos saberem das escolhas feitas pela turma.
3. Agora, em grupos, selecionem um dos jornais aleatoriamente. Localizem em suas páginas os itens
a seguir e anotem no caderno em que página cada um estava.
a) uma notícia sobre esporte;
b) informações meteorológicas;
c) uma propaganda;
d) uma sequência de classificados de imóveis;
e) uma sequência de classificados de emprego;
f) tiras de humor;
g) cartas de leitor;
h) uma notícia internacional;
i) o rendimento da caderneta de poupança;
j) o obituário.

4. No final, cada grupo vai mostrar a página na qual localizou o que foi pedido. Primeiro, todos os
grupos apresentam o item a); depois todos passam ao b), e assim por diante. Nesse momento, com
a orientação do professor, você e seus colegas vão discutir os seguintes pontos:
a) O item procurado ocupou mais espaço em um jornal do que em outro?
b) Aparentemente a linguagem empregada para tratar determinado item muda ou é a mesma de
um jornal para outro?
c) Há semelhança no que diz respeito à parte do jornal (começo, meio, final) onde estavam as
informações meteorológicas, as tiras de humor, as cartas de leitor, o rendimento da caderneta
de poupança e o obituário?
d) E quanto às propagandas?
e) Os anúncios classificados estavam em uma parte separada ou estavam em pontos variados,
entre textos que não eram de anúncios classificados?
f) As notícias internacionais estavam no começo, no meio ou no final do jornal?
g) E as de esportes?
h) Você acha que existe um motivo para a localização de certos textos no jornal?

A ORGANIZAÇÃO DO JORNAL DIÁRIO


Entre os jornais que você já manuseou, talvez alguns estivessem formados por
vários maços de folhas. Cada um desses maços é chamado de caderno.
E quantas folhas são reunidas em cada caderno? Isso varia. Eles não têm a
mesma quantidade de folhas, mas é sempre uma quantidade que permite que o
caderno seja dobrado ao meio, sem prejudicar seu manuseio.

52 Língua Portuguesa
CADERNO E SUPLEMENTO
A divisão do jornal em cadernos é aproveitada para outro propósito. Você
imagina qual seja? Uma dica: se examinar os vários cadernos de um jornal diário,
vai perceber que cada um tem um nome. E vai perceber também que esse nome
tem a ver com o conteúdo do que foi publicado ali.
Certos cadernos coincidem com as editorias do jornal. A editoria é uma es-
pécie de departamento do jornal que fica responsável por cobrir uma área – por
exemplo: Esportes, Ecologia, Polícia, Saúde, Educação, Artes, Transportes, Polí-
tica, Noticiário Internacional, Economia, Religiões, Local, Interior, entre outras.
Quando um caderno trata de um só assunto, por exemplo, esporte, turismo, ele
é chamado de suplemento. Um suplemento pode sair diariamente ou ter outra
periodicidade. Quando um caderno reúne matérias de mais de uma editoria (por
exemplo: Local + Educação + Polícia), é chamado de caderno. Repare que o ter-
mo “caderno” tem dois sentidos: é meramente um conjunto de folhas, mas é tam-
bém uma unidade do jornal.
Veja o nome do caderno que costuma reunir as três editorias mencionadas no
parágrafo anterior em três jornais diferentes:

Jornal Origem Nome do caderno

Jornal do Commercio Pernambuco Cidades

Folha de S.Paulo São Paulo Cotidiano

Gazeta do Povo Paraná Vida e Cidadania

Fernando Favoretto/Criar Imagem

Os jornais costumam dividir seus conteúdos em cadernos para facilitar a leitura.

6º ano 53
Esse jeito de organizar o jornal facilita muito a vida do leitor. Se ele gosta do
noticiário esportivo, pode separar esse suplemento com facilidade para lê-lo. Se ele
quer primeiro se inteirar do noticiário local (aquele que trata dos fatos relativos a
sua cidade), também pode com rapidez pegar o caderno que lhe interessa. Há, po-
rém, os cadernos que o leitor deixa para o fim, e pode até escolher não ler naquele
dia. As notícias não vêm misturadas. Elas são distribuídas para facilitar a leitura.
Além do nome, há outro procedimento que facilita a localização dos cadernos. Al-
guns jornais os identificam por letras, que são inseridas à esquerda do número da pá-
gina. Assim, para um caderno é usada a letra A, e suas páginas são A1, A2, A3, A4 etc.;
para outro, usa-se a letra B, que origina as páginas B1, B2, B3 etc. Nem sempre as letras
do alfabeto são seguidas uma por uma. Pode acontecer de algumas serem puladas.

Arquivo/Agência Estado

Detalhe da seção Internacional do jornal O Estado de S. Paulo. Além do nome da seção, estão indicadas a página, A16, mostrando que pertence ao primeiro
caderno, e também a data de publicação.

LER JORNAL II

Nesta atividade você vai explorar o uso que o jornal faz dos cadernos. O trabalho será
realizado em grupos. O ideal é que você e seus colegas se dividam em sete grupos, pois tra-
balharemos com as edições de um mesmo jornal ao longo de uma semana, começando pela
edição de segunda-feira.
Ilustração digital: Estúdio Pingado

54 Língua Portuguesa
1. Seu grupo vai receber aleatoriamente uma edição do jornal.
a) Escolha um caderno e tire dele uma de suas folhas. Você não deve rasgá-la ou recortá-la,
apenas separe do caderno uma folha dupla, com a dobra no meio. Faça o mesmo com outro
caderno. As duas folhas destacadas vão continuar fazendo parte daquele jornal, porém soltas.
b) Terminada essa etapa, você vai reunir os cadernos em qualquer ordem, juntar a eles as duas
folhas duplas (que estão separadas) e dobrar o jornal ao meio, do jeito que ele fica na banca.
c) Por fim, passe a outro grupo o jornal no qual você realizou esses procedimentos. Seu grupo
também vai receber um jornal no qual foi feita a mesma coisa.
2. A tarefa consiste no seguinte:
a) Espalhe os cadernos do jornal que você recebeu (sem desfolhá-los) e procure colocá-los na
ordem em que estão quando são vendidos.
b) Encaixe no caderno de origem as folhas que estavam soltas.
c) Se houver cadernos de classificados, deixe-os separados.
3. Um componente do grupo que lhe passou o jornal vai avaliar se as folhas soltas voltaram ao ca-
derno original, e um componente do seu grupo vai fazer o mesmo com o grupo ao qual vocês
passaram o jornal. Discuta com os colegas e o professor que critérios foram seguidos para ordenar
as folhas soltas e os cadernos.

O CONTEÚDO DOS CADERNOS


E SUPLEMENTOS E AS SEÇÕES DOS JORNAIS
Geralmente, os jornais diários apresentam alguns cadernos e suplementos
comuns. Eles normalmente tratam:

t de política nacional (cobrindo questões dos poderes legislativo, execu-


tivo e judiciário e movimentos sociais);
t de política internacional;
t de questões ligadas à cidade em que o jornal circula e a outras cidades
(cobrindo segurança, transporte, habitação, comportamento);
t economia (cobrindo o dia a dia das empresas e finanças pessoais);
t esporte;
t arte, cultura e entretenimento (cobrindo cinema, teatro, literatura,
televisão etc.).

Em algum desses cadernos os jornais também incluem temas como:

t saúde;
t ciência;
t ambiente;
t educação.

6º ano 55
Essas áreas estão presentes em todas as edições do jornal, ou seja, saem
diariamente. Elas normalmente estão distribuídas por cinco cadernos.
Cada jornal dá um nome diferente para esses cinco cadernos ou suple-
mentos diários.
Além das áreas enumeradas, há outras tratadas de forma especial, em su-
plementos que circulam uma vez por semana. São os suplementos semanais.
Nem todo jornal tem os mesmos suplementos. Um novo suplemento pode
ser introduzido se o jornal perceber que o público tem interesse por deter-
minado tema. É comum que os suplementos semanais tratem de informáti-
ca/tecnologia; turismo; gastronomia, entre outros. Eles também costumam
dedicar espaço ao público

Folhapress
jovem e ao público infantil.
Alguns veículos têm
suplementos mensais. Eles
circulam em dias determi-
nados, por exemplo: todo
último domingo do mês ou
toda primeira terça-feira.
Há ainda os suplemen-
tos especiais. Eles podem
ocorrer planejadamente por
parte do jornal para apre-
sentar um tema de interes-
se. Por exemplo: “Cursos
de idiomas” ou “Compra de
imóvel” ou “Copa 2014” ou
ainda “Eleições”. Pode ha-
ver também um suplemento
especial por ocasião de um
fato relevante inesperado,
por exemplo, a morte de
alguém.
Os cadernos costumam
ter seções fixas, ao longo
dos cadernos e suplemen-
tos. São exemplos de se-
ções: cartas dos leitores,
informações meteorológi-
cas, coluna social, obitu-
ário, horóscopo, quadri-
nhos, palavras cruzadas, Página de suplemento especial publicado pelo jornal Folha de S.Paulo após a morte do
sudoku, charge... artista pop Michael Jackson, em 2009.

56 Língua Portuguesa
No primeiro caderno, há as seções de opinião. Elas contam com os editoriais
(texto em que o jornal manifesta seu ponto de vista sobre um fato recente e de inte-
resse público), com as colunas assinadas por colaboradores fixos do jornal e com as
colunas assinadas por pessoas convidadas a escrever naquela edição.

Folhapress

Página do jornal Folha de S.Paulo com informações metereológicas.

6º ano 57
LER JORNAL III

Nesta atividade, trabalharemos mais uma vez em grupo. Você vai continuar trabalhando com
o exemplar que manuseou na atividade anterior.

1. O professor vai fazer na lousa um quadro que todos ajudarão a preencher. Segue abaixo um modelo
que toma por base um jornal paulistano. Seu professor vai fazer adaptações se isso for necessário.

Folha de S.Paulo – de ___/___/___ a ___/___/___

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.

Opinião

A Primeiro caderno Poder

Mundo

B Mercado

Ciência + Saúde

C Cotidiano Saber

Folha Corrida

D Esporte

E Ilustrada

The New York Times p/ FSP

Folhateen

Tec

Equilíbrio
*
Fovest

Comida

Turismo

Guia da Folha

Folhinha

Ilustríssima

São Paulo
**
Serafina

* Circula em determinado período do ano. ** Encarte mensal

58 Língua Portuguesa
2. O grupo que está com a edição de segunda-feira vai começar. Ele vai dizer os cadernos e suple-
mentos que existem no jornal recebido, na ordem que consideraram certa para eles. Apenas os
cadernos de classificados ficarão de fora na listagem. O professor vai colocar o símbolo üna tabela,
para indicar que o jornal de determinado dia tem determinado caderno ou suplemento.
3. O grupo que está com a edição de terça-feira vai continuar. Se houver um caderno diferente, seu
nome será inserido na tabela e marcado com . Todos os grupos vão falar.
4. Terminada essa etapa, faça o mesmo com os cadernos de classificados. Veja um modelo de tabela
a seguir.

Folha de S.Paulo – de ___/___/___ a ___/___/___

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.

Veículos

Imóveis

Empregos

Negócios

5. Nesse momento inicia-se uma análise dos dados.


a) Que cadernos circulam diariamente?
b) Que cadernos, suplementos ou outros encartes circulam uma vez por semana?
c) Há alguma razão para um caderno ou suplemento ou encarte circular naquele dia da semana?
Se sim, qual?
d) Há nessas sete edições encartes que circulam uma vez por mês?
e) Em que dia da semana há mais cadernos de classificados? Qual dia vem em segundo lugar?
Que justificativa se pode dar para essa ocorrência?
f) Os anúncios classificados estão divididos por temas? Quais?
6. Em outro dia, faça o mesmo procedimento com outro jornal.
7. No final, compare:
a) Há semelhança de conteúdo entre os cadernos diários dos dois jornais?
b) Há suplementos semanais com o mesmo tema nos dois jornais? Eles circulam no mesmo dia
ou em dias diferentes? Qual é a justificativa para cada caso?
c) Há cadernos com o mesmo nome nos dois jornais?
d) Que tipo de caderno só um dos dois jornais tem?

6º ano 59
8. Com a ajuda do professor, a classe vai fazer uma relação de todos os cadernos de um dos jornais
que foram examinados e vai esclarecer o conteúdo de cada um. Depois passe para o segundo jor-
nal. Registre o resultado desse levantamento.

PRIMEIRA PÁGINA – A VITRINE DO JORNAL


A primeira página é também denominada capa do jornal. Essa designação
nos lembra que a primeira página tem pontos em comum com livros, pois é na
capa que está a identificação da obra.
A parte da primeira página que apresenta a identificação do jornal é o cabeça-
lho. Ele apresenta basicamente o nome do jornal, o local onde ele circula, sua data
de publicação, o número da edição e o preço, mas pode haver outros elementos.
A grande diferença entre a capa de um livro e a de um jornal está no modo
como ela mostra o conteúdo daquela publicação. O livro faz isso indicando o
título e o autor, e às vezes usando uma ilustração. No jornal, porém, tudo se pas-
sa de um jeito diferente. Na sua capa há resumos e amostras do que o leitor vai
encontrar no seu interior. Esses resumos e amostras são constituídos por textos
verbais e não verbais.
Tanto no livro como no jornal, é importante ser chamativo e atrair o leitor,
mas o jornal tem uma estrutura própria. Ela é extremamente importante, e é isso
que você vai estudar nesta seção.
A primeira página tem alguns elementos característicos, como:

t manchete;
t fotografias (com legenda e crédito);
t chamadas de diferentes tipos;
t infografia.

A manchete é o título principal. É escrita com as maiores letras e fica sempre


na metade superior da primeira página, a fim de ser lida quando o jornal está
dobrado. Cada edição do jornal tem apenas uma manchete. Os demais títulos são
chamados de “títulos” mesmo.
As chamadas são os resumos das matérias que poderão ser lidas dentro do
jornal. Uma chamada pode ser ilustrada ou não, pode ser uma espécie de título
ou pode ter um título e um pequeno texto. A chamada sempre indica a página
interna na qual a matéria pode ser lida integralmente.
A fotografia é sempre acompanhada por uma legenda e pela indicação do
fotógrafo ou da instituição responsável por ela. Essa indicação é o crédito da foto.
Por fim, há a infografia: conjunto de informações transmitidas de forma es-
quemática, para rápida visualização e compreensão do leitor. Baseia-se em dese-
nho e outros recursos visuais, como gráficos, setas, mapas. Os textos são sempre
curtos.

60 Língua Portuguesa
Compare estes dois jornais:

Endereço virtual
Arquivo CB/D.A Press

Nome do jornal

Número do
Local Data jornal
No de
páginas da
edição
Preço

Data de
fundação Nome do jornal Lema Endereço virtual

Folhapress
Data
Responsável Horário Preço
pelo jornal Ano e número do jornal de fechamento
da edição

Os cabeçalhos desses jornais apresentam elementos comuns. Você reparou


quais? Ambos apresentam o nome do jornal, a data, o número da edição, o preço
e o endereço virtual.
Mas há elementos que variam de um para o outro. O Correio Braziliense, por
exemplo, apresenta explicitamente o local onde o jornal circula (Brasília, Distrito
Federal). A Folha de S.Paulo, por sua vez, apresenta o lema do jornal e o horário
do fechamento da edição.

6º ano 61
Agora localize a manchete na primeira página destes jornais:

Arquivo CB/D.A Press

62 Língua Portuguesa
6º ano
Folhapress

63
As manchetes são: “Imagine quando vier um temporal” e “Volume de investi-
mento do governo cai em 2012”.
E as chamadas? Todas as primeiras páginas têm ao menos uma chamada
composta de título e texto e também têm chamadas que são praticamente títulos.
Veja os exemplos desse último tipo de chamada.

Jornal Chamada

Folha de S.Paulo “São Paulo verá mostra com várias versões da obra de Caravaggio”

Nas duas primeiras páginas há chamadas baseadas em fotografias. Veja exemplos.

Jornal Chamada

Folha de S.Paulo Chamada sobre a gravação de um videoclipe dos Racionais MCs.

Correio Braziliense Chamada sobre bombardeios em Gaza.

Nas edições analisadas, as páginas não exploraram em grande escala o recurso


da infografia. Apenas uma delas apresenta um mapa.

APLICAR CONHECIMENTOS

1. Para responder às questões a seguir, consulte o quadro que serviu de exemplo na atividade “Ler
Jornal III”.
a) Em que caderno de um jornal você encontraria matérias sobre o Congresso Nacional?

b) Em que caderno de um jornal você encontraria uma matéria sobre a explosão de uma bomba
em Bagdá, no Iraque?

c) Em que caderno de um jornal você encontraria uma matéria cujo título é “Mercado prevê
inflação acima de 4,5% este ano”?

64 Língua Portuguesa
d) Em que caderno de um jornal você poderia encontrar a foto a seguir?

Dida Sampaio/AE
Operários em momento de descontração durante a reconstrução do estádio Mané Garrincha, em Brasília (DF), 2012.

e) Em que caderno de um jornal você encontraria uma matéria cujo título é “Congestionamento
foi o maior do ano”?

f) Em que caderno de um jornal você encontraria uma matéria cujo título é “Seu Jorge chega
com disco novo”?

2. Que editoria foi responsável por uma matéria cujo título é “Venda de antibióticos sobe e preocupa
especialistas”?

6º ano 65
3. Escreva o nome dos itens indicados nesta primeira página de jornal.
Gazeta do Povo

66 Língua Portuguesa
Gazeta do Povo

6º ano
67
MOMENTO DA ESCRITA

PROPOSTA
Você vai trabalhar em trio para produzir uma primeira página de jornal diá-
rio, com todos os elementos que a compõem.
Suponham que o jornal no qual está essa página circula na escola, e seu pú-
blico-alvo são os alunos e demais pessoas do universo escolar. As matérias que o
jornal vai apresentar são relativas aos acontecimentos nas aulas, nos intervalos e
no dia a dia pessoal dos alunos.

PLANEJAMENTO
Sigam as etapas abaixo:

1. Escolham o nome do jornal.


2. Decidam se, além de nome, local, data, número de edição e preço, haverá
algum outro elemento no cabeçalho.
3. Decidam que fato é o mais importante naquela edição do jornal. Vocês po-
dem escolher algo que tenha ocorrido ou podem imaginar uma situação.
4. Escrevam uma manchete para apresentar esse fato.
5. Decidam cinco outros fatos que serão relatados naquela edição.
6. Para cada um vocês vão criar uma chamada. Variem o tipo de chamada:
com título e texto e com uma frase-título.
7. Classifiquem cada chamada para um caderno ou suplemento diário. Ele
vai ser indicado pela numeração de página que você vai inventar. Por
exemplo: A1 é página do primeiro caderno; B1 do caderno de economia;
C1 do caderno local, que abriga também segurança, transporte, educa-
ção...; D1 do caderno esportivo; E1 do caderno de arte e entretenimento.
8. Escolham uma ou mais fotografias para ilustrar um ou mais fatos. Se vo-
cês não conseguirem, podem desenhar o que imaginaram fotografado.
9. Criem uma legenda para as fotografias.

ELABORAÇÃO
Em uma folha de papel sulfite, vocês vão compor a primeira página.

1. Delimitem a lápis, bem de leve, o espaço que o nome do jornal vai ocupar.
2. Delimitem também um pequeno espaço para os outros dados do cabe-
çalho.
3. No espaço que sobrou, marquem a lápis o espaço que a manchete vai
ocupar.

68 Língua Portuguesa
4. Depois, delimitem o espaço que a(s) fotografias(s) vai(vão) ocupar e o
espaço que cada chamada vai ocupar.
5. Escrevam a lápis diretamente na folha de sulfite o que vai ficar em cada
espaço deixado.
6. Coloquem o crédito na fotografia.
7. A letra precisa ser bem regular e caprichada em todo o trabalho.

Se a classe dispuser de computador, pode adaptar a criação da página por


meio de um programa de edição.

AVALIAÇÃO
Troque as páginas com outro grupo. Cada um vai avaliar o trabalho do outro,
segundo estes critérios:

1. Os alunos obedeceram à proporção de tamanho entre o nome do jornal e


os demais elementos do cabeçalho?
2. Os textos da chamada são claros e atrativos?
3. O caderno que cada chamada indica é coerente com o tema tratado pela
chamada?

REESCRITA
Façam os ajustes que forem necessários e passem caneta na primeira página.
O trabalho pode ser entregue ao professor.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Site Acervo do Jornal O Estado de S. Paulo


O jornal O Estado de S. Paulo digitalizou todo o seu acervo, tornando possível examinar edições
que estamparam fatos históricos e acompanhar a mudança do projeto gráfico que o jornal, como
outros, teve ao longo do tempo.
Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/>. Acesso em: 6 ago. 2012.

6º ano 69
Bibliografia

LÍNGUA PORTUGUESA

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6º ano 71
60 an0 – Capítulo 1 roso é apenas retórica, pois o porquinho se sente ameaçado,
afinal aquelas ervas são normalmente usadas como tempero.
O mundo da leitura, a leitura do mundo
3. Professor, verifique se os alunos citaram situações em que as
pessoas leem gestos, olhares, ambientes etc. A questão pre-
O capítulo aborda questões relativas à linguagem. O que fun- para os alunos para a discussão do conceito de leitura.
damenta essa escolha é o fato de nem sempre os estudantes de EJA
começarem o curso na primeira fase do ciclo; muitas vezes, por
Ler carta
retomar os estudos já adulto, ele é inserido numa fase intermediá-
Por meio da leitura desse documento, os estudantes vão
ria. Assim, optamos por apresentar um capítulo introdutório que
presenciar a leitura de gestos e comportamentos e como a inter-
aborde questões fundamentais sobre a linguagem.
pretação deles depende do repertório e das finalidades do leitor.
Neste capítulo, os estudantes terão contato com conceitos im-
É importante contextualizar a carta e seu contexto de produ-
portantes que serão necessários nos capítulos seguintes do volume.
ção. O professor deve fazer intervenções para esclarecer trechos
O objetivo inicial é expandir o conceito de leitura para além
que possam ser complexos para os alunos. Por exemplo: “lhas
do texto verbal. Em seguida, a palavra (falada ou escrita) é apre-
dessem” (dessem as contas a eles, indígenas); “eles” (pronome
sentada como um signo, algo que precisa ser interpretado e que
que se refere aos nativos). Os alunos podem responder às pergun-
se manifesta em textos. Os estudantes verão que o que define um
tas em duplas, e o professor pode realizar depois uma correção
texto (verbal ou não verbal) é o sentido ou os sentidos que o au-
coletiva, partindo da escrita das respostas na lousa pelos alunos.
tor pretendeu alcançar quando o criou.
1. Aos nativos.
Ao longo do capítulo, tentamos demonstrar a importância do
2. Pedro Álvares Cabral.
leitor na interpretação. É importante considerar que a interpreta- Professor, nas respostas às questões 1 e 2, destaque aos alu-
ção de um texto ocorre durante a leitura. Com base no que colhe na nos como, durante a leitura, mobilizamos o repertório de que
leitura, o leitor vai estabelecendo relações entre as ideias apresen- dispomos e como às vezes o desconhecimento das referências
tadas, rastreando as pistas linguísticas, inferindo a intenção do au- apresentadas no texto interfere na interpretação. Esse tema será
tor, descobrindo, enfim, os sentidos. Esses procedimentos podem abordado adiante, neste capítulo e também em outros volumes.
ser aplicados em textos ficcionais (poema, conto) e não ficcionais 3.
(artigos de divulgação científica, artigos de opinião, reportagens). a) O capitão tem os pés sobre um tapete grosso e macio, está
Trabalhar com a divisão texto ficcional e não ficcional é fun- bem vestido e usa um grande colar de ouro.
damental para desenvolver as propostas didáticas em torno dos b) Espera-se que os alunos percebam que o capitão se porta
gêneros, como fazemos nesta coleção. como alguém superior, que demonstra o poder que tem.
Assumindo o papel de leitores, os estudantes ampliam a ca- c) Os nativos talvez vissem o capitão como líder, como alguém
pacidade de compreensão do mundo e podem intervir nele para superior aos demais da esquadra, mas talvez não vissem o
transformá-lo. capitão como alguém superior a eles próprios, ou seja, não
Sugerimos que nas seções O papel do leitor, As palavras, reconheciam no capitão alguém que devesse ser reverenciado.
os sentidos, O texto, os sentidos e Textos ficcionais e não fic- 4.
cionais os alunos façam uma leitura compartilhada, mediada a) O escrevente provavelmente esperava que os nativos fizessem
pelo professor. algum gesto que mostrasse submissão (por exemplo, curvar-se,
A tira de Xaxado mostra a leitura de um comportamento. dobrar o joelho, beijar as mãos do capitão) e que pedissem licen-
Isso desperta os alunos para a discussão do primeiro tema do ça para falar, para se dirigir ao capitão e aos demais da esquadra.
capítulo: a leitura do mundo. b) Pero Vaz devia esperar dos nativos o mesmo comportamen-
As questões propostas podem ser respondidas por escrito, to que os demais europeus tinham em relação a uma autori-
mas coletivamente, isto é, os alunos debatem e em seguida regis- dade, a um líder.
tram a resposta consensual. c) Resposta pessoal. Os alunos provavelmente dirão que o reda-
tor portou-se de modo bastante egocêntrico, ignorando que
os nativos não teriam os mesmos hábitos que os europeus.
Roda de conversa Professor, chame a atenção dos alunos para a ideia de que
1. Professor, avalie com os alunos a coerência das hipóteses nossa leitura é bastante influenciada pela imagem que fazemos
apresentadas por eles. Provavelmente eles apontarão que de nós e de nossos interlocutores. Esse tema será abordado
esse ato indica a possibilidade de preparar um prato, vender adiante, neste capítulo e também em outros volumes.
os temperos para alguém ou preparar um banho. 5. Trechos a serem destacados:
2. O porquinho acha que os meninos querem preparar um prato t um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos
que leva carne de porco ou de galinha. Professor, verifique se com a mão em direção à terra, e depois para o colar, [como
os alunos perceberam que a hipótese de ser um banho chei- se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra]
6o ano 15
t olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava da revista Ciência Hoje das Crianças, editada por uma importan-
para a terra e novamente para o castiçal, [como se lá tam- te instituição científica: a Sociedade Brasileira para o Progresso
bém houvesse prata!] da Ciência (SBPC). Trata-se de fonte com credibilidade para as
t Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que pesquisas dos alunos.
lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pesco- b) Ficcional. Trata-se de uma história. O texto foi extraído de um
ço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava livro de contos. Câmara Cascudo é conhecido como folcloris-
para a terra e novamente para as contas e para o colar do ta e por coletar histórias que as pessoas contam. As pessoas
Capitão, [como se dariam ouro por aquilo] envolvidas no caso são personagens, seus nomes não são cita-
6. Caminha interpretava os gestos dos indígenas de acordo dos. O lugar onde os fatos se passam também não é citado.
com os interesses dos portugueses, que esperavam encon- Professor, se julgar oportuno, discuta com os alunos em que
trar riquezas, como ouro e prata, nas terras habitadas pelos medida elementos presentes na referência bibliográfica, como o
indígenas. nome do autor – se ele já for conhecido – podem ser uma pista
7. Caminha poderia imaginar que os indígenas queriam levar de que se trata de um texto ficcional ou não ficcional. Outros as-
o colar para a terra para mostrar aos outros da tribo. pectos não discutidos na seção anterior também podem ser con-
Professor, avalie a coerência de outras respostas que os alu- siderados, conforme o conhecimento dos alunos.
nos apresentarem. c) Não ficcional. O texto foi extraído de um jornal e lembra
uma notícia, que busca representar com objetividade fatos
da realidade. As pessoas são reais, citadas pelos nomes. A
Ler tira cidade onde tudo se passa é real, sua localização é exata.
Além de exercitar a atribuição de sentidos na leitura da tira, Professor, discuta com os alunos o caráter insólito do caso, mas
os estudantes aplicarão os conceitos estudados. que é admitido como fato da realidade em razão do suporte em que
Sugira que os alunos respondam individualmente às ques- foi veiculado. Comente a verossimilhança maior do texto ficcional.
tões. A correção pode ser feita em duas partes.
1. O goleiro venda os olhos para defender o gol.
2. Planejando a fala
a) O colega de Ginuíno alega que o goleiro protegeu os olhos Para que os estudantes se envolvam cada vez mais com a pala-
contra o sol. vra e adquiram a confiança necessária para participar ativamente do
b) Se o sol estivesse de frente para o goleiro, ele teria de se pro- mundo letrado em que vivemos, organizamos em todos os capítulos
teger da luz, mas o sol está nas suas costas, por isso não há 1 de Língua Portuguesa uma atividade de produção de texto oral.
necessidade de tapar os olhos. Embora o tema da variação linguística seja discutido como
3. Ginuíno deve julgar seu colega muito ingênuo e tolo, a ponto um conceito apenas posteriormente, é importante deixar claro
de acreditar que a venda se destina à proteção dos olhos. desde já ao aluno que “falar corretamente” é falar sem se intimi-
4. Suborno. dar, é aprender a monitorar a fala, adequando-a a situações de
5. Sim, pois ela emprega palavras. maior ou menor formalidade, é aprender a escutar com atenção
6. A linguagem do desenho, a linguagem visual. e preparar previamente o que vai falar. Ninguém pode ser discri-
7. Ao texto verbal. minado por falar de uma ou outra maneira.
8. A tira apresenta uma unidade, um sentido que o leitor pode A atividade é proposta de modo que o estudante se sensibilize para
perceber. esse conjunto de habilidades. A capacidade de produzir textos orais em
público sem se intimidar deve ser aperfeiçoada gradualmente.
Nesta seção, não propomos explorar um gênero oral da es-
Ler textos ficcionais e não ficcionais fera pública. O que sugerimos é uma atividade de produção oral
Os três textos apresentam a morte como tema. Esse elemen- com planejamento.
to comum permite que sobressaiam as diferenças entre textos Recomende aos estudantes que não leiam previamente a histó-
ficcionais e não ficcionais. ria pela qual não ficaram responsáveis; assim, será possível avaliar se
O professor pode pedir aos alunos que trabalhem individual- o outro grupo conseguiu planejar uma exposição clara da história.
mente e que depois chequem as respostas em dupla. Por fim, Avalie, de acordo com a fluência de leitura da turma, se o
pode solicitar que uma dupla apresente à turma a resposta para primeiro contato com o texto deve ser por meio de leitura indivi-
a questão 1 e prosseguir na correção, chamando outras duplas. dual e silenciosa ou se cada um lerá um trecho em voz alta.
Nesse momento, o professor pode formalizar na lousa uma ver-
são coerente que contemple o que os alunos expuseram.
a) Não ficcional. Seu autor representa com objetividade o que Avaliação
se passa na natureza. A fonte do texto é um site de ciência. O processo de avaliação pode ser contínuo e paralelo ao estudo do
Professor, esclareça aos alunos que se trata da versão on-line capítulo. Não é preciso planejar uma avaliação em formato de prova.
16 Língua Portuguesa
Consideramos que a avaliação deve ser realizada de duas elaboradas atividades em que o aluno vai escutar, ler, compreen-
formas. Uma delas consiste na correção individualizada de al- der, interpretar, declamar e produzir poemas.
gumas atividades propostas no capítulo. Pode ser parte das ques- Para ampliar o ensino da linguagem poética:
tões sobre a segunda tira da Turma do Xaxado, por exemplo. O t Selecione outros poemas, não só pela temática, mas tam-
professor pode selecionar outra(s) questão(ões) dessa mesma bém pela sonoridade e pela originalidade da linguagem;
atividade ou da atividade proposta sobre os três textos sobre a t Proponha a leitura de poemas sempre em voz alta, para que
morte, por exemplo. O importante é que o professor proceda a os alunos percebam a sonoridade e o ritmo dos versos. A lei-
uma correção individualizada do trabalho de cada aluno. Ele tura em voz alta evidencia a musicalidade da obra poética.
pode atribuir um conceito ao trabalho. t Compare a linguagem poética com a linguagem dos textos
A segunda forma de correção consiste na observação da respos- expositivos. Mostre que a poesia expressa a subjetividade do
ta que os alunos apresentam na lousa e nos trabalhos de escrita in- poeta e caracteriza-se pela linguagem criativa e metafórica,
dividual. Nesse caso, o professor verifica as dificuldades que o aluno como o uso do sentido conotativo das palavras e a explo-
apresenta em relação à escrita, por exemplo: desvios ao representar ração do seu caráter polissêmico. Seu estudo não pode ser
sílabas que não sejam formadas pela sequência consoante + vogal; reduzido ao estudo de rimas, versos e estrofes; é preciso ir
interferência da fala na escrita; inconsistência no uso de maiúsculas além, explorando os recursos que dão efeito sonoro, como a
e minúsculas; ausência de certos sinais de pontuação etc. A partir aliteração (“repetição de fonemas idênticos ou parecidos no
do que foi observado, crie atividades de apoio e revisão focadas na início de várias palavras na mesma frase ou verso, visando
dificuldade mais recorrente da turma, evitando abordar muitas ao obter efeito estilístico na prosa poética e na poesia”) e a asso-
mesmo tempo. É importante insistir em alguns procedimentos didá- nância (“na prosa ou na poesia, repetição ritmada da mesma
ticos para garantir que o aluno incorpore os padrões da escrita. Nas vogal acentuada para obter certos efeitos de estilo”) (defi-
futuras avaliações da produção dos alunos, o professor deve compa- nições extraídas do Dicionário eletrônico Houaiss da língua
rar se houve avanços no grupo. portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009).
t Mostre que o trabalho do poeta depende de dedicação, reflexão,
criatividade e conhecimento da língua e que a linguagem poéti-
Para ampliar ca tem caráter subversivo, como nos casos em que o poeta não
segue as normas da língua. Um dos poemas do capítulo, “Co-
Livros meta poesia”, é um exemplo. Seus versos não seguem as normas
CAVALCANTI, Jauranice Rodrigues. A leitura autoral; Pletora dos sinais de pontuação, nem do uso da letra maiúscula.
de informações, diferentes pontos de vista; Leituras erradas?. In:
Professor, leitura e escrita. São Paulo: Contexto, 2010. p. 13-24.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 4. ed. São Paulo: Brasi-
Roda de conversa I
Os alunos precisam ver um sentido na leitura que lhes é
liense, 1984. (Coleção Primeiros Passos.)
proposta. Dedique um tempo razoável às questões desta seção.
O objetivo é levantar os conhecimentos prévios dos alunos e ao
mesmo tempo prepará-los e motivá-los para a leitura do poema.
O tema da saudade estará presente nos três poemas do capítulo:
saudade da pátria, saudade da infância e saudade da cidade natal.
Converse com a classe sobre esse tema.
Capítulo 2
A vida contada em versos
Ler imagens
É importante fazer a leitura das imagens. Essa leitura é
Sabemos que a aprendizagem é significativa quando, diante mais um elemento que vai contribuir para o sentido que os
de um novo conteúdo, o estudante consegue estabelecer relação alunos atribuirão ao poema.
com o conhecimento que havia construído anteriormente, ou
seja, com seus conhecimentos prévios. Por esse motivo, esco- Ler poema I
lheu-se para este capítulo um gênero textual bastante conheci- Relembrar as informações já adquiridas sobre o poema e
do: poema. Acreditamos que o fato de ser conhecido favorece a seu autor ajuda a levantar o conhecimento prévio do aluno, pre-
aproximação do aluno com o estudo desse gênero, colaborando, parando o leitor para a recepção e a compreensão do texto.
assim, para criar um ambiente facilitador da aprendizagem. Poemas são escritos para serem oralizados. Para que sejam
A finalidade principal deste capítulo é a leitura de poemas: mais bem apreciados, precisam ser lidos em voz alta. Escutá-los
ler para encantar-se com a linguagem poética e sentir a emoção provoca uma emoção estética diferente da emoção provocada
que os versos são capazes de provocar no leitor. Para isso, foram pela leitura silenciosa realizada apenas com os olhos. A orali-
6o ano 17
zação permite que um poema seja apreciado também por sua essa capacidade de apreciação, pode-se propor ao aluno: ler poe-
sonoridade. mas em voz alta, decorar um poema para declamar em público
As questões desta seção têm como objetivo auxiliar o diálogo do e escutar poemas.
leitor com os poemas do capítulo. É importante estimular os alunos 1. Espera-se que os alunos percebam a divisão das estrofes e o
a dialogar com o texto, instigando-os a prestar atenção às relações número variado de versos em cada uma delas.
que estabelecem enquanto leem. É pelo esforço que o leitor faz para 2. Sabiá rima com lá e cá. Flores rima com amores e primores.
atribuir sentido aos textos que se desenvolve a compreensão leitora.
A roda de leitura, a ser feita depois, também é um bom recurso para
favorecer o desenvolvimento da compreensão leitora. Ler poema II
1. Resposta pessoal. Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não
2. ocorre com os escritores de textos que têm como finalidade ex-
a) O lugar de onde o poeta fala é a terra do exílio. Sabemos disso por e explicar um conhecimento.
logo na primeira estrofe: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde Selecione poemas e textos expositivos da área de Ciências ou
canta o Sabiá;/ As aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como de Geografia, por exemplo. Proponha aos alunos que comparem
lá”. As palavras minha, aqui e lá norteiam a interpretação. “Mi-
a linguagem desses materiais para que eles percebam as diferen-
nha terra” indica que é a terra de origem do poeta. Sua terra tem
ças entre os gêneros textuais. Faça uma reflexão com os alunos
palmeiras e sabiá. Aqui (terra do exílio) as aves não gorjeiam
sobre o motivo de os poemas apresentarem linguagem subjetiva
(tão bonito) como as de lá (pátria distante do poeta).
e os textos expositivos apresentarem predominância de lingua-
b) A terra do poeta tem palmeiras, sabiá, aves, céu estrelado,
gem objetiva. Se necessário, ajude-os a perceber que as intenções
campos floridos, bosques cheios de vida (exuberantes).
desses textos são diferentes: no poema a intenção é emocionar o
Tudo isso ele resume no verso: “Minha terra tem primores”
(encantos, belezas). leitor; já no texto expositivo é expor ou explicar um conhecimen-
c) Lá é a terra do poeta, em oposição a cá, local do exílio. to, uma informação.
d) Cá é a terra onde o poeta está, o local do exílio. Promova a leitura do poema “Cometa poesia”. Ele se contra-
e) A terra do poeta tem céu mais estrelado, campos mais flori- põe ao poema “Canção do exílio”. Embora a temática da saudade
dos e bosques mais exuberantes. reapareça, é uma obra mais atual. Apresente o poeta contempo-
f) O nome provável é Brasil, porque o poeta é brasileiro e sua râneo Nicolas Behr, que talvez seja desconhecido dos estudantes.
biografia diz que ele viveu um tempo em Portugal para estu- 1.
dar, num exílio voluntário. a) O poema revela lembranças do poeta de um tempo que já
g) O poeta deseja voltar para sua terra. Ele quer continuar vi- passou. O poeta se lembra de uma noite de julho de 1967.
vendo para reencontrar a pátria. Quer desfrutar as belezas Sua mãe acordou os filhos de madrugada para ver o cometa
da terra natal e rever as palmeiras e o sabiá. ikeia-seki passar pelo céu. Depois da passagem do cometa,
todos voltam para a cama.
b) Um dos sentimentos do poeta é lástima pela perda da in-
Roda de conversa II fância. Podemos perceber a voz do poeta e seus sentimen-
Depois do diálogo inicial com os versos de “Canção do exí- tos nos versos: “(ela sabia que nós nunca o esqueceríamos)/
lio”, é o momento de iniciar uma roda de conversa. Em círculo, caixeiro-viajante do céu,/ o cometa aparece e reaparece/ o
todos conversam sobre o texto, com base nas reflexões propostas cometa volta/ a infância não”.
pelas respostas das questões anteriores. É importante que todos c) Resposta pessoal.
possam expressar o que entenderam, pensaram e sentiram com 2. Resposta pessoal.
base na leitura do poema. 3.
a) Preste atenção às respostas dos alunos. Essa pergunta tem o
objetivo de levar os alunos a refletir sobre a ambiguidade do
Aplicar conhecimentos título. Ele tanto pode ser interpretado como um cometa de
O objetivo é a reflexão e a análise dos recursos linguísticos nome Poesia, como uma ordem para o leitor: “Faça poesia”
dos poemas: verso, estrofe e rima. Os alunos entrarão em contato ou “Pratique poesia”. É importante ensinar que é próprio da
com a estrutura e as características próprias da linguagem poética. linguagem literária ser polissêmica, isto é, remeter a várias
Para ampliar o estudo sobre os recursos da linguagem poé- significações de uma mesma palavra, e que a ambiguidade
tica, além dos poemas do livro do aluno, ofereça à turma outros (possibilidade de uma mesma palavra significar uma coisa e
poemas para reflexão e análise. outra) é uma evidência dessa característica.
A percepção das características da linguagem poética não b) Aqui vale o comentário feito em 1.
é visual, embora muitos poetas também tenham se preocupado 4. Ele chama o cometa de caixeiro-viajante.
com o modo como as palavras são dispostas na página. Não são 5. O poeta compara o cometa a um caixeiro-viajante, isto é,
os olhos que as percebem, mas são os ouvidos. Para desenvolver o comerciante que viaja a diferentes lugares para vender
18 Língua Portuguesa
seus produtos. O cometa anda de lá pra cá pelo espaço que levam o leitor a imaginar a realidade sensorialmente,
como um caixeiro-viajante anda de lá pra cá por diferen- isto é, a realidade visual, tátil, olfativa, gustativa e auditiva.
tes cidades. Quando o poeta se refere a cores, o leitor não só imagina
visualmente a paisagem como lhe atribui um sentido. No
caso desta trova, as cores levam o leitor a uma sensação de
O poeta brinca com as palavras muita luz, claridade e alegria: águas verdes, jangadas bran-
Quando falar que o poeta é um artesão da palavra, se achar quinhas de sol.
oportuno leia o poema inteiro de Olavo Bilac para a classe: 3. O poeta provavelmente está chegando de navio, como era
comum chegar ao Nordeste na época do escritor. Ele avista
A um poeta as cidades do mar e grita aos jangadeiros, portanto ele não
Longe do estéril turbilhão da rua, está nas jangadas.
Beneditino escreve! No aconchego 4. O poeta não está no continente, ele está falando do mar.
Do claustro, na paciência e no sossego, 5.
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua! Inchadas Jangadas
Mas que na forma se disfarce o emprego Mar Chegar, aspirar
Do esforço: e trama viva se construa Farol Sol
De tal modo, que a imagem fique nua Assim Mim
Rica mas sóbria, como um templo grego Traz Cais
Não se mostre na fábrica o suplício Ansiedade Saudade
Do mestre. E natural, o efeito agrade Amplidão Coração
Sem lembrar os andaimes do edifício:
6.
Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
a) O uso intenso de tantos sinais de pontuação expressiva,
É a força e a graça na simplicidade. como reticências, exclamação e interrogação, revela que o
poeta quer mostrar ao leitor que está muito emocionado por
BILAC, Olavo. Poesias. São Paulo: chegar à terra natal.
Martins Fontes, 1996. p. 336. b) Os sinais de pontuação do poema também têm influência na
leitura em voz alta. A entonação da leitura terá que conside-
rar a pontuação.
Ler poema III 7. O poeta compara sua alma e as jangadas. As velas das janga-
Assim como foi feito nas seções Ler poema I e II, aqui também é
das estão inchadas de vento do mesmo modo como sua alma
desejável levar o aluno a conhecer o autor, sua obra e a época em que
está repleta de ansiedade para chegar logo à sua cidade.
o autor viveu. São dados que situam o leitor diante do poema e po-
8.
dem ajudá-lo na constituição do sentido que vai atribuir aos textos. a) Em “Cometa poesia”, o poeta se lembra de um episódio da
Selecionamos uma trova porque se trata de um poema cur- infância, a passagem de um cometa; em “Canção do exílio”,
to de forma fixa, fácil de memorizar e muito popular no Brasil. o poeta se lembra da terra natal, enquanto está no exílio, e
É comum haver competições de trovadores em vários cantos do em “Chegando a Recife”, o poeta fala da alegria de rever sua
país, por isso talvez alguns alunos já tenham tido contato com cidade.
esse tipo de poesia. Por serem composições curtas e simples, as b) Resposta pessoal.
trovas podem ser mais facilmente analisadas com os alunos no
estudo de versos, rima, estrofe e métrica.
Para responder às perguntas, estimule os alunos a observar Momento da escrita
o mapa e a imaginar as cidades de Olinda e do Recife sob a pers- O objetivo deste momento é que os alunos pratiquem a
pectiva de quem está chegando a essas cidades pelo mar. Você produção de texto usando os procedimentos fundamentais. É
ensinará os alunos a fazer leitura de mapa, uma competência importante que eles planejem o texto que vão redigir, escrevam
muito importante. Você pode compartilhar a atividade com o um rascunho e o revisem durante e depois da produção do tex-
professor de Geografia. to. Neste capítulo, os alunos deverão aprender a usar os recursos
1. Indague na classe quem conhece o Recife e Olinda. Ajude os linguísticos da linguagem poética.
alunos que conhecem essas cidades a apresentá-las aos co- 1. Como as trovas são constituídas de apenas quatro versos, é
legas. Oriente a organização das informações que eles darão uma boa forma escrever poemas começando por trovas. Fale
para a classe. Sugestão: marque uma data para a apresenta- aos alunos que não só poetas anônimos criaram trovas. O poeta
ção, assim os estudantes têm tempo de se preparar. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, criou um poema
2. O objetivo desta questão é sensibilizar os alunos para apre- intitulado “Lira do amor romântico ou a eterna repetição”. São
ciar a linguagem poética. Poetas fazem uso de expressões vinte quadras inspiradas nas trovas populares. Todas elas se ini-
6o ano 19
ciam com o verso “Atirei um limão n’água”, da conhecida trova: do Charles e o Arte Riso, e em Porto Alegre o Sarau Elétrico são
Atirei um limão n’água
alguns exemplos que surgiram da vontade de diferentes grupos so-
De pesado foi ao fundo. ciais que desejavam compartilhar experiências literárias, musicais
Os peixinhos exclamaram: e dramáticas. A Cooperativa dos Artistas da Periferia (Cooperifa),
Viva Dom Pedro Segundo! em Piraporinha, na zona sul paulistana, foi idealizada pelo poeta
Sérgio Vaz e pelo jornalista Marco Pezão para dar voz às pessoas
Veja as primeiras quadras do poema de Drummond:
que não têm acesso fácil à cultura. “Na periferia não tem teatro,
Atirei um limão n’água não tem museu, não tem biblioteca, não tem cinema, não tem
e fiquei vendo na margem. nada. Então, fizemos um movimento dos sem-palco. Tem em-
Os peixinhos responderam: pregados, operários, músicos, office-boys, atores, atrizes, poetas,
Quem tem amor tem coragem. pintores, advogados, professores, escritores. Tiramos a literatura
Atirei um limão n’água da casa-grande e levamos para a senzala porque o conhecimento
e caiu enviesado. tem que ser de acesso de todo mundo”, afirma Vaz, que reúne no
Ouvi um peixe dizer: Bar do Zé Batidão mais de duzentas pessoas todas as quartas-feiras
Melhor é o beijo roubado. (Adaptado de: Da corte para o povo – Rede Brasil Atual. Dispo-
nível em: <www.redebrasilatual.com.br>. Acesso em: 8 jul. 2012).
Estimule os alunos a conhecer o poema de Drummond na
íntegra, visitando o site <www.memoriaviva.com.br/drummond/
index2.htm>. Acesso em: 8 jul. 2012.
Como organizar um sarau
1. Marque data, local e horário para iniciar e acabar o sarau. A
2. É importante que os alunos tenham um local para publicar
classe deve escolher o mestre de cerimônias do sarau, isto é,
suas produções. Ajude-os nessa tarefa.
aquele que vai conduzir todo o andamento do evento, do co-
3. É importante que os alunos sejam capazes de tomar consciên-
meço ao fim. O mestre deve ter em mãos o programa do sarau.
cia e de dizer o que aprenderam. Por meio desse relato, é pos-
2. Reserve um bom espaço para abrir uma “roda”. Espalhe ca-
sível avaliar se o que eles dizem que aprenderam corresponde
deiras, bancos e almofadas para que todos possam ficar de
ao que e como você queria que eles aprendessem. Também por
frente para o meio da “roda”, que é o local onde o leitor da
esse relato, é possível a autoavaliação do trabalho do professor.
vez fica. Dependendo do número de participantes, o espaço
pode ser a sala de aula, o pátio ou a quadra da escola.
Planejando a fala 3. Procure definir um tema ou um gênero textual para o sarau.
Falar em público não é tarefa fácil, principalmente para os Para este a proposta é leitura de poemas.
mais inibidos. Esta etapa do capítulo tem como objetivo desen- 4. O sarau não pode ser interrompido, pois a leitura é um mo-
volver a linguagem oral. Sabemos que, para uma apresentação mento de atenção e divertimento. Se for oferecido um lan-
oral, é importante uma preparação prévia. Dessa forma, reserve che, escolha oferecê-lo antes ou no fim do sarau.
um tempo para que os alunos se preparem para esse momento. 5. O sarau precisa ter rotatividade. Organize e defina uma or-
Com os alunos, estabeleça um dia para que todos leiam ou dem para que todos tenham a oportunidade de participar
declamem de cor os poemas que compuseram e para que apre- lendo os poemas que escolheram para a ocasião.
sentem aos colegas outros poemas, que eles mesmos escolheram. 6. Aquele que for se apresentar deve dizer o título do poema e o
Esse momento pode ser muito enriquecedor para o trabalho com nome do autor. Adaptado de: Como fazer um sarau na sua casa.
o desenvolvimento da linguagem oral em situação pública. Disponível em: <www.bemsimples.com>. Acesso em 8 jul. 2012.
Explique aos alunos o que são saraus: os saraus do Brasil 7. Assista ao vídeo Como organizar um sarau no site da
do século XIX eram privilégio de um público seleto. Esse tipo revista Nova Escola: <http://revistaescola.abril.com.br/
de encontro chegou ao Brasil em 1808, com D. João, e seguia os lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/video-como-organi-
moldes dos salões franceses. Era a realização mais elegante da zar-sarau-581365.shtml>. Acesso em: 8 jul. 2012.
sociedade, com direito a piano de cauda. A maioria dos saraus
tinha participação de poetas e músicos ilustres.
Os saraus de hoje não precisam mais de pianos de cauda, Para ampliar
trajes a rigor e serviçais, mas de pessoas que queiram dividir mú-
Livros
sica, literatura, arte visual ou multimídia. Podem acontecer em
Indicamos alguns livros que podem orientar o trabalho do
bares, porões, escolas, clubes, igrejas, praças ou em casa. Para
professor com o tema “poesia” na sala de aula. Sugerimos tam-
organizar um sarau, não há uma receita predefinida.
bém duas antologias, que fazem parte do programa Biblioteca da
Atualmente, artistas, jornalistas, professores, estudantes e
Escola. É importante que se faça uma pesquisa das obras dispo-
curiosos fazem do sarau um evento cultural contemporâneo. Co-
níveis na biblioteca escolar para o reforço teórico do professor e
meçam com pequenos grupos de pessoas e as reuniões logo pas-
para indicação para o aluno.
sam a ser periódicas. Em São Paulo, o Sarau da Cooperifa, o Sarau
20 Língua Portuguesa
BERALDO, Alda. Trabalhando com poesia. São Paulo: Ática, como o caso do médico infectologista Dráuzio Varella e do físico
1990. v. 1 e 2. Marcelo Gleiser.
CITELLI, Beatriz. Produção e leitura de textos no ensino fun- É grande o desafio enfrentado pelos jornalistas que escrevem
damental. São Paulo: Cortez, 2001. v. 7. artigos de divulgação científica, já que precisam explicar de maneira
clara e correta uma nova teoria ou uma nova descoberta para um
GOLDSTEIN, Norma. Verso, sons, ritmos. São Paulo: Ática,
leitor leigo no assunto. É importante refletir com os alunos sobre a
2006. (Princípios.)
relação entre o conhecimento científico divulgado pelos meios de
MEC. Antologia poética brasileira. (Coleção Palavra da Gente.) comunicação e a responsabilidade que adquirimos com esse conhe-
MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros cimento, ou seja, quanto mais conhecimento temos, quanto mais
do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. sabemos sobre o que acontece com o nosso corpo, com a natureza e
com o Universo, mais responsabilidade temos sobre eles.
Filme
Sociedade dos poetas mortos. Direção: Peter Weir. Estados Uni-
dos, 1989. 128 min. Roda de conversa
A seção tem o objetivo de levantar os conhecimentos pré-
Sites vios do aluno. Assim, no momento da leitura eles já terão uma
Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa. Dispo- concepção mínima do assunto tratado no capítulo. São questões
nível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br>. Acesso em: 10 jul. 2012. que permitem a mobilização de conhecimentos antes da leitura
Biblioteca Virtual do MEC. Disponível em: <www.dominiopublico. do texto. Mais adiante, no acompanhamento da leitura, será pos-
gov.br>. Acesso em: 10 jul. 2012. sível aos alunos o cruzamento da informação já conhecida com
informações novas, e a possibilidade de confirmação ou não das
Literatura Brasileira e Portuguesa on-line. Disponível em: <www.lol.
hipóteses levantadas antes da leitura do texto.
pro.br>. Acesso em: 10 jul. 2012.
1. Provavelmente, os alunos dirão que já ouviram falar de to-
Gravadora Luz da Cidade. Disponível em: <www.luzdacidade. dos eles, porque são assuntos frequentemente discutidos
com.br>. Acesso em: 10 jul. 2012. pela mídia.
Poema “A um poeta”, de Olavo Bilac. Disponível em: <www. 2. Os alunos dirão que viram na televisão, ouviram no rádio,
revista.agulha.nom.br/bilac.html>. Acesso em: 10 jul. 2012. leram nos jornais, revistas e internet etc.
3. Resposta pessoal. Observe as respostas dos alunos. É impor-
tante conhecer o que interessa a eles. Saber seus principais
interesses pode ajudar a selecionar conteúdos e atividades
mais adequados à sua classe.
4. Resposta pessoal. A observação é a mesma da questão anterior.
Capítulo 3 5. É importante mostrar que, por uma questão de espaço, em
Acesso ao universo da ciência jornais e revistas, geralmente, os temas não são muito apro-
fundados. Para estudar, isto é, para conhecer um assunto
com mais profundidade, é mais adequado consultar livros e
Inicie o capítulo perguntando aos alunos quais foram as bons sites de busca.
últimas notícias da área da ciência que eles viram na TV, leram
no jornal, na revista, na internet, ou ouviram no rádio.
Hoje, as informações circulam rapidamente. Os meios de Ler artigo de divulgação científica
comunicação também se encarregam de divulgar o que a ciência Proponha à turma que observe atentamente a imagem
produz. No Brasil, existem poucos leitores da imprensa escri- das estátuas da ilha de Páscoa e pergunte se alguém sabe o que
ta, mas cerca de 90% da população possui rádio e/ou televisão. aquela foto representa e onde a ilha está situada. É importante
Dessa forma, esses meios adquirem grande responsabilidade na localizá-la num mapa.
divulgação científica. Conte para os alunos quem é o astrofísico Marcelo Gleiser, autor
Pessoas leigas conversam sobre assuntos que antes eram res- do texto que será lido, e comente as questões que afligem o cientista e
tritos aos pesquisadores. Por um lado, a ciência foi popularizada, provavelmente todos nós: “quem somos?”; “de onde viemos?”; “como
atingiu o grande público e hoje está nos documentários, nas re- tudo começou?”; “o mundo pode acabar? Como?”. Indague sobre qual
vistas, nos jornais, em programas de rádio e tevê. Por outro lado, dessas questões provavelmente o cientista abordará no texto.
cientistas também ampliaram sua atuação, pois, sem abandonar O objetivo das perguntas apresentadas é ativar o conhe-
a profissão, passaram a escrever para um público leigo, colabo- cimento que os estudantes têm sobre o tema que será desen-
rando para os meios de comunicação de massa. Alguns desses volvido. Assim, quando eles entrarem em contato com o texto,
profissionais até se tornaram famosos comunicadores científicos, já estarão preparados cognitivamente para recebê-lo. Estarão
6o ano 21
curiosos para encontrar as respostas que eles ainda não têm, Parágrafo 1:
antes da leitura. 1. Localiza-se a 3 500 quilômetros da costa do Chile.
1. É provável que alguns alunos já tenham visto essas estátuas 2. O fascínio é provocado por suas gigantescas e sombrias es-
em filmes ou revistas. tátuas. Além disso, é um lugar desolado, sem árvores altas e
2. A construção das estátuas é ainda um mistério. Existem hi- sem animais nativos ou pássaros.
póteses consistentes de base científica, e o texto vai expor 3. Os significados 3.
isso. É importante que os alunos tentem responder com base 4. O aluno deve sublinhar o seguinte texto: “Nenhuma árvore
no conhecimento que têm sobre as grandes construções das com mais de três metros de altura pode ser vista em toda a
civilizações antigas. Oriente para que relacionem o tema sua superfície. Não existem animais nativos ou pássaros”.
com a construção das pirâmides, por exemplo.
3. Siga a orientação dada para a questão anterior. Parágrafo 2:
4. Se o aluno não conhece nada sobre as estátuas gigantes, não 1. “Como elas (as estátuas) foram transportadas e erigidas, se
será capaz de responder. Só a imagem não é suficiente para não existe material na ilha para fazê-lo?”
levantar uma hipótese do local de origem das estátuas. Será 2. Ele fez a pergunta porque ficou intrigado ao observar que
preciso ler o texto para saber. não existia material na ilha nem para construir as estátuas,
5. A linguagem do título não é científica, é poética. Por esse nem para transportá-las.
motivo, é possível que alguém diga que vai se tratar de uma
história de suspense. Oriente para que observem as palavras Parágrafo 3:
“misteriosa” e “trágica”. Elas remetem a mistério e tragédia. 1. Os alunos devem grifar o seguinte trecho: “O suíço Däniken
O local do mistério e da tragédia é uma ilha que se chama sugere que as estátuas teriam sido produzidas por seres ex-
“de Páscoa”. Se será uma história ou não, só lendo o texto. traterrestres usando ferramentas ultramodernas antes de
6. voltarem ao seu planeta. Já o norueguês Heyerdahl sugere
que elas tenham sido feitas por incas ou egípcios que, de
a) ( x ) Divulgar conhecimento científico.
algum modo, chegaram até lá no passado”.
Só pelo título, seria possível responder que a intenção é nar-
rar uma história de suspense, mas, sabendo que o autor é um
Parágrafo 4:
cientista e que, no jornal, ele escreve numa seção de ciência, a
1. Antropólogos e arqueólogos, em décadas de investigações,
resposta é divulgar conhecimento científico. Ensine os alunos a
resolveram o mistério das gigantescas estátuas.
observar sempre quem é o autor e qual é o suporte em que o texto
2. Os enigmas da ilha de Páscoa, de John Flenley e Paul
foi publicado, pois essas informações permitem levantar hipóte-
Bahn, e Entre os gigantes de pedra, de Jô Anne yan Tilburg.
ses sobre o texto, mesmo antes de ser lido.
b) ( x ) O leitor adulto do jornal. Parágrafo 5:
O jornal Folha de S.Paulo e a seção de ciência têm como 1. O aluno deve grifar a palavra “arqueóloga”.
público-alvo o leitor adulto. 2. Eles competiam entre si, erigindo as estátuas como símbolo
7. Oriente os alunos a explicar por que responderam de uma de poder. Quanto maior fosse a estátua, maior o poder do
ou outra forma. Observe as justificativas. Elas lhe darão in- chefe da tribo.
formações preciosas do que sabem e de como pensam.
Observe os alunos fazendo a primeira leitura individualmen- Parágrafo 6:
te. Veja se eles usam procedimentos de grifar o que não enten- 1. A dúvida é como as estátuas foram transportadas sobre gra-
des feitas de madeira se não existem árvores na ilha.
dem, ou de copiar palavras desconhecidas para depois buscar o
significado no dicionário. Esse primeiro contato do aluno com o Parágrafos 7 e 8:
texto é importante. Encoraje-o a prosseguir, mesmo diante de di- 1. Por meio de técnicas que permitem identificar o pólen e res-
ficuldades de compreensão. Depois, acompanhe a releitura que os tos carbonizados de plantas extintas.
alunos farão em dupla, seguindo a orientação do livro do aluno. 2. Sem árvores para construir canoas transoceânicas, os nati-
As atividades têm o objetivo de favorecer a compreensão do vos não podiam sair mais para pescar em alto-mar. Deixa-
texto. Quanto mais os alunos conversarem sobre o que responde- ram, assim, de consumir atum e golfinhos.
ram nas questões, mais oportunidades terão de compreender o 3. Passaram a devorar os animais da ilha.
que foi lido. É preciso garantir que a sala de aula seja um espaço 4. Quando só restaram ratos para comer, os nativos começa-
democrático de circulação de ideias. ram a devorar a si próprios.
É apropriado ajudar os alunos a analisar a linguagem do
artigo de divulgação científica, que contém elementos próprios Parágrafo 9:
desse gênero e também elementos da notícia jornalística. Acom- 1.
panhe com eles o estudo dessa seção e discuta as respostas. a) O atum, o salmão e o bacalhau estão ameaçados.
22 Língua Portuguesa
b) Florestas inteiras são derrubadas diariamente. nativas e 25 de aves marinhas. Todas essas aves desapare-
c) A poluição continua crescendo. ceram.
2. Calcularia o quanto pode consumir antes de se autodestruir. 3. Ver a resposta da questão 1. É importante que os alunos te-
3. Para aprendermos com a trágica história da ilha como tratar nham oportunidade de falar o que pensam. Não há apenas
o lugar em que vivemos, antes que só restem nossas estátuas uma resposta possível. Uma possibilidade de interpretação
e monumentos. é que, sem os parênteses, o sentido seria que o texto trataria
4. Ele dá a sugestão para si mesmo e para o leitor. Percebemos da ilha de Páscoa como uma ilha misteriosa e trágica. Per-
isso porque ele usa a palavra todos e o verbo devêssemos, na deria a ideia de que o mistério da ilha esconde uma história
primeira pessoa do plural. e que essa história é trágica.

Para refletir Aplicar conhecimentos II


1. Para um leitor especialista em botânica. Isso porque usa pa- 1. Como as estátuas foram erigidas e transportadas? Teriam
lavras que remetem a plantas: floração, biologia floral, bro- as estátuas sido produzidas por seres extraterrestres usando
meliáceas, Mata Atlântica. Um leitor leigo em botânica não ferramentas ultramodernas antes de voltarem ao seu pla-
compreende o significado desse título. neta? Talvez tenham sido feitas por incas ou egípcios que,
2. Provavelmente para um leitor adulto leigo. O título trata de de algum modo, chagaram até lá no passado? Como pedras
um tema da medicina e indica que o texto vai mostrar como gigantescas foram transportadas sobre grades feitas de ma-
o caramujo pode espalhar doenças. deira, se não existem árvores na ilha?
3. Um leitor leigo terá mais facilidade para entender o segundo 2. Oriente os alunos a pensar como cientistas. Para ir atrás de
título. Isso porque as palavras são conhecidas, de uso cotidiano. uma resposta, é preciso que se tenha uma dúvida, uma per-
gunta para ser respondida. As perguntas podem ser inicia-
das com “como”, “por que”, “para que”. Por exemplo: Áreas
Aplicar conhecimentos I de Geografia e Ciências – Como se formam os rios? Área
1. de Língua Portuguesa: Para que servem os verbos? Área de
a) Uma possível interpretação é que as enormes estátuas sozi- Medicina: Por que sentimos dor?
nhas, sem nada ao redor, dão ao local um ar de mistério. Ou- 3.
tra possibilidade para o mistério é o fato de não se ter certezas (d) O autor faz uma advertência.
sobre a história da ilha, daí ela ser “misteriosa”. E “trágica” (b) O autor exemplifica como o homem tem se autodestruído.
parece ser um acréscimo, efeito produzido pelos parênteses. (c) O autor dá uma sugestão.
A história da destruição da ilha é que a torna “trágica”. (a) O autor expressa seu ponto de vista a respeito do ser humano.
b) O misterioso (e trágico) arquipélago de Fernando de Noronha. 4. Devêssemos.
Foi preciso passar as palavras “a”, “misteriosa”, “trágica” para 5. Talvez todos devessem fazer uma visita real ou imaginária à
o masculino para concordar com a palavra “arquipélago”, ilha de Páscoa, e aprender com sua trágica história.
que é masculina.
c) Os adjetivos empregados ajudam a dar à ilha e a tudo que
lhe diz respeito uma atmosfera de grandiosidade, que causa Debater
impacto, que não dá para passar despercebido. É um recur- Explore o tema proposto para debate. Ajude os alunos a per-
so de linguagem usado pelo autor para sensibilizar e alertar ceber como a destruição do ambiente significa a nossa destruição.
o leitor para as graves questões que destruíram ambiental- Encaminhe a discussão para que também percebam a relação da
mente a ilha e que podem se repetir em qualquer outro lugar temática com ações do nosso cotidiano, como coleta seletiva de
do planeta. Sem esses adjetivos de grandiosidade, o texto lixo, desperdício de água e de alimento, consumo exagerado etc.
perderia muito da sua força.
d) Ajudam a criar uma atmosfera de mistério. Um lugar sem
árvores, com estátuas sombrias e misteriosas, por onde se Ler infográfico
especula que passaram seres extraterrestres, parece ser um Ler uma imagem, um desenho, uma tabela, um infográfico,
local que mais esconde do que revela. por exemplo, são conteúdos de leitura que precisam ser ensinados
2. Parágrafo 5: a ilha chegou a ter uma população de 15 mil pesso- em todas as disciplinas. Dedique atenção especial a essa seção.
as, em 11 tribos. Parágrafo 7: [...] a ilha continha uma floresta 1. É o percurso que as estátuas fizeram do local onde foram
subtropical rica em árvores enormes, incluindo uma palmei- construídas para o local onde foram erguidas e fincadas.
ra gigante encontrada no Chile, que chega a ter 30 metros de 2 Os quadros falam de mais de uma teoria. Além disso, alguns
altura. Todas elas foram sistematicamente derrubadas [...] dizem “Não se sabe”...
Parágrafo 8: [...] no passado, existiam seis espécies de aves 3. Oriente os alunos a explicar com coerência a escolha da teoria.
6o ano 23
4. Sim. Os recursos visuais acrescentam informações que só o As seções teóricas apresentam de forma simples a nomen-
texto verbal não conseguiria dar. Em um bom infográfico, clatura dessa área de conhecimento e dá explicações de forma di-
o verbal e o não verbal se completam. O verbal não pode se reta. Desse modo, o aluno pode proceder individualmente à lei-
limitar a dizer o que os olhos já estão vendo e vice-versa. tura de seus textos, à medida que for estudando aquele conteúdo.
5. Sim. Ver a explicação dada à questão anterior.

Roda de conversa
Momento da escrita A enquete funciona como uma sondagem inicial. Por isso,
Os alunos são solicitados a produzir um texto expositivo que convém que o professor anote e guarde o resultado do levanta-
explique a história da ilha de Páscoa. Para isso, eles devem seguir mento. Dessa forma, poderá compará-lo com esses dados em
alguns passos. Esses passos são procedimentos importantes do outro momento do ano letivo e poderá avaliar de que forma o
processo de elaboração de qualquer texto: considerar a situação trabalho de familiarização com o jornal produziu efeitos.
de produção (qual é a intenção do texto, quem é o leitor e onde
será publicado), seguir um plano, fazer rascunho e revisão.
Ler jornal I
Esta atividade precisa de programação. É preciso providenciar
Para ampliar jornais na escola, na vizinhança ou pedir aos alunos que, se pude-
Leve as revistas de divulgação científica citadas neste capí- rem, tragam alguns exemplares. Se possível, deve haver jornais em
tulo para a aula. Propicie um tempo para os alunos conhecerem, formato tabloide e em formato-padrão; jornal de bairro e jornal mu-
lerem e comentarem as revistas. Se possível, leve o filme Rapa- nicipal; jornal entregue gratuitamente e jornal pago. Trata-se de ati-
-Nui para assistirem em classe. vidade longa, que poderá ser cumprida em duas aulas (na primeira
aula, realizar as questões 1 e 2; e na segunda, as questões 3 e 4).
Ao observar alguns traços, como o tamanho total do jornal, o
tamanho da fonte usada e o preço, o aluno provavelmente come-
çará a ter noção do público do jornal e até da sua linha editorial.
Ao trabalhar a questão 2, o professor poderá avaliar as justi-
Capítulo 4 ficativas dos estudantes e verificar se há resistência inicial quanto
O que é que o jornal tem? a jornais diários menos apelativos. O capítulo busca instrumen-
talizar os alunos para a leitura desses veículos.
As questões 3 e 4 possibilitam que o estudante se habitue à
O capítulo propõe uma familiarização do aluno com o jornal estrutura que os jornais normalmente apresentam, especificamen-
impresso como suporte de diversos gêneros. Isso significa que te com a ordem em que eles em geral apresentam seu conteúdo.
não são trabalhados os gêneros especificamente (notícia, repor- Conforme o jornal examinado, o grupo pode não encontrar alguns
tagem, editorial etc.), mas o objeto jornal. itens. Pode-se aproveitar para discutir o conteúdo predominante
O trabalho proposto é eminentemente prático, constituin- no jornal tendo em vista seu público-alvo. A discussão proposta
do-se do manuseio e da análise do material observado. Essa aná- na questão 4 vai oferecer ao aluno a oportunidade de comparar
lise, contudo, não é aleatória, mas dirigida. Em razão do método diferentes veículos. Ela não precisa ser exaustiva; o professor deve
posto em prática – observação e organização dos dados colhidos perceber que pontos merecem ser mais explorados, respeitando os
em forma de tabela –, as atividades ajudarão a desenvolver no es- tipos de jornal examinados. O importante é que o estudante perce-
tudante a habilidade de sistematizar informações e de organizá- ba que há uma ordenação convencional dos conteúdos no jornal e
-las de modo que favoreçam consultas posteriores. que isso facilite a leitura, qualquer que seja o jornal.
Não se espera que o aluno decore artificialmente os nomes Trata-se também de um primeiro contato com gêneros que
dos cadernos de jornal ou em que dia da semana circula determi- serão estudados nos volumes da coleção (notícia, reportagem, edi-
nado suplemento. O exame contínuo do material, centrado nes- torial, carta de leitor). Nesse momento torna-se mais difícil ao aluno
ses e em outros itens, tem como objetivo familiarizar o estudante iniciante distinguir o gênero editorial, por isso ele não foi solicitado.
com o suporte, quebrando eventuais resistências a respeito da di- Também pode ser prematura a expectativa de que ele distinga notí-
ficuldade de se utilizar desse meio. Por outro lado, o contato e as cia de reportagem. Assim, se o estudante apontar uma reportagem
referências constantes feitas em aula acabarão contribuindo para esportiva na questão 3, a resposta deve ser aceita nesse momento.
que o aluno assimile termos importantes para esse estudo, como
“manchete”, “chamada”, “caderno”, “suplemento” e “editoria”.
Para o aluno compreender a função de alguns gêneros da Ler jornal II
esfera jornalística, o primeiro passo é conhecer o universo em A atividade também precisa de programação. Providencie
que eles estão inseridos. sete edições consecutivas de um jornal diário local. O jornal esco-
24 Língua Portuguesa
lhido deve ser pouco sensacionalista, mesmo que sua linguagem conteúdo estudado e das práticas realizadas. Posteriormente,
não tenha inicialmente os alunos como público-alvo. Se necessá- faça uma correção coletiva, acompanhada de retomadas de al-
rio, recorra ao jornal de uma localidade próxima, que seja lido pela guns temas, quando necessário.
população de sua cidade. É importante que os estudantes apren- 1.
dam a manusear um jornal que eventualmente passarão a ler. a) No primeiro caderno ou no caderno que trata de política.
Convém que o jornal esteja completo, mas deixe seus cader- b) No primeiro caderno ou no caderno que trata do noticiário
nos em uma ordem diferente da habitual. internacional.
Para reinserir as folhas em seu caderno de origem, confor- c) No caderno que trata de temas econômicos.
me foi pedido na atividade, os estudantes vão se orientar pelo d) No caderno que trata de esportes.
nome do caderno (reproduzido no alto de cada página) ou pela e) A resposta depende do jornal analisado; verifique o nome
indicação do caderno por letras (perto da data). do caderno que aborda a editoria local (questões ligadas à
cidade: transporte).
f) A resposta depende do jornal analisado; verifique o nome do
Ler jornal III caderno que aborda editoria de arte, cultura e entretenimento.
Aqui será utilizada a mesma coleção de jornais que já serviu 2. Editoria de Saúde. (Aqui não se está falando do nome de um
à atividade anterior. caderno específico de um jornal.)
A tabela que os alunos vão construir coletivamente pode ser 3.
elaborada previamente em papel kraft ou criada em um arquivo

Gazeta do Povo
de Word, caso a escola disponha de equipamento para projeção
cabeçalho
da tela do computador (datashow). Opte por recursos que pos-
sam ser retomados com facilidade em outra aula. A reescrita na
manchete
lousa, nesse caso, consumirá tempo.
Inicialmente deve constar da tabela apenas o nome do jornal
e os dias da semana. Ela será preenchida à medida que os grupos crédito

fornecerem os dados. Antes da atividade, é importante construir


uma tabela para se interar do que existe no jornal analisado. Os
cadernos diários já estarão listados quando o grupo da terça-fei- fotografia
ra e dos demais dias forem falar. A partir do segundo grupo só os legenda
suplementos e encartes semanais serão acrescentados.
Concluídas as tabelas, inicia-se a análise dos dados. Se
chamada
necessário, ajude os alunos com as hipóteses. Lance perguntas
como: “Por que o guia de cinema sai às sextas?”, “Por que o su- chamada
plemento infantil saiu no fim de semana?”. chamada
Talvez a coleção examinada não tenha naquela semana um en-
chamada
carte que sai uma vez ao mês. Nesse caso, pode-se fazer um comen-
tário sobre uma eventual circulação de um suplemento especial.
No final do trabalho, se houver condições técnicas, os alu-
nos podem receber impressas as tabelas construídas coletiva-
mente. Se isso não ocorrer, a tabela construída em papel deve Momento da escrita
estar exposta na sala. Os alunos podem criar a primeira página de um jornal esco-
Se a cidade contar com mais de um jornal, a atividade pode lar divulgando fatos relativos à escola ou à classe, ou de um jornal
ser feita com dois ou mais deles. Isso permitirá boas compara- local da cidade.
ções (questão 7). É extremamente importante que as etapas do planeja-
Depois que as etapas forem concluídas, os estudantes terão mento sejam registradas no caderno, em itens. Só assim, será
hipóteses mais concretas sobre o conteúdo de cada caderno. Nesse possível dar seguimento ao que se pede depois, tanto em ter-
momento, registre na lousa um quadro com essas hipóteses e, se mos de produção escrita, de adequação ao elemento produzi-
necessário, como um leitor mais experiente, retifique-as. Os alunos do (manchete, chamada, legenda), como de classificação em
devem anotar o quadro em seus cadernos, para futuras consultas. editoria.
A etapa de elaboração pode ser feita em um rascunho de
tamanho semelhante à folha definitiva, em vez de escrita a lápis
Aplicar conhecimentos na folha final. Todavia, no momento de passar a limpo, oriente
Os alunos podem responder individualmente às questões os estudantes a primeiro esquematizar a lápis. O efeito visual é
dessa seção, a fim de checar a compreensão que tiveram do extremamente importante nesse caso.
6o ano 25
A letra usada (manuscrita) deve ser bem pequena. Se julgar diz respeito às questões genéricas relativas aos padrões de escrita.
conveniente, proponha o trabalho em A3 ou emende duas folhas Essa produção pode ser usada como instrumento de avaliação.
de sulfite comum (A4). Talvez os alunos tenham mais facilidade O professor pode ainda, se julgar necessário, fazer uma ve-
em trabalhar com papel e letra maiores. rificação mais particularizada, solicitando aos alunos que escre-
Proporcione-lhes tempo razoável para fazer a avaliação do vam, em folha a ser entregue individualmente, uma manchete
trabalho do outro grupo, dessa forma exercitarão mais uma vez sobre determinado fato e uma chamada. O material, avaliado
os conhecimentos adquiridos, visto que terão de justificar, por pelo professor, será um instrumento de avaliação.
exemplo, uma discordância na indicação do caderno em uma
chamada, a formulação de uma manchete etc.
Os alunos farão uso de sua intuição leitora ao mobilizar recur- Para ampliar
sos para produzir manchetes, títulos e demais textos. À medida que FARIA, Maria Alice. Como usar o jornal na sala de aula. 10. ed.
julgar conveniente, faça sugestões a respeito da linguagem mais im- São Paulo: Contexto, 2009.
pessoal, da predominância do presente etc., mas essas questões ape- A obra apresenta atividades práticas, em forma de sequências
nas serão abordadas de forma sistemática nos próximos volumes. didáticas, sobre a utilização do jornal na sala de aula. As ativida-
Os critérios de avaliação do professor devem, nesse traba- des destinam-se a variadas faixas etárias e são apresentadas em
lho, concentrar-se nos aspectos organizacionais do jornal, tal ordem crescente de abrangência.
como foram estudados no capítulo.
FARIA, Maria Alice; ZANCHETTA Jr., Juvenal. Para ler e fazer o
jornal na sala de aula. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2007.
Atividades complementares
No final de seu estudo introdutório, os alunos poderão cons- Relativamente ao conteúdo deste capítulo, destacam-se os tre-
truir um painel expositivo (a ser exposto em um mural ou sobre chos: “Títulos”: p. 11-25; “Chamada”: p. 44-45; “Projeto gráfico”:
papel kraft) sobre os cadernos que constituem um jornal local e p. 75-83; “Fotojornalismo – para ler a informação visual”: p. 91-
o assunto de que tratam. 140 (incluindo uma parte sobre “legenda”: p. 111-114).
LOZZA, Carmen (Org.). Escritos sobre jornal e educação: olha-
res de longe e de perto. São Paulo: Global, 2009.
Avaliação A obra apresenta a discussão sobre como deve ser a leitura do jornal
O processo de avaliação pode ser contínuo e paralelo ao es- na escola a fim de que ele seja um instrumento educativo e transfor-
tudo do capítulo. mador. Insiste-se no fato de não bastar a mera presença do jornal na
Os resultados constatados na correção da seção Aplicar sala de aula, pois sua leitura deve ter uma perspectiva crítica.
conhecimentos permitem o diagnóstico por parte do professor.
Prepare atividade semelhante à que consta nessa seção, a fim de SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação). Jornal impresso:
realizar outra checagem, se julgar necessário. da forma ao discurso. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.
O acompanhamento da produção proposta na seção Momen- Pequeno manual em linguagem simplificada sobre a elaboração
to da escrita proporcionará elementos para um diagnóstico, tanto de um jornal comunitário. Apresenta conceitos, indicações e
no que diz respeito ao conteúdo estudado no capítulo como no que exemplos.

26 Língua Portuguesa
Capítulo 1
LÍNGUA Que texto é este?
PORTUGUESA

S empre que interagimos por meio da linguagem verbal, criamos textos que ne-
cessariamente se concretizam em um gênero. Neste capítulo, você vai estudar
como os textos se organizam em certas categorias socialmente reconhecidas para
possibilitar as atividades humanas. Você vai refletir também sobre a língua usada
em um gênero, pois uma língua se manifesta sob várias formas. Para começar, ana-
lise a reprodução de uma correspondência.

RODA DE CONVERSA

Examine com seus colegas a correspondência a seguir e respondam às questões.

Tempo Composto
Aviso de Interrupção Programada de Energia Elétrica
Luz Local No Cliente Instalação Emissão Cliente
999000999 ABC 998899 11 JUN 2013 VXY 0019

TEODORO RAMOS
R. DAS ÁRVORES, 1

Interrupções
23/06/2013 – sábado, de manhã, das 8h30 às 13h30.

Prezado(a) Cliente,

Informamos que o fornecimento de energia elétrica para este


imóvel será interrompido, no(s) período(s) acima
mencionado(s), para a realização de serviços na rede
de distribuição.

A energia elétrica é muito importante no dia a dia dos clientes.


Por isso, realizamos intervenções na rede sem afetar o
fornecimento de energia.

Porém, em alguns casos, a interrupção de energia é realmente


necessária para garantir a segurança de funcionários e
clientes.

Estamos trabalhando na melhoria de energia para você.


Para esclarecer qualquer dúvida sobre este assunto, entre em
contato conosco.

Atenciosamente,
Luz Local

1. Quem enviou a correspondência? A quem ela foi enviada?


2. O que o remetente pretendia informar?

7º ano 9
3. E se o remetente, ao contrário de enviar uma correspondência, tivesse decidido telefonar para o
morador? Que inconvenientes haveria nessa escolha?
4. E se o remetente, com o objetivo de informar os moradores, tivesse colocado um aviso na rua
(num poste ou num estabelecimento comercial)? Que inconvenientes haveria nessa escolha?
5. Por que você acha que o remetente escolheu enviar uma correspondência?
6. Você saberia dizer que forma textual foi utilizada nessa correspondência?
7. Suponha que você queira contar a alguém de casa que vai faltar energia elétrica durante algumas
horas em determinado dia. Como você faria isso?
8. Que outra forma textual você poderia usar?

GÊNERO TEXTUAL
Você reparou que sempre que nos comunicamos por meio da linguagem ver-
bal usamos certo gênero de texto? Nossos textos, sempre que se concretizam,
aparecem em determinado gênero. A conversa familiar é um gênero de texto; o
aviso também.
Vamos analisar outras situações.
Quando você quer que uma empresa tome conhecimento de sua qualifi-
cação para desempenhar uma função e sua experiência profissional naquela
área, o que você faz? De modo geral, a pessoa cria um currículo. Às vezes, uma
empresa pede que algumas pessoas, pelas quais ela se interessou em ter como
funcionárias, compareçam a sua sede. A finalidade é saber pessoalmente de
alguns outros detalhes e tirar dúvidas sobre qual delas é a mais indicada para
preencher a vaga. Esse procedimento – que é uma forma de texto – é conhecido
como entrevista.
O currículo é um texto escrito; a entrevista de emprego é um texto oral.
Vamos em frente: você às vezes registra num papel o conjunto de produtos
que precisa comprar no supermercado, certo? Às vezes um órgão reconhecido
pelo estado comprova em uma folha de papel um evento, como o nascimento ou
a morte de alguém. No primeiro caso, se faz uso de um gênero de texto chamado
lista; no segundo, ele se chama certidão (de nascimento ou de óbito).
Ambos os gêneros são constituídos por textos escritos, mas o primeiro é
informal e o segundo, formal. A certidão segue um modelo rígido; o currículo
profissional nem tanto. Um currículo não tende a explorar a criatividade de seu
autor, mas pense em uma telenovela a que já assistiu. Claro que é possível reco-
nhecer traços comuns a várias delas, tanto que você chama todas de “telenovela”,
mas cada uma é única, fruto do trabalho criativo de seu autor – diferente, por-
tanto, da certidão e do currículo no que diz respeito à liberdade de composição.
E a telenovela? É um gênero oral ou escrito? Ela é concebida em meio gráfico,
mas concretizada em meio oral.
Em resumo: um gênero pode ser oral ou escrito, mais ou menos formal, mais
pessoal ou mais público, de formato mais livre ou mais fixo, pode ser literário ou não.
Os gêneros textuais contribuem para organizar as atividades humanas. Por

10 Língua Portuguesa
exemplo, os vencimentos de um funcionário são declarados em um gênero tex-
tual denominado holerite, que se torna um documento requisitado em algumas
operações, como a abertura de um crediário, de uma conta bancária. Há entida-
des que dão informações por meio de chat ou bate-papo virtual. Também nesse
caso pode-se dizer que o gênero chat organiza as atividades humanas.
A essa altura, você já deve ter concluído que gêneros novos podem aparecer.
Isso mesmo. Anos atrás, não havia o gênero e-mail, o gênero blog...

APLICAR CONHECIMENTOS I

1. Considere a seguinte situação:


Maria Cristina Almeida mora na rua dos Pássaros, uma tranquila rua sem saída
no Jardim Felicidade. Sua casa é a de número 20. Ela sabe de cor seu CEP: 01122-333.
Maria Cristina vai enviar uma carta para a prima, Consuelo Furtado de Almeida.
O destino da carta é o apartamento 31 do prédio de número 378, que fica
em uma esquina da avenida Rocha Campos. Foi preciso que Consuelo consultasse
um guia de endereços para saber o CEP dessa rua, mas não foi difícil encontrá-lo. Lá
estava: 03322-111.
A carta não vai sair do estado de São Paulo, porém vai viajar da cidade de Rio
Manso para a cidade de São Manuel. (Apenas o nome do estado de São Paulo é real.
Todos os outros nomes – de cidades, ruas e pessoas – são fictícios).
a) A correspondência será enviada em um envelope. O endereço postal é um gênero textual.
Produza esse gênero na ilustração de envelope que segue. Complete a frente com os dados do
destinatário e o verso com os do remetente.

O endereço postal é formado pelo nome, logradouro, bairro, CEP, cidade, estado e país. A indicação
do bairro não é obrigatória; a do país só é necessária se a correspondência for internacional.

Ilustração digital: Planeta Terra Design


Selo

7º ano 11
Ilustração digital: Planeta Terra Design
b) Por que é importante manter determinada ordem e distribuição dos dados no envelope, para
produzir o gênero endereço postal?

c) De que gênero de carta trata-se a carta de Maria Cristina?

d) Mencione outros gêneros de carta que você conhece.

2. Leia o texto abaixo, do escritor Luis Fernando Verissimo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo.

Perdedor, vencedor
O perdedor cumprimentou o vencedor. Era uma raquete importada, último tipo.
Apertaram-se as mãos por cima da rede. Depois, Muito melhor do que a do perdedor. O vence-
foram para o vestiário, lado a lado. No vestiário, dor também sorriu, mas não disse nada. Come-
enquanto tiravam a roupa, o perdedor apontou çou a descalçar o tênis. O perdedor comentou,
para a raquete do outro e comentou, sorrindo: ainda sorrindo:
– Também com essa raquete... – Também, com esses tênis...

12 Língua Portuguesa
O vencedor quieto. Também sorrindo. Os É a pessoa. É a aplicação, a vontade de ven-
dois ficaram nus e entraram no chuveiro. O per- cer, a atitude. E você não tem uma atitude de
dedor examinou o vencedor e comentou: vencedor.
– Também, com esse físico... Prefere atribuir sua derrota à minha raquete,
O vencedor perdeu a paciência. aos meus tênis, ao meu físico, a tudo menos a
– Olha aqui – disse. – Você poderia ter um você mesmo. Se parasse de admirar tudo que é
físico igual ao meu, se se cuidasse. Se perdes- meu e mudasse de atitude, você também pode-
se essa barriga. Você tem dinheiro, senão não ria ser um vencedor, apesar dessa barriga.
seria sócio deste clube. Pode comprar uma ra- O perdedor ficou em silêncio por alguns se-
quete igual à minha e tênis melhores do que os gundos, depois disse:
meus. Mas sabe de uma coisa? Não é equipa- – Também, com essa linha de raciocínio...
mento que ganha jogo. O Estado de S. Paulo, 21 mar. 2010, p. D16.

a) Assinale a situação que representa aquela em que o vencedor e o perdedor do texto se encontraram.

( ) ( ) ( )

Machiavel/Dreamstime.com

Eagleflying/Dreamstime.com
Alessandro Rizzolli/Dreamstime.com

b) O vencedor consegue convencer o perdedor de que a vitória estava ao alcance dele também?
Explique.
c) O que se deve entender por “linha de raciocínio”? Ela pode ajudar alguém a vencer uma par-
tida? Explique.
d) O objetivo do texto ao abordar o tema ali presente é:
( ) apresentar em detalhes o que leva alguém a vencer todos os jogos.
( ) divertir o leitor por meio de uma história.
( ) convencer o leitor a acreditar em si próprio, por meio de argumentos objetivos.
( ) receitar estratégias para o leitor conquistar autoconfiança.
e) Escreva V se a declaração for verdadeira e F se for falsa.
( ) O texto apresentado constitui um gênero literário.
( ) O texto é um exemplo de gênero oral.
( ) O texto é mais formal que informal.
( ) O texto segue um modelo bastante rígido de composição.
f) Você sabe a que gênero da esfera jornalística pertence o texto de Luis Fernando Verissimo? Se
sim, responda.

7º ano 13
g) Que outros gêneros presentes na esfera jornalística você pode citar?
h) Suponha que um leitor de jornal soubesse que, em determinado caderno e página, sempre
é publicado um texto do mesmo gênero que “Perdedor, vencedor”. Você acha que ele vai ter
determinadas expectativas antes mesmo de começar a ler? Justifique sua resposta.

LER PARA CONHECER OS GÊNEROS E CONHECER


OS GÊNEROS PARA LER
A palavra “texto” significa “tecido”, precisamente, “aquilo que foi tecido”. A re-
lação está justamente na ideia de fios que são entrelaçados, tramados, enredados,
para criar uma peça. Quando olhamos para o produto final – seja o tecido, seja o
texto –, nem percebemos os vários fios; enxergamos uma unidade.
Pois bem, para compreender essa unidade, ou seja, o texto, mobilizamos al-
guns conhecimentos à nossa disposição. Um deles tem a ver com a familiaridade
que temos com o gênero daquele texto. Vamos ver como isso acontece.
Por que todos que escrevem uma notícia de jornal fazem mais ou menos a mes-
ma coisa? Ora, porque os redatores de notícias têm o mesmo objetivo – apresentar
fatos importantes que aconteceram – e é natural que acabem usando as mesmas es-
tratégias para atingir seu propósito. No caso da notícia, por exemplo, as estratégias
seriam ouvir todos os lados envolvidos, citar nomes, relatar com objetividade.
E qual é a importância desse fato? Isso exerce influência sobre o texto, pois dei-
xa suas marcas sobre ele, o que naturalmente tem implicações na leitura a ser feita.
Vamos passar para outra etapa: o que faz o leitor de notícia? Ele pode usar sempre
as mesmas estratégias para ler notícias, pois sabe o que pode esperar desse gênero. O
que acontece é que, aos poucos, o jeito de produzir um gênero (notícia, por exem-
plo) vai se cristalizando na sociedade. Aí o gênero se torna um objeto que as pessoas
podem aprender a ler e a produzir, tanto os leitores comuns, os estudantes na escola,
como os estudantes de jornalismo. Cada um no seu nível de profundidade de leitura.
É claro que, se as necessidades da sociedade em relação às notícias mudarem,
o gênero notícia vai passar por mudanças.
Neste momento, é importante que você saiba que a consciência de estar diante
de determinado gênero, e não de outro, já prepara o leitor para determinada rea-
ção, que abre caminho para a compreensão.
Outro exemplo: se o leitor lê um capítulo de livro de Ciências sobre a fase
da puberdade, ele se prepara para obter informações técnicas e sabe que ali as
palavras têm um sentido bem preciso. Se lê um conto em que a personagem vive
um episódio pessoal relativo às mudanças dessa fase, o leitor está aberto para se
emocionar, para viver imaginariamente uma experiência. Ele sabe que as palavras
ali podem significar mais de uma coisa ao mesmo tempo e instigam sua sensibili-
dade. Enfim, sabendo diante de que gênero de texto está, o leitor pode pressupor
o que vai “colher”. Isso o ajuda muito na interpretação de textos.

14 Língua Portuguesa
Mais uma observação: é difícil (praticamente impossível) conhecer e dominar
todos os gêneros que existem. É mais fácil dominar aqueles que circulam nas es-
feras sociais das quais participamos.

APLICAR CONHECIMENTOS II

1. Considere a seguinte situação: uma pessoa deseja se informar sobre a dengue.


a) Que conteúdos ela pode encontrar a esse respeito no capítulo de um livro de Ciências?
b) E em uma notícia de jornal?
2. Examine o folheto a seguir.

Ilustrações digitais: Llinares


Jogue no lixo todo
Coloque o lixo em Mantenha o saco de lixo
objeto que possa
sacos plásticos e bem fechado e fora do
acumular água,
mantenha a lixeira alcance de animais até
Lixos bem fechada.
como embalagens
que ele seja recolhido
usadas, potes,
Não jogue lixo em pelo serviço de limpeza
latas, copos,
terrenos baldios. urbana.
garrafas vazias etc.
Se você tiver vasos
Remova a água de plantas aquáticas,
Encha de areia até a acumulada no troque a água e lave o
Plantas borda os pratinhos pratinho da planta. vaso, principalmente por
e jardins dos vasos de planta. Lave-o com escova, dentro, com escova, água
água e sabão. e sabão pelo menos uma
vez por semana.

Remova folhas,
Não deixe a água da galhos e tudo que Mantenha a caixa-d’água
Caixas-d’água,
chuva acumulada possa impedir a sempre fechada com
calha e lajes sobre a laje. água de correr pelas tampa adequada.
calhas.

Lave principalmente
Lave semanalmente
por dentro com escova
Tonéis e Mantenha bem
por dentro com
e sabão os utensílios
escova e sabão os
depósitos tampados tonéis e
tanques utilizados
usados para guardar
de água barris com água. água em casa, como
para armazenar
jarras, garrafas, potes,
água.
baldes etc.

a) De modo geral, qual é o conteúdo desse folheto?


b) Em um capítulo de um livro de Ciências, esse conteúdo pode ser apresentado apenas por meio
da linguagem verbal em um texto escrito em parágrafos, sem que se utilizem imagens. Por que
essa forma de texto não é adequada ao gênero folheto?

A LÍNGUA E O GÊNERO

Tanto os gêneros orais como os escritos podem ser mais ou menos formais.
Quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais; porém,
quando escrevemos um requerimento para a secretaria da escola, devemos ser
mais formais. Algo semelhante ocorre na manifestação oral da língua. Fornecer

7º ano 15
informações a uma autoridade e conversar com as pessoas da família são situa-
ções que também ilustram, respectivamente, maior e menor grau de formalidade.
Isso quer dizer que, em situações formais, tanto oralmente como por escrito, empre-
gamos a norma culta, que é como em geral se denomina a variedade de língua apren-
dida na escola ou assimilada nos ambientes de pessoas que cultivam o hábito da leitura.
A formalidade e a informalidade têm a ver com o gênero que estamos usando,
mas também com a situação, com as características pessoais de quem está envolvi-
do. A entrevista ao vivo, por exemplo, é um gênero que pode se manifestar com mais
ou menos formalidade, dependendo do entrevistado e do contexto da entrevista.
Esses dois registros (formal e informal) fazem parte da variação que a lín-
gua apresenta de acordo com a situação em que é usada. A isso se chama va-
riação situacional.

OUTRAS VARIAÇÕES DA LÍNGUA


Os falantes de português estão em espaços diferentes, e há uma ligação entre
a região de origem e a língua que se usa. Em certas regiões a palavra morango é
pronunciada “murangu”; em outras, “morangu”. Em Minas Gerais e no Nordeste
se usa a palavra muriçoca; em alguns estados do Sudeste, como São Paulo, para o
mesmo inseto, usa-se pernilongo. Ocorrências como essas são consequências da
variação regional ou geográfica que a língua sofre.
Se considerarmos determinada região, com falantes vindos de camadas so-
ciais diferentes, podemos encontrar outras diferenças. Estamos nos referindo à
variedade social. Falantes escolarizados (que empregam o chamado português
culto) e não escolarizados (que empregam o que se denomina português popu-
lar) constituem grupos que apresentam alguns traços específicos.
Esses traços aparecem na pronúncia, na concordância, na escolha de alguns pro-
nomes e em outras ocorrências. Por exemplo, o que se registra por escrito como lh
em orelha é pronunciado, no português popular, como uma espécie de “i”. No por-
tuguês culto, a pronúncia se dá com o dorso da língua encostando no céu da boca.
Em algumas regiões, no português popular, para indicar a pessoa com quem
se fala, a preferência é o pronome lhe: “eu lhe conheço” é uma forma mais usada
que “eu o conheço”. Na variedade popular também é mais comum simplificar as
marcas de plural (“as criança”), enquanto na variedade culta os dois termos ficam
no plural (“as crianças”).
Examine estes exemplos:
t a pronúncia “falamu” para o verbo que se grafa falamos;
t a pronúncia “óclus” em vez de “óculus”, quando se grafa óculos;
t a construção “Só sobrou dois pote”, em lugar de “Só sobraram dois potes”;
t a construção “Não teve aula”, em lugar de “Não houve aula”.
Embora os usos acima possam ser inicialmente associados à variedade
popular, em certas ocasiões eles também são constatados em falantes da va-
riedade culta.

16 Língua Portuguesa
Como se vê, em algumas ocorrências, a fronteira na variedade social não é rí-
gida. Além disso, não é só no critério socioeconômico que as diferenças se fazem
sentir. Elas também podem se dar quanto à faixa etária e ao sexo, por exemplo.
Em outras palavras: jovens não falam como indivíduos da terceira idade; homens
nem sempre usam o mesmo vocabulário que as mulheres.

APLICAR CONHECIMENTOS III

1. Os habitantes de Florianópolis são conhecidos por uma maneira típica de falar. Leia alguns exem-
plos dessa variedade linguística.
t Minha mãe tem sono minha mãe.
t A sopa tá quente a sopa.
t Quem fez isso quem?
t Quando começa a festa quando?
a) O que caracteriza a construção de frases nesses quatro exemplos?
b) Assinale o tipo de variação que foi exemplificada.

( ) Situacional ( ) Social ( ) Geográfica


c) Como as frases acima seriam construídas na variedade usada em sua região?
2. O trecho abaixo foi extraído de um romance. Leia-o.

1 − Assó, a gente faz o cerco. Não tem caô, maluco! Confia não? Tô aqui, mermão.
Limpeza!
A voz da fome falando grosso. Quase gritando. Eu tenho medo. Colo o corpo à
parede, sob a marquise. Puxo o papelão pra cobrir as costas. Falta papel. Merda, catei
5 a caixa maior. Não dá pra nada. Vou morrer de frio.
[...]
− Sai dessa, mermão!
A voz da fome sempre devolve meus pés ao chão, mas não quero escutá-la.
Ainda guardo na memória a última vez que lhe dei ouvidos. Não faz tanto tempo
10 assim, foi na semana passada. Começou como agora, falando, falando, e, com a fala, o
desespero dando nó nas tripas. A fome, quando assume o comando, é assim: mistura
razão e sentimento, não separa anjo de arcanjo, como a vó me ensinou. Daí, não
pensei duas vezes. Vi de longe o casal vindo pelo canto da praça. [...]
[...] Tudo parecia a favor. Olhei em volta e me preparei para o cerco, geralmente
15 feito por quatro ou cinco moleques. Mas, daquela vez, decidi fazer a limpa sozinho.
[...] Cerquei o casal [...]. O cara sorriu e encarou. Encarou feio. Do alto de meu
metro e dez de altura, medrei diante dele. O cara me socou de jeito.
GLOSSÁRIO
[...]
Caô (gíria): problema, encrenca; menti-
Acordei no sufoco, com um monte de gente sobre mim, sem ra contada com intenção de enganar.
20 ninguém pra dar uma força, um socorro. [...] Marquise: cobertura na parte externa
de um edifício que serve de abrigo.
TEOBALDO, Délcio. Pivetim. São Paulo: Edições SM, 2009. p. 7-10.

7º ano 17
a) O narrador é uma personagem da história. Caracterize-a com base no que você leu.
b) Nesse trecho, a fome é personificada, isto é, ela é representada como se fosse uma pessoa. Em
que trechos isso pode ser comprovado?
c) O que a fome sugere à personagem? Por que ela reluta em seguir a sugestão da fome?
d) A personificação da morte é um recurso que o autor do romance usou para representar a rea-
lidade. Que ocorrência possível na realidade esse recurso está representando?
e) O narrador emprega termos que são próprios de uma variedade informal. Cite quatro dessas
ocorrências.
f) No trecho “não quero escutá-la” (linha 8), o narrador emprega uma variedade formal ou in-
formal? Como é comum construir essa frase na outra variedade?
g) Na maior parte do texto, o narrador emprega uma variedade formal ou informal? E a fome?
h) A fala da fome é característica de um grupo social. Qual? Cite quatro expressões que caracte-
rizem mais fortemente esse grupo (mesmo não sendo exclusivas dele).
i) Pense em grupo social bem definido. Pode ser pela idade, pelo sexo, pela faixa socioeconômi-
ca, pela ocupação profissional. Dê exemplo de uma ou duas falas que permitiriam identificar
esse grupo.
j) Releia estas expressões usadas pela fome:
t Tô.
t Não tem [algo].
t Confia não?
– As duas primeiras são exemplos de uma variação situacional que a língua manifesta: o regis-
tro informal. Quais as formas correspondentes no registro formal?
– A terceira é exemplo de uma variedade regional. Como ela seria formulada em outra varie-
dade regional?
k) As expressões “mermão” e “assó” são maneiras de representar, na escrita, como às vezes pro-
nunciamos certas expressões na fala espontânea.
– Como essas expressões seriam normalmente escritas?
– Qual é a provável razão para elas terem sido grafadas da forma que aparece no romance?
3. No trecho, releia a parte em que o narrador conta sobre sua tentativa de assalto. A apresentação
que ele faz dos fatos é adequada ao gênero ficcional romance. Se fossem relatados no gênero no-
tícia de jornal, o texto seria diferente.
Escreva um pequeno texto adequado ao gênero da esfera jornalística.

REFLETINDO SOBRE A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA


Não há um único jeito de falar uma língua. A língua portuguesa (como ou-
tras) manifesta-se em muitas variedades. No fundo, não falamos uma língua, mas
uma (ou mais) variedades de uma língua.

18 Língua Portuguesa
É comum algumas pessoas associarem certas variedades ao jeito “certo” de
falar e outras, ao jeito “errado” de falar. A primeira observação quanto a isso é
que não existe o “certo” ou o “errado”. Se a variedade é eficiente para estabelecer
comunicação e é reconhecida pelos falantes que a usam, então ela é válida.
Veja a analogia que se pode fazer a partir das ilustrações a seguir.
1. 2.

Ilustrações digitais: Llinares


Há algo errado com as peças da ilustração 1? E com as peças da ilustração 2?
Possivelmente você pensou que não; nos dois casos, elas cumprem o propósito
básico de cobrir e proteger o corpo.
Mas seria estranho usar as peças da primeira ilustração para ir a uma festa
de formatura, certo? Será, então, que podemos dizer que elas são erradas? Não é
bem isso. Segundo nossos costumes, elas são inadequadas para a situação “festa
de formatura”. Inversamente, elas são perfeitas para a praia.
Vamos voltar à questão da linguagem. Também aqui o que é preciso levar em
conta é a questão da adequação.
Há situações e gêneros formais que pressupõem o emprego do português cul-
to, em vez do português que usamos espontaneamente. Por um lado, o adequa-
do (poderíamos dizer certo) nesse caso é usar a variedade culta. Por outro lado,
interagindo com pessoas do nosso círculo de relacionamento e querendo sugerir
proximidade, o mais adequado (ou o mais certo) é ser mais espontâneo. Nesses
casos, acabamos empregando algumas formas do português popular.
Você percebeu que a variedade popular pode, então, ser “certa”? É isso! Uma
variedade não é, em si, “errada” nem “certa”. Dessa forma, podemos afirmar que
só fala errado quem não consegue se comunicar.
Se pensarmos na variação geográfica, classificar como certo ou errado é ainda
mais absurdo. Nenhuma comunidade falante de português é dona da língua por-
tuguesa e pode ditar como se deve falar. O que chamamos de sotaque faz parte da
natureza da língua.
A língua muda com o tempo e varia num dado momento. O que há por trás
do prestígio de certas variedades não é algo de natureza intrinsecamente linguís-
tica. Ou seja, uma variedade não é naturalmente superior a outra. Por trás do
prestígio de certas variedades, há algo que é de natureza social.

7º ano 19
O trecho transcrito a seguir vai ajudar a observar isso. Ele foi escrito por estu-
diosos do português brasileiro: o professor Ataliba Castilho e a professora Vanda
Maria Elias.

[...] Durante o Brasil Colônia, o português padrão brasileiro coincidia com o


português padrão lusitano. Até aquela época não havia diferenças entre o português
de aquém e de além-mar.
Com a independência e a ascensão dos brasileiros a cargos governamentais,
configurou-se outra variedade de prestígio, e com isso o português culto do Rio de
Janeiro, capital da Colônia, e depois do Império e da República, foi considerado um
novo padrão, passando a ser utilizado nos materiais didáticos como a modalidade a
ser adotada por quem quer que buscasse prestígio linguístico em sua comunidade.
Com a mudança da capital para Brasília e o desenvolvimento de outras regiões, passou
a ocorrer no Brasil uma situação de policentrismo cultural, estabelecendo-se mais de
um português culto. Ou seja, também a famosa norma culta varia em nosso país.
CASTILHO, Ataliba T. de; ELIAS, Vanda Maria. Pequena gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2012. p. 460.

Você percebeu as razões pelas quais uma variedade torna-se uma variedade
de prestígio?

A EXISTÊNCIA DE UMA MODALIDADE QUE É REFERÊNCIA


Se, como já foi dito, todas as variedades funcionam com eficiência, então
qualquer uma poderia ter o status de padrão, modelo. O que garante essa pos-
sibilidade a uma variedade e não a outra são critérios externos à língua, como o
prestígio que seus falantes têm na sociedade.
A variedade usada pelos falantes socialmente prestigiados é a que vai se tornar
referência para a modalidade escrita; é a que vai se tornar oficial. Isso quer dizer
que é nela que vão ser enunciadas leis pelo Estado, é nessa modalidade que os
estudiosos vão publicar seus trabalhos, que a imprensa vai divulgar os fatos.
Naturalmente o funcionamento dessa variedade vai precisar ser aprendido
por todos – que, todavia, não vão deixar de usar sua variedade de origem e outras
variedades situacionais. Essa aprendizagem pode se dar em meio a diversas cir-
cunstâncias. Uma delas é, sem dúvida, o contexto escolar.
Você já se perguntou por que é importante haver uma variedade que seja refe-
rência geral? Entre outras coisas, para favorecer a comunicação.
De fato existem muitas variedades, mas convém que todos conheçam uma
e a tenham como referência. Isso não significa que as outras variedades deverão
ser avaliadas de acordo com os critérios daquela que é a referência. Isso não pode
acontecer.
Imagine avaliar que bois são animais incompletos, porque não voam! Voar é
traço de outra categoria de animal.
Em se tratando de linguagem, a língua que um grupo fala (e que é expressa
por uma variedade) ajuda a compor a identidade desse grupo. Desprezá-la é uma
atitude de preconceito linguístico.

20 Língua Portuguesa
Por questões individuais, podemos ter simpatia pelo sotaque de um lugar
e antipatia pelo de outro; podemos achar pitoresco o vocabulário de um grupo e
seu jeito de construir frases – ou irritante. Do mesmo modo que preferimos um
ritmo musical a outro, um estilo de roupa a outro. Mas, se a situação é a seleção de
alguém para um emprego, por exemplo, não podemos avaliar um indivíduo pelo
fato de ele usar determinada variedade geográfica.
Quanto à variedade culta do português, já vimos que ela é utilizada em de-
terminados gêneros, por isso é importante conhecê-la, para podermos ter acesso
ao que é produzido nessa variedade e para produzirmos textos que a exigem. O
domínio da variedade culta por parte dos falantes é gradual e vem por diversos
caminhos: pela leitura de gêneros que a empregam, pelo contato direto com falan-
tes cultos, pelo ensino formal na escola.

APLICAR CONHECIMENTOS IV

O trecho que você vai ler foi escrito por um importante estudioso da lingua-
gem, o professor Sírio Possenti. Ele foi publicado em uma revista mensal voltada
à língua portuguesa.

Palavras congeladas
[...]
No final de uma conferência em Campo Grande, há anos, um dos ouvintes
forneceu um dado do português local. Tratava-se da fala de um tropeiro, que,
perguntado por que se queixava de pobreza, se tinha uma dúzia de mulas, respondeu:
“Pois é, a gente não pode pissuí, mas a gente pissói”.
[...] Várias formas do dialeto caipira, longe de serem “corrupções” atuais da
língua culta, são formas da antiga língua culta, conservadas no dialeto. Foi a língua
urbana que mudou, e formas que eram corretas nos séculos XV e XVI – que a escrita
[...] documenta – são hoje associadas aos caipiras, pois só eles ainda as usam. Muitos
supõem que são deturpações de formas corretas atuais, mas são as
GLOSSÁRIO
boas e velhas formas mantidas como tais.
Caipira: habitante do interior das
regiões Sudeste e Centro-Oeste, espe- O que ocorreu é que perderam prestígio. O leitor estranhará,
cialmente São Paulo.
mas entre formas caipiras que são do século XVI estão acupá,
Corrupção: deterioração, perda das
características originais de algo. agardecê, dereito, escuitá, fruita, inxúito. E outras do mesmo calibre,
Dialeto: variedade geográfica com como “alevantar” [...].
menor prestígio que o idioma oficial. Um olhar histórico mostra que muitos juízos relativos a línguas
Tropeiro: condutor de gado.
e falantes podem ser apenas falsos.
Revista Língua Portuguesa, n. 80, jun. 2012. Disponível em: <http://revistalingua.uol.com.br/textos/80/palavras-congeladas-260784-1.asp>. Acesso em: 16 ago. 2012.

1. Releia a frase atribuída ao tropeiro, no primeiro parágrafo. Reescreva-a, substituindo as palavras


grifadas por seus equivalentes na variedade culta do português atual.
2. Quando se afirma que certa palavra é uma corrupção de outra, o julgamento que se faz dessa pa-
lavra é positivo ou negativo? Explique.

7º ano 21
3. A forma “pissói”, usada pelo tropeiro, costuma ser considerada uma variante indevida da forma
culta atual. O que o autor do texto diz sobre isso?
4. O texto abaixo apresenta, com outras palavras, a explicação que o professor Sírio dá para a fala do
tropeiro. Só que ele está incompleto. Para completá-lo, escolha uma das palavras entre colchetes.
No interior de São Paulo, no século XVI, usava-se uma variedade do português conside-
rada [popular / culta]. Certas palavras dessa variedade não sofreram
mudança e se conservaram até hoje. Já na língua falada no centro urbano, essas palavras so-
freram alterações.
Ocorre que a variedade [popular / culta] falada no interior
[ganhou / perdeu] prestígio, e a falada no centro urbano [ganhou /
perdeu] projeção.
Hoje, a variedade que é referência é aquela empregada no centro urbano, por isso fica pare-
cendo que as palavras que não estão de acordo com essa variedade são erradas.
5. De acordo com o texto, em certas regiões as palavras a seguir sofreram mudanças e assumiram
novas formas. Escreva essas novas formas.
a) acupá c) dereito e) fruita g) alevantar
b) agardecê d) escuitá f) inxúito

6. Discuta com seus colegas e professor: você já teve uma maneira de falar apontada por alguém
como “errada”? Qual foi a sua reação?

PLANEJANDO A FALA

No seu dia a dia você emprega diversos gêneros orais. Alguns exigem mais formalidade e,
nesses casos, a fala precisa ser refletida, monitorada.
Uma entrevista, por exemplo, pode ser mais ou menos formal, conforme as características do
entrevistado e a situação.
Você vai inicialmente analisar uma fala de entrevista e depois planejar a sua fala para conceder
uma entrevista.

PARTE 1 – ANÁLISE

O trecho que será analisado é o de uma entrevista realizada com a atriz Regina Casé no
programa Roda Viva, da TV Cultura, em outubro de 1988. Paula Dipp é quem faz as perguntas
nessa parte.
Primeiro, assista a um trecho do programa que está disponível em www.rodaviva.fapesp.br/
materia/71/entrevistados/regina_case_1988.htm.
Em seguida, leia a transcrição feita dessa entrevista.

22 Língua Portuguesa
Paula Dipp: Regina, vou mudar completamente de assunto. Mas eu estou
superimpressionada com a sua beleza. Eu quero falar um pouco da sua beleza. Você
não tem uma beleza clássica, se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: “Ela
não tem aquele narizinho, aquela boquinha”. Mas você tem uma coisa muito forte.
Como é que você lidou com isso? Com a não beleza e a beleza na sua adolescência?
Quando você começou a ser atriz, quando você era pequenininha? Você tinha o dente
um pouco para a frente, o nariz assim um pouco assim ou assado? Como é que é isso
pra você?
Regina Casé: Eu não era feia quando eu era pequena, nem no colégio, nem nada
[risos]. Eu sempre arrumei namorado.  Tive namorados maravilhosos e lindos.  Até
hoje, entendeu? Superlegal, nunca foi aquela infeliz que ninguém tira para dançar,
nem que alguém acha feia ou no colégio. Eu só fiquei feia quando eu virei artista e, aí,
eu não era a Bruna [Lombardi], não era a Maitê [Proença] e tal. Não tinha aquele olho
azul, não era loura. Principalmente loura de olho azul, é o que complica mais, né? A
não ser que você seja a Sônia Braga para superar o fato de você não ser loura de olho
azul no Brasil.
Paula Dipp: Mas você é a musa, né, musa de Caetano [Veloso] e tudo?
Regina Casé: Aí acho que veem outros lados, entendeu?  Todo mundo me achava
legal, eu também me achava legal, entendeu? Bonita, gostosa [risos]. Aí começou
sair um monte de matéria assim: feiosa, magricela, dentuça.  Aí vai saindo tanto,
tanto, tanto, que todo mundo fica achando que você é assim, mas, apesar disso, ela
é tão engraçada, tão inteligente! [risos] Ela supera isso tudo e não sei o que e tal.
Aí, eu fiquei ocupando esse papel, porque não tinha muito outra... Não ia escrever
cartas para os jornais: “Gente, vamos reparar, eu tenho um lado legal, tenho meu
charme, no fundo eu sou sexy”! [risos] Não dava para eu fazer uma campanha para
ficar bonita. Mas, quer dizer, eu também não era bonita quando eu era pequena, isso
é verdade. Eu era muito magra, tinha aquele “joelho de biafra” que faz assim [une os
joelhos]. Mas logo que eu cresci assim, fiquei adolescente, era legal. Não era bonita
nem feia, era normal, entendeu? [...]
Disponível em: <www.rodaviva.fapesp.br/materia/71/entrevistados/regina_case_1988.htm>. Acesso em: 16 ago. 2012.

Debata com seus colegas e professor as questões a seguir.

1. Se foi possível assistir ao vídeo, foi mais fácil acompanhar a entrevista lendo a transcrição ou as-
sistindo ao vídeo?
2. Regina Casé é eficiente ao expressar um ponto de vista. Tanto que o público consegue relatar o
que ela disse sobre a própria beleza. Relate brevemente as principais ideias que a entrevistada
expôs em suas respostas.
Agora, leia algumas observações sobre o texto oral produzido no gênero entrevista.
a) Tanto a entrevistada como a entrevistadora produziram seus textos à medida que eles eram
apresentados, ou seja, eles não foram previamente escritos para serem lidos. Devido a isso,
muitas reformulações ficaram aparentes. Exemplo:
t [...] se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: “Ela não tem aquele narizinho,
aquela boquinha”. 

7º ano 23
Do modo como começou, a frase deveria ter terminado assim:
t [...] se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: “Ela não tem aquele narizinho,
aquela boquinha”. 
O final que a frase recebeu seria coerente se ela tivesse começado de outro jeito:
t [...] se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: “Ela não tem aquele narizinho,
aquela boquinha”. 
b) Algumas frases não explicitavam detalhes que estavam implícitos. Exemplo:
t Eu não era feia quando eu era pequena, nem no colégio, nem nada [risos].
Essa frase indica:
t Eu não era feia quando eu era pequena, nem quando já estava no colégio, nem nada quando
fiquei adulta.
c) Quando falamos, empregamos expressões próprias da oralidade. Exemplos:
t [...] não era a Maitê [Proença] e tal. 
t Ela supera isso tudo e não sei o que e tal.
Essas ocorrências deram à entrevista um caráter mais espontâneo, informal, mas, conforme
concluímos, não comprometeram o que se pretendia dizer. A variedade linguística usada era ade-
quada ao gênero e ao efeito desejado. Não há frases “erradas”!
Se os falantes desejassem criar um efeito de mais formalidade, teriam outra atitude. Eles iriam
monitorar sua fala. Releia a transcrição, observando o que provavelmente falariam de outro modo.
Paula Dipp: Regina, vou mudar completamente de assunto. Mas eu estou
superimpressionada com a sua beleza. Eu quero falar um pouco da sua beleza. Você
não tem uma beleza clássica, se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: "Ela
não tem aquele narizinho, aquela boquinha". Mas você tem uma coisa muito forte.
Como é que você lidou com isso? Com a não beleza e a beleza na sua adolescência?
Quando você começou a ser atriz, quando você era pequenininha? Você tinha o dente
um pouco para a frente, o nariz assim um pouco assim ou assado? Como é que é isso
pra você?
Regina Casé: Eu não era feia quando eu era pequena, nem quando já estava no colégio,
nem nada quando fiquei adulta [risos]. Eu sempre arrumei namorado. Tive namorados
maravilhosos e lindos. Até hoje, entendeu?. Superlegal, nunca foi fui aquela infeliz
que ninguém tira para dançar, nem que alguém acha feia ou no colégio. Eu só fiquei
feia quando eu virei artista e, aí, como eu não era a Bruna [Lombardi], não era a Maitê
[Proença] e tal., não tinha aquele olho azul, não era loura. ... Principalmente não ser
loura de olho azul, é o que complica mais, né? A não ser que você seja a Sônia Braga
para superar o fato de você não ser loura de olho azul no Brasil.
Paula Dipp: Mas você é a musa, né, musa de Caetano [Veloso] e tudo?
Regina Casé: Aí acho que veem outros lados, entendeu? Todo mundo me achava legal,
eu também me achava legal, entendeu?. Bonita, gostosa [risos]. Aí começou a sair um
monte de matéria assim: feiosa, magricela, dentuça. Aí vai saindo tanto, tanto, tanto,
que todo mundo fica achando que você é assim, mas as pessoas pensavam: “Apesar
disso, ela é tão engraçada, tão inteligente! [risos] Ela supera isso tudo” e não sei o
que e tal. Aí, eu fiquei ocupando esse papel, porque não tinha muito outra coisa a
fazer... Não ia escrever cartas para os jornais: "Gente, vamos reparar, eu tenho um lado
legal, tenho meu charme, no fundo eu sou sexy"! [risos] Não dava para eu fazer uma

24 Língua Portuguesa
campanha para ficar bonita. Mas, quer dizer, eu também não era bonita quando eu era
pequena, isso é verdade. Eu era muito magra, tinha aquele “joelho de biafra” que faz
assim [une os joelhos]. Mas logo que eu cresci assim, fiquei adolescente, era legal. Não
era bonita nem feia, era normal, entendeu? [...]

PARTE 2 – PRODUÇÃO DE TEXTO ORAL

1. Reúna-se em um grupo de quatro alunos.


2. Suponha que todos estão sendo entrevistados, e a pergunta é:
Alguns setores da imprensa criam uma imagem muitas vezes estereotipada de uma pessoa pú-
blica. A Regina Casé contou isso numa entrevista – que ela se tornou feia (na opinião dos ou-
tros) depois que virou atriz, porque a imprensa sempre se referia a ela como “feiosa”, “magrice-
la”, “dentuça”. Por que você acha que acontece isso? Você acha que as pessoas acabam seguindo
um padrão estético que a imprensa e a opinião pública aprovam, para não ter de lidar com
certas classificações?
3. Cada aluno vai responder à questão no seu grupo, como se estivesse em um programa de entre-
vistas, e os colegas fossem a plateia.
4. O objetivo é que você expresse um ponto de vista consistente. Os colegas podem não concordar,
mas eles precisam ser capazes de relatar a alguém o que você disse, da mesma forma que você
conseguiu relatar o que disse a atriz Regina Casé.
5. Você pode escolher o grau de formalidade de sua entrevista, mas o conteúdo precisa ser exposto
com clareza.
6. No final, sorteiem ao menos dois alunos que vão repetir a resposta para toda a classe.
7. Avaliem em cada caso a clareza e o grau de formalidade de seus textos.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Textos O Brasil das placas


O autor viajou pelo país fotografando placas surpreendentes. Em algumas você pode perce-
ber que a comunicação também se dá fora da norma-padrão.
CAMARGO, José Eduardo; SOARES, L. O Brasil das placas. São Paulo: Panda Books, 2007.

Cultura
Essa crônica de Luis Fernando Verissimo explora a questão da adequação de uma variedade
linguística à situação de uso e ao gênero.
VERISSIMO, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 149-151.

Blog Blog do Sírio


O linguista Sírio Possenti apresenta semanalmente um artigo no Terra Magazine.
Disponível em: <http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog>. Acesso em: 22 out. 2012.

Música Inútil
A música mostra em que medida o desvio intencional da norma culta contribui para criar senti-
dos na canção.
Ultraje a rigor. Nós vamos invadir sua praia. Warner Music, 1985.

7º ano 25
Capítulo 2
LÍNGUA Contos muito populares
PORTUGUESA

O s contos estão presentes na vida das pessoas desde os tempos mais remotos.
Muito antes de serem escritos, eles já viajavam no tempo e no espaço.
O que existe nessas narrativas que as torna tão duradouras? Que elementos
dão forma a conteúdos tão variados, permitindo que eles conquistem públicos de
tantas épocas e lugares? É isso que você vai estudar neste capítulo.
Observe a imagem a seguir.

Lady Lever Art Gallery, National Museums Liverpool. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

John William Waterhouse, Decamerão, 1916. Óleo sobre tela, 101 × 159 cm. Lady Lever Art Gallery, Liverpool.

RODA DE CONVERSA

1. Você já contou ou ouviu histórias? Se sim, especifique como foi essa experiência.
2. Nas experiências que você apresentou (seja como ouvinte, seja como contador), qual era a inten-
ção de quem contava a história?
3. Você acha que o surgimento de novos meios de comunicação (livro, rádio, televisão, internet etc.)
interferiu na experiência de contar e ouvir histórias?

26 Língua Portuguesa
4. Você já encontrou por escrito histórias que são contadas há muito tempo por pessoas que não as
conheceram em livros? Dê alguns exemplos.

UM GÊNERO ANTIGO, UMA FUNÇÃO IMPORTANTE


Há muito tempo, nas civilizações mais variadas, os contos fazem parte do co-
tidiano das pessoas. A experiência de contar histórias está presente nas culturas
indígenas do Brasil, mas também a encontramos no Oriente Médio e na Ásia
Central, por exemplo. Nesses locais, era comum a presença de contadores de his-
tórias nas casas de chá. Eles narravam contos milenares, de origem indefinida,
para adultos e crianças. Vários desses contos resistiram ao tempo e são contados
até hoje em muitos lugares do mundo
Entre esses contos estão “A história dos dois irmãos” (Egito, aproximadamente
século XIV a.C.); as fábulas de Esopo (Grécia, aproximadamente século VI a.C.);
as histórias do Pantchatantra (Índia Antiga, aproximadamente século III a.C.); os
contos do livro O asno de ouro, de Lucius Apuleio (Roma, século II d.C.); os contos
de As mil e uma noites (da literatura árabe, séculos XIII-XVI d.C.).
Esses contos são considerados narrativas primordiais, isto é, que estão na ori-
gem, são as primeiras, as essenciais. Elas inspiraram grandes autores de muitas
épocas e lugares, que costumam “conversar” com elas nos textos que produzem,
isto é, buscam inspiração nessas narrativas primordiais ao criar seus textos.
Essa “conversa” acontece de muitas maneiras. Às vezes personagens antigos
são mencionados, às vezes alguns símbolos são retomados, às vezes a estrutura da
história antiga e até mesmo seu enredo se repetem.
Os contos tradicionais eram muito importantes para a formação dos futu-
ros adultos. A transmissão oral de uma geração a outra era fundamental, pois
os contos, com a sua linguagem figurada e repleta de simbologias, ajudavam as
pessoas a entender o que se passava a sua volta, a compreender seus questiona-
mentos, a aprender modos de agir, a assimilar valores. Enfim, todos aprendiam
com os contos.
Pode parecer, inicialmente, que hoje os contos tradicionais não têm mais a
mesma função que tinham antes. Mas isso não é verdade.
Não se pode negar que a chegada de outros meios de comunicação, dotados de
tecnologia cada vez mais avançada, influenciaram a maneira de viver das comu-
nidades. Porém, mesmo com essas inovações, a prática de ouvir e contar histórias
permanece. Em algumas cidades, ainda hoje, as pessoas colocam as cadeiras na
calçada para contar histórias sobre os mais variados tipos humanos, sobre bichos
que se comportam como gente, as aventuras de Pedro Malasartes, os “causos”...

7º ano 27
CONTOS DA TRADIÇÃO ORAL... ESCRITOS
No século XIX, na Alemanha, dois irmãos (Jacob e Wil-
helm Grimm) coletaram e registraram muitas histórias da Luís da Câmara Cascudo
tradição oral alemã. No Brasil, foi Silvio Romero que pu- Importante folclorista bra-
blicou a primeira coletânea de contos populares brasileiros, sileiro, nasceu em Natal, no
Rio Grande do Norte, em 1898,
em 1885. Na metade do século XX, aproximadamente, esses e morreu em 1986. Escreveu
estudos ganharam maior estímulo ainda. No Brasil, a figura 150 livros, entre os quais Di-
de destaque é o potiguar Luís da Câmara Cascudo, que reco- cionário do folclore brasileiro,
História da alimentação no
lheu e registrou várias histórias transmitidas por contadores Brasil, História dos nossos ges-
do nosso país. tos. Contribuiu para
Os contos da tradição oral nunca deixaram de ser conta- o registro de inú-
meros contos da
dos, mas em alguns momentos chegaram a ser considerados tradição oral.
uma produção sem valor, algo fantasioso, de características
antiquadas.
Atualmente, graças ao trabalho de alguns pesquisadores
que se dedicam ao estudo da literatura oral, é possível encon-

Folhapress
trar uma quantidade significativa de contos populares em
obras e antologias que nos possibilitam conhecer a riqueza
dessa manifestação popular de vários lugares do mundo.
Cosac Naify

Ediouro

Histórias da tradição oral encantam leitores infantis, juvenis e adultos. No Brasil, há muitos livros que reúnem contos populares árabes, como As mais
belas histórias das Mil e uma Noites (Cosac Naify) e Contos árabes: os clássicos (Ediouro).

28 Língua Portuguesa
Quanto a isso, convém atentar para um fato importante. É comum encontrar-
mos livros de contos da tradição oral (ou contos populares) escritos por diversos
autores, todavia eles não são exatamente os criadores daquelas histórias. Eles são
os responsáveis por contá-las a seu modo, com as palavras e o estilo que escolhe-
ram. Por exemplo, o pesquisador e escritor Ricardo Azevedo registrou em um
livro o conto “O homem que enxergava a morte”. Essa história também está regis-
trada por Câmara Cascudo, com o título “O compadre da morte”. O criador desse
conto, entretanto, é anônimo. É uma espécie de criação coletiva.
É importante observar que, quando os contos da tradição oral ganham regis-
tro escrito, eles se tornam mais rígidos. É que a escrita acaba fixando elementos
que não existiam antes, quando a história era contada oralmente e o contador
podia transformá-los livremente, a cada experiência com a oralidade.
Na modalidade escrita, não há os gestos, a expressão corporal, a entonação da
fala. Algumas marcas da oralidade podem se perder: os modos de dizer típicos das
personagens, as expressões próprias do povo que produziu aquele conto. Desse pon-
to de vista, a modalidade escrita é desvantajosa, afinal a palavra escrita fixa deter-
minada forma, determinada versão para os contos. Porém, como o hábito de contar
histórias mudou bastante ao longo do tempo, é extremamente importante que os
contos tenham sido escritos, caso contrário não conheceríamos muitos deles.

O CONTADOR
A presença de livros nos quais os contos populares estão registrados não eli-
minou a presença do contador. Em algumas comunidades encontramos o conta-
dor tradicional, normalmente iniciado nesse ofício pela família, mas também há
o contador no meio urbano.
A atividade de contação de história está presente em diversos espaços urbanos –
como livrarias, bibliotecas, praças, clubes, escolas, festas –, principalmente para o pú-
blico infantil. Mas há encontros de contação voltados para o público adulto, ou para
todos os públicos.
Os contadores profissionais são artistas ou estudiosos da arte de contar histórias
e fazem disso sua profissão. Eles se habilitam por meio de cursos e oficinas técnicas.
O trabalho dos contadores ajuda a manter vivas as marcas de oralidade dos
contos tradicionais.

O GÊNERO CONTO POPULAR


O conto popular é uma narrativa produzida pelo povo e transmitida original-
mente por meio da linguagem oral, em situações informais. Essas circunstâncias
estão ligadas ao fato de que às vezes quem conta a história a modifica ligeiramente.
O conto popular revela costumes, julgamentos, sentimentos e as relações so-
ciais existentes na cultura de um povo. Ao mesmo tempo, ele pode abordar ques-

7º ano 29
tões universais, importantes para todos os seres humanos,
de todas as culturas. Pantchatantra
Algumas vezes, por meio dessas narrativas, é possível O conto “Festa no céu”, re-
perceber a influência que uma comunidade recebeu de ou- contado por vários autores bra-
sileiros, lembra muito o conto
tras culturas. No caso do Brasil, por exemplo, muitos contos
“A tartaruga e os gansos”, do
são adaptações de histórias que vieram da Europa (princi- Pantchatantra, que é uma cole-
palmente de Portugal) e da África; outras nasceram da ima- ção de fábulas da Índia Antiga,
conhecida em todo o mundo
ginação do povo brasileiro.
graças a diversas traduções e
Luís da Câmara Cascudo ensina que as características de adaptações.
um conto popular são: antiguidade, anonimato, divulgação Pantchatantra significa “cin-
co tratados”. Em sua apresenta-
e persistência. ção, lemos: “O tratado de moral
Em seu Dicionário do folclore brasileiro, vemos também chamado Pantchatantra circula
que o conto popular é “o conto folclórico, a estória, o causo pelo mundo com o propósito
de educação dos jovens. Quem
(como dizem no interior paulista), que ocorre no contexto estuda sempre este tratado de
do maravilhoso e até do sobrenatural”. moral e o conhece de cor jamais
No livro Contos tradicionais do Brasil, Câmara Cascudo é apanhado pela destruição”.
propõe uma classificação para os contos. Veja algumas delas:

t Contos de encantamento: aqueles em que a solução mágica é indispen-


sável, em que o auxílio do sobrenatural, que premia o bem e pune o
mal, é uma constante.
t Contos de exemplo: aqueles que apresentam lições da moral vigente,
em que fica sugerido “se você fizer isso, vai se dar mal como a perso-
nagem do conto”.
t Contos de animais: são as fábulas.
t Facécias: contos para fazer rir, que muitas vezes revelam crueldade e
preconceitos.
t Contos etiológicos: aqueles que explicam uma propriedade ou caracte-
rística de qualquer ente natural, por exemplo, o pescoço longo da gira-
fa, a inimizade entre o cão e o gato... Esses contos muitas vezes revelam
valores e preconceitos de uma cultura.
t Contos de adivinhação: aqueles em que a vitória do herói depende da
solução de um enigma.
t Ciclo da morte: aqueles em que a morte, personificada, sempre vence
as artimanhas dos homens.

LER CONTO POPULAR I

Você vai ler um conto da tradição oral que já ganhou várias versões: “O espelho mágico”.
Antes de iniciar a leitura, discuta com seu professor e colegas as questões que seguem. A con-
versa vai criar expectativas em relação ao conto que você vai ler.

30 Língua Portuguesa
1. O que um espelho reflete?
2. Quais seriam as qualidades de um espelho mágico?
3. Você conhece histórias com espelhos mágicos? Câmara Cascudo nos informa que o tema tratado
no conto é popular na literatura oral da Europa Central, Finlândia, Dinamarca, Rússia, Grécia etc.
4. Qual será o tema do conto?
5. Você conhece outras histórias recontadas por Câmara Cascudo ou outros contos populares, inde-
pendentemente de quem os tenha contado?

O Espelho Mágico
O rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a vida. Ia por um
caminho quando viu uma pedra tapando a boca de um formigueiro e as formigas
lutando para arredá-la. O moço, que tinha bom coração, abaixou-se e tirou a pedra
com cuidado para não matar as formigas. Quando acabou, uma formiguinha falou:
– Se você se encontrar em dificuldades, diga: Valha-me o Rei das Formigas.
O rapaz seguiu sua Estrada e adiante encontrou um carneiro com uma pata
enganchada num arame. Soltou o bichinho. O carneiro disse:
– Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Carneiros!
Lá mais longe o rapaz viu um peixe dentro duma poça d’água rasa, quase se
acabando. O peixe estava com o lombo de fora, morrendo. O moço tirou-o da poça
e sacudiu numa lagoa perto. O peixe mergulhou, foi embaixo, veio em cima, e falou:
– Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Peixes.
Quase avistando o reinado, o rapaz encontrou um gavião deitado no chão,
seco de sede. Levou-o, deu-lhe um banho, deixou ele beber água e soltou. O gavião
voou para um galho de pau e disse:
– Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Pássaros!
Chegando no reinado, o rapaz soube que a princesa tinha um espelho mágico
que mostrava todas as cousas escondidas. O espelho só tinha forças de meia-noite até
o primeiro cantar do galo. Quem se escondesse, e a princesa não descobrisse, casava
com ela e, se ela achasse, perdia o homem a vida. O rapaz foi se oferecer para essa
aventura.
Na primeira noite, procurou um canto fora do reinado e disse: Valha-me o Rei
dos Carneiros! O carneiro apareceu e o rapaz disse o que queria.
– Monte nas minhas costas! – O rapaz montou e o carneiro largou-se correndo,
de mato adentro, para umas brenhas fechadas onde havia uma gruta. Deitou o rapaz
na gruta e encheu os arredores de carneiros, uns por cima dos outros, que ninguém
via outra cousa afora carneiro.
À meia-noite a moça puxou o espelho e procurou o rapaz, por todos os lados.
Tanto virou que deu com a gruta, e o espelho mostrou o rapaz deitado no chão, coberto
de carneiros. A princesa tomou nota e foi dormir.
No outro dia o rapaz se apresentou.
– Onde eu estava escondido?
– Deitado no chão, dentro de uma gruta, rodeado de carneiros!
– Era isso mesmo!
O rapaz apelou para o peixe. Foi à beira-mar e chamou: Valha-me o Rei dos
Peixes! O peixe riscou na praia. O moço contou sua dificuldade. O Rei dos Peixes
mandou um tubarão engolir o rapaz e uma baleia engolir o tubarão e foi para o fundo
do mar.

7º ano 31
Na meia-noite, a princesa foi consultar o espelho. Caçou na terra e nos ares e
procurou nos mares, com tanto cuidado que descobriu onde o rapaz estava dormindo.
Na manhã, o moço apareceu e perguntou:
– Onde eu passei a noite?
– Dentro de um tubarão, este numa baleia, no fundo do mar!
– Era isso mesmo!
Dessa vez o rapaz chamou o gavião e contou sua agonia. O gavião levou-o nas
costas até em cima das nuvens e lá apareceu outro gavião ainda maior que cobriu o
Rei dos Pássaros com suas asas.
À meia-noite a princesa procurou o rapaz nas águas e na terra e não achou.
Procurou nos ares e não viu. Tanto olhou e olhou que enxergou um pontinho escuro
por cima das nuvens. Botou reparo e descobriu tudo. O rapaz, quando veio ao palácio,
perguntou:
– Onde dormi a noite passada?
– Em cima de um gavião, coberto por outro, em cima das nuvens!
– Era isso mesmo!
Como era o terceiro dia, o rapaz foi condenado à morte, mas a princesa ficou
com pena dele e pediu ao rei para deixar o moço experimentar uma vez mais. O rapaz
ficou contente e foi valer-se do Rei das Formigas. Esse ouviu a conversa toda e disse:
– O espelho descobriu você na terra, no mar e nos ares. Mas o espelho não
pode ver a própria princesa. Eu vou virar você numa formiga e você suba para cima do
vestido dela e esconda-se bem.
Dito e feito. O rapaz virou formiga, entrou no palácio, foi GLOSSÁRIO
ao quarto da princesa e subiu pelo vestido acima, bem devagar
Camisa: nome dado em Portugal a uma
para ela não pressentir, e escondeu-se na bainha da camisa. peça do vestuário feminino: a camisola.
À meia-noite a princesa procurou o rapaz em toda Nesse contexto, camisa é a combinação:
roupa íntima feminina, feita de tecido fino,
parte, virou e mexeu, e nada de ver onde ele estava dormindo. que lembra um vestido inteiriço e é usada
Passou-se a hora das forças do espelho encantado e ela não viu sob o vestido propriamente dito.
coisa alguma. Amanheceu o dia e o rapaz voltou a ser gente e
veio perguntar onde tinha dormido.
– Não sei onde você dormiu! Onde foi?
– Não digo enquanto não me casar com você!
Fizeram o casamento com muita festa e só depois de casado é que o moço
disse onde tinha passado a sua última noite de solteiro.

Contado por Cícero Salvino de Oliveira, em Alexandria, Rio Grande do Norte.


CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global, 2003. p. 48-50.

As hipóteses que você tinha antes de ler o conto Palavras com o elemento spec
se confirmaram? O elemento spec (ver) deu origem a muitas
A partir de agora, as questões vão ajudar você a palavras relacionadas a essa atitude. Conheça
algumas:
recuperar o que constatou na leitura e vão registrar aspecto: o olhar, o rosto, algo que é possível ver.
suas primeiras impressões sobre o que leu. espectador: aquele que vê.
especular: observar escondido, considerar.
espelho: local onde se olha.
6. Espelho é uma palavra que veio da palavra latina spe- expectativa: ato de ficar olhando (esperando).
culum. O elemento spec significa “ver”. Nesse conto, o inspecionar: olhar com atenção.
espelho mágico da princesa permitia ver o quê? respeito: ato de olhar para trás, consideração.

32 Língua Portuguesa
7. A tarefa à qual o rapaz se propôs era difícil. Mesmo assim, o leitor/ouvinte tem a expectativa de
que ele será bem-sucedido. Em que essa expectativa se fundamenta?
8. O rapaz salva primeiro a formiga, depois o carneiro, depois o peixe e por último o gavião. Quando
vai pedir ajuda, ele pula a formiga. Por que ele provavelmente faz isso?
9. O rapaz tinha três chances para conseguir se esconder e, para isso, pede ajuda ao carneiro, ao
peixe e ao gavião. Entre esses animais, há um representante da terra, um da água e um do ar. A
presença desses tipos de animais cria alguns sentidos. Quais, em sua opinião?

CONHECER MAIS
A ESTRUTURA DO CONTO
Estórias ou histórias
Os contos populares são narrativas ficcionais. É comum a dúvida se os contos
Eles apresentam os mesmos elementos de outros gê- tradicionais são histórias ou estórias.
neros que também contam fatos – a notícia, por exemplo. Segundo o Dicionário do folclore
brasileiro, de Luís da Câmara Cas-
Nos dois podemos perceber elementos comuns: quem cudo, estória corresponde à palavra
fez o que, quando, onde, por que e o que decorre disso. inglesa story, que significa “conto, re-
A diferença é que a notícia tem um compromisso lato, narrativa, crônica, novela, lenda,
história, fábula, romance, anedota”.
com a verdade do fato ocorrido, já o conto é produzi- Segundo o folclorista, essa grafia –
do com uma intenção diferente, que é a de entreter e estória – foi sugerida pela Socieda-
ao mesmo tempo ensinar por meio dos fatos vividos de Brasileira de Folclore, fundada
em 30 de abril de 1941, pela neces-
pelas personagens. sidade de distinguir as narrativas ou
Uma notícia (como outros textos não ficcionais) contos tradicionais (textos fictícios)
dos acontecimentos e fatos da reali-
apresenta explicitamente o tema que vai ser tratado. Os
dade, estudados pela História. Hoje,
textos narrativos ficcionais deixam o tema escondido por entretanto, é comum usar a palavra
trás do que acontece com as personagens na trama. Cabe história tanto para os acontecimentos
históricos (reais) como para designar
ao ouvinte ou leitor identificar esse tema. E o interessante as narrativas fabulosas. Mesmo as-
dos textos ficcionais (como os contos populares) é que a sim, alguns autores fazem questão
compreensão pode ser aprofundada ao longo do tempo, de continuar usando estória, quando
se referem às narrativas de ficção. O
quando repetimos a audição ou a leitura de uma história. argumento que usam para ressaltar
Nisso o conto se parece com outros gêneros narra- a diferença é bem interessante: as
tivos de ficção, como o romance e a novela. A diferen- estórias acontecem cada vez que
são contadas, enquanto os fatos,
ça que o conto tem em relação a esses outros gêneros é documentados, fotografados, com-
que ele se fixa em um único núcleo narrativo, ou seja, provados pela ciência e escritos com
tem apenas um conflito a resolver – e, por isso, tende o nome de história, acontecem uma
única vez e nunca mais.
a ser curto.

ELEMENTOS DAS NARRATIVAS FICCIONAIS


Os contos apresentam uma sequência de eventos narrados por alguém, envol-
vendo personagens. Esses eventos envolvem personagens em determinado lugar
e em determinado tempo. Vamos conhecer melhor cada um desses elementos que
estão sempre presentes nos textos narrativos.

7º ano 33
Uma história conquista o leitor ou ouvinte quando seus fatos são bem con-
tados. Isso quer dizer, entre outras coisas, que esse leitor ou ouvinte vê sentido,
coerência entre um fato e outro, entre os personagens e o que eles fazem, entre o
que acontece e o lugar onde acontece...

Personagens: são as pessoas, animais, coisas inventadas pelo autor que par-
ticipam da história. Mesmo quando uma personagem nasce inspirada por uma
pessoa real, dizemos que é um ser de ficção. O escritor deve conhecer suas per-
sonagens minuciosamente e ter uma visão clara da aparência de cada uma, de
sua maneira de falar e de seus pensamentos, para poder apresentá-las de forma
convincente. Isso ajuda a garantir a impressão de realidade que as histórias de
ficção têm. Mesmo dentro do universo maravilhoso, as atitudes das personagens
precisam ser internamente coerentes.
É importante que o leitor observe como os autores caracterizam as perso-
nagens nos textos. Às vezes, com poucas, mas precisas informações, os leitores
podem construir a imagem da personagem.
A personagem principal é a protagonista. Aquela que se coloca contra ela é a
antagonista. As demais, secundárias, são chamadas coadjuvantes.

Enredo: é o que acontece às personagens no desenrolar de uma história. O en-


redo é construído em torno de uma série de acontecimentos que ocorrem dentro
de determinado período de tempo. Um enredo, geralmente, tem começo, meio e
fim, mas os acontecimentos não precisam ser apresentados necessariamente nes-
sa ordem. O escritor nos conduz de algo (a apresentação de um problema), por
meio de algo (o enfrentamento do problema pela personagem), em direção a algo
(a superação ou não do problema pela personagem). Assim, os autores têm de
apresentar os elementos principais que configuram a história, que criam o sus-
pense (para despertar no leitor o desejo de saber o que vai acontecer em seguida)
e que encerram a história com um desfecho. O clímax do texto é o ponto mais
intenso do interesse do leitor, é a parte do enredo em que os acontecimentos cen-
trais ganham o máximo de tensão para as personagens envolvidas.

Espaço: é onde acontece a história. As personagens literárias atuam em espa-


ços que podem ser reais ou inventados, reagindo ao mundo em que vivem. Esse
elemento, então, é importante para mostrar a realidade das personagens.

Tempo: é um elemento central na organização de textos narrativos. As marcas


temporais do texto indicam, na história, o que aconteceu antes ou depois. Muitas
vezes, os autores decidem não apresentar os fatos cronologicamente, isto é, na
ordem natural em que eles acontecem. Eles podem, por exemplo, narrar no início
do conto um episódio e, somente no final, esclarecer os acontecimentos anteriores
a ele e que o justificam.

34 Língua Portuguesa
Narrador: é a voz que conta a história. O narrador não deve ser confundido
com o autor; ele é uma criação do escritor.
Uma história pode ser narrada em 1a pessoa ou em 3a pessoa.
Quando narrada em 3a pessoa, o narrador é onisciente ou observador.
O narrador onisciente (ou ciente de tudo) coloca-se acima do que narra, ado-
tando uma espécie de posição divina. Ele conhece o íntimo das personagens, sabe
o que cada uma sonha, pensa e normalmente manifesta esse conhecimento.
O narrador observador também tem um conhecimento total do que conta,
mas não apresenta seus comentários; ele prefere ater-se aos fatos. Esse tipo de
narrador é o que predomina nos contos populares.
Quando a história é narrada em 1a pessoa, o narrador não tem acesso ao esta-
do mental e sentimental das personagens. Normalmente ele é uma personagem.
Quando é a personagem central da história, tem-se um narrador protagonista.
Quando ele é uma personagem secundária no desenrolar dos fatos, tem-se um
narrador testemunha.
Para identificar em que pessoa o narrador assume o discurso, é preciso anali-
sar as marcas presentes no texto, sobretudo os pronomes.
Leia estes exemplos:
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos
anos, contava eu com dezessete, ela trinta. Era noite de natal. Havendo ajustado com
um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo
à meia-noite.
ASSIS, Machado de. Contos. São Paulo: Ática, 1996. p. 99.

Temos aí um narrador em 1a pessoa; trata-se de um narrador protagonista.


[...] no íntimo sentia-se profundamente humilhada pensando que para toda
essa gente que a cercava, ela [...] não merecia uma só das bajulações que tributavam a
cada um de seus milhões de cruzeiros.
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000011.pdf>.
Acesso em: 17 ago. 2012.

Temos aí um narrador em 3a pessoa. Trata-se de um narrador onisciente.

LER CONTO POPULAR II

Releia o conto “O espelho mágico” antes de fazer as atividades e consulte-o sempre que julgar
necessário.

1. Logo no primeiro parágrafo, o narrador menciona algumas características sobre o protagonista.


a) A primeira é o fato de a protagonista ser órfã. E a segunda?
b) Que atitude da personagem confirma essa segunda característica?
c) Depois de ler o conto, que outras características você atribuiria à protagonista da história?

7º ano 35
2. Quando chega ao reinado e toma conhecimento da proposta da princesa, o rapaz aceita o desafio.
No primeiro parágrafo há uma informação que confirma que essa proposta combina com os in-
teresses do rapaz. Que informação é essa?
3. Examine as palavras escolhidas pela pessoa que registrou por escrito esse conto:

- com o carneiro: o rapaz disse o que queria


- com o peixe: o moço contou sua dificuldade
- com o gavião: o rapaz chamou o gavião e contou sua agonia

Que ideia a mudança de palavras sugere ao leitor?


4. Releia estes trechos:
I - “À meia-noite, a moça puxou o espelho e procurou o rapaz, por todos os lados. Tanto virou que
deu com a gruta e o espelho mostrou o rapaz deitado no chão, coberto de carneiros.”
II - “À meia-noite, a princesa foi consultar o espelho. Caçou na terra e nos ares e procurou nos
mares, com tanto cuidado que descobriu onde o rapaz estava dormindo.”
III - “À meia-noite, a princesa procurou o rapaz nas águas e na terra e não achou. Procurou nos ares
e não viu. Tanto olhou e olhou que enxergou um pontinho escuro por cima das nuvens.”

a) Avalie a formulação do narrador em cada momento que a princesa faz a busca. Que progres-
são você constatou?
b) Em relação aos esconderijos do rapaz, há o mesmo tipo de progressão. Explique.
5. A princesa concede uma nova oportunidade ao rapaz depois que ele perdeu as três chances, mas
não exige a mesma oportunidade quando é vencida. Por que isso acontece?
6. Considerando a função do espelho no conto, o que se supõe ter acontecido com esse objeto depois
do casamento da princesa?
7. Para a coerência da narrativa, por que você acha que é importante o detalhe de o espelho só ter
forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo?
8. Por que você acha que o rapaz resolve contar onde esteve apenas após o casamento?

O CONTO DE CÂMARA CASCUDO E OS ELEMENTOS DAS NARRATIVAS


“O espelho mágico” é um conto, uma obra de ficção curta, centrada em torno
de um único acontecimento. Tem sete personagens: o rapaz órfão, a formiguinha,
o carneiro, o peixe, o gavião, a princesa, o rei.
O rapaz órfão participa de toda a história, é ele quem salva a formiga, o car-
neiro, o peixe, o gavião. É ele quem cumpre a tarefa para se casar com a princesa.
É dele o papel principal, por isso ele é o protagonista da história. As personagens
que se opõem ao protagonista são chamadas antagonistas. Já as que têm um papel
secundário, como a formiguinha, o carneiro, o peixe, o gavião, são coadjuvantes
ou auxiliares da personagem principal.

36 Língua Portuguesa
Observe que o protagonista nesse caso é uma personagem simples, sem maio-
res complexidades. Diferente de outras narrativas, em que o protagonista pode ter
uma personalidade contraditória que, às vezes, surpreende o leitor.
O enredo de “O espelho mágico” tem começo, meio e fim bem marcados.
Não é difícil perceber essas três partes no conto. Os primeiros oito parágrafos
podem ser considerados o começo da história. Neles o leitor se familiariza com o
protagonista e observa a maneira como ele age. Quando ele chega ao reino, inicia-
-se outra parte do conto. Nessa sequência, o protagonista se oferece à aventura e
solicita ajuda aos “amigos” que salvou. É aí que acontece o clímax da história: ele
é quase condenado à morte. O desfecho está no último parágrafo: a festa de casa-
mento e a confissão do moço.
Os lugares onde acontece a história são vários, alguns são inusitados: o ca-
minho para o reino (com animais falantes), o reino, a gruta cheia de carneiros, a
barriga de um tubarão que está dentro de uma baleia que está no fundo do mar, as
nuvens, a bainha da camisa da princesa. Nesse conto, o fato de haver lugares inu-
sitados é importante, sabe por quê? Se o espelho mágico mostrava todas as coisas
escondidas em qualquer lugar e os lugares eram pouco óbvios, então fica muito
mais evidente o poder do espelho e, consequentemente, valoriza-se a atuação da
pequena formiga.
O tempo está bem demarcado por expressões como estas: “o espelho só tinha
forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo”; “na primeira noite”; “no outro
dia”; “como era o terceiro dia”; “amanheceu”; “sua última noite de solteiro”. Repare
que, nesse conto, os fatos se sucedem cronologicamente.
Quanto ao narrador do texto, podemos considerá-lo de 1a ou 3a pessoa?
Observando o início do conto, é possível responder a essa pergunta. A histó-
ria começa assim: “O rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a
vida.” É um narrador de 3a pessoa, pois ele conta a história que aconteceu com um
rapaz que saiu pelo mundo para ganhar a vida. Esse narrador conta os fatos que
observa, não conta o que vive; também não conta o que a personagem pensa nem
antecipa o que ela vai fazer, por isso é um narrador observador e não onisciente.
Para descobrir o tema do texto, é preciso observar atentamente tudo o que
acontece na história, o modo como os fatos se encadeiam, como foram organi-
zados; é preciso observar também como as personagens surgem, o que fazem,
como ajudam o protagonista a superar as dificuldades. Considerando tudo isso
que aconteceu na história, que tema ou temas podemos reconhecer?
Em geral, as pessoas têm mais facilidade para enxergar, compreender, desco-
brir coisas que estão fora delas, distantes delas. Enxergar o que está próximo ou
dentro de nós é mais complicado. É mais fácil, por exemplo, identificar atitudes
preconceituosas nos outros que em nós mesmos. Por isso, o tema do conto pode-
ria ser a dificuldade de enxergar a si mesmo.
Mas há outros temas que poderíamos apontar. A bondade do rapaz e as boas
ações que pratica sem desejar nada em troca fazem-nos pensar na importância de

7º ano 37
encontrar bons amigos, com quem sempre poderemos contar. A formiga, um in-
seto ao qual normalmente não damos muita importância, aparece no conto como
industriosa, sábia. É ela quem sabe superar o espelho mágico. A mensagem aí
poderia ser: não menospreze os mais fracos, os menores.

LER CONTO POPULAR III

As etapas anteriores fizeram com que você relesse o conto de Câmara Cascu-
do e o analisasse minuciosamente.
Agora, as questões ajudarão você a refletir sobre o contexto em que o conto é
produzido.

1. Relembre os espaços físicos em que a ação se desenrola:

- saiu pelo mundo


- seguiu sua estrada
- chegou no reinado

Esses espaços são indefinidos; não se sabe ao certo onde ficavam a estrada e o reinado nem por
qual parte do mundo exatamente ele andou. Essa ocorrência é comum nos contos populares. Por
que você acha que isso acontece?
2. No que diz respeito ao tempo, há algumas indefinições no conto. Por exemplo, não existe indica-
ção sobre quanto durou a viagem ou sobre quando o episódio se passou. Por que você acha que o
tempo é indefinido nesses casos?
3. Como se chama o livro de onde foi tirado esse conto?
4. Podemos dizer que os contos desse livro foram criados por Câmara Cascudo? Por quê?
5. Considerando a classificação que Câmara Cascudo propõe para os contos populares, em qual
você incluiria “O espelho mágico”?
6. Que detalhes contribuem para indicar a data de origem do conto?
7. Nos contos populares escritos, a linguagem pode preservar algo da época e do lugar em que as
histórias eram contadas. Podem parecer hoje muito formais ou simplesmente desconhecidas, por
serem formas regionais. Procure no conto trechos cujo sentido seja de:
a) aparecer ou chegar inesperadamente à praia;
b) alcançar ou obter sucesso;
c) socorrer;
d) reparar;
e) até o primeiro cantar do galo.

APLICAR CONHECIMENTOS I

Muitos escritores registraram um famoso conto popular chamado “A sopa de pedra”, que seu
professor vai ler para você. Depois de ouvi-lo, responda às questões.

38 Língua Portuguesa
1. Nessa versão do conto, em que atitude de Pedro Malasartes é possível perceber logo de início a
esperteza e a malandragem dessa personagem?
2. Ao longo do episódio, quais comportamentos de Malasartes continuam revelando sua esperteza
e malandragem? E no final?
3. Malasartes, ao iniciar o preparo da sopa, diz que o importante era lavar bem a pedra.
a) Por que isso era, de fato, importante?
b) A velha podia desconfiar do verdadeiro propósito de Malasartes após ele ter lavado a pedra?
4. Que impressão Malasartes dava ao fazer os pedidos de carne e legumes para a velha? Qual é a
importância dessa atitude dele para o bom andamento do seu plano?
5. Qual é a intenção da velha ao concordar em trazer água e uma panela para Malasartes?
6. Pense na caracterização que foi feita da velha. Qual dos finais é mais coerente com essa caracte-
rização? Explique sua resposta.
7. Quem recontou essa versão da história em livro?
8. Que informação do texto comprova que se trata de um conto popular, transmitido oralmente ao
longo do tempo?
9. Que marcas de oralidade você percebeu mesmo na versão escrita que foi lida para você?
10. Que tipo de narrador há no conto? Explique.
11. Considerando a classificação que Câmara Cascudo propõe para os contos populares, em qual
você incluiria esse conto?

APLICAR CONHECIMENTOS II

Antes de ler o conto a seguir, converse com o professor e seus colegas sobre as seguintes questões:

1. Você já ouviu falar na expressão “ensinar o pulo do gato”?


2. Você costuma usar essa expressão?
3. Você sabe a origem dessa expressão?
4. O que se deve entender pela nota no final do texto (antes da referência bibliográfica)?
5. Examine a referência bibliográfica do texto. Quando foi publicado o livro do qual o conto foi ex-
traído? Que influência você acha que isso pode ter na linguagem usada?

Agora leia este conto e, em seguida, responda às questões sobre ele.

O pulo do gato
Comadre onça encontrou-se com compadre gato e ficou a vê-lo saltar, pasmada
de tanta agilidade.
Chegou-se com muitos bons modos e pediu-lhe:
– Compadre gato, você há de me ensinar a saltar.
– Nessa não caio eu, comadre onça – você era capaz de me apanhar e de me
engolir de uma vez.
A onça pôs-se muito macia:

7º ano 39
– Eu, compadre, pois sou lá capaz disso!... Pensa então que me satisfaço com
um bichinho tão pequenininho, e quase meu parente como você?!
Mais acomodado, mas ainda um pouco ressabiado, o gato começou a lição.
Pula daqui, salta dali, recua à direita, avança à esquerda; pinoteia, desce pelos
galhos, rola na poeira, grimpa nos troncos, atira-se pro ar, sempre imitado da onça,
que vai aprendendo todos aqueles manejos com certa facilidade; o gato termina a
lição, dando a discípula por pronta.
Vai daí, disse a onça:
– Compadre gato, quero agora repetir tudo quanto vi e aprendi, a ver se estou
mestra na sua arte.
E começou a reproduzir todos os saltos do gato. Em certo momento, deu um
pulo sobre o mestre para liquidá-lo de uma vez. Mas o gato, que não nasceu hoje, deu
de improviso outro pulo que a onça não o tinha visto dar na lição e com que não podia
contar a tempo.
A onça, desapontada, disse-lhe:
– Este você não me ensinou ainda há pouco, compadre gato. Ensine-me agora,
que desejo aprender tudo que você sabe, para vencer meus inimigos.
– Desse cavalo magro é que eu não caio, comadre onça. GLOSSÁRIO
Não era tão tolo que ao menos não reservasse este pulo para me Óculo: monóculo; luneta.
livrar de suas garras.

Ilustração digital: Llinares


E, dizendo isso, o gato desapareceu, num outro salto de
mestre, deixando a onça a olhar por um óculo.

Este conto foi coligido da tradição oral em Juiz de Fora.


Há uma variante coligida por Silvio Romero.
GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1948.

6. A onça manifesta sua intenção de aprender a pular com o gato. Que outra intenção ela não ma-
nifesta, mas tem?
7. A onça usa algumas estratégias para convencer o gato.
a) Como era a linguagem e a atitude dela? Comprove citando trechos do conto.
b) Que argumentos ela usa?
c) A estratégia da onça deu certo? Explique sua resposta.
8. O leitor sabe que o gato não tinha acreditado completamente na onça. Que trecho comprova isso?
9. O que a história pode ensinar ao leitor?
10. Que provérbio transmite o mesmo ensinamento que o conto?
11. Compare os trechos do quadro.

1 2

Pula daqui, salta dali, recua à direita, avança à [...] sempre imitado da onça, que vai aprendendo
esquerda; pinoteia, desce pelos galhos, rola na todos aqueles manejos com certa facilidade [...].
poeira, grimpa nos troncos, atira-se pro ar [...].
[...] deu de improviso outro pulo que a onça não
Vai daí, disse a onça: o tinha visto dar na lição e com que não podia
contar [...].

40 Língua Portuguesa
a) Que coluna apresenta as frases mais formais? E as mais informais?
b) Os trechos do quadro são das personagens ou do narrador?
c) Quando um escritor resolve registrar um conto, ele escolhe a linguagem que vai usar. E as
escolhas feitas produzem efeitos no texto. Nesse caso, que efeito você acha que ocorreu com a
mistura de frases mais formais e mais informais?
12. Leia as frases a seguir.
“ficou a vê-lo saltar”
“você era capaz de me apanhar”
a) Para cada uma, copie do texto uma frase que apresente estrutura semelhante.
b) As frases transcritas e as que você copiou apresentam certa diferença em relação ao modo
como registraríamos o conto hoje. Reescreva-as da forma como faríamos hoje.
13. Qual é o significado das expressões grifadas a seguir?
o gato, que não nasceu hoje
Desse cavalo magro é que eu não caio
deixando a onça a olhar por um óculo
14. O que você constatou sobre as indicações de tempo e de espaço?
15. Que tipo de narrador há nesse conto?
16. De acordo com a classificação proposta por Câmara Cascudo, que tipo de conto é esse?

PLANEJANDO A FALA

PROPOSTA
Escolha, junto com outros dois colegas, um conto popular. Vocês podem sele-
cionar um que ouviram ao longo da vida ou podem pesquisar um em antologias.
Seu trio de trabalho poderá ser escolhido para fazer a contação para outra classe.

PLANEJAMENTO
Registre as respostas a seguir no seu caderno.
1. Determinem a sucessão de fatos que são importantes para a história.
2. Determinem as características das personagens e de que maneira elas po-
dem ser mostradas ao público: pelas atitudes, pelas falas, pelas indicações
do narrador etc.
3. Determinem o espaço ou os espaços onde a ação ocorre. Eles têm impor-
tância para o que acontece? É preciso caracterizar o espaço com alguns
traços específicos?
4. Em quanto tempo a ação se desenrola? É importante explicitar os mo-
mentos, por exemplo, “no inverno”, “à noite” etc. ou não?

7º ano 41
5. Que linguagem o contador vai usar? Há expressões típicas que podem
valorizar a narrativa?
6. Vocês vão usar recursos materiais para contar, como figurino e objetos?
7. Vocês vão usar algum instrumento musical ou recursos que produzam
ruídos?
8. Um só do trio vai apresentar e os outros vão dar apoio, ou cada um vai
representar uma personagem?
ENSAIO
Contem a história para si próprios, do modo como ela será contada para o público.

APÓS O ENSAIO, AVALIEM OS ASPECTOS A SEGUIR


1. O tom de voz e entonação estão adequados?
2. Os detalhes importantes para a compreensão (quanto às personagens, ao
espaço etc.) estão presentes? É possível prender a atenção de quem vai
ouvir a história?
3. O clima criado condiz com o tema da história?

REAPRESENTAÇÃO
1. Repitam a apresentação para um trio da classe, melhorando o que foi
combinado depois da avaliação.
2. Escutem a avaliação feita pelo trio que assistiu à segunda contação. (De-
pois vocês fazem o mesmo com a contação deles.)
3. Sigam as orientações do professor para a apresentação para um público
maior, que inicialmente será a sua classe.

MOMENTO DA ESCRITA

PROPOSTA
A classe vai escolher um conto apresentado para registrá-lo por escrito.
Siga as orientações do professor para a escolha do conto.

PLANEJAMENTO
Escreva em seu caderno as respostas que você daria (em relação ao conto
escolhido desta vez) aos aspectos de 1 a 5 que você seguiu no planejamento da
contação.

ELABORAÇÃO
Registre o conto ouvido, como se você fosse um pesquisador e estivesse cole-
tando histórias da tradição oral para publicá-las em livro.

42 Língua Portuguesa
AVALIAÇÃO
Troque de texto com um colega e considere os seguintes aspectos:
1. O conflito está claro?
2. A caracterização das personagens e do espaço contribui para a coerência
dos fatos que geram e solucionam o conflito?
3. A história é apresentada de modo que deixe claro que se trata de uma
facécia ou conto de encantamento ou de adivinhação etc.?
4. A indicação de tempo ajuda o leitor a compreender a sucessão dos fatos?
5. A linguagem do narrador tem um estilo definido, que dá um toque pes-
soal ao conto?

REESCRITA
Considerando a avaliação que o colega fez do seu texto, reescreva-o, aperfei-
çoando o que for necessário.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Livros Histórias da velha Totônia


Leia a apresentação que o próprio autor faz da obra, na página IX:

AOS MENINOS DO BRASIL


Ainda me lembro hoje da velha Totônia, bem velha e bem magra, andando, de engenho a
engenho, contando as suas histórias de Trancoso. Não havia menino que não lhe quisesse
um bem muito grande, que não esperasse, com o coração batendo de alegria, a visita da boa
velhinha, de voz tão mansa e de vontade tão fraca aos pedidos dos seus ouvintes.
Todas as velhas Totônias do Brasil se acabaram, se foram. E outras não vieram para o seu
lugar. Este livro escrevi pensando nelas... Pensando na sua velha Totônia de Sergipe, Sílvio
Romero recolheu estas mesmas histórias que eu procuro contar aos meninos do Brasil.
Quisera que todos eles me ouvissem com a ansiedade e o prazer com que eu escutava a
velha Totônia do meu engenho.
Se eu tiver conseguido este milagre, não precisarei de maior alegria para minha vida.
José Lins do Rego
REGO, José Lins do. Histórias da velha Totônia. 17. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

O violino cigano e outros contos de mulheres sábias


O conto “Uma fábula sobre a fábula” é uma linda metáfora do poder que a ficção (em espe-
cial os contos) tem.
MACHADO, Regina. O violino cigano e outros contos de mulheres sábias. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.

Sites As páginas de internet a seguir oferecem arquivos de áudio que ajudarão a refletir um pouco
mais sobre o assunto tratado no capítulo. Para ouvi-los, basta acessar a página e clicar em “Vi-
sualizar/Abrir”.

A estética da manifestação oral: parte 1


Apresenta entrevista com o professor José Alaércio Zamuner, que aborda as características da lite-
ratura oral e seu trabalho como pesquisador e contador. Cita Guimarães Rosa e Graciliano Ramos.
Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2713>. Acesso em: 20 ago. 2012. Duração: 5 min.

A estética da manifestação oral: parte 2


O professor José Alaércio Zamuner conta o causo “Uma caçada de onça”.
Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2715>. Acesso em: 20 ago. 2012. Duração: 5 min.

7º ano 43
Capítulo 3
LÍNGUA Estudando obras de referência
PORTUGUESA

I númeras vezes ouvimos dizer que estudar é importante e que as atividades re-
lacionadas ao ato de estudar (como ler e interpretar textos, fazer e consultar
anotações a respeito de assuntos diversos, escrever resumos, pesquisar, participar
de debates e de eventos culturais) podem ser um diferencial na hora de exercer
atividades ligadas ao mundo do trabalho.
O que você acha? Escola e trabalho realmente combinam? Aprimorar o ato de
estudar pode interferir em sua vida profissional? Por quê? Mas o que é estudar?
Estudando também se aprende?
Este capítulo pretende estimular você a refletir sobre a importância do ato
de estudar e, principalmente, ajudar a aprimorar suas estratégias de estudo. Por
exemplo, é de grande ajuda, quando temos de estudar, saber preparar resumos,
fichamentos e esquemas do que se lê.

Paula Giolito/Folhapress, Ilustrada

Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo, 2011. Essa biblioteca tem um dos principais acervos de livros e documentos no Brasil: são
mais de 3 milhões de obras para consulta e milhares de livros para empréstimo. Você costuma frequentar alguma biblioteca?

RODA DE CONVERSA

Antes dos exercícios de leitura e de escrita que serão propostos, vamos refletir sobre o que
significa estudar. Escolha a seguir as alternativas (pode ser mais de uma) que melhor traduzam
para você o ato de estudar.

44 Língua Portuguesa
Estudar, para você...

( ) é ter de aprender ideias que os outros dizem.


( ) tem a ver com criar e recriar ideias.
( ) é apenas memorizar acontecimentos, informações, dados e ideias.
( ) é desejar saber mais sobre um tema ou assunto.
( ) é algo que se faz na escola e fora dela.
( ) é algo que já se nasce sabendo fazer, para o qual se tem o dom.
( ) é algo só para quem é jovem.
( ) é um ato que tem a ver com paixão, interesse, amor, afeição pelo conhecimento.
( ) é ter de ir à escola todas as noites para estudar as matérias que, às vezes, não têm nada a
ver com o dia a dia.
( ) é pesquisar informações práticas e teóricas sobre vários assuntos.
( ) é ler livros, jornais e revistas, para ficar atualizado.
( ) serve mais para o enriquecimento pessoal do que para mudar de emprego.
( ) só é bom porque melhora o currículo.

Compare suas respostas com as de seus colegas e descubra o que cada um pensa sobre o ato
de estudar.

ESTUDAR NA ESCOLA
No dia a dia de uma escola, o ato de estudar está sempre presente. Professo-
res e estudantes leem, debatem, escrevem, fazem pesquisas sobre diversos temas,
para que se possa, de forma mais satisfatória, compreender o mundo e se mara-
vilhar com ele. Em geral, é por meio da leitura − de textos e de imagens − que
acessamos, na escola, grande parte dos conteúdos das disciplinas. Por isso, quan-
do lemos para obter informações e ampliar conhecimentos, é muito útil saber e
aplicar algumas estratégias de estudo.
Vamos aprender algumas estratégias lendo obras de referência, ou seja, di-
cionários, enciclopédias, almanaques, atlas e outras obras que frequentemente são
consultadas por professores e estudantes para iniciar uma pesquisa sobre os mais
variados temas. Elas constituem as primeiras referências que podemos ter sobre
um assunto. Nas obras de referência, encontramos os verbetes, que são, segundo
o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, “o conjunto das acepções, exemplos e
outras informações pertinentes contido numa entrada de dicionário, enciclopé-
dia, glossário etc.”.

LER OBRAS DE REFERÊNCIA

Vamos ler e comparar três textos que apresentam objetivos de diferentes obras de referência.
Antes, responda oralmente às seguintes questões para debater com seus colegas:

7º ano 45
1. Você tem o hábito de consultar dicionários? Em que situações?
2. Você já consultou alguma enciclopédia impressa? Com que finalidade?
3. Já consultou alguma enciclopédia virtual? Com que finalidade?
4. Você sabe o significado da palavra “migração”? Para saber o significado dessa palavra, devemos
consultar um dicionário ou uma enciclopédia? Justifique sua resposta.
5. Considerando o que você sabe sobre dicionários e enciclo-

Biblioteca Nacional da França, Paris


pédias, quais diferenças você imagina haver entre os textos
que formam os verbetes dessas obras de referência?

Depois de discutir as respostas com seus colegas, leia


atentamente os textos a seguir:

Texto 1 Diderot, um dos responsáveis pela elaboração da


Encyclopédie ou Dictionnaire raisoneé des sciences, des arts
et des métiers (Enciclopédia ou Dicionário racional das
ciências, das artes e dos ofícios) − a primeira enciclopédia
moderna que se propõe transmitir os conhecimentos
que todo “homem de bem” deveria ter no século XVIII −
explica na apresentação da obra:

“O objetivo de uma enciclopédia é o de reunir os


conhecimentos esparsos na superfície da Terra, expor o
seu sistema geral aos homens com que vivemos, a fim de
que nossos descendentes, tornando-se mais instruídos,
tornem-se ao mesmo tempo mais virtuosos e mais
felizes.” A Enciclopédia ou Dicionário racional das
ciências, das artes e dos ofícios foi organizada
Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo, Rio de Janeiro: por Denis Diderot no século XVIII. É a primeira
Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. 1986. p. 3823.
enciclopédia da história.

Texto 2 Wikipédia: o que é um wiki


Wiki é uma coleção de muitas páginas interligadas, e cada uma delas pode
ser visitada e editada por qualquer pessoa, o que torna bastante prático a reedição e
futuras visitas. Você pode editar esta página, clicando no separador no início da página
(ou no link do fim da página, dependendo do modelo que estiver usando). É isso aí...
Por exemplo, esta frase que agora está a ler foi acrescentada por alguém que
a editou. Wiki é hoje em dia a forma mais democrática e simples de qualquer pessoa,
mesmo sem conhecimentos técnicos, contribuir para os conteúdos de uma página Web.
Este site é um trabalho colaborativo na Web, em constante expansão e
aprimoramento, com os leitores criando páginas acerca de seus interesses, comentando
páginas antigas, propondo páginas novas etc. É de suma importância que as pessoas
tenham total respeito por este trabalho, tendo em vista sua abrangência. Há várias
ferramentas Wiki à nossa disposição.
Uma característica notável das ferramentas Wiki é a facilidade de edição e
a possibilidade de criação de textos de forma coletiva e livre, assim como se faz na
Wikipédia e em outros projetos que utilizam Wikis.
Wikipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki>. Acesso em: 19 jul. 2012. (Texto adaptado.)

46 Língua Portuguesa
Texto 3 Prefácio
[...]
1. Pretendeu-se fazer um dicionário médio, ou inframédio, GLOSSÁRIO

etimológico, com razoável contingente vocabular (bem mais de Depreciativo: desqualificação.

cem mil verbetes e subverbetes) atualizando (dentro de seus Etimológico: refere-se ao estudo da origem e
da evolução das palavras.
limites), atento não só à língua dos escritores (muito especialmente Giriesco: relativo a gíria.
os modernos, mas sem desprezo, que seria pueril, dos clássicos), Inframédio: um pouco menos do que médio.
senão também à língua dos jornais e revistas, do teatro, do rádio Jocoso: engraçado.
e televisão, ao falar do povo, aos linguajares diversos – regionais, Pueril: infantil.
jocosos, depreciativos, profissionais, giriescos... Subverbete: verbete em que se elucidam as
divisões, espécies, modalidades etc. do signifi-
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova fronteira, 1975. p. VI.
cado do verbete principal.

Agora responda a estas questões sobre os textos lidos. Elas


ajudarão você a refletir sobre os objetivos das obras de referência.

6. De acordo com o filósofo Diderot − um dos organizadores dos 28 volumes da primeira enciclopé-
dia moderna (que data de 1747) −, uma enciclopédia é escrita com que finalidade?

7. A Enciclopédia de Diderot apresenta, pela primeira vez, os verbetes organizados em ordem alfa-
bética. Esse tipo de organização − sem divisões em disciplinas ou áreas de conhecimento − faci-
lita o trabalho do pesquisador na hora de buscar informações sobre um tema? Por quê?

8. A Wikipédia é uma enciclopédia digital. Nela, os verbetes são elaborados pelos usuários da inter-
net, ou seja, qualquer pessoa pode acessar um verbete, acrescentar, cortar, modificar e arrumar as
informações ali contidas. Qual é a sua opinião sobre essa característica da Wikipédia?

9. Enciclopédia é uma palavra que vem da língua grega. Egkúklios (círculo) e paideia (ensino) sig-
nificam ensino circular, panorâmico. A expressão wiki wiki significa “extremamente rápido” no
idioma havaiano. Juntando os dois sentidos (wiki + paideia), como você definiria o significado
de Wikipédia?

7º ano 47
10. Repare que no texto sobre a Wikipédia há expressões que foram destacadas – link e página Web.
Consulte uma enciclopédia digital e tente descobrir o significado dessas expressões.
11. Uma pesquisa seria completa se apresentasse como única referência informações de um verbete
de uma enciclopédia impressa ou da Wikipédia? Por quê?

12. Os dicionários contribuem de várias maneiras para fixar a língua: eles mostram como a palavra
deve ser escrita e fornecem uma espécie de registro civil das palavras, ou seja, se a palavra não
consta no dicionário, é como se ela não existisse. Considerando o prefácio do dicionário, é certo
afirmar que um dicionário deve também trazer verbetes da língua viva, que é falada pelas pessoas?
Justifique sua resposta.

13. O Novo Aurélio do século XXI, publicado no ano 2000, apresenta por volta de 160 mil verbetes,
milhares de verbetes a mais do que a edição de 1975 do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portu-
guesa. Esse aumento no número de verbetes demonstra que o vocabulário do português brasileiro
ficou mais rico? Justifique sua resposta.

VERBETES DE DICIONÁRIOS, VERBETES DE ENCICLOPÉDIAS


Dicionário é uma palavra que nasce derivada de dictionarium ou GLOSSÁRIO
dictionarius, que, em latim, significa repertório de dictiones (frases ou Etimologia: estudo da
origem e da evolução
palavras). O dicionário é uma compilação de palavras que aparecem das palavras.
organizadas em ordem alfabética e que fornecem, além das definições,
informações sobre sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramati-
cal, etimologia etc. ou, pelo menos, algumas dessas informações. Por isso, ler um
verbete de dicionário não é tão simples. Abrimos um dicionário em busca de uma
informação e encontramos várias outras, algumas difíceis de decifrar, pois apare-
cem abreviadas e num código que, em geral, não dominamos.

48 Língua Portuguesa
Você conhece ou já ouviu falar em “chave do dicionário”? A chave do dicio-
nário é um texto que mostra como um verbete está organizado. Consultando a
chave do dicionário, que em geral aparece nas primeiras páginas dos grandes di-
cionários, fica mais fácil entender as abreviações, siglas e datas do texto de um
verbete.
Veja alguns exemplos de abreviações usadas:

acp. Acepção ou acepções

adj. Adjetivo

ANT Antônimo

cf. Confira, confronte

fig. Sentido figurado

SIN/VAR Sinônimos e variantes

s.f. Substantivo feminino

s.m. Substantivo masculino

Veja como o verbete beleza é apresentado no Dicionário Houaiss.

beleza. /ê/ s.f. (1572 cf. IAVL) 1. Qualidade, propriedade,


caráter ou virtude do que é belo; manifestação característica
do belo. 2. Caráter do ser ou da coisa que desperta
sentimento de êxtase, admiração ou prazer através de
sensações visuais, gustativas, auditivas, olfativas, etc.
<a b. sobre-humana da Missa em Si Bemol menor, de Bach>
<aquela bacalhoada estava uma b.> [...]

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss


da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

É preciso consultar a chave do dicionário, para entender as informações que


aparecem logo no início do verbete. Observe quantas informações:

t O /ê/ mostra que o “e” da palavra beleza é pronunciado fechado, como


em “meu”, “cadeira”, “vê”, e não aberto, como em “mel”, “caderno”, “pé”;
t s.f. significa “substantivo feminino”;
t as informações que aparecem entre parênteses referem-se à data em
que a palavra beleza entrou no português e a fonte da datação (no caso,
IAVL é a sigla de Índice Analítico do Vocabulário de Os Lusíadas);

7º ano 49
t os números “1” e “2” referem-se aos significados da palavra (no caso
desse verbete, há mais significados que não foram transcritos);
t o que aparece entre os sinais < > são exemplos de usos (repare que “b.”
representa a palavra “beleza” abreviada).

Como você viu, são muitas informações. Não há espaço aqui para colocar
todas. Vale lembrar que todo verbete no dicionário aparece na forma não flexio-
nada, ou seja, apresenta as palavras no singular, no gênero masculino, no grau
neutro e os verbos no infinitivo. Por exemplo, se em um texto você encontrasse a
palavra “balbuciamos”, pela terminação seria possível deduzir que é um verbo. No
dicionário você procuraria balbuciar... Confira!
As enciclopédias buscam apresentar um balanço dos conhecimentos huma-
nos, refletindo as correntes de ideias e de opiniões, aspirações e tendências, além
de registrar realizações. Em uma enciclopédia, geralmente os conhecimentos são
expostos de maneira ordenada, metódica, e os verbetes estão dispostos em ordem
alfabética, como nos dicionários. Eles aparecem na forma de artigos, de maior ou
menor extensão, de assuntos específicos ou de assuntos gerais. Uma equipe de
autores, sob uma coordenação ou direção, é quem elabora a enciclopédia. A En-
ciclopédia ou Dicionário racional das ciências, das artes e dos ofícios, citada ante-
riormente, contou com a ajuda de diversos especialistas e demorou mais de vinte
anos para ficar pronta.
Os verbetes das enciclopédias respondem a perguntas de informação imediata:
quem, que, qual, como, quando, por quê. São muito úteis como fonte inicial para
pesquisas rápidas e como ponto de partida para a aprendizagem de um assunto,
pois, além das informações sobre o tema pesquisado, o verbete enciclopédico in-
dica outros verbetes que podem ser buscados para aprofundamento do tema. Nas
enciclopédias digitais, os links, como são chamadas essas possibilidades de remis-
sões, aparecem destacados (normalmente na cor azul) e, para acessá-lo, basta cli-
car em cima da palavra destacada. Vale lembrar que “remissão” tem a ver com “re-
meter”, “encaminhar” a pesquisa para outros verbetes que aprofundam a pesquisa.
As enciclopédias digitais são acessadas por computadores conectados à in-
ternet. É preciso ficar muito atento às informações que encontramos na internet,
pois chegam em grande número de fontes nem sempre confiáveis. A Wikipédia é
chamada “enciclopédia livre”, porque qualquer pessoa, mesmo que não seja um
especialista, pode participar na elaboração do texto dos verbetes. Claro que o com-
promisso que se espera de quem escolhe participar do processo de elaboração de
um verbete é o de oferecer a informação mais precisa possível, mas não se pode ter
garantia disso, por isso essa fonte de consulta não é totalmente segura.
A Wikipédia, como outras enciclopédias digitais, pode ser acessada por qual-
quer computador conectado à internet. Ela é uma coleção
de muitas páginas interligadas e, justamente porque pode GLOSSÁRIO
Editado: publicado.
ser visitada e editada por qualquer pessoa, é constantemente
Metódico: ordenado, organizado.
ampliada, sempre recebendo novos verbetes e atualizações.

50 Língua Portuguesa
LER VERBETE I

Vamos ler e comparar três verbetes transcritos de três obras de referência diferentes.

Texto 1 Migração
História dos movimentos migratórios
Migrações são deslocamentos de população de um território para outro, para
aí se estabelecerem por tempo indeterminado. As migrações têm sido uma constante
na história da humanidade, mas as suas causas, características e consequências têm
mudado ao longo do tempo. Calcula-se que nos primeiros anos do séc. XXI cerca
de 150 000 000 de pessoas viviam fora de seus países de origem. As migrações
acompanharam a humanidade desde os seus inícios, na longa etapa do nomadismo,
quando a população se deslocava à procura de alimentos. Com o desenvolvimento da
agricultura, a espécie humana tornou-se sedentária, mas os movimentos migratórios
continuaram devido a inúmeras causas e manifestando-se por diversas causas. [...]

Consequências das migrações


As migrações constituem o fenômeno mais complexo da dinâmica demográfica,
devido especialmente às suas inúmeras consequências sociais, econômicas e culturais.
Ņ 'HPRJU£ŬFDV DV FRQVHTX¬QFLDV LPHGLDWDV QD VRFLHGDGH HPLVVRUD V¥R
redução da pressão demográfica, o repentino envelhecimento da estrutura de idade
da população e o despovoamento das áreas rurais. Pelo contrário, na sociedade
receptora a pirâmide etária revela um súbito rejuvenescimento, causado tanto pelo
aumento da taxa de natalidade quanto pela chegada de adultos jovens.
Ņ(FRQ¶PLFDVDWXDOPHQWHDPDLRULDGDVFRQVHTX¬QFLDVHFRQ¶PLFDVDVVRFLDGDV
aos movimentos migratórios são situações de instabilidade no trabalho, precariedade,
vulnerabilidade e desamparo social, muitas vezes relacionada à situação ilegal do
imigrante. Nas sociedades emissoras, as consequências positivas são a progressiva
redução da pobreza, a tendência para o equilíbrio da balança de pagamentos, com as
remessas de divisas que os imigrantes enviam às suas famílias, e a potencial renovação
que se manifesta com os retornos. Por outro lado, uma consequência negativa é a perda
de pessoal qualificado, que nem sempre é associada a situações de conflito político.
Para o conjunto das sociedades receptoras considera-se uma consequência positiva o
aumento de mão de obra, quando esta não concorre diretamente com os trabalhadores
nacionais, e a sua contribuição para fortalecer o sistema previdenciário da região.
Ņ6RFLDLVRPLJUDQWHGHYHVHLQWHJUDUHPXPQRYRPRGRGHYLGDYROWDUDVH
socializar, o que constitui um desafio tanto para ele quanto para a sociedade receptora.
No entanto, a realidade da migração mostra frequentemente situações de desamparo,
de marginalidade e de discriminação, que podem originar guetos urbanos e atos
violentos de caráter xenófobo.
Ņ&XOWXUDLVQDVVRFLHGDGHVHPLVVRUDVRPRYLPHQWRGHJUDQGHVFRQWLQJHQWHV
de população favorece a estagnação dos elementos culturais tradicionais, impedindo
a criação de uma nova ordem social e favorecendo a exposição às influências culturais
externas. No âmbito das sociedades receptoras, se não houver atitudes xenófobas ou
racistas, a aceitação do imigrante tem como consequência um enriquecimento cultural
e é um passo importante para a tolerância e para o universalismo. [...]
Enciclopédia Barsa Universal. São Paulo: Editorial Planeta, 2007. p. 3 948-3 949.

7º ano 51
Biblioteca do Congresso, Washington.

Ilustração do fim do século XIX mostra imigrantes chegando à costa dos Estados Unidos. Publicada em Frank Leslies Ilustrated Newspaper.

Texto 2 Migração humana


As migrações humanas tiveram lugar, em todos os tempos, e numa variedade
de circunstâncias. Têm sido tribais, nacionais, internacionais, de classes ou individuais.
As suas causas têm sido políticas, econômicas, religiosas, étnicas ou por mero amor
à aventura. As suas causas e resultados são fundamentais para o estudo da etnologia,
história política ou social, e para a economia política.
Nas suas origens naturais, podem referir-se às migrações do Homo erectus,
depois seguidas das do Homo sapiens, saindo de África, através da Euroásia, sem
dúvida, usando algumas das rotas disponíveis, pelas terras, para o norte dos Himalaia,
TXHVHWRUQDUDPSRVWHULRUPHQWHD5RWDGD6HGDHDWUDY«VGR(VWUHLWRGH%HULQJ
6REDIRUPDGHFRQTXLVWDDSUHVV¥RGDVPLJUD©·HVKXPDQDVDIHWDDVJUDQGHV
épocas da história (e.g. a queda do Império Romano no Ocidente); sob a forma de
migração colonial, transformou todo o mundo (e.g. a Pré-História e a GLOSSÁRIO
história dos povoados da Austrália e Américas). E.g.: abreviatura da expressão
A migração forçada tem sido um meio de controle social dentro em latim exempli gratia, que
significa “por exemplo”.
de regimes autoritários; mesmo sob livres iniciativas, é o mais poderoso

52 Língua Portuguesa
factor no meio social de um país (e.g. o crescimento da população urbana). Incluem-se
neste caso as migrações pendulares referidas abaixo e também as grandes imigrações,
em que os migrantes se fixaram num país diferente, trazendo sua cultura e adotando
a do país de acolhimento. Os recentes estudos de migrações vieram complicar esta
visão dualista. Como exemplo, refira-se que boa parte dos migrantes, que nos dias de
hoje mudam de país, continuam a manter práticas e redes de relações sociais que se
estendem entre o país de origem e o de destino, interligando-os na sua experiência
migratória. Trata-se de um “transnacionalismo” que transcende os conceitos de
migração temporária e migração permanente.
Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Migração_humana>. Acesso em: 28 jun. 2012.

Texto 3 migração. s.f. (1817 – 1819 cf. Elicomp) 1 movimentação


de entrada (imigração) ou saída (emigração) de indivíduo ou
grupo de indivíduos, ger. em busca de melhores condições
de vida (essa movimentação pode ser entre países diferentes
ou dentro de um mesmo país.) Cf. emigração e imigração.
2 ECO deslocamento periódico de espécies de animais de
uma região para outra, ger. associado a mudanças cíclicas
de características ambientais. Cf. dispersão. ETIM lat.
migratio,onis ‘passagem de um lugar para outro, emigração’;
ver migra-

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss


da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

1. Os três textos contêm informações gerais e dão uma visão ampla do que é “migração”. Dois deles
preocupam-se em esclarecer “migração” como fato e um deles, como termo. Quais realizam a
primeira tarefa? Qual realiza a segunda?
2. Qual é a diferença entre “imigração” e “emigração”? Em qual dos três verbetes aparece essa diferença?
3. As pessoas que moravam no Nordeste do Brasil na década de 1960 e se mudaram para o Centro-
-Oeste a fim de trabalhar na construção de Brasília podem ser consideradas imigrantes? Compro-
ve com dados extraídos dos textos lidos.
4. Em que circunstância as pessoas citadas na questão anterior seriam emigrantes?
5. O primeiro verbete foi retirado de uma enciclopédia digital, o segundo verbete, de uma enciclo-
pédia impressa. Essa afirmação está correta? Justifique.
6. Localize nos dois primeiros verbetes informações que sejam similares quanto ao conteúdo.
7. No primeiro verbete, lemos que o desafio do migrante é se integrar em um novo modo de vida,
voltar a se socializar. Você concorda com essa ideia? Por quê?

GRIFAR/SUBLINHAR TEXTOS
É comum observar na escola pessoas lendo e destacando trechos dos textos
com lápis ou canetas próprias para esse tipo de marcação. Geralmente, quando

7º ano 53
grifam/sublinham passagens dos textos, têm a intenção de deixar prontamente ao
alcance dos olhos ideias que consideram importantes, ideias que ajudam a lem-
brar outras, que revelam a maneira como o texto está organizado. Mas, antes de
sair grifando o texto, é importante ter clara a razão pela qual você vai grifá-lo/
sublinhá-lo. O que você pretende destacar? Que informação específica deseja en-
contrar no texto? As ideias principais de um texto são as mesmas para todos?

LER VERBETE II

Vamos fazer uma experiência... Leia novamente o trecho de um dos verbetes estudados na
atividade anterior e, usando um lápis, sublinhe as ideias que você considerar mais importantes.

Consequências das migrações


As migrações constituem o fenômeno mais complexo da dinâmica demográfica,
devido especialmente às suas inúmeras consequências sociais, econômicas e culturais.
Ņ 'HPRJU£ŬFDV DV FRQVHTX¬QFLDV LPHGLDWDV QD VRFLHGDGH HPLVVRUD V¥R
redução da pressão demográfica, o repentino envelhecimento da estrutura de idade da
população e o despovoamento das áreas rurais. Pelo contrário, na sociedade receptora
a pirâmide etária revela um súbito rejuvenescimento, causado tanto pelo aumento da
taxa de natalidade quanto pela chegada de adultos jovens.
Ņ(FRQ¶PLFDVDWXDOPHQWHDPDLRULDGDVFRQVHTX¬QFLDVHFRQ¶PLFDVDVVRFLDGDV
aos movimentos migratórios são situações de instabilidade no trabalho, precariedade,
vulnerabilidade e desamparo social, muitas vezes relacionada à situação ilegal do
imigrante. Nas sociedades emissoras, as consequências positivas são a progressiva
redução da pobreza, a tendência para o equilíbrio da balança de pagamentos, com as
remessas de divisas que os imigrantes enviam às suas famílias, e a potencial renovação
que se manifesta com os retornos. Por outro lado, uma consequência negativa é a
perda de pessoal qualificado, que nem sempre é associada a situações de conflito
político. Para o conjunto das sociedades receptoras considera-se uma consequência
positiva o aumento de mão de obra, quando esta não concorre diretamente com os
trabalhadores nacionais, e a sua contribuição para fortalecer o sistema previdenciário
da região.
Ņ6RFLDLVRPLJUDQWHGHYHVHLQWHJUDUHPXPQRYRPRGRGHYLGDYROWDUDVH
socializar, o que constitui um desafio tanto para ele quanto para a sociedade receptora.
No entanto, a realidade da migração mostra frequentemente situações de desamparo,
de marginalidade e de discriminação, que podem originar guetos urbanos e atos
violentos de caráter xenófobo.
Ņ&XOWXUDLVQDVVRFLHGDGHVHPLVVRUDVRPRYLPHQWRGHJUDQGHVFRQWLQJHQWHV
de população favorece a estagnação dos elementos culturais tradicionais, impedindo
a criação de uma nova ordem social e favorecendo a exposição às influências culturais
externas. No âmbito das sociedades receptoras, se não houver atitudes xenófobas ou
racistas, a aceitação do imigrante tem como consequência um enriquecimento cultural
e é um passo importante para a tolerância e para o universalismo.
Enciclopédia Barsa Universal. São Paulo: Editorial Planeta S.A., 2007. p. 3 948-3 949.

54 Língua Portuguesa
1. Agora, compare o que grifou com os grifos de um colega.
a) Os trechos que você grifou coincidiram com os grifados por seu colega? Conversem sobre as
justificativas que cada um pensou para grifar uma ou outra passagem do texto.
b) Há trechos longos grifados? Há palavras soltas grifadas? Isso é bom ou ruim para a posterior
recuperação das informações?
2. Suponha que lhe fosse solicitado localizar e grifar, no verbete, apenas as consequências das migra-
ções para “sociedade emissora”, isto é, para o fluxo migratório relacionado à saída dos indivíduos.
Que trechos, a partir do objetivo de leitura proposto, seriam grifados? Para responder, use agora,
para sublinhar, uma caneta. Quando terminar, confira se o que destacou coincide com o que seu
colega grifou.

ESTRATÉGIAS DE ESTUDO: GRIFAR/SUBLINHAR E FICHAR TEXTO

Marcar passagens do texto, tendo um objetivo específico de leitura, como en-


contrar uma informação, uma definição, um conjunto de argumentos ou concei-
tos, pode facilitar muito seu diálogo com o que é lido.
Reflita sobre algumas estratégias que você pode considerar toda vez que estu-
dar e grifar um texto:

t antes de grifar, é fundamental ler o texto inteiro pelo menos uma vez.
Conhecendo o texto, você perceberá como ele está estruturado e o que
precisa ser destacado de acordo com seus objetivos de leitura;
t evite grifar parágrafos inteiros. Grife o essencial, sempre considerando
os objetivos de leitura;
t há parágrafos que têm a função de retomar ideias já apresentadas; ou-
tros apresentam exemplos. Nesses casos (ou quando há alguma repeti-
ção), não é preciso grifar as ideias, mesmo que tenham sido apresenta-
das de um jeito diferente;
t é possível também grifar ou sublinhar apenas palavras-chave, ou seja,
termos importantes. Mas, nesse caso, convém escrever na margem do
texto as ideias completas representadas pelas palavras.

Quando o texto está sublinhado, fica fácil posteriormente recuperar as ideias


que foram consideradas importantes, de acordo com os objetivos de leitura. Va-
mos ver um exemplo no quadro a seguir. Na primeira coluna, aparece um frag-
mento de “A origem da linguagem”, texto da filósofa Marilena Chaui. Na segunda
coluna, aparece o mesmo texto grifado, de acordo com um objetivo de leitura. Na
terceira coluna, aparecem as justificativas dos grifos.

7º ano 55
Objetivo da leitura: explicar as
Texto a ser estudado Justificativas
origens da linguagem

A origem da linguagem A origem da linguagem O primeiro parágrafo não foi grifado, pois
apenas informa que a filosofia sempre se
Durante muito tempo Durante muito tempo preocupou em definir a origem da linguagem.
a filosofia preocupou-se em a filosofia preocupou-se em Mas não há nesse parágrafo nenhuma ideia que
definir a origem e as causas definir a origem e as causas explique a origem da linguagem.
da linguagem. da linguagem.
Já o segundo parágrafo apresenta como a
Uma primeira divergência Uma primeira divergência questão da origem da linguagem foi pensada ao
sobre o assunto surgiu na sobre o assunto surgiu na longo do tempo. Repare que a expressão entre
Grécia: a linguagem é natural Grécia: a linguagem é natural parênteses não foi grifada, pois repete a ideia do
aos homens (existe por aos homens (existe por que é “natural”.
natureza) ou é uma convenção natureza) ou é uma convenção A conclusão a que os filósofos chegaram
social? Se a linguagem for social? Se a linguagem for séculos mais tarde é informação importante e
natural, as palavras possuem natural, as palavras possuem está relacionada ao objetivo de leitura.
um sentido próprio e um sentido próprio e
necessário; se for convencional, necessário; se for convencional, Repare que a expressão “isto é” aparece quatro
são decisões consensuais da são decisões consensuais da vezes no parágrafo. Essa expressão é usada para
sociedade e, nesse caso, são sociedade e, nesse caso, são esclarecer ou explicar passagens do texto que
arbitrárias, isto é, a sociedade arbitrárias, isto é, a sociedade os autores consideraram de difícil compreensão
poderia ter escolhido outras poderia ter escolhido outras para o leitor. Isso quer dizer que a mesma coisa
palavras para designar as palavras para designar as está sendo dita de modos diferentes. Nesse
coisas. Essa discussão levou, coisas. Essa discussão levou, caso, o leitor poderia escolher grifar a passagem
séculos mais tarde, à seguinte séculos mais tarde, à seguinte que considerasse mais clara para ele.
conclusão: a linguagem como conclusão: a linguagem como
capacidade de expressão dos capacidade de expressão dos Compare. Leia só as ideias grifadas:
seres humanos é natural, isto é, seres humanos é natural, isto é,
mas as línguas são convencionais, isto é, surgem
os humanos nascem com uma os humanos nascem com uma
de condições históricas, geográficas, econômicas e
aparelhagem física, anatômica, aparelhagem física, anatômica,
políticas determinadas, ou, em outros termos, são
nervosa e cerebral que lhes nervosa e cerebral que lhes
fatos culturais. Uma vez constituída uma língua,
permite expressarem-se pela permite expressarem-se pela
ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado
palavra; mas as línguas são palavra; mas as línguas são
de necessidade interna, passando a funcionar como
convencionais, isto é, surgem convencionais, isto é, surgem
se fosse algo natural, isto é, como algo que possui
de condições históricas, de condições históricas,
suas leis e princípios próprios, independentes dos
geográficas, econômicas e geográficas, econômicas e
sujeitos falantes que a empregam.
políticas determinadas, ou, políticas determinadas, ou,
em outros termos, são fatos em outros termos, são fatos
culturais. Uma vez constituída culturais. Uma vez constituída Ou
uma língua, ela se torna uma uma língua, ela se torna uma mas as línguas são convencionais, isto é,
estrutura ou um sistema estrutura ou um sistema surgem de condições históricas, geográficas,
dotado de necessidade interna, dotado de necessidade interna, econômicas e políticas determinadas, ou, em
passando a funcionar como passando a funcionar como outros termos, são fatos culturais. Uma vez
se fosse algo natural, isto é, se fosse algo natural, isto é, constituída uma língua, ela se torna uma
como algo que possui suas como algo que possui suas estrutura ou um sistema dotado de necessidade
leis e princípios próprios, leis e princípios próprios, interna, passando a funcionar como se fosse
independentes dos sujeitos independentes dos sujeitos algo natural, isto é, como algo que possui suas
falantes que a empregam. falantes que a empregam. leis e princípios próprios, independentes dos
[...] [...] sujeitos falantes que a empregam.
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Os trechos grifados são diferentes, mas as
Ática, 1999. p. 139-141. Ática, 1999. p. 139-141.
ideias são similares.

O exemplo deixa claro que, antes de sair grifando o texto, é importante ter
clara a razão pela qual você vai grifá-lo/sublinhá-lo, isto é, o objetivo de leitura.
Só assim é possível selecionar algumas ideias e descartar outras.

56 Língua Portuguesa
FICHAMENTO
Depois de selecionar as ideias (sempre considerando os objetivos de leitura),
você pode reescrever o que foi destacado. Chamamos de fichamento esse registro
das ideias destacadas.
Fichamento é uma maneira de registrar as informações obtidas na leitura de
um texto de forma organizada. Essas ideias são escritas para ser consultadas em
estudos posteriores.
Importante: em um fichamento constam somente as ideias relacionadas aos
objetivos de leitura, ou seja, as informações que você está buscando.

LER VERBETE III

Vamos ler agora outro trecho do verbete Migração da Enciclopédia Barsa Universal. Você vai
grifar passagens desse fragmento, considerando um objetivo de leitura que será proposto. Depois,
você vai fazer um fichamento.

1. Suponha que numa aula de Geografia o professor tenha solicitado a você que pesquisasse os
processos de migração ocorridos no Brasil. Localize e grife as características desse processo e as
consequências para o nosso país. Tendo em mãos o texto a seguir, sublinhe o que julgar impor-
tante para cumprir esses objetivos.

O Brasil e as imigrações
$ LPLJUD©¥R WHYH LQ¯FLR QR %UDVLO D SDUWLU GH  TXDQGR FRPH©RX D VH
estabelecer um sistema relativamente organizado de ocupação e exploração da
WHUUD $ WHQG¬QFLD DFHQWXRXVH D SDUWLU GH  TXDQGR R WHUULWµULR IRL GLYLGLGR HP
FDSLWDQLDV KHUHGLW£ULDV H VH IRUPDUDP Q¼FOHRV VRFLDLV LPSRUWDQWHV HP 6¥R 9LFHQWH
e Pernambuco. Foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador, pois
contribuiu para formar a população que se tornaria brasileira, sobretudo num processo
de miscigenação que incorporou portugueses, negros e indígenas.
$PDUFDGDLPLJUD©¥RQR%UDVLOSRGHVHUSHUFHELGDHVSHFLDOPHQWHQDFXOWXUD
HQDHFRQRPLDGDVGXDVPDLVULFDVUHJL·HVEUDVLOHLUDV6XGHVWHH6XO$FRORQL]D©¥R
IRLRREMHWLYRLQLFLDOGDLPLJUD©¥RQR%UDVLOYLVDQGRDRSRYRDPHQWRH¢H[SORUD©¥RGD
terra por meio de atividades agrárias. A criação das colônias estimulou o trabalho rural.
Deve-se aos imigrantes a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas, como
a rotação de culturas, assim como o hábito de consumir mais legumes e verduras. A
influência cultural do imigrante também é notável.
Após a abolição da escravatura, em apenas 10 anos (de 1890 a 1900) entraram
QR%UDVLOPDLVGHLPLJUDQWHVRGREURGRQ¼PHURGHHQWUDGDVQRVDQRV
anteriores (1808-1888). Acentua-se também a diversificação por nacionalidades das
correntes migratórias, fato que já ocorria nos últimos anos do período anterior. No séc.
XX, o fluxo migratório apresentou irregularidades em decorrência de fatores externos –
as duas guerras mundiais, a recuperação europeia no pós-guerra, a crise japonesa – e,
igualmente, devido a fatores internos. No começo do séc. XX, por exemplo, assinalou-se
HP6¥R3DXORXPDVD¯GDGHLPLJUDQWHVVREUHWXGRLWDOLDQRVSDUD$UJHQWLQD1DPHVPD
época, verifica-se o início da imigração nipônica, que alcançaria, em 50 anos, grande

7º ano 57
significado. No recenseamento de 1950, os japoneses constituíam a quarta colônia no
%UDVLOHPQ¼PHURGHLPLJUDQWHVFRPGRVHVWUDQJHLURVUHFHQVHDGRV
Quanto às emigrações, metade dos brasileiros que vivem no exterior está
nos EUA. A estimativa oficial do governo brasileiro é de que a comunidade brasileira
HPVRORHVWDGXQLGHQVHFKHJXHDWXDOPHQWHDGHLPLJUDQWHVHQWUHOHJDLVH
ilegais. O número é o maior registrado, segundo especialistas, a crescente emigração
GH EUDVLOHLURV « XP SURFHVVR ŀVHP YROWDŁ UHVLGLQGR QR H[WHULRU HQWUH  H
GHEUDVLOHLURV'HSRLVGRV(8$DVSULQFLSDLVFRQFHQWUD©·HVV¥RQR3DUDJXDL
no Japão e em Portugal.
Enciclopédia Barsa Universal. São Paulo: Editorial Planeta, 2007. p. 3 949.

2. Compare os trechos que você grifou com os grifados por seus colegas.
3. Escreva em um quadro as informações que estão faltando, como no modelo a seguir. Escreva os ob-
jetivos de leitura que foram propostos e as ideias que foram selecionadas (grifadas) no exercício 1.

Fonte:

Título: O Brasil e as migrações

Objetivos da leitura:

Ideias destacadas:

EXPLORANDO O UNIVERSO TEXTUAL


O fragmento que você leu na página anterior traz muitas informações sobre o
processo de migração no Brasil: informa quando a imigração começou, quando
ela se acentuou, como foi o fluxo de entrada dos imigrantes, quais as nacionalida-
des das correntes migratórias, os dados sobre a migração nipônica e sobre as emi-
grações. Mas muitas dessas informações não apareceram no fichamento do texto.
Os objetivos de leitura propostos no exercício 1 eram destacar as características
e as consequências dos processos migratórios no Brasil. Assim, características −
como “foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador”; “um pro-
cesso de miscigenação que incorporou portugueses, negros e indígenas”; “diversi-
ficação por nacionalidades das correntes migratórias” – e consequências – como

58 Língua Portuguesa
“a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas”; “a rotação de culturas”;
“o hábito de consumir mais legumes e verduras” – teriam de ser grifadas no texto.
Para elaborar o fichamento, foi preciso primeiro selecionar as informações,
considerando os objetivos de leitura, e, a partir do texto-fonte, elaborar um se-
gundo texto que servirá de ótimo material de estudo.

APLICAR CONHECIMENTOS

A proposta agora é ler outro verbete (fragmento) e praticar os procedimentos de estudo tra-
balhados neste capítulo: grifar e fazer fichamento.
Grife no verbete a seguir as definições de literatura e as diferenças entre os textos ficcionais e
não ficcionais. Depois, escreva um fichamento do texto, considerando o que você destacou.

Museu d’Orsay, Paris


LITERATURA, em sentido mais amplo, é tudo aquilo
que tenha sido escrito. Inclui livros de histórias em quadrinhos e
opúsculos sobre pragas que atacam as batatas, assim como os
URPDQFHVGH0DFKDGRGH$VVLVHDVSH©DVGH:LOOLDP6KDNHVSHDUH
Em sentido mais restrito, há várias espécies de
“literatura”. Por exemplo, podemos ler literatura escrita numa
determinada língua, como a literatura francesa. Estudamos,
também, os trabalhos escritos sobre uma comunidade
especial – a literatura dos índios americanos. Frequentemente
falamos da literatura de um certo período histórico, como a
literatura do século XIX. Referimo-nos, ainda, à literatura de
um assunto específico, como a literatura da jardinagem.
Mas a palavra literatura, no seu sentido mais limitado,
significa mais do que palavras impressas. A literatura é uma
das artes. Distinguimos entre literatura e livros meramente
divertidos, do mesmo modo como distinguimos entre
um jogo de futebol profissional e um jogo entre amigos,
sem técnica e organização. Quando um trabalho escrito é Pierre A. Renoir. Mulher lendo, 1847. Óleo
considerado obra literária, estamos fazendo essa distinção. sobre tela, 35,5 × 27,5 cm. Museu d’Orsay, Paris.

A literatura apresenta duas divisões capitais: a ficção


e a não ficção. A ficção é a criação literária que o autor produz a partir de sua própria
imaginação. Pode incluir fatos da vida real ou acontecimentos reais, mas o autor
combina esses fatos com situações puramente imaginárias. A maior parte da ficção é
narrativa, como os romances e os contos. A ficção inclui, também, o teatro e a poesia.
A não ficção é o escrito acerca de situações reais da vida. As formas principais de não
ficção incluem o ensaio, a história, a autobiografia, a biografia e o diário. [...]
Enciclopédia Delta Universal. Rio de Janeiro: Delta. 1979. vol. 9, p. 4840-4845.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Site Join Us – A história da Wikipédia, a maior enciclopédia do mundo


A história da Wikipédia com base no depoimento de pessoas que participaram da criação
dessa enciclopédia. Nos sites indicados há dois curtas-metragens que fazem parte de uma
série de filmes sobre colaboração.
Disponível em: <www.videolog.tv/video.php?id=442179> e <www.videolog.tv/video.php?id=442185>. Acesso em: 5 nov. 2012.

7º ano 59
Capítulo 4
LÍNGUA Deu no jornal!
PORTUGUESA

A expressão popular “Deu no jornal!” indica que um fato virou notícia. Notí-
cia, de modo geral, é uma informação sobre os últimos acontecimentos. Mas
notícia também significa algo mais específico.
Neste capítulo, você vai estudar os traços que definem a notícia como um gênero
jornalístico. Em especial, a que é publicada em jornais diários, na versão impressa.
Para iniciar essa reflexão, leia a letra de uma canção do compositor Célso Viá-
fora, com música de Vicente Barreto. Ouça a canção na internet. Utilize um site de
busca e pesquise o nome dos compositores e o título da canção.

Rubens Chaves/Pulsar Imagens

Favela da Rocinha, localizada na zona sul do Rio de Janeiro (RJ), 2011. A Rocinha é mencionada na canção de Célso Viáfora e Vicente Barreto, que você lerá a seguir. Que tipo de
notícia geralmente é veiculada sobre favelas nos jornais impressos e nos telejornais? Será que essas notícias dão conta de informar tudo o que acontece nesses espaços?

60 Língua Portuguesa
A notícia
Celso Viáfora e Vicente Barreto
O New York Times não deu uma linha
A BBC de Londres nem uma palavra Celso Viáfora nasceu em São Paulo em 1959. É
Mas ontem no Xingu um índio se afogou compositor, cantor e arranjador elogiado pela crítica.
E um guarda-marinha se atirou nas águas Tem parcerias com Vicente Barreto, Ivan Lins, Guinga,
Para salvar a sua vida Eduardo Gudin, Elton Medeiros, entre outros, e canções
gravadas por conhecidos intérpretes.
Na mesma hora um favelado da Rocinha O músico Vicente Barreto, nascido na Bahia, tem
Que tinha sete filhos arrumou mais um parcerias com Celso Viáfora, Paulo César Pinheiro, Tom
Era um menino loiro de olho azul Zé, Vinicius de Moraes, Gonzaguinha, Elton Medeiros,
Que tinha sido abandonado nu entre outros. Com Alceu Valença compôs a conhecida
Numa avenida Morena Tropicana. Suas canções também foram grava-
das por Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Chico César,
Gente má, Vânia Bastos, Tom Zé, Vania Abreu e Mônica Salmaso.
Gente linda

Dani Gurgel
Dia vem,
Noite finda
Em todo lugar
Vicente Barreto, Mão direita, Dabliú Discos, 1996. Faixa 8.
GLOSSÁRIO

BBC: sigla de British Broadcasting Corporation (Corporação Britânica


de Radiodifusão), emissora pública de rádio e televisão do Reino
Unido, fundada em 1922.
Rocinha: bairro localizado na zona sul do Rio de Janeiro, constituído
por uma das maiores favelas da cidade.
The New York Times: jornal diário da cidade de Nova York fundado em
1851 e distribuído em muitos países.

RODA DE CONVERSA

Reúna-se com seus colegas para debaterem juntos as seguintes questões.

1. Que razão se pode apontar para o fato de a BBC e The New York Times não noticiarem os dois
acontecimentos relatados na letra da canção?
2. Se, em vez de ter acontecido com um índio anônimo do Xingu, o fato tivesse acontecido com um
cantor famoso no Brasil, ele teria sido noticiado? E se tivesse acontecido com o filho desse cantor?
3. De modo geral, que traços um fato deve apresentar para virar notícia na imprensa?
4. De que forma você costuma se inteirar das notícias?
5. Você se interessa por notícias de alguma área específica? Qual(is)? Por quê?

QUE FATOS VIRAM NOTÍCIAS?


A palavra notícia está intimamente ligada à palavra notoriedade, que é a carac-
terística do que é conhecido, tem fama. Assim, podemos afirmar que são noticia-
dos os fatos importantes, que despertam o interesse das pessoas.
Por exemplo, se o governo baixou temporariamente o imposto sobre eletro-
domésticos e você estava pensando em comprar uma geladeira, ter conhecimento
dessa medida é importante para suas finanças.

7º ano 61
Vamos avaliar outro caso. Muitas pessoas morrem diariamente de causas na-
turais e não ficamos sabendo – a não ser em forma de dado estatístico. Mas e se
uma dessas pessoas fosse um escritor conhecido de todos os brasileiros e sua obra
fosse relevante para a literatura nacional? É um fato que causa impacto na nossa
vida, diferentemente do primeiro (a medida econômica). Interessamo-nos por
esses fatos, pois nos dizem respeito como leitores e como brasileiros.
Embora não haja consenso em relação ao que é de interesse público, consta-
tamos que em geral há interesse por um fato quando ele causa algum impacto,
tem a ver com pessoas importantes e com dinheiro, quando é raro, útil ou trágico,
quando constitui invenção, descoberta ou conflito, quando apresenta confidên-
cias e até quando provoca humor.
Há outro traço facilmente identificável nas notícias: a novidade. Afinal, nin-
guém precisa ficar sabendo daquilo que já sabe!
Em algumas línguas, usa-se a mesma palavra para designar “novo(a)” e “no-
tícia”. É o caso do inglês, que tem a palavra news, e do francês, que tem nouvelle.
Então, relatar um fato novo que desperta interesse público é produzir uma
notícia? Não exatamente. O fato novo que desperta interesse torna-se notícia se
for relatado segundo algumas regras; há um jeito próprio de produzir notícia.
Nas próximas seções vamos nos ater a essas questões.

A ESTRUTURA DA NOTÍCIA
Diariamente diversos fatos acontecem. Vamos considerar um, contado a seguir.

1. Algumas pessoas embarcaram num pequeno avião para um compromis-


so de trabalho em outra cidade.
2. Pouco antes de chegar ao aeroporto de destino, o avião colidiu com um
fio de alta-tensão e o quiosque de uma pousada.
3. O avião explodiu e as pessoas a bordo morreram.

Essa sequência de eventos (real ou imaginada) poderia ser narrada num ro-
mance, num filme, num poema. No romance ou filme, os autores explorariam
à vontade aspectos subjetivos, a fim de despertar a emoção do leitor. Eles, por
exemplo, narrariam com beleza as coincidências que levaram alguém a embarcar
(ou não) no último minuto, comporiam minuciosamente o perfil de um passagei-
ro para dar ideia do sofrimento vivido pelas pessoas próximas a ele. No poema,
por sua vez, os autores poderiam até se fixar unicamente na explosão, apenas su-
gerindo uma bela imagem ao leitor, mesmo sendo de destruição.
Quando, porém, um fato como esse acontece na realidade, ele costuma ser
imediatamente relatado numa notícia. Aí, a palavra de ordem é ater-se unicamen-
te ao que se passou e apresentar todos os eventos possíveis para o leitor compor
um quadro objetivo.

62 Língua Portuguesa
Para realizar essa tarefa, a notícia procura responder a algumas questões:
quem fez o quê? Quando? Onde? Por quê? Como? Se necessário, são apresentados
dados relativos às implicações e consequências do fato. Veja um exemplo.

O Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Distrito Federal comemoraram


ontem o Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais com uma ação de vacinação e
realização de testes rápidos na Escola Classe do P Norte, em Ceilândia. [...]
Correio Braziliense, 29 jul. 2012. Cidades, p. 27.

Quem? O Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Distrito Federal

O quê? Comemoraram o Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais

Quando? Ontem

Onde? Na Escola Classe do P Norte, em Ceilândia

Como? Com uma ação de vacinação e realização de testes rápidos

As razões desse acontecimento (que responderiam à questão “Por quê?”) são


de fácil dedução, por isso esse elemento não precisou ser apresentado de pronto.
Mesmo assim, em outros três parágrafos da notícia, a motivação para a campanha
é esclarecida. Veja.

[...] “No DF, estima-se que 25 mil pessoas tenham a hepatite C [...], mas pouco
mais de mil casos são conhecidos. [...]
[...] “Estamos ampliando o acesso aos testes rápidos e ao tratamento. Sem
o teste, os sintomas podem demorar muito a se manifestar. O diagnóstico rápido
é o primeiro passo para a cura”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. [...]
[...] “Hoje em dia, são tratadas as duas modalidades de hepatite e elas têm cura.
O agravamento da hepatite pode levar à cirrose e até à necessidade de transplante”,
disse [o secretário de Saúde do DF, Rafael Barbosa].
Correio Braziliense, 29 jul. 2012. Cidades, p. 27.

Além das informações básicas contidas nas respostas às seis questões apre-
sentadas, uma notícia também pode fornecer informações complementares. A
notícia citada, por exemplo, indicou também quem foi atendido naquela inicia-
tiva, detalhes sobre o teste, o número de casos no Distrito Federal (estimados e
registrados), o atendimento disponível na rede pública (vacinação e tratamento)
e a forma de transmissão da doença.
As seis perguntas são fundamentais para entendermos como a notícia se es-
trutura, mas convém destacar o seguinte: esses itens podem ser organizados de
diferentes modos, ainda que seja para noticiar um mesmo fato.
Observe outras formulações possíveis para a notícia do Correio Braziliense:

7º ano 63
1 - Ontem, Dia Mundial de Luta contras as Quem?
Hepatites Virais , o Ministério da Saúde e a Secretaria
de Saúde do DF realizaram uma campanha de
esclarecimento e imunização na Escola Classe do P O quê?
Norte, em Ceilândia.
Quando?
Nesse caso, são exploradas as questões quan-
do, quem, o quê, onde.
Onde?
A ideia de comemoração da data não foi tão
evidenciada, mas estão presentes basicamente as
mesmas informações do texto original.
Como?
2 - Em comemoração ao Dia Mundial de Luta
contras as Hepatites Virais, o Ministério da Saúde e
Quem?
a Secretaria de Saúde do DF promoveram ontem, em
Ceilândia , uma campanha de vacinação e diagnóstico
das formas A e B da doença. O quê?

Nessa versão, percebem-se as questões “como”, Quando?


“quem”, “o quê”, “quando”, “onde”.
o oi apontado o local espec fico a escola
Onde?
por outro lado especificaram-se os tipos de hepatite.
campanha antes inclu da na uest o omo
aparece agora incluída na questão “o quê”.
Quem?
3 - Cerca de 600 alunos da Escola Classe
do P Norte, de Ceilândia, e moradores da região O quê?
participaram ontem de uma ação de esclarecimento e
imunização contra as hepatites A e B promovida pelo
Ministério da Saúde e pela Secretaria de Saúde do DF. Quando?

Aqui, encontram-se respondidas as questões “quem”, “o quê”, “quando”,


mas a questão “onde” foi indiretamente respondida na primeira delas.
A diferença em relação ao texto original é que não se fez menção à come-
moração da data.

A ORGANIZAÇÃO DA NOTÍCIA
As notícias podem ter diferentes tamanhos, conforme o espaço que o jornal
pretende dedicar a um fato. Por isso, as seis questões fundamentais (e seus com-
plementos) podem aparecer mais ou menos desenvolvidas.
Todavia, qualquer que seja a dimensão da notícia, alguns procedimentos são
bem comuns.

64 Língua Portuguesa
a) Começar com o que interessa

Para conhecer esse procedimento, retome a “historinha” do avião, menciona-


da antes (página 62).
Em uma notícia, os eventos não seriam contados naquela ordem. Quando se
trata de fato pontual, bem delimitado no tempo e no espaço, a notícia começa
com o evento principal, aquele que motivou a divulgação. No caso da historinha
do avião, fundamental é o acidente trágico. A partir daí pode-se seguir a ordem
cronológica ou ainda escolher outra sequência para apresentar os fatos.
O Jornal de Brasília deu uma nota sobre esse acontecimento. Veja como o
texto foi organizado.

Um avião bimotor caiu na manhã de ontem no município


de Juiz de Fora (MG), matando oito pessoas. Entre os passageiros,
estavam os executivos e funcionários da empresa Vilma queda do avião
e morte das pessoas a bordo
Alimentos, de Contagem. Eles participariam de uma convenção
interna da empresa.
O avião, um bimotor modelo B-200 GT com prefixo PR-
-DOC, decolou do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, decolagem
com destino a Juiz de Fora.
Por volta das 8h, o piloto perdeu o controle ao fazer os
procedimentos de pouso e, segundo o capitão da Polícia Militar
de Minas, Rubens Valério, o avião bateu em um quiosque da antecedentes da queda
Pousada Aconchego e caiu em uma região de mata fechada, e explosão
onde explodiu.
No momento do acidente, havia uma cerração muito baixa
na região. De acordo com os bombeiros, uma equipe com vinte situação climática, socorro
homens ainda está no local aguardando a realização da perícia.
Jornal de Brasília, 29 jul. 2012, p. 19.

Mesmo quando o fato não é pontual, como a queda de um avião, o que é rele-
vante aparece primeiro.

b) Lide e corpo

O outro procedimento comum na produção da notícia é organizá-la em lide


e corpo.
Lide é uma palavra que vem do inglês: lead (a pronúncia é “lid”). O termo
quer dizer “liderar, guiar, encabeçar”. Trata-se do primeiro parágrafo da notícia,
que apresenta resumidamente aquilo que se passou.
Ao ler o lide, o leitor já fica informado sobre o acontecimento. Você pode pen-
sar: então, se ele já sabe o que se passou, não precisa ler o resto. De certa forma é
isso mesmo. O lide serve para informar rapidamente, de modo que o leitor não
precise continuar a ler caso não esteja interessado. Releia o primeiro parágrafo da
nota reproduzida anteriormente . Ele conta o básico: caiu um avião em Minas e as
pessoas a bordo morreram.

7º ano 65
Ele funciona muito bem em um veículo como o jornal impresso, pois dificil-
mente há tempo para ler tudo que está ali.
Contudo, ao contrário do que pode parecer, em vez de acabar com a curiosi-
dade do leitor, o lide pode instigá-la. Quem estava a bordo? O que fez o avião cair?
Atingiu alguém no solo?
Examine outro exemplo de lide.
Pesquisadores reunidos no congresso da
Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, em Foz do
Quem?
Iguaçu, criticaram ontem o uso de produtos químicos nas
ações contra o mosquito da dengue no Brasil. Para eles, é O quê?
necessário que o setor de saúde busque uma atuação em
parceria com outras áreas, como a de saneamento, para
o controle da doença, além de alternativas a inseticidas e Quando?
larvicidas, que, afirmam, põem em risco a saúde humana.
LEITE, Fabiane. Pesquisadores criticam ação contra mosquito. In: O Estado de S. Paulo, 15 mar. 2010. Onde?
Algumas vezes, o lide pode se desdobrar em mais de um parágrafo. Nas no-
tícias em que o fato a ser divulgado não é um acontecimento pontual, mas um
processo, o lide pode ser menos convencional. Veja o exemplo a seguir. A fim
de chamar a atenção para o trabalho voluntário de um grupo de médicos, o lide
apresenta um caso atendido pelo grupo. É o chamado lide suspense.

Ortopedistas rodam o país para fazer cirurgias


A professora Zuila Nogueira dos Santos tinha 35 anos quando ouviu um diagnóstico
que mais parecia sentença: não voltaria a andar. A artrite, que desde os 12 anos lhe provocava
dores, havia evoluído para artrose e destruído o osso do encaixe do fêmur com a bacia.
Dependente de cadeira de rodas havia quatro meses, não teve outra alternativa senão
mandar o filho viver com o pai. Precisava de ajuda para as tarefas mais simples.
Zuila conta essa história em casa, aos 42 anos, no município de Porto Valter
(AC), a 12 horas de distância da capital, Rio Branco. Sorri ao falar dos momentos de
angústia – ao todo, locomoveu-se por um ano e sete meses com a cadeira de rodas.
Ao contrário do prognóstico inicial, Zuila voltou a andar. Ela foi uma das beneficiadas
pelo projeto Suporte, do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), em que uma
equipe com até 15 profissionais se desloca pelo país para realizar cirurgias ortopédicas de alta
complexidade. O programa começou como piloto, em 2003, e ganhou fôlego recentemente.
THOMÉ, Clarissa. O Estado de S. Paulo, 29 jul. 2012, p. A22.

Tudo que tem a ver com aquele evento brevemente relatado no lide será de-
senvolvido no corpo da notícia. O corpo tem um número de parágrafos variável,
que depende do espaço disponível e do destaque que se pretende dar ao fato. Nor-
malmente cada parágrafo do corpo responde a uma questão (dentre aquelas seis)
que ainda não tinha sido respondida no lide. Pode também desenvolver uma que
apenas tinha sido indicada de modo sucinto. Também é comum aparecerem no
corpo dados complementares que o tema exija.
Ao ler uma notícia, é importante observar o arranjo feito com as questões
fundamentais.

66 Língua Portuguesa
LER NOTÍCIA I

Você vai ler uma notícia produzida

Jornal Correio 24Horas


para divulgar a “historinha do avião”.
Observe em miniatura a página origi-
nal na qual a notícia circulou. Veja a notícia
destacada.
Antes de ler o texto, responda às ques-
tões a seguir:

1. Que parte da página a notícia ocupa?


2. No que diz respeito a tamanho, que posi-
ção a notícia ocupa em comparação com
outros textos?
3. De que forma o tipo de letra usado nos tí-
tulos reforça esse destaque? Que outro de-
talhe também contribui para destacá-la?
4. Em que jornal circulou essa notícia? Em
que dia? De que cidade ele é?
5. Os responsáveis pela notícia foram identifi-
cados nominalmente?
6. A notícia que você vai ler reproduz a notícia
do jornal ao lado e tem como subtítulo “Mi-
nas Gerais”. As outras cinco notícias apresen-
tam as seguintes referências em seus títulos ou
subtítulos: dois estados; São Paulo; Ribeirão
Preto; Rio; Maranhão. Com base nessa cons-
tatação, o que você conclui sobre o conteúdo dessa página do jornal?

Avião cai e oito pessoas morrem


MINAS GERAIS A queda de um avião bi- pousada numa região de mata fechada e termi-
motor causou a morte de oito pessoas na ma- nou explodindo. No momento do acidente havia
nhã de ontem em Juiz de Fora, Minas Gerais. uma leve neblina na região. Entre os passageiros
O avião, um bimotor modelo B-200 GT, que do bimotor, estavam executivos e funcionários
pertencia à empresa Vilma Alimentos, decolou da Vilma Alimentos, que tem sede na cidade de
do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, Contagem. Eles participariam de uma convenção
com destino à cidade de Juiz de Fora. Por volta da Federação das Indústrias do Estado de Minas
das 8h, o piloto perdeu o controle da aeronave Gerais (Fiemg) em Juiz de Fora. De acordo com
ao fazer os procedimentos de pouso. Segundo informações da Vilma Alimentos, uma das ví-
o capitão da polícia militar de Minas Rubens timas é o presidente do grupo e conselheiro do
Valério, o avião bateu em um quiosque de uma time do Cruzeiro, Domingos Costa. Seu filho

7º ano 67
caçula, um garoto de 13 anos, também morreu. divulgados até o início da noite de ontem. A
O vice-presidente da empresa, Cézar Tavares, caixa-preta do avião já foi encontrada e passa-
a gerente de Recursos Humanos, Adriana Vile- rá por análise. No momento do acidente, havia
la, e outros dois funcionários, além do piloto e aproximadamente 50 pessoas na pousada atin-
do copiloto, foram as outras vítimas. Os nomes gida pelo avião, mas ninguém se feriu.
destas quatro últimas vítimas não haviam sido Correio 24 horas. Salvador, 29 jul. 2012.
GLOSSÁRIO

Caixa-preta: aparelho no qual ficam


gravados os dados sobre o funcionamento
de uma aeronave e a comunicação entre
os membros da tripulação e entre esta e as
7. Em quantos parágrafos foi escrita a notícia? Que parte equivale a um lide? equipes de terra.

8. Releia o primeiro período da notícia.

A queda de um avião bimotor causou a morte de oito pessoas na manhã de


ontem em Juiz de Fora, Minas Gerais.

t Que respostas esse período dá às questões a seguir.

a) Quem? b) O quê? c) Quando? d) Onde?

9. Destaque no texto a parte que fornece detalhes sobre as vítimas do acidente.


10. Que detalhes a notícia fornece sobre o avião?
11. Releia este trecho.

O avião [...] decolou do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com


destino a Juiz de Fora. Por volta das 8h o piloto perdeu o controle da aeronave ao
fazer os procedimentos de pouso. [...] o avião bateu em um quiosque de uma pousada
numa região de mata fechada e terminou explodindo.

a) Complete a frase a seguir: “Trata-se de um detalhamento sobre como se deu...”


b) Ao longo da notícia, fica esclarecido a que horas o avião decolou, por que o piloto perdeu o
controle e se havia alguém no quiosque?
c) Por que provavelmente algumas das informações sobre o acidente não foram fornecidas?
12. Releia este trecho.

No momento do acidente, havia uma leve neblina na região.

a) De acordo com nosso conhecimento prévio, podemos dizer que a neblina pode comprometer
a segurança do voo, mas a notícia aparentemente não a responsabiliza. Que detalhe dado so-
bre a neblina diminui sua influência no acidente?
b) Se fosse desejável apontar a neblina como responsável pelo acidente, a frase na notícia poderia
ser, por exemplo:

Por volta das 8h, em razão da neblina na região, o piloto perdeu o controle da
aeronave ao fazer os procedimentos de pouso.

Sugira outra formulação para salientar essa ideia.

13. Que informação é dada sobre a investigação das causas do acidente?

68 Língua Portuguesa
14. Releia estes trechos.

Segundo o capitão da Polícia Militar de Minas Rubens Valério [...]

De acordo com informações da Vilma Alimentos [...]

a) Em sua opinião, qual é a importância dessas expressões na notícia?


b) Quanto às demais informações presentes na notícia, de que outras fontes elas puderam ser
obtidas? Por que você acha que essas fontes não foram todas citadas?

LER NOTÍCIA II

Em outra cidade brasileira, um


jornal também divulgou o acontecido Arquivo/ Agência Estado/ Estadão Conteúdo

com o avião. Observe como a notícia


estava disposta na página original.

1. Que parte da página a notícia ocupa?


2. Como você avalia essa notícia quanto
ao destaque na página?
3. O texto dessa notícia é maior ou me-
nor que o da anterior?
4. Em que jornal circulou essa notícia?
Em que dia? De que cidade ele é?
5. Os responsáveis pela notícia foram
identificados nominalmente?
6. Quanto ao tema, o que se pode afir-
mar sobre as notícias dessa página?
Agora leia o texto da notícia, na pá-
gina seguinte:

7º ano 69
Avião com 9 pessoas cai em Juiz
de Fora e explode
Nas primeiras horas das buscas, foram achados oito corpos
das vítimas; havia neblina intensa na hora da queda do bimotor.
Aline Reskalla
ESPECIAL PARA O ESTADO
Mariana Durão
Um avião bimotor que transportava nove Aeronáutica, seguiu do Rio para Juiz de Fora.
pessoas caiu na manhã de ontem no bairro do Ae- A equipe vai recolher destroços, avaliar as con-
roporto, em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Nas dições meteorológicas, o trajeto percorrido pela
primeiras horas das buscas, oito corpos foram aeronave e informações sobre as licenças do pi-
achados. A queda ocorreu em um local de difícil loto. As causas do acidente só poderão ser iden-
acesso. O bimotor, que explodiu, havia saído de tificadas após a realização da perícia.
Belo Horizonte e ia para Juiz de Fora. Ele levava Na Vilma Alimentos, com sede em Conta-
funcionários da empresa Vilma Alimentos. gem, na Região Metropolitana de Belo Hori-
Entre os passageiros estavam o presidente zonte, ninguém foi localizado. De acordo com
da empresa, Domingos Costa, o vice-presidente o registro da Agência Nacional de Aviação Ci-
de Marketing e Vendas, César Tavares, além de vil (Anac), a aeronave, um bimotor King Air
outros funcionários, o piloto e o copiloto. Até o modelo B 200, estava com a documentação re-
início da tarde de sábado, cerca de 20 homens do gular até 2015. O bimotor, de prefixo PRDOC,
Corpo de Bombeiros ainda procuravam o último tinha capacidade para transportar até dez pes-
ocupante da aeronave. soas. Ele decolou do Aeroporto da Pampulha,
De acordo com informações do Corpo de em Belo Horizonte.
Bombeiros, os representantes da companhia iam Pouso. Segundo o gerente do Aeroporto da
para um congresso da Federação das Indústrias Serrinha, Cipriano Magno de Oliveira, o avião
do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e para uma tinha o pouso previsto para às 7h45. De acordo
convenção interna da empresa. O acidente ocor- com ele, o comandante do bimotor chegou a fa-
reu quando o piloto se preparava para pousar no zer um contato minutos antes para ter informa-
aeroporto Serrinha. ções sobre as condições de pouso no aeroporto.
No momento do acidente havia intensa ne- “Eles conseguiram um contato com um fun-
blina no local. O avião teria atingido um fio de cionário que estava na torre por volta das 7h50.
alta-tensão antes de cair sobre o quiosque de uma Neste momento, foi informado que não havia
pousada, explodindo pouco antes das 8 horas. condições de pouso, que o tempo estava fechado
As buscas estavam sendo dificultadas porque o com visibilidade vertical de 100 pés (cerca de 33
lugar – uma área de mata fechada – é de difícil metros), sendo que o ideal seria de 600 pés (200
acesso. Ainda de acordo com os bombeiros, os metros).” O gerente acredita que é provável que
corpos das vítimas foram encontrados mutilados o piloto tenha tentado pousar na pista do aero-
e carbonizados. A Polícia Militar isolou a região. porto, sem sucesso.
Uma equipe do Serviço Regional de Inves- O Estado de S. Paulo, 29 jul. 2012, p. C6.
tigação e Prevenção de Acidentes (Seripa), da
GLOSSÁRIO

Torre: posto de observação nos aeroportos; tem altura elevada.

a) Em quantos parágrafos foi escrita a notícia? Visibilidade vertical: termo que indica a que distância do chão está a
base das nuvens; também chamada de “teto”.
b) Qual(is) parágrafo(s) corresponde(m) ao lide?

70 Língua Portuguesa
7. Releia o primeiro período da notícia.

Um avião bimotor que transportava nove pessoas caiu na manhã de ontem no


bairro do Aeroporto, em Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Que respostas esse período dá às questões a seguir:


a) Quem? b) O quê? c) Quando? d) Onde?

8. Marque no corpo da notícia os trechos que fornecem detalhes sobre:

a) as vítimas b) o avião c) os procedimentos d) a busca e o resgate


para a investiga- dos corpos
ção do acidente

9. Em relação aos trechos que você localizou na questão anterior:


a) Três itens tinham sido abordados no texto da seção Ler notícia I (página 67). Em qual(is) o
detalhamento dado na segunda notícia é maior que o da primeira?
( ) as vítimas ( ) o avião ( ) os procedimentos para investigação do acidente

b) Nas duas notícias mostradas neste capítulo (páginas 67 e 69), que diferença de informação há
quanto ao número de pessoas a bordo?
10. Releia:
O avião teria atingido um fio de alta-tensão antes de cair sobre o quiosque de
uma pousada [...].
a) Quanto ao modo como se deu o acidente, a segunda notícia apresenta um dado novo em com-
paração com a primeira notícia. Qual?
b) Suponha que a notícia apresentasse a seguinte formulação: “O avião atingiu um fio de alta-
-tensão”. O que a forma escolhida revela?
11. Releia este trecho.
No momento do acidente havia intensa neblina no local.
Quanto à situação do local no momento do acidente, as notícias mostradas no capítulo (páginas
67 e 69) divergem. Em quê?
12. No final, a segunda notícia apresenta uma parte cujo subtítulo é “Pouso”.
a) Nesse trecho, quem fornece as informações para o repórter?
b) O que essa pessoa relata quanto à conversa entre o piloto e a torre?
c) A pessoa que deu informações ao jornal tem uma hipótese sobre o que deve ter ocorrido após
a resposta da torre. Releia.
O gerente acredita que é provável que o piloto tenha tentado pousar na pista
do aeroporto, sem sucesso.
Na notícia, essa hipótese é apresentada como hipótese mesmo ou como declaração taxativa,
isto é, que não permite objeção?
d) Há alguma indicação que explique por que o piloto teria tomado essa decisão?

7º ano 71
LER NOTÍCIA III

A notícia que você vai ler faz parte de uma matéria de duas páginas sobre o acidente, publica-
da por um jornal de Minas Gerais. Observe o jornal e, em seguida, leia a notícia.
Jornal Estado de Minas/DAPress

1. Em que jornal circulou essa notícia? Em que dia?


2. Que explicação você pode dar para o espaço que a divulgação do acidente ocupou nesse jornal?
3. Os responsáveis pela matéria foram identificados nominalmente?
4. Que recursos não verbais acompanham os textos?
5. Há nas mesmas páginas matérias sobre outros fatos?

72 Língua Portuguesa
Tragédia sob investigação
PAULA SARAPU, VALQUIRIA LOPES,
ANA CLAUDIA BRANT Enviada especial

Juiz de Fora. Erro humano, falha mecânica e às 8h, um dos operadores respondeu, informan-
falta de visibilidade são algumas das hipóteses do sobre as condições climáticas desfavoráveis e
levantadas para tentar explicar o acidente com o a baixa visibilidade.
bimotor da empresa Vilma Alimentos que caiu “O teto é a altura que a nuvem está do chão.
ontem pela manhã em Juiz de Fora, matando Ele estava voando a menos de 30 metros, por-
oito pessoas. O que já se sabe é que o piloto que senão estaria dentro das nuvens, sem ver
da aeronave, Jair Barbosa, de 62 anos, uma das nada mesmo. Informamos sobre a instabilidade,
vítimas, estava ciente das condições desfavo- mas ele deve ter tentado pousar”, comentou um
ráveis para pouso no Aeroporto Francisco Ál- controlador de voo. O gerente acrescentou que,
vares de Assis, conhecido como Aeroporto da ao que tudo indica, o comandante já estava em
Serrinha, na cidade da Zona da Mata mineira. A procedimento de descida. “Para aterrissar”, o pi-
forte cerração na região desde as 6h30 havia im- loto segue de cinco a seis posições. Ele estava
possibilitado voos no terminal, que estava com na segunda quando perdemos a comunicação”,
atividades restritas. “Provavelmente, ao decolar declarou Cipriano.
de BH ele sabia que o clima estava complica- DECOLAGEM A aeronave decolou do ae-
do em Juiz de Fora, pois é natural se informar roporto de Pampulha às 7h07, quando o aeropor-
sobre as condições do tempo no destino”, dis- to da Serrinha ainda estava fechado. O bimotor
se o gerente do aeroporto, Cipriano Magno de modelo King Air B-200, prefixo PR-DOC, deve-
Oliveira. Além do piloto e do copiloto, Rodrigo ria pousar por volta das 8h10, mas a queda ocor-
Henrique Dias da Silva, de 35, havia seis passa- reu entre as 7h45 e as 7h55. A aeronave atingiu
geiros a bordo, entre eles o presidente da Vilma, o quiosque da Pousada Aconchego de Minas e a
Domingos Costa, o vice-presidente de Vendas rede elétrica da Rua Doutor Décio Guanabarino,
e Marketing, Cézar Roberto de Pinho Tavares, no Bairro Aeroporto, antes de arrastar árvores
três funcionários e o filho de Domingos, Gabriel e cair na granja de uma propriedade privada. O
Barreira Costa, de 14. Os corpos foram encon- bimotor explodiu a cerca de 200 metros da pista
trados parcialmente carbonizados. do aeroporto.
Cipriano explicou que o aeroporto operava De acordo com o gerente do terminal, caso
abaixo do limite mínimo previsto para pouso por decidisse não pousar em Juiz de Fora, o piloto
instrumentos, com teto de 100 pés (30 metros), teria a opção de arremeter e aterrissar em Guai-
quando o permitido é 600 pés (180 metros). A ná, a 40 quilômetros. Conforme Cipriano de Oli-
legislação aeronáutica não permite esse proce- veira, a aeronave também deveria ter combustí-
dimento para voos regulares e comerciais, mas, vel suficiente para retornar à capital. “O normal
no caso da aviação geral, como helicópteros, é que antes de decolar o abastecimento seja feito
aeronaves particulares e táxi aéreo, a decisão é para a ida e a volta”, disse.
de cada comandante. De acordo com Cipriano, Técnicos do Serviço Regional de Investiga-
o piloto fez contato com a sala de rádio para co- ção e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Se-
municar sua aproximação às 7h45 e, apesar de ripa) estiveram no local na tarde de ontem e re-
os controladores de voo só iniciarem o plantão colheram destroços do avião e outros materiais,
GLOSSÁRIO

Arremeter: aumentar subitamente a potência dos motores do avião e dirigir o Pouso por instrumentos/operação por instrumentos: execução de manobras por
seu bico para cima para distanciar-se do solo, interrompendo a aproximação orientação de equipamentos que dão ao avião orientação precisa de sua locali-
para aterrissagem. zação em relação à pista (nos casos em que não há visibilidade).
Controlador de voo: encarregado de separar o tráfego de aeronaves no espaço Sala de rádio: estação dotada de pessoal e equipamentos para controlar o
aéreo e nos aeroportos de modo seguro, ordenado e rápido. tráfego aéreo e dar apoio à navegação aérea.

7º ano 73
incluindo a caixa-preta. O coronel da Aero- crito como um piloto experiente, que trabalhava
náutica Paulo Sérgio Santos afirmou que serão para a empresa desde 2007.
levantadas todas as informações sobre as con- Os executivos viajavam para uma conferên-
dições climáticas do momento do acidente, e cia onde estariam cerca de 120 pessoas, na Fede-
que todo o material recolhido será analisado. ração das Indústrias do Estado de Minas Gerais
Porém, ele afirmou não haver como adiantar (Fiemg) em Juiz de Fora. Segundo a Agência
nenhuma conclusão sobre o que de fato acon- Nacional de Aviação Civil (Anac), a aeronave,
teceu. “O que sabemos é que as condições não fabricada em 2009, estava com a manutenção e o
estavam favoráveis, mas durante uma etapa final certificado de aeronavegabilidade em dia.
de pouso tudo pode acontecer”, afirmou, acres- (Colaboração de Thiago Lemos) Estado de Minas, 29 jul. 2012, p. 25.
centando que o comandante da aeronave foi des-

6. Releia o primeiro período da notícia.

Erro humano, falha mecânica e falta de visibilidade são algumas das hipóteses
levantadas para tentar explicar o acidente com o bimotor da empresa Vilma Alimentos
que caiu ontem pela manhã em Juiz de Fora, matando oito pessoas.

Encontre no texto acima respostas às questões a seguir.


a) Quem? b) O quê? c) Quando? d) Onde?

7. O lide dessa notícia apresenta diferenças em relação ao do texto da seção Ler notícia II (página
69). Aponte algumas.
8. Marque no corpo da notícia os trechos pedidos a seguir.
a) Nos parágrafos 1 e 7, a parte sobre as vítimas.
b) No parágrafo 4, a parte que descreve o avião.
c) No parágrafo 6, a parte sobre a investigação do acidente.
d) No parágrafo 1, a parte sobre o resgate dos corpos.
9. Quanto ao modo como se deu o acidente, releia este trecho.

A aeronave atingiu o quiosque da Pousada Aconchego de Minas e a rede


elétrica da Rua Doutor Décio Guanabarino, no bairro Aeroporto, antes de arrastar
árvores e cair na granja de uma propriedade privada.
Que dado novo ele apresenta em comparação com a segunda notícia (página 69)?
10. A notícia apresenta informações que têm a ver com a busca de explicações.
a) No parágrafo 7, menciona-se um aspecto relativo à legalidade e à segurança do avião. Trans-
creva esse trecho.
b) No parágrafo 6, mencionam-se características do piloto. Transcreva esse trecho.
c) Os trechos que você apontou levam a responsabilizar diretamente algo ou alguém pelo acidente?
( ) Sim ( ) Não
Na notícia, esses trechos ocuparam uma parte:
( ) grande ( ) pequena

74 Língua Portuguesa
d) Ao ler a notícia, quem ou o que o leitor é levado a considerar responsável?
Os trechos que comprovam essa resposta ocuparam na notícia uma parte:
( ) grande ( ) pequena
11. Releia:
O que já se sabe é que o piloto [...] estava ciente das condições desfavoráveis
para pouso [...].

a) Segundo a notícia, há um momento em que o piloto com certeza sabia das más condições
climáticas. Que momento é esse? Justifique.
b) É possível saber com certeza se o piloto sabia das más condições do tempo ao decolar?
c) Se o piloto desconhecesse as condições de tempo ao decolar, ele seria isentado de alguma res-
ponsabilidade? Justifique sua resposta.
d) Por que, para a notícia, é importante que certas informações sejam atribuídas a uma pessoa
ouvida na apuração dos fatos?
12. Em razão da baixa visibilidade, o pouso no aeroporto de Serrinha é apontado como arriscado, na
notícia.
a) Que opção o piloto teria para evitar o pouso? Quem fornece essa informação?
b) Se não houvesse combustível suficiente para isso, a escolha do piloto em pousar estaria justi-
ficada? Por quê?
c) Quem fornece a informação que você citou no item anterior?
d) Quem decidiu apresentar essas falas na notícia?

A LINGUAGEM DA NOTÍCIA
Em uma seção anterior, você estudou que, ao relatar um fato, a notícia se atém
unicamente ao que passou. Mas não é só a estratégia de responder a seis pergun-
tas bem determinadas que garante a objetividade que o jornalista busca ao redigir
uma notícia. A linguagem usada para responder a essas perguntas conta muito.
Vamos estudar algumas estratégias que visam à objetividade do texto.

a) Precisão ao fornecer dados, como:


t a identificação das pessoas envolvidas e das testemunhas;
t a data e outras indicações de tempo;
t o lugar.

As pessoas citadas são identificadas pelos nomes completos e pela ocupação


(ou outro traço que justifique a referência a elas na notícia); às vezes se inclui a
indicação de idade. Por exemplo, “a dona de casa Marilda da Silva, 26”.
Não se noticia que “o supermercado fica na Penha”, e sim que “o supermerca-
do fica na Penha, zona leste de São Paulo”.

7º ano 75
Determinado evento não ocorreu antes ou há algum tempo, e sim “no último
sábado”, “na tarde de ontem”, “na véspera da abertura do campeonato”, “às 7h45”.
Mesmo quando não se pode dizer com precisão, o dado aproximado é o mais
preciso possível: “por volta das 8h” ou “o engraxate, conhecido pelos frequenta-
dores da padaria como Dinei”.

b) Escrever aquilo que pode ser atestado.


O produtor da notícia não vai dizer: “o controlador de voo não estava no ho-
rário de trabalho, mas achou perigoso pousar naquelas condições e correu para
responder ao contato do piloto”.
O jornalista não estava no local para ver se o funcionário correu ou não e
também não pode garantir as sensações que ele teve.
Naturalmente, a notícia apresenta ocorrências que não foram presenciadas
pelos jornalistas, mas são casos em que eles nitidamente colheram a informação
com alguém autorizado. Por exemplo: “A caixa-preta do avião já foi encontrada”,
“Os corpos foram encontrados parcialmente carbonizados”. Do contrário, os jor-
nalistas atribuem a informação a alguém, usando as expressões “segundo Fulano”,
“de acordo com Sicrano” etc., além de reproduzir a fala das pessoas e indicar isso
por meio das expressões “disse (ou afirmou, completou) Beltrano”.

c) Apresentar fatos em vez de sugerir ideias.


O jornalista não diz que “o nível de água do rio vem subindo cada vez mais”;
mas que “tinha subido 2 metros até a noite de ontem”. Também evita a formula-
ção: “os casos de malária estão aumentando”, optando por “as autoridades sanitá-
rias registraram outros seis casos nesta semana”.
A busca pela exatidão está presente mesmo nas aproximações: “cerca de 600
alunos”, “pouco mais de mil casos”, “aproximadamente 50 metros”.

d) Empregar a 3a pessoa.
A notícia é escrita por um indivíduo que pode ter uma opinião a respeito do
tema que trata. Todavia, não aparece um “eu” no texto. Tudo é relatado na 3a pes-
soa. Isso ajuda a criar a impressão de que aquilo que foi dito existe por si só. Soa
como uma espécie de consenso, de algo incontestável.
Avalie:
t Eu acho que a responsabilidade por checar o equipamento é do setor
de manutenção.
t A responsabilidade por checar o equipamento é do setor de manutenção.

Inegavelmente em ambas as versões há um parecer, mas o ponto de vista pes-


soal fica muito mais ocultado na segunda.

76 Língua Portuguesa
e) Escolher as palavras mais neutras e evitar as que expressam pontos de vista.
Na notícia, é preciso caracterizar seres, lugares, objetos, eventos etc., mas isso
deve ser fruto da tentativa de indicar com exatidão, não de fazer avaliações. Por
exemplo, nas notícias lidas, você encontrou:

mata fechada convenção interna

neblina leve/intensa voos comerciais

corpos mutilados condições desfavoráveis

mas não “piloto negligente”, “viagem arriscada”, “pessoas sem sorte”.


A qualificação “experiente” para o piloto (na terceira notícia, página 72) não
foi um julgamento do jornalista; ela fazia parte do perfil que provavelmente al-
guém da empresa passou a respeito do profissional. Relembre o trecho:
“[...] afirmou [o coronel da Aeronáutica Paulo Sérgio Santos], acrescentando
que o comandante da aeronave foi descrito como um piloto experiente [...].”

Repare que mesmo a pessoa ouvida não faz um julgamento naquele momen-
to. Ela não disse “o comandante da aeronave era um piloto experiente”, mas “foi
descrito como”.
Além dessas palavras, também não se usam em notícias declarações como
“felizmente não houve vítimas”, “os moradores de rua surpreendentemente procu-
raram os policiais para devolver o dinheiro que encontraram”.
Os termos selecionados devem ser os mais neutros e mais comuns. Por exem-
plo, entre “a mulher”, “a patroa”, “o cônjuge”, “a esposa”, a preferência é usar ou o
primeiro ou o último termo.
De modo geral, as notícias são lidas com rapidez, por isso suas frases tendem
a ser curtas. É uma maneira de facilitar a leitura.
Outro procedimento é fornecer todos os esclarecimentos que o leitor pode
precisar, para que ele não perca tempo procurando a informação em outra fonte
ou deixe de ler a notícia. Você percebe isso no exemplo a seguir, no qual a notícia
fornece dados sobre a sigla mencionada e de outras referências (como a do que
vem a ser a categoria B de licença para dirigir).

O Ministério Público instaurou um inquérito civil para investigar algumas


autoescolas de Ribeirão Preto devido ao alto número de reprovações em avaliações
para obtenção da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) na categoria B (carro).
PEDRINI, João A. Folha de S.Paulo, 24 jul. 2012. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/
fsp/ribeirao/56197-delegado-ve-industria-da-reprova-em-autoescolas-de-ribeirao-preto.shtml>. Acesso em: 22 ago. 2012.

7º ano 77
Sobre a linguagem usada na notícia, convém destacar que se emprega nesse
gênero a variedade culta, formal. Por isso, mesmo a linguagem da imprensa é
apontada atualmente como referência de norma culta.

NOTÍCIA E REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE


Neste capítulo você leu três notícias que jornais de diferentes cidades publi-
caram. O fato que motivou todas elas é aquela “historinha” da viagem de avião
(página 62). Poderíamos dizer: o fato é um só. Mas cada texto produziu uma
impressão no leitor. De certa forma, cada notícia criou um fato sobre a queda do
avião. Na primeira (página 67), por exemplo, o avião seguia viagem e enfrentou
problemas na hora de pousar; na terceira (página 73) a viagem já começou de
forma suspeita e, até quando o problema poderia ter sido contornado, a decisão
tomada foi a menos aconselhável e tudo terminou em tragédia.
Um ponto importante quando estudamos a notícia é justamente o fato de que
ela apresenta ao leitor uma versão do fato. Isso não quer dizer obrigatoriamente
que o produtor da notícia inventou algo. Ocorre que, quando fazemos uma repre-
sentação da realidade, escolhemos palavras, escolhemos (em parte) a ordem em
que elas vão estar na frase e uma série de outras coisas.
Ao compor uma notícia, o redator terá de escolher a ordem em que cada even-
to vai aparecer e, para isso, terá de selecionar os depoimentos que vão constar no
texto – como você constatou ao ler as três notícias.
O resultado também vai depender do que pôde ser apurado. Lembre-se: acon-
tece algo e isso precisa ser coberto depressa, pois a notícia tem de ser escrita e lida
por várias pessoas até a noite do mesmo dia, para o jornal sair no dia seguinte.
Não há muito tempo.
Você pôde constatar informações incompatíveis nas três notícias, desde a ida-
de da vítima mais jovem, o modelo do avião, o cargo de um executivo, o número
de pessoas a bordo até algo extremamente importante: havia leve ou forte ne-
blina? Mas avalie uma coisa: você normalmente não lê três jornais diferentes no
mesmo dia; também não investiga uma notícia a fundo no jornal que escolheu ler,
pelo contrário: lê relativamente depressa. Agora conclua: você, então, não teria
três pontos de comparação e daria por verdadeiro o que leu no jornal.
Em todo o processo de produção da notícia, convém salientar também que
nem sempre ela é escrita pelo repórter que foi cobrir o fato. Às vezes, ele obtém
as informações e remete os dados ou um texto inicial a alguém da redação do
jornal. Depois de redigida, a notícia passa para um editor – jornalista que dirige
determinada seção do jornal – e para o editor-chefe, que é quem supervisiona a
elaboração de todo o jornal, seguindo a linha editorial da instituição. Os editores
é que vão decidir se vale a pena publicar aquela notícia, se ela deve sofrer cortes
porque não há espaço, se ela deve ser mais explorada.

78 Língua Portuguesa
O que sai no jornal é resultado das escolhas de um grupo – e ele naturalmente
segue a linha editorial do jornal. A linha editorial é a perspectiva pela qual a em-
presa que produz o jornal enxerga o mundo, são os valores que ela tem. É essa ma-
neira de pensar que define o que pode ser escrito, o destaque que certos temas terão.
Enfim, a neutralidade e a objetividade que costumamos atribuir à notícia não
podem ser totais. Essa impressão é motivada pela maneira como o jornal usa a
linguagem, conforme você estudou.
No entanto, esse gênero é uma importante fonte de informação. Um fato que
foi notícia hoje pode se transformar em tema de entrevista, de reportagem, de
crônica ou de artigo de opinião nos dias seguintes. É por isso que se costuma dizer
que a notícia é a matéria-prima do jornalismo.
Ao ler essa importante fonte de informação conhecendo tudo que foi estuda-
do, estamos exercitando nossa capacidade de ler criticamente, ou seja, de não nos
deixar convencer facilmente.

APLICAR CONHECIMENTOS

1. Leia os dois parágrafos a seguir.

A queda de duas árvores ontem na avenida Nazaré, no Ipiranga, zona sul,


provocou dois terríveis acidentes e fez com que o trânsito ficasse entupido no sentido
bairro-centro por um tempão.
O primeiro acidente aconteceu na altura do número 800, às 15h50 em ponto,
quando uma árvore despencou sobre um Gol novinho em folha que passava bem
embaixo. Pelo que o motorista falou, ventava e estava a maior chuva quando a árvore,
ainda por azar levando a fiação elétrica, acertou o veículo.

a) Considere que os dois parágrafos sejam o início de uma notícia. Observe a inadequação dos
trechos grifados e a justificativa correspondente.
t Entupido: informal.
t Novinho em folha: além de informal, é desnecessário, pois o estado de conservação do carro
normalmente não importa nesse caso.
t Estava a maior chuva: informal.
t Por azar: revela um julgamento do jornalista.
Copie outras ocorrências desse tipo e justifique.
b) Orientando-se pelo que foi apontado na atividade acima e na sua resposta, reescreva os dois
parágrafos, alterando o que for necessário. O objetivo é que o texto fique de acordo com a
linguagem jornalística.
2. Leia o início de uma notícia publicada em um jornal diário.

Um deficiente físico de Monte Alto fez uma denúncia ao CNJ (Conselho


Nacional de Justiça) em que acusa uma juíza da cidade de se negar a realizar audiência
em um local com acessibilidade. [...] Ele diz ainda que, como a audiência acabou
ocorrendo na calçada do Fórum da cidade, a situação lhe causou constrangimento.

7º ano 79
A assessoria do CNJ confirmou que a denúncia foi recebida e que está sob
análise. Por considerar sigiloso o caso, o órgão não deu detalhes.
A juíza, em nota, negou constrangimento e disse que foi o cadeirante quem se
recusou a ser carregado por quatro degraus até o piso onde haveria a audiência.
O suposto incidente ocorreu em abril, quando Vasconcelos foi ouvido como
testemunha em um processo. [...]
COISSI, Juliana. CNJ apura se juíza constrangeu deficiente. Folha de S.Paulo, 12 jun. 2012. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br
/fsp/ribeirao/48182-cnj-apura-se-juiza-constrangeu-deficiente.shtml>. Acesso em: 22 ago. 2012.

a) O lide responde a duas das perguntas estudadas. Escreva quais e indique a resposta que receberam.
b) O lide apresenta um complemento. Qual?
c) A linguagem usada no lide apresenta um procedimento comum no gênero notícia. Seu obje-
tivo é facilitar a leitura, evitando dúvidas por parte do leitor. De que procedimento se trata?
d) Qual é o sentido da palavra “suposto”, no último parágrafo? Por que ela foi empregada?
3. Suponha que você tenha recebido as informações a seguir para redigir uma notícia.
t Município de Ulianópolis/Pará/400 quilômetros da capital (Belém)
t Sair da lista dos municípios mais desmatadores do Brasil
t Lista: tinha 48 cidades/criada pelo Ministério do Meio Ambiente/em 2008
t Cidades que já saíram da lista:
t Querência (Mato Grosso)/Paragominas (Pará) – em 2010 (as primeiras)
t Alta Floresta (Mato Grosso)/Santana do Araguaia (Pará) – em 2012
t Prováveis próximas cidades: Dom Eliseu (Mato Grosso)/Marcelândia (Mato Grosso)

a) Determine respostas para as questões a seguir, conforme o enfoque que você queira dar.

t Quem? t Quando? t Como?


t O quê? t Onde? t Por quê?
t Complemento
b) Escreva um lide com base no esquema que você determinou.
4. Leia o conto a seguir, escrito por Ignácio de Loyola Brandão.

O verde
Estranha é a cabeça das pessoas.
Uma vez, em São Paulo, morei numa rua que era dominada por uma árvore
incrível. Na época da floração, ela enchia a calçada de cores. Para usar um lugar-comum,
ficava sobre o passeio um verdadeiro tapete de flores; esquecíamos o cinza que nos
envolvia e vinha do asfalto, do concreto, do cimento, os elementos característicos desta
cidade. Percebi certo dia que a árvore começava a morrer. Secava lentamente, até que
amanheceu inerte, sem folha. É um ciclo, ela renascerá, comentávamos no bar ou na
padaria. Não voltou. Pedi ao Instituto Botânico que analisasse a árvore, e o técnico
concluiu: fora envenenada. Surpresos, nós, os moradores da rua, que tínhamos na
árvore um verdadeiro símbolo, começamos a nos lembrar de uma vizinha de meia-idade
que todas as manhãs estava ao pé da árvore com um regador. Cheios de suspeitas, fomos
até ela, indagamos, e ela respondeu com calma, os olhos brilhando, agressivos e irritados:
− Matei mesmo essa maldita árvore.

80 Língua Portuguesa
− Por quê?
− Porque na época da flor ela sujava minha calçada, eu vivia varrendo essas
flores desgraçadas.
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Manifesto verde. São Paulo: Global, 1999.

a) Que relação o narrador e os demais moradores da rua tinham com a árvore? Esse dado apa-
receria em uma notícia, se o fato com a árvore tivesse ocorrido na realidade? Explique sua
resposta.
b) O caso relatado pelo narrador exemplifica sua opinião de que a cabeça das pessoas seja es-
tranha. Essa opinião apareceria em uma notícia, se o fato com a árvore tivesse ocorrido na
realidade? Explique sua resposta.
c) Releia o trecho grifado. Os eventos são contados em ordem cronológica. Se esse fato tivesse
ocorrido na realidade e fosse divulgado em um jornal, quais eventos dessa sequência pode-
riam formar o lide de uma notícia?
d) Caso o fato tivesse ocorrido na realidade e se tornasse notícia, alguns dados seriam indicados com
precisão. Por exemplo, em vez de dizer “uma vez”, teríamos que precisar quando o fato ocorreu,
indicando a data. Além desse dado, quais outros teriam que ser indicados com precisão?

MOMENTO DA ESCRITA

PROPOSTA
A partir do conto “O verde” (reproduzido na atividade 4 do “Aplicar conhecimentos”), você
vai produzir uma notícia. Suponha que o fato será noticiado no caderno local de um jornal diário.

PLANEJAMENTO
1. Escreva em seu caderno as seis questões fundamentais a que uma notícia responde e as respostas
que elas teriam no acontecimento com a árvore.
2. Escreva abaixo do esquema informações complementares, como:
a) a espécie de árvore;
b) as consequências legais de atitudes como essa (se há multa, processo etc.);
c) depoimentos supostamente colhidos de moradores sobre a responsável pelo envenenamento;
d) a substância usada.

ELABORAÇÃO
1. Escreva o lide respondendo às questões que você levantou ou a algumas delas, por exemplo quem,
o quê, onde e quando.
2. Redija ao menos mais dois parágrafos apresentando questões que não foram exploradas no lide
ou desenvolvendo as que foram.
3. Lembre-se de que a notícia divulga o que acabou de acontecer, não há como, no espaço de um dia,

7º ano 81
haver julgamento e penalização da moradora. A notícia terá como foco a descoberta do envene-
namento. Ela pode apenas levantar as prováveis consequências para esse tipo de atitude.
4. Inclua ao menos dois depoimentos de pessoas envolvidas ou testemunhas.
5. Organize a notícia de modo que ela fique de acordo com o foco que você escolheu. Se necessário,
mude a ordem da apresentação, acrescente ou elimine depoimentos, mas fique atento para que a
notícia não privilegie apenas um dos aspectos. Deve predominar o efeito de objetividade.
6. Dê um título à notícia, empregando o verbo no presente.

AVALIAÇÃO
1. Troque de texto com um colega e considere os seguintes aspectos em relação ao texto dele:
a) A estrutura lide e corpo foi usada?
b) O lide apresenta o evento fundamental do fato?
c) As informações foram apresentadas em ordem de importância?
d) O texto foi escrito na 3a pessoa?
e) Os verbos estão predominantemente no passado?
f) O tamanho das frases facilita a leitura?
g) Siglas e termos técnicos foram esclarecidos?
h) Foi empregada a variedade culta?
i) A notícia gera impressão de objetividade?
j) O título chama a atenção? O verbo está no presente?
2. Se você detectou algum problema, escreva-o abaixo do texto do colega. Se necessário, indique-o
no texto por meio de setas e números.

REESCRITA
1. Leia as observações feitas pelo colega e reescreva o que for necessário. Se houver discordância, explique
o que você pretendia expressar e discuta com seus colegas uma forma de deixar esse objetivo claro.
2. Considerando a avaliação que o colega fez do seu texto, reescreva-o, aperfeiçoando o que for necessário.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS


Livros Histórias de cronópios e de famas
No conto “O jornal e suas metamorfoses”, presente no livro, o escritor aborda a questão de o
jornal apenas poder ser visto como tal quando é lido por uma pessoa, do contrário é apenas
um monte de folhas impressas.
CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.

Os jornais
Nessa crônica, o autor aborda a questão dos temas tradicionalmente presentes nas notícias
e da representação que elas fazem da realidade.
BRAGA, Rubem. Os jornais. In: A borboleta amarela. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

Notícia
De forma didática, o livro apresenta a história do jornal e da notícia, o contexto de produção
desse gênero, sua estrutura e marcas linguísticas. Apresenta bons exemplos e exercícios.
BARBOSA, Jaqueline Peixoto. Notícia. São Paulo: FTD, 2001. (Trabalho com os gêneros do discurso.)

82 Língua Portuguesa
Bibliografia

LÍNGUA PORTUGUESA

ABREU, Antônio Suarez. Curso de redação. 12. ed. São Paulo: Ática, 2004.
________. Texto e gramática: uma visão integrada e funcional para a leitura e a
escrita. São Paulo: Melhoramentos, 2012.
ANTUNES, Irandé Costa. Aula de português: encontro & interação. São Paulo:
Parábola, 2003.
BAGNO, Marcos. A língua de Eulália. São Paulo: Contexto, 2001.
_______. Não é errado falar assim. São Paulo: Parábola, 2006.
_______. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
BANDEIRA, Manuel. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify,
2006.
BRANDÃO, Helena Nagamine. Gêneros do discurso na escola. São Paulo: Cortez,
2003.
_______.; MICHELETTI, G. Aprender e ensinar com textos didáticos e paradidáti-
cos. São Paulo: Cortez, 1997. v. 2. (Aprender e ensinar com textos.)
BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa:
3o e 4o ciclos. Brasília: MEC/SEF, 1998.
BRASIL. Ministério da Educação. Proposta Curricular 2o segmento do ensino fun-
damental: 5a a 8a série. Educação de Jovens e Adultos. Brasília: MEC/SEF, 2002.
CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Humanitas, 1996.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global,
2004.
CITELLI, A. Aprender e ensinar com textos não escolares. São Paulo: Cortez, 1997.
v. 3. (Aprender e ensinar com textos.)
______. Outras linguagens na escola. São Paulo: Cortez, 2000. v. 6. (Aprender e
ensinar com textos.)
______. Produção e leitura de textos no ensino fundamental. São Paulo: Cortez,
2001. v. 7. (Aprender e ensinar com textos.)

7º ano 83
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(Org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.
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Campinas: Mercado de Letras, 2004.
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______. Como usar o jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003.
______. Para ler e fazer o jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2002.
KLEIMAN, A. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 4. ed. Campinas: Pon-
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______. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Unicamp, 1997.
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ZORZI, Jaime Luiz. Aprender a escrever: a apropriação do sistema ortográfico. São
Paulo: Artes Médicas, 1998.

84 Língua Portuguesa
70 ano – Capítulo 1 imóvel poderia julgar tratar-se de um trote, pois seria difícil
atestar a procedência do chamado.
Que texto é este?
4. Seria difícil garantir que todos os moradores conseguiriam ficar
informados dessa forma; muitos poderiam não ver o aviso.
O capítulo aborda conceitos importantes sobre a linguagem. 5. Trata-se de uma forma de texto mais oficial; portanto, com
Primeiramente, é apresentada a noção de gênero textual e suas mais crédito e que tem mais possibilidade de atingir a tota-
implicações na leitura. Trata-se de uma discussão importante, lidade dos usuários.
visto que o conteúdo de Língua Portuguesa na obra é organizado 6. Esse gênero textual é um aviso.
com base em gêneros textuais e esferas discursivas. Destaca-se Professor, segue a definição dos gêneros “aviso” e “comuni-
o papel que a familiaridade com o gênero tem nesse processo. cado” que consta do Dicionário de gêneros textuais, a fim de
Dessa forma, aumenta-se o leque de estratégias de leitura que o comprovar a designação de aviso para o texto transcrito. Na corres-
estudante pode passar a usar conscientemente. pondência real, entretanto, consta “aviso” na parte interna (parte
Em seguida, vinculada à questão do gênero, apresenta-se a superior direita, em letras brancas) e “comunicado importante” na
noção de variação linguística, com foco na variação situacional, parte externa, que não foi reproduzida.
social e geográfica. É importante nesse caso que o aluno tenha a AVISO [...]: toda e qualquer espécie de comunicação [...], informação
dimensão de que ele sempre se manifesta em uma variedade da [...] ou declaração [...], oral ou escrita, curta e objetiva, prestada a
outrem. Entre outros, podem-se citar avisos bancários, como de lan-
língua e de que todas têm um lugar na comunicação verbal.
çamento [...]; da Receita Federal [...]; avisos de Diretoria de firma, de
No ambiente escolar, como muitas situações de produção de
clube, de escola e outras instituições; aviso prévio [...], etc.
texto são feitas em gêneros que pressupõem a variedade culta, o
aluno muitas vezes acaba associando língua escrita a variedade COMUNICADO [...]: aviso [...], informe [...], declaração [...], nota
[...], particular ou oficial, feita de maneira objetiva, difundida pelos
culta. Deve-se insistir na questão da adequação da língua ao gê-
meios de comunicação ou afixada em lugar público. [...].
nero e à situação. Por fim, o tema da variação linguística é uma
COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais.
via para desconstruir a ideia de que “falar bem”, “falar certo” e “co-
Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
nhecer o português” equivalem simplesmente a dominar a norma
culta, pois o uso eficiente da língua envolve aspectos discursivos. 7. Provavelmente o aluno dirá que conversaria com a pessoa
É comum que muitos estudantes de EJA não tenham a va- sobre o assunto.
riedade culta como sua variedade de origem, por isso o profes- 8. Sugestão de resposta: um bilhete, um e-mail.
sor não deve considerá-la um pré-requisito; ao contrário, deve, a Professor, avalie as possibilidades apresentadas pelos alunos
partir da variedade trazida pelo aluno, apresentá-la como uma conforme a situação suposta por eles.
nova variedade. Nesse processo, a variedade culta não precisa as-
sumir o caráter de variedade linguística ideal, mas a de varieda-
de que, por um conjunto de razões muitas vezes circunstanciais, Gênero textual
atua como referência para gêneros formais. Sua assimilação por Peça aos alunos que leiam individualmente e que anotem dú-
parte do aluno é gradual e estende-se por todo o curso – isso se vidas. É importante que eles exercitem sua autonomia na leitura do
considerarmos apenas a situação formal de aprendizagem. discurso didático. Ao final, ouça as perguntas e esclareça-as.
A seção intencionalmente não apresenta uma definição de gê-
nero, mas fornece subsídios para que o aluno abstraia seu conceito.
Roda de conversa Neste momento, mais importante que enunciar uma definição, é
Os alunos podem responder às questões individualmente e, assimilar que só falamos e escrevemos por meio de algum gênero.
em seguida, discutir as respostas com os colegas, sob a orienta-
ção do professor. O registro das impressões facilita a participação
do aluno na discussão coletiva e, sendo este o objetivo da resposta Aplicar conhecimentos I
individual e por escrito, não é necessário proceder a uma correção Oriente os alunos a responder à questão 1 individualmente.
do que o aluno propôs. Seu conhecimento prévio é seu conheci- O item a) pode ser corrigido na lousa ou o professor pode
mento prévio, não passível de ser avaliado como certo ou errado. corrigi-lo individualmente para avaliação. Discuta com a classe
1. A companhia de fornecimento de energia enviou a corres- as respostas dadas aos itens b), c) e d). Se julgar necessário, es-
pondência a Teodoro Ramos (um usuário). creva na lousa uma versão do item b). Isso fornece ao aluno um
2. Em determinado dia, 23 de junho de 2013, das 8h30 às 13h30, modelo de formulação clara e objetiva.
haveria uma interrupção no fornecimento de energia. Na questão 2, os itens a), b) e c) são de compreensão glo-
3. Seria necessário mobilizar muitos funcionários para avisar bal do texto – objetivo principal de toda leitura; os itens d) e e)
todas as pessoas envolvidas, e seria preciso muito tempo exploram conceitos estudados; os demais são de extrapolação a
para desempenhar tal tarefa. Além disso, o morador do partir de conhecimentos prévios.
7o ano 27
Os itens d) e e) podem ser usados para avaliação individual g) Resposta pessoal. Notícia, reportagem, entrevista, editorial,
pelo professor. Os demais podem ser apresentados oralmente, carta de leitor, resenha, sinopse, artigo de opinião, manchete,
mas os itens a), b) e c) podem ser escritos na lousa após o debate, tira, obituário, palavras cruzadas etc.
para que o aluno tenha modelos de formulação escrita. Não se Professor, também aqui o importante é que o aluno apure a
trata de um “gabarito”, mas de um modelo de escrita. noção de que nos comunicamos por gêneros. As especifica-
1. ções de alguns deles serão estudadas em maior profundida-
a) de nos capítulos deste volume e de outros posteriores.
Selo h) Resposta pessoal.
Professor, essa discussão é importante para a seção seguinte
Consuelo Furtado de Almeida
e para a discussão sobre estratégias de leitura. É importante
Av. Rocha Campos, 378, ap. 31
São Manuel – SP que os alunos manifestem suas impressões.

0 3 3 2 2 1 1 1

Ler para conhecer os gêneros e conhecer


os gêneros para ler
Realize uma leitura compartilhada da seção, alternando o
aluno que faz a leitura em voz alta. Interrompa para apresentar
Maria Cristina Almeida exemplos e retomar experiências de aulas anteriores.
Rua dos Pássaros, 20
Jardim Felicidade – Rio Manso – SP
CEP: 01122-333
Aplicar conhecimentos II
As questões podem ser respondidas oralmente, como rotei-
Professor, esta atividade pressupõe o conhecimento pré-
ro de uma discussão, mas registre versões escritas da resposta na
vio do aluno em relação ao gênero. Se for necessário, aponte
lousa nos casos em que for necessário agrupar as respostas de
as normas relativas a ele. A finalidade é que o aluno se cons-
vários alunos.
cientize de que alguns gêneros têm estrutura mais rígida e de
1.
que ele já conhece e usa alguns. Parte-se desse princípio para
a) Informações sobre como a doença é transmitida, como pode
sensibilizar o aluno de que, assim como o gênero endereço
ser evitada, suas consequências, seu histórico.
postal foi aprendido em dado momento pelo contato direto,
b) A pessoa normalmente encontra os últimos fatos ocorri-
pela prática, novos gêneros podem ter sua estrutura apreen-
dos no país. Por exemplo, número de casos, ações públicas,
dida.
exemplos de vítimas específicas.
b) Para não deixar de colocar nenhum dado e para facilitar a
2.
visualização desses dados pelos funcionários dos Correios, a) Medidas individuais que podem evitar o risco de contami-
que separam e entregam as cartas. nação pelo mosquito transmissor da dengue.
c) Carta familiar. b) Em um folheto, as informações devem ser dadas de modo que
d) Carta de reclamação, carta do leitor, carta de demissão, carta de possam ser lidas com rapidez. Um folheto é entregue como
recomendação, carta de agradecimento, entre outros. propaganda, lembrete. Em geral, ele é lido superficialmente,
2. por isso não adianta ter muito texto. A parte visual deve ser
a) Foto dos tenistas. privilegiada; com textos curtos ou em formato de esquema.
b) Não. Após a argumentação do vencedor, o perdedor ainda
encontra no adversário algo circunstancial, que seria res-
ponsável pelo sucesso dele. A língua e o gênero
c) A linha de raciocínio é a maneira de pensar de alguém, as Peça aos alunos que façam uma leitura individual e, depois,
ideias pelas quais alguém se orienta. Ela pode ajudar a ven- proponha questões para verificar o que compreenderam e escla-
cer uma partida, pois, conforme forem as ideias que uma recer eventuais dúvidas.
pessoa tiver, ela pode se sentir encorajada, ter autoestima, Verifique se eles têm clareza de que a variação é um fenômeno,
que ajudam a conquistar a vitória. algo que ocorre com as línguas, e que a variedade é uma maneira de a
d) (X) Divertir o leitor por meio de uma história. língua se manifestar. Ajude a classe a assimilar a ideia de que a língua
e) V – F – V – F portuguesa é algo abstrato ou bastante genérico; o que existe é o por-
f) Professor, verifique se o aluno aponta o gênero crônica. Caso tuguês falado aqui, ali; falado com concordância verbal econômica ou
seja necessário, auxilie com informações. Nesse momento, o redundante etc. Todas essas manifestações (variedades) são o portu-
importante é que o aluno tenha consciência da existência de guês (língua). No fundo não há um português, mas vários; uma língua
gêneros. é, em realidade, várias línguas – que chamamos de variedades.
28 Língua Portuguesa
Procure sistematizar, por meio de um esquema, os termos que de- f) Formal. Na variedade informal, a frase seria “não quero es-
signam conceitos importantes. Recomende aos alunos que anotem e re- cutar/escutá ela”.
corram a esse recurso para refletir sobre as questões propostas na seção g) Com o narrador predomina a variedade formal; com a fome,
seguinte e sempre que lerem um texto que faz referência a esses termos. a informal.
Sugestão: h) A fome fala semelhantemente a grupos marginalizados na
1 – variação: alguns tipos sociedade. As expressões “maluco”, “mermão”, “caô” e “lim-
a) variação situacional peza” são marcantes desse grupo.
- registro formal
Professor, comente com os alunos o fato de eles terem identi-
- registro informal
b) variação social ficado o grupo pela linguagem. Este é um dos papéis de uma varie-
- variedade típica de um nível de escolarização e de dade social: ajudar a criar a identidade do grupo. Destaque o fato
um frupo socioeconômico de a variedade em questão não ser intrinsecamente inferior. Muitas
português culto ou variedade culta gírias que nasceram em grupos marginais com o propósito de ser
português popular ou variedade popular
uma linguagem cifrada, que a polícia não pudesse entender, acaba-
- variedade típica de uma faixa etária
- variedade típica de um sexo
ram sendo incorporadas por outros grupos sociais.
- variedade típica de um grupo específico Comente que alguns usos informais e específicos de um grupo
c) variação geográfica são registrados no dicionário.
variedade caipira ou dialeto caipira Um exemplo são estas acepções do verbete “limpeza” no
variedade florianopolitana ou dialeto floriapolitano Dicionário Houaiss:
português brasileiro
Regionalismo: Brasil. Uso: linguagem de delinquentes.
português de Portugal
etc.
trabalho honesto
Ex.: pode aceitar o cargo, é l.
2 – variação: fenômeno que ocorre com as línguas Regionalismo: Brasil. Uso: linguagem de delinquentes.
variedade: forma como a língua se manifesta
falcatrua livre da vigilância policial
O capítulo emprega o termo “norma culta”. A noção de que não i) Resposta pessoal.
há uma única norma culta foi contemplada no livro do aluno, no
Professor, peça a um aluno que leia as frases criadas e que a
trecho de Ataliba Castilho e Vanda Elias.
turma tente identificar o grupo imaginado. Reforce a ideia
de a língua atuar na criação de uma identidade e de estereó-
tipos serem instaurados a partir daí.
Aplicar conhecimentos III j) - “Estou”; “Não há” ou “Não existe”.
1. - “Não confia?” ou “Não confia, não?”.
a) A repetição, no final da frase, do sujeito e da palavra interro- k) - “Meu irmão” e “Olha só”.
gativa que estão no começo. - Fica garantido que o leitor leria como normalmente se fala
Professor, os alunos talvez não indiquem a ocorrência deno- naquela situação. Isso ajuda o leitor a identificar o grupo que
minando a função sintática, mas referindo-se genericamente o autor quer representar.
a “o começo da frase”. 3. Resposta pessoal.
b) (X) Geográfica. Professor, verifique se os alunos se aproximaram da estru-
c) Resposta pessoal. tura esperada. O importante aqui é a consciência de que gêne-
2. ros diferentes implicam textos diferentes, mesmo que o conteú-
a) Trata-se de um menino de rua de um centro urbano. Nessa do seja o mesmo. Chame a atenção da classe para os detalhes
parte da história ele está com fome e não tem o que comer. que são importantes na notícia e não figuram no romance, e
b) Nos parágrafos 1 e 3. vice-versa. Chame a atenção da classe para o propósito de cada
c) A fome sugere que o personagem realize um assalto. Ele não gênero.
quer seguir a sugestão por causa de uma experiência mal-
sucedida na última vez em que fez isso. Sugestão:
d) É uma maneira de mostrar que a situação de fome leva a
Na tarde de ontem, na praça X, Fulano de Tal e sua namora-
pessoa a comportamentos que não são socialmente aceitá-
da, Beltrana de Tal, foram abordados por um menor que comu-
veis, como o assalto. No caso desse trecho, a decisão motiva-
nicou assalto ao casal. Fulano, praticante de jiu-jítsu, reagiu atin-
da pela fome foi irrefletida, visto que o menino tentou coagir
uma vítima sem aparentemente estar armado. gindo o menor com um soco. Algumas pessoas que transitavam
e) “Pra”; “merda”; “limpa”; “cara” “vó”; “dando nó nas tripas”. por ali se aproximaram e agrediram o garoto, que estava no chão.
Professor, embora de identificação mais difícil pelos alunos, Ele conseguiu fugir pouco antes de a polícia chegar. Os menores
o termo medrar com o sentido de “sentir medo”, é registrado que praticam roubos na região costumam agir em grupo de até
como informal no Dicionário Houaiss. cinco elementos, mas dessa vez o infrator agiu sozinho.
7o ano 29
Refletindo sobre a variação linguística seções teóricas, não é preciso repetir a atividade.
Esta seção deve contribuir para que o aluno construa o con- 1. Pois é, a gente não pode possuir, mas a gente possui.
ceito de que a língua (manifesta em suas diversas variedades) 2. Negativo.
é, de modo geral, aquilo que ele usa para se comunicar verbal- 3. Elas não são uma corrupção da forma culta atual, são a forma
mente. Todas as variedades apresentam um conjunto de regras, e culta antiga.
todos os falantes seguem as regras da variedade que usa. O aluno 4. Culta/culta/perdeu/ganhou.
precisa ser levado a entender que o que ocorre quando a fala de 5.
alguém é apontada como “errada” é que ela está sendo avaliada a) ocupar b) agradecer c) direito d) escutar
segundo critérios de outra variedade. e) fruta f) enxuto g) levantar
É bastante comum o questionamento do papel da escola nes-
6. Resposta pessoal.
se quadro. Existe na sociedade uma variedade linguística que é a
única em que certos gêneros podem ser expressos; logo, está pres-
suposto que os cidadãos precisam conhecê-la. Como sua aquisi- Planejando a fala
ção se dá formalmente e, preferencialmente, no contexto escolar, O objetivo com a seção é oferecer ao aluno a possibilidade
é certo que a instituição deve se encarregar de realizar tal tarefa. de experimentar a fala em público diversas vezes, para que, ao
Em alguns contextos – e a EJA é um deles – é preciso levar exercitar um gênero oral da esfera pública, como o debate e o
alguns fatos em conta. seminário, ele já tenha conquistado alguma desenvoltura.
Para certos grupos que não estiveram expostos a situações Como este capítulo aborda (entre outros conteúdos) o gê-
de escrita e ao convívio com gêneros mais formais, a variedade nero oral e as variedades em que ele é produzido, a atividade
de origem é a única forma de língua frequentemente utilizada. funciona também como estudo desse tema, pois a análise de en-
Se, ao chegar à escola, o instrumento para o ensino é apenas a trevista aborda como esses conceitos são aplicados na prática.
variedade culta – desconhecida para o aluno –, não se pode es- Se não houver condições de ouvir/ver a entrevista no endereço
perar que ele tenha acesso, sem dificuldades, aos conteúdos pre- indicado, a atividade pode ser realizada com a transcrição apenas.
tendidos. É preciso que a variedade de origem conviva com a va- Em relação às questões propostas para discussão:
riedade que a escola tem como instrumento (além de fim). Esse 1. Chame a atenção para o funcionamento da modalidade es-
cenário é o de milhares de pessoas que chegaram à escola nos crita e da modalidade oral. Nesta última, alguns sentidos são
últimos anos. Se o encaminhamento dado não considerar esse passados pelos gestos, pela expressão corporal, pelo tom de
quadro linguístico, seu trabalho pode acentuar desigualdades em voz. A mera transcrição não contempla esses recursos. Por
vez de abrir possibilidades. isso, é mais fácil acompanhar a entrevista vendo/ouvindo.
No contexto escolar em que a clientela é de crianças, jovens Quando uma entrevista é publicada por escrito em uma revis-
ou adultos já ambientados ao universo letrado e com acesso a ta ou jornal, ela passa por um processo de retextualização.
bens culturais, as coisas se passam de forma um pouco diferente. 2. Chame a atenção para a eficiência comunicativa da entrevis-
Nesse caso, a variedade de prestígio usada pela escola não é um tada. A modalidade escolhida foi adequada e não comprome-
obstáculo, visto que essa clientela já está mais familiarizada com teu a expressão. Verifique se o aluno percebeu o que segue.
ela em suas interações sociais diárias. E, mesmo nesse caso, é Regina não se considerava feia na infância, na adolescência
preciso ainda que domine traços próprios da modalidade escrita, nem na fase adulta (embora não se julgasse tão bonita quando
entre outras questões relativas ao uso da língua. criança). Para ela, uma prova de que estava dentro dos padrões
Para realizar essa discussão com os alunos, sugerimos que o normais de beleza era o fato de sempre ter tido muitos namora-
professor realize a leitura da seção, interrompendo-se para ques- dos e bonitos. Regina conta que só começou a ser encarada como
tionar os alunos e fazer os comentários necessários. No final, no “feia” quando a imprensa se referia a ela como “feiosa”, “magrice-
momento de ler o trecho citado, peça aos alunos que leiam sozi- la” e “dentuça”. A atriz não sentiu necessidade de explicar ou ne-
nhos. Em seguida, verifique a compreensão que tiveram. gar essas avaliações. De modo geral, se considera “normal” – nem
Propomos para essa seção que os alunos realizem a leitura bonita nem feia – e diz que há outros “lados” que as pessoas veem.
do subitem “A existência de uma modalidade que é referência”. No A “edição” feita para a fala da entrevistada e da entrevistadora
final, lance questões para promover uma discussão sobre o tema. conservou certas marcas da oralidade, pois a proposta de mudança
era ainda para um gênero oral, só que mais refletido e monitorado.
Se a proposta fosse retextualizar a entrevista para adequá-la a um
Aplicar conhecimentos IV gênero escrito, outras alterações seriam necessárias.
Oriente os alunos a ler em duplas o trecho escrito por Sírio Para a segunda parte, em que o aluno é entrevistado, reforce
Possenti e a responder às questões individualmente. a ideia de que, em primeiro lugar, ele deve estabelecer para si
Os itens 3 e 4 podem ser corrigidos individualmente por mesmo uma opinião sobre o que foi perguntado. A tarefa dele
você, como avaliação do que os alunos assimilaram. No caso da naquele momento é deixar isso claro para quem o ouve, não im-
questão 6, se o tema já foi discutido por ocasião da leitura das portando que haja certo grau de informalidade em seu discurso.
30 Língua Portuguesa
Anote algumas falas mais informais que tenha ouvido nas Em que esse exemplo pode servir à nossa discussão? Isso não é
apresentações (inclusive as que você ouviu enquanto percorria os um cachimbo de verdade, mas simplesmente a reprodução gráfica,
grupos) e, no final, escreva-as na lousa, para que a classe as torne pictórica de um cachimbo. O mesmo acontece com a escrita alfabética,
mais formais. Não se trata de corrigi-la apenas considerando ques- em sua regulamentação ortográfica oficial. Ela não é a fala: é uma tenta-
tiva de representação gráfica, pictórica e convencional da língua falada.
tões da fidelidade à norma culta, mas de levar em conta também
BAGNO, Marcos. O preconceito linguístico: o que é, como se faz.
questões discursivas. Convém indicar que, monitorando a fala, ela
49. ed. São Paulo: Loyola, 1999. p. 52-54.
pode ser mais formal – dentro, é claro, das marcas de formalidade
que o aluno conhece. Por isso mesmo, situações como essa são im-
portantes para apresentar-lhe novos empregos formais. Publicações
BAGNO, Marcos. A norma oculta: língua e poder na sociedade
brasileira. São Paulo: Parábola, 2003.
Avaliação
______. O preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Pau-
A correção individualizada de algumas atividades por parte
lo: Loyola, 2009.
do professor constituem instrumentos de avaliação. Todavia, a
avaliação do quanto os alunos assimilaram o conteúdo do capí- COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Ho-
tulo se dará simultaneamente à realização de outras atividades, rizonte: Autêntica, 2008.
inclusive de outros capítulos. Ocorre que em todas o professor MARCUSCHI, Luiz Antônio. “Gêneros textuais: definição e fun-
poderá avaliar se o aluno está adquirindo e usando a variedade cionalidade”. In: DIONISIO, Angela Paiva et al. (Org.). Gêneros
culta, necessária para gêneros formais. Em outras situações de textuais e ensino. 5. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.
leitura, ele também terá a possibilidade de avaliar se os alunos TAVARES, Bráulio, “O status das palavras”. In: Carta Fundamental,
usam o conhecimento prévio que têm de alguns gêneros. n. 39, jun./jul. 2012.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. “E aí, galera”. Correio Brasiliense,
Para ampliar 13 maio 1998.

“O certo é falar assim porque se escreve assim” Sites


Diante de uma tabuleta escrita COLÉGIO é provável que um Coluna de Sírio Possenti no Terra Magazine. Disponível em:
pernambucano, lendo-a em voz alta, diga CÓlégio, que um cario- <terramagazine.terra.com.br/ultimas/0,,EI8425,00.html>. Aces-
ca diga CUlégio, que um paulistano diga CÔlégio. E agora? Quem está
so em: 17 set. 2012.
certo? Ora, todos estão igualmente certos. O que acontece é que em
toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto A distância entre língua e dialeto. Disponível em: <http://revis-
é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim talingua.uol.com.br/textos/14/artigo248085-1.asp>. Acesso em:
como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico. 17 ago. 2012.
Infelizmente, existe uma tendência (mais um preconceito!) muito Marcos Bagno. Disponível em: <www.marcosbagno.com.br>.
forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar “do Acesso em: 17 set. 2012.
jeito que se escreve”, como se essa fosse a única maneira “certa” de
Projeto Norma Linguística Urbana Culta. Disponível em: <www.
falar português. (Imagine se alguém fosse falar inglês ou francês do
letras.ufrj.br/nurc-rj>. Acesso em: 17 set. 2012.
jeito que se escreve!) Muitas gramáticas e livros didáticos chegam ao
cúmulo de aconselhar o professor a “corrigir” quem fala muleque, Projeto Vertentes do Português Rural do Estado da Bahia. Dis-
bêjo, minino, bisôro, como se isso pudesse anular o fenômeno da ponível em: <www.vertentes.ufba.br>. Acesso em: 17 set. 2012.
variação, tão natural e tão antigo na história das línguas. Essa super-
Série “Além-mar”, composta de programas de cerca de 50 minu-
valorização da língua escrita combinada com o desprezo da língua
tos. Disponíveis em: <http://tvescola.mec.gov.br>. Acesso em: 17
falada é um preconceito que data de antes de Cristo!
ago. 2012.
É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial,
mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada “artificial” e
reprovando como “erradas” as pronúncias que são resultado natural das
forças internas que governam o idioma. Seria mais justo e democrático
dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ou BOnito, mas que só pode
escrever BONITO, porque é necessária uma ortografia única para toda a
língua, para que todos possam ler e compreender o que está escrito, mas
Capítulo 2
é preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma música: cada Contos muito populares
instrumentista vai interpretá-la de um modo todo seu, particular!
O pintor belga René Magritte (1898-1967) tem um quadro famoso,
chamado A traição das imagens, no qual se vê a figura de um ca- Os alunos provavelmente já tiveram contato com a audição
chimbo e embaixo dela a frase escrita: “Isto não é um cachimbo”. e a leitura de contos fora da escola. Na própria obra, em capítu-
7o ano 31
los introdutórios, eles já foram apresentados com o propósito de Relativamente a isso, o livro do aluno apresenta algumas das
abordar a questão do texto ficcional e da apreensão de pistas para classificações propostas por Câmara Cascudo – o que confirma a
o processo de leitura de modo geral. Entretanto, é nesse capítulo abrangência do termo – e uma citação do estudioso sobre estar
que o gênero é sistematizado. incluído no termo conto popular os “causos” e o conto folclórico
O estudo é fundamental por apresentar uma matriz narrativa. que ocorrem no âmbito do sobrenatural.
Isso quer dizer que boa parte dos conceitos teóricos estudados e das
práticas de leitura apresentadas é válida para outros gêneros literários
em prosa que o estudante pode vir a ler: o conto moderno (autoral), o Ler conto popular I
romance, a crônica. Naturalmente, além dessa parte mais genérica, o Professor, esta é a primeira atividade de leitura do conto “O
capítulo explora as peculiaridades do gênero conto popular. espelho mágico”. Além desta, trabalharemos com o mesmo texto
Muitos estudantes têm familiaridade com ele, e isso é im- em outras duas atividades de leitura neste capítulo. O objetivo é
portante como meio de valorizar seu repertório pessoal prévio. que, a cada vez que o conto seja retomado, o aluno tenha condições
Na sala de aula, eles terão a oportunidade de constatar que esse de aprofundar sua compreensão do texto, reconheça os elementos
conhecimento e essa vivência têm enorme interesse cultural. que caracterizam o gênero com o qual está trabalhando e saiba um
O capítulo foi estruturado de maneira a intercalar leituras pouco mais sobre o contexto em que a narrativa foi produzida.
teóricas e prática de leitura de conto. Procure manter essa alter- As questões de 1 a 5, que antecedem a leitura, são necessá-
nância, pois uma enriquece a outra. rias para suscitar conhecimentos prévios. Isso é importante por-
que as referências que o leitor traz consigo participam da leitura,
ajudam a construir sentidos específicos para o texto.
Roda de conversa Faça a primeira leitura para os alunos em voz alta, desta-
As questões propostas permitem que o aluno comece a re- cando a entonação adequada. É importante oferecer modelos de
fletir sobre pontos centrais do capítulo. No momento da roda, leitura aos estudantes. Em outro momento, eles voltarão ao texto
é importante que eles exponham sua experiência e opiniões. O em leitura individual.
objetivo é ativar seus conhecimentos prévios. As questões da parte I são questões de compreensão global.
1. Resposta pessoal. Professor, estimule os alunos a contar sua ex- Os alunos podem discuti-las em duplas e registrar as respostas.
periência, tanto como contadores quanto como ouvintes. Pos- Em seguida, podem confrontar o próprio trabalho com o de ou-
sivelmente haverá grande variedade nas respostas, mas alguns tra dupla. Se divergirem, podem solicitar a ajuda do professor.
elementos comuns. Como contadores, provavelmente serão Respostas:
apontados familiares, pessoas mais velhas. O local lembrado tal- 1 a 5. Repostas pessoais.
vez seja a própria casa ou a de conhecidos, mas talvez seja a esco- 6. Todas as coisas escondidas.
la. Os conteúdos que se podem esperar são os contos de fada, os 7. A expectativa de sucesso do rapaz se fundamenta nos episó-
de terror, os de humor. Procure identificar as temáticas, ainda que dios que antecederam a aceitação do desafio. O rapaz tinha
os alunos não as nomeiem segundo as classificações tradicionais. animais mágicos para ajudá-lo. Além disso, o protagonista
2. Resposta pessoal. Professor, procure organizar as respostas que tem bom comportamento normalmente é bem-sucedido.
ouvidas. É possível que sejam citadas as finalidades de en- 8. Provavelmente por não acreditar que um animal tão pequeno
treter, ajudar a dormir, impressionar, ensinar, dar exemplo e frágil pudesse ajudá-lo.
de como superar um problema. 9. A presença desses três tipos de animais mostra que o rapaz
3. Resposta pessoal. terá ajuda garantida em todos os ambientes que existem (ter-
4. Resposta pessoal. Professor, trata-se de uma discussão im- restre, aquático e aéreo). É como se ele estivesse totalmente
portante para o conteúdo do capítulo. Algumas informações protegido. Mas, depois, isso mostra também que o espelho
sobre essa questão são dadas ao longo do capítulo. encontra coisas em todo tipo de lugar.

Um gênero antigo, uma função importante; A estrutura do conto; Elementos das narrativas
O gênero conto popular ficcionais
Os textos dão fechamento ao que foi discutido na roda de Faça a leitura compartilhada dessas seções. Interrompa a cada
conversa. Sugerimos que se faça uma leitura compartilhada, a bloco de sentido e verifique a necessidade de novos exemplos. Re-
fim de esclarecer eventuais dúvidas e estabelecer ganchos com corra a outras narrativas conhecidas dos alunos para exemplificar.
o que foi lido no próprio bloco.Ao longo do estudo, é possível que Os conceitos introduzidos devem ficar claros, mas não é
surjam dúvidas a respeito do que, afinal, pode-se denominar conto po- preciso investigá-los exaustivamente nesse momento, pois serão
pular, pois trata-se de um termo que abrange relatos de natureza bem aprofundados ao longo da escolarização. É importante a essa al-
diferente. Todos eles, no entanto, têm em comum o traço da transmis- tura que o estudante reconheça os cinco como responsáveis pela
são oral, da autoria anônima. “materialização” do conto.
32 Língua Portuguesa
Ler conto popular II cesa poderia procurar por mais tempo, à vontade, até conse-
A seção demanda a releitura do conto “O espelho mágico”. guir. Aí a história seria diferente.
O aluno agora deve realizá-la individualmente e refazê-la sem- 8. Resposta pessoal. Poderia ser inapropriado que ele tives-
pre que precisar, pois algumas questões exigem que ele encontre se estado tão próximo da princesa sem ser seu marido. A
pistas mais minuciosas. Essas questões exploram a construção princesa poderia achar que tinha sido um truque e poderia
da trama e sua coerência interna, que vem da relação bem esta- rejeitar aquela artimanha.
belecida entre os elementos da narrativa. Mesmo as questões que
solicitam hipóteses cumprem isso, pois ali o aluno precisa buscar
O conto de Câmara Cascudo e os elementos
possibilidades plausíveis dentro daquele contexto.
das narrativas
Peça aos estudantes que respondam individualmente e de-
Essa seção oferece um modelo de análise de texto literário. O alu-
pois façam uma checagem das respostas que apresentaram. Isso
no poderá ver como os elementos da narrativa e a questão do tema de-
pode ocorrer em uma correção coletiva, com o registro de uma
vem ser investigados. Eles não se destinam a que o leitor simplesmente
versão de resposta na lousa no final de cada item. É importante
identifique os personagens, onde e quando acontece a história, o que
que os alunos tenham também modelos de formulação de res-
é contado e o tipo de narrador. É preciso que o estudante compreenda
postas.
como a atuação simultânea e bem articulada desses elementos produz
1.
efeitos estéticos.
a) O rapaz tinha bom coração.
Insista na questão de haver mais de uma possibilidade de tema e
b) Ele ajuda desinteressadamente todos os animais em perigo
no fato de ele ser “descoberto” com base nas pistas que identificamos.
que encontra no caminho.
c) O rapaz também é corajoso (por aceitar o desafio que pode-
ria lhe custar a vida), esperto (por revelar seu segredo apenas
Ler conto popular III
depois do casamento), calmo e perseverante (por não se de-
A seção explora questões sobre o contexto de produção do
sesperar com os fracassos iniciais).
conto popular, incluindo a linguagem empregada.
Professor, chame a atenção dos alunos para o fato de a carac-
Peça aos alunos que respondam às questões individualmente;
terização vir também pelas atitudes.
depois, confira as respostas também individualmente. Essa ativi-
2. Quando saiu pelo mundo, o rapaz desejava ganhar a vida.
dade pode constituir-se num instrumento de avaliação.
3. Sugere que a situação ia ficando cada vez mais complicada. O
1. Com a indefinição quanto ao espaço físico onde se dão as
rapaz tinha um desejo, depois um problema e, por fim, uma
ações, o conto acaba sugerindo que aquilo pode ocorrer em
situação desesperadora.
qualquer lugar. Isso contribui para que os contos populares
4.
sejam, de certa forma, universais.
a) A formulação do narrador indica que, a cada vez, a princesa
2. Resposta pessoal. Espera-se que os alunos concluam que isso aju-
teve mais trabalho para encontrar o rapaz.
da a indicar que o fato poderia acontecer em qualquer época, o
b) A cada tentativa, o jovem se escondia em locais mais distantes,
que contribui para o caráter universal do conto.
em meios menos acessíveis para o ser humano.
Professor, chame a atenção dos alunos para a reflexão seme-
Professor, ajude os alunos a perceber que esse quadro ajuda
lhante feita a propósito do espaço na questão 1. Comente que as
a criar o clímax, pois o aumento de complexidade ocorre tanto
personagens também não têm nome, idade definida etc.
para o rapaz como para a princesa. Aproveite para ajudá-los a
perceber que a solução não estava em ir cada vez mais longe; pelo 3. Contos tradicionais do Brasil.
contrário, ela surgiu quando ele ficou bem perto. 4. Não. Os contos populares são anônimos, são uma criação
5. A princesa pode ter gostado do rapaz e ia fazer de tudo para coletiva do povo, que, conforme conta, pode ir alterando
casar com ele. alguns detalhes. O trabalho de Câmara Cascudo foi o de re-
Professor, ajude os alunos a perceber que esse detalhe não gistrar essa história por escrito, depois de ouvi-la de alguém
explícito não compromete a coerência interna do conto. Con- que a conhecia, talvez um contador.
fronte com a questão 2, por exemplo. 5. Conto de encantamento.
6. Resposta pessoal. 6. Fala-se em princesa, em reinado, em camisa (combinação).
Professor, novamente pode-se refletir sobre os detalhes que 7.
compõem o enredo. O destino do espelho não importa para esse a) Riscar na praia; b) Lograr sucesso; c) Valer;
núcleo narrativo. Ao recontar histórias da tradição oral, sobretu- d) Botar reparo; e) Até uma hora da madrugada.
do por escrito, o aluno deve perceber o que precisa ser explicitado
para garantir coerência e o que deve ser descartado.
7. Espera-se que o aluno perceba que isso dava limites à prin- Aplicar conhecimentos I
cesa e criava a chance de ela não conseguir encontrar quem As questões sobre o conto concentram-se na caracterização das
procurava. Se o espelho tivesse poder o tempo todo, a prin- personagens, que contribui para a verossimilhança da narrativa.
7o ano 33
Comece contando quem criou a versão que vai ser lida e leia – É mesmo – concordou a velha.
o conto (transcrito a seguir) integralmente. Peça a alguns alunos, – O problema é que vai ficar meio sem graça assim branquela, sem
após a realização da atividade (que pode ser intermediada pelo cor. O gosto está bom, mas sempre fica melhor quando a gente tem
um pouco de colorido para enfeitar. Um pedaço de abóbora, umas
professor), que escrevam sua formulação de resposta na lousa e
folhas de couve, de repolho, uma cenourinha... mas isso não é mes-
comente-a, levando em conta a clareza e a precisão. mo muito importante, a senhora não acha? É só a aparência...
Pedro Malasartes e a sopa de pedra A mulher, louca para aprender bem a fazer aquela sopa preciosa,
Um dia, Pedro Malasartes vinha pela estrada com fome e chegou a foi dizendo:
uma casa onde morava uma velha muito pão-dura. – Não seja por isso, vou ali na horta buscar.
– Sou um pobre viajante faminto e cansado. Venho andando de Voltou carregada de tudo o que ele pediu e mais um nabo, dois
muito longe, há três anos, três meses, três semanas, três dias, três maxixes, uma batata-doce, um chuchu, uma espiga de milho. Até
noites, três horas... uma banana-da-terra. A essa altura, ela já não se limitava a ficar
– Pare com isso e diga logo o que quer – interrompeu a mulher. olhando. Tratava de ajudar mesmo, para andar depressa e também
– É que eu estou com fome. Será que a senhora poderia me ajudar? para ela ter certeza de que não estava perdendo nenhuma etapa da
preparação daquele prato tão maravilhoso e econômico. Por isso,
– Não tem nada de comer nesta casa – foi logo dizendo a velha. foi logo lavando todas as verduras para tirar a terra e limpar bem,
Ele olhou em volta, viu um curral cheio de vacas, um galinheiro cheio descascou o que era de descascar, e foi passando para Pedro, que
de galinhas, umas gaiolas cheias de coelhos, um chiqueiro cheio de cortava e jogava na panela.
porcos. E mais uma horta muito bem-cuidada, um pomar com árvores
E o fogo, ó, ia esquentando. E a água, ó, ia fervendo. E a sopa, ó, ia
carregadinhas de frutas, um milharal viçoso, uma roça de mandioca.
borbulhando.
– Não, a senhora entendeu mal! Eu não preciso de comida. Eu não
Os dois esperavam, sentindo aquele cheiro ótimo. De vez em quando,
preciso de comida, não. Só queria era uma panela emprestada e um
Malasartes provava. E suspirava:
pouco d’água. Se a senhora me deixar usar seu fogão, eu já estou
satisfeito. Porque aqui no chão tem muita pedra, e isso me basta. – Hum! Está ficando gostosa...
Eu faço uma sopa de pedra maravilhosa e nunca preciso de mais – Está mesmo um cheiro delicioso – concordava a velha.
nada, já fico de barriga cheia. Daí a pouco, ele provou de novo e concluiu:
Desse jeito, ela não tinha como negar. Então deixou. Meio de má – Pronto! Agora está perfeita! Uma delícia. É só tomar.
vontade, mas deixou. Só repetiu:
A velha trouxe dois pratos fundos, e ele serviu. Ela ficou olhando, para
– Sopa de pedra? ver o que ele fazia com a pedra, mas Pedro deixou a pedra na panela.
– É... – disse ele, se abaixando para pegar uma pedra no chão. – – E a pedra? – perguntou.
Com esta pedra aqui eu faço a sopa mais deliciosa do mundo. O
importante é lavar bem, esfregar bem esfregadinho e deixar a pedra – A gente joga fora.
bem limpa antes de botar na panela. –Joga fora?
E Malasartes então tratou de lavar bem a pedra, como disse. Em – É... Ou então lava bem e guarda para fazer outra sopa no dia em
seguida, encheu a panela com água, pôs a pedra dentro e botou que for preciso enganar outro bobo.
tudo no fogo. Quando a água começou a ferver, ele provou e disse: Uns dizem que ela ficou tão furiosa que jogou a panela em cima
– É... até que não está ruim... Só não vai ficar boa mesmo, de verda- dele, com sopa quente, pedra e tudo.
de, porque não tem sal. Outros dizem que ela deu uma gargalhada, viu que tinha merecido,
– Não seja por isso – disse ela. – Eu lhe arrumo. mas tratou de tomar a sopa e guardar a pedra.
– E um temperinho verde, da horta, será que não tem? Dá um gos- Pode escolher o fim. E fica sendo assim.
tinho especial na sopa... MACHADO, Ana Maria. Histórias à brasileira: Pedro Malasartes e
– Vá lá, não é por isso que essa sua sopa vai ficar sem gosto.
outras. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004.
Foi pegar tudo o que Pedro Malasartes pediu e voltou depressa para
o lado dele. Estava louca para aprender a fazer aquela sopa. Podia 1. Desde o início ele se mostra esperto, pois percebe sem demora
ser mesmo uma sorte receber aquele viajante em casa. Se ele lhe que não vai ganhar nada se insistir com a velha, já que ela é
ensinasse a se alimentar só com uma sopa feita de pedra e água,
com certeza ela ia economizar muito daí por diante.
pão-dura. Ele logo diz que só quer água e uma panela empres-
Mas não pôde ficar muito tempo na beira do fogão, observando. Por-
tada. Malasartes desperta a curiosidade da velha com a notícia
que logo que Pedro jogou os ingredientes na panela e deu uma me- de que a sopa é de pedra.
xida, ele tornou a provar e fez uma cara de quem estava em dúvida. 2. Malasartes também se mostra esperto ao encenar muito bem a
– O que foi? – perguntou a mulher. mentira que contou à velha, pois ela não desconfia de nada e vai
– Não sei bem. Parece que falta alguma coisa neste caldo. Talvez um dando tudo que não tinha concordado em dar de início. No final,
pedacinho de carne ou linguiça... depois de conseguir o que queria, ele ainda revela sua esperteza
– Não seja por isso – respondeu ela. – Se é uma sopa tão maravilho- provocando a velha e deixando claro que ela tinha sido tola.
sa e tão econômica assim, não vai ser por um pedacinho de carne
3.
que vamos perder essa maravilha.
a) Lavar a pedra era importante porque ela cozinharia junto com a
Foi lá dentro e voltou com um pedaço de carne, outro de paio e uma
linguiça. Malasartes jogou tudo dentro da panela. Deixou cozinhar sopa que Malasartes ia comer. Se estivesse suja, estragaria a sopa.
mais um pouquinho e então respirou fundo. b) A velha não tinha por que desconfiar; aquela medida podia
– Está começando a ficar cheirosa, não acha? muito bem fazer parte da receita.
34 Língua Portuguesa
4. Ele dá a impressão de que não eram ingredientes importantes, pe- cebe a progressão temporal pela narração de fatos que se
los quais ele estava profundamente interessado. Dessa forma, ele sucedem.
disfarça suas reais intenções e a velha não desconfia do plano dele. 15. Narrador observador.
5. A velha queria aprender a fazer a sopa que, na opinião dela, 16. Conto de animais ou fábula.
a faria economizar.
6. Resposta pessoal.
7. Ana Maria Machado. Planejando a fala
8. O final: “Uns dizem que...”, “Outros dizem que...”, “Pode es- Em atividades anteriores, os alunos já experimentaram a situa-
colher o fim. E fica sendo assim”. ção de contar histórias. Nesse momento, a experiência dos alunos em
9. “E o fogo, ó, ia esquentando. E a água, ó, ia fervendo. E a contar histórias fica mais rica devido ao estudo sistemático que foi
sopa, ó, ia borbulhando.” feito do conto popular. Eles disporão de mais recursos para trabalhar
10. Narrador observador. Ele sabe tudo o que ocorre, mas não indicações temporais, caracterização, linguagem e a articulação entre
tem o poder de descrever os sentimentos e pensamentos das os vários fatos. Além do mais, uma das contações receberá registro es-
personagens. crito. Na apresentação, crie uma situação especial, semelhante a um
11. Trata-se de uma facécia. sarau, na qual os alunos podem trazer comida e bebida e compartilhar.

Aplicar conhecimentos II Momento da escrita


Quanto ao conto “O pulo do gato”, promova uma discussão Com o registro escrito de um conto ouvido, o estudante experi-
com as questões apresentadas e oriente os alunos a elaborar in- mentará a atividade de retextualização, tão importante para que ele
dividualmente as respostas de 6 a 9 e de 14 a 16. As questões de desenvolva o domínio da escrita. O acompanhamento de todas as
10 a 13 podem ser feitas em pequenos grupos. As respostas das fases permitirá ao professor fazer um diagnóstico da turma, e a apre-
questões 1 a 5 são pessoais. ciação do texto final pode constituir um instrumento de avaliação.
6. A de comer o gato.
7.
a) Era educada, sedutora. “Chegou-se com muitos bons modos Atividade complementar
e pediu-lhe”; “pôs-se muito macia”. Apresente várias coletâneas de contos populares de outras
b) O de que o gato é pequeno e não a satisfaria e o de que ele é culturas e convide os alunos a escolher um exemplar para ler em
seu quase parente (por isso, não tentaria nada contra ele). casa. Estabeleça um dia para comentários sobre os livros lidos e
c) Não. O gato não ensina todos os pulos; ele se protege usando troca de indicações.
um salto que a onça não conhecia. Sugestões:
8. “Mais acomodado, mas ainda um pouco ressabiado, o gato Da cultura árabe:
começou a lição.”
JAROUCHE, Mamede Mustafa. Histórias para ler sem pressa.
9. Espera-se que o aluno conclua que o conto ensina que a des-
confiança às vezes é saudável. Porto Alegre: Globo, 2008.
10. “O seguro morreu de velho”. Da cultura chinesa:
11. VIEIRA, Maria Alice. Contos e lendas de Macau. São Paulo:
a) As mais formais estão na coluna 2; as mais informais, na SM, 2007.
coluna 1.
b) Do narrador.
c) Resposta pessoal. Espera-se que o aluno aponte que as frases
Avaliação
mais informais lembram a situação de contação; que a mis-
Este capítulo apresenta diversas atividades que podem cons-
tura dá certo equilíbrio ao texto, deixando-o harmonioso.
tituir um instrumento de avaliação para o professor, conforme
12.
foi indicado nas respectivas seções.
a) “Deixando a onça a olhar por um óculo”. / “Não era tão tolo
que [...] não reservas se este pulo [...]”.
b) Ficou vendo-o saltar. / Você seria capaz de me apanhar./
Deixando a onça olhando por um óculo./ Não seria tão tolo. Para ampliar
13. Que não é inocente / Não me deixo enganar / A olhar de longe
(com a ajuda de um óculo, de tão depressa que o gato sumiu). Livros
14. Nesse conto, não há indicação de lugar; fica pressuposto COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo
que tudo se passa num ambiente silvestre. Quanto ao tem- Horizonte: Autêntica, 2008.
po, não há também indicações explícitas, mas o leitor per- Consulte os verbetes “caso” e “conto popular”.
7o ano 35
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto: Estudar na escola
leitura e redação. 2. ed. São Paulo: Ática, 1997. Depois de conversar sobre o ato de estudar, a ideia é refletir
MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teórico-práticos da sobre esse ato na escola. Leia o texto didático com os alunos, fa-
arte de contar histórias.São Paulo: DCL, 2004. zendo pausas e perguntas para eles: se costumam ler muito na es-
cola, se costumam fazer interpretações dos textos que estudam etc.
O livro é uma síntese da arte narrativa desenvolvida pela autora. Ele
procure ter em mãos algumas obras de referência, para mostrá-las
apresenta uma reflexão sobre a importância da arte de contar histó-
aos alunos. Ou então combine uma visita à biblioteca da escola ou
rias hoje, as ideias de outros autores que já pensaram na arte narrativa
à sala de leitura, para que os alunos possam manusear as obras de
tradicional, os recursos a serem exercitados durante a aprendizagem referência: dicionários, enciclopédias, atlas, almanaques etc.
de contar histórias e a utilização pedagógica dos contos tradicionais.

Site Ler obras de referência


Quem conta um conto... Revista E, Sesc, n. 129. Disponível em: <www. Antes de ler os três textos que serão propostos, os alunos de-
sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?edicao_id=304&Artigo_ vem escrever as respostas às questões de 1 a 5, propostas no início da
ID=4720&IDCategoria=5383&reftype=2>. Acesso em: 20 ago. 2012. atividade. São questões de resposta pessoal, que ativam os conheci-
Reportagem que apresenta a importância de contar/ouvir histórias mentos prévios e que funcionam também para fazer uma sondagem
e sua capacidade de transformação e cura. da turma. A pergunta sobre o significado da palavra “migração” an-
tecipa o tema dos verbetes que serão lidos ao longo do capítulo. Veri-
fique o grau de familiaridade dos alunos com o uso dos dicionários e
com o uso de enciclopédias impressas e digitais. É importante que os
alunos primeiramente escrevam as respostas e depois as leiam para
a turma. Dessa forma todos trabalham na elaboração delas.
Capítulo 3 Em relação aos textos propostos para leitura, você pode pro-
Estudando obras de referência ceder da seguinte forma: os alunos fazem a primeira leitura em
silêncio; depois dessa leitura é importante colher as impressões
que tiveram dos textos; o terceiro passo é ler o texto em voz alta,
O objetivo deste capítulo é aprimorar e desenvolver técnicas de fazendo pausas, esclarecendo dúvidas, fazendo comentários.
estudo, ferramentas importantes para a formação dos estudantes 6. O texto deixa claro que uma enciclopédia é escrita para tor-
em processo de escolarização. É fundamental que você, professor, nar as pessoas mais instruídas, virtuosas e felizes.
ensine maneiras de lidar com os conhecimentos, com as matérias 7. Espera-se que os alunos percebam que a ordem alfabética
facilita a pesquisa. Não é necessário saber a relação temáti-
escolares. Estudar não é um dom, é uma ação que exige técnica, que
ca entre os termos para buscá-los em uma enciclopédia. Foi
exige saber fazer. Estudar, no dia a dia da escola, implica saber fazer
um jeito de “democratizar” o acesso às ciências.
muitas atividades. Todas as ações envolvem formas de estudo que
8. Espera-se que os alunos reflitam sobre o que pode ser posi-
são praticadas em uma escola devem ser ensinadas pelo professor.
tivo – atualizações constantes e contínuas reelaborações do
verbete – e o que pode ser negativo – a não precisão de al-
gumas informações, já que um verbete pode eventualmente
Roda de conversa
ser escrito por um internauta não especialista no assunto.
Leia para os alunos a abertura do capítulo e converse com eles
Professor, é importante destacar para o aluno que a Wikipédia
sobre a importância do ato de estudar. Dê um tempo para que fa-
dispõe de mecanismos para controlar a edição de seus textos. Algumas
çam o exercício proposto na seção. Depois, peça-lhes que digam
de suas páginas são travadas para edição, na tentativa de evitar um
as alternativas que escolheram e que justifiquem suas escolhas. olhar enviesado de um tema, sendo que as alterações são discutidas
Comente-as, pergunte o que fez decidir por uma ou por outra em um fórum com outros usuários. Tais mecanismos de controle bus-
alternativa. Sugira aos outros estudantes que também comentem cam torná-la uma fonte de informação mais precisa.
as respostas dadas. Observe que, nas alternativas, os sentidos de 9. Os alunos poderiam arriscar traduções assim: panorama rá-
estudar variam muito. Algumas apontam apenas para a questão pido; ensino circular extremamente rápido.
da memorização, outras associam o ato de estudar à criação. Vale 10. O objetivo da questão é promover um contato inicial com
enfatizar que estudar é uma atitude que procura compreender as obras de referência na internet e, por extensão, melhorar a
coisas, os fatos, as ideias. Estudar não é fácil, porque estudar exige compreensão do texto que versa sobre a Wikipédia. Auxilie
disciplina, porque estudar é criar e recriar, e não apenas repetir o os alunos, indicando sites de busca e páginas confiáveis que
que os outros dizem. Studeo, studere, no latim, significa aplicar- tornem a pesquisa mais eficaz.
-se, desejar, buscar, comprazer-se em, gostar de... O estudo deveria 11. Espera-se que o aluno responda “não”. Nenhuma pesquisa
ser, antes de tudo, uma ação prazerosa, para jovens e adultos. pode ser completa se o pesquisador tomar como base uma
36 Língua Portuguesa
única fonte de pesquisa. É importante enfatizar que as enci- 2. Essa diferença aparece no terceiro verbete. Imigração é a
clopédias e os dicionários são excelentes fontes para iniciar movimentação de entrada; emigração é a movimentação de
uma pesquisa, justamente porque nos verbetes aparecem saída de indivíduo ou grupo de indivíduos.
sugestões/remissões para consultar outros verbetes (enci- 3. De acordo com a definição do dicionário, os nordestinos
clopédia impressa) ou links (enciclopédia digital). podem ser considerados imigrantes. Conforme o texto, a
12. Espera-se que o aluno concorde que um dicionário deve tra- movimentação de entrada das pessoas em uma localidade é
zer verbetes da língua falada. chamada de imigração.
13. Os bons dicionários tentam registrar o vocabulário do por- 4. Se considerado o local de saída, as pessoas que deixam o
tuguês brasileiro em toda a sua riqueza, devendo considerar Nordeste são emigrantes.
usos mais antigos e mais recentes, os mais frequentes e os 5. A afirmação não está correta. Na verdade, é exatamente o contrá-
mais raros. Daí uma edição mais recente do Dicionário Au- rio: o primeiro verbete foi retirado de uma enciclopédia impressa
rélio conter mais verbetes. e o segundo, de uma enciclopédia digital. Isso fica evidenciado na
indicação da fonte, disponibilizada no final de cada verbete.
6. Informações similares: as migrações têm sido uma constante
Verbetes de dicionários, verbetes de enciclopédias na história da humanidade; consequências culturais nos lo-
O texto didático deve ser lido por você em voz alta, com pau-
cais que recebem migrantes.
sas e comentários. Seria importante ter em mãos um dicionário
7. Resposta pessoal. Espera-se que o aluno, se for imigrante,
completo e mostrar para os alunos a localização da chave do dicio-
relate as próprias experiências.
nário. Ler um verbete de dicionário não é tarefa simples. O intuito
aqui é oferecer aos alunos possibilidades para que leiam melhor os Grifar/sublinhar textos
verbetes e não que memorizem essas informações. Se for possível,
Em geral, alunos de EJA não estão habituados a grifar textos, fa-
proponha exercícios para que eles busquem palavras nos dicioná-
zer fichamentos e resumos. Para que realizem atividades que ensinam
rios. Peça-lhes que encontrem o sentido etimológico dessas pala-
estratégias de estudo, é necessária a mediação do professor. Ao ler essa
vras. É comum, por grafarem errado, que os alunos não encontrem
seção com os estudantes, procure saber como costumam proceder
as palavras que escreveram no dicionário. Faça uma lista de pala-
quando outros professores lhes pedem para que estudem um texto.
vras escritas com troca de letras ou sem a letra “h” e proponha aos
Seria importante que pudessem aplicar as estratégias de estudo que
estudantes que imaginem outra possibilidade de escrita para que
vão ser ensinadas na leitura de textos de outras disciplinas. Por isso,
possam encontrá-las no dicionário. Comente também o fato de no
combine com outros professores procedimentos comuns para ativida-
dicionário não aparecer palavras flexionadas. Coloque exemplos
des que foquem o ler para aprender. Repetir procedimentos didáticos
na lousa de verbos conjugados que não seriam encontrados.
é a melhor maneira de o aluno familiarizar-se com técnicas de estudo.
Em relação às enciclopédias, seria ótimo mostrar ao aluno o
É importante discutir bastante a noção de “objetivos de leitura”.
acervo dessas obras na biblioteca ou na sala de leitura. Da mesma
O exercício proposto servirá como uma boa experiência para os
forma, se possível, mostrar no computador como é realizada uma
alunos. Quando grifamos um texto sem um objetivo definido, pode-
pesquisa na internet, para que os alunos possam navegar numa en-
mos grifá-lo de muitas maneiras: grifamos uma passagem que chamou
ciclopédia virtual. As enciclopédias digitais apresentam links. Bas-
a atenção, uma palavra curiosa; às vezes, grifamos parágrafos inteiros.
ta clicar com o mouse em cima desses links e uma nova página se
Para grifar as ideias principais de um texto, alguns pro-
abre para leitura. É importante enfatizar que nos verbetes das en-
cedimentos precisam ser enfatizados e ensinados: os objetivos
ciclopédias os links são um diferencial em relação aos dicionários.
de leitura têm de estar claros, e devem-se evitar grifar palavras
soltas e desconexas ou parágrafos inteiros. É preciso ensinar aos
Ler verbete I estudantes a função dos grifos – deixar destacadas ideias impor-
Proceda como no exercício de leitura anterior. Num primeiro tantes. Parágrafos inteiros grifados fazem com que os grifos per-
momento, os alunos leem em silêncio os três textos; terminada a lei- cam sua função, pois impedem que se recupere rapidamente as
tura, converse com eles e colha as impressões; depois, leia os textos ideias essenciais. Também é importante observar que nem todos
em voz alta, fazendo pausas, comentários, esclarecendo dúvidas. os parágrafos apresentam ideias que precisam ser grifadas.
Os exercícios devem ser realizados depois da discussão sobre
os textos. Ler verbete II
O objetivo é comparar o tipo de informação que consta em 1.
cada verbete e discutir os diferentes suportes. a) É provável que os grifos não coincidam. É provável também
1. Os dois primeiros verbetes foram retirados de enciclopé- que os alunos não consigam encontrar boas justificativas.
dias. Assim, procuram informar e transmitir dados gerais b) É provável que tenham acontecido as duas coisas. Parágra-
sobre migração. Os verbetes de enciclopédia procuram dar fos inteiros grifados ou palavras soltas fazem com que os
uma visão ampla de vários assuntos. O terceiro texto define grifos percam sua função, pois impedem que se recuperem
a palavra migração, e não a explica como um tema amplo. rapidamente as ideias consideradas importantes.
7o ano 37
2. t a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas;
Com o objetivo estabelecido, os trechos grifados seriam: t a rotação de culturas;
t as consequências (demográficas) imediatas na sociedade t o hábito de consumir mais legumes e verduras.
emissora são redução da pressão demográfica, o repentino 2. Resposta pessoal.
envelhecimento da estrutura de idade da população e o des- 3.
povoamento das áreas rurais. Fonte: Enciclopédia Barsa Universal. Espanha:
t nas sociedades emissoras, as consequências (econômicas) Editorial Planeta, 2007. p. 3 949.
positivas são a progressiva redução da pobreza, a tendência Título: O Brasil e as migrações
para o equilíbrio da balança de pagamentos, com as remes- Objetivo da leitura:
sas de divisas que os imigrantes enviam às suas famílias, e a Encontrar informações sobre as características do processo de
potencial renovação que se manifesta com os retornos. [...] migração no Brasil e as consequências para o nosso país.
uma consequência negativa é a perda de pessoal qualificado, Ideias destacadas:
que nem sempre é associada a situações de conflito político. O processo de migração no Brasil, segundo o verbete da Enciclopédia
t (consequências culturais) nas sociedades emissoras, o mo- Barsa, teve as seguintes características: foi um movimento ao mesmo
vimento de grandes contingentes de população favorece a tempo colonizador e povoador, incorporou portugueses, negros e in-
estagnação dos elementos culturais tradicionais, impedindo dígenas e pode ser percebido especialmente na cultura e na economia
a criação de uma nova ordem social e favorecendo a exposi- das duas mais ricas regiões brasileiras: Sudeste e Sul.
As consequências para nosso país da presença de imigrantes, ainda con-
ção às influências culturais externas.
forme o verbete, foram a implantação de novas e melhores técnicas agríco-
las, a rotação de culturas, o hábito de consumir mais legumes e verduras.
Estratégias de estudo: grifar/sublinhar e fichar texto
Professor, repare que não basta transcrever as ideias grifadas. O
O exercício anterior vai ajudar o aluno a concretizar as estraté-
texto do fichamento requer alguns cuidados, para que não se transfor-
gias que serão sugeridas nesse momento no texto didático. Leia-as
me em cópia salteada de ideias. É relevante que os alunos percebam as
com os alunos, pausadamente, comentando-as. Aproveite-o para re-
conexões entre as ideias e como se hierarquizam. É importante que,
alizar mais uma atividade de grifar. Sugerimos que você leia o texto
com sua ajuda, os alunos aprendam a usar frases como: “segundo o
da primeira coluna e converse sobre ele com os alunos. Depois, peça-
verbete tal”, “conforme o texto tal”. É necessário deixar claro que as
-lhes que analisem o que aparece grifado na segunda coluna e dis-
ideias que formam o fichamento são retiradas de outro texto.
cutam principalmente sobre o que não foi grifado. Só depois dessa
análise, leia a terceira coluna. Para visualizar melhor o procedimen-
to, coloque um trecho do texto na lousa e mostre as possibilidades de Aplicar conhecimentos
grifá-lo, considerando sempre o objetivo de leitura. Resposta esperada para o preenchimento do quadro com o
fichamento:
Fichamento Fonte: Enciclopédia Delta Universal. Rio de Janeiro:
O fichamento é o registro das ideias selecionadas e grifadas no tex- Editora Delta S.A. 1979. vol. 9, p. 4 840 – 4 845.
to. Ensine aos alunos as convenções para indicar uma referência biblio- Título: Literatura
gráfica. É muito importante que haja tenham indicação completa, com Objetivos da leitura:
ano de publicação e página do texto consultado. Encontrar definições de literatura e as diferenças entre os textos
Vale lembrar que fichar é diferente de resumir. Um resumo, no ficcionais e não ficcionais
contexto escolar, apresenta-se como um texto que, de forma sintéti-
Ideias destacadas:
ca, atualiza o conteúdo e a organização integral do texto-fonte. Em
um fichamento, devem constar registros de informações obtidas na ŅLiteratura, em sentido mais amplo, é tudo aquilo que tenha
leitura de um texto, mas que atendam aos objetivos do leitor. sido escrito.
ŅEm sentido mais restrito, há várias espécies de “literatura”.
ŅA palavra literatura, no seu sentido mais limitado, é uma das artes.
Ler verbete III ŅFicção é a criação literária que o autor produz a partir da pró-
1. Trechos a serem grifados: pria imaginação.
Características: ŅA não ficção é o escrito acerca de situações reais da vida.
t Foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador
t incorporou portugueses, negros e indígenas. Para ampliar
t A marca da imigração no Brasil pode ser percebida especial-
mente na cultura e na economia das duas mais ricas regiões Livros
brasileiras: Sudeste e Sul. BASSO, Renato; ILARI, Rodolfo. O português da gente: a língua
Consequências: que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.
38 Língua Portuguesa
FREIRE, Paulo. “O ato de estudar”. In: A importância do ato de até mesmo seus familiares receberem destaque, ainda que não
de ler. São Paulo: Cortez, 2008. sejam pessoas públicas.
WEG, Rosana Morais. Fichamento. São Paulo: Paulistana Editora, 3. Resposta pessoal.
2006. (Coleção Aprenda a Fazer.) Professor, trata-se de discussão importante para a próxima seção.
4. Resposta pessoal.
Professor, aproveite para avaliar em que grau a classe se in-
Filme forma por meio de jornais impressos.
O nome da rosa. Direção: Jean-Jacques Annaud, 1986. 130 min.
5. Resposta pessoal.
Professor, aproveite a discussão para delinear um perfil de
leitura da classe.

Capítulo 4 Que fatos viram notícias?


A primeira seção retoma a discussão preliminar, e seu desfecho
Deu no jornal! cria motivação para o estudo mais técnico das duas seções seguintes.
Promova uma leitura compartilhada da segunda seção sa-
lientando os elementos sempre abordados em uma notícia e o
Neste capítulo, dando seguimento ao estudo de textos da
destaque que alguns podem ter em razão do tema e da intenção
esfera jornalística, o aluno estudará o gênero notícia. Ele nor-
de quem produz. Peça aos alunos que comentem os efeitos gera-
malmente tem contato com esse gênero por meio de veículos va-
dos pelas escolhas da versão original da notícia sobre a campa-
riados, como rádio, TV, internet e jornal impresso. Aqui, porém,
nha e da versão 2. Verifique se perceberam a ênfase no aspecto
sua experiência como leitor de notícia será um pouco diferente,
mais circunstancial, de comemoração, que atenua a feição de
pois ele realizará essa leitura amparado por algumas reflexões.
iniciativa, de política pública de saúde.
Uma delas tem como foco a exploração do contexto de
Os alunos poderão encontrar pontos de contato entre as ques-
produção da notícia. O objetivo é desmistificar esse gênero
tões respondidas na notícia e os elementos da narrativa ficcional.
como relato neutro, que retrata a realidade de forma indiscutível.
Nesse momento torna-se importante salientar que a diferença está
Os aspectos composicionais do texto também serão estudados,
no tratamento dado aos elementos. Na notícia eles não são recur-
mas à luz do objetivo exposto.
sos para despertar a emoção.
Além disso, o aluno vai desempenhar o papel de produtor
É importante estabelecer a diferença entre a notícia de um
de notícia, situação em que experimentará a possibilidade de se-
fato pontual, como um atropelamento, um show, e a notícia de
lecionar aspectos, palavras e depoimentos a fim de obter deter-
um processo, como a constatação de aumento de casos de obesidade
minado efeito, o que contribui para torná-lo mais crítico a essa
entre crianças, por exemplo. No primeiro, fica mais evidente o even-
realidade quando está no papel de leitor.
to central, que deve ser trazido para o início da notícia. No segundo,
Por último: por meio do estudo do gênero notícia, o aluno
há também que destacar um aspecto relevante, mas trata-se de uma
terá contato com a objetividade, mas como efeito que a lin-
escolha mais livre, inclusive na forma de redação do lide.
guagem permite. Os mecanismos assimilados nessa situação
Destaque que o lide pode ser um parágrafo bem curto, com
constituem importante recurso linguístico e permitem ao aluno
as questões “Quem?”, “O quê?”, “Onde?” e “Quando?”, ou pode
acessar outros gêneros que também exploram o mesmo efeito.
ser mais longo, com períodos que, constituídos por informações
complementares, ajudam a compor o aspecto central. Mais ra-
ramente ele pode apresentar até mesmo mais de um parágrafo.
Roda de conversa
Mostre aos alunos que a estrutura de lide e corpo, além de fa-
A canção da abertura lança a discussão sobre o que vira no-
vorecer a agilidade de leitura, ou seja, de beneficiar o leitor, também
tícia. Aproveite a ocasião para introduzir a relação entre notícia e
funciona muito bem para quem edita. Como os aspectos mais peri-
realidade. É comum afirmar que fatos importantes viram notícia,
féricos vão ficando para o final, o editor, quando precisa fazer cortes,
mas pode-se pensar no inverso: o que se escolhe noticiar acaba
não precisa reestruturar todo o texto, ele pode simplesmente elimi-
ganhando importância e passa a fazer parte da realidade.
nar parágrafos inteiros. Se necessário, insere pequenos ajustes nos
1. Resposta pessoal. Os alunos talvez apontem o fato de os veículos
parágrafos que permaneceram. Isso é válido tanto para a notícia de
de comunicação serem estrangeiros, e os episódios, muito locais.
fato pontual quanto para a notícia de processos mais amplos.
Talvez apontem o fato de serem de pouco interesse público, mes-
Naturalmente há múltiplas possibilidades de estruturar uma
mo para a população amazonense e fluminense, respectivamente.
notícia, mas é importante que o aluno assimile a maneira mais con-
2. Resposta pessoal.
sensual, que pode lhe ser útil em suas produções textuais espontâ-
Professor, introduza na discussão o fato de celebridades es-
neas em outros gêneros, inclusive fora da escola. Afinal, trata-se de
tarem comumente em foco, independentemente de se tratar de
uma estrutura eficiente quando é preciso relatar com objetividade.
um episódio relativo ao seu trabalho (artístico, esportivo etc.) e
7o ano 39
Ler notícia I 8.
Cada uma das notícias presentes nas três atividades de lei- a) A queda de um avião bimotor.
tura do capítulo circulou em uma cidade diferente. A leitura das b) Causou a morte de oito pessoas.
três versões retoma a discussão da notícia como retrato da rea- c) Na manhã de ontem.
lidade. O aluno terá oportunidade de opor fato e versão do fato. d) Em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Ajude-o a constatar que não temos acesso ao fato a não ser pela É possível considerar elementos que não são pessoas como uma
linguagem e que, sendo assim, apenas temos acesso a versões. resposta à questão “quem”. Em alguns manuais, todavia, considera-se:
Estas, por sua vez, são naturalmente construídas com base em quem – oito pessoas; o quê – queda de avião bimotor causou morte.
valores, mas também deliberadamente construídas conforme 9. O aluno deve destacar o trecho que vai desde “Entre os pas-
certos interesses. sageiros” até “não haviam sido divulgados até o início da
No estudo que está realizando, o aluno deve começar a per- noite”.
ceber que não noticiar um fato também é representativo de uma 10. Era um bimotor, modelo B-200 GT, e pertencia à empresa
visão do jornal. Comente que às vezes as notícias competem com Vilma Alimentos.
as propagandas que o jornal publica na mesma página e que a 11.
publicidade é sua principal fonte de receita. Lance a situação hi- a) A queda do avião/o acidente.
potética de o jornal ter uma notícia em que uma empresa este- b) Não, a notícia só esclarece que ninguém da pousada se feriu.
ja em situação desfavorável e que essa mesma empresa seja um c) Provavelmente porque não foram apuradas ou porque foi ne-
anunciante naquele jornal. Investigue o que os alunos acham que cessário cortar informações em razão do espaço na página.
aconteceria, avalie se eles se sensibilizam para essa situação hi- 12.
potética na condição de leitores reais de jornal. a) A notícia menciona “leve” neblina. Assim, ela aparentemente
As questões propostas a respeito das três notícias buscam não comprometeria a segurança.
dirigir o olhar do aluno para o arranjo na seleção de depoimen- b) Resposta pessoal. Sugestão: No momento do acidente, havia
tos e de informações. Em todas é importante considerar o supor- neblina na região, o que pode ter comprometido a visibilida-
te original do texto, explorando a página de origem da notícia. de do piloto.
Convém verificar em que universo ela de insere, que relação ela 13. A caixa-preta do avião já foi encontrada e passará por análise.
mantém com os demais textos da página. No caso do jornal de 14.
Minas Gerais, região onde se deu o acidente, há de certa forma a) Elas dão mais credibilidade ao que é dito e isentam o redator
maior proximidade com as vítimas, que eram de uma empresa de estar criando informações.
local, provavelmente importante para a economia do estado. b) Professor, verifique se os alunos concluem que o repórter pro-
Pensando no suporte original do texto, propomos algumas vavelmente apurou algumas informações com os proprietá-
questões para serem feitas ao aluno antes da leitura da notícia. rios e hóspedes na pousada, os funcionários do aeroporto, os
Elas podem ser respondidas oralmente. O fundamental é que o técnicos da investigação, entre outros. Nem sempre essas fon-
aluno se dê conta de que a leitura de um jornal não se limita ao tes foram citadas, pois o texto poderia se tornar enfadonho;
entendimento de cada notícia isoladamente. O espaço ocupado além disso, a explicitação total não é necessária, pois o leitor
e a forma como cada notícia foi distribuída na página do jornal sabe quem seriam os informantes naquela circunstância.
são dados muito relevantes e que não podem ser desconsidera-
dos pelo leitor. Ler notícia II
Por fim, certifique-se de que os alunos compreenderam os 1. Cerca de um quinto ou 20%.
termos técnicos. 2. Não é a notícia de maior destaque e também não é acompa-
1. Mais de um quarto da página (considerando a foto que a nhada de foto.
acompanha). 3. Maior.
2. É a maior. 4. O Estado de S. Paulo; em 29 jul. 2012, São Paulo (SP) .
3. É a notícia cujo título tem a maior fonte. Também é a única 5. Sim.
acompanhada por foto. 6. São de conteúdo policial, de acidentes e mortes.
4. Correio 24 horas, Salvador (Bahia), em 29 jul. 2012. a) Em oito parágrafos; b) O primeiro corresponde ao lide.
5. Não. 7.
6. Professor, verifique se os alunos concluem que se trata de a) Um avião bimotor que transportava nove pessoas.
uma página com notícias referentes a outras cidades do Bra- b) Caiu.
sil, com conteúdo policial. c) Na manhã de ontem.
7. Em um parágrafo. O lide vai do início até “leve neblina na região”. d) No bairro do Aeroporto, em Juiz de Fora, em Minas Gerais
Professor, comente que se trata de uma peculiaridade na or- É possível considerar elementos que não são pessoas como uma
ganização do texto. Existem ali unidades de sentido que poderiam resposta à questão “quem”. Em alguns manuais, todavia, consi-
constituir parágrafos diferentes, caracterizando lide e corpo. dera-se: quem – nove pessoas; o quê – um avião bimotor caiu.
40 Língua Portuguesa
8. a) O aluno deve marcar o segundo parágrafo integralmente e 7. Resposta pessoal.
o terceiro, até “para uma convenção interna da empresa”. Professor, os alunos provavelmente apontarão que o lide da ter-
Professor, verifique se os alunos perceberam a divergência ceira notícia é mais longo, já que apresenta depoimentos e é mais
quanto ao cargo de Cézar Tavares. incisivo em apontar que o piloto conhecia as condições de tempo.
b) O aluno deve marcar, no sexto parágrafo, “bimotor King Air, 8. a) No parágrafo 1: de “além do piloto e do copiloto” até “Ga-
modelo B 200”; “de prefixo PRDOC”. briel Barreira da Costa, de 14”.
Professor, os alunos talvez marquem desde “a aeronave, um No parágrafo 7: do início até “em Juiz de Fora”.
bimotor King Air” até “para transportar até 10 pessoas”. Chame b) “modelo King Air B-200, prefixo PR-DOC”.
a atenção dos alunos para o fato de a descrição do avião estar in- c) Do início até “ ‘durante uma etapa final de pouso tudo pode
serida na parte que trata das condições de segurança e legalidade acontecer’, afirmou”.
do avião (que eventualmente poderia ter provocado o acidente). Professor, os alunos talvez marquem também a parte final
c) O aluno deve marcar o quinto parágrafo. do parágrafo.
d) O aluno deve marcar o quarto parágrafo, desde “as buscas d) “Os corpos foram encontrados parcialmente carbonizados”.
estavam sendo dificultadas” até o final. Professor, chame a atenção dos alunos para o fato de esses
9. a) Nos itens sobre o avião e sobre os procedimentos para in- conteúdos explorados nos itens de a) a c) ocuparem nessa notícia
vestigação do acidente. cerca de um terço do espaço; a maior parte é ocupada pela situação
b) Em O Estado de S. Paulo, fala-se em nove pessoas a bordo; do clima, do aeroporto e pelas decisões do piloto.
no Correio 24 horas, em oito. 9. O avião arrastou árvores antes de cair e caiu na granja de
10. a) O avião teria atingido um fio de alta-tensão antes de se cho- uma propriedade privada.
car contra o quiosque. 10. a) “Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac),
b) A forma escolhida revela que há certa dúvida quanto ao fato a aeronave, fabricada em 2009, estava com a manutenção e
de o avião ter atingido um fio de alta-tensão antes de se chocar o certificado de aeronavegabilidade em dia”.
contra o quiosque. b) “Acrescentando que o comandante da aeronave foi descrito
11. De acordo com a segunda notícia, a neblina era intensa, não leve. como um piloto experiente, que trabalhava para a empresa
12. a) O gerente do aeroporto de Serrinha, Cipriano Magno de Oli- desde 2007”.
veira. c) Não/Pequena.
b) Pouco antes de 7h45, o piloto fez contato para se informar d) O piloto/Grande.
sobre as condições do aeroporto. Por volta de 7h50, a torre in- 11.a) O momento do pouso. Segundo o controlador, ele infor-
formou que não havia condição de pouso, que o tempo estava mou isso ao piloto.
fechado. b) Não.
c) Como hipótese. c) Não. Segundo o gerente do aeroporto, “é natural se infor-
d) Não. mar sobre as condições do tempo no destino”. Então, se
o piloto não tivesse se informado, ele poderia ser julgado
negligente.
Ler notícia III d) Porque isso aumenta a credibilidade da notícia, não fica
1. O Estado de Minas; 29 de julho de 2012. parecendo que o redator a inventou.
2. Os alunos provavelmente apontarão o fato de o acidente ter ocor- 12. a) A opção seria arremeter e voltar a Belo Horizonte ou pou-
rido em Minas Gerais, com pessoas de uma empresa mineira. sar em um aeroporto próximo. Quem dá essa informação
3. Sim. é o gerente do aeroporto.
Professor, comente que uma parte da segunda página tem b) Não. O natural é abastecer para a ida e a volta.
autoria diferente, o que é comum em matérias mais longas. c) O gerente do aeroporto.
4. Há fotos e infográfico (com parte não verbal, como o mapa). d) O redator da notícia.
5. Não.
6. a) Erro humano, falha mecânica e falta de visibilidade.
b) Tentar explicar o acidente com o bimotor da empresa Vilma A linguagem da notícia
Alimentos que caiu, matando oito pessoas. Trata-se de uma seção baseada em exemplos de uso da lin-
c) Ontem pela manhã. guagem no gênero notícia. Peça aos alunos que leiam a seção
d) Em Juiz de Fora. e apresentem eventuais dúvidas. O conteúdo será aplicado nos
É possível considerar elementos que não são pessoas como exercícios práticos e na produção de texto nas seções seguintes.
uma resposta à questão “quem”. Em alguns manuais, todavia, Além disso, o efeito de objetividade obtido por meio dessas
considera-se: quem – oito pessoas; o quê – erro humano, falha estratégias contribui para que o aluno tenha desenvoltura em ou-
mecânica e falta de visibilidade tentam explicar acidente com bi- tros gêneros que envolvem essa característica.
motor da empresa Vilma Alimentos que caiu.
7o ano 41
Notícia e representação da realidade começo deste ano abandonaram a lista as cidades de Alta Flo-
A seção une todos os aspectos discutidos sobre a notícia, resta (Mato Grosso) e Santana do Araguaia, também no Pará.
relacionando-os com os três exemplos lidos. Trata-se de um mo- As próximas devem ser Dom Eliseu e Marcelândia, ambas
delo de leitura de notícia. em Mato Grosso.
4.
a) Todos adoravam a árvore. Esse dado tanto poderia ser omi-
Aplicar conhecimentos tido em uma notícia quanto poderia aparecer, mas o apreço
Esta sequência de exercícios oferece ao aluno a oportunidade pela árvore seria indicado com mais moderação.
de praticar a linguagem que busca um efeito de objetividade, de b) O julgamento de que as pessoas agem ou veem o mundo de
organizar os elementos da notícia e de estruturá-los num parágrafo. forma estranha não apareceria em uma notícia, pois se trata
São introdutórios à produção de uma notícia completa. de um julgamento pessoal.
1. c) O laudo de envenenamento pelo técnico do Jardim Botânico
a) ou o próprio envenenamento.
t Terríveis – não é uma caracterização exata, revela julgamento d) Uma rua/nome do morador que pede a investigação/subs-
do jornalista. tância existente no regador/reação dos moradores.
t Por um tempão – além de informal, é impreciso.
t Em ponto – desnecessário, não acrescenta nenhuma infor-
mação, portanto ocupa espaço à toa. Momento da escrita
t Despencou – informal. Embora não se trate de um fato real, mas de elementos que
t Bem embaixo – “bem” é informal nesse caso; “embaixo” não serão criados pelo aluno, a proposta possibilita a experiência com a
é muito preciso, pois o carro transitava na rua, e a árvore linguagem jornalística, que costuma ser um desafio para os alunos.
estava na calçada.
t Pelo que o motorista falou – informal para a situação; há
Atividades complementares
expressões mais usuais.
1. A fim de que o aluno passe pela experiência de apurar fatos
b) Sugestão:
e produzir notícia baseada em acontecimentos reais, propo-
A queda de duas árvores ontem na avenida Nazaré, no Ipiranga,
nha a produção de notícias para o caderno de um jornal que
zona sul, provocou dois [...] acidentes e fez com que o trânsito
circularia na comunidade escolar.
ficasse interrompido no sentido bairro-centro por 40 minutos.
O noticiário deve tratar de fatos do universo escolar.
O primeiro acidente aconteceu na altura do número 800, às
Use a sequência apresentada na seção “Momento da escrita”,
15h50 [ø], quando uma árvore caiu sobre um Gol [...] que pas-
com a adaptação quanto ao tema.
sava pelo local. Segundo o motorista, ventava e chovia muito
Com o auxílio de um programa de editor de texto, diagrame
quando a árvore, levando a fiação elétrica, acertou o veículo.
páginas nas quais figuram as notícias produzidas.
2.
2. Os recursos estudados para obter efeito de objetividade na
a) Quem: um deficiente físico de Monte Alto.
notícia podem ser explorados em outros gêneros textuais
O quê: fez uma denúncia ao CNJ.
praticados na disciplina de Ciências, como o relatório de
b) O lide esclarece qual é a denúncia feita (acusar uma juíza de se
laboratório. Faça uma parceria com o professor dessa ma-
negar a realizar audiência em um local com acessibilidade).
téria a fim de evidenciar isso para o aluno.
c) Trata-se da explicação da sigla CNJ.
d) “Suposto” significa “admitido por hipótese”. Essa palavra é
usada porque até aquele momento não se pode dizer se hou-
Para ampliar
ve ou não um constrangimento nos termos descritos pelo
deficiente físico. O caso ainda está sendo julgado, e o jornal
Livros
não deve tomar partido.
FARIA, Maria Alice. Como usar o jornal na sala de aula. 10. ed.
3.
São Paulo: Contexto, 2009.
a) Professor, há mais de uma possibilidade de distribuir as in-
formações. Chame a atenção dos alunos para a apresentação _____; ZANCHETTA JR., Juvenal. Para ler e fazer o jornal na
de várias possibilidades em “A estrutura da notícia”. sala de aula. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2007.
b) Sugestão: LAGE, Nilson. Estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 2006. (Co-
O município de Ulianópolis, no Pará, a 400 quilômetros de Be- leção Princípios.)
lém, vai sair da lista dos mais desmatadores do Brasil. A relação, SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação). Jornal impresso: da
criada pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2008, começou forma ao discurso. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.
com 48 cidades. O primeiro corte ocorreu em 2010, com a saída
de Querência, em Mato Grosso, e de Paragominas, no Pará. No

42 Língua Portuguesa
Capítulo 1
LÍNGUA Texto: onde autor e leitor
PORTUGUESA
se encontram

A palavra faz parte da natureza humana. Graças a ela, compreendemos e ad-


miramos o mundo, nos informamos sobre fatos da realidade e alimentamos
nossos desejos e sonhos do que ainda parece ser impossível. Neste capítulo, você
vai estudar as pistas importantes para ler e interpretar textos verbais, refletindo
sobre o modo como são preparados, como circulam entre nós e com que intenção
eles são elaborados. Desse modo, vai se familiarizar ainda mais com o universo
da palavra e adquirir mais confiança para participar da construção de sentidos de
diversos tipos de texto que estão presentes na nossa vida.

RODA DE CONVERSA

Para iniciar, observe estas fotos e debata com seus colegas as questões propostas a seguir.
Yuri Arcurs/Dreamstime.com

Zojakostina/Dreamstime.com

Balé moderno. Balé clássico.

1. Com base na observação das fotos, apresente a definição que normalmente se dá para balé.

8º ano 9
2. Agora, leia a definição dada a seguir para balé e responda às questões.

Balé. Quando corpo é lápis, espaço é papel e música é motivo.

a) Você acha que essa definição de balé poderia ser encontrada em um dicionário de língua por-
tuguesa? Justifique sua resposta.
b) Em que situação você julga que essa definição de balé seria empregada? Em que você se ba-
seou para dar essa resposta?
3. Verifique a seguir a fonte dessa definição de balé.

FALCÃO, Adriana. Pequeno dicionário de palavras ao vento. 2. ed. São Paulo: Planeta, 2005. p. 15.
a) De acordo com o título, que tipo de obra você julga que seja?
b) Leia esta informação sobre a autora da obra.

Coleção da autora

Adriana Falcão nasceu no Rio de


Janeiro em 1960, mas passou
boa parte de sua vida no Recife.
É escritora e roteirista da série de
televisão A Grande Família.

t Essa informação confirma ou contraria sua hipótese?


4. Qual das duas definições da palavra “incentivo” você acha que encontraria na obra de Adriana
Falcão?
t Aquilo que serve de estímulo para fazer algo.
t Uma força que pode não levantar geladeira, mas pelo menos levanta a moral.

LER E INTERPRETAR
Há muitas maneiras de interagir ou dialogar com um texto e de descobrir os
sentidos que ele expressa. Os textos sempre dão pistas aos leitores para que façam
suas interpretações. É importante ter sempre em mente que ler é mais do que
decodificar palavras. Bons leitores leem as linhas e o que está por trás das linhas.
Não é possível ler sem que ocorra interpretação. Mas o que é, afinal, interpretar?
Interpretar é traduzir, é explicar, é criar hipóteses com base em tudo o
que observamos nos textos. Para interpretar, temos de aprender a rastrear
as pistas, observá-las e relacioná-las com ideias e informações que já temos.
Quanto mais pistas rastrearmos no texto, mais consistente se tornará a leitura.

10 Língua Portuguesa
É por esse motivo que as interpretações variam. Um texto pode ter significa-
dos diferentes, pois cada leitor o lê de um jeito diferente. Tudo depende do olhar
da pessoa, das pistas que acaba selecionando para analisar e relacionar com outras
ideias etc. Vale dizer, porém, que todas essas interpretações possíveis precisam
ser sustentadas pelas pistas que o texto fornece; não podemos usar como inter-
pretação qualquer associação que nos venha à mente, pois ela pode não ter sido
motivada pelo texto lido.
Todo texto tem um assunto, um autor, um público, uma organização, uma
intenção. Refletir sobre esses aspectos que constituem os textos é fundamental
para estabelecermos diálogo com eles. A interação entre leitor e autor é a essência
do ato de ler.

MODOS DE LER
Você sabe que geralmente não lemos um dicionário da primeira à última pá-
gina, assim como não lemos um romance pulando páginas. Também não preci-
samos ler uma notícia inteira, em um jornal, se as informações da manchete ou
dos parágrafos iniciais forem suficientes para o que queremos saber. Entretanto,
lemos repetidas vezes um poema ou um capítulo de livro didático. Às vezes, le-
mos quase sem perceber – uma propaganda, por exemplo. Outras vezes lemos
com a máxima atenção possível. É o que acontece com o manual de instruções de
um equipamento ou de um jogo.
Nosso jeito de ler varia constantemente. Tudo depende da situação, da necessi-
dade, do objetivo. Às vezes, lemos por puro prazer; outras vezes, temos de ler para
estudar; outras, para nos informar etc. Enfim, não existe um único modo de ler.
Isso ocorre porque existem diferentes gêneros de textos. Poemas, contos, ro-
mances, verbetes de dicionários, textos científicos, textos jornalísticos, bulas, con-
vites, bilhetes etc. são gêneros com que lidamos frequentemente na escola e nas
situações cotidianas. Cada um atende a uma necessidade de comunicação do ser
humano. Essa diversidade de gêneros existe porque as atividades humanas são va-
riadas.
Na verdade, tudo o que falamos, ouvimos, lemos ou escrevemos pertence a
algum gênero, o que obriga o leitor a aplicar diferentes modos de leitura.
Vamos ver como podemos interagir ou dialogar com os textos, criar sentidos
e interpretá-los.

ESTRATÉGIAS DE LEITURA

a) Antes de ler

O diálogo entre leitor e texto começa antes mesmo de se iniciar a leitura. An-
tes de ler, é importante verificar a aparência do texto, observar detalhes gráficos
(tabelas, ilustrações, linhas, colunas, palavras destacadas), referências bibliográ-

8º ano 11
ficas. É importante também tentar antecipar algumas ideias que possivelmente
serão tratadas no texto. É possível fazer essa antecipação refletindo sobre o título
e os subtítulos (quando eles existem) e ativando nossos conhecimentos prévios.
Quanto mais ideias você antecipar sobre o tema que vai ser abordado no texto,
mais significativa ficará a leitura para você. As impressões colhidas criam muitas
expectativas em relação ao que vai ser lido.

LER REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Vamos exercitar essa inspeção inicial de um texto. Para isso, considere a referência bibliográ-
fica a seguir.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Avalie o seguinte:

1. Quem é o autor do livro Contos plausíveis?


2. O que você sabe a respeito desse autor?
3. Você já leu algum outro texto desse autor? Se sim, que impressão você guardou dele?
4. O que você acha que significa “plausível” no título da obra?
5. Em que ano, em que cidade e por qual editora Contos plausíveis foi publicado?
6. Você julga que os dados acima são importantes para situar o texto que vai ser lido? Por quê?
7. Considerando o que você sabe sobre o gênero “conto”, o que você espera encontrar nesse livro?

Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicado pela pri-


meira vez em 1981. Reúne contos que foram escritos para o Jornal do Brasil.
As informações do parágrafo anterior situam ou contextualizam o conto que
você acabou de ler. Todo autor pertence a um grupo social situado em um lugar
e em determinado tempo. Saber que Drummond viveu no mundo moderno e no
Brasil nos permite pensar em muitas coisas.
Todo texto é originalmente destinado a um público. Se o leitor pertence à
mesma época em que a obra foi criada, ele é capaz de reconhecer situações da
época do autor: padrões de comportamento, desejos, receios etc. Quando autor e
leitor não são da mesma época, é mais difícil estabelecer uma relação com o texto.
Quanto mais antiga for a obra que vai ser lida, mais distante está da realidade do
leitor. Nesse caso, é necessário tentar reconstruir o repertório do leitor a quem o
texto estava originalmente destinado – o que pode ser um grande desafio.
O fato de os contos do livro terem sido escritos originalmente para um jornal nos
dá outras pistas interessantes. Um jornal é um veículo de comunicação bastante di-
fundido e relativamente de fácil acesso. Nele, encontramos textos de diversos gêneros,
sobre assuntos variados. Cada jornal é voltado para um tipo de público. Há jornais
especializados em alguns assuntos – por exemplo, esporte, economia. Há alguns que

12 Língua Portuguesa
são conhecidos pela maneira sensacionalista como abordam os fatos: apelam para
manchetes e imagens chocantes que, muitas vezes, chegam a distorcer a realidade.
O Jornal do Brasil, em que os Contos plausíveis foram publicados antes de
serem reunidos em livro, é tradicionalmente voltado para as classes média e alta
que se concentram na zona sul do Rio de Janeiro. O público desse jornal conta,
portanto, com um alto grau de escolarização. Assim, um poeta contemporâneo
(um dos mais importantes no Brasil) escreve um conto para um jornal que tem
como público principal a elite de um estado do Brasil.
O conto é um gênero ficcional curto, que apresenta uma sequência de eventos
narrados por alguém. Em um texto ficcional, pode haver fatos da vida real ou acon-
tecimentos reais, mas a maneira como o autor combina esses fatos acaba sempre
produzindo uma nova realidade. Romances, contos, teatro e poesia são considera-
dos textos ficcionais, como fábulas, lendas, mitos, crônicas. Já a notícia, os textos de
divulgação científica e os didáticos, por exemplo, são textos não ficcionais.
Assim, ao saber o gênero que vai ler, o leitor se prepara para encontrar traços carac-
terísticos desse tipo de texto, e isso influencia os sentidos que ele atribui ao que lê.

LER CONTO

Vamos passar à leitura de um conto desse livro. Comece pensando no título. O que o nome
“Essas meninas” sugere?
Agora leia.

Essas meninas Carlos Drummond


As alegres meninas que passam na Carlos Drummond de An-
rua, com suas pastas escolares, às vezes drade nasceu em Itabira, Mi-
com seus namorados. As alegres meninas nas Gerais, em 31 de outubro
que estão sempre rindo, comentando o de 1902, e morreu no Rio de
besouro que entrou na classe e pousou Janeiro, em 17 de agosto
de 1987. Está entre os
Rogério Reis/Olhar Imagem

no vestido da professora; essas meninas,


essas coisas sem importância. maiores poetas contempo-
râneos da literatura brasileira.
O uniforme as despersonaliza, mas
Sempre foi considerado uma
o riso de cada uma as diferencia. Riem alto, pessoa de personalidade
riem musical, riem desafinado, riem sem reservada, introspectiva,
motivo; riem. que estabelecia limites
Hoje de manhã estavam sérias, para as amizades e para a
era como se nunca mais voltassem a rir e exposição de sua intimidade. Foi chefe de gabinete do
falar coisas sem importância. Faltava uma ministro da Educação entre 1934 e 1945 e depois tra-
delas. O jornal dera a notícia do crime. balhou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional.
O corpo da menina encontrado naquelas
Como ficcionista, estreou em 1950, quando publi-
condições, em lugar ermo. A selvageria de cou Contos de aprendiz. Escreveu crônicas para jor-
um tempo que não deixa mais rir. nais e publicou livros de contos, além da conhecida
As alegres meninas, agora sérias, obra poética.
tornaram-se adultas de uma hora para Em 1987, abalado pela morte da única filha, Ma-
outra; essas mulheres. ria Julieta, morre doze dias depois do falecimento
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. da filha.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

8º ano 13
1. É possível perceber diversas repetições à medida que se lê o conto.
a) Localize-as.
b) Essas repetições geraram efeitos enquanto você lia? Quais?
2. Visto que nenhum crime havia sido citado antes, você estranhou ler “O jornal dera a notícia do
crime” em vez de “O jornal dera a notícia de um crime”?
3. Enquanto lia, você percebeu que o riso igualava as meninas? Percebeu também que o riso as di-
ferenciava?
4. O texto corresponde ao que você supôs, quando leu o título?
5. Você gostou do conto?
6. O que mais impressionou você: o fato que é contado ou a maneira como Drummond o contou?

b) Enquanto se lê
Ao ler, vamos juntando o que é novo com o que já conhecíamos e com o que
inspecionamos antes de ler. Por exemplo: como o leitor e o autor são da mesma
época, o autor pôde escrever: “o corpo da menina encontrado naquelas condi-
ções”. Ao ler, o leitor, que convive diariamente com o tipo de violência urbana a
que Drummond está se referindo, sabe perfeitamente que “naquelas condições”
deve significar que a menina havia sofrido violência física, podia talvez estar nua
etc. A tendência é que o leitor fique horrorizado com a cena sem que o autor pre-
cise descrevê-la ou detalhá-la.
Mas do que trata o texto? Qual é o tema abordado? Você acha que Drum-
mond escreveu apenas para informar o assassinato de uma das meninas? Se fosse
essa a intenção do autor, o texto, com certeza, teria outra cara.
O poeta mineiro sabe que um conto é uma obra de arte, que a maneira especial
como são organizadas as palavras faz o conto “dizer” as coisas de maneira peculiar,
às vezes, inesperada. “Essas meninas” é um exemplo disso. Os quatro parágrafos
que formam o texto, mais do que relatar um fato violento, mostram como pode
ocorrer a passagem da adolescência para o mundo adulto. Repare que o título
“Essas meninas” se contrapõe às últimas palavras do texto: “essas mulheres”. As
personagens começam “meninas” e terminam “mulheres”. O título contraposto às
últimas palavras do texto é uma pista para o leitor perceber a trajetória de menina
a mulher.
Se você observar bem, vai perceber que o universo adolescente e o mundo
adulto estão bem delimitados no texto. Repare que os dois primeiros parágrafos
retratam o caráter próprio da adolescência. Neles, Drummond mostra as inclina-
ções dos jovens, o que costumam fazer e observar. No terceiro e quarto parágra-
fos, a mudança do texto é brutal. A frase “hoje de manhã estavam sérias, era como
se nunca mais voltassem a rir e falar coisas sem importância” contrasta totalmente
com os parágrafos anteriores. Essa divisão é outra pista que nos ajuda a cons-
truir sentidos. As meninas, antes de se tornarem mulheres, eram alegres, riam e

14 Língua Portuguesa
falavam coisas sem importância. Quando ingressam no mundo dos adultos, em
virtude da tragédia que aconteceu com uma delas, passam a ser sérias, “como se
nunca mais voltassem a rir”.
Outra pista que evidencia a divisão do texto está relacionada ao modo como
Drummond usou os tempos verbais. O verbo é a palavra que expressa ação, esta-
do ou fenômeno da natureza, situados no tempo. Observando os verbos, é possí-
vel saber se os fatos ocorreram antes de serem enunciados, simultaneamente ou
depois. São três os tempos: o presente, o passado e o futuro.
No conto há dois tempos focalizados pelo autor: o primeiro, antes do crime, e o
segundo, depois do crime. Observe como os verbos aparecem no texto. Em que tem-
po estão os verbos que indicam as ações das meninas na primeira parte do conto?
Se você respondeu no presente, acertou. Observe agora a segunda parte. Os
verbos que se referem às meninas estão em que tempo?
Se você respondeu no passado, acertou de novo. Qual conclusão você tira disso?
Na primeira parte, que corresponde ao momento mais distante do tempo, ao
momento “mais passado”, o autor utilizou os verbos no tempo presente. No mo-
mento mais recente, mais próximo (“hoje de manhã estavam sérias”), os verbos
aparecem no tempo passado. Como explicar isso?
O autor organiza o texto de determinada maneira, para o leitor criar suas
hipóteses de interpretação. O tempo presente, na primeira parte do texto, é
usado para indicar o comportamento usual das jovens. Adolescentes riem,
comentam, passam na rua, namoram... Descrito dessa forma, o comporta-
mento das jovens ganha universalidade. Os jovens de muitas épocas e lugares
normalmente se comportam assim. Já os verbos no tempo passado, na segun-
da parte do texto, estão relacionados aos fatos que são relatados. Repare que,
quando contamos uma história, os verbos geralmente são usados no passado.

c) Depois de ler
Textos são objetos que, para serem compreendidos, têm de ser interpretados.
É muito importante conversar sobre o que se lê. Voltar ao texto pode proporcio-
nar novas descobertas.
No caso do conto “Essas meninas”, por exemplo, que sentidos podemos cons-
truir? O texto sugere que o sofrimento e a seriedade são inerentes ao mundo dos
adultos? Os traumas que vivemos nos fazem amadurecer? A vida adulta é séria,
sem riso, sem tempo e espaço para as coisas que não têm importância?
Não há no conto respostas para essas questões. Elas surgem na conversa que
temos com o texto. A maneira como o autor apresentou as ideias permite que o
leitor faça essas e outras reflexões.

APLICAR CONHECIMENTOS

Nesta seção, você vai praticar o que foi estudado até aqui. Trabalharemos
com dois textos: um do médico Drauzio Varella e outro do poeta Carlos Drum-
mond de Andrade.

8º ano 15
TEXTO 1

Antes de ler o texto, faça as antecipações, seguindo o que você estudou, para criar uma expec-
tativa em relação ao texto.
t Observe o aspecto gráfico (tamanho do texto, divisão em parágrafos, detalhes de diagramação).
t Leia o título.
t Leia a referência bibliográfica, reparando quem é o autor, de que livro o trecho foi extraído etc.

Raízes orgânicas e sociais da violência urbana


A violência urbana é uma enfermidade contagiosa. Embora acometa
indivíduos vulneráveis em todas as classes sociais, é nos bairros pobres que ela se
torna epidêmica. A prevalência varia de cidade para cidade e de um país para outro.
Como regra, a epidemia começa nos grandes centros e se dissemina pelo interior. A
incidência nem sempre é crescente; a mudança de fatores ambientais pode interferir
em sua escalada.
Sabe-se que os genes herdados exercem influência fundamental na estrutura
e função dos circuitos de neurônios envolvidos nos mecanismos bioquímicos da
agressividade. É bom ressaltar, porém, que os fatores genéticos GLOSSÁRIO
não condicionam o comportamento futuro: o impacto do meio
Acometa: ataque, prejudique.
é decisivo. Os mediadores químicos liberados e a própria Condicionam: impõem como algo vai
arquitetura das conexões nervosas que constituem esses circuitos acontecer.
são dramaticamente modelados pelos acontecimentos sociais da Enfermidade: doença.
infância e da adolescência. Epidêmica: que atinge uma grande quan-
tidade de pessoas.
As estratégias que as sociedades adotam para combater a
Genes: unidades localizadas nas células
violência flutuam ao sabor das emoções; o conhecimento científico dos indivíduos que carregam informações
raramente é levado em consideração. Como reflexo, o tratamento da de hereditariedade.
violência evoluiu muito pouco no decorrer do século XX, ao contrário Incidência: ocorrência.
do que ocorreu com o das infecções, câncer ou aids. [...] Neurônios: células do sistema nervoso.
Prevalência: predominância.
VARELLA, Drauzio. Borboletas da alma. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 85.

Drauzio Varella
Drauzio Varella nasceu em São Paulo, em 1943. Formou- sido adaptado para o cinema em um filme de Hector Baben-
se em Medicina e trabalhou por vinte anos no Hospital do co, Carandiru (2003). Publicou ainda Por um fio, Macacos e
Câncer. Foi médico voluntário na Casa de Detenção da São os livros infantis Nas ruas do Brás e De braços para o alto.
Paulo (Carandiru) por treze anos. Seu livro Estação Carandiru Atualmente, dirige no rio Negro um projeto prospectivo de
ganhou o prêmio Jabuti de não ficção e Livro do Ano, tendo plantas medicinais amazônicas.

1. O texto “Raízes orgânicas e sociais da violência urbana” é ficcional ou não ficcional? Justifique sua
resposta.
2. O tema apresentado pelo texto, em sua opinião, é relevante para a nossa vida atual? Explique.
3. O autor é um médico.
a) Ele emprega palavras do universo da medicina para tratar da violência. Destaque no texto
essas palavras.
b) Ao empregar palavras do universo da medicina, ele comparou a violência a quê?

16 Língua Portuguesa
4. No primeiro parágrafo, o autor apresenta um quadro geral da violência: quem ela atinge, em que
lugares, de que modo avança. Já no segundo parágrafo, ele apresenta duas causas que determinam
a violência. Quais são elas?
5. Leia novamente o segundo parágrafo. De acordo com o autor, qual fator é mais determinante para
a formação de comportamentos agressivos? Você concorda com ele?
6. Claramente, o autor quer influenciar o pensamento do leitor, por isso apresenta-lhe um raciocí-
nio. Segundo o autor:
a) O tratamento de infecções, câncer e aids evoluiu pouco ou muito?
b) Que fator foi responsável por essa evolução?
c) O tratamento da violência evoluiu pouco ou muito?
d) Que fator foi responsável por essa evolução?
7. Complete a tabela a seguir.

Título do texto: Raízes orgânicas e sociais da violência urbana

Autoria:

Projeção social do autor:

Público provável do texto:

Intencionalidade:

Linguagem subjetiva ou objetiva? Simples ou complexa?

Marcas/pistas textuais que caracterizam a linguagem:

Meios de comunicação em que o texto pode aparecer:

8º ano 17
TEXTO 2

Assim como no texto anterior, faça antecipações, para criar uma expectativa em relação ao
que vai ler.
t Observe o aspecto gráfico (tamanho do texto, divisão em parágrafos, detalhes de diagramação).
t Leia o título.
t Leia a referência bibliográfica, reparando em quem é o autor, de que livro o trecho foi
extraído etc.
Odisseia
O amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram
de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte, o
amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas.
O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-
-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo,
jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às crianças e às
mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem
o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram
sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um
morro que dava para o abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no
precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo aos pedaços, mas se recompôs e foi
preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos,
o amor sorria e quando não podia mais sorrir gritava numa de suas línguas novas,
que não era entendida. E desfalecendo voltava a consciência, e torturado outra vez,
era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas,
GLOSSÁRIO
e ninguém pôde ver as partículas. Foi sepultado normalmente no fim
Função: reunião social; festa, solenidade.
do mundo, que é para lá da memória. Ninguém o localizou, mas todos
Gerânios: espécie de flor.
falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima, e
todos falavam nele, e ressuscitou ao terceiro dia.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Odisseia é o título de um longo poema narrativo da ra de Troia, ele faz a viagem de volta para casa, demo-
Grécia Antiga, transmitido oralmente de geração em ge- rando dez anos para chegar a Ítaca, ilha onde era rei.
ração por vários séculos. Ele ganhou uma forma escrita Essa história é famosa, e as pessoas muitas vezes em-
por volta do século 8 a.C. Trata-se de uma obra impor- pregam a palavra odisseia para representar uma situa-
tante para a cultura ocidental e é normalmente adapta- ção de difícil resolução, um deslocamento que impõe
do em prosa, não em versos, lembrando um romance dificuldades etc. O dicionário registra essa palavra e a
de aventura. A Odisseia narra as aventuras de Odisseu define como “longa perambulação ou viagem marcada
(também chamado de Ulisses). Depois de lutar na guer- por aventuras, eventos imprevistos ou singulares”

1. Que explicação você encontra para o fato de o autor ter escolhido o nome “Odisseia” para seu conto?
2. Releia o trecho a seguir.

O amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de
levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte, o amor
cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas.

a) O amor cantou e bailou nos dois dias. O que houve de semelhante nas duas oportunidades?
E de diferente?
b) Que sentido pode ser atribuído a essa passagem?

18 Língua Portuguesa
3. Releia o trecho a seguir.

[...] jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às
crianças e às mulheres.

Que traço do amor é indicado nessa passagem?


4. O conto de Drummond é alegórico, pois o amor comporta-se como um ser humano que é
admirado e perseguido. É importante saber que sempre há um segundo sentido na alegoria,
pois, quando lançamos mão dessa forma de expressão, dizemos uma coisa, querendo signi-
ficar outra.

Alegoria é um modo de expressão que consiste em as ideias abstratas, isto é, atribuindo a elas comporta-
representar uma coisa ou uma ideia abstrata por meio mentos e qualidades dos seres humanos. Quando lan-
de um objeto ou ser que tem com ela certa relação real, çamos mão de uma alegoria, criamos outros sentidos
convencional ou criada pela imaginação do homem. Por além daquele mais previsível. Por exemplo, ao usar um
exemplo, a balança (um objeto), funciona como alego- barco para representar a vida, não indicamos apenas
ria da justiça (ideia abstrata), porque a imparcialidade e que a vida segue seu curso. Indicamos também que
o equilíbrio da balança são qualidades que devem estar seu caminho pode ter “tempestades”, “ventos favorá-
presentes em julgamentos. veis” etc. Ou seja, tudo que é próprio do barco pode
Outra maneira de criar alegorias é personificando criar sentidos especiais.

a) O amor foi perseguido, capturado, torturado e morto. Que sentido essas ocorrências com o
amor criam?
b) Para falar do sentimento do amor, o autor não usou uma pessoa que ama, e sim o próprio
amor personificado. Em sua opinião, que sentido isso criou no conto?
5. No conto, o amor aparece como algo invencível, que se adapta e se renova. Esse sentido foi criado
a partir de algumas situações pelas quais o amor passou. Sublinhe essas passagens no texto.
6. “Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um
morro que dava para um abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipí-
cio, jogaram.” Na sua opinião:
a) Quem faz isso com o amor?
b) Por que fizeram isso com ele?
c) Você estudou que um autor pertence a um grupo social situado em um lugar e em deter-
minado tempo. Os contos do livro Contos plausíveis foram publicados pela primeira vez em
1981, tendo sido antes publicados semanalmente no Jornal do Brasil. Que situações presen-
tes no conto “Odisseia” têm a ver com a época em que os contos em geral foram escritos
(anos 1970)?
7. O título do conto é uma marca de intertextualidade. Também as formas de tortura que o amor
sofre (interrogaram-no, bateram-lhe, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas,
os dedos) são marcas interdiscursivas, pois fazem referência à época da ditadura, em que presos
políticos sofriam o mesmo tipo de agressão.
a) “Ressuscitou ao terceiro dia” é uma marca de intertextualidade. Explique.
b) Na sua opinião, que sentido essa oração cria, no final do conto?

8º ano 19
Os escritores são também leitores e gostam, às ideias, para criticá-las. Isso se chama intertextuali-
vezes, de usar trechos de obras já escritas. Dessa dade. Outras vezes, não citamos literalmente outras
maneira, eles trazem para seu texto um conjunto de obras, mas uma visão de mundo de um grupo, de
pontos de vista e de referências que há nas obras uma época, elementos pertencentes a eles. A isso
citadas. Eles podem fazer isso para retomar essas chamamos interdiscursividade.

8. O conto “Odisseia” não é dividido em parágrafos. O autor optou por escrevê-lo num único bloco
compacto de palavras. Considerando os fatos narrados no conto, pense em uma hipótese que
possa explicar o formato que o autor deu ao conto.
9. Complete a tabela a seguir.

Título do texto: Odisseia

Autoria:

Projeção social do autor:

Público provável do texto:

Intencionalidade:

Linguagem subjetiva ou objetiva? Simples ou complexa?

Marcas/pistas textuais que caracterizam a linguagem:

Meios de comunicação em que o texto pode aparecer:

10. Compare as informações do quadro da questão anterior com as do quadro que se refere ao texto
“Raízes urbanas e sociais da violência urbana”. Identifique duas diferenças principais entre texto
ficcional e texto não ficcional.

20 Língua Portuguesa
PLANEJANDO A FALA

A conversa é um gênero oral muito comum em nossas interações. Ela pressupõe pelo menos
dois participantes interagindo ao mesmo tempo. Normalmente eles estão face a face, mas podem
estar distantes, como ocorre em uma conversa telefônica. Outro traço que caracteriza esse gênero
é a troca no direito de fala, que é chamada de troca de turno. Apesar de ser praticada com grande
espontaneidade, é possível refletir sobre a conversa. Ela não é um conjunto de frases aleatórias; e
seu sucesso depende da cooperação entre os participantes.

1. Reúna-se em trios e escolha com seus parceiros um dos temas a seguir, sobre o qual vocês vão
conversar durante 10 minutos.
t A experiência de voltar a estudar;
t Um jogo de futebol recente;
t Um livro que você está lendo ou que leu recentemente.
2. Se for possível, a conversa deve ser gravada, para que possa ser analisada em aula.
3. Procurem perceber como ocorrem as mudanças de turno: o falante percebe que um enunciado
foi concluído; ele aproveita uma pausa; ele “entra”, tomando a palavra com termos como “mas”,
“então” “e”, “escuta” etc.
4. Observem também como os falantes organizam os turnos quando falam ao mesmo tempo: eles
empregam termos como “Desculpe, continue”, “deixa eu dizer uma coisa”, “só uma coisa” etc.
5. Às vezes, um falante fala ao mesmo tempo que o outro, mas não se trata de assumir o turno; ele
concorda, discorda, manifesta algumas reações com expressões (“ahã”, “é”, “claro”, “sim” etc.), com
sorriso, olhar, balanço de cabeça e outros gestos.
6. Procurem perceber a entonação e o tom de voz: são constantes, mudam conforme o assunto etc.
7. Avaliem a experiência: houve intercâmbio de conhecimento? Houve a impressão de que um in-
terlocutor falou sozinho mesmo que o outro tenha tido seu turno de fala (ou seja, um falante não
organizou o discurso em função do outro)?
8. Há características em um falante que dificultam e que facilitam a conversa? Quais?
Com base nessa experiência, vocês podem monitorar as situações em que emprega o gênero con-
versa, buscando aprimorar a sua utilização, da mesma forma que ocorre sistematicamente com
gêneros escritos.
PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Livro Contos plausíveis


ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Sites A história da palavra: o desafio sem fim


O site traz um vídeo de aproximadamente 28 minutos, que mostra a evolução da palavra grafada, sur-
gida em 3300 a.C., bem como a necessidade humana de se comunicar e registrar suas experiências.
Disponível em: <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_zoo&view=item&item_id=7856>. Acesso em: 17 set. 2012.

Intertextualidade: parte 2
Nesse site, encontra-se um áudio de aproximadamente 5 minutos, que aborda a intertextualidade
em forma de prosa. Apresenta suas formas e características. Cita a “Canção do Exílio”, de Gonçalves
Dias, e “Uma canção”, de Mario Quintana, como bons exemplos do uso da intertextualidade.
Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/2280>. Acesso em: 17 set. 2012.

8º ano 21
Capítulo 2
LÍNGUA Poesia, poemas e poetas
PORTUGUESA

N este capítulo, você vai mergulhar em um mundo em que as palavras assu-


mem sentidos diferentes, em que as palavras, dependendo da forma como
são organizadas no texto, produzem emoção.
Vamos falar de poesia, ler e analisar poemas, conhecer alguns poetas. Vamos
rever o conceito de rima e conhecer recursos textuais de que os autores lançam
mão para expressar em versos o que a linguagem cotidiana não consegue expres-
sar. Tentaremos também entender por que desde os tempos remotos as pessoas
sentem prazer em recitar poemas e por que os poetas são imprescindíveis em
todas as civilizações.
Antes, porém, de penetrar nessa arte da linguagem, leia a tirinha a seguir cria-
da pelo cartunista paulistano Fernando Gonsales:

Fernando Gonsales

Fernando Gonsales

Fernando Gonsales é cartunista paulistano, nas-


cido em 3 de fevereiro de 1961.
É formado em Medicina Veterinária e seus qua-
drinhos muitas vezes retratam de forma divertida
Arquivo pessoal

animais que assumem comportamentos humanos.


Um de seus personagens é o ratinho Níquel Náu-
sea, uma imitação cômica de outro rato bem
mais famoso: Mickey Mouse, personagem de
Walt Disney.

22 Língua Portuguesa
RODA DE CONVERSA

Com a turma, converse sobre as questões a seguir:

1. Na tirinha da página anterior, qual é a intenção de Níquel Náusea? Que estratégias ele usa para
tentar alcançar seu objetivo?
2. Níquel não foi bem-sucedido na situação.
a) A que se deve esse resultado?
b) Sugira uma mudança que poderia promover o sucesso dele.
3. No final, Níquel diz que não é muito bom nas metáforas. Você sabe o que é uma metáfora? Pode-
ria dar um exemplo?
4. Que relação você pode apontar entre a tira e o que vai ser estudado neste capítulo?
5. Para você, o que significa poesia, poema e poeta?

A LINGUAGEM POÉTICA
O poeta Ferreira Gullar declarou, no jornal Folha de S.Paulo de 20 de agosto
de 2006, que “fazer um poema é lidar com o acaso e com a indeterminação. Er-
rando e acertando, constrói-se o poema, que poderia não ter nascido exatamente
assim. Preservar nele algo dessa indeterminação é o que procuro hoje, embora
deseje a um tempo manter o rigor e a economia da expressão poética”.
Foi difícil entender as palavras do poeta? Parece que escrever um poema é
uma coisa bem complicada, não? Como preservar nele a “indeterminação”? É
possível que os poetas escrevam poemas que não esperavam escrever? Os poe-
mas têm vontade própria? Por que, às vezes, os poetas não conseguem traduzir
fielmente o que sentem? O que significa a “economia da expressão poética”? Essas
questões são difíceis de responder... mas, para penetrar no universo da poesia, do
poema, do poeta e, claro, da “linguagem poética”, teremos de refletir sobre elas.
Muitas definições de poesia foram concebidas ao longo dos tempos, mas todas
parecem limitar ou não traduzir o sentido profundo que a poesia tem. Os filósofos e
os poetas costumam definir poesia da seguinte maneira: “poesia é música que se faz
com ideias”; “é uma viagem ao desconhecido”; “é a fala do ‘infalável’”; “é a emoção
relembrada na tranquilidade”; “é a religião original da humanidade”; “é a linguagem
em estado de pureza selvagem”; “é o impossível feito possível”; “é uma arte represen-
tativa”. Segundo o poeta espanhol García Lorca, todas as coisas têm seu mistério, e a
poesia é o mistério que as coisas têm. Há muitas outras definições. Cada poeta, cada
pessoa vê e sente a poesia de uma maneira, por isso é difícil explicar objetivamente
o que ela é.
É curioso que as tentativas de definir poesia não foram feitas só com pala-
vras. Há muito tempo, no fim do século XVI, na Europa, era comum encontrar
livros em que algumas ideias, virtudes, vícios, paixões e figuras mitológicas esta-

8º ano 23
vam representados por desenhos. Esses livros que encantavam a todos e que eram
amplamente consultados eram chamados livros de emblemas. Neles, o amor,
a beleza, a calúnia, o castigo, a consciência, a justiça, as estações do ano, entre
outras coisas, aparecem representados por imagens de homens ou de mulheres
que vestem roupas especiais e carregam objetos simbólicos. Na época em que
surgiram os emblemas, acreditava-se que a demonstração visual era mais eficaz
para a compreensão do que qualquer instrução verbal. A imagem da poesia que
encontramos nesses livros é muito sugestiva, porque põe diante de nossos olhos
algumas das qualidades essenciais dessa forma especial de linguagem.
Nos livros de emblemas, a poesia está representada por uma jovem formosa
que usa uma coroa de louros na cabeça, veste um vestido azul-celeste pontilha-
do por numerosas estrelas e está rodeada por instrumentos musicais. Todos os
adornos dessa figura têm uma explicação que pode ser associada às qualidades da
poesia. A doçura e a beleza da jovem, sua força e seu poder comovem e arrastam
todos os seres humanos, como a poesia, que nos trans-

Bibliotheca S. J. Maison Saint-Augustin, Enghien


mite emoção. Como o louro é uma planta que se mantém
verde durante todas as estações do ano, a coroa feita com
essa folha faz as pessoas recordar que a poesia é mais for-
te do que o tempo. Ela aproxima os seres humanos da
imortalidade, protegendo-os contra o tempo, que destrói
e condena todas as coisas ao esquecimento. O vestido
azul com as estrelas simboliza a origem da poesia; segun-
do os poetas, ela vem do céu e tem um caráter divino. Os
instrumentos musicais que estão em volta dessa mulher
sugerem que a poesia está muito ligada à música.
Assim, essa jovem formosa mostra-nos de maneira
simples que a poesia move as pessoas, está acima do tem-
po, é uma forma de expressão das coisas divinas e é um
tipo de texto muito marcado pela musicalidade. Emblema da poesia.
odemos tentar ainda dar outra defini o e ploran-
do o sentido original da palavra. oesia um termo ue tem origem no grego
poiesis a atividade de produ o art stica a atividade de criar ou de a er . e
considerarmos essa no o veremos ou sentiremos poesia sempre ue criando
ou a endo coisas somos dominados pelo sentimento do elo sempre ue vis-
lum ramos a uilo ue h de mais elevado e comovente nas pessoas e nas coisas.
empre ue isso acontecer criamos ou a emos poesia.
os poemas oesia e poema s o a mesma coisa uita gente trata as duas
palavras como sin nimas. odemos pensar ue poesia tem um sentido mais
amplo... la n o est s no poema mas tam m em lugares e coisas uma pai-
sagem pode ser plena de poesia o gesto de uma pessoa pode ser considerado
po tico e assim por diante. O poema tam m o ra de poesia mas o ra de
poesia ue usa as palavras como mat ria-prima.

24 Língua Portuguesa
Você lerá a seguir três poemas de diferentes épocas. O primeiro, muito antigo,
foi escrito por um poeta português que viveu no século XVI; o segundo foi escrito
na primeira metade do século XX; o terceiro, mais recente, foi publicado em 1976.
Dessa forma, poderemos compreender como poetas que viveram em épocas dife-
rentes exploram a sonoridade das palavras para dar musicalidade aos poemas. Se
você ler os três textos em voz alta, perceberá mais facilmente as diferenças sonoras.
Antes da leitura, porém, eis uma dica que vale para a leitura de todos poemas:
os poetas organizam os versos de maneira especial, artística; por isso, na leitura
dos poemas, temos de observar o que o autor “diz” (o conteúdo do texto) e “como
diz” (a maneira como o texto está escrito).

Cada linha de um poema é chamada verso; os versos têm o tamanho


que o poeta desejar. Um agrupamento de versos chama-se estrofe.

LER POEMA I

Antes de ler o primeiro poema (o mais antigo), responda:

1. Quem escreveu o poema a seguir? O que você sabe sobre esse poeta? Para saber mais sobre a vida
do poeta, leia o quadro que aparece ao lado do poema.
2. O que, em sua opinião, faz um poema escrito há mais de quinhentos anos continuar sendo lido até hoje?
3. Você acha que é possível definir o amor? Escreva um pequeno texto (em verso ou em prosa) explican-
do se é possível ou não definir esse sentimento.

Soneto V Luís Vaz de Camões


Amor é um fogo que arde sem se ver; Luís Vaz de Camões, importante poeta português,
é ferida que dói, e não se sente; nasceu entre 1524-1525 e morreu, na miséria (foi enterra-
é um contentamento descontente; do, na época, como indigente, em vala comum), em 1580.
Escreveu Os lusíadas, considerado o maior poema épico da
é dor que desatina sem doer.
língua portuguesa, que conta a história do povo português,
até a conquista do cami-
É um não querer mais que bem querer;
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa/Domínio público

nho para as Índias, por


é um andar solitário entre a gente; Vasco da Gama. Além de
é nunca contentar-se de contente; Os lusíadas, Camões es-
é um cuidar que ganha em se perder. creveu diversos poemas
líricos, publicados após
sua morte como Rimas.
É querer estar preso por vontade; Não há acordo quanto
é servir a quem vence, o vencedor; ao número exato de poe-
é ter com quem nos mata, lealdade. mas líricos escritos pelo
poeta, mas seus versos,
Mas como causar pode seu favor que tratam sobretudo da
temática amorosa, conti-
nos corações humanos amizade,
nuam vivos em músicas
se tão contrário a si é o mesmo Amor? e filmes.
CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica. São Paulo: Edusp, 1982. p. 155.

8º ano 25
As questões abaixo são para colher suas primeiras impressões sobre o poema lido.
4. Em sua opinião, o poeta conseguiu definir o amor? Por quê?
5. No texto, há um trabalho cuidadoso de seleção e combinação de palavras. Escolha alguns versos
que, em sua opinião, mostrem essa preocupação do poeta.
6. Na canção “Monte Castelo”, Renato Russo, integrante da banda Legião Urbana, juntou frases do
apóstolo Paulo com versos do poema de Camões. Veja como ficou o arranjo da canção e responda
às questões a seguir.
Monte Castelo
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
RUSSO, Renato. Legião Urbana. As quatro estações (CD). EMI, 1989.

a) “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o me-
tal que soa ou como o sino que tine”. Essas palavras são do apóstolo Paulo, presentes na Bíblia
(Coríntios 13:1), que Renato Russo adaptou para a canção. Em sua opinião, a frase inserida na
canção dialoga bem com os versos de Camões? Por quê?

26 Língua Portuguesa
b) Os versos da canção “O amor é bom, não quer o mal,/ Não sente inveja ou se envaidece” dife-
rem muito da maneira que Camões define o amor? Justifique sua resposta.
7. No final do poema, Camões faz uma pergunta. Em sua opinião, ela é consequência do que foi
exposto nos outros versos? Por quê?

MAIS SOBRE O POEMA


O texto de Camões tem quatorze versos, organizados em quatro estrofes: duas
de quatro versos, duas de três. Essa maneira de organizar os versos é muito antiga
e tem um nome: soneto. Geralmente, os poetas escrevem um soneto para expor
um raciocínio, que contém uma série de proposições (ideias) e uma conclusão.
Repare que nas três primeiras estrofes, o poeta apresenta ideias que definem
o amor, sempre repetindo “Amor é...”. Na última, a conclusão aparece na forma de
uma pergunta.
O poeta, para garantir a unidade sonora do texto, inverteu a ordem das pa-
lavras na última estrofe. Seria mais fácil compreender a estrofe, se ele escrevesse
“Mas como seu favor (o favor, a graça do amor) pode causar amizade nos corações
humanos, se tão contrário a si é o mesmo amor?”, mas o texto perderia o ritmo e
a musicalidade.

A MUSICALIDADE NOS POEMAS


O poema de Luís de Camões é bastante sonoro. Durante a leitura, você per-
cebeu que algumas palavras no final dos versos tinham som idêntico? Esse som
idêntico, ou quase idêntico, que observamos na terminação das palavras é cha-
mado rima. As rimas podem aparecer nas palavras no final dos versos ou podem,
mais raramente, aparecer no início ou no meio deles.
Repare que “ver” rima com “doer”, que rima com “querer”, que rima com
“perder”. O mesmo acontece com “sente”, que rima com “descontente”, que rima
com “gente”, que rima com “contente”; e “vontade”, que rima com “lealdade”, que
rima com “amizade”; e “vencedor”, que rima com “favor”, que rima com “amor”.
Por convenção, para indicar o esquema de rimas dos poemas, usamos as letras
minúsculas de nosso alfabeto. Os versos que rimam entre si são representados
pela mesma letra. A letra a sempre será usada para a terminação do primeiro
verso e dos outros que terminarem com o mesmo som. Se o som da última pala-
vra do segundo verso for diferente, indicaremos a nova terminação com a letra b.
Cada nova terminação será representada por uma letra diferente. Os lusíadas foi
publicado em 1572 e é formado por 1 102 estrofes, que têm sempre o mesmo es-
quema de rimas: a b a b a b c c.

8º ano 27
Veja, a seguir, o esquema de rimas do poema de Camões:
Amor é um fogo que arde sem se ver; – a
é ferida que dói, e não se sente; – b
é um contentamento descontente; – b
é dor que desatina sem doer. – a

É um não querer mais que bem querer; – a


é um andar solitário entre a gente; – b
é nunca contentar-se de contente; – b
é um cuidar que ganha em se perder. – a

É querer estar preso por vontade; – c


é servir a quem vence, o vencedor; – d
é ter com quem nos mata, lealdade. – c

Mas como causar pode seu favor – d


nos corações humanos amizade, – c
se tão contrário a si é o mesmo Amor? – d

ALITERAÇÃO
É a repetição de um som consonantal em palavras da mesma frase ou verso.
Essas palavras podem estar seguidas, próximas ou distantes, mas são organizadas
de forma harmoniosa. Repare a repetição do som r no primeiro verso: “Amor é
fogo que arde sem se ver”; ou do som t, no terceiro: “É um contentamento des-
contente”. As aliterações provocam um efeito sonoro ao texto, tornando-o extre-
mamente musical. Repare os versos 4, 7 e 10 do soneto de Camões. Verifique as
consoantes que se repetem nesses versos para formar aliterações.

LER POEMA II

Antes de ler o poema da página seguinte, responda:

1. Você acha que com palavras é possível imitar o som de um trem? Que palavras você escolheria
para mostrar no papel o som de um trem a vapor?

2. O título de um texto pode ajudar o leitor a antecipar o assunto ou algumas ideias do que vai ser
lido. O título “Trem de Alagoas” sugere que ideias para você?

28 Língua Portuguesa
Trem de Alagoas
O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…

– Vou danado pra Catende,


vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.

– Adeus!
– Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

– Adeus morena do cabelo cacheado!

Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar

– Vou danado pra Catende,


vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

– Ali dorme o Pai da Mata!


– Ali é a casa das caiporas!

– Vou danado pra Catende,


vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

8º ano 29
Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe… Ascenso Ferreira
No entanto avistamos Ascenso Ferreira nasceu em
bem perto outro mar... Palmares (PE), em 1895. Come-
çou a colaborar em jornais e a
Danou-se! Se move, publicar os primeiros versos ain-
se arqueia, faz onda... da em Palmares, no ano de 1912.
Que nada! É um partido Em 1922, passou a escrever para
já bom de cortar... jornais recifenses e, seis anos de-
– Vou danado pra Catende, pois, conheceu Mário de Andrade
vou danado pra Catende e, logo depois, outros intelectuais
vou danado pra Catende paulistas, como Cassiano Ricar-
com vontade de chegar... do, Oswald de Andrade, Tarsila
do Amaral e Anita Malfatti.
Cana-caiana, Catimbó, o livro de estreia de
cana-roxa, Ascenso Ferreira, data de 1927.
cana-fita, Nesse mesmo ano, Manuel Ban-
cada qual a mais bonita, deira vai a Recife e estreita contato
todas boas de chupar... com Ascenso. Suas obras poé-
– Adeus morena do cabelo cacheado! ticas seguintes são Cana caiana
(1939); Poemas 1922/1951 (1951);
– Ali dorme o Pai da Mata! Catimbó e Outros poemas (1963)
– Ali é a casa das caiporas! e o póstumo Eu voltarei ao sol da
– Vou danado pra Catende, primavera (1985). Ascenso Ferrei-
vou danado pra Catende ra morreu em 1965, às vésperas
vou danado pra Catende de completar 70 anos.
com vontade de chegar... MACHADO, Carlos. Disponível em: <www.algumapoesia.com.
br/poesia2/poesianet166.htm>. Acesso em 2 jul. 2012.
FERREIRA, Ascenso. Disponível em: <www.algumapoesia.com.br/ (Texto adaptado.)
poesia2/poesianet166.htm>. Acesso em: 2 jul. 2012

Depois de ler o poema, responda às questões a seguir:


3. É possível estabelecer alguma relação entre o título e o ritmo do texto? Explique sua resposta.
Escolha alguns versos para exemplificar.

4. O que mais chamou a sua atenção na maneira como o autor organizou as estrofes do texto?

5. Você percebeu que o poema imprime diferentes velocidades de leitura? Em que momento a leitu-
ra torna-se mais rápida? Em que momentos ela se torna mais lenta?

30 Língua Portuguesa
MAIS SOBRE O POEMA CONHECER MAIS

O poema “Trem de Alagoas” de Ascenso Ferreira explora Trens na poesia


muito bem o ritmo produzido pela sonoridade das palavras.
Para ouvir o poeta Ascenso
O título dá uma pista ao leitor da intenção do poeta quanto à Ferreira recitando o poema “Trem
realização sonora do poema. de Alagoas”, acesse <http://www.
algumapoesia.com.br/som/as-
Acertando o ritmo da leitura, as palavras pronunciadas
censoferreira_tremdealagoas.
produzirão um efeito sonoro muito sugestivo. Repare que mp3>. Acesso em: 19 set. 2012.
a repetição do verso “Vou danado pra Catende” faz a velo- Leia também o poema “Trem
de ferro”, de Manuel Bandeira,
cidade da leitura aumentar. Observe ainda outras pistas: a
publicado em 1936, no livro Es-
organização das estrofes e as aliterações nas várias palavras trela da manhã. Assim como o
iniciadas pelo mesmo fonema, pelo mesmo som. “Trem de Alagoas”, o “Trem de
ferro” de Bandeira tem um ritmo
Em relação à primeira observação, vale lembrar que a manei- especial, que parece representar
ra como os versos são agrupados nas estrofes é sempre intencio- um trem em movimento.
nal. Vimos que os poetas usam as palavras de maneira especial. E
percebemos que essa maneira especial também reflete sobre a organização dos versos
nas estrofes. “Trem de Alagoas” tem dezoito estrofes, em que variam o número de ver-
sos. Há estrofes que podem ser lidas mais rapidamente e outras que podem ser lidas
mais lentamente, por exemplo, quando o trem se aproxima da mata fechada, nos versos
“Ali dorme o Pai da Mata!/ Ali é a casa das caiporas!” podem ser lidos num ritmo mais
lento. Só o refrão, em função da repetição, pode ser lido num ritmo mais rápido.
Além da sonoridade, o poeta buscou produzir um efeito visual. Observando a
organização das estrofes do poema, é possível visualizar um trem em movimento,
em que primeiro vagão (1a estrofe) puxa os demais.
Sobre as aliterações, elas sempre provocam efeitos sonoros interessantes. Uma
forma possível de representar o som de um automóvel ou um trem em um texto
escrito é como acontece nas histórias em quadrinhos. Quando se quer dar a enten-
der que algum veículo está indo rápido, é comum encontrar palavras como “zum”.
As palavras que procuram reproduzir aproximadamente o som das coisas são cha-
madas onomatopeias. O texto de Ascenso Ferreira não tem onomatopeias, mas,
lendo-o em voz alta, é possível perceber o ruído do trem e a que velocidade ele
anda. Esse efeito sonoro, que sugere o barulho e, consequentemente, a velocidade,
é obtido graças às aliterações, às repetições e à disposição das palavras nos versos.

CONHECER MAIS

A poesia de Ascenso Ferreira é marcada pela presen- “Vou danado pra Catende”. Essa música encontra-se em
ça de personagens do povo, costumes e festas populares. vários discos do compositor, entre os quais a coletânea
A poesia de Ascenso também ganhou espaço na música Novo millennium, de 2005.
popular. “Trem de Alagoas” foi musicado por Heitor Villa- Outro poema de Ascenso Ferreira musicado por Va-
Lobos. lença foi “Maracatu”, cujos versos, à simples leitura, tra-
O cantor e compositor pernambucano Alceu Valença zem à mente o ritmo afro-brasileiro que lhe dá nome. A
adaptou esse mesmo poema, em 1975, na composição música saiu originalmente no LP Cavalo de pau, de 1982.

Disponível em: <www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet166.htm>. Acesso em: 2 jul. 2012

8º ano 31
APLICAR CONHECIMENTOS I

As questões a seguir vão ajudar você a aprofundar sua conversa com o poema “Trem de Ala-
goas”. Escreva as respostas em seu caderno.

1. Releia a primeira e a segunda estrofes do poema.


a) Retire da primeira estrofe palavras que podem ser relacionadas à partida de um trem.
b) No terceiro e quarto versos, lemos: Solta o trem de ferro um grito,/ põe-se logo a caminhar…
Soltar um grito e caminhar são ações realizadas por pessoas, não por trens. Que efeito de sen-
tido, em sua opinião, o poeta quis provocar?
c) Quem diz a frase “Vou danado pra Catende”?
2. Catende é um município brasileiro do estado de Pernambuco que faz divisa com Palmares, ci-
dade em que nasceu o poeta Ascenso Ferreira. Transcreva alguns versos que, em sua opinião,
apresentam elementos da paisagem da Zona da Mata nordestina.
3. Ao longo do poema, enquanto o trem de Alagoas corre, elementos da cultura popular brasileira
vão surgindo no texto. Encontre no texto duas personagens da cultura popular brasileira.
4. Releia os versos da sétima estrofe.
a) Em que palavras ocorre a aliteração?
b) Em relação à velocidade do trem, a presença das aliterações aumenta ou diminui a velocidade
da leitura?
5. O que você achou da viagem do “Trem de Alagoas” para Catende? Pense em sua cidade natal e
escreva um poema que represente uma viagem prazerosa pelos encantos de sua cidade.

OS SENTIDOS DAS PALAVRAS


DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO
De maneira geral, podemos dizer que lidamos com dois diferentes sentidos
das palavras: o sentido denotativo e o sentido conotativo. Os sentidos são decor-
rentes não só do contexto em que a palavra é empregada, mas dependem também
do leitor que a interpreta, apoiado em sua experiência de vida e em seu repertório
de leituras. Assim, quando a palavra é interpretada além do sentido usual ou lite-
ral, dizemos que predomina o sentido conotativo ou a conotação.
Observe o exemplo: “Se eu pudesse viver novamente tomaria mais sor-
vete e menos lentilha”. Se o leitor interpretasse a frase no sentido conotati-
vo, pensaria que o autor está usando as palavras “lentilha” e “sorvete” para
expressar mais do que simplesmente uma preferência alimentar. O leitor
pensaria que o autor da frase está querendo dizer que teria mais momentos
de prazer e menos momentos de obrigação, caso vivesse novamente. Inter-
pretada dessa forma, a palavra “sorvete” está no sentido figurado, pois está
simbolizando todas as coisas boas da vida, e a palavra “lentilha”, o que temos
de fazer por obrigação.

32 Língua Portuguesa
Se o exemplo fosse lido literalmente (sentido denotativo), “lentilha” seria sim-
plesmente a planta da família das leguminosas e “sorvete” a iguaria feita de suco
de frutas ou de leite e chocolate. Nessa leitura, predominaria a denotação, e “len-
tilha” e “sorvete” expressariam a preferência alimentar do autor da frase.

FIGURAS DE LINGUAGEM
Figuras de linguagem são recursos que todos os falantes da língua usam para
criar efeitos de expressividade, ou seja, para se expressar de maneira bela. Esses
efeitos sempre evocam emoções. Há vários tipos de figuras, e todas são muito
importantes para a “expressão poética”. Veja a seguir três delas.

Metáfora

É uma figura de linguagem muito usada pelos poetas. Ocorre quando você
substitui um termo por outro em função de algum ponto de contato, de alguma
semelhança entre eles. O filósofo Aristóteles afirmava que a metáfora podia ser
interpretada como uma comparação breve, que realiza uma transferência de sig-
nificado. Se o primeiro verso do poema de Camões fosse: “o calor do amor arde
como o calor do fogo”, ele estaria fazendo uma comparação. Porém, observe que a
palavra “como” não aparece no verso. Se Camões fizesse uma simples comparação
entre o calor que o fogo produz e o “calor” do amor, reduziria bastante o sentido
do verso.
Mas Camões preferiu escrever uma metáfora. Na metáfora, a palavra “como”
(conectivo comparativo) não é expressa, e a semelhança entre o amor e o fogo
não fica restrita ao calor. Quando o poeta associa “amor” a “fogo” no verso “Amor
é um fogo”, faz o leitor sentir um impacto. O fogo brilha, consome, encanta, atrai,
purifica, regenera, destrói, devora, sufoca etc. Quando lemos “Amor é um fogo
que arde sem se ver”, associamos ao amor todas as outras qualidades do fogo;
não só o calor.
Por isso, as metáforas não são compreendidas da mesma forma pelas pessoas.
Escrever ou interpretar metáforas é algo subjetivo, ou seja, quanto mais com-
plexa e indireta for a metáfora, quanto mais distante forem as noções que ela
tenta aproximar, mais ela exigirá do leitor sensibilidade e reflexão para ser
compreendida.

Antítese

É outra figura presente no texto de Camões. É definida como a figura que co-
loca, numa mesma frase, duas palavras ou dois pensamentos de sentido contrário.
Repare a antítese no verso: “É um cuidar que ganha em se perder”.

8º ano 33
LER POEMA III

Antes de ler o poema “Emergência”, reproduzido a seguir, responda às questões.


1. Quem é o autor do poema “Emergência”? Você sabe alguma coisa sobre ele?
2. Em que livro “Emergência” foi publicado? Em que ano? Por que, em sua opinião, é importante
saber o ano de publicação de uma obra?
3. Lendo o título, é possível, às vezes, antecipar ideias do texto que vai ser lido. Reflita sobre o título
do poema. Que situação grave ou perigosa o poema pode abordar?
4. Você acredita que um poema possa salvar a vida de alguém? De que maneira?

Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, profundamente, respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.


QUINTANA, Mário. Apontamentos de história sobrenatural.
São Paulo: Globo, 2005. p. 46.

Responda às questões a seguir. Com elas, você vai começar a perceber aspectos importantes
sobre o poema de Mário Quintana.
5. No primeiro verso, a palavra “janela” está no sentido denotativo ou conotativo? Justifique sua
resposta.
6. No poema de Mário Quintana, as palavras “respira” e “respirar” têm um sentido diferente de “ins-
pirar oxigênio”? Justifique sua resposta.
7. Localize no poema de Mário Quintana versos em que ocorra uma metáfora.
8. No sexto verso, há um travessão, um recurso linguístico que os autores utilizam para inserir in-
formações que consideram relevantes.
a) Que ideia importante para a compreensão do texto esse travessão destaca?
b) Temos de entender essa ideia no sentido denotativo ou conotativo? Por quê?
9. Como os poetas, em sua opinião, podem “salvar um afogado”?
Ronaldo de Moraes/Folhapress

Mário Quintana
Mário Quintana (1906-1994) era gaúcho, foi poeta, cronista, tradutor e jor-
nalista. Suas poesias trazem como características principais a simplicidade, o
humor e a linguagem coloquial. Abordou temas como a infância, a memória,
a passagem do tempo e os pequenos fatos do cotidiano. Seu primeiro livro de
poesia foi A rua dos cataventos (1940). Seguiram-se Canções (1946), Espelho
mágico (1948), Sapato florido (1948), O aprendiz de feiticeiro (1950), Prosa e
verso (1978), Preparativos de viagem (1987), entre outros.

34 Língua Portuguesa
MAIS SOBRE O POEMA
O poema de Mário Quintana apresenta também uma sonoridade própria. Ele
é formado por duas estrofes: uma de seis versos e outra de um verso apenas. O
título do texto é sugestivo e ajuda a refletir sobre o papel do poema ou, mais pro-
priamente, sobre a razão pela qual “os poemas têm ritmo”.
Ritmo pode ser definido como uma cadência regular dentro de um intervalo
regular, chamado de compasso. Talvez essa definição seja um pouco difícil, mas,
na prática, quando escutamos música, é comum que acompanhemos, com o pé
ou com as mãos, os compassos em que o ritmo está inserido. Em um samba, por
exemplo, cada compasso tem dois tempos, um forte e um fraco. Em uma valsa,
cada compasso tem três tempos: um forte seguido por dois fracos. Quando senti-
mos o ritmo, é irresistível bater o pé ou marcar com o corpo os tempos fortes do
compasso.
Na leitura de um poema, também é possível sentir o ritmo das palavras. Para
senti-lo, temos de prestar atenção nas alternâncias: de som e silêncio, de sons
graves e agudos, de sílabas tônicas e átonas, enfim, nas variadas combinações. Se
você ler em voz alta o poema de Mário Quintana, seguindo os sinais de pontua-
ção, vai sentir o ritmo. No final do primeiro verso, o ponto final que aparece de-
pois de “janela” determina um silêncio ou uma pausa na leitura. Observe, porém,
que não há necessidade de fazer silêncios ou pausas no final do segundo verso. Se
fizer, você quebrará o ritmo e até tornará difícil a compreensão do poema. O verso
termina, mas a pausa da leitura acontece no verso seguinte (repare que a vírgula
aparece só no final do terceiro verso). Para conferir, releia os quatro primeiros
versos do poema.
Nos poemas, podemos descobrir sentidos, observando como os versos são
organizados. Existe uma forma de organizá-los que é conhecida como “transbor-
damento”. Isso ocorre quando o poeta deixa para o verso seguinte uma palavra,
ou um trecho maior, que expressa a continuação do verso anterior. Isso acontece
nos versos dois e três. Recorde:
“Respira, tu que estás numa cela
abafada”

É fácil perceber que “abafada” tem uma estreita ligação com “cela”; é sua con-
tinuação natural. No entanto, a palavra foi escrita uma linha abaixo. Parece que a
ideia do verso dois terminou, mas, na verdade, ela continua.
Com essas “falsas terminações”, os poetas podem produzir efeitos sonoros e
de sentido. Por que Mário Quintana preferiu deixar a palavra “abafada” sozinha
no terceiro verso? Ela não poderia estar no segundo? Será que o poeta tinha algu-
ma intenção ao organizar os versos dessa forma?
Se a palavra “abafada” fosse a última do segundo verso, o poeta perderia a
chance de rimar “janela” com “cela”. Qual seria a consequência disso? A rima cria
uma aproximação entre as palavras. Se não houvesse a rima, não seria possível

8º ano 35
chamar a atenção para o contraste entre as duas palavras: cela (fechada, abafada)
e janela (aberta, arejada). O abafamento da cela representa um mundo de janelas
fechadas, sem poesia, enquanto a janela aberta expressa a presença dos poemas. E
essa ideia é fundamental para compreendermos esse poema de Mário Quintana.
Repare em outro recurso da linguagem que foi usado para construir essa ideia.
Você já constatou que a palavra “abafada” está sozinha no verso. Quer algo mais
abafado do que a palavra “abafada” sozinha em um verso, encurralada por uma
vírgula? Já o verso “para que possas, profundamente respirar” é o mais longo do
poema. Com essa diferença entre o verso “apertado” e o verso “solto”, fica evidente
a intenção de confrontar, de um lado, a agonia presente em um mundo sem poe-
sia e, de outro, a amplidão proporcionada pelo poema e seu ritmo.
Agora, compare o primeiro verso do poema com o último. Ambos têm estru-
turas semelhantes: “Quem faz um poema abre...” / “Quem faz um poema salva...”
Não dá a impressão de que os dois versos se correspondem? “Abrir uma jane-
la” equivale a “salvar um afogado”. Afinal, é assim que o poema é visto pelo poeta:
algo que nos faz respirar, que nos permite viver...
É importante perceber mais uma vez que, num poema, a escolha das palavras
e o jeito de organizá-las revelam sentidos.

APLICAR CONHECIMENTOS II

Você vai praticar o que foi estudado até aqui. Leremos dois poemas, de outros dois importan-
tes autores da literatura brasileira.
Para que você perceba melhor a musicalidade dos textos, sugerimos que escute seu professor
ler o poema em voz alta. Depois você pode lê-lo mais uma vez, prestando atenção no ritmo e nos
esquemas rítmicos. Fique atento também à presença de figuras de linguagem e à intenção que
há por trás da organização dos versos. Vale lembrar que, quando desejamos interpretar textos, é
necessário lê-los mais de uma vez.
Por fim, duas dicas: os títulos nos dão sempre pistas para o exercício da interpretação; sempre
há o que descobrir em um poema. Por isso, pesquisar o sentido das palavras em dicionários ou
em outras obras de referência sempre enriquece a leitura.

Dois quadros
Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,


Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

36 Língua Portuguesa
A grama do campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.
Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam ferreiro
Martela seu ferro por dentro da mata.
O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol no Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.
Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.
Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.
De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vaga-lumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.
Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.
E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.
Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.
ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis: Vozes, 1978. p. 55-56.
Marlene Bergamo/Folhapress

Patativa do Assaré
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, nasceu em 5 de março de 1909, em
um sítio que ficava a três léguas da cidade de Assaré. Ficou órfão com 8 anos de idade e
teve de trabalhar muito para sustentar os irmãos mais novos. Ouviu pela primeira vez
alguém lendo um folheto de cordel quando tinha 10 anos. Com 12 anos, começou a
frequentar a escola, onde aprendeu a ler e a usar os livros: “com essa prática de ler, eu
pude obter tudo”. Publicou vários livros e gravou vários discos, recebendo inúmeras
homenagens. Morreu em 8 de julho de 2002.

8º ano 37
1. O poema “Dois quadros”, como o título sugere, apresenta duas paisagens distintas do Nordeste brasileiro.
a) Quais são os dois quadros do Nordeste descritos no poema?
b) A partir de que estrofe começa a descrição do segundo quadro?
c) A primeira e a segunda partes, quando confrontadas, formam uma antítese. Por quê?
2. Até a quinta estrofe, as rimas seguem o esquema a b a b.
a) Que mudança ocorre da sexta estrofe até a última?
b) A mudança no esquema de rimas coincide com qual outra mudança ocorrida no poema?
3. A palavra “farrapo”, no primeiro verso da segunda estrofe, está no sentido figurado. No poema,
“farrapo” não é pedaço de pano, mas pedaço de nuvem. Essa imagem (farrapo de nuvem) inten-
sifica o quadro de “seca inclemente”? Justifique sua resposta.
4. No último verso da quinta estrofe, há uma metáfora: “bolo de sangue nascendo da terra”. Vimos
que ocorre metáfora quando um termo é substituído por outro em razão de algum ponto de con-
tato, de alguma semelhança entre eles.
a) O que “bolo de sangue” está substituindo no texto?
b) Ao fazer essa comparação com “bolo de sangue”, o que o poeta está destacando para o leitor?
5. Sublinhe o verso que, em sua opinião, traduz melhor a época de chuva no sertão. Justifique oral-
mente sua resposta.
6. Na oitava estrofe, há uma metáfora das estrelas do céu. As estrelas para Patativa são: “lindas lan-
ternas de mil vaga-lumes.” Você acha que essa metáfora embelezou a noite descrita? Por quê?
7. “É que o ouro branco sai para o processo” é um verso que aparece na última estrofe do poema. A
que o poeta pode estar se referindo quando escreve “ouro branco”?

eia o poema a seguir e responda s uest es de a .

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café Este açúcar era cana
nesta manhã de Ipanema e veio dos canaviais extensos
não foi produzido por mim que não nascem por acaso
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. no regaço do vale.
Vejo-o puro Em lugares distantes, onde não há hospital
e afável ao paladar nem escola,
como beijo de moça, água homens que não sabem ler e morrem de fome
na pele, flor aos vinte e sete anos
que se dissolve na boca. Mas este açúcar plantaram e colheram a cana
não foi feito por mim. que viraria açúcar.
Este açúcar veio Em usinas escuras,
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, homens de vida amarga
dono da mercearia. e dura
produziram este açúcar
Este açúcar veio
branco e puro
de uma usina de açúcar em Pernambuco
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina. GULLAR, Ferreira. Toda poesia: 1950-1999. 11. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2001. p. 165.

38 Língua Portuguesa
Ferreira Gullar

Ana Carolina Fernandes/Folhapress


Ferreira Gullar nasceu em 1930, em São Luís do Maranhão. Publicou seu primeiro
livro, Um pouco acima do chão, em 1949. Em 1951, foi morar no Rio de Janeiro e, em
1962, entrou para o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Tra-
balhou como jornalista e, por causa de seu engajamento político, foi perseguido pela
ditadura militar em 1971. No exílio, em 1976, publicou seu texto mais conhecido,
Poema sujo. Voltou a residir no Brasil em 1977. Ferreira Gullar é hoje um dos mais
respeitados escritores brasileiros ainda em atividade.

8. “O açúcar”, de Ferreira Gullar, é um poema formado por seis estrofes. Os versos são livres, isto é,
variam de tamanho e não têm um esquema rígido de rimas. Mesmo assim, o texto tem ritmo, é
cadenciado. Comente a maneira como o poeta organizou os versos da última estrofe.
9. Ainda em relação à última estrofe, responda:
a) Que palavras constituem antíteses?
b) Que ideia essas antíteses criam no poema?
10. No texto, o “dono da mercearia” e os “donos das usinas” contrastam com os “homens de vida
amarga, que não sabem ler e morrem de fome aos vinte e sete anos”.
a) Pense no contraste que existe entre os “donos” e os “homens de vida amarga”. Qual é a diferen-
ça marcante entre esses dois lados?
b) O modo como o poeta escreve sobre os proprietários e os trabalhadores do campo revela que
ele tem uma posição diante do assunto tratado? Explique sua resposta.
11. O título “Dois quadros”, do poema de Patativa do Assaré, preparava o leitor para conhecer duas
paisagens distintas do Nordeste brasileiro. Você acha que o título do texto de Ferreira Gullar – “O
açúcar” – ajuda o leitor a antecipar o tema que vai ser tratado no texto? Justifique sua resposta.
12. Em sua opinião, qual era a intenção de Ferreira Gullar ao escrever sobre a situação dos trabalha-
dores que plantam e colhem cana-de-açúcar?
13. Compare a última estrofe do poema de Patativa do Assaré com a última estrofe do poema de Fer-
reira Gullar. Cada poeta expõe sua visão particular sobre os homens que trabalham na produção
do açúcar. Escreva um pequeno texto expondo as diferenças entre uma e outra visão.

MOMENTO DA ESCRITA

Poemas são escritos para despertar nos leitores emoções e pensamentos. Vimos neste capítulo
como os poemas são escritos e como podemos construir sentidos, observando detalhes e lendo o
que está por trás das palavras.
Escreva livremente sobre o que aprendeu sobre poesia neste capítulo. O que você achou mais
interessante na leitura e na análise dos poemas estudados? A poesia nos ajuda a pensar o mundo
e a vida de maneira diferente? A linguagem poética é muito diferente da linguagem do dia a dia?
Depois de pronto, leia seu texto para a turma.

8º ano 39
ARTE E EXPRESSÃO
UM SARAU PARA POETAS E POEMAS
Você já participou de algum sarau, isto é, de um evento festivo em que são
recitados e discutidos textos literários?
Nossa proposta é que você e seus colegas de classe organizem um evento para
declamar e comentar poemas.
Veja como você e sua turma podem organizá-lo:

t Combinem com seu professor um dia para você e seus colegas consul-
tarem livros de poesia de vários autores.
t Cada estudante escolherá um poema para ler na noite do sarau.
t Vocês contarão com a ajuda de seu professor para preparar a leitura do
poema. É importante que você estude o texto: procure no dicionário
as palavras desconhecidas; observe a sonoridade do poema; procure
descobrir o melhor ritmo para a leitura. Quem quiser pode recitar o
poema de memória.
t Marquem o dia do sarau e não se esqueçam de convidar outros estu-
dantes e professores para esse dia festivo. Nada impede que haja comi-
da e bebida para serem partilhadas no final da festa.
t Antes de recitar os textos, é importante que os recitadores expliquem
de quem é o poema que será recitado. Também é importante que reve-
lem o que motivou a escolha do poema.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS

Para conhecer outras obras poéticas de autores que escrevem em português, vale a pena ler os livros a seguir.

Livros Antologia poética


MELO NETO, João Cabral de. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.

Lírica
CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica. São Paulo: Edusp, 1982.

Obra poética
PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

Poesia completa
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

Poesia completa
BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

Poesia reunida
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Arx, 1991.

Seleta em prosa e verso


BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

Toda poesia
GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

40 Língua Portuguesa
Capítulo 3
LÍNGUA A escola pesquisa o mundo
PORTUGUESA

F azer pesquisas é uma atividade recorrente na escola. Os professores propõem


aos estudantes aprofundamentos em diferentes temas, para compreender mais
o mundo em que vivemos. Neste capítulo, vamos falar mais sobre pesquisa − como
desenvolvê-la − e sobre duas estratégias de estudo − fazer esquemas e resumos.
Para começar esse mergulho no universo da pesquisa e dos estudos, converse
com seus colegas sobre a tirinha do cartunista americano Bill Watterson.

Calvin & Hobbes, Bill Watterson © 2002 Watterson/Dist. by Universal Uclick


The Plain Dealer, C.H. Pete Copeland/AP Photo/Glow Images

Bill Watterson
Bill Watterson, nascido em 5 de julho de 1958, é o cartunista
estadunidense que criou as personagens Calvin e Haroldo.
Calvin é um garoto esperto que tem 6 anos de idade e um tigre
como amigo (Haroldo), que para outras pessoas é apenas um bi-
cho de pelúcia. As vivências desses dois amigos foram publicadas
em vários jornais espalhados pelo mundo inteiro. Mesmo depois de
Bill Watterson ter deixado de criar histórias com suas duas persona-
gens mais famosas, as tirinhas continuam a ser publicadas em vários
jornais.

RODA DE CONVERSA I

Converse com seus colegas sobre a tirinha de Calvin e Haroldo. Respondam às questões a seguir.

1. O que aconteceu para que a garotinha que aparece no último quadrinho ficasse tão nervosa?
2. No penúltimo quadrinho, Calvin diz que nem desconfia por que deram ao planeta o nome do
herói romano. Como ele poderia resolver a dúvida?
3. Que relação você pode apontar entre a tira e os objetivos deste capítulo?

8º ano 41
4. Em sua opinião, o que significa pesquisar?
5. Você acha que suas experiências de vida podem se transformar em fontes de ideias na hora de
fazer uma pesquisa sobre um assunto? Por quê?

O QUE É PESQUISA? COMO É PESQUISAR NA ESCOLA?


A palavra “pesquisa” vem do latim perquiro, que significa: “buscar com cuida-
do”, “procurar por toda parte”, “indagar profundamente, aprofundar”. Esses senti-
dos permitem-nos afirmar que, ao buscar compreender com mais profundidade
temas do mundo que nos cerca, pesquisamos.
Assuntos que emergem dos conteúdos das disciplinas na escola, as ideias e
os acontecimentos no mundo que despertam admiração, interesse, dúvidas, as-
sombro, consternação, podem ser objeto de pesquisa. O pesquisador – seja um
estudante, seja ou um cientista – faz perguntas (“por quê?”, “como?”, “quando?”,
“onde?”, “quais os efeitos gerados?” etc.) sobre um tema a ser investigado. Formu-
lar perguntas sobre o que se quer pesquisar direciona e define o passo a passo da
pesquisa. Em outras palavras, um pesquisador é movido por objetivos ou metas,
pelo conjunto de perguntas que pretende responder.
Também em nossa vida cotidiana nos deparamos com situações em que atua-
mos como verdadeiros pesquisadores. Ao buscar informações sobre o trajeto de
um ônibus, ao pesquisar preços de um produto, ao buscar informações sobre um
tempero, ao procurar o sentido de uma palavra no dicionário, ao buscar em jor-
nais mais detalhes sobre um fato, a pesquisa funde-se com a vida.
Por isso, há tipos diferentes de pesquisa. Se ela for realizada sem critérios rí-
gidos de processamento de informações, será informal. Se for realizada de forma
planejada, com o estudo de diversas fontes de informação e organização de dados,
será científica. Se for realizada por tentativa e erro, será empírica. Se se debruçar
sobre fontes históricas, será histórica. Se confrontar dados, será comparativa, e
assim por diante... Entrevistas com pessoas (especialistas ou não), estudo de fontes
bibliográficas (jornais, revistas, obras de referência, livros), experimentos na natu-
reza ou em laboratórios são alguns exemplos de métodos de pesquisa.
Na escola, frequentemente as pesquisas exigem do estudante que busquem re-
ferências bibliográficas e informações sobre determinado tema. Em geral, é preci-
so estudar o material selecionado, produzir textos e expor o que se aprendeu. Em
outras palavras, pôr em prática procedimentos de estudo como sublinhar, fazer
fichamentos e resumos, anotar informações importantes, preparar apresentações
para um público que pode ser formado por estudantes ou não.

42 Língua Portuguesa
RODA DE CONVERSA II

Converse com seus colegas sobre as questões a seguir:

1. Muitas coisas que acontecem no mundo despertam interesse, dúvida, revolta, admiração. Faça
uma lista dos temas que você teria interesse em pesquisar.
2. Considerando os temas que você listou na questão anterior, pense e escreva duas perguntas que
você faria para começar uma pesquisa sobre um deles.
3. Você se lembra de ter realizado alguma pesquisa na escola? Lembra qual tema foi pesquisado?
Como obteve as informações de que precisava? Foi difícil estudar as fontes selecionadas? O que
você aprendeu com a pesquisa?

OBJETIVOS E JUSTIFICATIVA
Os assuntos ou temas de uma pesquisa escolar em geral estão relacionados
aos conteúdos das matérias. Na escola, pesquisamos sobre a realidade brasileira
e sua história, sobre o funcionamento do corpo, sobre os problemas da vida em
sociedade, sobre as artes e literatura, entre outros assuntos. No entanto, entre o
tema da pesquisa e sua conclusão há um longo percurso a ser trilhado. Para ini-
ciar esse percurso, é fundamental estabelecer um foco de investigação. Depois, é
preciso buscar e selecionar fontes de dados e informação, bem como estudá-las.
É preciso produzir textos escritos sobre o que foi descoberto e também apresen-
tar os resultados da pesquisa. Tudo isso dentro de um prazo que na maioria das
vezes é curto. Mas, como diz o provérbio, uma longa caminhada começa com o
primeiro passo. Vamos a ele...
Como você leu, em uma pesquisa é fundamental estabelecer um foco, ou seja,
estabelecer objetivos e metas. Temas amplos, sem especificar o que exatamente se
pretende pesquisar, são difíceis de investigar, de fazer aprofundamentos. Em mui-
tos casos, é necessário fazer um recorte do tema, para assegurar qual parte dele,
qual problema será efetivamente pesquisado.
Imagine, por exemplo, que você tenha de pesquisar sobre “a linguagem dos
meios de comunicação”. Esse tema, muito instigante, sem dúvida, precisa ser re-
cortado, pois é tão amplo e tem tantas possibilidades de ser desenvolvido que uma
vida inteira não seria suficiente para investigá-lo. Há milhares de estudos sobre
a linguagem dos meios de comunicação e, sem um “problema de pesquisa”, sem
“recortar o tema”, seria difícil a pesquisa avançar.
O recorte ou problema a ser pesquisado pode ser pensado com base em ex-
periências pessoais, em um desejo de saber mais sobre algum aspecto do tema
apresentado. Questões como “o que desejo saber sobre esse tema?”, “o que pre-
tendo aprofundar?” podem ajudar no recorte. De fato, as respostas a essas duas
questões ajudam a estabelecer uma meta, um alvo, o que é decisivo para os
passos posteriores.

8º ano 43
Além de definir objetivos, é importante expli- Algumas dicas:
car os motivos que levaram a eles, isto é, escre- 1) O excesso de informação disponível a
respeito de um tema pode dificultar a seleção
ver uma justificativa. Justificar o recorte do tema
do material de pesquisa, não significando ne-
é uma maneira de explicitar, esclarecer suas in- cessariamente produção de um bom trabalho.
tenções com a pesquisa. A justificativa vai mos- 2) O processo de pesquisa é dinâmico e o
pesquisador, mesmo que tenha clareza do ob-
trar qual é a importância de seu trabalho.
jeto de pesquisa, pode, caso queira ou se for
Vamos voltar ao tema citado anteriormen- necessário, reformulá-lo.
te (“A linguagem dos meios de comunicação”) e 3) Evite formular questões amplas demais
que dificilmente podem ser respondidas em
colocar em prática os primeiros passos: recorte, uma pesquisa que tem data para terminar.
objetivos e justificativa.

Tema proposto: “A linguagem dos meios de comunicação”


Recorte do tema (O que desejo saber sobre esse tema?): Entre os meios de
comunicação, a televisão é o que desperta em mim o maior interesse. É um meio
de comunicação que reúne linguagens visual e verbal. Graças à grande variedade
de programas que veicula, atinge diferentes públicos e está em quase todos os lares
brasileiros. É acusada por alguns de disseminar e incentivar, por meio de progra-
mas e notícias, a violência no mundo. Também é vista como uma das responsáveis
por afastar o público jovem da leitura. Por outro lado, há pessoas que não atribuem
à televisão as causas das coisas. Ela é um meio pelo qual as coisas, os fatos, as trans-
formações chegam ao público em geral; ela apenas reflete o que acontece no mun-
do. Seria interessante verificar como a televisão integra os recursos da linguagem
visual e verbal para atingir diferentes públicos, e levantar aspectos considerados
positivos e negativos desse veículo de comunicação. Para isso, três programas de
TV aberta – de preferência da emissora que detém a maior audiência – poderiam
ser analisados: um do período da manhã, outro veiculado no período da tarde, e
outro à noite. Dessa forma, seria possível ter uma amostra de como é a linguagem
da TV em programas direcionados a diferentes públicos.
Objetivos (O que pretendo aprofundar?):
t Quando, onde e como as transmissões de TV começaram a ser feitas
em larga escala?
t Quem define a programação de uma emissora de televisão?
t Os programas de TV são diferentes porque são voltados para públicos
diferentes?
t Quem avalia a qualidade dos programas de TV? Como avaliar a quali-
dade de um programa de TV?
t É possível levantar aspectos positivos ou negativos no hábito de ver TV?
t O que atrai mais o público televisivo: a linguagem visual ou a ver-
bal? Ambas as linguagens? A linguagem pode variar de emissora para
emissora? Por quê?
t A linguagem de alguns programas de TV é muito diferente da que
ouvimos nas ruas?

44 Língua Portuguesa
t Quem se beneficia mais com os números de audiência? Por quê?
t Quais são as características dos programas de grande audiência?
t Os conteúdos dos programas de TV influenciam a formação das pes-
soas? A TV é só um veículo que transmite as opiniões que já circulam
no mundo? Ou podem acontecer as duas coisas ao mesmo tempo?

Justificativa: Quando falamos em meios de comunicação, referimo-nos a jor-


nais, revistas, rádio, televisão, internet etc. Desses meios, a televisão está presente
na maioria dos lares dos brasileiros, como forma de lazer e de obter informações
sobre o que acontece em nosso país e no mundo. Diariamente, crianças, jovens e
adultos passam muitas horas diante de um televisor. Assim, é de máxima impor-
tância estudar mais a fundo as características da linguagem (visual e verbal) que
atinge e entretém milhões de pessoas. A TV é causa de alguma coisa? Ela incen-
tiva por meio de programas e notícias, por exemplo, a violência no mundo? Ou
ela é meio pelo qual as coisas, as transformações, os fatos chegam aos indivíduos?
Analisando as características da linguagem de diferentes programas de grande
audiência, e verificando como técnicas persuasivas de linguagem influenciam o
comportamento das pessoas, poderemos, com nossa pesquisa, saber as caracterís-
ticas da linguagem da televisão, um importante meio de comunicação.

APLICAR CONHECIMENTOS

Agora é a sua vez... No exercício a seguir, junto com um colega, para cada tema apresentado,
vocês vão fazer um recorte, elaborar perguntas que possam nortear a pesquisa e escrever uma
justificativa. Vocês podem basear-se no exemplo anterior.

Tema 1: Trabalho e emprego no Brasil

Recorte do tema (O que desejo saber sobre esse tema?):

Objetivos (O que pretendo aprofundar?):

Justificativas:

8º ano 45
Tema 2: Água um recurso natural indispensável para a manutenção da vida

Recorte do tema (O que desejo saber sobre esse tema?):

Objetivos (O que pretendo aprofundar?):

Justificativas:

LER TEXTO PARA APROFUNDAMENTO

O texto que você vai ler foi retirado do livro Planejamento de pesquisa: uma introdução, de Sergio
Vasconcelos de Luna. Nesse livro, é possível encontrar algumas sugestões para vencer os principais
problemas que envolvem uma pesquisa escolar ou acadêmica. Mas, antes de ler o texto, responda:

1. Além de recortar o tema, definir objetivos e escrever justificativa, o que mais, em sua opinião,
deve ser considerado básico em uma pesquisa?
2. Onde você buscaria informações sobre os temas que foram propostos no exercício anterior?
3. Você acha que programas de áudio e vídeo, entrevistas, observação direta de fenômenos e situa-
ções sociais, levantamentos estatísticos podem ser fontes de informação para a realização de uma
pesquisa? Por quê?
Depois de discutir as respostas com seus colegas, leia o texto a seguir:

Os elementos básicos de uma pesquisa


Qualquer que seja o referencial teórico ou a metodologia empregada, GLOSSÁRIO
uma pesquisa implica o preenchimento destes e de outros requisitos: Metodologia: vem da palavra
1. a formulação de um problema de pesquisa, isto é, de um método, que significa
caminho pelo qual se chega
conjunto de perguntas a que se pretende responder e cujas respostas se a determinado resultado.
mostrem novas e relevantes teórica e/ou socialmente;
2. a determinação para buscar as informações necessárias para
encaminhar as respostas às perguntas feitas;
3. a seleção das melhores fontes dessas informações.
Em relação ao requisito 1, um problema de pesquisa precisa existir, mesmo que
sob a forma de uma mera curiosidade, para dirigir o trabalho de coleta de informações
e, posteriormente, para organizá-las.

46 Língua Portuguesa
Os requisitos seguintes (2 e 3) dizem respeito à existência de um conjunto
de passos que gerem informação relevante, isto é, o procedimento. Não vejo como
uma pesquisa possa dispensar procedimentos, e a razão para isso é simples. Se o
problema que gera a pesquisa não pode ser respondido diretamente (caso contrário
não teríamos um problema!), isso significa que a realidade não pode ser apreendida
diretamente, mas depende de um recorte dela que faça sentido. Esse recorte é
garantido pelo procedimento que seleciona as informações necessárias para uma
leitura pelo pesquisador. Diferentes tendências farão recortes diferentes, mas não
poderão prescindir de procedimentos de coleta de informações.
LUNA, Sergio Vasconcelos de. Planejamento de pesquisa: uma introdução. São Paulo: EDUC, 2011. p. 17 -19. (Texto adaptado.)

4. Dos três requisitos apresentados, qual, em sua opinião, exigirá mais tempo do pesquisador? Por quê?
5. Qual é a razão apontada pelo autor do texto para uma pesquisa precisar de procedimentos, ou
seja, de algumas ações específicas por parte de quem pesquisa?
6. O texto apresenta três requisitos necessários para uma pesquisa, mas sugere que há outros. Quais,
em sua opinião, seriam outros requisitos necessários?
7. O autor fala em “procedimentos de coleta de informação”. O que poderiam ser esses procedimentos?
8. Você acha que estratégias de estudo (grifar, sublinhar e fichar textos) podem ajudar em uma pes-
quisa? De que forma?

ESTUDAR AS FONTES
Uma etapa muito importante na pesquisa é a de ler e interpretar as fontes
encontradas. Repare que a palavra destacada foi escrita no plural. Isso significa
que, em geral, para realizar uma pesquisa escolar, é imprescindível consultar mais
de uma fonte.
Obras de referência, reportagens de revistas e de jornais, entrevistas, vídeos
etc. são fontes que podem apresentar informações diferentes ou complementares
sobre um tema. Quanto mais variada a procedência das fontes, mais garantida a
quantidade de informações.
Com o material de pesquisa selecionado, é preciso olhar tudo com cuidado.
É importante frisar que cada material requer estratégias diferentes de análise. Em
relação aos textos escritos, é preciso estudá-los em profundidade, aplicando estra-
tégias de estudo, como grifar, fazer fichamentos, esquemas e resumos.
Em uma pesquisa, um texto para ser lido é um texto para ser estudado ou
interpretado. Se lemos um texto sem atenção ou curiosidade, se desistimos da
leitura quando encontramos a primeira dificuldade, não é possível fazer o que
pode ser considerado o passo mais importante: a interpretação das informações.
Vamos conhecer agora algumas estratégias de estudo. Imagine que você qui-
sesse pesquisar sobre o tema “Água: um recurso natural indispensável para a ma-
nutenção da vida”, e que, depois de recortar o tema, formular questões e escrever
uma justificativa, tivesse encontrado os dois textos a seguir.

8º ano 47
LER FONTE SELECIONADA I

Leia atentamente o texto a seguir e faça as atividades propostas.

A água que não podemos dispensar


Colunista apresenta aspectos físicos e químicos dessa substância essencial para a vida
no planeta

Em algumas regiões do Brasil, na época do inverno, ficamos várias semanas,


ou até meses, sem chuvas. Nas grandes cidades, como São Paulo, onde existe muita
poluição atmosférica, a falta de chuva provoca vários problemas, principalmente para as
pessoas que têm alguma deficiência respiratória. A chuva ajuda a dissipar os poluentes
que estão em suspensão no ar. Quando ela cai, deixa o ar mais agradável para se respirar.
A falta de chuva também pode acarretar outros tipos de problemas. Longos
períodos de estiagem podem causar escassez de alimentos e problemas na geração
de energia elétrica, como os que ocorreram no Brasil em 2002. Isso porque grande
parte da energia elétrica utilizada no país é produzida em usinas hidrelétricas. Rios são
represados por gigantescas barragens, por onde a água acumulada desce e movimenta
as turbinas das usinas, produzindo, assim, eletricidade.
A presença de chuvas foi fundamental para o surgimento da vida na Terra.
Os oceanos e rios foram formados bilhões de anos atrás, quando a temperatura do
nosso planeta diminuiu e permitiu a condensação das moléculas de água. Acredita-
-se também que grande parte da água do nosso planeta venha do espaço, a partir da
queda de diversos cometas.

Água como fonte da vida


Somente quando a água se estabeleceu na forma líquida é que surgiram as
condições para o aparecimento da vida. Não conhecemos formas de vida complexas
que possam existir sem a presença da água. Onde há água, geralmente, existe vida.
A procura por água
Lotophagi/Dreamstime.com

em outros planetas, em parti-


cular em Marte, é motivada
justamente pela relação que
existe entre água e vida. Re-
sultados recentes parecem
confirmar que Marte já teve
grandes extensões de água
em um passado remoto.
Hoje, Marte é um planeta
seco e deserto e a água (se
é que de fato ainda existe A presença de água na forma líquida é condição fundamental para a existência da vida.
lá) se esconde em míseras
quantidades abaixo do solo. A baixa pressão atmosférica de Marte não permite que a
água permaneça no estado líquido em sua superfície.
Além de Marte – e obviamente da Terra –, um dos satélites de Júpiter, chamado
Europa, pode abrigar água. Há indicações da presença de um oceano abaixo de uma
camada de gelo de quilômetros de espessura.

48 Língua Portuguesa
A simplicidade e a beleza da água
Embora a água seja tão importante para os organismos
vivos, sua estrutura molecular é muito simples. Ela é composta Molécula de água
por apenas dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio,

Ilustração digital: Estúdio Pingado


representados pela fórmula H2O. Sua estrutura lembra um “V”
aberto, com o átomo de oxigênio no vértice e os átomos de
hidrogênio nas pontas. A ligação química que dá essa forma
para a molécula de água é conhecida como covalente polar. Essa
estrutura transforma a água em uma molécula polar, ou seja, ela
é carregada positivamente próximo aos átomos de hidrogênio e
negativamente perto do átomo de oxigênio. A molécula de água lembra um “V”, com
Como tanto o hidrogênio quanto o oxigênio são átomos um átomo de oxigênio no vértice ligado
a dois de hidrogênio nas pontas. Essa
pequenos, a molécula de água torna-se muito leve. Mas, devido ao estrutura faz da água uma molécula polar,
seu tipo de ligação química, a água se apresenta na forma líquida em carregada positivamente próximo aos
átomos de hidrogênio e negativamente
temperatura ambiente. Se outro tipo de ligação unisse os átomos perto do átomo de oxigênio.
da água, ela se apresentaria como um gás e seria necessária uma
temperatura muito baixa para que ela se liquefizesse.
A estrutura da molécula de água permite também que, quando congelada, ela
apresente um comportamento diferente do da grande maioria das substâncias. Ao se
congelar qualquer líquido, as moléculas que o compõem ficam mais próximas umas
das outras. Como consequência, seu volume diminui e sua densidade (a razão da
massa pelo volume) aumenta.
Com a água, porém, acontece exatamente o oposto. Quando ela é resfriada
a uma temperatura inferior a 4 °C, sua densidade diminui ao invés de aumentar. Isso
acontece porque suas moléculas se afastam umas das outras, aumentando seu volume.

Renato Granieri/Alamy/Other Images

Navio atravessa mar repleto de gelo na costa da Noruega, 2012. O gelo flutua na água porque, quando congelada, essa substância tem sua densidade reduzida,
ao contrário do que ocorre com a maior parte dos compostos. Esse fenômeno impede que um lago se congele completamente.

8º ano 49
É essa característica praticamente exclusiva que faz com que o gelo flutue na
água. Esse fenômeno, por exemplo, impede que um lago se congele completamente.
Se o gelo fosse mais denso do que a água, ele se formaria na superfície e afundaria,
congelando totalmente o lago e extinguindo todas as formas de vida que ali existissem.
Contudo, como o gelo é menos denso do que a água, ao se formar, ele permanece na
superfície e funciona como um isolante térmico (o que os esquimós já descobriram
há muito tempo), fazendo com que a água abaixo da camada de gelo fique a uma
temperatura maior que 0 °C.
Outra característica física importante da água é sua grande capacidade térmica,
isto é, seu potencial de armazenar energia fornecida na forma de calor. Qualquer
pessoa que tenha aquecimento central de água em sua casa utiliza essa capacidade
para distribuir uma grande quantidade de calor fazendo uso de pouca água.
Como se pode ver, a água é sem dúvida um bem muito valioso para todos nós
e para o nosso planeta. E embora estejamos acostumados a pagar pelo seu uso, ela é
um bem que não tem preço. Basta lembrar como os nossos planetas vizinhos, onde
não há mais água, se transformaram em lugares nem um pouco agradáveis para nós.
OLIVEIRA, Adilson de. Ciência Hoje. Publicado em 18 jul. 2008, atualizado em 15 dez. 2009.
Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/a-agua-que-nao-podemos-dispensar>. Acesso em: 21 set. 2012.

1. Numere os parágrafos do texto e divida-o em duas partes: a primeira é formada pelos parágrafos
que mostram que a água é fonte de vida e é indispensável para sua manutenção; a segunda, pelos
parágrafos que apresentam as características da água.
2. Complete o diagrama.

Por que a água é indispensável para a vida?

3. Qual expressão, no parágrafo 2, indica ao leitor que o autor vai apresentar outros problemas cau-
sados pela falta de chuva?
4. No parágrafo 5, o autor mostra por que os cientistas procuram água em outros planetas. Qual é a
razão apresentada? Justifique sua resposta transcrevendo um trecho do parágrafo.
5. Na segunda parte do texto, o autor apresenta algumas características da água. Complete o diagra-
ma com informações que estão faltando.

50 Língua Portuguesa
Estrutura molecular simples – H2O

Molécula polar

Molécula leve

Características da água

6. Complete o diagrama-síntese do texto com as informações que estão faltando.

Ajuda a dissipar os poluentes que estão em suspensão no ar

Estiagem pode causar escassez de alimentos

A água é
indispensável

Onde há água,
geralmente
A água que existe vida
Água como
não podemos
fonte de vida
dispensar Água em outros
planetas

continua...

8º ano 51
...continuação
Estrutura molecular simples – H2O

Molécula polar

Molécula leve

Características da água

ESTRATÉGIA DE ESTUDO: FAZER ESQUEMAS


O esquema é composto de palavras-chave, ou frases muito significativas para
a compreensão de um texto. A representação simplificada do esquema permite a
fixação das informações que são apresentadas. Para elaborar um esquema, é ne-
cessário localizar a palavra ou frase importante (vale também considerar os sub-
títulos que eventualmente aparecem no texto). Ao lado dela, faça uma chave ou
uma seta para inserir outras palavras ou frases que se relacionam a ela. Se houver
outros desdobramentos de ideias, é necessário usar novas chaves ou setas.
Observe que, no exercício anterior, você completou um esquema do texto de
Adilson de Oliveira. Note que, no lado esquerdo do primeiro quadro, escrevemos o
título do texto; depois, as três setas que são puxadas do título nos levam a quadros em
que estão escritos os subtítulos; de cada subtítulo saem setas que chegam a quadros
em que escrevemos as ideias mais significativas de cada parte. O esquema é uma es-
tratégia que permite a você visualizar articulações entre os diversos elementos.

LER FONTE SELECIONADA II

Você vai ler agora o texto “Conservação da água e de sua qualidade”. Nele você vai encontrar
novas informações sobre o tema “Água: um recurso natural indispensável para a manutenção da

52 Língua Portuguesa
vida”. Leia o texto pelo menos duas vezes. A primeira vez é para conhecê-lo e a segunda, para
grifar as ideias importantes.

Conservação da água e de sua qualidade


As águas constituem um bem natural e um recurso renovável. Veja a seguir o que
isso significa.

As águas e a natureza viva

1 A água é um bem natural por representar um elemento da natureza


indispensável à vida de todos os seres, aquáticos ou terrestres. Além de constituir
o ambiente natural dos organismos marinhos e de água doce, a água compõe parte
significativa das células de todos os seres vivos e participa de todos os processos
de transporte de alimentos no interior dos organismos, bem como da formação de
sangue, da seiva e de outros componentes líquidos dos animais e vegetais. Em relação
às aves e aos mamíferos, desempenha, ainda, papel importante na manutenção de
sua temperatura. Finalmente, constitui o regulador essencial do clima de toda a Terra.
2 Pode-se afirmar que todos os ecossistemas terrestres existem em função
das estações das águas, estando a alimentação e a reprodução dos animais e vegetais
estritamente relacionadas às épocas de chuvas e de seca, de modo que esse ciclo
representa a razão principal da existência das fases de vida das diferentes espécies. As
principais adaptações que permitem a este ou àquele ser viver em tal e qual região da Terra
estão associadas à obtenção de água (ou de alimento, o que resulta na mesma coisa, uma
vez que o alimento é constituído de outros seres vivos, dependentes desse mesmo ciclo).
3 As próprias etapas de vida intervêm no ciclo das águas. A evapotranspiração
– isto é, a soma da água evaporada diretamente das superfícies úmidas e do vapor
eliminado pelas folhas através do fenômeno da transpiração – constitui a causa da
formação da umidade atmosférica, das nuvens e, finalmente, das chuvas.
4 Nas regiões de grande densidade de vegetação, como na Floresta Amazônica, a
transpiração por meio das folhas chega a representar 50% do volume de água transferido
dos solos para a atmosfera. Esse processo, portanto, garante a regularidade das chuvas e a
constância da umidade atmosférica nas regiões tropicais. A destruição de florestas poderia,
por conseguinte, alterar significativamente o período das águas e o clima em certas regiões
da Terra, o que traria, por sua vez, consequências drásticas aos próprios ciclos de vida.
5 Mesmo para os próprios organismos marinhos, permanentemente submersos,
a salinidade da água representa importante fator de seleção e adaptação. Em diferentes
pontos do oceano, a salinidade depende das chuvas e da quantidade de água doce, que,
lançada pelos rios, exerce seu papel diluidor. Sendo assim, a alteração dos ciclos hidrológicos
pode interferir nas características do ambiente marinho e dos seus ecossistemas.

Recurso natural renovável


6 Quando determinado elemento adquire utilidade para o homem, dizemos
que ele constitui um recurso, isto é, uma fonte de utilidades. Se provém da própria
natureza, ele passa a ser considerado recurso natural.
7 Os recursos naturais podem ser não renováveis – como é o caso do petróleo, do
carvão mineral, dos metais etc. – quando, uma vez utilizados, não são substituídos em sua
fonte, ou seja, tendem a se esgotar na natureza. Outros, porém, podem ser renovados. Temos
como exemplo os vegetais, cortados para a produção de lenha, de matérias-primas ou de

8º ano 53
alimentos, que podem renovar-se, rebrotando ou crescendo a partir de sementes deixadas
no solo. Os cardumes de peixes são outro exemplo, pois, embora muito consumidos pelo
ser humano, reproduzem-se continuamente, restabelecendo os estoques de pescado.
8 A água constitui um caso particular de recurso renovável. Qualquer que seja o seu
uso, no final ela é restituída ao ambiente, retornando à sua origem. Quando fervida em uma
caldeira, para geração de energia termoelétrica, é devolvida ao ar e aos ciclos naturais, depois
de realizar o seu trabalho. Da mesma forma, a água que faz girar uma turbina, depois de
gerar energia hidrelétrica, retorna ao rio seguindo seu curso natural em direção ao oceano.
Finalmente, a que é usada na irrigação das plantações retorna através da evapotranspiração,
e a empregada no abastecimento das cidades é devolvida na forma de esgotos líquidos.
9 Por conseguinte, a quantidade de água existente na natureza terrestre é
constante: ela não se perde. Porém, sua distribuição no tempo e no espaço pode ser
alterada em virtude da periodicidade das chuvas e de outros fenômenos que deformam
o ciclo hidrológico normal. Isso pode ocorrer em consequência de fenômenos naturais,
como as mudanças de clima em razão de alterações, cíclicas ou não, da trajetória da
Terra no espaço ou do próprio deslocamento dos continentes sobre o planeta. Essas
mudanças podem, também, ser o resultado das ações do homem. Vastas regiões da
Terra, que já foram povoadas por densas florestas, hoje são ocupadas por savanas, de
vegetação rarefeita, ou mesmo desertos, devido às modificações naturais no ciclo das
chuvas. Outras grandes alterações foram causadas pelo próprio homem ao interferir
nos fenômenos de evapotranspiração ou ao desviar os rios de seu curso natural.
10 A utilização da água pelo homem muitas vezes exige a alteração do regime de
escoamento dos rios, de modo que seja possível a manutenção de vazões constantes durante
todo o ano. Caso contrário, as cidades disporiam de água para abastecimento e irrigação
somente nas estações de chuvas. O próprio fornecimento de luz e energia não pode sofrer
interrupções ou modificações durante o ano, de acordo com as fases do ciclo hidrológico
natural. Além disso, um escoamento regular é importante para impedir a inundação das
cidades durante a época de cheias. Essa regularização das vazões de determinado rio, para
que seja possível o emprego racional da água, é obtida por meio de construção de barragens.
BRANCO, Samuel Murgel. Água: origem, uso e preservação. São Paulo: Moderna, 2003. p. 87-90.

As questões a seguir são para colher suas primeiras impressões sobre o texto lido. Comente
suas respostas com seu professor e os colegas.
1. Na primeira parte do texto, o autor mostra que a água é um bem natural indispensável à vida de
todos os seres. Sublinhe as informações que indicam essa informação.
2. Qual é a definição de evapotranspiração que aparece no texto?
3. Os oceanos precisam de chuva? Por quê?
4. O que é um recurso natural?
5. Por que a água é um caso particular de recurso renovável?
6. A quantidade de água que existe na Terra varia? Explique sua resposta.
7. O que pode afetar a distribuição da água no tempo e no espaço?
8. O texto “Conservação da água e de sua qualidade” está dividido em duas partes. É fácil identificá-las,
pois o autor dá um título a cada uma: “As águas e a natureza viva” e “Recurso natural renovável”. Para
visualizar a maneira como o autor organiza e desenvolve suas ideias, vamos completar o esquema:

54 Língua Portuguesa
Ambiente natural dos organismos marinhos e de água doce

Indispensável à
vida de todos os
seres humanos

Evapotranspiração

As águas e a natureza viva


Renovável
Água
A água existente na natureza
terrestre é constante

Fenômenos naturais
Recurso natural A distribuição
renovável pode ser alterada
Ações do homem

Utilização das águas

8º ano 55
ESTRATÉGIA DE ESTUDO: RESUMO

Fazer resumos é uma excelente forma de estudar em profundidade. Em um


resumo, condensamos fielmente as ideias ou os fatos contidos em um texto.
Resumir um texto significa reduzi-lo ao seu esqueleto essencial, sem perder de
vista três elementos:
a) cada uma das partes essenciais do texto;
b) a progressão em que elas se sucedem;
c) a correlação que o texto estabelece entre cada uma dessas partes.
FIORIN, José Luiz; PLATÃO, Francisco. Para entender o texto. São Paulo: Ática, 1991.

Sem compreender o sentido global do texto, é quase impossível fazer um bom


resumo. Ao mesmo tempo, ao elaborar um resumo, vamos compreendendo me-
lhor o texto. Uma coisa leva à outra.
Resumir é mais do que copiar alguns trechos e pular outros. Também não
é copiar o começo de cada parágrafo. É fundamental, para realizar um resumo,
observar o título e os subtítulos (quando aparecerem). Se o texto for curto, con-
vém numerar os parágrafos e estabelecer blocos de ideias que tenham unidade
de significação, ou seja, convém indicar que aspecto de determinado assunto está
sendo abordado e quando se passa a outro aspecto. Só depois de identificar esses
blocos de ideias, é que convém elaborar o resumo, que deve ser escrito com suas
próprias palavras.

Para fazer um resumo, sugerimos:

Ņ Ler uma vez o texto ininterruptamente, do começo ao fim. Sem ter noção
do conjunto, é mais difícil entender o significado preciso de cada uma das
partes. Essa primeira leitura deve ser feita com a preocupação de responder
genericamente à pergunta: “do que trata o texto?”.
Ņ Uma segunda leitura é sempre necessária. Mas esta, com interrupções, com
lápis na mão, para destacar ideias, para compreender melhor o significado
de palavras difíceis (se preciso, recorra ao dicionário) e para captar o sentido
de frases mais complexas (longas, com inversões, com elementos ocultos).
Observe as palavras que dão coesão ao texto (assim, isto, isso, aquilo, aqui,
lá etc.).
Ņ Num terceiro momento, tentar fazer um esquema do texto, considerando os
subtítulos ou a divisão em blocos de ideias que tenham alguma unidade de
significação.
Ņ Escrever o resumo com suas palavras, procurando explicitar a lógica dos
blocos que você visualizou. O texto deve seguir a ordem das ideias como
aparecem no texto. Deve também procurar estabelecer relações entre elas.

Para que o resumo apresente uma unidade e mantenha fidelidade ao


pensamento do autor, é importante observar como cada parte foi desenvolvida.
FIORIN, José Luiz; PLATÃO, Francisco. Para entender o texto. São Paulo: Ática, 1991. (Texto adaptado.)

56 Língua Portuguesa
MOMENTO DA ESCRITA

Considerando o esquema feito com base no texto “Conservação da água e de sua qualidade”,
vamos escrever juntos um resumo para ele.
Repare que na primeira parte do texto, ou seja, nos cinco primeiros parágrafos, que corres-
pondem ao título “As águas e a natureza viva”, percebemos que o autor fornece várias informa-
ções que comprovam que a água é um recurso indispensável para a sobrevivência de todos os
seres vivos.
Na segunda parte do texto, que corresponde ao título “Recurso natural renovável” e vai do
parágrafo 6 ao 10, podemos enxergar três blocos significativos: características da água, como
a distribuição da água pode sofrer alteração e o que o homem faz para utilizar racionalmente a
água. Consulte o esquema completo e complete o texto a seguir, que é um modelo de resumo.
O texto “Conservação da água e de sua qualidade”, escrito por

, trata da . Ele está

dividido em duas partes. A primeira, que recebeu o título ,

mostra que a água é um bem de muita importância para

todos os seres vivos, pois ela

O autor mostra que todos os ecossistemas existem em função das estações

das águas. Mostra também a causa da formação da umidade atmosférica, das nuvens

e das chuvas, que é

. Ainda

na primeira parte, alerta que a alteração dos ciclos hidrológicos interfere

Na segunda parte, intitulada ,

o autor mostra que a água é ,

pois .

A quantidade de água existente na natureza terrestre é .

Mas isso não significa que a distribuição de água no tempo e no espaço não sofra alterações

por causa

8º ano 57
O autor termina o texto abordando um aspecto da utilização da água pelo

homem. É comum que o homem altere

Só com a regularização das vazões é possível

Esquemas e resumos como os que você fez neste capítulo, com base nos textos
que você estudou, são muito úteis. Estratégias assim permitem que você armaze-
ne informações de forma organizada e eficiente para quando precisar utilizá-las.
Esses são registros úteis para que você possa empregar em diferentes situa-
ções, como discussões, seminários, produções de textos.
Agora, imagine que você tenha sido convidado para escrever para um jornal da
escola um artigo sobre o tema “Água: um recurso natural indispensável para a ma-
nutenção da vida”. A proposta que você recebeu dos editores do jornal foi a seguinte:

Prezado estudante,
Tendo em vista todas as discussões nos últimos tempos sobre a disponibilidade e a
qualidade da água, convidamos você a escrever um artigo sobre esse tema.
Sabemos que a quantidade de água doce existente em nosso planeta é muito pequena,
se comparada à quantidade de água salgada. Temos cerca de 95% de água salgada e menos
de 3% de água doce. Podemos considerar essa situação preocupante se levarmos em conta a
importância da água para a manutenção da vida dos seres vivos e lembrarmos que muitos rios
espalhados pelo mundo inteiro estão morrendo envenenados por fertilizantes e pesticidas, por
minérios, mercúrio, lixo urbano, esgotos domésticos e industriais etc.
O que você tem a dizer sobre a água? Por que devemos preservá-la em quantidade e
qualidade, para não colocarmos em risco a vida na Terra?
Escreva-nos, para que publiquemos seu texto em nosso jornal.

Atenciosamente,
Editores do Jornal do Estudante

Consultando o quadro feito no início do capítulo, com recorte do tema, obje-


tivos e justificativa, e recorrendo aos esquemas e resumo que você fez, redija um
artigo que apresente o que você sabe sobre a água, destacando suas características
e sua importância para a sobrevivência dos seres vivos. Siga estas orientações:
t Organize seu texto em parágrafos.
t Você pode iniciar seu texto contando alguma experiência de vida ou vivência relacionada
ao tema da água.
t Depois, consultando as fontes que estudou, você pode mostrar por que a água é indispensá-
vel para a manutenção da vida.

58 Língua Portuguesa
t Pode também falar das características da água e sobre o modo como o ser humano trata esse
recurso.
t Por fim, você pode falar da beleza da água e da necessidade de o ser humano evitar desper-
diçá-la, pois sem água não há vida.
t Não deixe de fazer uma revisão no texto. Se achar necessário, seu professor poderá auxiliar
você.

PARA AMPLIAR SEUS ESTUDOS


Livros Fichamento
O que é fichamento? Para que serve o fichamento? Etapas e estratégias para elaborar um
fichamento, modelos de fichamento são alguns dos tópicos trabalhados nesse livro.
WEG, Rosana Morais. Fichamento. São Paulo: Paulistana Editora, 2006.

Resumo
O que é resumir? Como compreender um texto globalmente? Como localizar e explicitar as
relações entre as ideias mais relevantes do texto? Como mencionar o autor do texto resumi-
do? Essas questões são respondidas nesse livro.
MACHADO, Anna Rachel (Coord.). Resumo. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

8º ano 59
Capítulo 4
LÍNGUA Atrás dos furos de reportagem
PORTUGUESA

N este capítulo, você vai estudar um gênero jornalístico: a reportagem. Ela está
entre os principais gêneros de caráter informativo e possibilita a obtenção
de novos saberes. Você vai investigar seus pontos de contato com a notícia e des-
cobrir as diferenças entre ambas.

RODA DE CONVERSA

Para começar, leia a tira a seguir.

Calvin & Hobbes, Bill Watterson © 1991 Watterson/Dist. by Universal Uclick


Reúna-se com seus colegas e debatam juntos as seguintes questões.
1. A que gênero textual Calvin se refere quando menciona “história”, no primeiro quadrinho?
2. O que o tigre Haroldo quis dizer com “história” ao mencionar “aquela história da pipa”?
3. O que você acha que Calvin quis dizer ao exclamar “Isso não é uma história! É um fato!”?
4. Por que você acha que o tigre sugere que Calvin escreva uma reportagem?

NOTÍCIA E REPORTAGEM
A função do repórter é obter informações sobre fatos recém-acontecidos que
interessam à comunidade (a queda de um avião, um confronto armado pela posse
de terras, a final da Copa do Mundo etc.) ou sobre assuntos que andam em discus-
são (novas descobertas sobre os efeitos do fumo, a mudança de comportamento
das mulheres nas últimas décadas etc.). O objetivo dessa apuração é tornar públi-
cos esses fatos e discussões.

60 Língua Portuguesa
O fruto do trabalho do repórter pode ser a notícia ou a reportagem. É em um
desses formatos que a apuração realizada por ele chega às pessoas. Ambas podem
ser veiculadas pelo rádio, pela TV, pela internet e pela imprensa escrita.
A notícia é o anúncio do que aconteceu: com quem, onde, quando, como, por
que e as consequências imediatas. Lembra uma resposta à pergunta “Soube da úl-
tima?”. Já a reportagem é um relato mais amplo, que engloba os desdobramentos
do fato e exige uma investigação maior. Dessa forma, a reportagem é mais longa
que a notícia.
Para entender a diferença entre a notícia e a reportagem, imagine que um
temporal atingiu uma cidade. Ele pode causar a queda de algumas árvores e even-
tuais danos a automóveis estacionados próximo a elas. Isso rende uma notícia.
No entanto, é possível que a forte chuva provoque consequências mais graves
para a população, como enchentes, grande número de desabrigados, aulas sus-
pensas, pessoas desaparecidas, possibilidade de propagação de doenças... Diante
disso, é possível se perguntar também se há no local um histórico de ocorrências
como essa, se a prefeitura poderia ter realizado alguma obra que contivesse a
enchente, se o episódio é consequência de novas condições climáticas... Enfim, o
fato pode ter desdobramentos e despertar uma discussão mais ampla, para a qual
autoridades, pessoas atingidas e especialistas poderiam ser ouvidos. Isso rende
uma reportagem.

ESTRUTURA E LINGUAGEM DA REPORTAGEM


Não existe uma estrutura única para o gênero reportagem.
As reportagens veiculadas pelos jornais diários têm uma natureza; as repor-
tagens publicadas em revistas semanais, como IstoÉ, Veja, Carta Capital e Época,
têm outra. As reportagens destas últimas também diferem das que são divulga-
das por revistas especializadas em determinados assuntos, que circulam mensal-
mente, como História Viva, Mente & Cérebro, Língua Portuguesa, Ciência Hoje,
Viva Saúde etc.
Em algumas revistas, a linguagem pode ser mais subjetiva. Mesmo no jornal,
conforme o caderno, isso também pode ser constatado. O texto da reportagem
às vezes se aproxima do literário. Todavia, quando o objeto da reportagem é um
evento mais pontual, sua linguagem se aproxima da linguagem da notícia.
O que existe em comum nas variadas reportagens é a ci- GLOSSÁRIO
tação de pessoas ouvidas e o conteúdo informativo, expresso Infográfico: conjunto de informações
por dados e fatos. (textos, desenhos, gráficos) apresentadas de
forma esquemática, a fim de situar o leitor
Há também os chapéus (constituídos por uma palavra de forma rápida sobre um tema em questão.
A parte escrita tende a ser constituída por
que classifica a reportagem, indicando seu assunto) e a linha frases curtas, não por textos contínuos.
fina: frase que fica abaixo do título e apresenta um apanhado
do assunto. Infográficos e fotos também estão presentes.

8º ano 61
Jornal Agora
Chapéu

Linha fina

FATO, DADO E OPINIÃO

Os três trechos a seguir foram extraídos de uma matéria do Jornal da Tarde


(“Fumar. Pouco ou muito, o perigo é certo”), de 14 de janeiro de 2007. Examine-os.

t “Entre 22% e 25% da população fuma no Brasil.”


t “[A especialista] ressalta que hoje já se pesquisa a influência das varia-
ções genéticas individuais no impacto que a nicotina produz no corpo.”
t “A polêmica em torno do cigarro é tão farta quanto o número de es-
tudos sobre ele.”

O primeiro trecho é um dado estatístico, que não tem marcas de subjetivida-


de, isto é, marcas do sujeito que escreveu, da visão que ele tem das coisas. Sempre
que em uma reportagem aparecerem dados assim, é importante observar se há
menção da fonte da informação ou da procedência dos números.
Algo parecido ocorre no segundo trecho. Trata-se de um fato, que pode ser
comprovado na realidade ou por uma autoridade no assunto, de forma objetiva.
Já a informação que o terceiro trecho veicula é uma opinião que a autora da
matéria formou. A associação entre o número de ideias polêmicas sobre o cigarro
e o número de estudos sobre esse vício é uma visão de quem redigiu a matéria;
portanto, uma declaração pessoal, subjetiva. É muito importante distinguir, em
uma reportagem, as informações objetivas dos pontos de vista pessoais.

62 Língua Portuguesa
AS FORMAS DE CITAR O DISCURSO
No texto jornalístico em geral, a fala das pessoas ouvidas tem grande impor-
tância. Para que fique mais fácil acompanhar essa explicação, vamos usar um
exemplo de depoimento.
Imagine uma pessoa: Maria das Neves, balconista, irmã de uma das vítimas
de um acidente ocorrido quando uma torre de publicidade caiu sobre um ônibus
que estava parado no ponto.
Suponha que ela contasse:
— Muitas vezes, meu irmão César descia no centro de Osasco e seguia a pé para
casa para economizar o dinheiro da condução.

Imagine que o autor da reportagem ou da notícia queira usar o depoimento


dela. Veja de que maneiras isso poderia ser escrito:

a) Diretamente
“Muitas vezes meu irmão descia no centro de Osasco e seguia para casa a pé,
para economizar o dinheiro da condução”, contou a irmã da vítima, a balconista
Maria das Neves.

b) Indiretamente
t A irmã de César, a balconista Maria das Neves, conta que ele costuma-
va descer no centro de Osasco e seguia para casa a pé para economizar.
t Segundo a irmã da vítima, a balconista Maria das Neves, César rara-
mente usava essa linha de ônibus para voltar para casa, a fim de econo-
mizar o valor da passagem.

Quando o redator cita diretamente, ele praticamente reproduz a fala da pes-


soa. Quando relata com suas palavras o que ouviu da testemunha, pode esco-
lher palavras que transmitam seu modo particular de encarar o que lhe foi dito.
Repare a diferença entre dizer: “costumava descer no centro de Osasco e seguia
para casa a pé” e “raramente usava essa linha de ônibus para voltar para casa”. Na
segunda versão, fica reforçada a fatalidade, o caráter de desgraça.
Relativamente à citação do discurso, é importante considerar o verbo usado
para anunciar a fala de alguém, tanto direta quanto indiretamente. Por exemplo, se
o autor da reportagem escreve que “o piloto admitiu” ou que “o piloto confessou”
algo, ele está sugerindo que o piloto fez algo irregular, pois “admitir” implica um
pouco de contrariedade ao dizer alguma coisa; “confessar”, por sua vez, é contar
um pecado... Os verbos mais neutros nesse caso são “dizer”, “afirmar”, “declarar”.

AS FONTES DA REPORTAGEM
Fonte é tudo que presta informação ao repórter. As fontes vão desde institui-
ções e empresas – como prefeitura, polícia, clubes esportivos, Congresso Nacio-
nal, hotéis, hospitais etc., que podem divulgar comunicados oficiais para a im-

8º ano 63
prensa – até enciclopédias, almanaques, relatórios etc., nos quais os jornalistas
podem buscar dados.
As principais fontes, porém, são as pessoas envolvidas nos eventos, pois são
elas que dão informações, a pedido dos repórteres. Há também os informantes
especiais, com quem às vezes os jornalistas obtêm informações exclusivas, até
confidenciais. Também é possível recorrer a especialistas, para o caso de um tema
muito específico, como clonagem, prevenção de epidemias, ou outros assuntos
que não sejam do domínio de qualquer pessoa.

AS FONTES, O JORNALISTA E O TEXTO


Você leu na introdução que o repórter obtém informações a respeito de um
assunto que foi considerado importante e, com elas, produz um texto. Mas não
aquele que você lê no jornal. Antes de serem impressas, a notícia e a reportagem
passam por outras pessoas: os redatores e os editores. Essas pessoas corrigem e
modificam o texto inicial para que ele fique na linguagem-padrão daquele jornal
e de acordo com a ideologia que ele defende. Esse é o trabalho de edição.
Além disso, para que a reportagem fique dentro do espaço que estava previsto,
esses profissionais também podem fazer cortes no texto. Entretanto, se a intenção
é complementar uma reportagem, um editor pode solicitar informações adicio-
nais à equipe de repórteres, inclusive aos que trabalham em outras cidades.
É muito importante perceber que um texto como a reportagem passa por várias
mãos até chegar ao leitor, e cada pessoa interfere no seu formato final. Qual é a im-
portância disso? Dependendo do que o editor resolve manter ou cortar e do desta-
que que dá a determinados aspectos, ele impõe ao leitor uma versão, determinada
visão do fato ou do assunto, mesmo que pareça estar dando informações objetivas.
Para comprovar isso, podemos comparar como dois ou mais jornais do mes-
mo dia relatam determinado fato. Cada um faz isso à sua maneira. Muitas vezes,
parece que se trata de dois fatos distintos.
Por isso, dizemos que o que lemos em uma reportagem não é informação
pura, mas informação com ponto de vista.
O curioso é que existe no senso comum a ideia de que a imprensa é imparcial,
neutra. De acordo com o que acabamos de apresentar, isso não é possível. Na-
turalmente os textos jornalísticos não são escritos com frases como “Eu acho...”,
“Essa atitude da loja foi muito ruim...”, “O ministro está mentindo...”. O texto do
jornal tem aparência de imparcial, dá a impressão de que está simplesmente apre-
sentando fatos. Por exemplo: “A loja informou que não realizará a troca do produ-
to com defeito”, “O ministro aparece em uma foto tirada no dia do sorteio”.
De fato, o jornalista ouve diversos depoimentos e parece dar voz a todas as
partes envolvidas, mas, o tempo todo, ele está organizando esses discursos. Dessa
forma, quando lemos uma reportagem para nos informar sobre algo, é preciso
observar também como seu autor conduziu as informações.

64 Língua Portuguesa
LER REPORTAGEM I

Neste capítulo, vamos estudar uma reportagem veiculada pela imprensa escrita, no caso um
jornal. Trata-se de uma reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Ela circulou no ca-
derno Vida, que inclui matérias sobre ambiente, ciência, educação, saúde e sociedade.
O objetivo é discutir o modo como o tema da reportagem foi apresentado pela imprensa. Co-
mece observando como a matéria é apresentada no jornal.
O Estado de S. Paulo

8º ano 65
Certamente, você acabou de fazer algo que muitos leitores de jornal fazem: dar primeiramente
uma olhada rápida pela página. O objetivo disso é avaliar se o que está ali é de seu interesse.
E por que isso acontece? O jornal é muito extenso; por isso, é muito difícil que uma pessoa o
leia do início ao fim. Normalmente, o leitor procura seções específicas – as que ele gosta de ler –
ou folheia o jornal a fim de ter uma ideia do seu conteúdo. Nesse caso, ele acaba lendo algumas
matérias que chamam a sua atenção.
Essa leitura “incompleta” ocorre porque o jornal é extenso e tem prazo curto de validade: fica
velho em 24 horas, por isso o leitor precisa selecionar o que vai ler. As empresas que produzem
jornais sabem disso e os organizam de maneira que facilitem a leitura. Entretanto, elas também
tiram proveito desse tipo de leitura “recortada”, que é muito diferente da leitura de um poema, de
um conto, de um romance.
É essa a primeira leitura que se faz de uma reportagem. Ela pode parecer superficial, mas é
extremamente importante. O que o leitor absorve primeiro ao folhear um jornal é o aspecto visual
da página, a diagramação em geral, isto é, o modo como títulos, ilustrações e textos estão distri-
buídos na página. Isso é tão importante que pode despertar no leitor o interesse de ler a matéria.
Tendo isso em vista, os profissionais que preparam o jornal dão atenção especial a esse aspecto.
Por meio das questões a seguir, você vai observar alguns desses elementos.

1. Pelo que você observou, de que assunto essa reportagem trata? Que elementos do texto sugerem
essa hipótese?
2. Você tem algum conhecimento sobre essa questão? Você acha que a reportagem pode lhe escla-
recer o tema?
3. Você julga que esse assunto interessa ou não à maior parte dos leitores? Por quê?
4. Uma reportagem é formada basicamente por textos, mas, além deles, há outros elementos. Men-
cione dois outros elementos (além dos textos) presentes na reportagem.
5. Leia o título principal da reportagem.

STF aprova por unanimidade sistema de cotas raciais em universidades


A respeito de haver cotas raciais nas universidades, o leitor é levado a compreender:

( ) que elas vão existir.


( ) que elas podem existir.

6. Leia a linha fina da reportagem.

Dez ministros do Supremo Tribunal Federal consideram que a reserva de


vagas para negros e índios não fere a Constituição, mas ressaltam que a medida deve
ser temporária, para saldar uma dívida histórica, como afirmou Marco Aurélio Mello

a) Por que você acha que foi posta em dúvida a constitucionalidade (ou a legalidade) do sistema
de cotas?
b) Que dívida histórica você acha que o sistema de cotas vai saldar?
c) A linha fina apresenta dois dados sobre o sistema de cotas: ele é constitucional; ele deve ser tem-
porário. Do modo como foi formulada, a linha fina dá destaque a qual das duas informações?

66 Língua Portuguesa
d) Sobre a duração do sistema de cotas, a linha fina esclarece que ele deve ser temporário. Essa
informação permite pensar que o sistema de cotas:

( ) faz parte do conjunto de direitos básicos do cidadão.


( ) é necessário, mas tem pontos discutíveis.
( ) é inaceitável.

e) A linha fina antecipa o conteúdo da matéria. Você considera que essa linha fina apresenta um
bom apanhado do que poderá ser lido?
( ) Sim.
( ) Não.

7. Observe a foto da reportagem na reprodução da página do jornal.


a) Que evento relativo à votação ela destaca?
b) Que outros eventos uma foto poderia destacar nessa reportagem?
8. Observe o infográfico apresentado a seguir e leia seu conteúdo verbal.

COMO VOTARAM OS MINISTROS


Por unanimidade, ministros consideram que as cotas raciais nas universidades são constitucionais.

A FAVOR 10 CONTRA 0

Ricardo
Sérgio Lima/Folhapress

Lewandowski
(relator)
“As experiências submetidas
ao crivo desta Suprema Corte
têm como propósito a correção
de desigualdades sociais,
historicamente determinadas”

Luiz Fux
Carlos Cecconello/Folhapress

“A construção de uma sociedade


justa e solidária impõe a toda
coletividade a reparação de
danos pretéritos perpetrados
por nossos antepassados”

Rosa Weber
Sérgio Lima/Folhapress

“O fato é que a disparidade


racial é flagrante na sociedade
brasileira. A pobreza tem cor no
Brasil: negra, mestiça, amarela”

8º ano 67
A FAVOR 10 CONTRA 0

Cármen Lúcia

Alan Marques/Folhapress
“Presenteei duas sobrinhas
com bonecas negras. Uma das
sobrinhas, que é negra, rejeitou
a boneca. Quando perguntei o
motivo, disse que a boneca era
feia porque parecia com ela”

Joaquim Barbosa

Lula Marques/Folhapress
“Essas medidas visam a
combater a discriminação
de fato, que é absolutamente
enraizada na sociedade e,
de tão enraizada, as pessoas
não a percebem”

Cezar Peluso
Alan Marques/Folhapress

“O mérito é critério justo. Mas


apenas para os candidatos que
tiveram oportunidades”

Gilmar Mendes
Alan Marques/Folhapress

“Seria mais razoável adotar-se


um critério objetivo de referência
de índole socioeconômica”

Marco Aurélio
Alan Marques/Folhapress

“Precisamos saldar essa dívida.


Ter presente o dever cívico de
buscar o tratamento igualitário.
A neutralidade estatal mostrou-
-se um grande fracasso”

Celso de Mello
Sergio Lima/Folhapress

“Vivi nos Estados Unidos com


família branca, anglo-saxônica e
protestante. Estudei em escola
pública que era totalmente
segregada. Os ônibus com os
negros ocupando a parte inferior
dos veículos”

68 Língua Portuguesa
A FAVOR 10 CONTRA 0

Ayres Britto

Ueslei Marcelino/Folhapress
“Quem não sofre preconceito
em função da cor da pele já é
beneficiário, já leva uma enorme
vantagem”

Dias Toffoli

Sérgio Lima/Folhapress

Não vota, pois emitiu parecer


favorável às cotas quando era
advogado-geral da União.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 27 abr. 2012, p. A22. (Adaptado.)

a) Que informação o texto do infográfico repete em relação ao título?

b) Que dados novos ele apresenta?

9. No infográfico, a referência aos ministros foi feita com a identificação (foto e nome) e com um
trecho da fala que cada um apresentou ao votar.
a) Quem selecionou o trecho que acompanha a identificação?

b) Quais falas fazem referência:

t a injustiças históricas?
t ao preconceito?
t ao critério para a seleção de candidatos nas universidades?

LER REPORTAGEM II

Já comentamos como costuma ocorrer a primeira leitura de uma reportagem: o leitor, geral-
mente, corre os olhos pela página a fim de verificar se o assunto desperta seu interesse.
No caso deste capítulo, as coisas se passam diferentemente. Você não precisa selecionar o que
vai ler, não está diante de um jornal inteiro. A proposta é que você leia integralmente uma repor-
tagem justamente para descobrir as estratégias que facilitariam a leitura desse tipo de gênero, para
o momento em que você assumir a posição de um leitor de jornal. Para dar continuidade a essa
experiência, leia o texto a seguir.

8º ano 69
STF aprova por unanimidade sistema
de cotas raciais em universidades
Mariângela Gallucci , Felipe Recondo / Brasília

As cotas raciais nas universidades são pobres fosse aproxima- GLOSSÁRIO


da, seria plausível dizer Ações afirmativas: formas de
constitucionais. Por unanimidade, o Supre- interferir objetivamente em uma
mo Tribunal Federal (STF) julgou ontem que o fator cor é desim- situação; ações tomadas pelo
ue as pol ticas afirmati as não violam o portante”. Estado a fim de contribuir para a
Temporária. Os mi- ascensão de grupos socialmente
princípio da igualdade e não institucionali- minoritários.
nistros ressaltaram que
zam a discriminação racial, como defendeu o Aval: garantia, autorização,
a política de cotas deve
Democratas (DEM), autor da ação julgada. aprovação.
ser temporária, até que Institucionalizam: oficializam, dão
Os dez ministros – Dias Toffoli não votou, essas disparidades sejam um caráter legal a alguma coisa.
por ter se manifestado favoravelmente ao sis- corrigidas. “As ações Processos seletivos: sistemas
tema de cotas quando era advogado-geral da afirmativas não são a usados para selecionar candidatos
(a um cargo, a uma vaga universi-
União – deram o aval para que universidades melhor opção, mas são tária). Podem ser constituídos de
brasileiras reservem vagas para negros e índios uma etapa. O melhor provas, entrevistas, avaliação de
em seus processos seletivos e afirmaram que as seria que todos fossem currículo etc.
aç es afirmativas são necessárias para diminuir iguais e livres”, disse Violam: desrespeitam, infringem,
transgredem.
desigualdades e compensar uma dívida resultan- Cármen Lúcia. Marco
te de séculos de escravidão. Ontem, o STF con- Aurélio ello afirmou
cluiu que a política de cotas estabelecida pela que a neutralidade estatal ao longo dos anos re-
Universidade de Brasília (UnB) – que reserva sultou em um fracasso. “Precisamos saldar essa
20% das vagas para negros e 11 vagas em sete dívida”, disse.
cursos para índios – não viola a Constituição. Apesar do voto favorável, o ministro Gilmar
O mais aguardado dos votos foi dado pelo mi- Mendes ressaltou que a reserva de vagas para afro-
nistro Joaquim Barbosa, único negro a integrar o descendentes pode gerar situações controversas.
Supremo, que, na semana passada, disse ser ví- Para ele, o ideal seria que a ação afirmativa fosse ba-
tima de racismo na própria Corte. “Na História seada em critérios socioeconômicos. Mendes clas-
não se registra na Era Contemporânea nenhuma sificou como caricatural o estabelecimento de um
nação que tenha se erguido da condição periféri- “tribunal racial” que define se o candidato é ou não
ca à condição de potência política mantendo no é negro. Como exemplo, o ministro citou o episódio
plano doméstico uma política de exclusão, aberta envolvendo gêmeos univitelinos. Um foi considera-
ou dissimulada, pouco importa, em relação a uma do negro e o outro branco para a política de cotas.
parcela expressiva de sua população”. Cezar Peluso disse que o sistema “é um ex-
Anteontem, o relator do processo, Ricardo perimento que o Estado brasileiro está fazendo
Lewandowski, havia votado favoravelmente às e que pode ser controlado e aperfeiçoado”. “O
políticas de cotas. Ontem, o primeiro a votar, mérito é critério justo. Mas apenas para os can-
Luiz Fux, defendeu: “A construção de uma so- didatos que tiveram oportunidades”.
ciedade justa e solidária impõe a toda coletivi- As outras duas ações relacionadas a cotas
dade a reparação de danos pretéritos perpetrados que estavam na pauta do STF – uma questio-
por nossos antepassados”. nava a política na Universidade Federal do Rio
Rosa eber afirmou que a disparidade racial Grande do Sul e outra no Programa Universida-
no Brasil é agrante e a política de cotas não se- de para Todos (ProUni) – serão votadas em outra
ria razoável se a realidade social fosse outra. “A data, ainda a ser definida.
pobreza tem cor no Brasil: negra, mestiça, amare- O Estado de S. Paulo, 27 abr. 2012, p. A22.
la”, disse. “Se a quantidade de brancos e negros

70 Língua Portuguesa
1. No primeiro parágrafo, grife a parte que fornece informação nova em relação ao que você já leu
no título e na linha fina.
2. De acordo com o segundo parágrafo:
a) Que grupos serão beneficiados pelo sistema de cotas?
b) Qual trecho esclarece por que a política de cotas é necessária? Circule-o.
c) Que ação, especificamente, foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal?
3. No terceiro parágrafo, o que foi dito sobre o ministro Joaquim Barbosa confirma ou contradiz os
argumentos em favor da política de cotas? Explique.
4. O quarto parágrafo menciona o voto favorável do ministro Lewandowski e a fala do ministro Luiz
Fux. Esse parágrafo destaca:
( ) a existência de preconceito racial no Brasil.
( ) a necessidade de reparar os erros do passado.
( ) a situação socioeconômica predominante entre os negros no Brasil.
5. O quinto parágrafo menciona a fala da ministra Rosa Weber. Esse parágrafo destaca:
( ) a existência de preconceito racial no Brasil.
( ) a necessidade de reparar os erros do passado.
( ) a situação socioeconômica predominante entre os ne- CONHECER MAIS
gros no Brasil.
Os efeitos do “mas”
6. O quinto parágrafo:
É inevitável que a reportagem or-
( ) justifica o que foi apresentado no quarto parágrafo. ganize as falas das pessoas ouvidas e
( ) se opõe ao que foi apresentado no quarto parágrafo. as demais informações. A organização
feita cria um ponto de vista no texto.
( ) fornece um exemplo do que foi apresentado no quarto Cabe ao leitor julgar até que ponto
parágrafo. a posição estabelecida interfere nos
7. Os parágrafos 4 e 5 expressam: fatos. Para julgar o que lê, o leitor dis-
põe de alguns meios. Um deles con-
( ) predominantemente apoio à medida. siste em reconhecer os recursos com
( ) igualmente apoio e restrições à medida. os quais se organizam as falas e as
informações. Um dos que merecem
( ) predominantemente restrições à medida. atenção é o emprego de “mas” (e ou-
8. Antes do sexto parágrafo, percebe-se uma divisão no texto. Ela tras expressões equivalentes).
é indicada pelo espaçamento maior entre as linhas e pela exis- Para observar as implicações do
emprego desse tipo de palavra, vamos
tência de um subtítulo: “Temporária”, que se refere à política de confrontar estas duas declarações:
cotas. O que o leitor pode concluir sobre o conteúdo que vem
Ņ É uma pessoa bonita, mas sem
depois dessa divisão? caráter.
9. O primeiro texto é dividido em duas partes. Pode-se dizer o Ņ É uma pessoa sem caráter, mas
bonita.
mesmo da linha fina.
No primeiro caso, apesar da bele-
a) Que elemento marca a divisão no primeiro texto? za, o que vigora é o fato que a pessoa
b) Que palavra marca a divisão na linha fina? não tem caráter. Já no segundo, é ver-
dade que a pessoa não tem caráter,
c) Compare o conteúdo da segunda parte do texto com o mas o que importa é a beleza. Enfim,
conteúdo da segunda parte da linha fina. O que ambos dependendo da forma como as in-
formações são apresentadas, cria-se
ressaltam?
uma “verdade” diferente.

8º ano 71
10. Nos parágrafos 6, 7 e 8, há falas de outros quatro ministros. Elas foram resumidas na coluna da
esquerda. Associe a cada fala uma das avalições a seguir.
a) Apoio ao sistema de cotas.
b) Apoio com ressalvas ao sistema de cotas.
c) Apresentação de problemas no sistema de cotas.

Parágrafo Conteúdo das falas Avaliação

Não é a melhor opção; é uma etapa.


6
A neutralidade do Estado até então não resolveu a situação;
é preciso fazer algo que resolva.

No caso de afrodescendentes, pode gerar situações polêmicas.


7
Deveria ser baseada em critérios socioeconômicos.

É um experimento e pode ser aperfeiçoado e controlado.


8
É justa para quem não teve oportunidades.

11. No último parágrafo, são mencionadas outras ações que serão julgadas.
a) Elas dizem respeito a que instituições?
b) Associe esse dado com o dado apresentado no primeiro parágrafo sobre a UnB, que já pratica
um sistema de cotas no Brasil. O que precisamente o STF analisou a respeito disso? É isso que
o título maior da página sugere?

LER REPORTAGEM III

Leia o texto a seguir.

Índio interrompe sessão três vezes


e é retirado do tribunal
O índio guarani Araju Sepeti foi expulso pelos dente do S , Carlos A res Britto, afirmou que
seguranças do STF após interromper por três ve- não eram permitidas manifestações no plenário
zes a sessão. Vestido com uma camisa do Vasco e pediu calma a Sepeti. O índio guarani inter-
da Gama, Sepeti estava sentado na primeira fila rompeu outras duas vezes o voto.
do plenário e cobrou do ministro Luiz Fux que, Britto interrompeu o julgamento e ordenou
em seu voto, mencionasse também os índios. que a segurança o tirasse do plenário. Enquanto
Fux falava da ausência de ministros afro- era arrastado, o índio guarani chamou os segu-
descendentes nos tribunais superiores quan- ranças de racistas e cachorros. Ele foi liberado
do foi interrompido. “Tem de falar dos índios na Praça dos Três Poderes. / F.R.
também”, afirmou Sepeti, em voz alta. O presi- O Estado de S. Paulo, 27 abr. 2012, p. A22.

72 Língua Portuguesa
1. Observe, na reprodução da página do jornal feita anteriormente na seção “Ler reportagem I”, o
texto abaixo da foto.
Por causa da diagramação que recebeu, é possível que esse texto desperte logo de início a
atenção do leitor. Que motivos haveria para isso?
2. De acordo com o texto:
a) Qual foi a razão da expulsão do indígena?
b) Qual foi o protesto do indígena?
c) Nas falas dos ministros (transcritas no infográfico e no texto), que grupo racial é mencionado?
Você considera que os indígenas compõem um grupo que também poderia ser citado? Por quê?

LER REPORTAGEM IV

Leia o texto a seguir.


GLOSSÁRIO
Corroborada: confirmada, comprovada.

Para crítico, ‘inclusão Meritocracia: sistema de promoção


fundamentado no merecimento.

não pode ser direito de raça’


O advogado José Militão diz que o recorte deveria ser de renda;
hoje ao menos 129 instituições públicas adotaram as cotas
Paulo Saldaña
Ativista do movimento negro, o advogado provocar o nascimento das cotas regionais, do
civilista osé ilitão afirma que a decisão movimento nordestino”, afirmou o presidente da
do STF que decidiu pela constitucionalidade do ONG Educafro, frei David dos Santos.
sistema de cotas fará com que mais instituições O ativista defendeu que o Brasil passa a ser o
adotem a medida – que é criticada por ele. país com a maior re exão da ação. “O efeito vai
“Vai ter aumento, porque a pressão política se re etir nas grandes universidades que são exa-
de muitas universidades resistiu, mas agora tem geradamente partidárias da meritocracia injusta.”
o STF dizendo que é constitucional”, diz ele. Retrato. Hoje, ao menos 129 instituições
“Sou antirracista, defensor da inclusão dos afro- públicas de ensino superior adotam algum sis-
-brasileiros. Porém, a inclusão não pode ser di- tema de cotas no Brasil, segundo a Educafro. A
reito de raça, mas sim de reserva social. O re- primeira instituição de ensino a utilizar o siste-
corte de renda beneficia os mais pobres, e 0 ma de cotas raciais foi a Universidade do Estado
deles são pretos e pardos”, critica. do Rio de Janeiro (Uerj), em 2002.
O ponto mais contundente no embate em re- Até hoje, 2 131 alunos cotistas concluíram a
lação ao tema é que as cotas reforçariam a segre- graduação. Atualmente, há 3 466 cotistas na insti-
gação racial. “O movimento negro racialista diz tuição. Dos 05 aprovados por meio do sistema
que até na reserva social haverá diferença. Mas de cotas, 1 462 abandonaram ou desistiram – repre-
dizer que na competição de pobres com pobres sentando evasão inferior à dos alunos não cotistas.
os negros não vão ter oportunidades é admitir a A Uerj reserva 20% das vagas para negros. É
inferioridade”, diz Militão. o mesmo porcentual da Universidade de Brasília
A opinião de que a votação no STF vai pres- (UnB), cujo sistema foi questionado pelo DEM
sionar instituições de ensino a adotar esse tipo na ação que chegou ao Supremo. Dos 6 403 co-
de política afirmativa é corroborada também por tistas que ingressaram na UnB desde 2004, 1 239
defensores do modelo. “A partir de agora, o povo se formaram e outros 5 estão estudando.
vai começar a exigir. Tenho certeza de que vai O Estado de S. Paulo, 27 abr. 2012, p. A22.

8º ano 73
1. Complete o quadro a seguir sobre as pessoas citadas no texto da página anterior.

Posição sobre o siste- Outra proposta Opinião sobre a reper-


Nome Atuação
ma de cotas defendida cussão do julgamento

Ativista do
movimento negro

Presidente da
ONG Educafro

Com base nos dados levantados nesse quadro, o que o leitor pode concluir a respeito da diversi-
dade de pontos de vista que a reportagem deve apresentar?
2. A reportagem menciona um argumento apresentado por quem é contrário ao sistema.
a) Qual é esse argumento?
b) Pode-se dizer que o destaque dado a esse argumento, no texto, é:
( ) muito grande.
( ) médio.
( ) mínimo.

c) Esse argumento foi mencionado nas outras partes da reportagem que você leu até aqui?
3. A reportagem cita números a respeito de universidades que mantêm cotas.
a) Por que você acha que essa informação é dada?
b) Releia o sétimo parágrafo, que fornece números sobre os cotistas da Uerj. A informação “re-
presentando evasão inferior à dos alunos cotistas” é importante para o leitor. Por quê?
c) A referência “inferior” é exata estatisticamente? Por quê?
d) Releia o oitavo parágrafo. A taxa de evasão da UnB é comentada, como a da Uerj?
e) Qual das duas estatísticas provavelmente o leitor guardará? Por quê?
f) De acordo com o que você respondeu no item e), o leitor guardará um dado favorável ou des-
favorável da aplicação do sistema de cotas?

74 Língua Portuguesa
LER REPORTAGEM V

Leia o texto a seguir.

Entrevista
Nilcéa Freire, ex-reitora da Uerj e ex-ministra, dirige a Fundação Ford

“INICIATIVA LEVOU