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O A l g a r ve e o M a g r eb | Ter e s a Júd ic e G a m ito | Un iver sid ad e do A l g a r ve | Fa ro | 20 0 7

Aos meus Netos,

Susana Maria
José Pedro
Joseph
Hugo Tomás
Nuno Luís
Ficha Técnica

O Algarve e o Magreb
Teresa Júdice Gamito (1941– 2006)

© Universidade do Algarve, 2007

Fotografias, Mapas e Plantas


Teresa Júdice Gamito

Desenhos
Josefina Gamito, Pierre Lewin, Carla Santana,
Ana Marques

Fichas do Catálogo
Carla Santana

Design Gráfico e Paginação


Bloco D

Edição do Manuscrito e Revisão de Provas


Jorge Baptista

Restauro e Limpeza das Peças


Cristina Dores e Ângela Guerreiro

Colaboradores
António Medeiros Rodrigues, Carlos Campaniço,
Diana Twist, Cristina Dores, Ângela Guerreiro,
Ana Paula Nunes, Carla Grou Carreto, Carla Santana,
Laura Alves, Pedro Almeida, Luís Almeida,
Alexandra Estorninho, Jacinta Bugalhão

Apoios, Colaboração
Universidade do Algarve;
Câmaras Municipais de Faro, Silves, Portimão e Al-
coutim;
Juntas de Freguesia de Alvor e Vaqueiros;
Algarve Association of Archaeology

Financiamentos de Investigação
JN ICT, Interreg II, Feder, CCDR-Algarve,
Secretaria de Estado da Cultura

Esta edição foi financiada por


Universidade do Algarve
Faro, Capital Nacional da Cultura
Fundação Calouste Gulbenkian
Nótula do Editor

O objectivo desta obra de Teresa Júdice Gamito é duplo: por um lado, apresentar a um público interessado mas
não especialista o enquadramento histórico da presença e influência árabes no Algarve, bem como o papel da
Região nas relações da Península com o Norte de África e em particular com o Magreb; por outro lado, dar
a conhecer as principais descobertas arqueológicas da Autora na Região, através dos trabalhos de escavação,
os respectivos materiais e os resultados científicos alcançados. Trata-se do testemunho e testamento do labor
arqueológico no Algarve desta Professora e Investigadora, reconhecida internacionalmente, e que muito
contribuiu, não só para a Arqueologia portuguesa, mas em particular para a Universidade do Algarve, de que
foi uma das fundadoras.

Naquela que viria a ser a última vez que a vi, a Professora Teresa Júdice Gamito deixou ao meu cuidado o
manuscrito da obra que hoje aqui vê a luz do dia, para a ajudar numa revisão geral do texto, com publicação
programada para a sua jubilação, em Setembro de 2006. Com a sua inesperada partida, ficou à família a
obrigação de publicar este documento. Tal tarefa não foi fácil mas foi particularmente penosa pela lembrança,
renovada a cada linha, da sua presença e amizade. Uma edição póstuma é, além disso, sempre um difícil
exercício de equilíbrio entre o respeito pelo Autor e as circunstâncias em que este deixou o seu trabalho
inédito. Neste sentido, tratava-se de um documento que, estando concluído do ponto de vista do conteúdo,
carecia apenas de uma revisão textual; praticamente todas as fotografias já tinham sido seleccionadas, bem
como a sua articulação com o texto; as referências à bibliografia já tinham sido feitas no texto, faltando
compor os dados completos das obras citadas. A obra já dispunha, além disso, dos apoios necessários para a
sua edição. Ajudou igualmente o facto de já conhecer o trabalho, de uma primeira leitura e revisão, tendo tido
ocasião de conversar com a Autora sobre aspectos relacionados com a sua edição.

Com o máximo respeito pela intenção original que norteara a Autora, procedeu-se à revisão do texto, editando-
o pontualmente para tornar mais claro o seu sentido. Era intenção inicial da Autora publicar, a par de cada
secção do terceiro capítulo, dedicada a cada uma das suas escavações, extractos de um Catálogo de materiais
arqueológicos delas resultantes, e que tinha em fase avançada elaboração. Dada as dificuldades de integração
no plano final da obra, mas atendendo à sua natureza e importância documental, bem como ao esforço já
desenvolvido por todos os que na sua elaboração colaboraram, apresentamos esse Catálogo no final, crendo
assim fazer plena justiça ao labor de muitos e às interpretações arqueológicas da Autora.

Não gostaria de esquecer, nestas linhas, o apoio a vários títulos da Família da Teresa; e ainda de Cristina
Dores, Carlos Campaniço, Carla Santana; da equipa profissional da Bloco-D, no cuidado posto na
composição do volume; e, finalmente, da Universidade do Algarve, com o constante apoio e o suporte
material para esta edição.

Jorge Baptista
Faro, 9 de Janeiro de 2007


Índice

1. Introdução. O Algarve anterior à invasão Árabe e a importância do Magreb ....................................................... 6

1.1. O Algarve e as invasões germânicas ............................................................................................................................ 8

1. 2. O domínio Visigótico da Península ......................................................................................................................... 12

2. O Algarve no al-Andalus. Referências dos autores Árabes ..................................................................................... 16

2.1 O território e suas características – Ossónoba/Ukxûnuba..................................................................................... 19

2. 2 A organização do espaço, dos campos e dos homens............................................................................................ 24

2.3 O Emirato e o Califado de Córdova.......................................................................................................................... 28

2.4 Al-Andalus....................................................................................................................................................................... 34

3. Evidência arqueológica. Escavações em Faro, Silves, Alvor e “Aldeia dos Mouros”............................................41

3.1. Escavações em Ossónoba ou Ukxûnuba – cidade antiga de Faro e interpretação dos dados........................42

3.1.1 - Horta da Misericórdia .............................................................................................................................................44

3.1.2 Quintal da Judiciária .................................................................................................................................................. 51

3.1.3 Arco da Vila .................................................................................................................................................................. 55

3.2 Escavações em Silves – interpretação dos dados e sua cronologia....................................................................... 56

3.2.1 O cemitério medieval a Norte da Catedral ........................................................................................................... 57

3.2.2 Escavação da cisterna Omeiída de Silves (Rua do Castelo) .............................................................................. 59

3.2.3 A escavação e estudo da zona ajardinada .............................................................................................................. 64

3.3 Escavações em Alvor: interpretação dos dados e sua cronologia ........................................................................ 68

Vestígios de ocupação da Primeira e da Segunda Idade do Ferro.............................................................................. 70

Influência romana na estrutura de Ipses ......................................................................................................................... 70

As moedas de Ipses .............................................................................................................................................................. 71

Ocupação muçulmana ........................................................................................................................................................ 72

3.4 O Nordeste Algarvio – um projecto etno-arqueológico

Alcaria Queimada vs. Aldeia dos Mouros (Vaqueiros, Alcoutim) .............................................................................. 74

4. Conclusão .......................................................................................................................................................................... 80

Referências bibliográficas ................................................................................................................................................... 82


INTRODUÇÃO
O Algarve e o Magreb
1. INTRODUÇÃO

O Algarve anterior à invasão Árabe e a importância do Magreb

A região do Algarve localiza-se no extremo sul de Portugal na continuação natural da Andaluzia, tendo como
limite sul, mais ocidental, o Cabo de S. Vicente. Se observarmos do ar, verificamos que forma, conjuntamente
com o Golfo de Cádiz, um enorme arco que se prolonga no norte de Marrocos constituindo como que uma
acolhedora e vasta antecâmara de entrada ao Mediterrâneo.

Genericamente a sua constituição geológica é a continuação do soco ibérico da Meseta, formado essencialmente
por rochas vulcânicas de xisto e alguns afloramentos de granito. É aí que encontramos as serras: a Serra do Caldeirão
e a do Espinhaço de Cão, com cerca de 500m de altitude, e a Serra de Monchique de permeio, com cerca de 900m
de altitude, constituída essencialmente pelo seu afloramento de granito típico, o sienito (Silbert 1978).

As franjas calcárias do Jurássico formam o seu prolongamento para sul, chegando ao mar em Albufeira, e
estendem-se ao longo de todo o litoral do Barlavento, a metade ocidental do Algarve, em formas belas e
pitorescas, constituindo as paisagens de costa características do Algarve nos cartazes turísticos da região. Na
verdade, formam praias abrigadas, protegidas das ondas e dos ventos, favorecendo a fixação de uma população
costeira dedicada à pesca.

Finalmente a Sudeste, na zona oriental do Algarve, encontramos uma orla costeira, de formação recente,
constituída por depósitos arrastados das serras, de sedimentos, pedras, areias e detritos que durante séculos
se foram depositando ao longo da costa, constituindo o litoral baixo, arenoso e ventoso da outra metade do
Algarve, o chamado Sotavento, de Quarteira até Vila Real de Santo António.

A costa Vicentina, isto é a costa oeste, que se estende do cabo de S. Vicente em direcção ao Norte, aberta ao
Atlântico, é constituída pelas formações xistosas e, por vezes, com formas estranhas e retorcidas que vemos na
Meseta, sobretudo junto à costa, difícil e ventosa, com poucos abrigos para as populações e para a navegação.
Esta é em muito semelhante à costa de Marrocos, com idêntica formação e exposição ao Oceano.

Na Idade do Bronze, os Gregos foram os primeiros povos do Mediterrâneo oriental a contactarem a Península Ibérica
vindo a influenciar a chamada cultura de El Argar na zona de Almeria, em Espanha. Terá sido por esta mesma
ocasião que os Gregos deverão ter situado algumas das façanhas de Hércules, entre Gibraltar e o Atlas, e a lenda de
Geryon no sul da Península, na costa sul de Portugal (Júdice Gamito 1986; 1988; 2004). Com a pressão dos Assírios
ao longo das costas orientais do Mar Egeu, Gregos e Fenícios, por volta dos séculos VIII e VII a C, tiveram que
procurar outras regiões para se estabelecer. Os Gregos estabeleceram-se na Cirenaica, na Magna Grécia, na Etruria,
em Massália e na Península Ibérica; após a queda de Tyro, em poder dos Assírios, os Fenícios estabeleceram-se em
Cartago, no Magreb, em Marrocos, e na costa Sul da Península Ibérica: em Cadiz e Trayamar (Niemayer e Schubart
1975), Torre de Mar, Guadalorce (Niemeyer 1982) Recentemente, foram encontrados vestígios dos seus contactos
ou permanência em Castro Marim (Arruda 1998) e em Tavira (Maia 1999).

Heródoto refere as viagens destes dois povos do oriente para ocidente, designadamente a de Colaius de Samos
contactando o rei Argantónio de Tartessos em 650 a C. Os Cartagineses, depois de derrotados pelos Romanos
na Primeira Guerra Púnica em que tiveram de abandonar a Sicília, voltaram-se para a Península Ibérica tendo
provavelmente desembarcado no Algarve, segundo consta, em Portus Hannibalis, ainda por localizar, mas que
se julga estar situado em Alvor ou Lagos ou mesmo Portimão. Vemos assim quão cedo se estabeleceram as
ligações do Algarve ao Magreb.

Os Romanos conseguiram dominar todo o Mediterrâneo e consolidar a paz entre as suas duas margens,
a margem norte e a margem sul, transformando o mundo conhecido no seu mundo e o Mediterrâneo
no Mare Nostrum. Foram eles que designaram toda a costa do norte de África por Magreb a partir do
Egipto para Ocidente, integrando-a, naturalmente, no Império Romano. Talvez o facto de serem terras
mais afastadas de Roma e de, durante séculos, terem estado sob o domínio dos Cartagineses fez delas uma
zona de refúgio que perdurou talvez para sempre. Lembremos ainda que os exércitos berbéres dos reis
almorávidas e almóadas, oriundos das regiões do sul do actual Marrocos, são os últimos que vieram ocupar
a Península Ibérica, nomeadamente o Algarve.

As relações de compromisso, de apoio e de protecção entre a Península Ibérica e o Magreb fizeram-se sempre
sentir ao longo dos séculos e em todas as épocas e circunstâncias. Temos o caso dos Lusitanos, que na sua luta
contra Roma procuraram apoios entre as gentes do Magreb e, anos mais tarde, novamente, na escolha de Sertório
para seu comando (Júdice Gamito 1984); o apoio, nem sempre isento de interesses, concedido a alguns nobres
durante o reino Visigótico, por Bizantinos e autóctones; o domínio Árabe, que veio dali também, com o apoio
de povos locais, os Berbéres; as fugas à Inquisição, com refúgio ou ocultação garantidos em Marrocos (Boucharb
2004; Maziane 2004); os apoios a pescadores e mareantes; o acolhimento dispensado na Argélia a Teixeira
Gomes, desgostoso do seu país; a protecção concedida a políticos nos anos mais recentes do século XX, quando a
perseguição da PIDE e do regime de Salazar eram mais brutais: os casos de Manuel Alegre, Piteira Santos, Mário
Soares, entre tantos outros. Lembremos ainda quantos dos nossos políticos e intelectuais da actualidade não
passaram por Marrocos e pela Argélia, os caminhos mais fáceis para alcançar a França!

O Magreb foi assim durante séculos a região dos nossos amigos, aquela onde se recorria numa aflição e, por
outro lado, a continuação da terra no outro lado do mar que se poderia chegar mesmo num barco a remos.
A colaboração nas fainas da pesca fez-se sempre, cá e lá. Por vezes facilitando a criação de núcleos familiares
estáveis e o nascimento de descendentes que se radicaram lá ou cá.

As ligações entre o Magreb e o território português, em particular o Algarve, foram sempre constantes e
profundas, e são ainda hoje recordadas.

1.1. O Algarve e as invasões germânicas

As últimas décadas do domínio romano foram marcadas por momentos de grande instabilidade social e de
alarmantes abusos administrativos que se fizeram sentir por todo o Império. A Península Ibérica não foi
excepção. Sabemos das sucessivas vagas de povos Germânicos que, a partir de 409, penetraram e se fixaram na
península. A história de Roma conta-nos o impacto desses povos e a impressão que deixaram por exemplo em
Júlio César e em Tácito e Plínio. Em território português temos o relato feito por Hidatius, bispo de Aquae

 Em De bello Gallico traduzido para inglês por H.J.Edwards, Book IV, 1, Loeb Classical Library, Harvard University Press

 Tácito refere-se aos Suevos e aos Vândalos na Germania e Plínio salienta quanto terror os Vandalii não espalharam pela Gália,
constituindo uma liga de diversos povos germânicos.

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O Algarve e o Magreb
Flavia, actualmente a cidade de Chaves, também referido por Oliveira Marques (1993), que sugere tratar-se
antes a data de 409 e não a referida em Hidatius de 447, uma vez que esta não fora ainda corrigida.

O Algarve deverá ser sempre encarado, em época romana, como parte da Lusitânia, com fortes ligações à
Baetica, por estar mais próxima, e não como sendo já uma região autónoma, como só mais tarde será. De facto,
a penetração na Hispania pelos Vândalos, Alanos e Suevos foi rápida e facilitada pelo sistema viário construído
pelos Romanos, que lhes permitia um acesso directo aos grandes centros urbanos. Podemos imaginar o efeito
que esta invasão violenta e impetuosa terá causado nos povos peninsulares especialmente por estarem já
habituados à longa paz dos Romanos. Por volta de 411 os povos Germânicos começaram a serenar e a procurar
fixar-se em territórios próprios tal como nos conta Hidatius:

No ano de 457 da era [de facto dever-se-á ler 411 ou 412, no máximo] nas províncias da
Hispania, arruinada pelos ataques [e] por [todas] aquelas calamidades, os Bárbaros,
converteram-se, com a ajuda de Deus à ideia de estabelecerem a paz, decidiram separar lotes
das diferentes províncias de modo a estabelecerem-se ali.

Fig. 1.1. Divisão da Hispânia pelos povos germânicos.

 Hidatius, Chronique, ed. Alain Tranoy, 1974, p. 119. Veja-se também Isidoro de Sevilha, Historia Gothorum, Vandalorum et Sueborum, ed.
Th. Mommsen, p. 296
A Fig. 1.1. mostra-nos como foi dividida a Hispânia. Os Romanos continuavam a controlar a Terraconense,
actualmente as regiões da Catalunha e do País Basco, no nordeste da Hispania, com a ajuda dos Visigodos, que
também aí se fixaram. Os Vândalos Silingos fixaram-se na Bética e um outro grupo, os Vândalos Asdingos no
nordeste da Galiza. Todo o território que se estende ao longo da costa oeste da Galiza e da Lusitânia, hoje na
sua maioria território Português, foi ocupado pelos Suevos. Os Alanos ficaram na Cartaginense e nas terras
do interior da Lusitânia (Oliveira Marques 1993, 21-59; Mattoso 1993, 302-56). Pouco tempo depois, os Alanos
foram absorvidos pelos Suevos e os Vândalos passaram para o Norte de África, para o Magreb. Poderemos
talvez afirmar que a população da região do Algarve se tornou numa mistura de Romanos e autóctones
remanescentes, de Suevos e de Vândalos. Vamos depois encontrar também estes últimos no norte do Magreb,
sobretudo na região do Atlas até à costa norte da Argélia e da Tunísia.

Os Visigodos vão sucessivamente conquistando todos os territórios da Península e observamos que nas ricas villae
tardias dos finais do século IV e começos do século V começa a dominar um traço característico, o aparecimento
de pequenas igrejas ou basílicas seguindo o culto oriental dos Visigodos, o culto Ariano, semelhante ao culto
ortodoxo actual, com exemplos em Torre de Palma (Monforte, Almeida 1972-74), no Montinho das Laranjeiras
(Castro Marim, Estácio da Veiga 1910; Maciel 1993), em S. Cucufate (Vidigueira) (Alarcão e Etiénne 1979) e,
possivelmente, até mesmo o templo de Milreu (Faro) (Afonso dos Santos 1971-72) terá sido adaptado ao novo
culto. Interessante ainda salientar que Torre de Palma será um exemplo tardio da influência oriental e norte
africana, ou das influências de Ifriqya, que atingiram o território português. Verifica-se aqui mais um exemplo
da proximidade e inter-influência de uma e outra margem do Mediterrâneo, neste caso, entre o sul de Portugal e
a actual Tunísia, no norte do Magreb. S. Cucufate, talvez a mais tardia de todas estas villae e com características
próprias, apresenta igualmente um templo onde se exerceria o culto do seu deus protector, à maneira romana
(Alarcão e Etiénne 1979). Mais tarde, uma capela de culto cristão ariano é adicionada ao edifício central, com
características arquitectónicas próprias do culto ariano e frescos à boa maneira bizantina.

A existência de uma sociedade culturalmente muito desenvolvida e de hábitos refinados e luxuosos será
sempre um aspecto que teremos que ter presentes no estudo destas regiões e das sociedades aqui radicadas. As
características da ocupação Romana da Península Ibérica, uma das mais prolongadas e importantes, e ainda o
facto de que todas as províncias romanas aqui estabelecidas terem tido um papel social, político, económico e
cultural tão importante no mundo romano e na própria península, em especial na Bética e na Lusitânia, cujo
nível cultural era tão elevado. Todo este “pano de fundo” muito terá contribuído para a riqueza cultural que
vamos observar no al-Andalus, e que não se verificou em qualquer outro local do império Árabe.

Interessante salientar ainda os contactos comerciais e culturais frequentes entre os povos oriundos destas duas
províncias e regiões distantes do Mediterrâneo Oriental e mesmo do norte da Europa. Centros como Bracara
(Braga), Portuscale (Porto) Olisipo (Lisboa), Ebora (Évora) e Ossonoba (Faro) eram activos pontos de contacto
e intercâmbio cultural. Estrangeiros chegavam todos os dias, entre eles sábios e comerciantes do Levante, da
Grécia, da Síria, do Egipto e da Terra Santa (Rucquoi 1993; Oliveira Marques 1993). Estas cidades tinham o
monopólio do comércio de artigos de luxo como a seda, o linho de Tiro e do Egipto, o algodão e a púrpura
da Cesareia, jóias e vidros preciosos de Bizâncio, papiro, especiarias, incenso oriundos de regiões longínquas
como a Índia e o Iémen, vinhos finos de Gaza .

 Os mosaicos de Torre de Palma terão sido importados de Ifriqya, do território onde actualmente se encontra a Tunísia, grande centro de
composição e exportação de mosaicos tais como, provavelmente, os de Milreu, com cenas da vida dos deuses ou motivos marinhos.

 Estes contactos e intercâmbios culturais foram sobremaneira salientados na exposição subordinada ao título Andalusies, de Damas à
Cordoba realizada em Paris, no Institut du Monde Árabe, em 2000.

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O Algarve e o Magreb
Podemos assim afirmar que os contactos de toda esta sociedade com e entre os povos do Mediterrâneo e
do mundo mediterrâneo nunca foram interrompidos, sendo reforçado ainda pelos peregrinos que iam para
e vinham da Terra Santa, como cultos clérigos, artistas, médicos. Hidatius, enviado pela sua família para
Constantinopla, não foi o único a contactar este mundo culto, também Itacus, de Ossónoba, pelos finais do
século IV, e Balconicus de Bracara (415-447) recebiam frequentemente padres gregos e notícias dos países
orientais e dos concilia que se realizavam nessas terras distantes (Oliveira Marques 1993, 29-35; Rucquoi 1993,
36-56; Júdice Gamito 1996, 261-265).

Não podemos deixar de achar esta actividade extraordinária, se tivermos em consideração as dificuldades e
os perigos que os viajantes de então corriam e os anos que estas viagens demoravam a realizarem-se. Estes
contactos frequentes deverão ter contribuído grandemente para a fácil aceitação dos Muçulmanos e da
civilização Árabe nestas mesmas regiões anos mais tarde (Oliveira Marques 1982, 29-35; Rucquoi 1993, 36-56;
Júdice Gamito 1996, 261-265).

Vamos observar na Península Ibérica a existência de uma sociedade variada, constituída por Romanos e povos
Bárbaros diversos, alguns já tendo atingido um estádio de civilização parecido ao dos Romanos, como é o caso
dos Visigodos, mas que mantinham as características de uma sociedade tribal. Os outros povos mantinham-
se tal como chegaram, com um nível de civilização mais próximo da dos povos Germânicos. Tratava-se,
portanto, de uma sociedade extremamente heterogénea e belicosa.

Os Romanos, numa tentativa de manterem aquela parte do império e assim sobreviverem, mantiveram-se na
Terraconense com os seus aliados, os Visigodos, mas também esta tentativa falhou, pois o Império Romano
do Ocidente deixaria de existir em 476.

O domínio Visigótico na Hispania consolidou-se com a absorção dos outros povos germânicos, quando o
domínio romano desapareceu, mas a instabilidade e os condicionalismos próprios daquelas sociedades tribais,
que analisaremos já de seguida, levou-os a uma rápida decadência com final à vista. Foi uma situação que se
tornou insustentável pela sua própria natureza. Tudo isto contribuiu para explicar por que é que o Império
Romano, no final da sua existência, mas ainda substancialmente importante, tanto queria manter a Hispania
e a tentou recuperar com o auxílio dos Visigodos, e por que é que os Bizantinos também a cobiçavam na sua
tentativa de recuperarem o antigo Império Romano.

1. 2. O domínio Visigótico da Península

O domínio Visigótico da Península foi atribulado e complicado. Era uma sociedade profundamente dividida
em classes sociais, basicamente entre privilegiados e não privilegiados: os potentiores, que incluía os magnates,
optimates, primates e seniors loci e os outros, os humiliores, tanto commendati como liberti, não se contando
com os escravos, evidentemente. A sociedade visigótica tinha assim apenas duas classes sociais: aqueles que
tudo possuíam e os que nada tinham. Os nobres tinham um poder paralelo ao do rei: grandes territórios,

 Existe uma certa divergência de opiniões entre medievalistas e arabistas quanto às causas da instabilidade da sociedade visigótica. Veja-se,
por exemplo Menendez Pidal 1969; Sanchez Albornoz 1975; Pierre Guichard 1974, 1976, 2000, que salientam quão romanizados estavam os
Visigodos, e também Thompson 1969; Fontaine 1951; Garcia Moreno 1974; Orlandis 1988, Gerbert 1992; Rucquoi 1993, Oliveira Marques
1982, Mattoso 1993, que discutem a situação da Península Ibéria nas suas diferentes variáveis.
direito a terem um exército próprio, a exercer a justiça e administrar os seus domínios. Tudo isto muito
contribuiu para a grande instabilidade que se verificava na península.

Outras causas poderão ser apontadas:

- O rei era eleito entre os seus pares, de acordo com a tradição germânica o que favorecia a existência
de favores e clientelas. A concentração da população junto dos domínios dos seus senhores levava a
uma fraqueza do poder real e das cidades. Uma sociedade proto-feudal começa assim a desenhar-
se, na qual o poder real se vai diluindo (Rucquoi 1993). Outros medievalistas, como Collins (1983),
consideram que a excessiva concentração de poder no rei, como por exemplo em Recaredo e
Leandro, irmão de Isidoro de Sevilha, terá contribuído para a destruição do reino visigótico. A
ambição dos nobres, as lutas entre eles e internamente dentro das próprias famílias, as rivalidades
que se estabeleciam entre si foram mais outros factores que se juntaram aos já indicados. Quando o
rei Witiza morre, é eleito pelo senado Rodrigo, dux da Bética, que não é aceite pelo clã de Witiza,
o qual decide ir pedir auxílio ao governador de Ceuta, Julien, que, por sua vez, terá procurado apoio
entre os Muçulmanos. Este terá sido o pretexto para os Árabes invadirem a Península Ibérica.

- A instabilidade da vida urbana e a fuga das populações para os domínios dos nobres, onde se
sentiam protegidos terá também contribuído para a decadência do Reino Visigótico e do comércio
que se processava também nas cidades.

- Desgraças naturais, como epidemias e a falta de alimentos provocaram muitas mortes, e


constituíram factores que igualmente contribuíram para o desconforto, insatisfação e infelicidade
das populações.

- Os problemas religiosos relacionados com as lutas entre Arianos e Católicos evoluíram finalmente
com o predomínio dos Católicos mas, no século VII, com o rei Sisebuto, tomaram-se algumas medidas
radicais, tal como nos relata Isidoro de Sevilha, como por exemplo, as primeiras perseguições aos
judeus (Oliveira Marques 1993, 70-74 e 82-92) que vão ser os maiores apoiantes dos Muçulmanos nas
cidades quando se dão as invasões dos Árabes.

Um facto, porém, deverá ser tomado em consideração e não ser esquecido para uma melhor compreensão do
que se seguiu: o nível cultural dos Visigodos, comparado com o dos outros povos germânicos da Europa de
então, era notável. Os conventos eram centros famosos de cultura e conhecimento e muitos dos seus bispos
homens notáveis no mundo de então.

1.3 A invasão Muçulmana

Os Árabes tinham avançado para o Ocidente e já se encontravam bem estabelecidos no Magreb, aguardando
o momento oportuno para invadirem a Ishbaniya. A conquista desta região seria perfeitamente lógica e
de acordo com a política de expansão do Islão que o Califa de Damasco, e posteriormente o de Bagdad,
defendiam. As rivalidades e as lutas entre os Visigodos apenas facilitaram a sua tarefa. A invasão da península
foi cuidadosa e planeada em pormenor. Tinham estudado a situação do reino visigótico numa incursão em
710, certamente tendo já em vista a sua possível invasão. Finalmente Târiq ibn Ziyâd, governador de Tânger,

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O Algarve e o Magreb
talvez de origem berbere, desembarca com um exército de cerca de 7.000 homens (Levi-Provençal 1999, 19).
Esta força militar, constituída na sua maioria por berberes islamizados, apresentava um aspecto inédito entre
os exércitos árabes, tal como salienta Pierre Guichard (2000, 22-25): a existência de berberes com funções de
comando em exércitos árabes. Ibn Ziyâd desembarca em Tarifa, perto de Algeciras, na noite de 27 de Abril de
711, aguardando no monte de Gibraltar (Djebel al Târiq, isto é, a montanha de Târiq) o momento oportuno
para atacar o exército de Rodrigo. Este surge junto a Barbate, nas margens do rio Guadalete, onde se dá a
batalha entre os dois exércitos, e Rodrigo é derrotado. A rápida conquista muçulmana, que se segue, explica‑se
em parte pelo apoio das comunidades judaicas, descontentes com as perseguições impostas por Recaredo,
convertido ao cristianismo católico.

Fig. 1.2. A conquista muçulmana (séculos VIII a XII)


A conquista muçulmana (Fig. 1.2) foi muito rápida e sem grande resistência, fazendo-se em escassos cinco
anos, tal como se depreende pelas poucas ou mesmo tardias informações historiográficas que chegaram até
nós. Târiq conquistou Ecija e chegou rapidamente a Toledo, na chamada “Marcha Superior”, mandando
um pequeno grupo para ocupar Córdova. Não se pode deixar de pensar na audácia de Târiq, atrevendo-se a
penetrar tão profundamente no interior da península em tão pouco tempo. Mûsâ, que se tornara governador
de Kairouan e de todo o Magreb (Lévi-Provençal 1950; Guichard 1976; 2000; Gerbet 1992; Oliveira Marques
1993), sediado na actual Tunísia, na capital religiosa de todo o ocidente islâmico, resolveu vir consolidar as
conquistas já realizadas, trazendo com ele um exército de 18.000 homens, na sua maioria árabes e muitos
berberes. Conquista Medina Sidónia, Carmona, Sevilha e Mérida, na que ficou chamada a “Marcha Média”.
Estas duas últimas cidades, tendo oposto grande e tenaz resistência, só capitularam após um cerco de vários
meses. Só mais tarde chegou a Toledo e se juntou a Târiq em Talavera, mantendo sempre a preocupação de
contactar regularmente o Magreb e assim proteger a sua retaguarda. Mûsâ passou o inverno de 712/713 em
Toledo mantendo o califa de Damasco informado das suas façanhas. Foi em Toledo que Mûsâ cunhou as suas
primeiras moedas em ouro. No verão de 714 marchou em direcção ao norte tomando Saragossa, Lérida, Soria,
Oviedo, Gijón, saqueando Amaya, enquanto Târiq penetrava profundamente em Aragão. Mûsâ foi forçado a ir
a Damasco contar e explicar ao califa os seus feitos na Ishbaniya, pelo que deixou o seu filho Abd al Azir com
o cargo de conquistar o Oeste penínsular, as regiões que formam hoje Portugal, no que constituiu a chamada
“Marcha Inferior”. Abd al-Azir conquistou portanto todas as regiões da zona ocidental e oriental da Andaluzia
e cidades como Múrcia, Barcelona, Gerona e Narbonne, esta em 718; no Algarve, as cidades de Ossónoba,
Balsa, Lacóbriga e Ipses, e no Alentejo, cidades como Myrtillis, Beja e Évora; a norte do Tejo Olisipo, Santarém
e Coimbra. Entre 719 e 752 os Árabes tinham passado os Pirinéus e conquistado Carcassone e Toulouse, onde
sofreram uma derrota em 721, mas continuaram conquistando Nimes, Autun, Arles, Saint-Remy-de-Provence
e Avignon, penetrando assim bem no interior do sul da França.

A fácil aceitação do Islão pela população em geral foi também um fenómeno intrigante, denunciando quão
pouco profunda seria a implantação do Cristianismo, talvez ainda abalado pelas lutas entre cristãos arianos
e cristãos católicos, pelas lutas internas entre os nobres visigodos e pelas dificuldades crescentes na aquisição
de bens a que os habitantes da península estavam habituados pela organização comercial eficiente de Roma.
Finalmente, em escassos quatro ou cinco anos, o Império Romano do Ocidente chegara ao seu fim. Apesar
de este final ser, teoricamente, atribuída a data de 476, de facto, tanto os antigos Hispanos como os Visigodos
continuaram a considerar-se romanos, como seus fiéis aliados, usando os mesmos códigos legislativos e
organização social, mantendo hábitos e maneira de viver romanos. Poderemos afirmar que novos tempos,
novas atitudes e novas formas de comportamento apenas foram introduzidos pela invasão Muçulmana e a sua
conquista e ocupação de toda a Península.

Uma nova mentalidade começou a emergir, a Idade Média tivera o seu início.

17
O ALGARVE
NO AL-ANDALUS
O Algarve e o Magreb
2. O ALGARVE NO AL-ANDALUS
Referências dos autores Árabes

Al-Andalus significa o Ocidente, isto é, as regiões ocidentais dos territórios conquistados pelos Árabes e al-Gharb
seria a região ainda no extremo mais ocidental do al-Andalus. As fontes relativas a estes primeiros tempos são
escassas. Num mundo muçulmano em formação, os Árabes estavam mais preocupados em consolidar a sua
religião sob o ponto de vista jurídico-religioso e registarem os feitos do Profeta do que descreverem as conquistas
realizadas na sua expansão. Só no século IX começam a aparecer os primeiros anais e relatos dos acontecimentos
dos primeiros tempos do império árabe, até então mantidos em tradição oral e transmitidos de geração em
geração (Levi-Provençal 1950, 8-20; Guichard 2000, 15-25, entre outros). Um dos primeiros anais da história das
conquistas árabes é certamente o que foi escrito por Tabarî, de Bagade, de origem persa, que morreu em 923, mas
tal como todos estes autores mais antigos, não faz senão breves alusões à conquista da Ispanyia.

Outros autores, cujas passagens sobre a conquista do Magreb e da Hispania se perderam, como al-Wâqidî,
que morreu em 822 e escreveu Futûh Ifrîqiya, mas que, autores posteriores a ele se referem, permitem-nos
conhecer o essencial da sua obra, como é o caso do Livro das conquistas dos países, ou Kitâb futûh al-Buldân. A
conquista da Hispania nos três últimos decénios do século VIII é difícil de reconstituir. Mesmo da parte cristã,
apenas A Crónica Moçarábica, datada de 756, nos fornece alguns pormenores sobre a conquista da Hispânia.

Na literatura de viagens, género muito apreciado entre as cortes árabes séculos depois, isto é, do século IX ao
século XIV e conhecido por al masalik wa-a-mamalik, ou seja, ‘os caminhos e os reinos’, começam a aparecer
pormenores, exactamente pela curiosidade que estes relatos de viagens provocava. Aí encontramos muitas
referências ao al-Gharb e especialmente a Ukxûnuba, a antiga Ossónoba romana (Fig. 2.1.).

Fig. 2.1 Localização de Ukxûnuba, a antiga Ossónoba romana.


Ukxûnuba podia ter dois significados: ou a antiga cidade de Ossónoba e o seu território envolvente, ou todas
as terras a sul do Tejo, isto é, todo o território que hoje constitui as províncias do Alentejo e do Algarve em
Portugal, e que julgamos eram as regiões que os árabes conheciam melhor. Tinha-se então tornado moda
nas cortes orientais saber como era e o que se passava na parte ocidental do império, tal como nos diz Salah
M’ghirbi (1996), podendo-se estabelecer paralelo com outro género mais erudito, a rihla, mais literário do que
o mamalik. Ambos os géneros eram apenas cultivados pela elite intelectual árabe.

Assim, tanto a literatura de viagens como os relatos geográficos se tornaram muito populares durante a ocupação
muçulmana do al-Andalus. Com frequência eram citadas a região do Gharb e feitas referências às principais
cidades, povos, riquezas. Temos de ter em consideração que, durante algum tempo, tal como no caso dos Romanos,
os Árabes dominaram o Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo, sendo portanto natural que as cortes árabes
gostassem de saber pormenores sobre as regiões distantes do seu mundo, qual o aspecto das pessoas, que hábitos
tinham, a que actividades se dedicavam. Por outro lado, sabemos quanto a cultura grega influenciou a civilização
árabe e podemos observar quanto Heródoto e Estrabão influenciaram esta literatura e mesmo os escritos de
Averroes, no século XII. Por exemplo, Ibn Hawqal explica como agia para ter a certeza que os relatos que recebia
eram verdadeiros e apercebemo-nos da sua semelhança com idênticos procedimentos relatados por Heródoto:
comparando relatos, verificando aspectos e vendo se coincidiam em todos os aspectos mais importantes. Ibn
Hawqal diz-nos ainda que tinha sempre consigo as obras de referência que considerava indispensáveis, tais como
as de Ibn Jurdadbah, ou de al-Yayhani ou mesmo Abu-Faray Qadama ben Yaf’far.

Por vezes esta informação é dada em segunda mão, isto é, copiada de autores anteriores, mas tem, mesmo
assim, grande interesse informativo pois está embebida de uma realidade tanto rural como urbana. Temos de
pensar que eram viajantes que se deslocavam a cavalo ou a pé, portanto com tempo para irem observando as
paisagens, contactando com as pessoas, observando os factos. Quando se deslocavam de barco, a viagem era
mais rápida, mas mais isolada. Enquanto no mundo clássico predominou o périplo, e os relatos são baseados
em observações vistas do mar ou na costa, no mundo muçulmano é uma geografia observada por alguém
que se desloca com tempo, a pé ou a cavalo, falando com as gentes, colhendo informações. Só mais tarde,
a partir do século XIII, este tipo de literatura se torna mais estático e repetitivo, como no-lo salientam A.
Miquel (1973), J. Richard (1983) ou F. Róldan e R.Valencia (1987). Por vezes, até informações relacionadas com
figuras de destaque de então, tais como o rei Al‑Mu’tamid e o poeta Ibn ‘Ammâr nos facultam informações
importantes sobre as terras e as gentes (Garcia Domingues 1997; Benbabaali, 2004; Alves 2???).

É importante salientar que todo o al-Andalus atraía a atenção e a curiosidade dos estudiosos árabes, que lá
longe, nos seus remotos países, recriavam, na sua imaginação, as paisagens, as riquezas, o encanto maravilhoso
do califado Omeiíada. Os próprios habitantes do al-Andalus celebravam o seu próprio país, mostrando a sua
grande erudição, como é o caso de Abu Hamid al Garnati, que nasceu em Granada no ano de 1080, ou de Abu
‘Ubayd al Bakri, do século XI, filho do rei da taifa de Saltés e Huelva. Também é o caso de al Razi, que nasceu
em 888 e morreu em 955 e cuja Geografia de Espanha foi a fonte de todos os geógrafos medievais. De salientar
o interesse que a sua obra despertou e a preocupação que houve em traduzi-la e mantê-la. A sua Crónica, na
forma original, perdeu-se, mas chegou-nos na tradução do árabe para português feita por um árabe chamado
Mahomed e Gil Peres, um padre de Pero Anes de Portel, escrita no reinado do rei D. Dinis de Portugal. Esta

 Tal como podemos ver emAbu-l-Qasim ‘Ubayd Allah b. ‘Abad Allah, que foi o autor da primeira Kitah al Masalik wa-l-mamalik, cuja
última composição data de 272/885, tal como aparece na edição de Leiden de 1967, ela própria uma publicação da edição de 1889, sob
a responsabilidade de M.J. van Goeje, Bibliotheca Geographcorum Arabicorum, VI, e que encontramos também em R. Blanchére 1957,
Extraits des principaux géographes arabes du Moyen Age, Paris. Dadas as dificuldades em ler os escritos árabes estas traduções são da maior
importância para a investigação.

21
O Algarve e o Magreb
tradução foi novamente traduzida para castelhano no século XV e incluída na Crónica Geral de Espanha, que
data de 1344. Por sua vez, esta Crónica foi novamente editada por Lindley Cintra, em 1952.

Devemos salientar o valor histórico de al-Razi, a modernidade do seu trabalho bem como a forma sistemática
que seguiu organizando-o como que em fichas informativas e esquemáticas aplicadas do mesmo modo a todas
as cidades e a todos os países, produzindo um trabalho de grande objectividade e valor científico, e focando
sempre os seguintes aspectos:

- Os dados geográficos, que indicavam a localização geográfica, a cidade principal, a distância a


outras cidades conhecidas, os vizinhos, que outras cidades e castelos possuía;

- Os recursos naturais que focavam as características dos solos, que espécies de caça e de peixes
existiam na zona, que espécies agrícolas eram mais cultivadas, quais os recursos mineiros;

- Os factos históricos, que diziam respeito à história da cidade e aos indivíduos mais importantes,
tanto seus contemporâneos como no passado, as lendas a ela associadas, quais as famílias visigodas
e de outros povos notáveis que ali tinham vivido, quais as suas fortificações e outros edifícios
importantes, que evidência do passado ainda ali subsistia.

2.1 O território e suas características – Ossónoba/Ukxûnuba

As características do território e do povoamento existentes no sul de Portugal, incluindo o Algarve, são também
descritas nestes documentos, mas é a Arqueologia que nos dá maiores informações. Como Macias descreve
(Macias 1993), o campo atinge os subúrbios das cidades com as suas hortas e pomares ou distribui-se em terras
de sequeiro e pastorícia, com pequenas hortas familiares, nos vales encaixados dos ribeiros como nos campos
da Serra do Caldeirão (Júdice Gamito 1990; 1996).

Sendo a continuação natural da Andaluzia, com um situação geológica específica, dominando a entrada do
Mediterrâneo e do Golfo de Cádiz, o Algarve apresenta idênticas características. Geologicamente, a região é
bastante rica em minérios, constituindo a continuação da Serra Morena e da zona de Rio Tinto, conhecidas
pelas explorações mineiras desde o Calcolítico e que vamos encontrar também nas Serras do Caldeirão, de
Monchique e do Espinhaço de Cão; a região faz parte da chamada “Cintura Pirítica”, fenómeno geológico da
Península Ibérica, que se desenvolve em arco desde Espanha até Aljustrel (Fig. 2.2).

Verificamos terem existido aqui explorações mineiras desde o Calcolítico e muito importantes na época
Romana, de que são testemunho, em território português, as minas de S. Domingos e Aljustrel e outras de
menor dimensão, dispersas nas Serras do Caldeirão e Espinhaço do Cão. A “Cintura Pirítica” é um fenómeno
geológico, que foi intensamente comprimido desde a Orogenia Hercínia dos tempos do Carbonífero tardio e
as rochas ricas em minério da área ocorrem exactamente neste Complexo Vulcânico Silicioso (Vianna 1952).
Esta região foi profundamente erodida em tempos modernos e coberta de depósitos de areias e gravilha, com
algumas grandes aflorações mineralíferas, ricas em metais preciosos, que emergem à superfície formando os
gossans, vulgarmente designados por ‘chapéus de ferro’, que podem ter mais de trinta metros de profundidade.
Estas riquíssimas formações geológicas foram facilmente exploradas desde o Calcolítico, largamente
aproveitadas na Proto-História e nos períodos Romano e Medieval, continuando a sua mineração até aos
Fig. 2.2. A cintura pirítica da Península Ibérica.

anos cinquenta (Tylecote 1976; Jones 1981; Blanco Freijeiro e Rothenberg 1981), só tendo sido interrompida a
sua actividade quando os minérios não tinham grande valor de comercialização nem podiam ser explorados
intensamente. Observa-se, por exemplo, que explorações mineiras podiam retomar a sua actividade logo que
o preço do cobre subia, tornando-se assim viáveis. Actualmente, em termos económicos modernos, deixaram
de ser exploradas, mas vemo-las ainda indicadas no mapa geológico de Portugal de Vianna, datado de 1929,
mas só publicado em 1952. De referir ainda a exploração de estanho e ouro de aluvião nas margens dos rios
Guadiana e Tejo, e seus afluentes (Júdice Gamito 1979; 1995).

A agricultura desenvolveu-se extraordinariamente com os Árabes que introduziram as noria, noras, e os sistemas
de regadio (Ribeiro1968, 82-93; Braudel 1973; Júdice Gamito 2001c, 175-176) nas planícies de aluvião do Litoral,
as hortas e suas culturas permanentes, e desenvolveram a exploração das serras e zonas de sequeiro

Dentro das cidades, entre os séculos XI e XII, para além das casas das famílias mais importantes, localizadas nas
alcáçovas e que seguiam o padrão das casas mediterrâneas com uma entrada discreta que dava acesso ao pátio
interior e ao espaço social. Era aqui que se centravam todas as actividades da casa e para onde davam todas as alcovas,
como vemos em Mértola (Macias 1996) e em Silves (Gomes 2003). Estas casas apresentam já infra-estruturas
indispensáveis nas cidades; o resto do espaço é escasso e as casas dividem-se em áreas e quartos pequenos.

23
O Algarve e o Magreb

Fig. 2.3. Painéis de Santa Maria d’Al-Harun, in Cantigas de Santa Maria, de Afonso X de Castela (o Sábio).

Deveria ter existido, por vezes, uma certa tensão entre os habitantes das cidades, dado o espaço reduzido
onde viviam, e, provavelmente, teriam subido a altura das casas e aumentado assim a área habitacional com
andares no seu interior, como se observa nas iluminuras de Ukxûnuba, nas Cantigas de Santa Maria, de
Alfonso X (Fig.2.3). Esta foi também a solução frequentemente encontrada nas cidades medievais europeias
em que o espaço intramuros exigia que as habitações crescessem em altura, como foi o caso de Florença, no
tempo de Petrarca. Os edifícios são geralmente simples, de um ou vários andares, por vezes divididos em duas
divisões, com um quintal atrás, onde se processava a maior parte das actividades domésticas, ou um pátio,
para o mesmo efeito, por vezes partilhado com vizinhos, cobrindo uma área de cerca 35 ou 45 m2. Por vezes,
as casas têm um primeiro andar, separado do rés-do-chão por um estrado de madeira, podendo, no entanto,
ter mais andares, como referi atrás. Só no caso de casas senhoriais existia um traço ou outro de características

 É frequente observarmos o aparecimento destas torres/habitação nas pinturas da época oferecendo simultaneamente uma habitação e
uma forma de defesa eficiente. A casa de Petrarca era uma delas.
próprias, desenvolvendo-se a casa familiar ao redor de um pátio interior, onde se encontrava também uma
fonte ou um lago com água, no estilo das casas mediterrâneas, como vemos em Medina al Zhara, em Mértola
(Torres e Macias 1996), ou Silves (Gomes 2003). No entanto, também aqui, a dimensão dos compartimentos
era diminuta, permitindo apenas espaço para uma alcova (Fig.2.3).

A informação que podemos obter sobre o território que é actualmente o sul de Portugal parece estar dominada
por Ukxûnuba, a antiga cidade de Ossónoba pré-romana e romana (Fig. 2.1). Interessante salientar que
Ukxûnuba foi a adaptação e evolução fonética à língua árabe de Ossónoba e a forma que permaneceu mais
tempo, entre os árabes, só mais tarde passando a Santamaria d’al-Harum, o que bem atestava a importância
da cidade. Encontramos esta forma em Ahmed al-Razi no século IX/X, também em Ibn al Faradi no século
X, novamente em al-Udri no século XI, bem como em al-Abbar no século XIII. Ainda encontramos esta
designação no século XVII numa carta escrita a Carlos V pelo embaixador do Magreb, al Gassani. Ukxûnuba
deveria ter sido uma cidade rica e famosa, conhecida pela sua fabulosa igreja cristã, que os árabes conservaram,
tal como nos diz Alib ben. ‘Umar al Udri:

“É um edifício alto com algumas colunas de prata enormes. Nunca ninguém viu
colunas iguais, tanto em altura como em diâmetro. É impossível uma pessoa abraçá-
-las com os seus dois braços.”
(Tarsi al-Ajbar, ed. al Ahwani, 1965)

As escavações que efectuamos na cidade de Faro10 confirmam não ter havido no interior da cidade islâmica,
naquela zona, diferenciações nas casas dos seus habitantes, predominando um tipo de casa simples, com
duas divisões e um quintal, como podemos observar nas iluminuras do livro As Cantigas de Santamaria de
Afonso X (Fig.2.3), como referimos atrás. Não observamos também quaisquer diferenciações nas habitações,
relativamente a quem as utilizava, pelo que não as deveriam também existir entre as comunidades muçulmanas,
cristãs ou judias. Teriam certamente diferentes locais de culto e actividades religiosas, a mesquita encontrar-
se-ia no local da Sé, onde anteriormente se encontraria a igreja dedicada a Santa Maria, e tal como em época
romana ali se encontravam o Forum e os templos romanos (Viana, Lyster Franco, Bairrão Oleiro, 1952).

Ukxûnuba deveria ter tido uma segunda linha de muralhas que envolveria a cidade e os seus arrabaldes, talvez
não muito distante da cerca fernandina da cidade, pois não fazia sentido que a rua das Alcaçarias ficasse
fora do amuralhado, quando era onde os artesãos de artigos de luxo tinham as suas lojas e oficinas (Fig.
2.4). Ibn Haucal diz-nos ser Ukxûnuba uma cidade grande, rica e famosa, rodeada por uma planície muito
fértil e bem irrigada, com numerosos pomares e norias, não muito diferente do que ainda encontramos ali

 Este nome, dado à cidade de Faro só aparece a partir do século XI tendo a cidade mantido, como referimos o seu nome original desde a
Idade do Ferro e durante as ocupações romana e árabe da cidade. Só com Harum ou Haraoum, o rei que desesperado sem ter alimentos
para dar à sua população evoca Nossa Senhora, se passou a designar por Santamaria d’al-Harum, tal como reza a lenda descrita por Afonso
X, n’As Cantigas de Santa Maria, e será de al-Harum que deriva o nome da cidade de Faro ou do farol que indicaria o seu limite na ponta
ocidental do Golfo de Cádiz, chamado Cabo de Santa Maria.

10 Efectuamos várias escavações na cidade antiga de Faro, sendo a primeira em Abril de 1984 uma escavação de emergência no cemitério
romano da Rua das Alcaçarias, já no arrabalde, publicado na revista Conimbriga, XXXI, de 1992,p. 99-118, Est.s I-XVIII; uma pequena
sondagem, de 4m x 6m, em Nov. do mesmo ano, na Horta da Misericórdia, praticamente dois anos depois de ter sido contratada para o
corpo docente da Universidade do Algarve, e, posteriormente escavações, de emergência no Quintal do Quartel da Polícia Judiciária, de
Faro, durante cerca de três mêses, em 1987; novamente na Horta da Misericórdia em 1993 e, finalmente uma escavação que praticamente
cobriu toda a superfície da horta num projecto de investigação com fundos europeus, o 10/REGII/96, de 1997 a 2000/1, sobre os centros
urbanos de Faro e Silves e Huelva e Niebla e seus territórios envolventes e uma intervenção pontual no Arco da Vila.

25
O Algarve e o Magreb

Fig. 2.4. Evolução da malha urbana de Faro: 1- Antiga Medina; 2- Faro seiscentista; 3- Rua das Alcaçarias; 4-
Cerca Fernandina e possível arrabalde (baseado em Paula e Paula, 1993).
hoje. O povoamento rural deveria ter sido muito denso e concentrado nas actividades agrícolas. Quanto ao
significado de Ukxûnuba no seu sentido lato, isto é, como o grande território que se estendia para sul do
Tejo, Ahmed al-Razi diz-nos:

“O território de Lisboa segue-se ao de Ukxûnuba. Ukxûnuba estende-se a este de Lisboa e a


oeste de Córdova. O seu território é plano, intensamente cultivado, com diferentes árvores de
fruto e grande variedade de produtos. Possui montanhas boas para a criação de gado e tem
imensa água. As pessoas caçam e pescam em abundância. Está rodeada por mar e com ilhas
costeiras onde se pode chegar de barco. Aí encontram-se muitos pomares e fontes de águas
claras. Existem ainda muitos pinheiros. O seu território é um dos melhores se o comparamos
com outros do mesmo tamanho. Do mar podemos apanhar o âmbar. Sob o seu domínio
situam-se cidades como Silves, que é a mais importante no ocidente. Os Muçulmanos não
possuem outra cidade como esta no ocidente. Foi construída junto a um rio e a maré chega
até lá. Entre Silves e Santarém a viagem leva quatro dias [a cavalo]. Entre ela e Córdova a
viagem dura nove dias a cavalo. Ukxûnuba tem muitas cidades e fortalezas.”11

O Gharb-al-Andalus, a parte mais ocidental do al-Andalus, e cujo nome todos conheciam, constituía e ainda
hoje o é, uma unidade sóciocultural específica, uma extensa região culturalmente homogénea. Na verdade esta
unidade existia já anteriormente, constituindo parte integrante do reino de Tartessos (Júdice Gamito 1986; 1988;
1993; 2005) muito antes da própria romanização daquele território. Em tempo Romano, correspondia à zona
mais a sul e ocidental das antigas províncias da Lusitânia, e da Baetica. O al-Andalus, o Ocidente nas referências
Árabes, tinha um significado mais lato, podendo designar toda a Península Ibérica, sob o domínio muçulmano.
Esta região soube sempre manter, através dos domínios visigótico e islâmico, os mesmos costumes mediterrâneos
e civilizados, a sua filosofia de vida, o seu amor pela beleza e pela cultura. Para ilustrarmos esta afirmação basta-
nos citar o autor anónimo de Dirk bilad al-Andalus que nos diz sobre a maravilha de Silves (Silb) “onde todos são
poetas e é natural que vos respondam em verso”. Este dom ainda hoje se pode encontrar com frequência entre as
gentes do Algarve e do Alentejo, como tivemos ocasião de observar, quando realizamos, em Vaqueiros, o projecto
sobre o povoamento da Serra do Caldeirão (v. adiante secção. 3.4.):

“A cidade de Silves é extraordinária pelo seu aspecto maravilhoso, pela sua beleza, nobreza,
força, amabilidade, fertilidade e perfeição. A sua localização é excelente; a sua hospitalidade,
acolhedora; a sua inacessibilidade óbvia e o seu território extenso. Juntamente com tudo isto
tem ainda outras vantagens. Dela depende o distrito de Saqlab, no qual um grão dá cento e
um por cento ou mesmo mais.” (idem)

Quanto ao povoamento rural, distribuía-se em pequenas aldeias ou alcarias, que hoje designamos por “montes”,
com três ou quatro núcleos familiares, formando pequenos conjuntos de habitações e/ou dependências, por
vezes com um único forno de pão comum, como acontece na Aldeia dos Mouros, geralmente rodeadas por um
fosso protector em torno de toda a alcaria.

Na Alcaria Queimada predominavam três clãs, mantendo os seus apelidos e relacionamentos, e observamos
um esquema um pouco diferente do da Aldeia dos Mouros: talvez por a alcaria ter maiores dimensões, cada
núcleo familiar tinha o seu próprio forno onde cada uma das diferentes famílias cozia o seu pão.

11 Ahmed al-Razi, Descrição do al-Andalus, na versão portuguesa da Crónica Geral de Espanha de 1344, publicada pela Academia de
História, sob a direcção de Lindley Cintra, 1953.

27
O Algarve e o Magreb
As “casas” ou “moradas”12, como se designam no Algarve, de acordo com o esquema familiar referido,
constituíam um aglomerado em torno de uma zona mais aberta e de carácter social, onde se desenvolviam as
actividades domésticas. Havia em todas as casas uma sala/cozinha, que se abria para a rua ou pátio exterior
onde se encontrava uma lareira para se cozinhar e aquecer no inverno. Atrás dela o quarto do casal e mais
atrás ainda os quartos dos filhos, inacessíveis do exterior e/ou uma arrecadação onde se guardavam os bens
mais preciosos.

Este esquema reproduzia-se sempre, mesmo quando ali residiam duas ou três gerações. Cada família
tinha a sua própria casa, junto dos filhos ou netos adultos, constituindo como que um desdobramento das
dependências familiares. Tratava-se de um esquema compósito, prolongado e envolvido pelos estábulos e
celeiros que pertenciam ao agregado familiar.

2. 2 A organização do espaço, dos campos e dos homens

Os limites de cada distrito ou kura, isto é da região onde residia um ‘amil ou governador, com direito a cobrar
impostos (Guichard 2000, 135-9) seguiam vagamente as divisões administrativas da região. As fronteiras entre
uns e outros destes distritos era vaga: apenas a capital era o ponto de referência mais importante o que
também salienta o carácter urbano da civilização muçulmana.

Temos de reconhecer que em Portugal e especialmente no Algarve faltam monumentos como os magníficos
Alhambra de Granada (Fig.s 2.5 e 2.6) ou o Alcazar de Sevilha (Fig.s 2.7 e 2.8) se bem que o que vemos de arquitectura
islâmica nestes monumentos é já de carácter mudéjar, isto é, em estilo e arte islâmica mas reconstruídos em época
cristã. Em Portugal nem isso. Apenas restam alguns vestígios de carácter militar bem patente no pequeno Castelo
de Paderne, de época almóada (Fig. 2.9); as portas das medinas de Coimbra e de Moura (Torres et al. 1999); as
portas mouras da medina de Faro, o Arco da Vila e o arco do Repouso (Júdice Gamito 2004); o poço cisterna do
Museu de Silves; a cisterna omíada13♦ da Rua do Castelo, em Silves, (Júdice Gamito 2005); a mesquita de Mértola,
bela na sua singeleza e que, talvez pela pobreza da região, se tivesse salvado da fúria cristã, como defende Cláudio
Torres (1993); alguns vestígios de ribats, como o de Arrifana, Aljezur (Gomes e Gomes 2004); várias torres de vigia
ao longo da costa e nos lugares onde esta era mais vulnerável (Júdice Gamito 2002); os vestígios de uma barragem
em Vale de Lapa (Lagoa),14 que servia curiosamente para impedir que a água do mar viesse estragar os campos e
as águas em baixo no vale, e que era essencial na criação de gado ovicaprino; e pouco mais. Podemos acrescentar
alguns vestígios de carácter militar adossados às muralhas de castelos predominantemente medievais cristãos,
lápides funerárias e elementos de arquitectura islâmica que se encontram em diversos museus regionais, como o
de Moura, Faro, Santarém, Lisboa (Museu Arqueológico do Carmo) etc.

12 Morada é o conjunto de dependências que constitui o agregado familiar: a habitação propriamente dita e todo o conjunto de casas de
utilidade para o mesmo: estábulos, celeiros, dispensas, arrecadações, galinheiros, coelheiras, pocilgas, etc.

13♦ Uniformizaram-se as várias grafias do msc. usando a lição de A. Herculano, omíada, apud J. P. Machado (1952), Dic.
Etim. Líng. Port. (8ª ed., 2003) s.v., retomada pelo Dic. Houaiss Líng. Port. (2001), s.v., que a faz derivar do antropónimo árabe
Omiah (Umaiya), ‘ancestral do fundador da dinastia’ [N.E.].

14 Esta barragem, ou muro dos Mouros, como a designaram Varela Gomes e Cardoso, Conimbriga 1993, não é, como estes autores a
interpretaram uma “barragem”, no sentido normal da palavra, muro para reter água, formando um lago de água doce, mas sim um
obstáculo para impedir a passagem da água do mar para o vale mais abaixo, verdadeiro paúl e reserva de água numa propriedade que se
dedicava, sobretudo, à criação de ovicaprinos, que foi propriedade da família da autora.
Fig. 2.5. O Alhambra de Granada.

Fig. 2.6. O pátio dos Leões.

Fig. 2.7. O Alcazar de Sevilha - decoração em gesso

29
O Algarve e o Magreb

Fig. 2.8. O Alcazar de Sevilha - o pátio das Donzelas.

Fig. 2.9. Castelo de Paderne (Albufeira), um castelo almóade.

A mesquita de Córdova (Fig.s 2.10 e 2.11) é de construção Omeiída, portanto genuinamente muçulmana,
embora tenha sofrido a implantação, na nave central, do coro mandado construir por Carlos V, I de Espanha.
O Alcazar de Sevilha, reconstruído por Pedro, o Cruel, logo no século XIV, com artífices vindos de Granada, e
o Alhambra de Granada, reconstruído no século XIX, com artífices vindos de Marrocos, são jóias fundamentais
da arte islâmica no Ocidente, embora já, na sua maioria, uma produção mudéjar como referimos atrás.
Fig. 2.11.

Fig. 2.10. A Mesquita de Córdova - a porta exterior e


interior frente ao mirhab.

Podemos certamente afirmar que muito se terá destruído com os vários terramotos que flagelaram o Algarve15
e com o ímpeto cristão da Reconquista. Encontrando-se o Algarve na orla que separa as placas Eurasiática e
Africana e dados os constantes ajustamentos destas placas, a sua movimentação faz-se sentir com frequência.
Também em Marrocos os diferentes terramotos que sofremos se fizeram sentir com grande intensidade, como
foi o caso do terramoto de 1169 (El Mrabet 2005).

A tomada de Faro em 1249 fez com que o estilo Nashrid, mais tardio, esteja completamente ausente nas
manifestações arquitectónicas e decorativas dos monumentos mas, mesmo assim, os quinhentos e cinquenta
anos da ocupação muçulmana no Algarve poderiam ter deixado uma evidência arqueológica e monumental
mais forte. Existem, como referimos atrás, alguns vestígios de construções militares importantes como os
Castelos Almóades de Paderne, Albufeira, e de Salir, Loulé, (Sidarus 1994; 1997; Catarino 1994, 1997, 2000);
as torres costeiras para vigia dos movimentos e dos barcos (Júdice Gamito 2002) ou o que resta das antigas
medinas ou das defesas das cidades (Sidarus 1994; Júdice Gamito 1996, 1997); a cisterna omíada da Rua do
castelo, Silves (Júdice Gamito 2005, 56-61; 2003, 235-246) os vestígios de ribats junto à costa (Júdice Gamito

15 A recente comemoração do grande terramoto de 1755, que destruiu quase completamente o Algarve e se fez sentir com grande
intensidade em todo o sul de Portugal, tendo em Lisboa adquirido maior dramatismo pela mortandade causada, levou à publicação
de numerosas obras sobre este assunto, em 2005. De destacar, em relação ao Algarve, a obra 1755, Terramoto no Algarve, da autoria de
Alexandre Costa et al., 2005, edição do Centro de Ciência Viva do Algarve que salienta exactamente esses aspectos. Em particular nela se
referem (p. 28) os diversos terramotos registados no Algarve e a sua intensidade. De referir, para a época em questão, os terramotos de 22 de
Fevereiro de 1309, de 1353, de 24 de Agosto de 1356, de 5 de Abril de 1504, e o de 27 de Dezembro de 1722, que causou, tal como o de 1755,
enormes derrocadas em todo o território do Algarve destruindo obras que jamais foram reconstruídas. Macias refere ainda um grande nível
de destruição no século XIII mas relaciona-o com a conquista de Mértola, c.1238 (Macias 1996, 80) mas, pelo que pude observar em Faro e
na Serra do Caldeirão, julgo serem impossível tais destruições maciças pela simples conquista: tudo caiu e não há sinais de incêndios.

31
O Algarve e o Magreb
2002; Gomes e Gomes 2004), algumas lápides funerárias, ou os vestígios de pequenas aldeias ou alcarias,
espalhadas pelos campos das serras do Algarve e do Baixo Alentejo (Boone 1994; Torres 1982; Júdice Gamito
1990, 1994; Torres e Macias 1999). Especial referência deve ser feita a Mértola que conservou a sua mesquita
quase intacta, durante largos anos, como referimos atrás, podendo observar-se ainda no Livro das Fortalezas
de Duarte D’Armas o telhado característico das mesquitas, com a sucessão de vários telhados de duas águas,
o que permitia um vão maior no telhado que cobria o largo espaço interior, embora cortado por sucessivos
alinhamentos de colunas e que vemos ainda em Marrocos, como por exemplo nas velhas Mesquitas de Fez, de
Rabat e de Casablanca. Entre os vestígios monumentais poderemos dizer que as influências da arquitectura
e arte islâmicas se fazem sentir em épocas posteriores, perdurando no Manuelino, dos séculos XV e XVI, e no
Romantismo e no Revivalismo, dos séculos XIX e XX.

Todavia existem outros vestígios fortíssimos que nos ficaram e marcaram até aos nossos dias, como a mentalidade
das populações, os hábitos e costumes das gentes, a gastronomia, o modo de vida dos Portugueses, e que se
foram transmitindo de geração em geração. Estes aspectos notam-se sobretudo entre a população do interior
e das montanhas, mais isolada e, naturalmente, mais conservadora.

Fazendo parte do al-Andalus, o Gharb era a sua zona mais afastada, ficando desde então sempre conhecida por
Algarve, a província mais a sul de Portugal e a oeste da Andaluzia. Na metade sul de Portugal, as províncias
do Alentejo e do Algarve, mantiveram sempre o seu carácter profundamente muçulmano na sua maneira de
pensar e de viver, na sua maneira de se ocupar da terra e nos seus hábitos quotidianos. É necessário ter em
mente que os exércitos árabes eram constituídos por milhares de homens de origem árabe e berbere e que,
naturalmente, na sua maioria ficaram por cá, constituindo uma minoria entre a população ibero-romana,
que se converte rapidamente ao Islão e se arabiza completamente. Estes são os muwallads. Poucos se mantêm
cristãos e são designados por musta’rib, ou moçárabes. De referir o facto de que a estrutura da sociedade,
entre os Árabes, impor uma família forte e alargada. Muito provavelmente, os novos habitantes teriam trazido
do Magreb, logo no início, as suas famílias, que foram alargando com novos elementos, com mais esposas e
mais filhos, e uma vasta clientela. Estes aspectos terão facilitado a rápida conversão ao Islão que se verifica
na Península. Tal como Rucquoi refere, a curva dos convertidos ao Islão seria de cerca de 60% da população
autóctone no início do século X e já só seria de 20% no final do século XI (Rucquoi 1993, 76). Um outro
aspecto que esta autora salienta está ligado aos moçárabes e cristãos, mais numerosos no norte da península,
mantendo-se a designação de Hispania e Hispani, ligados às populações mais meridionais da Península Ibérica.
Aqueles são os que recusam pagar os impostos aos invasores, tornando-se no fulcro da resistência cristã. Talvez
aqui resida também a origem das diferenças profundas que ainda hoje detectamos entre as populações do
extremo norte da península e as outras mais a sul. Não será por acaso que um dos insultos mais fortes que
Galegos e Minhotos lançam aos habitantes do sul, a partir de Coimbra, seja o de lhes chamarem Mouros!

Nascendo numa zona menos romanizada, onde o cristianismo se impusera através dos conventos e da
religiosidade pregada por eremitas, como os Padres do Deserto, contando ainda a Este com uma forte
influência da Terraconense e da Narbonense, as regiões a Este foram das mais invadidas pelos exércitos de
Carlos Magno e do Império Carolíngio, desde Barcelona, Gérona e Saragossa e onde tiveram lugar as batalhas
mais sangrentas (Oliveira Marques 1993). Surgiram assim três entidades distintas no antigo reino Visigótico:
O sul que se islamizou rapidamente e onde floresceu al-Andalus; o Nordeste, de forte influência da Europa
do norte, do império Carolíngio; o Norte e Noroeste onde se implantou um reino Cristão de carácter e tipo
visigótico e que fez da guerra contra os “infiéis” o seu dever mais premente (Rucquoi 1993, 76-77). Talvez
assim possamos compreender melhor as influências e o carácter destas regiões e das suas populações, nas suas
qualidades e nos seus defeitos, no seu fanatismo e na sua intolerância, no seu comportamento em momentos
futuros e na nossa própria actualidade.
O Algarve terá sido sempre uma região cosmopolita desde a Proto-História, em que contactos com Gregos e Fenícios
e outros povos do Mediterrâneo eram constantes. Foi uma região profundamente romanizada e desenvolvida em
época Romana, com zonas agrícolas das mais ricas da Península, onde o carácter activo e urbano das suas cidades
constituiu uma característica própria. O Sul da península foi onde os Árabes mais fortemente se estabeleceram e
desenvolveram, criando uma cultura e civilização das mais impressionantes de então: Al-Andalus.

No entanto, os Árabes, embora sendo mais cultos e instruídos do que os Visigodos, tinham também uma
organização político-administrativa semelhante, isto é, a tribo, o que se tornava na sua força e, simultaneamente,
na sua fraqueza. Terríveis rivalidades tribais e intrigas entre clãs conduziram-nos com frequência à guerra.
Por outro lado, os Berberes não aceitavam serem considerados de segunda categoria, tanto mais que foram
indispensáveis nos exércitos árabes, na conquista da Península e que possuíam até uma cultura bastante
diferente. Todos estes aspectos contribuíram para que se instalasse na Península Ibérica uma sociedade
instável e de difícil domínio.

2.3 O Emirato e o Califado de Córdova

Os anos que se seguiram à batalha de Guadalete em 711, foram assinalados pelas rápidas conquistas dos
exércitos Árabes, e, desde logo, a maior parte do território caiu em suas mãos quer por capitulações assinadas
pelos duces visigodos, ou pelos governantes das cidades ou regiões. Através das capitulações, os cristãos recebiam
o estatuto de dhimmis ou protegidos, o que lhes permitia manter as suas estruturas políticas e administrativas,
religiosas e jurídicas desde que pagassem os impostos, acrescidos de um taxa suplementar, aos novos senhores.
A própria Igreja não ofereceu qualquer resistência uma vez que poderia continuar a gozar dos seus privilégios
anteriores. O clã de Witiza, que desencadeara toda esta nova organização do espaço também não se importou
pois auferiu dos vários bens do antigo reino visigótico. Os Árabes, nestes primeiros tempos, pareciam mais
interessados nos saques da guerra, em bens e terras do que alterar profundamente a administração do novo
território, o que também seria difícil com a rapidez da conquista de todo o território da Hispania. Os Berberes
constituíam o grosso do exército Árabe e emigraram rapidamente em grande número para a Península Ibérica,
região mais fértil e agradável do que aquelas onde viviam no Magreb. No entanto, a pouco e pouco, os Árabes
foram-se apercebendo das dificuldades que aquele vasto território diversificado lhes oferecia: as dificuldades
de comunicação, a distância que os separava de Damasco, a permanente ameaça dos príncipes cristãos a norte,
as provocações fanáticas dos moçárabes. Tudo isto dificultava o reino dos Árabes na Hispania. Referiremos
brevemente os principais aspectos históricos destes primeiros tempos.

Após a conquista fulgurante de praticamente toda a península, Mûsâ Ibn Nusayr, cunha as primeiras moedas
muçulmanas em ouro em 712, na cidade de Toledo, e, no ano seguinte, é chamado a Damasco para contar ao
Califa as suas vitórias sobre o reino cristão dos Visigodos. A conquista da Península Ibérica estava praticamente
terminada em 714 quando Mûsâ se dirige a Damasco, levando ao Califa um imenso saque, além de cativos
e prisioneiros. Chega a Damasco pouco antes da morte do califa e é pessimamente recebido pelo sucessor
daquele, Slaymân (715-717) que o censura por não ter retardado a sua chegada. Mûsâ deixara um dos filhos,
‘Abd Allâh, como governador de Kairouan, e o outro, ‘Abd al Aziz, em sua substituição no al-Andalus. Este
conquistara toda a faixa ocidental da Península, incluindo o Algarve, e fixara residência em Sevilha. Ambos
foram assassinados na sua ausência. Uma série de governadores foi nomeada sucessivamente para Córdova,
ao ritmo de um por ano, mas o poder encontrava-se sempre nas mãos do exército. Este decide invadir a
Septimania, região ao sul da França que pertencia à Narbonense visigótica e daí envia expedições para os vales

33
O Algarve e o Magreb
do Loire e do Rhône sendo derrotados em 721 pelo duque de Eudes, da Aquitânia. Em 732 dá-se a batalha
de Poitiers e o governador de Córdova, ‘Abd al Ramân morre antes da chegada do exército vindo de França
(Levi-Provençal 1999, 30-53; Piccard 2000, 25-26). No Noroeste da península, nas Astúrias, os cristãos tinham
começado a organizar um reino por volta de 718 que não parou de consolidar-se aproveitando a situação
instável do al-Andalus pela metade do século (Levi-Provençal 1999; Oliveira Marques 1993).

Dever-se-á salientar o facto de os Berberes terem passado a fazer parte dos exércitos árabes numa posição
inédita de integração, em relação aos conquistadores, pois ocupavam igualmente posições de chefia, embora
sempre considerados de segunda categoria. No entanto, tanto no Magreb como na Hispania, os tempos que se
seguiram foram de repressão e medidas severas que conduziram a revoltas e mal-estar constantes. A Crónica
Mozarabe de 754, escrita por um cristão da região de Murcia, revela exactamente este antagonismo crescente
entre os Mauri ou Berbéres e os Sarraceni ou Árabes, que só irá aumentar nos tempos mais próximos. Por outro
lado, a vinda para a Península Ibérica de largos milhares de Árabes, que poderiam ter vindo acompanhados das
suas famílias, bem como pela sua própria estrutura familiar e social em breve assimilaram aos seus clãs largo
número de indivíduos, de mulheres e de uma larga clientela, facilitando a islamização da população, que se
processou, portanto, rapidamente.16

Segue-se um período de grande instabilidade devido, sobretudo, às rivalidades existentes entre os dirigentes
árabes, reflexo das rivalidades profundas existentes entre as tribos Iemenitas e as dos Árabes do norte, na Península
da Arábia, sobretudo os Qays, e o movimento de expansão árabe, tanto para Ocidente, em direcção ao Magreb e
ao al-Andalus, como para Oriente, em direcção à Índia, actual Paquistão, e para norte, actual Urzbequistão, onde
se encontra a cidade de Samarcanda,17 uma das passagens para Ocidente, da famosa Rota da Seda.

Em 756, domina em Córdova o emir ‘Abd al-Rahmân I, que torna a cunhar moeda e inicia a construção
da mesquita de Córdova em cerca de 780. Apesar de acusar algumas influências do traçado da mesquita de
Damasco, é uma construção original na Península Ibérica, com aspectos inéditos como a solução, para elevar
o teto da mesquita, de apoiar dois arcos ultrapassados sobre o mesmo suporte e deixando livre o espaço entre
ambos, o que conferiu grande leveza e originalidade a este edifício. De salientar que na Hispania foram os
Árabes ligados aos Omeiídas de Damasco que predominaram nas chefias e intelectualmente não reconheciam
o poder dos Abássidas, mantendo o poder entre os descendentes omíadas. Em 796 inicia-se o emirato de
Al-Hakam I (788-797) e a consolidação do poder central é feita com violência: o massacre de Toledo, em
797, e a revolta e perseguição aos habitantes de Córdova, em 818, em que morreram ou fugiram milhares de
cordovezes. Esta revolta deu-se principalmente entre os intelectuais e doutores do Islão contra as repressões
brutais dos emires. A adopção das doutrinas sunitas orientais surge então na Ifrîqiya e no al-Andalus. Um
dos revoltosos mais famosos foi o faqîh berbere Yayhâ ben Yahyâ al-Laythî. Em 798 dá-se o primeiro assalto
dos Sarracenos às Baleares e a tomada de Barcelona pelos Francos em 801. A escola sunita torna-se a religião
oficial do emirato, no reinado do emir ‘Abd al-Rahmân II (822-852), que vai ser longo e próspero. A paz é
restabelecida e a administração de ‘Abd al-Rahmân II eficiente, mandando construir cidadelas fortificadas
nos centros das cidades mais instáveis. O seu gosto pela música e pelas artes faz dele um dos homens mais
cultos da Europa do seu tempo. Funda a cidade de Múrcia em 831, seguida, em 835, pela fundação da Kasba

16 Interessante ver o trabalho de quantificação realizado por Bulliet, 1979, que, comparando as curvas de conversão obtidas e aquelas para o
Egipto, chega à conclusão que a inversão da percentagem de muçulmanos e cristãos só se dá durante o califado.

17 Sobre este assunto da história do Islão ver sobretudo Levi-Provençal (1999), Guichard (2000), Taha (1989), Collins (1991) Miquel
(1973), Rucquoi (1993) Piccard (2000). Também Shaban se refere a estas circunstâncias em Islamic History A D. 600-750 (A H. 132), a new
interpretation, Cambridge University Press, Cambridge. 1997
de Mérida, e por volta de 845, observam-se as primeiras revoltas dos muwallades no vale do Ebro, que são
dominadas. A reorganização administrativa consolida-se e são criados os cargos de ministro ou wizîr e de
secretário ou kâtib. O emirato de Córdova atinge o seu apogeu no século IX com o apoio de famílias muwallads
(neo-muçulmanas). A influência orientalizante no ocidente é cada vez mais forte e a atracção pelas cortes
orientais dominam no emirato de Córdova, ávido de luxo e de requinte. A influência da civilização árabe é
cada vez mais forte, e Toledo é um exemplo claro da evolução e aculturação que se processa no Al-Andalus.
Com ‘Ab al-Rahmân III (912-961), que conseguiu vencer todas as dificuldades que compunham a sua herança
– um tesouro inexistente e revoltas por todo o lado – vai transformar o seu país num reino poderoso e pacífico:
a ordem no país é restabelecida. Sendo tanto europeu como muçulmano (a mãe e a avó eram de origem cristã)
conhecia bem os dois mundos. Sendo muçulmano, sem ser fanático, esforçou-se por ser tão tolerante quanto
possível para com os moçárabes e os judeus. As revoltas, porém, continuaram e só em 932 o al-Andalus e o
al-Gharb se tornaram, por algum tempo, totalmente pacificados.18

É importante salientar as medidas que este emir, pouco depois califa de Córdova, tomou em relação aos
Vikings, que se tornaram numa verdadeira ameaça ao domínio Árabe, atacando e saqueando não só as
populações da costa mas também as terras do interior, como o ataque a Lisboa, em 844 (Picard 2000, 116),
e depois penetrando através do Alentejo, saqueiam Beja e atacam Niebla.19 Os Vikings chegaram a atacar a
própria Sicilia e, na sua audácia, desceram pelos rios do norte da Europa, o Dnieper e o Volga, chegando,
respectivamente, ao Mar Negro e ao Mar Cáspio (Morris 2000). A sua ousadia foi tal, que o Califa de Bagdad
enviou um embaixador ao extremo norte da Europa para ser informado sobre aquele povo, como nos relata
Al Fadlan, o secretário que acompanhou este embaixador (McKeithen 1979; Júdice Gamito em preparação).
‘Ab al-Rahmân III organizou a defesa costeira de todo o território, com base numa armada que percorria e
vigiava toda a costa.20 Mandou ainda construir torres de vigia, que assinalariam a aproximação de perigo
às povoações mais próximas (Júdice Gamito 2001b). Este sistema foi reforçado pelos Almoravidas e pelos
Almóades, com os ribats nos locais mais estratégicos da costa.21 Estas decisões de ‘Ab al-Rahmân III deveriam
ter sido fundamentais para a experiência de navegação que os Portugueses demonstraram possuir dois séculos
mais tarde, usando instrumentos e perícias de origem árabe.

Com a morte de ‘Abd al-Rahman III, que conseguira implantar a paz no seu território e desenvolver
extraordinariamente o al-Andalus, as revoltas dos berberes continuaram. O seu filho e sucessor al-Hakam
II (961-976) manteve-se ainda como chefe califa dos muçulmanos mas o neto, Hisam II (976-1009) foi uma
figura apagada e sem personalidade e o poder do califado passou na realidade para as mãos do seu ministro
Muhammad ibn ‘Amir, cognominado de Al-Mansur, que espalhou o terror entre os cristãos e governou o
califado e os exércitos com segurança feroz, reinando de facto como um califa de 981 a 1002. Medina al-Zahra
e o Alcazar de Córdova são praticamente abandonados e ele vai fundar uma outra cidade Medina al-Zahira!22

18 Sobre este assunto ver sobretudo os trabalhos de ‘Abdul-wahid Dhanum Taha, 1989; Adel Sidarus 1991; Garcia Domingos 1964.

19 Como nos relata Levi-Provençal, 1999, II, 170-171; Claudio Sanchez Albornoz, 1973, 406-411; também na Eciclopédia do Islão, v. V, 1115-1116.

20 Ver os trabalhos de Guichard, 1983, Levi-Provençal , 1999, Lirola Delgado, 1995, Mikel Epalza, 1995, Zozaya, 1995, Arié, 1995, Braudel
(1966) e tantos outros sobre a actividade marítima no Mediterrâneo, o comércio, o corso e os acordos diplomáticos.

21 Os ribats eram conventos de monges guerreiros que se dedicavam à oração e à defesa da costa. Temos conhecimento de vários, um junto
à actual capela de St. António do Alto, em Faro (Júdice Gamito 2001b), outro teria existido sobre as arribas da Praia da Marinha, Lagoa,
como refere Garcia Domingos, 1997, outro sobre as falésias da praia da Arrifana, Aljezur (Gomes e Gomes 2005).

22 Sobre Almansur ver sobretudo Lévi-Provençal, 1999, Histoire de l’Espagne Musulmane, v.II, 222-256; Guichard 2000; também, mais
resumidamente A Borges Coelho, 1972, A Oliveira Marques 1993, Garcia Domingues 1997

35
O Algarve e o Magreb
Seguiu-se-lhe seu filho ‘Abd al-Maslik al-Muzaffar que morreu seis anos depois iniciando-se logo a seguir
o desmembramento do califado com uma série de revoltas por todo o território, que ficou retalhado em
pequenas taifas, do árabe al-tawa’if, que significava ‘bandeira’ ou ‘partido’ (Fig. 2.12).

1. Silves 12. Denia 23. Dénia e Baleares


2. Faro 13. Múrcia 24. Granada
3. Huelva 14. Tortosa 25. Aragão
4. Niebla 15. Lérida 26. Leão
5. Arcos 16. Tudela 27. Málaga
6. Ronda 17. Mértola 28. Navarra
7. Morán 18. Almeria 29. Pallars
8. Carmon 19. Burgos 30. Zaragoça
9. Algeciras 20. Badajoz 31. Sevilha
10. Alpuente 21. Barcelona 32. Toledo
11. Albarracín 22. Córdova 33. Urgel
34. Valência

Fig. 2.12. Os Reinos de Taifas (século XI).


Sob a chefia de potentados locais, alguns mantiveram-se no poder vários anos e constituíram pequenas
dinastias como os Banu Abbad em Sevilha, os Banu Hammud em Málaga e os Banu Aftas em Badajoz. As
taifas tiveram de um modo geral uma vida efémera, algumas apenas existindo durante alguns anos, como a
de Faro, instituída em 1026. No entanto, em Faro, já designada por Santa-Maria, a Sa’id ibn Harun, grande
proprietário na zona, que a governou até 1041, sucedeu-lhe seu filho Muhammad ibn As’id al-Mu’tasim, que
governou onze anos, sendo depois forçado a integrar a taifa de Sevilha (Oliveira Marques 1993, 132). Sendo
Sevilha a taifa mais importante na região, foi absorvendo rapidamente todas as pequenas taifas, como a de
Mértola e de Silves. Portanto, terá existido pelo menos cerca de trinta anos. No entanto, o nome da família dos
Banu Harun (Ben Harun) continuou ligado à região (David Lopes 1968).

A taifa de Badajoz foi governada por grandes proprietários da região, os Banu‑l‑Aftas, de origem berbere, estendendo-
se o seu domínio a cidades importantes como Santarém e Lisboa (Borges Coelho 1972, v. III, 110-111), Sucedeu-lhe
seu filho Muhammad al-Muzzaffar Sayf al Dawla, bastante culto e erudito, que morreu em 1068, ficando a taifa de
Badajoz dividida pelos seus dois filhos Yahya al-Mansur Bi-llah e ‘Umar al-Mutawakkil ala-llah, que se guerrearam
entre si. Com a morte de Yahya, Umar ficou sozinho a governar. Umar al-Mutawakkil era também, tal como seu
pai, culto e poeta, mas mesmo assim teve que enfrentar várias rebeliões, como a de Lisboa em 1079.

Todas estas disputas e guerras entre os Árabes só vinham facilitar a recuperação e reconquista cristãs e Afonso VI, rei
de Leão e Castela não desperdiçou tempo. Os sucessivos ataques cristãos levaram grande número dos governantes das
taifas, entre eles o de Badajoz, a pedir auxílio aos Almorávidas, originários de Marraquexe, que refizeram a unidade do
al-Andalus dominando-o durante os séculos XI e XII e assimilando a sua cultura e forma de viver (Fig. 2.13).

Para observarmos quão efémeras foram estas taifas, referiremos quanto tempo ficaram independentes: a taifa
de Mértola tem uma vida breve, talvez tenha abrangido a Kura de Beja, mas foi conquistada pela taifa de Silves
ao serviço do rei de Sevilha.

A taifa de Silves existiu a partir de 1044 sendo conquistada pelo rei da taifa de Sevilha Al-Mu’tadid em 1063,
tendo tido apenas três soberanos e estando sempre em guerra com Sevilha (Garcia Domingues 1997; Borges
Coelho 1972; Guichard 1990).

Al-Mu’tadid dominou todo o Alentejo e o Algarve até 1091, sendo expulso pelos Almorávidas oriundos do sul
do actual reino de Marrocos que conferiram uma nova unidade ao al-Andalus.

Em breve, os Almorávidas foram dominados pelos Almóadas, dinastia berbere fundada por Mohamed-ibn-
Tumart que, tendo conquistado todo o Norte de África e o al-Andalus, de 1147 a 1269, chegou a pôr em causa
os reinos cristãos da península (Fig. 2.14) mas que acabou por ser derrotada na batalha de Navas de Tolosa, em
1212. No Magreb, acabou também por ser dominada pelos Merínidas, entre 1229 e 1269.

A Reconquista cristã foi sendo feita progressivamente, Faro, Silves e Sevilha foram conquistadas em 1249
apenas restando o reino de Granada, onde floresceu a dinastia dos Nashrid e que só foi abandonada pelo sultão
em 1492, tendo então sido tomada pelos Reis Católicos.

Os Árabes deixaram-nos uma herança rica, diversa e profunda em todos os ramos das artes e do saber, na
guerra e na paz. Encontramos os seus traços na literatura, nas ciências, na filosofia, na poesia, na música, na
gastronomia, na agricultura, no requinte do bem viver. Na estrutura social e familiar e quiçá na religião a sua
evolução parece ter parado no tempo, predominando até aos nossos dias a sua organização tribal, origem da
sua força e da sua fraqueza.

37
O Algarve e o Magreb

Fig. 2.13. O Império Almorávida.


Fig. 2.14. O Império Almoada e o Reino de Granada, último bastião islâmico na Península Ibérica.

2.4 Al-Andalus

Em 929 ‘Ab al-Rahmân III proclama o califado de Córdova que se vai tornar num verdadeiro sol de civilização,
por entre as sombras cinzentas da civilização europeia de então, tal como Miguel Barceló salientou no seu livro
El Sol que salió por Occidente e que Pierre Guichard aceitou plenamente (Barceló 1997; Guichard 2000).

Inicialmente o termo Al-Andalus23 designava o vasto Ocidente, no império Árabe. Portanto incluía toda a
área conquistada na península e no Magreb, e assim encontramos em Marrocos as mesmas designações. Em
sentido estrito localizava-se na Península Ibérica, abrangendo quase toda esta (Fig. 1.2). Com a Reconquista
e no século XI, a sua área reduz-se e abrange todas as regiões a sul do Douro até ao vale do Ebro, então sob o

23 Estudos sobre Al-Andalus, ou outros com ele relacionado, têm sido largamente tratados por numerosos especialistas que o
aprofundaram, com especial referência, entre as obras gerais, a E. Lévi‑Provençal, 1932 (reeditado em 1999), Histoire de l’Espagne
musulmane, vol. I e II, e também L’Espagne musulmane au Xème siècle, (reeditado em 1996), Paris, Maisonneuve & Larose; P. Guichard,
2000, Al-Andalus, 711-1492, Paris, Hachette; J.Garcia Domingues, 1997, Portugal e o al-Andalus, Lisboa, Hugin; R.Menéndez Pidal, 1969,
Historia de España, v.5, Madrid; A Oliveira Marques, 1993, Nova História de Portugal, v.II, Lisboa, Presença; C.Picard, 2000, Le Portugal
Musulman (VIIIe-XIIIe siècle), Paris, Maisonneuve & Larose; S.Osseiran, Cultural symbiosis in Al-Andalus, 2004, Beirut, UNESCO. O
historial, introdutório do trabalho que apresentamos aqui, tem apenas a preocupação de tornar inteligível os assuntos e as épocas abordados,
apontar possíveis causas e influências e os papéis dos principais intervenientes, não sendo tanto um trabalho de investigação mas tão
somente a descrição sumária dos acontecimentos do passado histórico do Algarve, seu relacionamento com o espaço ibérico e as escavações
que aqui realizamos, e com os sítios e cidades onde aconteceram. A bibliografia apresentada, embora reduzida, apontará ao leitor os
trabalhos mais profundos efectuados noutras circunstâncias e propósitos de investigação.

39
O Algarve e o Magreb
regime das Taifas (Fig. 2.12), mais especificamente, em termos actuais, toda a região das actuais províncias da
Andaluzia, e Estremadura, em Espanha, do Alentejo e Algarve, em Portugal. Durante o domínio Almorávida e
Almóada (Fig.s 2.13 e 2.14), a Península Ibérica tornou-se parte integrante do Magreb, portanto uma das suas
províncias, do que é actualmente o reino de Marrocos.

Al-Andalus ficou conhecido na História medieval da Europa como uma civilização única, requintada e culta
que se desenvolveu naquelas regiões e se manifestava sobretudo nas cortes árabes da Península. Por outro
lado, tal como salientamos no início deste trabalho, não podemos esquecer serem estas as antigas províncias
romanas da Bética e da Lusitânia, das mais romanizadas e cultas do mundo romano. Os Omeiídas, que
inicialmente conquistaram todo o Magreb e a Península Ibérica, estavam dependentes do califa de Damasco
e eram oriundos da Síria, da Arábia, do Iémen, e do próprio Egipto, zonas onde as culturas Bizantina e
Helenista mais se fizeram sentir. Eram portanto os descendentes de uma população requintada e culta que
ali residia ainda.

Tudo isto, bem como a chegada à península de muitos eruditos árabes que fugiam ao regime abássida instalado
em Bagdad, teria contribuído para este “sol” irradiante de civilização que se estabeleceu naquelas regiões.

Deverá ser referido, neste contexto, dois factos importantes:

1. A deslocação para Ocidente de famílias omíadas ligadas ao califa de Damasco, região onde a
civilização bizantina mais se impusera no Próximo Oriente, foi um factor determinante. Muito
embora o califado de Damasco tivesse sido em breve deposto pelo clã dos abássidas, passando
o califado para Bagdad, na Península, os omíadas mantiveram-se à frente dos exércitos e do
governo de al-Andalus e continuaram a acolher foragidos vindos do Oriente. Por outro lado,
logo desde o século VIII, o emir Hisham I tinha adoptado a doutrina malaquista, elaborada por
Malik ibn Anas, em Medina, e que era contrária à professada pelo genro do Profeta, desde logo
entrando em oposição à política de Bagdad (Lévi-Provençal 1999; Picard 2000);

2. Os árabes, tal como dissemos atrás, deslocaram-se com as suas famílias numerosas, ou estas
se lhes juntaram em breve, impondo tradições e gostos orientais, até então desconhecidos na
península. O abismo entre os governantes e o seu povo cresceu desmesuradamente. Nos palácios
em breve se assistiu à instalação de um verdadeiro exército de servidores, de ministros, familiares,
artistas, músicos, sábios diversos. A mesquita de Córdova, que começou a ser construída em 780,
no local da igreja visigótica dedicada a S. Vicente, vai sofrendo constantes aumentos por ‘Abd
al-Rahman II e outros. Muhammad I acrescenta-lhe um maqsura, ou espaço para o emir fazer
as suas preces e ‘Abd-Allah acrescenta uma passagem coberta entre o palácio e a mesquita. Em
breve, Córdova torna-se uma cidade grandiosa com belos jardins e palácios.

O prestígio do emirato de Córdova aumenta, bem como o seu afastamento do califado de Bagdad, o que
leva o emir ‘Abd al-Rahman III a declarar-se califa e tornar‑se independente de Bagdad. Assim, após ter
restabelecido a paz no seu território e inspirando-se no modelo da corte bizantina, vai instaurar no seu
palácio idênticas características, mas mantém simultaneamente as influências orientais e os laços com o
mundo islâmico. Tal como no oriente, o califado vai edificar uma nova capital em cerca de 940, a cidade
palaciana de Madina-al-Zhara, uma pequena jóia da arquitectura árabe no Ocidente, a cerca de vinte e
cinco quilómetros de Córdova.

Durante vários séculos a civilização do al-Andalus brilhará em cultura, requinte e civilização. Observa-se
logo a partir do século VIII terem os primeiros califas de Córdova dado atenção especial à historiografia,
favorecendo nas suas cortes cronistas e historiadores, cujos escritos na maioria se perderam mas foram
largamente aproveitados anos mais tarde por diversos autores como Ibn al-Qutiya, pelos autores anónimos de
Akhbar majmu’a, e pelo próprio ‘Isa al-Razi nos seus Anais. Como em todas as crónicas de todos os tempos,
estas exaltam também as origens, a bravura e os sucessos dos seus chefes.

‘Abd al-Rahman III procura imitar a corte do Império Bizantino, com quem tinha boas relações, na pompa,
nos hábitos luxuosos e na decoração da corte, juntando poetas, músicos, médicos, letrados e astrónomos,
que muito contribuíram para o brilho de Córdova no século X. Muitos destes homens cultos tinham viajado
pelo Oriente e contactado directamente com teólogos e filósofos helenistas, como al-Kindi (c.796-873), al-
Farabi (872-950), Ibn Sina (980-1037) e absorvido conhecimentos tanto da Antiguidade Clássica como da
Pérsia. A protecção dos emires e califas e a vigilância dos alfaquies, contribuíram para que a vida intelectual
de Córdova fosse diversa e animada. Além disso ‘Abd al-Rahman II, mandou fazer no Oriente várias
traduções de autores clássicos sobre filosofia e matemática, enchendo o seu palácio de sábios, de livros e de
tesouros. Sábios dominando várias ciências como Yahya ibn Yahya de Córdova, que morreu em 936, ou Ibn
Masarra (883-931) reuniam-se em Córdova. O califa al-Hakam II (961-976), que mandou construir a última
ampliação da mesquita de Córdova, reuniu uma biblioteca de várias dezenas de milhar de livros, tendo
recebido um volume iluminado, escrito em grego, do imperador de Constantinopla como presente. ’Abd
al-Rahman III solicitou ao imperador de Constantinopla que lhe enviasse um tradutor também, passando
a haver nesta biblioteca um catálogo de todas as obras, e vários mestres copistas, tradutores, iluministas e
encadernadores. Esta notável biblioteca foi destruída por al-Mansur e os seus volumes dispersos quando
da tomada de Córdova pelos Berberes em 1012-1013, na revolta que conduziu à fragmentação do califado
e à criação das taifas (Lévi-Provençal 1999). O número crescente de muwalladun e de Berberes cultos na
segunda metade do século X e inícios do século XII, fez emergir no al-Andalus uma cultura verdadeiramente
andaluza, e não é por acaso que, no século XII aparece o cordovez Ibn Rushd, designado Averroes pelos
cristãos (Cruz-Hernandez 2004).

Na estrutura social, dominava uma hierarquia estrita, encontrando-se no cimo da pirâmide o califa e a
sua corte ou família real e os altos funcionários, os juizes, e os militares, que naturalmente pertenciam à
aristocracia, ou khassa. O povo, ou ‘amma, constituiria o grosso do exército árabe. As classes sociais não eram
fechadas e dividiam-se entre a aristocracia, que concentrava em si o poder, o prestígio e a riqueza; os notáveis,
que constituíam um grupo de intermediários representando o povo nas cortes, por vezes manipulizando-o
a seu favor e finalmente o ‘amma ou o povo, constituído por artesãos urbanos, comerciantes, arraia-miúda
e camponeses, geralmente desprezados e maltratados pelos letrados. Os Berberes, quase sempre ignorados
nas fontes literárias, eram também muçulmanos de iguais direitos mas considerados de segunda categoria,
sendo, no entanto, solicitados como mercenários e para combaterem as outras facções árabes inimigas do
califa ou do nobre a que estavam ligados. A maioria da população era muçulmana convertida, quer por
convicção quer por persuasão.

Os muwalla, ou convertidos, embora teoricamente devessem ser considerados como muçulmanos de plenos
direitos, de acordo com o Corão, nunca foram aceites em plena igualdade tanto por árabes como por berberes.
A sua situação devia ser muito próxima da de clientelas junto de um senhor e daí a presença de um prefixo BEN
muito frequente acompanhando os seus nomes de família ou das terras de onde provinham. (Oliveira Marques
1993). Existiam ainda vestígios da época romana que distinguiam os homens livres, os hurr, dos escravos, os ‘abd
e dos libertos, mawla, que deveriam manter uma ligação de dependência para com os seus antigos donos.

Sendo uma sociedade essencialmente urbana, era nas cidades que tudo se processava e onde dominava

41
O Algarve e o Magreb
o comércio, exercido por uma população predominantemente árabe. Os nomes das cidades, ou medinas,
e dos sítios de origem romana e visigótica mantiveram-se mas a sua grafia alterou-se, como vemos, por
exemplo, em Ossónoba (Faro) que passou a designar-se Ukxûnuba. As cidades ou medinas eram rodeadas
por muralhas sendo o seu centro ocupado pela mesquita e o mercado, ou souk, espaços públicos de
interesse comum. O palácio do governador ou a fortaleza, o alcazar, por vezes incorporado na própria
muralha envolvente, como vemos em Sevilha ou em Silves, ou então estava localizado no centro, perto
da mesquita, como vemos em Córdova. O restante espaço, dentro das muralhas, era privado, com becos
e ruas estreitas para uso exclusivo dos seus habitantes, que poderiam estar fechados à noite tal como
as portas da Medina. Para além das muralhas encontravam-se os arrabaldes, ou arrabales, onde havia
quintas e hortas, com habitações de permeio e, que forneciam as cidades de bens essenciais e onde se
poderiam encontrar também as casas de campo dos ricos proprietários. Nas cidades grandes, os arrabaldes
poderiam estar também amuralhados e, por vezes, poderiam encontrar-se nas grandes cidades bairros
reservados aos judeus, como sucede em Córdova, Toledo e Lisboa, outros aos cristãos, como em Valência,
e outros ainda a berberes, como em Granada ou Saragoça. Os artesãos agrupavam-se por especialidades
em estabelecimentos, que se abriam para as ruas do souk, onde trabalhavam um mestre, um artesão e
um aprendiz, ou vários, à vista do cliente, como ainda hoje se vêem nos souks de Fez, de Rabat ou de
Marrakesh, e que Lisboa ainda guarda na memória com as suas ruas especiais: Rua dos Fanqueiros, Rua
dos Correeiros. Os artesãos de artigos de luxo tinham direito a um souk coberto que se designava por
alcaiceria ou alcaçaria. A recordação deste souk aparece ainda na designação de uma pequena rua antiga
de Faro, a Rua das Alcaçarias, na zona do arrabalde árabe da cidade, e que deveria estar protegida por
causa de ser aí que se produziam os artigos de luxo.

A economia de al-Andalus dependia muito do riquíssimo comércio internacional que aqui se processava
e na transformação de matéria-prima importada em artigos de luxo. A importância do mercado, como
centro comercial e produtor dos artigos mais diversos, e a efervescência das várias actividades ali realizadas
exigia uma vigilância constante e leis próprias sob o controlo do qadi, vigilância que era exercida por
um mestre do mercado ou sahib al-suq, o qual devia examinar os pesos, as medidas, e os produtos
manufacturados, e, eventualmente, mandar destruí-los se não estivessem conformes aos regulamentos
definidos para cada um.

A prosperidade de toda esta sociedade e dos centros urbanos dependia de uma agricultura igualmente próspera.
A agricultura existente na península nesta época assentava nas culturas tradicionais mediterrâneas: a oliveira,
a vinha e os cereais em regime de sequeiro. Os árabes introduziram as noria, ou noras, e os sistemas de regadio,
melhorados com aquedutos e reservatórios de água. Surgiram assim hortas e vergéis, que produziam frutos
diversos, legumes e muitas e variadas hortaliças frescas. O óleo empregado na alimentação era o azeite pelo
que a “alimentação mediterrânea” era a dominante, hoje considerada a mais saudável pela quase ausência
de gorduras animais. As palmeiras, as amendoeiras e figueiras foram introduzidas e eram muito apreciadas
pelos frutos secos, usados como complemento da alimentação e reserva de açúcar. Foi também introduzido o
cultivo da cana-de-açúcar.

Não podemos deixar de referir quanto era apreciada e necessária à vida no al‑Andalus tanto a natureza cultivada
dos campos e das serras como a natureza regrada dos jardins do al-Andalus, sempre controlada e dominada.

Assim, não podemos terminar esta breve descrição do al-Andalus sem referir a beleza e a estética dos seus
monumentos; do trabalho decorativo feito em gesso e em pedra; da leveza dos arcos quebrados e polilobados;
do enquadramento da paisagem entre a beleza dos favos e efeitos da arquitectura, dos azulejos. Basta para
tal recordarmos as salas e jardins do Alhambra de Granada, a delicadeza do Alcazar de Sevilha, a beleza
imponente da Mesquita de Córdova. Os Árabes saíram discretamente, abandonaram os seus tesouros porque
não os podiam levar consigo, mas não os destruíram ou desfearam. Recordarão saudosos na sua poesia, esse
paraíso que nos deixaram e que ficou para trás.

Interessante referir que, logo no século XIII, Pedro, o Cruel, em Sevilha, e mais tarde, no século XVII, Carlos
V, em Córdova, souberam apreciar estes gestos.

Os Árabes tiveram a preocupação de se rodearem de beleza, de evocarem, de algum modo, o Paraíso, esses
jardins do Éden que povoavam o seu imaginário. A pedra e o gesso são elementos que trabalhados prolongam
na pedra a beleza inefável da natureza, que se avista por entre as janelas dos seus palácios. Os jardins, os
espelhos de água, o murmurejar da água das fontes e nascentes, as plantas e as flores compõem este equilíbrio
entre a obra da natureza e a obra do homem.

Não sabemos exactamente porque motivo, quase nada nos chegou deste passado comum, pois deveriam ter
existido monumentos idênticos, também em Portugal. Lamentamos, mais uma vez, que a sensibilidade dos
reis portugueses ou dos exércitos de S. Tiago, ou mesmo as forças telúricas que nos assolaram, não tivessem
preservado entre nós idênticos monumentos e igual beleza. Embora muitos destes monumentos, inclusive
o Alhambra, só tivessem sido recuperados a posteriori, nós nem isso. Felizmente, a arte Manuelina soube
apreciar e utilizar muitos dos elementos da arte decorativa e arquitectónica do nosso passado árabe, evocado
ainda pelos Românticos do final do século XIX.

Talvez a herança mais palpável que nos ficou seja a saudade, esse sentimento tão português e
simultaneamente tão árabe!

43
EVIDÊNCIA
ARQUEOLÓGICA
O Algarve e o Magreb
3. EVIDÊNCIA ARQUEOLÓGICA
Escavações em Faro, Silves, Alvor e “Aldeia dos Mouros”

O trabalho que aqui apresentamos é a descrição sumária das escavações efectuadas em Faro, Silves, Alvor
e “Aldeia dos Mouros”, uma alcaria abandonada e em ruínas, residência ainda de uma “Moura encantada”,
como não podia deixar de ser. Esta alcaria apresentava indícios de ter sido habitada inicialmente no século
X/XI a que se seguiu uma grande destruição da área habitada, e, posteriormente, ainda nos séculos XII/XIV.
Os locais da cidade antiga de Faro em que interviemos estão assinalados no plano da medina (Fig. 3.1).

Iniciamos a segunda parte deste trabalho com as referências às várias escavações realizadas na cidade de
Faro, nomeadamente a “Horta da Misericórdia”, onde fizemos escavações em 1984, 1993 e de 1997 a 2000; as
escavações no “Quintal da Judiciária” em 1987, e as do “Arco da Vila”, realizadas em 1996. Apresentaremos
logo a seguir e junto à descrição sumária de cada uma, uma amostragem dos materiais ali recolhidos, em
forma de catálogo, uma vez que muitos dos materiais das grandes escavações realizadas, pelo seu grande
número, ainda estão a ser conservados e recuperados. Por outro lado, pensamos escrever as monografias destas
escavações seguidamente, logo que possível.

Assim, a nossa preocupação neste trabalho foi a integração das escavações e respectivos materiais na História dos
respectivos sítios, apresentando já uma amostragem dos materiais exumados, que irá complementar os argumentos
usados aqui também. Não tivemos a preocupação de lhes conferir uma sequência cronológica, nem uma sequência
com base na sua funcionalidade, porque qualquer delas apresentaria, necessariamente muitas lacunas.

A análise e cronologia atribuída às diferentes cerâmicas e objectos recolhidos basearam-se na observação e


estudo cuidadoso da estratigrafia encontrada, na sua analogia com a de outros sítios arqueológicos da mesma
época no Algarve, na Andaluzia e no Mediterrâneo, bem como em algumas datações mais precisas obtidas
pelo método de rádiocarbono, mas que, para a época medieval não são muito necessárias dado a informação
que já temos sobre esta época.

3.1. Escavações em Ossónoba ou Ukxûnuba – cidade antiga de Faro e interpre-


tação dos dados

Ossónoba ou Ukxûnuba, Faro actual, ainda se encontra localizada no mesmo local, no Algarve, sendo a sua
capital. O Algarve é a província mais a Sul de Portugal, e Faro constitui quase uma ilha debruçada sobre o
sistema lagunar da Ria Formosa. O seu núcleo mais importante teria abrangido uma área idêntica à da actual
cidade antiga, ou medina islâmica, dominando o sistema lagunar que a envolve. Esta ria (Fig. 3.3.), quase uma
lagoa, é hoje chamada “Ria Formosa” e constituiu desde sempre um recurso alimentar importantíssimo para
a população da cidade e simultaneamente um dos aspectos mais decisivos na sua defesa (Júdice Gamito 2001;
2003). Na verdade, a cidade pode apenas ser alcançada através de um sistema intricado de canais e baixios, que
mudam consoante as marés e as tempestades que penetram na ria. Este é também um dos aspectos positivos
que nela encontramos: a barreira que forma este sistema geológico, permite criar uma zona de costa abrigada
das tempestades do mar e, simultaneamente, não cessa de fornecer alimento às populações residentes junto a
ela, numa extensão de alguns quilómetros entre Quarteira (Loulé) e Cabanas (Vila Real de Santo António).
Fig. 3. 1. A Antiga Medina de Faro. Escavações arqueológicas dirigidas por T. Júdice Gamito: 1 ‑ Horta da Misericórdia; 2
– Quintal da Judiciária; 3 – Arco da Vila.

47
O Algarve e o Magreb

Fig.3. 2. Vista aérea de Faro.

Estas ‘ilhas-barreira’, como são chamadas, são línguas de areia que formam uma barragem frente ao mar e
que, por vezes, alteram a sua forma e apresentam aberturas ou barras por onde o mar penetra, renovando
calmamente com as marés a água interior da ria, transformando-a numa verdadeira “nursery”, ou creche, para
as numerosas espécies que ali vêm depositar os seus ovos (Oliveira 1984; Bivar Weinholz 1978; Gamito 1989
e 1997; Muzavor 1999; Júdice Gamito 2001). Quer pela existência e criação de numerosas espécies marinhas
ali depositadas, não só de peixes como de bivalves, quer pelos predadores, que entram com as marés para se
alimentarem copiosamente, a ria fornece sempre alimento em qualquer época do ano.

As suas qualidades defensivas são também de assinalar pois só através dos canais se consegue nela penetrar e
chegar à cidade de Faro, vindo pelo mar. Esta navegação é perigosa e só para conhecedores, pois com o baixar
da maré os barcos encalham e a sua vulnerabilidade aumenta, tendo de esperar que a maré suba novamente,
para se soltarem e continuarem a navegar (Muzavor e Morenito 1999). A propósito deste aspecto defensivo
da localização da cidade, relembramos a questão em torno da descrição tradicional da tomada de Faro pelos
Cruzados, tal como vem narrada na Crónica da Conquista do Algarve, de Frei Joaquim de Santo Agostinho24.
Este monge de Tavira teria encontrado essa descrição, em 1788, numa obra medieval depositada no arquivo da
cidade, publicado por J. Pedro Machado, em 1978 , que, tal como nos diz estava “no primeiro (tomo), que por

24 Frei Joaquim de Santo Agostinho nasceu em Tavira, em 1767, foi monge eremita calçado, licenciou-se em Teologia pela Universidade
de Coimbra e foi Sócio da Academia Real das Ciências, pela qual foi encarregado de examinar os cartórios do Reino entre 1788 e 1794. É
interessante consultar as anotações pertinentes de José Pedro Machado no trabalho em que publicou esta Crónica da Conquista do Algarve.
Fig. 3. 3. A Ria Formosa e os sapais junto a Faro.

sua muita antiguidade não tem princípio nem fim”. Este documento foi cuidadosamente Tal como conhecemos
da História, os cruzados teriam posto cerco à cidade de Faro, impedindo assim os seus habitantes de se
reabastecerem, pelo que estes se renderam. Ora, pelas características geomorfológicas da Ria Formosa, do seu
sistema lagunar e complexidade dos baixios, tal não poderia ter acontecido: nem os cruzados se poderiam ter
aproximado da cidade e posto cerco, nem esta poderia ter ficado impossibilitada de se reabastecer. A história
da capitulação da cidade de forma pacífica e cordata a D. Afonso III terá ficado a dever-se ao seu isolamento
face às conquistas anteriores e não à acção dos cruzados (Júdice Gamito 2001, 132).

A cidade antiga ou medina de Faro encontra-se numa situação estratégica importante, dominando toda a ria e o
mar ao longe (Fig. 3.1.), no interior de um recinto amuralhado. Constitui um verdadeiro tell 25, isto é, encontra-se
sobre uma colina artificial formada pelos depósitos de sucessivos estratos de ocupação, que ao longo dos séculos
ali se foram depositando. Nesta sucessão de construções e de reconstruções, a cidade nunca ficou desabitada.

É natural, como dissemos atrás, que durante a época Árabe tivesse existido uma segunda linha de muralhas que
envolveria o arrabalde, e proporcionaria um local de refúgio e protecção às populações ainda ligadas à cidade
e às actividades que os senhores exigiam. Sugerimos esta hipótese pela localização da Rua das Alcaçarias, rua

25 Tell é o nome dado a colinas artificiais que constituíram povoados sucessivamente habitados e que encontramos com frequência na
Síria e na Palestina. Telavive é um bom exemplo destas cidades constituídas por camadas artificiais de antigos povoados, que foram sempre
habitados e sucessivamente reconstruídos.

49
O Algarve e o Magreb
que, como o seu nome indica, era aquela onde estavam estabelecidos os artesãos dos artigos de luxo, feitos
de matérias primas também dispendiosas, e que, logicamente, deveriam ser protegidas. A distância a que se
encontra da medina é suficientemente grande para exigir a construção de uma protecção ao arrabalde. Por
outro lado, a cerca Fernandina, construída mais tarde vem reforçar esta ideia (Fig.2.4). Deveria já ter existido
uma linha de muralhas de protecção ao arrabalde, que posteriormente fez com que toda aquela área fosse
envolvida pela muralha no tempo de D. Fernando.

Vamos analisar as diferentes escavações por nós efectuadas na cidade de Faro.

3.1.1 Horta da Misericórdia

A Horta da Misericórdia foi, como o seu nome indica, uma horta que no princípio do século XX foi doada à
Misericórdia, que ali tinha um hortelão e cultivava frutos e hortaliças que eram consumidos pela Misericórdia,
antigo hospital de Faro, actualmente um lar para a terceira idade.

Fica localizada no Largo D. Afonso III, por detrás da Sé, junto ao Museu Arqueológico e Lapidar Infante
D. Henrique (Fig.3.4.), portanto numa zona interessante para ser analisada sob o ponto de vista arqueológico,
quer por se encontrar no interior da medina, quer por se encontrar junto de uma das suas portas principais,
o Arco do Repouso, quer ainda, por apresentar uma boa superfície aberta: as casas do século XIX que a
contornaram tinham sido há muito demolidas (uma delas pertencera até aos pais do Dr. António Pinheiro
Rosa, antigo director do Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique, de Faro). Havia, portanto,
uma vasta área devoluta naquele local. Por outro lado, quando ali fiz uma pequena sondagem de quatro
por seis metros, em Novembro de 1984, a área despertou desde logo bastante interesse pois revelou uma
série de estragos provocados em Faro com o terramoto de 1755: um muro de forte alvenaria apresentava‑se
estranhamente contorcido e grandes placas do tecto e telhado da casa desabara, encontrando-se no chão da
habitação (v. adiante Fig.3.8), perfeitamente identificável com o reinado de D. João V, pois nela encontramos
moedas da época. Encontramos aqui também, vários materiais cerâmicos de grande interesse, como o
fragmento de candelabro de mesquita, atestando a proximidade da zona à mesquita maior da cidade.

Em 1992/93, tendo a Horta da Misericórdia sido adquirida pela Câmara Municipal de Faro para ali expandir
a área do Museu26, fiz novas escavações nas zonas A, B, C, e D, as quais continuaram, de 1997 a 2000, com o
projecto de investigação INTERREG II nas zonas D, E, F e G. Apresentamos aqui algumas fotografias sobre
esta escavação e pormenores das suas cerâmicas mais interessantes.

A primeira fotografia (Fig. 3.5), apresenta o aspecto final da escavação. É uma fotografia aérea suficientemente
pormenorizada que nos permite distinguir a mancha urbana da cidade:

1. As escavações na zona A, bem como a B e C não constam nesta fotografia pois já tinham sido
cobertas de terra. A zona A, apesar de nos ter dado imenso trabalho na remoção dos escombros
com que fora preenchida, não apresentava grande interesse arqueológico por serem vestígios
recentes. Tratava-se de uma casa, que fora ainda habitada no século XIX/XX, com um pátio com

26 Até hoje não conhecemos uma decisão da Câmara Municipal de Faro quanto ao destino daquela zona.
Fig. 3.4. Horta da Misericórdia. Plano geral das escavações.

Fig. 3.5. Fotografia aérea da Horta da Misericórdia, Faro, no final das escavações.

51
O Algarve e o Magreb
mais de cinco metros de profundidade tendo toda a área sido enchida com escombros e terras
provindas, segundo julgo, do largo da Sé e que não nos forneceu informações seguras sobre o
passado remoto da cidade;

Fig. 3.6. Horta da Misericórdia, Faro: Fragmentos de louça de majólica.

Fig. 3.7. Horta da Misericórdia, Faro: Fragmentos de porcelana chinesa

2. As escavações nas zonas B e C, apesar de se reduzirem a uma pequena camada de interesse


arqueológico, uma vez que assentavam sobre uma zona de afloramento de rocha sedimentar,
trouxe-nos vários fragmentos de louça de majólica e porcelana chinesa (Fig.s 3.6 e 3.7), de muito
boa qualidade, dos séculos XV e XVI, que na época se tinha tornado na louça mais fina que
podia ser adquirida em Portugal. As cerâmicas de majólica são testemunho dos contactos de
Portugueses com a Itália do Renascimento, enquanto a porcelana chinesa, testemunham as
relações com as longínquas terras nos confins do mundo conhecido, a Oriente.

3. As escavações na zona D forneceram-nos mais algumas informações sobre a cidade, e suas


habitações, apresentando vestígios da entrada de uma habitação com porta dupla, os escombros
do derrube violento do seu telhado (Fig.s 3.8 e 3.9), a que já fizemos referência e que julgamos ser
devido ao terramoto de 1309 ou ao de 1353 (Oliveira 1986). Nesta zona detectamos ainda o que
nos pareceu um sifão de cloatra, da época romana, que se teria mantido até essa data.

Fig. 3.8. Horta da Misericórdia, Faro: Casa, sector D. A entrada e o telhado derrubado, durante as escavações de 1993.

53
O Algarve e o Magreb
4. Esta zona D foi depois alargada nas escavações de 1997/2000, como se pode observar no plano
geral das áreas intervencionadas (Fig. 3.4). A porta de entrada (Fig. 3.9), com dois lugares de
gonzos sugeria uma entrada com porta dupla, já com uma dimensão importante, dando acesso
a uma sala de entrada com 4,10m x 4,10m de área, devendo a casa (A) desenvolver-se em altura.
Esta casa tinha um corredor lateral de acesso a uma latrina, que, pela sua orientação, julgamos
ter pertencido a uma época anterior, o que é confirmado por uma outra latrina.

Fig. 3.9. Horta da Misericórdia, Faro: Casa, sector D. A entrada e o telhado derrubado, durante as escavações de 1997/2000.

5. As fotos ilustram estes aspectos: a entrada e os sinais de derrube (Fig. 3.8) e a sala de entrada da
casa e o corredor de acesso à latrina (Fig. 3.9). As paredes eram de taipa. Seguia-se, para Este, uma
outra dependência desta casa (Ab) com cerca de 4,50m x 3,20m de área, possivelmente a zona
de cozinha e outros serviços, de época islâmica, cuja frente dava para um caminho empedrado
e ia prolongar-se em direcção a um poço de diâmetro largo de época posterior, o século XIV/XV.
Esta casa tinha uma certa elasticidade com uma porta à retaguarda que dava para um pátio de
serviço e que acesso à segunda latrina referida atrás.
Fig.3. 10. Horta da Misericórdia, Faro: Casa, sector E, com lareira estruturada e muros de taipa.

6. Na Zona E encontramos, no limite Este da área contígua ao beco do Repouso (antiga rua
das Freiras), os vestígios de uma casa (B) de taipa, com uma lareira estruturada, forrada de
pedra e banco lateral, do século XII/XIII (Fig.3.10). Verificou-se ter sido violentamente destruída
por um terramoto da mesma época, talvez o de 1169, sugerido por El Mrabet (2005). Segue-se,
em direcção a Sul, uma zona muito destruída e sem estruturas lógicas, que se encostava no
seu limite sul com os possíveis vestígios de uma outra casa, cuja soleira de porta, em pedra, se
apresentava como se tratando da entrada de casa com uma certa importância. Aprofundando-
se esta zona, verificamos encontrar-se ali uma série de canalizações romanas e alguns materiais
romanos de loiça comum. Na zona central desta Zona E, deparamos com algumas dependências
de significado obscuro e o acesso, por uma rua empedrada larga, a uma zona onde deveria
encontrar-se uma cisterna, ou poço, de bocal largo já muito destruído. Pareceu-nos que teria
sido posteriormente utilizada como estrumeira. Para esta zona dava também um rego largo de
tijoleira, de uma canalização de escoamento de águas da zona F.

55
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.11. Horta da Misericórdia, Faro: Pátio, sector F, com gargalo de cisterna que foi progressivamente subindo.

7. Na zona F encontrava-se o pátio da cisterna, cujo gargalo parece ter sido sucessivamente
elevado, à medida que o nível das habitações crescia em sua volta (Fig.3.11). Este pátio tinha
várias pedras para lavar roupa in situ sugerindo que se lavaria roupa naquela zona, aproveitando
a água da cisterna e escoando-a directamente para a zona de escoamento ou mesmo estrumeira
atrás referida. No século XVI construiu-se, sobre este pavimento em lajeado do pátio, um silo
tosco de pedra, que vemos à esquerda em primeiro plano. O acesso a esta zona far-se-ia pelo lado
norte, através de uma ruela lateral que passava junto a um lagar de azeite, onde se encontrava
ainda uma roda de moinho de pedra do lagar (Fig.3.12) e por um armazém ligado ao lagar.
Seria assim uma zona pública e funcional, de trabalho e de acesso a toda a cidade. Esta zona
pública ligava a outra com mais habitações privadas e, para Oeste, absorvia a casa do século
XVIII que tínhamos escavado em 1984, enquanto que para Sul, quase encostada às dependências
do Convento da N.ª Senhora da Assunção, se encontrava a casa C. Esta era composta por um
pequeno vestíbulo de entrada, seguido de sala espaçosa, com um chão em tijoleira cuidada e
desenho delicado do século XVI, que referimos atrás.
Fig. 3.12. Horta da Misericórdia, Faro: Lagar de azeite, sector F, com a roda do moinho de azeitonas ainda in situ.

8. Aprofundando mais esta zona, encontramos parte de um pátio em tijoleira de tipo romano,
circundado por bases de colunas, e que julgamos tratar-se de um peristilo. Encontramos também
vestígios de uma casa de época tardo-romana, que se alongaria sob as construções do pátio da
cisterna, atrás referido (Fig. 3.11).

Todos estes trabalhos revelaram-nos ser Faro uma cidade populosa, um pouco compacta demais, como
referimos no primeiro capítulo deste trabalho, activa e empreendedora, utilizando o seu espaço criteriosamente.
Observamos isto pela forma como os seus habitantes foram sempre reutilizando este espaço através dos tempos.
A Horta da Misericórdia fica muito perto da entrada mais vulnerável da cidade, a porta do Arco do Repouso,
a única com fácil acesso exterior, e portanto com uma entrada reforçada.

A medina sobressaía assim a Este sobre uma larga praia onde até ao século XVIII se varavam os barcos que
necessitassem de reparações e cuja fisionomia foi profundamente alterada com a construção da linha do

57
O Algarve e o Magreb
combóio deixando os barcos de ser reparados na praia; o seu acesso pelo exterior deveria, na verdade, ser muito
mais fácil por ali, tendo os seus habitantes sentido a necessidade de construir uma torre albarrã, avançada e
com portas laterais para protecção da entrada da cidade.

Com uma entrada, mesmo assim vulnerável tão perto, os nobres e as pessoas importantes da cidade procuravam
viver em zonas mais resguardadas, para não sofrerem o embate de algum invasor mais ousado. Assim, teriam
escolhido uma zona mais protegida, observando-se que casas mais espaçosas e mais ricas se encontravam no
“Quintal da Judiciária” que examinaremos a seguir. Esta zona ficava relativamente perto da outra entrada
da cidade, o Arco da Vila sendo esta muito mais resguardada, pois dava directamente para o sapal, podendo,
segundo consta, ter tido uma ponte levadiça que fazia a ligação com a terra firme.

Portanto, dentro desta zona da cidade antiga encontramos vestígios de um aglomerado populacional constituído
por casas simples e pequenas. As ruelas eram também estreitas e algumas dependências de utilidade pública
estavam ali localizadas como a cisterna e a sua área de lavagem de roupa, um pequeno lagar e certamente
outras comodidades.

É interessante terem ficado registados nos escombros da cidade os vários terramotos que sabemos a cidade ter
sofrido. Quando procedemos à pequena intervenção, em Novembro de 1984, ficámos admirada por apresentar
um muro forte de alvenaria, que fora violentamente contorcido. Mais tarde encontramos uma moeda de
D. João V sobre este muro e aquela distorção já fazia sentido: tratava-se, certamente, do tremor de terra de
1755. A um nível mais abaixo na estratigrafia, no sector E, observamos que as paredes da casa B, que referimos
atrás, apresentavam traços de uma violenta destruição: tudo desabara e o telhado caíra simplesmente em baixo.
Observando os objectos ali encontrados esta destruição violenta deveria ter sido consequência do terramoto de
1169, referido por El Mrabet (2005), igualmente sentido com violência em Marrocos. Também os terramotos
de 1309 e o de 1353 (Costa et al.  2005, 28), de igual intensidade ao de 1755, ficaram registados na cidade de
Faro, durante os quais as casas, pura e simplesmente, caíram totalmente no chão.

Os estratos romanos observam-se a cerca de seis metros de profundidade, quase junto ao nível freático actual.
Pouco mais se encontrou, para além das canalizações no Sector E e do assomo de um possível peristilo rodeado
de colunas no Sector G, alguma cerâmica e restos de ânforas. É possível que a cisterna detectada no Sector G,
tivesse tido uma origem romana e que teria sido sucessivamente elevada, à medida que o solo também subia
com as destruições que a cidade sofreu. O que é que acontecia? A uma destruição violenta em que as casas
eram totalmente derrubadas, a população alisava o terreno que ficara, aproveitava algumas paredes e materiais
de construção, caso fosse possível, reconstruía as suas casa e a vida continuava.

A evidência arqueológica confirma-nos que a ocupação muçulmana se dá com mais força a partir dos
séculos IX/X, isto é, só a partir destas datas se começam a encontrar materiais islâmicos e muito raramente
em estratos anteriores, o que é compreensível, pois estes materiais eram vestígios de objectos raros e valiosos
e, portanto, seriam resguardados cuidadosamente e por mais tempo. Tal como dissemos no tratamento
histórico, sobre a conquista da Península, e com as informações que nos chegaram sobre a ocupação Árabe
das cidades, esta presença era relativamente escassa, pois sabemos que a rapidez da conquista não lhes
permitiu deixar uma guarnição forte nas cidades para afirmar a sua ocupação. Socorreram-se, sobretudo,
de um pequeno número de Árabes, que deixavam para trás, e, principalmente, da população judia,
desagradada com os Visigodos. Concederam aos que os aceitaram o privilégio de continuarem a sua vida
como a tinham organizado apenas passando a pagar-lhes os impostos. Portanto, as populações continuaram
o seu estilo de vida como até então, sem grandes alterações. É isso precisamente que encontramos aqui,
nestas escavações.
Do século XV/XVI, encontramos os vestígios de uma casa com porta manuelina, com o chão revestido de
tijoleira e o que supomos ter sido uma grande lareira. As estruturas da casa foram aproveitadas para uma
habitação que ali se encontrava, exactamente a dos pais de Pinheiro Rosa 27. Ao mesmo nível, e também com
um certo requinte na tijoleira, encontramos outra casa da mesma época, que talvez tivesse pertencido a um
judeu importante, talvez um médico, pois parecia ter tido uma pequena tabuleta de mármore com o seu nome
na ombreira da porta (Fig.3.13).

Fig. 3.13. Inscrição hebraica.

Os níveis islâmicos foram os que produziram vestígios mais abundantes, tendo sido possível recuperar vários
vasos de cerâmica e outros objectos28, de que apresentamos uma amostragem já a seguir.

A metodologia aplicada nestas escavações foi sempre a mesma:

1. Procedíamos à limpeza da superfície de todo o terreno e marcávamos áreas específicas,


onde iríamos proceder às escavações. Assim delimitávamos as áreas a investigar, que eram
cuidadosamente marcadas no terreno, segundo uma quadrícula de 2m x 2m, em zonas de pelo

27 O acesso ao portão, ali colocado pela Câmara Municipal de Faro, fazia-se também por aqui pelo que não podemos estudar melhor esta
casa sem conhecer quais as decisões definitivas da Câmara Municipal de Faro.

28 A recuperação destes materiais tem vindo a ser realizada pelo Laboratório de Conservação e Restauro da Universidade do Algarve,
continuando-se ainda a trabalhar nos muitos materiais recolhidos nestas escavações. Tal como era ideia dos seus Reitores, estes materiais,
depois de devidamente restaurados, virão a integrar um Museu Didáctico da Universidade.

59
O Algarve e o Magreb
menos 4m x 12m, cujos sectores estavam perfeitamente identificados e registados no caderno
de campo. Deixamos livre um corredor para desenhar a estratigrafia dos sectores e identificar
os estratos. Este corredor foi posteriormente eliminado para um estudo mais completo entre o
Sector E e o Sector F.

2. Seguidamente, procedíamos à escavação da área por camadas artificiais de 10cm, e assim termos
a consciência dos diferentes estratos e muros correspondentes, registando-os de acordo com o
Sector, o quadrado e o estrato e procurando que fragmentos pertencentes aos mesmos vasos fossem
recolhidos juntamente e assim ser mais fácil a reconstituição desses objectos em laboratório.

3. Fragmentos de cerâmica ou objectos altamente significativos teriam, devido à sua


importância, um registo próprio, nos chamados ‘small finds’ ou ‘achados especiais’, com quotas
registadas por teodolito.

4. Todos os Sectores foram igualmente escavados, analisados e registados segundo o mesmo sistema.

5. As diferentes escavações efectuadas neste longo período inicial contaram, nas primeiras
escavações, com equipas essencialmente por voluntariado e com o apoio da Universidade do
Algarve e da Câmara Municipal de Faro29.

Finalmente, gostaríamos de salientar que, no início de todo este longo processo de investigação e de sucessivas
escavações, desde 1984 a 2000, ter sido intenção da Câmara Municipal de Faro aproveitar este espaço para
expandir o Museu Arqueológico instalado no Convento de Nossa Senhora da Assunção, que lhe fica adjacente.
Esta estratégia assume especial importância numa cidade como Faro que, praticamente, não tem para mostrar
ruínas do seu longo passado histórico e as poucas que subsistem não estão valorizadas. Ora, os achados que
pusemos a descoberto poderão ser aproveitados para esse fim, nem que fosse simplesmente para demonstrar
de Faro é uma cidade muito antiga, com um longo passado de mais de 2.500 anos30.

3.1.2 Quintal da Judiciária

As escavações efectuadas no Quintal da Judiciária foram escavações de emergência, isto é, após a Delegação
da Polícia Judiciária de Faro ter adquirido a Sede da antiga Acção Católica, na Rua do Município, com quintal
para a Rua Rasquilho, quis construir uma cela na zona do quintal (Fig. 3.14). Obteve autorização da DGEMN
(Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais) para o fazer e os terrenos do quintal começaram a ser
escavados a buldózer, pondo à vista, como seria de esperar, importantes vestígios de níveis arqueológicos.31

29 Ver, por exemplo os casos das equipas que trabalharam nas escavações da Judiciária e de Alvor

30 Alguns dos dirigentes da cidade tiveram sensibilidade para isso, mas a maioria não. Várias foram as sugestões que apresentaram: o Dr.
Negrão Belo pensou num possível alargamento do museu; o Dr. João Botelheiro, apoiado pelo Arq.º Porfírio Maia, acharam que seria o
espaço ideal para um auditório de Verão; o Sr. Luís Coelho e a Arq.ª Conceição Pinto consideraram que seria o espaço ideal para realojar os
idosos ainda residentes da cidade antiga; para o Dr. José Vitorino, este seria o local ideal para construir um hotel de charme.

31Tendo tido conhecimento do que se passava naquela zona da cidade antiga, consegui que as obras parassem
e me permitissem estudar rapidamente a zona, com o apoio do então Presidente da Câmara Municipal de
Fig.3. 14. Quintal da Judiciária. Aspecto da escavação

O buldózer já escavara várias camadas de ocupação arqueológica pelo que limpamos e escavamos o necessário
para compreender de que vestígios arqueológicos se tratava. A parte mais baixa da escavação do buldózer, junto
à parede exterior traseira do edifício, tinha atingido a ocupação romana tardia que apresentava dois estratos
distintos e sobrepostos, nos quais os então habitantes da cidade sentiram a necessidade de construírem, sobre
o terreno, pavimentos em opus signinum, talvez para melhor o impermeabilizarem, devido à sua extrema
humidade. Observamos que este nível deveria ter tido um ou dois pavimentos com mosaicos, pois recolhemos
grande número de tecelae, também tardias, já de grandes dimensões, a preto e branco, associadas a fragmentos
de terra sigillata africana C e D. Por estas razões, consideramos estar perante um nível de ocupação dos
séculos V/VI e outro nível anterior, dos séculos II/IV. Neste mesmo estrato encontramos um fundo de lareira
com grande quantidade de restos osteológicos e conchas de ostras e amêijoas. 32

Observamos ainda que o nível freático actual estava muito próximo destes pavimentos, a cerca de 1,5m, sendo
cerca de 6m a profundidade máxima naquela zona, o que tornaria as habitações ali muito húmidas. Outra

Faro, Dr. Negrão Belo e do Delegado da Secretaria de Estado da Cultura, Dr. Tomaz Ribas. Esta escavação
foi possível, mais uma vez, com a colaboração de Diana Twist, membro activo da Associação Arqueológica do
Algarve (AAA) e amiga pessoal, do Técnico de Arqueologia, José Cirilo de Sousa Cabecinha, então já contratado
pela Universidade do Algarve, dois trabalhadores da Câmara Municipal de Faro, e vários amigos interessados e
conscientes da importância do local que voluntariamente nos foram ajudar: António Pinheiro Rosa, Luís Mansos
(já falecido), John Twist, Pedro Nuno Costa, Jorge Cabrita e Adriano Jesus.

32 Estes ossos e conchas, restos da alimentação da população de Ossónoba, estão a ser estudados pela Dr.ª R. Dean, investigadora
americana, na Universidade do Algarve.

61
O Algarve e o Magreb
preocupação dos habitantes da cidade foi terem escavado um poço para água e um silo para armazenamento
de víveres, em cada nível de ocupação da cidade. Estas preocupações, este padrão de comportamento, vai ser
constante em todos os estratos de ocupação da cidade: um poço e um silo em cada casa (Fig. 3.15).

Fig. 3.15. Quintal da Judiciária. Fase final da escavação, vendo-se perfeitamente o traço característico de um poço e um silo em
todos os níveis, desde o romano até ao século XVI.

Seguiu-se um estrato islâmico, também com duas camadas de ocupação, com um pavimento em lajeado
largo, constituído por lajes calcárias rectangulares, bem talhadas e grandes que selavam outras ocupações mais
antigas que se encontravam por baixo. Mais uma vez o mesmo comportamento: abriram-se um poço e um silo
para armazenamento. Estes dois níveis islâmicos seriam datáveis do século VIII/IX, mas neste estrato inferior
e mais antigo não encontramos quase cerâmica nenhuma. O outro estrato de ocupação, correspondente aos
séculos de XI a XIII, porventura dos mais ricos e onde se encontraram várias moedas e vestígios de fundição,
é o estrato onde começavam a aparecer algumas cerâmicas vidradas. No poço respectivo encontramos um
candil de bronze, com a forma de cabeça de pássaro (Fig.3.16) atribuível aos séculos X/XI e uma panela
quase inteira, com vidrado no interior e laivos decorativos de vidrado, junto ao gargalo. No estrato seguinte,
correspondente aos séculos XII/XIII encontramos uma ocupação mais tardia com vários fundos de lareira e
imensa cerâmica de vidrado verde (Fig.3.17).

Fig. 3.16. Quintal da Judiciária. Candil de bronze com a forma de cabeça de pássaro.

Finalmente uma ocupação mais tardia ainda, correspondendo aos séculos XIV/XV, apresentava paredes
construídas em pedra dispostas em espinha e cerâmica característica, já com fragmentos de majólica.
Nas camadas superiores, relativas ao século XVI encontramos alguns fragmentos de fina loiça chinesa,
atestando os contactos dos Portugueses com o Oriente, e naturalmente imitações locais, muitas escudelas
medievais, próprias da época.

Torna a observar-se aqui também o desnível, que já se verificava na Rua do Município, com um amuralhado
interior, que rodearia a antiga cidade de Ossónoba, na Idade do Ferro (Júdice Gamito 1990, 19-26)33 A cidade
teria então tido um perímetro mais pequeno, estaria mais rodeada de água e de sapais. As reminiscências
desse passado longínquo ainda prevalecem na toponímia da cidade antiga: essa zona mais alta ainda hoje é
designada por castelo e seria a zona mais interessante de investigar, como sempre temos afirmado. Foi a zona
do forum romano, da Igreja de St.a Maria, da Mesquita, da Sé actual e suas imediações. Ainda hoje é o lugar
mais importante e nobre da cidade antiga. As zonas mais baixas junto às muralhas ou à antiga Fábrica de
Cerveja, são de interesse para o estudo urbano da medina mas nunca terão sido residência de governadores ou
reis da cidade ou da taifa de Ukxûnuba, mais tarde Santa Maria d’al-Harun, pela simples razão de que seriam as

33 Comunicação apresentada nas Jornadas Arqueológicas da Associação dos Arqueólogos Portugueses e intitulada «Contribuição da
Arqueologia para o Estudo da evolução urbana de Faro» onde estes aspectos foram largamente discutidos. Aparentemente, porém, terão
sido ignorados pelos Arqt.ºs Rui Paula e Frederico Paula quando publicaram o seu estudo sobre a cidade de Faro (Paula e Paula, 1993).

63
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.17. Quintal da Judiciária. Estrato da ocupação árabe dos séculos XII/XIII, apresentando um fundo de lareira com grandes
fragmentos de alguidares de vidrado verde.

zonas mais vulneráveis e perigosas da cidade em caso de ataque. O reforço que observamos na porta do Arco do
Repouso e do seu sistema defensivo, só vem confirmar ser aquela a porta e a zona mais vulnerável da cidade, e
qualquer invasão seria sentida com mais força exactamente naquela zona de melhor acessibilidade à cidade.

As datações de rádio carbono que obtivemos nestas escavações revelaram-se de grande interesse pois
confirmaram-nos a grande antiguidade da cidade de Ossónoba. De facto, foi possível obter diferentes amostras
datáveis de 703 a. C., 372 a. C. e de 285 a. C. 34. Atesta-se assim a longevidade de Ossónoba, já conhecida
como tal antes dos Romanos e conservando o seu nome através dos séculos e dos seus diversos ocupantes:
Visigodos, Bizantinos, Árabes. (Júdice Gamito 1991, pp.15‑26 e 1991b, pp.299‑304).

Observamos ainda que teria havido da parte dos Romanos, então habitantes de Ossónoba, no século II/I a C,
a preocupação de secarem aquele espaço até às actuais muralhas, para o tornarem habitável e ganharem uma
maior superfície para a cidade. Fizeram-no enchendo-o com fragmentos de cerâmica, de tijolos, de pedras,
de tudo o que tivessem à mão e também lá encontramos um unguentário Cartaginês intacto, do século III a
C. como vemos claramente na estratigrafia selada que tivemos a oportunidade de estudar (Fig.3.18) sob o tal
lajeado islâmico referido atrás (Júdice Gamito 1990).

34 Datações fornecidas pelo Instituto de Ciências e Energia Nuclear (ICEN):


ICEN 155 2530±130 cal AC -1015/-390 (c. 703 a C)
ICEN 156 2230±40 cal AC - 410/-160 (c. 285 a C)
ICEN 157 2640±50 cal AC-406/-337 (c. 372 a C)
Estas devem ler-se do seguinte modo: a primeira coluna indica o nome do Laboratório e número da amostra; na segunda coluna, indica-se
a datação antes do presente (considerando-se, por convenção, como o presente o ano de 1950 d. C) e a margem de erro (mais ou menos
x anos); finalmente, a terceira coluna indica-nos a correspondência daquela datação com datas mais compreensíveis, cujo resultado se
encontra entre parênteses, depois de aferidas com tabelas e resultados de outros laboratórios.
Fig. 3.18. Quintal da Judiciária. Aspecto da estratigrafia.

A cintura de muralhas, que contornam a zona que viria mais tarde a tornar-se na medina de Faro, terá sido
construída por volta do século II d.C., ou seja, em plena época Romana. Tratou-se de uma decisão tomada
simultaneamente em relação a várias cidades e que já não se justificava por motivos estritamente militares,
pois o Império vivia em plena pax romana, mas sim por motivos que visavam aumentar a imponência e
o prestígio da cidade. Mais tarde, esta cintura de muralhas foi sucessivamente reforçada ou reconstruída,
conforme os ataques que foi sofrendo.

A Norte e Oeste, a medina dava directamente para a Ria Formosa e para o sapal. Desse lado, a cidade estava,
portanto, muito melhor protegida de ataques do exterior, tanto de exércitos que a acometessem por terra como
de inimigos que procurassem abordá‑la de barco, já que, como expliquei no início deste trabalho, a própria
disposição da cidade impedia que se aproximassem das suas muralhas.

3.1.3 Arco da Vila

A nossa intervenção no Arco da Vila foi breve. A Câmara Municipal de Faro tentava valorizar a entrada do
Arco da Vila na cidade antiga (Fig. 3.19), que se apresentava enterrado no nível da rua. Aquela zona foi, assim,
escavada, tendo sido posto a descoberto o nível da entrada e a rua antiga, bem como tendo sido revelada a
existência de um banco de pedra, junto à entrada da cidade. Estes aspectos tornaram o Arco da Vila muito
mais atraente e podemos imaginar a população da cidade, velhotes e crianças, sentados no banco de pedra, a
conversar e a observar quem por ali entrava.

Escavámos também a entrada da porta em arco quebrado da cidade e verificamos que ela dava directamente

65
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.19. Arco da Vila, Faro, depois do restauro e da valorização.

para o sapal, atingindo em breve o nível freático. Nas paredes laterais da porta, verificámos que deveria ter
existido uma ponte levadiça, que assentava nos sulcos escavados na pedra das paredes, e a ligariam a terra.
Ainda hoje é possível observar-se estes pormenores. Encontrámos ainda vários fragmentos de cerâmica de tipo
Romano e alguns fragmentos de terra sigillata itálica do século II d C. Tal confirma a ideia, que já víramos
atrás, a propósito das muralhas, quanto à época mais provável da sua construção.

3.2 Escavações em Silves – interpretação dos dados e sua cronologia

Os trabalhos de investigação arqueológica que realizamos em Silves (Júdice Gamito et al. 1997: 277‑293)
estiveram ligados a uma investigação inicial sobre a conservação da pedra dos monumentos, que realizamos
conjuntamente com a Universidade de Saarland, Saarbrücke, Departamento de Geoquímica, integrado em
1994 num projecto de investigação maior sobre “Processos de Degradação dos Monumentos do Algarve” 35.

35 Projecto financiado conjuntamente Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), do lado Português, e pelo DAAD, pela
parte alemã. Estava então no Departamento de Química da UALG o Prof. G. Wallis, amigo pessoal do Prof. G. Lensch, da Universidade
de Saarland. Foi este último que, em 1992, numa das suas primeiras visitas à Universidade do Algarve, me contactou para iniciarmos este
projecto. A restante equipa era constituída por Kristina Marschall, Universidade de Saarland, Luís Filipe Oliveira e Isabel Alte da Veiga,
ambos da Universidade do Algarve.
Era então um assunto premente em Portugal, o tratamento de monumentos com pedra à vista, que
apresentassem sinais de alterações e desgastes mais ou menos profundos. Resolvemos começar pela Catedral
de Silves, construída no arenito da região, oriundo de uma zona limitada do Algarve, Silves, sendo, portanto,
mais fácil relacionar a construção da catedral e o afloramento de arenito.

O estudo realizado em volta da catedral e a atenção dada à sua construção, sobretudo por se saber que esta
tinha sido implantada sobre a Mesquita Maior de Silves (Garcia Domingues 1997), e ainda a observação de
uns muros que assomavam à superfície e que pensamos estarem relacionados com a mesquita, levaram-nos
a fazer uma sondagem no lado norte da igreja e uma limpeza da cisterna junto à catedral, bem como a área
envolvente da mesma cisterna, intervenções que também abordaremos aqui.

A catedral terá começado a ser construída no final do século XIII, após a conquista da cidade pelos Cristãos em
1242. A Mesquita Maior de Silves encontrar‑se‑ia naquela zona da cidade e terá sido arrasada ou parcialmente
aproveitada para a construção da catedral, continuando a sua construção pelo século XIV (Garcia Domingues
1945; Júdice Gamito et al. 1997). Muito provavelmente, as obras terão começado exactamente pela capela-
mor, a zona mais importante e nobre da construção de uma igreja. É possível que entretanto já tivesse sofrido
grandes destruições com o terramoto de 1353 (Silva Lopes 1848; Oliveira 1986; Costa et al. 2005) e, com maior
relevância com o de 1755, sendo depois reconstruída em grande parte. Mais recentemente sofreu novas obras
de valorização pela Direcção Geral dos Edifícios Monumentos Nacionais (1955). Conservou, da traça original,
a capela-mor e as capelas do cruzeiro, aquelas onde incidiu o nosso trabalho em 1994 e onde se encontram
ainda as siglas dos pedreiros medievais. Ficámos, então, com a impressão de que a zona imediatamente junto
à catedral, no lado norte, poderia esclarecer-nos quanto à existência ou não de vestígios da Mesquita Maior de
Silves. Por outro lado, a Câmara Municipal de Silves estava interessada em valorizar aquela zona e pediu-nos
que escavássemos a cisterna ali perto e a zona ajardinada onde estava inserida.

O projecto que desenvolvemos entre 1997 e 2000/2001 sobre o estudo dos centros históricos de Faro e Silves,
Huelva e Niebla e seus territórios envolventes permitiu-nos estudar a área imediatamente a norte da Catedral
e a cisterna omíada 36, que lhe fica adjacente e a que nos referiremos mais adiante.

3.2.1 O cemitério medieval a Norte da Catedral

A zona circundante à catedral (Fig.3.20) despertou o nosso interesse logo em 1992, no momento em que
procedemos ao projecto de investigação, juntamente com a Universidade de Saarland, em 1994, a que nos
referimos atrás. Observamos a existência de vestígios de muros no lado norte da catedral, onde existia um
pequeno parque automóvel, e mais à frente numa zona ajardinada onde esteve colocada a Cruz de Portugal.
Esta encontra-se agora à entrada Este da cidade de Silves.

A escavação iniciada nesta zona em 2000 revelou-nos a existência de um cemitério cristão, muito à superfície,
a escassos 5cm de profundidade ou mesmo totalmente à superfície. Encontrava-se muito danificado, como
seria de esperar, numa zona de estacionamento de viaturas, ligeiras e pesadas, de turistas que iam visitar o

36 Inicialmente pensámos que a cisterna seria de construção mais recente, isto é, almorávida, (Júdice Gamito 2003) pelo tipo de
construção, semelhante a outras que víramos em Marrocos, mas o estudo posterior, mais pormenorizado, levou-nos à conclusão de que só
poderia ser omíada.

67
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.20. Silves. Panorâmica geral do cemitério medieval, junto à Catedral de Silves, lado Norte.

Fig. 21. Silves. Aspectos da escavação dos enterramentos.


Fig. 22. Silves. Aspectos da escavação dos enterramentos: a sepultura n.º 17.

Centro Histórico de Silves. Tratava-se de um pequeno cemitério, com 17 sepulturas inteiras, muito pobres.
Algumas destas sepulturas apresentavam enterramentos anteriores, cujos ossos tinham sido juntados para
permitirem novo enterramento, formando como que um pequeno “carneiro”. Nada os identificava, mas via-se,
pelo ritual de enterramento, que se tratava de cristãos.37

Os Monumentos Nacionais já tinham escavado a zona quando, em 1955, realizaram obras de consolidação e
impermeabilização das paredes da catedral, pelo que deveriam ter limpado a zona e daí que os enterramentos
estivessem tão à superfície. Alguns esqueletos tinham mesmo perdido os temporais e parte do crânio (Fig.3.21).
A sepultura mais interessante e mostrando um certo estatuto era a n.º 17 (Fig.3.22), que apresentava um
enterramento duplo: um homem, tendo a seus pés o enterramento de uma mulher franzina e com traços
negróides, em posição fetal. O homem deveria ter sofrido um golpe de espada forte que lhe terá alterado
profundamente a cara, não comendo com aquele lado do maxilar. 38 .

O murete que detectáramos mais a Norte poderia estar a delimitar o cemitério. Por vezes o limite de um cemitério
era assinalado com um pequeno muro, para assinalar o fim do mundo dos mortos ou separá-lo do mundo dos
vivos, e parece ter sido esse o caso neste cemitério. Ainda se encontraram enterramentos na zona ajardinada

37 Solicitamos à equipa do Professor Doutor Santinho Cunha, da Faculdade de Medicina, da Universidade de Lisboa, constituída pelos
Dr.s Cecília Casaca e Fernando Rodrigues Ferreira que nos ajudasse no estudo desta pequena necrópole (Fig.3.23), cujos resultados irão ser
publicados nas Actas das Jornadas Arqueológicas de Silves, de 2005.

38 Aspecto que focámos numa comunicação conjunta na Associação dos Arqueólogos Portugueses (T. Júdice Gamito, C. Casaca e F.
Rodrigues Ferreira, 2005).

69
O Algarve e o Magreb

Fig. 23. Silves. Aspectos da escavação dos enterramentos. O Prof. Santinho Cunha (FLUL) e membros da sua equipa
examinando os enterramentos.

mas apareciam sem nexo, espalhados por ali, uns quatro ou cinco. Encontravam-se muito danificados por se
encontrarem à superfície e terem sido constantemente regados, juntamente com a relva do jardim. Talvez se
tratasse de vestígios de enterramentos apressados quando da “pneumónica”, no início do século XX.39

Chegamos assim à conclusão de que se tratava de um cemitério algo heterogéneo, constituído por indivíduos
de diferentes origens. Tal era claro pela sua constituição física, havendo alguns de grande estatura para o
geral da época, 1,85m. Alguns apresentavam ainda ter tido uma considerável longevidade: cerca de 65 anos,
mas a maioria rodava os 35/40 anos, a idade esperada para terem morrido em época medieval. De um modo
geral apresentavam desgastes dentários que sugeriam uma alimentação bastante abrasiva. Ficámos com a
impressão, pela diversidade das características físicas dos indivíduos, que estes poderiam ser oriundos de
diversos lugares: do norte da Europa, do Magreb e mesmo de outras regiões de África; talvez marinheiros
que ali tivessem morrido quando aportaram a Silves. Havia ainda duas crianças de tenra idade junto aos
enterramentos de suas mães. As datações de rádio-carbono obtidas através do Laboratório do ICEN, em
Lisboa, apontam para datas dos séculos XIII e XIV, confirmando a ideia com que ficáramos de que se
tratava de uma espécie de marcação de território pelos cristãos, salientando a santidade do local, onde os
seus mortos foram sepultados.

39 Segundo informação que nos foi facultada pelo actual Prior de Silves. O Sr. Prior visitava-nos com frequência na escavação e, segundo
ele, aqueles enterramentos poderiam ter sido de vítimas da epidemia do princípio do século XX, a “Pneumónica” que causara imensas
vítimas em Silves e durante a qual as pessoas foram enterradas em qualquer zona da cidade onde fosse possível fazê-lo, pois a necessidade
de enterrar os mortos exigia que o fizessem imediatamente.
3.2.2 Escavação da cisterna Omeiída de Silves (Rua do Castelo)

Esta cisterna localiza-se na Rua do Castelo, a cerca de 10m a norte da Catedral de Silves, junto ou em parte
integrada na zona ajardinada que referiremos a seguir 40.

Havia imensas referências feitas por habitantes locais que associavam a cisterna a possíveis passagens secretas que
a ligariam à cripta da Sé, algo muito improvável, uma cisterna ligada a uma cripta. Havia, contudo, que investigar
e esclarecer. Este projecto previa também a limpeza e valorização da cisterna localizada naquele espaço que a
Câmara queria requalificar. Por outro lado, tendo a mesquita estado ali localizada, a possível ligação da cisterna
àquela zona seria natural, uma vez que os fiéis necessitam sempre de água para os seus rituais de purificação. Assim,
partimos do princípio, logo no início das escavações, de que aquela zona deveria estar profundamente associada à
Mesquita, pela sua implantação num local privilegiado da cidade, dominando o morro, e sua proximidade com o
Alcazar de Silves. Também as referências históricas sobre a mesquita de Silves se conjugavam nesta ideia inicial.
Segundo Garcia Domingos (1984) e outros estudiosos de Silves, a mesquita estaria no local onde os Cristãos
construíram a catedral gótica, num gesto frequente de conservarem a religiosidade do local e implantarem nele
a sua própria religião. Gesto aliás frequente em todas as épocas: possivelmente já os Árabes teriam seguido o
mesmo impulso, construindo a mesquita sobre algum templo romano ou visigótico ali anteriormente existente,
de que há também referências e vestígios arqueológicos (Estácio da Veiga 1910)41.

A escavação do seu interior revelou que se tratava, de facto, de uma cisterna relativamente grande, cheia até quase
ao cimo de areias, entulhos e detritos (Fig.3.24) que teriam saído de construções vizinhas, formando como que

Fig. 3.24. Silves. Cisterna omíada de Silves, na Rua do Castelo. Fase inicial da escavação, com a cisterna quase inteiramente
preenchida de entulho.

40 Esta escavação foi possível por a termos integrado no Projecto inter-regional 10/REG-II/96 (que na realidade só teve início em 1997),
intitulado Valorização dos centros históricos e sua integração no território envolvente, e abrangendo as cidades de Faro e Silves, em Portugal, e
de Huelva e Niebla, em Espanha. Estas quatro cidades são interessantes pela identidade da sua localização, características económicas, meio
ambiente e, possivelmente, por ainda outras semelhanças no seu percurso histórico e social.

41 Estácio da Veiga na sua Carta Arqueológica do Algarve – Tempos Históricos, elaborada em 1889 e editada postumamente em 1910, em O
Archeologo Português.

71
O Algarve e o Magreb
concavidades e corredores por onde as crianças se esgueiravam, explorando o mistério da aventura e dando azo a
que essas lendas se consolidassem. Enquanto procedíamos aos trabalhos arqueológicos muitos foram os adultos
que nos vinham falar desses “corredores secretos” que por eles tinham sido explorados quando meninos.

A desobstrução do interior da cisterna indicou-nos que a ideia inicial estaria possivelmente certa mas não
tínhamos paralelos para ela: quer em Espanha, quer em Marrocos e mesmo na Tunísia as cisternas existentes
eram diferentes. Também não tínhamos possibilidade de obter datações precisas: o conteúdo do enchimento
da cisterna continha alguns materiais que sugeriam uma cronologia recuada, século VIII/IX, mas a maioria
seria do século XI/XII e até mais modernas. Não havia materiais orgânicos que permitissem datações absolutas
nem se notava uma estratigrafia evidente, pois todas as terras tinham sido retiradas da zona circundante,
apresentando portanto características de coloração idênticas, facto acrescido por uma humidade constante
que se observava no interior da cisterna.

O tipo de construção apresentava semelhanças com algumas cisternas de Marrocos do período Almorávida e,
dado termos encontrado materiais dessa época, poderiam os outros materiais mais antigos terem sido para ali
arrastados com as terras recolhidas de outro lugar, o que nos levou a sugerir que talvez a cisterna datasse dessa
época (Júdice Gamito 2003). Por outro lado, a coloração interior vermelha escura sugeria também idênticas
cisternas, atribuíveis a esse período.

Neste momento, após as obras de consolidação42 julgamos estar perante uma obra do início da ocupação Árabe da
cidade, pela robustez e características da sua construção, e sem dúvida associada à Mesquita Maior de Silves.

A cisterna apresenta dimensões ligeiramente irregulares, um tudo-nada trapezoidal: 8,42m de comprimento


do lado direito e 8,52m do lado esquerdo, por 3,38m e 3,50m de largura; a altura máxima interior é de 4,50m
e a altura máxima exterior de 5m, tinha uma capacidade de cerca de 133.875 litros.

A irregularidade que apresenta é frequente nestas cisternas como nos diz Bazzana (1999, 373-77). A água
deveria atingir a altura interior máxima de 4m, ficando 0,50m livres até à cúpula. Exteriormente, a cisterna
atinge a altura máxima de 5m, como dissemos, nela incluindo a espessura da cúpula, que tem cerca de 0,30 a
0,50 m. Esta foi construída em pedra afeiçoada da região: os arenitos de Silves. Todas as paredes da cisterna
se encontram revestidas de argamassa, possivelmente em duas ou três camadas sobrepostas, sendo a última
coberta de pintura a cal, misturada com pigmentos de ocre vermelho escuro, óxido de ferro, para uma melhor
qualidade da água como nos salienta igualmente Bazzana (1999, p.373). De facto a cor escura impedia a
penetração da luz e sua expansão no interior da cisterna, mantendo portanto uma menor oxidação da água.
A cúpula apresenta três entradas de ar, um pouco irregulares também, uma mais ou menos ao meio, que
supomos tenha sido aberta para um lançamento de entulhos mais fácil, mais próxima da abertura do lado
norte. As outras duas, situadas em cada extremidade da cisterna, sobre a sua cúpula, teriam servido para um
acesso mais rápido ao interior da cisterna. De salientar o desenho algo irregular apresentado no traçado do
arco da cúpula junto às extremidades, onde também se encontram as aberturas da cisterna para o exterior,
formando um arco desencontrado.

O chão da cisterna é também coberto de tijoleira, formando um desenho em ziguezague perfeito, com a
ampulheta regulamentar junto a um dos seus extremos.

42 Planeadas pela firma OZ Ld.ª e executadas pela firma STAP, dirigidas pelo Engenheiro José Paulo Costa.
Fig. 3.25. Silves. Cisterna omíada de Silves, na Rua do Castelo. Fase final da escavação, depois de removido o entulho que a
preenchia. Vê-se claramente o revestimento interior de tijoleira.

Verificamos, que a cisterna, para além do revestimento interior de tijoleira, apresentava toda uma construção
constituída por paredes fortes em pedra bem aparelhada, sendo toda ela revestida ainda por outra parede de
pedra, com argamassa de cal, mas não tão cuidada. No total, as paredes da cisterna eram triplas. De fora para
dentro temos uma parede forte exterior, com cerca de 0,40m de espessura, que revestia uma outra em pedra
muito bem aparelhada com cerca de 0,60m de espessura e, finalmente, esta era revestida interiormente pela
parede de tijolos, alternadamente fincados e deitados horizontalmente, com cerca de vinte e oito centímetros
de espessura. No total, a cisterna tinha uma parede tripla com cerca de 1,28m de espessura (!).

Esta cisterna, pelas suas características e localização, deveria fazer parte, como afirmamos, do abastecimento de água à
mesquita, destruída pela construção da catedral. As suas dimensões parecem-nos razoáveis para este fim. Possivelmente
seria, quando necessário, constantemente reabastecida pelas águas elevadas e canalizadas do rio Arade.

Trata-se, indubitavelmente, de uma cisterna da época islâmica, muito provavelmente de época omíada, isto é, dos
séculos VIII/IX, muito bem conservada, qual pequena jóia que nos chegou desse passado, não muito longínquo e,
por vezes, quase esquecido da nossa própria História. A sua localização junto à mesquita, sugeria tratar-se de uma
cisterna ligada de facto à antiga mesquita ali localizada e a sua construção cuidada denota a sua importância.

73
O Algarve e o Magreb
A importância da cisterna da rua do Castelo, junto à catedral de Silves, foi confirmada pelo estudo da
zona envolvente, isto é, onde se encontrava o relvado ajardinado a oeste da cisterna. Esta zona confirmou a
existência de grandes armazéns e silos para cereais que certamente datam também da época islâmica e dos
primeiros tempos da ocupação cristã da cidade. Estes silos e armazéns já aparecem mencionados no Livro
do Almoxarifado de Silves, do século XV 43. Devemos salientar o facto de termos detectado a existência de
numerosos silos, que terão sido utilizados em épocas diferentes, pelo que julgamos que, em época islâmica, já
aquela zona teria uma função de armazenamento de víveres, cuja distribuição estaria associada à mesquita e
ao governador da cidade, aspectos que julgamos estarem plenamente justificados e que constituíam uma das
obrigações do senhor para com os seus súbditos. Os tributos pagavam-se em géneros que necessitavam ser
armazenados e redistribuídos quando necessário.

Entre os materiais encontrados no seu interior salientamos três bilhas sem datação definida, vários fragmentos
de cerâmica pintada com laivos a manganês dos séculos XI/XII, um fragmento de tampa de vaso possivelmente
Omeiída, idêntico a um prato ou tampa encontrado em Medina al-Zahra, mas com um camelo desenhado,
com as mesmas cores, pasta e acabamento; ainda um bocal de ferro, com decoração incisa dourada, da mesma
época, e numerosos materiais de construção e utilização diversas.

No final de todos estes anos de investigação e tomando em consideração todas as informações coligidas,
julgamos poder afirmar tratar-se de uma cisterna cuja cronologia se situa por volta dos séculos VIII a IX
tendo a sua utilização se prolongado até ao século XIV, ou mesmo um ou dois séculos mais tarde. O que
consideramos mais importante é o facto de esta cisterna ter mantido as suas características desde aquela
época, exactamente como foi abandonada, e é como que um legado extraordinário, que chegasse até nós
intacto, do nosso passado islâmico.

Tal como Bazzana salienta, o al-djubb, em língua árabe, ou aljibe em castelhano ou aljube em português, é
uma construção normalmente totalmente enterrada, com fortes muros de alvenaria, e em que a superfície
interior é revestida por uma ou várias camadas de argamassa impermeável, o que a tornava verdadeiramente
estanque, pintada no interior com cal, misturada com pigmentos de ocre vermelho escuro. Esta construção
é vulgarmente designada por cisterna (Bazzana 1980; 1999; Bazzana et al. 1988). Pavón Maldonado já tinha
referido este tipo de construções, os aljibes medievais da região de Cáceres (Pavón Maldonado 1967, 1978,
1990). Alegria refere que as cisternas, tão frequentes entre nós até 1950, se construíam junto às casas e a terra
extraída daquela zona iria servir para a taipa utilizada na construção da própria casa. Havia assim um esforço
largamente compensado pelo duplo resultado obtido (Alegria 1990). Em regiões mediterrâneas, em que a
incerteza do clima e das chuvas é uma constante, as populações tinham que obter a água quer através do
abastecimento organizado das mesmas, como vimos na época Romana, quer recorrendo a cisternas particulares
ou poços públicos. Raro existia casa que não tivesse o abastecimento de água garantido com uma cisterna!
A cal era um elemento de purificação indispensável e todas estas cisternas eram revestidas a cal, devendo ser
limpas e novamente caiadas pelo menos de dois em dois anos.

As cisternas campestres, dedicadas a fornecerem água para eventuais culturas ou trabalhos do campo limitavam-
se a recolher a água, estando-lhes associados um ou vários eirados para a sua captação. Estes serviam também
para os trabalhos de adejamento das colheitas de verão, para a necessária separação dos grãos e das palhas e para
a secagem dos frutos, especialidade tão característica e apreciada no Algarve. Interessante que por toda a região
do al-Andalus estas cisternas e suas características se tenham mantido através dos séculos bem como a sua

43 Livro do Almoxarifado de Silves. Edição e comentário de José Garcia Domingues, Silves, Câmara Municipal de Silves, 1984.
utilização com idêntica finalidade. Tanto Bazzana como Cressier se referem a cisternas deste tipo, frequentes
na região de Valência (Bazzana 1980; Bertrand e Cressier 1985), igualmente em Maiorca (Carbonero Gamundi
1992) ou na zona de Cáceres (Pavón Maldonado 1978, 1990), a que acrescentaremos as nossas do Algarve, de
clima mais seco ou de zonas onde as correntes subterrâneas não podiam ser exploradas. Tal o caso de Benagil
(Lagoa), pequeno povoado de pescadores do concelho de Lagoa, alcantilado num vale apertado junto à costa,
onde as captações das águas fluviais se faziam não só através dos telhados como também de grandes eirados
em encosta, escavados na rocha e que gozavam do mesmo tratamento de purificação e limpeza.

As grandes cisternas dos palácios ou das cidades, como é o caso do Alhambra de Granada ou as da Kahsba
de Cáceres ou a do Castelo de Silves, apresentam uma vasta área para armazenamento de água, em salas
sucessivas, cujas cúpulas em abóbada são suportadas por uma sucessão de arcos onde se apoiam. Tal é o
caso que se observa em outras cidades fortificadas como em Manizes, em Paterna ou em Palma de Maiorca.
Por vezes, dadas as suas enormes dimensões, estas cisternas eram alimentadas por canais subterrâneos ou
condutas de água, tal como as de Tunis ou Kairouan (Tunísia).

3.2.3 A escavação e estudo da zona ajardinada.

A zona ajardinada, imediatamente ao lado da cisterna (Fig. 3.26), precisava de ser estudada antes que pudesse
ser sujeita às obras de valorização, que para ali estavam previstas.

Trata-se de uma zona de argilas espessas, idêntica à da cisterna, cujo nível inferior de rocha era constituído por
caliça. A caliça, uma forma de calcário pouco duro, permite a escavação, com muita facilidade, de concavidades
e daí que tivesse sido escolhida para nela se abrirem os silos. Por outro lado a humidade dos barros, conjugada
com a caliça da rocha base iria favorecer os ambientes mais propícios para a conservação dos alimentos:
ligeiramente húmidos e de acesso difícil a roedores.

Procedemos à remoção do relvado de toda a zona e à limpeza de toda a superfície em declive marcando
sobre o terreno uma quadrícula de 2m x 2m. Começamos a decapagem dos estratos de superfície de Sul para
Norte. Deparámos com o silo nº1, pouco depois, onde, após a remoção das terras de superfície que tinham
caído lá para dentro, a cerca de 2m a partir da superfície, se pôde encontrar um pouco de tudo: pedras,
ossos humanos e de animais, terras, restos de plantas, etc. De assinalar ainda o aparecimento de esqueletos
totalmente desordenados, como referimos atrás, sem contexto aparente, e de que desconhecemos a respectiva
datação. Os esqueletos encontravam-se à superfície do jardim, tinham sido constantemente regados e estavam
portanto muito fragilizados.

Apareceu também uma camada de lajes, sob a qual se encontraram numerosos fragmentos de cerâmica, entre
eles a belíssima taça rectangular inteira, para lavagens rituais e de purificação, datável do século XII (Fig. 3.29).

Este e os outros silos foram escavados, uma metade de cada vez, para permitirem a observação e desenho da
estratigrafia interior, processo que foi seguido em todos os outros casos. Nem todos, porém, apresentaram
espólio. A localização destes silos é apresentada no plano geral da escavação (Fig.3.26).

Continuamos a escavação em direcção a Norte e, a pouco e pouco, começamos a observar que muitos outros silos se
delineavam e que foram sucessivamente escavados segundo o mesmo processo: O silo n.º10, com forma mais larga e

75
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.26. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada, perto da cisterna e da catedral. Plano geral da área de escavação: podem ver-
se diversos silos, ao pé da sapata da Cruz de Portugal, a zona de pavimento ao centro, e parte da área da cisterna, em baixo à direita.
alongada, teria sido inicialmente um silo, depois aproveitado para estrumeira e vazamento de águas sujas. As terras
lá dentro apresentavam-se escuras e um tanto malcheirosas, sem que nada de interesse ali se encontrasse.

A seu lado, na quadrícula encontramos um troço da base da Cruz de Portugal, construção extremamente
compacta e dura, que só conseguimos remover com martelo pneumático 44. Deixámos a outra metade do
pedestal do monumento no local, onde ficou para memória da localização da mesma. Logo mais à frente,
na direcção Norte, encontramos o pavimento de um grande armazém, cobrindo os silos indicados no plano
geral da escavação (Fig.3.26), os quais, à medida que baixávamos os níveis da escavação, iam progressivamente
aparecendo (Fig.s 3.27 e 3.38). Estes silos não se apresentavam todos à mesma profundidade, mas encontravam-
se a níveis diferentes. Supomos assim, que teriam sido utilizados também em épocas diferentes. O silo n.º 8,
por exemplo, praticamente só conservava a base, sendo portanto de época mais recente e dando a impressão
de que, com as alterações da zona, tivesse sido cortado. O silo 9 apresentou materiais arqueológicos da época
islâmica, tal como os silos n.ºs 2, 3 e 4 (Fig.3.30); os silos n.ºs 2 e 3, em particular, revelaram algum espólio, ao
contrário dos silos n.ºs 5, 6 e 7, em que nada se encontrou.

Fig. 3.27. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Aspectos de alguns silos.

44 Felizmente tínhamos connosco um grupo de operários da construção civil que nos deram uma ajuda interessada e preciosa para a sua remoção.

77
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.28. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Aspectos de alguns silos.

Fig. 3.29. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Taça de abluções, rectangular, intacta (silo n.º 1).

De salientar ainda termos encontrado um jarro, no interior do silo n.º 9, de forma totalmente distinta das outras
formas de jarros da época em questão (Fig.3.31). Trata-se a meu ver, de uma forma de jarro tardo-romano, que
“sobreviveu” e passou à época seguinte. Quando se quebrou foi lançado para dentro do silo, então já fora de uso.

Na zona localizada no extremo Norte da escavação, encontrámos primeiro um pavimento que cobria toda a
área (Fig. 3.32) e, quando o levantámos, apareceram aqueles muretes que vemos na planta da escavação, que
supomos serviriam para nivelar o pavimento e mantê-lo numa posição horizontal. Na verdade, tratava-se de
grandes armazéns que era necessário nivelar para lá se pudessem arrumar sacos e outros contentores de grãos
ou cereais, ou mesmo líquidos.
Fig. 3.30. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Algumas peças de cerâmica, já restauradas (vários silos).

Fig. 3.31. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Jarro romano tardio (silo n.º 9).

79
O Algarve e o Magreb

Fig.3. 32. Silves. Escavação e estudo da zona ajardinada. Pavimento do grande armazém do Almoxarifado, cobrindo os silos n.ºs 2 e 3.

Julgamos que estes são os armazéns do Almoxarifado de Silves, que se prolongariam mais além na direcção
poente, isto é, sob o pavimento da Rua Direita, em direcção à casa do Dr. Martins, hoje pertença da família,
e que escavações posteriores realizadas na Rua Direita indicam claramente. O trabalho de Garcia Domingues
(1984) conduz-nos a estas conclusões. Esta Rua Direita é ela também de nome assaz conspícuo, pois o seu
nome revela grande antiguidade: é a rua mais importante de uma cidade e que conduz directamente da porta
principal de entrada da cidade ao castelo do governador.

Continuamos ainda a trabalhar nesta escavação, nomeadamente no estudo e na recuperação dos materiais
arqueológicos recolhidos, mas ainda há muito mais a fazer

3.3 Escavações em Alvor:


interpretação dos dados e sua cronologia

A “Vila Velha” de Alvor 45 fica situada sobre um esporão calcário sobranceiro à ria de Alvor, naturalmente
isolado e com acesso dificultado pela própria enseada, frente à Igreja Matriz (Fig. 3.33). Tem uma gruta no
seu interior, acessível apenas aos conhecedores. A norte, está delimitada por um robusto paredão, que dava

45 Efectuamos aqui escavações em 1986, 1987 e 1988. Nestes trabalhos, contámos sempre com o apoio logístico da Câmara Municipal de
Portimão, da Junta de Freguesia de Alvor, da Torralta e da Universidade do Algarve, bem como com alguns subsídios do IPPC (em 1986 e
1988) e da Associação Arqueológica do Algarve (em 1987). Colaboraram nestas escavações, José Cirilo de Sousa Cabecinha, então técnico
de arqueologia da UALG e alguns alunos de Faculdade de Letras de Lisboa, designadamente Pedro Almeida, Alexandra Estorninho, João
Muralha, Jacinta Bugalhão e Luís Almeida, entre outros, e alguns membros da Junta de Freguesia de Alvor. A todos expressamos aqui, mais
uma vez, os nossos agradecimentos.
Fig. 3.33. Alvor. Plano geral da localização da «Vila Velha».

81
O Algarve e o Magreb
directamente sobre o acesso ao antigo porto de Alvor, o qual ainda esteve em uso até ao século XIX e que hoje
faz parte de um sistema de aquacultura.

“Vila Velha” é uma propriedade privada, rodeada de um muro. Situa-se frente à igreja matriz de Alvor e
manteve o topónimo de “vila velha”, indicando que ali teria existido a antiga vila de Alvor. É um bom exemplo
da importância da toponímia como elemento preservador da memória dos sítios.

Para os habitantes da vila era muito mais fácil atravessar o golfo de Alvor de barco para Lagos do que ir
por terra, pois as estradas eram más e perigosas e as pessoas teriam que dar uma grande volta pelo interior
para evitar os meandros dos marismas e pântanos da região. O porto aparece ainda assinalado nos mapas
do século XVII e é bem visível na Carta militar nº 598. A travessia da ria era, portanto, muito mais rápida e
eficaz. Dominando a ria e todo o movimento que aí se processasse, com uma localização ímpar sobre o morro
dominante da baía e sua entrada do mar, encontram-se as ruínas da antiga cidade ibérica de Ipses.

Nas primeiras escavações que efectuamos na “Vila Velha”, Ipses, em 1986, procedemos a duas pequenas
sondagens, junto à encosta sul do morro: a primeira numa área plana que nos pareceu propensa a ter sido
habitada; e a segunda junto a um desnível acentuado que nos pareceu ser devido a uma cintura de muralhas.
Ambos os aspectos se confirmaram. Detectamos dois níveis de ocupação, o mais recente datável dos séculos
III/II a. C. Associados a este último nível de ocupação da Idade do Ferro, encontrámos vários materiais do
século II a. C., como um prato campaniense B, forma 5 de Lamboglia (1953). Imediatamente abaixo deste
nível, encontrou-se um grande fundo de lareira, revelando grande actividade de combustão e de fundição,
junto ao qual se recolheram as duas primeiras moedas de Ipses, de que falaremos adiante, e vários fragmentos
de cerâmica diversa, especialmente ânforas ibéricas dos séculos IV/III, tipo B1, de Maná (1951).

Em 1987, ampliou-se esta área de escavação para sul, com a finalidade de a relacionarmos com a muralha já ali
detectada, e para oeste, para tentar ver como se processava a sua ligação com a área a seguir a esta, e que era
uma natural expansão da fortificação. Aqui detectamos a existência de um possível estrato medieval, associado
a um pavimento de caliça que assentava sobre o derrube de uma casa, possivelmente muçulmana, que ali teria
existido. Neste estrato encontrara-se vestígios de cerâmicas islâmicas de cozinha, pintadas a branco sobre
fundo vermelho ou preto, datáveis dos séculos X e XI, e ainda vidrados verdes e castanhos, datáveis dos séculos
XI e XII. Aprofundámos a zona escavada em 1986 e verificou-se que esta apresentava ainda um estrato de
ocupação anterior, com várias zonas de fornos de fundição que estariam cobertos com um telheiro apoiado em
dois postes centrais, cujos buracos de poste estão perfeitamente visíveis (Fig. 3.34). Encontraram-se também
vestígios de três fornalhas, muita escória e fragmentos de cerâmica, tais como grandes dólios, correspondentes
a um estrato de ocupação dos séculos V/IV a.C.

Em 1988, os trabalhos arqueológicos consistiram em testar algumas das hipóteses formuladas nas campanhas
anteriores e, tanto quanto possível, concretizar algumas ideias sobre o povoado, suas funções, sua cronologia,
quais as principais actividades económicas ali desenvolvidas.

Na falta de quaisquer decisões por parte das entidades competentes quanto ao destino a dar ao local e
tornando-se incerta a finalidade última do estudo arqueológico – se apenas limitado ao estudo histórico
do local, se porventura destinado ao seu aproveitamento didáctico (e turístico), não valia a pena continuar
os trabalhos, até porque era necessário cobrir a escavação quando se terminava a campanha, tornando-
se a expor a área, quando recomeçávamos os trabalhos no ano seguinte. O que nos fora dado a observar
já dava, porém, um bom contributo para a sua compreensão. Verificámos, assim, alguns aspectos muito
interessantes, que passamos a relatar.
Fig. 3.34. Alvor. Escavação da «Vila Velha». Zona das fornalhas, onde se encontraram as moedas, e marcas do postes que
teriam sustentado um telheiro.

Vestígios de ocupação da Primeira e da Segunda Idade do Ferro

As datações de rádio-carbono46 obtidas a partir das duas amostras de carvões recolhidas nos restos de lareira e fundição
atrás referidos, e onde se encontraram as moedas de Ipses indicam-nos datas de 790/680 a.C. e de 380/20 a.C.,
respectivamente, o que nos confirma tratar-se de vestígios de ocupação na Primeira e Segunda Idade do Ferro.

Influência romana na estrutura de Ipses

Ipses fora ocupada por uma população activa que ali se estabeleceu na Primeira Idade do Ferro, mas só se tornou
importante essencialmente na Segunda Idade de Ferro. Trata-se de uma cidade fortificada, um verdadeiro
castro, com recursos diversos e uma situação estratégica de grande importância. Ipses é uma cidade ibérica

46 As datações obtidas foram as seguintes:


ICEN 226 1920±310 cal aC -790/680
ICEN 227 2110±40 cal aC -380/20

83
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.35. Alvor. Estrutura da malha urbana. Os dois grandes eixos, o Cardo e o Decumanus, assinalados a sombreado, são
perfeitamente visíveis, bem como a forma como se desenvolvem as ruas, paralelamente a estes dois eixos. A zona da «Vila
Velha», que dá sobre o antigo porto, está assinalada a sombreado.
que nos mostra ter tido contactos com os romanos mas não tem características romanas na sua construção:
os materiais de superfície, ânforas e alguns fragmentos de cerâmica de terra sigillata, não estão associados a
estruturas e construções romanas.

Os Romanos construíram Alvor, e fizeram dela a sua cidade. Muito provavelmente, terá sido inicialmente
um acampamento romano do século III a. C. Talvez tenha mesmo sido o Portus Hanniballis, onde Aníbal
desembarcou com os seus exércitos na Península Ibérica, algures na costa do Algarve, depois da derrota dos
Cartagineses, no final da 1ª Guerra Púnica, em que perderam a Sicília. A Península tornou-se então no celeiro
indispensável para alimentar os seus exércitos e as populações, tanto na Península como em Cartago; não
encontramos, porém, provas concretas de que Alvor teria sido Portus Hanniballis; talvez futuras escavações e
estudos no local nos ajudem a fazer essa afirmação.

Se observarmos a malha urbana de Alvor ressalta imediatamente a sua construção tipicamente romana: a
cidade desenvolve-se em ruas paralelas e perpendiculares (Fig.3.35), seguindo o desenho romano dos grandes
eixos perpendiculares, o Cardo e o Decumanus. A cidade desenvolve-se paralelamente. No entanto, não
apresenta um forum, nem templos romanos neste cruzamento. Teria sido apenas um acampamento?

As moedas de Ipses

As moedas com a inscrição Ibérica de Ipses, pelo seu contexto são do início do século II a C, quanto muito
do final do século III a C., têm um golfinho associado à inscrição e no verso a esfinge de um guerreiro,
algo asceta, pela magreza com que foi moldado. Deve aqui salientar-se que as moedas estão escritas na
língua do Sudoeste ou de Tartessos e não em latim o que prova que são de origem local e trazem o nome
da cidade ibérica onde foram cunhadas, e que, por isso mesmo, se manteve e não foi transformado; ao
contrário do que já se disse sobre estas moedas, o golfinho não tem nenhum Cupido a cavalgar sobre o
seu dorso; no verso trazem a esfinge de um homem magro e não uma representação do Hércules, já que
este era tradicionalmente representado como um homem forte e com abundante cabelo, qual juba de leão,
identificando-se mesmo com o leão, o que não é o caso.

Fig. 3.36. Alvor. Moedas de Ipses (frente)


Fig. 3.37. Alvor. Moedas de Ipses (verso)

85
O Algarve e o Magreb
Ocupação muçulmana

A ocupação Muçulmana da zona sugere-nos uma população relativamente dispersa. Na “Vila Velha”
encontramos o que nos pareceu restos de uma alcaria com um pavimento de caliça e vários fragmentos de
cerâmicas vidradas e comuns de cozinha. Alvor deveria ser o centro populacional mais importante, sobretudo
se atendermos à existência de, pelo menos, três morabitos, espécie de jazigos onde os restos mortais de homens
santos eram depositados e venerados.

Um dos morabitos mais importantes é, certamente, o que se encontra junto à Igreja Matriz e que lhe serve
de sacristia. Ora, esta igreja é completamente excêntrica em relação a Alvor, ficando, na realidade, fora
da localidade, naquilo que se poderia considerar um arrabalde. Normalmente as Igrejas eram construídas
no centro das cidades e vilas, pelo que faltam argumentos que pudessem explicar esta estranha situação.
Contudo, se se considerar que os morabitos, pela natureza da sua função, se costumam encontrar fora das
localidades, percebe-se melhor a implantação da igreja: a sacralidade do local foi conservada e no mesmo
local construiu-se o templo cristão.

Já o forum, em tempo romano o local central por excelência, não existe em Alvor, o que é algo muito
estranho. Naquilo que se poderia considerar ser o cruzamento dos dois eixos principais da cidade ou muito
perto dele, existe apenas o castelo cristão medieval onde talvez tenha existido o hisn47 muçulmano. A sua
forma não deixa de o sugerir.

O segundo morabito encontra-se frente ao cemitério e foi cristianizado numa capela a S. Pedro; o terceiro,
igualmente cristianizado, é a capela de S. João, e localiza-se na parte mais alta da Rua do Infante D. Henrique,
sobre o porto de Alvor.

A “Vila Velha “ e a própria traça urbana de Alvor são extremamente sugestivas. A cidade é muito antiga, e não
terá sofrido grandes alterações desde a época romana.

O sítio de “Vila Velha” foi sempre cultivado pelo que os vestígios de Ipses não foram muito afectados nem
sofreram grandes danos. O povoado islâmico encontra-se mais para o interior da actual vila de Alvor, num
local onde também se encontraram vestígios de lagaretas de época indeterminada, que terão pertencido a
algum lagar de azeite. A importância estratégica de Alvor na costa do Algarve é indubitável como salienta
Ana Fazenda (2000).

A localização desta importante cidade ibérica e a sua identificação são da maior importância para o
conhecimento da região, seu interesse e actividade regional, bem como o valor estratégico que sempre teve,
fornecendo abrigo seguro a barcos perseguidos por corsários ou em dificuldade no mar. Aparece já referenciado
nos mapas dos séculos XII e XIII (Veríssimo Serrão, 1979. v. I).

A traça de Alvor aparece sempre representada com a regularidade de uma cidade romana, nomeadamente no
mapa de Alexandre Massay de 1621, quando planeou a fortaleza de Alvor.

47 Um hisn é um pequeno castelo ou castelinho com uma entrada estreita e bem protegida que servia para defender um território ou
abrigar alguns elementos da população. Este é idêntico ao de Castelo Belinho (Oliveira 1999) do termo de Silves.
3.4 O Nordeste Algarvio – um projecto etno-arqueológico
Alcaria Queimada vs. Aldeia dos Mouros (Vaqueiros, Alcoutim)

O estudo e o trabalho de campo realizado na Freguesia de Vaqueiros, Alcoutim 48, consistiu num estudo
etno-arqueológico de uma aldeia viva, Alcaria Queimada, e um estudo arqueológico de uma aldeia islâmica
abandonada há muito tempo, a Aldeia dos Mouros. Ambas as aldeias teriam tido o mesmo começo, durante
a ocupação islâmica da região, isto é, dos séculos IX a XII. Alcaria Queimada (Fig.3.38) subsistiu até hoje,
a Aldeia dos Mouros (Fig. 3.39) terá deixado de existir, como povoado vivo, por volta dos séculos XIII/XIV,
mantendo no entanto a lenda de uma moura encantada 49.

Fig. 3.38. Alcaria Queimada.

48 Estudo integrado no projecto O Nordeste Algarvio - Persistência de formas de povoamento e de economia de subsistência, subsidiado pela
então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e pela Comissão de Coordenação da Região do Algarve (CCR
Algarve), e que se realizou de 1988 a 1990. Colaboraram neste projecto Pedro Almeida, Cidália Duarte; nos trabalhos de escavação e de
prospecção de campo, contamos ainda com a colaboração de Richard Lello, da Universidade de Alberta (Canadá), de Olga Maria Teixeira,
do então Instituto Superior de Educação de Faro, e de Luís Miguel Santos Neves, Orlando Lopes Afonso, Maria de Fátima Teixeira e Ruben
André da Silva Martins.

49 Reza a lenda da Moura Encantada que ela é uma mulher linda, que se veste luxuosamente, mas que só é perigosa nas noites de lua cheia,
quando abandona o luxo e conforto em que vive e sai mostrando a sua enorme beleza e atraindo os homens para lhe fazerem companhia.

87
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.39. Aldeia dos Mouros. Aspecto de uma das casas abandonadas, com o chão empedrado e uma lareira ao canto.

A Etno-arqueologia é um método relativamente moderno para o estudo de sociedades passadas e dos vestígios
que estas nos deixaram, método baseado em paralelos etnográficos, em que se assume que deverão existir
correlações entre os comportamentos de sociedades modernas ainda não industrializadas e aqueles de
sociedades semelhantes do passado. Os paralelos etnográficos têm sido usados desde há muito, mas algumas
restrições deverão ser feitas. Não se podem fazer analogias directas entre umas e outras sociedades: não se
pode assumir que comportamentos passados tenham analogias directas em comportamentos actuais, nem a
inversa será também válida. Diferentes causas poderão estar na origem desses comportamentos e as sociedades
poderão estar longe no tempo e no espaço, embora alguns comportamentos sociais possam ser aceites como
possíveis (Binford 1977). No que diz respeito à resposta humana a determinados condicionalismos ambientais,
localização de recursos ou custos de transporte já se aceita que possam ser semelhantes em qualquer período
no tempo (idem). Estudos baseados em simulações têm tido bons resultados (Joquin 1976; Hodder 1978)
Outro recurso na compreensão de sociedades passadas foi-nos facultado pelos relatos de autores clássicos sobre
“os Bárbaros” ou dos relatos dos encontros de exploradores e colonizadores actuais com povos e sociedades
primitivas, fornecendo bons exemplos que poderiam explicar os vestígios encontrados pelos arqueólogos
(Hodder 1982; Gallay 1986; Júdice Gamito 1986; 1988).

Para Alcaria Queimada utilizamos métodos de investigação que normalmente se aplicam em Antropologia,
Etnologia e Etnografia, com o predomínio de métodos de observação, entrevistas, questionários, embora
também tivéssemos aplicado métodos arqueológicos de prospecção de campo na zona da antiga alcaria, e
numa pequena necrópole medieval sem qualquer vestígio humano ou material. Houve a preocupação de
se organizar inquéritos-tipo, baseados em modelos constantes na literatura da especialidade (Cresswell e
Godelier, 1976; Mauss 1972), mas adaptados às circunstâncias presentes.
É interessante a justificação para o nome da aldeia: Alcaria Queimada. Diziam os seus habitantes que a antiga
alcaria tinha ardido e eles tiveram que se deslocar para ali, construído a nova alcaria, guardando, no entanto, a
memória do que acontecera. Na prospecção arqueológica verifiquei que a alcaria queimada era, de facto, uma
alcaria islâmica, com os mesmos parâmetros cronológicos que a Aldeia dos Mouros.

Fig. 3.40. Aldeia dos Mouros. Aspecto das escavações na zona mais antiga (séculos IX/XI).

Fig. 3.41. Aldeia dos Mouros. Aspecto das escavações na zona mais antiga (séculos IX/XI).

89
O Algarve e o Magreb
Esta última apresentava traços de ter sido habitada pelo menos em dois momentos. Primeiramente, do séc.
IX ao XI, teria ocupado uma área muito mais vasta, revelada pelas escavações ali realizadas (Fig.s 3.40 e 3.41).
Mais tarde, pelos séc. XIII a XIV, acabaria por ser abandonada, embora nessa altura já só ocupasse uma área
mais restrita, como o revelam as casas que ali ainda se encontram, com algumas paredes ainda de pé, bem
como os materiais arqueológicos ali recolhidos.

Tendo em vista caracterizar a organização e a evolução social e económica de Alcaria Queimada, consultaram-
se ainda os Registos Paroquiais, conservados na Torre de Tombo50.

Este projecto sobre o Nordeste algarvio procurou analisar formas de organização social e economia de
subsistência. Aqui aplicamos alguns destes métodos que nos ajudaram a compreender a Aldeia dos Mouros e o
uso que fizeram do ambiente onde viveram e a que actividades se dedicaram, complementado com o que nos
foi possível observar em Alcaria Queimada (Júdice Gamito 1990; 1994). Todo este estudo etno-arqueológico
foi completado com outros dados e técnicas aplicadas: prospecção de campo, estudos históricos, geográficos e
geológicos, inquéritos às populações, observação do seu quotidiano e comportamentos sociais, as casas, suas
divisões e a sua função, bem como as escavações propriamente ditas.

O Nordeste Algarvio, embora se encontre integrado na Serra do Cadeirão, corresponde a uma zona muito
específica de quase planalto interior, ligeiramente ondulado, cortado por ribeiras profundas e caudalosas no
Inverno, quase secas no Verão, mas com pegos profundos que facultam a água para homens e animais durante
todo o ano. Não apresenta, porém, aqueles montes encaixados e abruptos que vemos na zona mais ocidental
da serra, aquela cortada pela estrada nacional n.º 2. A água é abundante em toda a serra, o que facilita o
cultivo de pequenas hortas junto às alcarias ou “montes” mas implica também muito trabalho humano na sua
manutenção. É interessante salientar que a maioria destes montes continua a existir, mantendo-se um padrão
de povoamento disperso, mas que tende a desaparecer com o tempo. A agricultura de sequeiro exige um
tempo de pousio das parcas terras de quatro, seis e, às vezes, mais anos e poucas sementes dá em recompensa.
A pastorícia, especialmente ovicaprinos, é um contributo económico mais seguro e um complemento
alimentar sempre disponível. Tecidos de linho e de lã e cobertores eram mais uma achega em tempos difíceis.
A actividade da Serra era contínua e, em cada momento do ano, havia uma tarefa para realizar.

Esta é, sem dúvida, uma região de árduas condições geográficas, de reduzidos recursos económicos e escassa
densidade demográfica. A vida e estas condições ambientais não se alteraram muito através dos séculos e deverão
ter contribuído para uma quase constante exploração do território envolvente a estas pequenas comunidades
humanas, garantindo-lhes regularmente uma economia próxima da de subsistência, com poucos excedentes.

Verificamos ainda que teria havido alguma produção mineira, como provam a sobrevivência de algumas minas
de cobre em Alcaria Queimada e na Cova dos Mouros, perto do monte da Mesquita e não longe da Aldeia
dos Mouros. A extracção de cobre foi, assim, mais um factor económico importante no tempo em que o cobre
tinha mais valor. Este aspecto poderá até ser recuado e talvez o possamos associar à exploração dos recursos
mineiros da Serra, desde a Idade do Cobre, com povoados mineiros de S.ta Justa e da Mestra (Gonçalves 1980a
e 1980b), nas Idades do Bronze e do Ferro, assinalada com as numerosas necrópoles ali detectadas (Estácio da
Veiga 1891; Schubart 1975; Júdice Gamito 1972; 1979; 1988).

Os mercados (Fig. 3.42) tinham também o seu importantíssimo lado social: essenciais nos reencontros, no

50 Este trabalho foi realizado por Pedro Almeida (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).
Fig. 3.42. A feira de Vaqueiros.

estabelecer de laços de amizade, de matrimónio, na aquisição de objectos especiais e a que não tinham acesso
directo nas suas terras. Os excedentes de produção, essencialmente frutos secos, enchidos e animais eram
levados a várias feiras conforme a importância e a quantidade disponível para vender: em Vaqueiros, mercado
mais pequeno mas importantíssimo, onde se adquirirem artigos de primeira necessidade e se convive um
pouco; em Tavira, a feira de Outubro, que é já um mercado muito importante; e, finalmente, a feira de Castro
Verde, que abrange todo o sul do Alentejo e é um importantíssimo mercado, onde tudo se compra e tudo se
vende. Acompanhamos todas estas actividades dos habitantes de Alcaria Queimada e da região de Vaqueiros
e, assim, também fomos a outros pequenos mercados onde costumavam dirigir-se, tal como os mercados de
Pereiro, de Alcoutim e de Aljustrel, embora estes com menos interesse local.

Este projecto permitiu-nos um conhecimento mais aprofundado da região. Observamos que a Serra, apesar de
ser um ambiente duro e difícil, oferecia uma segurança e isolamento apreciáveis: poucos iriam lá incomodá-
los. Talvez por isso mesmo, a Serra nunca deixou de ser habitada.

Os métodos de Etno-arqueologia e de arqueologia utilizados revelaram-se eficazes e revelaram também algo


inédito. Não sendo uma zona rica em recursos económicos, a Serra e o Nordeste permitem a fixação de uma
população dispersa e equilibrada, gerindo o seu ecossistema com moderação: nunca serão muito ricos, mas jamais
serão pobres. Quando este equilíbrio se rompia, as gerações mais jovens sentiam-se na necessidade de emigrar.
De salientar ainda que o padrão de distribuição espacial da população não se alterou desde a época islâmica:
observou-se que a cada povoado ou “monte” actual correspondia um povoado ou alcaria islâmica (Fig. 3.43).

91
O Algarve e o Magreb

Fig. 3.43. Alcaria Queimada e Aldeia dos Mouros, Vaqueiros, Alcoutim. Distribuição geográfica de povoados árabes e aldeias
ou ‘montes’ modernos, paróquia de Vaqueiros.

A distribuição espacial das alcarias islâmicas e dos actuais montes sugerem que se terá dado uma pequena
deslocação intencional da sua localização. A partir dos séculos XIV, mas sobretudo no séc. XV e mesmo no séc.
XVI, as populações locais sentem a necessidade de mostrar que são diferentes, que algo os fez ser diferentes,
embora, no fundo sejam os mesmos.

Em períodos relativamente curtos, a Serra foi até capaz de proporcionar momentos de elevada abundância
de recursos. Os excedentes de produção terão então sido tão importantes que permitiram gerar riqueza
significativa, pelo menos pelos padrões vigentes na altura. Disso são índices seguros as numerosas capelas e
igrejas que foram mandadas edificar, bem como as encomendas de imagens de santos (Lameira e Rodrigues
1985), feitas a artistas de fora da Região, nos séc. XVI a XVIII (Fig. 3.44). Esta prosperidade económica,
eventualmente associada a picos de actividade de extracção mineira, explica, entre outras coisas, a vinda de
gente de fora nos séc. XVI e XVII, sendo de assinalar que os registos paroquiais referem até a existência de
escravos em Alcaria Queimada.

Observou-se que os habitantes dos pequenos “montes” são praticamente auto‑suficientes e que podem,
em caso de necessidade, bastar-se a si próprios de um modo quase completo, manufacturando tudo
o que precisam, excepto o sal; mesmo louças eram fabricadas a curta distância, em Martinlongo. Nas
relações comerciais, privilegiavam, e ainda hoje o fazem, as feiras e mercados de Vaqueiros, Tavira,
Fig. 3.44. Alcaria Queimada: capela de S. Bento. Fig. 3.46. Alcaria Queimada: aquecendo-se junto à lareira, no Inverno.

Castro Verde, Almodôvar e mesmo Faro (Fig.3.45).

Os contactos com Mértola não são hoje frequentes e também não o deveriam ter sido no passado, senão
ter-se-iam mantido. Isso acontece devido a, entre outros factores, a acidentes geográficos: o difícil acesso,
nomeadamente a dificuldade na travessia a Ribeira do Vascão e de Foupana, cujos cursos de água são, durante
todo o ano, barreiras muitas vezes intransponíveis para pessoas e carga (Feio 1983; Ribeiro 1977). Também
factores históricos e políticos dificultam esses contactos, tais como a própria organização das taifas nesta zona
(Herculano s/d; Mattoso 1985, Garcia Domingues 1956).

Não deve ter havido grandes alterações físicas, de hábitos e de costumes das populações da Serra. No entanto,
sentem a necessidade de mostrar que são diferentes: abandonam as antigas alcarias e vão ocupar novas terras,
construindo as suas casas, muito provavelmente com os mesmos materiais e as mesmas formas das suas
antigas casas. Os hábitos e os costumes mantiveram-se, especialmente as casas, sua organização do espaço e
sua função, a gastronomia e os comportamentos sociais, a posição da mulher; estas deverão cobrir a cabeça
com um lenço e manterem-se no recato da casa (Fig. 3.46), aos homens cabem todas as decisões.

A investigação levada a cabo no Nordeste da Serra do Caldeirão, no Algarve, trouxe-nos uma vasta informação
sobre as possibilidades de métodos etno‑arqueológicos que se completam. O estudo nos Arquivos da Torre
do Tombo forneceu ainda uma base de dados históricos complementares e uma visão diacrónica das
populações da Serra.

93
O Algarve e o Magreb

Fig. 45. Principais mercados e feiras frequentados pelos habitantes de Alcaria Queimada.
CONCLUSÃO

95
O Algarve e o Magreb
4. CONCLUSÃO

Procuramos com este trabalho apresentar um breve apontamento sobre a presença Árabe no Algarve, o
que a precedeu e influenciou, e o que a caracterizou. Não podemos deixar de nos maravilhar de como
se deu esse extraordinário acontecimento, que foi o aparecimento de um foco de cultura e civilização,
único no mundo de então, no extremo do ocidente peninsular. Numa Europa rude e violenta, submetida a
grandes tribos germânicas, que quase perdera os contactos com o seu passado de civilização clássica e onde
esta apenas brilhava em Constantinopla e se mantinha no Império Bizantino, o outro foco de civilização
no Ocidente é, indubitavelmente, o da civilização Árabe. Se bem pensarmos, foi através dos Árabes que
recuperamos muito do que perdemos da civilização clássica que dominou o império Romano: as obras dos
autores clássicos voltaram ao nosso conhecimento através das suas traduções árabes; a arte e a arquitectura,
em formas geométricas complexas e colorido requintado; as ciências, em especial a matemática, a geometria,
a medicina, a astronomia e a arte de navegar.

O Magreb, tal como dissemos no início desta reflexão, esteve sempre presente na nossa História, no nosso
quotidiano, nos hábitos e costumes das nossas gentes. As escavações que realizei no Algarve vieram, tão-
somente avivar esta memória quase perdida 51. Marrocos é a natural continuação de Portugal, podemos
meter-nos no carro e horas depois estarmos em Rabat, a travessia do estreito de Gibraltar é apenas um
pequeno passeio de barco. As diferenças que nos distinguem são as mesmas que nos ligam: a Humanidade
é apenas uma.

A criação de um Centro de investigação sobre as Culturas Árabe, Islâmica e Mediterrânea (CCAIMed) é


a consequência natural de toda a actividade aqui desenvolvida, aceite e compreendida pela Universidade
do Algarve e pelos seus sucessivos Reitores, assim como os convénios e protocolos estabelecidos entre
a Universidade do Algarve e as Universidades de Kenitra, de Al‑Jadida ou de Agadir, em Marrocos, ou as
Universidades de Sfax e de Tunis, na Tunísia, e outros que se venham a estabelecer, naturais em todo este
contexto. Não deixarei de lembrar o protocolo de apoio e colaboração estabelecido entre a Fundação Sidi
Mechiche Alami e o Centro de Culturas Árabe, Islâmica e Mediterrânea, aberto a todos os ramos do saber,
assinado em 2005ano (Fig. 4.1) e cujos frutos se vão delineando.

O enquadramento histórico e o breve sumário da actividade arqueológica que desenvolvemos no Algarve aqui
apresentados, procuram dar uma ideia do que fizemos, como fizemos e do que poderemos ainda fazer. As
monografias a publicar brevemente sobre os diferentes sítios arqueológicos que estudamos estão em preparação
não sendo este o local apropriado para o fazer por razões várias. As publicações na especialidade interessam
apenas aos especialistas e tornam-se enfadonhas para o leitor comum. Além disso a enorme quantidade de
materiais recolhidos, o seu estudo pormenorizado e a recuperação e restauro de cerâmicas, vidros e metais vai
levar ainda muito tempo.

Os Árabes e os Berberes que vieram com eles (aqui temos novamente a força do Magreb!) ficaram nesta
região 550 anos e é apenas na segunda metade do século XX, mais concretamente depois dos anos 80, que,
com raras excepções, o trabalho de historiadores e arqueólogos se tem debruçado sobre este largo período de
tempo. A pouco e pouco, fomos tomando conhecimento destes nossos antepassados: com os vestígios que

51 Na consequência de tudo isto ou talvez pelo mero evoluir de toda uma trajectória de vida ou golpe do destino, os contactos com o
Maghreb, especialmente com a Tunísia e Marrocos intensificaram-se. Não esqueço, porém, a circunstância do convite que recebi em 1997
do nosso embaixador em Rabat, Dr. António Valente, e que teve neste sentido um importante papel.
nos deixaram; com a delicadeza da sua poesia e da sua música; com a beleza extraordinária das formas, dos
materiais e das cores da sua arquitectura e da sua arte, por vezes reflectidas apenas em coisas tão simples como
a sua cerâmica. A literatura só agora vai chegando até nós, devido especialmente às dificuldades da língua e da
escrita árabe. A História tem figuras de enorme importância, como Ibn Khaldun, nascido na Tunísia mas de
origens andaluzas; na história da Literatura, Ibn Bassam, de Santarém, é uma figura incontornável.

Aos poucos, essa falha de 550 anos na nossa cultura, esse véu que nos cobria de obscuridade, vai-se abrindo e
revelando, afinal, que somos nós próprios que nos revemos naquelas imagens, naquele viver, naquelas formas.
As várias escavações e projectos em que estive e estou ligada fizeram a sua parte. Aquela primeira Idade Média
distante e obscura vai subindo à superfície e mais não fazemos que ficar cada vez mais maravilhados: são
formas concretas, pessoas como todos nós, gente conhecida, afinal.

Fig. 4.1. Assinatura do protocolo de apoio e colaboração estabelecido entre a Fundação Sidi Mechiche Alami e o Centro de
Culturas Árabe, Islâmica e Mediterrânea (2005).

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O Algarve e o Magreb

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101
O Algarve e o Magreb
CATÁLOGO

Horta da Misericórdia

Outras Cerâmicas
Desenhos Pierre Lewin, Carla Santana, Ana Marques

Judiciária
Desenhos Pierre Lewin, Carla Santana, Ana Marques

Silves
Desenhos Pierre Lewin, Carla Santana, Ana Marques

Alvor
Desenhos Pierre Lewin, Carla Santana, Ana Marques

103
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·84 56
N.º: 72

Tipo e Função: Pequeno jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 72; altura 83; diâmetro base 45 mm.
Morfologia: Lábio boleado; bordo demarcado extrovertido; bojo globular; pé anelar e
fundo plano.
Decoração: Pintada a vermelho escuro com linhas verticais no colo e no bojo linhas
em quadrados
Técnica: Pasta de cor vermelha com poucos elementos não plásticos.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1984; n.º 56 do caderno de
especiais da escavação.

HM·84 85
N.º: 89

Tipo e Função: Fragmento de candelabro, contentor de fogo


Dimensões: Altura 90; largura 56; comp. máx. 141 mm.
Morfologia: Peça de forma indeterminada com orifício de forma circular, tubular e
destacado, na parte superior; no exterior bordo de forma recta em aba.
Decoração: Gravada na parte superior com caracteres islâmicos.
Técnica: Pasta de cor bege com vestígios de combustão na parte superior, junto do
orifício.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1984; n.º 85 do caderno de
especiais da escavação.

HM·84 14

N.º: 90

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Largura 74; altura 50 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhada sob vidrado verde no exterior e com motivos decorativos
imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor bege de textura friável; vidrada a verde e estampilhada no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1984; n.º 14 do caderno de
especiais da escavação.
HM·84 67
N.º: 91

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Largura 70; altura 61 mm.
Morfologia: fragmento de bojo
Decoração: Estampilhada sob vidrado verde no exterior, duas cartelas com motivos
decorativos imperceptíveis, separadas por caneluras.
Técnica: Pasta de cor bege de textura friável; vidrada a verde e estampilhada no
exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1984; n.º 67 do caderno de
especiais da escavação.

HM·?? ??
N.º: 20

Tipo e Função: Alcatruz de Nora, utensílio de extracção de água


Dimensões: Diâmetro boca 132; altura 235; diâmetro base 95 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo ovóide e colo cilíndrico; fundo plano com pequeno
orifício ao centro.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor alaranjada com inúmeros elementos plásticos.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1992; Sup. (Lab. 73).

HM·96 140
N.º: 78

Tipo e Função: Fragmento de almofariz, utensílio de cozinha


Dimensões: Altura 126; largura. 113 mm.
Morfologia: Bordo de secção quadrangular; bojo de forma recta; asa cega bastante
pronunciada e fundo plano.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Peça esculpida em pedra calcária.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1996; n.º 140 do caderno de
especiais da escavação.

105
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 728
N.º: 123

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 48; altura 42 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo com curvatura.
Decoração: Vidrada no exterior a castanho melado e azul em cima da pasta com
motivos decorativos geométricos.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada; vidrada no exterior a castanho melado e azul
do tipo “corda seca parcial”.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 728 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula r, camada 6.

HM·97 275
N.º: 124

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 53; altura 48 mm
Morfologia: Fragmento de bojo com curvatura.
Decoração: Vidrada no exterior a castanho melado e azul e com motivos decorativos
imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada, vidrada com vários óxidos no exterior,
decoração de tipo “corda seca parcial”.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 275 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula d, camadas 1, 2 e 3.

HM·97 728
N.º: 125

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 35; altura 37 mm
Morfologia: Fragmento de bojo levemente curvado.
Decoração: Vidrada em tons de castanho e azul no exterior e decorada com motivos
decorativos geométricos.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada, vidrada no exterior a castanho melada e azul,
decoração de tipo “corda seca parcial”.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 728 do caderno de
especiais da escavação, sector f, estrato 1, quadrícula r, camada 6.
HM·97 447
N.º: 19

Tipo e Função: Jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 86; altura 203; diâmetro base 120 mm.
Morfologia: Bordo boleado, colo cilíndrico com caneluras; bojo globular com duas
caneluras; base troncocónica; asa vertical de secção em forma de “D” com caneluras
longitudinais no exterior.
Decoração: Vidrada a castanho melado no interior e parcialmente no exterior,
deixando a parte do fundo do bojo e a base sem vidrado.
Técnica: Pasta de cor bege clara, vidrada de ambos os lados de cor castanha melada.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 447, Lab. 166.

HM·?? ??
N.º: 21

Tipo e Função: Conta de colar, objecto de adorno


Dimensões: Largura 27; altura 7 mm.
Morfologia: Peça circular em forma de bolacha com orifício ao centro, bordo boleado
e com círculos vincados na parte superior.
Decoração: Esculpida e vincada com círculos na superfície superior e orifício ao centro.
Técnica: Peça esculpida em marfim.
Cronologia: Séc. IX/X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro, do caderno de especiais da
escavação.

HM·?? ??
N.º: 47

Tipo e Função: Cossoiro, instrumento de tecelagem


Dimensões: Largura 34; altura 12 mm.
Morfologia: Peça em forma de cone com orifício ao centro, círculos esculpidos em
torno da base e do orifício na parte superior; base plana com círculos esculpidos.
Decoração: Peça com círculos esculpidos na parte superior e na base.
Técnica: Peça esculpida em osso de tom acastanhado.
Cronologia: Séc. X/XI (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro, do caderno de especiais da
escavação.

107
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·?? ??
N.º: 49

Tipo e Função: Cossoiro, instrumento de tecelagem


Dimensões: Largura 23 ; altura 24 mm.
Morfologia: Peça esculpida em osso de forma cilíndrica arredondada na parte
superior, com orifício de forma oval ao centro e base plana.
Decoração: Esculpida com orifício ao centro e círculos junto da base e no topo perto
do orifício.
Técnica: Peça esculpida em osso de tom bege claro.
Cronologia: Séc. X/XI (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro, do caderno de especiais da
escavação.

HM·?? ??
N.º: 51

Tipo e Função: Fragmento de colar ou brinco, objecto de adorno


Dimensões: Largura máxima 5; altura 32 mm.
Morfologia: Peça esculpida com caneluras, formas redondas e circulares espaçadas ao
longo de um cilindro.
Decoração: Esculpida com caneluras, bolas, e formas cilíndricas circulares integradas
num tubo.
Técnica: Peça esculpida em marfim de tom bege claro.
Cronologia: Séc. IX/X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro, do caderno de especiais
da escavação.

HM·97 940
N.º: 58

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 133; largura 162 mm.
Morfologia: Fragmento do arranque da asa.
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, com três cartelas decorativas separadas
por caneluras com encanastrado, de cima para baixo, palmetas, arcos polilobulados e
outros motivos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor cinzenta no cerne e de cor alaranjada na superfície interna, de
textura friável coberta de vidrado verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 940 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula h, camadas 4 e 5 NE.
HM·97 468
N.º: 59

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 110; largura 165 mm.
Morfologia: Fragmento do ombro.
Decoração: Estampilhado e vidrado a verde, linhas verticais com pequenas flores
dispostas entre as linhas e junto das caneluras que separam os motivos decorativos.
Técnica: Pasta de cor alaranjada de textura friável, vidrada a verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 468 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato quadrícula e.

HM·97 193
N.º: 60

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 95; largura 84 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhado, decorado com motivos entrelaçados separados por uma
canelura e uma cercadura com motivos ondulados, seguidos de uma cartela com
estrelas de oito pontas.
Técnica: Pasta de cor bege muito clara e de textura friável.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 193 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato sup. quadrícula g.

HM·97 551
N.º: 61

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 93; largura 63 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, três caneluras com encanastrado,
feito a roleta, que separam as duas cartelas decorativas, a de cima com motivos
imperceptíveis e a de baixo com palmetas.
Técnica: Pasta de cor alaranjada de textura friável, vidrada a verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 551 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 9.

109
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 823
N.º: 62

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 113; largura 174 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, com duas caneluras que separam entre
si as cartelas decorativas, a superior decorada com palmetas e a inferior imperceptível
devido a estar incompleta.
Técnica: Pasta de cor vermelha alaranjada de textura friável, vestígios de vidrado
verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 823 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula d, camada 4.

HM·97 253
N.º: 65

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 42; largura 38 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, cartela com motivos geométricos no seu
conjunto, separados por uma canelura.
Técnica: Pasta de cor bege clara de textura friável, estampilhada, vidrado verde no
exterior muito gasto.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 253 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula c, camada 2.

HM·97 258
N.º: 66

Tipo e Função: Dado, peça de jogo


Dimensões: Altura 12; largura 12 mm.
Morfologia: Cubo de arestas vivas, com pontos gravadas em cada um dos lados.
Decoração: Pequenos pontos esculpidos nos lados, que expressam os números de um
a seis
Técnica: Peça esculpida em osso, de tom bege e com pontos vincados em cada um
dos lados do cubo.
Cronologia: Séc. IX/X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 258 do caderno de
especiais da escavação.
HM·97 199
N.º: 67

Tipo e Função: Pequeno dado, peça de jogo


Dimensões: Altura 6; largura 6 mm.
Morfologia: Cubo de arestas vivas, com pontos gravadas em cada um dos lados.
Decoração: Pequenos pontos esculpidos que representam os números de um a seis
Técnica: Peça esculpida em osso, de tom bege, com pequenos pontos vincados em
cada um dos lados do cubo.
Cronologia: Séc. IX/X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 199 do caderno de
especiais.

HM·97 105a
N.º: 68

Tipo e Função: Fragmento de torre de roca, instrumento de tecelagem


Dimensões: Altura 44; largura 18 mm.
Morfologia: Fragmento esculpido em marfim levemente abaulado com motivos
decorativos esculpidos no exterior.
Decoração: Peça esculpida em marfim com círculos, pontos e caneluras esculpidos
no exterior.
Técnica: Fragmento esculpido em marfim de tom bege acastanhado.
Cronologia: Séc. IX/X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 105ª do caderno de
especiais da escavação.

HM·97 503a
N.º: 128

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Largura 53; altura 80 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo boleado levemente extrovertido.
Decoração: Vidrada de ambos os lados, com motivos decorativos geométricos em
tons de branco, verde e castanho no interior e o exterior vidrado a branco.
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada no exterior a branco e no interior decorada
com vários óxidos de tipo “corda seca”.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 503ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula m, camada 7.

111
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 201a
N.º: 129

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Largura 43; altura 47 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo boleado ligeiramente mais fino e extrovertido.
Decoração: Vidrada de ambos os lados, no exterior a branco e no interior com motivos
decorativos geométricos em tons de branco, verde e castanho do tipo “corda seca”..
Técnica: Pasta de cor bege amarelada, vidrada no exterior a branco e no interior com
óxidos de estanho, de cobre e castanho melado.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 201ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula h, camada 4.

HM·97 904a
N.º: 130

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 40; altura 55 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo da parte da carena.
Decoração: Vidrada de ambos os lados, no interior a branco, azul turquesa,
castanho melado e negro com motivos geométricos imperceptíveis e no exterior a
castanho melado.
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada com óxidos de várias cores no interior e no
exterior a castanho melado, decoração de tipo “corda seca”.
Cronologia: Séc. XII/XIII (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 904ª do caderno
de especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula r, camada 2.

HM·97 555a
N.º: 79

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 69; largura 93 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo da parte superior perto do bordo.
Decoração: Estampilhada no exterior, duas cartelas com motivos decorativos
imperceptíveis, separadas por caneluras e com pingos de vidrado verde no interior e
exterior.
Técnica: Pasta de cor bege rosada de textura friável; estampilhada no exterior e com
pingos de vidrado verde.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 555ª do caderno de
especiais da escavação.
HM·97 795a
N.º: 80

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 99; largura 87 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhada sob vidrado verde no exterior e com duas cartelas de
motivos decorativos separadas por caneluras, seguidos por escrita árabe.
Técnica: Pasta de cor bege de textura friável; vidrada a verde e estampilhada no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 795ª do caderno de
especiais da escavação.

HM·97 728
N.º: 81

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 93; largura 57 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhada sob vidrado verde no exterior, tendo na parte superior uma
cartela com motivos decorativos geométricos, separada por uma canelura da restante
parte, a qual apresenta estrias.
Técnica: Pasta de cor bege de textura friável; vidrada a verde e estampilhada no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 728 do caderno de
especiais da escavação.

HM·97 837
N.º: 88

Tipo e Função: Fragmento de molde, artefacto metalúrgico


Dimensões: Altura 111; largura 54 mm.
Morfologia: Fragmento de molde em xisto de forma rectangular e com desenhos
insculpidos na parte superior.
Decoração: Haste vertical com ramificações diagonais que terminam em cículos;
molde para prata e jóias (filigrana).
Técnica: inscultura sobre pedra.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 837 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula g, camada 1.

113
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 840
N.º: 92

Tipo e Função: Panela, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 202; altura 137; largura 200 mm.
Morfologia: Bordo extrovertido, diferenciado do bojo por inflexão em cotovelo; bojo
globular e asas verticais em forma de “L” invertido.
Decoração: Parcialmente vidrado a verde no interior.
Técnica: Pasta de cor bege escura com bastantes vestígios de combustão no exterior e
parcialmente vidrada a verde no interior.
Cronologia: Séc.
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 840 do caderno de
especiais da escavação.

HM·97 A99
N.º: 93

Tipo e Função: Pequeno panela, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 92; altura 104; diâmetro base 66 mm.
Morfologia: Bordo boleado envasado e demarcado; bojo de forma globular e asa
vertical de secção em forma de “D”.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha com inúmeros vestígios de combustão na parte exterior.
Cronologia: Séc.
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 411 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula f, camada 6 (Lab. 159).

HM·97 496
N.º: 94

Tipo e Função: Pequeno jarro, louça de mesa.


Dimensões: Diâmetro boca 59; altura 87; diâmetro base 31 mm.
Morfologia: Lábio boleado; colo alto levemente extrovertido e demarcado por
canelura; bojo bitroncocónico; fundo plano.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha escura coberta de engobe escuro no exterior.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 496 do caderno de
especiais da escavação; sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 6, (Lab.158).
HM·97 397
N.º: 95

Tipo e Função: Pequeno jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 59; altura 82; diâmetro base 36 mm.
Morfologia: Lábio boleado com ressalto; colo alto bem demarcado, levemente
extrovertido; bojo globular; asa vertical de secção em forma de “D” e fundo plano.
Decoração: Sulco horizontal na parte do bojo.
Técnica: Pasta de cor vermelha escura coberta de ambos os lados de engobe negro.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 397 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 4 (Lab. 157).

HM·97 451
N.º: 116

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 220; altura 78; diâmetro base 76 mm.
Morfologia: Bordo boleado com sulco na parte interior e extrovertido; bojo com
ressalto e caneluras no exterior; pé de forma anelar e fundo convexo.
Decoração: Vidrado a castanho melado de ambos os lados.
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada a castanho melado de ambos os lados.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 451 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 5 (Lab. 178).

HM·97 817
N.º: 117

Tipo e Função: Fragmento de base, louça de mesa


Dimensões: Altura 62; largura 110 mm.
Morfologia: Bojo de forma curva ligeiramente introvertida com pé anelar e fundo
convexo.
Decoração: Pintada no interior com cercadura de motivos geométricos, vidrada de
ambos os lados.
Técnica: Vidrado de ambos os lados com motivos geométricos pintados no interior.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 817 do caderno de
especiais da escavação.

115
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 906a
N.º: 119

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Altura 58; largura 94 mm.
Morfologia: Bojo de forma globular.
Decoração: Pintada de cor vermelha no exterior com motivos vegetalistas.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada, pintada no exterior a vermelho com motivos
vegetalistas.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 906ª do caderno
de especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula r, camada 2.

HM·97 728
N.º: 126

Tipo e Função: Fragmento de bojo louça de mesa


Dimensões: Altura 42; largura 34 mm.
Morfologia: Bojo com leve curvatura.
Decoração: Pintada no exterior a azul com motivos decorativos imperceptíveis , tipo
de decoração vidrada “corda seca parcial”.
Técnica: Pasta de cor beige amarelada , com decoração vidrada a azul no exterior.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 728 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula r, camada 6.

HM·97 580
N.º: 106

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 142; altura 59; diâmetro base 65 mm.
Morfologia: Bordo boleado ligeiramente extrovertido; bojo com carena; pé anelar
com fundo externo convexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor beige rosada coberta de vidrado branco, a óxido de estanho.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 580 do caderno de
especiais da escavação; sector F, estrato 1, quadrícula l, camada 8N.
HM·97 201
N.º: 107

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 131; altura 59; diâmetro base 50 mm.
Morfologia: Bordo boleado recto; paredes carenadas; duas pegas verticais em forma
de “T”, onduladas e sobressaídas na parte superior; fundo conexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor beige amarelada coberta de vidrado branco, de estanho.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 201 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula h, camada 4.

HM·97 690
N.º: 127

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Altura 43; largura 69 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo levemente encurvado.
Decoração: Vidrada no interior com motivos decorativos imperceptíveis, em tons de
azul, branco, castanho melado e verde e vidrada no exterior a branco.
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada de ambos os lados e em especial no
interior com várias cores de tipo “ corda seca”.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 690 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula g, camada 1.

HM·97 395
N.º: 134

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 140; altura 61; diâmetro base 60 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo carenado ligeiramente extrovertido; pé anelar com
fundo convexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor bege, vidrada a branco a óxido de estanho.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 395 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 4.

117
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 393
N.º: 139

Tipo e Função: Fragmento de prato, louça de mesa


Dimensões: Altura 39; largura 199, diâmetro base 50 mm.
Morfologia: Fragmento de prato raso de forma aberta, bordo boleado levemente
extrovertido; bojo de forma simples mais espesso na extremidade inferior; fundo de
forma convexa.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada vidrada a branco e a óxido de estanho de
ambos os lados.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 393 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 4.

HM·97 924a
N.º: 136

Tipo e Função: Fragmento de prato, louça de mesa


Dimensões: Altura 35; largura 177 mm.
Morfologia: Bordo boleado com leve ranhura no interior; bojo de forma simples
aberta com leve depressão no interior na parte central; fundo de forma convexa.
Decoração: Pintada a manganês sobre fundo branco com motivos decorativos
imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor beige coberta de vidrado branco de óxido de estanho de ambos
os lados e pintada a negro no interior.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 924ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 2, quadrícula g, camada 4 (Lab. 171).

HM·97 591
N.º: 109

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 126; altura 63; diâmetro base 51 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo carenado levemente extrovertido; pé de forma
anelar com fundo convexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor beige rosada vidrada a branco, de ambos os lados, e a óxido de
estanho.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 591 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrículas a’ b’ a b, camada 7.
HM·97 313
N.º: 138

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 194; altura 81; diâmetro base 80 mm.
Morfologia: Bordo boleado levemente extrovertido; bojo carenado com suave
curvatura; pé de forma anelar com fundo externo convexo.
Decoração: sem decoração
Técnica: Pasta de cor cinzenta e alaranjada, coberta de vidrado castanho esverdeado
de ambos os lados.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 313 do caderno de
escavações.

HM·97 578
N.º: 140

Tipo e Função: Alguidar, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 262; altura 92; diâmetro base 193 mm.
Morfologia: Bordo de forma recta em aba, bojo levemente extrovertido com
caneluras e fundo plano com algumas irregularidades.
Decoração: Incisões feitas à roleta na parte superior do bordo.
Técnica: Pasta de cor vermelha, bem depurada e engobada de ambos os lados.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 576 do caderno de
especiais da escavação.

HM·97 563
N.º: 29

Tipo e Função: Panela, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 140; altura 218; diâmetro base 120 mm.
Morfologia: Bordo em aba, bojo globular, duas asas verticais com caneluras verticais
de secção em forma de “D”, base plana.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha com alguns elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 563 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula m, camada 8 (Lab. 175).

119
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 447a
N.º: 30

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 144; altura 59; diâmetro base 62 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo de paredes rectas com carena que termina no
bordo; pé de forma anelar; fundo convexo.
Decoração: Vidrada metade a óxido de estanho e metade a óxido de cobre (verde).
Técnica: Pasta de cor alaranjada, vidrada a óxido de estanho e de cobre.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 447b do caderno
de especiais, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 5 (Lab. 138).

HM·97 716a
N.º: 31

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 139; altura 57; diâmetro base 42 mm.
Morfologia: Bordo boleado, bojo de paredes rectas com carena que se prolonga até ao
bordo, base anelar com fundo convexo.
Decoração: Vidrada no interior, metade a óxido de estanho e metade a óxido de
cobre, portanto branca e verde de tipo tunisino.
Técnica: Pasta de cor bege clara vidrada a óxido de estanho e de cobre.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 716ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula r, camada 5 (Lab. 137).

HM·97 643
N.º: 38

Tipo e Função: Candeia, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 80; altura 30; diâmetro base 54 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo de câmara aberta com bico; base plana e fundo côncavo.
Decoração: Vidrada a castanho.
Técnica: Pasta de cor vermelha, vidrada de ambos os lados a castanho.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 643 e 655 do
caderno de especiais da escavação, sector E, estrato 2, quadrícula a, camadas 2 e 3
(Lab. 154).
HM·97 671
N.º: 39

Tipo e Função: Candeia, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 80; altura 30; diâmetro base 60 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo de câmara aberta com bico; base plana.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha escura com poucos elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 671 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 2, quadrícula a, camada 5 (Lab. 155).

HM·97 376
N.º: 40

Tipo e Função: Candeia, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 78; altura 33; diâmetro base 55 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo de câmara aberta com bico; base ligeiramente convexa.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor cinzenta escura com poucos elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação de da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 376 do caderno
de especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula e, camada 4 (Lab. 153).

HM·97 303
N.º: 42

Tipo e Função: Pequena candeia, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 54; altura 22; diâmetro base 31 mm.
Morfologia: Candeia de câmara aberta com bico; fundo convexo; bordo boleado.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor cinzenta escura com poucos elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 303 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula d, camada 3 (Lab. 152).

121
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·97 667 490


N.º: 48

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa (Paterna Manises)


Dimensões: Diâmetro boca 133; altura 52; diâmetro base 52 mm.
Morfologia: Bordo boleado recto; bojo de perfil curvo; base de forma circular e fundo
côncavo; duas pegas horizontais ao nível do bordo de forma ondulada.
Decoração: Pintada a castanho de ambos os lados sobre fundo branco, no interior
formando dois padrões geométricos complexos e diferentes, compostos por reticulado,
linhas verticais, horizontais, e pontos, no exterior com semicírculos entrelaçados.
Técnica: Pasta de cor beige clara, vidrada de brilho metálico de ambos os lados e
pintada com motivos geométricos complexos a castanho dourado.
Cronologia: Séc. XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 490 e 667 do
caderno de especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula h, camadas 3, 4 e 5

HM·?? ??
N.º: 52

Tipo e Função: Almofariz, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 118; altura 120; diâmetro base 102 mm.
Morfologia: Bordo recto envasado; bojo troncocónico; base plana.
Decoração: Vestígios de pingos de vidrado verde no exterior, possivelmente devido à
proximidade de outra peça vidrada durante a cozedura.
Técnica: Pasta de cor beige clara com pingos de vidrado verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 481 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula c, camadas 3, 4 e 5 (Lab. 172).

HM·97 957
N.º: 57

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 148; largura 173 mm.
Morfologia: Fragmento do arranque da asa.
Decoração: Estampilhada sob vidrado verde, três cartelas decorativas separadas por
caneluras, de cima para baixo, um padrão geométrico de losangos, escrita árabe com
arcos polilobulados e o arranque da asa encontra-se situado ao centro.
Técnica: Pasta de cor beige acastanhada, de textura friável coberta de vidrado verde
no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 957, sector F,
estrato 2, material do silo.
HM·?? ??
N.º: 8

Tipo e Função: Jarro de grande elegância, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro do pé 118; altura do pé 27; altura total 280 mm.
Morfologia: Pé em forma de pedestal; bojo de forma redonda hemisférica com
colo alto extrovertido na parte superior; bordo boleado extrovertido. Asa vertical de
secção oval no exterior e plana no interior com ligeiras caneluras longitudinais.
Decoração: Vidrado verde azulado no interior e exterior.
Técnica: Pasta de cor beige clara vidrada a verde azulado.
Cronologia: Séc. X
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1998, n.º 1100 do caderno
de especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula j, camada 12.

HM·98 1042
N.º: 121

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 55; largura 70 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhada no exterior com motivos decorativos geométricos de forma
oval e linhas paralelas horizontais.
Técnica: Pasta de cor beige alaranjada de textura friável.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1998; n.º 1042 do caderno
de especiais da escavação.

HM·98 1037
N.º: 122

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 84; largura 59 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Estampilhada no exterior com duas cartelas decorativas separadas por
uma canelura, de cima para baixo, podemos ver motivos geométricos e palmetas.
Técnica: Pasta de cor alaranjada de textura friável.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1998; n.º 1037 do caderno
de especiais da escavação; sector f, estrato 1, quadrícula b, camadas 1, 2 e 3 N.

123
Horta da Misericórdia

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

HM·99 1063
N.º: 50

Tipo e Função: Torre de roca, instrumento de tecelagem


Dimensões: Altura 92; largura 25 mm.
Morfologia: Peça esculpida com dois pés na parte inferior, de linhas rectas de
forma troncocónica invertida separada por caneluras; colo cilíndrico com caneluras
agrupadas em conjuntos de três, espaçadas entre si.
Decoração: Esculpida com caneluras, círculos e linhas em zig-zag.
Técnica: Peça esculpida em osso de tom acastanhado.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1999; n.º 1063 do caderno
de especiais da escavação.

HM·?? ??
N.º: 34

Tipo e Função: Copo, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 85; altura 176; diâmetro base 66 mm.
Morfologia: Bordo triangular; bojo cilíndrico com canelura junto do bordo; base
plana; asa vertical de secção oval.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha enegrecida cozida em atmosfera redutora; inúmeros
elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1999; n.º 967, sector E,
estrato 6 poço 35cm.

HM·?? ??
N.º: 10

Tipo e Função: Panela, louça de cozinha.


Dimensões: Diâmetro boca 163; altura 243; diâmetro base 147 mm.
Morfologia: Base convexa; bojo de forma redonda oval; bordo vertical demarcado,
boleado e com ranhura. Asas verticais de secção plana com caneluras longitudinais
do lado exterior.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 2000; n.ºs 1731 e 1779 do
caderno de especiais da escavação, sector F, estratos 3 e 4, quadrícula o, camadas 1, 2,
3 e 7 (Lab. 188).
Horta da Misericórdia Outras Cerâmicas

HM·97 519a
N.º: 96

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Largura 45; altura 58 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo boleado levemente introvertido.
Decoração: Pintada a azul sobre fundo branco, com cercadura de folhas no exterior
ladeada por traços paralelos em torno do bordo, seguido de motivos florais, no
interior, com linhas horizontais paralelas.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada em tons de azul de ambos os lados
com motivos vegetalistas, florais e geométricos.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 519ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, quadrículas c e f, poço.

HM·97 372a
N.º: 97

Tipo e Função: Fragmento de bojo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Largura 30; altura 28 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo com suave curvatura.
Decoração: Pintada com motivos figurativos humanos em tons de azul sobre fundo
branco no exterior.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, decorada no exterior com motivos
figurativos em tons de azul.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 372ª do caderno
de especiais da escavação.

HM·97 238
N.º: 98

Tipo e Função: Fragmento de base em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Largura 39; altura 14 mm
Morfologia: Fragmento de base com pé anelar e fundo externo convexo.
Decoração: Pintada no interior e no exterior, sobre fundo branco, com linhas
horizontais paralelas de cor azul.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, decorada de ambos os lados com motivos
geométricos.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 238 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula l.

125
Outras Cerâmicas

O Algarve e o Magreb
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·97 381a
N.º: 99

Tipo e Função: Fragmento de bojo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Largura 21; altura 13 mm
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Pintada no interior e exterior a azul sobre fundo branco com motivos
decorativos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada a azul com motivos decorativos
imperceptíveis de ambos os lados.
Cronologia: Séc. XVII/XVIII (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 381ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., camada 2.

HM·?? ??
N.º: 84

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 18; altura 22 mm
Morfologia: Fragmento de bojo.
Decoração: Pintada no interior com óxidos de cor azul e laranja sobre fundo branco e
com motivos decorativos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor bege clara; vidrada de ambos os lados, pintada com óxidos no
interior e branca no exterior.
Cronologia: Séc. XVI/XVII (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 493 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula h, estratos 3, 4 e 5.

HM·?? ??
N.º: 85

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Largura 32; altura 29 mm
Morfologia: Fragmento de bordo boleado, mais espesso na parte inferior.
Decoração: Vidrada de ambos os lados a branco, no interior com padrão quadriculado
de cor castanho melado pintado por cima de linhas médias horizontais e verticais de
cor azul; exterior com linhas horizontais de cor castanho melado, (Paterna Manises).
Técnica: Pasta de cor bege clara; vidrada a branco de ambos os lados e pintada no
interior e no exterior com motivos geométricos em tons de azul e castanho melado.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 466 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula f, camada 5.
HM·97 531
N.º: 118

Tipo e Função: Fragmento de gargalo, louça de mesa


Dimensões: Largura 60; altura 65 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo extrovertido e ondulado e com caneluras no exterior.
Decoração: Incisões e incrustações em quartzo, camada de engobe cor-de-laranja,
no exterior; motivos decorativos geométricos em conjuntos de linhas paralelas na
diagonal, cruzadas entre si, e pequenos orifícios na parte superior.
Técnica: Pasta de cor vermelha com uma camada de engobe cor-de-laranja no
exterior, decorada com motivos geométricos feitos por meio de incisões e com
incrustações e pequenos orifícios.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 531 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 8.

HM·97 238
N.º: 105

Tipo e Função: Fragmento de bordo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Largura 26; altura 41 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo boleado levemente extrovertido.
Decoração: Pintada no exterior com uma cercadura de motivos geométricos junto do
bordo em tons de azul
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada a azul no exterior com cercadura de
motivos geométricos.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 238 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula l.

HM·97 209
N.º: 106

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Largura 22; altura 21 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo com leve curva.
Decoração: Pintada no exterior em tons de azul sob fundo branco com motivos de
animais (pássaro).
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada no exterior em tons de azul sob
fundo branco.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 209 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula i.

127
Outras Cerâmicas

O Algarve e o Magreb
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·97 255
N.º: 82

Tipo e Função: Fragmento de asa, louça de mesa


Dimensões: Altura 31; largura 45 mm.
Morfologia: Fragmento de asa horizontal de forma triangular.
Decoração: Pintada em tons de castanho sobre fundo branco, de ambos os lados,
com motivos decorativos imperceptíveis no interior e na asa e com linhas horizontais
no exterior.
Técnica: Pasta de cor bege rosada vidrada a branco e pintada em tons de castanho de
ambos os lados, técnica decorativa de tipo “Paterna-Manises”.
Cronologia: Séc. XIV/XV (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 61ª do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato sup., quadrícula e.

HM·97 255
N.º: 83

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Altura 35; largura 33 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo boleado levemente introvertido.
Decoração: Vidrada de ambos os lados a branco, pintada no interior em tons de azul
claro e castanho com motivos decorativos imperceptíveis, no exterior com linhas
horizontais, longitudinais, e em zig-zag em castanho.
Técnica: Pasta de cor bege, vidrada e pintada de ambos os lados, decorada com
motivos decorativos imperceptíveis, técnica decorativa de tipo “Paterna-Manises”.
Cronologia: Séc. XIV/XV (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 255 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula l, camadas 3 e 4.

HM·97 24
N.º: 86

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Altura 18; largura 33 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo com curvatura e com ressalto.
Decoração: Pintada com motivos geométricos e flores, sobre fundo branco, em tons
de castanho e azul no interior e no exterior a branco.
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada de ambos os lados a branco e pintada no
interior em tons de castanho e azul, técnica decorativa de tipo “Paterna-Manises”.
Cronologia: Séc. XIV/XV (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 24 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula c.
HM·97 493
N.º: 87

Tipo e Função: Fragmento de base, louça de mesa


Dimensões: Altura 14; largura 34 mm.
Morfologia: Fragmento de base de forma anelar.
Decoração: Pintada no interior, sobre fundo branco, com motivos decorativos
geométricos.
Técnica: Pasta de cor bege clara, vidrada a branco de ambos os lados e pintada no
interior em tons de azul e cor-de-laranja, (Majólica).
Cronologia: Séc. XIV/XV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 493 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato 1, quadrícula h, camadas 3, 4 e 5.

HM·97 485a
N.º: 112

Tipo e Função: Fragmento de bojo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 23; largura 19 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo com ligeira curvatura.
Decoração: Pintada no exterior em tons de azul com motivos vegetalistas sobre
fundo branco.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, decorada com motivos vegetalistas em tons
de azul sobre fundo branco.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 485ª do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula g, camada 6.

HM·97 450
N.º: 113

Tipo e Função: Fragmento de bordo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 22; largura 45 mm.
Morfologia: Bordo boleado ligeiramente introvertido.
Decoração: Pintada em tons de azul acinzentado sobre fundo branco, de ambos
os lados. No exterior com cercadura de formas circulares e no interior com
caracteres chineses.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada pintada de ambos os lados em tons de azul
acinzentado com motivos decorativos geométricos e caracteres chineses.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 450 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 5.

129
Outras Cerâmicas

O Algarve e o Magreb
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·97 285a
N.º: 114

Tipo e Função: Fragmento de bordo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 30; largura 34 mm.
Morfologia: Bordo boleado que remata parede ligeiramente extrovertida.
Decoração: Pintada em tons de azul sob fundo branco de ambos os lados. No interior
com cercadura de motivos vegetalistas junto do bordo e no exterior com motivos
decorativos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada de ambos os lados em tons de azul
com motivos decorativos vegetalistas.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 285ª do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula f, camada 2.

HM·97 292a
N.º: 115

Tipo e Função: Fragmento de bojo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 30; largura 34 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo ligeiramente curvado.
Decoração: Pintada no exterior a azul escuro, com motivos decorativos
imperceptíveis e no interior com linha horizontal.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada em tons de azul de ambos os lados.
Cronologia: Séc. XVIII/XIX
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 292 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula b’, camada 3.

HM·97 792a
N.º: 120

Tipo e Função: Fragmento de base, louça de mesa


Dimensões: Altura 48; largura 93 mm.
Morfologia: Bojo de forma curva com pé em forma de pedestal e fundo convexo.
Decoração: Vidrada a branco de ambos os lados e com linhas circulares no interior.
Técnica: Pasta de cor bege, vidrada a branco de ambos os lados.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 792ª do caderno
de especiais da escavação.
HM·97 381a
N.º: 100

Tipo e Função: Fragmento de bojo, louça de mesa


Dimensões: Altura 28; largura 15 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo de cerâmica levemente curvo.
Decoração: Pintada no interior e exterior sobre fundo branco, em tons de azul.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada de ambos os lados em tons de azul.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 381ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., camada 2.

HM·97 381a
N.º: 101

Tipo e Função: Fragmento de bordo, louça de mesa


Dimensões: Altura 28; largura 14 mm.
Morfologia: Fragmento de bordo apontado de lábio boleado.
Decoração: Pintada sobre fundo branco, de ambos os lados em tons de azul, com
motivos decorativos geométricos.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada em tons de azul de ambos os lados.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 381ª do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., camada 2.

HM·97 238
N.º: 102

Tipo e Função: Fragmento de bojo em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 26; largura 24 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo ligeiramente curvo.
Decoração: Pintada no interior a azul e cor-de-laranja sobre fundo branco com
motivos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada no interior em tons de
azul e cor-de-laranja.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 238 do caderno de
especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula l.

131
Outras Cerâmicas

O Algarve e o Magreb
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·97 678a
N.º: 103

Tipo e Função: Fragmento de base em porcelana, louça de mesa


Dimensões: Altura 8; largura 28 mm.
Morfologia: Fragmento de base de pé anelar .
Decoração: Pintada no interior em tons de azul com cercadura de motivos
decorativos imperceptíveis.
Técnica: Pasta de cor branca vitrificada, pintada no interior em tons de azul.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 678ª do caderno
de especiais da escavação, sector F, estrato sup., quadrícula r.

HM·97 591·234·292
N.º: 132

Tipo e Função: Fragmento de tigela , louça de mesa


Dimensões: Altura 74; largura 82 mm.
Morfologia: Fragmento composto por pé anelar com fundo externo convexo e bojo
carenado.
Decoração: Pintada no interior sobre fundo branco em tons de azul com linhas
paralelas circulares em torno da parte central da tigela, delimitando os motivos
vegetalistas centrais.
Técnica: Pasta de cor beige amarelada, pintada sobre fundo branco no interior com
motivos geométricos e vegetalistas em tons de azul e vidrada a óxido de chumbo.
Cronologia: Séc. XV/XVI
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 234, 292 e 591 do
caderno de especiais da escavação, sector E, estratos 1, quadrículas b’ e a camadas 3 e 4.

HM·97 350·591
N.º: 134

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 140; altura 61; diâmetro base 60 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo carenado ligeiramente extrovertido; pé anelar com
fundo convexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor bege, vidrada a branco a óxido de estanho.
Cronologia: Séc. XIII/XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 395 do caderno de
especiais da escavação, sector E, estrato 1, quadrícula h, camada 4.
HM·95 447·322a·152·537
N.º: 135

Tipo e Função: Escudela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 115; altura 32; diâmetro base 43 mm.
Morfologia: Bordo em aba de lábio boleado; bojo de forma curva e base plana em
forma de bolacha.
Decoração: Pintada a azul e negro, no interior, com motivos geométricos em
conjuntos de linhas verticais separadas por traços na horizontal, em torno das abas
do bordo, medalhão central com motivos vegetalistas.
Técnica: Pasta de cor bege clara, vidrada de ambos os lados a branco e decorada no
interior a azul e negro.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 152, 322ª e 537 do
caderno de especiais da escavação, sector E, estratos sup. E 1, quadrícula h, camada 3.

HM·97 234a·31·288
N.º: 110

Tipo e Função: Fragmento de prato, louça de mesa


Dimensões: Altura 33; largura 105; diâmetro base 92 mm.
Morfologia: Bordo boleado em aba, extrovertido e com leve ranhura no interior; bojo
de forma curva; pé em forma de bolacha com fundo convexo.
Decoração: Pintado no interior com motivos geométricos em tons de verde, azul, amarelo,
negro e laranja sobre fundo branco e no exterior com linhas horizontais de cor verde.
Técnica: Pasta de cor beige clara, pintada no interior e no exterior sobre fundo
branco, vidrado no interior bastante danificado tornando os motivos geométricos
decorativos imperceptíveis.
Cronologia: Séc. XIV/XV (?)
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 31, 234ª, 288 e
298 do caderno de especiais da escavação.

HM·97 591
N.º: 111

Tipo e Função: Fragmento de base, louça de mesa


Dimensões: Altura 29; largura 67; diâmetro base 64 mm.
Morfologia: Fragmento de base em forma de bolacha com fundo convexo.
Decoração: Pintada no interior em tons de azul com motivos vegetalistas sobre
fundo branco.
Técnica: Pasta de cor beige, pintada no interior sobre fundo branco e vidrada de
ambos os lados.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 591 do caderno de
especiais da escavação.

133
Outras Cerâmicas

O Algarve e o Magreb
Horta da Misericórdia
O Algarve e o Magreb

HM·97 300·332
N.º: 137

Tipo e Função: Fragmento de tigela, louça de mesa


Dimensões: Altura 37; largura 240 mm.
Morfologia: Bordo boleado extrovertido com leve ranhura no interior; bojo de
curvatura simples com canelura.
Decoração: Pintada no interior com tons de azul sobre fundo branco azulado, com
linhas horizontais paralelas em torno do bordo e motivos vegetalistas no interior.
Técnica: Pasta de cor beige coberta de vidrado branco, pintada no interior em tons
de azul com motivos geométricos e vegetalistas.
Cronologia: Séc. XV/XVI
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 300 e 332 do caderno
de especiais da escavação, sector E, estratos 1, quadrículas b e b’ e camadas 3 e 4.

HM·97 234·135·235
N.º: 77

Tipo e Função: Fragmento de prato, louça de mesa


Dimensões: Altura 66; largura 158 mm.
Morfologia: Fragmento de prato em faiança majólica, bordo boleado, extrovertido e
com inflexão.
Decoração: Pintada sobre fundo branco com cores vivas em tons de amarelo e azul,
cercadura composta por linhas longitudinais paralelas ao bordo e no centro do prato
motivo figurativo que se assemelha a uma cabeça feminina.
Técnica: Pasta de cor branca, vidrada de ambos os lados e pintada com óxidos no
interior sobre fundo branco.
Cronologia: Séc. XIV/XV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 135, 234, 235 do
caderno de especiais da escavação.

HM·97 97a
N.º: 108

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 488; altura 190; diâmetro base 168 mm.
Morfologia: Bordo boleado demarcado e extrovertido, bojo de forma circular com
leve carena, pé anelar com fundo convexo.
Decoração: Fragmento de tigela de louça clara, imitando louça chinesa, pintada no
interior com motivos vegetalistas em tons de azul sobre fundo branco leitoso
Técnica: Pasta de cor bege clara, vidrada de ambos os lados e pintada no interior em
tons de azul.
Cronologia: Séc. XV/XVI
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.º 97ª do caderno de
especiais da escavação.
HM·97 473·453·457·385·383
N.º: 53

Tipo e Função: Pequeno jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 75; altura 147; diâmetro base 75 mm.
Morfologia: Bordo boleado levemente extrovertido e bico pouco acentuado; bojo globular;
pé em forma de bolacha; fundo plano; asa vertical ondulada de secção em forma de “D”.
Decoração: Vidrado a óxido de estanho no interior e no exterior (até mais de meio), pintado
a azul no exterior com linhas horizontais e motivos florais; pinceladas rápidas na asa.
Técnica: Pasta de cor beige clara vidrada a óxido de estanho no interior e
parcialmente no exterior; pintada a azul com motivos florais.
Cronologia: Séc. XIV
Procedência: Escavação da Horta da Misericórdia – Faro 1997; n.ºs 383, 385, 453 e
520 do caderno de especiais da escavação, sectores E e F, estrato 1, quadrícula g,
camada 4 (Lab. 139).

135
Judiciária

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 4

Tipo e Função: Candil, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro base 52; altura 75; diâmetro boca 39 mm.
Morfologia: Base plana; câmara bitroncocónica com bico de paredes rectas em forma
de canoa; bocal extrovertido e com inflexão, visivelmente mais largo na extremidade;
lábio boleado. Asa vertical de secção quase circular.
Decoração: Traços oblíquos, pontos e traços em forma de “V” vidrados a verde.
Técnica: Pasta de cor beige acinzentada com decoração vidrada a verde.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação de Judiciária - Faro – 1987; n.º 254 e 554 do caderno de
especiais da escavação, sector D – 23 – D 4 (Lab. 176).

N.º: 17

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 250; altura 72; diâmetro base 100 mm.
Morfologia: Bordo boleado ligeiramente envasado, perfil curvo, pé anelar com fundo
levemente convexo.
Decoração: No interior traços a óxido de manganês formando círculos secantes ou
fitomórficos.
Técnica: Pasta de cor bege rosada coberta totalmente de vidrado melado e com
traços de óxido de manganês no interior.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; N.º 311 do caderno de especiais da
escavação, silo 1.

N.º: 18

Tipo e Função: Tigela carenada, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 265; altura 85; diâmetro base 110 mm.
Morfologia: Bordo boleado envasado, carena levemente introvertida com caneluras
junto do bordo, pé anelar com fundo convexo.
Decoração: Pintada com traços a óxido de manganês no centro interior de formas
circulares fitomórficos.
Técnica: Pasta de cor alaranjada totalmente coberta por vidrado castanho esverdeado
com traços no centro interior a óxido de manganês.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 311 e 356 do caderno de
especiais da escavação, sector A1 - D – silo 1 (Lab. 34).
N.º: 23

Tipo e Função: Jarrinha, louça de cozinha de ir ao fogo


Dimensões: Diâmetro boca 110; altura 134; diâmetro base 85 mm.
Morfologia: Bordo em bisel; colo carenado levemente introvertido; bojo bitroncocónico;
duas asas verticais de secção oval com caneluras; base levemente convexa.
Decoração: Pintada no exterior a engobe branco com linhas horizontais, verticais
e onduladas agrupadas em conjuntos de três e nas asas com pinceladas rápidas na
horizontal agrupadas em três.
Técnica: Pasta de cor vermelha e exterior pintado a engobe branco com motivos
geométricos.
Cronologia: Séc. X
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 418 do caderno de especiais,
sector A’– Poço (Lab. 20).

N.º: 24

Tipo e Função: Jarrinha, louça de cozinha de ir ao fogo


Dimensões: Diâmetro boca 98; altura 114; diâmetro base 64 mm.
Morfologia: Bordo boleado; colo carenado levemente introvertido separado por
colarinho; bojo bitroncocónico de onde partem duas asas verticais onduladas de
secção oval com canelura no exterior; base ligeiramente convexa.
Decoração: Pintada no exterior a engobe branco com linhas horizontais e verticais e
nas asas com linhas verticais.
Técnica: Pasta de cor vermelha, pintada no exterior com motivos geométricos a
engobe branco.
Cronologia: Séc. X
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 312 e 355 do caderno de
especiais da escavação, sector D – silo 1 (Lab.19).

N.º: 26

Tipo e Função: Pequeno cântaro, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 95; altura 260; diâmetro base 95 mm.
Morfologia: Bordo triangular; colo troncocónico com duas caneluras, bojo
troncocónico invertido com caneluras; base convexa; duas asas verticais de secção em
forma de “D”.
Decoração: Pintada com traços a óxido de ferro no colo e bojo em forma de lágrimas.
Técnica: Pasta de cor beige clara, decorada com traços a óxido de ferro.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 443 do caderno de especiais,
sector D - silo 2.

137
Judiciária

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 28

Tipo e Função: Pequeno prato, louça de cozinha de ir ao fogo


Dimensões: Diâmetro boca 145; altura 45; diâmetro base 95 mm.
Morfologia: Bordo boleado introvertido, bojo recto com curvatura junto do bordo,
base plana.
Decoração: Pintada no interior a engobe branco com traços horizontais e verticais.
Técnica: Pasta de cor vermelha com decorações pintadas no interior a engobe branco.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 446 do caderno de especiais da
escavação, sector D – silo 2.

N.º: 32

Tipo e Função: Copo, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 72; altura 118; diâmetro base 64 mm.
Morfologia: Bordo triangular, bojo de forma cilíndrica com caneluras junto do
bordo, base plana demarcada, asa vertical de secção em forma de “D”.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha com inúmeros elementos não plásticos.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 440 do caderno de especiais da
escavação, sector C - 3 (Lab. 3).

N.º: 33

Tipo e Função: Copo, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 70; altura 121; diâmetro base 55 mm.
Morfologia: Bordo boleado com colarinho, bojo cilíndrico com caneluras junto do
bordo, base demarcada ligeiramente convexa, asa vertical com caneluras verticais e
de secção em forma de “D”.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha com alguns elementos não plásticos.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; C - 22 – D 2 (Lab. 54).
N.º: 35

Tipo e Função: Púcaro, louça de cozinha de ir ao fogo


Dimensões: Diâmetro boca 72; altura 105; diâmetro base 60 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo bitroncocónico com canelura junto do bordo; fundo
levemente convexo; arranque de asa.
Decoração: Pintada no exterior com engobe branco com linhas em zig-zag no bojo.
Técnica: Pasta de cor vermelha decorada no exterior a engobe branco.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987;. nº 312 e 125 do caderno de
especiais da escavação, sector A’ – 3 silo (Lab. 21).

N.º: 36

Tipo e Função: Candil, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 155; altura 67; diâmetro base 30 mm.
Morfologia: Câmara bitroncocónica; bocal de bordo boleado levemente envasado;
asa vertical de secção em forma de “D” com leves caneluras; bico de paredes rectas;
base de fundo recto irregular.
Decoração: Pintada com dois traços no exterior a óxido de cobre.
Técnica: Pasta de cor bege acinzentada decorada a óxido de cobre.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 539 do caderno de especiais da
escavação, sector A – Poço 4 (Lab. 28).

N.º:37

Tipo e Função: Candil, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 80; altura 30; diâmetro base 54 mm.
Morfologia: Câmara bitroncocónica; bocal com bordo boleado levemente envasado;
bico de paredes rectas; asa vertical de secção em forma de “D”; base recta irregular.
Decoração: Vidrado a castanho esverdeado.
Técnica: Pasta de cor bege clara, vidrada a castanho esverdeado.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 420 do caderno de especiais da
escavação, sector A1 – Poço (Lab. 36).

139
Judiciária

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 41

Tipo e Função: Candeia, contentor de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 88; altura 25; diâmetro base 67 mm.
Morfologia: Bordo boleado; bojo de câmara aberta com bico; base plana.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha com poucos elementos não plásticos.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 27 do caderno de especiais da
escavação, sector C – 21 (Lab. 45).

N.º: 43

Tipo e Função: Candeia de bronze, contentor de fogo


Dimensões: Largura 137; altura 106; diâmetro base 42 mm.
Morfologia: Pé em forma de pedestal; câmara hemisférica com quatro respiradores
na parte superior e um respirador na parte inferior; bico em forma de bico de pato;
asa vertical virada para cima com argola junto da câmara e no cimo uma flor de lis
estilizada.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Moldada em bronze.
Cronologia: Séc. X/XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 445 do caderno de especiais da
escavação, sector D – silo 2 (Lab. 37).

N.º: 45

Tipo e Função: Molde, artefacto metalúrgico


Dimensões: Altura 68; largura 76; espessura 10 mm.
Morfologia: Molde de fundição em cerâmica com vestígios de combustão.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha escura com marcas evidentes de combustão.
Cronologia: Séc. X/XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 29 do caderno de especiais da
escavação, sector C – 2’ (Lab. 58).
N.º: 44

Tipo e Função: Cadinho, artefacto metalúrgico


Dimensões: Diâmetro boca 56; altura 55; diâmetro base 32 mm.
Morfologia: Bordo em bisel introvertido com bico; bojo troncocónico; base plana
irregular.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Recipiente para fundição de prata, moedas ou jóias.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 213 do caderno de especiais da
escavação, sector C – 2 (Lab. 57).

N.º: 46

Tipo e Função: Jarrinha, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 95; altura 133; diâmetro base 80 mm.
Morfologia: Bordo boleado levemente extrovertido, bojo globular, colo cilíndrico,
base plana irregular, asa vertical de secção em forma de “D”.
Decoração: Vidrada a verde no interior e no exterior no colo, bojo e asa.
Técnica: Pasta de cor bege clara com engobe de tom alaranjado e vidrada a verde no
interior e algumas áreas do exterior.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 617 do caderno de especiais da
escavação, sector A’ – D – Poço (Lab. 1).

N.º: 54

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 270; altura 610; diâmetro base 102 mm.
Morfologia: Bordo boleado com sobarba; bojo de perfil curvo; pé de forma anelar
com moldura exterior; fundo plano.
Decoração: Vidrada no exterior a castanho e no interior a óxido de estanho com
motivos fitomórficos em forma de grandes pétalas.
Técnica: Pasta de cor bege rosada; decoração tipo “verde e manganês”, vidrada a
castanho no exterior e no interior a óxido de estanho e com decorações fitomórficas.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 252 do caderno de especiais da
escavação, sector D - 2 (Lab. 122).

141
Judiciária

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 55

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 295; altura 72; diâmetro base 193 mm.
Morfologia: Bordo boleado triangular introvertido; bojo com curvatura suave com
ranhura junto do bordo; fundo plano irregular.
Decoração: Pintada a engobe branco no interior e no bordo com linhas verticais e
círculos.
Técnica: Pasta de cor vermelha, brunida no interior e decorada com motivos
geométricos a engobe branco.
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; D - silo 1 (Lab. 24).

N.º: 56

Tipo e Função: Cântaro, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 110; altura 403; diâmetro base mm.
Morfologia: Bordo em aba envasado; gargalo troncocónico invertido, levemente
introvertido com canelura; bojo ovóide; duas asas verticais de secção com depressão
longitudinal.
Decoração: Pintada no exterior a engobe branco com formas ovais e linhas verticais,
horizontais e em zig-zag no bojo, gargalo e asas, sempre em conjuntos de três.
Técnica: Pasta de cor vermelha, decorada com formas ovais e linhas.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.ºs 125, 262, 273 e 312 do caderno
de especiais, sector A1 – 3 – silo (Lab. 74).

N.º: 73

Tipo e Função: Pequeno jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 103; altura 146; diâmetro base 79 mm.
Morfologia: Bordo boleado extrovertido com canelura no lado externo; bojo de curva
simples; asa vertical de secção oval com caneluras e fundo plano.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor castanha escura, com vestígios de combustão no exterior
Cronologia: —
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987, sector E – 3 (Lab. 16).
N.º: 75

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 171; altura 69; diâmetro base 70 mm.
Morfologia: Bordo recto envasado em aba e com pequenos altos de excesso de
vidrado num dos lados; bojo de forma simples curva; pé anelar com fundo convexo.
Decoração: Vidrada no interior a bege esverdeado e no exterior a verde com algumas
manchas de cor castanha melada devido a pontos de contacto na altura da cozedura
Técnica: Pasta de cor vermelha escura, vidrada a dois tons, bege esverdeado no
interior e verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII (?)
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987, n.º 615 do caderno de especiais da
escavação, sector A – D – Poço (Lab. 6).

N.º: 131

Tipo e Função: Tigela, Louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 262; altura 55; diâmetro base 135 mm.
Morfologia: Bordo boleado levemente envasado; bojo de curvatura simples e
fundo plano.
Decoração: Pintada no interior sobre fundo branco, com motivos decorativos
geométricos de cor verde manganês, e vidrada no exterior a verde.
Técnica: Pasta de cor beige rosada, coberta no interior por um engobe branco sobre
o qual foram pintados motivos decorativos com óxidos de cobre e manganês; vidrada
de ambos os lados.
Cronologia: Séc. X/XI (?)
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987; n.º 19 do caderno de especiais da
escavação.

N.º: 76

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 185; altura 55; diâmetro base 78 mm.
Morfologia: Bordo boleado ligeiramente extrovertido; bojo de forma direita aberta
que se prolonga desde o bordo até à carena junto da base; pé de forma anelar com
fundo convexo.
Decoração: Vidrada de ambos os lados de cor castanho melado e com leves traços a
negro de manganês
Técnica: Pasta de cor bege rosada, vidrada a castanho melado de ambos os lados e
pintada no interior com leves traços a manganês.
Cronologia: Séc. XI
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987, n.º 311 e 356 do caderno de
especiais da escavação, sector D – silo 1 (Lab. 29).

143
Judiciária

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 74

Tipo e Função: Tigela, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 121; altura 47; diâmetro base 51 mm.
Morfologia: Bordo boleado, demarcado por sulco; bojo de forma curva simples; pé
anelar com fundo convexo.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha bem depurada.
Cronologia: Séc. XII/XIII (?)
Procedência: Escavação da Judiciária – Faro 1987, n.º 394 do caderno de especiais da
escavação, sector C - 3 (Lab. 11).
Silves

N.º: 1

Tipo e Função: Tigela, Louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 283; diâmetro base 188; altura 65 mm.
Morfologia: Bordo boleado; introvertido com inflexão e sem ressalto; fundo plano;
bojo simples de forma redonda.
Decoração: Cercadura interior com motivos vegetalistas em torno do bordo e, no
centro do prato, círculo com motivo vegetalista.
Técnica: Peça vidrada no exterior de cor melada e no interior vidrada e decorada a
cobre e manganês.
Cronologia: Séc. X
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 11, estrato 5, silo 1
(Lab. 208).

N.º: 2

Tipo e Função: Jarro, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 116; diâmetro base 80; altura 160 mm.
Morfologia: Lábio boleado; bordo demarcado de forma circular, ligeiramente
extrovertido com inflexão (tipo carena), e com ligeiras caneluras; bojo redondo de
forma ovóide; asa vertical de secção oval.
Decoração: Pintada a manganês no exterior em forma de lágrimas, no sentido
vertical, e na asa no sentido horizontal.
Técnica: Pasta bege rosado.
Cronologia: Séc. X
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 13, estrato 6, silo 3
(Lab. 202).

N.º: 3

Tipo e Função: Fogareiro, contentores de fogo


Dimensões: Diâmetro boca 264; altura 179; diâmetro base 134 mm.
Morfologia: Base troncocónica com respirador em arco; bojo redondo de forma
hemisférica com caneluras; bordo introvertido com lábio triangular e fundo plano.
Interior com aberturas de forma circular no centro e nos lados.
Decoração: Pintada a branco com traços longitudinais e verticais.
Técnica: Pasta de cor vermelha.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camadas 6 e 7, estratos 5 e 6,
silo (Lab. 209).

145
Silves

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 5

Tipo e Função: Caçarola, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 265; altura 93; diâmetro base 180 mm.
Morfologia: Bordo boleado introvertido com inflexão e com ressalto; base
ligeiramente convexa; bojo de forma redonda com caneluras junto do bordo. Asas
verticais de secção oval.
Decoração: Vestígios de traços pintados a branco no bordo.
Técnica: Pasta de cor vermelha.
Cronologia: Séc. XI/XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 13, estrato 6, silo 3
(Lab. 201).

N.º: 6

Tipo e Função: Pequeno pote, louça de armazenamento


Dimensões: Diâmetro da boca 104; altura 161; diâmetro da base 105 mm.
Morfologia: Base ligeiramente abaulada; bojo de forma redonda; bordo ligeiramente
extrovertido com inflexão; lábio demarcado de forma triangular. Asas verticais levemente
onduladas de secção oval no exterior e com depressão longitudinal no interior.
Decoração: Pintada a manganês em forma de lágrimas em conjuntos de três, lábio
com vestígios de traços a negro.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula I e J, camadas 10 e 11, estrato 6,
silo 4 (Lab. 203).

N.º: 7

Tipo e Função: Bule, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 120; altura 128; diâmetro base 100 mm.
Morfologia: Fundo plano; bojo de forma redonda oval com bico redondo de
dimensões médias; bordo extrovertido com inflexão; lábio triangular. Asa vertical de
secção plana.
Decoração: Pintada a castanho escuro, cercadura horizontal reticulada, traços
pequenos verticais ao longo do bordo e traços médios verticais na asa.
Técnica: Pasta de cor bege rosada.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula J, camada 11, estrato 5, silo 4
(Lab. 205).
N.º: 9

Tipo e Função: Pote, Vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro da boca 115; altura 130; diâmetro da base 154 mm.
Morfologia: Base ligeiramente convexa e demarcada; bojo de forma redonda oval
com caneluras horizontais e seis asas; bordo boleado demarcado, extrovertido com
inflexão. Asas verticais levemente ovais.
Decoração: Vidrada no interior a verde e no exterior a castanho.
Técnica: Vidrada de ambos os lados, pasta de cor escura acinzentada.
Cronologia: Séc. XII (final)
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 10, estrato 5, silo
(Lab. 199).

N.º: 11

Tipo e Função: Pequena bilha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro da base 120; altura 224 mm.
Morfologia: Base em forma de tripé de fundo plano; bojo hemisférico afunilando
na parte superior formando um gargalo estreito com canelura. Bordo extrovertido
com inflexão aumentando a abertura e formando um bico. Asa vertical de secção
ligeiramente oval.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor bege rosada.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula I, camada 10, estrato 6, silo 9
(Lab. 200).

N.º: 12

Tipo e Função: Panela alta, louça de cozinha


Dimensões: Diâmetro boca 155; altura 195; diâmetro base 123 mm.
Morfologia: Base plana; bojo de forma redonda oval; bordo direito extrovertido e
com inflexão. Asa vertical de secção plana com caneluras longitudinais.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor escura devido a fortes evidências de combustão.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula I, camada 10, estrato 6, silo 9.

147
Silves

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 13

Tipo e Função: Infusa, louça comum


Dimensões: Diâmetro da boca 48; altura 245; diâmetro da base 90 mm.
Morfologia: Base côncava; bojo de forma redonda oval ligeiramente mais largo na
parte superior e com caneluras horizontais; bordo em forma de gargalo levemente
extrovertido e com inflexão; lábio triangular.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta bege claro.
Cronologia: Séc.
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula I, camada 11, estrato 6, silo 9.

N.º: 14

Tipo e Função: Cântaro, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 100; altura 363; diâmetro base 142 mm.
Morfologia: Base plana; bojo de forma redonda oval; bordo vertical levemente
afunilado e com caneluras; lábio triangular. Asas verticais de secção oval com
caneluras.
Decoração: Linhas brancas longitudinais verticais e horizontais em conjuntos de três
e em zig-zag na horizontal.
Técnica: Pasta de cor vermelha, pintada de preto no interior e no exterior.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 7, estrato 5, silo 1.

N.º:15

Tipo e Função: Cântaro, vasilha de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 150; altura 367; diâmetro base 180 mm.
Morfologia: Base plana; bojo redondo oval; bordo extrovertido com inflexão; lábio
direito ligeiramente boleado. Asa vertical de secção plana com ligeira canelura no
exterior.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula I, camada 11, estrato 6, silo 9.
N.º: 16

Tipo e Função: Cântaro, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 300; largura 250 mm.
Morfologia: Bojo de forma redonda oval; bordo ligeiramente extrovertido; lábio
boleado recto. Asa vertical de secção plana ligeiramente oval e com ranhura vertical
no exterior.
Decoração: Pintada a branco; espirais de tamanho médio, linhas longitudinais
horizontais no bordo e linha vertical na asa.
Técnica: Pasta de cor vermelha com decorações a branco de motivos geométricos.
Cronologia: Séc. X/ XI
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 11, estrato 5, silo 9
(cisterna).

N.º: 25

Tipo e Função: Jarrinha, louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 105; altura 110; diâmetro base 67 mm.
Morfologia: Bordo em bisel, colo troncocónico invertido com leve canelura junto do
bordo, base ligeiramente convexa.
Decoração: Pintada no exterior a castanho com cercadura de linhas horizontais
delimitantes e no meio duas linhas onduladas entrecruzadas e no bordo pinceladas
na vertical.
Técnica: Pasta de cor bege rosada com decorações pintadas a castanho no exterior.
Cronologia: Séc. XII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; quadrícula K, camada 13, estrato 6, silo 3.

N.º: 63

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 208; largura 136 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, seis caneluras com encanastrado
separam as quatro cartelas, de cima para baixo, encontramos um padrão incompleto
que se assemelha à escrita árabe, motivos curvilíneos complexos que se repetem na
última cartela, e um padrão de escrita árabe e pequenas estrelas.
Técnica: Pasta de cor alaranjada de textura friável, vidrada a verde no exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; sector K, estrato 6, camada sup, silo.

149
Silves

O Algarve e o Magreb
O Algarve e o Magreb

N.º: 64

Tipo e Função: Fragmento de talha, vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 162; largura 165 mm.
Morfologia: Fragmento de bojo
Decoração: Estampilhado sob vidrado verde, motivos separados por duas caneluras
verticais com arcos polilobulados no topo das caneluras, motivo inferior, cartela
composta por escrita árabe.
Técnica: Pasta de cor bege de textura friável, vidrada a verde e estampilhada no
exterior.
Cronologia: Séc. XII/XIII
Procedência: Escavação de Silves – 2003; sector K, estrato 7, camada 5, silo.
Alvor

N.º: 69

Tipo e Função: Fragmento de pote, Vasilha de armazenamento


Dimensões: Altura 226; largura 158 mm.
Morfologia: Bordo boleado em aba, bojo de forma circular e asa vertical de secção
em forma de “D”.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor bege amarelada com alguns elementos não plásticos visíveis.
Cronologia: —
Procedência: Escavação de Alvor – Alvor 1986.

N.º: 70

Tipo e Função: Prato, Louça de mesa


Dimensões: Diâmetro boca 164; altura 36; diâmetro base 68 mm.
Morfologia: Bordo boleado ligeiramente extrovertido com carena; pé de forma
anelar; fundo convexo, sulco circular, na zona central interna do prato.
Decoração: Peça de cerâmica campaniense, envernizada a preto de ambos os lados.
Técnica: Pasta de cor bege rosada coberta de engobe preto de ambos os lados.
Cronologia: Séc. II a. C.
Procedência: Escavação de Alvor – Alvor 1986, n.º 8 e 38 do caderno de especiais da
escavação, sector I – F – 1 e I – G – 2, (Lab. 69).

N.º: 71

Tipo e Função: Pequeno pote, louça de armazenamento


Dimensões: Diâmetro boca 85; altura 89; diâmetro base 45 mm.
Morfologia: Bordo boleado extrovertido e com inflexão; bojo de forma globular e
fundo plano.
Decoração: sem decoração.
Técnica: Pasta de cor vermelha alaranjada, bem depurada, brunida de ambos os lados
e com vestígios de combustão no exterior.
Cronologia: —
Procedência: Escavação de Alvor – Alvor 1986, n.º 58 do caderno de especiais da
escavação, sector I – G - 2, 2 – a (Lab. 68).

151