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Israel - 70 Anos

por Zevi Ghivelder


Queiram os historiadores ou não; queiram os acadêmicos ou não; queiram os cientistas
políticos, analistas, jornalistas e intelectuais ou não; queiram os antissemitas ou não;
queiram os antissionistas ou não, mas o ressurgimento de um Estado Judeu em sua terra
de origem foi um dos mais extraordinários acontecimentos históricos de todos os tempos.
Edição 99 - Abril de 2018

O parágrafo acima não é uma calorosa exaltação em busca de aplauso, mas o rigor de uma
sóbria verdade. Agora, quando o Estado Israel celebra os primeiros 70 anos de sua
soberania, identificado com judeus mundo afora, deve-se tecer uma importante
consideração. De todos os países que foram criados no planeta depois da 2ª Guerra
Mundial, nenhum deles, nenhum mesmo, com pouco mais ou pouco menos de 70 anos de
existência, alcançou como Israel um nível tão elevado na economia, na infraestrutura civil e
militar, em múltiplas ciências, na tecnologia e na informática, nas artes e na cultura, na
igualdade de gêneros, no bem-estar social e na prática da democracia.
Conforme se procede em toda sólida construção, a recriação do Estado Judeu contou com
fundações e pilares, sendo estes constituídos por ações individuais e coletivas. A primeira
fundação para o erguimento da morada ancestral do povo judeu foi fixada em agosto de
1897 quando da realização do Primeiro Congresso Mundial Sionista, na Suíça, sob a
liderança de Theodor Herzl. A segunda fundação corresponde à emissão pelo império
britânico da Declaração Balfour, de mais de cem anos atrás. Trata-se de uma carta elevada
à condição de documento, tanto assertiva quanto evasiva, mas que causou impacto por dar
legitimidade ao incipiente movimento sionista e, assim, promover a sua inserção no cenário
internacional. Por isso até hoje suscita polêmicas, quase sempre redundantes. A terceira
fundação se assentou na declaração também centenária, da partilha da antiga Palestina,
em 1947, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, nessa crucial etapa ocorreu uma
ainda irreparável fissura. Os países árabes rejeitaram a resolução. Impediram que os
palestinos residentes no território que lhes caberia criassem seu próprio estado
independente e, dessa maneira, deram origem ao conflito que há 70 anos perdura entre eles
e Israel.
Nos pilares individuais avulta um homem excepcional e inigualável: Eliezer Ben Yehuda.
Nascido Eliezer Perelman, na Lituânia, em 1858, ele foi o artífice do renascimento do idioma
hebraico, naquele tempo restrito aos rituais litúrgicos. Sionista ardente desde a juventude,
formulou um conceito tão simples quanto imbatível: se o sionismo de fato viesse a resultar
numa nova nação judaica, era imperativo que incorporasse à sua ideologia um novo idioma,
ou seja, o hebraico, antigo idioma dos patriarcas, profetas e reis do povo de Israel. Com
vinte anos de idade, Ben Yehuda foi para Paris com a finalidade de estudar medicina. Porém,
contraiu tuberculose e foi obrigado a abandonar a faculdade, ao mesmo tempo em que se
juntou a um grupo de jovens sionistas. Ao lado deles e junto com a mulher partiu para a
antiga Palestina em 1881. Instalou-se em Jerusalém e em sua casa só se falava hebraico.
Seu filho, mais tarde o escritor Itamar Ben Avi, foi a primeira criança daquela época a ter o
hebraico como idioma materno, fora poucos descendentes de antigas gerações de judeus
que jamais emigraram da Terra Santa. Ao lado de outros intelectuais, Ben Yehuda fundou
uma sociedade chamada Tehiat Israel (Renascimento de Israel) cujo ideário tinha uma
consistente visão do futuro para a nova nação: expansão das atividades agrícolas, expansão
da população produtiva, criação de raízes literárias a partir do ressurgimento do idioma
hebraico, estímulo às pesquisas científicas e uma postura política tão nacional quanto
universal. Ele começou a trabalhar na elaboração de um dicionário hebraico, mas foi expulso
de Jerusalém pelas autoridades turcas, como um “inimigo nacional”, ao eclodir a 1ª Guerra
Mundial.
Passou um ano nos Estados Unidos e regressou à Palestina em 1919. Participou, então, da
criação da Academia da Língua Hebraica destinada a formular palavras em hebraico que se
adaptassem às modernidades do cotidiano. No ano seguinte avistou-se com Sir Herbert
Samuel, Alto Comissário britânico para a Palestina, convencendo-o de que a Palestina
deveria adotar três línguas oficiais: inglês, árabe e hebraico. Essa proposta consumou-se
num decreto dois anos depois. Nesse tempo Ben Yehuda trabalhava dezoito horas por dia
em seu “Dicionário de Hebraico Antigo e Moderno” que foi concluído por sua viúva e seus
filhos, sendo publicado em 1959 com um total de 17 volumes. No prefácio do dicionário,
escreveu: “É como se os céus se tivessem subitamente aberto; uma luz brilhou perante
meus olhos e uma poderosa voz interior me disse que haveria uma nova língua numa nova
pátria”. Sua obsessão frutificou após cerca de 30 anos, chegando ao ápice de S.Y. Agnon,
escritor no idioma hebraico, ter sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1966.
Eliezer Ben Yehuda faleceu no dia 16 de dezembro de 1922, em Jerusalém.
Um dos pilares coletivos da recriação de Israel tem como protagonista o ishuv, ou seja, os
judeus que se radicaram em Eretz Israel(Terra de Israel) ou ali nasceram durante a
ocupação otomana ou no Mandato Britânico, e antigos residentes. Um relatório publicado
pela autoridade imperial inglesa, datado de 1922, é da maior relevância: “Durante as últimas
duas ou três gerações os judeus criaram uma comunidade composta por 80 mil habitantes,
dos quais um quarto se dedica às atividades agrícolas. Esta comunidade tem suas próprias
instituições: uma assembleia que trata dos assuntos internos; conselhos eleitos em quase
todas as cidades; um Rabino Chefe incumbido das questões religiosas junto com conselhos
rabínicos regionais; um órgão controlador das escolas; os negócios são conduzidos no
idioma hebraico; há veículos de imprensa no mesmo idioma e um intenso movimento
intelectual. A atividade econômica desta comunidade é crescente”.
O ishuv se dividia informalmente em duas entidades que atuavam em conjunto. De um lado,
os responsáveis eleitos para a administração pública com a tarefa de preservar e ampliar a
ordem social e econômica. De outro, a Organização Sionista inserida no âmbito da Agência
Judaica, oficialmente reconhecida pelos mandatários como a única representante dos
judeus da Palestina. Ambas tinham como objetivo o renascimento da nação judaica. Na
verdade, naquela quadra dos acontecimentos, os judeus já sedimentavam a estrutura de um
país mesmo sem possuir um país. O ishuv se configurava como uma democracia
parlamentar, abrigando uma assembleia nacional eleita para um mandato de quatro anos.
Essa eleição estendeu o direito de voto às mulheres, uma raridade no mundo da segunda
década do século 20. Havia também um poder executivo e um sistema judiciário.
Este surpreendente cenário de organização social e econômica continha radicais
controvérsias políticas que, de forma esquemática, podem ser rotuladas como esquerda,
centro e direita, a par de um bloco religioso. Essas controvérsias permaneceram até a
recriação de Israel e se desenvolvem até os dias atuais nos mesmos formatos e intensidade.
Dentre os legados do ishuv,um dos mais importantes é a fundação, em 1920, da Histadrut, a
Federação dos Trabalhadores Judeus da Palestina, depois dos Trabalhadores de Israel.
Com quase cem anos de idade é uma das organizações sindicais mais bem-sucedidas do
mundo em função da abrangência de suas atividades.
Outro pilar coletivo muito importante corresponde à equipe de agentes do ishuv que ocupou
diversos aposentos de um hotel situado no número 60 da rua 14 Leste, em Nova York. Era
um grupo de rapazes empenhados na tarefa de comprar armas e munições para o estado
que seria criado. Contido, tratava-se uma operação secreta, obrigada a despistar o FBI,
porque a legislação americana aceitava vender equipamentos excedentes da 2ª Guerra
Mundial, porém proibia que fossem destinados a quaisquer outros países. Entre sustos
sofridos por causa da vigilância das autoridades americanas e missões bem finalizadas, a
ação desses agentes do “Hotel 14”, conforme chamavam seu quartel-general, foi
fundamental para abastecer o futuro exército de Israel. A par do que ocorria em Nova York,
um homem extraordinário, chamado Al (Adolf) Schwimmer, agia na Califórnia. Nascido no
Brooklyn, Nova York, em 1917, foi piloto da Força Aérea dos Estados Unidos durante a 2ª
Guerra Mundial. Judeu convicto, procurou por iniciativa própria o pessoal do “Hotel 14”.
Custou a ganhar a confiança dos agentes até conseguir convencê-los de que o novo país
não teria chance alguma de combater os árabes se não contasse com um mínimo de
capacidade militar no ar. Foi mandado para a Califórnia onde, após artimanhas e superando
complicadas burocracias, comprou antigos aviões de diversos portes. Em seguida, recrutou
um grupo de pilotos judeus, também veteranos de guerra, e cumpriu a proeza, contrariando
as leis americanas, de fazê-los voar primeiro para o México, uma escala no Panamá, outra
escala e reabastecimento no aeroporo de Natal, no Brasil, novos reabastecimentos na África
e na Europa, até concluir a viagem em Lidda, perto de Tel Aviv.
A ação de Schwimmer resultou nos primórdios da Força Aérea de Israel, que cumpriu
missões decisivas para assegurar a vitória judaica na Guerra da Independência, com
destaque para uma delas, em julho de 1948, quando os pilotos de Schwimmer dizimaram
uma coluna de blindados egípcios que se aproximava de Tel Aviv.
Al Schwimmer regressou para os Estados Unidos no ano seguinte. Foi acusado como
transgressor do Ato de Neutralidade Americano, por ter contrabandeado aeronaves para
fora do país. Teve cassado seu direito de voto, dos benefícios como veterano de guerra e
condenado a pagar uma multa de 10 mil dólares, mas sem pena de prisão. Sugeriram-lhe
que tudo seria relevado se pedisse um perdão oficial ao presidente. Ele se recusou. Disse
que, como judeu, ajudar a criação do Estado de Israel era uma obrigação moral; quanto ao
contrabando, argumentou que se tratava de uma desobediência civil também baseada em
princípios morais. Em 1950, voltou para Israel atendendo a um chamado de Ben Gurion que
o incumbiu de instalar a Israel Aerospace Industries (Indústrias Aeroespaciais de Israel), até
hoje uma referência mundial nessa modalidade. Schwimmer foi o diretor-executivo desta
empresa durante meio século e, nos anos 1980, atuou como conselheiro industrial e de
tecnologia do primeiro-ministro Shimon Peres de quem se tornou íntimo amigo. Em 2001,
recebeu um perdão oficial do presidente Bill Clinton e, em 2006, o prestigioso Prêmio Israel.
Faleceu em 2011, aos 94 anos de idade, em sua residência em Ramat Gan. Se a expressão
“pai da pátria” deixar seu conceito abstrato e buscar um exemplo concreto, há de encontrá-
lo de sobra na figura de Al Schwimmer.
No dia 13 de maio de 1948, Ben Gurion estava reunido em Tel Aviv com seu Estado Maior,
o Conselho responsável pelos destinos do futuro país. Seus integrantes estavam
acabrunhados por causa do massacre sofrido pela população judaica da localidade de
Etzion. Ben Gurion, entretanto, foi enfático: “A catástrofe de Etzion não me abala. Eu já
esperava derrotas e receio que ainda enfrentaremos maiores dificuldades. Tudo mudará
quando conseguirmos derrotar a maior parte da Legião Árabe. É pelas armas que
resolveremos todos os problemas”. Parecia um exagero, mas aquelas palavras empolgaram
o Conselho, pessimista em face da evidente fragilidade da força militar com que contavam.
Em seguida surgiram indagações cruciais. Onde e como proclamar a independência? No
palco e plateia do Teatro Habima ou no Museu de Tel Aviv? Alguém disse que embora o
Habima fosse maior, o local oferecia pouco sigilo e pouca segurança. Optou-se pelo Museu.
Mas, qual seria o nome do país? Como seria redigida a declaração de independência?
Alguns membros do Conselho propuseram Estado Judeu. Outros, simplesmente Sion. Até
que houve consenso: Israel. Seguiu-se outro debate: como incluir as fronteiras do novo país
na declaração, já que estas ainda estavam indefinidas? Mais uma vez prevaleceu a voz de
Ben Gurion: “Leiam a declaração de independência dos Estados Unidos. Verão que nela
não há uma só alusão a fronteiras territoriais. Depois que derrotarmos os árabes poderemos
precisar nossas fronteiras”. Na votação referente à questão das fronteiras, cinco
conselheiros foram contra a definição, quatro a favor e quatro se abstiveram. A reunião
terminou de madrugada, ficando decidido que um pequeno grupo, liderado por Moshe
Sharret, se encarregaria de redigir a declaração.
Neste mesmo dia 13 de maio, enquanto os mandatários ingleses fechavam suas bagagens
para uma viagem sem retorno, a população de Tel Aviv era uma só ansiedade por conta das
expectativas desdobradas nas semanas recentes e sem saber como, quando e aonde
começariam os preparativos para o histórico evento da proclamação da independência.
Sabia-se, tão somente, que aconteceria assim que o último militar inglês deixasse o porto
de Haifa. Havia um grande sentimento de pressa por causa de um prazo fatal:
o Shabat (sábado sagrado) no entardecer do dia seguinte.
Os convites para a cerimônia começaram a ser distribuídos por mensageiros na manhã do
dia 14, sendo endereçados a entidades e instituições, sem menção a pessoas: “Temos a
honra de convidá-lo para assistir à cerimônia da declaração de Independência que será
realizada no dia 5 de Yiar de 5708 (14 de maio de 1948), às 16 horas, no salão do Museu
de Tel Aviv, Boulevard Rothschild, número 16. Pedimos que mantenha em sigilo o conteúdo
deste convite quanto à hora e ao local. Os convidados deverão estar no Museu às três e
meia da tarde. Atenciosamente, o Secretariado. Este convite é pessoal. Traje: social escuro”.
O secretariado era na verdade um só secretário, Zeev Sharef, diretor administrativo da
Agência Judaica. Em condições normais o convite deveria ser assinado por Ben Gurion,
mas o tempo era exíguo. Ben Gurion não gostou do texto que lhe foi submetido pelo grupo
de Sharret. Achou que aquele primeiro rascunho se perdia em excessos de diplomacia e ele
preferia algo mais contundente, mais conciso e mais objetivo. Fez as alterações que julgou
necessárias e mandou o texto para Zeev Sharef, recomendando que fosse feito um bom
número de cópias para serem posteriormente entregues à mídia. Mas, não era possível
guardar um segredo de tal magnitude. Os jornais matutinos do dia 14 publicaram que a Kol
Israel, emissora oficial de rádio, transmitiria a sessão da independência ao vivo, às quatro
da tarde. A polícia começou a isolar a cercania do Museu uma hora antes. Isto serviu para
atrair a curiosidade da população que ali logo começou a se aglomerar.
De manhã cedo, Sharef havia convocado o designer Abraham Rifkind que, dois anos antes,
tinha preparado um salão na Basiléia para a realização do 22o Congresso Mundial Sionista.
Rifkind revelou numa entrevista, anos depois, que a sua primeira ideia era que a declaração
fosse escrita num rolo de pergaminho, tal como a Torá. Para isso buscou um escriba na
comunidade ortodoxa de B’nei Barak, mas este declinou, dizendo que não daria tempo de
terminar até as quatro da tarde porque cada vez que escrevesse o nome de D’us seria
obrigado a cumprir o ritual de se levantar e lavar as mãos. Em seguida, Rifkind chamou um
artista plástico seu amigo, deu-lhe uma sofrida quantia em dinheiro, para que ele comprasse
os materiais e elaborasse adereços condizentes com a solenidade que aconteceria no salão
do Museu. Recomendou que o amigo não comprasse tudo numa só loja, para não levantar
suspeitas. No Museu os funcionários foram dispensados com ordem para regressarem às
15 horas, sem terem a menor noção do que iria acontecer. No salão, o artista contratado
trabalhava com um carpinteiro, um pintor e também decorador, uma costureira e uma
faxineira para polir o assoalho. De início, mandou fazer bandeiras de diversos tamanhos.
Eram panos brancos com duas linhas paralelas em azul e, no meio, uma estrela de David
da mesma cor. Não eram bandeiras oficiais porque a verdadeira só foi adotada pelo governo
em outubro do mesmo ano. Aquelas ali confeccionadas se destinavam a cobrir esculturas e
pinturas com nus artísticos, pouco apropriados para o local e para a ocasião. Enquanto isso,
Rifkind procurava um pergaminho no qual seria escrita a declaração e uma fotografia de
Herzl que deveria ser colocada acima da mesa principal. Encontrou numa loja da Rua
Dizengoff, onde encontrou um papel sintético, tipo pergaminho, que parecia genuíno e deu-
se ao preciosismo de levá-lo para análise no Instituto de Padrões. Só sossegou quando lhe
garantiram que o papel poderia durar alguns séculos. Obteve fotografias em tamanho
pequeno de Herzl e a maior de todas, em bom estado, carecia no seu entender de
imponência. Assim, mandou fazer uma grande molduranegra de modo a aumentar a
percepção visual da fotografia.
O pergaminho contendo o texto da declaração estava nas mãos de Sharef no escritório da
entidade Keren Kayemet, em Tel Aviv, de onde ele providenciava táxis para os líderes
sionistas que deveriam comparecer à cerimônia. Só se esqueceu dele mesmo e da mulher
que o acompanhava.
Os dois ficaram isolados no meio de uma rua e sem a menor chance de obter uma condução.
Aflito, procurou um policial e pediu-lhe que parasse um táxi. Um motorista obedeceu, mas
se recusou a transportar o casal: “Desculpe, mas eu tenho que estar em casa às quatro
horas para ouvir no rádio a declaração da Independência”. Ao que Sharef respondeu: “Se
você não nos levar até o Museu não vai ouvir nada porque a declaração está aqui comigo”.
O taxista partiu em disparada e, como sempre, nessas horas os contratempos se acumulam.
Por causa do excesso de velocidade, um policial mandou o táxi parar e já ia aplicar a multa
quando Sharef se deu conta da poderosa realidade que Eretz Israel estava vivendo naquele
momento: “Os ingleses foram embora e aqui ainda não há um governo. Quem vai cobrar
essa multa?”
Pouco antes das quatro da tarde, dezenas de automóveis começaram a afluir ao Museu,
com prioridade para os signatários da declaração, entregue por Sharef a Ben Gurion, o
último a chegar, acompanhado da mulher, Paula. Mostrava impetuoso vigor a caminho de
62 aos de idade, a serem completados em outubro. Foi saudado por aplausos das pessoas
junto ao Museu. Por causa do sol forte e dos flashes dos fotógrafos, Paula tropeçou na
escada e caiu, machucando a vista. Por isso passou todo o tempo da cerimônia com um
copo de água gelada na mão e nele mergulhando um lenço que, em seguida, levava ao olho
direito. Às 16 horas em ponto, Ben Gurion começou a ler a declaração. Foram 17 minutos
no decorrer dos quais leu 979 palavras no idioma hebraico. Em seguida, chamou o rabino
Yehuda Fishman, de 74 anos, trazido de Jerusalém para Tel Aviv, num pequeno avião,
porque a estrada entre as duas cidades já estava bloqueada pelo exército da Jordânia. O
rabino recitou, embargado pela emoção: “Bendito seja D’us, Rei do Universo, que nos
manteve, nos conduziu e nos trouxe até este dia”.
Finda a oração, Ben Gurion anunciou o primeiro decreto que seria emitido pelo novo país:
estava anulado o White Paper, o documento de 1939 que impedia a entrada de judeus na
sua própria terra. Tinha acabado de renascer, com plena soberania, o Estado de Israel,
pátria dos judeus. As manifestações de júbilo exalavam por todo o país, mas Ben Gurion
sequer sorria. Avaliava o débil potencial militar de que a nova nação dispunha e cedia ao
pessimismo. À noite, em casa, disse para Paula: “Sou um consternado entre os exultantes”.
Em seus 70 anos de vida, entre conflitos menores e nem por isso desprezíveis, Israel
enfrentou duas grandes guerras que traumatizaram o país: a dos Seis Dias, em 1967, e a
do Yom Kipur, em 1973. Sobre a Guerra dos Seis Dias circulam dezenas de livros e milhares
de ensaios, entrevistas e reportagens. Há uma corrente de analistas, jornalistas e escritores
que sustentam que este conflito mudou o perfil sociológico do país, na medida em que os
israelenses tomados pela euforia da vitória em três frentes de batalhas e em tão pouco
tempo, passaram a se superestimar e até mesmo a cultivar arrogância. É pouca verdade.
Cheguei a Israel no sétimo dia da guerra, no primeiro voo que partiu de Paris para Tel Aviv.
Presenciei, sim, grandes manifestações de alegria dos soldados que voltavam para suas
casas nos mais diversos veículos militares. Vi bandeiras de Israel ornamentando fachadas,
janelas e varandas em Tel Aviv e Jerusalém. Porém, também vi os jornais com dezenas de
páginas de anúncios fúnebres, nos quais mulheres choravam as mortes de maridos, pais
choravam as mortes de filhos e filhos choravam as mortes de pais. Vi, também, o país inteiro
angustiado com o pidion shvuim, o resgate dos prisioneiros de guerra. O povo judeu de
Israel não havia perdido seu senso de humanidade e solidariedade.
Fiz a cobertura jornalística da Guerra do Yom Kipur, que praticamente acompanhei desde o
início, tendo permanecido, então, 40 dias em Israel. Como Ariel Sharon, general de carreira
e depois primeiro-ministro, ainda é uma personalidade controvertida, as paixões ideológicas,
tanto dentro como fora de Israel, relutam em conferir-lhe o papel vital que ele desempenhou
naquele conflito. Não é exagero afirmar que Sharon salvou Israel de uma catástrofe, quando
atravessou com suas tropas o canal de Suez e se posicionou na direção do Cairo depois de
capturar a cidade egípcia de Suez. Aquele foi o momento de maior perigo vivido pelo Estado
de Israel desde a sua fundação.
A propósito da travessia do canal de Suez, tomei conhecimento dessa audaciosa manobra
militar através do porta-voz do exército com o qual mantinha bom relacionamento. Ele me
disse que não divulgaria a notícia de imediato porque ainda lhe faltavam dados mais
precisos e deu-me um conselho: “Vá até o Hospital Hadassah, em Jerusalém, para onde
foram levados soldados feridos na travessia. Conversando com eles, você terá uma boa
ideia de como tudo aconteceu”. Na mesma hora rumei para o Hadassah, onde fui recebido
pelo diretor de relações públicas que me abriu todas as portas para as entrevistas que
precisava fazer. Eu já estava para ir embora, por volta de seis horas da tarde, com pressa
para escrever a matéria, quando aquele funcionário me parou: “Espere um pouco porque o
Danny Kaye está vindo aqui para entreter os soldados”. O grande comediante e astro do
cinema chegou visivelmente cansado porque já tinha estado em outros hospitais, de norte
a sul do país, cumprindo a missão voluntária de levantar o moral dos militares fora de
combate. Minha adolescência tinha sido enriquecida pelos filmes estrelados por Danny Kaye
(verdadeiro nome Daniel Kaminsky nascido no Brooklyn em 1911) e foi emocionado que
apertei sua mão. Passei a percorrer o hospital ao seu lado. Ele parava junto a um leito onde
havia um soldado ferido e dizia: “Vou falar com teu médico para te mandar para casa depois
de amanhã”. Ou então, para outro: “Quando você tirar essa bandagem da cara vai ficar
irresistível”. Até que paramos junto a um leito no qual estava deitado um rapaz de uns vinte
anos, sem o braço direito e sem a metade da perna esquerda. No primeiro momento, era
uma visão tão dolorosa, que o Danny Kaye não soube o que dizer. Foi o jovem quem falou:
“Danny Kaye, que grande surpresa! Você é um artista que eu adoro! Desculpe, mas sou
obrigado a lhe dar a mão esquerda”.
Zevi Ghivelder é escritor e jornalista