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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE QUÍMICA

QUÍMICA ORGÂNICA EXPERIMENTAL II


QO622
ARMÁRIO:
34 - A

Projeto 02:
PREPARAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO CLORIDRATO DE GLICOSAMINA A
PARTIR DA CASCA DE CAMARÃO OU EXOESQUELETO DE CIGARRAS

Professores:
Cátia Ornelas Megiatto (coordenadora)
Julio Cezar Pastre
Carolyne Brustolin Braga
Auxiliares didáticos:
Michel Chaves (PED B)
Renan de Souza Galaverna (PED C)
Alunos:
Ariel Yukio Kinoshita (154713)
Letícia Guedin Verratti (156256)

Data do experimento:
06, 13 e 20 nov. 2017

Campinas
2S 2017
1. INTRODUÇÃO

A ciência cada vez mais preza pelo emprego de fontes renováveis, o uso de
polímeros naturais para aplicações diversificadas tem sido de fundamental importância para
os avanços da ciência por apresentarem inúmeras vantagens, tais como a sua fácil
obtenção e o fato de serem biodegradáveis [1].
Um polímero natural que tem apresentado grande interesse comercial em razão das
possibilidades de sua aplicação é a quitina. A quitina, descrita pela primeira vez em 1811 na
França por Braconnot, é um dos polissacarídeos mais abundantes da natureza, é insolúvel,
linear e encontra-se presente nos exoesqueleto de crustáceos, insetos, artrópodes e na
parede celular de alguns fungos [2], [3].
A fonte de sua obtenção vem essencialmente de resíduos, sobretudo de indústrias
pesqueiras que descartam entre outros resíduos sólidos, cascas de camarão contendo
apreciáveis quantidades desse biopolímero, dessa maneira o que poderia contribuir para a
poluição ambiental, acaba por poder ser reaproveitado na indústria, no Brasil cerca de 35
mil toneladas de rejeitos são produzidos anualmente considerando apenas o
processamento de camarões [3], [4].
A quitina pode ser separada de outros componentes presentes nas cascas desses
animais através de processos químicos que basicamente podem ser descritos pelas etapas
de desmineralização e remoção de proteínas, ácidos graxos e corantes das carapaças com
soluções diluídas de HCl e NaOH, a quitina obtida, então, passa por um processo de
desacetilação, produzindo a quitosana [1].
A quitosana é um copolímero natural composto por unidades β-1,4 D-glucosamina
ligadas a resíduos de N-acetilglucosamina [2]. Sua estrutura é muito semelhante à celulose,
diferenciando-se somente nos grupos funcionais, na indústria a quitosana é largamente
utilizada nas áreas de agricultura (mecanismos defensivos e adubo para plantas),
tratamento de água (floculante para clarificação, remoção de íons metálicos), indústria de
cosméticos (esfoliante para a pele, creme dental) e biomédica (suturas cirúrgicas, implantes
dentários, reconstituição óssea, encapsulamento de materiais) [1].
A quitosana também é útil na obtenção do cloridrato de gliocasamina em que a partir
da quebra da ligação glicosídica na quitosana obtemos a glicosamina, amplamente
empregada em indústrias farmacêuticas no tratamento de osteoartrose.
2. OBJETIVOS
Sintetizar cloridrato de glicosamina à partir de resíduos orgânicos de cascas de
exoesqueleto de cigarras e então caracterizá-la à partir de espectroscopia de infravermelho,
espectrometria de massas e espectroscopia de RMN de 1​​ H

3. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL
Fora recolhido um volume de uma sacola de mercado de cascas de exoesqueleto de
cigarras encontrados em parques. No primeiro dia da prática cerca de 20 g das cascas
foram pesadas e transferidas em um erlenmeyer de 1000 mL, adicionou-se 700 mL de HCl
0,5 molar e a solução foi agitada por três horas e meia à temperatura ambiente para a
desmineralização. Em seguida filtrou-se e lavou-se o filtrado com água destilada, então o
produto foi secado e pesado para a determinação da porcentagem de minerais na casca.
As cascas desmineralizadas foram, então, transferidas num balão de fundo redondo de
1000 mL, adicionou-se 400 mL de NaOH 1 molar, e aqueceu-se a solução sob refluxo
durante duas horas para remover proteínas, lipídios e corantes, com o cuidado de não
deixar bolhas de surfactante formado subir ao condensador. Posteriormente as cascas
foram filtradas e lavadas com água destilada. Secou-se manualmente com papel
absorvente, anotou-se a massa final da quitina para o cálculo de balanço de massa e
transferiu-se o material para um béquer de 800 mL que foi coberto com insulfilm e
armazenado para a próxima aula.
Na segunda aula prática pesou-se cerca de 20 g de quitina bruta num balão de
fundo redondo de 500 mL, em seguida adicionou-se cerca de 80 mL de HCl concentrado
(37%). Foi então montado um sistema de refluxo fechado ligado à um frasco lavador com
escape de gases em uma solução de KOH 10% contida em um erlenmeyer para
neutralização do gás HCl. Aqueceu-se a solução por duas horas sob agitação e controle
térmico em torno de 90°C em banho de óleo, após este período foi adicionado 10 mL de
água destilada e 3 espátulas de carvão ativado e a solução foi termicamente controlada em
60°C por trinta minutos, então filtrou-se a mistura num erlenmeyer e foi adicionado 100 mL
de etanol lentamente na solução, o erlenmeyer fora identificado, tampado com insulfilm e
guardado em geladeira até a terceira e última aula.
Na terceira aula no erlenmeyer armazenado em geladeira ocorreu a cristalização do
produto, logo filtrou-se e secou-se os cristais em alto vácuo por cerca de uma hora,
pesou-se, calculou-se o rendimento, em seguida obteve-se os espectros de infravermelho e
uma amostra foi entregue aos técnicos do laboratório para análise de espectrometria de
massas e espectroscopia de RMN de 1​​ H e 13​
​ C.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O primeiro processo químico ocorre na etapa de desmineralização. O mineral


majoritário presente nas cascas é o carbonato de cálcio (CaCO​3​), tal mineral ao
entrar em contato com o ácido clorídrico reage formando CaCl​2 ​que é solúvel em
água e ácido carbônico que se decompõe gerando água e gás carbônico, de acordo
com as seguintes equações:

CaCO​3(s)​ + 2 HCl​(aq)​ ⇋ CaCl​2(aq)​ + H​2​CO​3(aq)


H​2​CO​3(aq)​ → H​2​O​(l)​ + CO​2(g) ​ ​ Reação 01

O objetivo da adição de HCl 0,5 molar é a remoção dos minerais. A


quantidade média de minerais presente nas cascas de cigarras é de cerca de
40-55%. O peso inicial das cigarras foi de 20,0 g. Realizando o cálculo do balanço
de massas utilizando a equação 01 (que mostra a porcentagem de massa que
permanece no recipiente), obtivemos cerca de 161,55% de acordo com a tabela 01.
massa f inal
%m = massa inicial
x100% ​ Equação 01

A alta porcentagem foi atribuída a adesão de água às cascas, uma vez que
foram pesadas ainda úmidas, dessa forma não consegue-se atribuir uma
porcentagem de minerais que é subtraída da massa inicial.
Logo após essa etapa realizou-se também a remoção de proteínas, corantes
e triglicerídeos a partir da adição de NaOH. A reação envolvida na etapa de
remoção de proteínas é hidrólise das ligações peptídicas conforme o mecanismo:

Figura 1. Mecanismo de reação de hidrólise de amidas.

Já no que diz respeito a remoção de triglicerídeos o mecanismo envolvido é o


seguinte:
Figura 2. Mecanismo de reação de saponificação.

A porcentagem de proteínas presente nas cascas em geral é de cerca de 25


a 40%. Efetuando os cálculos a partir da equação 01 determinou-se que cerca de
28,48 % constituíam a quantidade de proteínas, triglicerídeos e corantes.
Assim a porcentagem de quitina bruta presente é de 71,52% das massas da
casca.

Massa das cascas Massa dos Massa das proteínas,


secas minerais triglicerídeos e corantes.

(g) 20 (valor não 5,696


confiável)

% 100 161,55 28,48


Tabela 01: Massas e porcentagens inicial de cascas de cigarra e após as etapas de
desmineralização e remoção de proteínas, triglicerídeos e corantes.

A etapa posterior consiste na adição de HCl concentrado para efetuar a


desacetilação da molécula, transformando-a em quitosana, bem como a quebra da
ligação glicosídica a fim de se obter a glicosamina, de acordo com as reações:
Figura 3. Mecanismo de reação de hidrólise análoga à da ligação glicosídica.

Figura 4. Mecanismo de reação da hidrólise ácida de uma amida. (Processo de


desacetilação da glicosamina).

O que ocorre é que o oxigênio anomérico é protonado, como se trata de um


grupo acetal, quando esse oxigênio é protonado a presença de outro oxigênio
adjacente permite que a ligação glicosídica seja quebrada e através da ressonância
ocorre estabilização da carga positiva, após isso o ataque de uma molécula de água
ao carbono anomérico forma a hidroxila anomérica. No caso da desacetilação
ocorre a protonação do oxigênio da carbonila e em seguida ocorre um ataque da
molécula de água formando um intermediário tetraédrico que prossegue liberando
um grupo acetil.
Na última etapa com o sólido já formado em etanol, filtrou-se e pesou-se para
determinação do rendimento, o rendimento foi obtido sabendo-se que a massa
inicial de quitina pesada foi de 20,024 g a partir da seguinte equação:

massa obtida
Rendimento = massa teórica
• 100% ​Equação 02

O rendimento obtido foi de 16,95%.

Figura 5. Estrutura do cloridrato de glucosamina.

ANÁLISE DE ESPECTROS:

Os espectros obtidos a partir da análise de IV forneceu algumas bandas


características indicando a presença do produto formado:

V teórico V experimental Tipo

1000 - 1300 1032 Estiramento C-O Observado

3100 - 3650 3283 Estiramento OH Observado

1560 - 1640 1540 NH2 deformação Observado


angular

3200 - 3600 ~3340 (ombro) NH amina Observado

1630 - 1820 - Estiramento C=O Não observado

1080 - 1150 1095 C-O Alquil-Éter Observado


Tabela 2: Frequência de absorção da glicosamina
É notável que a leitura do espectro de IV nos diz que as ligações acetiladas
foram desfeitas, entretanto não é possível dizer apenas por essa análise se a
ligação glicosídica foi desfeita pois há uma banda identificada no trecho relativo a
ligações alquil-éter.
Sabendo que a fórmula molecular da glicosamina é C​6​H​13​NO​5 temos que esta
terá massa de 179,2 Da. A análise do espectro de massas nos dá um pico de
massa/carga 181,2 Da, o que pode ser atribuída a glicosamina protonada. Não há
outros picos de grande diferença de massa/carga indicando dímeros, trímeros ou
outros polímeros, portanto pode-se assumir que a ligação glicosídica fora
devidamente rompida.

Sabemos que a estrutura da glicosamina pode ser α ou β assim como


exemplificado abaixo:

α β
Figura 6. Estruturas α e β da glicosamina

Estas estruturas podem ser formadas e coexistir de acordo com os seguintes


mecanismos:

Figura 7. Reação da glicosamina com o meio ácido

Analisando os espectros de RMN temos os seguintes dados:


Atribuição Deslocamento Acoplamento Integral
químico (δH ppm) 1 J​CH (Hz)

αH​1 5,467 3,2 1,81


βH​1 4,966 8,4 1,30
Tabela 4 - Sinais dos espectros de RMN de 1H da glicosamina.

Pelos dados da tabela e a interpretação do espectro é possível notar que há


uma formação maior de α-glicosamina (58,20%) do que a estrutura β-glicosamina
(41,80%), isto se dá devido da estrutura β estar ​sin periplanar em relação ao
hidrogênio ligado ao carbono da amina, isso faz com que não haja uma
estabilização do orbital antiligante do vizinho e consequentemente seja menos
favorável, em contrapartida a estrutura α está em ​anti periplanar tem melhor
interação orbitalar e melhor estabilização do orbital antiligante fazendo que esta
estrutura seja a mais favorecida do ponto de vista energético.

4. CONCLUSÃO

O experimento nos deu uma grande profundidade no conhecimento de síntese e purificação


de substâncias, nos tornando mais familiarizados com diferentes escopos e procedimentos,
aprendemos como desmineralizar as cascas empregando ácido clorídrico diluído, como
remover proteínas e triglicerídeos com hidróxido de sódio e como romper a cadeia
polimérica nas ligações glicosídicas e desacetilar amidas. As análises apontam todas para o
sucesso da síntese, especialmente o espectro de massas que nos deu um pico de
intensidade muito superior aos demais picos, assim como o RMN apontando para
diferenças estruturais e o IV nos mostrando que ligações foram rompidas.
É também válido ressaltar que este experimento nos ensinou mais sobre os
princípios da química verde, sendo que foi usado como reagentes resíduos de biomassa
que não teria finalidade alguma no meio ambiente, mas é importante atentar que no quesito
de quantidade de descarte líquido gerado esta prática está fora do escopo da química
verde.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] ​http://www2.ufcg.edu.br/revista-remap/index.php/REMAP/article/viewFile/46/81​ Acesso


em 22 nov. 2017
[2]​http://repositorio.ufpe.br/bitstream/handle/123456789/10238/Tese%20Thatiana%20Stamf
ord-Arnaud.pdf?sequence=1&isAllowed=y​ Acesso em 22 nov. 2017
[3]​http://pelicano.ipen.br/PosG30/TextoCompleto/Ana%20Carolina%20Moreira%20Fonseca
_M.pdf​ Acesso em 23 nov. 2017
[4] ​https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/CAST/article/viewFile/1892/1725​ Acesso
em 23 nov. 2017