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Steil, Carlos Alberto; Toniol, Rodrigo.

EVAN EVANS-PRITCHARD (1902—


1973) In: orgs. Everardo Rocha e Marina Frid. Os Antropólogos. De Edward
Tylor a Pierre Clastres. Rio de Janeiros: Vozes, 2015.

EVAN EVANS-PRITCHARD (1902—1973)


Carlos Alberto Steil
∗∗
Rodrigo Toniol

Vida e Obra

O reconhecimento da influência de Edward Evans-Pritchard na constituição da


antropologia moderna fez dele um dos autores mais emblemáticos da prosa
etnográfica. Em continuidade com a sistematização do método do trabalho de campo,
proposta por Bronislaw Malinowski, Evans-Pritchard acrescenta sua contribuição
tanto em termos da sua aplicação empírica nos contextos africanos que pesquisou
quanto da reflexão sobre a própria sociedade britânica. A clareza de seu texto
etnográfico e as questões filosóficas que levanta a partir de seus dados empíricos
tornaram suas monografias um verdadeiro acontecimento na história da antropologia
social. A leitura de suas principais obras: Os Nuer e Bruxaria, oráculos e magia entre
os Azande, torna-se, ao lado de Argonautas do Pacífico Ocidental de Malinowski, um
rito de iniciação necessário para todos aqueles que desejam aprender antropologia.
Assim, seu lugar no contexto da antropologia do século XX transcende os campos da
religião ou da política, uma vez que suas obras se consolidaram como modelos de
descrição e de organização da narrativa etnográfica para toda a antropologia social.
Nascido em 1902, em Crowborough, uma pequena cidade do distrito de
Sussex, na Inglaterra, Evans-Pritchard era filho de um pastor anglicano. Aos dezenove
anos, começou seus estudos em história moderna no Exeter College, na Universidade


Doutor em Antropologia Social. Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Email:
steil.carlosalberto@gmail.com
∗∗
Doutorando em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Email:
rodrigo.toniol@gmail.com
de Oxford, onde foi especialmente influenciado Robert Marret, sucessor de Edward
Tylor na cadeira de antropologia em Oxford e um dos fundadores da Sociedade
Antropológica de Oxford (Gaillard, 2003). Marett foi, durante a década de 1920, um
“amigo e conselheiro” de Evans-Pritchard e o responsável por sua opção pela
antropologia (Evans-Pritchard, 1950:118). Foi ele quem introduziu Evans-Pritchard
no debate antropológico sobre moral primitiva e as origens da religião e da magia, e
também quem o aconselhou a participar dos seminários de antropologia na London
School of Economics (LSE), onde conheceu Charles Gabriel Seligman e Bronislaw
Malinowski.
Seligman veio a ser o orientador da tese de doutorado de Evans-Pritchard,
exercendo uma influência significativa na sua formação como antropólogo. Embora
tenha ficado na sombra da relevância que Malinowski obteve como fundador da
antropologia moderna e como sistematizador do trabalho de campo, Seligman foi
fundamental não apenas para a introdução de Evans-Pritchard no método etnográfico,
como também para toda a geração de antropólogos britânicos da década de 1920.
Neste sentido, ele foi pioneiro na orientação de monografias baseadas em experiências
de longa permanência entre as populações estudadas. Em 1898 e 1899 Seligman
participou, como médico patologista e antropólogo, da Cambridge University Torres
Straits Expedition, que marcou, de modo emblemático, a primeira geração de
antropólogos ingleses. Essa experiência entre os grupos da Nova Guiné resultou em
seu livro The Melanesians of British New Guinea, publicado em 1910. Em suas
pesquisas posteriores, apesar de seguir interessado na análise de sociedades primitivas
da Oceania, mudou seu lócus de investigação para a África, inaugurando, em 1909,
uma série de trabalhos de campo no Sudão.
Ao lado de Seligman, foi marcante a influência de Malinowski na formação de
Evans-Pritchard durante o período que esteve na LSE. Como afirma Firth,
Malinowski não apenas elevou o método do trabalho de campo a uma teoria, como
também lecionou, nas décadas de 1920 e 1930, para quase todos os antropólogos
formados na Inglaterra. Evans-Pritchard frequentou os seminários de Malinowski no
decorrer do ano de 1925, sendo um dos poucos graduados do grupo. Hortense
Powdermaker, uma sindicalista norte americana que esteve na LSE naquele período
escreveu:
Durante o meu primeiro ano na LSE, só havia três estudantes
graduados cursando antropologia. Os dois primeiros foram E.E.
Evans-Pritchard e Raymond Firth. Isaac Schapera veio no segundo
ano e logo se nos juntaram Audrey Richards, Edith Clarke, o
falecido Jack Dilberg, Camila Wedgwood, Gordon e Elizabeth
Brown. Fortes vínculos pessoais se desenvolveram entre nós e com
Malinowski; era uma espécie de família com as ambivalências
habituais. O ambiente era na mais pura tradição europeia: um
mestre e seus alunos, alguns de acordo e outros em oposição.
(Powdermarker apud Kuper,1978: 88).

No ano seguinte, em 1926, Evans-Pritchard foi para a África, para fazer


trabalho de campo no Sudão anglo-egípcio. Foi nesse período que teve o primeiro
contato com os Azande, população sobre a qual escreveu sua tese, defendida em 1927,
intitulada The social organization of the Azande of the Bahr-el-Ghazel province of the
anglo-egyptian Sudan. Em 1928, ele publicou um de seus primeiros textos sobre
magia entre os Azande, um tema que o acompanharia durante toda a sua carreira. Em
The Dance (Evans-Pritchard, 1928) ele comparou seu material de campo entre os
Azande com os dados apresentados por Malinowski sobre os Trobriand, mostrando
que as funções e concepções de magia diferem de acordo com as estruturas sociais
(Gaillard, 2004: 145). Após ter sido contratado temporariamente pela LSE para atuar
no departamento de Antropologia foi para o Egito, onde foi professor por dois anos
(1932-1934) na Universidade do Cairo. No período seguinte, junto com os trabalhos
de campo que seguia realizando no Sudão, Congo e Quênia, transferiu-se para o
Instituto de Antropologia Social da Universidade de Oxford, criado por Radcliffe-
Brown.
Na década de 1930 o funcionalismo representado por Malinowski perdia
força, enquanto o estrutural-funcionalismo liderado Radcliffe-Brown por ganhava
visibilidade e deslocava o centro de produção antropológica da LSE para Oxford.1
Seguindo essa tendência mais geral, Evans-Pritchard aproxima-se de Radcliffe-Brown
e afasta-se de Malinowski. Foi neste período que ele faz sua viagem ao Sul do Sudão
para pesquisar os Nuer, uma população que promovera diversas insurgências contra o
governo colonial inglês. Além das importantes monografias resultantes dessa
pesquisa, a escolha dos Nuer como uma população de interesse etnológico demarca
um divisor de águas na antropologia da época, na medida em que, com os estudos na

1
Autores como Adam Kuper exploraram pormenorizadamente a relação entre os trabalhos de
Malinowski e os de Radcliffe-Brown, destacando as diferenças entre o funcionalismo de um e
o estrutural-funcionalismo de outro (Kuper, 1978).
África, os antropólogos deixaram de privilegiar os grupos isolados, “primitivos”, e
passaram se interessar pelas “sociedades em transição”, diretamente interpeladas pela
ação colonial.
Em 1937, seu interesse pela magia Azande resultou na publicação de uma de
suas principais obras, Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande (2005). Nesta
etnografia seminal e de consequências duradouras para o desenvolvimento da
antropologia da religião, filosofia da ciência e psicologia da crença, Evans-Pritchard,
se debruça sobre a identificação do propósito epistemológico do recurso à bruxaria
como explicação de infortúnios. Como comenta Viveiros de Castro, sua investigação
sobre o sentido da bruxaria, dos oráculos e da magia na sociedade Azande

(...) busca não as causas eficientes dos infortúnios, mas as razões


suficientes; não a física da causalidade objetivas, mas a política da
intencionalidade subjetiva; não o fenômeno e o conceito, mas o
evento e o sentido. É a este livro que a antropologia deve uma de
suas principais contribuições ao pensamento contemporâneo, a
saber, a constatação de que há muito mais bruxaria no céu e na terra
do que supõe a vã burocracia da razão (Viveiros de Castro, 2004: 7).

Em 1940 Evans-Pritchard publicou outros dois livros centrais em sua


trajetória, Os Nuer (1978) e African Political Systems (1955), esse último organizado
junto com Meyer Fortes. Essas obras colocam em destaque o reconhecimento de que
as tribos e nações que ocupavam vastas extensões territoriais da África colonial
dispunham de dispositivos políticos e de controle social distintos daqueles descritos
pelos etnólogos que se ocuparam de populações insulares na Oceania. Isto é, tratava-
se de chamar a atenção para o fato que não são apenas os Estados-Nação exercem
controle político sobre sua população, mas que mesmo sociedades “sem Estado”
possuem suas formas de organização e controle social. Em sua etnografia sobre os
Nuer, por exemplo, Evans-Ptrichard apresentou uma sociedade que, ao estruturar seu
sistema político em linhagens e clãs, prescindia de um poder centralizador, do Estado
(Pacheco de Oliveira, 1987:65). A análise da política dessas populações por parte do
antropólogo está relacionada com uma demanda do próprio governo colonial que
enfrentava dificuldades na administração de suas colônias africanas.
Na década de 1940, sobretudo em sua primeira metade, Evans-Pritchard
trabalhou como consultor da administração militar do governo britânico atuando em
diversas regiões (Gaillard, 2004). Em 1945 tornou-se professor em Cambridge e em
1946 sucedeu Radcliffe-Brown na cadeira de antropologia em Oxford. Em 1950 foi
professor na Universidade de Chicago e em 1957 trabalhou no Center for Advanced
Studies in Behavioral Sciences, na Universidade de Standford. Em 1951 e 1956
publicou outro dois livros baseados em seu trabalho de campo entre os Nuer, Kinship
and Marriage Among the Nuer e Nuer Religion, respectivamente. Em 1970
aposentou-se em Oxford, um ano depois foi nomeado Sir e em 1973 faleceu.
A crítica antropológica parece já ter nos acostumado a identificar alguns
autores com certos quadros de pensamento. Esse é o caso de Evans-Pritchard com o
funcionalismo. Embora algumas de suas obras possam aproximá-lo do conjunto de
referências que caracterizou esta corrente de pensamento no campo da antropologia,
sua reflexão teórica e metodológica transcende a posição funcionalista não somente
por sua concepção, mas, sobretudo, por seu diálogo e incorporação do pensamento de
autores que se situam fora do funcionalismo britânico que foi dominante no período
de formação e atuação profissional de Evans-Pritchard. Conforme assinalou Otávio
Velho, o próprio Evans-Pritchard protestou contra a pronta associação de sua obra
com o funcionalismo:

O chamado método funcionalista era muito vago e escorregadio para


persistir, e também por demais tingido pelo pragmatismo e pela
teleologia. Dependia excessivamente de uma analogia biológica um
tanto frágil; e pouco foi feito em matéria de pesquisa comparativa
para apoiar conclusões retiradas de estudos específicos – na verdade,
os estudos comparativos estavam se tornando quase obsoletos.
(Evans-Pritchard apud Velho, 1995:118)

No auge de um paradigma que privilegiava as relações sociais, Evans-Pritchard


escreveu um livro sobre como os Azande pensam (Giumbelli, 2006: 264). Assim, se o
funcionalismo privilegiou as instituições e as estruturas empíricas como a origem do
pensamento do pensamento, Evans-Pritchard faz um importante deslocamento para o
pensamento, mostrando a plausibilidade da “filosofia natural [Azande], por meio da
qual explicam para si mesmos as relações entre os homens e o infortúnio, e um meio
rápido e estereotipado de reação aos eventos funestos” (Evans-Pritchard, 2005: 49).
Conceitos destacados

Um autor se torna clássico numa área do conhecimento quando sua contribuição passa
a compor o repertório de conceitos e procedimentos metodológicos como um
patrimônio comum e inescapável para a comunidade de crença e de discurso que
congrega os seus profissionais. Assim, ao apresentar Evans-Pritchard destacamos de
sua contribuição alguns conceitos e procedimentos que pavimentaram o caminho dos
antropólogos que o sucederam até os dias de hoje. A sua principal contribuição diz
respeito ao método etnográfico que, em continuidade ao trabalho de Malinowski e de
Radcliffe-Brown, consolidou o lugar da antropologia moderna entre as ciências
humanas. As outras situam-se em três campos conceituais: o da religião, com
destaque para os noções de bruxaria e magia; o da política, onde as sociedades
africanas são estudadas como modelos estruturais de organização e controle social
fora do Estado; e os conceitos de tempo e espaço como estruturantes da etnografia.

Sobre o método etnográfico

Assim como Malinowski, a contribuição mais importante de Evans-Pritchard


à antropologia refere-se à reflexão e aplicação do método etnográfico a contextos
empíricos de observação de campo. Neste sentido, Evans-Pritchard faz da descrição
etnográfica o lugar por excelência da abstração, de modo que o trabalho de campo
torna-se necessariamente uma reflexão teórica. Como afirma Adam Kuper, seus textos
monográficos devem ser compreendidos no contexto de um esforço consciente para
desenvolver uma abstração estrutural na análise etnográfica (Kuper, 1978: 89).
Evans-Pritchard lista três fases ou níveis de abstração que comporiam o
método etnográfico. No primeiro nível, o antropólogo busca apreender as
características significativas de uma cultura ou tradição e traduzi-la para a sua própria
cultura. Na segunda fase, intenta, através da análise, decodificar as formas ou
estruturas subjacentes de uma sociedade ou cultura. Essa estrutura, no entanto, não
está ao alcance da vista, mas só é acessível mediante uma série de abstrações, ainda
que derivada da análise do comportamento observado, é produto do trabalho de
imaginação do próprio antropólogo. Ao relacionar logicamente essas observações
entre si de forma que venham a compor um modelo, torna-se possível ver a sociedade
em seus elementos essenciais, como um todo (Evans-Pritchard, 1962: 23).
Finalmente, na terceira fase, o antropólogo compara, implícita ou explicitamente, as
estruturas sociais de diferentes sociedades.

Sobre religião

Em Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (2005), Evans-Pritchard


consegue mostrar o enorme descompasso entre a religião como um quadro de
referência institucional e político e o sistema de crenças partilhado por uma
comunidade mais extensa, que existe sem referência direta a estas formas
institucionais. Esse reconhecimento, no entanto, não resulta numa leitura reducionista
que tomaria as representações sociais como simples reflexos de uma determinação
econômica ou utilitarista. Ao contrário, toda a sua argumentação vai no sentido
inverso, rompendo com uma perspectiva compartimentada da vida social que acaba
hierarquizando os diversos níveis da sua estrutura ou dividindo-a em diferentes
campos de produção de sentidos.
Sobre a bruxaria, Evans-Pritchard diz que os Azande acreditam que ela é
transmitida por herança e se apresenta como uma substância real, localizada nos
corpos dos bruxos, que pode ser identificada, se necessário, em exames post-mortem.
Até o momento da dissecação do cadáver, porém, não se pode ter certeza se a pessoa
realmente era um bruxo. A bruxaria também pode ser latente, de forma que a pessoa
pode ser um bruxo sem ter consciência disso. Além da relação com essa substância
material, a bruxaria também está associada a infortúnios familiares e práticas
maléficas.
O poder dos bruxos para fazer o mal, no entanto, não opera à distância, o que
faz com que eles sejam sempre procurados entre os vizinhos. Também não opera entre
aqueles que ocupam posições políticas diferenciadas na sociedade Azande, de modo
que um superior nunca pode ser acusado de prática de bruxaria por alguém que está
numa posição inferior na hierarquia social. A bruxaria não apenas explica o
infortúnio, mas também provê os meios para neutralizá-lo ou mudar o curso de sua
ação. Evans-Pritchard mostra que em termos sociais, a bruxaria é a causa mais
relevante, visto que é a única que não apenas determina o comportamento social, mas
também permite a intervenção das pessoas. As causas físicas e naturais, estão para
além da ação humana e da determinação social.
Tendo sofrido um infortúnio, consulta-se um feiticeiro, que procura identificar
o bruxo, geralmente com a ajuda do consulente. Os feiticeiros são pessoas comuns
que possuem algum conhecimento especial sobre certos remédios, mas não são
totalmente confiáveis. Por isso, os Azande preferem consultar os oráculos, que são
geralmente controlados pelos chefes políticos. Entre os oráculos, o mais importante é
o oráculo do veneno. Seu procedimento consiste em dar um veneno especial à galinha
e fazer uma pergunta que será respondida pela morte ou pela vida da ave. Entre os
Azande, os oráculos são usados muito mais para regular as atividades cotidianas dos
membros da sua sociedade do que para prever o futuro, como acontecia entre os
romanos.
A reflexão de Evans-Pritchard sobre a bruxaria leva-o a estabelecer uma
diferença mais geral entre o modo de operar do pensamento acadêmico, orientado
pelo ideal conceitual aristotélico, e senso prático que predomina no sistema de
comunicação dos Azande. Como ele afirma:

Na verdade os Azande experimentam sentimentos, mais que ideias


sobre a bruxaria, pois seus conceitos intelectuais sobre ela são
fracos, e eles sabem mais o que fazer quando atacados por ela do
que como explicá-la. A resposta é a ação, não a análise (Evans-
Prithcard, 2005: 60-61)

A outra prática comum que faz parte do sistema religioso dos Azande é a
magia, que pode ser usada para se obter saúde ou para fazer vingança. Evans-
Pritchard observa que os remédios usados pelos mágicos e feiticeiros nem sempre são
eficazes. A maioria deles são meios místicos para combater doenças físicas. Quanto
ao uso da magia para vingança, o primeiro procedimento ritual consiste em encontrar
o bruxo, para em seguida usar os meios místicos para provocar a sua morte. A
vingança mágica é agressiva, mas ela apenas mata os malfeitores, de forma que é vista
pelos Azande como essencialmente justa. Pode haver o mal mágico, usado para
prejudicar pessoas que não causaram prejuízos a outros, mas este uso da magia,
segundo os Azande, está restrito aos feiticeiros (Steil, 2002) .
Para os Azande, a diferença entre bruxo e feiticeiro é que enquanto o primeiro
tem um poder inato para fazer o mal, o segundo usa remédios e magias para alcançar
seus objetivos. Mas isto não se constitui numa distinção vital, pois ambos são vistos
como inimigos e perigosos. Bruxaria e feitiçaria estão em oposição entre si, mas
juntas estão em oposição à “boa magia”. Em suma, na visão dos Azande, bruxaria,
feitiçaria, oráculo e magia estão interligados num único processo. E, como escreve
Evans-Pritchard: “A morte evoca a noção de bruxaria; os oráculos são consultados
para determinar o curso da vingança; a magia é feita para neutralizar a causa; os
oráculos decidem quando o mágico deve executar a ação contra a vingança; e, uma
vez que o procedimento mágico terminou, o remédio é destruído (Evans-Pritchard,
2005: 544).

A política

Evans-Pritchard avança na crítica liberal2 que faz ver os “primitivos” como


“gente como a gente” e encaminha-se para uma análise que permite simultaneamente
perceber a perspectiva oposta, do “nós como eles” (Velho, 1995:122). Esse
movimento, que em Bruxaria, oráculos e magia o permitiu dessubstancializar o
conceito de religião como um mediador universal, o conduziu em Os Nuer e em
African Political System a ampliar o marco do entendimento sobre o que seja o
“político” tanto para a antropologia como para a filosofia política. A identificação dos
limites das análises filosóficas sobre o tema e, ao mesmo tempo, indicação das
contribuições da antropologia – sobretudo a partir do trabalho de campo – para o
estudo da política aparece de modo explícito na introdução de African Political
System escrita por Meyer Forte e Evans-Pritchard.

Nossa opinião é que as teorias dos filósofos políticos não nos têm
ajudado em compreender as sociedades que temos investigado. (…).
A razão principal para isso é que as conclusões dessas teorias não
costumam estar formuladas com base em comportamentos
observados, ou não são suscetíveis de serem contrastadas mediante
este critério. A filosofia política tem se ocupado fundamentalmente
do que deve ser, de como os homens deveriam viver e qual tipo de
governo deveriam ter, e não de quais são os costumes e instituições
políticas. (…) Cremos falar por todos os antropólogos sociais quando
dizemos que devemos aspirar encontrar e explicar as uniformidades
que existem entre essas instituições assim com suas
interdependências com outros elementos da organização social.
(Fortes; Evans-Pritchard: 1979: 87-88)


2
Fazemos referência aqui a relação entre o funcionalismo e o liberalismo já apontada por
outros autores como Mary Douglas: “A responsabilidade em proteger e em pregar a tolerância
encontrava ampla ressonância. Mostrar que as crenças em bruxaria desempenhavam um papel
construtivo em um sistema social em funcionamento tem sido uma maneira de levar adiante
essa responsabilidade” (Douglas apud Velho, 1995:118).
Embora preserve a ideia de um domínio do politico, Evans-Prtichard assinala
que é preciso as variações do político em diferentes sistemas políticos e, no seu
interior, em relação com outros domínios sociais. Enfim, o político não é uma
prerrogativa dos Estado-nações que se constituem com governo centralizado, mas, ao
contrário, pode ser observado em outras formas de organização social. Localizar as
variações do político no mapa das sociedades africanas e descrever as formas pelas
quais estas sociedades mantém a sua coesão e constroem a representação de si como
uma unidade tribal ou societária, é um dos objetivos centrais da obra do autor.
A monografia sobre os Nuer – uma extensa população às margens do rio Nilo,
que passara na década de 1930 por um programa colonial de pacificação – foi escrita
para mostrar como este povo cria e reproduz suas instituições políticas para garantir
sua existência num universo de diferenciações locais e disputas com outros grupos
sociais e em relação à presença do colonizador britânico que os interpela com sua
racionalidade administrativa desde fora da própria África (Evans-Pritchard, 1978: 7).
No entanto, como afirmou o autor, essas instituições, assim como todos os outros
âmbitos da vida dos Nuer, não podem ser compreendidas sem que se leve em conta o
meio ambiente e os modos de subsistência de modo que a busca pelo entendimento da
estrutura política Nuer conduziu o antropólogo àquilo que constitui seu próprio
“idioma social”, o pastoreio3. Assim, a descrição dos Nuer a partir de suas divisões
internas e em suas disputas com os povos vizinhos conduziram Evans-Pritchard a uma
sofisticada teoria das segmentações como uma lógica comum a todos os processos
sociais.
O maior segmento politico Nuer é a tribo. E cada tribo e sessão tribal possui
seus próprios pastos e reservas de água. Geralmente as cisões políticas relacionam-se
com a distribuição desses recursos naturais, cujas propriedades estão expressas em
termos de clãs e de linhagens (Evans-Pritchard, 1978: 25). O gado, por sua vez, é
propriedade das famílias, mas está à disposição apenas de seu chefe, que os distribui
na medida em que os filhos se casam. Quando uma filha se casa a família recebe um
dote em forma de gado. É dessa forma que bois e vacas também são aspectos centrais
para a definição do sistema de parentesco Nuer. Menos amplos que as tribos e mais

3
Tamanha é a centralidade do gado para a compreensão da vida dos Nuer que Evans-
Pritchard afirma: “seu idioma social [dos Nuer] é um idioma bovino” (Evans-Pritchard, 1978:
27).
abrangentes do que as famílias, os segmentos são centrais para se compreender o
modo como se estrutura a sociedade Nuer. Como sintetizou Marcio Goldman, a noção
de segmentaridade permite, na análise política elaborada por Evans-Pritchard,
compreender como a sociedade Nuer se mantém e se reproduz na ausência do Estado
(Goldman, 2001: 67). Sua conclusão é de que os segmentos desempenhariam as
funções das instituições nas sociedades com do Estado.
Quanto menor o segmento, mais compacto é seu território, mais contíguos
estão seus membros, mais variados e íntimos são seus laços sociais genéricos, e mais
forte, portanto é seu sentimento de unidade (Evans-Pritchard, 1978:154). O princípio
da segmentaridade só opera por oposição. Isto é, a conformação de um segmento está
diretamente associada com sua oposição a outro, análogo a ele. Para Evans-Pritchard,
um segmento tribal é um grupo político em oposição a outros segmentos do mesmo
tipo, e eles, em conjunto, formam uma tribo apenas quando relacionada a outras tribos
estrangeiras adjacentes, que formam parte do mesmo sistema político. Sem estas
relações pode-se atribuir muito pouco sentido aos conceitos de segmento tribal e de
tribo (Evans-Pritchard, 1978: 159). Os segmentos se concebem como unidades
independentes em relação a outros, mas também se fundem com outras unidades
segmentares em determinados momentos. Assim, fusões e fissões caracterizam o
movimento dessas divisões do sistema político Nuer que funciona, justamente, a partir
da complementariedade dessas tendências.

Tempo e espaço

Tempo e espaço são outras duas categorias centrais na monografia de Evans-


Pritchard. Segundo o autor, a noção de tempo Nuer deve ser partilhada em duas
ordens,: a primeira refere-se aos conceitos que refletem suas relações com o meio
ambiente, trata-se do tempo ecológico. A segunda diz respeito à ordem das relações
sociais, da cultura, é o tempo estrutural. O que está em jogo nesta distinção, como já
sugeriu Luís Roberto Cardoso de Oliveira (1993), é o reconhecimento da utilização
por parte dos Nuer de dois tipos de conceitos relativos ao tempo: um absoluto (o
tempo ecológico) e outro relativo (o tempo estrutural). Assim, quando se referem às
estações do ano, os Nuer operam com a noção de tempo ecológico, ao passo que
quando querem falar de eventos significativos para um segmento específico ou de
uma história comum que distingue os Nuer de outras sociedades adjacentes, eles
operam com a noção de tempo estrutural.
De modo semelhante às concepções de tempo, Evans-Pritchard sugere uma
divisão entre os conceitos de espaço que estabeleceria uma distinção conceitual entre
o espaço ecológico e espaço estrutural. O ecológico compreende aqueles aspectos
físicos e geográficos que caracterizam determinadas regiões. Já o espaço estrutural
carrega consigo a existência de clivagens sociais que dividem as tribos, as famílias e
os segmentos que habitam um determinado espaço ecológico. Assim, as distâncias
estruturais independem da proximidade ou mesmo da continuidade no território físico.
Ou seja, as distâncias estruturais são fundamentalmente marcadas por aproximação ou
distanciamento políticos entre tribos, famílias, segmentos de classe ou grupos de
idade. O tempo estrutural fundamenta as alianças políticas e as articulações entre os
diversos grupos sociais, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento destas
associações depende, necessariamente, das distâncias estruturais existente entre os
grupos (Oliveira, 1993: 12)

Considerações sobre o autor

Marilyn Strathern, em Fora de Contexto (2013 [1987]), sugere que as


inflexões epistemológicas da antropologia dizem respeito não somente à descoberta
de novas ideias, mas, sobretudo, à implementação de determinados dispositivos
ficcionais nas narrativas etnográficas. Para a autora, a ascensão ou queda das
tendências e correntes no âmbito do pensamento antropológico dependem menos do
conteúdo teórico dos conceitos em si, e mais da estratégia de elaboração do
argumento e estilo de escrita que o autor imprime ao texto. Assim, a força persuasiva
de um texto etnográfico depende fundamentalmente do lugar que ele vai ocupar no
horizonte da metanarrativa hegemônica, partilhada por uma determinada comunidade
de crença no campo científico. Nesse sentido, importa menos o modo como
determinadas ideias são sistematizadas e mais o reconhecimento que elas adquirem
dentro de contexto temporal e espacial que se apresenta em consonância com um
determinado espirito do tempo.
As etnografias de Evans-Pritchard podem ser consideradas entre as mais
emblemáticas obras de um tipo de prosa antropológica que se converteu num marco,
instituindo um verdadeiro hiato com aquilo que as antecedeu. Os Nuer, para o bem e
para o mal, é um dos dispositivos ficcionais mais poderosos da antropologia moderna.
Em seu favor, podemos dizer que seu estilo etnográfico estabeleceu um modelo
poderoso de persuasão que é seguido até hoje por aqueles que se aventuram pela
escrita etnográfica dentro ou fora dos limites da antropologia como ciência.
O lugar do Outro estabelecido na descrição etnográfica dos grupos africanos
estudados por Evans-Pritchard extrapolou os limites dos argumentos culturalistas
comuns e desestabilizou as compreensões que predominaram nas ciências sociais até
os anos de 1930. Escrever sobre o método etnográfico, a religião, a política, o tempo e
o espaço não se tornou mais possível sem referir-se aos textos de Evans-Pritchard. Os
procedimentos metodológicos explicitados em suas monografias e o estilo que ele
imprimiu em sua escrita foram fundamentais para que se produzisse o reconhecimento
do valor heurístico da etnografia dentro e para fora da antropologia.
A crítica pós-moderna, no entanto, apropriadamente tem chamado a atenção
para alguns limites do pensamento de Evans-Pritchard. Entre estes limites,
gostaríamos de destacar a ausência, nas suas etnografias da problematização do lugar
do antropólogo como mediador entre o contexto descrito e o contexto de seus leitores.
O que a antropologia moderna fez – e cuja etnografia sobre os Nuer talvez o tenha
feito de modo mais emblemático – foi descrever cada um dos grupos observados
como uma totalidade e articulada organicamente. Ao proceder desta maneira, o
contexto descrito emerge no texto etnográfico como uma realidade a priori, que
desconsidera o caráter ficcional da descrição que surge da imaginação do antropólogo.
Ao mesmo tempo, a estratégia argumentativa, imposta pelo contexto hegemônico da
época e pelo horizonte estabelecido pela metanarrativa dominante, ao impor a
descrição o grupo social como uma totalidade orgânica, esconde a presença do
colonizador europeu na pessoa do próprio antropólogo e dos administradores que
operam o sistema de dominação colonialista no local.
Em Writing Culture (1986) James Clifford e George Marcus chamam a
atenção para uma certa miragem que a etnografia de Evans-Pritchard teria produzido
sobre os Nuer. Ao apresenta-los como uma sociedade com seu sistema político e
simbólico coerente e singular, os Nuer acabaram sendo congelados no tempo e no
espaço como uma população a-temporal que habita o texto etnográfico. Assim, a
estratégia persuasiva impressa na descrição etnográfica, ao mesmo tempo que captura
os Nuer no presente eternizante do texto, também legitima a autoridade do
antropólogo que funda sua pesquisa a partir do argumento de autoridade de quem
pode afirmar: eu estive lá (Clifford, 1998: 27-29).
A narrativa científico-literária presente nas monografias de Evans-Pritchard,
sobretudo nos Nuer, seria exemplar, para James Clifford, de como o autor inglês
defende abertamente o poder da abstração científica para direcionar a pesquisa e
articular dados complexos.

O livro frequentemente se apresenta mais como um argumento do


que como uma descrição, mas não consistentemente: seu argumento
teórico é cercado por evocações interpretações habilmente narradas e
observadas sobre a vida dos Nuer. Estas passagens funcionam
retoricamente mais do que apenas “exemplificações”, pois
efetivamente envolvem o leitor na complexa subjetividade da
observação participante. (Clifford, 1998:31)

No entanto, pode-se afirmar que a própria possibilidade de elaboração de uma


crítica como a de Clifford citada acima, dirigida aos artifícios literários utilizados por
Evans-Pritchard só foram possíveis porque as suas monografias, escritas nas décadas
de 1930 e 1940, atravessaram o debate antropológico até os dias de hoje. A leitura
crítica de sua obra, portanto, só confirmam o lugar que Evans-Pritchard entre os
clássicos das ciências sociais, isso é, permanentemente novo, pronto para desencadear
novos rumos e acontecimentos no pensamento antropológico.

Principais obras do autor:

EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande.


Zahar, 2005.

EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Os Nuer: uma descrição do modo de


subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. Ed. Perspectiva, 1978.

FORTES, Meyer; Evans-Pritchard, Edward Evan. African political systems Oxford:


International African Institute, 1955.

EVANS-PRITCHARD, E.E. Essays in Social Anthropology. London, Faber & Faber,


1962.

Referências

EVANS-PRITCHARD, Edward E. "The dance." Africa. 446-462,1928.

EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande.


Zahar, 2005.
EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Os Nuer: uma descrição do modo de
subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. Ed. Perspectiva, 1978.

EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Social Anthropology: Past and Present the


Marett Lecture, 1950." Man 50. 118-124, 1950

EVANS-PRITCHARD, E.E. Essays in Social Anthropology. London, Faber & Faber,


1962.

FORTES, Meyer; Evans-Pritchard, Edward Evan. African political systems Oxford:


International African Institute, 1955.

GAILLARD, Gérald. The Routledge dictionary of anthropologists. Routledge, 2003.

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noção de tempo e espaço entre os Nuer." Série Antropologia 137, 1993.

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica. Antropologia e literatura no século


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VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Apresentação. In: Evans-Pritchard, Edward


Evan. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Zahar, 2005.