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Philippe Lamy

Note bene: África do Sul, independente desde 1910, Etiópia, não colonizada, e
Egito, ainda independente, não figuram nas cores da legenda acima, que apontam
apenas os países colonizados.

A África Ocidental Francesa, AOF, era o domínio colonial que


incluía os atuais Mauritânia, Senegal, Guiné Conacri, Costa do Mar-
fim, Benin, Mali, Burquina Faso e Níger.
A África Equatorial Francesa, AEF, compreendia os atuais Congo
(Brazaville), Gabão, República Centro-Africana (ex-Ubangui-Chari)
e Chade.

2. Ocupação e resistência

2.1. Modalidades da ocupação


Acertadas as regras de ocupação de territórios na África e as
modalidades do seu reconhecimento pelas potências colonizadoras
europeias, a partilha da África, iniciada antes da Conferência de Berlim
pela França e pela Inglaterra, se acelerou.
Os objetivos da colonização visaram o monopólio do comércio
internacional dos países africanos. Esse processo, entretanto, não se
deu pacificamente. A resistência partiu, geralmente, dos povos do
interior, mais que dos povos do litoral. Estes, comprometidos com o
tráfico, estavam em transição para outras atividades.
O procedimento para controlar os territórios africanos através da
assinatura de tratados de protetorados, que pretendia dar tranquilidade
ao processo de ocupação entre os colonizados, provocou uma corrida
às aldeias para “chegar primeiro” e “vender proteção e exclusividade
de comércio” aos reis locais, e assim, “comprovar” no âmbito inter-
nacional europeu a extensão do seu domínio. Isso provocou muitas
vezes conflitos entre os colonizadores. Na África oriental entre ale-
mães e ingleses, e na ocidental entre franceses e ingleses.
Esses conflitos, porém, nunca resultaram em choques militares,
sendo sempre resolvidos, na Europa, pela via política, pois existia

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A ocupação colonial da áfrica. Da Conferência de Berlim à Primeira Guerra Mundial

um “acordo de cavalheiros” entre colonizadores para não dar aos


africanos mostra de contradição entre eles.
A ocupação dos territórios africanos de Angola e Moçambique
por Portugal era mais teórica do que real. Os comerciantes agiam
mais do que os militares ou a administração colonial. As regras para
ocupação da África forçaram os políticos portugueses a formar uma
bancada parlamentar colonialista, de vários partidos, que votavam
em comum em prol da questão colonial, visando conseguir recursos
para efetivar a ocupação lusa.
Movimento semelhante foi notado também na França, na Inglater-
ra, na Alemanha e na Itália (para a conquista da Somália e da Líbia),
onde setores da sociedade votavam pela obtenção de recursos orça-
mentários para a colonização.
Surgiram então, as companhias concessionárias5. Eram empresas
internacionais privadas, com direito de cobrar taxas em dinheiro ou
em trabalho dos africanos, importar e exportar, realizar comércio, de
criar e gerir grandes plantações, de construir infraestruturas, garantir
a ordem e os serviços de comunicação. Em contrapartida, pagavam
uma taxa ao governo.
Em Moçambique, para dar continuidade à ocupação, o governo
português, carente de recursos financeiros, entregou nesse período a
maior parte do país a companhias majestáticas de capital estrangeiro.
Atuaram a Companhia do Niassa, Companhia de Moçambique e a
Companhia do Zambeze6.
Na África Equatorial, a França confiou a exploração de vastas
expansões territoriais às companhias à chartes, empresas privadas
de capital francês: Compagnie Française d’Afrique Equatoriale e a
Compagnie du Sénégal et de la Côte Occidentale de l’Afrique.
A Inglaterra concedeu carta a diversas companhias, como a British
South Africa Company (BSAC), de Cecil Rhodes, que desempenhou
papel importante na colonização na região austral, e a Imperial British
East Africa Company (IBEAC), na África Oriental.

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Os resultados econômicos foram diversos nas diferentes colônias


e entre as companhias, mas as consequências sociais onde atuaram
foram sempre perversas para as populações locais.
Com o tempo, os atos de resistência – que se manifestavam de
várias formas, brandas ou não – viraram habituais. Entre 1920 e
1935, a situação se acomodou, até que a crise mundial levou, de novo,
os europeus a intensificarem a exploração e a extorsão das suas colô-
nias, desta feita para se defenderem eles mesmos da nova conjuntura.
Com isso voltaram as manifestações populares e a repressão.

2.2. O comportamento das classes dominantes africanas


Para as classes dominantes africanas, que viviam da arrecadação
de tributos e do comércio de escravos e de novos produtos, a ocupa-
ção colonial se traduziu em perda do poder e de receitas. Em compen-
sação, como regra geral, essas classes foram cooptadas pelas potên-
cias colonizadoras para ajudar na coleta dos novos impostos, em par-
ticular o imposto per capita, que substituiu o imposto de palhota7, e
no recrutamento obrigatório de homens para o transporte de cargas.
O recrutamento era feito, também, para a construção de
infraestruturas, em particular de ferrovias e rodovias. Os campone-
ses, além dos impostos a serem pagos, eram compelidos a sair da sua
aldeia para o trabalho obrigatório.
Nos territórios sob o controle de companhias privadas, como em
Moçambique, na África Equatorial Francesa ou no Congo do rei
Leopoldo da Bélgica, a situação era ainda pior, na medida em que essas
companhias não se preocupavam, por princípio administrativo, em apro-
veitar as hierarquias políticas e étnicas, e preferiam, em geral, recorrer
diretamente a ameaças e repressões pela ação de milícias privadas que
exerciam ação violenta. Mas, mesmo assim, muitos africanos resistiam
e preferiam morrer queimados em suas casas a se deixarem recrutar
para o trabalho forçado, considerado uma escravidão moderna.
Essas situações aconteceram em várias regiões africanas, fomen-
tando novas revoltas e atos de resistência individual ou coletiva. Es-
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A ocupação colonial da áfrica. Da Conferência de Berlim à Primeira Guerra Mundial

sas revoltas conseguiram, como nunca antes, juntar vários grupos


linhageiros, e mesmo étnicos, contra os colonizadores. Como exem-
plo, a revolta Magi Magi8 na África oriental, e a aliança das etnias
Macua-Swaili, que resistiram aos portugueses até depois de 1920, no
norte de Moçambique.
Atos de resistência das classes dominantes africanas vieram de
reinos e potentados da costa atlântica ou do interior, que estavam
constituídos em impérios territoriais, a partir da captura e do tráfico
de escravos. Esse foi o caso do reino Achanti, no interior da Costa do
Ouro, atual Gana, que entrou em conflito com os ingleses instalados
na costa.
As divergências surgiram quando os ingleses proibiram o tráfico
de escravos e a prática da escravidão, e depois, quando tiveram a
pretensão de monopolizar o comércio transoceânico, a exportação
dos produtos africanos e a importação dos bens manufaturados euro-
peus, até então controladas pelos achantis.
O rei de Daomé, Behanzin, não aceitou os poderes estrangeiros
em seu território e, estrategicamente, ganhou dois ou três anos, tem-
po suficiente para comprar armas modernas, inclusive canhões, e trei-
nou tão bem os seus artilheiros, que o exército francês, preconceituoso,
pensou que fossem alemães9. No exército de Behanzin havia ainda,
um destacamento de amazonas aguerridas que lutavam até a morte.
Essa resistência se travou primeiro por guerra aberta e, depois da
perda da capital, através da guerra de guerrilha. O comandante fran-
cês Dobbs venceu Behanzin e libertou os escravos iorubás, inimigos
do povo daomeano, que se beneficiava da economia escravista. Os
iorubás queimaram, então, as plantações da região, o que causou
fome e contribuiu para a derrota da resistência.
Se por um lado, a invasão colonial “dividiu” a África entre as
potências europeias, por outro, ela “uniu” mais de dez mil reinos e
etnias em não mais do que uma quarentena de unidades administrati-
vas, apesar dos conflitos interétnicos, que eram explorados pelos co-
lonizadores.

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Como as fronteiras entre as unidades repartidas eram desenhadas


na Europa, nem sempre respeitando os territórios tradicionais africa-
nos, e as administrações coloniais ocupassem progressivamente os
espaços das cidades capitais até os limites de cada domínio colonial,
os africanos utilizaram livremente durante muito tempo os caminhos
pré-coloniais.
Na maioria dos casos, a ocupação do território africano tomou o
aspecto de um lento processo de infiltração, embora nem sempre com
derramamento de sangue. O comércio local e a mão de obra migrató-
ria fluíam com bastante facilidade atravé das fronteiras coloniais.
Somente quando a cobrança de impostos e o recrutamento para o
trabalho forçado foram introduzidos para os africanos, é que a per-
cepção das fronteiras começou a acontecer, pois então tornou-se ne-
cessário diferenciar a qual poder estrangeiro se obedeceria.

2.3. Os instrumentos da conquista


Para adentrar e ocupar efetivamente os territórios que tinham con-
seguido na partilha, as potências europeias recorreram à constituição
de forças militares formadas por soldados africanos, enquadrados
por oficiais e suboficiais europeus.
Esse sistema apresentava duas grandes vantagens aos europeus:
O reduzia o custo do recrutamento, transporte e manutenção de

tropas europeias para a África;


O dispunha de combatentes conhecedores da região, adaptados a

ela e pouco propensos às doenças tropicais, portanto com uma dispo-


nibilidade para o combate equivalente aos exércitos dos reinos e im-
périos africanos.
O recrutamento dessas tropas regulares, com soldo, armas e fardas,
foi feito inicialmente entre escravos libertos, em seguida entre soldados
e civis feitos prisioneiros de guerra, depois entre voluntários e, quando
eclodiu a Primeira Guerra Mundial, por convocação obrigatória.
Infantaria ligeira, artilharia e metralhadoras faziam parte das uni-
dades. A formação de colunas para ofensiva à longa distância incluía,

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A ocupação colonial da áfrica. Da Conferência de Berlim à Primeira Guerra Mundial

além das tropas, auxiliares e três carregadores por cada combatente.


Essas tropas, cuja remuneração era a permissão de pilhagens ao lon-
go das aldeias, infligiam terror às populações, roubando, matando e
violentando os conquistados. Ao regressarem dessas barbáries, os
oficiais europeus contavam com promoções e medalhas, enquanto os
parlamentos de seus países nem mesmo tomavam conhecimento dos
fatos ou simplesmente silenciavam.
A primeira unidade desse tipo, a dos tirailleurs (fuzileiros)
senegaleses, foi criada em 1857 a pedido do general Faidherbe, gover-
nador-geral do Senegal, e oficializada por decreto de Napoleão III. Na
prática, os seus integrantes não eram apenas senegaleses, mas vinham
de todas as partes da África sul-saariana, sob controle francês.
Os ingleses recorreram, na guerra de ocupação de 1873-74, à
Policia Militar Hauçá da Nigéria do Sul, a HCSN10, contra os achantis
e sua capital Kumasi. No Estado Livre do Congo, as milícias africa-
nas, recrutadas desde 1883, foram transformadas oficialmente pelo
rei Leopoldo, dos belgas, em Force Publique, em 1888. Na África
Oriental, os soldados africanos eram designados pelo termo askari,
que significa soldado em suaíli. O exército colonial alemão utilizava
askaris comandados por oficiais e suboficiais germânicos na forma-
ção das suas unidades. Por outro lado, em 1888 foi oficializada a
Companhia Alemã da África Oriental, a DOG11.
As milícias da Companhia Imperial Britânica da África Oriental,
a IBEAC12, foram organizadas em tropas regulares em 1895. Eram
os Fuzileiros Africanos do Leste, mais tarde renomeados Fuzileiros
Africanos do Rei, os KAR13.
A conquista colonial só não se efetivou em dois países africanos –
a Etiópia e a Libéria, que escaparam por se distinguirem dos demais
pelo senso de nacionalidade de suas classes dominantes, pelo conhe-
cimento do “sistema mundo” de seus líderes e pelo domínio de tecno-
logia militar, no caso da Etiópia, e da proteção dos EUA, no caso da
Libéria.

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2.4. Resistência islâmica na África norte-oriental


No Sudão Nilótico, o movimento mahadista, forma messiânica de
islamismo, expandiu-se desde o início da conquista colonial anglo-
egípcia, como um movimento popular.
Em 1881, Muhamad Aharad proclamou-se Mahadi. Seus apelos
foram para o retorno ao “Islã puro e justo”, contra o “Islã deturpado”
da administração turca, para a luta contra a opressão, mobilizando
os descontentes. Formou um exército e avançou em direção à capital.
O poder egípcio que tinha se tornado anglo-egípcio a partir de 1882,
foi expulso militarmente, e em janeiro de 1885, a capital Cartum
capitulou. O governador britânico Gordon, ali instalado, foi morto.
Apesar do falecimento inesperado do Mahadi, em junho de 1885,
seu sucessor conseguiu instalar um Estado Islâmico bem estruturado.
Esse novo Estado, porém, rejeitou a oferta de uma aliança com a
Etiópia Copta14 contra o retorno dos anglo-egípcios. A aliança não
foi aceita porque o novo Estado pretendia conquistar a Etiópia e
convertê-la ao Islã. No entanto, o Estado Islâmico Sudanês, foi esma-
gado pela campanha de reconquista, conduzida pelo general britâni-
co Kitchener entre os anos de 1896 a 1898. Embora o Estado acabas-
se, o nacionalismo sudanês sobreviveu porque estava consolidado com
o retorno do islamismo.
A tomada de Cartum e a morte de Gordon tiveram enorme reper-
cussão positiva entre os africanos islâmicos. A tal ponto que uma
última onda mahadista chegou 20 anos depois, em 1905, às cidades
de Buna, no norte, e Bonduku, no centro, na Costa do Marfim.
Nestes dois lugares, foram detidos pelos administradores coloni-
ais franceses marabutos que pregavam, em nome do Mahadi, a reno-
vação islâmica e um novo jihad para expulsar os infiéis brancos.

2.5. A resistência na Etiópia


Como forma de afirmação internacional, o Estado italiano, recém
criado em 1860, também pretendia participar do processo de partilha
da África. Essa pretensão foi apoiada pela Grã Bretanha, que espera-

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va, assim, prejudicar os avanços da França na África do Norte e no


Chifre da África, sua principal concorrente. Nesse momento, o Egito
ocupava a maior parte das costas africanas do Mar Vermelho, em
particular o porto de Massawa, no nordeste da Etiópia, a principal
saída marítima da região do Tigre.
Em reação aos avanços militares do Mahadi, em 1883, os britâni-
cos decidiram retirar do Sudão e das costas do Mar Vermelho as
forças egípcias e inglesas. Para tanto, pediram o apoio do Imperador
Yohannes, da Etiópia. Este, em troca, pediu a restituição dos territó-
rios fronteiriços do Sudão e do porto de Massawa, ocupados pelos
egípcios. Os ingleses aceitaram a primeira condição, mas não a se-
gunda. Para Massawa, concordaram com o trânsito comercial, inclu-
sive de armas, mas sob a proteção britânica. Seis meses depois, em
fevereiro de 1885, os italianos ocuparam Massawa com a anuência
dos britânicos, interessados em impedir o avanço francês na costa da
Somália, a partir de Obok e Djubuti.
Partindo de Massawa, os italianos avançaram com destacamentos
militares em território etíope, iniciando a guerra de conquista da
Eritreia, operação completada no final de 1889.

2.6. Menelik II
Enquanto isso, o ras Menelik II15, da província do Shoa, no centro
da Etiópia, embora fosse formalmente vassalo de Yohannes, manti-
nha relações cordiais com a Itália, que mantinha um representante
diplomático na sua corte.
A Itália estava muito interessada nessa aliança, tendo em vista
seus projetos de conquista. Dos italianos, Menelik recebeu assistên-
cia de médicos e, o mais importante, muitas armas de fogo que lhe
permitiram conquistar as ricas regiões vizinhas a sudoeste de Shoa.
Logo após a morte de Yohannes, em combate com os mahadistas
do Sudão, em 1889, os italianos propuseram a Menelik um tratado de
paz e amizade, que foi assinado em Wuchale (Uccialli, em italiano).
O tratado reconhecia a soberania da Itália sobre a Eritreia e, em
troca, a Itália reconheceria Menelik como Imperador da Etiópia e lhe

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garantiria a livre passagem de armas e mercadorias, através do terri-


tório da Eritreia. Porém, o artigo 17 do Tratado de Uccialli tinha
significados diferentes nas redações. em amárico16 e em italiano. Na
versão amárica, a Etiópia podia, quando quisesse, pedir à Itália que a
representasse junto a outros países. Na versão italiana, era obrigató-
rio que a Etiópia recorresse à Itália para se relacionar com outras
nações. Através desse subterfúgio, a Itália pretendia estabelecer um
protetorado italiano na Etiópia e anunciou às potências europeias a
assinatura do Tratado de Uccialli na versão italiana.
Nesses termos, o tratado foi aceito pelos países europeus, sem
discussão. Quando Menelik anunciou a esses países a data da sua
coroação como Imperador da Etiópia, recebeu como resposta que a
Etiópia era um protetorado italiano, e caberia à Itália informar-lhes
dessa solenidade.
Entre 1891 e 1894 a Grã Bretanha assinou com a Itália, três pro-
tocolos que fixavam as fronteiras entre a Etiópia e as colônias ingle-
sas do Chifre da África e do Vale do Nilo. Enquanto isso, Menelik
comprava fuzis e canhões na França e na Rússia e anexava várias
províncias ao sul e sudoeste, formando o atual território da Etiópia.
No início de 1893, Menelik informou às potências europeias que es-
tava denunciando o Tratado de Uccialli. Naquele momento, ele já
tinha acumulado 82 mil fuzis e 26 canhões. A guerra com a Itália
começou no final de 1894.
De início, os italianos ocuparam grande parte do Tigré. Então,
Menelik mobilizou seus exércitos e contra atacou, conseguindo em-
purrar os inimigos para Andowa, a nordeste, onde aconteceu a bata-
lha decisiva. O exército italiano perdeu 40% do seu efetivo, entre
mortos e feridos, 11 mil fuzis e seus 56 canhões, um completo desas-
tre. Após essa derrota, a Itália assinou o Tratado de Adisabeba que
anulava parcialmente o Tratado de Uccialli. Não totalmente pois não
devolvia a Eritreia. Mas reconheceu a total independência da Etiópia,
que passou a receber embaixadas das potências europeias e do Impé-
rio Otomano.

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A ocupação colonial da áfrica. Da Conferência de Berlim à Primeira Guerra Mundial

A vitória de Menelik é festejada ainda hoje em toda a África, pois


foi a única que fez os colonizadores recuarem no momento da ocupa-
ção do continente. A Etiópia conseguiu, por esta vitória, evitar o jugo
colonial, mantendo-se assim como o único país africano independen-
te. A Libéria, outro país não colonizado, foi, entretanto, uma inven-
ção americana.
Isso reforçou o etiopismo17 na convicção de valorizar o negro. Mas,
infelizmente, a Etiópia não pode servir de modelo de administração e
de governo para o restante da África, na luta contra o colonialismo.
O Imperador Menelik II era um autocrata feudal que formou um ga-
binete ministerial pela primeira vez apenas em 1907, e criou a im-
prensa oficial em 1911.
Seguindo os passos de Menelik II, o seu sucessor Hailê Selassiê,
somente promulgou a libertação dos escravos em 1924 e o fim do
comércio escravagista em 193118.
Por falta de organização governamental de Menelik, o pensa-
dor ganês, J.E. Casely Hayford, em seu livro Ethiopia Unbound
(Etiópia Livre), publicado em 1911, fez mais referências à experiên-
cia japonesa19, do que citações do exemplo ainda não amadurecido
da Etiópia.
É importante observar que a invasão ulterior da Etiópia, em 1936,
pela Itália fascista não pode ser confundida com uma conquista colo-
nial, uma vez que a Etiópia era membro da SDN (Sociedade das
Nações) e o Imperador Hailê Selassiê instalou-se no exílio, em Lon-
dres, com o seu governo. O invasor italiano foi expulso em 1941,
com a participação do exército inglês.
A entrada italiana na Segunda Guerra Mundial esteve marcada
pelo ataque fascista à Etiópia, assim como o ataque nazista à Polônia
em 1939, marcou a entrada da Alemanha.

2.7. Grandes revoltas africanas


Superando os fatores interétnicos de divisão das sociedades tradi-
cionais, várias tribos que exprimiam em bloco a rejeição à domina-

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ção colonial se uniram. Insurreições populares, então, eclodiram. Nesse


cenário, líderes carismáticos apareceram, oferecendo às populações,
saturadas de opressão, uma via de reintegração com a própria histó-
ria. Dois levantes maiores apresentaram essas características, embo-
ra afastados no tempo e no espaço:
O A Revolta Maji-Maji em Tanganica, parte continental da atual

Tanzânia, de 1905 a 1907;


O A Guerra do Kongo-Warra, na África Central, atual República

Centro Africana, de 1927 a 1932;

2.8. A revolta Maji-Maji (1905 a 1907)


Essa revolta situa-se no período de consolidação da dominação
colonial. Exprimiu a recusa ao trabalho forçado nas plantações de
algodão e aos abusos dos mercenários alemães. Uniu mais de 20 gru-
pos étnicos diferentes. Atingiu o sul de Tanganica, superando as divi-
sões tribais, e apoiou-se nos recursos tradicionais, nas técnicas reli-
giosas e em magia. A Revolta Maji-Maji caracterizou-se pela utiliza-
ção de temas milenaristas.
O profeta Kinjikitile-Ngwele era reconhecido como o mensageiro
de Deus que iria salvar o povo da opressão colonial. Teria o dom de
imunizar os guerreiros com o maji (água mágica), que transformaria
as balas alemãs em água. Enquanto isso, anunciava que os ancestrais
ressuscitariam em Ngarambe, sua aldeia, para lutar ao lado dos vi-
vos. Nela construiu um grande altar que chamou “A Casa de Deus”.
Apelou para as crenças religiosas, afirmando que a unidade e a
liberdade dos africanos constituíam um princípio fundamental e que
todos deveriam se unir para combater os alemães e conseguir a sua
integridade.
O levante terminou com um massacre, promovido pelos alemães,
de cerca de cento e vinte mil africanos. Fato que ficou para sempre
gravado na memória coletiva do povo. Menos de dez anos depois, em
1914, a África Oriental Alemã tornou-se o maior palco africano da
Primeira Guerra Mundial.

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A ocupação colonial da áfrica. Da Conferência de Berlim à Primeira Guerra Mundial

A Revolta Maji-Maji foi uma das primeiras manifestações popu-


lares multiétnicas anticoloniais, apoiada nas religiões tradicionais, e
é considerada como protonacionalista.

2.9. A Guerra do Kongo-Warra (1927 e 1932)


O ponto de partida do levante Kongo-Warra foi o povo baya, até
então disperso em vários clãs. Do território baya se propagou ao co-
ração da Federação da África Equatorial Francesa, no Ubangui-Chari
Ocidental, atual República Centro Africana, e nas zonas de fronteira
com o Congo e os Camarões.
A população da região era subjugada há muito tempo pela explo-
ração das companhias concessionárias, voltadas à colheita da borra-
cha de cipó e do marfim e conhecidas pelos abusos que cometiam nos
processos de exploração. Às exigências dos pesados impostos era
adicionado o trabalho obrigatório para a colheita e o transporte da
borracha, que continuava sendo explorada, embora estivesse muito
desvalorizada. Havia também, o recrutamento forçado para a cons-
trução da ferrovia Congo Oceânica, iniciada em 1921.
Barka Ngainumbey, o Karnu, um profeta baya, foi quem deu alma
à revolta, e catalisou um movimento que nasceu após um longo perí-
odo de humilhação e sofrimento. A partir de 1924, começou a pregar,
de aldeia em aldeia, a doutrina da não-violência, fundamentada na
recusa do contato com o colonizador e na resistência passiva às exi-
gências coloniais.
A administração colonial francesa se deu conta da situação três
anos depois, quando os seguidores de Karnu já iniciavam os levantes
armados, convencidos de sua invulnerabilidade pelo uso bastão má-
gico de comando, o Kongo-Warra. Uma população de mais de 350.000
habitantes aderiu ao profeta, organizando 60.000 guerreiros, num
movimento solidário que uniu aldeias e clãs numa área até então
marcada pela dispersão política e guerras tribais.
Karnu foi morto em dezembro de 1928, mas a insurreição alas-
trou-se pelas iniciativas de autodefesa das aldeias e se prolongou até

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1931. Em 1935, ainda existiam guerreiros escondidos em grutas, nas


regiões montanhosas.
Pela sua extensão geográfica, duração, número de insurgentes e
de confrontos militares, a Guerra Kongo-Warra foi a maior insurrei-
ção na África Sul-saariana entre as duas Guerras Mundiais.
A revolta nasceu em sociedades segmentares, que viviam em tri-
bos. A ação de Karnu apoiava-se, sobretudo, em valores ancestrais,
mas incorporava também reivindicações políticas, como a recusa em
colaborar com o ocupante e o apelo à unidade de todas as etnias.
Estas características situam o movimento na virada dos tempos mo-
dernos. A violência da repressão francesa esmagou de tal maneira o
levante que a região ficou empobrecida e abandonada, permitindo os
abusos de dirigentes contemporâneos como Bokassa, pouco inclina-
dos em reviver a memória desta gesta.

2.10. Compromisso e resistência


A colonização da África pelas potências européias, como se viu
pelos exemplos, não foi como os europeus apresentaram: pacífica e,
sobretudo, benéfica para o continente africano. A subjugação africa-
na ao europeu deve ser entendida pelas diferenças tecnológicas e mi-
litares entre as sociedades dos dois continentes naquele momento, e
as necessidades econômicas do capitalismo europeu, que lhe permiti-
am uma visão de mundo mais abrangente, que ia além de suas fron-
teiras nacionais. A colonização significou o estabelecimento de regi-
mes ditatoriais estrangeiros sobre os povos africanos para a sua bru-
tal exploração econômica, em prol dos colonizadores. Os africanos,
de uma forma ou de outra, em meio a alianças e compromissos que
grupos africanos estabeleceram com os colonizadores, se rebelaram e
se revoltaram. Compromissos e resistências efetivas apareceram em
diversos momentos, demonstrando a complexidade do processo. O
exemplo maior de inconformismo é o da Etiópia que, pela ação mili-
tar e diplomática de um grande senhor feudal, conseguiu ficar imune
à colonização, preservando o próprio processo de evolução histórica.

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