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JERUSALÉM

Por volta de 3000 aC já havia um povoado, existe como prova uma coleção de
cerâmica daquela época, encontrada em sepulcros (1909-1911), no ed-dahurah,
alguns restos de um muro em tômo dò ed-dahurah, e um fosso atravessando a colina,
um pouco ao norte do Gion, cavado na rocha e descoberto em 1923-1925. Circundado
por vales de três lados, o lugar era defendido por esse fosso mais fraco, o. do norte.

Por volta de 2000 os amorreus penetraram em Canaã e o Egito ia perdendo a sua


hegemonia sobre essas regiões; às cidades que o faraó, pelo fim do século XX ,
estava com medo de perder pertencia também Jericó.

Aos amorreus seguiram imediatamente elementos indo-arianos e hurritas. Esses já


usavam o cavalo como montaria e para puxar carro. Para os seus carros de combate
construíram grandes acampamentos retangulares, circundados de taludes de terra
batida, com um muro primitivo de pedras em cima. Em 1867 foi resto de tal talude
com muro ao sul do haram (só em 1954 pôs-se a claro um trecho de uns 30 m ), que
provavelmente circundou o Ofel, ligando-o com a cidade antiga. Isso prova que os
mencionados elementos étnicos ocuparam Jerusalém entre 1800 e 1600. Da mesma
época data um túnel cavado na rocha pelo qual se podia sempre, também durante um
assédio, buscar água na fonte Gion.

As cartas de Amama provam que no século X IV reinou em Jerusalém um rei com


nome hurrit (Abdi-Hepa). Nesse tempo J. era uma cidade*estado. Outros reis
cananeus cujos nomes conhecemos são Melquisedec (Gên. 14,18) e Adonisedec (Jos
10,3; Jz l,5ss).

Jerusalém continuou cananeia até Davi. Este conquistou a cidade, escolheu-a como
capital de seu reino, fazendo dela também o centro religioso, pela transladação da
arca da aliança (2Sam 5s). Salomão aumentou consideravelmente a cidade (Milo,
templo, palácio). Um conjunto de túmulos em ed-dahurah deve ser atribuído
,provavelmente, também a Salomão (a tradição coloca o túmulo de Davi erroneamente
na colina sudoeste), bem como a construção de um sistema de irrigação, constando
de um tanque e dois canais, providos de água pelo Gion (cf. Ecl. 2,5s).

Apesar do cisma, Jerusalém deve ter-se aumentado ainda bastante depois da morte
de Salomão. Pouco depois de 800 aC Joás (de Israel) demoliu o muro de Jerusalém
por uma extensão de 200 m(2Rs 14,13; 2Crôn 25,23). O estrago foi consertado por
Ozias, o qual, além disso, fortificou o muro com torres (2Crôn 26,9.15); Jotão
continuou esse trabalho (2Crôn 27,3). Contando comum ataque dos assírios,
Ezequias construiu novo muro) e substituiu o sistema de canais da fonte Gion (que era
vulnerável, por ficarem esses canais à superfície, fora das muralhas) por um túnel
furado através de ed-dahurah, que trazia as águas da fonte para dentro da cidade,
num tanque situado no vale Tiropaeon (2Rs 20,20; 2Crôn 32,3s.30; Is 22,9-11; Eclo
48,17). Desta maneira as águas que abastavam a cidade ficaram fora do alcance de
um eventual assediador. Manasses, sucessor de Ezequias, empreendeu alguns
melhoramentos Importantes no muro leste(2Crôn 33,14). Em 598 Nabucodonosor
apareceu diante de Jericó para vingar a rebeldia do já falecido rei Joaquim. Quando
também seu sucessor Sedecias se revoltou, Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o
templo (587 aC; cf. 2Rs 25,1-21; 2Crôn 36,17-21).
Contudo Jerusalém continuou, também durante o cativeiro, o centro religioso tanto dos
deportados (Is 40-55; Sl 137 ) como daqueles que ficaram na Palestina. Esses últimos
começaram a peregrinar frequentemente às ruínas do templo Jer 41,4s). Depois do
cativeiro, a cidade restaurou- se aos poucos (Esdras e Neemias), apesar da oposição
dos samaritanos. Em 445 Neemias obteve licença para reconstruir o muro; fê-lo em 52
dias (Ne 6,15).

As conquistas de Alexandre Magno incorporaram Jerusalém no reino helenístico.


Depois de sua morte, os Lágides se apoderaram da cidade, até que essa, em 198 aC
abriu suas portas para o Selêucida Antíoco III, o qual, seguindo o exemplo de persas e
Lágides, reconheceu a teocracia judaica e sancionou seus privilégios.

No principio do governo de Antíoco IV, porém, um certo número de filelenos tentaram,


com a ajuda do novo soberano (que considerava a unificação radical de seu reino o
ideal da suavida), helenizar a cidade. Conseguiram, e dentro em pouco foi fundado
uma “escola de luta(ginásio), indispensável numa cidade helenista. Em 169 Antíoco
pilhou o templo, dedicando-o em 167 a Zeus Olímpio. Para dominar J., os sírios
construíram uma fortaleza (Acra), que segundo Fl. Jos. ficava em ed-dahurah; muitos
seguem essa opinião, mas Vincent e Abel colocam-na no ponto mais alto da colina
sudoeste.

Em 164 Judas Macabeu controlava a situação a ponto de poder restabelecer o culto


de Javé (1M ac 4,26-59), mas a Acra continuou nas mãos dos sírios até que em 141 a
guarnição se rendeu a Simão (12,36; 13,21s.49-52; 14,37). Sob Alexandre Janeu
(103-76) ou sob Alexandra (76-67) a Acra tomou-se residência da dinastia dos
Hasmoneus; seus predecessores, desde Simão, haviam residido na torre de Hananel,
chamada Báris pelos gregos.

Por ocasião da guerra entre os irmãos Hircano II e Aristóbulo II apareceu diante de


Jerusalém o general romano Pompeu (63 aC), conquistou o templo aos partidários de
Aristóbulo e restabeleceu Hircano na sua dignidade de sumo sacerdote (63-40). Em 47
César constituiu a seu lado o idumeu Antípatro como procurador. Em 40 o filho de
Antípatro, Herodes Magno, recebeu em Roma a sua nomeação como rei. Com a ajuda
dos romanos esse conseguiu em 37 conquistar Jerusalém a Antígono, filho de
Aristóbulo II. Em 20 ou 19 Herodes iniciou as obras para a reformação do templo; só
em 63 dC completou-se essa obra gigantesca. A antiga torre Báris, no ângulo noroeste
da área do templo, foi transformada por ele numa fortaleza poderosa, que chamou
Antônia, em homenagem ao triúnviro Antônio; na colina sudoeste construiu para si um
palácio com três torres enormes (o forte ao lado da Porta de Jafa). Ao leste do antigo
palácio dos Hasmoneus (Acra) Herodes mandou construir uma “ágora” (mercado)
espaçosa, circundada por colunatas (chamada Xystos), donde uma ponte, sobre o
vale Tiropaeon, levava à praça do templo. Depois da revolta judaica Tito conquistou
Jerusalém, no ano 70; o templo foi arruinado por um incêndio. A Palestina tomou-se
uma província imperial, governada por um legado, que residia em Cesaréia e tinha a
sua disposição uma legião sediada em Jerusalém. Em 132 irrompeu outra revolta, por
causa da ordem do imperador Adriano de transformar a cidade em colônia romana.
Depois de uma luta encarniçada também essa foi esmagada, e Adriano executou seu
plano: Jerusalém tomou-se Aelia Capitolina; nas ruína do templo de Javé surgiu um
templo de Júpiter Capitolinus. Aos judeus era proibido, sob pena de morte, pôr o pé
nesta cidade.

Conquistada por Davi, Jerusalém tornara-se a sede da dinastia a que Javé prometera
a realeza perpétua (2Sam 7,8-16), e como tal a cidade fazia parte do conjunto de
esperanças escatológicas (Sl 2,6-9; 110; ls) Jerusalém é a residência de um soberano
que, sob a alta proteção de Javé, domina no seu reino mundial todos os povos (cf.
também Sl 132,17s). Possuindo a arca, Jerusalém era o centro religioso de Israel
(2Sàm 6; lCrôn 15s; Sl 24,7-10; 132), a morada de Javé ( Ex 15,13.17); ao que Dt
33,12 provavelmente já alude. A elite do povo tomou-se cada vez mais consciente do
sentido desse privilégio (que coube a J. depois que Deus rejeitara Silo por causa da
infidelidade de Efraim: (Sl 78,60s.67ss). Do fato de que Javé “pôs o se nome em J.”
(Dt 12,5.21; 14,24; lRs 9,3; 11,36 ) a teologia deuteronomística concluiu a ilegitimidade
de todo santuário fora de J. (Dt12,2-14; 2Rs 23,7s; cf. Sl 87,2). Todas as tribos,
portanto, têm que peregrinar a J. (Sl 122,4), a “cidade de Deus” (S l 87,3), onde Javé
armou sua tenda (S l 76,3; Jerusalém no entanto, não se mostrou digna de sua
eleição. Amós, embora profundamente compenetrado da verdade de ser J. a morada
de Javé, não hesitou em ameaçar a cidade com a destruição, por causa de sua
infidelidade (2,5). Isaias, testemunha das injustiças em Jerusalém afirma que Deus há
de purificar(1,21-25) e julgar (3,1-15; 28,14-22; Miq 1,9-12; 3,10-12) a sua cidade; há
de mandar sobre ela o flagelo da guerra e da destruição (3,25-4,1; 32,14); suas
mulheres insolentes serão marcadas com ferrete e deportadas, vestidas de sacos
(3,16-24). Mas J. e a cidade de Deus: nenhum inimigo poderá aniquilá-la (10,lls.
32ss;29,8; 31,4s). Depois desses sofrimentos purificadores J. será reconstruída numa
nova pedra angular (28,16) e Javé virá sobre ela como uma nuvem (4,5); todos os
seus habitantes, escritos no livro da vida (cf. Sl 133,3), serão santos (4,3). Então será
chamada “Cidade da Justiça, Cidadela de Fidelidade” (1,26). A realeza será
restabelecida no seu antigo esplendor (Miq 4,8) e J. será a metrópole espiritual da
humanidade inteira (2,1-5 = Miq 4,1-3;' Sl 87).

Nos dias de Jeremias a situação em Jerusalém não era melhor do que no tempo de
Isaías ( cf 2,28 [L XX ]; 5,lss; 7,17ss; 22,13-19; Ez 8; 11; 22), tal ameaça sobre
ameaça (1,15; 2; 4,3ss; 6; 13,20-27 ; Sof 1,4.12; 3,1-5; Ez 23); mas não falta uma
promessa de restauração: numa J. purificada, com o nome novo de “Javé-nossa-
justiça”, reinará um digno sucessor de Davi (33,15s) e a arca da aliança será
supérflua, pois a própria Jerusalém será chamada ‘‘Trono de Javé” (cf. Sof 3,14-17) e
todos os povos unir-se-ão em tomo desse nome (3,17; 14,21). A descrição, em Ez 40-
48, da Jerusalém a ser habitada por Israel após a purificação do cativeiro não tem
base na realidade histórica: a cidade será dominada pelo templo, onde nascerá uma
fonte cuja água dará ao pais uma fertilidade prodigiosa (47,1-12); na proximidade do
templo não poderá haver palácio nem necrópole real (43,7ss), e J. nem será cidade
régia; depois das tristes experiências do passado a realeza não tem mais vez, para
Ezequiel; em 44,3; 45,7-12; 46,2 fala-se apenas em um nãsi (príncipe). Essa nova
Jerusalém chama-se “Javé-está-aqui” (48,35).

Depois do cativeiro Isaias anuncia tempos novos (40,2.9; 51,17), prega uma boa-nova
(41,27; 52,7); Javé dá ordem para reconstruir J. (44,26.28; 47,17; 52,9; cf. Zac l,16s),
pois não pode esquecê-la (49,14ss); fará dela um novo Eden (51,3); se já esteve
desolada (51,18ss), agora tem população numerosa (48,18-23; 54, cf. Zac 2,8s); deve
vestir seus trajes de gala, como uma noiva (52,1; 49,18); será construída com pedras
preciosas (54,lls; cf. Tob 13,16s), fundada na justiça (54,11).

As dificuldades da restauração desanimaram o povo, mas Ageu 2,6-9 novamente o


exorta à perseverança: em breve todos os povos virão a Jerusalém; Zac 2; 8,22 julga
perto o momento em que Jerusalém será a metrópole espiritual da humanidade.

Foi sem dúvida a Jerusalém ideal, que foi mostrada a Ezequiel, qual outro Moisés,
numa montanha mui alta (Ez 40,2; cf. Êx 25,40; 26,30; 27,8). Quando demorava a
revelar-se a glória prometida à cidade, começou-se a aguardar uma Jerusalém ideal,
não construída por homens, mas obra de Deus (Is 65,18; cf. 627; Sl 145,2). Essa idéia
foi elaborada

na literatura apócrifa apocalíptica que descreve Jerusalém futura como já existente no


céu. Quando começar o nôvo —» mundo, ela descerá à terra, tomando-se a morada
dos eleitos (Hen [aeth] 53,6; 90,28-32); sobretudo depois da destruição de Jerusalém
em 70 dC, essa idéia ficou muito popular (B ar[sy r] 4,2-6; 32,2-6; 4Esd 7,26;
10,27.54s; 13,6.36 etc.; cf. Gál 4,26; Hbr 12,22; Apc 21,2-22). Com essas concepções,
que transcendem as condições terrestres, pode se comparar também o apocalipse de
Isaías em que Javé, após uma catástrofe mundial punitiva (Is 24,21-23) prepara, na
cidade poupada de Jerusalém, um banquete para o qual todos os povos são
convidados, e não haverá mais dores nem morte (25,6-10; cf. Lc 14,15; M t 8,11).

Da mesma crise da decepção surgiu a esperança de que Deus, por uma intervenção
subitânea (Is 66,6s; 62,1) haveria de restaurar Jerusalém, povoando-a e tomando-a o
centro religioso da humanidade (Is 60; 62); o sol e a lua serão supérfluos, pois o
próprio Javé será a luz eterna de Jerusalém (60,19s; Apc 22,5).

Na convicção de que a destruição de Jerusalém pelos babilônios não fora ainda o sinal
para os tempos novos, Ez 38s; J1 2,20; 4; Zac 12,14 projetaram o ataque predito dos
povos do norte (Jer 1,15; 4,5ss; 6; cf. Ez 38,17; J1 2,20) para o“fim dos dias”. Então,
chegando as calamidades ao extremo, Javé intervirá e salvará, em Jerusalém, todos
os que O invocarem (J1 3,5); água viva nascerá em Jerusalém (Zac 14,8; J1 4,18) e
Javé,morando em Sião, será o único Deus (Zac 14,9).

O antigo ideal de Jerusalém como cidade régia ainda não havia morrido; prova-o
Zacarias 9,9s; mas o rei esperado não é mais um soberano luxuoso e conquistador
invencível, e sim um meigo “príncipe da paz”, que elimina do seu reino todas as
armas, toda a violência guerreira.

Segundo Mt 21,4s e Jo 12,15 esse rei-salvador foi Jesus. Essas especulações sobre
Jerusalém, sobretudo e evoluindo-se do modo independente, levaram a duas
concepções cada vez mais opostas, a de uma Jerusalém transcendente e a de uma
Jerusalém inteiramente terrestre.