Você está na página 1de 9

PRINCÍPIOS E CRITÉRIOS DO

CO M É R C I O
e
É TI C O
SO L I D Á R I O
4 5

O que são e para que servem os P a d r õ e s A construção coletiva dos padrões do


1 d o C o m é r c i o É t i c o e S o l i d á r i o (CES)? 2 Comércio Ético e Solidário

Os padrões (valores, princípios e critérios) organizados pelo Desde meados de 2003, 6 versões do documento com os va-
FACES do Brasil são um conjunto de idéias sistematizadas em lores, princípios e critérios foram construídas, totalizando mais de
regras ou normas e formam uma referência para desenvolver 446 horas de trabalho efetivo. A partir da sistematização dos
ações de Comércio Ético e Solidário (CES) nas mais diversas padrões existentes em outros países, decidiu-se preparar algo
cadeias (tanto rurais quanto urbanas) de produção e comercia- eminentemente brasileiro, para isso foram realizadas reuniões
lização brasileiras. Tais padrões evidenciam uma maneira ética e estratégicas com atores que possuem acúmulo referente ao tema
solidária de promover o comércio no Brasil. Ao contrário da co- e que atuam ativamente na cadeia de produção e comercialização;
mercialização tradicional, em que produtos e serviços são va- consultas públicas por meio de mensagens eletrônicas, correio e
lorizados por atender ao simples desejo e necessidade de con- telefonemas; viagens de prospecção e de capacitação, além de
sumir e lucrar, a relação ética e solidária está baseada, também, reuniões presenciais do FACES para sistematizar as propostas
na valorização do processo de produção. apresentadas.
Para o comércio ético e solidário não basta a existência de pro- Vale ressaltar que um documento com padrões para o CES não
dutos/serviços de qualidade e que atendam ao desejo do con- pode ser implementado se não estiver inserido num sistema
sumidor. O CES busca, ao lado dessa qualidade do produto, a va- operacional para sua aplicação prática, por isso o FACES condu-
lorização das pessoas, da cultura e do meio ambiente local. O ziu uma proposta de Regulamentação Pública ao “Sistema
FACES do Brasil acredita que a publicação dos padrões com os Nacional do Comércio Ético e Solidário” (disponível no sítio do
quais trabalha servirá para promover uma forma de comercializa- www.facesdobrasil.org.br), que foi entregue ao Ministro do
ção mais ética e solidária. Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, em junho de
Esta versão dos padrões do CES é um retrato da construção 2004, em Brasília-DF. O MDA, pela Secretaria da Agricultura
coletiva realizada até março de 2005. O objetivo do FACES do Familiar (SAF), e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), pela
Brasil é seguir agregando opiniões de diversos atores-chave da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), têm sido os
sociedade e do governo, para a elaboração de um documento que principais interlocutores do FACES do Brasil para efetivar uma
reflita, ainda mais, a pluralidade brasileira e que harmonize com regulamentação pública.
tal realidade.

As atividades
2003 2004
Revisão Bibliográfica
Consulta Pública Consulta Pública
(Internet, correios e telefonemas) Reunião presencial
2 Reuniões presenciais (Manaus-AM)
(São Paulo-SP & Brasília-DF)
Viagem de articulação e prospecção (México)
Sistematizações Sistematizações
6 7

A Estrutura do documento
3 A tabela a seguir apresenta parte das instituições brasileiras e
algumas estrangeiras que participaram da construção coletiva do
documento com os padrões do comércio ético e solidário desde
O documento referente aos padrões para o CES está estrutura- o ano de 2003.
do em valores, princípios e critérios. Os valores são considerados
o campo teórico do comércio ético e solidário, já os princípios
são os eixos temáticos que definem as estratégias de ação e estão
divididos em critérios, que especificam detalhadamente aquilo Produção Rural AGROTEC-GO; APACO-SC; APAEB-BA; AQCC-PE; Artesanato Solidário-SP;
que deve ser feito na prática para a promoção do comércio ético CAEPS-SC; CAPEB-AC; Capim Dourado-DF; COMARU-AP; CONTAG-DF;
e solidário. COOMAG-PA; COOPASB-BA; COOPERAGUA-SP; COOPERCAJU-RN;
Os critérios ainda estão sendo estudados para melhor serem EcoSol-RS; Fetraf-Sul-PR; Neca-AC; PESACRE-AC; Rede Cerrado-GO; Rede
aplicados, pois a importância relativa de cada um quanto ao con- de Comercialização Solidária-GO; Rede de Produção de Mel-RN; Rede
ceito do CES, o tempo necessário para o cumprimento das regras Ecológica-RJ; Rede Ecovida-Sul
(curto, médio e longo prazo), além das dife-rentes realidades e Produção Urbana Abayomi-RJ; Banco Palmas-CE; Centro de Ação Comunitária-RJ; Criola-RJ
peculiaridades são levados em consideração. Assistência AACC-RN; CAPINA-RJ; CART-PA;
Técnica CUT-PR; Ecoamazon-AC; Embrapa-SP; Esplar-CE; FUCAPI-AM; PACS-RJ;
PDPI-AM; Sebrae-AL; Sebrae-PE; Sebrae Nacional-DF
Quem já participou desse processo? Governo MMA-DF; Programa de Economia Solidária (Embaixada da França-RJ); SAF/
MDA-DF; SDS/Governo do Amazonas-AM; SDT/MDA-DF; SENAES/MTE-DF
A tabela abaixo apresenta as instituições brasileiras partici- ONG ABONG-RJ; ACTION AID-RJ; AS-PTA-RJ; ECOAR-SP; FASE Nacional-RJ;
pantes do processo por região. FASE-PA; FES/ILDES-SP, Fund. Lyndolpho Silva-DF; GRESP-Peru; GTA-AM;
IBASE-RJ; IDEC-SP; Imaflora-SP; Instituto de Pesquisas Ecológicas-SP;
Instituto Kairós-SP; Instituto Polis-SP; Instituto Sere-RJ; ISA-SP, Visão
Região do Brasil Instituições Mundial-PE; Viva Rio-RJ
Norte 13 (15,7%) Universidade ESALQ/USP-SP; FGV-SP; UFFRJ/CPDA-RJ
Nordeste 11 (13,3%) Empresa Açúcar Ético-PR; Artesãos do Mundo-França; Associação Mundaréu-SP;
Centro-Oeste 05 (6,0%) Banco Real-SP, Beraca & Sabará-SP; BSD-SP; FLO/Coagrosol-SP; Max
Sudeste 35 (42,2%) Havelar-França; Natura-SP; Pão-de-Açúcar-SP; Simplesmente Banana-SP
Sul 07 (8,4%) Instituições Estrangeiras Artesans du Morde e Coordinatión SUD; Fundação Chol Chol-Chile;
Nacional 07 (8,4%) GRESP-Peru; Max Havelar-França.
Internacional 05 (6,0%)
TOTAL 831 (100,00%)
8 9

O Documento com os P a d r õ e s d o C o m é r c i o
4 Ético e Solidário no Brasil
Princípio 1. Fortalecimento da Demo-
cracia, Respeito à Liberdade de Opinião, à
Organização e à Identidade Cultural na cons-
Os Valores 2 do Comércio Ético e Solidário no Brasil tituição, gestão e desenvolvimento de grupos
produtores e prestadores de serviços ligados
O FACES do Brasil acredita que o CES do Brasil deve ter como ao CES.
valores3:
Princípio 2. Condições Justas de
* Participação democrática; Produção, Agregação de Valor e Comer-
* Liberdade sindical; cialização, proporcionando aos(às) produto-
* Eliminação do trabalho forçado; res(as) e prestadores(as) de serviços condi-
* Erradicação da exploração do trabalho infantil; ções dignas de trabalho e remuneração ade-
* Responsabilidade e transparência nos processos administrati- quada, visando a sustentabilidade socioambi-
vos, vos,
coletivos e públicos;
coletivos e públicos; ental da cadeia produtiva.
* Erradicação da pobreza;
* Promoção do desenvolvimento humano; Princípio 3. Apoio ao Desenvolvimento
* Valorização de identidades locais; Local e Sustentável, de forma comprometida
* Acesso universal à educação, à cultura, ao lazer, ao cuidado com o bem-estar socioeconômico da comu-
com com
a saúde e às eoportunidades
a saúde econômicas;
às oportunidades econômicas; nidade e sua sustentabilidade;
* Educação para um modo de vida sustentável;
* Tratamento aos seres vivos com respeito e dignidade; Princípio 4. Respeito ao Meio Ambiente a
* Cultura de tolerância, de não-violência e de paz; partir do fomento a práticas mais responsáveis
* Proteção dos sistemas ecológicos da Terra. e, portanto, menos prejudiciais à natureza.

Princípios para Implementação do Comércio Ético e Solidário Princípio 5. Respeito aos direitos das
no Brasil Mulheres, das Crianças, dos Grupos Étnicos e
dos(as) Trabalhadores(as), promovendo eqüi-
Os Princípios, conforme referido, são eixos temáticos que dade de gênero e de etnia;
fazem a ligação entre os valores (campo teórico) e os critérios
(campo prático). Princípio 6. Informação ao Consumidor,
para que se garanta transparência na cadeia
comercial e educação para o consumo respon-
sável, além de estimular uma maior aproxi-
mação entre produtores(as) e consumido-
res(as).
10 11

Critérios do Comércio Ético e Solidário do Brasil 8. Parte dos recursos obtidos com a venda de produtos e
serviços deve ser destinada a um Fundo de Desenvolvimento
Os critérios especificam de forma mais detalhada aquilo os mem- Local, direcionado à realização de projetos socioambientais. Tal
bros da cadeia de produção e comercialização do CES devem exe- Fundo deve, preferencialmente, ser gerido de modo planejado
cutar a fim de que o princípio seja cumprido. Abaixo estão descritos democrático e transparente;
os critérios resumidos para cada segmento da cadeia. A versão com- 9. Os empreendimentos envolvidos com produção agrícola
pleta pode ser acessada no site www.facesdobrasil.org.br e/ou florestal devem respeitar a legislação referente à área de
preservação permanente e a reserva florestal legal.
Critérios aos(às) produtores(as) ou executores(as) de serviços 10. Otimizar o aproveitamento dos recursos energéticos na
produção como forma de diminuir o impacto das atividades;
São denominados como produtores(as) ou executores(as) de 11. As atividades produtivas devem promover o bem-estar de
serviços, agricultores(as) familiares, extrativistas, pescadores(as) toda comunidade, considerando seus aspectos social, biológico,
artesanais, artesãos(ãs), pequenos(as) empreendedores(as) ambiental e religioso;
urbanos(as) e rurais, aos quais é exigido o cumprimento dos 12. Recomenda-se que os produtores desenvolvam ações con-
seguintes critérios: juntas com o poder público local, caso considerem viável e posi-
tiva a parceria;
1. Restringir o uso de substâncias altamente tóxicas à saúde 13. As atividades domésticas e produtivas não devem repre-
humana e ao meio ambiente; sentar empecilho para as crianças freqüentarem a escola;
2. Promover a conservação do meio ambiente, através da 14. No caso do grupo ser gerido por liderança, recomenda-se
preservação dos ecossistemas naturais remanescentes, dos solos, que esta seja escolhida democrática, legítima e representativa-
corpos d’água e da proteção da fauna e da flora; mente;
3. Não utilizar qualquer tipo de material que contenha orga-
nismos geneticamente modificados (transgênicos); Critérios aos comerciantes (atacadistas ou varejistas) ou
4. Respeitar a capacidade de suporte e regeneração do transformadores de produtos
ambiente para extração ou coleta direta de recursos do ambiente
natural, além de respeitar o plano de manejo, caso a área já o São denominados como comerciantes ou transformadores de
possua; produtos do comércio ético e solidário, todos(as) os(as) com-
5. Informar as características do produto e do processo produ- pradores(as) que comercializam os produtos oriundos dos(as)
tivo aos comerciantes ou consumidores finais por meio de rótu- produtores(as) primários(as), varejistas ou atacadistas, tais como:
los ou outros mecanismos; cooperativas, associações, empresas, processadoras, indústrias,
6. Organizar e operar os empreendimentos produtivos de entrepostos comerciais, estabelecimentos de varejo, lojas, inter-
forma democrática e transparente, respeitando a liberdade e par- mediários(as), entre outros. Esses devem cumprir os seguintes
ticipação dos membros; critérios:
7. Cumprir as obrigações e exigências legais no que se refere
à constituição jurídica do grupo;
12 13

1. Pagar o preço justo aos produtores pelo resultado de seus parente e equilibrada as diferentes etapas do processo de CES em
serviços. O preço justo é aquele que garante, além dos custos do que estão envolvidos;
processo produtivo, a satisfação das necessidades básicas dos 5. Produtores e compradores devem construir relações de
produtores/executores de serviços e de seus familiares; longo prazo;
2. Pedir autorização formal, e remunerar adequadamente, para 6. Os grupos envolvidos com o CES devem ter administração
a utilização da imagem e do(s) conhecimento(s) dos grupos pro- transparente, tanto nas tomadas de decisão quanto na gerência de
dutivos para publicidade e comunicação; recursos e na definição de políticas;
3. Não praticar o sistema de venda “sob consignação”; 7. Estimula-se o cumprimento da legislação trabalhista nacional
4. A relação comercial entre produtores e comerciantes deve e dos acordos da OIT (Organização Internacional do Trabalho);
estar pautada em regras e mecanismos que possibilitem a criação 8. Estimula-se a promoção da eqüidade de gênero e da não dis-
do hábito de poupança e investimentos, para formar e manter o criminação relativa à raça, religião, posição política, procedência
capital de giro; social, escolha sexual, estado civil e/ou aos portadores de neces-
5. Garantir a existência, nos estabelecimentos comerciais, de sidades especiais.
informações aos consumidores sobre o processo de produção, a 9. As atividades de CES devem gerar o mínimo de resíduos não
composição de preços e explicações sobre CES; reutilizáveis, tóxicos ou poluentes. Recomenda-se a coleta seleti-
6. Estimula-se o desenvolvimento de ações, por parte dos gru- va de resíduos reaproveitáveis.
pos envolvidos com o CES, relacionadas à promoção da educação 10. Recomenda-se a não utilização indiscriminada do conceito
para o consumo responsável; de comércio ético e solidário para fins de propaganda ou pro-
7. Recomenda-se a utilização de matérias-primas oriundas de moção comercial.
fontes sustentáveis do ponto de vista ambiental;

Critérios que são aplicados (em comum) tanto aos(às) produ-


tores(as) ou executores(as) de serviços quanto aos comer-
ciantes (atacadistas ou varejistas) ou transformadores(as) de
produtos

1. Executar as atividades de CES sob todos os requisitos de


1
O número de pessoas que participaram do processo é maior em
relação ao de instituições, pois, numa mesma instituição, várias pessoas
segurança e salubridade para quem o desenvolve e para o meio opinaram, tanto via internet quanto nas diferentes reuniões presenciais
ambiente; estratégicas, totalizando mais de 250 pessoas.
2. Não será tolerada a exploração do trabalho infantil em qual- 2
Os Valores são referendados pela “Carta da Terra”, pela “Declaração
quer atividade de CES; Universal dos Direitos Humanos” e pela “Declaração da Organização
3. Homens e mulheres com qualificação e carga horária iguais Internacional do Trabalho sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no
Trabalho”.
devem receber a mesma remuneração pelo mesmo trabalho;
4. Produtores e compradores devem discutir de forma trans-
3
Apresenta-se um resumo por meio de palavras-chave. O texto ori-
ginal pode ser acessado pelo endereço virtual www.facesdobrasil.org.br.
FACES do Brasil
O Instituto FACES do Brasil é uma organização não governamen-
tal, criada a partir de discussões coletivas iniciadas em 2002, com a
missão de "fomentar a criação de um ambiente favorável à construção
e implementação de um sistema brasileiro de Comércio Ético e
Solidário, promovendo a equidade e a inclusão social.”
Hoje, o conselho político do FACES do Brasil, responsável pela
elaboração do plano estratégico do Instituto, é formado pelas seguintes
organizações: ADS-CUT - Agência de Desenvolvimento Solidário da
CUT, Fase Nacional - Federação de órgãos para assistência educa-
cional, Fundação Friedrich Ebert, IMAFLORA, Instituto Kairós, Instituto
SERE, Onda Solidária, RBSES - Rede Brasileira de Socioeconomia
Solidária, Rede Ecovida de Agroecologia, UNISOL Brasil - União e
Solidariedade das Cooperativas Empreendimentos de Economia Social
do Brasil, Visão Mundial e Viva Rio.
O Instituto FACES do BRASIL tem contado com o apoio técnico e
político do Sebrae Nacional, da SAF - Secretaria de Agricultura Familiar
do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e SENAES -
Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e
Emprego - MTE.

www.facesdobrasil.org.br

Revisão: Luciane Alves


Projeto gráfico: Estúdio Girassol
Desenhos: Beth Kok
Diagramação e arte final:
Cintia Sobral e Esperanza Sobral

maio/2005