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CTCOM - ANÁLISE DO DISCURSO – Profa. Carolina Mandaji

HETEROGENEIDADE
O diálogo constitutivo do discurso remete a formações
ideológicas que, como crenças e aspirações ditadas pela
sociedade, produzem o tu que atravessa o eu. Esse tu,
presença inevitável na constituição do eu, orienta a
construção que o sujeito faz do mundo. Por isso, a
percepção de mundo de cada sujeito, discursivizada nos
textos, parece individual, mas é social. São vozes sociais,
em diálogo, essas que constituem heterogeneamente o
texto, assim ancorado historicamente e, por essa razão,
dito discurso.
Heterogeneidade MOSTRADA E MARCADA: discurso
direto, discurso indireto, aspas

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.
O outro mostrado; circunscrito a segmentos marcados
no discurso e no texto.
O outro citado; delimitado; relatado para que se
confirme o eu a partir do discurso e do texto.

 O outro no discurso será o interlocutor, caso a voz


seja reproduzida em discurso direto;
 O outro no discurso será o locutor, caso a voz citada
seja reproduzida em discurso indireto (perde o
estatuto de enunciação: mantem-se absorvida pela
voz do narrador que a reformula)
EXEMPLO: Trecho do texto “Não ceder para não perder”,
de autoria de Bertrand de Orleans e Bragança (Folha de
São Paulo, 09.08.2003, p. A3).
TEMÁTICA: questão da reforma agrária no Brasil,
alertando os fazendeiros a não ceder para não perder.

É sempre com saudade que recordo os anos de


minha infância, passados numa fazenda de café
no norte do Paraná. Lembro-me do ambiente
hospitaleiro e harmônico que lá reinava. Além do
chefe de nossa família, meu pai era, ao mesmo
tempo, um pai para todos e para cada um de seus
colonos e agregados. Minha mãe, apesar dos

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.
cuidados com seus 12 filhos, sentia-se na
obrigação de cumprir sua função social de
ministrar aulas de catecismo para os filhos de
seus empregados.

Procurar no enunciado o crivo avaliativo sob o qual o


mundo é construído é depreender o lugar social do
sujeito; é por meio da reconstrução de vozes que
habitam o discurso, recuperar o dialogismo ou a
heterogeneidade, ambos constitutivos do discurso.
 O mundo se legitima na cena da pacificação
aparente das contradições sociais; uma voz que
procura abafar a polêmica;
 Projeção de um tempo anterior ao momento da
enunciação: reinava, era, sentia-se (pretérito
imperfeito do indicativo);
 Temas do amor e do zelo, (família, colonos, senhor
de terras) sustentam o tempo da infância e
reproduzem relações sociais harmoniosas e dadas
como naturais historicamente;
 ambiente hospitaleiro e harmônico é discursivizado
com apoio na figura paternal do proprietário rural e
na figura da dedicada esposa, mãe dos 12 filhos,
mulher a que é sobreposto o traço da extrema
generosidade devido à catequização dos filhos dos
colonos, firma o espaço que, tal qual o tempo, é

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.
dado na harmonia transcendente porque respaldada
pela ilusória independência em relação a qualquer
construção social.
 Robustecem as figuras dos patrões generosos,
enquanto se ratifica um mundo bom, porque
perfeito, e perfeito, porque avesso a contradições.

Heterogeneidade MOSTRADA NÃO MARCADA: ironia,


discurso indireto livre, estilização, paródia
O outro diluído no discurso e no texto;
O outro imitado, captado, subvertido como estratégia.

 Parodiar é imitar e subverter um texto ou um


gênero;
 Estilizar é imitar e captar um texto ou um gênero;
EXEMPLO PARÓDIA
Epitáfio: 1. Inscrição sobre lápides tumulares ou
monumentos funerários. 2. a lápide contendo essa
inscrição. 3. enaltecimento, elogio breve a um morto.
Regras genéricas do epitáfio clássico, que tem como frase
emblemática Aqui jaz.

 A brevidade do período oracional.


 A associação do túmulo com a morada final.
 O túmulo dado como o espaço do aqui, ligado ao
tempo do agora.

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.
Verbete epitáfios, extraído da obra O melhor do mau
humor: uma antologia de citações venenosas, de Ruy
Castro (1999, p. 45).
1. E agora, vão rir do quê?
Chico Anísio
2. Enfim, magro.
Jô Soares.

No epitáfio emblemático, Aqui jaz, há um tom de voz


de seriedade e de contenção de um modo de dizer.
Nos epitáfios apresentados, instala-se o efeito de
deboche, diante do texto de referência.

EXEMPLO ESTELIZAÇÃO
Fazer um texto à maneira de.... ou à moda de..., sem que
haja efeito de inadequação de tons de voz entre texto
imitado e texto que imita.
Chama-se soneto um poema de forma fixa: possui
quatorze versos simétricos; esses versos são distribuídos
em dois quartetos e dois tercetos; pode ter rimas ricas
(palavras de classes gramaticais diferentes).
Feijão à João Ubaldo
Na única exceção deste volume,

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.
Aqui vai um soneto em rima rica
que com muito prazer agora assume
o saber do ermitão de Itaparica.

Cozinhe n’água e sal todo o feijão,


Escorra bem os grãos feitos ao dente.
Alho, cebola, o seco camarão
no dendê são dourados lentamente.

Despejar o feijão no refogado


e ajuntar mais um pouco de dendê
até que fique tudo besuntado.

Agora vem um toque bem maneiro:


misture o camarão fresco e você
vai dar um vivo ao povo brasileiro.

A receita culinária foi feita à maneira de um soneto.


Imitou e captou as regras genéricas da composição
poética escolhida, a fim de estabelecer relação
intertextual, por meio da convergências de vozes. Um
tom de voz imperativo se impõe por meio da
regularidade de comandos. Tais ordens, mantêm para o
autor da receita, o estilo do gênero soneto.

Fonte: DISCINI, Norma. A comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2012.