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INTRODUGAO 1 SE VOCE ESTIVER INTERESSADO EM SABER, DIGAMOS, © que € “mecanica celeste”, 0 caminho natural sera perguntar a.um professor de fisica, nao é mesmo? Depois, recomenda-se consultar um manual ou uma boa enciclopédia. Caso vocé seja do tipo desconfiado, que nfo se satisfaz com a primeira explica- 0 (um pouco de desconfianga é sempre aconselhavel, nesses casos), vocé repetird a pergunta a outros professores, consultard algum astrénomo, se tiver a sorte de contar com um por perto, ird a biblioteca, atras de outros manuais e outras enciclopédias, ¢ pedird a seus amigos que facam a mesma pergunta a quem eles considerem em condigdes de responder. E por que niio re- correr, ainda, a internet? L4 vocé encontrar, numa fracio de se- gundo, 1.400.000 ocorréncias para “mecanica celeste” (Google, 18/t1/2010). Sou capaz de apostar que o esforgo trara como resultado, inde- pendentemente da prodigiosa variedade de “explicag6es” que vocé possa encontrar, a mesma resposta, qualquer que seja o namero de professores ¢ astrénomos, manuais e enciclopédias consultados, Por qué? Porque “mecanica celeste” constitui um saber universal, que independe de interpretagées subjetivas e circunstancias cultu- rais ou de época. O que se sabe a respeito do tema, em suaacepcio classica, é essencialmente o mesmo, desde os tempos de Galileu ¢ Newton (Géculos XVI e XVID. Foi preciso esperar até o inicio do século XX para que Einstein, com sua teoria da relatividade, introduzisse algo novo na matéria. Agora, se estiver interessado em saber o que € poesia (acho que € 0 seu caso, sendo vocé nao teria comegado a ler este livro), nao siga 0 mesmo caminho. $6 na internet, na mesma data mencio- nada dois parégrafos atras, o Google despejaria sobre vocé nada menos que 35.100.000 de entradas para “poesia”. E isso mesmo: GAMOS, verguntar nenda-se voc’ seja aexplica- el, nesses onsultara Dor perto, clopédias, aa quem 3e nao re- cdo de se- Google, ado, inde- que voce Gmero de asultados, universal, vias culeu- sacepsio 2 Galileu $0 inicio atividade, acho que vr0), nao 1 mencio- océ nada » mesmo: mais de 35 milhGes! Nada impede que vocé recorra a especialistas na matéria, nem que consulte manuais e enciclopédias. Acontece que vocé nio terd basicamente a mesma resposta. A previsao € que, acada consulta, havera uma resposta diferente. Por qué? Porque “poesia” nao constitui um saber universal, Seus conceitos e defini- ‘ces — que existem, é claro, e em grande quantidade ~ dependem de circunstancias culturais ¢ histéricas; dependem também, muito, da interpretagdo subjetiva das pessoas. Posso dar um exemplo. Estou escrevendo este livro num escri- t6rio forrado de estantes, livros em quantidade, que vim lendo e acumulando ao longo dos anos, pelo menos metade deles sio de ou sobre poesia. E meu assunto predileto. Na internet, claro, hé muito, muitissimo mais do que isso. A propésito, eu me sinto re- lativamente & vontade para ir navegando naquele megaoceano de 35 milhdes de ocorréncias, sempre com algum proveito, mas acho ‘que me sentiria perdido se tivesse de comecar por ai. Mas voltemos aos meus livros de e sobre poesia. Numa das estantes, hd algumas dezenas de obras que véo da Poética, de Arist6teles (éculo TV a.C), até, por exemplo, La gravi- tation poétique, do especialista francés Jacques Garelli, um tratado moderno ¢ avancado, (Nio estévamos falando de mecanica ce- leste? Nesse caso, “gravitacdo poética” até que vem a propésito.. Pois bem, eu poderia resumir e comentar, para voce, as definicées, 0s conceitos, os principios, os argumentos, as classificagées tudo o mais que encontrasse nessas péginas repletas de sabedoria. Para inicio de conversa, seria necessério ordenar cronologicamen- te todo o material, para que vocé tivesse uma visio histérica da evolugio do ou dos conceitos de poesia, tarefa consideravelmen- te mais simples no caso de mecanica celeste. Seria um trabalho cansativo, para mim e para voce. E com um agravante: depois de ler meus resumos ¢ comentarios, vocé talvez nfo ficasse sabendo, efetivamente, o que é poesia. A nfo ser que nos contentéssemos com uma definigao formal, dessas que podemos ter na ponta da lingua, para quando nosso conhecimento é testado. Vocé sabe: questionérios, testes de avalia¢ao, provas e exames, o vestibular, ou simplesmente nfo fazer feio em determinada roda... ‘Voltemos entio ao ponto de partida, Saber que mecdnica ce- este é “um ramo da astronomia que tem por objeto de estudo 0 movimento dos astros sob a ago da gravitago universal”, como nos diz qualquer enciclopédia, ndio chega a ser um conbecimento na acepcdo plena. Munido dessa definigao, e s6 dela, vocé poderia ‘tranquilamente afirmar: “Bu sei o que é mecanica celeste”, mas seria leviandade sair por af dizendo que conhece mecanica celeste. Conhecer, no sentido em que estou empregando o tetmo, vai mui- to além de saber. Por outro lado (veja como as palavras sio ardilosas, é preciso muito cuidado com elas), também é possivel entender conbecimento como algo que esté nao além, mas aquém das definigdes. Vocé talvez nio saiba o que é poesia; se alguém Ihe pedir uma definico, € possivel que vocé se enrole com as palavras, Mas, apesar disso, no tenho a menor dtivida em afirmar que vocé conbece poesia, pela razio simples de que vocé vive cercado de poesia, por todos 6s lados, sob as mais variadas formas, desde que nasceu. As can- ‘ses de ninar, ouvidas na infincia; as cantigas de roda; as letras dos hinos; as letras das miisicas; a infinidade de versos e estrofes que todo mundo sabe de cor e que a gente diz ou ouve, frequen- temente; certos amincios, certos cartazes, certos grafites... Nao é “bvio que tudo isso pelo menos contém poesia? ‘Mesmo que vocé ndo tenha o habito de folhear livros de poe- sia, ndo se trata de um objeto desconhecido para vocé, como era desconhecida a mecanica celeste, antes que a pesquisa o esclare~ cesse. O fato é que vocé vem experimentando poesia, vivenciando poesia, desde sempre, e possui dela algum conhecimento, mesmo que no saiba. Claro, estamos lidando aqui com outro tipo de co- ahecimento, diferente daquele que seria necessdrio para que vocé pudesse afirmar, no exemplo anterior, “Eu conbepo mecdnica celes- te”. O conhecimento que vocé tem de poesia é 0 que os teéricos chamam de empirico ou pré-conceptual, querendo dizer que éum conhecimento ainda nio sistematizado em conceitos ¢ definigses, ‘Mas nem por isso deixa de ser conhecimento, Eu diria, mais, que o verdadeiro conhecimento de poesia nfo se preocupa muito com definig6es ¢ conceitos, s6 um pouco. A po- esia espera de nés mais do que isso. Ou menos, depende do ponto de vista. Espera nosso envolvimento pessoal, espera que nos apro- ximemos dela dispostos a sentir, experimentar, vivenciar. Nesse sentido, apesar de todo 0 respeito que os especialistas merecem, apesar da ext eles que eu s que € poesia. diretamente envolva algu ainda nfo sa pergunta nc Arriscadc tiamos extra Lemos poesia. & Bem, mesme os poetas jar Professores € se ficarem ar mas 0s poeta Veja.o cas escolha do ex uum poeta a « tiva, estimul: exato, precise o distante, 0 outra coisa. ( contrarios... caceleste”, su apostando qu poeta adorme ‘Meus am Vocé esté for muito bem qu é oespacoon nfo € nada d cor azul-clari cientistas... Para os px tém muitos se senhora “gent para um poet iam, tambén | ee .P, como ‘mento na poderia ste”, mas celeste. \ vai mui- £ preciso becimento ves. Voce lefinigao, sar disso, 2# poesia, vor todos LAs can as letras estrofes frequen- sun Nao & 1s de poe- zomo era 9 esclare- enciando > mesmo po de co- que voce rica celes- teéricos queéum =finigdes. >esia no 10. A po- do ponto os apro- us. Nesse nerecem, apesar da extrema utilidade dos manuais e enciclopédias, nao é a eles que eu sugeriria recorrer, para o caso de vocé querer saber 0 que € poesia. Meu palpite € que devemos enderecar essa pergunta dirctamente aos poetas, ou seja, & prépria poesia, ainda que isso ‘envolva algum risco. Como perguntar & poesia o que € poesia se ainda nio sabemos 0 que isso & E se a poesia 4 qual fizermos a pergunta nao for... poesia? “Arriscado, no é mesmo? Vocé viu a bela definiggo que pode- riamos extrair dai? Poesia ¢ aguilo que ficamos sabendo o que é quando Jemos poesia. Seré que seu professor de légica assinaria embaixo?... Bem, mesmo assim, acho que vale a pena arriscar. Até porque, ‘0s poetas jamais se preocupariam com armadilhas desse tipo. Professores e criticos, além de fisicos e astrénomos, sim (ai deles se ficarem andando em circulos, ao tentar explicar sua matérial), ‘mas 0s poetas, garanto que no. ‘Veja o caso da mecanica celeste. Vocé acha que foi arbitréria a escolha do exemplo? Nao foi. E que aos olhos—e aos ouvidos — de um poeta a expresso é, para dizer o minimo, altamente suges- tiva, estimulante, misteriosa. “Mecanica” a gente associa a algo exato, preciso, real, concreto. Ja “celeste” tem aver com o etéreo, o distante, o inacessivel, algo que é fruto mais da fantasia do que outra coisa. Um parece brigar com o outro, a perfeita unio dos contrérios... Antes de pedir ao professor a definigao de “mecini- ca celeste”, sua ideia nao seria mais ou menos essa? (Pois é. Estou apostando que em cada um de nds existe, sempre, pelo menos um poeta adormecido.) ‘Meus amigos astrénomos devem estar dizendo: “Parado af! Vocé esta forcando um pouco as coisas!” —, e estou mesmo. Sei muito bem que “celeste” quer dizer, apenas, “relativo ao céu”, isto é, 0 espaco onde se encontram os astros. Mas, para os poctas, “céu’ nio é nada disso; “celeste”, ent4o, tem uma musicalidade e uma cor azul-clarinho que nfo se coadunam com o rigor légico dos cientistas.. Para os poetas, as palavras no tém s6 0 sentido “cientifico”, ‘tém muitos sentidos, que variam, de uma época para outra. Uma senhora “gentil’, para Camoes, é nobre, altiva, generosa, refinadas para um poeta moderno, é apenas bem educada. As palavras va~ riam, também, de um poeta para outro, contemporaneos; variam 3 q | até de um livro para outro, do mesmo poeta. Resultado, para en- tender um poema é preciso deixar-se contaminar por ele, aceitar que as palavras nele empregadas tenham varios sentidos, muitas vezes contraditérios. Para entender um poema é preciso gostar de poesia, nao basta estar na posse desta ou daquela definigao. Vocé pode assimilar a ideia basica de mecanica celeste, mesmo que no se deixe envolver pessoalmente pelo assunto. Sua definigio ser tio valida quanto a daquele individuo apaixonado pelo tema. Com a poesia, 0 caso € outro. Mas, vocé dird, para gostar de poesia nio é preciso entender? Entéo, como posso gostar se nao entendo? E como entender sem gostar? Pois é, a necessidade da l6gica nos surpreende, outra vez, com aarmadilha do circulo vicioso. O que eu diria € que vocé tem razfo: gostar e entender so vasos comunicantes, e isso vale em especial para a poesia. Para escapar do circulo vicioso devemos aceitar que haja um ponto de partida: eu gosto, voce gosta, todos gostamos de poesia, ainda que s6 um pouco, antes mesmo de en- tender seja o que for. Depois a gente vai entendendo, por etapas, quanto mais entende mais gosta. Essa, pelo menos, é a proposta deste livso. Se vocé nao gosta nem um pouco de poesia, s6 vamos perder tempo. Se voce esté lendo por obrigacao, isto &, porque a coordenadoria pedagégica exigiu, no caso do professor; ou porque o professor mandou, no caso do aluno; ou porque passou a ser politicamente corteto saber ‘© que € poesia, no caso do leitor em geral -, acho melhor desistir. O verdadeiro conhecimento de poesia pede que nos dediquemos a ela por prazer, no por obrigagio. E pede também que no se perca de vista o sentido liidico, o sentido de jogo e brincadeira que o lidar com as palavras pode implicar. O fisico e 0 astténomo nao tém o privilégio de brincar com as palavras, mas para 0 poeta o humor que se possa extrair delas é sempre bem-vindo. Exemplo: mecdnica celeste éuma oficina onde os anjos levam as asas ‘para consertar, e onde Apolo periodicamente faz a manutengdo do carro com que, todos os dias, arrasta o Sol, de horizonte a borizonte. Caso-voce no saiba de que estou falando, pegue uma enciclopédia, ou va 2 internet, ¢ veja 0 que é “Apolo”, na mitologia grega. Mas se vocé € do tipo que faz questao de definigées, e apesar dos meus argu- ‘mentos ainda esta a espera de uma, acho que dé para the satisfazer a vontade: és palavr, Quer « car um po ento, que 2 POESIA EF voz hume musicalid: ‘um poem: falava-se ¢ conter de te: declame cada vez.a para os se guste a so: A espera d contato,a em saber, simples: e: bem casac amésica f camada di miticos, 1 cordas voc aanalisar no é mest Assim + terpretare subentend alta o poer tido invers pronto, lei tao bem qu as intengdc para en- ; aceitar ; muitas ostar de io. Vocé mo que efinigao Jo tema. atender? der sem utra vez, océ tem vale em levemos a, todos odeen- tapas, € io gosta deé est agégica dou, no o saber desistix quemos no se viraque mo néo roeta 0 rasasas to carro sovocé ouvaa se voce ss argu- isfazer avontade: poesia é uma espécie de mecénica celeste cuja matéria-prima as palavras. Quer dizer, se vocé gosta de poesia ¢ esta disposto a Ihe dedi- car um pouco do seu tempo, para gostar ainda mais, posso dizer, entdo, que este livro encontrou o leitor que buscava, 2 POESIA E, ANTES DE MAIS NADA, REPRESENTACAO DE voz humana, vale dizer som, massa sonora, ritmos audiveis, musicalidade em potencial. Portanto, antes de tentar entender um poema, é preciso que vocé o diga em voz alta. Antigamente falava-se em “declamagio”, palavrinha capciosa, pelo que pode conter de artificial, mas, se isso nfo 0 incomodar, va em fren- te: declame 0 poema, para vocé mesmo, varias vezes, variando a cada vez a entonagao, o volume, o ritmo, as pausas; declame-o para os seus amigos; ouca a declamacio de alguém mais; de- guste a sonoridade das palavras, que esto ali, mudas, no papel, 2 espera de que alguém as diga em voz alta. E, nesse primeiro contato, nao se preocupe muito com os significados, nio insista em saber, de saida, “o que esse poema quer dizer”. A razio é simples: em poesia (na boa poesia), som e sentido esto sempre bem casados, um se alimenta do outro, ¢ a familiaridade com a misica potencial das palavras o levaré com mais seguranga & camada dos sentidos, quase sempre um pouco obscuros, enig- miticos, mas que irdo aparecendo, desde que vocé ponha as cordas vocdlicas ¢ os ouvidos para funcionar, antes de comecar a analisar e interpretar ja que este é, afinal, 0 nosso objetivo, nao é mesmo? Assim que terminarmos esta introducio, comegaremos a in- terpretar os nossos poemas, ¢ eu nao vou insistir nesse ponto. Fica subentendido que, antes de iniciar a tarefa, vocé deve ler em voz alta 0 poema a ser analisado. E faca a mesma coisa, s6 que no sen- tido inverso, quando estiver escrevendo o seu poema: depois de pronto, leia-o em voz altae verifique se as sonoridades funcionam tdo bem quanto (¢ em harmonia com) as ideias, os sentimentos ¢ as intengGes que vocé pretendeu registrar no papel. 5 6 Este livro nfo pretende ser um tratado tedrico, sequer ambicio- naresponderaquest6es do tipooque poesia?,o que é poesia lirica oupo- esia épica?, qual a diferenca entre poesia eprosa?, e tantas outras. A inves- tigagdo que busca responder a essas perguntas é desejével e neces- sdria, dependendo dos fins em causa, mas nfo creio que seja indis- pensdvel ao despretensioso prazer de ler e degustarum bom poema. Hi quem defenda a tese de que o adequado conhecimento te- 6rico pode aumentar esse prazer, tese que eu sem hesitar endosso, ‘mas nfo estou interessado, no momento, em enveredar pelos me- andros especulativos da questo. Tomando 0 partido do amadore no o do burocrata da poesia, este livro pretende, antes, defender aiideia de que, para gostar de poesia, o fundamental é 0 convivio constante, a familiaridade com o texto poético, baseada na tenta- tiva continuada e persistente de ler ¢ compreender. Ler e compreender... Estou admitindo que seja este o seu caso: desenvolver e aprimorar o prazer de ler um poema. Mas nada im- pede que vocé esteja interessado nao em analisar poesia, mas em escrever os seus préprios poemas, para testar a capacidade ou o ta- lento que tenha, como poeta. Eu diria: 6timo! Tentar escrever um. poema é um dos caminhos para se chegar a saber o que é poesia. Eisso é uma via de mao dupla. Nao tenho noticia de nenhum bom poeta que nfo fosse, também, um bom leitor de poesia, Na pritica: se vocé estiver interessado em criar os seus préprios po- emas, aprender a analisar e a interpretar vai ser de boa ajuda. Por outro lado, se vocé quiser apenas aperfeigoar seus dotes de leitor ou intérprete, escrever um poema, ainda que como simples exer- cicio, sem nenhuma pretensio, vai ajudé-lo a adquirir, a respeito de poesia, um “saber s6 da experiéncia feito”, isto é, algo que nao serd mera e fria teoria. E quem chama a atencdo para essa espécie de saber, valorizando 0 conhecimento pratico acima do teérico, é justamente um poeta: Luis de Camées. Este livro se destina, en- fim, a desenvolver o gosto da leitura, mas também dedica parte de sua atengdo ao prazer de escrever poesia. 3 ‘A LINGUAG seu acentuac expedientes trelinhas. Pr tendidos, lin constituinde argicia. Muitos I cional provo verberacées desse ponto desse impact caem nds est mio? De qu em aco qua laveas que 0 tanto ao ana Alguma + nha intengac tidores. O g estou descar apliquem at ideia do imp a poema, cas podem deix: car: de maos Por isso, « nosso propé: sobre um pu tativa de loci terminantes, menos velad que pretend: a exposicao s de uma receit mbicio- ‘caoupo- Ainves- > neces- ia indis- poema, ento te- ndosso, Jos me- radore fender oavivio atenta- ucaso: ada im- aas em ouota- verum oesia. enhum sia, Na ios po- Ja. Por = leitor 's exer- speito 1eniio spécie rico, € na, en- rede 3 A LINGUAGEM POETICA SE DISTINGUE DAS DEMAIS POR seu acentuado poder de sintese, pela infinita variedade de seus expedientes ¢ pela capacidade que tem o poeta de falar nas en- trelinhas. Podemos admitir que poesia seja um jogo de suben- tendidos, linguagem cifrada, repleta de nuangas e ambiguidades, constituindo, assim, um poderoso desafio & nossa sensibilidade e argiicia, ‘Muitos leitores de poesia se satisfazem com o impacto emo- cional provocado por um bom poema e se limitam a sentir as re- verberacGes por ele desencadeadas. O que pretendemos é partir desse ponto e ensaiar uma tentativa de compreender o porqué desse impacto, as raz6es pelas quais este ou aquele poema provo- caem nés esta ou aquela reagao. De que estratégias 0 poema lanca, mio? De que recursos se serve? Que efeitos ou desvios entram em ago quando nos deparamos com a especifica sequéncia de pa- lavras que o compéem? Tais questdes, como vocé vé, interessam. tanto ao analista quanto ao criador de poesia. Alguma teoria subjaz ou pode subjazer a isso tudo, mas mi- nha intencAo, até onde for possivel, é manté-la onde esta: nos bas- tidores. O que nos interessa é a prética da leitura consciente. E estou descartando também a possibilidade de respostas que se apliquem a todo € qualquer poema. Creio que em relagdo a essa ideia do impacto emocional, € nao s6, é preciso trabalhar poema 2 poema, caso a caso. As generalizacées séo muito atraentes, mas podem deixar-nos exatamente como estvamos, antes de come- ‘car: de mos vazias. De minha parte, farei o possivel para resist. Por isso, convém que nos entendamos quanto as limitacées do nosso propésito. Digamos que eu ¢ vocé decidimos debrugar-nos sobre um punhado de poemas, que vamos ler ¢ comentar, na ten- tativa de localizar seus significados bésicos, seus mecanismos de- terminantes, suas sutilezas de construgao, suas intencées mais ou menos veladas. E, se for 0 caso, voce aplicara tudo isso aos poemas, que pretenda escrever, Sera um exercicio de compreensiio e no a exposicao sistemética de um modelo de anélise, e menos ainda de uma receita, seja para analisas, seja para compor um poema. A ” 8 infinita variedade da linguagem poética é refratéria ao estabeleci- mento de qualquer férmula e desconhece leis certas e definitivas. Deixe isso para os astronomos... ‘Ao afirmar, no titulo, que poesia ndo é dificil, nao quero alimen- tar falsas esperangas. O fato é que a maioria das pessoas acha po- esia dificil. Por qué? A nica “razo” alegada, que eu saiba, é que poesia exige um Arduo conhecimento prévio: nogées de métrica e€ versificagao, 0 quadro completo das temiveis figuras de lingua- gem, 08 varios tipos de verso e estrofe, mais hemistiquio, cesura, rima rica, rima pobre, e por ai vai. Além disso, para “confirmar” que poesia é dificil, as pessoas costumam lembrar a “evidéncia” de que prosa é facil. Um romance, dizem, nao exige nenhum conhe- cimento prévio, é sé ir lendo, apreciando o enredo e, no fim, se vocé resumir a historinha para os amigos, eles até que no faréo mé figura... sem ter lido o livro. ‘Nao € preciso ser especialista em literatura para desconfiar que aquela razo é um equivoco e esta evidéncia, uma iluséo. O dito conhecimento prévio nao passa de listas de nomes, cuja posse no the garantiré o acesso & poesia. Vocé poderd assimilar bastan- ‘te bem um poema, mesmo que nao saiba rotular isso de sinédoque, aquilo de metonimia, tal verso de hendecassilabo ¢ tal outro de alexandrino trimembre. Se a dificuldade estava af, no esté mais. Podemos entéo concluir que poesia é fécil? Logo, logo. Antes, uma palavrinha sobre a evidéncia da ilusio. ‘Ler bem um romance vai muito além de conhecer o seu enredo, € nfio é facil como parece. Um romance de fato nao exige conheci- mento prévio, mas jé sabemos que poesia também nao. Na verda- de, ambos apresentam 0 mesmo grau de dificuldade, ambos exi- gem doleitor doses equivalentes de reflexao critica, capacidade de observacao € andlise, atencao, alguma disciplina, espirito indaga- dor, raciocinio dedutivo, além de sensibilidade e gosto pela coisa. ‘Mas nio so mais ou menos esses os requisitos para se conhecer bem seja o que for? Claro, vocé esta certo. Entio € s6 concluis. Por que literatura seria excecao? Por que entender um romance deve- ria ser “fécil”? Por que a poesia haveria de apresentar dificuldades que tém pouca ou nenhuma relacio com esses requisitos? Com isso, acho que esti claro o que o titulo promete, e supo- nho que vocé j4 no esteja mais interessado em saber se poesia € facil, Fécil o livro € um ¢ dos miitiplc ender parad ‘menos 0s pt com mais u essa entidad ginagao dos nha a ser es: saber se ela da mente e tivamente, | gostar de po turar nos & ver, escreve) ‘um pouco ¢ velho Camo uy NOSSO RC correspond poemas, m: cada capitu cexplanagao tempo; 0 se do, tao min var pela am analisados. ciais, incon no tocante poesia com sa. (No cap Embora trario, nao c linguagem « gional, no s > estabeleci- definitivas. tero alimen- pas acha po- saiba, é que de métrica sde lingua- io, cesura, ‘confirmar” idéncia” de aum conhe- no fim, se 2 nfio Faro desconfiar a ilusio. 0 _cuja posse ilar bastan- sinédoque, outro de > estd mais. 2go. Antes, seuenredo, ge conheci- Na verda- ambos exi- acidade de ito indaga- pela coisa. » conhecer neluir. Por ance deve- ficuldades ? te, e supo- © poesia € facil, Fécil ou dificil (agora posso retomar o trajeto anterios), este livro € um convite para vocé percorrer comigo alguns exemplos dos miiltiplos e variados caminhos da poesia. O intuito é compre- ender para desfrutar melhor, nfo sei se a poesia em geral, mas pelo menos os poemas aqui reunidos. Nao € meu propésito alicié-lo com mais uma tentativa de “conceituar” e menos ainda “definir” essa entidade abstrata chamada Poesia, que tanto estimula a ima- ginagdo dos tedricos. Para o que pretendo, no importa o que ve~ nha a ser essa Poesia com inicial maiiscula, nem sequer importa saber se ela de fato existe ou se constitui apenas um pressuposto da mente especulativa. Nossa tarefa é pragmética: ler, ler exaus~ tivamente, poemas e mais poemas, para, quem sabe, aprender a gostar de poesia. Paralelamente, se vocé estiver disposto a se aven- turar nos exercicios de criagéo, propostos a cada capitulo, escre- ver, escrever poemas e mais poemas, ainda que s6 para adquirir ‘um pouco daquele “saber s6 da experiéncia feito”, de que fala o velho Camées. y NOSSO ROTEIRO E COMPOSTO DE DEZ CAPITULOS, QUE correspondem a dez micleos tematicos, e cada um contém dois poemas, mais os exercicios de criacio. O primeiro poema, em cada capitulo, serve de lema e instigacdo, além de remeterauma explanagao hist6rica, para que sejamos capazes de situé-lo no ‘tempo; o segundo é para ser analisado, comentado e esmiuga~ do, to minuciosamente quanto possivel. Mas nao me deixei le- var pela ambigao desmedida de “esgotar” qualquer dos poemas analisados. Os comentérios ¢ interpretag6es s4o sempre par- ciais, incompletos, pois visam apenas servir de estimulo e guia, no tocante a como proceder diante das muitas modalidades de poesia com que nos deparamos no universo da lingua portugue- sa. (No capitulo final, “E agora?”, essa questéo sera retomada,) Embora muitos estudiosos, e mesmo poetas, afirmem 0 con- tratio, nfo creio, como insinuei pouco atrés, que a poesia seja uma linguagem universal. Nessa matéria, penso que tudo é sempre re- gional, no sentido de que tudo esta sempre comprometido com

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