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O jantar no Hotel Central

Durante o jantar, as conversas vão focar diversos aspectos da sociedade


portuguesa: atávico estado deplorável das finanças públicas, o eterno
endividamento do país e a consequente necessidade de reformas extremas e
radicais, de que Ega é o defensor mais convicto: “- Portugal não necessita
reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola (…) Sovados,
humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um esforço desesperado
para viver. (…) Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse toturio
da inscrição, porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos,
escarulados, como se nunca tivéssemos servido. E recomeçava-se uma história
nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e decente,
estudando, pensando, fazendo civilização, como outrora… Meninos, nada
regenera uma nação como uma medonha tareia… Oh! Deus de Ourique, manda-
nos o Castelhano!” – Cap. VI.

O jantar é dominado pela contenda literário entre Ega e Alencar. Ega, defensor
acérrimo do naturalismo que o considerava como uma ciência (“A forma pura da
arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco de um tipo, de um vicio,
de uma paixão, tal qual como se se tratasse de um caso patológico sem
pitoresco e sem estilo…”- Cap. VI) Envolve-se em disputa verbal e física com
Alencar, o protótipo de poeta ultra romântico.

Alencar cuja aspecto físico era o de um romântico (“…muito alto, todo abotoado
numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encuvados, e sob o
nariz aquilino, longos, espeços, românticos bigodes grisalhos: já todo calvo na
frente, os anéis fofos de uma granja muito seca caiam-lhe inspiradamente sobre
a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e
de lugrube.”-Cap.VI) ataca ferozmente a ideia nova, dirigindo o seu ódio contara
o craveiro, o defensor da nova estética literária e que se satirizara Alencar num
já conhecido epigrama. A discussão literária rapidamente cai nos ataques
pessoais (“…desse craveirote da ideia nova, esse caloteiro, que se não lembra
que a porca da irmã e uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canaveses!”-
Cap.VI), sublinhando-se, assim, a pouca credibilidade e seriedade da critica
literária em Portugal.

Integração do episódio na estrutura da obra


O episódio do Jantar no Hotel Central integra-se no capítulo VI. Insere-se na
acção principal e é um dos episódios da crónica de costumes/episódios das
cenas românticas.

É uma espécie de festa de homenagem de Ega ao banqueiro Cohen (símbolo da


alta finança), marido da divina Raquel, amante de Ega. O episódio acaba
também por proporcionar o primeiro encontro de Maria Eduarda com Carlos
(“Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberante
de Deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma
claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar.” Cap. VI) e é
também a primeira reunião social da “elite” lisboeta em que Carlos participa.

Resumo do episódio
Carlos e Craft encontram-se no peristilo do Hotel Central, antes do jantar,
quando vêem chegar Maria Eduarda. Subiram até um gabinete, onde Carlos foi
apresentado a Dâmaso, este conhecia aquela mulher, pertencia à família Castro
Gomes. Dâmaso falava sobre a sua preferência por Paris, “aquilo é que é terra”,
ele até lá tinha um tio, o tio Guimarães, quando apareceu “o nosso poeta”,
Tomás de Alencar. Por intermédio de Ega foi apresentado a Carlos.

Pouco tempo depois, a porta abriu-se e Cohen desculpando-se pelo atraso foi
apresentado, por Ega, a Carlos.

Deu-se início ao jantar, com ostras e vinho, falava-se do crime da Mouraria, que
“parecia a Carlos merecer um estudo, um romance”. Isto levou a que se falasse
do Realismo. Alencar suplicou que se não discutisse “literatura «latrinária»”, [...]
que se não mencionasse o «excremento»”.

“Pobre Alencar!” Homem que tivera em tempos uma vida carregada de


adultérios, tornava-se agora num defensor da Moral, no entanto a sociedade não
o ouvia, via-se apenas confrontado com ideias absurdas defendidas pelos
Naturalistas/Realistas.

Carlos posiciona-se na conversa contra o realismo. Ega reage às críticas e


defende arduamente os princípios do Realismo. Cohen mantinha-se superior a
esta conversa, vendo isto, Ega muda de assunto. “Então, Cohen, diga-nos você,
conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?” ao que Cohen respondeu
ser imprescindível, pois o empréstimo constituía uma fonte de receita, aliás a
“única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer
o empréstimo».
Do ponto de vista de Carlos, assim o “país ia alegremente e lindamente para a
bancarrota”. Cohen concordava, mas isso era inevitável. Por oposição, Ega
defende que o que convinha a Portugal era uma revolução, para eliminar “a
monarquia que lhe representa o «calote», e com ela o crasso pessoal do
constitucionalismo.”

Ega imbatível, aposta numa invasão espanhola, deste modo recomeçava-se


“uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e
decente, estudado, pensado e fazendo civilizações como outrora...”. Os
restantes já planeavam a resistência, porém Alencar era um “patriota è antiga”,
totalmente contra esta ideia.

Esquecida a bancarrota, a invasão e a pátria, o jantar estava prestes a terminar,


quando Alencar e Ega entraram em conflituo a propósito da poesia moderna de
Simão Craveiro. Mas Cohen chama a atenção de Ega e ambos fazem as pazes e
brindam com um copo de champanhe, esquecendo o que aconteceu.

Terminou assim, com bom censo, o episódio do Jantar no Hotel Central!

Episódio do Jantar no Hotel Central


Este episódio surge no capítulo VI do romance e integra a chamada crónica de
costumes. Estamos perante um acontecimento eminentemente mundano,
integrado na crónica de costumes (recordar o subtítulo «Episódios da Vida
Romântica»), cujo objetivo central é homenagear o banqueiro Cohen, de cuja
mulher Ega (o promotor da homenagem) é amante.

1. Objetivos
 Homenagear o banqueiro Jacob Cohen, uma iniciativa de João da Ega («...
o Ega, alargando pouco a pouco a ideia, convertera-o agora numa festa de
cerimónia em honra do Cohen...»).
 Retratar a sociedade lisboeta.
 Proporcionar a Carlos da Maia o primeiro contacto com o meio social
lisboeta.
 Apresentar a visão crítica de alguns problemas.
 A nível da ação central: proporcionar a Carlos o primeiro encontro com
Maria Eduarda.

2. Intervenientes

. João da Ega

Promotor do jantar, uma homenagem ao banqueiro Jacob Cohen, marido da


«divina Raquel», com quem mantém uma relação adúltera, João da Ega defende o
Realismo / Naturalismo. Ao assumir esta posição, acaba por convocar o poeta
Tomás de Alencar, representante do Ultrarromantismo, e criar uma enorme
discussão. A sua postura ao longo do jantar assemelha-se à adotada pelos jovens
escritores da Geração de 70, profundamente revolucionários, o que o leva, por
vezes, a recorrer a argumentos exagerados para sustentar as suas ideias.

. Jacob Cohen

É o homenageado durante o jantar, o marido da «divina Raquel», diretor do


Banco Nacional, por isso o representante das Finanças na obra.

. Tomás de Alencar

Representante do Ultrarromantismo, é confrontado com os princípios


naturalistas / realistas defendidos por Ega.

. Dâmaso Salcede

É o tipo do novo rico burguês e a súmula dos defeitos da sociedade:


provincianismo, vaidade, futilidade e oportunismo (repare-se como louva Carlos da
Maia com o intuito de assumir uma posição mais preponderante na sociedade.

. Carlos da Maia

O episódio proporciona-lhe o primeiro contacto com a sociedade, mantendo,


durante o evento, uma posição relativamente discreta.

. Craft

Representante da cultura artística e britânica, Craft tem uma participação


pouco relevante neste episódio.

3. Temas discutidos durante o jantar

1. Literatura
 Tomás de Alencar:
 defensor do Ultrarromantismo;
 opositor do Realismo / Naturalismo, que qualifica depreciativamente
como «pústula», «pus», «literatura latrinária», «o excremento»;
 incoerente: condena no presente o que cantara no passado: o estudo
dos vícios da sociedade;
 falso moralista: refugia-se na moral por não ter outra arma de defesa,
outros argumentos - considera o Realismo / Naturalismo imoral;
 vive desfasado do seu tempo: «... escreveu dois folhetins cruéis;
ninguém os leu...»;
 crítico do poeta Craveiro (Antero de Quental?), o «paladino do
Realismo» e da «Ideia Nova»;
 defensor da crítica literária de natureza académica:
 feita de ataques pessoais e de calúnias;
 preocupada com aspetos formais em detrimento dos aspetos
temáticos («... dois erros de gramática, um verso errado...»);
 obcecada com o plágio («... uma imagem roubada a
Baudelaire...»).
 João da Ega:
 defensor do Realismo / Naturalismo;
 distorce e exagera as teses realistas / naturalistas (agnosticismo,
positivismo, dependência das anomalias sociais de fatores como a educação,
o meio, a hereditariedade, a raça...);
 defensor do cientificismo na literatura;
 não distingue Ciência e Literatura.
 Carlos:
 recusa o ultrarromantismo de Alencar;
 defende o romance como análise social: «Esse mundo de fadistas, de
faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um romance...»;
 considera intoleráveis os ares científicos do Realismo: «... o mais
intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos (...) e a
invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de
Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um
carpinteiro!»;
 defende que os carateres só se manifestam pela ação;
 recusa os exageros do Ega.
 Craft:
 recusa o Ultrarromantismo de Alencar;
 defende a arte como idealização do que de melhor há na natureza;
 defende o conceito parnasiano da arte pela arte: «E a obra de arte
(...) vive apenas pela forma...».
 Narrador:
 recusa o Ultrarromantismo de Alencar;
 recusa a distorção do Naturalismo contida nas afirmações de Ega;
 defende uma estética próxima da de Craft: «... estilos novos, tão
preciosos e tão dúcteis...» - tendência parnasiana.
Atente-se na proximidade das teses defendidas por Carlos, Craft e pelo narrador
das sustentadas por Eça de Queirós, que advoga uma nova forma para a literatura.

2. Finanças
 o país tem absoluta necessidade dos empréstimos ao estrangeiro;
 a ocupação dos ministérios é «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo»
(tal como hoje, Portugal vivia de empréstimos ao estrangeiro e da cobrança de
impostos);
 Cohen representa a posição oficial: é calculista e cínico, pois, tendo
responsabilidades em razão do cargo que desempenha (Diretor do Banco Nacional),
lava as mãos do assunto e aceita "alegremente" que o país vai direito para a
bancarrota (120 anos depois, o país enfrenta uma situação semelhante);
 Ega representa a posição prenunciadora da ideologia anarco-republicana,
vendo na bancarrota a oportunidade ideal para levar a cabo uma revolução: «À
bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da
inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete. [...] E, passada a crise, Portugal,
livre da velha dívida, da velha gente, dessa coleção grotesca de bestas...».

3. A história política
 Ega:
 aplaude as afirmações do Cohen e delira com a bancarrota como
determinante da agitação revolucionária;
 defende o afastamento violento da Monarquia;
 defende a invasão espanhola como forma de arrasar, enterrar o velho
Portugal e construir um Portugal novo, «sério e inteligente, forte e decente,
estudando, pensando, fazendo civilização como outrora... Meninos, nada
regenera uma nação como uma medonha tareia...»;
 aplaude a instauração da República;
 enumera as consequências do Constitucionalismo:
 falta de educação e de higiene («... piolhice dos liceus...»);
 doença e devassidão («... roída de sífilis...»);
 passividade e inércia («... apodrecida no bolor das
secretarias...»);
 comportamentos rotineiros («... arejada apenas ao
domingo...»);
 perda da coragem e da dignidade («... perderam o
músculo...»; «... perderam o caráter...»);
 centralismo («Lisboa é Portugal! Fora de Lisboa não há
nada.»);
 fraqueza física e moral («... a raça mais fraca e mais
cobarde...»).
 Alencar:
 opõe-se à invasão espanhola, pois considera-a um perigo para a
independência nacional, e dispõe-se a despertar o patriotismo do país com
os seus poemas;
 defende o romantismo político:
 uma democracia humanitária (de 1848);
 uma república governada por génios;
 a fraternidade entre os povos, «os Estados Unidos da Europa»;
 repudia o talento dos seus conterrâneos, despeitado com o desprezo
«desses politicotes», seus companheiros de farra antes de cumprirem as
suas ambições;
 protesta contra a alegre fantasia dos companheiros afirmando
exaltadamente o amor pela pátria.
 Cohen:
 defende a existência de gente séria e honesta nas camadas políticas
dirigentes;
 condescende na necessidade de reformas no país;
 considera Ega e Alencar uns exagerados;
 em caso de invasão, participaria com o financiamento (as armas e a
artilharia comprar-se-iam na América);
 juntamente com Ega, organizaria a guerrilha.
 Dâmaso:
 exemplo de covardia:
 se se desse a invasão espanhola, «raspava-se» imediatamente
para Paris;
 considera ainda que toda a gente fugiria como uma lebre.
 revela grande reverência relativamente a Carlos.

4. Fim do jantar - resolução da disputa


 Ega e Alencar insultam-se mutuamente;
 fazem uso de uma linguagem escabrosa e ofensiva;
 envolvem-se numa zaragata que quase termina numa sessão de pugilato;
 acabam por fazer as «pazes à portuguesa»: reconciliação e mostras de
arrependimento, com abraços e protestos de amizade;
 ou seja, esgotados os argumentos, passa-se à pessoalização das
questões (= Questão Coimbrã, após as primeiras intervenções críticas; o
desafio para um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão).

5. Conclusões - o modo de ser português

1. A falta de personalidade:
 Alencar muda de opinião quando Cohen assim o pretende;
 Ega muda também de opinião quando Cohen o pretende;
 Dâmaso, cuja divisa é «Sou forte», aponta o caminho covarde da fuga.
2. A disputa Ultrarromantismo / Naturalismo, reflexo da Questão Coimbrã.

3. A falta de coragem / a covardia domina a sociedade, «... desde el-rei nosso


senhor até aos cretinos de secretaria!...».

4. A falta de cultura e civismo domina as classes mais destacadas, com exceção


de Carlos e de Craft.

5. O exército:

 em caso de invasão, teriam de se alugar os generais para defesa da pátria;


 a falta de disciplina dos soldados, não obstante serem «teso(s)»;
 a fraqueza física e moral («Um regimento, depois de dois dias de marcha,
dava entrada em massa no hospital!»; o episódio do marujo sueco).

Episódio do Sarau da Trindade


1. Objetivos
 Ajudar as vítimas das inundações do Ribatejo;
 Apresentar um tema querido da sociedade lisboeta: a oratória;
 Criticar o Ultrarromantismo que encharcava o público;
 Reunir novamente as várias camadas das classes mais destacadas,
incluindo a família real;
 Proporcionar um contraste entre um clima de festa e um clima de
tragédia.

2. Ambiente
 Espaço físico: Teatro da Trindade.
 Espaço social: alta sociedade lisboeta analisada através de tipos sociais.
 Caracterização da sociedade: inculta, estática e superficial, deformada
pelos excessos e lugares comuns do Ultrarromantismo.

3. Temas tratados

a) Oratória

1. Oradores

1.1. Rufino:
 "vozeirão túmido, garganteado, provinciano, de vogais arrastadas em
canto" - tom altissonante;
 temas da sua alocução: a caridade, o progresso, a fé, Deus, a sua aldeia, a
imagem do "Anjo da Esmola";
 revela falta de originalidade:
- recorre a lugares comuns e a imagens de origem duvidosa (a imagem do «Anjo
da Esmola», que estendera as suas asas benfazejas sibre os deserdados das
inundações destruidoras das belas aldeias onde antes o rouxinol trinava);
- faz uso de chavões retóricos e lirismos banais em torno da caridade e da fé;
 a sua retórica é oca e balofa;
 é adulador (volta-se constantemente para a zona das cadeiras reais,
considera que a salvação reside no trono de Portugal: "... vir aquele pulha pôr-se
ali a lamber os pés à família real...");

1.2. Alencar - poeta ultrarromântico


 esguio, sombrio e pensativo;
 olhar encovado e lento;
 melancólico, solene e pomposo;
 tema proposto: a democracia (romântica);
 utiliza os habituais bordões / chavões líricos ultrarromânticos: o luar, os
vastos arvoredos, o amor, os segredos;
 sustenta um excessivo lirismo carregado de conotações sociais:
- "... a severa ideia social da Poesia...";
- "... uma mulher macilentae, farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o
filho que pede pão...";
- "... estes humanitarismos poéticos.";
- "... daquele lirismo humanitário e sonoro.";
 o seu discurso está desfasado da realidade: "A sala permanecia muda e
desconfiada.";
 ataca frontalmente

Episódio das Corridas de Cavalos


Este é outro episódio que se insere na crónica de costumes.

1. Objetivos
 Novo contacto de Carlos com a sociedade de Lisboa, incluindo o próprio rei.
 Visão panorâmica da sociedade lisboeta (masculina e feminina) sob o olhar
crítico de Carlos.
 Tentativa frustrada de igualar Lisboa às capitais europeias, sobretudo Paris.
 Criticar o cosmopolitismo postiço da sociedade;
 Possibilidade de Carlos encontrar novamente a mulher que viu à entrada do
Hotel Central.

2. Caracterização do ambiente geral

2.1. Largo de Belém:


 tosca guarita de madeira, armada de véspera -> improvisação;
 monotonia;
 tristeza e silêncio;
 pasmaceira (o trabalhador com o filho ao colo e a mulher);
 desinteresse (o garoto apregoando o programa das corridas que
ninguém compra, a mulher da água fresca sentando-se na sombra a catar o
filho);
 o trintanário que fora comprar o bilhete de Craft demora-se em
discussão com o bilheteiro, que não tem troco de uma libra; Craft apeia-se
para ir resolver o problema e é insultado;
 as pessoas em trajes domingueiros;
 traços realistas: a descrição do calor, do colorido, dos sons e dos
costumes de uma cidade estagnada.
 falta de motivação e entusiasmo pelo fenómeno desportivo em
causa;
 provincianismo.

2.2. Entrada do hipódromo:


 «... abertura escalavrada num muro de quintarola...»;
 primeira desordem / discussão:
 motivo: um sujeito queria entrar sem pagar a carruagem,
porque o sr. Savedra lho tinha prometido;
 o engarrafamento de dog-carts e caleches de praça;
 os insultos dos ocupantes;
 a intervenção deselegante da polícia;
 o grande rebuliço e a poeirada;

. falta de organização
. pelintrice
. falta de educação
. provincianismo

2.3. Descrição do hipódromo:


 situado numa colina, sob a aragem vinda do rio, provoca uma
sensação de frescura e paz;
 a gente apinhada;
 as precárias condições das tribunas e do espaço envolvente:
 a tribuna real forrada de uma baetão vermelho de mesa de
repartição;
 as tribunas públicas com o feitio de traves mal pregadas - o
hipódromo parecia um palanque de arraial - mal pintadas e com
fendas;
 o recinto da tribuna fechado por um tapume de madeira;
 as pessoas não sabem ocupar os seus lugares: «... havia uma fila de
senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas
pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e
desconsolado...»;

. a improvisação
. o remendo apressado
. a iniciativa sem base sólida
. os retoques sem gosto

2.4. Durante as corridas:


 fuma-se e fala-se baixo -> falta de à-vontade;
 as pessoas pasmam -> pasmaceira;
 dois brasileiros queixam-se do preço dos bilhetes e consideram as
corridas uma «sensaboria de rachar»;
 a chegada do rei é saudada com o «Hino da Carta».

2.5. Descrição do bufete:


 instalado debaixo da tribuna;
 pobreza: «... o tabuado nu, sem sobrado, sem um ornato, sem uma
flor.» - assemelha-se a uma taberna;
 falta de higiene e aspeto nojento: «... dois criados, estonteados e
sujos, achatavam à pressa as fatias de sanduíches com as mãos húmidas da
espuma da cerveja.»;
 a animação fictícia, com hurras a Clifford e a Carlos.

2.6. As corridas

. 1.ª corrida: a do 1.º Prémio dos «Produtos»:


 os dois cavalos «passavam num galope sereno»;
 os assistentes não sabem quem ganhou e, mal a corrida termina,
regressam ao silêncio, à lassidão e ao desapontamento;
 o desinteresse pela corrida confirma-se na atitude dos que se
encontram de costas voltadas para a pista, fumando e contemplando as
mulheres;
 o provincianismo bacoco dos homens que ficam parados e
embasbacados a admirar Clifford;
 a ausência de apostas;
 a falta de autoridade e de respeito para com o rei, cuja proximidade
não impede a desordem;
 a corrida termina com uma cena de insultos e pancadaria por causa
de uma burla (segunda desordem):

. quebra do verniz de civilização e requinte social que a sociedade pretendia


ostentar,
deixando emergir o provincianismo
. grande incultura e grosseria
. inadequação do ambiente cosmopolita das corridas à vivência social portuguesa
 «Isto é um país que só suporta hortas e arraiais...»;
 «Corridas, como muitas outras coisas civilizadas lá de fora,
necessitam primeiro gente educada.»;
 «Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada...».

SER =/= PARECER


(provinciano) (civilizado)

«Aquela corrida insípida, sem cavalos, sem jóqueis, com meia dúzia
de pessoas a bocejar em roda...»

«... tudo aquilo era uma intrujice...»

porque era «... um divertimento que não estava nos hábitos do país.»

. 2.ª corrida: a do Grande Prémio Nacional:


 alguns sujeitos examinam o «Rabino», «com o olho sério, afetando
entender», entre os quais se einclui Carlos, que também admira o cavalo,
mas nota-lhe o peito estreito;
 finalmente, aposta-se:
 estão quatro cavalos inscritos na corrida;
 o favorito é o «Rabino» e todos querem tirar o bilhete deste;
 Carlos, por «divertimento» («... gostara da cabeça ligeira do
potro, do seu peito largo e fundo...») e «... para animar mais aquele
recanto da tribuna, ver brilhar gulosamente os olhos interesseiros das
mulheres.», decide apostar tudo em «Vladimiro», apesar do potro ir
em último lugar na corrida;
 todos os outros decidem apostar contra Carlos, procurando
«aproveitar-se daquela fantasia de homem rico...»;
 contra todas as expectativas, «Vladimiro» vence «Minhoto» por duas
cabeças, o que permite a Carlos ganhar a poule e provoca a irritação dos
restantes, que perderam;
 finalizada a corrida, o torpor volta a instalar-se enquanto as pessoas
se dispersam:
 «Mas uma indiferença, um tédio lento, ia pesando outra vez,
desconsoladoramente...»;
 os rapazes bocejavam, com um ar exausto;
 a música desanimada;
 «As senhoras tinham retomado a imobilidade melancólica...»;
 «E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam...».

Conclusões - Intenção crítica de Eça:


1. o oportunismo e a cupidez dos que se pretendem aproveitar
de Carlos apostar no cavalo menos favorito;
2. o desejo português de ser o primeiro em tudo;
3. a tendência de as pessoas se aperceberem do que é óbvio e de
se colarem ao vencedor, evidenciada pelo facto de mesmo os que
não haviam apostado no «Minhoto» o aplaudirem, pois esperavam
que fosse ele o vencedor;
4. o patriotismo provinciano que vê em jogo, numa corrida de
cavalos, o prestígio do nosso país: como «Minhoto» era um cavalo
português, a sua vitória seria um ato patriótico;
5. o cansaço rápido que se apodera de nós e que permite que
outros venham, de seguida, colher o fruto do nosso esforço
desordenado: o jóquei inglês deixou primeiro que «Minhoto» se
cansasse, para depois o vencer facilmente;
6. o não saber perder, patente na reação das personagens
quando o cavalo em que apostaram perdeu:
 «... o adido italiano (...) empalideceu...»;
 «... atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas...»;
 «... a vasta ministra da Baviera, furiosa...»;
 «... o secretário lento e silencioso...».

. 3.ª corrida: a do Prémio de El-Rei → um cavalo solitário atravessa a meta,


sem se apressar, num galope pacato, e só muito tempo depois chega um outro
cavalo, uma pileca branca arquejando, num esforço doloroso, numa altura em que
o jóquei do cavalo vencedor se encontrava já a conversar com os amigos, encostado
à corda da pista.
. 4.ª corrida: a do Prémio da Consolação:
 todo o interesse fictício desaparecera e regressa a indiferença geral;
 junto à meta, um dos cavaleiros caíra;
 já à saída, o Vargas, bêbedo, esmurrara um criado de bufete → «...
tudo é bom quando acaba bem.».

2.7. As personagens

2.7.1. Os jóqueis:
. 1.ª corrida:
-» o Pinheiro - montava o «Escocês»
-» um sujeito - montava o «Júpiter»
. 2.ª corrida:
-» um jóquei - montava o «Rabino»
-» um jóquei espanhol - montava o «Minhoto»
-» um jóquei inglês - montava o «Vladimiro»
. 3.ª corrida:
-» um gentleman - montava um cavalo
-» um jóquei roxo e preto - montava uma pileca
. 4.ª corrida:
-» jóqueis sem identificação

2.7.2. Os homens
 O Visconde de Darque:
 dono do «Rabino», o favorito, considera a sua participação um
sacrifício;
 «... não podia apresentar um cavalo decente, com as suas
cores, senão daí a quatro anos»;
 não apurava cavalos para «aquela melancolia de Belém», para
aquele «horror»;
 quando há qualquer problema ou dúvida, requisitam-no de
imediato: «Eu sou o dicionário...».
 El-Rei: sorridente.
 Alencar:
 elegantemente vestido;
 sempre cortês e bem penteado nesse dia, beija fidalgamente
a mão de D. Maria da Cunha;
 encontra nas corridas «... um certo ar de elegância, um
perfume de corte...».
 O barão de Craben, pequenino, aos pulinhos.
 Craft, que apresenta Clifford a Carlos.
 Sequeira:
 «... entalado numa sobrecasaca curta que o fazia mais
atarracado, de chapéu branco...»;
 considera uma «sensaboria» «... aquela corrida insípida, sem
cavalos, sem jóqueis, com meia dúzia de pessoas a bocejar em
toda...», «... um divertimento que não estava nos hábitos do
país...».
 Clifford: «... parecia achar tudo aquilo ignóbil...», acabando por
retirar a «Mist».
 Steinbroken: aposta sem conhecer os cavalos.
 Conde de Gouvarinho e os seus dislates e ignorância: «... todos os
requintes da civilização se aclimatavam bem em Portugal.»; «O nosso solo
(...) é um solo abençoado!».
 Teles da Gama, encarregado de organizar as apostas.
 Eusebiozinho, acompanhado pela Concha e pela Carmen.
 Dâmaso:
 o seu «chique a valer»;
 a gabarolice, a falta de educação e de respeito para com as
mulheres, traduzida numa linguagem rude: «... tinha estado (...)
com uma gaja divina...»;
 a queixa da troça que o seu véu provocara.

2.7.3. As mulheres
 Em geral:
 as que vêm no High Life dos jornais
 as dos camarotes de S. Carlos
 as das terças-feiras dos Gouvarinhos

 não sabem ocupar os seus lugares


 vestem-se ridiculamente de escuro («vestidos sérios de
missa»)
 peles murchas, gastas e moles

«... canteirinho de camélias meladas...»

 Em particular:
 As duas irmãs do Taveira (diminutivos irónicos);
 magrinhas;
 loirinhas;
 corretamente vestidas.
 A viscondessa de Alvim: nédia e branca.
 Joaninha Vilar:
 cada vez mais cheia e com um quebranto cada vez mais
doce no olhar;
 lânguida, parece oferecer o seu «apetitoso peito de
rola!».
 As Pedrosos, banqueiras, interessando-se pelas corridas.
 Condessa de Soutal: desarranjada, com lama nas saias.
 D. Maria da Cunha:
 desenvolta, ousada, foi a única com atrevimento
suficiente para se vir sentar junto dos homens, porque «...
não aturava a seca de estar lá em cima perfilada, à espera da
passagem do Senhor dos Passos.»;
 bela, apesar da idade;
 muito à vontade, era a única a divertir-se;
 considera ridículo o «Hino da Carta», porque dá às
corridas um ar de arraial;
 casamenteira, apresenta Alencar à sua amiga Concha
e, depois, procura aproximar ainda mais Carlos e a condessa.
 A menina Sá Videira:
 petulante e pretensiosa;
 filha de um rico negociante de sapatos de ourelo;
 abonecada;
 «... com o arzinho petulante e enojado...»;
 «... falando alto inglês...».
 A ministra da Baviera, a baronesa Craben:
 «... enorme, empavoada...»;
 muito gorda: «... com um gluglu grosso de peru...»; «...
feitio de barrica, deixando sair o sebo por todas as costuras
do vestido (...)»; «... a insolente baleia!»;
 altiva, insolente e sobranceira.
 A Condessa de Gouvarinho:
 elegantemente vestida;
 sensual e audaz;
 é admirada por vários homens;
 no dia seguinte, partirá para o Porto para comemorar o
aniversário do pai e quer que Carlos a acompanhe,
congeminando um plano para levar a cabo os seus intentos.

Em suma, neste episódio, o narrador critica e caricatura uma sociedade que


aplaude a organização das corridas na sua ânsia de imitar o que de melhor há «lá
fora», sobretudo em Paris, modelo de civilização. Porém, como em Portugal não
havia a tradição nem o hábito de realização de tais eventos, em vez de um grande
acontecimento mundano, assistimos a um grande fiasco, a mais uma manifestação
do gosto pela aparência e pelo postiço, em detrimento daquilo que seja autêntica
e genuinamente português.
Os alvos visados por Eça de Queirós são, basicamente, dois:
 a Monarquia, pela falta de autoridade que o Rei demonstra, pois a
sua presença não consegue impedir as várias desordens;
 a alta sociedade lisboeta:
 a incivilização;
 o fracasso total dos objetivos da corrida;
 a falta de decoro e de educação;
 a incultura;
 a grosseria;
 o desinteresse;
 o caráter mimético;
 a improvisação;
 o atraso generalizado;
 o provincianismo: a organização das corridas, que pretendia
emprestar-lhes um toque de civilização, acaba por pôr a nu o quanto
há de postiço e de reles no decoro solene da assistência:
 «... desmanchando a linha postiça de civilização e
a atitude forçada de decoro...»;
 a «... massa tumultuosa (...) empurrando-se contra as
escadas da tribuna real, onde um ajudante de el-rei,
reluzente de agulhetas e em cabelo, olhava
tranquilamente...»;
 os gritos de «Fora! Fora!», «ordem» e «morra»;
 a reação agressiva do Vargas;
 a fuga espavorida das «... senhoras com as saias
apanhadas...»

 Resumo do Capítulo
 Ega regressa a Lisboa, instala-se no Ramalhete e confidencia a Carlos que
a Condessa de Gouvarinho, fala constantemente, irresistivelmente e
imoderadamente dele e conta-lhe que o casal os convidou para jantar na
segunda-feira. Na segunada-feira seguinte Carlos e Ega, dirigem-se a casa
dos Gouvarinho, Ega aproveita para lhe perguntar sobre o seu romance
com a brasileira, e diz a Carlos que soube do romance através de Dâmaso.
Carlos conta-lhe a verdade sobre o romance, embora não se abrindo em
relação aos seus sentimentos pela rapariga.
 Entretanto, durante o jantar a própria Gouvarinho toca no assunto do
romance de Carlos com a brasileira deixando Carlos com a sensação que já
todos sabem do romance; a Condessa fica “amuada” com Carlos e dá toda
a atenção a Ega; o Conde denuncia a sua ignorância e falta de memória;
Sousa Neto, acossado por Ega, revela-se ignorante. Já reconciliada com
Carlos, a Condessa simula um exame médico rápido ao filho e marca um
encontro amoroso com ele.
 Na tarde seguinte, em visita a Maria Eduarda, Carlos declara-lhe o seu
amor, que é correspondido, e ambos beijam-se pela primeira vez.
Mediante o desejo de Maria Eduarda de viver num lugar mais recatado,
longe da coscuvilhice dos vizinhos, e com espaço livre para Rosa brincar,
Carlos compra a Quinta dos Olivais a Craft, Afonso aprova o investimento,
desconhecendo, contudo, o verdadeiro motivo do mesmo. Carlos conta a
Ega o seu romance com Maria Eduarda e a sua intenção de fugir com ela;
Ega pensa para ele próprio que esta mulher seria para sempre, o seu
irreparável destino.

 Reflexões críticas e temas


abordados:
 Literatura, crítica literária, finanças, atraso intelectual do País, educação,
decadência do jornalismo português e corrupção do jornalismo, gosto
convencional, provincianismo snob e falta de espírito crítico da sociedade
lisboeta.
 Jantar em casa dos Gouvarinho
 Ambiente marcada pela futilidade e ociosidade da alta burguesia e
aristocracia lisboeta; apresenta uma visão crítica relativamente à
mediocridade, ignorância e superficialidade da elite social lisboeta, em
geral, e à incapacidade da classe política dirigente, em particular. Onde se
sobressai Ega, com a sua veia mordaz e impiedosa.
 Durante o jantar os grandes temas de conversa são:
 . A educação das mulheres em que Ega diz que ‘’A mulher só devia ter
duas prendas: cozinhar bem e amar bem.’’ Ao dizer isto está a desprezar
as capacidades das mulheres;
 . O atraso intelectual e a falta de cultura dos indivíduos que são detentores
de cargos que os inserem na esfera social do poder, e consequentemente
do país;
 . O deslumbramentos pelo estrangeiro.
 O jantar do Hotel Central e o jantar dos Gouvarinho

Jantar do Hotel Central: Jantar dos Gouvarinho:

•Objectivos: •Objectivos:
– Homenagear o banqueiro Jacob – Reunir a alta burguesia e
Cohen; aristocracia;

– Proporcionar a Carlos um – Reunir a camada dirigente do


primeiro contacto com o meio País;
social lisboeta; – Radiografar a ignorância das
– Apresentar a visão crítica de classes dirigentes.
alguns problemas;

– Proporcionar a Carlos uma visão


de Maria Eduarda.

 . O jantar no Hotel Central permite abordar a crítica literária e a literatura,
a situação financeira do país e a mentalidade retrógrada.
 . No Jantar dos Gouvarinho, as conversas permitem abservar a degradação
dos valores sociais, o atraso intelectal do País, a mediocricidade de
algumas figuras da alta burguesia e da aristocracia.
 . O jantar dos Gouvarinho trata-se de uma reunião semelhante ao jantar
no Hotel Central, onde persiste o aparato exterior a contrastar com a
ignorância das classes dirigentes do País.
 Episódio da Corneta do Diabo
 Com a toca a receber cada vez mais visitantes e a, consequentemente,
conhecerem a relação de Maria Eduarda com Carlos da Maia. Um dia Carlos
recebeu uma carta do Ega que consistia apenas numa carta e dois
números de jornal cintados. Nesse jornal (A Corneta do Diabo) havia sido
publicada uma carta escrita por Dâmaso que insultava Carlos e expunha,
em termos degradantes, a sua relação com Maria Eduarda; Palma Cavalão
revela o nome do autor da carta e mostra aos dois amigos o original,
escrito pela letra de Dâmaso, a troco de “cem mil réis”.
 O encontro de Maria Eduarda com Guimarães
 Entretanto quando Carlos vai ter com o Ega juntamente com Maria
encontram o tio do Dâmaso pelo caminho, o Guimarães que cumprimenta
respeitosamente Maria quando a vê, embora claramente assustado.
 Episódio da Corneta do Diabo (Continuação)
 Sabendo a identidade do autor da carta Carlos da Maia pede ao Ega e ao
Cruges para irem a casa do Dâmaso em seu nome, exigindo como
injuriado, uma reparação pelas armas ao Dâmaso (apresentando e pondo
as provas que Cavalão lhes tinha dado em cima da mesa). Este acaba por
fazer uma confissão por escrito dizendo que esse documento era todo
incoerente e que foi escrito devido ao facto de se achar no momento no
mais completo estado de embriaguez (doença de família por sinal). Para
grande felicidade de Ega (e de Carlos) quando lhe mostrou o documento
Carlos deixou-o ao cuidado do Ega para que ele fizesse aquilo que bem
entender com o documento.
 Ora Ega, com o ódio que tinha ao Dâmaso, dirigiu-se ao jornal A
Tarde para publicar a carta que o Dâmaso tinha escrito, o director do jornal
A Tarde, aceita publicar a carta na qual Dâmaso se retracta, depois da sua
recusa inicial por confundir Dâmaso Salcede com o seu amigo político
Dâmaso Guedes.
 O capítulo termina com os amigos íntimos de Carlos a aprovarem a
publicação da carta, carta essa que, dias depois, é esquecida com a
redacção do jornal onde tinha sido publicada a carta a desejar em amáveis
palavras uma boa viagem a Dâmaso Salcede.

Análise do episódio

A Corneta do Diabo aparece como um jornal de maledicência e de escândalos. O narrador


afirma que “na impressão, no papel, na abundância dos itálicos, no tipo gasto, todo ele
revelava imundície e malandrice”.

O Diretor e principal redator é Palma Cavalão, um jornalista corrupto. É nesta publicação que
Dâmaso Salcede publica um artigo a satirizar a intimidade da relação de Carlos da Maia e
Maria Eduarda. A suspensão da circulação deste número só é conseguida graças ao Ega e a um
suborno de 100 000 réis.

Eça de Queirós, com o episódio de A Corneta do Diabo e mais tarde com o jornal A Tarde,
retrata a parcialidade do jornalismo da época e mostra a corrupção quando o Palma Cavalão
aceita, por dinheiro, denunciar o autor do artigo comprometedor.

O propósito queirosiano de denunciar a vida portuguesa da sociedade da época percebe-se


também quando Carlos da Maia considera que "só Lisboa, só a horrível Lisboa, com o seu
apodrecimento moral, o seu rebaixamento social, a perda inteira de bom senso, o desvio
profundo do bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma Corneta do Diabo”.

Jornal “A Tarde” – cap. XV

Contextualização do episódio

Ega estava na posse da carta de retratação de Dâmaso.

Junto com Carlos, decidem não a publicar, pois isso só suscitaria a curiosidade da sociedade
lisboeta relativamente à relação de Carlos e Maria.

No entanto, Ega vê Dâmaso com “a sua” Raquel Cohen. Dominado pelo ciúme, resolve
humilhar Dâmaso publicamente.

Dirige-se à redação do jornal A Tarde e tenta convencer o diretor, o Neves, a publicar a carta
de Dâmaso.

Este, inicialmente recusa, pois pensa tratar-se de Dâmaso Guedes, um correligionário político.
Mas quando percebe que se trata do Salcede, acede a publicar a carta, para se vingar do
“manganão” que os “entalara na eleição passada”.
Na sequência da humilhação pública, Dâmaso parte de férias para Itália, e o assunto cai no
esquecimento.

Análise do episódio

O jornal A Tarde aparece em Os Maias dirigido pelo Neves, deputado, político.

É neste jornal que Ega consegue a publicação da carta do Dâmaso, não só como represália da
injúria feita a Carlos da Maia, mas também para se vingar de uma possível ligação do Salcede
com a sua ex-amante Raquel Cohen.

Todo o diálogo do Ega com o Neves e outros funcionários do jornal lisboeta mostra a
atmosfera política, o cinismo e a parcialidade do jornalismo.

Este está também patente na redação de uma notícia sobre o livro do poeta Craveiro, por
pertencer "cá ao partido", mas sobretudo quando Gonçalo, um dos redatores do jornal, depois
de exclamar "Que besta, aquele Gouvarinho!" e de o considerar "uma cavalgadura" afirma que
"- É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária... Há uns
compromissos... O Paço quer, gosta dele...". E tudo isto acontece pois " - Há aí umas questões
de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o
omnipotente dinheiro!“.

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