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INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS DE DEFESA (ISEDEF)

“Tenente General Armando Emílio Guebuza”

CURSO DE MESTRADO EM DIREITO E SEGURANÇA

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

Segurança Pública nos Bairros Suburbanos do Município da Matola: Estudo de Caso:


Bairro Bunhiça (2014-2016)

Machava, Fevereiro de 2018

1
INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS DE DEFESA
“Tenente-General Armando Emílio Guebuza”
Mestrado em Direito e Segurança

Segurança Pública nos Bairros Suburbanos do Município da Matola: Estudo de


Caso Bairro Bunhiça (2014-2016)

Dissertação de Mestrado submetida ao Instituto Superior de


Estudos de Defesa “Tenente-General Armando Emílio Guebuza”
como requisito parcial da conclusão do Mestrado em Direito e
Segurança

Elaborado por:

______________________
Castigo Silvestre Machaieie

Supervisor:

_______________________________________
Prof. Doutor Alsone Jorge Guambe
Coronel na Reserva

i
Comité do Júri

Presidente: Prpf. Doutora Shail Bala Singh, Instituto Superior de Estudos de Defesa
“Tenente-General Armando Emílio Guebuza”

Arguente: Prof. Doutor Samuel Luluva, Instituto Superior de Estudos de Defesa “Tenente-
General Armando Emílio Guebuza”

Supervisor: Prof. Doutor Alsone Jorge Guambe, Instituto Superior de Estudos de Defesa
“Tenente-General Armando Emílio Guebuza”

Segurança Pública nos Bairros Suburbanos do Município da Matola: Estudo de Caso Bairro
Bunhiça (2014-2016)

©2018, Castigo Silvestre Machaieie

ii
Dedicatória

Dedico este trabalho a toda minha família (meus pais-ausentes, minha esposa e todos meus
filhos) que foram e são o meu elemento moralizador.

iii
DECLARAÇÃO DE HONRA

Declaro por minha honra que este trabalho de dissertação de Mestrado nunca foi apresentado, na
sua essência, para a obtenção de qualquer grau e que ele constitui o resultado da minha
investigação pessoal, estando no texto e na bibliografia as fontes utilizadas.

Machava, 11 de Abril de 2018

___________________________________

(Castigo Silvestre Machaieie)

iv
Agradecimentos

Quero expressar o mais profundo sentimento de gratidão a todos que directa ou indirectamente
contribuíram para a elaboração deste trabalho.

Endereço a minha gratidão, em particular, ao meu supervisor Prof. Doutor Alsone Jorge Guambe
e o Co-Supervisor Dr. José Bento Aleixo, que de forma abnegada emprestaram a sua perícia no
assunto que me predispus a pesquisar com vista a garantir que o trabalho tivesse a qualidade
desejada.

Um especial agradecimento vai a todos os meus familiares que incansavelmente me ajudaram em


todos os momentos adversos do desenvolvimento deste trabalho e durante todo o meu percurso
académico, nomeadamente Luciana Mário Duarte Valia Machaieie-esposa, Saugineta Castigo
Machaieie-filha , Khanhisa Nhanhe Castigo Machaieie e Hélio Carmindo Cossa ( mano Hélio ).

A todos o meu mais sincero OBRIGADO!

v
Lista de Abreviaturas e Siglas

AMETRAMO - Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique

CRM - Constituição da República de Moçambique

DOSP - Direcção de Ordem e Segurança Pública

DIC - Direcção de Investigação Criminal

EPPM – Estabelecimento Penitenciário Provincial de Maputo

FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique

GCCC - Gabinete Central de Combate à Corrupção

MARP - Mecanismo Africano de Revisão de Pares

NIMD - Instituto Holandês para a Democracia

OMM - Organização da Mulher Moçambicana

PRM - Polícia da República de Moçambique

PPM - Polícia Popular de Moçambique

vi
Lista de Tabelas e Gráficos

Gráfico 1 : Causas da Criminalidade no Bairro Bunhiça……………….…………………….62

Gráfico 2 : Gráfico 2: Acções de Combate à Criminalidade…………………………………66

Tabela 1: Escala de Classificação da Criminalidade…………………………………………69

vii
Resumo

O presente trabalho busca abordar sobre «Segurança Pública nos Bairros Suburbanos do
Município da Matola: Estudo de caso Bairro Machava Bunhiça, no período que parte de 2014 a
2016», tendo como objectivo geral a análise do modelo de cooperação eficaz para a garantia da
segurança pública no Bairro Bunhiça. Para população alvo desta pesquisa teve-se como base
todo universo de famílias residentes no local de estudo (Bairro Bunhiça), do qual se definiu uma
amostra representativa composta por 10 famílias. As informações compiladas foram obtidas com
base na revisão do material bibliográfico e documental sobre o objecto em pesquisa, bem como a
realização de entrevista e aplicação de um questionário. Neste trabalho, foi possível demonstrar
que a segurança pública é uma questão candente na unidade territorial em estudo, visto que a
criminalidade e a violência não dão sossego aos cidadãos residentes nesta zona. Neste sentido,
estas pessoas veem-se inibidas de gozar os direitos e liberdades fundamentais que lhes são
garantidas pela Constituição da República de Moçambique. Assim, foi possível perceber que os
principais desafios que se colocam à garantia da segurança pública são o reforço da capacidade e
qualidade de actuação das autoridades policiais e o reforço da colaboração com a comunidade.

Palavras-chave: Direitos Fundamentais, Estado e Segurança Pública.

viii
Abstract

The present work seeks to address "Public Safety in the Suburban Districts of the Municipality of
Matola: Case Study of Machava Bunhiça District, from 2014 to 2016", with the general objective
of analyzing the model of effective cooperation to guarantee security in the Bunhiça
neighborhood. For the target population of this research was based on the universe of families
living in the study area (Bunhiça neighborhood), from which a representative sample composed
of 10 families. In this work, it was possible to demonstrate that public safety is a relevant issue in
the territorial unit under study, since crime and violence do not give the citizens residing in this
area any peace. In this sense, these people are inhibited from enjoying the fundamental rights and
freedoms guaranteed to them by the Constitution of the Republic of Mozambique. Thus, it was
possible to perceive that the main challenges to the guarantee of public safety are the
strengthening of the capacity and quality of action of the police authorities and the reinforcement
of the collaboration with the community.

Key Words: fundamental rights, State and public safety.

ix
ÍNDICE

Dedicatória.................................................................................................................... iii
DECLARAÇÃO DE HONRA .......................................................................................... iv
Agradecimentos ............................................................................................................ v
Lista de Abreviaturas e Siglas .................................................................................... vi
Lista de Tabelas e Gráficos ........................................................................................ vii
Resumo ....................................................................................................................... viii
Abstract......................................................................................................................... ix
INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1
Delimitação .................................................................................................................. 3
Problematização .......................................................................................................... 4
Justificativa .................................................................................................................. 6
Contextualização ......................................................................................................... 7
Objectivos da Pesquisa ............................................................................................... 9
Objectivo Geral ....................................................................................................... 9
1.5.2. Objectivos Específicos ............................................................................. 9
Perguntas de Pesquisa ................................................................................................ 9
Hipóteses ..................................................................... Error! Bookmark not defined.
Relevância do Estudo ................................................................................................ 10
Estrutura da Dissertação............................................................................................ 10
CAPÍTULO 1: REFERENCIAL TEÓRICO .................................................................... 12
1. Quadro Teórico ................................................................................................... 12
1.1 Policiamento Orientado pela Inteligência.............................................. 12
1.2 Policiamento Orientado para o Problema ............................................. 17
1.2.1 Teoria de Policiamento Comunitário ..................................................... 23
a) Contexto de Surgimento da Teoria ........................................................ 23
1.2.2 Teoria Contingencial ............................................................................... 26
1.2.3 Relação Entre as Teorias ........................................................................ 29
1.3 Quadro Conceptual .......................................................................................... 29
1.3.1 Direitos Fundamentais ............................................................................ 29

x
1.3.2 Estado....................................................................................................... 30
1.3.3 Patrulha .................................................................................................... 31
1.3.4 Policiamento Comunitário ...................................................................... 32
1.3.5 Segurança Humana ................................................................................. 33
1.3.6 Segurança Pública .................................................................................. 35
CAPÍTULO 2: METODOLOGIA .................................................................................... 37
2.1 Classificação da Pesquisa ............................................................................... 37
2.1.1 Quanto à Abordagem .............................................................................. 37
2.1.2 Quanto aos Objectivos............................................................................ 38
2.1.3 Quanto ao Procedimento ........................................................................ 38
2.1.4 Quanto à Natureza ................................................................................... 39
2.2 Paradigmas de Pesquisa e Métodos ................................................................ 40
2.3 População e Amostra .................................................................................... 42
2.4 Instrumentos de Recolha de Dados ............................................................. 43
Entrevista ................................................................................................. 44
2.5 Questões Éticas ............................................................................................... 48
2.6 Constrangimentos do Estudo ....................................................................... 49
CAPÍTULO 3: APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS .................. 50
3.1 Apresentação dos Respondentes ................................................................ 50
3.2 Causas da Criminalidade............................................................................... 50
3.3 Acções de Combate ao Crime e Violência ................................................... 54
3.4 Implicações da Criminalidade no Gozo dos Direitos e Liberdades
Fundamentais........................................................................................................... 56
3.4.1 Direitos e Liberdades Fundamentais em Moçambique ........................ 56
3.4.2 Livre Circulação de Pessoas e Bens ..................................................... 57
3.4.3 Sensação de Insegurança....................................................................... 57
3.5 Eficácia da Cooperação entre as Autoridades Policiais e a Comunidade 59
3.5.1 Modelo de Policiamento Alternativo ...................................................... 61
3.7 RECOMENDAÇÕES ....................................................................................... 67
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................ 68
APÊNDICES ................................................................................................................. 72

xi
INTRODUÇÃO

O presente trabalho debruça-se sobre o tema «Segurança Pública nos Bairros Suburbanos do
Município da Matola: Estudo de Caso Bairro Bunhiça (2014-2016)». Esta matéria assume-se
bastante relevante na medida em que está ligada a um dos fins da entidade estatal, que é a
integridade do seu povo, ou seja, a criação de condições que permitam o exercício desinibido das
actividades quotidianas dos cidadãos.

Com efeito, “a segurança pública constitui um elemento, através do qual o Estado desenvolve
acções com vista a garantir a ordem, a segurança e tranquilidade públicas” (Nhacuongue,
2011:26). Deste modo, conforme o art. 13º do Decreto nº27/99, de 24 de Maio, a acção estatal
intenta proteger as pessoas e bens, prevenir e reprimir a criminalidade e, ainda, contribuir para
assegurar o normal funcionamento das instituições públicas e privadas.

Sendo um elemento ligado ao fim do Estado, a Segurança Pública é salvaguardada ao nível da


Constituição da República de Moçambique (CRM) no nº1 do artigo 254 onde preconiza que “a
Polícia da República de Moçambique (PRM) em colaboração com outras instituições do Estado,
tem como função garantir à lei e ordem, a salvaguarda da segurança de pessoas e bens, a
tranquilidade pública, o respeito pelo Estado de Direito, Democrático e a observância estreita dos
Direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos”.

A PRM, segundo o art. 254º da CRM, é apartidária e tem a função de garantir a lei e ordem, a
salvaguarda da segurança de pessoas e bens, a tranquilidade pública, o respeito pelo Estado
Democrático e a observância estrita dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos,
colaborando com as demais instituições. Neste sentido, a sua actuação subordina-se à
Constituição e outra legislação e prossegue a Política de Defesa e Segurança, aprovada pela
Assembleia da República no dia 31 de Julho de 1997 e promulgada no dia 1 de Outubro do
mesmo ano (Lei 17/97).

No que tange a estrutura de organização e funcionamento, a PRM compreende unidades,


designadamente o Comando-Geral, os Comandos Provinciais, as Forças Especiais e de Reserva,
os Estabelecimentos de Ensino e subunidades, designadamente os Comandos Distritais, as
Esquadras, os Postos Policiais e os Destacamentos das Forças Especiais e de Reserva. Esta

1
estrutura de organização é apresentada no organograma ilustrado pela figura 1 (em anexo), em
consonância com o art. 1º do Decreto nº 27/99, de 24 de Maio.

O Comando-Geral é composto pelo próprio Comando, pelos Conselhos da PRM e de Ética e


Disciplina; pelas Direcções de Ordem e Segurança Pública, de Investigação criminal, de Pessoal
e Formação e de Logística e Finanças, bem como pelo Comando das Forças Especiais e de
Reserva, pelos Departamentos de Estudos, Informação e Plano; de Informação Interna e de
Relações Públicas, incluindo o Gabinete do Comandante e a Secretaria-Geral.

A Direcção de Ordem e Segurança Pública (DOSP), conforme o art. 13º do Decreto nº27/99, de
24 de Maio, é responsável pela prevenção e combate ao crime, pelo funcionamento normal das
instituições e circulação de pessoas e bens, pela patrulha, pela recepção de queixas e denúncias,
entre outras acções. Na prossecução destes objectivos, a DOSP coordena as actividades de
diversos Departamentos, incluindo o de Trânsito que zela pela segurança rodoviária.

A Direcção de Investigação Criminal (DIC), conforme o art. 14º do mesmo Decreto tem a missão
de investigar crimes e instruir os respectivos processos, sob a direcção do Ministério Público e o
Comando das Forças Especiais e de Reserva, por sua vez, tem a missão de intervir em situações
especiais de manutenção da ordem pública. De salientar que o sector aéreo encontra-se sob
alçada das FADM, através da Força Aérea, cabendo apenas à PRM coordenar com aquela e
outras entidades no âmbito da Política de Defesa e Segurança.

Destaca-se no excerto da CRM, acima referido, o facto de ser da responsabilidade da polícia a


garantia da segurança pública. No entanto, há uma clara alusão à necessidade de cooperação com
outras instituições públicas, bem como com a comunidade, para que este desiderato seja
alcançado. Assim, é preciso que a questão de segurança seja discutida e assumida como tarefa e
responsabilidade permanente de todos, sejam instituições públicas e a população em geral.
Entretanto, as autoridades moçambicanas governamentais estabelecem os padrões e limites para
a contribuição a ser dada pelos diversos actores sociais.

2
Delimitação Espacial

A segurança pública é um princípio constitucional que compete ao Governo, através da PRM,


garantir a protecção dos cidadãos e o pleno exercício das suas liberdades e direitos fundamentais.
Neste sentido, esta entidade pública tem como responsabilidade velar pela criação de um
ambiente social tranquilo e ordeiro à escala nacional.

Refira-se que este estudo tem como campo de pesquisa, isto é, o enfoque espacial, o Bairro
Bunhiça no Município da Matola. A escolha deste local está associada ao facto de se ter
verificado nos últimos meses uma onda crescente de crime violento, assolando a tranquilidade
dos residentes desta parcela territorial. O Bairro Bunhiça é representativo desta realidade, que é
verificada na maior parte dos Bairros suburbanos do Município da Matola, facto que é sustentado
pelas autoridades policiais, através do comandante da PRM ao nível da província de Maputo,
Aquilasse Manda, em uma entrevista prestada ao Jornal Notícias1, tendo apontado para o registo
de mais de 50 casos criminais só no primeiro semestre de 2016.

O Bairro Municipal de Bunhiça fica localizado no Posto Administrativo da Machava. Faz


fronteira com os bairros: Machava Sede, São Damanso, Socimol 15 e Tsalala. Possui uma
população estimada em 31.304 habitantes, distribuída em 72 quarteirões. Como a maioria dos
bairros da Matola, Bunhiça tem recebido nos últimos anos muita gente procurando espaços para
habitação e os serviços públicos existentes não satisfazem a procura. Por exemplo, os focos de
crime inquietam os munícipes locais, todavia, não existe no bairro, um posto policial, uma
esquadra, menos ainda. Só existe um sector policial que conta com sete agentes da PRM, é um
número obviamente insuficiente para as necessidades do bairro.

Para além da questão do posto policial, aponta-se a necessidade de se construir um posto de


saúde, mais salas de aulas porque existem 38 turmas que estudam ao relento na Escola Primária
Completa Bunhiça C. Estão disponíveis apenas três escolas primárias e uma secundária, o que
mais uma vez se mostra insuficiente para as necessidades desta unidade territorial.

1
http://www.jornalnoticias.co.mz/index.php/capital/52843-criminosos-criam-panico-no-bunhica.html. Consultado no
dia 10 de Fevereiro de 2017.

3
Delimitação Temporal

No que tange ao período de pesquisa, ou seja, os limites temporais, esta abarcou o intervalo
compreendido entre 2014-2016. A escolha deste horizonte temporal assenta no facto de ter sido
em 2014 que se começou a verificar uma ascensão no registo de casos de criminais
caracterizados por violência e alguma brutalidade no Município da Matola, sendo o Bairro
Bunhiça, um dos palcos destes actos. O ano 2016 representa o exacerbar do crime violento nesta
urbe, permitindo, ademais, colher dados mais actuais sobre esta realidade que mancha a capital
da província de Maputo.

Problematização

O fenómeno da violência e da criminalidade é extremamente complexo, multifacetado e


dinâmico, exigindo uma abordagem integrada, multi-sectorial, que envolva a sociedade como um
todo na busca de soluções efectivas e sustentáveis. Intervenções que accionem apenas as
instituições policiais ou de justiça criminal, desarticuladas, não oferecem resultados duráveis, até
porque o campo de acção destas instâncias sobre as possíveis causas do fenómeno é limitado
(Souza, 20112). Este facto é ilustrativo da ligação intrínseca que a questão da segurança pública
tem como elemento cooperação, seja esta institucional ou com a comunidade.

Refira-se, que os efeitos quotidianos da violência e da criminalidade são sentidos, em primeiro


lugar, pela comunidade e seus membros, seja sob a forma de eventos concretos, seja através da
“sensação de insegurança”. Para uma actuação preventiva, é preciso ouvir os actores locais, pelo
que a participação comunitária é fundamental para a consolidação de uma verdadeira política
pública de segurança (Idem.).

De acordo com o portal Voa Português 3 , nas grandes cidades moçambicanas bem como nos
Bairros urbanos e suburbanos, em particular, têm se ouvido relatos de ocorrências de actos
criminais violentos contra a população residente. Neste sentido, a ONG Open Society Initiative
for Southern Africa analisou o índice de criminalidade através de um inquérito realizado a 12 mil
pessoas das cidades de Maputo, Beira, Nampula e Matola. “Há uma percepção de que cerca de
2
https://www.cartacapital.com.br/sociedade/politica-de-seguranca-publica-grandes-desafios. Consultado no dia 10
de Dezembro de 2016.
3
http://www.voaportugues.com/a/mocambique-inseguranca-aumenta/1728270.html. Consultado no dia 12 de
Dezembro de 2016.

4
10 crimes violentos são cometidos por dia em cada um dos bairros das grandes cidades,
particularmente nas de Maputo, Matola, Beira e Nampula, os quais, por várias razões, não são
participados às autoridades formais de administração de justiça”, indica o estudo. Portanto, o
medo da violência, criminalidade e marginalidade perseguem de forma contínua os cidadãos, a
ponto de criar total sensação de insegurança.

A realidade acima descrita é vivenciada nos Bairros suburbanos do Município da Matola,


instalando-se um clima de terror. De acordo com o Jornal “O País”4 o Bairro Bunhiça é um dos
palcos dos assaltos perpetrados por criminosos que na calada da noite arrombam casas, roubam
bens, torturam os donos das propriedades, violam sexualmente entre outras barbaridades.
Este modus operandi criminal, deixa preocupados os agentes da Lei e Ordem de Moçambique,
pois a calma e tranquilidade públicas foram postas em causa. Porém, devido a percepção de
inoperância da polícia moçambicana, os moradores se organizaram em patrulhamentos
comunitários, onde durante a noite dispensam o sono, para que munidos de armas brancas façam
por si a vigilância.

No entanto, segundo o portal noticioso do Vaticano (News.va5), no meio desses patrulhamentos


comunitários, há supostos oportunistas, que fazem dessas operações populares, um momento
para agredirem pessoas inocentes, nalgumas vezes queimando-as com recurso a pneus. Esta
situação preocupa também a Polícia, pois as patrulhas podem ser feitas pelas comunidades, sem
no entanto, se recorrer a violência. Assim, evidenciam-se algumas fragilidades neste modelo de
policiamento, pela deficiente colaboração com as autoridades policiais.

De acordo com anteriormente exposto, põem-se evidentes as limitações das autoridades policiais
no cumprimento do comando constitucional referente à garantia da tranquilidade e ordem
públicas, o que se traduz em insegurança e coibição do exercício da liberdade de circulação de
pessoas e seus bens. Ademais, fica claro que o actual modelo de cooperação com a comunidade,
no âmbito do policiamento, não tem se mostrado eficaz. Deste modo, o presente estudo apresenta
a seguinte questão de partida:

4
http://opais.sapo.mz/index.php/sociedade/45-sociedade/40915-criminalidade-aterroriza-moradores-da-matola-.html.
Consultado no dia 20 de Janeiro de 2017.
5
http://www.news.va/pt/news/mocambique-criminalidade-violenta-no-maputo-e-na-m. Consultado no dia 20 de
Fevereiro de 2017.

5
Qual é o modelo de cooperação eficaz para a garantia da segurança pública no Município da
Matola?

Justificativa

A relevância do desenvolvimento da presente pesquisa tem um alicerce de cariz académico e


profissional. Do ponto de vista académico, o tema está fundado no particular interesse do autor
em sair do empirismo, dando sentido epistemológico aos factores associados à segurança pública
no Município da Matola. Ademais, esta pesquisa ao debruçar-se sobre uma problemática tão
actual como esta, revela a necessidade de produzir subsídios que contribuam para compreensão
da mesma e desse modo alargar as possibilidades de solução do problema.

No âmbito profissional, o interesse em desenvolver uma pesquisa sobre o tema proposto,


alargou-se, em grande medida, pelo facto de o autor ser membro das Forças de Defesa e
Segurança, querendo desta forma dar o seu contributo científico no combate à criminalidade e
garantia da Segurança Pública, que pode ser traduzida pelo gozo da liberdade de circulação dos
cidadãos, incluindo seus bens.

Importa referir ainda, que a solução desta problemática, interessa ao Governo, por um lado,
porque a garantia da segurança pública e da livre circulação de pessoas e bens é tarefa exclusiva
deste. Outrossim, cabe-lhe a função de salvaguarda das pessoas e bens e a observância estrita dos
direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. E por outro lado, interessa aos cidadãos que se
compreenda e solucione este problema por serem estes as principais vítimas dos violentos actos
criminais.

Importa referir que a questão da segurança pública está intimamente ligada ao dia-a-dia da
população do bairro Bunhiça pelo que a sua compreensão irá contribuir para melhoria das
condições de vida dos cidadãos. Assim, em caso de não identificação da resposta ao problema,
chegar-se-á a uma situação em que pode se deteriorar a situação dos cidadãos desta unidade
territorial da cidade da Matola, visto que com esta pesquisa pretende-se que haja um contributo
para o incremento da qualidade de vida das pessoas que residem neste local.

6
Contextualização

Segundo Borges (2014:11), a preocupação do Estado moçambicano com a criminalidade se


iniciou ainda na fase das transições políticas para a independência político-administrativa de
Moçambique. Mediante os Acordos de Lusaka, firmados entre as lideranças do movimento
revolucionário denominado Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e as autoridades
do governo colonial português, o combate à criminalidade figurou-se dentre as prioridades
estabelecidas na reconstrução do Estado pós-colonial que, no ponto 11 dos acordos, lançou as
bases para a constituição da primeira instituição pública – Corpo de Policia de Moçambique –
como garantia da ordem ainda em fase de transição à independência.

Na expectativa de constituir uma sociedade sem classes, em contraposição a anterior, o Estado


pós-colonial em construção adoptou o projecto socialista como forma de possibilitar a não
estratificação das relações entre os descolonizados a partir dos aspectos económicos, culturais,
raciais e étnico-tribais. Nesse contexto, o crime se assumiu como um problema social, originado
pelas desigualdades resultantes da profunda opressão, humilhação e exploração do homem pelo
homem gerado pelas sociedades colonizadoras que, para reproduzirem o capital, impunham a
hierarquização das relações sociais, dividindo ou inferiorizando os indivíduos de acordo com as
classes, raças. Certamente, predominava a crença de que num ambiente de solidariedade em que
prevalecesse a harmonia e igualdade entre os descolonizados existiria pouca motivação para o
cometimento de crimes (Idem.).

Os dados do período pós-colonial mostram uma relativa calma e harmonia ao nível dos vários
bairros da capital do país. Neste contexto, o êxito da polícia não dependeu da qualidade ou
quantidade dos recursos humanos e nem de sofisticados equipamentos para prossecução das
actividades de prevenção e repressão à delinquência, mas sim pela democratização ou
popularização do policiamento e vigilância (Maloa, 2015:22).

Nesse sentido, tal como afirma Bayley (2003:122), “fica claro que aumentar simplesmente a
quantidade de recursos humanos e equipamentos para as organizações policiais, pode não
corresponder necessariamente na redução do índice criminal e do sentimento de insegurança das

7
pessoas, ou ainda, melhoria da qualidade dos serviços prestados, pois a participação popular é
fundamental para prevenção da criminalidade”.

Importa referir que, os sinais de fracasso de determinadas propostas de policiamento e combate à


criminalidade eram apenas um sintoma de um conjunto de crises do projecto socialista de
Estado. As condições de vida deterioravam-se e multiplicavam-se os problemas sociais, impondo
a necessidade de uma série de mudanças que culminaram com a aprovação da nova constituição
em 1990, a qual lançava as bases para a estruturação de um Estado democrático e de direito,
agora centrado na economia de mercado (Idem.).

Na sequência destas mudanças políticas, e no interesse de adequar a realização da segurança


pública ao princípio da legalidade adoptada pela CRM de 1990, foi aprovada a Lei nº 19/92 de
31 de Dezembro, que cria a PRM em substituição da Polícia Popular de Moçambique (PPM). A
polícia continuava inserida no Ministério do Interior, mas, sob a direcção de um Comando Geral,
cuja actuação deveria se inspirar no princípio de imparcialidade, proporcionalidade no uso dos
meios, igualdade, justiça e todas as formas de protecção à dignidade da pessoa humana.

Gradativamente, assistiu-se à abordagem ao crime como um assunto de estrita responsabilidade


da polícia, ou dos demais órgãos da administração da justiça (Tribunais, Procuradorias, etc.) a ser
resolvido à luz da Lei, ou dos meios tecnológicos de dissuasão, vigilância e repressão das
condutas individuais que se opusessem a ordem jurídico-legal imposta pelo Estado democrático e
de direito. Com base nesse aspecto, a relação entre polícia e comunidade tão cedo começou a se
deteriorar por conta do crescimento de crimes violentos, que se registavam ainda no início da
década de 1990, tendo originado diversas manifestações populares, inicialmente pacíficas, em
desagrado com o serviço prestado pelas forças policiais, para enfrentar a delinquência (Borges,
2014:23).

A virada para o século XXI, marcado pela globalização, trouxe consigo novas realidades, entre
as quais o crescimento urbano. Assim, desde a última década vem se assistindo a uma tendência
de surgimento de novos Bairros nas principais cidades de Moçambique, sendo o município da
Matola um desses exemplos. Esses Bairros, na sua maioria tem sua origem na sequência de
calamidades naturais, requalificação das cidades e outros ainda surgiram na sequência de

8
ocupação de terras pelas populações oriundas das outras províncias às grandes cidades a procura
de melhores condições de vida.

A maioria dos Bairros suburbanos apresenta uma estrutura física desordenada, sem arruamento
planificado, sem energia eléctrica, água, mercados, unidades sanitárias e policiais. Isto significa
que o surgimento destes Bairros não é acompanhado pela criação de serviços essenciais ao gozo
pleno dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos que neles habitam (Maloa, 2011:45).
Assim, cria-se espaço para que elementos adversos, como o crime, tenham lugar, afectando a
vida destes residentes.

O Bairro Bunhiça figura na lista dos Bairros do Município da Matola que assume as
características anteriormente arroladas, sendo que os recorrentes casos criminais vitimando as
residências e os respectivos cidadãos marcam o quotidiano desta unidade territorial. Assim, esta
pesquisa pretende levar a cabo um estudo sobre a segurança pública com alcance no território do
Município da Matola, com vista a aferir o grau de eficácia das autoridades na garantia do gozo
das liberdades fundamentais.

Objectivos da Pesquisa

Objectivo Geral
 Analisar o modelo de cooperação eficaz para a garantia da segurança pública no
Bairro Bunhiça.

1.5.2. Objectivos Específicos


 Mapear as causas da criminalidade no Bairro Bunhiça.
 Identificar os modelos de policiamento adoptados para fazer frente à criminalidade no
Bairro Bunhiça.
 Descrever os modelos de cooperação eficazes para a garantia da segurança pública no
Bairro Bunhiça.

Perguntas de Pesquisa

 Quais são as causas da criminalidade no Bairro Bunhiça?

9
 Quais são os modelos de policiamento adoptados para fazer frente à criminalidade no
Bairro Bunhiça?
 Como identificar o modelo de cooperação eficaz para a garantia da segurança pública
no Bairro Bunhiça?

Relevância do Estudo

O presente estudo vai ajudar a conhecer a realidade física, económica e social do Bairro Bunhiça.
E, com base nessa informação que será recolhida, irá permitir a construção do conhecimento
científico e consequentemente abrirá espaço ou comando legal para garantir a segurança e o
pleno gozo de direitos dos cidadãos.

As notas vincadas na justificativa e nas hipóteses da pesquisa mostram a relevância e a


pertinência do presente estudo, pois não são poucas as vezes que ouvimos relatos de ocorrência
de crimes violentos caracterizados por assaltos a residências, violações de mulheres e crianças,
homicídios e furtos qualificados muitas das vezes sem intervenção dos órgãos competentes, por
motivos ainda desconhecidos.

Estrutura da Dissertação

A presente dissertação está dividida em quatro partes. A primeira é a Introdução, na qual


apresenta-se a delimitação da pesquisa no tempo e no espaço, a contextualização, a
problematização e a justificativa do tema. De seguida apresentam-se os objectivos (gerais e
específicos), questões de pesquisa e as hipóteses.

No primeiro capítulo é apresentado o referencial teórico, dividido em dois subcapítulos, no


primeiro dos quais se expõem as teorias que servem de suporte ao trabalho e no segundo
discutem-se conceitos-chave, buscando um suporte conceptual a partir de algumas teorias e
conceitos correlatos sobre a segurança pública. As teorias abordadas são as de policiamento
orientado pela inteligência, policiamento orientado para o problema, policiamento comunitário e
teoria contingencial. O estudo baseia-se nos conceitos de Estado, Direitos Fundamentais,
Segurança e Segurança Pública. O segundo capítulo refere-se às opções metodológicas seguidas
nas diferentes etapas de pesquisa. Tratando-se de um estudo de caso, optou-se por uma
metodologia qualitativa, tendo sido aplicados os seguintes instrumentos de recolha de dados:

10
inquéritos por entrevista e questionário e diário de campo. Também foram utilizadas as seguintes
técnicas de análise de dados: análise documental, análise de conteúdo e análise de dados
estatísticos. Neste capítulo fazemos referência às limitações enfrentadas ao longo do processo de
levantamento de dados.

O terceiro capítulo apresenta os resultados do trabalho empírico, que se desdobra em duas partes.
Na primeira parte a análise incide sobre as seguintes dimensões: caracterização da criminalidade
e as ameaças à segurança no município da Matola. Na segunda parte examina-se o papel das
instituições que actuam na garantia da segurança pública e sua interacção com a comunidade.

11
CAPÍTULO 1: REFERENCIAL TEÓRICO

Esta etapa do trabalho visa esclarecer o marco teórico no qual se alicerça o desenvolvimento da
pesquisa, bem como a discussão de conceitos chave para a mesma. A primeira parte é dominada
pela explicação do enquadramento teórico do tema da pesquisa e a segunda pela compreensão
dos conceitos que são fulcrais neste estudo.

1. Quadro Teórico

As teorias são muito importantes no processo de pesquisa científica. Elas proporcionam a


adequada definição de conceitos, bem como o estabelecimento de sistemas conceptuais; indicam
lacunas no conhecimento; Explicam, generalizam e sintetizam os conhecimentos e sugerem a
metodologia apropriada para a investigação (Trujillo, 1982 citado por Gil, 2008:18). Neste
sentido, esta pesquisa será alicerçada sobre as seguintes teorias: policiamento orientado pela
inteligência, teoria de policiamento orientado para o problema, teoria de policiamento
comunitário e teoria contingencial, as quais são consideradas as mais adequadas para a
compreensão do tema proposto.

1.1 Policiamento Orientado pela Inteligência

a) Contexto de Surgimento

O policiamento orientado à inteligência é um modelo de gerência e uma filosofia de gestão na


qual a análise de dados, a obtenção de informação e a geração de inteligência são essenciais para
um modelo objectivo de tomada de decisão que facilite a redução do crime. Sua adopção requer
esforço acordado por todas as partes envolvidas no policiamento, tais como os analistas,
operadores e altos dirigentes, (Broudeur 2002, p. 45).

No caso dos analistas, as informações devem fundamentar acções tácticas e estratégias, sejam
elas de dimensão operacional ou de longo prazo. Tratando-se dos operadores, é necessária a
colecta de dados bem estruturados e a obtenção de informação a fim de traçar análises

12
inteligentes com todas as informações em curso. Por fim, esse processo exige dos altos dirigentes
uma preparação para coordenar melhor os analistas e os operadores, agindo de modo a distribuir
recursos de acordo com as prioridades definidas a partir da utilização de inteligência na
planificação da acção policial.

O policiamento orientado pela inteligência tem seu enfoque no processo de colecta, análise e
disseminação de inteligência, cujo objectivo baseia-se nas estratégias e tácticas policiais a razão
de ser e acção eficiente baseado na inteligência, o método usado e a promoção do ciclo
inteligente da colecta, avaliação, exame e comparação, análise e disseminação.

Para Broudeur (2002, p. 53), “esse processo de experimentação operacional está desafiando as
crenças fundamentais e as atitudes policiais e gestores de suas organizações sobre o que constitui
um policiamento eficaz. É necessária a ocorrência de um treinamento para que a polícia
interprete a análise de produtos da análise criminal”. Assim, o modelo de policiamento voltado à
inteligência não pode ser implementado de forma eficaz sem um treinamento específico dos
gestores das organizações, a fim de que possam melhor compreender as informações e análises
apresentadas.

Por tal razão, o incremento da capacidade técnica dos analistas criminais é essencial nesse
processo, visto que informação depende de interpretação. Profissionais qualificados são os
responsáveis por isso. O modelo de policiamento orientado à inteligência (intelligence-led
policing) busca uma perspectiva diferenciada, baseada na análise de dados, na obtenção de
informação e geração de inteligência, a fim de instruir a tomada de decisão por parte dos gestores
das organizações policiais. Em razão dos recursos escassos, materiais e humanos, a utilização da
informação é básica à optimização da acção policial, razão pela qual o esforço em direcção à
reorientação da acção

b) Pressupostos

De acordo com o Capitão De Ladurantey (1994), “a expressão Inteligência pode ser entendida
como o conhecimento das condições passadas, presentes e projectadas para o futuro de uma
comunidade, em relação aos seus problemas potenciais e actividades criminais”. Assim como a
Inteligência pode não ser nada mais que uma informação confiável que alerta para um perigo

13
potencial, também pode ser o produto de um processo complexo envolvendo um julgamento bem
informado, um estado de coisas, ou um facto singular. O “processo de Inteligência” descreve o
tratamento dado a uma informação para que ela passe a ser útil para a actividade policial.

Já a Análise Criminal, conforme aponta o autor e docente policial Steven Gottlieb (1994, p.64)
(Programa Integrado de Prisão de Criminosos), tem a seguinte significação:

É um conjunto de processos sistemáticos direccionados para o provimento de informação oportuna


e pertinente sobre os padrões do crime e suas correlações de tendências, de modo a apoiar as áreas
operacional e administrativa na planificação e distribuição de recursos para prevenção e supressão
de actividades criminais, auxiliando o processo investigativo e aumentando o número de prisões e
esclarecimento de casos. Neste contexto, a análise criminal tem várias funções sectoriais na
organização policial, incluindo a distribuição do patrulhamento, operações especiais e de unidades
tácticas, investigações, planificação e pesquisa, prevenção criminal e serviços administrativos
(como orçamento e planificação de programas).

No contexto da Análise Criminal, a expressão padrão corresponde a uma característica da


ocorrência de um determinado delito, segundo a qual pelo menos uma mesma variável daquela
ocorrência se repete em outra, ou outras ocorrências ao longo do tempo (antes e/ou depois). A
categoria da variável repetida pode ser o dia da semana, hora, local, tipo de vítima, descrição do
autor, modus operandi ou outra variável qualquer da ocorrência sob análise, (Broudeur 2002, p.
110),

Já a tendência indica uma propensão quantitativa geral (aumento, estabilização ou diminuição)


de um fenómeno da segurança pública, por exemplo, as ocorrências de um delito específico. Tal
propensão deve ser verificada ao longo de uma área geográfica e série histórica extensas o
suficientemente para que a tendência possa ficar fielmente determinada.

A Inteligência e a Análise Criminal, enquanto instrumentos de produção de conhecimento,


igualmente colectam e processam dados, disseminando o conhecimento produzido sob a
denominação geral de informes, informação e apreciação. O sigilo é uma das características
comuns da Inteligência e da Análise, bem como vários outros comportamentos típicos da cultura
operacional da chamada actividade de Inteligência Humana, (Gottlieb 1994, p.39).

14
Para entender a Análise Criminal em sua articulação com a Inteligência, é necessário entendê-la
em um nível tipológico conceptual mais abrangente. É em tal nível topológico que ela está
estreitamente ligada ao metei da Inteligência de Estado, quando fica posicionada com outras três
espécies de análise: Análise de Inteligência propriamente dita, Análise de Operações e Análise
Investigativa. Gottlieb (1994, p.41), estabelece uma interessante correspondência de actividades
para cada tipo citado de análise:

Análise Criminal: quem está fazendo o quê contra quem?


Análise de Inteligência: quem está fazendo o quê junto com quem?
Análise de Operações: como a organização está utilizando seus recursos?
Análise Investigativa: por que alguém está fazendo tal coisa?

Segundo Gottlieb (1994, p. 70), para cada um dos tipos de análise acima existirão três processos
básicos de análise: táctica, estratégica e administrativa. Tais definições e conceitos são
instrumentais para a compreensão do que seja a Inteligência Policial e a Análise Criminal, em
sua associação germana com a metodologia da Inteligência de Estado, bem como para o
entendimento dos métodos de abordagem e procedimento para a construção de um conhecimento
específico sobre o crime, criminosos e questões conexas.

Mapa do Crime entende-se segundo a Revista Pretecção (2007) como sendo um projecto que
utiliza tecnologia geo-informacional para identificar as tendências de distribuição espacial e
temporal dos crimes violentos (homicídios, tentativas de homicídio, lesões corporais, latrocínios,
roubos, entre outros). Sabendo disso e partindo do pressuposto de que o sistema da violência se
desdobra temporalmente e espacialmente seguindo tendências diferenciadas para cada tipo de
crime, adoptou-se uma sistemática de representação dos dados que conjugou tabelas, gráficos e
mapas, produzidos no ambiente de trabalho do Sistema de Informação Geográfica, o que passou
a permitir ao usuário gerência e operacional a identificação de eventuais lógicas de incidência
criminal de maneira prática e optimizada.

A melhoria na optimização dos recursos da Segurança Pública, principalmente com foco nas
organizações policiais, de maneira a fornecer um serviço satisfatório à sociedade, só seria

15
possível com uma ferramenta moderna e abrangente que integrasse as diversas variáveis que
compõem o actual contexto da segurança no país, (Broudeur 2002, p. 89).

Este projecto tem por objectivo geral identificar os pontos onde ocorrem os incidentes criminais
no e em escala de detalhe, bem como, obter informações qualitativas e temporais acerca destes
crimes, como por exemplo: género, faixa etária, cor da cútis e outras características das vítimas e
envolvidos nas ocorrências policiais, como também mês, dia da semana e hora quando o facto
criminoso ocorreu. Além disso, o Mapa do Crime compromete-se a satisfazer os seguintes
objectivos específicos (Broudeur 2002, p. 29).

 Identificar o dinamismo espacial e temporal da criminalidade por bairro. Isso permite


que as organizações envolvidas na segurança pública possam identificar os locais,
horários e tipificar os crimes de maior incidência com maior precisão, optimizando as
respostas preventivas e/ou repressivas;
 A adopção da unidade espacial de análise bairro se deu de acordo com a ideia trabalhada
por Cano e Santos (2001). Segundo eles, quanto menores as áreas pesquisadas;
 Mais eficazes e optimizadas tendem a ser as estratégias de controlo e combate à
violência;
 Mapeamento da criminalidade por área de circunscrição e responsabilidade das
organizações policiais. Esse mapeamento oferece uma gama de possibilidades de estudos
estatísticos, focados de acordo com as necessidades proeminentes de cada organização
policial;
 Alocação eficiente dos recursos das organizações policiais de acordo com o mapeamento
da criminalidade. Este objectivo tem como vertente principal a alocação dos recursos das
organizações policiais, no local certo, na hora certa, possibilitando o acompanhamento
da criminalidade;
 Mapeamento dos agentes criminosos, ou seja, os indivíduos responsáveis pelo
cometimento dos crimes. Esta técnica, de carácter inovador, permite identificar os locais
de residência e actuação dos criminosos. Dessa forma, por meio da utilização de
ferramentas SIG’s, que identificam-se espacialmente as redes criminais que recobrem o
espaço urbano.

16
c) Aplicabilidade da Teoria

Esta teoria de policiamento chama a necessidade de uma gestão integrada de todos os gestores e
actores da polícia especificamente aos Ramos da Policia de Investigação Criminal com o da
Ordem Pública, enfatiza a necessidade de maior atenção no investimento dos Recursos Humanos
na vertente de formação, bem como o uso dos suportes das Tecnologias de Informação e
Comunicação. Tendo em conta estes aspectos, a questão da segurança pública no Município da
Matola exige esta articulação entre os diferentes ramos da instituição policial, bem como o
incremento da qualidade técnica dos quadros desta corporação, como forma de garantir que haja
maior eficácia nas operações. Ademais, a componente das Tecnologias de Informação e
Comunicação mostra-se incontornável na abordagem aos eventos actuais.

1.2 Policiamento Orientado para o Problema

a) Contexto do Surgimento

A preocupação em orientar a acção policial para os problemas da comunidade emerge pela


primeira vez, de forma estruturada e fundamentada em 1979, no artigo ¨Improving policing¨
publicado por Goldstein (1990, p. 29) professor da Faculdade de Direito da Universidade de
Wisconsin. Ele introduziu o conceito de policiamento orientado para o problema, no qual propõe
reformas voltadas ao aprimoramento da capacidade policial de identificar, analisar e resolver os
problemas dos cidadãos, o que constitui a própria razão de ser da existência da polícia em uma
sociedade democrática.

Na visão do autor, os expressivos avanços conquistados pela polícia americana ao longo do


século XX, nos campos da competência administrativa e operacional, da formação profissional e
da modernização tecnológica, nem sempre resultaram em melhoria dos serviços prestados à
população: “A polícia parece ter alcançado um nível no qual o maior objectivo aspirado é a
busca da competência administrativa”, (Goldstein 1979, p. 96).

17
Goldstein (1979, p: 99) usa a imagem de uma empresa de ônibus que, de tão preocupada com a
pontualidade, deixa de parar nos pontos de passageiros. Chega no horário, mas não cumpre a sua
função primordial.

Segundo o autor, os aprimoramentos nos mecanismos de gestão e organização policiais passaram


a ser um fim em si mesmos, desvinculados de seu impacto na prestação dos serviços, objectivo
essencial de um órgão público. A essa inversão de prioridades, típica das burocracias, Goldstein
(1979, p: 98) denominou “síndrome dos meios sobre os fins”.

No livro Problem-oriented-policing Goldstein (1990, p: 101), aprofunda as bases teóricas do


novo modelo, propondo uma compreensão mais abrangente e realista da função policial, por
meio do reconhecimento da discricionariedade e das dimensões não criminais do trabalho da
polícia. O objectivo é fazer os policiais concentrarem seus esforços na resolução dos problemas
que constatam no exercício quotidiano de suas funções. Pressuposto necessário para esse
projecto de reformas é o reconhecimento do alto grau de complexidade inerente ao exercício da
função policial em uma sociedade democrática e pluralista.

O “policiamento orientado ao problema” propõe assim uma profunda reavaliação da função


policial, pela qual a polícia, em coordenação com outras instituições do Estado, do mercado e da
sociedade civil, mobiliza seus recursos materiais e intelectuais para:

(a) Identificação,

(b) Análise,

(c) Solução dos problemas, criminais ou não, de um território

Trata-se, explica Goldstein (1990, p. 99), de uma transição do modelo de policiamento


tradicional, reactivo, orientado para o controle de incidentes, “meros sintomas de problemas”,
para um modelo preventivo, orientado para a solução dos problemas em si. O primeiro passo no
policiamento orientado ao problema consiste em ir além do tratamento de incidentes. O modelo
requer o reconhecimento de que eles são frequentemente meros sintomas de problemas. Isso leva
a polícia a duas direcções:

18
 O reconhecimento das relações entre incidentes (semelhança de condutas, local, pessoas
envolvidas entre outros);

 Um interesse mais aprofundado em incidentes, buscando reconhecer algumas das


condições e dos factores que os originaram, (Goldstein 1990, p. 33).

A noção do que constitui um problema de uma perspectiva policial expande-se


consideravelmente para abranger o “incrível leque de distúrbios que levam o cidadão a evocar a
presença policial”, Goldstein (1979, p. 242). Ao desvincular a acção policial da questão criminal,
o modelo tem o mérito de favorecer uma compreensão interdisciplinar e pluriagencial dos
conflitos. O esforço para identificar, analisar e solucionar problemas locais estimula a interacção
policial com outras instituições, o que favorece o confronto entre distintas visões profissionais,
evitando o sério risco do autismo policial.

b) Pressupostos da Teoria

O conceito de policiamento deveria ser fundamentalmente sobre como modificar as condições


que dão origem aos problemas de crime que ocorrem diversas vezes e não deveria ser
simplesmente sobre como responder a incidentes quando eles ocorrem (actuação repressiva e
reactiva) ou tentar impedi-los através de rondas preventivas. Assim, o pressuposto básico do
modelo é que problemas distintos merecem soluções distintas e a utilização do aparato penal é
somente uma das possibilidades de resolução de problemas.

Segundo Goldstein (1990, p; 76),” a polícia deveria adoptar o método de solução de problemas
no qual trabalha a partir das quatro etapas, que podem se traduzir na sigla IARA (Identificação,
Análise, Resposta e Avaliação) este modelo depende decisivamente da disponibilidade do alto
nível de capacidade analítica do departamento”.

 Identificação do problema
Para iniciar o método IARA, é necessário definir o que é um problema. Neste contexto, um
problema corresponde a um grupo de incidentes similares em tempo, modo, lugar e pessoas,
relacionados à segurança pública. Além disso, um problema deve ser uma preocupação

19
substancial tanto para a comunidade quanto para a polícia. Assim, tanto polícia como
comunidade devem participar juntos e ter paridade no processo de identificação do problema.

Segundo Marcineiro (2009, p. 119), “dar qualidade ao serviço policial significa torná-lo mais
próximo e acessível ao cidadão, respeitando-lhe as necessidades e desejos e considerando as
díspares peculiaridades de cada comunidade no planeamento e oferta do serviço policial”. Além
disso, segundo o autor, Outro aspecto que deve ser levado em conta na identificação do problema
é a necessidade de se eliminar as presunções, ou seja, deve-se trabalhar com actos concretos e
dados colectados em fontes de informações confiáveis.

A experiência pessoal de cada um que participa na identificação do problema é importante,


porém, para se evitar desperdício de tempo e recursos na busca de soluções por um problema
erroneamente identificado ou pouco importante no contexto geral, deve-se procurar, sempre que
possível, comprovar a experiência pessoal através de dados estatísticos (Marceneiro, 2009, p;
180).

 Análise do problema

A fase de análise do problema corresponde ao coração do método IARA. Nesta fase, buscam-se
as raízes dos problemas para, assim, conseguir atacar suas causas e não apenas combater os
efeitos dos problemas (Hipólito 2012, p: 106). Tentando analisar a génese do crime, as teorias de
criminologia se concentram em factores sociais. Simulam causas em factores longínquos.

Como as práticas de educação de crianças, componentes genéticos e processos psicológicos ou


sociais. Essas constituem teorias difíceis de validação prática e focam em políticas públicas
incertas que estão fora do alcance da polícia (Goldstein 1990, p: 31). Ao contrário da
criminologia tradicional, as teorias e os conceitos da ciência do crime são muito mais úteis no
trabalho diário da polícia, pois segundo Goldstein (1990, p. 38), “lidam com as causas
situacionais imediatas dos eventos criminais, incluindo tentações e oportunidades e protecção
insuficiente dos alvos”.

20
Para esta fase é importante o conhecimento do triângulo de análise de problema (também
conhecido como o triângulo do crime), originado da teoria da actividade rotineira. Essa teoria,
formulada por Lawrence Cohen e Marcus Felson, diz que o crime ocorre quando um potencial
infractor encontra-se com um potencial alvo (para aquele tipo de infractor) no mesmo tempo e
lugar, sem a presença de um guardião eficaz. Essa formulação forma o tripé da análise de
problema representada por infractor, alvo e local (Goldstein 1990, p. 40).

 Respostas às Causas do Problema

Após a identificação clara e análise detalhada do problema, a polícia enfrenta o desafio de


procurar o meio mais efectivo de lidar com ele, desenvolver acções adequadas com baixo custo e
o máximo de benefício. Para isso, a polícia deve evitar a tentação de respostas prematuras não
fundamentadas nas fases anteriores do método IARA (BRASIL, 2009).

Deve haver um equilíbrio nas respostas com a utilização de tácticas tradicionais e não
tradicionais. Normalmente as primeiras estão relacionadas às actividades básicas de policiamento
e sozinhas dificilmente proporcionam soluções duradouras para os problemas (por exemplo,
prisões, intimações e policiamento fixo no local), ao passo que as tácticas não tradicionais ligam-
se às acções comunitárias (como organização da comunidade, educação da população, alteração
do contexto físico, mudanças no contexto social e da sequência de eventos, alteração do
comportamento das vítimas), (Hipólito 2012, p: 77).
Frisa-se que essas respostas não são limitadas aos esforços para identificar, prender e
oficialmente acusar e julgar infractores. Expande-se, sem abandonar o uso do direito penal. O
policiamento orientado à solução de problemas procura descobrir outras respostas
potencialmente efectivas (que podem exigir parcerias), dando grande prioridade à prevenção
(Goldstein 1990, p.48).

 Avaliação do Processo

Nesta etapa, os policiais avaliam a efectividade das respostas aplicadas na fase anterior. A
avaliação é chave para o método IARA, pois se as respostas implementadas não são efectivas, as
21
informações reunidas durante a etapa de análise devem ser revisitadas e novas hipóteses de
respostas devem ser formuladas (Brasil, 2009). Esta fase serve também para exportar programas
que funcionaram em determinados locais para serem aplicados em outras localidades cujos
resultados de identificação e análise do problema sejam semelhantes.

Nesse sentido, em 1977, o Tesouro britânico iniciou uma política de controlo e eficiência nos
gastos em segurança pública, condicionando o repasse de verbas à demonstração de capacidade
de reduzir o crime. Por isso, investiu-se em uma grande revisão dos estudos disponíveis nos
EUA, no Reino Unido e na Holanda. Assim, foi possível identificar programas que, de facto,
funcionavam. Demonstrou-se que os projectos mais eficazes na redução do crime, sem aumentar
o efectivo policial, utilizavam-se da abordagem de Posp a firmavam fortes parcerias com as
comunidades, (Goldstein 1990, p: 43).

Este conceito de policiamento valoriza novas respostas que são de natureza preventiva, que não
são dependentes da utilização do sistema de justiça criminal; mas que envolvam outros órgãos
públicos; a comunidade e o sector privado, quando o seu envolvimento tem o potencial para
contribuir significativamente param a redução do problema. Essa forma de policiamento carrega
um compromisso com a implementação da nova estratégia, com rigorosa avaliação de sua
eficácia, e, posteriormente, relatando os resultados de maneira que beneficiarão outras unidades
policiais e que acabará por contribuir para a construção de um corpo de conhecimento que
suporta a maior profissionalização da polícia.

Uma vez identificados, cada problema deve ser explorado minuciosamente, com a finalidade de
conhecer as características do problema e suas origens, de tal forma que seja possível estabelecer
soluções mais inteligentes e que proporcionem melhores resultados, seja na eliminação do
problema ou na redução de sua ocorrência, consequência ou outros efeitos adversos que possa
produzir. Finalmente, as respostas implementadas devem ser avaliadas, no sentido de apurar se
foram ou não efectivas.

Disso se depreende que o policiamento orientado ao problema demanda a implementação de uma


estratégia voltada ao melhoramento do policiamento. Para isso, elege como foco principal a
ênfase em factores preventivos que actuem sobre a causa dos problemas de forma a saná-los,
valendo-se, ainda, de parcerias e proximidade com a comunidade. Além disso, quando

22
necessário, emprega medidas repressivas para fazer cessar a contingência imediata. Para
implementar essa estratégia John e William Spelman, em 1987, conceberam um modelo com
uma orientação mais específica.

c) Aplicabilidade

A vantagem comparativa que se tira deste modelo é o facto do mesmo conseguir especificar,
segmentar, aprofundar os incidentes críticos, isto permite fazer uma análise pormenorizada dos
factos criminais e daí poderão ser desenhadas melhores estratégias de actuação policial. Nestes
termos, a questão da criminalidade no Município da Matola poderá ser melhor abordada tendo-se
em conta a especificidade destes crimes, de forma a melhor encontrar as soluções que se
mostrem mais sustentáveis.

1.2.1 Teoria de Policiamento Comunitário

a) Contexto de Surgimento da Teoria

Esta teoria surge da pesquisa desenvolvida por Dr. Jack R. Greene, professor de justiça criminal
e director do Centro de Política Pública na Universidade Temple em Filadélfia. Neste âmbito, o
pesquisador considera o policiamento comunitário como uma solução para o dilema da polícia
nas sociedades democráticas, que precisam, ao mesmo tempo, manter a ordem pública e fazer
com que a lei seja cumprida. O policiamento, em grande parte do mundo ocidental, tem sido
motivo de contínuos debates e persistentes modificações. Em grande parte desses debates, o que
está em jogo é a relação entre os cidadãos e o seu governo.

Refira-se que há muito tempo existem preocupações sobre a transparência dos actos da polícia
local nos Estados Unidos da América (EUA). Os progressistas do início do século XX dirigiam
suas atenções quase exclusivamente à corrupção e à ilegalidade da polícia. Os reformistas
sugeriram que a remoção do controle da polícia das organizações políticas e a atribuição de
poderes aos administradores da polícia, para que eles supervisionassem e controlassem os

23
policiais era a maneira mais importante de aumentar a transparência dos actos da polícia
(Saraiva, 20156)

Novamente, as transformações sociais na década de 60 fizerem com que a transparência da


polícia se tornasse uma questão importante, a qual significava a supervisão formal por parte dos
cidadãos. Os partidários desta abordagem defendiam a criação de comités civis de análise e a
supervisão directa da polícia por meio de representantes do poder legislativo e executivo, como
administradores municipais. Embora de facto, exista uma variedade de processos de supervisão
da polícia, muitos observadores acreditam que a polícia deve ser controlada por meio de
supervisão externa, para que a transparência realmente exista (Idem).

Entretanto, esta filosofia ganhou força nas décadas de 1970 e 1980 quando as organizações
policiais em diversos países da América do Norte e da Europa Ocidental começaram a promover
uma série de inovações na sua estrutura e funcionamento e na forma de lidar com o problema da
criminalidade. Em países diferentes, as organizações policiais promoveram experiências e
inovações com características diferentes. Mas, algumas destas experiências e inovações são
geralmente reconhecidas como a base de um novo modelo de polícia, orientada para um novo
tipo de policiamento, mais voltado para a comunidade, que ficou conhecido como policiamento
comunitário.

Segundo Oliveira (2006, p.115-116), o policiamento comunitário é uma filosofia e uma


estratégia organizacional que pretende uma nova parceria entre as pessoas e a Polícia.
Fundamenta-se na ideia de que a polícia e a comunidade têm de trabalhar em conjunto para
identificar e definir as prioridades e encontrar soluções para os problemas da actual sociedade,
como o crime, a droga, o sentimento de insegurança, a desordem física e social e o declínio geral
do bairro, com o objectivo global de melhorar a qualidade de vida na área.

Mais recentemente, os partidários do policiamento comunitário sugeriram uma solução


alternativa. Esta linha de raciocínio sugere que a transparência da polícia será reforçada até o
ponto em que os próprios policiais se sentirão envolvidos em uma parceria com a comunidade;

6
https://www.google.com/search?client=opera&q=http%3A%2F%2Fusinfo.state.gov%2Fjournals%2Fitdhr%2F119
7%2Fijdp%2Fgreene&sourceid=opera&ie=UTF-8&oe=UTF . Consultado no dia 10 de Abril de 2017.

24
uma parceria fundamentada na confiança mútua, na abertura e nos valores compartilhados, e
fortalecida através de interacção, avaliação e discussão contínuas.

b) Pressupostos da Teoria

As teorias de proximidade abandonam o cunho tradicional da repreensão do crime através da


pena e enfatizam a busca de soluções nas comunidades afectadas, através do policiamento
comunitário visando à eficácia policial mediante o comprometimento com a comunidade através
da interacção, avaliação e discussão conjunta dos problemas que afligem as partes. Nesse
processo, o envolvimento dos cidadãos nas tarefas da polícia é segundo Greene (1997:1), a prova
de aceitação da polícia pela comunidade.

No policiamento comunitário devem-se estabelecer mecanismos de controlo geral, através da


verificação do nível de formação dos polícias que repercute na informação que os mesmos
proporcionam aos cidadãos; na organização interna do trabalho que repercute na tramitação para
a resolução dos problemas dos cidadãos; na rapidez das respostas; na produtividade individual e
do grupo e de forma especial, pela proporcionalidade e transparência na actuação.

De acordo com Green (1997:21) os pressupostos básicos da teoria de proximidade são os


seguintes:

 Busca de soluções das comunidades através do policiamento comunitário: a melhor


solução dos problemas da comunidade não se encontra apenas nas acções da Polícia,
além da participação da própria comunidade é necessário também buscar a colaboração
de outros representantes públicos, como os próprios Municípios, hospitais, escolas,
concessionários de energia, água e saneamento, entre outros.

Essa coordenação de diversas instituições é fundamental, porque muitos problemas de segurança


exigem providências que não dizem respeito a outros servidores públicos.

 Avaliação e discussão conjunta dos problemas que atingem as partes


(comunidade/Estado): deve haver uma relação de proximidade e confiança recíproca

25
entre a população e polícia (comunidade/Estado). Isso vai permitir a realização de um
trabalho conjunto no qual ambos compartilham as tarefas e responsabilidades.
 Envolvimento da comunidade na elaboração da política de segurança: consiste na
realização de consultas à população sobre problemas, prioridades e estratégias de
redução. Também, na mobilização da comunidade para auto protecção e para resolução
de problemas que geram crimes.

c) Enquadramento Teórico do Tema

Os pressupostos arrolados anteriormente são ilustrativos da relevância que esta teoria tem para a
explicação da questão da segurança pública no município da Matola, em geral, e Bairro Bunhiça,
em particular. Esta teoria trás uma abordagem inclusiva no processo atinente à garantia da
segurança pública, isto é, a colaboração inter-institucional e com os cidadãos deverá ser
considerada a base para se alcançar o desiderato da tranquilidade e ordem públicas.

1.2.2 Teoria Contingencial

a) Contexto do Surgimento

A Teoria das Contingências surgiu como uma evolução da teoria dos sistemas. É uma forma de
pensar mais abrangente, orientada para a análise da influência dos factores ambientais externos
sobre o desempenho das organizações. A ênfase é dada à influência do mercado e da tecnologia,
os principais factores contingenciais, segundo os representantes dessa teoria. Com o advento da
Teoria das Contingências, os teóricos da Administração chegaram à amplitude máxima de
análise e entendimento dos fatos administrativos e fenómenos organizacionais. Eles
demonstraram com clareza a influência externa à organização, no seu processo de criação,
desenvolvimento e crescimento. E, ao analisarem os elementos-chave desse ambiente externo,
apontaram a tecnologia, o mercado, os clientes, o governo, a sociedade e os concorrentes – os
quais chamaram de factores contingenciais (CEDERJ, 2014 p.8).

Outra grande contribuição foi a categorização das técnicas e modelos administrativos e de gestão
como factores dependentes dos factores contingenciais existentes e actuantes no ambiente

26
externo, que os determinam e influenciam. Desta forma, romperam com a velha tradição
taylorista, fayolista e fordista do melhor modelo, da melhor técnica, da melhor estrutura
organizacional, enfim, da síndrome do the best way – ou seja, a melhor e única maneira de
administrar, de realizar coisas na empresa. Com os estudos e descobertas dos teóricos
contingenciais, estabeleceu-se o fim da era da prescrição na Administração (Idem).

Portanto, a partir dos ensinamentos da Teoria Contingencial é fácil perceber que Administração
não é uma ciência exacta, dotada de teorias e modelos previsíveis, consubstanciados em leis
científicas, determinísticas, do tipo causa e efeito. Os factos e fenómenos que ocorrem nas
empresas são reflexos de factores ambientais de maior abrangência e complexidade, que
influenciam directamente a sua organização e o seu funcionamento. Tais factores, em sua
maioria, não podem ser mudados pelas empresas, apenas monitorados.

Refira-se que, Ferrão (2004:15) avança quatro pesquisas que assumem destaque no
desenvolvimento da teoria contingencial, nomeadamente:

 Pesquisa de Chandler sobre estratégia e estrutura: Demonstrando como a estrutura


das empresas foi progressivamente adaptada à sua estratégia;
 Pesquisa de Burns e Stalker sobre organizações: Tom Burns e G. M. Stalker, dois
sociólogos, pesquisaram indústrias inglesas para verificar a relação entre práticas
administrativas e ambiente externo dessas indústrias. Encontraram diferentes
procedimentos administrativos nas indústrias e as classificaram em dois tipos, a
organizações mecanistas (as que operam em ambientes estáveis) e orgânicas (as que
operam em ambientes de mudança).
 Pesquisa de Lawrence e Lorsch sobre o ambiente: nesta pesquisa foram identificados
problemas básicos das organizações, a diferenciação e a integração. O conceito de
diferenciação consiste na divisão em subsistemas ou departamentos, em que cada
departamento desempenha a sua parte correspondente no ambiente e que é relevante para
o desempenho da sua tarefa. O conceito de Integração é o processo que contém o esforço
convergente e unificado dos diversos departamentos para atingir os objectivos globais da
organização.

27
 Pesquisa de Joan Woodward sobre a tecnologia: Joan Woodward, socióloga industrial,
organizou uma pesquisa para avaliar se a prática dos princípios de administração
propostos pelas teorias administrativas se correlacionavam com o êxito do negócio.

b) Pressupostos Básicos

De acordo com Ferrão (2014 p.17), Dentre as principais premissas da Teoria das Contingências
destacam-se:

 As organizações adaptadas ao seu ambiente externo são as que apresentam melhor


desempenho;
 A grande mudança ambiental é factor decisivo e determinante na organização e
funcionamento das organizações;
 A dinâmica de relacionamento entre a empresa e seu ambiente é factor determinante na
escolha e implementação da sua estrutura e modelo de gestão;
 O desenho apropriado da estrutura organizacional depende do contexto da organização (a
estrutura organizacional é determinada pela força dos factores ambientais
contingenciais);
 Os elementos centrais do desenvolvimento organizacional (formalização, diferenciação,
especialização, tamanho do componente administrativo, complexidade, centralização,
descentralização) são determinados por aspectos do ambiente externo (contexto
organizacional), tais como tamanho, tecnologia, mercado, concorrentes, clientes.

c) Aplicabilidade

Esta teoria vem-nos demonstrar que nas teorias de gestão organizacional nada é absoluto,
portanto, as regras e normas organizacionais têm que ser substituídas por critérios
sistematicamente ajustados à organização, tendo em conta o seu ambiente e as tecnologias.
Assim, as instituições responsáveis por velar pela segurança pública no Município da Matola
deverão observar e absorver os aspectos que são apresentados pelo ambiente em que estão

28
inseridos, de forma a identificar as melhores estratégias para assegurar que a tranquilidade
pública seja assegurada.

1.2.3 Relação Entre as Teorias

Nesta pesquisa foram seleccionadas quatro teorias que se mostraram as mais adequadas para a
explicação da questão da segurança pública no município da Matola. Neste sentido, estas teorias
apresentam uma relação de complementaridade na medida em que estas teorias de policiamento
contribuem para a compreensão do modelo de actuação operacional das autoridades policiais, de
forma a garantir sucesso nas incursões contra a criminalidade; E a teoria contigencial revela o
modelo que deve ser adoptado para a formulação das melhores estratégias de actuação da
organização policial e as demais entidades envolvidas no processo de garantia da segurança
pública. Deste modo, fica claro que todas nos remetem ao processo de integral de garantia da
segurança pública desde a definição de políticas, prevenção e combate.

1.3 Quadro Conceptual

Nesta etapa, são discutidos os conceitos chave desta pesquisa, de forma a garantir que não haja
ambiguidade na operacionalização dos mesmos. Assim, os conceitos a serem discutidos são:
Segurança Pública, Direitos Fundamentais e Estado.

1.3.1 Direitos Fundamentais

De acordo com Barroso (1996:111).

“Os direitos fundamentais podem ser conceituados como a categoria jurídica instituída
com a finalidade de proteger a dignidade humana em todas as dimensões. Por isso, tal
qual o ser humano tem natureza polifacética, buscando resguardar o homem na sua
liberdade (direitos individuais), nas suas necessidades (direitos sociais, económicos e
culturais) e na sua preservação (direitos relacionados à fraternidade e à solidariedade) ”.

Por seu turno, Sarlet (1999:49) os direitos fundamentais devem ser vistos como os que tem o
objectivo de protecção aos direitos à dignidade, à liberdade, à propriedade e à igualdade de todos
os seres humanos. Neste sentido, a expressão fundamental demonstra que tais direitos são
imprescindíveis à condição humana e ao convívio social.

29
De acordo com Santos (2015) 7 Os direitos fundamentais são as posições jurídicas básicas
reconhecidas na ordem nacional e internacional, com vista à defesa dos valores e interesses mais
relevantes que assistem às pessoas singulares e colectivas, independentemente da nacionalidade
que tenham.

O Estado tem a obrigação respeitar os direitos fundamentais e de tomar medidas para os


concretizar, quer através de leis, quer nos domínios administrativo e judicial. Estão obrigadas a
respeitá-los tanto as entidades privadas quanto as públicas, e tanto os indivíduos quanto as
pessoas colectivas. Mesmo os cidadãos moçambicanos que residam no estrangeiro gozam da
protecção do Estado para o exercício dos direitos fundamentais, desde que isso não seja
incompatível com a ausência do país.

Com efeito, os direitos fundamentais podem ser compreendidos como os que empoderam o ser
humano para delinear a sua vida de acordo com os princípios da liberdade, igualdade e respeito
pela sua dignidade. Estes direitos transversais estão plasmados na constituição de cada Estado,
competindo às autoridades governamentais a criação de condições para a sua materialização.

1.3.2 Estado

A palavra Estado vem do latim status que significa posição e ordem. Essa posição e ordem
transmitem a ideia de manifestação de poder, ou seja, podemos conceptualizar o Estado como
uma forma de sociedade organizada politicamente que detém um território definido e uma
população permanente, que estão sob o controlo de um governo próprio, detendo capacidade
jurídica para desencadear relações com outras entidades (Dallari, 2007:22).

“É uma sociedade natural, no sentido de que decorre naturalmente do fato de os homens viverem
necessariamente em sociedade e aspirarem naturalmente realizar o bem geral que lhes é próprio,
isto é, o bem público” (Dallari, 2007:20). Ademais, “O Estado é considerado uma sociedade
politicamente organizada porque é uma comunidade constituída por uma ordem coerciva
monopolizada pelas autoridades governamentais” (Azambuja, 1997:3).

7
http://www.direitosedeveres.pt/q/constituicao-politica-e-sociedade/direitos-e-deveres-fundamentais/o-que-sao-
direitos-fundamentais. Consultado no dia 10 de Abril de 2017.

30
De acordo com o contrato social, que cria o Estado, todos no seio de um povo renunciam à sua
liberdade externa para reassumi-la imediatamente como membros de uma coisa pública, ou seja,
de um povo considerado como um Estado. E não se pode dizer: o ser humano num Estado
sacrificou uma parte de sua liberdade externa inata a favor de um fim, mas, ao contrário, que ele
renunciou inteiramente à sua liberdade selvagem e sem lei para se ver com sua liberdade toda
não reduzida numa dependência às leis, ou seja, numa condição jurídica, uma vez que esta
dependência surge de sua própria vontade legisladora (Rousseau, 1762 citado por Silva,
2005:216).

Com efeito, entende-se que o Estado “é o produto da vontade de unificação de membros do


grupo social, visando o bem comum ou bem público, pelo que este seria uma organização social,
dotada de poder e com autoridade para determinar o comportamento de todo o grupo” (Silva,
2005:217). Refira-se que para realização do bem comum o homem realiza pactos e contratos
sociais visando transferir direitos naturais (renúncia) em favor do interesse público. Este bem
comum revela-se em três elementos, nomeadamente: segurança, justiça e bem-estar. De acordo
com Kelsen (2000:273) estes elementos podem ser compreendidos da seguinte forma:

A segurança inclui duas perspectivas, uma interna e outra externa. No primeiro caso,
também usamos a expressão ordem interna para significar a tarefa do Estado de
assegurar, dentro das suas fronteiras, do seu território, a segurança dos seus cidadãos e da
população em geral. A segurança externa pretende significar a defesa da colectividade
perante qualquer ataque do exterior. A Justiça destina-se a substituir o arbítrio nas
relações entre os homens por regras que se destinam a estabelecer uma nova ordem. A
justiça como fim do Estado abrange duas realidades distintas: a justiça comutativa, no
âmbito da qual o Estado deve garantir nas relações entre os cidadãos a equivalência dos
valores permutados; na justiça distributiva cada cidadão deve receber da colectividade de
acordo com o tipo de actividade produtiva que lhe prestou, ou em função da situação de
carência em que se encontra. Finalmente, o bem-estar económico, social e cultural, que
refere às acções que o Estado deve fazer junto dos seus cidadãos em termos de lhes
proporcionar condições de acesso a bens e serviços considerados fundamentais para a
comunidade. Por exemplo, a saúde, a educação, a segurança social.

1.3.3 Patrulha

A Patrulha é uma modalidade de exercício da actividade policial, desenvolvida intencionalmente


e ocorre à mostra. Caracteriza-se pela evidência do trabalho da polícia à população, pelo uso, por
exemplo, de viaturas caracterizadas, uniformes, ou até mesmo distintivos capazes de tornar

31
os agentes policiais identificáveis por todos. A actividade de patrulha consiste resumidamente
em fiscalizar comportamentos e actividades, regular ou manter a ordem pública,
reprimindo crimes, contravenções, infracções e zelando pelo respeito dos indivíduos à legislação
(Souza, 2002:123).

Tal modalidade de policiamento tem por objectivo principal proporcionar o desestimulo de


infracções à lei e a sensação de segurança, por demonstrar a força e a presença estatal, além de
dar segurança aos próprios agentes em diligências (repressão). A patrulha tem várias
modalidades, por exemplo: a pé, motorizado (veículos 2 ou 4 rodas), de bicicleta, com cães,
metropolitano ou em áreas rurais, lacustre, marítimo e aéreo (Idem).

Refira-se ainda que é frequente o patrulhamento resultar de uma decisão das autoridades do
Estado para controlar uma região. Neste sentido, a polícia costuma ser uma força de segurança
que realiza patrulhamentos de forma quotidiana, com o objectivo de dissuadir a vontade de
cometer delitos e de apanhar aqueles que, efectivamente, cometeram ou estão a cometer um acto
ilícito. Este conceito afigura-se relevante na medida em que constitui o principal mecanismo
utilizado pelas autoridades policiais no âmbito das actividades de garantia da segurança pública.

1.3.4 Policiamento Comunitário

Diante da diversidade de conceitos sobre policiamento comunitário, far-se-á uma breve


apresentação de como os autores têm abordado o tema. É importante salientar que as várias
definições passaram por um longo processo de amadurecimento, sendo alteradas ao longo do
tempo, à medida que foram realizados estudos sobre o tema.

De acordo com o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (2009:138), os


primeiros estudiosos sobre policiamento comunitário nos Estados Unidos, indicam quatro
principais características desse tipo de policiamento: 1) relação de reciprocidade entre a polícia e
a população; 2) descentralização do comando por área; 3) reorientação da patrulha de modo a
engajar a comunidade na prevenção do crime; 4) emprego de civis na polícia e no trabalho de
policiamento. Ao refinarem essas características, passaram a dar maior ênfase aos seguintes
aspectos: 1) trabalho voltado para a prevenção do crime com base na comunidade; 2)

8
http://nevusp.org/apresentacao/ consultado em 15 de Fevereiro de 2016

32
reorientação das actividades do trabalho policial para ênfase aos serviços não-emergenciais; 3)
responsabilização da polícia em relação à comunidade; 4) descentralização do comando.

Outra abordagem, bastante prática, é adoptada pela Fundação da Polícia (Police Foundation)
organização voltada para pesquisa e difusão de conhecimento sobre temas relacionados à polícia,
sediada em Washington DC, Estados Unidos, segundo a qual o policiamento comunitário é
baseado em três elementos: 1) o trabalho da polícia é resolver problemas e não apenas responder
a incidentes; 2) a polícia deve se preocupar com problemas relacionados à desordem e à
incivilidade tanto quanto se ocupa com crimes graves; 3) a redução do crime e da desordem
implica que a polícia trabalhe cooperativamente com a população de cada bairro para identificar
suas preocupações e resolver seus problemas (Neto, 2008:240)9.

Conceptualmente, policiamento comunitário é definido como filosofia e estratégia


organizacional que proporciona uma nova parceria entre a população e a polícia, baseada na
premissa de que ambos devem trabalhar, conjuntamente, na construção da segurança pública.
Operacionalmente, define-se o policiamento comunitário como a filosofia de policiamento
adaptado às exigências do público que é atendido, em que o policial presta um serviço completo.
Isso significa que o mesmo policial realiza patrulhas e trabalha em uma mesma área, em uma
base permanente, actuando em parceria com a população desse local (Neto, 2008:22).

Por fim, é importante salientar que o policiamento comunitário não é apenas um conjunto
particular de programas operacionais desenvolvidos pela polícia ou uma forma de gerir as
organizações policiais. É, sobretudo, uma nova filosofia, estratégia ou estilo de policiamento que
pode ser efectuado de diversas formas, sob os mais variados programas e tipos de gestão
organizacional, dependendo do contexto específico no qual é implementado.

1.3.5 Segurança Humana

A discussão em torno do conceito de segurança humana é dominada por três concepções


distintas. A primeira é a que poderia ser chamada de concepção legal de segurança humana,

9
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/32891-40950-1-PB.pdf Consultado em 15 de Fevereiro de
2016.

33
ancorada no pressuposto liberal fundamental de direitos individuais básicos para a vida, a
liberdade e a busca da felicidade, e da obrigação da comunidade internacional e de cada Estado
para proteger e promover esses direitos (Morsink 1998 citado por Hampson, 2008:230). O
segundo ponto de vista sobre a segurança humana é o humanitário, que informa os esforços
internacionais para aprofundar e reforçar o direito internacional, nomeadamente em matéria de
genocídio e crimes de guerra, e para eliminar as armas que são especialmente prejudiciais para os
civis e não-combatentes (PNUD, 1997 citado por Hampson, 2008:230). A terceira concepção
sugere que a segurança humana deve ser amplamente construída para incluir elementos
económicos, ambientais, sociais e outros tipos de ameaças ao bem-estar dos indivíduos (Idem)

As duas primeiras perspectivas sobre de segurança humana incidem sobre os direitos humanos
básicos e sua privação. Entretanto, na terceira concepção há uma consideração mais ampla de
ameaças (reais e potenciais) para a sobrevivência e a saúde dos indivíduos, sendo que o estado da
economia global, as forças da globalização, e o meio ambiente, são todos assuntos legítimos de
preocupação em termos de como eles afectam a segurança do indivíduo (PNUD 1994:21).

Há ainda mais duas formas de perceber a segurança humana, uma positiva e outra a negativa.
Esta última define a segurança humana como a “ausência de ameaças a vários valores humanos
fundamentais, incluindo o valor humano mais básico, a segurança física do indivíduo”. Por outro
lado, Alkire (2002) citado por Perreira (2011:12) oferece uma definição mais positiva da
segurança humana, colocando-a como aquele conjunto de princípios que visa “salvaguardar o
núcleo vital de todas as vidas humanas contra ameaças difundidas e fazê-lo sem impedir o
florescimento humano a longo prazo”.

O exposto anteriormente revela a diversidade de perspectivas em torno da segurança humana. No


entanto, todas convergem na necessidade de salvaguardar as condições que permitam a
dignidade e integridade do homem. Contudo, a abordagem que norteou esta pesquisa é a última
das três que foram avançadas a priori, pelo facto de revelar o carácter alargado de ameaças a que
estão sujeitos os indivíduos, o que se adequa à compreensão da matéria da criminalidade no
Município da Matola.

34
1.3.6 Segurança Pública

Etimologicamente, o termo segurança, segundo De Plácido e Silva apud Nhacuongue (2011:27)


deriva de segurar e exprime “a acção e efeito de tornar seguro, ou de assegurar e garantir alguma
coisa”. Trata-se de uma protecção dada a qualquer coisa que tenha um valor jurídico contra
eventuais perigos, riscos, danos ou prejuízos. Neste sentido, segurança pública é “o afastamento,
por meio de organizações próprias, de todo perigo ou de todo mal que possa afectar a ordem
pública, em prejuízo da vida, da liberdade ou dos direitos de propriedade de cada cidadão”.

Segundo Marcineiro (2007:51), segurança pública

“é o grau relativo de tranquilidade que compete ao Estado proporcionar ao cidadão,


garantindo-lhe os direitos de locomoção, vida, propriedade e zelando pela manutenção
dos costumes e dos princípios de moral social. É a manifestação do poder do Estado
fundada na ordem jurídica, objectivando o exercício da força na garantia do Direito”.

Por seu turno, Adamo (2011:33) defende que a segurança pública garante a protecção e o
exercício dos direitos e liberdades fundamentais de qualquer pessoa que goza de personalidade
jurídica ou de coisas que podem ser objectos de relações jurídicas.

O conceito de segurança vigente numa sociedade tende a relaciona-se com a manutenção da


ordem pública e a prevenção e controle da criminalidade e das incivilidades. Este mesmo
conceito tem de ser visto como sendo uma questão de Estado, sendo também um bem público
que é o garante da Democracia, assim, a segurança tem de ser vista como condição fundamental
da liberdade, ou seja, condição principal para que todos os cidadãos usufruam dos seus direitos,
liberdades e garantias (Teixeira, 2002:22).

O mundo encontra-se cada vez mais globalizado e interdependente, o que obriga os Estados a um
processo de reforma, ou seja, a repensar as suas estruturas, funções e novos conceitos de
segurança que satisfaçam as necessidades dos cidadãos. Anteriormente, a segurança que o Estado
oferecia, proporcionava alguma tranquilidade. Hoje, a segurança é um conceito mais abrangente
e complexo, que envolve muitos actores, pois a segurança é um problema do Estado, da
comunidade internacional, das polícias, das comunidades e de nós mesmos. A última década do
século XX trouxe-nos paradigmas diferentes, em termos económicos, políticos, sociais, culturais
e ambientais. Estas transformações devem-se ao processo de globalização, que nos colocou
perante novas oportunidades, mas que também fez surgir muitos riscos, ameaças e inseguranças.

35
Desta forma, “a omnipresença do risco na sociedade contemporânea encontra-se, no topo da lista
de desafios com os quais as sociedades se deparam, pelo que há necessidade de encontrar novos
mecanismos para enfrentar esta realidade.

As definições arroladas anteriormente são convergentes no aspecto ligado ao facto da segurança


pública ser assente na criação de condições para o pleno gozo dos direitos e liberdades
fundamentais dos cidadãos. Assim, numa sociedade em que se exerce democracia plena, a
segurança pública garante a protecção dos direitos individuais e assegura o pleno exercício da
cidadania. Neste sentido, a segurança não se contrapõe à liberdade e é condição para o seu
exercício.

36
CAPÍTULO 2: METODOLOGIA

A elaboração do trabalho tem por objetivo reflectir sobre os desafios que se colocam às
autoridades na garantia da segurança pública no Município da Matola e particularmente o Bairro
Bunhiça. Neste caso, a colocação da metodologia será feita mediante a necessidade de alcance
dos objectivos do trabalho. Assim, a apresentação da metodologia assenta na classificação da
pesquisa e identificação dos métodos e técnicas aplicados e ainda a descrição da amostra.

2.1 Classificação da Pesquisa

Relativamente à classificação da pesquisa, há enfoque para três critérios que servem de base para
o efeito, nomeadamente: abordagem, objectivo, natureza e procedimento. Assim, esta pesquisa
irá conjugar as abordagens qualitativa e quantitativa; quanto ao objectivo está explicativa e, por
fim, em relação ao procedimento esta configura-se como sendo um estudo de caso e de campo.

2.1.1 Quanto à Abordagem

a) Abordagem Qualitativa

Segundo Gil (1999:97), “a abordagem qualitativa constitui uma actividade na qual faz-se a
discussão da ligação e correlação de dados interpessoais, co-participação das situações dos
informantes, analisados a partir da significação que esses dão aos seus dados”. Ainda no atinente
a pesquisa qualitativa, Guerra (2006), advoga que há uma relação indissociável entre o mundo
objectivo e subjectivo do sujeito que não pode ser traduzido em números. Assim, a abordagem
qualitativa nesta pesquisa justifica-se pelo facto de buscar as explicações para os elementos que
atentam à segurança pública no Bairro Bunhiça.

Para Richardson et al (1999:80) as pesquisas que usam o paradigma qualitativo:


“Podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interacção de certas
variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no
processo de mudança de determinado grupo e possibilitar, em maior profundidade, o entendimento
das particularidades do comportamento dos indivíduos”.

Moreira (2002:57) aponta algumas das características básicas da pesquisa qualitativa como:

37
 Foco na interpretação que os participantes têm na situação em estudo;
 Subjectividade uma vez que o foco da pesquisa é a perspectiva dos participantes;
 Flexibilidade na condução da pesquisa;
 Preocupação com o contexto já que o comportamento das pessoas é determinado pelo ambiente; e
 Impacto do processo de pesquisa sobre a situação de pesquisa, quer dizer o pesquisador exerce
influência sobre a situação de pesquisa e é influenciado por ela.

A segurança pública enquadra-se dentro de estudos sociais e o paradigma qualitativo adequa-se à


natureza desta investigação. Ademais, estudos desta natureza requerem este tipo de abordagem
por se tratar de um fenómeno social.

2.1.2 Quanto aos Objectivos

b) Pesquisa Explicativa

Relativamente ao critério de objectivo, esta pesquisa é explicativa. De acordo com Gil (2008:89)
este tipo de pesquisa visa identificar os factores que determinam ou contribuem para a ocorrência
dos fenómenos, aprofundando o conhecimento da realidade e o “porquê” das coisas. A pesquisa
explicativa regista factos, analisa-os, interpreta-os e identifica suas causas. Essa prática visa
ampliar generalizações, definir leis mais amplas, estruturar e definir modelos teóricos, relacionar
hipóteses em uma visão mais unitária do universo ou âmbito produtivo em geral e gerar
hipóteses ou ideias por força de dedução lógica (Lakatos e Marconi, 2011:89).

A pesquisa explicativa exige maior investimento em síntese, teorização e reflexão a partir do


objecto de estudo. Visa identificar os factores que contribuem para a ocorrência dos fenómenos
ou variáveis que afectam o processo. Explica o porquê das coisas. É nesta base que se
desenvolve esta pesquisa sobre a segurança pública no Município da Matola, visando identificar
os elementos que propiciem o recrudescer do crime violento nesta urbe.

2.1.3 Quanto ao Procedimento

Para além do critério de abordagem, esta pesquisa pode ser classificada de acordo com o critério
de procedimento, sendo caracterizada como uma pesquisa de campo. A pesquisa de campo
procede à observação de fatos e fenómenos exactamente como ocorrem no real, à colecta de
dados referentes aos mesmos e, finalmente, à análise e interpretação desses dados, com base

38
numa fundamentação teórica consistente, visando compreender e explicar o problema
pesquisado. O campo das ciências sociais usa frequentemente a pesquisa de campo para o estudo
de indivíduos, grupos, comunidades, instituições, com o objectivo de compreender os mais
diferentes aspectos de uma determinada realidade (Gonçalves, 2008:26).

Este tipo de pesquisa exige também a determinação das técnicas de colecta de dados mais
apropriadas à natureza do tema e, ainda, a definição das técnicas que serão empregadas para o
registo e análise. Dependendo das técnicas de colecta, análise e interpretação dos dados, a
pesquisa de campo poderá ser classificada como de abordagem predominantemente quantitativa
ou qualitativa (Idem).

Importa salientar que a pesquisa de campo procura o aprofundamento de uma realidade


específica. É basicamente realizada por meio da observação directa das actividades do grupo
estudado e de entrevistas com informantes para captar as explicações e interpretações do
ocorrem naquela realidade. Assim, denota-se que no processo de colecta de dados houve uma
deslocação ao enfoque espacial da pesquisa, o Bairro Bunhiça, não se limitando às buscas em
material bibliográfico e documental.

2.1.4 Quanto à Natureza

No que diz respeito ao critério de natureza, esta pesquisa é aplicada. De acordo com Gonçalves
(2008:22) a pesquisa aplicada, consiste na realização de trabalhos originais com finalidade de
aquisição de novos conhecimentos, porém dirigida primariamente para um determinado fim ou
objectivo prático. Assim, este tipo de pesquisa gera conhecimentos para aplicação prática
dirigida à solução de problemas específicos, envolve verdades e interesses locais.

Tendo em conta o anteriormente exposto, a pesquisa em torno da segurança pública no


Município da Matola é aplicada por contribuir para a produção de conhecimento que visa
esclarecer a realidade da criminalidade neste espaço geográfico e desse modo identificar as
soluções que se mostram mais adequadas para combater este fenómeno.

39
2.2 Paradigmas de Pesquisa e Métodos

a) Paradigma

O Paradigma que vai orientar a pesquisa é o pós-positivismo/neo-positivismo. Estes movimentos


foram desenvolvidos por membros do “Circulo de Viena10” na base do pensamento empírico
tradicional e no desenvolvimento da lógica moderna. Para os neo-positivistas, os únicos
enunciados que podem ser considerados científicos são os submetidos à verificação lógica e os
que não podem ser submetidos a verificação lógica empírica são considerados sem sentido.

O recurso a este paradigma resulta do facto de haver necessidade de conhecer a realidade social
(questão ontológica), e ser difícil a sua observação directa, daí a necessidade da sua
operacionalização. Para o efeito, usa-se cada uma das variáveis das hipóteses deste estudo,
portanto, os indicadores identificados constituem o tipo de informação empírica que se pretende
obter no campo de estudo.

b) Métodos

A identificação dos métodos que alicerçaram a realização desta pesquisa obedece aos critérios de
abordagem e procedimento. Assim, quanto à abordagem destaca-se o método hipotético-
dedutivo, em relação ao procedimento, realça-se o método monográfico ou estudo de caso.

 Hipotético-dedutivo

É preciso referenciar que os de métodos de abordagem são os que proporcionam as bases lógicas
da investigação científica. Esses métodos referem-se ao plano geral do trabalho, ao processo de
raciocínio adoptado, baseando-se em princípios lógicos. Por seu turno, os métodos de
procedimento têm por objectivo proporcionar ao investigador os meios técnicos para garantir a
objectividade e a precisão no estudo dos factos sociais. Constituem etapas mais concretas da
investigação e se propõem a explicar os fenómenos de forma menos abstracta (Gonçalves,
2008:66).

10
Círculo de Viena: Associação fundada no princípio do século XX por um grupo de lógicos e filósofos da ciência,
tendo por objectivo fundamental chegar a uma unificação do saber científico pela eliminação dos conceitos vazios
de sentido, dos pseudoproblemas da metafísica e pelo emprego do famoso critério da verificabilidade, que distingue
a ciência (cujas proposições são verificáveis) da metafísica (cujas proposições inverificáveis devem ser supremas).

40
O método hipotético-dedutivo parte da percepção de uma lacuna nos conhecimentos acerca da
qual se formulam hipóteses e, pelo processo de inferência dedutiva, testa a predição da
ocorrência de fenómenos abrangidos pela hipótese (Marconi e Lakatos, 2006:106). De acordo
com este método foi possível conduzir a pesquisa no intuito de permitir a avaliação das hipóteses
que a alicerçam, verificando sua validade no campo empírico.

 Estudo de Caso

O estudo de caso é uma abordagem metodológica que procura compreender, explorar, explicar e
descrever fenómenos sociais. O estudo de caso é uma abordagem aplicada nas pesquisas de
campo. Este método permite que os dados observados directa e indirectamente sejam recolhidos
com ajuda de diários decampo e entrevistas.

A natureza desta pesquisa exige o recurso ao método de estudo de caso que, de acordo com Yin
(2010:39), “é uma investigação empírica que investiga um fenómeno contemporâneo em
profundidade e em seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenómeno
e o contexto não são claramente evidentes”.

Assim, o Bairro Bunhiça constitui o caso específico que se estuda nesta pesquisa, sendo um dos
alvos da crescente onda de criminalidade que assola os Bairros suburbanos do Município da
Matola.

Segundo Freixo (2010:110) “a base do estudo de caso é, essencialmente, o trabalho decampo ou


ainda a análise documental, estudando uma dada entidade no seu contexto real tirando todo o
partido de fontes múltiplas com recurso a entrevistas, observações, documentos e artefactos.”
Assim, o estudo de caso apresenta-se como um recurso fundamental na investigação social na
medida emque permite ao pesquisador estudar determinados fenómenos da realidade socialcom
uma certa profundidade.

O estudo de caso tem como preocupação realizar um estudo aprofundado e exaustivo sobre
determinado assunto (indivíduos, instituições, grupos, comunidades), buscando sua

41
generalização. Este método revela sua importância no facto de se ter recorrido ao Bairro Bunhiça
(um espaço geográfico que vem chamando atenção pela ocorrência do fenómeno da
criminalidade) com vista a compreender a questão da segurança pública no Município da Matola,
permitindo compreender o fenómeno numa perspectiva centralizada nos próprios cidadãos.

2.3 População e Amostra

Um levantamento de amostras é para Moreira (2002:30) “um procedimento sistemático para


colectar informações que serão usadas para descrever, comparar ou explicar fatos, atitudes,
crenças e comportamentos”. As pesquisas sociais abrangem um universo de elementos tão
grande que se torna impossível considerá-los em sua totalidade. Por essa razão, nas pesquisas
sociais é frequente trabalhar com uma amostra, ou seja, com uma parte representativa do
universo.

É importante compreender, a priori, que a população é formada pelo conjunto de indivíduos (ou
elementos) que se pretende abranger em um estudo e para os quais desejamos que as conclusões
da pesquisa sejam aplicadas. Por seu turno, a amostra é a parcela da população efetivamente
seleccionada para a realização do estudo, segundo um processo de selecção adequado.

Esta pesquisa foi direccionada a um universo caracterizado pela diversidade, ou seja,


heterogeneidade. Esta multiplicidade revela-se pelos vários actores que estão envolvidos na
questão da segurança pública, pelo que há necessidade de melhor seleccionar os que irão
representar este grupo. Neste sentido, a população que constitui alvo desta pesquisa é o conjunto
de moradores do bairro Bunhiça. De forma a melhor estudar estes grupos foram definidas como
amostra 10 famílias residentes neste bairro em representação dos moradores.

Para a identificação da amostra recorreu-se à técnica de amostra probabilística aleatória simples.


De acordo com este instrumento, “a escolha de um elemento, entre uma população, é ao acaso
(aleatória), quando cada membro da população tem a mesma probabilidade de ser escolhido”
(Gonçalves, 2008:29). A amostragem aleatória simples é o tipo de amostragem probabilística
mais utilizada, dá exactidão e eficácia à amostragem, além de ser o procedimento mais fácil de
ser aplicado a todos os elementos da população, pois, têm a mesma probabilidade de pertencerem

42
à amostra. Com efeito, foram seleccionadas dez famílias pertencentes a cada quarteirão do Bairro
Bunhiça como forma de colher directamente dos munícipes a sua sensibilidade em relação a
questão da segurança.

Este instrumento é relevante na medida em que neste tipo de amostra a premissa é de que cada
componente da população estudada tem a mesma oportunidade de ser escolhido para compor a
amostra e a técnica que garante esta igual probabilidade é a selecção aleatória de indivíduos, por
exemplo, através de sorteio.

Adicionalmente à amostra desta pesquisa foi seleccionado um grupo de reclusos condenados por
cometimento de crimes públicos e, de agentes da PRM, instituição responsável por garantir a
segurança publica. Em relação a este grupo foi implementada a técnica não probabilística
intencional. Neste modelo, a pesquisa dá enfoque sobre a opinião (acção, intenção etc.) de
determinados elementos da população, mas não representativos dela. O pesquisador não se
dirige, portanto, à “massa”, isto é, a elementos representativos da população geral, mas àqueles,
segundo seu entender, pela função desempenhada, cargo ocupado, posição social (autores de
crime em privação de liberdade), exercem as funções de líderes de opinião na comunidade.
Assim, a entrevista foi dirigida dois reclusos e três oficiais da PRM.

Assim, o tamanho da Amostra deste estudo foi constituído por:


- 10 famílias residentes no Bairro Bunhiça
- 02 reclusos do EPPM
- 03 Oficiais da PRM

2.4 Instrumentos de Recolha de Dados

Para a produção deste trabalho, a colecta de dados aconteceu através de revisão bibliográfica de
material contendo dados sobre o tema em questão e ainda entrevistas e questionários
direccionados às instituições e cidadãos envolvidos no fenómeno em estudo.

A revisão bibliográfica foi possível através do recurso à pesquisa bibliográfica e documental. A


primeira (bibliográfica) é feita a partir do “levantamento de referências teóricas já analisadas, e

43
publicadas por meios escritos e electrónicos, como livros, artigos científicos, páginas da internet
(websites)” (Fonseca, 2002:32). A segunda (documental) “recorre a fontes mais diversificadas e
dispersas, sem tratamento analítico, tais como: tabelas estatísticas, jornais, revistas, relatórios,
documentos oficiais, cartas, filmes, fotografias, pinturas, tapeçarias, relatórios de empresas,
vídeos de programas de televisão, etc.” (Idem).

 Entrevista

Quanto à entrevista importa frisar que se fez recurso ao modelo semi-estruturado. Refira-se que
este modelo de entrevista é aquele em que o entrevistador segue um roteiro previamente
estabelecido, isto é, as perguntas feitas aos indivíduos são predeterminantes, no entanto, tem
abertura para colocar questões a partir das reacções do entrevistado. Ela se realiza de acordo
com um formulário elaborado e é efectuada de preferência com pessoas seleccionadas de acordo
com um plano (Lakatos e Marconi, 2003:197).

Estas entrevistas constituíram um dos instrumentos básicos para conduzir a recolha de dados.
Permitiram captar informações/dados sobre variados assuntos e tiveram a vantagem de o
entrevistador, a partir de questões previamente formuladas, poder no decurso das entrevistas,
colocar outras questões em função das respostas que os entrevistados iam dando.

Segundo Moreira (2002:55), na entrevista semi-estruturada:


“o entrevistador coloca algumas questões em uma ordem predeterminada, mas dentro de
cada questão é relativamente grande a liberdade do entrevistado. Além disso, outras
questões podem ser levantadas, dependendo das respostas dos entrevistados, ou seja,
podem existir questões suplementares sempre que algo de interessante e não previsto na
lista original de questões aparecer.”

Apolinário (2004:71) define entrevista semi-estruturada como o “tipo de entrevista que possui
componentes estruturados e não estruturados, ou seja, há um roteiro de perguntas pré-
estabelecidas a serem feitas ao respondente, mas há também um espaço para discussão livre e
informal de determinado tema do interesse do pesquisador.”

As perguntas foram estruturadas de acordo com o tema da pesquisa, objectivo geral e os


específicos, tendo sido direccionadas aos oficiais da PRM, instituição responsável pela acção

44
directa contra o crime e garantia da segurança pública. De modo a sistematizar melhor os dados
recolhidos, as questões das entrevistas foram categorizadas segundo tópicos centrais, como:

 Principais ameaças à segurança pública;


 Caracterização das acções criminosas;
 Eficácia das acções de combate ao crime;
 Modelos de cooperação com a comunidade;

As questões que corporizam esta entrevista são do tipo aberto, de forma a melhor colher
sensibilidades sobre a questão em pesquisa. As entrevistas foram registadas num bloco e
simultaneamente gravadas para facilitar a sua transcrição e análise. Em certo momento houve
necessidade de focalizar a entrevista ao notar que os entrevistados mostravam algum desconforto
perante questões que para eles deviam constituir matéria de segredo.

 Questionário

O questionário constitui o último instrumento usado para a colecta de dados. Conforme afirma
Poutrois (2000 apud Chizzotti 2000:55), “o questionário consiste em um conjunto de questões
pré-elaboradas, sistemática e sequencialmente dispostas em itens que constituem o tema de
pesquisa, com o objectivo de suscitar dos informantes respostas por escrito sobre o assunto que
os informantes saibam opinar ou informar”. Os questionários têm a vantagem de proporcionar o
tratamento de dados estatísticos de maneira objectiva, tendo servido de instrumentos de auxílio
às entrevistas na colecta de informação.

Quivy e Campenhoudt (2005:188) salientam que o questionário:


“Consiste em colocar a um conjunto de inquiridos, geralmente representativo de uma população,
uma série de perguntas relativas à sua situação social, profissional ou familiar, às suas opiniões, à
sua atitude em relação a opções ou a questões humanas e sociais, às suas expectativas, ao seu nível
de conhecimentos ou de consciência de um acontecimento ou de um problema, ou ainda sobre
qualquer outro ponto que interesse os investigadores.”

As questões dos questionários foram elaboradas de acordo com os objectivos do estudo e


organizadas em função de grandes tópicos. Isto permitiu concentrar a recolha de dados dentro

45
dos limites do estudo, e não entrar em questões supérfluas. Os tópicos sobre os quais os
questionários incidiram abarcam as seguintes categorias:
 Causas da Criminalidade
 Caracterização das acções criminosas;
 Eficácia das acções de combate ao crime;
 Sensação de segurança;
 Relação com as autoridades.

O questionário foi elaborado com base em questões fechadas, em que o respondente devia optar
entre duas alternativas e múltipla escolha, com perguntas que abriam espaço ao informante para
optar por mais que duas possíveis propostas. Este modelo de questionário permitiu a facilitação
da tabulação dos resultados dos questionários.

 Diário de Campo

Alguns autores como Bogdan e Biklen (1994:150-151) afirmam que as notas de campo podem
originar em cada estudo um diário pessoal que ajuda o investigador a acompanhar o
desenvolvimento do projecto, a visualizar como é que o plano de investigação foi afectado pelos
dados recolhidos, e a tornar-se consciente de como ele ou ela foram influenciados pelos dados”.
Este é um instrumento que auxilia o pesquisador a controlar o desenrolar da pesquisa,
percebendo como cada etapa é materializada.

Ainda Bogdan e Biklen (1994:150) recomendam que depois de cada observação, entrevista, ou
outra sessão de investigação, é normal que o investigador escreva em texto o que aconteceu. Esta
escrita deve incluir a descrição das pessoas, objectos, lugares, acontecimentos, actividades e
conversas. As notas devem incluir ideias, estratégias, reflexões e palpites, sendo este um relato
do que o investigador ouve, vê, experimenta e pensa no decurso da recolha da informação.

Estas notas de campo podem originar um diário pessoal do investigador que o ajuda a
acompanhar o percurso do projecto e como é que a pesquisa foi afectada pelos dados recolhidos
e pelo ambiente das recolhas. Com este diário foram registados os ambientes em que as

46
entrevistas se realizaram, as reacções dos entrevistados, as condições em que elas decorreram, os
ambientes em que vivem os entrevistados.

2.4.1 Técnicas de Análise de Dados

Bogdan e Biklen (1994:205) definem análise de dados como

“ o processo de busca e de organização sistemática de transcrições de entrevistas, de notas de


campo e de outros materiais que foram sendo acumulados, com o objectivo de aumentar a sua
própria compreensão desses mesmos materiais e de lhe permitir apresentar aos outros aquilo que
encontrou. A análise envolve o trabalho com os dados, a sua organização, divisão em unidades
manipuláveis, síntese, procura de padrões, descoberta dos aspectos importantes e do que deve ser
aprendido e a decisão sobre o que vai ser transmitido aos outros.”

No tratamento e análise de dados recolhidos nas entrevistas e em documentos oficiais, colectados


nas instituições onde se fez a pesquisa, nas leituras de livros, jornais, semanários foram usadas
técnicas como análise de conteúdo, análise documental e análise de dados estatísticos colectados
em diferentes instituições. A análise de dados resultou, também, da interpretação das entrevistas
e questionários. Estas entrevistas foram codificadas, as respostas categorizadas para posterior
interpretação. Para este efeito recorreu-se à técnica de análise documental, de conteúdo e de
dados estatísticos.

Referenciando S. Chaumier (1974) Bardin (1995:45-46) define análise documental como uma
operação ou conjunto de operações que visam representar o conteúdo de um documento sob uma
forma diferente da original para facilitar depois a sua consulta e referencial. Ela permite passar
de um documento em estado bruto para um secundário em representação do primário. São
considerados documentos: regulamentos, normas, jornais, revistas, estatísticas, etc. Ademais,
esta técnica alberga os dados colhidos em fontes secundárias (pesquisa bibliográfica).

A investigação em Ciências Sociais procura descrever fenómenos e factos da realidade objectiva


com recurso a métodos qualitativos. O tratamento destes dados pode ser feito com recurso a uma
análise de conteúdo. Para Bardin (1977) citado em Carmo e Ferreira (2008:269-270) “a Análise
de Conteúdo não deve ser utilizada apenas para se proceder a uma descrição do conteúdo das
mensagens, pois a sua principal finalidade é a inferência de conhecimentos relativos às condições

47
de produção (ou eventualmente de recepção), com a ajuda de indicadores (quantitativos ou
não).”

Através da análise de conteúdo foi possível sistematizar, explorar, codificar, tratar e interpretar
os materiais recolhidos. Para além disto, possibilitou-se a avaliação dos dados colhidos ao nível
dos meios de comunicação de massa, tendo em conta a sua propensão à interferência política e
propagandista.

2.5 Questões Éticas

Um dos aspectos que a investigação tem de observar é o direito a privacidade, ao anonimato e à


confidencialidade. Segundo Freixo (2010:180):

“o direito à confidencialidade é semelhante ao direito à privacidade e ao direito ao


anonimato. Naturalmente que os dados recolhidos dos sujeitos constituem informações
valiosas para o investigador. Contudo, este deve assumir todas as precauções para que o
acesso a esses mesmos dados não tenha um carácter público. Os sujeitos que participaram
no estudo, têm todo o direito de exigir que os dados tenham exclusivamente o fim para
que foram tomados e não outros.”

Assim, o investigador deve tomar certas atitudes éticas que não ponham em causa as esferas
privadas das pessoas com quem vai entrar em contacto. Como referem Bogdan e Biklen
(1994:75) “duas questões dominam o panorama recente no âmbito da ética relativa à
investigação com sujeitos humanos, o consentimento informado e a protecção dos sujeitos contra
qualquer espécie de danos.” Tais normas asseguram o seguinte:

1. Os sujeitos aderem voluntariamente aos projectos de investigação, cientes da natureza do


estudo e dos perigos e obrigações neles envolvidos.
2. Os sujeitos não são expostos a riscos superiores aos ganhos que possam advir.

Tendo em conta o princípio da dignidade e liberdade dos sujeitos de pesquisa, a forma que é
usada para solicitar a autorização às pessoas ou entidades a participar da pesquisa, foi feita
através de contacto directo.

48
 Os participantes foram informados sobre o objectivo da pesquisa
 Indicados os locais onde os moradores vão responder as questões, aliás, as entrevistas
serão domiciliares (face-to-face).
 Foram efectuadas na condição do anonimato e não de carácter obrigatório, também não
representou nenhum risco para os respondentes.

2.6 Constrangimentos do Estudo

Ao longo do trabalho de investigação emergiram certos constrangimentos que afectaram, de


certa maneira, os resultados da pesquisa. Primeiro, não existem em Moçambique estudos
académicos e publicações sistemáticas sobre a segurança pública. Este facto tornou difícil
encontrar referências que ajudassem uma abordagem baseada em alicerces já explorados. As
bibliotecas exploradas ao nível da cidade de Maputo não têm material sobre o assunto.

Para além disto, a dificuldade de acesso às instituições policiais para o acesso à informação
também marcou o rol de limitações desta pesquisa. Isto está associado aos procedimentos
burocráticos que deveriam ser seguidos, bem como ao facto desta instituição tratar este assunto
de forma bastante cautelosa, ou mesmo sigilosa.

49
CAPÍTULO 3: APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS

Nesta etapa da pesquisa fez-se a demonstração dos resultados que advém da colecta de dados
empíricos sobre a problemática da segurança pública no Município da Matola, com particular
destaque para o Bairro Machava Bunhiça.

3.1 Apresentação dos Respondentes

Tal como foi referido numa fase anterior do trabalho, os grupos que constituem a fonte dos dados
que são a base de analise nesta etapa, nomeadamente os moradores e os agentes da PRM. Assim,
foram submetidas ao questionário 10 famílias do Bairro Bunhiça, sendo que cada uma representa
um quarteirão desta unidade territorial. Estas famílias são compostas por uma média de 6
elementos, sendo que na tua totalidade os questionários submetidos foram deixados na
responsabilidade dos respectivos chefes de família. Entre estes houve 7 respondentes do sexo
masculino e 3 do sexo feminino com idades compreendidas entre os 35 e 55 anos de idade.

O segundo grupo de respondentes foram os agentes da PRM. Neste âmbito foram entrevistados
três elementos da corporação, que preferiram optar pelo anonimato. Estes ocupam os cargos de
comandantes de esquadras. Este grupo de cidadãos é do sexo masculino, com 30, 32 e 35 anos de
idade respectivamente. Refira-se que todos agentes entrevistados são residentes no Município da
Matola, nos bairros Machava Socimol, T3 e Khongolote. Este ultimo aspecto é bastante relevante
na medida em que confere a estes repondentes maior sensibilidade em relação ao objecto de
estudo desta pesquisa.

3.2 Causas da Criminalidade

O objectivo do Estado em prover segurança a todos os cidadãos indistintamente é inatingível,


pois, a violência e a criminalidade são factores inerentes ao convívio social. De acordo com Silva
(1999:3) o crime é inerente à convivência social, é elemento constitutivo do seu funcionamento,
deste modo, a criminalidade e a violência são vistas como fenómenos sociopolíticos, e não como

50
patologias. A sensação de insegurança pode ser reduzida, porém, jamais totalmente eliminada do
meio social já que a criminalidade é um fenómeno social.

No Município da Matola, os Bairros suburbanos têm convivido com estes fenómenos (crime e
violência) que se manifestam da forma vil . Os casos mais frequentes de criminalidade vão desde
assassinatos, assaltos à mão armada, à residências, violações, e abandono de recém-
nascidos. Estes elementos agastam os moradores destes Bairros, sendo que o Bairro Machava
Bunhiça tem sido um dos exemplos desta realidade.

Gráfico 1: Causas da Criminalidade no Bairro Bunhiça

40%

35%

30%

25%
Resposta 1
20%
Resposta 2
15% Resposta 3

10%

5%

0%
Causas da
Criminalidade

Fonte: Adaptado pelo autor a partir dos dados colectados.

No Município da Matola, as causas do crime e da violência não podem ser atribuídas a um


factor, pelo que se mostra necessário realizar uma abordagem integrada, de forma a conseguir
compreender os elementos por detrás destes fenómenos. Assim, a partir da pesquisa realizada no
campo, foi possível verificar que cerca de 40% dos inquiridos, tal como está representado no
gráfico anterior (coluna azul), acredita que a desigualdade social concorre para o incremento do
crime no Bairro Machava Bunhiça. Ademais, outro grupo, que representa igualmente 40%
(coluna vermelha) da amostra, coloca a impunidade como o factor determinante para a

51
ocorrência de crimes violentos nesta urbe. Os restantes 20%, representados pela coluna verde do
gráfico, dividem-se entre o consumo de drogas e a facilidade de acesso às armas.

Relativamente à desigualdade, importa salientar que não obstante o país ter registado um forte
crescimento económico ao longo da década passada, com uma média de 8% desde 1994 a 2006,
e um nível de crescimento de 7.2% em 2010, o mesmo continua a ser bastante pobre,
apresentando elevados níveis de desigualdade. A maioria da população continua dependente da
agricultura de subsistência e sobrevive abaixo da linha de pobreza (MARP, 2014:416). O
Relatório do MARP (2014:416), indica que o nível de pobreza decresceu de 69.4%, em 1997,
para 54.1%, em 2003, no entanto, o mesmo volta a revelar que o país continua posicionado entre
os mais pobres do mundo.

O coeficiente Gini tem estado a aumentar e atingiu os 45.6, tornando Moçambique em um dos
países do mundo com os maiores índices de desigualdade (Idem). Um estudo conduzido pela
Universidade Eduardo Mondlane e pelo Banco Mundial, indica que a redução de pobreza está a
abrandar e a desigualdade está se tornando numa grande preocupação. Aparentemente, o
aumento da renda nacional não se reflecte em termos de alívio à pobreza. O Relatório do MARP
2014 conclui que os ganhos resultantes do crescimento económico não chegam aos mais pobres.

A combinação pobreza - desigualdade é um conhecido motivador do crime e da violência à


medida que o fosso entre os que têm e os que não têm vai se tornando maior. Com o
agravamento da marginalização social e económica, existem razões mais do que suficientes para
justificar o uso da violência como uma forma de superar a desigualdade. Argumento sustentado
pelos dois reclusos entrevistados no EPPM acusados por cometimento de crimes de roubos em
residências e via pública, de 19 e 23 anos de idade respectivamente, que alegam ter caído no
mundo crime por falta de emprego, não obstante terem uma formação técnico-médio
profissional.

Olhando para a questão da pobreza e desigualdade em Moçambique, Hermenegildo Mulhovo do


Instituto Holandês para a Democracia (NIMD)11 conduziu um estudo independente para procurar

11
Mulhovo, Hermenegildo, Potential determinants of youth violence in Maputo neighborhood (Mozambique).

52
compreender os factores que motivam as populações suburbanas em Maputo e Matola, em
particular os jovens, a recorrerem a atitudes violentas e agressivas, no ano 2012. No referido
estudo, Mulhovo (2012:22) conclui que, apesar de se ter estabelecido em Moçambique uma
democracia liberal, a qual resultou na multiplicação de instituições democráticas e abriu espaço
para a participação democrática dos cidadãos em processos de desenvolvimento, os padrões de
vida da população continuam a piorar criando, consequentemente, uma atmosfera de insatisfação
e frustração. Mulhovo sublinha ainda que a crescente urbanização do país é acompanhada por
uma emergente urbanização da pobreza e refere que a redução da pobreza foi menor nas zonas
urbanas do que nas zonas rurais. O estudo sublinha o agravamento da pobreza nas principais
cidades do país, Maputo e Matola, e que os elevados níveis de pobreza urbana proporcionam um
ambiente de enorme dificuldade.

O outro factor que mereceu destaque por parte dos inquiridos foi a impunidade. Este elemento
está intrinsecamente ligado à corrupção e à consequente falta de confiança que a comunidade
nutre em relação às autoridades da administração da justiça. De acordo com o Relatório do
MARP (2014:420) , Moçambique ocupa a 116ª posição no índice de corrupção da Transparência
Internacional, num universo de 178 países, com uma pontuação de 2.7 (altamente corrupto).Em
Moçambique a percepção dos níveis de corrupção é significativamente acima da média, sendo
que a fonte de corrupção identificada foi a polícia, o que não é estranho se tomarmos em
consideração a natureza directa da interacção entre a polícia e a comunidade. Esta percepção de
corrupção terá influenciado a falta de confiança na polícia moçambicana, sendo que apenas 10%
dos crimes são reportados à mesma.

Os elementos relativos à corrupção, avançados anteriormente, não mostram a actua situação da


PRM, no que diz respeito à corrupção, facto que está por detrás da falta de confiança que os
moradores de Bunhiça nutrem pela corporação bem como a impunidade.

O outro elemento determinante para o aumento da criminalidade, que fora apontado pelos
moradores do Bairro Machava Bunhiça, está ligado ao consumo de drogas. Este facto é
propiciado pela proliferação das famigeradas “bocas de fumo” que fomentam o consumo de
drogas pelos jovens. De acordo com relatos dos residentes, estes consumidores aderem às drogas,
particularmente a canabis sativa (suruma) e na sequência engendram acções criminosas que são

53
marcadas pelo requinte de brutalidade. É a frieza que marca as incursões dos criminosos que
justifica a crença dos moradores no facto destes delinquentes ser consumidores de drogas.

3.3 Acções de Combate ao Crime e Violência

Em Moçambique existe um conjunto amplo de instituições que desempenham um papel


importante na prevenção e combate ao crime e violência, embora sejam poucas as que têm a
prevenção como sua missão primária. Entretanto, a PRM assume destaque nesta matéria, sendo a
principal entidade responsável por conduzir este processo.

Da entrevista feita ao oficial da PRM foi possível aferir as principais acções que têm sido
empreendidas para combater a onda de criminalidade que assola o Bairro Machava Bunhica.
Neste sentido, as autoridades policiais enveredam pelo patrulhamento como forma de dissuadir a
acção dos criminosos, o qual é realizado com recurso a veículos e ainda por agentes que circulam
nas artérias deste bairro. De acordo com a PRM, estas medidas mostram-se eficazes na medida
em que já tiveram a oportunidade abortar cerca de 10 tentativas de assalto a residências e alguns
indivíduos na via pública.

A par do patrulhamento, as autoridades policiais engendram actividades de investigação no


sentido de solucionar os crimes que têm assolado esta unidade territorial. No entanto, os recursos
exíguos da corporação limitam o sucesso destas acções. Esta imagem ineficaz é que marca o
sentimento dos populares, visto que sentem a inoperância das acções policiais.

No entanto, a PRM enfrenta uma carência séria de efectivos e recursos, com aproximadamente
100 polícias para cada 100.000 habitantes, representando uma das taxas mais baixas no mundo.
Considerando a dimensão do país e a capacidade limitada de formação da polícia, a sua presença
massiva será quase nula num futuro próximo. 12 Reclamações sobre a ineficiência policial,
corrupção são frequentes e minam a confiança no sistema jurídico moçambicano. A exiguidade
de recursos, foi apontada por um dos entrevistados, como sendo um dos mais fortes

12
http://www.news.va/pt/news/mocambique-criminalidade-violenta-no-maputo-e-na-m. Consultado no dia 20 de
Fevereiro de 2017

54
constrangimentos com os quais se depara a corporação. Contudo, reiterou que a colaboração com
a comunidade tem sido extremamente valiosa para o alcance do desiderato desta instituição.

Gráfico 2: Acções de Combate à Criminalidade

60%

50%

40%

30% Resposta 1
Resposta 2
20%

10%

0%
Combate a
criminalidade

Fonte: adaptado pelo autor a partir dos colectados no campo.

Importa acrescentar que os inquiridos quando questionados sobre a melhor opção para combater
à violência e ao crime penderam entre duas possibilidades: a primeira diz respeito ao combate à
corrupção e a segunda ao aumento do efectivo policial. No que diz respeito ao combate à
corrupção é evidente a sua relevância, na medida em que vai se elevar o nível de qualidade dos
serviços prestados pela polícia e todo aparato do sistema de administração da justiça. Deste
modo, elevar-se-ia a confiança que os cidadãos nutrem por estas instituições e desta forma
incrementar-se-ia a qualidade da cooperação entre estes.

A questão do aumento do efectivo de agentes da polícia está ligada ao reforço da capacidade


material e humana da corporação, o que acarreta custos financeiros. Os inquiridos demonstraram
perceber que o exíguo número de agentes que tentam velar pela sua segurança não é eficaz e, por
isso, um número maior e mais equipado seria mais indicado para o efeito.

55
É importante reparar que as informações trazidas pelos inquiridos remetem às autoridades
policiais o papel de solucionar a questão do crime e da violência. Assim, fica claro que há uma
percepção popular de que esta seja uma responsabilidade governamental, pelo que a população
seria um agente passivo neste processo.

3.4 Implicações da Criminalidade no Gozo dos Direitos e Liberdades Fundamentais

Nesta etapa do trabalho pretende-se aclarar as reais implicações que o crime tem no gozo das
liberdades e direitos fundamentais, princípios plasmados na CRM. Neste sentido, começa-se por
aclarar a disposição destes princípios na lei mãe e em seguida avalia-se o impacto do crime na
liberdade de circulação e na sensação de segurança.

3.4.1 Direitos e Liberdades Fundamentais em Moçambique

A revisão constitucional ocorrida em 1990 trouxe alterações muito profundas em praticamente


todos os campos da vida do País. Estas mudanças que já começavam a manifestar-se na
sociedade, principalmente na área económica, a partir de1984, encontram a sua concretização
formal com a nova Constituição aprovada. Um dos elementos marcantes nesta constituição foi o
facto dos direitos e garantias individuais terem sido reforçados, aumentando o seu âmbito e
mecanismos de responsabilização. Já em 2004, foi aprovada a constituição vigente, que veio
solidificar o regime de Estado de Direito e democrático trazido em 1990, através de melhores
especificações e aprofundamentos em disposições já existentes e também pela criação de novas
figuras, princípios e direitos (Sal e Cardeira, 2010:3)13.

Na nova constituição, Os direitos e deveres fundamentais dos cidadãos para além de serem
reforçados, ganham maior abrangência. Pode-se citar exemplo de alguns direitos/deveres antes
sem tratamento constitucional: direitos dos portadores de deficiência, os deveres para com o
semelhante e para com a comunidade, os direitos da criança, as restrições no uso da informática,
o direito de acção popular, o direito dos consumidores (Idem.).

13
http://www.acismoz.com/ consultado a 25 de Fevereiro de 2016.

56
Ademais, outra questão que passou a ser destacada diz respeito ao reconhecimento de um direito
fundamental à segurança pública. A segurança refere-se a um estado de não perturbação da
esfera individual que deve ser assegurado, em primeiro plano, pelo Estado, que, então,
hipoteticamente, é detentor exclusivo da força. Como actividade tipicamente prestativa, o direito
à segurança pública poderia ser concebido como um direito de segunda dimensão, uma vez que,
além de depender da intervenção estatal, ainda guarda uma dimensão individual.

3.4.2 Livre Circulação de Pessoas e Bens

Nos termos da Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos o direito a livre circulação
significa literalmente o direito de uma pessoa circular livremente e a fixar residência em lugar à
sua escolha dentro do território do Estado. Significa igualmente que o estrangeiro que se
encontrar legalmente no território de Estado-membro só poderá ser expulso por decisão judicial
que o justifique.

Na República de Moçambique, este direito está consagrado no artigo 55 da CRM que consagra:
“1. Todos os cidadãos tem direito a fixar residência em qualquer parte do território nacional.
Todos os cidadãos são livres de circular no interior e para o exterior do território nacional,
excepto os juridicamente privados desse direito”.

Esta disposição constitucional não tem sido integralmente observada devido aos crescentes
índices de criminalidade que assolam o Bairro Machava Bunhiça. Isto leva a uma situação em
que o medo de ser alvo das acções dos criminosos iniba a população desta unidade territorial de
se deslocar a seu belo prazer. Os relatos dos residentes deste local apontam o pôr-do-sol como o
momento em que devem cessar quaisquer acções fora de suas residências, não podendo,
portanto, deslocar-se devido aos recorrentes actos criminais.

3.4.3 Sensação de Insegurança


Refira-se que a violência dos crimes e o recurso cada vez maior a armas de fogo fizeram crescer
a sensação de insegurança no bairro Bunhiça e são factores determinantes para que a segurança
pública seja uma das principais exigências destes cidadãos, facto que fora relatado por um dos
57
agentes entrevistados. Mas a segurança é uma questão colectiva, ou seja, tem a ver com a forma
como a sociedade se organiza e funciona, e não deve ser responsabilidade apenas da polícia.

De acordo com os dados colhidos diante dos inquiridos, há unanimidade em relação à questão de
sensação de insegurança. Quando questionados se a violência teria aumentado nos últimos seis
meses e se esta aumentaria nos meses subsequentes todos inquiridos responderam de forma
afirmativa, mostrando a gravidade da situação enfrentada neste bairro. Um dos inquiridos chegou
a afirmar “não vejo a possibilidade de haver um melhor ambiente neste bairro e pretendo mudar
de residência”. Deste modo, ficou evidente o nível de falta de esperança a que se tinham voltado
os residentes do Bairro Bunhiça.

Ademais, em uma outra questão pedia-se que os inquiridos que fizessem uma classificação da
segurança pública no seu bairro, numa escala de 0 a 10. Nesta escala, de 0 a 2 seria considerada
um estágio péssimo, de 3 a 4 mau; de 5 a 7 razoável, de 8 a 9 bom, e 10 muito bom, tal como
está representado na tabela seguinte. De acordo com os dados colhidos, 100% dos inquiridos
consideraram a segurança pública no Bairro Bunhiça é péssima.

Tabela 1: Escala de Classificação da Insegurança Pública

Escala (0 a 10) Classificação


0a2 Péssimo
3a4 Mau
5a7 Razoável
8a9 Bom
10 Muito Bom
Fonte: Adaptado pelo autor a partir dos dados colectados

As informações apresentadas anteriormente são ilustrativas da forte sensação de falta de


protecção que assola os residentes do bairro Machava Bunhiça. Estes cidadãos perderam a
confiança nas entidades policiais e não acreditam que sejam capazes de cumprir o seu papel

58
constitucionalmente previsto. Assim, o medo reina no seio dos lares deste bairro, sendo que não
se vislumbra uma solução por parte destes.

3.5 Eficácia da Cooperação entre as Autoridades Policiais e a Comunidade

O Governo tem responsabilidade em termos de política de segurança. Mas a segurança é um bem


de todos e compete a todos assegurar uma atitude preventiva, e que se torna incontornável para a
segurança comunitária. Assim, prevenir implica reduzir o risco da ocorrência do crime e das suas
consequências, incluindo o medo e a insegurança, através de acções que incidem nas condições
associadas às ocorrências, devendo ser levadas a cabo pelas entidades governamentais a par da
comunidade.

A actividade da polícia está intimamente ligada à comunidade, pelo facto de ser esta o principal
alvo das acções levadas a cabo por esta entidade. Neste sentido, o nosso entrevistado 14 revelou
que a colaboração com a comunidade é essencial nas acções de combate ao crime, sendo o
policiamento comunitário um dos mecanismos adoptado para a materialização desta parceria.

Importa salientar que o policiamento comunitário é uma filosofia de policiamento que ganhou
força nas décadas de 70 e 80, quando as organizações policiais em diversos países da América do
Norte e da Europa Ocidental começaram a promover uma série de inovações na sua estrutura e
funcionamento e na forma de lidar com o problema da criminalidade. Em países diferentes, as
organizações policiais promoveram experiências e inovações com características diferentes. Mas,
algumas destas experiências e inovações são geralmente reconhecidas como a base de um novo
modelo de polícia, orientada para um novo tipo de policiamento, mais voltado para a
comunidade, que ficou conhecido como policiamento comunitário (Skolnick: 2001:220).

Quatro inovações são consideradas essenciais para o desenvolvimento do policiamento


comunitário (Skolnick, 2001:224):

14
Oficial da PRM, entrevistado no dia 20 de Novembro de 2016, na condição de anonimato.

59
 Organização da prevenção do crime tendo como base a comunidade;
 Reorientação das actividades de policiamento para enfatizar os serviços não emergentes e
para organizar e mobilizar a comunidade para participar da prevenção do crime;
 Descentralização do comando da polícia por áreas;
 Participação de civis no planeamento, execução, monitoria e/ou avaliação das actividades
de policiamento.

Para o caso do Bairro Machava Bunhiça foi criado um conselho de policiamento comunitário
formado por cerca de 8 indivíduos residentes neste local. Estes seriam responsáveis, em
coordenação com a PRM, por acções de patrulhamento no bairro e teriam a autoridade de
apreender indivíduos suspeitos de perpetrar acções criminais.

O conselho de Policiamento Comunitário do bairro Machava Bunhiça enfrenta dificuldades de


falta de meios para o patrulhamento da zona. Este corpo de voluntários necessita de mais viaturas
e outros meios de combate que lhes permita combater o crime. Neste aspecto, esta organização
depara-se com dificuldades em manter a segurança, devido a falta de instrumentos que ajudem
no policiamento, como exemplo, meios circulantes e outros instrumentos. Face a esta situação,
os casos de linchamentos tem surgido, principalmente porque a intervenção policial não é
imediata. De acordo com relatos populares, no ano de 2014, mês de Setembro, registou-se um
caso, onde um jovem foi espancado e quase perdeu a vida.

Para desencorajar estes actos, os responsáveis do bairro, em conjunto com a sociedade civil, a
PRM, Organização da Mulher Moçambicana (OMM), a Associação dos Médicos Tradicionais de
Moçambique (AMETRAMO) e as congregações religiosas têm feito trabalhos de sensibilização
a população, transmitindo mensagens que contribuam para reduzir estes crimes efectuados por
alguns residentes. .

Para auxiliar o trabalho feito por este grupo, os residentes de Bunhiça doavam cinco meticais por
família. Com as dimensões que o crime tem tomado nos últimos meses, estes residentes,
deixaram de contribuir. A população perdeu confiança no trabalho efectuado pelo policiamento
comunitário. Estes afirmam estar a “contribuir em vão”, pois não vêm resultados positivos.

60
A realidade exposta anteriormente é ilustrativa da deficiente cooperação entre a comunidade e as
entidades policiais, bem como o insucesso do mecanismo de policiamento comunitário. Tal
como se pode notar este fracasso está ligado à fragilidade da corporação policial bem como pela
falta de confiança que a população nutre por esta entidade.

3.5.1 Modelos Alternativos de Policiamento

Em face à ineficácia do modelo de policiamento comunitário outros modelos pode ser


apresentados, com vista a encontrar a solução para a criminalidade na urbe. Deste modo,
avançam-se os modelos de policiamento orientado pela inteligência e o de policiamento
virado para a resolução de problemas.

O primeiro modelo chama a necessidade de uma gestão integrada de todos os gestores e actores
da polícia especificamente aos Ramos da Policia de Investigação Criminal com o da Ordem
Pública, enfatiza a necessidade de maior atenção no investimento dos Recursos Humanos na
vertente de formação, bem como o uso dos suportes das Tecnologias de Informação e
Comunicação. Tendo em conta estes aspectos, a questão da segurança pública no Município da
Matola exige esta articulação entre os diferentes ramos da instituição policial, bem como o
incremento da qualidade técnica dos quadros desta corporação, como forma de garantir que haja
maior eficácia nas operações. Ademais, a componente das Tecnologias de Informação e
Comunicação mostra-se incontornável na abordagem aos eventos actuais. No que concerne ao
segundo modelo, com orientação nos problemas focaliza o desenvolvimento de um
conhecimento detalhado sobre a actividade criminal e o uso da experiência da polícia e civis para
resolver o problema. Geralmente, isto envolve, em partes iguais, a recolha, por parte da polícia,
de conhecimentos detalhados sobre actividades criminais, e os esforços que focalizam a
resolução do problema. Por exemplo, poderia acontecer os agentes da polícia observarem que um
número muito elevado de assaltos tem estado a ocorrer com demasiada frequência na esquina de
uma rua em especial (UNDOC, 2011:22). A polícia pode de seguida, dirigir-se a essa esquina a
horas diferentes do dia e observar o que lá se passa, assim como falar com os indivíduos que lá
vivem e trabalham, com a finalidade de compreender o motivo porque é que acontecem tantos
crimes naquela localidade. Pode ainda convidar outras agências governamentais a abordar os
problemas nessa área, por exemplo, reparar a iluminação nas estradas ou fazer a poda das árvores

61
para reduzir a possibilidade de assaltos. A polícia pode ainda estabelecer patrulhas mais
frequentes nesse local específico ou decidir mesmo postar lá um oficial para os momentos mais
críticos. Seria de esperar que esforços tais como estes tivessem o efeito desejado no sentido de
reduzir o crime nessa localidade. O policiamento com orientação nos problemas está igualmente
centrado na utilização da pesquisa e técnicas de construção de hipóteses das ciências sociais para
desenvolver estratégias eficazes para o controlo do crime. Este método de resolução dos
problemas é organizado sob uma estratégia que assenta na exploração/sondagem, análise,
resposta e avaliação (UNDOC, 2011:26).

A fase inicial do processo de resolução dos problemas é a sondagem, que envolve o


desenvolvimento de uma compreensão à larga escala dos problemas que afectam uma
determinada área. Para isto, é preciso haver um entendimento do tipo de crime que ocorre numa
área, estabelecer as implicações daqueles crimes para a polícia e a comunidade, confirmar que os
problemas percebidos realmente existem, construir uma lista de prioridades sobre o modo como
a polícia aborda os diferentes problemas encontrados nessa área, entender a duração e a
frequência de um problema e escolher determinados problemas para um estudo mais
aprofundado.

A análise está centrada no desenvolvimento de uma compreensão mais aprofundada de um


qualquer aspecto do crime que a polícia, de seguida, poderia transformar numa prioridade. Inclui
os esforços que visam desenvolver a compreensão mais profunda e alargada de um problema em
especial e o modo como este tem tido impacto nas outras jurisdições, a recolha de dados para
uma melhor compreensão do problema na área de enfoque da polícia, usando esses dados para
desenvolver uma hipótese sobre o que motivou o surgimento do problema e uma avaliação dos
recursos disponíveis para abordar esse problema.

Na terceira fase, a polícia apoia-se no conhecimento adquirido para criar uma resposta
focalizada. Isto inclui a elaboração de uma lista de intervenções possíveis baseadas no
conhecimento local e a pesquisa mais ampla, escolhendo uma linha de acção e desenvolvendo
um plano de aplicação onde estão indicados os objectivos e a execução do plano.

Por fim, devem ser avaliados os efeitos de todas as intervenções, com uma variedade de
estratégias quantitativas e qualitativas. Conforme foi explicado nas fases acima, o policiamento

62
com orientação nos problemas está baseado em técnicas rigorosas para avaliar, analisar e
resolver os problemas através da perícia policial. A polícia trabalha com dados existentes sobre o
crime e informações sobre a avaliação de problemas e intervenções semelhantes, juntamente com
os parceiros sociais comunitários, para desenvolver e implementar soluções.

Tendo em conta o enfoque na prevenção e no combate à criminalidade, bem como a vertente de


cooperação com a comunidade estes modelos de policiamento podem ser bastante úteis e
frutíferos para o Bairro Bunhiça, na medida em que poderiam contribuir na recolha, análise e na
definição da estratégia adequada para actuação da polícia; bem como poderiam facilitar a
resolução de problemas concretos à prevenção de crimes que se levantam naquela comunidade.

Esta posição é igualmente partilhada pelo oficial da PRM entrevistado nesta pesquisa, que
assume os modelos de policiamento orientado pela inteligência e o direccionado para a solução
de problemas como sendo bastante eficazes. Contudo, estes alertam para a exigência e maior
preparo dos agentes policiais com vista a melhor responder às exigências destes modelos.

63
3.6 CONCLUSÕES

Esta pesquisa centrou-se na abordagem à questão da segurança pública no Município da Matola,


com particular destaque para o Bairro Machava Bunhiça. Assim, nesta fase do trabalho é feita a
apresentação das constatações, que emanam da elaboração do mesmo, as quais são colocadas em
função do alcance dos objectivos definidos e do teste às hipóteses colocadas. Neste sentido, serão
apresentadas em seguida as ilações que advêm do teste de cada uma das hipóteses.

 A criminalidade no Bairro Bunhiça constitui um constrangimento à circulação de pessoas


e bens.

De acordo com os dados reunidos nesta pesquisa, ficou claro que o crime e a violência que
predominam no Bairro Machava Bunhiça inibem a livre circulação de pessoas e bens nesta zona.
Deste modo, fica evidente que esta realidade constitui também um entrave ao gozo dos direitos e
liberdades fundamentais dos cidadãos residentes nesta zona.

Importa referir que os crimes registados no Bairro Machava Bunhiça despoletaram no seio da
comunidade um forte sentimento de temor e insegurança. Os cidadãos vêem se inibidos, tanto de
circular nas artérias do bairro em que residem, bem como gozar do honroso descanso em suas
residências. Assim, sensação de insegurança é uma realidade neste bairro, pois há um sentimento
colectivo de falta de protecção por parte do Estado, entidade que seria responsável por garantir a
segurança do seu povo.

Entretanto, é importante salientar que a sensação de medo sempre irá acompanhar os membros
de uma sociedade, pois o crime e a violência são fenómenos indissociáveis do meio social.
Assim, não é possível eliminar completamente esta sensação mas sim reduzi-la através de acções
mais eficazes contra o crime e a violência, de forma a garantir o gozo efectivo dos direitos e
liberdades consagrados na CRM.

 A vigilância comunitária é o modelo de policiamento adoptado no bairro Bunhiça,


contudo tem se mostrado ineficaz.

Neste âmbito, importa referir a priori que a debilidade institucional da PRM é um factor que
contribui para a ineficácia da garantia da segurança pública no Município da Matola. Esta

64
afirmação é alicerçada no facto desta instituição ser a principal responsável por conduzir o
processo de prevenção e combate à criminalidade, ou seja, garantia da ordem e tranquilidade
públicas, sendo que a exiguidade de recursos materiais e humanos restringe a acção desta
instituição no cumprimento do desiderato da segurança pública. Estes elementos abrem espaço
para a adopção da vigilância comunitária, a qual só seria bem-sucedida através da de uma
colaboração com as autoridades policiais que se mostram ineficazes devido à sua incapacidade
material e humana.

É preciso notar que as estatísticas mostram que em Moçambique 100 agentes da polícia estão
para cerca de 100.000 habitantes, o que é ilustrativo da grande discrepância que existe entre a
real capacidade das autoridades policiais e as necessidades de Moçambique. Para além da
questão de recursos, a debilidade institucional da PRM é também marcada pela corrupção, facto
que mancha a credibilidade e eficácia das acções desta instituição. De acordo com vários estudos
feitos em Moçambique, ficou comprovado que esta instituição é considerada a que maior índice
de corrupção apresenta, pelo que esta inspira mínima confiança aos cidadãos moçambicanos em
geral e do Município da Matola em particular.

 A colaboração é a fórmula mais eficaz para garantir a segurança pública no município da


Matola, contudo há que garantir que haja fortalecimento da capacidade da corporação
policial.

A segurança pública é uma questão colectiva, pois é essencial para o funcionamento de qualquer
sociedade e, deste modo, será da responsabilidade de todos membros desta, a garantia da sua
preservação, apesar de ser a polícia a principal entidade que vela por este valor. Assim, a
cooperação é essencial para que a segurança pública seja garantida.

Para o caso em estudo foi possível perceber que existe a consciência da relevância da
cooperação, principalmente entre a comunidade e a polícia. No entanto, esta relação tem se
mostrado deficiente, em alguns casos, e ao mesmo tempo frutífera. O sucesso desta relação é
registado nos casos em que alguns crimes são solucionados com base em denúncias populares,
visto que às vezes os criminosos estão infiltrados no seio da comunidade. Contudo, ainda se está
longe de alcançar os níveis esperados, visto que a população nutre pouca confiança em relação às
autoridades policiais. Assim, a questão da cooperação, apesar de ser relevante ainda não se

65
mostra determinante para a segurança pública devido à pouca confiança que a população nutre
pela polícia e as outras entidades da administração da justiça.

Outro aspecto digno de realce, é o facto do mecanismo de policiamento comunitário não estar a
ser capitalizado. Para o caso do bairro Bunhiça verifica-se que este, tal como, a própria polícia,
não detém recursos suficientes para levar a cabo suas acções com maior eficácia. Esta seria uma
forma de garantir que houvesse descentralização do papel da polícia e maior envolvimento da
comunidade no processo de garantia de sua própria segurança.

Tendo em conta estes dados, foi possível perceber que a questão da segurança pública é bastante
candente no Município da Matola. Isto deve-se ao facto desta matéria estar vinculada ao
funcionamento de toda sociedade, visto que a ordem e tranquilidade são condições sine-qua-non
para que haja progresso social.

66
3.6 RECOMENDAÇÕES

Tendo em conta os aspectos que foram constatados nesta pesquisa vários elementos se fazem
importantes sugerir.

 Fortalecimento da Corporação Policial

Este elemento afigura-se primário na medida em que esta instituição tem o dever constitucional
de velar pela protecção dos cidadãos e seus bens. Assim, a PRM tem a obrigação de prevenir e
combater o crime, sendo que para este efeito deverá incrementar sua capacidade material e
humana. Ademais, questões ligadas à ética deverão ser cultivadas, de forma a evitar que
situações ligadas à corrupção manchem esta instituição.

 Maior Envolvimento da Comunidade

. Este envolvimento não passa apenas pela realização de denúncias, como reiteradamente apela a
PRM, mas sim na participação efectiva através do reforço das capacidades dos conselhos de
policiamento comunitário. Assim, haveria maior eficácia e confiança recíproca, o que seria uma
mais-valia para sociedade no seu todo.

67
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designada por PPM, e extingue o Corpo de Polícia de Moçambique. Boletim da República, I
Série, Maputo, 1979.

71
APÊNDICES

72
Apêndice A: Questionário

CURSO DE MESTRADO EM DIREITO E SEGURANÇA

Questionário para os Moradores do Bairro Bunhiça

Idade

o De 10 a 20 anos
o De 21 a 40 anos
o De 41 a 60 anos
o Mais de 60 anos

Sexo
o Masculino
o Feminino

Escolaridade
o Ensino Primário I Ciclo
o Ensino Primário II Ciclo
o Nível Básico
o Nível Médio
o Nível Superior

Considerando os últimos dois anos, você diria que a violência:


Aumentou
Diminuiu

Considerando os próximos seis meses, você acredita que a violência:


Vai aumentar
Vai diminuir

Você se sente seguro (a)?


Sim

73
Não

Você já foi vítima de algum tipo de violência?


Sim
Não

Qual o tipo de violência? (Para quem respondeu SIM na pergunta anterior)


Assalto/Roubo/Furto
Homicídio de parente ou conhecido
Sequestro
Outra

De modo geral, que nota você daria à segurança pública do seu Bairro?
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10

Em sua opinião, qual é a principal causa da violência?


A impunidade
Tráfico e consumo de drogas
Desigualdade Social

74
Desemprego
Falta de ensino
Ausência do Estado
Fácil acesso às armas
Outra

Aumentando o rigor da lei, você acha que diminuiria a criminalidade?


Sim
Não

Você acha que o governo municipal contribui de alguma forma para a diminuição
da criminalidade?
Sim
Não

Qual seria a melhor solução para que a violência no município da Matola


diminuísse?
Colocar mais policiais nas ruas
Gerar mais empregos para a população
Implementar mais programas de primeiro emprego para jovens
Aumentar verbas para educação, a fim de que o jovem passe mais tempo na escola
Desenvolver programas sociais para a população mais carente
Combater o tráfico de drogas
Combater a corrupção
Treinar e qualificar melhor os policiais
Outra

75
Apêndice B: Guião de Entrevista

CURSO DE MESTRADO EM DIREITO E SEGURANÇA

Guião de Questões para a Entrevista

1. Quais são as principais ameaças à segurança pública no Município da Matola, em geral, e


Bairro Bunhiça, em particular?
2. Quais são os principais determinantes do incremento do índice de criminalidade nos
bairros suburbanos do município da Matola?
3. Quais são as medidas que são levadas a cabo pela PRM no sentido de prevenir e
combater a acções criminosas no município da Matola? Serão eficazes?
4. Quais são os principais métodos de cooperação com as comunidades empregues pela
corporação policial?
5. Qual é a posição da PRM em relação ao policiamento comunitário nos bairros
suburbanos?

76
Apêndice C: Organograma da Polícia da República de Moçambique

COMANDO - GERAL

COMANDOS FORÇAS ESPECIAIS E ESTABELECIMENTOS


PROVINCIAIS DE RESERVA DE ENSINO

SUPERIOR
DESTACAMENTOS
DAS FORÇAS
COMANDOS ESPECIAIS E DE
ESQUADRAS
DISTRITAIS RESERVA
MÉDIO

POSTOS POSTOS BÁSICO


POLICIAIS POLICIAIS

Fonte: Decreto no 27/99, de 24 de Maio

77