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À CÂMARA ESPECIAL DO EGRÉGIO CONSELHO DE CONTRIBUINTES DO

ESTADO DE MINAS GERAIS.

PTA n.º 01.000208312-83.

Acórdão nº 20.561/14/2ª Publicado

em 07.11.2014

FAZENDA PÚBLICA DE MINAS GERAIS , nos autos do processo em

epígrafe, vem, por seu advogado que a presente subscreve, apresentar

RECURSO DE REVISÃO

contra a r. decisão da 2ª Câmara de Julgamento deste E. Conselho, com fulcro no artigo

163, I, do RPTA, pelas razões de fato e de Direito a seguir aduzidas.

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I - DOS FATOS:

1. Trata-se de lançamento fiscal para exigência de ICMS e consectários em

razão de saídas de equipamentos opcionais (acessórios) relacionadas às operações de

venda de veículos destinados a deficientes físicos relativo a operações ocorridas no

período de agosto de 2012 a dezembro de 2012. O lançamento se deu em face da cláusula

primeira do Convênio ICMS n 37/07 e o disposto na alínea “a” do item 28 do Anexo I do

RICMS/02 que afasta a isenção do imposto na espécie de saídas supracitadas.

2. A E. 2ª Câmara do Conselho de Contribuintes, pelo voto de qualidade,

julgou procedente o lançamento, nos seguintes termos:

“Diante do exposto, ACORDA a 3ª Câmara de Julgamento do CC/MG, pelo voto de

qualidade, em julgar improcedente o lançamento. Vencidos, em parte, os

Conselheiros Ivana Maria de Almeida (Relatora) e José Luiz Drumond, que o

julgavam parcialmente procedente, nos termos da reformulação de credito tributário

efetuadas pelo Fisco às fls. 323/357. Designado relator o Conselheiro Bernardo

Motta Moreira (Revisor). Pela impugnante, sustentou oralmente o Dr. Marco Túlio

Fernandes Ibraim e, pela Fazenda Pública Estadual, o Dr. Célio Lopes Kalume.

Conforme art. 163, §2º do RPTA, esta decisão está sujeita a Recurso de Revisão,

interposto de ofício pela Câmara, ressalvado o disposto no § 4º do mesmo artigo.

Participaram do julgamento, além dos signatários, os Conselheiros vencidos. ”

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3. Entrementes, a r. decisão ora recorrida está a merecer reforma por parte

dessa E. CÂMARA ESPECIAL. Senão, vejamos.

II - DO DIREITO:

DA TEMPESTIVIDADE

4. A r. decisão ora recorrida foi publicada em 07 de novembro de 2014 (sexta-

feira), iniciando-se no primeiro dia útil subsequente, ou seja, em 10 de novembro de 2014

(segunda-feira), a contagem do prazo de 10 (dez) dias de que trata o art. 163 do RPTA,

razão pela qual o dies ad quem dar-se-ia em 19 de novembro de 2014 (quarta-feira).

Patente, portanto, a tempestividade do presente Recurso de Revisão apresentado nesta

data.

DO CABIMENTO DO RECURSO DE REVISÃO

5. O artigo 163, I, do RPTA apresenta a seguinte redação:

“Art. 163. Das decisões da Câmara de Julgamento cabe Recurso de Revisão para a

Câmara Especial, no prazo de 10 (dez) dias contados da intimação do acórdão,

mediante publicação da decisão no órgão oficial, nas seguintes hipóteses:

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I - quando a decisão da Câmara de Julgamento resultar de voto de qualidade

proferido pelo seu Presidente;”

Este é o caso dos autos, à medida que a decisão da 2ª Câmara foi prolatada

mediante voto de desempate de seu Presidente, como se infere da própria leitura do v.

acórdão, a ensejar, pois, o cabimento deste Recurso de Revisão.

DA NÃO APLICAÇÃO DA ISENÇÃO

6. O r. aresto recorrido refutou o fundamento da não aplicação da isenção do

ICMS nas saídas de equipamentos opcionais relacionados às operações de venda de

veículos para deficientes físicos, face ao disposto na alínea “a” do item 28 do Anexo I do

RICMS/02. Em síntese, o entendimento do r. acórdão para manter a isenção praticada

pela impugnante:

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I - Interpretou-se que a isenção do ICMS seria concedida nas operações de

saídas de veículos automotores destinados a portadores de deficiência física, caso as

operações também fossem amparadas por isenção do IPI, salientando-se que o termo

“operações” estaria fazendo referência tão somente à “saída de veículo automotor”

independentemente dos itens ou componentes que se fariam presentes no momento do

fato gerador. A isenção relativa ao ICMS não teria sido dada observado os mesmos

moldes da isenção prevista para o IPI, sendo este último utilizado apenas como referência

para a operação – saída de veículo automotor- que se queria isentar.

II – Alegou-se também que os regimes de isenções aplicáveis aos

respectivos tributos se diferem em outros pontos o que demonstraria a autonomia do

regime relativo ao ICMS, corroborando a isenção praticada pela impugnante.

III – Fez-se ainda referência à historicidade dos dispositivos relativos à

isenção que se discute, informando que em Convênios anteriores, havia de forma expressa

a exclusão dos acessórios opcionais em relação a Isenção do ICMS e que pelo fato de tal

dispositivo não ter se repetido nos convênios seguintes, ficaria consubstanciada a intenção

de se fazer incluir tais “acessórios opcionais” no referido benefício.

IV – Por fim, esclarece que a única condicionante aplicável à isenção seria

aquela trazida pela própria legislação mineira quanto ao limite do valor do veículo,

afastando-se assim, qualquer outra limitação ou interpretação.

7. Data máxima vênia, merece reparo todo o arcabouço argumentativo

apresentado no acórdão ora atacado.

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8. A interpretação que se pretende dar, pelo acórdão atacado, à conjugação da

Cláusula Primeira do Convênio ICMS 03/07, alínea “a” do item 28 do Anexo I do

RICMS/02 e o artigo 5º da Lei Federal nº 8.989, de 24 de fevereiro, de 1995, não alcança

nenhum respaldo hermenêutico.

O art. 155, § 2º, XII, “g”, da CF estabelece que cabe à lei complementar

regulamentar a forma como, mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal, as

isenções, os incentivos e os benefícios fiscais, em matéria de ICMS, serão concedidos e

revogados

Vejamos os dispositivos objeto de análise:

Convênio ICMS nº 03/07:

Concede isenção do ICMS nas saídas de veículos destinados a pessoas

portadoras de deficiência física.

CONVÊNIO

Cláusula primeira: Ficam isentas do ICMS as saídas internas e

interestaduais de veículo automotor novo com características

específicas para ser dirigido por motorista portador de deficiência

física, desde que as respectivas operações de saída sejam amparadas

por isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, nos

termos da legislação federal vigente. (grifos nossos)

Legislação Federal vigente no período:

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LEI Nº 8.989, DE 24 DE FEVEREIRO DE 1995

Dispõe sobre a Isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados -

IPI, na aquisição de automóveis para utilização no transporte

autônomo de passageiros, bem como por pessoas portadoras de

deficiência física, e dá outras providências.

Art. 1º - Ficam isentos do Imposto Sobre Produtos Industrializados –

IPI os automóveis de passageiros de fabricação nacional, equipados

com motor de cilindrada não superior a dois mil centímetros cúbicos,

de no mínimo quatro portas inclusive a de acesso ao bagageiro,

movidos a combustíveis de origem renovável ou sistema reversível de

combustão, quando adquiridos por:

(...)

IV – pessoas portadoras de deficiência física, visual, mental severa ou

profunda, ou autistas, diretamente ou por intermédio de seu

representante legal

(...)

Art. 5º- O imposto incidirá normalmente sobre quaisquer acessórios

opcionais que não sejam equipamentos originais do veículo adquirido.

(grifos nossos)

Em razão do Convênio celebrado o Estado de Minas Gerais regulamentou

a questão no Item 28 do Anexo I do RICMS/02

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Anexo I – Itens 1 a 34:

DAS ISENÇÕES

PARTE I

DAS HIPÓTESES DE ISENÇÃO

(a que se refere o artigo 6º deste regulamento)

(...)

Item 28 – Saída, em operação interna e interestadual, de veículo

automotor novo com características específicas para ser dirigido por

motorista portador de deficiência física, desde que:

a) as respectivas operações de saídas sejam amparadas por isenção do

Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

(...)

Ora Senhores, a interpretação que deve ser feita dos dispositivos e única

possível, há de se ressaltar, é aquela que se infere naturalmente da leitura da norma. Não

há lacuna a ser superada, nem extensão ou restrição a ser feita.

O Convênio celebrado é muito claro em estabelecer que somente haverá

isenção do ICMS para venda de veículos destinados a portadores de deficiência física se

tais operações forem amparadas por isenção do IPI, nos termos da legislação federal

vigente.

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Fica claro que se deve observar os termos da legislação federal vigente para

que seja aplicada a isenção do ICMS. E observar tais termos significa principalmente

observar limitações, restrições e exceções que possam estar positivadas em âmbito federal

em relação ao IPI e que deverão ser observadas pelos Estados signatários do convênio.

Não se pode interpretar de forma a ampliar qualquer tipo de isenção ou benefício.

Assim se aduz também de posicionamento importantíssimo para o tema do

colendo Superior Tribunal De Justiça:

TRIBUTÁRIO. ICMS. "DRAWBACK". MERCADORIA IMPORTADA COM

SUSPENSÃO DE PAGAMENTO DE IPI E IMPOSTO DE IMPORTACAO.

ISENÇÃO. DESCABIMENTO. CONVENIOS. N.36/89 E 09/90. A

IMPORTAÇÃO DE MERCADORIA SOB O REGIME "DRAWBACK" SO E

ISENTA DO ICMS QUANDO OCORRER A SUSPENSÃO DO

PAGAMENTO DOS IMPOSTOS FEDERAIS DE IMPORTAÇÃO E SOBRE

PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS, NÃO GOZANDO DESTE BENEFICIO

QUANDO A OPERAÇÃO FOR ISENTA DESTES TRIBUTOS (ITEM 1, DO

PARÁGRAFO ÚNICO, DA CLAUSULA PRIMEIRA DO CONVENIO

N.36/89) ENTENDIMENTO AMOLDA-SE A NORMA SEGUNDO A QUAL

DEVE-SE INTERPRETAR RESTRITIVAMENTE A LEGISLAÇÃO

CONCESSIVA DE FAVOR ISENCIONAL (ARTIGO 111, II DO CTN).

RECURSO IMPROVIDO, A UNANIMIDADE.

(STJ - REsp: 39607 SP 1993/0028289-1, Relator: Ministro

DEMÓCRITO REINALDO, Data de Julgamento: 07/12/1994, T1 -

PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJ 19.12.1994 p. 35268)

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O ilustre jurista Leandro Paulsen, elucida e delimita a função dos Convênios

e corrobora o entendimento que deve ser observado:

Dizem respeito a matérias reservadas constitucionalmente para

deliberação entre os Estados, hipótese em que, inclusive, condicionam

a validade das leis estaduais, do que é exemplo a autorização de

benefícios fiscais em matéria de ICMS (art. 155, § 2º, XII, g). Nesse

caso, não podem ser considerados propriamente normas

complementares das leis, porquanto têm, inclusive, ascendência sobre

elas.

De clareza solar a função limitadora dos convênios frente à posterior

regulamentação dos estados. Não pode o Estado inovar diante daquilo que foi debatido e

deliberado no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária. E pode menos ainda

estender, ampliar benefícios e concessões que não foram expressamente estabelecidas por

meio de convênio, sob pena de se violar a ordem constitucional tributária.

A exclusão dos acessórios opcionais do rol de isenção do ICMS é resultado

de subsunção legislativa em que pese haver o Convênio nº 03/07 celebrado com a

determinação de que se fosse observada e lei federal vigente no tocante ao IPI, sendo tal

legislação moduladora para a isenção do ICMS, e por fim a regulamentação estadual que

se mantém nos limites do Convênio sem nada acrescentar ou dispor contra.

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Aproveita-se a oportunidade para transcrever excerto do voto vencido,

proferido pelo i. Conselheira Dra. Ivana Maria de Almeida, que conclui de forma a não

deixar dúvidas sobre o melhor entendimento para questão:

Assim, tendo em vista que nem o referido convênio, nem a legislação

mineira mencionam expressamente a isenção do ICMS para os

acessórios opcionais adquiridos por pessoa portadora de deficiência

física, infere-se que esses itens não são alcançados pela isenção do

imposto, em decorrência da restrição imposta pela legislação federal

nas saídas de tais itens, ainda que aplicados em veículos destinados a

deficientes físicos.

9. Em relação ao argumento transcrito no acórdão quanto ao fato de o

Legislador Mineiro no tocante ao item 92 do Anexo I do RICMS/02, que trata da isenção

do ICMS referente aos taxistas, ter feito constar exclusão expressa aos acessórios que não

constituem os equipamentos originais dos veículos (item 92.1, alínea c) e que por isso a

ausência de tal vedação quanto aos veículos destinados aos deficientes físicos permitiria

a extensão da isenção aos componentes opcionais nesse caso, também não merece

prosperar.

Primeiro porque tal raciocínio ignora o fato de que cada item do RICMS

pode ter sido regulamentado com base em Convênios diferentes, que se valeram de

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premissas diferentes, vislumbrando beneficiários diferentes, o que naturalmente

ocasionará regulamentações adequadas ao convênio de origem.

Segundo porque, conforme bem apontado pela ilustre relatora Ivana Maria

de Almeida sem seu voto, o referido dispositivo mencionado, qual seja alínea “c” do

item 92.1 do RICMS/02, apenas transcreveu o que foi disposto no Convênio 38/01 em

sua cláusula terceira. Mesmo porque, na data em que o Convênio 38/01 fora celebrado,

o inciso III da Cláusula Primeira, que diz que “ as respectivas operações de saída sejam

amparadas por isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, nos termos da

legislação federal vigente” ainda não existia, pois só foi introduzido no ano de 2005

pelo Convênio 145.

Convênio ICMS nº 38/01:

Concede isenção do ICMS às operações internas e interestaduais com

automóveis de passageiros, para utilização como táxi.

CONVÊNIO

Cláusula primeira: Ficam isentas do ICMS as saídas internas e

interestaduais promovidas pelos estabelecimentos fabricantes ou por

seus revendedores autorizados, de automóveis novos de passageiros

equipados com motor de cilindrada não superior a dois mil

centímetros cúbicos (2.0l), quando destinados a motoristas

profissionais (taxistas), desde que, cumulativa e comprovadamente:

(...)

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Acrescido o inciso III à cláusula primeira pelo Conv. ICMS 104/05,

efeitos a partir de 24.10.05.

III - as respectivas operações de saída sejam amparadas por isenção

do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, nos termos da

legislação federal vigente.

(...)

Cláusula terceira: O benefício previsto neste Convênio não alcança os

acessórios opcionais, que não sejam equipamentos originais do

veículo adquirido.

Ou seja, quando da Celebração do Convênio 38/01 a única forma de se

afastar a isenção do ICMS sobre os acessórios opcionais era fazendo constar tal

determinação expressamente.

E não haveria porque, após a inclusão do inciso III da cláusula primeira,

se revogar um dispositivo que estaria recepcionado por tal alteração.

10. Dessa forma, resta cabalmente demonstrado que não é cabível a isenção

do ICMS nas saídas de acessórios aplicados em veículos destinados a deficientes físicos.

Devendo assim subsistir os lançamentos realizados por esta Secretaria.

11. Por corolário, sendo devidos os lançamentos, cabíveis também as Multas

de Revalidação (art.56, inciso II da lei nº6.763/75) e multa Isolada (art. 55, inciso

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XXXVII da lei nº6.763/75) pelos fundamentos já aduzidos na manifestação de

fls.125/143 que se quer foram combatidos pelo acórdão atacado, mas foram

devidamente corroborados pela i. Conselheira Ivana Maria de Almeida em seu voto.

III - DO PEDIDO:

12. Diante do exposto, é a presente para requerer a V. Sas. o conhecimento

e o provimento do presente recurso de revisão, a fim de que seja reformado o v.

acórdão recorrido, com vistas a reconhecer o lançamento de ICMS e consectários em

razão de saídas de equipamentos opcionais (acessórios) relacionadas às operações de

venda de veículos destinados a deficientes físicos relativo a operações ocorridas no

período de agosto de 2012 a dezembro de 2012.

Nestes Termos,

Pede Deferimento.

Belo Horizonte, 05 de maio de 2016

(data meramente figurativa, correspondente à data limite de entrega do referido

recurso na atividade aberta, não devendo ser considerada para fins de

tempestividade)

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