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Democracia, cidadania, participação


popular
Vinício Martinez

Publicado em 06/2017. Elaborado em 06/2017.

A Política deve ser maiúscula e não apequenada como "política profissional".

A Política é “arte” e ação prática  (reflexiva). A Política é a essência humana e sem a Polis não somos “sociáveis”
(zoonpolitikón) , pois não há coletivo sem um “querer racional e compartilhável”. Já a cidadania democrática  é uma
conquista da Humanidade – sendo uma realidade para doutores e empregados domésticos  –, e se ampara no direito
como norte do processo civilizatório. A regulação racional dos conflitos de interesses é fonte de “mais razão”, tanto
quanto se alimenta de “seres racionais” (razoáveis). Assim, o direito à política age ao reverso da mera intervenção
ideológica do direito no status quo  e prega a “boa prática da política”: a arte da ponderação, mediação, razoabilidade
na construção coletiva dos ideais.
Desse modo, o título traz o tripé que compõe um ideário de libertação desde o Iluminismo e que se consagrou na
Revolução Francesa, em 1789. Como a Liberdade não é agrado político, mas sim uma conquista que não se faz sem
luta popular, o direito à política é fundamental e inseparável do homem médio em sua vida comum. Democracia,
como o exercício dos direitos políticos fundamentais, Cidadania – na forma de garantias ao exercício da vontade
política – e Participação Popular, instituidora da obediência à soberania da vontade popular, formam o eixo da
modernidade política.
Na sociedade dividida em classes sociais (capitalismo), a luta pelo direito à participação política, bem como a garantia
dos demais direitos políticos, é sempre uma luta política – e nem sempre está livre da violência. Muitas vezes, os
trabalhadores precisam organizar-se dentro e fora do Estado de Direito para assegurar alguns direitos e conquistas
sociais. O direito à greve é um exemplo de como a luta pelo direito ocorre na forma da luta de classes; sobretudo, se
entendermos que o exercício desse direito do trabalhador confronta diretamente os interesses do capital. No âmbito
das relações materiais do trabalho – contra o que se volta a greve – reina o Princípio da Hierarquia: submetendo-se o
trabalhador às condições (alheias) de exploração de sua força de trabalho. Condições, obviamente, externas,
superiores (em poder) e independentes de sua vontade. Vê-se aí o direito em meio à contradição ou como “meio” da
contradição.
 Assim, se falarmos da modernidade política, em especial com os ganhos trazidos pelo século XX em termos de
controle popular do Poder Político (Estado de Direito), é essencial pensar que o povo, as massas, os trabalhadores
têm direito à ampla participação no espaço público. Do voto direto (livre, secreto, soberano) – passando pelo direito
de não-votar e pela Desobediência Civil: afronta à lei injusta – à convocatória de Greve Geral, tudo se amplia na
defesa democrática e popular de direitos fundamentais: consagrados na forma de uma Constituição.
 Todavia, algumas formas de Participação Popular extravasam os próprios limites estabelecidos para a Democracia
na CF/88. Exemplos de manifestações antidemocráticas são: pregação do ódio racial e de classe, apelo em favor do
machismo e do racismo, ataques pessoais (calúnia, difamação ou injúria) contra “inimigos políticos”, depredação dos
prédios públicos e privados.
Tanto faz que as manifestações de racismo, intolerância, discriminação, ocorram nas ruas ou nas redes sociais, o
resultado é o mesmo: ataca-se violentamente a democracia (art. 5º, XLIV da CF/88). Por isso, neste momento agudo
porque passa o país, são igualmente prejudiciais à garantia dos direitos fundamentais (sociais e trabalhistas) tanto os
Black Blocs quanto os movimentos neonazistas. Comumente, os Black Blocs são definidos como “arruaceiros”, mas
são ativistas políticos que pregam a mudança do status quo. Por sua vez, a extrema direita forma milícias de
pistoleiros assassinos no campo, apodera-se dos meios de comunicação de massa e elege seus representantes:
Bolsonaro, Bancada BBB.
O Movimento “Direita São Paulo” – na auto-definição de política “conservadora e reacionária” – é antidemocrático por
essência e reacionário no modus operandi: ataques virulentos e violentos contra muçulmanos (ou nordestinos) em
São Paulo. Contudo, tem como antípodas os Black Blocs; pois, anarquistas, são críticos à democracia liberal e ao
capitalismo de tom fascista que nos apossou. A Direita São Paulo luta contra a Lei que traz benefícios aos mais
pobres (negros, refugiados), e os Black Blocs radicalizam na luta contra o capitalismo.
 A Participação Política (popular), como exercício da Cidadania, no espaço público (e privado) assegurado pela
Democracia Constitucional – seja direta (ação popular, referendo, plebiscito), seja indireta (Poder Legislativo) –, tem
de ser o foco de democratas, liberais, socialistas, comunistas que enfrentam o recrudescimento do fascismo em
nosso país e no mundo afora. Nas casas, ruas, salas de aula, nos grupos de amigos e nas redes sociais, os discursos
de racismo, sexismo, elitismo, de intolerância e de segregação racial e de classes, têm de ser combatidos por todos
que não querem sucumbir ao fascismo. Por isso, a democracia é o melhor dos regimes.
 Em determinados momentos da história, a democracia é uma luta propositiva, a fim de se conquistar direitos políticos
fundamentais; em outros casos, a democracia é reativa, quando há embate para manter o que se conquistou em lutas
passadas. Em 1979/85 tivemos um resplendor de luta democrática propositiva, gerando a chamada Constituição
Cidadã (1988); em 2016/17 nós retroagimos, agora lutamos para manter o que conquistamos e que já perdemos com
as “reformas”. Juridicamente, enfrentamos um Estado de Direito regressivo e repressivo que pretende ver nulos os
direitos fundamentais individuais e sociais. Politicamente, lutamos pela Democracia (em que pese seja liberal), contra
as forças irracionais que se intitulam donas do espaço público.
 Nesta luta pelo poder, não há meio termo, não há “muro seguro para ficar em cima”, não há imunidade para quem se
abstenha ou ignore o realismo político. O maniqueísmo político nunca foi tão claro, salvo na Alemanha de 1939-45.
Portanto, trata-se sim de direita e esquerda, de democracia ou de fascismo, como sentença política da mors tua, vita
mea: “ser ou não-ser”.

Autor

Vinício Martinez
Pós-Doutor em Ciência Política. Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos –
UFSCar/CECH.

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