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diretor: Mareo Antonio ( A, Teansmissio da Psion MZ yee a Ae Peer een eer ee) Fantasia Origindria, Fantasias das Oy Origens da Fantasia, Jean Laplanche ¢ J. Ce ee ee eee eet me 8 OUmbigo do Souho, Laurence Bataille 9 eT) Paicossomética na Clinica Lacaniana, Jean (y Nobodaddy - A Histeria no Século, Cu areca sr toes ee ae ee eee eee ety Te a een Te Nee er as Sey ee eee Steyr eee SNe ee eee eee MUR Lag Oe a eee en Oe ene een wen) 21 © Conceito de Renegagio em Freud, André Boursug re cee eR eee eet ee ea cel nei oct ewes re eee eae Sn eee puter See ee PO etc mae aad eae ‘A Neurose Infantil da Psicandlise, Gérard Pommier oes ney See Fim de uma Andlise, Finalidade da Psicandlise, Alain Didier-Weill Froud e a Mulher, Paul-Laurent Assoun Psicossomsitia, JD. Nasio Entrevistas com o Homem dos Lobos, Karin OBholzer Jorge Zahar Editor x| . ¥ <4 =) ” "7 “J My q ) ) x / : | a) I My < ELES NAO SABEM O QUE FAZEM O sublime objeto da ideologia Slavoj Zizek rene) Che Merri n te A, Transmissio da Psteandlise Slavoj Zizek \V/diteior: Marco Antonio Coutinho Jorge erie eerie ere Galton eee Pee en | Mercator oe ar 6 Teterets reeds Tres de Pca Alte Dir el | ELES NAO SABEM O 7 Sexo eDisouno em Frevde Lacan, Marc A. Coutinho Jor 8 OUmbige do Sonko, Laurence Bale = QUE FAZEM 9 Falcoscmdte x Clinic Leanna, Jean Gutr . i 10 Nobocaddy ~A Hiseria no Séeulo, Catherine dfillt O sublime objeto da ideologia 11 LigSes Sobre os 7 oncelios Crucas da Pleads, J-. Naio 12 Du Pato do Ser "Lover" de Sabet, Maud Mannan! 13. Peicealie « Mediin, lere Benoit 14 A Topologia de neques Lacan, Jeanne Granon-Lafont 15 A Psicose, Alphonse de Waelhens rate 1G O Deseniace de uma Anslise, Gérard Pomimier fe aan 17 OCemto. Ras, Léon Choke lave Sengers 18 O Mais Sublime dos Histéricos, Slavoj Zixek OF Alege ote alo eg eopendtoncr 20 Intro 4 Ot de Franoce Dol, Mckel Ledoux Br Glisten ea Breve int Sources 22 ReproaieeSubverde ee Pucesonaice,ClrLaopeDeours . 23. Ofalcaia Puaglo ew Pitdln, Jot! Dor DAN niee ner crate Cass masala waco LISO DO SUGUARAO 25 taleni 26 Bes Sem oq Pace, Sno) Stak BIBLIOTECA PESSOAL Prévimos longamen ‘A Neurose infantil da Psicandlise, Gérard Pommier Fim de uma Anilise, Finalidade da Psicandliso, Alain Didier-Weill Freud e a Mulher, Paul-Laurent Assoun Psicossomilica, J.-D. Nasio Entrevistas com o Homem dos Lobes, Karin Obholzer Jorge Zahar Editor Rio de Janciro Para Renata, de novo sme save pas ce qu fo (Le snchome ldolgiqu} “Traduo autrza da pica Gg nets blend 1990 por Pos Hos les, de As, Pa Conyigh © 199, Point Hom Ligne, Copyright © 1992 deg cm agua porguse: Jorge Zahar Editor Lida ‘ua Meso 31 sobeljs 20031 Rio de Taner, RI Todas of dite reevades, _Aeprodugionkoautorzaa dest publica no todo ‘em pane, coast violas co copyright. (Le 3.988) argo sete: TopTentos Bigs Gries Li spesio: Tavares Tet Lda ISBN. 2 90481-29-5 dx) ISBN. 65-7110222-5 GZE,RD) Sumario Preficio OS IMPASSES DA “DESSUBLIMACAO REPRESSIVA” L.A “teoria critica” frente ao fascismo A teoria critica contra o “revisionismo” analitico, 11 A contradigéo como indice da verdade tedrica, 16 ‘A“dessublimagio repressiva”, 21 A performatividade do discurso totali ‘A“esteticizagao do politico”, 30 rio, 26 I. O choque ¢ suas repercussdes Oencontro de um “Real” histérico, 35 A“logica da dominagio”, 37 Adorno: a outra dimensio, 41 ‘A“subjetividade a ser salva’, 47 Habermas: a andlise como auto-reflexio, 49 VARIACOES DO TOTALITARISMO-TIPICO IIL. Cinismo o objeto toralitério A“razio cinica”, 59 A fantasia ideolégica, 61 “Alei é a lei”, 63 (0 “objeto totalitsrio”, 67 ‘© “narcisismo patolégico”, 70 IV. 0 discurso stalinista (O significante © a mercadoria, 74 O “fiau-fiau” ideol6gico, 78 Falo e fetiche, 79 O discurso stalinista, 83 O real da “luta de classes”, 88 Stalin versus o fascismo, 92 35 37 59 4 (© SUBLIME OBJETO DA IDEOLOGIA V.0 grafico do desejo: uma leitura politica (0 86 -depois da signifieaglo, 99 0 “efeito de retroagio", 101 Imagem e othar, 108 De ifa) para I(A), 106 “Che vuoi”, 108 © judeu e Antigona, 112 ‘Aantasia como anteparo contra 0 desejo do Outro, 115, O inconsistente Outro do goz0, 118 ‘A“travessia™ da fantasia social 121 VI. “Nao apenas como substancia, mas também como sujelto” All6gica do Sublime, 126 As reflexes proponente, exterior € determinante, 131 Estabelecendo as pressuposigdes, 134 Pressupondo o estabelecer, 140 0 GOZA-O-SENTIDO IDEOLOGICO VIL Respostas do real Oolhar e a vor como objetos, 151 Quando o real responde, 155 Reproduzindo o real, 158 “Ama teu sinthomem como a ti mesmo”, 163 Do sintoma ao sinthomem, 168 “Em ti mais do que tu”, 169 A identificagio com o Sintoma, 173 VIIL.A Coisa catastréfica Lenin em Varsévia como objeto, 181 Modemismo versus pés-modemismo, 183 Aoutra porta da Lei, 188 O ato do Tribunal, 190 © gesto de Moisés, 192 Bibliografia 7 126 149 1st 181 195 Prefacio Nos debates teérieos atuais, cada vez mais se revela que 0 “cles 1i sabemn”, definindo a experiéneia ideolégica, anuncia a dimensio do gozo hi uma vertente postiva da cegucira ideolbgica, que consistena presenga inert, enaz.e dolorosa de um gozar que resiste a sua dissolugdo interpre~ tativa, No goza-o-sentido” ideolégico, exemplificado pela autoridade ‘obscena (0 Tribunal, o Castelo) do universo kafkiano, a andlise da idco- logia como discurso, da sobredeterminacio simblica do efeito-de-senti- {do ideol¥gico, esbarra em seu limite: reconhecer esse limite € no que sri i iphenss us ana ie YA poemodema. eae Esta obra dé prosseguimento As anilises'do livro precedente do autor, O mais sublime des histéricos — Hegel com Lacan (Jorge Zabat Editor, 1991), tentando situar as diferentes modalidades da presenga do Real na ideologia, Seus oito capitulosestéo dispostos em quatro parts: (0s impasses da “dessublimaedo repressiva” sio a parte que resume a confrontaglo da “Escola de Frankfurt” (a “teoria critica da sociedade”) com 0 fascismo, isto é a maneira como a “teoria critica” procurou upreender os paradoxes do gozar toiaitirlo por melo da nogdo de “desou- blimaglo reptessiva”; a leitura Iacaniana nos permite localizar o que falta | “tori critica” no conceito de supercu como agente obstinado e feroz ile um goz0 obtuso — é precisamente o supereu que serve de esteio pprineipal para o funcionamento da ideologia totalitaria. * © termo empregado no original no é simplesmente jouissance (gozo), e sim ‘um (ermo composto, introduzido por Lacan, que the & homsfono, jouls-sens, algo ‘bin goea-o-senso, goza-o-sentido, que em portugues nao preserva a homofonia do original. (N.T.) / 8 eles nao saben 0 gue fazem — As variagdes do totalitarismo tipico esbogam os contornos de uma teoria lacaniana do toullitarismo, procedendo em duas etapas: primeiro, pela definigio do “objeto totalitério” como objeto obsceno, verdade ‘oculta do saber tolalitirio, e, a0 mesmo tempo, pela determinagio do “cinismo™ como modalidade ideolégica dominante da pretensa “so de pés-ideolégica” atual; depois, pela analise comparativa da variedade fascista e da variedade stalinista do totalitarismo (a primeira se revela uma tenlativa de retorno ao discurso do Senhor’ enquanto a segunda pertence ‘20 discurso da Universidade). — O objero sublime da ideotogia articula alguns elementos de uma tcoria Iacaniana da ideologia em geral, Inicialmente, esse capitulo nos fornece uma [eitura politica do “grafico do descjo”, possibilitando apreender a dimensio “além da identificagio” (a parte supetior do grafico) como a dimensio da fantasia ¢ do goz0, do goza-o-sentido ideolégicos; em seguida, através de uma leitura lacaniana da nogao de Sublime em Kant € da I6gica da reflexdo encontrada em Hegel, ele reconstréi o gesto ideol6gico elementar pelo qual o sujeito assume como seu ato livre aquilo, que advém independentemente de sua atividade. — 0 goza-o-sentido ideoldgico centraliza-se no niicleo mais extremo da naquilo que, como ideologia, é mais do que (0 significado) ideolsgico. Ele demonstra como cada significagao ideolégica necessi de um *pedacinho de realidade”, percebido como a “resposta do real traga 0 caminho de Lacan desde 0 sintoma como mensagem cifrada até o sinthomem como né de go70; e, Finalmente, articula a maneira como esse sinthomem, na condigao de limite do sentido ideolégico e ponto de seu. desmoronamento, funciona, ao mesmo tempo, como sua condigio de possibilidade. © autor expressa seus agradecimentos & sta. Dominique Platier-Zeitoun por sua ajuda na tradugio do manuserito. + Otermo Matrre,em francés, mestre, senhor, dono, chefe ete, foi traduzido 20 longo do texto, dependendo do contexto, por mestre ou senhor. (N.R.) Os IMPASSES DA “DESSUBLIMAGAO REPRESSIVA” I A “teoria critica” frente ao fascismo Atworia eritica contra 0 “revisionismo” analitico Muito antes de Lacan, a “eoria critiea da sociedade” (TCS), ou seja, a Tiscola de Frankfurt, j4 havia articulado o projeto de um retomo a Freud" em oposigdo ao “revisionismo” analiico. Para delinear os contor- hos desse “etornda Freud”, otivro de Russel Jacoby, Amnésia social (Cf. Tacaby, 1975), pode nos setvir de referéncie inicial: como seu subtitulo indica ("Uma critica & psicologia conformista, de Adler a Laing”), ele permite ler o “revisionismo” psicanalitico em sua totalidade, desde Adler, primeira dessa escola, até @ antipsiquiatria (representada por Laing, Cooper, Esterson ete.), Sem omitir os neofreudianos ¢ os pés-freudianos (Fromm, Homey, Sullivan efe), bem como as diferentes versoes da lise “existencial” ou “humanista” (Allport, Frankl, Maslow etc.); cama leitura dessa corrente de pensamento, portanto, como um cnto de “amnésie” progressiva em que se perde, gradativamente, 2 insio radical da descoberla freudiana: seu micleo “eritico” insupor- tive ds eset autores cepa Feeud de gta mania os 6 por seu su oToRismo”, “pansexualismo", “naturalismo” e "dster- car apogee ere eeaaia dee a a iindividve absttato 4 Tiere dos determinantes objetivos, como um etal ait TSMITaS” Telentas, som Tovar em SOW 7S Concteta de Sua pration intersubyetiva, Sen conseguir situar a esirvtura, ‘iaren do indivcuo na ttle sco Mstrica de que cla fez parte (ur isso se opoenT esses auiores, emome de uma conceppio do homem Como set etjativo que transeende reiteradamente em seu projeto existen- i jetivos pulsionais sio apenss com; tes" ie adgutem sgueacio no contexte de asso a © do homem como mundo... 0 que equivale, no nivel propriamente (psivimalitico, & reafirmagio do cu como instincia ativa de sintese, A causa {rrimordial do desamparo psiquico néo € 0 recaleamento pulsionsl, deven- {io ser procurada, antes, no bloqueio dos potenciais criatives do homem: a 12 osimpusses da “deseblinagao repressva” izagdo existencal” bloqueada, em relagées interpessosis sem tilelicidade, na falta de ator ede coafianca ne conflito moral provo- ‘ado plas demanras do ineo alienedo, que fora individug a “geal feu verdadero eu” o'a “user mscars” © nas condigies “relicadas” da Drodugéo modcraa, Mesto qee os duuirbio piquicns asoumam a forma fe dieticblos da vida sexual, ato co deve exagetaro papel da xxtalidade cln existe apenas como campo (um dos campos) de expresso da rial tumana, da necesidade humane de. Gomunicagio her ninfomaniaca sé faz © ‘tertinada pel totiedade, que confete 4 mulher em geralo papel d objeto da satisfagio sexual, sua necessidade de contato interpessoal au- seh, PLinconsclenieso-€, it ABSOTNG-6-Aeposito de insinos iMfeites, Mas, antes, a resultante dos conflitos morsis ¢ criativos que.se ‘oman sips pamaindbdia (ar exemple, confine as reza.e4 natuteza, desconheeido na maioria das reflexdes seiais, constituiu uum fator decisive para a teoria critica, © que cria no individuo sue segunds natureza € apenas a historia acumuleda e sedimentada: uma histéria entorpeeida, por ter sido tio prolongadamente ndo-liberada liniformemente opressiva. A Segunda natureza nao € simplesmente ns: lureza ow histérla, ¢ a historia eristalizada que se afigura como natureza, acoby, 1975, p. 46.) condones bblelud,! nisi do jovem Mars, da antropologia existencialista cle. 0 homem como ser {lesrtaigada gue tem de preenchero vazio de sua rupturacom asubstancis natural pela atividade eriadora e pelas relagSes interpessoais de amor, sendo todos os tragos *negativos” (a destrutividade ete.) um mero efeito do bloqueio dos poten- cis criatives positives. Assim, sfinal, € o proprio Fromm quem “alicerga” 0 ‘edificio analitica de uma antropologia existencial a-histrica, 14 osimpasses da “dessublimagto repression” Essa “historieizagao” do edificio tedrico freudiano nada tem em n com a valorizagéo dos problemas sécio-culturais ¢ dos conflitos élicos ¢ emocionais do eu, mas chega a ser o proprio oposto do gesto revisionista que consiste em “domesticar” o inconsciente e atenuat, por ‘meio disso, a tensio fundamental e irredutivel entre o eu, estruturado de ordo com s valores sociais, ¢ 0s impulsos inconscientes que a ele se ‘opSem — tensio que confere 4 teoria freudiana seu potencial crtico. Numa sociedade alienada, o campo da “cultura” se assenta na “repressio” de um nticleo exeluido desse campo, assumindo a forma de uma quase- “natureza”; a “segunda natureza” é a testemunha petrifieada do prego pago pelo “progresso cultural”: a “barbirie™ interna propria cultura. Essa leitura “hieroglifica”, que tenta decifrar a rede pulsional quase-bio- I6gica enela detectar os vestigios de uma historia cristalizada, encontra-se ‘especialmente em Marcuse: Diferentemente dos revisionists, Marcuse no renuncia os conceltos quase-biolégicos de Freud; desenvolve-os, mas o faz de maneira mai ‘convincente do que Freud ¢ até conta ele. Os revisionists introduzem a histériae a dinémica social na psicanslise como que de jora — através dos valores, das normas e das melas soeiis, Marcuse identifies ahistria dentro dos coneeites; interpreta 0 “biologismo™ freudiano como uma segunda nnalureze, como a histdre eristaliza, (bid) Nio podemos nos equivocar quanto a referéncia hepeliana dessa ‘concepeiio do inconseiente tata-se de idemtficar a “mediagao subjetiva” ‘da objetividade, de captar a aparéncia de uma dada objetividade, de uma forga “substancial™ que determina o sujeito de fora, como resultado da “aulo-alienagio” do priprio sujeto, que nio se reconhece mais em se priprio produto — o inconsciente como “substancia psiquica aienada Entretanto, nao basta dizer, simplesmente, que a TCS descobriu a historia ‘onde Freud vira apenas os instintos naturais;falta-nos-ia, assim, a con- social efetiva: em demonstrar que ela possui, em si mesma, um peso cognitivo, pelo simples. » fato de manifestar decisivamente que “no ha nenhum testemunho da ¥ cultura que néo seja também um testemunho de barbirie” (Benjamim, \\ 1974, p. 187): todo “desenvolvimento dos potenciais superiores” pago com a “tepressio” pulsional a servigo da dominagio social, ¢ toda “subli- «\ magiio” (desvio da energia pulsional para formas de atividade “superio- res") traz.@ marca indelével de uma “repressio” que, em si, é “barbara” e essiva’.(Q_que parce, & primeira -r uma “insuficiéncia uma “imprecisto conceitual” ® ralismo", do franqueamento dos potenciais pulsionais, quer no sentido de \ » valores “supetiores” da cultura, quer, pior ainda, nosentido de um com- {im ascertimento resignado & necessidade do reealeamento, ema nome dos \ SY promiso, de uma “medida exata de recaleamento™ \ i ) 1, revela a “contra \ \ Sy cronies revsionismos tentam precisamente supri- OD inom css "ronindlgGo™ Inaportivel, anonecer seu coo incisive, enr nome Je Unt “CUTUFaTISNO” que implica a possibilidade de Som a0" raivimento da criatividade humana”, ) (jue.ndo-sefee-Teprossiva", papr com -© solrimento mado ck que dio ‘astern 35 Tormagics do inconsciente..Obtém-se, assim, um edificio epee eee ae ee ey Grecsbora Heudbesr A fa eric ac omit, toma Freud por um pensador nio-ideol6gico e por um tebrico das contra- n digdes, a saber, das contradigSes de que seus sucessores tentam se esquivar fe que tentam mascarar. Nesse sentido, Freud foi um pensador burgués “elissieo”, enquanto os tevisionistas foram ideslogos “clissicas". “A ‘etundeza de Freud”, esereven Adomo, (‘consiste, como em todos os pen- recaleamento” (Adorno, 1975, p. 122). Porisso todos os postutados de um cu fore”, tio favorecidos entre os revisionists, so marcados por un reealcamento) se entrclagam intinsecamente, € 0 “método catrtico ori- ’ ginirio” de andlise, que demanda uma conscicntizagio total ¢ & total aboligio do recaleamento, levara, radicalmente conduido, a desagrega- «io do eu € ao esfacelamento dos “mecanismos de defesa que aparecem ( identidade do prineipio do eu em oposigao a multiplicidade das presses impulsivas” (ibid, p. 131); por outro lado, qualquer demanda do “eu desse impasse através de uma “formagio de compromisso”, de um “ab- ‘surdo pritico-terapéutico segundo o qual os mecanismos de defesa deve equivoca: de um Iado, as duas fungdes do eu (a conscientizagio ¢ 0 nas resisiéncias, mecanismos sem os quais nio seria possivel conceber a forte” levaria a um recalcamento ainda mais intenso. A psicandlise sairia ser altemiadamente rompidos e reforgados” (ibid, p. 132): no caso das neuroses, em que o supereu ¢ “forte demais” eo eu ésuficientemente forte para destudar os instintos, seria preciso vencer a resistencia; no caso das psicoses, onde o supereu é “iraco demais”, eaberia, 20 contrario, reforga~ la, Dessa mancira, o término da anilise — o eariter contraditorio desse término — reprodiziria 0 antagonismo social, a oposigao entre as deman- das do individuo ¢ as da sociedade, ¥ ‘adores burgueses radicais, em deixar MOTE! 3 ' 1975-p. i} Vigne eee: 8 y a TCS, sem maiores consideragdes, sob o rétulo “freudo-marxista”: desde © comego, Adomo expoe, mediante um exame cialético exemplar, 0 fracasso e'a mentira tedriea de todas as tentativas “freudo-marxistas” de tiesoobrir uma Linguagem comum. 20 materalismo histérico e- teoria, eee rei cara cara calc per slo cansseere: oust | ee Acontradigdo como indice da verdade tebrica t epistemolsgico-pritico, absolutamente devisivo, da TCS: ela no visa, de Gentian otecnen odoin ein De case incase den ‘modo algum, a “resolver” ou a “abolir” essa contradigao através de um “parecer-tomr-a ajuda de nenhum procedimento imanente-tedrico que labs, wehia? ofits x dy nypde 18 ovimpasses da “dessublinaga repressiva’” * © carter “parcial” da psicanilise ¢ do materialismo hist6rico uma espécie de *sintese”; a0 contrétio, hé que tomar essa s{ntese” tedrica por um indicio da “querela real entre © particular e 0 universal” (Adomo, 1975, p. 97), pelo indicio que remete 40 efetivo precipicio intransponivel que estabelece uma separagio entre ‘vuniversalidade da totalidade social ¢ 0 individue. A linha diviséria entre a psicandlise © © materialismo histrico € “falsa, na medida em que € concebida como um dado impossivel de suprimir, isto 6, na medida em que, por causa dela, renuncia-se & intengao critica dé “conciliar” o universal com o particular; no entanto, nenhuma “sintese” imeddiato-teérica nos leva a essa “conciliago", mas tf0-somente 4 inversao revolucionsria da propria efetividade social. Na atual conjun- tura, qualquer totalidade 6 “falsa", continuando a assinalar a vit6ria do Universal, que & paga com o sofrimento individual. Qualquer “autonomia” do sujeito psicolégico representa, é claro, ‘um engodo ideol6gico, provocado pela “opacidade da objetividade alic nada” (ibid., p. 106): «impoténeia dos individuos diante da objetividade social se inverte ideologicamente na glorificagao do sujeito monadoldgi- co. O psicologismo dos “instintos sociais” é, pois, indubitavelmente, um feito ideoldgico das contradigoes sociai A niio-simultancidade do inconsciente © do consciente sé faz revelar os stigmas de uma evolugio social contraditéria. No inconseiente se scunula ‘aquilo que, no sueito, fica para tris, aquilo que nao é levado em eonta pelo progresso ¢ pelo Hluminismo. (Ibid, p. 113.) preci part evitar a *socializagé complemento “sécio-psicolégico” da “psicologia profunda” — justamen- te © que preocupou os revisionistas ao criticarem a insuficiéneia do “psicologismo” abstrato — € apenas a inverdade consolidada; de um lado, o exame psicol6gico, antes de mais nada a distngio entre 0 consciente ¢ o inconsciente, se rebaixou; de outro lado, chegou-se a0 falseamento das forgas motoras sociais como foreus psicoldgicas: mais exatamente, as da psicologia superficial do eu. (bid. p. 110.) Assim, a “socializagao” precipitada do inconsciente vingou-se du- pplamente: o gume da repressio social perdeuo fio — s6 ¢ possivel rastrear © impacto dessa repressio partindo dos sinais cifrados do inconsciente excluido do Social —,e as priprias relagdes sociais objetivas se transfor- 2 “teoria eric” freme ao fascismo 19 smaram em relagées psiquieas; dessa maneira, desaparecéram os dois pélos da tensio, tanto a heterogeneidade radical de inconsciente quanto a objetividade alienada do Social. O proprio Freud no conseguiu eseapar desse “curto-circuito” entre a vida pulsional e « efetividade histérica: 0 desconhecimento da mediagao social do “psiquico” retornou, nele, sob a 4 forma de uma tradugo demasiadamente apressads do “psiquico” em algo de social, por exemplo, ns falsa conclusio da tealidade pre-historiea do pariefo, que ele propés esquzendo qu, de aomdo com sue pospia {)neseze fo isso" (Ibid, p. 112 Dis FH porignt, bee Agora, jé poderiamos precisar um pouco a relayio entre a oricntagio da ‘TCS a propésito de Freud ¢ 0 “retorno a Freud” lacaniano: ambos apreen- dem scu préprio encaminhamento como uma espécie de contramovimento para restabelecer a verdade da descoberta freudiana, esquecida pelo revisionism, que esesmoteou o cunho sumamente critico da psicandlise através de sua transformagio numa ego-psychology (psieologia do eg0), fazendo dela urn veiculo do conformismo social e da adaptagio a um dado way of life (estilo de vida); pois bem, no funds, a TCS accita a teoria freudiana “tal e qual”, afitmando-a com todas as suas “antinomias™ inconseqiiéncias”, na medida em que vé nesses aspectos a propria indi- ‘cago de sua verdadc. Em outras palavras, essa orientagio torna desne- ‘cessério ¢ absurdo um “retorno a Freud” que vise a destacar, mediante um paciente trabatho te6rico, o que Freud “produziu sem saber” i ‘Assim, a TCS vé a grandeza de Freud, patadoxalmente, no préprio limite de sua descoberta; porque a “contradi¢io” fundamental de sua construgio tedrica, momento crucial de sua verdade, exprime precisamen- te a limitagio histérica de sua posigao ainda burguesa, ela é 0 proprio exiremo em que essa posigao, levada até o fim, revela sua contradigio imanente. Nio nos devemos esquecer, em nenium momento, de que a perspectiva da TCS continua sendo a de uma inversao revoluciondria: a perspectiva — nem que scja, como acontece em Adomo, “utdpica”, ‘concebida como uma “aspiragao & Alteridade total" (die Sehnsucht nach dem ganz Anderen) — de uma sociedade em quea “cultura” ndo seja mais paga com uma “regressio” birbara imanente, em que a “repressio” ndo ‘seja mais a condigao inevitivel da “sublimagio”. A TCS de modo algum censura o revisionismo por admitir a possibilidade de tal “sociedade som repressio”, referindo-se sua censura, antes, a0 fato de cle admitir a 20 osimpasies da “deveublinag do repress possibilidade de um individuo livre, “sem repressio”, no interior da : como se a “realizagao existencial”, o “livre desen- ic. fossem acessiveis simplesmente por meio da ima revolugdo global da sociedade. & justamente a mudanga radical da relagdo entre a teoria ea terapia naltias que revela mais claramente 0 corte entre o revsionismo € 2 ‘TCS; o revisionismo, a0 eolocar a teoria a servigo da terapia, perde de vis 1a tensdo dialética: numa sociedade alienada, a terapia esté, em “ilhima instineta, fadada & um fracasso cujes razdes si0 explicadas pela propria teoria analitica. Com efeito, 0 “éxito” terapéutico fea reduzido luma espécie de “normelizagio™ do analisando, « sua “adaptagio" no chammado funcionamento “normal” da sociedade existente; ora, a orienta fundamental da teria analitca consist preefsamente em destacar 0 modo como a “doenga mental” decorte da prdpria estrutura da sociedade exisiente, em demonstrar como a “loueury” individval se assenta num certo “mal-estar” imanente a “cvilizagio" como tal. A subordinagio da teoria ao ambito terapéutico acareta, por conseguinte, a perda de sua agudeza critics A psicandlise, como terapia individuel, continue necessariamente presa gibt hinenwiedererans- tellenden Ursinn — no hé nenhutn sent primordial que se} preciso reconstiuir, 0 sentido € sempre jé mediatizado: o significante é a verda do significado — é assim, sem divida, que se deve lera formula adorniana de que “a mediagio é a verdade do imediato como ume auséncia, como uma negagdo das dissonancias — € a propri: Que, por conse guinte,“adiviso do universo em assuntos prineipais Assuntos seeundérios (.) sempre tcnha servido pire meceaeee ee Fenomenos da extrema desigualdade social como simples ereccoece (Adomo, 1973, p. 166), que-a excepto sea lugar de iiipsoda vornnns | [Sor So, pane integral eat ntegrante do sistema, inca inplice as || estamos dando com uma stra base pls als see | | significante (“a rede extremamente ampla de relagdes intemnas™) deve ser | | identificada através dos detalhes, dos limites, dos “lapsos” do sistema, do | | | “conteido oficial, do “pensamento fundenssne™, 46 osinpusses de “dessublimagao reprssiva” Talver parega que esse modo de praticar a “impossibilidade da metalinguagem”, onde 0 método teérico se curva quase mimeticamente a Seu objeto, leve necessariamente a um certo “mat infinito™ poeticista, a lum continuo metonimico sem limites, sem ruptura, entre a “apresentagio”™ £0 “apresentado”; mas Adorno se distingue disso dle maneira muito clara ‘Tomemos, por exemplo, seu p-2queno ensaio sobre as relagdcs entre a Inisica ¢ a Tinguagem (Adomo, 1982): a misica “diz. o que as palavras ‘io podem exprimir”, coloca-se ali onde “a palavra falta”; evidentemente, oderiamos apreender essas formulagdes de maneira tradicional, na linha dda “misica como expressio imediata dos sentimentos inefiiveis” etc. —- se Adomo nito se reportasse precisamente 4 dimensio do texto: a fala se forma musical ao se fazer escrita, A “musicalidade”, portanto — longe de tera ver com um modo simbélico, ou mesmo com um mimetismo imagi- nétio —, deve ser situada do lado do real: nela, a fala toca num certo “impossivel”. ‘A “musicalidade” como tal jé se acha implicada na propria lingua- gem, na medida em que esta “abole” e “elimina” o querer-dizer, na medida ‘em que seu Gehait, seu “teor objetivo”, supcra a intengao significativa do autor. Como textura das relagdes formais, matematiziveis, entre os ele. mentos distintos absurdos, ela é “aquilo que, num texto, nao se traduz", Para retomarmos uma das definigdes do matema: “a iltinia lingua univer. sal depois da construgéo da torre de Babel” (Adorno, 1982, p. 7). "A 8, que diz. 0 que as palavras ndo podem exprimir, mas no péra de rdé-lo, na impossibilidade de dispor de palavras, pode, ainda assim, dizé-lo literalmente” (ibid.,p. 116), de modo que ha sempre um “encontro malogrado” entre 0 texto musical, carregndo de um “teor® absurdo, nio-simbolizado, ea riqueza sempre excessiva das interpretagSes simbs, licas; no é por acaso que Adomo fomece como exemplo da literatura “musical”, nao certos “efeitos musicais” da poesia (do tipo das Vogais, de Rimbaud), mas a prosa de Kafka: o texto kafkiano ¢ realmente carregaco de um “teor” que provoca a “compulsio a interpretar” e que, ao mesmo tempo, bloqueia ¢ anula todas as interpretagdes dadas. A “obra de arte”, . Sempre contém « momento do texto: “as obras de atic. 96 falam na medida em que sio um escrito [die Schriji]", diz Adorno na “Teoria estética (Adomo, 1970, p. 189). Nao surpreende, portanto, que seu ensaio programstico “Por uma misica informal” termine com esta frase: “Todas as utopias estéticas revestem-se hoje desta forma: fazer coisas que ‘nio_sabemos.o que sio” (Adomo, 1982, p. 340), 0 que constitul una Pardfrase de um trecho de O inomindvel, de Beckett, colocado na epigrafe iliando, dessa maneira, a dessexuagao da esfera “publica”: que é a “comunicagdo sem falhas” senao 0 ideal dessa comunhio universal de cidadios “maduros”, livres da presséo perturba- dora ¢ perturbada da sexualidade...? E desnecessiirio sublinhat como essa concepgao desfigura 0 proces- So interpretativo psicanalitico: nela se perde, pura e simplesmente, a distingio decisiva entre 0 pensamento latente do sonho ¢ o desejo sexual inconsciente, esquecendo que o pensamento do sonho é “uma seqiténcia normal de pensamentos” (c, como tal, exprimivel na linguagem da “co- municagio publica”), que “sé ¢ submetida a um tratamento anormal (como o do sonho e da histeria) quando um desejo inconsciente, derivado ochoque e suas repercussies 55 da infaincia © em estado de recaleamento, € transferido para ela” (Freud, 1967,)' Habermas reduz.o trabalho interpretativo a retradugto do “pensa- mento latente do sonho” na linguagem “cotidiana”, “normal”, da “comu- nicagao publica”, sem levar em consideraga0 que esse mesmo pensamento foi puxado, no inconsciente, por causa da “ara ida por um desejo que, no entanto, néo tem “original” na linguagem da “comunicagiio piiblica”, cujo Iugar se constitui apenas dos mecanismos do “trabalho do soho” € que, por conseguinte, esié irredutivelmente ligado & dimensio do contra-senso significante. Nao € surpreendente, portanto, que Haber- mas rompe a ligagio entre as duas “vertentes” da teoria freudiana (a logics ignificante do inconsciente e a teoria das pulses) ¢ aborde apenas a pi eira: 0 estatuto do desejo recalcado ‘ica totalmente inexplicado, e ele fa- Ja, em geral, das “necessidades recalcadas”, das “motivagdes ilicitas” etc. E esse 0 nicleo da incomensurabilidade entre a “compreensio™ hermenéutica (por mais “profunda” que seja) e a anilise significante: Habermas realmente pode afirmar que as mutilagdes como tal tém um sentido — mas 0 sentido como ta! ainda nao ¢ concebido como efeito retroativo de uma “mutilagio”, constitutivamente organizado em tomo de um “ponto cego”. Ficamos tenlados aver no dispositive habermasiano um verdadeiro “avesso” da pritica da anslise significante: a andlise funciona, em Habermas, como uma aproxinagio infinita do Ideal da simbolizagao total, consumada, que tapatia todos os buracos, sendo sua incompletude estritamente “empitica”, “fatual”, ac contrério da énfase absolutamente decisiva colocada por Lacan na finitude do processo analitico — finitude que nio deve ser compreendida, ¢ clero, no sentido de uma simbolizagao total “efetivamente realizada”: a anise termina quando a falta do sujeito se “superpde" a uma falta no Amago do Outro, isto €, quando o sujeito vivencia a impossibilidade de sua rsalizagao total no Simbélico como feito de um micleo “impossivel"/'real” no ceme do Simbstico, do “dejeto” que funciona como “eq '¢" impossivel do sujeito no Outro (G64) — um gesto talvez mais préximo de Hegel do que toda a conversa sobre a “apropriagdo da substincia reificada”... A data ¢ a da edigio francesa da Inzerpretagdo dos sonhos, vals. IV eV da Edigdo Standard Brasileirs das Obras Psicoldgicas Completas de Sigmund Freud (ES.B,), Rio de Jancito, Imago, 2a. edigio, cevista. (N.T.) 56 osinpasses da “dessublinago repressiva’™ Habermas de fato elimina a tenséo entre o campo hegeliano-marxis- ta comum e a nova problemética “subterrinea” que Adomo pusera em ‘movimento sem saber; todavia, ele de modo algum o faz de mancira @ “levar ao conceito” o impensado — ficariamos até mesmo tentados adizer © “teealeado” tedtico — de Adorno. Ele efetua, 20 contrrio, uma espécie dle “Foraclusio” tedrica: a nova dimensio, presente em Adorno, simples- ‘mente fala, ea tensio se perde, em vez de er resolvida no sentido proprio; ‘0 esperado “ponto de basta” Se furta e, em seu lugar, difunde-se uma lagarelice oca e vazia... E esse, pois, o patadoxo do “encontro malogrado” fundamental entre o “campo freudiano” e 0 da TCS: é que a TCS se ve como o lugar de um processo de “regress” a nogdes de simbolizagao, sujeito ete inteiramente externas so “campo freudiano”, dependentes do campo filosSfico-hermenéutico, isso, no exato momento em que faz da linguagem o ponto crucial de sua reinterpretagio do editicio psicanalitico, VARIAGOES DO TOTALITARISMO-TIPICO s mW Cinismo e objeto totalitario A “razéto ciniea” A definigao mais clementar da ideologia é, provavelmente, a de Marx, 0 célebre “disso eles nao sabem, mas o fazem”. Atribui-se a ideologia, portanto, uma certa ingenuidade eonstitutiva: aideologia desconhece suas, condigdes, suas pressuposigdes efetivas, e seu proprio conceito implica uma distancia entre o que efetivamente se faz.¢ 4 “falsa consciéneia” que se tem disso. Essa “consciéneia ingénua” pode ser submetida ao método critico-ideol6gico, que supostamente a leva a reflexao sobre suas condi- 0s efetivas, sobre a realidade social de que ela faz parte. Tomemos vim exemplo clissico que, ele mesmo, nao deixa hoje de dar a impresso de ‘uma certa ingenuidade: a universalidade ideoldgica, a nogéo ideolégica da “liberdade” burguesa compreende, inclui uma certa liberdade — a que tem o trabalhador de vender sua forga de trabalho —, liberdade cesta que & a prdpria forma de sua escravidio; do mesmo modo, a relagao de troca funciona, no caso da troca entre a forga de trabalho ¢ 0 eapital, como a propria forma da exploragio. A finalidade da anélise critico-ideolégica, portanto, ¢ detectar, por iris da universalidade aparente, @ particularidade de um interesse’ que destaca a falsidade da universalidade em questo: o universal, na verdade, ceslé preso ao particular, é determinado por uma constelagao histérica conereta. Ora, em seu livro Kritik der zynischen Vernunft (Critica da razdo cinica}>que recentemente obteve grande sucesso na Alemanha, Peter Sloterdijk defende a tese de que a ideologia funciona cada vez mais dé ianeira cinica, que torna ineficaz esse método critico-ideolégico: a formula da “tazio cinica™ seria “eles sabem muito bem o que esto fazendo, mas mesmo assim o fazem”. A razao cinica jé nio é ingénua, é co paradoxo de uma “falsa consciéneia esclarecida”: estamos perfeitamen-. te cénscios da falsidade, da particularidadé por tis da universalidade » { { 6 sariagdes do tonaltarisme tpico ideologica, mas, ainda essa universalidade. osigao deve ser distinguida do kynisme como subversio da ideolo- Bia oficial ingénua, solene, cheia de pathos. O kynisme' a critica popular, plebéia, da cultura oficial, que funciona coi 08 da ironia e do sarcasmo: ela confronta as frases patéticas da idcologia vigente com a efetiva banalidade © as ridiculariza, mostrando o interesse egoista, @ Jencia, a sede ilimitada de poder ete. por trés da sublime nobreza das frases ideolégicas. Seu método ¢ mais pragmético do que argumentativo: cla funciona pela remissito de um enunciado ideolégico a sua situagio de enunciagao (exemplo elissico: um politico prega o dever do sac patristico, eo kynisme evidencia seu interesse pessoal de tirar proveito cio dos outros..). | [postura de imoralidade direta, mas, antes, a propria moral colocada a 'servigo da imoralidade: a “sabedoria” cinica consiste em apreender a probidade como a mais rematada forma da desonestidade, a moral como «forma suprema da devassidio c a verdade como a forma mais eficaz da ‘mentira. Assim, o cinismo realiza uma espécie de “negagao da negagdo” pervertida; por exemplo, diante do enriquecimento ilicito, do roubo, do assalto, a reagio cinica consiste em afirmar quc o enriquecimento legitimo € um assalto muito mais eficaz do que o assalto criminoso e, ainda por cima, protegido pela lei, como na célebre frase de Brecht em stia Opera des tes vinténs: “Que 60 asalto de um banco comparado a fundago de uum Banco?” <1, O cinico vive da discordéncie entre os prinefpias proclemados € a ;pritica — toda a sua “sabedoria” consiste em legitimar a distincia entre leles. Por isso a coisa mais insuportivel para a postura efnica € ver \ransgredir a lei abertamente, declaradamente, isto €, algar-se a transgres- fo & condiga0 de um principio ético. Isso explica por que o herst dos tempos modernos, que firmou um “pacto com 0 diabo" e vive “além do ‘bem e do mal” (de Fausto a D. Juan), € punido, no final, com excessiva cerueldade, de mancira totalmente desproporcional a scus delitos — set castigo enfurecido & um ato cinico por exeeléncia J Assim, fica claro que, diante de tal edificio efnico, a “Ieitura sinto- mal”, o método critico-ideol6gico tradicional, nao funciona: nfo podemos subverter a “consciéncia cinica” por meio de uma leitura que tente conftontar o texto ideoldgico com seu “recaleado”, “dialetizé-lo”, rela cionando seu discurso superficial com um outro discurso, identificando, cinismo ¢ objeto toalitirio 6 através dos pontos em que “isso nfo funciona”, sua Fungo de classe, sua determinagao pot um interesse particular. Ora, mas seré que devemos dizer que, com a “consciéncia cinica”, saimos do campo idcoldgico propriamente dito © entramos no universo pés-ideolgico em que um sistema ideoldgico se reduz a um simples meio de manipulagio, que 6 levado a sério nem mesmo por seus inventores ¢ propagadores? Ernesse ponto que adquire todo o seu peso a distingdo claborada por || J. A, Miller entre o sintoma e a fantasia: a finalidade da ideologia | | “ingénua” que acarreta a abdicagio da “leitura sintomal”, eritico-ideols-| $6 faz destacar a dimensio mais fundamental da fantasia ideologica — 0 “cinico”, que “nao acredita nisso”, que sabe muito bem da inutilidade | «las proposigdes ideolégicas, desconkece, no entanto, a fantasia que estru- | tura a prépria “realidade” social. A fantasia ideolbgica Para captar essa dimensio da fantasia, devemos retornar a férmula mat- xista do “disso eles no sabem, mas o fazem”, e levantar, a seu respeito, uuma questo absolutamente ingénua: onde se encontra, aqui, o lugar da ilusio ideoldgica, no “saber” ou no “fazer”, na propria “realidade"? A primeira vista, a resposta parece dbvia: trata-se de uma simples discor- dancia entre 0 saber ¢ @ realidade — “no sabemos o que fazemos", fazemos uma coisa e temos uma falsa representagéo dela. Essa falsa representagio, naturalmente,é, ela mesma, por sua vez, o efeito necessa- rio de uma efetividade social alienada, invertida ete. Tomemos 0 caso do cchamado “fetichismo do dinheiro”:o dinheiro é,na realidade, efetivamen- {c,aencamago de uma rede de relagdes socias; sua fungio é uma fungéo social, e no uma propriedade do dinkeiro enquanto coisa — pois bem, essa fungo de ser a encarnagao da tiqueza, o equivalente geral de todas ‘as mereadorias, afigura-se a0s individuos como uma propriedade natural do dinheiro como coisa, como objeto natural — como se o dinhejro ja fosse, enquanto coisa, o equivalente geral, a encamagio da riqueza. esse © tema principal da etitica marxista da “reificagéo: por tas da coisifiea- 0, da relagdo das coisas, & preciso identificar as relagdes entre os homens, as relagdes sociais.. Tal interpretagao, contudo, desconhece a ilusfo, o erro que opera na reatidade social, na propria atividade dos individuos, naquito que cles “fazem’; 0s individuos que-se servem do dinheiro sabem muito bem que este nada tem de magico, que simplesmente exprime as relagGes sociais, chegam até a reduzir espontaneamente 0 dinheiro a um simples inal que ‘di ao individuo 0 direito de dispor de uma parte do produto social — eles 2 sariegdes do tonlitarismotipico sabem perfeftamente que hé “relagies humanas” por tis das “relagdes| entre as coisas”. O problema é que, no processo de trace, cles procestem, | agem — na realidade — como se 0 dinheiro fosse, em sua tealidade | imediata, na quatidade de coisa natural, a eneamagio da riqueza. O que | os individuos “nio sabe em é a ilusio fetichista | ‘que norteia sua prépria atividade efetiva: ha realidade do ato de troca, eles se paulam na ilusio fetichista. O lugar apropriado da ilusio é a realidade, 6 processo efetivo social. Tomemes, por exemplo, océlcbre tema marxista da inversio especilativa da relagio entre o universal ¢ 0 particular: 0 universal nfo passa de uma propriedade do particular conereto, das coisas ‘que existem efetivamente, realmente; na relagio do dinheiro, essa relagio iqucza conerets (0 valor de uso), $6 aparece como forma de manifestagdo, como expressio da unive salidade abstrata (0 valor de woes) — é o universal abstrato a verdadeira substincia. Marx denominou isso de “metafisica da mercadoria”, de “religio da vida cotidiana”: a base, a raiz do idealism filosofico deve ser buscadia na realidade do mundo das mereadorias — ja € o mundo das mercadorias que se comporta de maneira idealist: sc inverte: qualquer contetido particular, A inversdo gragas & qual o sensivel e conereto sé tem importincia como forma fenomenal do abstrato e geral, om ver de, inversamente, 0 abstrato. ‘cgeral ter importineia como propriedade do conereto, essa inversio cara leriza a expresso de valor. Ela dificulta, ao mesmo tempo, a compreet esta iltima. Quando digo: 0 direto romano e o diteto alemiin so ambos dliteitos, sso ¢ ici de compreender. Mas quando digo, ao contro: o direita, cessa coisa abstrala, se realiza no direto romano e no dircito alemdo, Ifo é, em dlireitos coneretas, a interconexdo toma-se mistca, (Mars, 1977, p. 133.) Assim, onde esti a ilusio aqui? Nao devemos esquecer que 0 | burgués, em sua existéncia cotidiana, nao é nada hegeliano, nao capta 0 particular como resultado do automovimento do universal, mas ¢ de fato |_um nominalista inglés ¢ acha que o universal é apenas uma propriedade io particular. O problema & que, em sua prépria pritiea;ete age como se ‘0 particular fosse-apenas a forma fenoméniea-do universal. Retomando Marx, ele dubs perfeitamente que o dirito romano ev dire alemao 830 ambos direitos, mas, mesmo assim, age como se 0 ditcito, essa coisa abstrata, se realizasse no dreito romano e no direito alemio. | __ A itusio, portamto, se duplica: consiste em desconhecer a ilusto | primordial que rege nossa atividade, nossa prépria realidad." As "© esiauto dessa “iluséo" &, pois, inconscieme — eis af uma mancira de apreenderatese lacaniana de que a verdadeira firmula do ateismo “Deus ¢ ineonsciente.” B, se levarmos em conta o fato de que 0 estatuto da ilusio cinismo e objeto ttaitrio 63 hosa prima tse: ideotogia nfo rm sua dimensio fundamental, umn) tructo imagindrio que dissimule ou embeleze a realidade social; no lado do “saber”, | fenguanto a fanta lusio”, um “erro” | ‘que estrutura a propria “realidade™, que determina nosso “fazer”, nossa idade. E somente a partir daf que podemos aprender a légica da formula «la razio cinica proposta por Sloterdijk: “eles sabem perfeitamente o que € no entanto o fazem”. Se a ilusio estivesse do lado do saber, a posigio cfnica seria simplesmente uma posi¢ao desprovida de ilu “sabemos 0 que fazemos ¢ 0 fazemos”. O paradoxo da posicao cinica $6 aparece ao identificarmos a ilusio atuante na propria realidade: “eles sabem muito bem que, em sua atividade real, pautam-se por uma ilusio, ‘mas, mesmo assim, continuam s fazé-lo”, Por exemplo, eles sabem que a “liberdade” que pauta sua atividade dissimula um interesse particular da exploragio e, no entanto, continuam a se pauitar por el fuze “Alei é a lei” De uma maneira mais precisa, poderiamos dizer que a fantasia ideoldgica, \vem tapar o buraco aberto pelo abismo, pelo cunho infundado da lei social. \ Esse buraco é delimitado pela tautologia “a leiéa lei", formula que atesta | ‘carter ilegalc ilegitimo da instauragio do reino da lei, de uma violéncia | fora da lei, real, em que se sustenta o proprio reino da lei. Pascal | provavelmente foi o primeiro a identificar esse contesido subversivo da {autologia “a lei & a lei": O hiibito eria toda a eqtidade, pela simples razdo de que & aceit fiundamento mistico de sua autoridade, Quem o remete a seu prineipio 0 nega. Nada é to falho quanto as leis que corrigem os erros, quem abedece & clas por serem justas estd obedecendo A justiga que imagina, mas nie & ‘esséneia da Ie: ela se concentra inteiramente em si; é lel, e nada mais (..) Por isso que o mais sibiodos legisladores dizia que, pelo bem das homens, cconvéin muitas vezes tapeé-los; e outro, bom politice: “Como ele deseo: thece a verdade que liberta, é bom que Seja enganado.” Nao eoavém que cle sintaa verdade da usurpagio; ela foi introduzida sem razio no passado fotichista que pauta nossa atividade é 0 de um “como se", de umm postulade ético, lumbém poderemos apreender por que, como diz Lacan, o estatutodo inconsciente é Atieo, 64 variagses da totaltrismertipico roa rz conv fue com ques ecru ana, tena, cela eu comego, se no quissimos qu ela logo shops fa (Pensées, 294.) s e pa E desnecessério salientar 0 caréter escandaloso dessas proposiedes: sso Kant foi forgado a proibir, em sua Metafisica da || usurpagio". Por ‘moral, qualquer questionamento relativo ais origens do poder legal — através de tal questionamento apareceria, precisamente, a mécula da violéncia ilegitima que continua a conspurcar, como 0 pecado original, a ppureza clo reino da lei; nlo surpreende nem um poueo, portanto, quc essa proibigio receba em Kant a forma paradoxal muito conhecida na psica- nilise: la prorbe algo que, ao mesmo tempo, ¢afirmado como impossivel: ‘Aorigem do poder supreme é pera. povo que a eles sibmete,insondvel do pono de vista pitico, too auto nso deve dscutruvamontccoea exe.) ese so par o pov J satmetdo# ci racoinos lotalente vaio, may apes dis, peigoue par Eel E init procarar as origenshturieusdesse mevaismo ino 6, nto pedetnosremoniar ae ponto de patie da soiedade evil), Mes algo ue merece se nia enprender ea sa (Kat, 1933, pp. 20h Em suma, nio podemos remontar a origem da lei porque niio deve- ‘mos; essa proibigao, que se conjuga com uma impossibilidade, nao ¢ outa ¢oisa senio a inversio exata da célebre formulagéo kantiana do dever: "Pods porque deves” ("Dir kannst, denn du sollst”). A fantasia politica. cua fimgdo ¢ precisamente preencher essa lacuna, essa falta atestada pela relerida interdigéo, € entio empregads por meio de um relato das “ori- ens”, por exemplo, 0 relate mitico do instiuidor do Poder das Leis, do ‘comeso do reino da legalidade. Podemos perceber que a argumentagio kantiana se reduz, no fundo, a evocagao de um certo cireulo; ndo podemos, 1no interior da lei, interrogar-nos sobre sua origem: “para ter o direito de Julgar legalmente o poder supremo, 0 povo ja deve estar unido sob uma vontade universal legistadora” (ibid., p. 201). Esse circulo de nosso aprisionamento na lei é, obviamente, o de uma estrutura sinerénica, de seu *sempre-jé”; o fechamento dessa estrutura sinerdnica implica ‘um Getto. vazio constitutivo (testermunhado pela referida interdigao), uma eerta falta no ceme do Outro institucional, falta onde a fantasia politica vem se inserever e ganhar consisténcia cinismo eobjerototalitério 6S “Kant com Sade” “No comego” da lei, portanto, hé um certo fora-da-lei, um certo real da violéncia que coincide com o proprio ato de instauragiio da lei, e todo ;pensamento politico-filoséfico cléssico repousa num desmentido desse| avesso da lei. E em razdo desse desmentido que devemos ler “Kant com Sade” Se Kant nao chegou a articular a falta no Outro, no “A maitisculo barrado”, nfo obstante — pare retomarmos a formulagao de J. A. Miller —, ele j@ articulou 0 B maitisculo barrado, sob a forma da inacessibilida- de, da transcendéneia absoluta do Bem supremo, tinico objeto © mébil legitimo, nio-patoldgico, de nossa atividade moral. Qualquer objeto dado, determinado, representado, que funcione como mébil de nossa vontade, ji € patoldgico no sentido kantiano: & um objeto empitico, ligado as condiges de nossa experiéncia finita c que nfo tem uma necessidade a priori: por isso é que o tinico mébil legitimo de nossa vontade continua er a propria forma da lei, a forma universal da maxima moral? A tese fundamental de Lacan & que esse objeto impossivel nos € dado, nao obstante, numa experiéneia especifica, ado objeto a pequeno, objeto-cau sa do desejo, que nada tem de “patoldgico”, e quendo-se reduz-a'um objeto da necessidade ow da demianda. E ai esta por que Sade deve ser apreendido como a verdade de Kant e856 objeto cuja experiéncia é evitada por Kant yarece, precisamente, na obra de Sade, sob a forma do executor, do carrasco, do agente que exerce sua atividade “sidica” sobre a vitima. O carrasco sédico nada tem a ver com o prazcr: sua atividade esti, no estrito sentido ético, além de qualquer mébil “patolégico”; ele 86 faz.cumprir seu dever (como ¢ atestado, afinal, pela falta de humor na obra de Sade). O carrasco sempre trabalha para 0 goz0 do Outro e nao para o seu, faz de si ‘um mero instrumento da Vontade do Outro: na cena sédiea, hi sempre, a0 \do do carrasco ¢ de sua vitima, um terceiro, o Outro para quem 0 sédico cexerce sua atividade, 0 Outro cuja forma pura é a da voz de uma lei aue se dirige ao sujeito na segunda pessoa, com o imperative “Cumpre teu dever!™ 2 Devemnas fiearatentos, neste ponto, para ndo perder o paradoxo Fundamental less solugdo kantiana: a forma da lel (digames, forma simbelica) vem no lugar, preenche 0 vazio da representagao fallose, impossivel, do objeto da Lei, e, portanto, funciona como o Vorstellungs-Reprasentanzfrewdiano: 0 represcatante {le uma representagio impossivel, ado Bem Supremo, cbjeto da Le, como “coisa ‘om si” transcendental 66 variagdes do totalitarismortipico A.grandera da ética kantiana esté em haver formulado, pela primeira vex, 0 “além do prineipio do prazer”: 0 imperativo categérico de Kant é it Tei do supereu que vai contra o bem-estar do sujeito, ou, mais precisamente, que € totalmente indiferente a seu bem-estat, so “principio do prazer", que &, do ponto de vista do “principio do prazer”'e de seu prolongamente, o “principio da realidade”, totalmente nio-econdmico ¢ nio-economizivel, absurdo. A tei moral € uma ordem feroz que nio admite desculpas ~ “podes porque deves” — e que ganha, por isso, 0 ar de uma neutralidade malfazcja, de uma indiferenga malévola SegundoLacan, Kant escamoteia o outro lado dessa neutralidade da py leimoral, sua maidade e sua obscenidade, sua malignide-le que remete a lum gozo por tris da ordem dak Lacan liga essa dissimulagio xo fato de | que Kant evits a divisio do sujeito (sujcito da enunciaeaojsujeito do | | emunciado) impticada na fei moral. E esse o sentido da critien lacanians * do exemplo kantiano do depésito e do depositirio — nele, o sujeito da cnunciagio fica reduzido a0 sujeito do enunciado, o depositétio fica reduzido a sua fungéo de depositirio, e Kant implica de antemao que estamos lidandlo com um depositério “a altura de sua responsabilidad”, com um sujeite que se deixa aprisionar irresiritamente na determinagéo abstrata de set 0 depositério (Lacan, 1966, pp. 767-8). No segunda semindrio, Lacan conta uma piada que segue na mesma direcao: “Minha noiva nunca falia 20s encontros, porque, se faltasse, néo seria mais minha noiva...” — também aqui, a noiva fica reduzida a sua fungao de noiva. Hegel ja havin detectado 0 potencial terrorista dessa redugao do sujeito | ]uma determinacio abstrata — a pressuposigéo do terror revolucionétio Jera, de fato, que o sujeito se deixasse reduzit a sua determinagio de {Cidadio que esiava “a altura de sua responsabilidade”, o que acarretava a elimingo dos sujeitos que nao estivessem & altura dessa responsabili- dade; nesse sentido, 0 te1Tor jacobino foi realmente a conseqiiénein da <ética kantiana. O mesmo acontece com a palavra de ordem do socialismo real:“O povo ineiro apéiao Partido.” Essa proposigio nio é,em absoluto, ‘uma constatagio empirica ¢, portanto, refutével: fhneinna performative mente, como a definigio do verdadeiro Povo, do Povo “A altura de sua responsabilidad>" — o verdadeiro Povo sio aqucles que apdiam o Partido: a logica, portanto, éexatamente idéntica a da piada sobre a noiva: “O pov inteiro apsia o Partido, porque os elementos do Povo que contestam 0 Partido sio, porisso, excluidos da comunidade do Povo.” |} ___Trata-se, no findo, do que Lacan chamou, em seus primeiros seini- | mérios, de fala fandadora, missio simbdlica etc. (“és minha noiva, me | |sepositivio, 0 ettadio et”), € que deve ser relido sob a perspestiva de | [conceituagéo posterior do Si, do significante-mestre: 6 piv da critica inismo e objeto tonaliirio, 6 lacaniana é que, no sujeito que toma a si uma missio simbélica, que accita cencarnar um S;, hd sempre um resto, um lado que nfo se deixa apanhar no S;,na missio, ¢ esse resto precisamente a vertente do objeto. O sujcito «la enunciagao, na medida em que eseapa A captagio no significante, & tmissio que the € conferida pelo vinculo sécio-simbslico, funefona como objeto. E essa, pois, a divisto entre o sujeito do enunciado ¢ 0 sujeito da ‘enunciagio da lei: por trés do Si, da lei em sua vertente neutra, pacifica- dora, solene © sublime, ha sempre um lado do objeto que anuncia a malignidade, a maldade e a obscenidade. Outra historinha muito conhe~ cida ilustra perfeitamente essa divisio do sujeito da Iei: & pergunta dos cexploradores sobre o canibalismo, responde o indigena: “Nao, nio hd mais canibais em nossa terra, comemes 0 titimo ontem.” No nivel do sujeito «lo enunciado, nio hi mais canibas, e 0 sujeito da enunciagao & precisa ‘mente esse “nés” que eomeu o iltimo canibal. Bis ai, portanto, a intromis- ‘io do “sujeito da entinciagao” da lei, evitado por Kant: o agente obsceno que come o tltimo canibal para garantir a ordem da lei, enquanto por isso mesmo a nega.’ Podemas agora esclarecer o estatuto da proibigiio para-