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SlavojŽižek

Acontecimento

Umaviagemfilosóficaatravésdeumconceito

Tradução:

CarlosAlbertoMedeiros

SlavojŽižek Acontecimento Umaviagemfilosóficaatravésdeumconceito Tradução: CarlosAlbertoMedeiros

AJela,

oacontecimentodaminhavida

Roteiro

Todosabordo:acontecimentoemtrânsito

PRIMEIRAPARADA.Estruturar,reestruturar,enquadrar

SEGUNDAPARADA.Felixculpa

TERCEIRAPARADA.Obudismonaturalizado QUARTAPARADA.Ostrêsacontecimentosdafilosofia

Conexão4.1.Averdadedói

Conexão4.2.Oselfacontecimental

Conexão4.3.Lavéritésurgitdelaméprise

QUINTAPARADA.Ostrêsacontecimentosdapsicanálise

Conexão5.1.Oreal:confrontandoaCoisa

Conexão5.2.Osimbólico:anovaharmonia

Conexão5.3.Oimaginário:ostrêsimpactos

SEXTAPARADA.Aanulaçãodeumacontecimento

Destinofinal:“Notabene!”

Notas

Índiceremissivo

Todosabordo:acontecimentoemtrânsito

“UMTSUNAMIMATOU maisde200milpessoasnaIndonésia!”“Umpaparazzoclicoua vaginadeBritneySpears!”“Finalmentepercebiquetenhodedeixartudoparatráse ajudá-lo!”“Abrutalconquistamilitarsacudiuopaísinteiro!”“Opovovenceu!Oditador fugiu!”“Comoépossívelhaverumacoisatãobelaquantoaúltimasonataparapianode Beethoven?”

Todas essas afirmações se referem àquilo que pelo menos alguns de nós consideraríamosserumacontecimento–umanoçãoanfíbiacommaisdecinquentatons decinza.Um“acontecimento”podesignificarumdesastrenaturaldevastadorouoúltimo escândalo protagonizado por uma celebridade, o triunfo do povo ou uma brutal transformaçãopolítica,umaexperiênciaintensaproporcionadaporumaobradearteou porumadecisãodeforoíntimo.Dadastodasessasvariações,nãoexisteoutraformade imporcertaordemaodilemadadefiniçãosenãoassumirorisco,embarcarecomeçar nossajornadacomumadefiniçãoaproximadadeacontecimento.

Testemunha ocular do crime[4.50 to Paddington, no título original], de Agatha Christie,teminícionomeiodeumaviagemdetremdaEscóciaparaLondres,emque ElspethMcGillicuddy,acaminhodeumavisitaasuavelhaamigaJaneMarple,vêuma

mulhersendoestranguladanocompartimentodeoutrotremqueestápassando(odas4h50

paraPaddington).Tudoocorremuitorapidamenteeavisãodelanãoéclara,demodoque

apolícianãolevamuitoasérioseudepoimento,poisnãoháevidênciasdequetenha

ocorridoumcrime;sóMissMarpleacreditaemseurelatoecomeçaainvestigar.Eisum

acontecimentoemseuestadomaispuroeessencial:algochocante,foradonormal,que

pareceacontecersubitamenteequeinterrompeofluxonaturaldascoisas;algoquesurge

aparentementeapartirdonada,semcausasdiscerníveis,umamanifestaçãodestituídade

algosólidocomoalicerce.

Existenumacontecimento,pordefinição,algode“milagroso”,dosmilagresdenossas vidascotidianasatéaquelesdasesferasmaissublimes,incluindoadodivino.Anatureza acontecimental da cristandade surge do fato de que ser cristão exige a crença num acontecimento singular – a morte e a ressurreição de Cristo. Talvez ainda mais fundamentalsejaarelaçãocircularentreacrençaesuasrazões:nãopossodizerque acreditoemCristoportersidoconvencidopelasrazõesquesustentamessacrença;só quandoacreditoéquepossocompreendertaisrazões.Amesmarelaçãocircularexisteno

amor:nãomeapaixonopormotivosprecisos(oslábiosdela,seusorriso…)–éporjáestar apaixonado que seus lábios etc. me atraem. É por isso que o amor, também, é acontecimental. Ele é a manifestação de uma estrutura circular em que o efeito acontecimentaldeterminaretroativamentesuascausasourazões. 1 Eomesmovalepara umacontecimentopolíticocomoosprotestoscontínuosnapraçaTahrir,noCairo,que derrubaramoregimedeMubarak:pode-sefacilmenteexplicá-loscomooresultadode impassesespecíficosdasociedadeegípcia(odesemprego,umajuventudeeducadasem perspectivasclarasetc.),mas,dealgumaforma,nenhumdelespoderealmenteelucidara energiasinérgicaquedeuorigemaoquesepassou.

Domesmomodo,osurgimentodeumanovaformadearteéumacontecimento. Tomemos o exemplo do film noir . Em sua pormenorizada análise, Marc Vernet 2 demonstraquetodasasprincipaiscaracterísticasqueconstituemadefiniçãocomumde filmnoir(iluminaçãochiaroscuro,câmerasemângulostortos,ouniversoparanoicodo romance policial noir com a corrupção elevada a uma característica metafísica personificadanafemmefatale)jáestavampresentesnaspelículasdeHollywood.Maso enigmaquepermaneceéamisteriosaeficiênciaepersistênciadanoçãodenoir:quanto maiscertoestáVernetnoníveldosfatos,quantomaisoferececausashistóricas,mais enigmáticassetornamaforçaealongevidadeextraordináriasdessanoção“ilusória”de noir–anoçãoquehádécadastemassombradonossaimaginação.

Numaprimeiraabordagem,umacontecimentoé,assim,oefeitoquepareceexceder

suascausas–eoespaçodeumacontecimentoéaquelequeéabertopelabrechaque

separaoefeitodascausas.Jácomessadefiniçãoaproximada,vemo-nosnoprópriocerne

dafilosofia,dadoqueacausalidadeéumdosproblemasbásicoscomqueelaseconfronta:

todasascoisasestãoconectadascomvínculoscausais?Tudoqueexistedevesustentar-se emrazõessuficientes?Ouseráqueexistemcoisasque,dealgumaforma,acontecema partir do nada? Como pode então a filosofia ajudar-nos a determinar o que é um acontecimento–umaocorrênciaquenãosesustentaemrazõessuficientes–ecomoeleé possível?

Desde sua própria origem, a filosofia parece oscilar entre duas abordagens: a transcendentaleaontológicaouôntica.Aprimeiraserefereàestruturauniversaldecomo arealidadeseapresentaparanós.Quecondiçõeséprecisoatenderparaquepercebamos umacoisacomorealmenteexistente?“Transcendental”éotermotécnicofilosóficopara talarcabouço,oqualdefineascoordenadasdarealidade–porexemplo,aabordagem transcendental nos torna conscientes de que, para um naturalista científico, só os fenômenosmateriaisespaço-temporaisreguladospelasleisnaturaisrealmenteexistem, enquanto,paraumtradicionalistapré-moderno,espíritosesignificadostambémsãopartes darealidade,enãoapenasprojeçõeshumanas.Aabordagemôntica,poroutrolado,está

preocupadacomarealidadeemsi,comsuaemergênciaesuadisposição:comoapareceuo universo?Seráqueeletemumcomeçoeumfim?Qualénossolugarnele?NoséculoXX, abrechaentreessesdoismétodosdepensamentosetornoumaisacentuada:aabordagem transcendental alcançou seu apogeu com o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-

1976),enquantoaontológicaparecehojetersidosequestradapelasciênciasnaturais–

esperamos que a resposta a nossa pergunta sobre as origens do universo venha da cosmologiaquântica,dasciênciasdocérebroedoevolucionismo.Bemnoiníciodeseu novobest-seller,Ograndeprojeto,StephenHawking proclamatriunfalmenteque“a filosofiaestámorta”: 3 questõesmetafísicassobreaorigemdouniversoetc.,queeram temadeespeculaçõesfilosóficas,agorapodemserrespondidaspelaciênciaexperimental e,assim,empiricamentetestadas.

Oquedeixaoviajanteinevitavelmentechocadoéqueasduasabordagensculminam numanoçãodeacontecimento:oacontecimentodarevelaçãodoser–dohorizontede significadoquedeterminacomopercebemosarealidadeenosrelacionamoscomela–no pensamento de Heidegger; e, no Big Bang (ou simetria quebrada), o acontecimento primordial do qual surgiu todo o universo, na abordagem ôntica, sustentada pela cosmologiaquântica.

Nossaprimeiratentativadedefiniçãodeacontecimentocomoumefeitoqueexcede suas causas nos traz de volta, assim, a uma multiplicidade inconsistente: seria um acontecimentoumamudançanamaneiracomoarealidadeseapresentaanósouuma violenta transformação da realidade em si? A filosofia reduz a autonomia de um acontecimentooupodeexplicaressamesmaautonomia?Assim,maisumavez:existiria algumaformadeimporcertaordemaessedilema?Oprocedimentoóbvioseriaclassificar os acontecimentos em espécies e subespécies – estabelecer uma distinção entre acontecimentos materiais e imateriais etc. Entretanto essa abordagem ignora a característicabásicadeumacontecimento:osurgimentosurpreendentedealgonovoque solapa qualquer esquema estável. A única solução adequada é, assim, abordar os acontecimentosdemaneiraacontecimental–passardeumanoçãodeacontecimentoa outracomoformadeexporosinescapáveisimpassesdecadaumadelas,demodoque nossajornadasedêatravésdastransformaçõesdaprópriauniversalidade,aproximando-se –esperoeu–doqueHegelchamoude“universalidadeconcreta”,quenãoéapenasum contêinerdestituídodeseuconteúdoespecífico,masengendraseuconteúdomediantea exposiçãodeseusantagonismosimanentes,impasseseinconsistências.

Vamos então imaginar que estamos viajando num metrô com muitas paradas e conexões,cadaparadarepresentandoumasupostadefiniçãodeacontecimento.Aprimeira paradaseráumamudançaoudesintegraçãodoarcabouçopormeiodoqualarealidadese apresentaparanós;asegunda,umaquedanosentidoreligioso.Aistosesegueaquebrada

simetria;ailuminaçãobudista;umencontrocomaverdadequedesmontanossavida habitual; a experiência de si [self] como ocorrência puramente acontecimental; a imanênciadailusãodaverdadequetornaaprópriaverdadeacontecimental;umtrauma que desestabiliza a ordem simbólica em que existimos; o surgimento de um novo “significante-mestre”,umsignificantequeestruturatodoumcampodesignificado;uma rupturapolíticaradical;eadissoluçãodeumarealizaçãoacontecimental.Aviagemserá atribulada, mas excitante, e muito será explicado pelo caminho. Assim, sem mais delongas,vamoscomeçar!

PRIMEIRAPARADA

Estruturar,reestruturar,enquadrar

EM7DESETEMBRODE1944,apósainvasãodaFrançapelosAliados,omarechalPhilippe

Pétain e membros do seu governo de Vichy foram realocados pelos alemães em

Sigmaringen,umgrandecastelonosuldaAlemanha.Foialiestabelecidaumacidade-

Estadoextraterritorial,regidapelogovernofrancêsnoexílio,nominalmentechefiadopor FernanddeBrinon.Houveatétrêsembaixadasnacidade-Estado:asdaAlemanha,da ItáliaedoJapão.Sigmaringentinhasuasprópriasestaçõesderádio(Radio-patrie,Icila France)esuaprópriaimprensa(LaFrance,LePetitParisien).Apopulaçãodoenclave era constituída por cerca de 6 mil cidadãos, dentre os quais conhecidos políticos colaboracionistas (como Laval), jornalistas, escritores (Céline, Rebatet), atores como

RobertLeVigan,quefezopapeldeCristoemGolgotha,deDuvivier,em1935,esuas

famílias,alémdecercadequinhentossoldados,setecentosmembrosdaSSdaFrançae algunscivisfrancesesnacondiçãodetrabalhadoresforçados.Ocenárioeradeextrema loucuraburocrática:parasustentaromitodequeogovernodeVichyeraoúnicogoverno francêslegítimo(oqueeraverdadeiro,dopontodevistajurídico),amáquinadoEstado continuoufuncionandoemSigmaringen,produzindouminfindávelfluxodedecretos,leis, decisõesadministrativasetc.semnenhumaconsequênciaconcreta,comoumaparelhode EstadosemEstado,correndoporcontaprópria,prisioneirodesuaprópriaficção. 4

Afilosofiamuitasvezespareceaseusoponentesdesensocomumumaespéciede Sigmaringendeideias,produzindosuasficçõesirrelevantesefingindoofereceraopúblico insightsdosquaisdependeodestinodahumanidade,enquantoavidarealprossegueem outro lugar, indiferente às gigantomaquias filosóficas. Seria a filosofia realmente um simples teatro de sombras? Um pseudoacontecimento imitando de modo estéril acontecimentosreais?Eseseupoderresidiremsuaprópriarecusaaoengajamentodireto? Ese,emsuadistânciaestiloSigmaringendarealidadeimediatadosacontecimentos,ela puderverumadimensãomuitomaisprofundadessesmesmosacontecimentos,demodo queaúnicaformadenosorientarmosnamultiplicidadedeacontecimentossejapormeio daslentesdafilosofia?Pararesponderessasperguntas,devemosprimeiroindagar:oqueé afilosofianoqueelatemdemaiselementar?

Emfevereirode2002,DonaldRumsfeld–entãosecretáriodeDefesadosEstados

Unidos–envolveu-senumpequenodebatefilosóficoamadorsobrearelaçãoentreo

conhecidoeodesconhecido:“Existem‘conhecimentosconhecidos’;existemcoisasque

sabemosquesabemos.Existem‘desconhecimentosconhecidos’;ouseja,existemcoisas quesabemosquenãosabemos.Mastambémexistem‘desconhecimentosdesconhecidos’– coisasquenãosabemosquenãosabemos.”Oobjetivodesseexercícioerajustificaro iminenteataqueamericanoaoIraque:sabemosoquesabemos(querdizer,queSaddam Hussein é o presidente do Iraque); sabemos o que não sabemos (quantas armas de destruiçãoemmassaSaddampossui);mastambémexistemcoisasquenãosabemosque nãosabemos–seSaddampossuialgumaoutraarmasecretasobreaqualnãotemosa menor ideia… Mas o que Rumsfeld esqueceu de acrescentar foi um quarto termo, fundamental:ascoisasquenãosabemosquesabemos–queéprecisamenteoinconsciente freudiano, “o conhecimento que não conhece a si mesmo”, como costumava dizer o

psicanalistafrancêsJacquesLacan(1901-81,ecujotrabalhoéumareferênciabásicapara

estelivro). 5 (Para Lacan, o inconsciente não é um espaço pré-lógico [irracional] de instintos, mas um conhecimento simbolicamente articulado ignorado pelo sujeito.) Se Rumsfeld pensava que os maiores perigos no confronto com o Iraque eram os “desconhecimentos desconhecidos”, as ameaças de Saddam das quais não podíamos sequersuspeitar,nossarespostadeveriaserqueosmaioresperigoseram,aocontrário,os “conhecimentosdesconhecidos”,ascrençasesuposiçõesrepudiadasàsquaisaderimos semteramínimaconsciência.Esses“conhecimentosdesconhecidos”sãonaverdadea principalcausadosproblemasenfrentadospelosEstadosUnidosnoIraque,eaomissãode Rumsfeldprovaqueelenãoeraumverdadeirofilósofo.“Conhecimentosdesconhecidos” sãooprincipaltemadafilosofia–formamohorizontetranscendental,ouoarcabouço,de nossaexperiênciadarealidade.Recordemosoclássicotemadoiníciodamodernidade comrespeitoàmudançadearcabouçoemnossacompreensãodomovimento:

Afísicamedievalacreditavaqueomovimentoeracausadoporumímpeto.Ascoisasestãonaturalmenteemrepouso. Umímpetofazcomqueumacoisasemova;masentãoeleseesvai,deixandooobjetoreduziravelocidadeeparar. Assim,paraquealgocontinuesemovendo,precisacontinuarsendoempurrado,eoempuxoéalgoquesepode sentir.[EssefoiatéumargumentoemfavordaexistênciadeDeus,jáquealgomuitogrande–comoDeus–tinhade estarempurrandoparamanterocéuemmovimento.]Assim,seaTerrasemove,porquenãosentimos?Copérnico nãoconseguiuresponderessapergunta…GalileutinhaumarespostaparaCopérnico:asimplesvelocidadenãoé sentida,somenteaaceleração.Assim,aTerrapodeestaremmovimentosemagentesentir.Avelocidadetambém nãomudaatéqueumaforçaaaltere.Essaéaideiadainércia,queentãosubstituiuaantiganoçãodeímpeto. 6

Essaguinadaemnossacompreensãodemovimento,doímpetoparaainércia,alteraa própriaformabásicadecomonosrelacionamoscomarealidade.Comotal,elaéum acontecimento:emsuaformamaiselementar,umacontecimentonãoéalgoqueocorra dentro do mundo, mas uma mudança no próprio arcabouço pelo qual percebemos o mundo e nos envolvemos nele . Esse arcabouço pode por vezes ser diretamente apresentado como uma ficção que, não obstante, nos possibilita dizer a verdade de maneiraindireta.Umbeloexemplode“verdadequetemumaestruturadeficção”são aquelesromances(oufilmes)emqueumaaçãodesenvolvidaporpersonagens(comoparte

doroteiro)refleteascomplicaçõesamorosasdessespersonagensnavidareal,comoo filmesobreamontagemdeOteloemqueoatorquefazopapel-títuloédefatociumento e,nacenafinaldapeça,realmenteestrangulaatéamorteaatrizquefazopapelde Desdêmona. Mansfield Park , de Jane Austen, fornece um exemplo antigo desse procedimento.FannyPrice,garotadefamíliapobre,écriadaemMansfieldParkporSir ThomasBertram.Elacrescealicomseusquatroprimos,Tom,Edmund,MariaeJulia, masétratadacomoinferioraeles;sóEdmundlhedevotaumaverdadeiraamabilidade,e, comotempo,umdoceamorsedesenvolveentreeles.Comascriançasjácrescidas,Sir Thomas,oinflexívelpatriarca,seafastaporumano;nesseperíodo,oeleganteemundano HenryCrawfordesuairmãMarychegamàvila,esuachegadadesencadeiaumasériede intrigasromânticas.Osjovensdecidemmontarumapeça,Lovers’Vows[Jurasdeamor]; Edmund e Fanny incialmente se opõem ao plano, acreditando que Sir Thomas o desaprovaria.Edmund,comrelutância,acabaporconcordaremfazeropapeldeAnhalt, amantedapersonagemvividaporMaryCrawford,afimdeevitarqueosoutrostragam alguémdeforaparaisso.AomesmotempoqueofereceaMaryeEdmundummeiopara falaremdeamorecasamento,apeçaforneceumpretextoparaHenryeMariaflertarem empúblico.Paraadecepçãodetodos,SirThomaschegainesperadamentenomeiodeum ensaio,oqueacabacomoplano. 7 Masatéessepontooquevemoséumasupostaficção representandoumarealidadequeninguémestádispostoareconhecer.

Frequentemente,numanarrativa,éapenaspormeiodeumaguinadasemelhanteem termosdeperspectivaquecompreendemosrealmentedoquetrataahistória.Muitomais queofamosoWR:Mistériosdoorganismo,umtrabalhoposterior,aobra-primadeDušan

MakavejevéInocênciadesprotegida(1968),comsuasingularestruturade“umfilme

dentrodeumfilme”.OheróiéDragoljubAleksić,umenvelhecidoacrobataaéreosérvio querealizavasuasacrobaciaspenduradoemaviõeseque,duranteaocupaçãodaSérvia pelaAlemanhanaépocadaguerra,filmouemBelgradoummelodramaridiculamente sentimentalcomessetítulo.OfilmedeMakavejevincluiessapelículaemsuatotalidade, acrescentandoentrevistascomAleksićeoutrastomadasdedocumentário,eachaveparao filmeéarelaçãoentreessesdoisníveiseaquestãoquecolocam:dequeméainocência desprotegida?OfilmedeAleksićresponde:agarotaqueelesalvadasmaquinaçõesdesua malévolamadrastaedohomemqueestalhedesejaimporcomomarido.Masaverdadeira resposta é: a “inocência desprotegida” é a do próprio Aleksić, que persiste em suas perigosas acrobacias apesar da idade avançada, posando para a câmera, atuando e cantando,maltratadoeridicularizadopelosalemãesepeloscomunistasnopós-guerra,e finalmentepelaprópriaplateiadofilme,quesópoderirdesuaatuaçãoridiculamente ingênua. Quanto mais avança o filme de Makavejev, mais tomamos consciência do sofrimentoimplícitonafidelidadeincondicionaldeAleksićasuamissãoacrobática.O

quepodesermaisridiculamentetrágicodoqueverumvelhoemseuporãopendurado pelosdentesaumacorrenteegirandootorsoparaacâmera?Elenãoestáseexpondo dessamaneiraaoolhardopúblicoemtodaasuainocência,semmeiosdeseprotegerdo ridículo?Essaguinadaemnossaperspectiva,quandonostornamosconscientesdequea verdadeirainocênciaaserprotegidaéadeAleksić,emboraelesejasupostamenteoherói, assinala o momento acontecimental do filme. É a exposição de uma realidade que ninguémqueriaadmitir,masqueagorasetornouumarevelaçãoemudouocampode jogo.

EmHollywood,amãedetodososfotogramasé,evidentemente,aformaçãodeum

casal.ÉassimqueaWikipédiadescreveacenafinaldeSuper8,filmedeficçãocientífica

deStevenSpielberg:“Ofilmeterminacomanaveestelardecolandorumoaoplanetanatal dacriatura,enquantoJoeeAliceficamdemãosdadas.”Ocasalseaproxima–é“criado” –quandoaCoisa,aqueLacanserefeririacomo“oterceirotraumático”,equeserviu comoumambíguoobstáculoàcriaçãodocasal,éfinalmentederrotadaedesaparece.O papel do obstáculo é ambíguo porque, embora este possa ser sinistro, é apesar disso necessáriopara,emprimeirolugar,aproximarocasal;éodesafioquedevemenfrentarou oobstáculoquedevemsuperarafimdeperceberemquedesejamficarjuntos. 8

Comopodemosdesvalorizaressaestruturanarrativaquesubordinaoencontrocom umaCoisaàformaçãodeumcasal?Tomemosoclássicoromancedeficçãocientífica

Solaris,deStanisławLem,publicadoem1972,esuaversãocinematográficade1974,

dirigidaporAndreiTarkovski.Solariséahistóriadopsicólogodeumaagênciaespacial, Kelvin,enviadoaumanavesemiabandonadaorbitandoumplanetarecém-descoberto, Solaris, onde nos últimos tempos têm acontecido coisas estranhas (cientistas enlouquecendo,entrandoemalucinações,suicidando-se).Solariséumplanetacomuma fluidasuperfícieoceânicaquesemoveincessantementee,detemposemtempos,assume formas reconhecíveis – não apenas intrincadas estruturas geométricas, mas também gigantescoscorposdecriançasouedifíciosrealmenteexistentes.Emborafracassemtodas astentativasdesecomunicarcomoplaneta,oscientistassustentamahipótesedeque Solariséumcérebrogigantequedealgumaformalênossasmentes.Logodepoisdesua chegada,Kelvinencontraaseuladonacamasuafalecidamulher,Harey,queanosantes, naTerra,sesuicidaraapóstersidoabandonadaporele.Kelvinnãoconsegueselivrardela, todasassuastentativasfracassandocompletamente(depoisdeeleenviá-laaoespaçonum foguete,elaserematerializanodiaseguinte);eaanálisedotecidocorporaldeHarey mostraqueelanãosecompõedeátomoscomosereshumanosnormais.Debaixodeum certonívelmicro,nãoexistenada,apenasumvazio.Finalmente,Kelvindescobreque Solaris,essecérebrogigante,materializaasfantasiasmaisprofundasquesustentamnosso desejo;éumamáquinaquematerializanarealidadeoobjetofantasísticoabsolutoqueeu

nuncaestariaprontoaaceitar,emboratodaaminhavidapsíquicagireemtornodele.

HareyéamaterializaçãodasmaisprofundasfantasiastraumáticasdeKelvin.

Lidadessaforma,ahistóriaérealmentesobreajornadainternadoherói,suatentativa de chegar a termos com sua verdade reprimida ou, como disse o próprio Tarkovski:

“Talvez,efetivamente,amissãodeKelvinemSolaristenhaumsóobjetivo:mostrarqueo amordooutroéindispensávelatodavida.Umhomemsemamornãoémaisumhomem. Opropósitodetodaa‘solarística’émostrarquehumanidadedeveseramor.”Emclaro contrastecomisso,oromancedeLemtemcomofocoainertepressãoexternadoplaneta Solaris, dessa “Coisa que pensa” (para usar uma expressão de Kant que se encaixa perfeitamenteaqui):aessênciadoromanceéprecisamenteofatodeSolariscontinuar sendoumOutroimpenetrável,sempossibilidadedecomunicaçãoconosco.Éverdadeque elenosdevolvenossasfantasiasíntimasrejeitadas,maso“Oquevocêdeseja”alémdesse ato permanece rigorosamente impenetrável (por que ele faz isso? Como resposta puramentemecânica?Parajogarconoscojogosdemoníacos?Paranosajudar–ounos forçar–aconfrontarnossaverdaderejeitada?).Seriainteressantecompararaobrade TarkovskicomareleituracomercialporHollywoodderomancesqueserviramdebase para filmes: Tarkovski faz exatamente o mesmo que o pior produtor de Hollywood, reimprimindooenigmáticoencontrocomaalteridade,aCoisa,noarcabouçodaformação docasal.

AmaneiraderompercomoenquadramentodeHollywoodé,assim,nãotrataracoisa como apenas uma metáfora da tensão familiar, mas aceitá-la em sua absurda e

impenetrávelpresença.IssoéoqueocorreemMelancolia,deLarsvonTrier(2011),que

apresenta uma interessante inversão dessa fórmula clássica de uma Coisa-objeto (um asteroide,umalienígena)queservedeobstáculorevigoranteàcriaçãodocasal.Nofinal dofilme,aCoisa(umplanetaemrotadecolisãocomaTerra)nãoseretrai,comoem

Super8;eleatingeaTerra,destruindotodasasformasdevida,eofilmeésobreas

diferentesmaneirascomoosprincipaispersonagensenfrentamaiminentecatástrofe(com reaçõesquevariamdosuicídioàaceitaçãocínica).Oplanetaé,assim,aCoisa–dasDing – em sua forma mais pura, como diria Heidegger: a Verdadeira Coisa que dissolve qualquerenquadramentosimbólico–nósavemos,énossamorte,nadapodemosfazer. 9 O filmecomeçacomumasequênciaintrodutória,filmadaemcâmeralenta,envolvendoos personagens principais e imagens do espaço, que apresenta os motivos visuais. Uma tomadadaperspectivadoespaçomostraumplanetagiganteaproximando-sedaTerra;os doisastroscolidem.Ofilmeprossegueemduaspartes,cadaqualcomonomedeumade duasirmãs,JustineeClaire.

Naprimeiraparte,“Justine”,umjovemcasal,JustineeMichael,estáemsuarecepção

nupcialnamansãodairmãdela,Claire,eseumarido,John.Asuntuosafestavaida

tardinhaaoamanhecercomcomidas,bebidas,dançaseosconflitoscomunsdefamília(a

mãedeJustine,amarga,fazobservaçõessarcásticasecomentáriosofensivos,oqueacaba

resultandonatentativadeJohndeexpulsá-ladesuapropriedade;ochefedeJustinefica

cercando-a,implorandoqueescrevaparaeleumtextopublicitário).Justineseafastada

festaesetornacadavezmaisdistante;fazsexocomumestranhonogramadoe,aofinal

darecepção,Michaelaabandona.

Nasegundaparte,“Claire”,Justine,doenteedeprimida,passaamorarcomClaire, Johneofilhodeles,Leo.Emboranãoconsigarealizaratividadesnormaisdodiaadia, como tomar banho ou até comer, Justine melhora com o tempo. Durante sua estada, Melancolia,umenormeplanetatelúricoazulqueseocultavaportrásdosol,torna-se visívelnocéuàmedidaqueseaproximadaTerra.John,queéastrônomoamador,fica excitado com o planeta e aguarda ansioso pelo “desvio gravitacional” esperado pelos cientistas,osquaisgarantiramaopúblicoqueaTerraeMelancoliavãopassarumpelo outrosemcolidirem.MasClaireestáficandocommedoeacreditaqueofimdomundo estápróximo.Nainternet,encontraumsitequedescreveosmovimentosdeMelancolia emtornodaTerracomouma“dançadamorte”emqueapassagemdeumpelooutrofará comquecolidamlogodepois.Nanoitedodesviogravitacional,parecequeMelancolia nãovaiatingiraTerra,maslogodepoisocantodospássarosseinterrompeabruptamente enodiaseguinteClairepercebequeMelancoliaestácirculandodevoltae,nofinal,vai colidircomaTerra.John,quetambémdescobrequeofimestápróximo,cometesuicídio com uma overdose de pílulas. Claire fica cada vez mais agitada, enquanto Justine permanece inalterada diante da catástrofe iminente: calma e calada, aceita o acontecimentovindouro,afirmandosaberquenãoexistevidaemnenhumoutrolugardo universo.ElaconsolaLeoconstruindouma“cavernamágica”,umabrigosimbólicofeito degalhos,nogramadodamansão.Justine,ClaireeLeoentramnoabrigoquandoooutro planeta se aproxima. Claire continua agitada e temerosa, enquanto Justine e Leo permanecemcalmosedemãosdadas.Ostrêssãoinstantaneamenteincineradosquando ocorreacolisão,destruindoaTerra.

Essanarrativaéentremeadapornumerososdetalhesengenhosos.ParaacalmarClaire, John diz-lhe para observar Melancolia através de um círculo de arame que abrange exatamenteseuformatocircularnocéu,erepetiraexperiênciadezminutosdepoispara verqueotamanhodiminuiu,deixandoespaçonamoldura–umaprovadequeMelancolia estaria se afastando da Terra. Ela o faz e fica eufórica ao ver um formato menor. Entretanto,quandoobservaMelancoliaatravésdamolduraalgumashorasdepois,fica horrorizada ao perceber que o formato do planeta agora se expandiu muito além da molduradocírculodearame.Esseéocírculodafantasiaenquadrandoarealidade,eo choquevemquandoaCoisairrompeesederramasobreesta.Hátambémmaravilhosos

detalhesdosdistúrbiosqueocorremnanaturezaquandoMelancoliavaiseaproximando daTerra:insetos,vermes,barataseoutrasformasdevidarepugnantes,geralmenteocultas debaixodagramaverde,emergemnosolo,tornandovisívelorepulsivorastejardavida debaixodeumasuperfícieidílica–éorealinvadindoarealidade,arruinandosuaimagem. (IssoésemelhanteaofilmeVeludoazul,deDavidLynch,emque,numafamosatomada logoapósoataquecardíacodopai,acâmerasemoveextremamentepróximadasuperfície dagramaeentãopenetranela,tornandovisíveisasmicroformasdevidarastejantes,o repulsivorealdebaixodaidílicasuperfíciedeumsubúrbio.) 10

AideiadeMelancoliaoriginou-senumasessãodeterapiaaquevonTriersesubmeteu duranteumtratamentoparadepressão:opsiquiatradisse-lheque,sobextremapressãoou ameaçadecatástrofe,pessoasdepressivastendemaagircommaiscalmadoqueasoutras –jáesperamquecoisasruinsaconteçam.Essefatooferecemaisumexemplodacisão entre a realidade – o universo social de costumes e opiniões convencionais em que vivemos–eabrutalidadetraumáticaeabsurdadoreal:nofilme,Johnéum“realista”, totalmenteimersonumarealidadehabitual,demodoque,quandoascoordenadasdessa realidadesedissolvem,todooseumundoentraemcolapso;Claireéumahistéricaque começa a questionar tudo num acesso de pânico, mas ainda assim evita um colapso psicóticototal;eadepressivaJustinecontinuaagindocomodecostumeporquejáestá vivendonumafugamelancólicadarealidade.

Ofilmeapresentaquatroatitudessubjetivasemrelaçãoaesseacontecimentofinal(a Coisa-planeta atingindo a Terra), tal como Lacan as entenderia. John, o marido, é a encarnaçãodoconhecimentoacadêmico,queentraemcolapsoemseuencontrocomo real;Leo,ofilho,éoquerubínicoobjeto-causadodesejodosoutrostrês;Claireéa mulher histérica , o único sujeito pleno do filme (na medida em que subjetividade significadúvidas,questionamento,incoerência);eisso,surpreendentemente,levaJustineà posiçãodeummestre,oúnicoqueestabilizaumasituaçãodepânicoecaosaointroduzir umnovosignificante-mestre,quetrazordemaumasituaçãoconfusa,conferindo-lhea estabilidadedosignificado.Osignificante-mestredeJustineéa“cavernamágica”queela constróiparaestabelecerumespaçoprotegidoquandoaCoisaseaproxima.Deve-seter muitocuidadoaqui:Justinenãoéummestreprotetorqueofereceumabelamentira–em outraspalavras,elanãoéopersonagemdeRobertoBenigniemAvidaébela. 11 Oqueela provêéumaficçãosimbólicaque,evidentemente,nãotemeficáciamágica,masfunciona emdeterminadonívelparaevitaropânico.OobjetivodeJustinenãoénoscegarem relaçãoàiminentecatástrofe:a“cavernamágica”noshabilitaaaceitarprazerosamenteo fim.Nãohánadademórbidonisso;talaceitaçãoé,pelocontrário,opanodefundo necessáriodeumengajamentosocialconcreto. 12 Justineé,assim,aúnicapessoacapazde

proporumarespostaapropriadaàcatástrofeiminente,assimcomoàobliteraçãoplenade

todoenquadramentosimbólico.

Para assimilar adequadamente a aceitação desse fim radical, deve-se arriscar uma comparaçãoentreMelancolia,deTrier,eAárvoredavida,deTerrenceMalick(lançado nomesmoano).Emambososfilmesahistóriaenvolveosmesmosdoisníveis:trauma familiarversuscatástrofecósmica.Emboranãosepossaevitararepulsaemrelaçãoà excessivaespiritualidadedeAárvoredavida,ofilmetemalgunsmomentosinteressantes. 13 EleabrecomumacitaçãodoLivrodeJó,arespostadeDeusàqueixadeJósobretodos osinfortúniosqueoatingiram:“Ondeestavastu,quandoeufundavaaterra…Quandoas

estrelasdaalvajuntasalegrementecantavam?”(38:4,7).Essaspalavrasobviamentese

referemàfamíliaO’Brien,quesevênumaposiçãosemelhanteàdeJóaosofreruma catástrofeimerecida:noiníciodeAárvoredavida,asra.O’Brienrecebeumtelegrama informando-adamortedofilho,RL,comdezenoveanosdeidade;osr.O’Brientambémé notificado por telefone, quando está num aeroporto, e a família é lançada numa turbulência.Comodevemosinterpretaressasériedeperguntasretóricasoferecidaspor Deus em resposta à pergunta de Jó sobreo motivo dos infortúnios que o atingiram? Similarmente,comodevemosentenderatragédiaquerecaisobreosO’Brien?Emsua resenhadofilme,DavidWolpeapontaaambiguidadedarespostadeDeus:

AdescriçãoporDeusdasmaravilhasdanaturezapodeservistadeduasmaneiras.Umapossibilidadeéquea imensidão do mundo natural, em sua inclemente indiferença, nada tem a ver com as preocupações dos seres humanos.Odesertonãoligaquandovocêchora,assimcomoojorrodacataratanãovaipararporpiedade.A naturezanosmostrasuafaceinexpressivaegrandiosa,enósnãosomosnada.Comefeito,Jócontradizseuprotesto, afirmandoque“eusouapenaspoeiraecinzas”…Masgradualmentevemosquecadaimagem,dacélulaaocosmo,é nãoapenasgrandiosa,masbela.AsegundametadedacitaçãodeJó,comocantamasestrelasdaalva,lembra-nosde queaapreciaçãodamaravilhaedabelezatambémépossível.Podemosperdernossoeunaindiferençadanatureza, mastambémpodemosperdê-loemsuamagnificência.Nósvemosomundocomoinsensívelousublime?Odramade nossavidaemortesedesenrolacomrapidez,maséencenadonumpalcoinigualavelmentemaravilhoso. 14

AleituramaisradicaldoLivrodeJófoipropostanadécadade1930peloteólogo

norueguêsPeterWesselZapffe,queacentuoua“imensurávelperplexidade”deJóquando opróprioDeusfinalmenteaparecediantedele:esperandoumDeussagradoepurocujo intelectoéinfinitamentesuperioraonosso,Jó“vê-seconfrontadocomumgovernadordo mundodeumprimitivismogrotesco,umcósmicohabitantedascavernas,umfalastrãoe fanfarrão,quaseagradávelemsuatotalignorânciadaculturaespiritual…Oqueénovo paraJónãoéagrandezadeDeusemtermosquantificáveis;dissoelejátinhapleno conhecimento…anovidadeésuabaixezaqualitativa”. 15 Emoutraspalavras,Deus–o Deusdoreal–édasDing,ummestrecrueleimpulsivoquesimplesmentenãotemum sensodejustiçauniversal.Assim,comoAárvoredavidasesituacomrespeitoaessas interpretações?

Malicksebaseianoeloentretraumaefantasia:umadaspossíveisreaçõesaotraumaé

afugaparaafantasia,ouseja,imaginaromundoemsimesmo,foradenossohorizonte

subjetivo.Elenosmostraouniversoemformação,incluindoaViaLácteaeoSistema

Solar.Vozesapresentamdiversasquestõesexistenciais.NaTerrarecém-formada,vulcões

entramemerupçãoemicróbioscomeçamaseformar.Mostra-seavidamarinhainicial,

depoisplantassobreaterra,depoisdinossauros.Vistodoespaço,umasteroideatingea

Terra…EssalógicarecentementealcançouoclímaxnolivrodeAlanWeismanOmundo

semnós,umavisãodoqueteriaacontecidoseahumanidade(eapenasela)subitamente

desaparecessedaTerra–adiversidadenaturalmaisumavezflorescendo,anatureza

superandoaospoucososartefatoshumanos.Aoimaginaromundosemanossapresença,

nóshumanossomosreduzidosaumsimplesolhardesencarnadoobservandonossaprópria

ausência,e,comoapontouLacan,essaéaposiçãosubjetivafundamentaldafantasia:

observaromundonacondiçãodainexistênciadosujeito(afantasiadetestemunharoato

desuaprópriaconcepção,acópuladospais,ouopróprioenterro,comoTomSawyere

HuckFinn).Omundosemnósé,assim,afantasiaemsuaformamaispura:testemunhara

própriaTerrarecuperandoseuestadopré-castradodeinocência,antesdenóshumanosa

estragarmoscomnossosdejetos.

Assim,enquantoAárvoredavidaseevadeparaumafantasiacósmicasemelhantea ummundosemnós,Melancolianãofazomesmo.Nãoimaginaofimdomundopara fugir do impasse familiar: Justine é realmente melancólica, desprovida de um olhar fantasístico.Querdizer,amelancolianãoé,emsuaformamaisradical,ofracassoda atividadedolamento,oapegopersistenteaoobjetoperdido,masseuexatooposto:“a melancoliaofereceoparadoxodeumaintençãodeenlutarqueprecedeeantevêaperdado objeto”. 16 Aíresideoestratagemadamelancolia:aúnicaformadepossuirmosumobjeto quenuncativemos,queestavaperdidodesdeoprincípio,étratarumobjetoqueainda possuímosplenamentecomosejáestivesseperdido.Éissoquedáumsaborsingulara umarelaçãodeamormelancólica,talcomoaquelaentreNewlandeacondessaOlenska em A época da inocência , de Wharton: embora os parceiros ainda estejam juntos, imensamente apaixonados, usufruindo da presença um do outro, a sombra da futura separaçãojáatingeseurelacionamento,demodoqueelespercebemseusatuaisprazeres sobaégidedacatástrofe(separação)queestáporvir.Nesseexatosentido,amelancoliaé efetivamenteocomeçodafilosofia–e,nesseexatosentido,JustinedeMelancolianãoé melancólica: sua perda é a perda absoluta, o fim do mundo, e o que ela pranteia antecipadamenteéessaperdaabsoluta–elaviveliteralmentenofimdostempos.Quando acatástrofeeraapenasumaameaça,elaeraapenasumapessoamelancólica,deprimida; quandoaameaçaseconcretiza,elaseencontraemseuelemento.

Eaquichegamosaolimitedoeventocomoelementoreestruturante:emMelancolia, oacontecimentonãoémaisumasimplesmudançadeenquadramento,masadestruição do enquadramento como tal , ou seja, o desaparecimento da humanidade, o suporte materialdetodoenquadramento.Masseriaessadestruiçãototalaúnicaformadealcançar uma distância do enquadramento que regula nosso acesso à realidade? O nome psicanalíticodesseenquadramentoéfantasia,demodoqueaperguntapodetambémser apresentadaemtermosdefantasia:podemosalcançarumadistânciaemrelaçãoanossa fantasiafundamental,ou,comoLacanoexprime,podemosatravessarnossafantasia?

Oconceitodefantasiaprecisaseraquimaiselaborado.Asabedoriaconvencionalnos diz que, segundo a psicanálise, não importa o que façamos, estamos secretamente pensandoNAQUILO.Osexoéareferênciauniversalocultaportrásdequalqueratividade. Entretantoaverdadeiraquestãofreudianaé:oquepensamosquandoestamosfazendo AQUILO?Éoprópriosexorealque,paraserpalatável,precisasersustentadoporalguma fantasia.Alógicaaquiéamesmadeumatribodenativosamericanoscujosmembros descobriramquetodosossonhostêmumsignificadosexualoculto–todosmenosaqueles abertamente sexuais; aqui, precisamente, deve-se procurar outro significado. Qualquer contatocomumoutro“real”,decarneeosso,qualquerprazersexualquepossamossentir ao tocar outro ser humano, não é evidente, mas algo inerentemente traumático – destruidor, intrusivo, potencialmente nojento – para o sujeito, algo que só pode ser sustentadodesdequeesseoutroseinsiranoarcabouçodefantasiadosujeito.

Assim,oqueéfantasia?Afantasianãorealizasimplesmenteumdesejodemaneira

alucinatória;emvezdisso,constituinossodesejo,fornecesuascoordenadas–literalmente

nosensinacomodesejar.Emtermosumtantosimplificados:fantasianãosignificaque,

quandodesejoumatortademorangosenãopossoconsegui-lanarealidade,fantasiosobre

comê-la;oproblemaé,emvezdisso:comoéqueeusei,paracomeçodeconversa,que

desejoumatortademorangos?Issoéoqueafantasiamediz.Essepapeldafantasia

conecta-secomofatode,comodiriaLacan,nãoexistirumafórmulaoumatrizuniversal

quegarantaaalguémumarelaçãosexualharmoniosacomseuparceiro:cadasujeitotem

deinventarumafantasiaprópria,umafórmula“privada”paraarelaçãosexual.

OtemadafantasiaquesustentaumarelaçãosexualdáumaguinadaestranhaemNão

matarás[BrokenLullaby],deErnstLubitsch.Otítulooriginaldofilme,TheManIKilled

[Ohomemquematei],foiprimeiroalteradoparaTheFifthCommandment[OQuinto

Mandamento],paranãodeixar“impressõesequivocadasentreopúblicosobreocaráterda

história”.AssombradopelamemóriadeWalterHolderlin,umsoldadoquematoudurante

aGrandeGuerra,PaulRenard,músicofrancês,viajaàAlemanhaparaencontrarafamília

dele,usandooendereçoqueviunumacartaencontradasobreocorpodomorto.Comoo

sentimentoantifrancêscontinuapermeandoaAlemanha,odr.Holderlininicialmentese

recusaareceberPaulemsuacasa,masmudadeideiaquandoanoivadeseufilhomorto, Elsa,oidentificacomoohomemquetemdepositadofloressobreotúmulodeWalter.Em vezderevelaraverdadeiraconexãoentreambos,PauldizàfamíliadeHolderlinqueera amigodeseufilho,oqualfrequentavaomesmoconservatóriodemúsicaqueele.Embora aspessoasdacidadeeasfofocaslocaisodesaprovem,osHolderlinsetornamamigosde Paul,queseapaixonaporElsa.QuandoelamostraaPauloquartodeseuantigonoivo,ele ficaconsternadoelhecontaaverdade.ElaoconvenceanãoconfessaraospaisdeWalter, que o acolheram como um segundo filho, e Paul concorda em se calar, aliviando a consciência,epermanececomafamíliaadotiva.Odr.HolderlindádepresenteaPaulo violinodeWalter.Nacenafinaldofilme,PaultocaoviolinoenquantoElsaoacompanha aopiano,ambosobservadospelocasaldepaiscomolharesamorosos…Nãoadmiraquea críticamusicalPaulineKaeltenharejeitadoofilme,afirmandoqueLubitsch“confundiua banalidadeinsípida,sentimental,comumatragédiairônicaepoética”. 17 Háaquialgo efetivamente perturbador, uma estranha oscilação entre melodrama poético e humor obsceno.Ocasal(agarotaeoassassinodeseunoivoanterior)estáprazerosamenteunido soboolharbenevolentedospaisdonoivoassassinado–eéesseolharqueforneceo enquadramentodefantasiaàsuarelação.

Namedidaemqueafantasiaforneceoenquadramentoquenospossibilitavivenciaro realdenossasvidascomoumTodosignificativo,adesintegraçãodafantasiapodeter consequênciasdesastrosas.Umaperdadoenquadramentofantasísticoéfrequentemente vivenciada no meio de uma atividade sexual intensa – alguém está apaixonadamente envolvidonoatoquando,derepente,comoqueperdecontato,desconecta-se,começaa observarasimesmoapartirdeforaesetornaconscientedainsensatezmecânicadeseus movimentosrepetitivos.Emtaismomentos,oenquadramentofantasísticoquesustentava aintensidadedoprazersedesintegra,esomosconfrontadospelorealridículodeuma cópula. 18

Oqueapsicanálisevisanãoéaessadesintegraçãodafantasia,masaalgodiferentee muito mais radical, a travessia da fantasia. E embora possa parecer óbvio que a psicanálisedeverialibertar-nosdojugodasfantasiasidiossincráticasepossibilitar-nos confrontararealidadetalcomoelaé,éexatamenteissoqueLacannãotememmente:

transpor a fantasia não significa simplesmente sair dela, mas esmagar seus alicerces, aceitarsuainconsistência.Emnossaexistênciacotidiana,ficamosimersosna“realidade”, estruturada e sustentada pela fantasia, mas essa própria imersão nos torna cegos ao arcabouço da fantasia que sustenta nosso acesso à realidade. “Fazer a travessia da fantasia”,portanto,significa,paradoxalmente,identificar-seplenamentecomafantasia, revelarafantasia–nasucintaformulaçãodeRichardBoothby:

“Fazeratravessiadafantasia”,assim,nãosignificaqueosujeitoabandone,dealgumaforma,seuenvolvimentocom os caprichos fantasiosos e se acomode a uma “realidade” pragmática, mas precisamente o oposto: o sujeito é submetidoaoefeitodafaltasimbólicaquerevelaolimitedarealidadecotidiana.Fazeratravessiadafantasia,no sentidolacaniano,ésermaisprofundamentepostuladopelafantasiadoquenunca,nosentidodeserlevadoauma relaçãocadavezmaisíntimacomoverdadeirocernedafantasiaquetranscendearepresentação. 19

Como devemos interpretar esse paradoxo de fazer a travessia da fantasia superidentificando-se com ela? Vamos fazer um circuito através de dois filmes

exemplares:Traídospelodesejo(1992),deNeilJordan,eM.Butterfly(1993),deDavid

Cronenberg.Apesardeapresentarempersonagensfundamentalmentediferentes,osdois filmesnarramahistóriadeumhomemapaixonadoporumabelamulherquenaverdadeé umhomemvestidocomotal(otravestideTraídospelodesejoeocantordeóperaemM. Butterfly),eacenacentraldeamboséoconfrontotraumáticodohomemcomofatodeo objetodeseuamorsertambémumhomem.Aqui,evidentemente,umaóbviaobjeçãonos aguarda:seráqueM.Butterflynãoofereceumtragicômicopacotedefantasiasmasculinas sobremulheres,enãoumaverdadeirarelaçãocomumamulher?Todaaaçãodofilmetem lugarentrehomens.Seráqueagrotescaincredibilidadedoroteironãomascaraeaponta, simultaneamente,ofatodeestarmoslidandocomumcasodeamorhomossexualporum travesti?Ofilmeésimplesmentedesonesto,eserecusaareconheceressefatoóbvio.Essa elucidação,contudo,nãoconsegueabordaroverdadeiroenigmadeM.Butterfly(ede Traídospelodesejo):comopodeumamorimpossívelentreoheróieseuparceiro,um homem vestido de mulher, consumar a noção de amor heterossexual de modo mais autênticodoqueumarelação“normal”comumamulher?Ou,noqueserefereaTraídos pelodesejo:porqueétãotraumáticooconfrontocomocorpodoamante?Nãoporqueo sujeitosedefrontecomalgoestranho,masporqueseconfrontaalicomafantasiaessencial que sustenta seu desejo. O amor “heterossexual” por uma mulher é na verdade homossexual,sustentadopelafantasiadequeamulheréumhomemvestidocomotal. Aquipodemosveroquefazeratravessiadafantasiapodesignificar:nãopenetrarnelae perceber a realidade que ela ofusca, mas confrontá-la diretamente como tal. Quando fazemos isso, seu domínio sobre nós é suspenso – por quê? Porque a fantasia só se mantém operante enquanto funciona como o pano de fundo transparente de nossa experiência – a fantasia é como um sujo segredo íntimo que não pode sobreviver à exposiçãopública.

IssonoslevaaHeidegger:quandoelefalada“essênciadatécnica”,oquetemem menteéalgocomooarcabouçodeumafantasiafundamentalque,comoumpanode fundotransparente,estruturaamaneiracomorelatamosarealidade.Gestell,apalavra usadaporHeideggerparadenominaraessênciadatécnica,égeralmentetraduzidacomo “enquadrar”.Emseusentidomaisradical,técnicanãodesignaumacomplexaredede máquinas e atividades, mas a atitude em relação à realidadeque assumimos ao nos

envolvermosnessasatividades:atécnicaéaformacomoarealidadeserevelaanósno período contemporâneo. O paradoxo da técnica como momento final da metafísica ocidentaléqueelaéummododeenquadramentoqueapresentaumperigodeenquadrara si próprio: o ser humano reduzido a um objeto de manipulação técnica não é mais propriamentehumano;eleperdeaprópriacaracterísticadeserextaticamenteabertoà realidade.Masesseperigotambémcontémopotencialparaasalvação:nomomentoem quenostornamosconscienteseassumimosplenamenteofatodequeatécnicaemsié,em sua essência, um modo de enquadramento, nós a superamos – é essa a versão de Heideggerdetravessiadafantasia.

E isso então nos leva à noção de Heidegger de acontecimento (Ereignis ): para Heidegger, acontecimento nada tem a ver com os processos que ocorrem lá fora na realidade.Acontecimentodesignaumanovarevelaçãoesporádicadoser,aemergênciade umnovo“mundo”(umhorizontedesignificadonointeriordoqualtodasasentidades aparecem).Acatástrofe,assim,ocorreantesdo(f)ato:catástrofenãoéaautodestruição atômicadahumanidade,masarelaçãocomanaturezaqueareduzasuaexploração tecnocientífica.Catástrofenãoéanossaruínaecológica,masaperdaderaízesdomésticas quepossibilitaaimplacávelexploraçãodaterra.Catástrofenãoésermosreduzidosa autômatosmanipuladospelabiogenética,masaprópriaabordagemquetornapossívelessa expectativa.Mesmoapossibilidadedeumaautodestruiçãototaléapenasconsequênciade nos relacionarmos com a natureza como uma coleção de objetos de exploração tecnológica. Isso nos leva a nossa próxima parada: do acontecimento como algo que enquadra–comoumaguinadaemnossarelaçãocomarealidade–paraoacontecimento comoumamudançaradicaldessarealidadeemsi.

SEGUNDAPARADA

Felixculpa

NAQUELEQUEÉindiscutivelmenteomaiordiálogodePlatão,Parmênides,opersonagem-

títulolevantaquestãoquedeixaSócratesperplexoeoforçaaadmitirsualimitação:será quetambémexistemideiasdascoisasmateriaismaisbásicas,ideiasdefezes,depoeira? Haveriaumeidos–umaformaidealeterna–para“coisasquepodemparecerabsurdas,

comocabelo,lamaesujeira,ouqualqueroutracoisatotalmentedesprezívelevil?”(130c).

Oqueespreitaportrásdessaperguntanãoéapenasofatoconstrangedordequeanobre noçãodeformapoderiatambémseraplicadaaobjetosescatológicos,masumparadoxo muito mais preciso que Platão aborda em seu Político(262a-263a), em que faz uma afirmação crucial: as divisões (de um gênero em espécies) devem ser feitas nas articulações adequadas. Por exemplo, é um erro dividir o gênero de todos os seres humanosemgregosebárbaros:“bárbaro”nãoéumaformaadequadaporquenãodesigna umgrupopositivamentedefinido(umaespécie),masmeramentetodasaspessoasquenão são gregas. Apositividade do termo “bárbaro”, assim, anula o fato de ele servir de recipienteparatodosaquelesquenãoseadéquamàforma“grego”.Maseseissofor válido para todas as divisões de gêneros em espécies? E se todo gênero, para ser totalmentedivididoemespécies,tiverdeincluirumapseudoespécienegativacomoessa, uma“partedepartealguma”desimesmo?Todososquepertencemaogênero,masnão sãocobertospornenhumadesuasespécies?Seissopareceabstrato,relembremosos numerosos exemplos fornecidos pela história da ciência, do imaginário elemento de combustãodenominadoflogisto(umpseudoconceitoqueapenasrevelavaaignorânciados cientistasquantoaomodocomoaluzefetivamenteviaja)ao“mododeproduçãoasiático” deMarx–outrotipoderecipientenegativo:oúnicoconteúdoverdadeirodesseconceito seriaalgocomo“todososmodosdeproduçãoquenãoseencaixamnacategorizaçãode Marx dos modos de produção”. Ou seja, como Marx chegou a esse conceito? Primeiramente ele articulou a série eurocêntrica de modos de produção progressivos:

sociedadetribalpré-classes,escravidãoantiga,feudalismo,capitalismo,comunismo;em seguida,apósobservarquemuitassociedadesantigas,daChinaaoEgitoeaoimpério inca, não se encaixavam em nenhum desses modos, construiu uma nova categoria – “modos de produção asiáticos” – que parece ser um conceito consistente, mas é na verdadeapenasumrecipientevazioparaesseselementosdesajustados.

Assim,quetemaveresseconceitoextra,queconfundeaprecisãodaclassificação racionaldadivisãodogêneroemespécies,comotemadoacontecimento?Ou,mais especificamente,comoacontecimentocomoculpa,queda?Tudo.Emprincípio,podemos distinguirentreumaestruturaracional,umaclassificaçãoatemporaldeumatotalidadeem suasespéciesesubespécies,esuaconcretizaçãotemporalimperfeitanarealidadematerial contingente.Podehaverexcessosnasduasdireções–podehaverpossibilidadesformais quenãosãoconcretizadas,buracosvaziosnumaestrutura(digamos,háquatrotiposde casaslogicamentepossíveis,mas,pormotivoscontingentes,sótrêsdelessãorealmente construídos),oupodehaverumaabundânciadeformaçõesempíricasquenãoseajustama nenhumadascategoriasadmitidaspelaclassificação.Entretantooparadoxalrecipiente negativoéalgobemdiferentedessesdoiscasos:elerepresentadentrodaestruturade classificação,comoumdeseuselementos,aquiloqueescapaaessaestrutura,ouseja,éo pontodeinscriçãodacontingênciahistóricanumaestruturaformal,opontoemqueesta, porassimdizer,seincluiemseuconteúdo,narealidadecontingente.E,namedidaemque aestruturaformaléemsimesmaatemporal,enquantooníveldarealidadecontingenteé acontecimental–ouseja,odomíniodeacontecimentoscontingentes,damudança,geração ecorrupçãoconstantes–,orecipientenegativoétambémopontoemqueoacontecimento intervém(ouéinscrito)naestruturaformal.Olugardesseelementoexcedente,excessivo, podeserdiscernidomedianteodesequilíbrioentreouniversaleoparticular–eisaquiseu maisfamosoexemplo,aimortaldivisãodahumanidadepropostaporSørenKierkegaard

(1813-55),teólogoefilósofodinamarquês,em1843:

Umbrincalhãopoderiadividirahumanidadeemfuncionários,criadaselimpadoresdechaminés.Amimestaopinião não é apenas jocosa, mas profunda, e seria necessário um grande talento especulativo para imaginar uma classificaçãomelhor.Quandoumaclassificaçãonãoesgotaidealmenteseuobjeto,umaclassificaçãoarbitráriaé geralmentepreferível,poiscolocaemmovimentoaimaginação. 20

Éverdade,oelementolimpadordechaminéséumcomplementoespecialquefornece a coloração específica dos termos precedentes (o que eles “realmente significam” na totalidade histórica concreta); entretanto isso não deve ser lido como se o elemento limpador de chaminés representasse um toque de bom-senso, como na conhecida expressãodeHeinrichHeine(contemporâneodeKierkegaard)dequesedeveriavalorizar acimadetudo“aliberdade,aigualdadeeasopadesiri”.“Sopadesiri”representaaqui todosospequenosprazeresnaausênciadosquaisnostornamos(mentalmente,senãona prática)terroristas,seguindoumaideiaabstrataeaplicando-aàrealidadesemconsiderar emabsolutoascircunstânciasconcretas.Deveríamosenfatizaraquiqueessa“sabedoria”é precisamenteoqueKierkegaardnãotinha em mente – sua mensagem é a oposta: o princípioemsi,emsuapureza,jáestácoloridopelaparticularidadedasopadesiri,ou seja,aparticularidadesustentaaprópriapurezadoprincípio.

Oelementoexcessivoé,assim,umcompletodosdois,daduplaharmoniosa,yine yang,dasduasclassesetc.;porexemplo,ocapitalista,otrabalhadoreojudeu;outalvez classealta,classebaixaeralé. 21 (Natríadefuncionário,criadaelimpadordechaminés, esteúltimopodeserefetivamentepercebidocomooLiebesstoererdeFreud,ointruso obscenoqueinterrompeocasalduranteoatosexual.Comefeito,vamosparaofinale imaginemosaobscenidademaior:umatosexualentreofuncionárioeacriada,como limpadordechaminésintervindoposteriormentepormeiodeumaaçãodecontracepção atrasada,limpandoo“tubo”damulhercomsuaescova.) 22

O excesso do universal sobre suas particularidades reais aponta, assim, para um estranho elemento particular excessivo, como na conhecida observação de G.K. Chestertondirigidaa“meusleitores,amaioriadosquaissãohumanos”–ou,comoum famosojogadordefutebolafirmouapósumapartidaimportante:“Minhagratidãovaipara meuspais,especialmenteminhamãeemeupai.”Queméentãoooutrogenitor,oterceiro, nemmãenempai?WalterBenjamintangencioualgosimilarnoensaioesotérico,escrito emsuafaseinicial,intitulado“Sobrealinguagemgeralesobrealinguagemhumana”: 23 suapropostanãoéquealinguagememsidevaserdivididaemmuitasespécies–dos humanos, dos animais, da genética etc. Só existe realmente uma única linguagem, a linguagemhumana,eatensãoentrealinguagememsuauniversalidade(“emsi”)eemsua particularidadereal(alinguagemefetivamentefaladapelossereshumanos)inscreve-sena linguagemdoshumanos,fissurando-aapartirdedentro.Emoutraspalavras,mesmoque só exista uma linguagem, ainda assim precisamos estabelecer uma distinção entre o universal(alinguagememsi)eoparticular(alinguagemhumana)–trata-sedeumgênero comapenasumaespécie,elaprópriacomoumalinguagemparticularreal.Issonostrazde voltaànoçãodequeda:aexpressão“linguagemhumana”designaaquedadadivina “linguagememsi”,suacontaminaçãoportodaasujeiradainveja,dalutapelopodereda obscenidade. E é fácil perceber em que sentido essa queda é acontecimental: nela, a estrutura eterna da linguagem divina vem a ser integrada ao fluxo acontecimental da históriahumana.

Issonoslevaàteologiae,maisprecisamente,aotemateológicodaqueda.Como deixouclaroKierkegaard,teólogoefilósofodinamarquês,ocristianismoéaprimeirae únicareligiãodoacontecimento:oúnicoacessoaoabsoluto(Deus)sedápelaaceitação doacontecimentosingulardaencarnaçãocomoocorrênciahistóricaextraordinária.Épor essarazãoqueKierkegaardafirmaqueissoéCristoversusSócrates:Sócratesrepresentaa reminiscência,aredescobertadarealidadesuperiordasideiasqueestãosempreprontas em nós, enquanto Cristo anuncia a “boa-nova” de um rompimento radical. Esse é o acontecimentocomorupturanocursonormaldascoisas,comoomilagreda“ascensão deCristo”.Entretantonãodevemostomararessurreiçãocomoalgoqueaconteceapósa

mortedeCristo,mascomoaantítesedaprópriamorte–CristoestávivocomooEspírito Santo,comooamorqueuneacomunidadedoscrentes. 24 Emsuma,“aascensãode Cristo”significa,comefeito,exatamenteomesmoque“aquedadeCristo”:emoutras religiões, o homem cai em relação a Deus (na pecaminosa vida terrestre); só no cristianismoéqueopróprioDeuscai.Mascomo?Deonde?Aúnicapossibilidadeé:desi mesmosobresuaprópriacriação. 25

Ditoemtermosmísticos,oacontecimentocristãoéoexatoopostodeum“retornoà inocência”: é o pecado original em si, a escolha primordial, patológica, da conexão incondicionalcomumobjetosingular(comoapaixonar-seporumapessoaque,apartir daí,passaaimportarmaisquequalqueroutracoisa).Essaescolhaépatológicaporser literalmenteenviesada:eladestróiaindiferençaprecedente;introduzadivisão,adoreo sofrimento.Emtermosbudistas,umacontecimentocristãoéoexatoanversoestruturalda iluminação,deseatingironirvana:éoprópriogestopormeiodoqualsurgemnomundoa dissimulaçãoeosofrimento.Oacontecimentocristãoda“encarnação”é,assim,nemtanto omomentoemquearealidadetemporalcomumtangenciaaeternidade,masaqueleem queaeternidadetangenciaotempo.Chestertonpercebeuissoclaramenteerejeitoua convencional afirmação sobre a “pretensa identidade espiritual do budismo e do cristianismo”:

Amorrequerpersonalidade;portanto,amorrequerdivisão.Édoinstintodocristianismosatisfazer-secomofatode Deusterfragmentadoouniversoempequenospedaços…Esseéoabismointelectualentrebudismoecristianismo; queparaobudistaouteosofistaapersonalidadesejaaquedadohomem,enquantoparaocristãosejaopropósitode Deus,aculminaçãodesuaideiacósmica.Apalavra-almadosteosofistaspedeaohomemqueaameapenasparaque estepossaprojetar-senela.Masocentrodivinodocristianismorealmentelançouohomemparaforadesiafimde queestepudesseamá-lo…todososfilósofosmodernossãocadeiasqueseconectameseaferrolham;ocristianismo éumaespadaqueseparaeliberta.NenhumaoutrafilosofiafazcomqueDeusrealmentefiqueexultantecoma separaçãodouniversoemalmasvivas. 26

Asconsequênciasdessaprioridadedaquedasãoinesperadaseduras–seaquedaéa condiçãodobeme,comotal,uma“quedafeliz”(felixculpa),entãooagentedaqueda (Eva,amulherqueseduziuAdão,levando-oaopecado)éoagenteéticooriginal.Traços demisoginianatraduçãocristãnãodeveriam,assim,nosenganar–vistosmaisdeperto, revelam-se profundamente ambíguos. Eis aqui Tertuliano, um pensador do início do cristianismo,nopiordesuamisoginia,endereçando-seàsmulheres:

SabemquecadaumadevocêséumaEva?AsentençadeDeussobreessesexodevocêsvivenestaera:aculpa tambémdevenecessariamenteviver.Vocêssãooportaldodemônio:sãoasqueviolaramaárvore(proibida):sãoas primeirasinfratorasdaleidivina:sãoasquepersuadiramaqueleaquemodemônionãoerasuficientementevalente paraatacar.VocêsdestruíramtãofacilmenteaimagemdeDeus,homemAdão.Emfunçãodaquiloquevocês merecem–ouseja,amorte–,atéoFilhodeDeustevedemorrer. 27

Masaúltimalinhanãoéprofundamenteambígua?Essaambiguidadeésemelhante

àquelaqueencontramosnooutonode2006,quandooxequeTajel-Dinal-Hilali,omais

antigoclérigoislâmicodaAustrália,causouumescândaloaodizer,depoisdeumgrupode homensmuçulmanosirparaacadeiaporestuprocoletivo:“Sevocêpegaumpedaçode carneforadaembalagemeocolocanarua…eosgatoschegamecomem…dequeméa culpa–dosgatosoudacarnesemembalagem?Acarnesemembalageméoproblema.”A naturezaexplosivadessacomparaçãoentreumamulhersemvéueumpedaçodecarne crua, fora da embalagem, afasta a atenção de uma outra premissa, muito mais surpreendente, subjacente ao argumento do xeque Hilali: se as mulheres devem ser responsabilizadas pela conduta sexual dos homens, será que isso não implica que os homenssãototalmenteindefesosdiantedoquepercebemcomoumaprovocaçãosexual, totalmenteescravizadosporsuafomedesexo,precisamentecomoumgatoaovercarne crua? Em outras palavras, não implica que estupradores brutais ajam como se ainda estivessemno paraíso, além do bem e do mal? Similarmente, não seria Eva o único verdadeiroparceirodeDeusnaquestãodaqueda?Oato(acatastróficadecisão)édela:ela abreocaminhoquelevaaoreconhecimentodadiferençaentreobemeomal(queé consequênciadaqueda)eàvergonhadeestarnu–emsuma,ocaminhoquelevaao universohumano.Tudoquesedevefazeraquiparaapreenderaverdadeirasituaçãoéter emmenteaadvertência(bastanteóbvia)deHegel:ainocênciado“paraíso”éoutronome paravidaanimal,demodoqueoqueaBíbliachamade“queda”nadamaiséquea passagemdavidaanimalàexistênciahumanapropriamentedita.É,assim,aprópriaqueda quecriaadimensãoapartirdaqualelaéaqueda–ou,comoafirmouSantoAgostinho muitotempoatrás(emseuEnchiridion,xxvii):“Deusachoumelhorextrairobemdomal doquepermitirquenenhummalexista.”

Deve-se ter cuidado aqui para não sucumbir a uma interpretação perversa da

prioridadedaqueda–oque,exatamente,significaperversãonessecontexto?Umcurto-

circuitoemqueeumesmoprovocoomaldemodoapodersuperá-loporminhalutapelo bem,comoagovernantaloucadoconto“TheHeroine”,dePatriciaHighsmith,quepõe fogonacasadafamíliaparapoderprovarsuadevoçãoaestasalvandocorajosamenteas criançasdoviolentoincêndio.Oexemplomaisradicaldeumainterpretaçãoperversa desse tipo foi fornecido por Nicolas Malebranche (1638-1715), o grande católico cartesianoquefoiexcomungadoapósamorteeteveseuslivrosdestruídosemfunçãode suaortodoxiaexcessiva.Malebranchepôsascartasnamesae“revelouosegredo”da cristandade:suacristologiaébaseadanumarespostaàpergunta“PorqueDeuscriouo mundo?” – para usufruir a glória de ser celebrado por Sua criação. Deus queria reconhecimentoesabiaque,paraeuserreconhecido,precisodeumoutrosujeitoqueme reconheça;assim,Elecriouomundoporpuravaidadeegoísta.

Consequentemente,nãofoiCristoquedesceuàTerraparalivraraspessoasdopecado,

daherançadaquedadeAdão;pelocontrário,Adãotevedecairparapossibilitarque

CristodescesseàTerraeproporcionasseasalvação.Malebrancheaplicaaquiaopróprio Deusoinsight“psicológico”quenosdizqueafiguradivinaquesesacrificaembenefício dosoutros,paralivrá-losdamiséria,secretamentedesejaqueosoutrossoframdemodoa sercapazdeajudá-los–comoonotóriomaridoquetrabalhaodiainteiroporsuapobre mulherdeficiente,masqueprovavelmenteaabandonariaseelapudesserecuperarasaúde e se tornar uma mulher com uma carreira bem-sucedida. É muito mais satisfatório sacrificar-seporumapobrevítimadoqueajudarooutroaabandonaressacondiçãoe talvezalcançarmaissucessoquenósmesmos…Malebranchelevaesseparaleloasua conclusão,paraohorrordosjesuítasquepromoveramsuaexcomunhão.Deustambém,em últimainstância,amaapenasasimesmo,esomenteusaohomemparaproclamarSua própria glória. Não é verdade que, se Cristo não tivesse vindo à Terra para salvar a humanidade,todosestariamperdidos–pelocontrário;ninguémestariaperdido,ouseja, todosossereshumanosprecisavamcairparaqueCristopudesseviresalvaralgunsdeles. AconclusãodeMalebrancheaquiédemolidora:seamortedeCristoéumpasso-chavena realizaçãodoobjetivodacriação,nenhummomentofoitãofelizparaDeus(opai)quanto aqueleemqueobservouosofrimentodeSeufilhoeamortedestenaCruz.

Aúnicaformadeverdadeiramenteevitaressaperversãoéaceitarplenamentequea quedaé,naverdade,opontodepartidaquecria,emprimeirolugar,ascondiçõesparaa salvação:nãoexistenadaanterioràquedaquesofremos,aprópriaquedacriaaquilode quecaímos.Talposiçãoabreespaçoàjustificativadomal:sesabemosqueomaléapenas umdesvionecessárionocaminhoquelevaaotriunfofinaldobem,então,evidentemente, estamos justificados ao nos envolvermos com o mal como forma de atingir o bem. EntretantonãohárazãonaHistóriacujoplanodivinopossajustificaromal;obemque podevirdomaléapenasumsubprodutocontingente.Podemosdizerqueoresultadofinal daAlemanhanazistaesuaderrotafoiaascensãodepadrõeséticosmuitomaiselevados em matéria de direitos humanos e justiça internacional; entretanto, afirmar que esse resultadojustificadealgumaformaonazismoéumaobscenidade.Éapenasdessamaneira quepodemosrealmenteevitaralógicaperversadofundamentalismoreligioso.Entreos pensadorescristãos,foi–comodecostume–G.K.Chestertonquenãotevemedode explicarasconsequênciasdesseparadoxo,situandoprecisamentenestepontoaruptura entreomundoclássicoeacristandade:

Osgregos,osgrandesguiasepioneirosdaantiguidadepagã,partiramdaideiadeumacoisaesplendidamenteóbviae

direta,aideiadequeohomem,andandodiretamenteàfrentenaestradarealdarazãoedanatureza,nãopoderia

chegaramalalgum…Eoexemplodosprópriosgregosésuficienteemsiparailustraraestranhamascategórica

fatalidadequesesegueaessafalácia.Tãologoosprópriosgregoscomeçaramaseguirseusprópriosnarizesesua

próprianoçãodesernatural,acoisamaisloucadahistóriapareceteracontecidocomeles…Oshomensmaissábios

domundoresolveramsernaturais;eacoisamenosnaturaldomundofoiexatamenteaprimeiraquefizeram.Oefeito

imediatodesaudarosoleasanidadesolardanaturezafoiumaperversãoqueseespalhoucomoumapestilência.Os

maioresemesmoosmaispurosfilósofosnãopuderam,aparentemente,evitaressetipodeloucura.Porquê?…

QuandooHomemvaiemfrenteelesedesvia.Quandosegueseunariz,conseguedealgumaformadeslocá-lo,ou mesmocortá-lo,paraincomodarseurosto;eissoemconcordânciacomalgomuitomaisprofundonanatureza humanadoqueosadoradoresdanaturezapoderiamjamaisentender.Foiadescobertadessacoisamaisprofunda, humanamente falando, que constituiu a conversão ao cristianismo. Há uma inclinação num homem como a inclinaçãonumabacia;eocristianismofoiadescobertadecomocorrigirainclinaçãoeassimatingiroponto. Muitosháquesorririamdiantedessepreceito;maséprofundamenteverdadeiroafirmarqueafestivaboa-nova trazidapeloEvangelhofoianotíciadopecadooriginal. 28

Os gregos, assim, perderam sua bússola moral exatamente por acreditarem na dignidade espontânea e básica do ser humano, e desse modo negligenciarem a “inclinação”paraomalqueseencontranoprópriocernedeste:overdadeirobemnão surge quando seguimos nossa natureza, mas quando a enfrentamos. 29 A mesma advertênciafoifeitanoParsifal,aóperadeRichardWagnercujamensagemfinalé:“A feridasópodesercuradapelaespadaqueacausou”(DieWundeschliesstderSpeernur, dersieschlug).Hegeldizamesmacoisa,emboracomênfasenadireçãooposta,quando falasobreoEspíritocomoopodercriativoqueconstantementesolapa(“contradiz”)e transformatodarealidadeinerteeestável:opróprioespíritoéaferidaquetentacurar,ou seja,aferidaéautoinfligida.Issoquerdizer:oqueéo“espírito”emseuaspectomais elementar? A“ferida” da natureza: o espírito da subjetividade humana é o poder de diferenciar,de“abstrair”,desepararetratarcomoautônomoaquiloque,narealidade,é parte de uma unidade orgânica. O espírito nada mais é que o processo de superar a contiguidadenaturaleaunidadeorgânica,oprocessodeelaboração(“mediação”)dessa contiguidade,deseausentardentrodesiouse“destacar”desi,desealienar.Oretornoa sidoespíritocriaaprópriadimensãoaqueeleretorna.

ABíblianãodizexatamenteamesmacoisa?AserpenteprometeaAdãoeEvaque, comendoofrutodaárvoredoconhecimento,elessetornarãocomoDeus;edepoisque ambos o fazem , Deus diz: “Eis que Adão é como um de nós” (Gênesis 3:22). O comentáriodeHegelé:“Assim,aserpentenãomentiu,poisDeusconfirmaoqueela disse.” Como diria Hegel, o conhecimento subjetivo não é apenas a possibilidade de escolheromalouobem,“éaconsideraçãoouacogniçãoquetornaaspessoasmás,de modoqueaconsideraçãoeacogniçãoconstituem,elasmesmas,aquiloqueéomal,eque portantoessacogniçãoéoquenãodeveriaexistirporqueéafontedomal”. 30 Ou,mais enfaticamente,omaléopróprioolharqueopercebeportodaparteàsuavolta:oolhar que vê o mal exclui-se do todo social que critica, e essa exclusão é ela mesma a característicaformaldomal.EHegelassinalaqueobememergecomopossibilidadee deversomentepormeiodessaprimordialescolhadomal:vivenciamosobemquando, apósescolheromal,ficamosconscientesdocaráterextremamenteinadequadodenossa situação. Num nível mais conceitual de sua lógica da reflexão, Hegel usa a singular expressãoabsoluterGegenstoss (esquiva, contragolpe, contraposição ou simplesmente contra-ataque)paradesignarumaretração-dequecriaesselugardequeseretrai:“Oque

assimseencontrasóvemasersendodeixadoparatrás…Omovimentoreflexivodeve sertomadocomoumadesistênciaabsolutasobre si mesmo.” 31 Assim, é “apenas no próprioretorno”queaquiloaqueretornamosrealmentesurge–começaaexistirouaser percebidocomoumapossibilidadeondeantesnãohaviavestígiosdele.

Nãoestamosfalandoaquidequestõesteóricasabstratas,masdeumaexperiência histórica muito concreta. Segundo alguns teóricos culturais indianos, o fato de serem compelidosaousodalínguainglesaéumaformadecolonialismoculturalquecensurasua verdadeiraidentidade:“Temosdefalarumalínguaestranhaimpostaparaexpressarnossa identidademaisíntima,eseráqueissonãonoscolocanumaposiçãodealienaçãoradical– mesmonossaresistênciaàcolonizaçãotemdeserformuladanalínguadocolonizador?”A respostaaessaperguntaé:sim–masessaimposiçãodoinglês(umalínguaestranha)criou aprópriacoisaqueéporela“oprimida”,oseja,oqueéoprimidonãoéaverdadeiraÍndia pré-colonial, que se perdeu para sempre, mas o sonho autêntico de uma nova Índia universalistaedemocrática.(MalcolmXseguiuomesmoinsightaoadotaroXcomo sobrenome: não estava lutando pelo retorno a raízes africanas primordiais, mas precisamenteemproldeumX,umanovaedesconhecidaidentidadeestimuladapelo próprioprocessodeescravidãoquefezcomqueasraízesafricanasseperdessempara sempre.)Esseexemplomostracomoaquestãonãoéquenãohajanadaanterioràperda– nocasodaÍndia,umaamplaecomplexatradição–,masessatradiçãoperdidaerauma barafunda heterogênea que nada tem a ver com aquilo a que a restauração nacional posteriordesejaretornar.Issoéválidoparatodo“retornoàsorigens”:quando,apartirdo séculoXIX,novosEstados-naçõesemergiramnaEuropaCentraleOriental,seuretornoa “antigas raízes étnicas” gerou essas mesmas raízes, produzindo o que o historiador marxistaEricHobsbawmdenomina“tradiçõesinventadas”.

HáumapiadaagradavelmentevulgarsobreCristo.Nanoiteanterioràsuaprisãoe crucificação,seusdevotoscomeçamasepreocupar:Cristoaindaeravirgem.Nãoseria bomqueexperimentasseumpoucodeprazerantesdamorte?Assim,pedemaMaria MadalenaqueváatéatendaondeCristoestárepousandoeoseduza;elarespondequeo faria com prazer e entra na tenda, mas cinco minutos depois sai correndo, gritando, horrorizadaefuriosa.Osdevotosperguntamoquedeuerradoeelaexplica:“Lentamente medespi,abriaspernasemostreiaCristominhaboceta;eleolhouparaelaedisse:‘Que feridahorrível!Precisasercurada!’Egentilmentecolocouapalmadamãosobreela…” Assim,cuidadocompessoasmuitodesejosasdecurarasferidasalheias–esealguém gostardesuasprópriasferidas?Exatamentedamesmaforma,curardiretamenteasferidas docolonialismo(retornandoefetivamenteàrealidadepré-colonial)teriasidoumpesadelo:

seosindianosdehojesevissemnessarealidade,semdúvidasoltariamomesmogrito

horrorizadodeMariaMadalena.

Essaé,então,nossadefiniçãodeacontecimentonestaparadadenossopercurso:o principalacontecimentoéaprópriaqueda,aperdadeumaunidadeeumaharmonia primordiais que nunca existiram, que são apenas uma ilusão retroativa. O fato surpreendenteéqueessetemadoacontecimentotambémressoaforadocamporeligioso, na versão mais radical da ciência de hoje, a cosmologia quântica. A questão que a cosmologiaquânticaenfrentahojeemdiaé:porqueexistealgumacoisaenãonada?A ciênciaoferecedoismodelos:ateoriadoBigBang,prevalecentehojenoqueserefereà origem do nosso universo, afirma que este começou com um ponto inicial de singularidadequeseexpandiuporbilhõesdeanosparaformarouniversotalcomohojeo conhecemos.Singularidadesignificaumpontoouregiãodoespaço-tempoemqueforças gravitacionaisfazemcomqueamatériatenhaumadensidadeinfinita,demodoqueasleis dafísicaficamsuspensas:asquantidadesusadasparamedirocampogravitacionalse tornaminfinitas,demodoqueocálculobaseadonasleisdafísicasetornairrelevanteeo comportamentosubsequentedosistemanãopodeserprevisto.Essasuspensãodasleis como traço fundamental de uma singularidade permite-nos também usar o termo em outroscontextos–RayKurzweil,porexemplo,definiuumasingularidadetecnológica como

umperíodofuturoemqueoritmodamudançatecnológicaétãoaceleradoeseuimpacto,tãoprofundo,queavida humana será irreversivelmente transformada. Embora não seja nem utópica nem distópica, essa época vai transformarosconceitosemquenosbaseamosparaatribuirsignificadoanossasvidas,denossosmodelosde negóciosatéociclodavidahumana,incluindoaprópriamorte. 32

Pormotivoscompreensíveis,paraoscatólicosoBigBangofereceumaaberturapara Deus: a suspensão das leis da natureza no ponto de singularidade significa que esse acontecimento não é natural; indica uma intervenção sobrenatural direta, sendo singularidade,assim,onomecientíficodomomentodacriação(oscatólicosgostamde assinalarqueo“paidaTeoriadoBigBang”foiopadreGeorgesLemaître,umsacerdote

católicodaBélgicaresponsávelporsuaprimeiraformulação,em1933).Quandoopapa

João Paulo II recebeu Stephen Hawking, supostamente lhe disse: “Estamos bem de acordo,sr.Astrofísico:oqueocorreapósoBigBangédoseudomínio;oqueacontece antesédonosso…”Mesmoqueessaconversanãotenharealmenteocorrido,elaapresenta corretamenteoargumento.

Filosoficamente,omaisinteressantetalvezsejaanoçãodesimetriaquebrada,poisela forneceumarespostasobreaformacomoumacoisasurgeapartirdonada,redefinindoo próprionada.Oestadodevácuoouvácuoquânticonãoéumvazioabsolutamenteoco:ele contémpartículaseondaseletromagnéticasfugazesquesurgemedesaparecemnumcurto espaço de tempo. Quando essas (infinitesimalmente) pequenas flutuações de energia atuamsobreumsistemaqueestejaatravessandoumpontocrítico,elasdecidemodestino do sistema determinando que braço de uma bifurcação ele vai assumir; para um

observadordeforaquedesconheçaasflutuações(ouo“ruído”),aescolhavaiparecer arbitrária. O processo é chamado de quebra da simetria porque essa transição leva o sistemadeumestadocaóticohomogêneoparaumdedoisestadosdefinidos.Oexemplo físicomaisconhecidoéodeumabolaesféricaequilibradasobreummorro(simétrico):

um desvio imperceptivelmente pequeno da posição da bola fará com que ela role rapidamentemorroabaixoatéatingirseumínimoestadodeenergia,demodoqueuma situação perfeitamente simétrica vai se degradar, transformando-se num estado assimétrico.Oponto-chaveéqueessadegradaçãoégenuinamentecontingente:nãoéque ascausassejamtãoinsignificantesquenãoconsigamospercebê-las;demodomuitomais radical,asflutuaçõestêmlugarnoníveldeentidadesvirtuaisnãoplenamenteexistentes (pré-ontológicas)quesão,decertaforma,menosdoquenada.Oinsightespeculativo dessanoçãodesimetriaquebradaresidenaidentidadeentreonada(ovazio,ovácuo)ea infinitariquezadepossibilidades.Nesseespaçoobscuro,asleis“normais”danaturezasão continuamentesuspensas.Como?ImaginequevocêtemdepegarumvoonodiaXpara receberumafortunanodiaseguinte,masnãotemdinheiroparacomprarapassagem;só queentãovocêdescobrequeosistemadecontabilidadedaempresaaéreafuncionadetal

maneiraque,sevocêfizeropagamentodapassagemnoespaçode24horasapartirdesua

chegadaaolocaldedestino,ninguémficarásabendoqueelanãofoipagaantesdapartida.

Demaneirahomóloga,

a energia de uma partícula pode flutuar freneticamente desde que sua flutuação se dê numa escala de tempo suficientementepequena.Assim,talcomoosistemadecontabilidadedaempresaaérea“permite”quevocê“tome emprestado”odinheirodeumapassagemdeaviãodesdequeadívidasejaquitadarapidamente,amecânicaquântica permitequeumapartícula“tomeemprestada”umaquantidadedeenergiadesdequeelapossadescartá-ladentrode umperíododetempodeterminadopeloprincípiodaincertezadeHeisenberg…Masamecânicaquânticanosforçaa levaressaanalogiaadarumimportantepassoàfrente.Imaginealguémquesejacompulsivonoqueserefereatomar empréstimosevádeamigoemamigopedindodinheiro…Empréstimoepagamento,empréstimoepagamento– comenormefrequência,eumaintensidadeinfatigável,elepegadinheiroapenasparadevolvê-lonocurtoprazo… umavariaçãofrenéticasemelhantedeenergiaedeimpulsoocorreperpetuamentenouniversodasdistânciase intervalosdetempomicroscópicos. 33

Éassimque,mesmonumaregiãovaziadoespaço,umapartículasurgedonada, “tomandoemprestada”suaenergiadofuturoepagandoporela(comsuaaniquilação) antesqueosistemapercebaesseempréstimo.Aredeinteirapodefuncionardessaforma, numritmodeempréstimoeaniquilação,umtomandoemprestadodooutro,deslocandoa dívida para o outro, atrasando o seu pagamento – é realmente como o domínio da subpartículajogandojogosdeWallStreetcomfuturos.Oqueissopressupõeéumhiato temporalmínimoentreaexistênciadascoisasemsuarealidadebrutaimediataeoregistro dessarealidadeemalgumveículo.Oexemplomaisóbviodessehiatoéamortedeumser humano: uma coisa é morrer na realidade, outra é essa morte ser adequadamente registrada,levadaemconsideração,pelasautoridadespúblicas–àsvezesasautoridades registramequivocadamenteumdeseussujeitosvivoscomomorto,demodoqueopobre

cidadãotemdeprovaraoEstadoqueaindaestávivo.NaFrança,pode-seatéobterum

documentochamadocertificatd’existence,provajurídicadequeapessoaexiste.

As implicações teológicas desse hiato entre a protorrealidade virtual e aquela plenamenteconstituídasãodeespecialinteresse.Namedidaemque“Deus”éoagente que cria coisas observando-as, a indeterminação quântica nos compele a postular a existênciadeumdeusqueéonipotente,masnãoonisciente:“SeDeuscomprimeas funçõesondulatóriasdecoisasgrandesnarealidadeporSuaobservação,experimentos quânticosindicamqueElenãoestáobservandoaspequenas.” 34 Atrapaçaontológicacom partículas virtuais (um elétron pode criar um próton e assim violar o princípio da conservaçãodaenergia,nacondiçãodequeeleoreabsorvaantesquesuasvizinhançasse “deem conta” da discrepância) é um modo de trapacear o próprio Deus, a principal agênciaresponsávelpordarcontadetudoqueacontece:opróprioDeusnãocontrolaos processosquânticos;aíresidealiçãodefísicaquânticadoateu.Einsteinestavacertoem sua famosa afirmação de que “Deus não joga dados” – o que ele se esqueceu de acrescentar é que Ele próprio pode ser enganado: existem microprocessos (oscilações quânticas)quenãosãoregistradospelosistema.

Háumaassimetriafundamentalentreosdoisacontecimentos,oBigBangeaquebra dasimetria:oBigBangéaexplosãodeumasingularidadeinfinitamentecomprimida, enquantoasimetriaquebradaéumacompressãodeumcampoinfinitodepotencialidades numarealidadefinitadeterminada.Osdoisacontecimentospodemseropostosdemuitas maneiras: teoria da relatividade versus cosmologia quântica, idealismo versus materialismo.Masaliçãofundamentalpermaneceamesma,adodesequilíbrioradical:o acontecimentoconclusivoéaprópriaqueda,ouseja,coisassurgemquandooequilíbrioé destruído,quandoalgodáerrado.

Essaliçãopareceoexatoopostodobudismo,queenxergaafontedosofrimentoedo malemnossoapegoexcessivoaobjetosmateriaise,consequentemente,nosadverteanos afastarmosdessesenvolvimentoseadotarmosumaatitudededistanciamentocomoúnica formaderomperocírculoviciosodosofrimento.Seráqueascoisassãotãosimples assim? O budista japonês Sakaguchi Ango (1906-55) criticava o budismo por seu distanciamentodavidarealcomtodasassuaspaixões;propunha“começarumanovavida quesigaosdesejoscomuns”.Entretanto,nomomentoemqueabandonouomundodo budismo, Ango “se tornou, pode-se dizer, um verdadeiro budista. Nunca escreveu positivamentesobreobudismo.Emparticular,eraextremamentecáusticoemrelaçãoa qualquercoisacompretensõesaumailuminaçãodotipozenouaumrefinamentoaustero. Sim:paradoxalcomoissopossaparecer,suacríticaéeminentementebudista”. 35

AnoçãocentraldeAngoeraade“declinabilidade”–eleencorajavaosleitoresa continuarem caindo. Entretanto, queda – daraku–“nãocontémosentidocomumde ‘decadência’…ParaAngo,declinabilidadesignificavaexistirnumestadodeexposiçãoe aberturaaooutro”. 36 Emsuma,aautenticidadeéaprópriadeclinabilidade:deixamospara trásnossofalsoselfnãoquandomantemosarealidadeàdistância,masprecisamente quando,totalmente,semreservas,“caímos”nela,nosabandonamosaela.Ailusãode nossoselfpersisteprecisamentenamedidaemquepercebemosarealidadecomoalgo“lá fora”,externoao“euaqui”.Essanoçãodeumaquedaredentoratalvezsejaosegredomais preciosodobudismo.Portanto,oqueobudismopodenosdizersobreoacontecimento? Issonoslevaàpróximaparadaemnossaviagem:oacontecimentocomoomomentoda iluminação,desedesprenderdateiadearanhadarealidadeilusóriaeentrarnovácuodo nirvana.

TERCEIRAPARADA

Obudismonaturalizado

QUANDOTEVELUGARoacontecimento?Em1654,JamesUssherpublicouemLondresa

segunda parte de seu monumental Annals of the Old and New Testaments . Bispo protestanteatuandonaIrlanda–terraextremamentecatólica–,eledesejavademonstrara superioridadedaabordagemracionalemrelaçãoaossupersticiosos“papistas”,eassim estudoumilharesdefontesparaestabelecercientificamenteadataexatadaCriação.Sua

respostaconclusivafoi:Deuscriouomundonoiníciodanoiteanteriora23deoutubrode

4004a.C.(Fica-seimaginandoporquenoiníciodanoite.Porquenãodemanhã,depois

deDeusterapreciadoumgenerosodesjejuminglêsafimdeganharforçaparaatarefa pesadaquetinhapelafrente?) 37 AdataçãodeUssherfezdeleumalenda,fornecendoo primeiroexemplodeumatradiçãoespecificamentebritânicaqueecoaatéemMr.Bennett andMrs.Brown, de Virginia Woolf, lançado em 1924, no qual ela afirma que “em

dezembrode1910,ouporvoltadisso,ocaráterhumanomudou”.Embora,evidentemente,

concordandocomela,talvezdevêssemosproporumanovadataparaoacontecimento:

nossaprópriaépoca,emqueocontínuoprogressodabiogenética,exemplificadopela

clonagem,estáefetivamentemudandoanaturezahumana,perturbando

ascondiçõesdareproduçãohumanaeadesconectandodoencontrodedoissexos,abrindoassimapossibilidadeda eugeniageneralizada,dafabricaçãodeclones,monstrosouhíbridos,oquedissolveoslimitesdeumaespécie.Os limitesdorealbiológicosãoefetivamentedeslocados,easfronteirasmaissegurasdoquedevesersimbolizado,vida, morte,filiação,identidadecorporal,diferençaentreossexos,sefragilizam.Aclonagemnospermite,emprincípio, livrar-nosdeumparceiro,eportantodosexooposto,oumesmodaalteridadeemsi:apessoaseperpetuasem alteração.Existenissoumamutaçãohistóricaqueépelomenostãoradicalquantoamortedaespéciehumana tornadapossívelpelafissãonuclear. 38

Comefeito,oneurodiscursoemqueumapessoaéequiparadaaseucérebro(oupor vezessimplesmenteaoseuDNA)tempenetradoemtodososaspectosdenossasvidas,do direitoàpolítica,àliteratura,àmedicinaeàfísica. 39 Comopartedessaneurorrevolução, enormes fundos militares são investidos na pesquisa neurocientífica; o caso mais conspícuoéoda(vergonhosamente)famosaDarpa(DefenseAdvancedResearchProjects Agency,ouAgênciadeProjetosdePesquisaAvançadaparaDefesa),dosEstadosUnidos, constituídadetrêsbraços:análisenarrativa,cogniçãoampliada(seguindoaslinhasdo projetoIronManetc.,decriarsoldadoscomcapacidadescognitivasaprimoradas)erobôs autônomos (visando a converter uma ampla fração das forças militares numa força robótica,queémaisfácildecontrolarevaireduziracargaeconômicaacarretadapelo pessoalmilitar,assimcomoasperdasemtermosdevidasdesoldados).Soldados-robôs

autônomos também podem ser usados para interromper protestos violentamente ou prendercidadãosemcasosdedesobediênciacivil.CientistascríticoscomoAhmedEl Hadydeixaramclarooquenosesperanofinaldessaestrada:

Oarcabouçoda“neurociênciaeducacional”combina-secomapromoçãoda“culturaexpert”emescalaglobalpara

converterapopulaçãoemindivíduos“vazios”doutrinadosporumconhecimentofragmentado,agindolocalmente

pararesolverproblemasespecíficos,dissociadosdequalqueresforçocoletivoouglobal.

Outrocenárioéousodemodalidadesdecontroledocérebroparainterromperimediatamentequalquerlevante revolucionário.Alémdecontrolarnossasnarrativascerebraisedesoldadosrobóticosautônomos…modalidadesde controledocérebrotambémpodemincluirdrogasneurotrópicasquealteremoestadopsicológicodosindivíduos, neurotoxinascapazesdecontrolarouinterromperaatividadedocérebroeagentesneuromicrobiológicosquelhe transmitampatógenos,tornando-o,assim,disfuncional. 40

A ideia básica da Darpa é proteger os cidadãos dos Estados Unidos de vilões (estrangeiros)buscandoavaliarcomoaspessoassãovulneráveisa“narrativas”(histórias orais,discursos,propaganda,livrosetc.)terroristas,eentãosuplantandotaisnarrativas com outras melhores. Em termos mais simples, a Darpa busca modelar mentes com histórias.Como?Eisotruque:aDarpagostariaderevolucionaroestudodainfluência narrativaestendendo-oaodomíniodaneurobiologia.Assim,aanálisedopadrãonarrativo noslevaaumaguinadaperigosa:oobjetivonãoéconvenceropotencialterroristapor meiodeumaretóricaoulinhadeargumentaçãoadequada(oumesmodeumapurae simpleslavagemcerebral),masintervirdiretamenteemseucérebroparafazê-lomudarde ideia.Alutaideológicanãoémaisconduzidamedianteargumentaçãooupropaganda,mas pormeiodaneurobiologia,ouseja,regulandoprocessosneuraisemnossocérebro.Uma vezmais,otruqueé:quemvaidecidirquaisnarrativassãoperigosase,comotal,merecem correçãoneurológica?

Em2011,umprojetofinanciadopelaDarpaganhoualgumadivulgaçãosobotítulo

HOMEM PARALÍTICO MOVE BRAÇO ROBÓTICO COM SEUS PENSAMENTOS : “Amão robótica

justapostaqueTimHemmesestavacontrolandocomamentetocouamãoestendidade suanamorada,KatieSchaffer.Umpequenotoqueparaosr.Hemmes,umpassogigante para as pessoas com deficiência.” 41 Esse “milagre” baseia-se na eletrocorticografia (ECoG),emqueumagradeeletrônicaécirurgicamenteimplantadademodoatangenciar océrebro(sempenetrá-lo)epodeassimcapturar,demodonãointrusivo,sinaiscerebrais:

oECoGobtémumconjuntodesinaiscerebraisqueumalgoritmodecomputadorpode interpretareentãomoverumbraçorobóticocombasenasintençõesdapessoa.Como passo seguinte, a equipe planeja tornar essa tecnologia sem fio e incluir sensores na prótesecapazesdeenviarsinaisdevoltaaocérebroparasimularsensações.Édifícilaqui esquecerapiada.Tecgnósticosestãonosprometendoque,aoconectarnossoscérebrosa máquinas,vamosentrarnumaerapós-humanaeretornaraoestadoangelicalanteriorà queda:osexonãoserámaisnecessário,nossasmentessecomunicarãodiretamentee

nossoscorposserãoreduzidosainstrumentosexternosproduzidospormeiodeclonagem e outros procedimentos científicos. Entretanto, no caso do sr. Hemmes, a ciência foi mobilizadaparacapacitarumhomematocarumamulher,seuobjetosexual,segundoa Bíblia a própria causa da queda. Assim, o que a perspectiva dessas intervenções neurobiológicasdiretassignificaparanossasvidassexuais?

Nofinalde1925,AndreiPlatonov–juntamentecomBecketteKafka,umdostrês

escritoresabsolutosdoséculoXX–escreveuumpequenoesingularensaiointitulado “Anti-Sexus”. 42 Nestetextoeleseapresentaapenascomootradutordeumfolhetode propagandaproduzidoporumagrandeempresaocidentalquedesejapenetrarnomercado soviético.Apósaintroduçãodotradutor,ochefedaempresadescreveoproduto,eoque seseguesãopequenoscomentáriosdefiguraspúblicasbemconhecidas(deMussolinia Gandhi,deHenryFordaCharlesChaplinedeJ.M.KeynesaomarechalHindenburg) sobre ele – uma máquina masturbatória produzida em massa que permite ao usuário atingirumrápidoeintensoorgasmo.Dessamaneira,ahumanidadepodeficarlivredas complexidadesdoamorsexual:anecessidadesexualperdeseucaráterincontrolável,não envolvemaisoprocessodesedução,queconsometempoeenergia,esetornaumacoisa disponívelaqualquerumdemaneirasimpleseplanejada,prometendoassimumanovaera depazinterior.Embora“Anti-Sexus”sejaobviamenteumapeçasatírica,ascoisasse complicam no momento em que tentamos determinar o preciso objeto da sátira. Considera-segeralmentequeocomentáriodeChaplin–oúniconegativoequeafirmaque oprodutovainosprivardocontatointer-humano,intensoeprofundamenteespiritual,que caracterizaoverdadeiroamorsexual–representaaposiçãodopróprioPlatonov,masserá queéissomesmo?

Aimportânciade“Anti-Sexus”resideem,paradoxalmente,aproximartrêsorientações independentesentresieporvezesatéantagônicas:aequaçãodosexocomaqueda,que caracterizaatradiçãodualistadosgnósticos(ognosticismoafirmapossuirumapercepção espiritualdiretadenossarealidadequesecompõededuasforçasopostas:luzeescuridão, bememal.Omundomaterialdaprocriaçãoé,pordefinição,mau,tendosidoproduzido porumcriador/demiurgocelestialinferior,enãopelopróprioDeus[Platonovficoumuito impressionado com a seita dos skopcy , cujos integrantes homens se castravam voluntariamente]);aperspectivabiotecnológicadaregulaçãototaloumesmoaabolição dosexo;eacomodificaçãodestenoconsumismocapitalista.Amodernabiotecnologia forneceumanovamaneiraderealizaroantigosonhognósticodeselivrardosexo– entretantoodispositivoqueofazvemdocapitalismoeseapresentacomoamercadoria ideal.

Emretrospecto,aengenhocaimaginadaporPlatonovseajustaperfeitamenteàatual

guinadanaeconomialibidinalpredominante,nocursodaqualarelaçãocomumOutro

humanoégradualmentesubstituídapelacapturadosindivíduosporaquiloqueLacan batizoucomoneologismoleslathouses:objetos-engenhocasconsumistasqueatraema libido com a promessa de proporcionar um prazer excessivo, mas que efetivamente reproduzemapenassuaprópriafalta.(Oprazerproporcionadoporumbrinquedosexualde plásticosemprenosdeixafamintospormais–quantomaisousamos,maissentimos necessidadedetornarausá-lo.)

Éassimqueapsicanáliseabordaoimpactolibidinalsubjetivodenovasinvenções tecnológicas: “a tecnologia é um catalisador, ela amplia e reforça algo que já está presente” 43 –nessecaso,umfatovirtualfantasístico.E,evidentemente,essarealização mudaaconstelaçãointeira:umavezrealizadaumafantasia,quandoumobjetofantasístico aparecediretamentenarealidade,estanãoémaisamesma.E,efetivamente,encontra-se nomercadodehojeumaengenhocapróximadaimaginadaporPlatonov:achamada “Stamina Training Unit” [unidade de treinamento de resistência], um dispositivo masturbatórioparecidocomumalanternaapilha(demodoque,aotransportá-lo,nósnão fiquemosconstrangidos).Vocêcolocaopêniseretonaabertura,napartedecima,emexe acoisaparacimaeparabaixoatéatingiroprazer.Oprodutoestádisponívelemdiferentes cores,grausdecompressãoeformasqueimitamtodosostrêsprincipaisorifíciosparaa penetraçãosexual(boca,vaginaeânus).Oquesecompraaquiésimplesmenteoobjeto parcial(zonaerógena)sozinho,semaconstrangedoracargaadicionaldapessoacomoum todo.Enquantovibradoresfálicosjáestãodisponíveishámuitotempo,aStaminaTraining Unitvaiumpassoalémemtermosdefornecersuacontrapartidamasculina.

Comolidarcomesseadmirávelmundonovoquesolapaaspremissasbásicasdenossa

vidasocialedenossoautoentendimentoíntimo?Asoluçãofinalseria,evidentemente,

introduzirumvibradornaStaminaTrainingUnit,ligarosdoisedeixartodaadiversão

paraesse“casalideal”,enós,sujeitoshumanos,reduzidosaobservadoresafastadosdessa interaçãomecânica.Eissonoslevaaobudismo:se,apósatingirailuminaçãobudista–o totaldistanciamentoíntimodarealidadematerial–,fôssemosnosenvolvernoatosexual, nossaexperiêncianãoseriaestritamentehomólogaàdessesobservadoresdainteraçãode doisdispositivossexuais?Eseacrescentepopularidadedobudismoformaisdoque apenas um fenômeno da moda? Dois aspectos que caracterizam nossa época são a

expansãodocapitalismoglobal,comseuritmofrenéticodeautorreprodução,eopapel-

chavedaciência.Emambososcasos,obudismoseimpõecomoareaçãomaisadequada:

a postura subjetiva mais apta a confrontar o capitalismo global e a visão de mundo científica.

Emboraobudismoseapresentecomooremédioparaaestressantetensãodadinâmica capitalista, permitindo que nos desconectemos e mantenhamos a paz interior e a Gelassenheit(autossubmissão),elenaverdadefuncionacomoocomplementoideológico

perfeito do capitalismo. Devemos mencionar aqui o conhecido tema do “choque do futuro”,ouseja,como,hojeemdia,aspessoasnãosãomaispsicologicamentecapazesde lidarcomoritmoatordoantedodesenvolvimentotecnológicoeasmudançassociaisqueo acompanham. As coisas simplesmente se movem com muita velocidade; antes que possamosnosacostumarcomumainvenção,elajáfoisuplantadaporumanova,demodo quecadavezmaiscarecemosdo“mapeamentocognitivo”maiselementar,necessáriopara assimilaressesaperfeiçoamentos.Recorreraotaoismoouaobudismoofereceummodo deescapardessedilemaquefuncionamelhordoqueumafugadesesperadaparaantigas tradições:emvezdetentarenfrentaroritmoaceleradodoprogressotecnológicoedas mudanças sociais, devemos renunciar à própria luta para manter o controle do que acontece, rejeitando-a como expressão da moderna lógica da dominação. Devemos “deixarrolar”,ficaràderiva,aomesmotempomantendoumadistânciaeumaindiferença interioresemrelaçãoàdançaloucadoprogressoacelerado,umadistânciabaseadana percepçãodequetodaessaconvulsãosocialetecnológicaé,emúltimainstância,apenas uma proliferação não substancial de aparências que realmente não dizem respeito à essênciamaisíntimadenossoser.Quasesomostentadosaressuscitaraquioinfameclichê marxistadareligiãocomo“oópiodopovo”.Ocaminhomeditativodo“budistaocidental” é para nós, possivelmente, a maneira mais eficaz de participar de maneira plena da dinâmicacapitalistaenquantosemantémaaparênciadesanidademental.(Seosociólogo Max Weber estivesse vivo hoje, teria escrito, definitivamente, um segundo volume, complementar, de seu texto fundador, Aética protestante e o espírito do capitalismo

(1904),queteriacomotítuloAéticataoistaeoespíritodocapitalismoglobal.)

Eomesmonãoéaindamaisválidoparaoresultadoperturbadordasciênciasdo cérebro de hoje? Será que o budismo não fornece também aqui a única resposta consistente?Asciênciasdocérebroestãonosdizendoqueanoçãodoselfcomosujeito autônomolivreémerailusãodousuário;quenãoexisteself,apenasprocessosneurônicos subjetivos.Aquestão-chaveaquié:comoéquenóshumanoslevamosemcontaessa percepção?Seriapossívelnãoapenasimaginaromundosemselfcomomodeloteórico, masvivê-lo?Vivercomo“sendoninguém”?Filósofosecientistaspropõemaquidiferentes respostas.Suaatitudepredominanteécontornarabrechaentreavisãocientíficadenós mesmosenossaprópriaexperiênciacotidianacomoagentesautônomoslivres:emboraa ciêncianosdigaquenãoexisteumselfcomlivre-arbítrio,apenasprocessosneuraise biológicos“objetivos”,semprevivenciamosnósmesmoscomoselves–damesmaforma que,emborasaibamosqueaTerragiraemtornodoSol,continuamosafalarsobreoSol nascendoesepondo.

Algunsfilósofos(comoJürgenHabermas)afirmamquenossaautopercepçãocomo

agenteslivreseresponsáveisnãoéapenasumailusãonecessária,masumacondição

transcendentalnecessáriadoconhecimentocientífico.Habermasdesenvolveuessaposição emrespostaaummanifestoemqueonzeneurocientistasalemãesproeminentesafirmaram quenossoconceitocomumdelivre-arbítrioestáapiquedesersuperadoporrecentes avançosemneurobiologia:“Estamosàbeiradevermosnossaimagemdenósmesmosser consideravelmente abalada num futuro previsível.” 44 Para Habermas, porém, a objetificação científica dos seres humanos “pressupõe a participação num sistema intersubjetivamenteinstituídodepráticaslinguísticascujavalêncianormativacondiciona a atividade cognitiva dos cientistas”. 45 Em suma, jamais deveríamos esquecer que a imagemcientíficadohomemcomoumamáquinaneurobiológicaéresultadodaprática científicacoletivaemqueatuamoscomoagentesracionaislivres.

Porfim,existemalgunscientistasdocérebro(comoPatriciaePaulChurchland)que afirmam que não somos biologicamente conectados a nosso autoentendimento convencionalcomoselvesautônomos:esseautoentendimentoécondicionadopeloescopo limitadodenossoconhecimentotradicional,demodoquepodemosmuitobemimaginare buscarumnovoautoentendimentoconvencionalqueestarianoníveldenossaemergente imagem científica de seres humanos. Assumir essa imagem científica em nossa vida cotidianairiaprivar-nosdealgumasilusões(deliberdadeeresponsabilidade),masao mesmotempotornarianossaspráticassociaismenospunitivaseopressivas.Oproblema dessavisãoésuaingenuidadeimplícita;oscientistasqueasustentampressupõem,de algumaforma,queosujeitoautônomoaindaestáaqui,decidindolivrementesobrecomo mudarsua“natureza”.Issonoslevadevoltaanossaquestãoinicial:épossívelparaum serhumanoviverofatodequeoeunãoexiste,vivenciaressefatocomoumestadodireto desuamente?Arespostapositivaaessaperguntafoidadapelofilósofoecientistado cérebrocontemporâneoThomasMetzinger. 46

Metzinger aceita que não conseguimos deixar de vivenciar a nós mesmos como “selves”:pode-sesaber(nosentidopuramenteepistêmicodeconhecimentocientífico)que nãoexistealgocomoumselfsubstancial,masnãosepoderealmenteabandoná-lo–com uma exceção: a iluminação budista, em que o eu assume diretamente, em sua autoexperiênciamaisíntima,seupróprionãoser,istoé,reconheceasimesmocomoum “selfsimulado”,umaficçãorepresentacional.Essaconsciênciailuminadanãoémaisuma autoconsciência:nãosoumaiseuquevivencioamimmesmocomooagentedemeus pensamentos;“minha”consciênciaéaconsciênciadiretadeumsistemaaltruísta,deum conhecimento altruísta. Em suma, efetivamente existe um vínculo entre a posição assumida por cientistas do cérebro de postura radical e a ideia budista de an-atman (inexistênciadoeu).Obudismoforneceumtipodeacontecimentalizaçãosubjetivado cognitivismocientífico:oacontecimentoquetemlugarquandoassumimosplenamenteos resultadosdasciênciasdocérebroéoacontecimentodailuminação,oatingimentodo

nirvana,quenosliberadaslimitaçõesdenossoeucomoagentesubstancialautônomo.

Masseráqueessasoluçãofunciona?

Obudismopreocupa-seemresolveroproblemadosofrimento,demodoqueseu primeiroaxiomaé:nãoqueremossofrer. 47 (Paraumfreudiano,issojáéproblemáticoe estálongedeserautoevidente–nãoapenasemfunçãodealgummasoquismoobscuro, masdaprofundasatisfaçãotrazidaporumadevoçãoapaixonada.Estouprontoasofrerpor umacausapolítica;quandoestouamandocompaixão,estouprontoamesubmeterà paixão mesmo sabendo com antecedência que isso provavelmente vai terminar em catástrofeequevousofrerquandoocasotiverterminado.Mas,mesmonessepontode miséria,semeperguntarem“Valeuapena?Vocêagoraestáarrasado!”,arespostaéum incondicional“Sim!Valeuapenacadamomento!Estouprontoparapassarporissooutra vez!”.)Afontedosofrimentoresidenoinsaciáveldesejodaspessoasporcoisasque, mesmo quando obtidas, provavelmente nunca irão satisfazê-las. O objetivo da prática budistaélibertardosofrimento(iluminação,despertar)–tudoqueumbudistafazé,em últimainstância,paraatingirailuminação.Apráticabudistafocalizaprimeiramenteum tipodemoralquelevaráàiluminação;amoral,porém,éapenasoprimeiropassonesse caminho.Comoqualquerjornada,esseempreendimentomoraldeveseriniciadoedepois levadoadiantecomfirmezaededicaçãoafimdesealcançaroobjetivofinaldalibertação dosofrimento:acondutaadequadaéporsisóinsuficiente;devesercomplementadapela consciênciaadequada.

Assim,apráticabudistacomeçapelaconduta,comaanálise(eamudança)damaneira comoagimos.Nãohápoderessuperiores(comodeuses)queditemoujulguemnossas açõesapartirdefora:nossosatos,porassimdizer,criamseuspróprioscritériosimanentes pelomodocomoseajustamaseucontextogeraleaumentamoureduzemosofrimento(o nossoeodetodososseresconscientes).Éissoquesignificaanoçãodecarma:nunca agimosisoladamente,nossosatossempredeixammarcas,eessasmarcas–quepodemser boas,másouneutras–continuamafetandooagentemuitodepoisderealizadooato.Aqui entra a moral comum: o primeiro passo da prática budista é treinar-nos para que identifiquemosegradualmentenoslivremosdasaçõesdeletériasqueocorrememtrês níveis:corpo,falaemente.Existemtrêsaçõesdeletériasdocorpoquedevemserevitadas (assassinato,roubo,delitosexual),quatroaçõesdafala(mentira,difamação,sarcasmo, intriga)etrêsaçõesdamente(cobiça,raiva,falácia).Quandodiminuímosgradualmente essesatosdeletérios,seguindoo“caminhodomeio”deevitarextremos,estamospertode – embora não ainda prontos para – entrar na iluminação, em que adquirimos um desinteresseporobjetoseassimnoslibertamosdosofrimento(dukkha)edociclode eternosrenascimentos(samsāra).Portanto,oqueocorrecomnossocarmaquandonos encontramosnonirvana(a“destituiçãosubjetiva”dosbudistas)?Nossosatosdeixambons

vestígios?Arespostabudistaé:não,quandonosencontramosnonirvana,nossosatosnão deixamvestígios;estamosaumadistância–reduzida–darodadodesejo.Masaquisurge umproblema:seatosmoderadamentebons(amoralelementarcomquecomeçaaprática budista)nosajudamanoslivrarmosdenossosapegosexcessivos,entãonãodeveríamos sercapazes,aoatingirmosonirvana,deperpetraratémesmoaçõesbrutaisdemaneiraque elasnãodeixemvestígios,porqueasrealizamosàdistância?Nãoseriaexatamenteessa habilidadeosinaldereconhecimentodeumverdadeirobodhisattva?Issonãoéapenaso resultadodeumaespeculaçãoabstrata,masumarealidadehistórica:háumalongatradição deguerreirosbudistas,doantigoTibeteaoJapãoeàTailândiadehoje,queafirmamquea atitudededesapegodailuminaçãoproduzumaperfeitaefriamáquinadematar. 48

Paraesclareceressepontocrucial,observemosomomento-chavedocaminhobudista, amudançareflexivadoobjetoparaoprópriopensador.Primeiro,isolamosacoisaquenos incomoda, a causa de nosso sofrimento, depois, mudamos – não o objeto, mas nós mesmos,amaneiracomonosrelacionamoscom(oquenospareceser)acausadesse sofrimento:“Oqueseextinguiufoiapenasafalsavisãodesi.Oquesemprefoiilusório foi entendido como tal. Nada se alterou senão a perspectiva do observador.” 49 Essa guinadaenvolvemuitador;nãoémeramenteumalibertação,umpassonadireçãodeuma euforia incestuosa do que Freud denominou “sentimento oceânico”, mas também a violentaexperiênciadeficarsemchão,deserprivadodoingredientemaisíntimodenosso ser. É por isso que o caminho que leva à iluminação budista começa focalizando o sentimentomaiselementarde“inocênciaferida”,desofrerumainjustiçasemcausa(o assuntopreferidodospensamentosmasoquistasnarcisistas):“Comoelapôdefazerisso comigo?Eunãomereçosertratadodessaforma.” 50 Opassoseguinteéfazeraguinada paraopróprioeu,paraosujeitodessasemoçõesdolorosas,tornandoclaraepalpávelsua própriacondiçãotransitóriaeirrelevante–aagressãoaoobjetoquecausasofrimento deveriavirar-se,emvezdisso,contraopróprioeu.Nósnãoreparamosodano:ganhamos umapercepçãodanaturezailusóriadessedano,daquiloquedeveserreparado.

Aqui,contudo,tropeçamosnumaambiguidadefundamentaldoedifíciobudista:seriao nirvana,oobjetivodameditaçãobudista,apenasessaguinadanaposturadosujeitodiante darealidade?Ouoobjetivoseriaatransformaçãofundamentaldarealidadeemsi,de modoquetodosofrimentodesapareça,quetodososseresvivossejamaliviadosdeseus tormentos?Ouseja,oesforçodeentrarnonirvananãoficariapresoentredoisextremos radicalmenteopostos,ominimalistaeomaximalista?Deumlado,arealidadepermanece como é, nada muda, ela só é plenamente percebida tal como é, um mero fluxo insubstancialdefenômenosquerealmentenãoafetamovazionocernedenossoser.De outro, o objetivo é transformar a própria realidade de modo que nela não haja mais sofrimento,quetodososseresvivosatinjamonirvana.

Esse problema-chave retorna em diferentes versões, repetindo-se em formas

deslocadas:(1)Quandoatingimosailuminaçãoenoslibertamos,devemospermanecer

aquiou,poramoràhumanidadesofredora,retornarparaajudaroutrosaselibertarem?(2)

Seriapossívelultrapassarabrechaentreiluminaçãoeatividadeética:“Comosepassada percepçãometafísicadequenãotenhoumeuàéticadacompaixãoedagentilezaamorosa emrelaçãoaosoutros,quetambémnãosãoeus?” 51 Tambémnãoépossívelextrairdean- atman a conclusão oposta: viver plenamente o presente e buscar todos os prazeres

possíveis,sempreocupaçãocomosoutros?(3)Comopodemosdistinguirafelicidade

atingidapelotrabalhoduro,adisciplinaeameditaçãodaqueéalcançadapormeiode pílulasmágicas(falsascrenças,métodosquímicos)senãoexisteumadistinçãoimanente noqueserefereàqualidadedafelicidade?Emoutraspalavras,felicidade“imerecida” aindaéfelicidade.(Alémdisso,umavezquesabemosqueafelicidadepodeseralcançada pormeiosquímicos,nãoéocasodetermosdeaceitarquetodafelicidadesebaseiaem processos químicos, incluindo os que se dão em nosso cérebro quando meditamos?) Assim,realmentenãohádiferençaentrefelicidademerecidaeimerecida:emambosos casos,oprocessosubjacenteéquímico.Emoutraspalavras,seailuminaçãopodeser gerada por meios químicos (“pílulas de iluminação”), essa iluminação seria ainda verdadeira,umacontecimentoespiritualautêntico?

Oqueessesimpassesdobudismoindicaméqueédifícil,senãodetodoimpossível, ficarlivredadimensãodasubjetividadenosentidodeagênciaresponsávellivre.Existe semprealgofalsoemsimplesmenteaceitarodestinoouemtratarasimesmocomouma entidade objetiva, parte da realidade neurobiológica. Essa inverdade se torna abundantementeclaranomodocomoTedHughesrelataaformacomotraiuSylviaPlath. Se,nahistóriadaliteraturamoderna,jáhouveumapessoaqueexemplificasseaderrota ética, esta é Ted Hughes. A verdadeira outra mulher, o foco da saga Hughes-Plath ignoradopelosdoiscampos,éAssiaWevill,umabeldademorenajudia,sobreviventedo holocaustoeamantedeTed,emfunçãodequemeleabandonouSylvia.Assim,issofoi comodeixaramulherecasar-secomaloucadosótão–mas,paracomeçodeconversa,

comoéqueelaenlouqueceu?Em1969,elasematoudamesmaformaqueSylviatinha

feito(envenenamentoporgás),mastambémmatandoShura,suafilhacomHughes.Por

quê?Oquealevouaessasingularrepetição?EssafoiaverdadeiratraiçãoéticadeTed,

nãoSylvia.Aqui,Cartasdeaniversário,queeleescreveu,comsuafalsamitologização,

transforma-senumtextoeticamenterepulsivo,colocandoaculpanasforçasobscurasdo

destinoquecontrolamnossasvidas,apresentandoAssiacomoumatenebrosasedutora:

“Vocêéaforçasombria.ÉaforçasombriaedestrutivaqueaniquilouSylvia.” 52

RecordemosumtrechodeAimportânciadeserprudente,peçadeOscarWilde:

“Perder um dos pais pode ser visto como um infortúnio; perder os dois parece

negligência.”OmesmonãoseaplicaaTedHughes?“Perderumaesposaporsuicídio

podeservistocomoinfortúnio;perderduasparecenegligência.”AversãodeHughesé

umalongavariaçãodo“c’estn’estpasmafaute”deValmontemLigaçõesperigosas:

nãofuieu,foiodestino–comodizHughes,aresponsabilidadeé“umaficçãoválida apenasnummundodeadvogadosqueseapresentamcomomoralistas”. 53 Todoessepapo sobre deusas femininas, destino, astrologia etc. é eticamente inútil, um exercício de mitologizaçãocujoobjetivoépôraculpanoOutro.Noníveldenossavidaprática-ética, qualquertentativadeevitararesponsabilidadeeconceber-secomoummecanismosem autonomiaécapturadanoduplovínculodaliberdade:sim,somoscompelidos,odestino manipulaascordas,todo(a)manipulador(a)é,porsuavez,manipulado(a),todoagente livrequedecideoprópriodestinoéiludido–massimplesmenteendossareassumiressa condiçãodeimpotênciaemfacedeforçasmaioresétambémumailusão,umaevasão escapistadiantedacargadaresponsabilidade.

Nãopodemosescapardasteiasdodestino,mastambémnãopodemosescapardofardo

daresponsabilidadepelodestino.Nãoéporissoqueapsicanáliseéilustrativadenossa

condição?Sim,somosdeslocados,capturadosnumaredeestranha,sobredeterminadospor

mecanismosinconscientes;sim,soumais“falado”quefalante,oOutroinconscientefala

pormeuintermédio,massimplesmenteassumiressefato(nosentidoderejeitarqualquer

responsabilidade)tambéméfalso,umexemplodeautoilusão.Apsicanálisemetorna

aindamaisresponsávelmesmopeloqueestáalémdemeucontrole(consciente).

O que isso significa é que a dimensão da subjetividade (no sentido de agência autônomalivre)éirredutível:nãopodemosnoslivrardela;elacontinuaaaparecerem cadatentativadesuperá-la.Onaturalismocientíficoeobudismomodernosefetivamente se complementam: embora possam parecer radicalmente opostos (o frio racionalismo científicoversusaetéreaespiritualidadebudista),sãounidosemsuarejeiçãodoeucomo agentelivreresponsável.Masosimpassesdessasduasposiçõesmostramque,emúltima instância,oacontecimentoquecadaumarepresenta–oacontecimentodanaturalização radicaldossereshumanosnasciênciasdocérebroeoacontecimentodailuminação,do atingimentodonirvana,nobudismo–sedissolve:overdadeiroacontecimentoéoda própriasubjetividade,ilusóriacomopossaser.Nossapróximaparadadeveser,assim,a filosofia ocidental, que atinge o pico na ideia de subjetividade; o que buscaremos demonstrarécomoaprópriacondiçãodesubjetividadeéacontecimental.

QUARTAPARADA

Ostrêsacontecimentosdafilosofia

HÁ TRÊS (E APENAS TRÊS) filósofos-chave na história da metafísica ocidental: Platão, DescarteseHegel.Cadaumdelespromoveuumaclararupturacomopassado:nada continuousendoomesmodepoisqueentraramemcena.Platãorompeucomacosmologia pré-socráticanabuscadeumaharmoniainternadouniversoeintroduziuoidealismo metafísico; Descartes rompeu com a visão medieval da realidade como uma ordem hierárquicaessencialeintroduziudoisingredientesbásicosdamodernidadefilosófica–a noçãoderealidadematerialmecânicainfinitaeirrelevanteeoprincípiodasubjetividade (“Penso,logoexisto”)comoprincipalalicercedenossoconhecimento;eHegelrompeu com a metafísica tradicional – idealista ou materialista – e introduziu a era da historicidaderadicalemquetodasasformas,estruturassociaiseprincípiossólidossão concebidoscomoresultadosdeprocessoshistóricoscontingentes.

Cadaumdessestrêspensadoresprojetouumasombrapersistentesobreosqueos

seguiram,masdeumaformanegativamuitoespecífica.MichelFoucault(1920-84)disse

umavezquetodaahistóriadafilosofiaocidentalpoderiaserdefinidacomoahistóriadas rejeiçõesdePlatão:mesmohoje,marxistaseliberaisanticomunistas,existencialistase empiristas analíticos, heideggerianos e vitalistas estão todos unidos em seu antiplatonismo. E exatamente o mesmo é válido para Descartes. Ele é criticado por ecologistas, feministas, neurocientistas cognitivos, heideggerianos (mais uma vez), pragmatistas,proponentesda“guinadalinguística”emfilosofia…Finalmente,Hegeléa principalbêtenoiredafilosofianosdoisúltimosséculos,criticadopormarxistas,liberais, moralistasreligiososdesconstrucionistaseempiristasanglo-saxões(entreoutros).

Será que essa condição excepcional de Platão, Descartes e Hegel não fornece a derradeira prova de que, em cada um desses casos, estamos lidando com um acontecimento filosófico no sentido de uma intrusão traumática de algo novo que permaneceinaceitávelparaavisãopredominante?Ademais,alémderepresentarum acontecimento em filosofia, cada um desses pensadores representa um momento de loucura:aloucuradesercativadoporumaideia(comoapaixonar-se,comoSócratessoba atração do demônio); a loucura no cerne do cogitode Descartes (o que os místicos chamam de “noite do mundo”, o abandono da realidade externa rumo ao abismo da subjetividade);ealoucuradoidealismoabsolutodeHegel,quepretendeestendertodaa riquezadarealidadeàautoimplementaçãodaideia.Pode-sedizer,assim,queasfilosofias

queseguemPlatão,DescarteseHegelsãotodastentativasdeconter/controlaresseexcesso

deloucura,derenormalizá-la,dereinscrevê-lanofluxonormaldascoisas.

Entretantoaprincipalrazãoparatratardessestrêspensadoresédeoutraordem.Não apenascadaumdelesrepresentaumacontecimentodopensamento,maselestambémsão filósofos do acontecimento , ou seja, o próprio foco de cada acontecimento: o acontecimentodoencontroarrasadorcomumaideiadePlatão;aemergênciadeumcogito puramenteacontecimental,umafendanagrandecadeiadoser,emDescartes;eoabsoluto emsi–atotalidadequeabrangetudoaquiloqueexiste–comoumaautoimplementação acontecimental,comooresultadodesuaprópriaatividade,emHegel.

Conexão4.1.Averdadedói

NaversãoparalivrodidáticodoidealismodePlatão,aúnicarealidadeverdadeiraéa ordemeternaeimutáveldasideias,enquantoarealidadematerialemmutaçãoconstanteé apenassuafrágilsombra.Nessavisão,osacontecimentospertencemanossainstável realidadematerial;nãodizemrespeitoàordemeternadasideiasondeprecisamentenada acontece.Seriaessa,contudo,aúnicaleiturapossíveldePlatão?Lembremosadescrição queelefazdeSócratesquandotomadoporumaideia:écomoseSócratesfossevítimade umataquehistérico,permanecendocongeladonomesmolugardurantehoras,cegoà realidade à sua volta – Platão não estaria descrevendo aqui um acontecimento por excelência,umsúbitoencontrotraumáticocomoutradimensão,suprassensível,quenos atingecomoumraioedesintegratodaanossavida?ParaPlatão,aprimeiraforma,ea maiselementar,deumencontrocomoesseéaexperiênciadoamor,enãoadmiraque,em seudiálogoFedro,elecompareoamoràloucura,aestarpossuído–nãoéoqueacontece quandonosvemosamandoapaixonadamente?Oamornãoseriaumaespéciedeestadode exceção permanente? Todos os equilíbrios adequados de nossa vida cotidiana são perturbados,tudoquefazemoséadornadopelaideiasubjacente“daquilo”–ou,como Neil Gaiman, autor da famosa graphic novel Sandman , escreveu numa passagem memorável:

Vocêjáseapaixonou?Horrível,não?Issoodeixatãovulnerável.Abreoseupeitoeseucoração,esignificaque alguémpodeentrardentrodevocêeoperturbar.Vocêconstróitodasessasdefesas,constróitodaumaarmadurade modoquenadapossamagoá-lo,eaíumapessoaestúpida,nãodiferentedequalqueroutrapessoaestúpida,vem pararemsuavidaestúpida…Vocêlhesdáumpedaçodesi.Elasnãopediram.Elasfizeramumacoisaburraumdia, comobeijá-loousorrirparavocê,eentãosuavidanãoémaissua.Oamorfazreféns.Entradentrodevocê.Eleo devoraeodeixachorandonaescuridão,demodoqueumafrasesimplescomo“talvezdevêssemosserapenas amigos” se transforma num estilhaço tentando achar o caminho do seu coração. Isso machuca. Não só na imaginação.Nãoapenasnamente.Éumadornaalma,umadorqueentraemvocêeodestróitotalmente.Odeioo amor. 54

Talsituaçãoestáalémdobemedomal.Quandoamamos,sentimosumaindiferença esquisitaemrelaçãoanossasobrigaçõesmoraiscomrespeitoanossospais,filhos,amigos –mesmoquecontinuemosaencontrá-los,nósofazemosdemaneiramecânica,numa condição “como se”; tudo empalidece em comparação com nosso apego apaixonado. Nesse sentido, apaixonar-se é como a extraordinária luz que atingiu Saulo/Paulo na estrada de Damasco: uma espécie de suspensão religiosa do ético, para usar uma expressão de Kierkegaard. Intervém um absoluto que obstrui o curso de nossos procedimentoscotidianos:nãoétantoqueahierarquiapadrãodevaloresseinverta– trata-sedealgomuitomaisradical;outradimensãoentraemcena,umníveldiferentede ser. O filósofo francês Alain Badiou examinou o paralelo entre a busca atual de um parceirosexual(oumarital)pormeiodeagênciasdeencontroseoantigoprocessodos casamentosarranjados:emambososcasos,oriscodeseapaixonaréeliminado.Nãohá propriamenteuma“queda”contingente,oriscodeum“encontroamoroso”éminimizado por arranjos anteriores que levam em conta todas as conveniências materiais e psicológicasdaspartesinteressadas.OpsicólogoRobertEpsteinlevaessaideiaasua conclusão lógica, fornecendo uma contrapartida ausente: uma vez tendo escolhido o parceiro adequado, como você pode arranjar as coisas de modo que ambos venham efetivamenteaamarumaooutro?Esseprocedimentodeescolhadeumparceirobaseia-se na autocomodificação: por meio de sites de namoro ou agências matrimoniais, cada parceiropotencialseapresentacomoumamercadoria,relacionandosuasqualidadese fornecendo fotos. Dentro desse modelo, se nos casamos hoje é cada vez mais para renormalizaraviolênciadeseapaixonar,aviolênciasimpaticamenteindicadaporum termobasco–maitemindu–,que,literalmentetraduzido,significa“serferidopeloamor”. É também por essa razão que estar na posição do amado é tão violento, até mesmo traumático.Comefeito,osconhecidosversosdeW.B.Yeatssobreoamordescrevemuma dasconstelaçõesmaisclaustrofóbicasquesepossaimaginar:

HadItheheavens’embroideredcloths,

Enwroughtwithgoldenandsilverlight,

Theblueandthedimandthedarkcloths

Ofnightandlightandthehalf-light,

Iwouldspreadtheclothsunderyourfeet:

ButI,beingpoor,haveonlymydreams; Ihavespreadmydreamsunderyourfeet, Treadsoftlybecauseyoutreadonmydreams. 55a

Emsuma,comodisseofilósofoeescritorfrancêsGillesDeleuze(1925-95),“sivous

êtesprisdansrêvedel’autre,vousétezfoutu!”(“sevocêseenredanosonhodooutro, você está fodido!”). E, evidentemente, nós nos enredamos da mesma forma num

envolvimentopolíticoautêntico.EmseuOconflitodasfaculdades,escritoemmeadosdo séculoXVIII,ImmanuelKantfazumaperguntasimples,masdifícil:existeumprogresso verdadeiro na história? (Ele falava do progresso ético em liberdade, não apenas do desenvolvimentomaterial.)Kantreconheceuqueahistóriarealéconfusaenãofornece provasclaras:imaginecomooséculoXXtrouxedemocraciaebem-estarsemprecedentes, mastambémoholocaustoeogulag.Nãoobstante,eleconcluiuque,emboranãosepossa provaroprogresso,podemosdiscernirsinaisqueindicamqueoprogressoépossível.Kant interpretou a Revolução Francesa como um sinal apontando para a possibilidade da liberdade.Aqui,oatéentãoimpensávelaconteceu–todoumpovoafirmoucorajosamente sua liberdade e igualdade. Para Kant, até mais importante do que a realidade – frequentementesangrenta–doquesepassounasruasdeParisfoioentusiasmoqueos acontecimentosdaFrançaprovocaramnoscoraçõesdeobservadoressolidáriosportodaa Europaemesmopelomundo:

Arecenterevoluçãodeumpovoespiritualmenterico,quevimosaconteceremnossosdias,podetersucessoou fracassar; pode ser cheia de misérias e atrocidades, a tal ponto que um homem ponderado, se pudesse, empreendendo-apelasegundavez,esperandorealizá-lacomsucesso,nuncasedecidiria,entretanto,atentara experiênciaporumtalpreço:essarevoluçãoencontra,porém,noespíritodetodososespectadores(quenãoestão pessoalmenteimplicadosnestejogo),umatomadadeposiçãonoqueconcerneaosseusdesejos,queconfinacomo entusiasmo,ecujaexteriorizaçãocomportavaumperigo.Essatomadadeposiçãonãopoderiateroutracausasenão umadisposiçãomoraldaespéciehumana. 56

Seráquenãonosdefrontamoscomalgodamesmaordemquando,em2011,seguimos

com entusiasmo o levante egípcio na praça Tahrir, no Cairo? Independentemente de nossosmedos,dúvidasecomprometimentos,naqueleinstantedeentusiasmocadaumde nóseralivreeparticipavadaliberdadehumanauniversal.Paraoshistoricistascéticosde hoje,umacontecimentoassimcontinuasendoumprodutoconfusodefrustraçõeseilusões sociais,umaexplosãoqueprovavelmentevailevaraumasituaçãoaindapiordoque aquela que a originou. Mas o que esses céticos não conseguem ver é a natureza “milagrosa”dosacontecimentosnoEgito:aconteceuumacoisaquepoucospreviram, violandoasopiniõesdos“especialistas”,jáquearevoltanãofoisimplesmenteoresultado decausassociais,masdaintrusãodeumaagênciaexternanahistória,aquelaquepodemos denominar,demaneiraplatônica,aideiaeternadeliberdade,justiçaedignidade.Tais acontecimentosmilagrosostambémpodemassumiraformadeumaexperiênciapessoal momentânea.JorgeSemprún,membrodoPartidoComunistaespanholexiladonaFrançae

presopelaGestapoem1943,testemunhouachegadaaBuchenwalddeumcaminhão

cheiodejudeuspoloneses;tinhamsidoempilhadosnumtremdecarga,quaseduzentos

numvagão,viajadodurantediassemcomidanemáguanoinvernomaisfriodaguerra.Na

chegada,todososqueestavamnotremtinhamcongeladoatéamorte,comaexceçãode

quinzecrianças,mantidasaquecidaspelosoutrosnomeiodomontedecadáveres.Quando

ascriançasforamtiradasdovagão,osnazistassoltaramoscãessobreelas.Logo,apenas

duascriançasemfugahaviamsobrado:

Amenorcomeçouaficarparatrás,osSSgrunhiamatrásdelasedepoisoscachorroscomeçaramagrunhirtambém, enlouquecidospelocheirodesangue,eentãoamaiordasduascriançasdiminuiuopassoparapegaramãodamenor …juntas,percorrerammaisalgunsmetros…atéosgolpesdosporretescaíremsobreelase,juntas,tombaremde caranochão,asmãosunidasparatodaaeternidade. 57

Oquenãodeveescaparànossaatençãoéqueocongelamentodaeternidadeestá incorporadonamãocomoobjetoparcial:enquantooscorposdosdoismeninosperecem, suas mãos apertadas persistem por toda a eternidade como o sorriso de um gato de Cheshire.Pode-sefacilmenteimaginarcomoessacenadeveriaserfilmada:enquantoa trilhasonoramostraoquesepassanarealidade(asduascriançasagredidasatéamorte),a imagemdesuasmãosapertadascongela,imobilizadaparaaeternidade–enquantoosom tornatemporáriaarealidade,asimagenstornameternooreal–,eapalavraeternidade devesertomadaaquinomaisestritosentidoplatônico.Há,contudo,entreaexperiência relatadaporSemprúneoplatonismopadrãodelivrosdidáticos,umagrandediferençaque não pode passar despercebida: pela versão padrão, as ideias são a única realidade substancialverdadeira,enquantonocasodeSemprúnestamosobviamentelidandocom umafugazaparênciailusóriadeeternidade.Comopodemosexplicaressadiferença?

NumadashistóriasdeAgathaChristie,HerculePoirotdescobrequeumaenfermeira

feiaéamesmapessoabonitaqueeleconheceranumaviagemtransatlântica:elatinha

apenascolocadoumaperucaqueofuscavasuanaturalbeleza.Hastings,parceirodePoirot

aoestiloWatson,observatristementeque,seumabelamulherpodesefazerdefeia,então

amesmacoisapodeserfeitanosentidooposto:oque,então,permanecenafascinaçãodo

homemalémdafalsidade?Seráqueessapercepçãodainconfiabilidadedamulheramada

nãoanunciaofimdoamor?Poirotresponde:“Não,meuamigo,issoanunciaoinícioda

sabedoria.”Esseceticismo,essaconsciênciadanaturezaenganosadabelezafeminina,

perdedevistaoessencial,ofatodequeessabelezaé,nãoobstante,absoluta,umabsoluto

queaparece:nãoimportaquãofrágileenganosasejaelanoníveldarealidadesubstancial,

oquetranspiranisso/atravésdissoéumabsoluto–existemaisverdadenaaparênciado

quenaquiloqueseocultasobela.

AíresideaverdadeiraintuiçãodePlatão,daqualelepróprionãoestavaplenamente ciente:asideiasnãosãoarealidadeocultasobasaparências(e,defato,Platãotinhamuita consciênciadequeessarealidadeocultaéconstituídadematériacorrompidaeemeterna mutação).Emvezdisso,asideiasnadamaissãoqueaprópriaformadesuaaparência, essaformacomotal.Tomemosumatratormatemático:umaformaouconjuntodeestados ideal, que não muda sob a dinâmica especificada, em relação ao qual uma variável (movendo-se segundo as regras de um sistema dinâmico) evolui com o tempo. A

existênciadessaformaépuramentevirtual:elanãoexisteemsimesma,nadamaiséquea

formaparaaqualtendemlinhasepontos.Entretanto,precisamentecomotal,ovirtualéo

realdessecampo:opontofocalinamovívelemtornodoqualcirculamtodososelementos

–devemosatribuiraquiaotermo“forma”todooseupesoplatônico,devezqueestamos

lidandocomumaideia“eterna”emquearealidadeparticipademaneiraimperfeita.

PodemosagoraavaliaraverdadeiradimensãodarevoluçãofilosóficadePlatão,tão radicalquefoimalinterpretadaporelemesmo.Platãocomeçaafirmandoabrechaentrea ordemespaço-temporaldarealidadeemseueternomovimentodegeraçãoecorrupçãoea ordemeternadasideias,ouseja,anoçãodequearealidadeempíricapodeparticiparde umaideiaeterna,dequeumaideiaeternapodebrilharatravésdela,aparecernela(ouseja, amesamaterialindividualàminhafrente“participa”daideiademesa;ésuacópia).Onde Platãoerroufoiemsuaontologizaçãodasideias:elepresumiuqueasideiasformamoutra ordemdarealidadeverdadeira,aindamaissubstancialeestáveldoquenossarealidade materialordinária.OquePlatãonãoestavaprontoparaaceitar(oumelhor,nãoeracapaz) eraacondiçãoprofundamentevirtual,imaterial(oumelhor,insubstancial),acontecimental das ideias: ideias são algo que aparece momentaneamente na superfície das coisas. Lembremosavelhaestratégiacatólicadeprotegeroshomensdastentaçõesdacarne:

quandovocêvêdiantedesiumvoluptuosocorpofeminino,imaginecomoelevaiparecer

daquiaalgumasdécadas–apeleenrugadaeosseioscaídos(ou,melhorainda,imagineo

quejáestáàespreitaagoraporbaixodapele:carnecruaeossos,fluidosinternos,comida

semidigeridaeexcrementos).OmesmoconselhoforadadoporMarcoAurélioemseu

Meditações,ondeeleescreveuarespeitodefazeramor:

umacoisaseesfregandonoseupênis,umabreveconvulsãoeumpoucodelíquidoopaco.Percepçõescomoessa– cingir-seàscoisasedepoispenetrá-las,demodoavermosoquerealmentesão.Éissoqueprecisamosfazerotempo todo–portodaanossavidaquandocoisasreclamaremnossaconfiança:desnudá-lasevercomosãoinsignificantes, privá-lasdalendaqueascontamina. 58

Longedepromoverumretornoaorealdestinadoaquebrarofeitiçoimagináriodo corpo,talprocedimentoéigualàfugadoreal,orealqueseanuncianaaparênciasedutora docorponu.Ouseja,naoposiçãoentreaaparênciaespectraldocorposexualizadoeo corporepulsivoquesedeteriora,éaaparênciaespectralqueéoreal,eocorpoem deterioração que é a realidade – recorremos ao corpo em deterioração para evitar a fascinaçãomortaldorealqueameaçasugar-nosparaoseuvórtex.

Naartecontemporâneafrequentementeencontramostentativasbrutaisde“voltarao real”, lembrando ao espectador (ou leitor) que ele está percebendo uma ficção, para acordá-lodessedocesonho.Ogestotemduasprincipaisformasque,emboraopostas, significamamesmacoisa.Naliteraturaounocinema,háadvertênciasautorreflexivasde queoqueestamosvendoémeraficção–comoatoresnateladirigindo-sediretamentea

nóscomoespectadores,dessemododestruindoailusãodaficçãonarrativa,ouoescritor intervindo diretamente na narrativa por meio de comentários irônicos. No teatro, há ocasionalmente acontecimentos brutais que nos despertam para a realidade do palco (como,porexemplo,matarneleumagalinha).Emvezdeinterpretaressesgestoscomo tentativasdequebrarofeitiçodailusãoeconfrontar-noscomopuroesimplesreal, deveríamosdenunciá-lospeloquesão:oexatoopostodoqueafirmamser–fugasdoreal, tentativasdesesperadasdeevitarqueorealtranspirena(oupela)própriailusão.

Éporissoque–retornandopelaúltimavezaoamor–oamornãotemabsolutamente nada a ver com uma fuga para um universo romântico idealizado em que todas as diferenças sociais concretas magicamente desaparecem. Mais uma vez citando Kierkegaard, “o amor acredita em tudo – e, no entanto, nunca é enganado” 59 – em contrastecomodesconfiadoquenãoacreditaemnadae,nãoobstante,éintensamente iludido.Apessoaquedesconfiadeoutrasé,paradoxalmente,emsuaprópriaecínica descrença,avítimadaautoilusãomaisradical:comodiriaLacan,lesnon-dupeserrent– aocínicoescapaarealidadedaprópriaaparência,nãoimportaquãoefêmera,frágile ilusória ela seja, enquanto o verdadeiro crente acredita em aparências, na dimensão mágicaque“brilhaatravés”deumaaparência:elevêabondadenooutroenquantoo própriooutronão temconsciênciadela. Aparênciaerealidadenãosãomais opostas:

precisamenteporacreditaremaparências,apessoaqueamavêaoutradamaneiraque efetivamenteé,eaamaporsuasprópriasimperfeições,nãoapesardelas.Quantoaisso,a noçãoorientaldovazio-substância-chãoporsobasfrágeisaparênciasenganadorasque constituemnossarealidadeéoopostodanoçãodequearealidadecomuméqueésólida, inerteeestálá,eoabsolutoéqueéprofundamentefrágileefêmero.Ouseja,oqueéo absoluto?Algoquenosapareceemexperiênciasefêmeras,digamos,pormeiodosorriso gentildeumamulherbonita,oumesmodosorrisocalorosoecarinhosodeumapessoa quedeoutramaneirapoderiaparecerfeiaerude–nessesmomentosmilagrosos,mas extremamentefrágeis,outradimensãotranspiraatravésdenossarealidade.Comotal,o absolutoéfacilmentedesgastado;deslizacommuitafacilidadeatravésdenossosdedose devesertratadocomtantocuidadoquantoumaborboleta.Emsuma,oabsolutoéum acontecimento puro, algo que simplesmente ocorre – ele desaparece antes mesmo de aparecertotalmente.

Conexão4.2.Oselfacontecimental

NumdosepisódiosmaisdesconcertantesdasériedeTVAlfredHitchcockapresenta,“O

olhodevidro”,JessicaTandyinterpretaumamulhersolitáriaqueseapaixonaporum

ventríloquo,MaxCollodi.Quandotomacoragemparaseaproximardelesozinhaemseu

camarim,eladeclaraseuamorevaiemfrenteparaabraçá-lo,sóparadescobrirqueestá segurandoemsuasmãosacabeçadeumbonecodemadeira.Depoisqueelaseretira horrorizada,o“boneco”selevantaetiraamáscara,evemosorostodeumvelhoetriste anão que pula sobre a mesa, pedindo desesperadamente que a mulher vá embora; o ventríloquoédefatooboneco,enquantoogrotescobonecoénaverdadeoventríloquo.É oórgãomorto“destacável”,oobjetoparcial,queefetivamenteestávivo,ecujofantoche morto é a pessoa “real”: a pessoa “real” está meramente viva, uma máquina de sobrevivência,um“animalhumano”,enquantoosujeitofalanterealhabitaocomplemento aparentemente “morto”. Em outras palavras, quando um ser humano fala, não é sua presença corporal concreta que fala, mas uma entidade espectral dentro dela, um “fantasmadamáquina”maisrealquearealidadecorpóreadapessoaemquestão.Essa violenta reversão da relação usual entre a substância corpórea e sua alma é o que Descartespromovecomsuanoçãodecogito:osujeitopensantenãoéaalmaqueestá presentedentrodocorpo,masumintrusoestranho,umhomúnculoquefalapormeio deste.ÉporcausadessareversãoviolentaqueDescartesfoicapazdeafirmarabertamente acondiçãoacontecimental(nãosubstancial)deseuprincípiobásico:ocogitocartesiano não é a forma substancial de um corpo, mas designa simplesmente o processo de pensamentosemobjeto–“Penso,logoexisto”. 60

Oquesedevetersempreemmentequandosefaladocogito,dareduçãodeumser humanoaopontoabissaldepensarsemnenhumobjetoexterno,équenãoestamoslidando aquicomjogosboboseextremamentelógicos(“imaginequesóvocêexistisse…”),mas comadescriçãodeumaexperiênciaexistencialmuitoprecisadeautorretraçãoradical,de desqualificaçãodaexistênciadetodarealidadeàminhavoltacomoumaetéreailusão,que ébemconhecidaempsicanálise(comoretraçãopsicótica),assimcomonomisticismo religioso(sobonomedachamada“noitedomundo”).DepoisdeDescartes,essaideiafoi empregada no insight básico de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854), o grande idealista alemão para quem, antes de sua afirmação como veículo da palavra racional,osujeitoéa“infinitafaltadoser”–“unnendlicheMangelanSein”–,oviolento gestodecontraçãoquenegatodoserforadesimesmo.Essaideiatambémformaocerne danoçãodeloucuradeHegel:quandoestedeterminaaloucuracomosendoumaretirada domundoreal,ofechamentodaalmaemsimesma,sua“contração”,ocortedeseus vínculos com a realidade externa, rapidamente concebe essa retirada como uma “regressão” ao nível da “alma animal” ainda inserida em seus territórios naturais e determinadapeloritmodanatureza(odiaeanoite,asestaçõesetc.).Entretantoseráque essaretirada,pelocontrário,nãodesignaocortedessesvínculoscomoUmweltoumeio ambiente,ofimdaimersãodosujeitoemseusterritórios,enãoseriaela,comotal,ogesto fundadorda“humanização”?Seráqueessaretiradaparaosimesmonãofoialcançadapor

Descartes em sua dúvida universal e redução ao cogito , que também envolve uma passagem pelo momento de loucura radical? Num fragmento de sua “Jenaer realphilosophie”, Hegel usa o termo místico “noite do mundo” para caracterizar sua experiênciadoeupuro,dacontraçãoparaosimesmodosujeitoqueenvolveoeclipseda realidade(constituída):

Oserhumanoéessanoite,essenadavazio,quecontémtudoemsuasimplicidade–umariquezainfinitade representações,deimagens,dasquaisnenhumalhepertence–ouquenãoestãopresentes.Essanoite,ainterioridade daNaturezaqueexisteaqui–oEupuro–emrepresentaçõesfantasmagóricas,énoiteàsuavolta;surgeentãouma cabeçaensanguentadaaqui–maisadiante,outraapariçãobranca,eelasdesaparecemtambémderepente.Éessa noitequesepercebequandoseolhaumserhumanobemnosolhos:umanoitequesetornaterrível. 61

Aordemsimbólica,ouniversodapalavra,logos,sópodesurgirdaexperiênciadesse abismo. Como diz Hegel, essa interioridade do Eu puro “deve também entrar em existência,tornar-seumobjeto,opor-seaqueessainternalidadesetorneexterna;retornar aoser.Essalinguagemcomopodernomeador…Pelonome,oobjetocomoentidade individualnascedoeu”. 62 Oquetemosdetercuidadoparanãoperderaquiéomodo comoHegelrompecomapredominantetradiçãoiluministaquepodeserdiscernidano reversodaprópriametáforadosujeito:osujeitonãoémaisaLuzdaRazãoemoposiçãoà Matéria(daNatureza,Tradiçãoetc.)impenetráveleopaca;suaprópriasubstância,ogesto queabreespaçoparaaLuzdoLogos,éanegatividadeabsoluta,a“noitedomundo”,o pontodeloucuratotalemqueapariçõesfantásticasde“objetosparciais”surgemàtoda volta.Consequentemente,nãoexistesubjetividadesemessegestoderetração–motivo pelo qual Hegel está plenamente justificado ao inverter a questão padrão de como é possívelaqueda/regressãoàloucura:averdadeiraquestãoé,istosim,comoosujeitoé capaz de sair da loucura e alcançar a “normalidade”. Ou seja, a retração para si, o rompimentodosvínculoscomosambientes,éseguidapelaconstruçãodeumuniverso simbólico que o sujeito projeta sobre a realidade como uma espécie de formação- substituta,destinadaanosrecompensarpelaperdadorealimediato,pré-simbólico.Em suma,anecessidadeontológicada“loucura”residenofatodenãoserpossívelpassar diretamenteda“almaanimal”pura,imersaemseusambientesnaturais,àsubjetividade “normal”queresideemseusambientesvirtuaissimbólicos:o“mediadorevanescente” entreasduaséogesto“louco”daretraçãoradicalemrelaçãoàrealidade,queabreespaço parasua(re)-constituiçãosimbólica.

Assim,overdadeiropontode“loucura”nãoéopuroexcessoda“noitedomundo”, masaloucuradapassagemaoprópriosimbólico,deimporumaordemsimbólicaaocaos doreal.(Freud,emsuaanálisedoparanoicojuizDanielPaulSchreber,assinalacomoo “sistema” paranoico não é loucura, mas uma tentativa desesperada de fugirdela – a desintegraçãodouniversosimbólico–pormeiodeumpseudouniversodesignificado.) 63 Sealoucuraéconstitutiva,entãotodosistemadesignificadoéminimamenteparanoico,

“louco”.“Oqueéoroubodeumbancocomparadoàfundaçãodeumnovobanco?”Da

mesmaforma,deveríamosdizer:oqueéameraloucuracausadapelaperdadarazão

comparadaàloucuradaprópriarazão?

Nãoadmira,assim,queencontremosocogitocartesianonoprópriocernedaquiloque

hojeestáemergindocomoaformapredominantedepatologia,ochamadosujeitopós-

traumático. Nossa realidade sociopolítica impõe múltiplas versões de interferências externas, traumas, que são exatamente isso – interrupções brutais, sem sentido, que destroematexturasimbólicadaidentidadedosujeito.Primeiro,temosaviolênciafísica

externa:ataquesterroristascomoo11deSetembro,obombardeiodoIraque,aoestilo

“choqueepavor”,pelosEstadosUnidos,violêncianasruas,estuprosetc.,mastambém catástrofes naturais como terremotos, tsunamis e assim por diante. Depois vem a destruição “irracional” (sem sentido) da base material de nossa realidade interior – tumorescerebrais,maldeAlzheimer,lesõescerebraisorgânicasetc.–,quepodemudar profundamente – até destruir – a personalidade da vítima. Finalmente, temos os três efeitosdestrutivosdaviolênciasociossimbólicamedianteaexclusãosocialetc.Emsua maioria,essasformasdeviolênciasãobemconhecidasháséculos,algumasmesmodesde aprópriapré-históriadahumanidade.Oqueénovohojeéque,comovivemosnumaera pós-religiosa“desencantada”,elassãomaisdiretamentevivenciadascomointerferências semsentidodoreale,poressamesmarazão,emboraprofundamentediferentesemsua natureza,parecempertenceràmesmasérieeproduziromesmoefeito.(Éfatohistórico queoestuprosófoicaracterizadocomocrimenoséculoXX.)

Umsujeitopós-traumáticoé,dessemodo,umavítimaque,porassimdizer,sobrevive àprópriamorte.Todasasdiferentesformasdeencontrostraumáticos,independentemente de sua natureza específica (social, natural, biológica, simbólica), levam ao mesmo resultado:surgeumnovosujeitoquesobreviveàmorte(revogação)desuaidentidade simbólica.Nãohácontinuidadeentreessenovosujeitopós-traumático(digamos,avítima doAlzheimer)esuaantigaidentidade:depoisdochoque,surgeliteralmenteumnovo sujeito.Suascaracterísticassãobemconhecidasapartirdenumerosasdescrições:faltade envolvimentoemocional,indiferençaealheamentoprofundos;éumsujeitoquenãoestá mais“nomundo”nosentidoheideggerianodeumaexistênciaencarnadaengajada.O sujeitoviveamortecomoformadevida.

Adimensãopropriamentefilosóficadoestudodosujeitopós-traumáticoresidenesse

reconhecimentodequeoqueaparececomoadestruiçãobrutaldaprópriaidentidade

substancial(narrativa)dosujeitoéomomentodeseunascimento.Osujeitoautistapós-

traumáticoéa“provaviva”dequeosujeitonãopodeseridentificado(ounãocoincide

totalmente)comas“históriasqueelecontasobresimesmo”,comatexturanarrativa

simbólicadesuavida:quandoafastamostudoisso,algumacoisa(oumelhor,nada,

apenasumaformadenada)permanece,eessacoisaéosujeitopuro.Deveríamos,assim, aplicartambémaosujeitopós-traumáticoanoçãofreudianadequeumainterferência violentadorealsócorrespondeaumtraumaseumtraumaanteriorecoarnela–nesse caso,otraumaanterioréodonascimentodoprópriosujeito:umsujeitosurgequando umindivíduovivoéprivadodeseuconteúdosubstancial,eseutraumaconstitutivoé repetidonaexperiênciatraumáticaatual.ÉaissoquevisaLacancomsuaafirmaçãode que o sujeito freudiano não é outro senão o cogito cartesiano: o cogito não é uma “abstração”darealidadedeindivíduosvivos,reais,comariquezadesuaspropriedades, emoções,habilidadeserelações;é,pelocontrário,essa“riquezadapersonalidade”que funcionacomoaimaginária“substânciadoeu”deLacan;ocogitoé,emclarocontraste com isso, uma “abstração” muito real, uma “abstração” que funciona como atitude subjetivaconcreta.Osujeitopós-traumático,reduzidoaumaformavaziadesubjetividade, semsubstância,éa“realização”históricadocogito–lembremosque,paraDescartes,o cogitoéopontozerodasobreposiçãodopensaredoseremqueosujeito,decertaforma, nem “é” (ele é privado de todo conteúdo substancial positivo) nem “ pensa” (seu pensamentoéreduzidoàtautologiavaziadepensarqueelepensa).

Assim,quandoafilósofafrancesahegelianaCatherineMalabouafirmaqueosujeito pós-traumáticonãopodeserconsideradonostermosfreudianosdarepetiçãodeumtrauma anterior(jáqueochoquetraumáticoapagatodososvestígiosdopassado),elapermanece demasiadamenteconcentradanoconteúdotraumáticoeseesquecedeincluirnasériede memóriastraumáticasaprópriarevogaçãodoconteúdosubstancial,aprópriasubtraçãoda formavaziadeseuconteúdo. 64 Emoutraspalavras,precisamentenamedidaemque revogatodooconteúdosubstancial,ochoquetraumáticorepeteopassado,ouseja,o passado traumático perde a substância que é constitutiva da própria dimensão da subjetividade.Oqueserepeteaquinãoéumconteúdoantigo,masoprópriogestode revogartodoconteúdosubstancial.Éporissoque,quandosesubmeteumsujeitohumano aumaintrusãotraumática,oresultadoéaformavaziadosujeito“morto-vivo”,mas quandosefazomesmoaumanimal,oresultadoésimplesmenteumadevastaçãototal:o quepermanecedepoisqueumaintrusãotraumáticaatingeosujeitohumanoerevogatodo oseuconteúdosubstancialéasubjetividadeemsuaformapura,aformaquejádeviaestar ali.

Ditodeoutraforma,osujeitoéomaiorexemplodaquiloqueFreuddescreveucomoa experiênciada“castraçãofeminina”quefundamentaofetichismo:aexperiênciadenão encontrar nada onde se esperava ver alguma coisa (o pênis). Se a questão filosófica fundamentalé“porqueháalgoemvezdonada?”,aquestãolevantadapelosujeitoé“por quenãoexistenadaondedeveriahaveralgumacoisa?”.Aformamais recente dessa surpresaocorrenasciênciasdocérebro:quandoseprocuraa“substânciamaterial”da

consciência,descobre-seque“nãoháninguémemcasa”ali–apenasapresençainertede umpedaçodecarnechamado“cérebro”.Assim,ondeestáosujeitoaqui?Emlugaralgum. Não é a autofamiliaridade da consciência nem, evidentemente, a simples presença da matériacerebral.Quandoseolhanoolhoumsujeitoautista,tambémsetemasensaçãode que“nãoháninguémemcasa”–mas,emcontrastecomapresençacruadeumobjeto mortocomoocérebro,espera-sequehajaalguém/algumacoisaaliporqueoespaçoaberto paraessealguémestálá.Esseéosujeitoemseunívelzero,comoumacasavaziaemque “nãoháninguém”.

Matarasangue-frio,“explodirasimesmo”,comosecostumavadizer,organizaroterror,dar-lheafacedeum acontecimentocasualesvaziadodesentido:seráqueaindaémesmopossívelexplicaressesfenômenosevocandoa duplasadismo-masoquismo?Nãopercebemosquesuafonteestáemoutrolugar,nãonastransformaçõesdoamorem ódio,oudoódionaindiferençaaoódio,ouseja,numalémdoprincípiodoprazerdotadodesuaprópriaplasticidade queéhoradeconceitualizar? 65

Sealguémdesejaterumaideiadocogitoemsuaformamaispura,seu“grauzero”,

temdedarumaolhadanessessujeitos“autistas”–umaolhadaqueémuitodolorosae

perturbadora.Éporissoqueresistimostãoobstinadamenteaoespectrodocogito.

Conexão4.3.Lavéritésurgitdelaméprise b

Essaéaconexãopropriamente“hegeliana”–motivoporqueHegel,ofilósofoquefeza tentativamaisradicaldeconsideraroabismodaloucuranocernedasubjetividade,é tambémaquelequelevouaseuclímax“insano”osistemafilosóficocomoatotalidadedo significado.Éporissoque,porboasrazões,“Hegel”representaparaosensocomumo momento em que a filosofia enlouquece e explode numa louca pretensão ao “conhecimentoabsoluto”.MasoargumentodeHegelaquiémuitomaisrefinado:nãoque tudosejaloucura,masquea“normalidade”,odomíniodarazão,éumaautoanulaçãoda loucura,damesmaformaqueanormadaleiéaautoanulaçãodocrime.Nothriller religiosodeG.K.ChestertonOhomemquefoiquinta-feira,omisteriosochefedeum departamento supersecreto da Scotland Yard é convencido de que “uma conspiração puramenteintelectualiriaembreveameaçaraprópriaexistênciadacivilização”:

Eleestácertodequeosmundoscientíficoeartísticoestãosilenciosamenteenvolvidosnumacruzadacontraa FamíliaeoEstado.Formou,assim,umcorpoespecialdepoliciais,policiaisquetambémsãofilósofos.Éotrabalho delesacompanharoiníciodessaconspiração,numsentidonãoapenascriminal,mastambémdeargumentação…O trabalhodospoliciais-filósofos…éaomesmotempomaisaudaciosoemaissutilqueodosdetetivescomuns.O detetivecomumvaiaospubsparaprenderladrões;nósvamosaencontrossociaisparadetectarpessimistas.O detetivecomumdescobreapartirdeumlivrocontábiloudeumdiárioqueumcrimeserácometido.Nóstemosde buscaraorigemdessespensamentosameaçadoresqueconduzemaspessoas,nofinal,aofanatismoeaocrime intelectuais. 66

Numaversãoligeiramentealteradadessaideia,ocrimepolíticorealseriadenominado “totalitarismo”eocrimefilosófico,condensadonanoçãode“totalidade”.Umarotadireta leva da noção filosófica de totalidade ao totalitarismo político, e a tarefa da “polícia filosófica”édescobrir,apartirdeumlivrocomosdiálogosdePlatãooudeumtratado sobreocontratosocialdeRousseau,queumcrimepolíticoserácometido.Opolicial políticocomumvaiaencontrossecretosparaprenderrevolucionários;opolicialfilosófico vai a simpósios de filosofia para detectar proponentes da totalidade. O policial antiterrorista comum tenta detectar aqueles que se preparam para explodir prédios e pontes; o policial filosófico tenta detectar os que pretendem desconstruir os alicerces religiososemoraisdenossassociedades.

EssaanáliseprovocativademonstraalimitaçãodeChesterton–elenãoestásendo

suficientementehegeliano.Oqueelenãopercebeéqueocrimeuniversal(izado)nãoé

maisumcrime–eleanula(negaesupera)asimesmocomocrimeesetransformade

transgressãoemumanovaordem.Eleestácorretoquandoafirmaque,comparadosaum filósofo “inteiramente transgressor”, ladrões, bígamos, mesmo assassinos são essencialmentevirtuosos:umgatunoéum“homemcondicionalmentebom”,elenãonega apropriedadeemsi,sódesejatermaisdelaparasimesmoeestá,portanto,prontoa respeitá-la. Entretanto a conclusão a se extrair disso é que o crime como tal é “essencialmentemoral”,quedesejaapenasumreordenamentoparticularilegaldaordem

moralglobal,aqualdeve,emsi,permanecer.E,numverdadeiroespíritohegeliano,dever-

se-ialevaressaproposição(da“moralidadeessencial”docrime)aseureversoimanente:

nãoapenasocrimeé“essencialmentemoral”(emhegelianês:ummomentoinerenteao empregodosantagonismose“contradições”internosdapróprianoçãodeordemmoral, nãoalgoqueperturbeessaordemapartirdefora,comoumaintromissãoacidental),masa moralemsiéessencialmentecriminosa;umavezmais,nãoapenasnosentidodequeuma ordemmoraluniversalnecessariamente“negaasimesma”emdeterminadoscrimes,mas, demodomaisradical,nosentidodequeomodocomoamoral(nocasoderoubo,a propriedade) se afirma já é em si mesmo um crime – “propriedade é crime”, como costumavam dizer no século XIX. Isso significa que se deve passar do roubo como violaçãocriminalparticulardaformauniversaldepropriedadeaessaformaemsicomo violação criminal. O que Chesterton não consegue perceber é que o “crime universalizado”queeleprojetana“ilícitafilosofiamoderna”eseuequivalentepolítico,o movimento“anarquista”quevisaadestruiratotalidadedavidacivilizada,jáexistemsob odisfarcedanormadaleiatual,demodoqueoantagonismoentreleiecrimeserevela comoimanenteaocrime,comooantagonismoentrecrimeuniversaleparticular.

Foi nesse sentido que Chesterton afirmou o caráter verdadeiramente subversivo, revolucionárioaté,daortodoxia–emseufamoso“Umadefesadashistóriasdedetetive”,

eleobservacomoessegênero“mantém,numcertosentido,diantedamente,ofatodeque aprópriacivilizaçãoéomaissensacionaldosdesvioseamaisromânticadasrebeliões… Oromancepolicialébaseadonofatodequeamoraléamaissombriaeassustadoradas conspirações”. 67 Aíresideamatrizelementardoprocessodialéticohegeliano:aoposição externa(entrealeieatransgressãocriminosa)étransformadanaoposição,internaà própriatransgressão,entretransgressõesparticulareseatransgressãoabsolutaqueaparece como o seu oposto, a lei universal. Esse argumento foi claramente apresentado por ninguémmenosqueRichardWagner,que,norascunhodesuapeçaJesusdeNazaré,

escritaemalgummomentoentreofimde1848eoiníciodoanoseguinte,atribuiaJesus

umasériedecomplementosalternativosaosmandamentos:

Dizomandamento:“Nãocometerásadultério!”Maseudigo-te:“Nãocasarássemamor.”Umcasamentosemamor

destrói-seassimquefirmado,equemtivercortejadosemamorjáterádestruídoocasamento.Seseguiresmeu

mandamento,comopoderásdesobedecer-lhe,vistoqueesteproclamaquefaçasoquedesejamteucorpoetuaalma?

–MascasasemamoreestarásemdiscórdiacomaleideDeus,pecarásnocasamentocontraDeus;eopecadovinga-

seemtualutacontraaleidoshomens,poisquebrasosvotos. 68

Overdadeiroadultérionãoécopularforadocasamento,mascopularnumcasamento semamor:osimplesadultérioapenasviolaaleiapartirdefora,enquantoocasamento sem amor a destrói a partir de dentro, voltando a letra da lei contra seu espírito. ParafraseandoBrecht:queéumsimplesadultériocomparadoao(adultérioqueéum) casamento(semamor)?NãoéporacasoqueafórmulasubjacentedeWagner,“casamento éadultério”,fazlembrarolemadoanarquistaPierre-JosephProudhon“propriedadeé

roubo”–nosturbulentostemposrevolucionáriosde1848,Wagnernãoeraapenasum

feuerbachianocelebrandooamorsexual, 69 mastambémumrevolucionárioproudhoniano exigindoaaboliçãodapropriedadeprivada;assim,nãoadmiraque,umpoucoadiantena peça,atribuaaJesusumcomplementoproudhonianoao“Nãoroubarás”:

Tambémestaéumaboalei:“Nãoroubarás”,nãocobiçarásosbensdeoutrem.Aquelesquenãoobedecempecam, maslivro-tedessepecado,poisensino:“Amaaopróximocomoatimesmo”significaquenãoarmazenarásriquezas para ti mesmo, pois assim estarás roubando do próximo e o fazendo ter fome: pois quando tens teus bens salvaguardadospelaleidoshomens,incitasopróximoapecarcontraalei. 70

Essaguinadaéadadistorçãodeumanoçãoparaumadistorçãoconstitutivadessa noção:aguinadadoroubocomodistorção(“negação”,violação)dapropriedadeparaa dimensãodorouboinscritanaprópriaposiçãodapropriedade(ninguémtemodireitode possuirplenamenteosmeiosdeprodução,suanaturezaéinerentementecoletiva,demodo quequalquerafirmaçãodeque“issoémeu”éilegítima).Comoacabamosdever,o mesmovaleparaocrimeealei,paraapassagemdocrimecomodistorção(“negação”)da leiparaocrimecomosuportedapróprialei,ouseja,àideiadapróprialeicomocrime universalizado. Deve-se notar como a unidade abrangente dos dois termos opostos (propriedadeeroubo,leiecrime)é“mínima”,“transgressiva”:nãoécrimeaquiloque constituiummomentodeautoanulaçãodalei(ouorouboqueconstituiummomentode

autoanulação da propriedade); a oposição crime-lei é inerente ao crime, a lei é uma subespécie do crime – a negação autorrelacional do crime (da mesma forma que a propriedadeéanegaçãoautorrelacionaldoroubo).

ÉsócontraessepanodefundoquepodemosapreenderoqueHegelpretendeucom suanoçãode“saberabsoluto”–afórmulaaquié:afasteailusãoevocêperdeaprópria verdade.Umaverdadeprecisadetempoparaempreenderumajornadaatravésdasilusões afimdeformarasimesma.Deve-setrazerHegeldevoltaàsériePlatão-Descartes-Hegel, correspondendoàtríadeobjetivo-subjetivo-absoluto.AsideiasdePlatãosãoobjetivas,a verdade encarnada; o sujeito cartesiano representa a certeza incondicional de minha autoconsciênciasubjetiva.EHegel,queacrescentaele?Seesse“subjetivo”éoqueé relativoanossaslimitaçõessubjetivase“objetivo”éomodocomoascoisasrealmente são,oqueo“absoluto”acrescentaaisso?RespostadeHegel:o“absoluto”nãoacrescenta umadimensãomaisprofunda,maissubstancial–eleincluiailusão(subjetiva)naprópria verdade(objetiva).Aperspectiva“absoluta”faz-nosvercomoarealidadeincluiaficção (oufantasia),comoaescolhacertasósurgedepoisdaerrada.Hegel,assim,nosmanda virarpeloavessotodaahistóriadafilosofia,queconstituiumasériedeesforçospara diferenciarclaramenteadoxa(opiniãopopular)doverdadeiroconhecimento:paraele,a doxaéumaparteconstitutivadoconhecimento,eéissoquetornaaverdadetemporáriae acontecimental. Esse caráter acontecimental da verdade envolve um paradoxo lógico empregadoporJean-PierreDupuy,umteóricocontemporâneofrancêsdaracionalidadee dascatástrofes,emseuadmiráveltextosobreUmcorpoquecai,deHitchcock:

Umobjetopossuiumapropriedadexatéomomentot;depoisdisso,nãoéqueoobjetonãotenhamaisapropriedade x,équenãoéverdadequeelepossuíssexemmomentoalgum.Ovalor-verdadedaproposição“oobjetoOtema propriedadexnomomentot”,portanto,dependedomomentoemqueessaproposiçãoéenunciada. 71

Deve-senotaraquiaformulaçãoprecisa:nãoéqueovalor-verdadedaproposição“o

objetoOtemapropriedadex”dependadomomentoaqueessaproposiçãoserefere:

mesmoquandoessemomentoéespecificado,ovalor-verdadedependedomomentoem queaprópriaproposiçãoéenunciada.Ou,citandootítulodotextodeDupuy,“Quando eumorrer,nadadenossoamorterájamaisexistido”.Pensenocasamentoenodivórcio:o argumentomaisinteligenteemfavordodireitoaodivórcio(apresentado,entreoutros,por ninguémmenosqueojovemMarx)nãoserefereavulgaridadesaoestilo“assimcomo todasascoisas,asligaçõesamorosastambémnãosãoeternas,elasmudamnocursodo tempo”etc.;emvezdisso,elereconhecequeaindissolubilidadeestánapróprianoçãode casamento.Aconclusãoéqueodivórciosempretemumescoporetroativo:nãosignifica apenasqueocasamentoestáagoraanulado,porémalgomaisradical–umcasamentodeve ser anulado porque nunca foi um verdadeiro casamento. (O mesmo vale para o comunismosoviético:éclaramenteinsuficientedizerque,naeraBrejnev,ele“estagnou”,

“exauriuseuspotenciais,nãoseadequandomaisaosnovostempos”;oqueseumiserável

fimdemonstraéqueelefoiumimpassehistóricodesdeoprincípio.)

Esse paradoxo fornece a pista para as voltas e reviravoltas do processo dialético hegeliano.TomemosacríticaqueHegelfazdoTerrorrevolucionáriojacobinocomoum exercíciodenegatividadeabstratadaliberdadeabsolutaquenãopodeestabilizar-senuma ordemsocialdeliberdadeconcretaeassimdeveterminarnafúriadaautodestruição. Entretantodeve-seteremmenteque,namedidaemqueestamoslidandoaquicomuma escolhahistórica(entreamaneira“francesa”depermanecercomaordemsocialcatólica, eassimserobrigadaaseenvolvercomoTerrorrevolucionárioautodestrutivo,eamaneira “alemã”daReforma),essaescolhaenvolveprecisamenteomesmoparadoxodialético

elementardoqueaquela–tambémdeAfenomenologiadoespírito(1807)–entreasduas

leiturasde“oespíritoéumosso”queHegelilustracomametáforafálica(ofalocomoo órgãodeinseminaçãooucomooórgãodemicção):oargumentodeHegelnãoéque,em contraste com a mente empirista vulgar que só vê a micção, a atitude especulativa adequada tenha de escolher a inseminação. O paradoxo é que a escolha direta da inseminação é a maneira infalível de errar: não é possível escolher diretamente o “verdadeiro significado”, ou seja, deve-se começar fazendo a escolha “errada” (a da micção);overdadeirosignificadoespeculativosurgeapenaspelaleiturarepetida,comoa consequência(ouprodutocolateral)daprimeiraleitura,“errada”.Eomesmoseaplicaà vidasocialemqueaescolhadiretada“universalidadeconcreta”deummundodevida éticoparticularsópodeterminarnumaregressãoàsociedadeorgânicapré-moderna,que negaodireitoinfinitodasubjetividadecomocaracterísticafundamentaldamodernidade. Jáqueosujeito-cidadãodeumEstadomodernonãopodemaisaceitarsuaimersãoem algumpapelsocialparticularquelheconfiraumespaçodeterminadodentrodotodosocial orgânico,oúnicocaminhoparaatotalidaderacionaldoEstadomodernopassapeloTerror revolucionário: dever-se-ia eliminar sem remorso as limitações da “universalidade concreta”orgânicapré-modernaeafirmarplenamenteodireitoinfinitodasubjetividade emsuanegatividadeabstrata.Emoutraspalavras,oaspectocentraldaanálisedeHegeldo projetodoTerrorrevolucionárioenvolviaaafirmaçãodiretaunilateraldarazãouniversal abstrata,ecomosedestinavaapereceranteafúriaautodestrutiva,devezqueeraincapaz deorganizaratransposiçãodesuaenergiarevolucionáriaparaumaordemsocialconcreta, estávelediferenciada;oaspectocentraldeHegelé,emvezdisso,oenigmadomotivo peloqual,adespeitodofatodeoTerrorrevolucionáriotersidoumimpassehistórico, temosdepassarporeleafimdechegaraoEstadoracionalmoderno.

Tomemosoparadoxodoprocessodedesculpar-se:seeuofendoumapessoacomuma

observaçãogrosseira,acoisaadequadaparaeufazeréoferecer-lheumadesculpasincera,

eacoisaadequadaparaelafazerédizeralgocomo“Obrigado,apreciooseugesto,mas

nãofiqueiofendido.Seiquevocênãoquisdizerisso,demodoquenãomedevenenhuma desculpa!”.Aquestãoéque,evidentemente,emboraoresultadofinalsejaquenenhuma desculpaénecessária,éprecisopassarportodooprocessodeoferecê-la:“vocênãome devedesculpas”éalgoquesópodeserditodepoisqueeuaspeço,demodoque,embora formalmente“nadaaconteça”–opedidodedesculpaséproclamadodesnecessário–, existeumganhonofinaldoprocesso(talvezatéaamizadesesalve).Oprocessodialético é,assim,maisrefinadodoquepodeparecer.Anoçãopadrãoéquenelesósepodechegar àverdadefinalpormeiodeumpercursodeerros,demodoqueesseserrosnãosão simplesmentedescartados,mas“anulados”naverdadefinal,preservadosnelacomoseus momentos. O que essa noção padrão deixa escapar é como os erros são “anulados” (negados-preservados-realçados)precisamentecomosupérfluos.

Comoépossívelessecírculodemudançadopassadosemorecursoaumaviagemde

voltanotempo?AsoluçãofoipropostapelofilósofofrancêsHenriBergson(1859-1941):

evidentemente, não podemos mudar a realidade/materialidade do passado, mas o que podemosmudarésuadimensãovirtual–quandosurgealgoradicalmentenovo,essenovo cria retroativamente sua própria possibilidade, suas próprias causas/condições. 72 Uma potencialidadepodeserinseridanarealidadedopassado(oudelaremovida).Apaixonar-se muda o passado: é como se eu sempre-já amasse você, como se nosso amor fosse predestinadomuitoantesdenosconhecermos.Meuamoratualcausaopassadoquelhe deuàluz.EmUmcorpoquecai,deHitchcock,éocontrárioqueocorre:opassadoé alteradoparaquepercao“objeta”–termocomqueLacandesignaoobjetoinatingível dodesejo.OqueScottieprimeiramentevivenciaemUmcorpoquecaiéaperdade Madeleine,suaamantefatal;quandoelerecriaMadeleineemJudyeentãodescobrequea MadeleinequeeleconheceuanteseraJudyfingindoserMadeleine,oqueelepercebenão ésimplesmentequeJudyéumafarsa(elesabequeelanãoéaverdadeiraMadeleine,de vezquerecriouumacópiadeMadeleineapartirdela),masque,pornãoserelaumafarsa –elaéMadeleine–,aprópriaMadeleinejáeraumafarsa:oobjetasedesintegra,a própriaperdaéperdida,temosuma“negaçãodanegação”.AdescobertadeScottiemuda opassado,privaoobjetoperdidodoobjeta.Omesmoparadoxotemporalcaracteriza todos os acontecimentos propriamente ditos, incluindo os políticos – a revolucionária alemã Rosa Luxemburgo estava muito ciente disso quando, em sua polêmica com o socialistaÉdouardBernstein,apresentoudoisargumentoscontraomedorevisionistade queoproletariadoviesseatomaropoderprematuramente,antesqueascircunstâncias fossemadequadas:

Atransformaçãosocialistapressupõeumalutalongaetenaz,nocursodaqualémuitoprovávelqueoproletariado

soframaisdeumaderrota,demodoque,pelaprimeiravez,dopontodevistadoresultadofinaldessaluta,ele

necessariamenteteráchegadoaopodermuitocedo…seráimpossívelevitaraconquistadopoderdoEstadopelo

proletariadoprecisamenteporqueessesseusataques“prematuros”constituemumfatore,comefeito,umfatormuito

importante,criandoascondiçõespolíticasparaavitóriafinal.Nocursodacrisepolíticaquevaiacompanharsua tomadadopoder,nocursodaslongasetenazeslutas,oproletariadovaiadquirirograudematuridadepolíticaque lhepermitiráobteratempoavitóriadefinitivadarevolução…Devezqueoproletariadonãoestáemcondiçãode tomaropodersenão“prematuramente”,devezqueeletemaobrigaçãoabsolutadetomaropoderumaouvárias vezes“prematuramente”antesdeconquistá-lodemaneiradefinitiva,opor-seàconquista“prematura”dopodernada maisé,nofundo,doqueopor-seemgeralàaspiraçãodoproletariadodeconquistaropoderdeEstado. 73

Nãoexistemetalinguagem,nenhumaposiçãodeforaapartirdaqualoagentepossa calcularquantastentativas“prematuras”sãonecessáriasparachegaraomomentocerto. Porquê?Porqueesseéumexemplodeverdadequesurgedapercepçãoincorreta(lavérité surgitdelaméprise,comodisseLacan),emqueastentativas“prematuras”transformam opróprioespaço/avaliaçãodatemporalidade:osujeito“pulaàfrente”eassumeoriscoao fazer um movimento antes que as condições deste sejam plenamente atingidas. 74 O envolvimentodosujeitonaordemsimbólicacurvaofluxolineardotempoemambasas direções: envolve tanto precipitação quanto retroatividade (as coisas tornam-se retroativamenteoquesão;aidentidadedeumacoisasóemergequandoacoisaestá atrasadaemrelaçãoasimesma)–emsuma,cadaatoé,pordefinição,muitoadiantadoe, simultaneamente,muitoatrasado.Éprecisosaberesperar,nãoperderacalma:sealguém agerápidodemais,oatosetransformanumapassageàl’acte,umaviolentafugapara adianteafimdeevitaroimpasse.Sealguémperdeaoportunidadeeagemuitotarde,oato perdesuaqualidadedeacontecimento,deintervençãoradical,emconsequênciadaqual “nadacontinuacomoantes”,esetornaapenasumamudançalocaldentrodaordemdoser, parte do fluxo normal das coisas. O problema é que, é claro, um ato sempre ocorre simultaneamentecedodemais(ascondiçõesnuncasãoplenamenteadequadas,apessoa temdesucumbiràurgênciadeintervir,nuncahátemposuficienteparaesperar,para realizar cálculos estratégicos, o ato precisa prever sua garantia e o risco de que vai estabelecerretroativamentesuasprópriascondições)etardedemais(aprópriaurgênciado atosinalizaquechegamosmuitotarde,quesempredeveríamosjáteragido;cadaatoé umareaçãoacircunstânciasquesurgemporquedemoramosmuitoparaagir).Emsuma, não existe um momento certo de agir–se esperarmos o momento certo, o ato será reduzidoaumaocorrêncianaordemdoser.

Éporcausadessacomplicaçãotemporalque,emHegel,tudosetornaacontecimental:

uma coisa é o resultado do processo (acontecimento) de seu próprio devir, e essa processualidade a dessubstancializa. O próprio espírito é, assim, radicalmente dessubstancializado: não é uma contraforça positiva em relação à natureza, uma substânciadiferentequegradualmenteirrompeebrilhaatravésdamatérianaturalinerte; nãoénadasenãoesseprocessodelibertar-sede.Hegelrepudiadiretamenteanoçãode EspíritocomoumaespéciedeAgentepositivoqueacentuaoprocesso:

Fala-segeralmentedoEspíritocomoumsujeito,fazendoalgoalémdoqueelefaz,comoessemovimento,esse

processo,comoaindaalgoparticular,suaatividadesendomaisoumenoscontingente…édapróprianaturezado

espíritoseressavitalidadeabsoluta,esseprocesso,provirdanaturalidade,daimediação,parasuperar,abandonar essanaturalidadeevoltarasi,elibertar-se,sendosimesmoapenasquandovoltaparasicomoumprodutodesi;sua realidadesendomeramentequeeletransformouasimesmonaquiloqueeleé. 75

AreversãomaterialistadeHegelemLudwigFeuerbachenojovemMarxrejeitaessa

circularidadeautorreferencial,descartando-acomoumexemplodemistificaçãoidealista:

paraFeuerbacheMarx,ohomeméumGattungswesen(sergenérico)queafirmasuavida

tornando-seconscientedesuas“forçasessenciais”.Oacontecimentohegelianoé,assim,

incompleto;estamosdevoltaàontologiaaristotélicadeentidadessubstanciaisdotadasde

qualidadesessenciais.

qualidadesessenciais. a

a Emtraduçãolivre:“Tivesseeuostecidosbordadosdocéu,/Feitosdedouradaeprateadaluz,/Ostecidosazuiseturvos

eescuros/Danoite,daluzedameia-luz,/Euespalhariaostecidossobseuspés./Maseu,sendopobre,tenhoapenas

meussonhos;/Espalheimeussonhossobseuspés,/Pisesuavementeporquevocêestápisandonosmeussonhos.”(N.T.)

b “Averdadesurgedodesprezo.”(N.T.)

QUINTAPARADA

Ostrêsacontecimentosdapsicanálise

EMSEUPassagens,WalterBenjamin 76 citaohistoriadorfrancêsAndréMonglond:“O passado deixou de si mesmo em textos literários imagens comparáveis àquelas que imprimimos com a luz numa placa fotossensível. Só o futuro possui reveladores suficientementeativospararevelarcomperfeiçãotaisclichês.” 77 Longedeserapenasuma observaçãoneutrasobreacomplexainterdependênciadetextosliterários,essanoçãode textosdopassadoapontandoparaofuturoébaseadananoçãobásicadeBenjamindoato revolucionáriocomoaredençãoretroativadeatosfracassadosdopassado:

Opassadocarregaconsigoumíndicetemporalpeloqualéremetidoàredenção.Háumacordosecretoentreas geraçõespassadaseaatual.Nossavindafoiesperadasobreaterra.Comocadageraçãoquenosprecedeu,anossafoi dotadadeumafracaforçamessiânica,umpoderaqueopassadotempretensão. 78

OprimeironomequeocorreaquiéodeShakespeare,cujahabilidadedeantever percepçõesquepertencempropriamenteaépocasfuturaséalgoquebeiraoextraordinário. Muitoantesdofamoso“Mal,queressermeuDeus?”proferidoporSatãemParaíso perdido,deMilton,afórmuladomaldiabólicofoidadaporShakespeare,emcujoTito AndrônicoaspalavrasfinaisdoimpenitenteAarãosão:“Seumaúnicaboaaçãoemminha vidaeufiz,/Delaeumearrependodofundodaalma.” 79 Eocurto-circuitodeRichard WagnerentrevereouvirnoúltimoatodeTristão,frequentementepercebidocomoo momentodefinidordomodernismopropriamentedito(Tristãomoribundoavozde

Isolda),játinhasidoclaramenteformuladoemSonhodeumanoitedeverão.NoatoV:1,

Bottom/Píramodiz:“Vejoumavoz:agoraeuvouatéabrecha,/Paraespiarepossoouviro rostodeminhaTisbe.”(OmesmopensamentoocorremaistardeaoreiLear:“Olhecom ouvidosteus.”)Equedizerdadefiniçãoextraordinariamentemodernadepoesia,também

deSonhodeumanoitedeverão,atoV:1,emqueTeseudiz:

Olunático,oamanteeopoeta

Sãotodosdaimaginaçãocondensados

Umvêmaisdemôniosdoqueoinfernopodeabrigar

Ouseja,olouco;oamante,frenético,

VêabelezadeHelenanumatestaegípcia:

Oolhodopoeta,girandonumbelofrenesi,

Olhaderelancedocéuparaaterra,daterraparaocéu,

Ecomoafantasiadácorpo

Acoisasdesconhecidas,apenadopoeta

Astransformaemfeições,edáaoetéreonada

Umlocaldemoradiaeumnome.

Taistruquestêmforteimaginação,

Dequeseissodetivessealgumaalegriaapenas,

Abrangeriaalgumportadordessaalegria;

Ounanoite,pressupondoalgummedo,

Comoéfácildeumarbustofazerumurso!

Defato,comodisseMallarmé,poetasimbolistadoséculoXIX,apoesiafalasobre“ce seulobjetdontleNéants’honore”(“esseobjetoexclusivodequeoNadaseorgulha”). Maisprecisamente,Shakespearearticulaaquiumatríade:umloucovêdemôniosportoda parte (confunde um arbusto com um urso); um amante vê beleza sublime num rosto comum;umpoeta“dáaoetéreonadaumlocaldemoradiaeumnome”.Emtodosostrês casostemosumhiatoentrearealidadefamiliareumadimensãoetéreatranscendente,mas essehiatoégradualmentereduzido:oloucosimplesmenteconfundeumobjetorealcom umaoutracoisa,nãoovendopeloqueé(umarbustoépercebidocomoumapavorante urso); um amante sustenta a realidade do objeto amado, que não é revogada, mas “transubstanciada”naaparênciadeumasublimedimensão(orostocomumdaamadaé vistotalcomoé,mas,nessaqualidade,éressaltado–euvejobelezanele,talcomoé); com um poeta, a transcendência é reduzida a zero, ou seja, a realidade empírica é “transubstanciada”–nãonumaexpressão/materializaçãodeumarealidademaiselevada, masnamaterializaçãodonada.UmloucodiretamenteDeus,confundeumapessoa comDeus(oucomoDemônio);umamantevêDeus(adivinabeleza)emumapessoa;um poetasóvêumapessoacontraopanodefundodonada. 80

Talvezpossamosusaressatríadeshakespearianaformadapelolunático,oamanteeo poetacomoferramentaparaproporumaclassificaçãodeacontecimentosbaseadanatríade lacaniana de imaginário, simbólico e real: um lunático habita a dimensão imaginária, confundindorealidadeeimaginação;umamanteidentificaapessoaamadacomaCoisa absolutanumcurto-circuitosimbólicoentresignificanteesignificadoque,nãoobstante, mantémohiatoqueeternamenteossepara(oamantesabemuitobemque,narealidade,o objetodeseuamoréumapessoacomumcomtodasassuasfalhasefraquezas);umpoeta fazemergirumfenômenocontraopanodefundodovácuodoreal.

ParaLacan,oimaginário,osimbólicoeorealsãoastrêsdimensõesfundamentaisem quehabitaumserhumano.Adimensãodoimaginárioénossaexperiênciavividadiretada realidade,mastambémdenossossonhosepesadelos–éodomíniodoaparente,decomo ascoisasseparecemparanós.AdimensãodosimbólicoéoqueLacanchamade“grande Outro”,ooutroinvisívelqueestruturanossasexperiênciasdarealidade,acomplexarede deregrasesignificadosquenosfazveroquevemosdamaneiracomoovemos(eoque não vemos da maneira como não o vemos). O real, contudo, não é simplesmente a realidadeexterna;é,emvezdisso,comodizLacan,“impossível”:algoquenãopodeser nemdiretamentevivenciadonemsimbolizado–comoumencontrotraumáticodeextrema

violênciaquedesestabilizainteiramentenossouniversodesignificado.Comotal,orealsó

podeserdiscernidoemseusvestígios,efeitoseconsequências.

Essatríadeestálongedeserexclusivamentelacaniana–outraversãodelafoiproposta

porKarlPopper(1902-94)emsuateoriadoTerceiroMundo(queéonomedadopor

Popperàdimensãoouordemsimbólica). 81 Poppercompreendeuqueaclassificaçãousual detodososfenômenosnarealidadematerialexterna(dosátomosàsarmas)eemnossa realidadepsíquicainterna(deemoções,desejos,experiências)nãoésuficiente:asideias dequefalamosnãoapenastransmitemospensamentosdenossamente,jáqueestesse referemaalgoquepermaneceomesmo,enquantonossospensamentosexpiramouse

transformam(quandopensosobre2+2=4emeucolegapensasobreisso,estamos

pensando sobre a mesma coisa, embora nossos pensamentos sejam materialmente diferentes;quando,numaconversa,umgrupodepessoasfalasobreumtriângulo,elas falamdealgumaformasobreamesmacoisa).Poppernãoé,evidentemente,umidealista:

asideiasnãoexistemàpartedenossasmentes;sãoresultadodenossasoperaçõesmentais, mas,apesardisso,nãosãoredutíveisaelas–possuemummínimodeobjetividadeideal. FoiparaapreenderessedomíniodosobjetosideaisquePoppercunhouotermo“Terceiro Mundo”,eesseTerceiroMundoseajustafrouxamenteao“grandeOutro”lacaniano.Mas apalavra“ordem”nãonosdevedesorientaraqui:aordemsimbólicadeLacannãoéuma redeestáveldecategoriasounormasideais.Acensuradesconstrucionista/feministapadrão àteorialacanianatemcomoalvoseusupostoconteúdonormativoimplícito:anoçãode Nome-do-Pai de Lacan, o agente da lei simbólica que regula a diferença sexual, supostamenteintroduzumanormaque,mesmojamaissendoplenamenteconcretizada, impõeassimmesmoumpadrãoàsexualidade,dealgumaformaexcluindoosqueocupam umaposiçãomarginal(gays,transexuaisetc.);alémdisso,essanormaé,semdúvida, historicamentecondicionada,enãoumacaracterísticauniversaldoserhumano,como Lacansupostamenteafirma.EntretantoessacensuraaLacanbaseia-senumaconfusão comreferênciaàpalavra“ordem”naexpressão“ordemsimbólica”:

“Ordem”,nosentidolegítimodotermo,designanadamaisqueumdomínioespecífico:nãoindicaumaordemaser respeitadaeobedecida,muitomenosumidealaseraceitoouumaharmonia.OsimbóliconosentidodeLacannada significasenãoadesordemessencialqueemergedajunçãodalinguagemcomosexual. 82

A ordem simbólica lacaniana é, assim, inerentemente inconsistente, antagônica, inadequada,“recusada”,umaordemdeficçõescujaautoridadeéadeumafraude.Épor contadessainconsistênciaque,paraLacan,asdimensõesdoimaginário,dorealedo simbólicosãointerligadascomoofamosodesenho“Waterfall”,deEscher,quemostraum circuitodeáguascaindoeternamente.Nossaquestãoaquié:quetipodeacontecimentose encaixaemcadaumadessastrêsdimensões?Oqueéumacontecimentoimaginário,um acontecimento real e um acontecimento simbólico? A questão é tão ampla que não

podemosenfrentá-lanumaúnicaparada–temosdemudardelinhaefazertrêsconexõesa

partirdela.

Conexão5.1.Oreal:confrontandoaCoisa

Aexpressãojaponesabakku-shansignifica“umagarotaqueparecebonitasevistapor

trás,masquenãoserevelaassimpelafrente”.Umadasliçõesdahistória–eaindamais

daexperiênciaatual–dareligiãoéqueomesmovaleparaopróprioDeus:elepode

parecergrandequandovistoportráseaumadistânciaadequada,mas,quandochegamos

bempertoesomosobrigadosaconfrontá-lofaceaface,oêxtaseespiritualsetransforma

emhorror.Esseaspectodestrutivododivino,abrutalexplosãodeódiomisturadocom

euforiaextática,éoqueLacanestámirandoquandoafirmaqueosdeusespertencemao

real.EsseencontrotraumáticocomumaCoisadivinaéoacontecimentocomoreal.

Oproblemadojudaísmoéprecisamenteeste:comopodemosmanteressadimensãoda

loucuradivina,dosdeusescomoreais,àdistância?Odeusjudaicoétambémodeusda

loucurabrutal–oquemudaéaposturadoscrentesemrelaçãoaessadimensãododivino:

senosaproximamosdemaisdela,então“aglóriadoSenhorécomoumfogoconsumidor”

(Êxodo24:17).ÉporissoqueopovojudeudizaMoisés:“Falatumesmoconosco,e

ouviremos:masnãofaleDeusconosco,paraquenãomorramos”(Êxodo20:19).Masese,

comoconcluiuEmmanuelLevinas, 83 oprincipaldestinatáriodomandamentobíblico“Não matarás”foropróprioDeus(Javé),enós,frágeishumanos,formosospróximosalvosde seudivinoódio?ComquefrequêncianoVelhoTestamentoencontramosDeuscomoum tenebrosoestranhocujabrutalidadeinterferenasvidashumanasedisseminaadestruição?

Ora,aconteceunocaminho,numaestalagem,queoSenhoroencontrou,edesejavamatá-lo.EntãoZíporatomou umafacadepedra,cortouoprepúciodeseufilhoe,lançando-oaospésdeMoisés,disse:Comefeito,ésparamim umespososanguinário.OSenhor,então,odeixou.Eladisse:Espososanguinário,porcausadacircuncisão.(Êxodo

4:24-26)

Comefeito,quandoLevinasafirmouqueaprimeirareaçãoaovermosumpróximoé matá-lo,aimplicaçãonãoseriaqueissosereferefundamentalmenteàrelaçãodeDeus comoshumanos,demodoqueomandamento“Nãomatarás”éumapeloaDeusparaque controle sua fúria? Na medida em que a solução judaica é um deus morto, que só sobrevivecomouma“letramorta”,nolivrosagrado,daleiaserinterpretada,oqueperece comamortededeuséprecisamenteodeusdoreal,dafúriaedavingançadestrutivas.O títulodeumlivromuitoconhecidosobreoholocausto–GodDiedinAuschwitz[Deus morreuemAuschwitz]–temdeserinvertido:Deustornou-sevivoemAuschwitz.É comose,emAuschwitz,Deusretornasse,comcatastróficasconsequências.Overdadeiro horrornãoocorrequandosomosabandonadosporDeus,masquandoeleseaproxima

muitodenós.Umcasoliterárioexemplardetalencontrocomorealdivinoéaúltimapeça

deEurípides,Asbacantes,ahistóriadePenteu,jovemreitebanoque,horrorizadocomas

obscenasorgiassagradasdodeusBaco,proíbeseupovodecultuá-lo.OfuriosoBacoleva

PenteuaumamontanhasagradaondeAgave,amãedePenteu,easmulheresdeTebaso

reduzemapedaçosnumfrenesidestrutivo.

RecentementeesseparadoxofoiformuladodemodosucintoporJürgenHabermas:

“Linguagenssecularesqueapenaseliminamasubstânciadaquiloqueumdiafoialegado deixamirritaçõesatrásdesi.Quandoopecadoseconverteuemculpaeatransgressãoàs ordensdivinasseconverteuemofensaàsleishumanas,algoseperdeu.” 84 Époresse motivoqueasreaçõesseculares-humanistasafenômenoscomooholocaustoouogulag sãopercebidascomoinsuficientes:paraestarnoníveldetaisfenômenos,énecessárioalgo muitomaisforte,algopróximodoantigotemareligiosodeumaperversãooucatástrofe cósmicaemqueoprópriomundoestá“foradoeixo”.Quandonosconfrontamoscomum fenômenocomooholocausto,aúnicareaçãoadequadaéperguntarestupefato:“Porqueos céusnãoescureceram?”(títulodofamosolivrodeArnoMayorsobreotema).Resideaío paradoxodarelevânciateológicadoholocausto:emborasejausualmenteconcebidocomo oprincipaldesafioàteologia(seexisteDeuseseeleébom,comopoderiapermitirque algotãohorrorosoacontecesse?),éaomesmotempounicamenteateologiaquepode fornecer o arcabouço que nos possibilita abordar de alguma forma o escopo dessa catástrofe–ofiascodeDeuséaindaofiascodeDeus.

Ojudaísmoforneceumasoluçãosingularparaessaameaçadaproximidadeexcessiva dodivino:enquantonasreligiõespagãsosdeusesestavamvivos,oscrentesjudeusjá levavamemcontaamortedeDeus–eindicaçõesdessapercepçãosãoabundantesnos textos sagrados judaicos. Relembremos a história contada no Talmude sobre os dois rabinosquebasicamentedizemaDeusquesecale.Elesbrigamarespeitodeumaquestão teológica até que, incapazes de resolvê-la, um deles propõe: “Deixe o próprio Céu testemunhar que a Lei está de acordo com a minha compreensão.” Uma voz do céu concordacomorabinoquepediuajudaprimeiro;masooutroentãoselevantaeafirma quemesmoumavozdocéunãopodeserconsiderada,“PorqueVós,óDeus,escrevestes muitotempoatrás,naleiquenosdestesnoSinai,‘Deveisseguiramultidão’”.Opróprio Deuséobrigadoaconcordar:depoisdedizer“Meusfilhosmevenceram!Meusfilhosme venceram!”,eleseafastarapidamente.HáumahistóriasemelhantenoTalmudebabilônico

(BabaMetzia59b),mas,aqui,numamaravilhosaguinadanietzschiana,Deusaceitasua

derrotacomumaalegrerisada–orabinoNathanencontraoprofetaEliaselhepergunta:

“OquefezoDivinonaquelemomento?”Eliasresponde:“Eleriu[comalegria],dizendo:

‘Meusfilhosmevenceram,meusfilhosmevenceram.’”Oaspectoextraordináriodessa

histórianãoésomenteadivinarisadaquesubstituiolamentodoloroso,masamaneira

como os sábios (que evidentemente representam o grande Outro, a ordem simbólica) vencemadiscussãocomDeus:opróprioDeus,oSujeitoabsoluto,édeslocadodesua posiçãoemrelaçãoaograndeOutro,demodoque,umaveztendosidoescritassuas regras,elenãopodemaismodificá-las.PodemosassimimaginarporqueDeusreagea essaderrotacomumaalegrerisada:ossábiosaprenderamsualição,queDeusestámortoe queaverdaderesidenaletramortadaleiqueestáalémdeseucontrole.Emsuma,após realizadooatodacriação,Deusperdeatémesmoodireitodeintervirsobreomodocomo aspessoasinterpretamsualei.

Entretanto o Deus vivo continua sua vida subterrânea e retorna erraticamente em múltiplasformas,todaselasdisfarcesdamonstruosaCoisa–atéaculturapopulardehoje.

OfilmedeNimaNourizadehProjetoX,de2012,narraonascimentodeumalenda

urbana:ThomasestáfazendodezesseteanoseseusamigosCostaeJBplanejampromover

umaenormefestadeaniversárionacasadeleafimdeaumentarsuapopularidadeentreos

colegasdeescola.ComoospaisdeThomasvãoviajarnofimdesemana,opaiestabelece

asregras(nomáximocincopessoasnacasa,nãodirigiroluxuosoMercedeseninguém

entraremseuescritório).

Thomastemequeninguémvácompareceratéque,subitamente,carroscomeçama estacionarnavizinhançaeafestasetornaumsucessoinstantâneo.Gradualmente,as coisasvãosaindodecontrole:obarulhoeotamanhodafestaatraemacoberturados noticiáriosdeTV;helicópterosdamídiasobrevoamacasa;apolíciachegacomuma equipedaSWAT,quedecidedeixarafestaseesgotarantesdeentrarnaresidência.Mas entãoumintrusocomumlança-chamasqueimaárvorespelavizinhançaetambémcarros estacionados na rua, e a área fica em chamas até que os helicópteros do corpo de bombeirosvenhamapagarofogo.Quando,namanhãseguinte,ospaischegamàcasa,o paideThomasocastigausandoosfundosdestinadosacustearseusestudosuniversitários parapagaroprejuízo;mas,apesardisso,cumprimentaThomaspelafesta–elemostrou quetinhacoragem,enquantoopaipensavaquefossefrouxoecovarde.Oreconhecimento dopaidemonstracomofuncionaaproibiçãopaterna:

Defato,aimagemdoPaiidealéumafantasiadeneuróticos.Para-alémdaMãe…perfila-seaimagemdeumpai quefechariaosolhosaosdesejos.Medianteoqueficaaindamaisacentuadadoquereveladaaverdadeirafunçãodo Pai,queé,essencialmente,unir(enãoopor)umdesejoàLei. 85

Enquanto proíbe as escapadas do filho, o pai não apenas as ignora e tolera discretamente,masatéasestimula.Énessesentidoqueopaicomoagentedaproibição/lei sustentadesejos/prazeres:nãoexisteacessodiretoaodesfrute,devezqueseuespaçoé abertopelaslacunasdoolharcontroladordopai.(Eseráqueexatamenteomesmonão valeparaopróprioDeus,nossopaisupremo?Oprimeiromandamentodiz:“Nãoterás outrosdeusesdiantedemim.”Aqueserefereesseambíguo“diantedemim”?Amaioria

dostradutoresconcordaqueissosignifica“diantedomeurosto,àminhafrente,quandoeu oestivervendo”–oquesutilmenteimplicaqueociumentoDeusirá,nãoobstante,fechar osolhosàquiloquevocêfizersecretamente,foradasvistas(dele).Emsuma,Deusécomo ummaridociumentoquedizàesposa:“Tudobem,vocêpodeteroutroshomens,masfaça issodiscretamente,demodoqueeu(ouopúblicoemgeral)nãopercebaevocênãome envergonhe!”Aprovanegativadessepapelconstitutivodopaiemgarantirespaçopara essedesfruteviáveléacondiçãodapermissividadeatual,emqueomestre/especialista não mais proíbe o prazer, mas desfruta dele (“sexo é saudável” etc.), desse modo efetivamenteosabotando.

Como,então,afiguradopaiserelacionacomaCoisa?Aautoridadesimbólicadopai funcionacomoaagênciaquenormalizaoencontrodaCoisa:emnomedaleiqueregulaa interaçãosocial,opaisinalizasuatolerânciaemrelaçãoaencontrosocasionaisdaCoisa. Maisrelevante,porém,éocaráterquasesecretodafesta:quandoelasaidecontrole, explodenoquenãosepodedeixardesignarcomoumaexperiênciacoletivadosagrado, umaexperiênciadaquiloqueGeorgesBataille 86 chamoudeéconomiegénérale,dispêndio irrestrito,algocomoadançadasBacantesreinventadaparaosdiasdehoje,ummomento em que o adolescente mais estúpido participando de uma festa transforma-se no seu oposto,umanovaformadosagrado.E,paraevitarummal-entendido,aquestãonãoé promoverumafestadepravada,mastornarvisívelanaturezaanfíbiadoprópriosagrado. OcineastarussoSergeiEisensteinviaaproduçãodopathoscomoumaquestãoestrutural, enãoapenasdeconteúdo.EmAlinhageral(ouOvelhoeonovo),háumacenafamosa quemostraoexitosotestecomumacentrífugadesnatadeiranumafazendacoletiva,com osagricultoresextasiadosaoobservarolíquidobrancoquecomeçaafluir–amáquinase tornaumobjetomágicosemelhanteaumcáliceque“intensifica”suasemoções. 87 Nãoé exatamenteomesmoqueocorreemProjetoX,noqualumafestaadolescenteobscenaé “intensificada”,transformando-senumaorgiasagrada?

Umexemploaindamaisextremodessetipode“intensificação”foioacontecimentode

músicapopdoverãode2012:“GangnamStyle”,protagonizadoporPsy,umcantorsul-

coreano.Amúsicanãoapenassetornouextremamentepopular,mastambémmobilizou pessoasaentraremnumtransecoletivo,comdezenasdemilharesgritandoeexecutando umadançaqueimitaumpasseioacavalo,tudonomesmoritmoecomumaintensidade quenãoeravistadesdeoiníciodosBeatles,referindo-seaPsycomoumnovoMessias.A músicaéumapsicodançanoqueestatemdepior,totalmenteáridaemecanicamente simples,quasetodageradaporcomputador(onomedocantoré,evidentemente,uma versãomaiscurtade“psicotranse”);oqueatornainteressanteéaformacomocombina transe coletivo com autoironia. A letra da canção (e a montagem do videoclipe) obviamente faz graça com a insignificância e a vacuidade do estilo Gangnam (nome

inspiradonumbairroestilosodeSeul),atédemaneirasutilmentesubversiva,dizemalguns – mas, não obstante, entramos em transe, capturados pelo estúpido ritmo de marcha, participandodeleempuramimese;flashmobspipocarampelomundoimitandoascenas dovídeo.Comocuriosidade,asvisualizaçõesdestesuperaramatémesmoasdeJustin BiebernoYouTube,tornando-oassimomaisvistonessesitedecompartilhamentoem

todosostempos.Em21dedezembrode2012,alcançouonúmeromágicode1bilhãode

visualizações–e,devezque21dedezembroeraodiaemqueaquelesquelevavama

sérioocalendáriomaiaesperavamqueocorresseofimdomundo,pode-sedizerqueos

antigosmaiasestavamcertos:ofatoéqueovídeo“GangnamStyle”éefetivamenteo

símbolodocolapsodacivilização.

“GangnamStyle”nãoéideologiaadespeitododistanciamentoirônico,éideologiapor causadele:aironiadesempenhaomesmopapelqueoestilodocumentáriodeLarsvon TrieremOndasdodestino,emqueaformapseudodocumentalascéticatornapalpávelo conteúdo excessivo – de maneira estritamente homóloga, a autoironia de “Gangnam Style” torna palpável o estúpido desfrute da música rave. Muitos ouvintes acham a cançãorepulsivamenteatraente,ouseja,“amamodiá-la”,oumelhor,apreciamopróprio fatodeacharem-narepulsiva,demodoqueatocamrepetidamenteparaprolongarsua repulsa.Essarendiçãoextáticaàjuissanceobscenaemtodaasuaestupidezenvolveo objetonoqueLacan,seguindoFreud,chamade“impulso”:talvezsuasexpressõesmais paradigmáticassejamosrituaisrepulsivosprivados(comocheiraroprópriosuor,enfiaro dedononarizetc.)quetrazemgrandesatisfaçãosemquetenhamosconsciênciadisso– ou,quandotemosessaconsciência,semsermoscapazesdefazeroquequerquesejapara evitá-los.EmOssapatinhosvermelhos,contodefadasdeHansChristianAndersen,uma jovemempobrecidacalçaumpardesapatosmágicosequasemorreporqueseuspésnão paramdedançar.Elasóésalvaquandoumcarrascocortaseuspéscomummachado. Seus pés ainda calçados continuam a dançar, enquanto ela recebe pés de madeira e encontrapaznareligião.Essessapatosrepresentamoimpulsoemsuamaispuraforma:

umobjetoparcial“morto-vivo”quefuncionacomoumaespéciededisposiçãoimpessoal –“eledeseja”,elepersisteemseumovimentorepetitivo(dedança),elesegueessecursoe exige satisfação a qualquer custo, independentemente do bem-estar do sujeito. Esse impulsoéoqueestá“nosujeitomaisqueelepróprio”:emboraosujeitonãopossajamais subjetivizá-lo,assumi-locomoseu,dizendo“Soueuquequerofazeristo”,eleopera,não obstante,emseupróprionúcleo.

AtesedeLacanéqueépossívelsublimaresseperigosofrenesi;édissoquetratam,em

últimainstância,arteereligião.Amúsicatransforma-senumsignodeamorquandonão

maisassombraosujeitocomojuissanceobscena,compelindo-oaserendercegamentea

seuritmorepulsivo,eoamortranspirapormeiodeseussons:oamorcomoaceitaçãoem

suaalteridaderadical,umamorqueestá–comoafirmaLacannaúltimapáginadeO

Seminário,livro11–alémdalei.Masdevemossermuitoprecisosaqui:amoralémdalei

nãosignificaamorselvagemforadetodasascoordenadassimbólicasinstitucionais(como “o amor é um pássaro rebelde” de Carmen); significa quase o exato oposto. A característicadistintivadesseamoréaindiferença,nãoemrelaçãoaseuobjeto,masàs propriedades positivas do objeto amado: dizer “Eu amo você porque tem um belo nariz/pernasatraentes”etc.éapriorifalso.Éomesmocomoamoreacrençareligiosa:

nãoamovocêporqueachoatraentessuascaracterísticaspositivas,achoatraentessuas

característicaspositivasporqueamovocêe,portanto,o/aobservocomumolharamoroso.

OPrêmioNobeldeEconomiade2012foiparaAlvinRotheLloydShapley,pela

elaboraçãoda“teoriadasalocações”,aescolhaeconômicaemquevocênãoéoúnicoque está escolhendo. Numa entrevista, Roth explicou: “Quando [as pessoas] entram nas escolas,quandoescolhemsuascarreiras,quandosecasam,todosessessãomercadosde alocação.Vocênãopodeapenasescolheroquedeseja,tambémtemdeserescolhido.A utilidadedaalocaçãoéquevocêestádefinindoumrelacionamento.”Aexpressão-chave aquié“definindoumrelacionamento”:emquestõesdeamor,ateoriadasalocaçõesbusca construirumtipodeaxiomaoufórmulaparaumarelaçãosexualexitosa.Masseráque umarelaçãoamorosapodesercolocadanomesmoníveldeaproximarumpacientecom problemasdefígadodeumdoador,ouumapessoaembuscadeempregodeumgerente prontoacontratar?Oproblemanãoédedignidademoral,masdalógicaimanente:quando vocêseapaixona,vocênãoapenassabedoqueprecisa/oquedesejaeprocuraapessoa queotem–o“milagre”doamoréquevocêaprendeoqueprecisasomentequandoo encontra.

Comoéquetudoissoserelacionacomoacontecimentonasexualidade?Nofilme

Romance(1999),dacineastafrancesaCatherineBreillat,háumacenafantasísticaque

dramatizaperfeitamenteessaclivagemradicalentreamoresexualidade:aheroínase imagina deitada nua de barriga para baixo numa mesinha dividida ao meio por uma divisóriacomumburacosuficientementegrandeparaconterseu corpo.Comaparte superiordocorpo,elaencaraumsujeitogentilcomoqualtrocasuavespalavrasdeamore beijos,enquantosuaparteinferioréexpostaagaranhõesdotipomáquinadefazersexo que a penetram repetidamente de maneira selvagem. Entretanto o verdadeiro milagre acontece quando essas duas séries momentaneamente coincidem , quando o sexo é “transubstanciado” num ato de amor. Há quatro maneiras de rejeitar essa conjunção

impossível/realdeamoredesfrutesexual:(1)acelebraçãodoamor“puro”assexual,

comoseodesejosexualpelapessoaamadademonstrasseainautenticidadedoamor;(2)a

afirmaçãoopostadosexointensocomo“aúnicacoisareal”,quereduzoamoraummero engodo imaginário; (3) a divisão desses dois aspectos, sua alocação a duas pessoas

diferentes – uma delas ama sua gentil esposa (ou a inacessível senhora idealizada),

enquantoaoutrafazsexocomumaamante“vulgar”;ou(4)suafalsafusãoimediata,em

quesesupõequeosexointensodemonstraqueapessoa“realmenteama”oparceiro, como se, para provar que nosso amor é verdadeiro, cada ato sexual tivesse de ser a proverbial“fodadoséculo”.Todasessasquatroposturassãofalsas,umafugaaassumira conjunçãoimpossível/realdeamoresexo;umverdadeiroamorésuficienteemsimesmo, tornaosexoirrelevante–masprecisamenteporque“fundamentalmente,issonãoimporta” podemosfruí-lodemaneiraplenasemnenhumapressãodosupereu.E,inesperadamente,

issonoslevaaLênin.Quando,em1916,a(entãoex-)amantedeLênin,InessaArmand,

escreveuaelequemesmoumapaixãoefêmeraeramaispoéticaemaispuradoquebeijos

semamorentremaridoemulher,elerespondeu:

Beijossemamorentrecônjugesvulgaressãoimundos.Concordo.Elesprecisamsercontrastados…comoquê?… Pareceque:beijoscomamor.Masvocêopõe“umapaixão(porquenãooamor?)efêmera(porqueefêmera?)”–o resultadológicoécomosebeijossemamor(efêmeros)fossemcontrastadoscombeijosconjugaissemamor…Isso éestranho. 88

ArespostadeLêninégeralmentedescartadacomoprovadesuaconstriçãosexual pequeno-burguesa,sustentadaporumaamargamemóriadocasoquetiveramnopassado; entretantoháoutrosaspectosnisso.Apercepçãoédequeos“beijosconjugaissemamor” eo“casoefêmero”extraconjugalsãodoisladosdamesmamoeda–ambosesquivam-se decombinarorealdaligaçãoapaixonadaincondicionalcomaformadaproclamação simbólica. Lênin está profundamente certo nisso, embora não no sentido pudico de preferirocasamento“normal”poramoràpromiscuidadeilícita.Apercepçãosubjacenteé que,contrariandotodasasaparências,amoresexonãosãoapenasdistintos,masem últimainstânciaincompatíveis,operandoemníveisprofundamentediferentes,comoágape eeros:oamorécaridoso,abnegado,envergonhadodesimesmo,enquantoosexoé intenso,autoconfiante,possessivo,inerentementeviolento(ouooposto:amorpossessivo versussatisfaçãogenerosadosprazeressexuais).Masoverdadeiromilagreocorrequando (excepcionalmente)essasduassériesmomentaneamentecoincidem, quando o sexo é “transubstanciado”numatodeamor–umaconexãoqueéreal/impossívelnopreciso sentidolacaniano,ecomotalmarcadaporumainerenteraridade.Hojeemdia,écomose onódostrêsníveisquecaracterizavamasexualidadetradicional(reprodução,prazer sexual, amor) estivesse gradualmente se dissolvendo: a reprodução é deixada para procedimentosbiogenéticosquetornamredundanteointercursosexual,oprópriosexo transforma-se em diversão recreativa, enquanto o amor é reduzido ao domínio da “realizaçãoemocional”.Nessasituação,éextremamentepreciososerlembradodesses rarosmomentosmilagrososemqueduasdessastrêsdimensõesaindapodemsobrepor-se, ouseja,emqueajouissancesetornaumsinaldeamor.Éapenasnessesrarosmomentos queaatividadesexualsetornaumautênticoacontecimento.

Conexão5.2.Osimbólico:anovaharmonia

Uncoupdetondoigtsurletambourdéchargetouslessonsetcommencelanouvelleharmonie.

Unpasdetoi,c’estlalevéedesnouveauxhommesetleuren-marche.

Tatêtesedétourne:lenouvelamour!

Tatêteseretourne,‒lenouvelamour!

“Changenoslots,criblelesfléaux,àcommencerparletemps”techantentcesenfants.

“Elèven’importeoùlasubstancedenosfortunesetdenosvoeux”ont’enprie.

Arrivéedetoujours,quit’eniraspartout. 89c

Essesversosde“Àuneraison”(“Aumarazão”),deArthurRimbaud,fornecemamais sucinta determinação do acontecimento simbólico , que é a emergência de um novo sigsnificante-mestre.Essemomentoacontecimentaléaqueleemqueosignificante–uma formafísicaquerepresentaumsignificado–entranosignificado,noqueelesignifica, quandoosignificantesetornapartedoobjetoquedesigna.Imaginemosumasituaçãode desordemsocialemquediferentesgrupossociaistêmdiferentesexpectativas,projetose sonhos;umagenteentãoconsegueuni-lossobabandeiradeumsignificante-mestreque nãoeliminaessasdiferençasconcentrando-senabasecomum(as visõeseosvalores compartilhados) dos grupos – meramente permite que cada um deles reconheça seu próprio conteúdo no significado compartilhado. Digamos que esse significante seja “solidariedade”:elevaisignificaralgodiferenteparaumtrabalhadordesempregado,um fazendeiroconservador,umsoldado,umpolicialetc.etc.;masopactosocial,aunidade queessesignificantevaiimpornãoserá,nãoobstante,simplesmenteilusório,ouseja,não será apenas uma máscara imaginária encobrindo diferenças que continuam existindo. Enquantoaimposiçãodessesignificanteservecomopontofocalparaummovimento políticorealqueacabachegandoaopoder,elaestabelecesuaprópriarealidadesocial:as pessoas efetivamente colaboram, ainda que lhes pareça que assim o fazem para seus própriospropósitos.Nãoimportaquealgunsgruposusemessesignificantecinicamente– oqueimportaéqueparticipamdoespaçosocial-simbólicosobsuabandeira.Dessaforma, seguindoaanálisedeMarxsobreoPartidodaOrdem,queassumiuopoderquando murchouoélanrevolucionárionaFrança,osegredodesuaexistênciaera

acoalizãodeorleanistaselegitimistasnumsópartido,revelada.Aclasseburguesadividiu-seemduasgrandes facções que alternadamente – os grandes proprietários de terras sob a monarquia restaurada e a aristocracia financeirajuntamentecomaburguesiaindustrialsobaMonarquiadeJulho–haviammantidoomonopóliodopoder. Bourboneraonomerealquerepresentavaainfluênciapredominantedosinteressesdeumafacção,Orléans,a designaçãorealquerepresentavaainfluênciapredominantedosinteressesdaoutra–oreinosemnomedarepública eraoúnicoemqueasduasfacçõespodiamsustentarcomigualpoderseuinteressedeclassecomumsemabandonar suarivalidademútua. 90

OsdeputadosparlamentaresdoPartidodaOrdempercebiamseurepublicanismocomo

umdisfarce:nosdebatesdoparlamento,produziamderrapadasverbaiseridicularizavama

repúblicaparatornaremconhecidoqueseuverdadeiroobjetivoerarestauraramonarquia. O que não sabiam era que eles próprios estavam equivocados quanto ao verdadeiro impactosocialdeseugoverno.Semosaberem,estabeleceramascondiçõesdaordem republicanaburguesaquetantodesprezavam(porexemplo,garantindoasegurançada propriedadeprivada).Assim,nãoéqueelesfossemrealistassobmáscarasrepublicanas, embora se sentissem assim; sua convicção realista “interior” é que foi uma fachada ilusóriaamascararseuverdadeiropapelsocial.Emsuma,longedeseraverdadeocultade seu republicanismo apregoado, seu realismo sincero foi o suporte fantasístico de seu republicanismo real – foi o que agregou paixão a sua atividade. Será, então, que os deputés do Partido da Ordem não estariam representando representar-se como republicanos,seroquerealmenteeram?

Essa reversão significante (a imposição de um significante-mestre) não é simplesmente externa à coisa designada: o que ela faz à coisa é fornecer-lhe uma característica adicional incognoscível que aparece como a origem oculta de suas propriedades.Imagine-seonomedanaçãodealguémcomoosignificante-mestre.Se perguntarmosaummembrodessanação“Oquesignificaseramericano/russo/britânico?”, arespostanuncaserásomenteumasériedepropriedadesobserváveis,massemprealgo como: “É uma coisa misteriosa que nos faz americanos/russos/britânicos e que é responsávelportodasascaracterísticasobserváveis;éumacoisaqueosestrangeirosnão podementender–parasenti-lovocêprecisariaserumdenós!”Ofatodeessemisterioso Xparecermaisprofundoquealinguagem,alémdeumaclaraarticulaçãolinguística,éum efeitodoprópriosobrepesodalinguagemsobreseuobjeto.

Umatodiscursivotorna-seumacontecimentosimbólicoseequandosuaocorrência reestruturaocampointeiro:emboranãohajaumnovoconteúdo,tudoé,dealgumaforma, profundamentediferente.GillesDeleuzeelaborouessadimensãoemsuanoçãodeum passadopuro:nãoopassadoparaoqualcaminhamascoisaspresentes,masumpassado absoluto“emquetodososacontecimentos,incluindoaquelesquedesapareceramsem deixarvestígios,sãoarmazenadoselembradoscomooseufenecimento”; 91 umpassado virtual que já contém coisas que ainda estão presentes. O presente pode tornar-se o passadoporque,decertamaneira,elejáé–podeperceber-secomopartedopassado(“o queestamosfazendoagoraé(terásido)história”);“Écomrespeitoaoelementopurodo passado,compreendidocomoopassadoemgeral,comoumpassadoapriori,queumcerto presenteantigoéreprodutíveleopresentepresenteécapazderefletir-se”. 92 Significaria issoqueessepassadopuroenvolveumanoçãoprofundamentedeterministadouniverso em que tudo que está para acontecer (por vir), toda a verdadeira disposição espaço- temporal,jáépartedeumaredeimemorial/atemporalvirtual?Não,eporumarazãomuito precisa:porque“opassadopurodevesertodoopassado,mastambémserpassívelde

mudançamedianteaocorrênciadeumnovopresente”. 93 FoiograndeconservadorT.S. Eliotquemprimeiroformulouclaramenteesseeloentrenossadependênciaemrelaçãoà tradiçãoenossopoderdemudaropassado:

Osensohistóricoenvolveumapercepção,nãoapenasdapreteridadedopassado,masdesuapresença;osenso históricoobrigaumhomemaescrevernãoapenaspensandoemsuaprópriageração,mascomosentimentodeque toda a literatura da Europa desde Homero, e dentro dela a literatura de seu próprio país, tem uma existência simultâneaecompõeumaordemsimultânea…Nenhumpoetaouartistadequalqueráreatemseusignificado completosozinho.Suaaceitação,seureconhecimentoéoreconhecimentodesuarelaçãocomospoetaseartistas mortos.Nãosepodevalorizá-losozinho;deve-secolocá-lo,porcontrasteeemcomparação,entreosmortos…A necessidadeaqueeledeveconformar-se,comaqualdevesercoerente,nãoéunilateral;oqueocorrequandosecria uma nova obra de arte é algo que acontece simultaneamente a todas as obras de arte que a precederam. Os monumentoshojeexistentesformamumaordemidealentresimesmos,aqualéalteradapelaintroduçãoentreelas deumanovaobradearte(arealmentenova).Aordemexistenteestácompletaantesquechegueanovaobra;para queaordempersistaapósaocorrênciadanovidade,todaaordemexistentedeveser,aindaqueligeiramente, alterada;eassimasrelações,asproporções,osvaloresdecadaobradearteemrelaçãoaotodosãoreajustados;e essaéaconformidadeentreovelhoeonovo…opassadodeveseralteradopelopresentedamesmaformaqueo presenteédirigidopelopassado.Eopoetaqueestáconscientedissoteráconsciênciadegrandesdificuldadese responsabilidades. 94

QuandoEliotafirmaque,aoavaliarumpoetavivo,“deve-secolocá-lo…entreos mortos”, está formulando precisamente um exemplo do passado puro de Deleuze. E quandodizque“aordemexistenteestácompletaantesquechegueanovaobra;paraquea ordempersistaapósaocorrênciadanovidade,todaaordemexistentedeveser,aindaque ligeiramente,alterada;eassimasrelações,asproporções,osvaloresdecadaobradearte emrelaçãoaotodosãoreajustados”,estáformulandocomumaclarezasemelhanteoelo paradoxalentreacompletudedopassadoenossacapacidadedealterá-loretroativamente:

precisamente porque o passado puro é completo, cada nova obra reajusta todo o seu equilíbrio.Tomemosaprecisaformulação,peloescritorargentinoJorgeLuisBorges,da relaçãoentreKafkaeseusmúltiplosprecursores,dosantigosautoreschinesesaRobert Browning:“AidiossincrasiadeKafka,emmaioroumenorgrau,estápresenteemcadaum deseustextos,masseelenãotivesseescritonãoaperceberíamos;ouseja,nãoexistiria… cadaautorcriaseusprecursores.Suaobramodificanossaconcepçãodopassado,assim comovaimodificarofuturo.” 95 Assim,asoluçãopropriamentedialéticadodilema“Ele estárealmenteali,nafonte,ouseráquenóssóolemosnafonte?”é:eleestáali,massó podemospercebereafirmarissoretroativamente,apartirdaperspectivadehoje.

Aqui,ofilósofocanadensecontemporâneoPeterHallwardnosdesapontaemseulivro OutofThisWorld, 96 emtudoomaisexcelente,emqueeleenfatizaapenasoaspectodo passadopurocomocampovirtualemqueodestinodetodososacontecimentosreaisestá antecipadamenteselado,umavezque“tudojáestáescrito”nele.Eleignoraomovimento retroativoemqueDeleuzetambéminsiste,aformacomoesseeternopassadopuroque nosdeterminaplenamenteé,elepróprio,submetidoàmudançaretroativa.Oqueecoa

nessetópicoé,evidentemente,acrençaprotestantenapredestinação:longedeserum conceitoteológicoreacionário,apredestinaçãoéumelemento-chavedateoriamaterialista dosentido.Predestinaçãonãosignificaquenossodestinoestejaseladonumtextoconcreto que tem existido desde a eternidade na mente divina; o destino que nos predestina pertence ao passado eterno puramente virtual que, como tal, pode ser reescrito retroativamentepornossosatos.Talvezsejaesseoprincipalsignificadodasingularidade daencarnaçãodeCristo:trata-sedeumatoquemudaradicalmentenossasina.Antesde Cristo,estávamosdeterminadospelodestino,presosaociclodopecadoesuareparação, enquantoasupressãoporCristodenossospecadosdopassadosignificaprecisamenteque seusacrifíciomudanossopassadovirtualeassimnosliberta.QuandoDeleuzeafirmaque “minhaferidaexisteantesdemim;eunasciparaencarná-la”, 97 seráqueessaversãodo GatodeCheshiredeAlicenoPaísdasMaravilhas(ogatoquenasceuparaencarnarseu sorriso) não fornece uma fórmula perfeita do sacrifício de Cristo: Cristo nasceu para encarnarsuaferida,parasercrucificado?Oproblemaéaleiturateleológicaliteraldessa proposição, como se os feitos reais de uma pessoa simplesmente concretizassem seu destinoatemporal-eternoinscritonasuaideiavirtual:

AúnicatarefarealdeCésarétornar-semerecedordosacontecimentosquefoicriadoparaencarnar.Amorfati.O queCésarrealmentefaznadaacrescentaaoquevirtualmenteé.QuandoCésaratravessacomefeitooRubicão,isso nãoenvolvedeliberaçãonemescolha,jáqueésimplesmentepartedaexpressãototaleimediatadocesarismo, simplesmenterevelaou“anuncia”algoqueestavacontidoparasemprenanoçãodeCésar. 98

Masequantoàretroatividadedeumgestoque(re)constituiesseprópriopassado?Esta talvezsejaamaissucintadefiniçãodeumatoautêntico:emnossaatividadecomum, apenasseguimos,efetivamente,ascoordenadas(virtual-fantasísticas)denossaidentidade, enquanto um ato propriamente dito é o paradoxo de um movimento real que (retroativamente)alteraasprópriascoordenadasvirtuais,“transcendentais”,doserdeseu agente–ou,emtermosfreudianos,quenãoapenasmudaarealidadedenossomundo,mas também“moveseusubterrâneo”.Temos,assim,umtipode“retornoàcondiçãoparao dadodoqualelafoicondição”: 99 enquantoopassadopuroéacondiçãotranscendentalde nossosatos,estesnãoapenascriamanovarealidadeconcreta,comotambémmudam retroativamenteessaprópriacondição.ÉassimquedevemoslertambématesedeHegel deque,nocursododesenvolvimentodialético,ascoisas“tornam-seoquesão”:nãoéque uma implementação temporal simplesmente concretize alguma estrutura conceitual atemporalpreexistente–essaestruturaconceitualatemporalé,elaprópria,oresultadode decisõestemporaiscontingentes.Voltemosaocasoexemplardeumadecisãocontingente cujoresultadodefinetodaavidadoagente–CésaratravessandooRubicão:

NãobastadizerqueatravessaroRubicãoépartedanoçãocompletadeCésar.Emvezdissosedeveriadizerque CésarédefinidopelofatodeteratravessadooRubicão.Suavidanãoseguiuumroteiroescritonolivrodealguma deusa:nãoháumlivroquejácontivesseasrelaçõesdavidadeCésar,pelasimplesrazãodequesuaprópriavidaé esselivro,edeque,acadamomento,umacontecimentoéemsimesmosuapróprianarrativa. 100

Exatamente a mesma coisa não vale para o amor? Apaixonar-se é um encontro contingente,mas,umavezqueeleocorre,parecealgonecessário,emdireçãoaoqualtoda aminhavidaestavasemovendo. Lacandescreveuessareversãodacontingênciaem necessidadecomoumdeslocamentodo“cessadenãoseescrever”parao“nãocessadese escrever”:primeiro,oamor“cessadenãoseescrever”,eleemergeporumencontro contingente;então,umavezestandoaqui,ele“nãocessadeseescrever”,impõeaoamante otrabalhodoamor,oesforçocontínuodeinscreveremseusertodasasconsequênciasdo amor,estruturarseuamoremtornodafidelidadeaoseuacontecimento:

Odeslocamentodanegação,doparadenãoseescreveraonãoparadeseescrever,dacontingênciaànecessidade, éaíqueestáopontodesuspensãoaqueseagarratodoamor.Todoamor,porsósubsistirpeloparadenãose escrever,tendeafazerpassaranegaçãoaonãoparadeseescrever,nãopara,nãoparará. 101

Aíresideareversãodialéticadacontingênciaemnecessidade,ouseja,aformacomoo resultado de um processo contingente é o aparecimento da necessidade: as coisas, retroativamente,“terãosido”necessárias,ou,citandoJean-PierreDupuy:“É,assim,a concretizaçãodoacontecimento–ofatodeeleterlugar–quecriaretroativamentesua necessidade.” 102 Dupuyforneceoexemplodaseleiçõespresidenciaisfrancesasdemaiode

1995–aquiestáaprevisãodejaneirodoprincipalinstitutodepesquisasfrancês:“Se,no

próximodia8demaio,asra.Balladurforeleita,pode-sedizerqueaeleiçãopresidencial

francesafoidecididaantesmesmodeacontecer.”Se–acidentalmente–umacontecimento

ocorre,elecriaacadeiaprecedentequeofazparecerinevitável.

Isso nos traz à temporalidade específica do acontecimento simbólico: a reversão abrupta do “ainda não” para o “sempre-já”. Há sempre um hiato entre as mudanças materialeformal:ascoisasmudamgradualmentenonívelmaterial,eessamudançaé subterrânea,comoadisseminaçãosecretadeumainfecçãomortal;quandoalutavema público,ointrusojáconcluiuseutrabalhoeabatalhadefatoterminou–tudoquesetema fazerélembrarosqueestãonopoderquedevemolharparabaixoepercebercomonãohá maisumchãosobseuspés,etodooedifíciodesmoronacomoumcastelodecartas. Quando perguntaram a Margaret Thatcher qual tinha sido sua maior realização, ela respondeu:“oNovoTrabalhismo”.Eelaestavacerta:seutriunfofoiqueatéseusinimigos políticosadotaramsuaspolíticaseconômicasbásicas–overdadeirotriunfonãoéavitória sobreoinimigo,masquandoopróprioinimigocomeçaausarsualinguagem,demodo quesuasideiasconstituemoalicercedetodoocampo.Omesmovaleparaasgrandes polêmicasentreJohnLockeeRobertFilmernoséculoXVII:FilmerseopunhaaLockee ànoçãoiluministadequetodososhomenssãocriadosiguaisporDeusnoestadode natureza,eassimdetêmumasériededireitosnaturais,afirmandoemvezdissoqueo governodeumafamíliapelopaiéaverdadeiraorigememodelodetodogoverno.No princípioDeusdeuautoridadeaAdão;desdeAdãoessaautoridadefoiherdadaporNoé

etc., de modo que os patriarcas herdavam o poder absoluto que exerciam sobre suas famíliaseseusservos;eédessespatriarcasquetodososreisegovernantesderivamsua autoridade,aqualé,portanto,absolutaebaseadanodireitodivino.Oproblemaéque,ao se envolver nesse tipo de disputa racional, Filmer já se move em direção ao terreno determinadoporseuoponente,oterrenodahistórianaturaldasociedade.Aqui,numnível maisuniversal,estáaclássicadescriçãodeHegeldecomoaintuiçãopuradoIluminismo solapaoespíritoreligiosotradicional:

Acomunicaçãodaintuiçãopuraé,nessesentido,comparávelaumaexpansãotranquilaouàirresistíveldifusão, digamos,deumaromanaatmosfera.Éumainfecçãopenetrante,queanteriormentenãosefeznotarcomoalgo distintodomeioindiferenteemqueseinsinua,eaeleoposta,eassimnãopodeserdebelada.Sóquandoainfecção setornougeneralizadaéqueaconsciência,queselheabandonaradespreocupadamente,despertaparasuainfluência …Nacondição,portanto,emqueaconsciênciasetornaconhecedoradaintuiçãopura,essaintuiçãojáseespalhou. Alutacontraeladenunciaofatodeainfecçãoterrealizadoseutrabalho.Étardedemaisparaaluta,ecadamedida tomadaapenaspioraadoença,poisestajáatingiuaprópriameduladavidaespiritual…sendoagoraumespírito invisíveleimperceptível,elaseinsinuacadavezmaisportodasaspartesnobres,elogojácontrolatotalmenteos membroseórgãosvitaisdoídoloinconsciente;eentão“numabelamanhãdáumacotoveladaemseucamaradae bumba!zaz!–oídoloestánochão”. 103

Todosconhecemosacenaclássicadosquadrinhos:ogatochegaaumprecipícioe continuaaandar,ignorandoofatodequenãoexistechãosobseuspés;elesócomeçaa cairquandoolhaparabaixoevêoabismo.Quandoum,digamos,regimepolíticoperde suaautoridade,écomoumgatocaminhandosobreoprecipício:paracair,bastaqueo lembremdeolharparabaixo.Masoopostotambémvale:quandoumregimeautoritáriose aproximadesuacrisefinal,suadissolução,comoregra,sedáemduasetapas.Antesde seuverdadeirocolapso,temlugarumamisteriosaruptura:subitamenteaspessoasficam sabendoqueojogoacabou–simplesmentenãotêmmaismedo.Nãoéapenasqueo regimepercasualegitimidade,seupróprioexercíciodopoderépercebidocomouma impotentereaçãodepânico.EmOxádosxás,umclássicorelatodarevoluçãoiranianade

1979,RyszardKapuscinskilocalizouomomentoexatodessaruptura:numaencruzilhada

deTeerã,ummanifestantesolitáriorecusou-seasemoverquandoumpolicialgritouqueo fizesse,eeste,constrangido,simplesmenteseretirou;emalgumashoras,todaTeerãsabia desseincidente,eemboraaslutasnasruascontinuassemporsemanas,todossabiam,de algumaforma,queojogotinhaacabado. 104

Issonostrazdevoltaaoamor(ouaoatodeseapaixonar),quesecaracterizapelo

mesmohiatotemporal.NumdoscontosdeHenryJames,oheróicomentasobreuma

mulherquelheépróxima:“Elajáoama,apenasnãosabeainda.”Oqueencontramosaqui

éumaespéciedecontrapartidafreudianadofamosoexperimentodeBenjaminLibetsobre

olivre-arbítrio:Libetdemonstrouque,mesmodepoisdetermosconscientementedecidido

(digamos,mexerumdedo),osprocessosneuraisadequadosjáforaminiciados,oque

significaquenossadecisãoconscientesóregistraoquejáestáacontecendo(adicionando

suasupérfluaautorizaçãoaumfaitaccompli). 105 ComFreud,adecisãotambéméanterior à consciência – mas não é um processo puramente objetivo e sim uma decisão inconsciente.FreudestáaquideacordocomSchelling,paraoqual,também,umadecisão verdadeiramentelivreéinconsciente,motivoporquenuncanosapaixonamosnotempo presente:apósumprocesso(geralmentelongo)degestaçãosubconsciente,subitamente tomamosconsciênciadeque(já)estamosamando.Aqueda(noamor)nuncaacontece numcertomomento,elasempre-jáaconteceu.

DEVEMOS TER CUIDADO aqui para não confundir esse poder transformador de um significante-mestre com o chamado performativo (ato de fala). Aintervenção de um significante-mestretemaformadeumconstativo,desódeclararposteriormenteaofato quealgumacoisajáexiste,omitindoque,retroativamente,essadeclaraçãomudatudo.A verdadeiradeclaraçãodeódionãoé“Agorapercebooquandoteodeio!”,mas“Agorasei que sempre te odiei!”. Apenas essa segunda declaração desfaz o próprio passado. Relembremosaexatalógicaperformativado“declarativo”:alguémfazalgumacoisa; alguémseapresenta(sedeclara)comoaquelequeofez;e,combasenessadeclaração, alguém faz algo novo – a ocasião adequada da transformação subjetiva ocorre no momentodadeclaração,nãonomomentodoato.Emoutraspalavras,overdadeiramente novosurgepelanarrativa,orelato,naaparênciapuramentereprodutivo,doqueaconteceu –éesserelatoqueabreespaço(apossibilidade)paraagirdeumanovamaneira.Furioso com o tratamento que recebe, um trabalhador participa, digamos, de uma greve espontânea;massóquando,nasequênciadesuaação,eleoconta/relatacomoumatoda lutadeclasseséqueotrabalhadorsetransformasubjetivamentenosujeitorevolucionário e,combasenessatransformação,podecontinuaragindoverdadeiramentecomotal.Em nenhumlugaressepapel“performativo”derelatarémaispalpáveldoquenaquiloqueos filisteusconsideramcomoaspassagensmaisenfadonhasdosdramasmusicaisdeWagner, aslongasnarrativasemqueoheróirecapitulaoquesepassouatéaquelemomento.Como assinalou Alain Badiou, 106 as longas narrativas são os verdadeiros loci da guinada dramática nas óperas de Wagner – no curso delas, testemunhamos a profunda transformaçãosubjetivadonarrador.Exemplarnessesentidoéograndemonólogode WotannosegundoatodaCavalgadadasValquírias:oWotanqueemergeemresultadode suapróprianarrativanãoéomesmoWotandoinício,masumWotandeterminadoaagir deumanovamaneira–elepercebeeaceitaseugrandefracassoedecidedesejarseu própriofim.E,comoobservouBadiou,opapeldatexturamusicaléqueécrucialaqui:éa músicaquemuda(oquepoderiaparecer)umrelatodosacontecimentosedacondiçãodo mundonadisposiçãodasmetamorfosessubjetivasdopróprionarrador.Tambémsepode vercomoWagnerestavacertoaoreduziroatoreal(geralmenteumabatalha)auma ocorrência insignificante a ser rapidamente descartada, preferivelmente fora do palco

(comonocasodoiníciodosegundoatodeParsifal,comalutaeavitóriadestesobreos cavaleirosdeKlingsor:sóouvimosorelatodoprogressodeParsifalpelavozdeKlingsor, que observa a luta à distância). É impossível deixar de observar como funciona estranhamente a brevidade das lutas reais nas obras de Wagner (o breve duelo entre LohengrineTelramudnoterceiroatodeLohengrin;odueloentreTristãoeMelotno terceiroatodeTristãoeIsolda,paranãomencionaraslutasridículasnofinaldessaobra) emcontrastecomalongaduraçãodasnarrativasedeclarações.

Amesmatemporalidadecaracterizaoestruturalismo–nãoadmiraqueClaudeLévi-

Strauss(1908-2009)considerasseoestruturalismoumtranscendentalismosemumsujeito

transcendental. Um exemplo singular de autorreferência, o maior exemplo de um acontecimentosimbólico,dealgoquesurgesubitamenteecriaseuprópriopassado,éa emergênciadaprópriaordemsimbólica.Aideiaestruturalistaéquenãosepodeimaginar agênesedosimbólico(daordemsimbólica):umavezaquipresente,essaordemestá sempre-jáaqui,nãosepodesairdela;tudooquesepodefazerécontarmitossobresua gênese(noqueLacanseengajaocasionalmente).Invertendoomaravilhosotítulodolivro deAlexeiYurchaksobreaúltimageraçãosoviética‒Tudoeraparasempre,aténãoser mais‒,nadadaordemsimbólicaestavapresente,atéquederepentetudoestavasempre-já aqui.Oproblema,nestecaso,éaemergênciadeumsistemaautorrelacional“fechado”, quenãotemumafaceexterior:nãopodeserexplicadodeforaporqueseuatoconstitutivo éautorrelacional,ouseja,osistemaemergetotalmentequandocomeçaaproduzirasi mesmo;elepostulaseuspressupostosnumcircuitofechado.Assim,nãoéapenasquea ordemsimbólicaestejadesúbitototalmenteaqui–nãohavianadaeummomentodepois tudoestáaqui–,masquenãoexistenadae,subitamente,écomoseaordemsimbólica estivesse sempre-já aqui, como se nunca tivesse havido um tempo em que ela não existisse.

Conexão5.3.Oimaginário:ostrêsimpactos

Existempeçasdamúsicaclássicaque,emnossacultura,setornamtãoprofundamente associadasaseuusoposterioremalgumprodutodaculturapopularcomercialqueéquase impossíveldissociá-lasdesseuso.DesdequeotemadosegundomovimentodoConcerto

paraPianonº2deMozartfoiusadoemElviraMadigan,ummelodramapopularsueco,

essa peça é agora regularmente caracterizada como o concerto “Elvira Madigan” até mesmoporselossériosdemúsicaclássica.Masese,emlugardeexplodirderaivacontra esse fetichismo musical comercializado, fizermos uma exceção e confessarmos abertamenteoprazerculpadodefruirumapeçamusicalqueé,emsimesma,semvalore devetodooseuinteresseàmaneiracomotemsidousadanumprodutodaculturapopular?

Meucandidatofavoritoéa“CantataStormClouds”,dofilmedeHitchcockOhomemque

sabiademais,compostaporArthurBenjaminespecialmenteparaacenadecisivano

RoyalAlbertHall.Emboraacantatasejaumapeçabastanteridículadokitschromântico

tardio,nãoétãodesprovidadeinteressequantosepoderiapensar–aletra(deD.B.

Wyndham-Lewis)jámereceatenção:

Therecameawhisperedterroronthebreeze Andthedarkforestshook Andonthetremblingtrees Camethenamelessfear Andpanicovertookeachflyingcreatureofthewild Andwhentheyallhadfled Yetstoodthetrees Aroundwhoseheads Screaming Thenightbirdswheeledandshotaway Findingrelease Fromthatwhichdrovethemonwardliketheirprey Thestormcloudsbrokeanddrownedthedyingmoon Thestormcloudsbroke Findingrelease d

Não seria esse um minicenário do que Gilles Deleuze chamou de acontecimento- emoção“abstrato”:umapazcheiadetensão,quesetornainsuportáveleéfinalmente liberadanumaviolentaexplosão?DevemoslembraraquiosonhodeHitchcockdesuperar totalmente o veículo da narrativa audiovisual e provocar emoções diretamente no espectador,manipulando,pormeiodeummecanismocomplexo,seuscentrosneuronais vinculadosàemoção.Falandoemtermosplatônicos:Psicosenãoérealmenteumfilme sobrepessoaspatológicasouaterrorizadas,massobreaideia“abstrata”deterrorqueé representadaemindivíduosconcretoseseusinfortúnios.Damesmaforma,amúsicada “CantataStormClouds”nãoilustraaletradeWyndham-Lewis,muitomenosserefereà narrativa cinematográfica. Pelo contrário, ela interpreta diretamente o acontecimento- emoção.

Esse acontecimento é imaginário no sentido estritamente lacaniano: ele flutua à distânciadeseusuportematerial,oqualorepresentaeoproduz,nafrágilesferade superfícieentreosereonãoser.EmLógicadosentido,GillesDeleuzetransformao dualismodePlatãodasideiaseternasesuasimitaçõesnarealidadesensívelnodualismo doscorpossólidos(materiais)edasuperfíciepuraimpassíveldosentido,ofluxododevir quedevesersituadonaprópriafronteiraentreosereonãoser.Sentidossãosuperfícies quenãoexistem,apenassubsistem:“Nãosãocoisasoufatos,masacontecimentos.Não podemosdizerqueexistam,apenasquesubsistemousobrevivem(tendoessemínimode

serqueéadequadoaoquenãoéumacoisa,umaentidadeinexistente).” 107 Osantigos estoicos,quedesenvolveramessanoçãode“incorporais”,foram

osprimeirosareverteroplatonismoeproduzirumainversãoradical.Poisseoscorpos,comseusestados,qualidades

equantidades,assumemtodasascaracterísticasdasubstânciaedacausa,inversamente,ascaracterísticasdaIdeia

sãorelegadasaooutrolado,ouseja,aesseextra-Serimpassívelqueéestéril,ineficazeestánasuperfíciedascoisas:

oideacionalouincorporalnãopodemaisseroutracoisasenãoum“efeito”. 108

A faca e a carne são corpos; a faca é a causa de um categorema (predicado) assomático,ouseja,sercortado,comrespeitoàcarne.Fogoemadeirasãocorpos;ofogo éacausadeumcategoremaassomático,ouseja,serqueimado,comrespeitoàmadeira.Se o sol ou seu calor faz a cera derreter, temos de dizer que o sol é a causa, não do derretimento da cera, mas de a cera ser derretida, de um categorema indicado pelo particípiopassado.

Aontologiabudistapareceapontarnumadireçãosemelhante,chegandoaradicalizá-la:

aprópriarealidadeédessubstancializada,reduzidaaumfluxodeapariçõesfrágeis,de modoque,emúltimainstância,tudoéacontecimento(al).Ouniversobudistaadmite, assim, dois tipos de acontecimentos: o acontecimento da iluminação, de assumir plenamenteanãoexistênciadoeu,eacapturasingulardeumacontecimentofugidio, exemplificadonapoesiahaikaienoqueDeleuzechamadeacontecimentopurodosentido (oudesuafalta).Essapareceseraavaliaçãoinfinitadobudismo:asuperposiçãodo absoluto (o vácuo primordial vivenciado no nirvana) ao efeito da frágil e minúscula superfíciesemelhanteàcarne(otemadohaikai).Eisaquiomaisconhecidohaikaide MatsuoBashō:

Velholago

Umsapomergulha

Tchum

O verdadeiro objeto é o acontecimento-impacto (sobreposto ao silêncio que o sustenta?).Nãoexisteidealizaçãonohaikai,apenasoefeitodasublimaçãoemque,não importaquão“baixo”,oatomaterialpodedaràluzoacontecimento,demodoquenão devemostermedodeimaginarumaversãomuitomaisvulgardeumhaikaiconcentrado nomesmoacontecimento–umamigodoJapãomeinformouqueexisteumavariaçãopara oséculoXXdomotivo-impactodeBashōque,precisamente,nãodeveserlidacomouma paródia:

Vasosanitáriocomáguasuja

Sento-menele

Tchum

Aregradostrêsversosdeumpoemahaikaiébemjustificada:oprimeiroapresentaa situaçãoanterioraoacontecimento(umvelholagodeáguastranquilas,umvasosanitário de águas calmas); o segundo assinala um corte nessa inatividade, a intervenção que

perturbaapazevaigeraroacontecimento(umsapopula,sento-menumvasosanitário);e

oúltimoversodánomeaopróprioefugidioacontecimento(osomdoimpacto).Mesmo

quandoapalavraouexpressãoincisiva(kireji)nãoéseguidadeumaintervençãoativa,

elaassinalaumarupturaentreasituaçãogeralneutraeoelementoparticularqueservede

suportematerialaoacontecimento–eisaquidoisoutroshaikaisdeBashō:

Primavera:

Ummorrosemnome

Ocultopelaneblinadamanhã.

Princípiodooutono:

Omareoarrozalesmeralda

Ambosomesmoverde.

O“objeto”aquiéprimeiramenteaneblinamatinal,depoisacorverde–objetonão comosubstância,mascomoacontecimento,comoumpuroefeitoestérilqueexcedesua causa(aqual,comovimos,podesertãofacilmentevulgarquantosublime).Nesseefeito imaterial,ofugidioquase-nadadaapariçãopurasealternacomaeternidade,omovimento sealternacomacalmaria,obarulhoaosilêncioeterno,ummomentosingulardosentido alterna-secomoabsurdo;éaformazendedizer“oespíritoéumosso”.Entretantoessa suspensãodarealidadecorpóreaéprofundamenteambígua:podetambémfuncionarcomo umatela,ofuscandoasconsequênciashorripilantesdenossosatos.Relembremosotítulo doperenebest-sellerdafilosofianewage,Zeneaartedamanutençãodemotocicletas, 109 deRobertPirsig;pode-sefacilmenteimaginarumasériedevariaçõessobreomesmo tema:zeneaartedaperformancesexualoudosucessonosnegócios…atézeneaarteda guerraamigável.Comefeito,dentrodaatitudezen,oguerreironãoagemaiscomopessoa; éprofundamentedessubjetivizadoou,comodisseumdosprincipaisresponsáveispela difusãodozennoOcidente,D.T.Suzuki:“Realmentenãoéele,masaprópriaespadaque executaohomicídio.Elenãodesejavaferirninguém,masoinimigoapareceetornaasi mesmoumavítima.Écomoseaespadacumprisseautomaticamentesuafunçãodejustiça, queéafunçãodamisericórdia.” 110 Seráqueessadescriçãodohomicídionãoforneceo maiorexemplodaatitudefenomenológicaque,emvezdeintervirnarealidade,sódeixaas coisaspareceremtalcomosão?Aprópriaespadaexecutaohomicídio:oinimigoapenas apareceefazdesimesmoumavítima–oguerreiroestánissopornada,reduzidoaopapel deobservadorpassivodeseusprópriosatos.

Na década de 1970, à época da ditadura militar no Brasil, o círculo dos agentes secretosenvolvidosnatorturadeprisioneirospolíticosimprovisouumaespéciedereligião privada:umamálgamadaNovaErabudistabaseadonaconvicçãodequenãoexiste realidade,somenteumadançafragmentadadeaparênciasilusórias. 111 Podemosvermuito bemcomoessa“religião”oscapacitouasuportarohorrordoqueestavamfazendo.Não admira,então,que,“chocadopelaatitudefriadeseulíderesuacrueldadeparacomos

inimigos,umdeseuscompanheirostenhacomparadoPolPotaummongebudistaque atingiuo‘terceironível’deconsciência:‘Vocêétotalmenteneutro.Nadaocomove.Esse éomaisaltonível’”. 112 Nãosedevedescartaressaideiacomoumfalsoparaleloobsceno:

Pol Pot tinha antecedentes culturais budistas, com sua longa tradição de disciplina militarista.Seguindoessaslinhas,poderíamosmuitobeminventarumoutrohaikaicujo terceiroversoapresentaoacontecimentopurodosanguederramando-sedeumcorpo cortadopelaespada:

Corpogordosacolejandoàminhafrente

Ogolpedeminhaespada

Zás!

Ou,porquenão,umpassoalém,nadireçãodeAuschwitz:

Prisioneirostomambanho

Meudedopressionaumbotão

Gritosecoam!

Opropósitodessesimprovisosnãoéenvolver-seempiadassemgraça,masfazer-nos ver que uma pessoa verdadeiramente iluminada deveria ser capaz de perceber um acontecimentopuromesmosobtaiscircunstânciashorripilantes.Atristeliçãoaquiéque nãoexisteincompatibilidadeentreoterrorbrutaleoautênticoespíritopoético–eles podemcaminhardemãosdadas.

podemcaminhardemãosdadas. c

c Emtraduçãolivre:“Umtoquedoteudedonotambordesencadeiatodosossonseiniciaaumanovaharmonia./Um

passoteurecrutaosnovoshomenseospõeemmarcha./Tuacabeçasevira:onovoamor!/Tuacabeçasevolta–onovo

amor!/‘Mudenossosdestinos,acabecomosflagelos,acomeçarpelotempo’,tecantamascrianças./‘Planteondepuder

asubstânciadenossasfortunasedenossosdesejos’,lheimploramelas./Chegandodosempre,irásatodaparte.”(N.T.)

d Emtraduçãolivre:“Comabrisaveioumterrorsussurrado/Eaflorestaescuratremeu/Esobreasárvoresbalouçantes/

Veioomedosemnome/Eopânicotomoucadacriaturavoadoradaregiãoselvagem/Equandotodoshaviamfugido/

Aindaficaramasárvores/Emtornodecujascopas/Gritando/Ospássarosnoturnoscirculavamepartiamcomoumraio/

Percebendo-selivres/Daquiloqueosimpeliacomosuapresa/Asnuvenscarregadasdissiparam-seeengolfaramalua

quesepunha/Asnuvenscarregadasdissiparam-se/Percebendo-selivres.”(N.T.)

SEXTAPARADA

Aanulaçãodeumacontecimento

AEXPRESSÃOALEMÃrückgängigmachen,geralmentetraduzidacomo“anular,cancelarou desfazer”,temumaconotaçãomaisprecisa:anularretroativamentealgumacoisa,fazer parecerqueelanãoaconteceu.AcomparaçãoentreOcasamentodeFígaro,deMozart,e asóperasfigarescasdeRossinitornaissoimediatamenteclaro.EmMozart,opotencial político emancipador da peça de Beaumarchais sobrevive à pressão da censura – pensemosapenasnofinal,emqueocondeprecisaajoelhar-seepediroperdãodeseus súditos(paranãomencionaraexplosãocoletivado“Vivalalibertà!”nofinaldoprimeiro atodeDonGiovanni).OestonteantesucessodeObarbeirodeSevilha,deRossini,pode seravaliadoporestepadrão:Rossinipegouumapeçateatralqueeraumdossímbolosdo espíritorevolucionárioburguêsdaFrançaeadespolitizoutotalmente,transformando-a simplesmentenumaoperabuffa.NãoadmiraqueaeradeourodeRossinitivessesido entre 1815 e 1830 – os anos da reação, aqueles em que as potências da Europa empreenderamaimpossíveltarefadaUngeschehenmachen,daanulação,defazernão terem acontecido as décadas revolucionárias precedentes. Rossini não odiou nem

enfrentouativamenteonovomundo–simplesmentecompôscomoseosanosde1789a

1815nãotivessemexistido.Estavacerto,portanto,ao(quase)parardecomporeadotara

posturadebonvivantpreparandoseustournedos.Essaeraaúnicacoisapropriamente

éticaafazer,eseulongosilêncioécomparávelaodeJeanSibelius.

NamedidaemqueaRevoluçãoFrancesaéoacontecimentodahistóriamoderna,a rupturadepoisdaqual“nadafoiomesmo”,deve-selevantaraquiumaquestão:seriaesse tipo de “anulação”, de desacontecimentalização, um dos destinos possíveis de todo acontecimento?Aconhecidafórmula“Jesaisbien,maisquandmême…”(“Eusei,mas mesmoassim…”)assinalaumaposturadivididadosujeitoemrelaçãoaumaentidade– sabe-sequeéverdadeira,masnãosepoderealmenteaceitaressaverdade;porexemplo:

“Seimuitobemquemeufilhoéumassassino,masmesmoassimnãopossoacreditar

nisso!”Épossívelimaginaramesmaatitudedivididaemrelaçãoaumacontecimento:

“Seimuitobemquenãohouveumacontecimento,apenasocursonaturaldascoisas,mas

talvez,infelizmente,mesmoassim…(eucreioque)eleaconteceu.”E–oqueéainda

maisinteressante–serápossívelqueumacontecimentonãosejanegadodeformadireta,

masretroativamente?Imagine-seumasociedadequetenhaintegradoplenamenteasua

substânciaéticaosgrandesaxiomasmodernosdaliberdade,daigualdade,dosdireitos

democráticos,odeverdasociedadedeprovereducaçãoecuidadosbásicosdesaúdea todososseusmembros,equeconsidereoracismoeosexismosimplesmenteinaceitáveis eridículos–nãohánecessidadesequerdeargumentarcontra,digamos,oracismo,devez quequalquerumqueoadvogueabertamenteédeimediatopercebidocomoumestranho excêntricoquenãopodeserlevadoasério.Masentão,passoapasso,emboraasociedade continueasustentaressesvaloresdabocaparafora,elessãodefatoprivadosdesua

substância.Eisumexemplodahistóriaeuropeiaatual:noverãode2012,ViktorOrbán,

primeiro-ministrohúngarodeposturadireitista,dissequesedeveriaconstruirnaEuropa

Centralumnovosistemaeconômico:

…eesperemosqueDeusnosajudeenãotenhamosdeinventarumnovotipodesistemapolíticoquedevaser introduzidonolugardademocraciaemnomedasobrevivênciaeconômica…Cooperaçãoéumaquestãodeforça, não de intenção. Talvez haja países em que as coisas não funcionem dessa maneira. Por exemplo, os países escandinavos,masumdecrépitopovomeioasiáticocomoonossosópodeunificar-sesehouverforça. 113

A ironia dessas palavras não escapou a alguns dos velhos dissidentes húngaros:

quando o exército soviético marchou sobre Budapeste para esmagar o levante anticomunista de 1956, a mensagem repetidamente transmitida ao Ocidente pelos indefesoslídereshúngarosfoi:“EstamosaquidefendendoaEuropa!”(doscomunistas asiáticos,éclaro).Agora,apósocolapsodocomunismo,ogovernocristão-conservador pintacomoseumaiorinimigoademocraciamulticulturalconsumistaliberalqueaEuropa Ocidentaldehojerepresenta,eclamaporumanovaordemcomunitária,maisorgânica, parasubstituira“turbulenta”democracialiberaldasduasúltimasdécadas.Damesma formaqueosfascistasfalavamdo“complôbolchevista-plutocrático”,(ex-)comunistase democratasliberais“burgueses”sãopercebidoscomoduasfacesdomesmoinimigo.Não admiraqueOrbánealgunsdeseusaliadosmanifestemrepetidamentesuassimpatiaspelo “capitalismo com valores asiáticos” chinês, enxergando no autoritarismo “asiático” a soluçãocontraaameaçadosex-comunistas–assim,seogovernoOrbánsevirsobuma excessivapressãodaUniãoEuropeia,podemosimaginá-loenviandoumamensagemà China:“EstamosaquidefendendoaÁsia!”

OcasodaHungria,contudo,éapenasumincidentemenornoprocessoglobalde desacontecimentalização que ameaça os próprios fundamentos de nossas conquistas emancipadoras.Tomemosumexemplovindodooutroladodenossomundoocidental.Eis como,numacartaaoLosAngelesTimes,adiretoraKathrynBigelowjustificouavisão descompromissadadeseufilmeAhoramaisescura,sobreosmétodosdetorturausados poragentesdogovernoamericanoparaencontrarematarOsamaBinLaden:“Aqueles que,comonós,trabalhamnomundodasartessabemqueretratarnãoéendossar.Seassim fosse,nenhumartistapoderiamostrarpráticasdesumanas,nenhumautorpoderiaescrever sobreelasenenhumcineastapoderiaexplorarostemasespinhososdenossaépoca.” 114 É mesmo?Semagircomoidealistasmoralistasabstratos,etendoplenaconsciênciadas

urgênciasimprevisíveisdalutacontraataquesterroristas,nãodeveríamospelomenos acrescentar que torturar um ser humano é em si mesmo algo tão profundamente abominávelqueapresentá-locomneutralidade–ouseja,paraneutralizarsuadimensão abominável–jáéumtipodeendosso?

Maisprecisamente,odilemaé:comosemostraatortura?Devezqueotemaétão sensível, qualquer espécie de neutralidade real na textura do filme é aqui uma farsa; sempresepodediscernircertaposturadiantedoassunto.Imaginemosumdocumentário sobreoholocaustoapresentando-odemaneirafriaedesinteressadacomoumagrande operaçãoindustrial-logística,tratandodeproblemastécnicos(transporte,eliminaçãodos corpos,prevençãodopânicoentreprisioneirosqueserãosubmetidosàcâmaradegásetc.) –umfilmeassimiriaencarnarumafascinaçãoperversaeprofundamenteimoralpeloseu tema ou iria contar com a própria neutralidade obscena de seu estilo para provocar consternaçãoehorrornosespectadores.OndeestáBigelowaqui?Definitivamenteesem sombradedúvida,doladodanormalizaçãodatortura.QuandoMaya,aheroínadofilme, testemunhapelaprimeiravezumasessãodeafogamento,ficaumpoucochocada,mas logoaprendeojogo–maisadiantenofilmeelachantageiafriamenteumprisioneiroárabe dealtonível:“Sevocênãofalar,vamosentregá-loaIsrael.”Suaperseguiçãofanáticaa BinLadenajudaaneutralizarquaisquerremorsosmoraiscomuns.Muitomaisnefastoé seuparceiro,umjovemagentebarbudodaCIAquedominaàperfeiçãoaartedepassar suavemente da tortura à camaradagem depois de dobrar a vítima (acendendo-lhe um cigarroecontandopiadas).Háalgoprofundamenteperturbadornomodocomo,mais adiantenofilme,elepassasuavementedopapeldetorturadorbarbudovestindojeansao deburocratabem-vestidodeWashington.Issoénormalizaçãoemseuestadomaispuroe eficiente–umpoucodedesconforto,maispelasensibilidadeferidadoquepelaética,mas otrabalhoprecisaserfeito.Essaconsciênciadasensibilidadeferidacomoo(principal) custohumanodatorturagarantequeofilmenãosejaapenasumapeçadepropaganda direitistabarata:acomplexidadepsicológicaéadequadamenterepresentada,demodoque liberaisbem-intencionadospodemapreciarofilmesemsesentiremculpados.Éporisso

queAhoramaisescuraémuitopiordoque24horas,emquepelomenosJackBauertem

umcolapsonervosonofinaldasérie. 115

O debate sobre afogamento ser ou não tortura deveria ser abortado como algo obviamentesemsentido:porque,senãocausadoremedodamorte,oafogamentofaz comquesuspeitosdeterrorismoendurecidoscomecemafalar?Quantoàsubstituiçãoda palavra“tortura”pelaexpressão“técnicareforçadadeinterrogatório”,deve-seobservar que estamos lidando aqui com uma extensão da lógica do politicamente correto:

exatamentedamesmaformaque“deficiente”setorna“fisicamentedebilitado”,“tortura”

setorna“técnicareforçadadeinterrogatório”(e,presumivelmente,estupropoderiatornar-

se“técnicareforçadadesedução”).Aquestãocrucialaquiéqueatortura–violência

brutalpraticadapeloEstado–setornoupublicamenteaceitávelnoprópriomomentoem

quealinguagempúblicasetornoupoliticamentecorretaafimdeprotegervítimasda

violênciasimbólicadosrótulos.Essesdoisfenômenossãoasduasfacesdeumamesma

moeda.

AdefesamaisobscenadofilmeéaafirmaçãodequeBigelowrejeitaomoralismo barato e apresenta sobriamente a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questõesdifíceiseassimnosobrigandoapensar(alémde,acrescentamalgunscríticos,ela “desconstruir” clichês femininos – Maya não apresenta interesses sexuais nem sentimentalismo;elaéduraededicadaasuatarefadamesmaformaqueumhomem). Nossarespostadeveserque,precisamentearespeitodeumtemacomoatortura,nãose deveria“pensar”.Umparalelocomoestuproseimpõeaqui:eseumfilmemostrasseum estuprobrutalcomamesmaneutralidade,afirmandoquesedeveriaevitaromoralismo baratoecomeçarapensarnoestuproemtodaasuacomplexidade?Nossoinstintobásico nosdizquetemosalgoterrivelmenteerradoaqui.Eugostariadevivernumasociedadeem queoestuprofosseconsideradosimplesmenteinaceitável,demodoquequalquerumque odefendessefossevistocomoumidiotaexcêntrico,nãonumasociedadeemquefosse precisoargumentarcontraele–eomesmovaleparaatortura:umsinaldeprogressoético é o fato de a tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem qualquer necessidadedemaiordiscussão.

Equedizerdoargumento“realista”:atorturasempreaconteceu,naverdade,mais aindanopassado(recente),demodoquenãoseriamelhorpelomenosestarfalandodela publicamente?Esseé,exatamente,oproblema:seatorturasempreaconteceu,porqueas autoridadesagoraestãofalandodelapublicamente?Sóexisteummotivo:normalizá-la, ouseja,rebaixarnossospadrõeséticos.Atorturasalvavidas?Talvez,mascertamente perdealmas–esuajustificativamaisobscenaéafirmarqueumverdadeiroheróiestá prontoaentregarsuaalmaparasalvarasvidasdeseusconterrâneos.Anormalizaçãoda tortura em A hora mais escura é um sinal do vácuo moral de que estamos nos aproximandogradualmente.Seexistealgumadúvidasobreisso,tenteapenasimaginarum grandefilmedeHollywoodmostrandoatorturadeformasemelhantevinteoutrintaanos atrás–éimpensável.

Vamosagorasaltarparanossoterceiroemaisbrutalexemplo,quenosconfrontacom oqueéimpensávelmesmohoje.OdocumentárioOatodematar(FinalCutProduções Cinematográficas, Copenhague) estreou em 2012 no festival de cinema de Telluride. DirigidoporJoshuaOppenheimereChristineCynn,Oatodematarforneceumavisão singular e profundamente perturbadora do dilema ético do capitalismo global. O

documentário–filmadoemMedan,Indonésia,em2007–relataumcasodeobscenidade

quechegaaoextremo:umfilme,feitoporAnwarCongoeseusamigos,algunsdosquais sãoagorapolíticosrespeitáveis,masforamgângstereselíderesdeumesquadrãodamorte

quedesempenhouumpapel-chavenoassassinatodeaproximadamente2,5milhõesde

supostossimpatizantesdocomunismo,namaioriaetnicamentechineses,em1965-66.O

ato de matar é sobre “assassinos que venceram e o tipo de sociedade que eles construíram”. Após a vitória, suas ações terríveis não foram relegadas à condição de “segredosujo”,oatooriginalcujosvestígiosdevemserapagados–pelocontrário,elesse vangloriam abertamente dos detalhes de seus massacres (o modo de estrangular uma vítima com um fio, de cortar uma garganta, de estuprar uma mulher da forma mais agradável). Em outubro de 2007, a TV estatal indonésia produziu um talk-show celebrandoAnwareseusamigos;nomeiodoprograma,depoisdeAnwardizerqueseus assassinatosforaminspiradospelosfilmesdegângsteres,osorridentemoderadorvira-se paraascâmerasediz:“Impressionante!NossosaplausosparaAnwarCongo!”Quando perguntaaestesetemeumavingançadosparentesdesuasvítimas,eleresponde:“Eles nãopodem.Quandoerguemascabeças,euascorto!”Seucúmpliceacrescenta:“Nós vamosexterminartodoseles!”,eopúblicoexplodenumaaprovaçãoexuberante.Épreciso verparacrer.

OquetornaOatodematarextraordinário é que então ele dá um passo além e apresenta a questão-chave: o que os assassinos “[tinham] em mente quando estavam matandopessoas, 116 ouseja,qualfoiatelaprotetoraqueusaramparablindar-sedohorror doqueestavamfazendo?Arespostaéqueessatelaprotetoraqueevitouumacrisemoral maisprofundafoiateladocinema:elesvivenciaramsuaatividadecomoumaencenação deseusmodeloscinematográficos,oquelhespossibilitouvivenciaraprópriarealidade comoficção–comograndesadmiradoresdeHollywood(começaramsuascarreirascomo organizadoresecontroladoresdomercadonegronavendadebilhetesdecinema),eles desempenharamumpapelemseusmassacres,imitandogângsteres,caubóisouatémesmo dançarinosdeummusicaldeHollywood.

HáumaboapiadasobreJesusCristo:afimderelaxarapósoárduotrabalhodepregar e produzir milagres, Jesus decidiu fazer uma pequena pausa numa praia do mar da Galileia.Duranteumjogodegolfecomumdeseusapóstolos,eletentouumajogada difícil,sesaiumaleabolafoipararnaágua,demodoqueelefezseutruqueusual:

caminhousobreaáguaatéolugarondeestavaabola,abaixou-seeapegou.Quando estavapararepetirajogada,oapóstololhedissequeelaeramuitodifícil–sóalguém comoTigerWoodsseriacapazdefazê-la.Jesusrespondeu:“Quediabo,souofilhode Deus!SeTigerWoodspode,eutambémposso!”,etentououtratacada.Abolafoipararna água novamente, e Jesus mais uma vez caminhou sobre a água para pegá-la. Nesse momento, um grupo de turistas americanos estava passando por ali e um deles,

observandoacena,virou-separaoapóstoloedisse:“Meudeus,queméaquelecaraali? EstápensandoqueéJesusouoquê?”Oapóstolorespondeu:“Não,obabacapensaqueé TigerWoods!”Éassimquefuncionaaidentificaçãofantasística:ninguém,nemmesmoo próprioDeus,édiretamenteoqueé;todomundoprecisadeumpontodeidentificação externo, descentralizado. Podemos imaginar a cena de um jornalista americano observando Anwar envolvido na tortura de um suspeito de comunismo; o jornalista perguntaaoamigodeAnwarqueestádoseulado:“Queméaquelecaraali?Seráqueele pensaqueéuminstrumentodajustiçadivina?”Eoamigoresponde:“Não,elepensaqueé HumphreyBogart!”

Aquiencontramosovácuomoraldasociedadenoqueeletemdemaisbrutal:deque tipodetexturasimbólica(oconjuntoderegrasqueestabelecealinhadivisóriaentreoque épublicamenteaceitáveleoquenãoé)devecompor-seumasociedadeseatéumnível mínimodevergonhapública(queobrigariaoscriminososatrataremsuasaçõescomoum “segredo sujo”) é desprezado e uma orgia monstruosa de tortura e matança pode ser publicamente celebrada décadas depois de ter ocorrido, nem mesmo como um crime extraordinário,necessárioparaobempúblico,mascomoumaatividadecomum,aceitável eagradável?Aarmadilhaaserevitadaaquié,evidentemente,aquelafácildepôraculpa diretamenteemHollywoodouno“primitivismoético”daIndonésia.Opontodepartida deveriaser,emvezdisso,osefeitosperturbadoresdaglobalizaçãocapitalistaque,ao solapara“eficáciasimbólica”dasestruturaséticastradicionais,criaessevácuomoral. 117

Significariaissoque,medianteadissoluçãogradualdenossasubstânciaética,estamos simplesmente regressando ao egoísmo individualista? As coisas são muito mais complexas.Frequentementeouvimosdizerqueacriseecológicaéoresultadodenosso egoísmo de curto prazo: obcecados com os prazeres imediatos e a saúde, nós nos esquecemosdobemcomum.Entretantoénissoqueanoçãodocapitalismocomoreligião, de Walter Benjamin, se torna crucial: um verdadeiro capitalista não é um egoísta hedonista;é,pelocontrário,fanaticamentedevotadoàtarefademultiplicarsuariqueza, prontoanegligenciarsuasaúdeefelicidade,paranãomencionaraprosperidadedesua famíliaeobem-estardeseuambiente.Assim,nãohánecessidadedeevocaralgumaforma de moral elevada e condenar o egoísmo capitalista – contra a pervertida e fanática dedicaçãocapitalista,bastaevocarsimplesmenteumaboadosedepreocupaçõesegoístase utilitaristas.Emoutraspalavras,abuscadaquiloqueRousseauchamaamour-de-soi(amor desi)naturalrequerumnívelaltamentecivilizadodeconsciência.

Oegoísmohedonistaquesupostamentepermeianossassociedadesé,assim,nãoum fato, mas a ideologia dessas sociedades – a ideologia filosoficamente articulada em FenomenologiadoEspíritodeHegelpertodofinaldocapítulosobrearazão,sobonome de“dasgeistigeTierreich”–“oreinoespiritualdosanimais”,termocriadoporHegel

paradesignaramodernasociedadecivilemqueossereshumanossãoenvolvidosnuma interaçãoautointeressada.ComodizHegel,aconquistadamodernidadeiriapermitirque “o princípio da subjetividade atingisse sua realização no extremo autônomo da particularidadepessoal”. 118 Esseprincípiotornapossívelasociedadecivilcomoodomínio emqueindivíduoshumanosautônomosseassociamentresipormeiodasinstituiçõesda economiadelivremercadoafimdesatisfazeremsuasnecessidadesprivadas:todososfins comunaissãosubordinadosaosinteressesprivadosdeindivíduos;sãoconscientemente imaginadosecalculadoscomoobjetivodemaximizarasatisfaçãodessesinteresses.O queimportaparaHegelaquiéaoposiçãoentreprivadoecomumpercebidaporaqueles em que ele se baseia (Mandeville, Adam Smith), assim como por Marx: indivíduos percebemodomíniocomumcomoalgoquedeveserviraseusinteressesprivados(como umliberalquepensanoEstadocomoprotetordaliberdadeedasegurançaprivadas),ao passoque,aoperseguiremessesobjetivosrestritos,indivíduosefetivamenteatendemaos interessescomunais.Atensãopropriamentedialéticasurgeaquiquandotomamosciência deque,quantomaisosindivíduosagemdeformaegoísta,maiscontribuemparaariqueza comum.

O paradoxo é que, quando indivíduos desejam sacrificar seus interesses privados restritosetrabalhardiretamenteparaobemcomum,oquesofreéoprópriobemcomum– Hegel adora contar anedotas históricas sobre um bom rei ou príncipe cuja própria dedicaçãoaobemcomumlevaseupaísàruína.Anovidadepropriamentefilosóficade Hegelfoiaprofundaradeterminaçãodessa“contradição”segundoaslinhasdetensão entreo“animal”eo“espiritual”:asubstânciaespiritualuniversal,“otrabalhodetodose decadaum”,surgecomoresultadodainteração“mecânica”dosindivíduos.Oqueisso significaéqueaprópria“animalidade”do“animalhumano”autointeressado(oindivíduo que participa da complexa rede da sociedade civil) é o resultado do longo processo histórico de transformação da sociedade hierárquica medieval na sociedade burguesa moderna. É, assim, a própria concretização do princípio da subjetividade – o oposto radicaldaanimalidade–queacarretaareversãodasubjetividadeemanimalidade.

Hoje em dia, vestígios dessa mudança podem ser detectados por toda parte, especialmentenospaísesasiáticosemprocessodedesenvolvimentoaceleradoemqueo capitalismoexerceumimpactoextremamentebrutal.Aexceçãoearegra,deBertolt

Brecht(um“jogodeaprendizagem”escritoem1929-30paraserapresentadoemfábricas

eescolas),contaahistóriadeumricomercadorque,comseucarregador(“cule”),cruzao

desertodeYahi(umdoslugareschinesesficcionaisdeBrecht)parafecharumnegócio

relativoapetróleo.Quandoosdoisseperdemnodesertoeseusuprimentodeáguafica

escasso,omercadorequivocadamenteatiranocoolie,pensandoestarsendoatacado,

quandonaverdadeocoolieestavalheoferecendoumpoucodeáguaqueaindatinhana

garrafa.Maistarde,notribunal,omercadoréabsolvido:ojuizconcluiqueeletinhatodo odireitodetemerumapotencialameaçadocoolie,demodoqueestavajustificadoem atirarnesteparasedefender,independentementedeterhavidoounãoameaçareal.Como omercadoreseucoolieeramdeclassesdiferentes,aqueletinhatodososmotivospara esperardesteoódioeaagressão:essaéasituaçãotípica,aregra,enquantoagentilezado coolie foi uma exceção. Seria essa história mais uma das ridículas simplificações marxistasdeBrecht?Não,ajulgarporesterelatosobreaChinaatual:

EmNanjing,meiadécadaatrás,umamulheridosacaiuaopegarumônibus.Reportagensdejornaisnoscontamque

amulherde65anosquebrouabacia.Naquelemomento,umjovemfoiajudá-la;vamoschamá-lodePengYu,pois

esseéseunome.PengYudeuàmulherduzentosRMB(àépoca,suficientesparacomprartrezentaspassagensde ônibus)ealevouparaohospital.Depois,permaneceucomelaatéafamíliachegar.Estaprocessouojovempedindo

umaindenizaçãode136.419RMB.Comefeito,oTribunalDistritaldeNanjingGulouconsiderouorapazculpadoe

ordenouquepagasse45.876RMB.Oraciocíniodotribunalfoique,“deacordocomobom-senso”,comoPengYu

foioprimeiroasairdoônibus,muitoprovavelmenteatingiuasenhora.Alémdisso,elehaviarealmenteadmitidosua culpa,raciocinouacorte,aopermanecercomelanohospital,jáquenenhumapessoanormalseriatãobondosa quantoPengYuafirmavaser. 119

EsseincidentenãoéprecisamenteparaleloàhistóriadeBrecht?PengYuajudoua

senhoraapenasporcompaixãooudecência,mas,comotaldemonstraçãodebondadenão

é“típica”,nãoéaregra(“umapessoanormalnuncaseriatãobondosaquantoPengYu

afirmavaser”),issofoiinterpretadopelotribunalcomoprovadesuaculpa,eelefoi

adequadamentepunido.Seriaessaumaexceçãoridícula?Não,deacordocomoDiáriodo

Povo(ojornaldogoverno),que,emsuapesquisadeopiniãoonline,perguntouauma

amplaamostradejovensoquefariamsevissemumapessoadeidadequetivessecaído:

“87%dosjovensnãoajudariam.AhistóriadePengYurefleteavigilânciadoespaço

público.Aspessoassóvãoajudarsehouverumacâmeranolocal.”Oqueessarelutância emajudarassinalaéumamudançanacondiçãodoespaçopúblico:“aruaéumlugar intensamenteprivadoeaparentementeaspalavraspúblicoeprivadonãofazemsentido”. Emsuma,estarnumespaçopúbliconãoimplicaapenasestarjuntocomoutraspessoas desconhecidas–aocaminharentreelas,aindaestouemmeuespaçoprivado,semme envolver em nenhuma interação ou reconhecimento no que se refere a elas. Para ser considerado público, o espaço de minha convivência e interação com outros (ou da ausênciadisso)devesercobertoporcâmerasdesegurança.

Outrosinaldessamesmamudançapodeserencontradonoextremoopostodaatitude deverpessoasmorrendoempúblicoenãofazernada–narecenteondadesexopúblico napornografiaexplícita.Hácadavezmaisfilmesmostrandoumcasal(oumaispessoas) envolvido em jogos eróticos, chegando à cópula completa, em espaços públicos intensamentefrequentados(numapraiapública,numtrem,numaestaçãorodoviáriaou ferroviária,noespaçoabertodeumshoppingcenteretc.),eoaspectointeressanteéquea grandemaioriadospassantes(fingeque)ignoraacena–umaminorialançaumolhar

discretosobreocasal,eumnúmeromenoraindafazobservaçõessarcásticasobscenas.

Umavezmais,écomoseocasalcopulandopermanecesseemseuespaçoprivado,de

modoquenãodevêssemosnospreocuparcomsuasintimidades.

Issonostrazdevoltaao“reinoespiritualdosanimais”deHegel–ouseja:quem

efetivamentesecomportadessaforma,passandoporpessoasmorrendoemabençoada

ignorânciaoucopulandonafrentedosoutros?Animais,éclaro.Essefatonãoimplicade

formaalgumaaconclusãoridículadequeestamosdealgumaforma“regredindo”aonível

animal.Aanimalidadecomqueestamoslidandoaqui–oegoísmodesumanodecadaum

dosindivíduosquebuscamsatisfazerseusinteressesprivados–éoresultadoparadoxalda

maiscomplexaredederelaçõessociais(trocasdemercado,mediaçãosocialdaprodução),

eofatodeosprópriosindivíduosseremcegosaessaredecomplexaapontaparaseu

caráterideal(“espiritual”):numasociedadecivilestruturadapelomercado,aabstração

governamaisqueemqualqueroutromomentodahistóriadahumanidade.

Hojeemdiafrequentementesedizque,comnossaexposiçãototalàmídia,acultura das confissões públicas e os instrumentos de controle digital, o espaço privado está desaparecendo.Deveríamosnegaresselugar-comumcomaafirmaçãooposta:éoespaço públicopropriamenteditoqueestádesaparecendo.Apessoaquemostranawebimagens desuanudezoudadosíntimosesonhosobscenosnãoéumexibicionista:exibicionistas invadem o espaço público, enquanto os que postam imagens de sua nudez na web permanecememseuespaçoprivadoeapenasoexpandemparaincluiroutros.E,voltando aOatodematar,omesmovaleparaAnwareseuscolegas:elesestãoprivatizandoo espaçopúbliconumsentidomuitomaisameaçadordoqueaprivatizaçãoeconômica.Essa privatizaçãoéumcasoexemplardomodocomo,emnossassociedades,oacontecimento emancipadordamodernidadeestásendogradualmentedesfeito.

Destinofinal:“Notabene!”

QUAIS SÃO AS CHANCES de um acontecimento político autêntico nestas condições depressivasemqueoprocessopredominanteéodedesfazeracontecimentospassados? Devemoscomeçarrelembrandoqueumacontecimentoconsistenumaguinadaradical,a qual é, em sua verdadeira dimensão, invisível – citando o filósofo francês Maurice Blanchot:“Pergunta:Vocêadmitiriaofatodeestarmosnumpontodeinflexão?Resposta:

Seéumfatonãoéumpontodeinflexão.” 120 Numacontecimento,ascoisasnãoapenas mudam:oquemudaéopróprioparâmetropeloqualavaliamososfatosdamudança,ou seja,umpontodeinflexãomudatodoocamponoqualosfatosaparecem.Éfundamental terissoemmentehojequandoascoisasmudamotempotodo,aumavelocidadefrenética semprecedentes.Entretanto,porbaixodessamudançaconstante,nãoédifícildiscernir umamesmicebastanteenfadonha,comoseascoisasmudassemparaquetudopudesse continuarsendoomesmo–ou,comodizovelhoprovérbiofrancês,plusçachange,plus c’estlamêmechose.Nocapitalismo,emqueascoisasprecisammudarotempotodopara continuaremsendoasmesmas,overdadeiroacontecimentoseriatransformaropróprio princípiodamudança.Essanoçãodeacontecimentoquenãopodeserreduzidoauma simplesmudançafoidesenvolvidaporAlainBadiou:umacontingência(umencontroou ocorrênciacontingente)queseconverteemnecessidade, 121 ouseja,originaumprincípio universalexigindofidelidadeetrabalhoduro emfavordanovaordem.Umencontro eróticoéoacontecimentodoamorquandoelemudatotalmenteasvidasdosamantes, organizando-asemtornodaconstruçãodavidaemcomumdeumcasal;napolítica,um levante contingente (revolta) é um acontecimento quando dá origem a um comprometimento do sujeito coletivo com um novo projeto emancipador universal, e assimpõeemfuncionamentootrabalhopacientedereestruturarasociedade.

Poderíamosimaginarumacontecimentoassimnosdiasdehoje,quando,comonovo

milênio,aesquerdaentrounumperíododecriseprofunda?Nosanosdeprosperidadedo

capitalismo,erafácilparaaesquerdafazeropapeldeCassandra,advertindoqueessa

prosperidadesebaseavaemilusõeseprofetizandocatástrofesvindouras.Agoraodeclínio

econômicoeadesintegraçãosocialqueaesquerdaesperavaestãoaqui,eprotestose

revoltasestãopipocandoportodooglobo.Masoqueestáconspicuamenteausenteé

algumarespostaconsistentedaesquerdaaessesacontecimentos,algumprojetodecomo

transformarilhasderesistênciacaóticanumprojetodemudançasocial.Araivaquehoje

explodeemtodaaEuropa

éimpotenteeinconsequente,jáqueaconsciênciaeumaaçãocoordenadaparecemalémdoalcancedasociedade atual.Veja-seacriseeuropeia.Nuncaemnossasvidasenfrentamosumasituaçãotãocarregadadeoportunidades revolucionárias.Nuncaemnossasvidasfomostãoimpotentes.Nuncaintelectuaisemilitantesficaramtãocalados, tãoincapazesdeencontrarumaformademostrarumanovadireçãopossível. 122

Nos dois últimos anos, temos vivido, assim, numa situação pré-acontecimental constanteemqueumabarreirainvisívelpareceimpedircontinuamenteagênesedeum acontecimentopropriamentedito,osurgimentodealgonovo.Umadasrazõesparaessa barreirainvisíveléoúltimotriunfoideológicodocapitalismo:cadatrabalhadorsetorna seuprópriocapitalista,o“empresáriodesimesmo”quedecidequantoinvestiremsua educaçãofutura,emsuasaúdeeassimpordiante,contraindodívidasparapagaresse investimento.Osdireitosaeducação,cuidadosdesaúde,moradiaetc.setornam,assim, decisões livres de investir, que estão formalmente no mesmo nível da decisão do banqueirooucapitalistadeinvestirnestaounaquelacompanhia,demodoque,nessenível formal,todomundoéumcapitalistacontraindodívidasafimdeinvestir. 123 Estamosaqui umpassoalémdaigualdadeformalentrecapitalistaetrabalhadoraosolhosdalei–agora ambos são investidores capitalistas. Entretanto a mesma diferença na “fisionomia de nossasdramatispersonae”que,segundoMarx,apareceapósserconcluídaapermuta entretrabalhoecapital,reapareceaquientreoinvestidorcapitalistapropriamenteditoeo trabalhadorqueécompelidoaagircomoo“empresáriodesimesmo”:“Um,cheiode importância,sorrisosatisfeitoeávidopornegócios;ooutro,tímido,contrafeito,como alguémquevendeuaprópriapeleesóestáesperandoseresfolado.” 124 Eeletemrazãoem permanecertímido–aliberdadedeescolhaquelhefoiimpostaéfalsa,éaprópriaforma desuaservidão.

Dequeformaaatualascensãodohomemendividado,específicadascondiçõesdo capitalismo global, se conecta com a relação devedor/credor como uma constante antropológicauniversalarticuladaporNietzsche?Éoparadoxodarealizaçãodiretaquese transformanoseuoposto.Ocapitalismoglobaldehojelevaarelaçãodevedor/credorao seu extremo e simultaneamente a solapa: a dívida se torna um excesso abertamente ridículo.Entramosassimnodomíniodaobscenidade:quandoumcréditoéconcedido, nemmesmoseesperaqueodevedorvenhaaquitá-lo–adívidaétratadadiretamente comomeiodecontroleedominação.TomemosapressãodosEstadosUnidossobrea Gréciaparaqueestaimplementassemedidasdeausteridade–essapressãoseencaixa perfeitamente no que os psicanalistas chamam de “supereu”. O supereu não é propriamenteumaagênciaética,masumagentesádicoquebombardeiaosujeitocom exigênciasimpossíveis,deliciando-seobscenamentecomofracassodesteematendê-las;o paradoxodosupereuéque,comoFreuddisseclaramente,quantomaisatendemossuas demandas,maisnossentimosculpados. 125 Imagine-seumprofessorperversoquepassaa seusalunostarefasimpossíveisedepoiszombadelessadicamenteaoversuaansiedadee

seupânico.Éissooquehádeterrivelmenteerradocomasexigências/ordensdosEstados

Unidos:nemmesmoderamumachanceàGrécia;ofracassodestafazpartedojogo.Aqui,

oobjetivodaanálisepolítico-econômicaéempregarestratégiasparasairdessecírculo

infernaldedívidaeculpa.

Umparadoxosemelhanteesteveemoperaçãodesdeoinício,evidentemente,jáque umapromessa/obrigaçãoquenuncapodeserplenamentecumpridaestánaprópriabasedo sistemabancário.Quandoalguémdepositadinheironumbanco,esteseobrigaadevolver odinheiroaqualquermomento–mastodossabemosque,emboraobancopossafazer isso para algumas pessoas, não pode fazer para todas. Entretanto esse paradoxo, que originalmentevaliaparaarelaçãoentreosindivíduosquedepositamdinheiroeseu banco,agoratambémvaleparaarelaçãoentreobancoeaspessoas(jurídicasoufísicas) que nele tomam empréstimos. O que isso implica é que o verdadeiro propósito de emprestar dinheiro ao devedor não é que a dívida seja paga com lucro, mas o prosseguimentoindefinidodadívidaquemantémodevedorempermanentedependênciae subordinação. Mais ou menos uma década atrás, a Argentina decidiu pagar antecipadamente (com a ajuda da Venezuela) sua dívida com o Fundo Monetário Internacional(FMI),eareaçãodoFMIfoisurpreendente:emvezdesemostrarsatisfeito porterseudinheirodevolta,oFMI(oumelhor,seusrepresentantesdealtoescalão) expressou a preocupação de que a Argentina fosse usar sua nova liberdade e independência financeira em relação às instituições internacionais dessa área para abandonar as políticas fiscais rigorosas e se envolver em gastos irresponsáveis. Essa inquietaçãotornoupalpáveloquerealmenteestáemjogonarelaçãodevedor/credor:a dívidaéuminstrumentodecontroleemonitoramentododevedore,comotal,buscasua própriareproduçãoampliada.

Assim,devoltaaopontodepartida:comopodeumacontecimentonostirardessa situaçãodeprimente?Talvezdevamoscomeçarrenunciandoefetivamenteaomitodeum GrandeDespertar–omomentoemque,senãoaantigaclassetrabalhadora,entãouma novaaliançadosdespossuídos,damultidãooudoquequerquesejairájuntarsuasforças e capitanear uma intervenção decisiva. Devemos aqui retornar a Hegel: um processo dialéticoteminíciocomalgumaideiaafirmativapelaqualeleluta.Entretanto,nocurso dessa luta, a própria ideia passa por uma transformação profunda(não apenas uma acomodaçãotática,masumaredefiniçãoessencial),poisaprópriaideiaéenvolvidano processo, (sobre)determinada por sua concretização. Digamos que temos uma revolta motivadaporumademandaporjustiça:quandoaspessoasseveemrealmenteengajadas nela,tornam-seconscientesdequemuitomaissefaznecessárioparaseobterjustiçado quesomenteasdemandaslimitadascomquecomeçaram(revogaralgumasleisetc.).O

queacontecenessesmomentoséumarecomposiçãodaprópriadimensãouniversal,a

imposiçãodeumanovauniversalidade.

Essanovauniversalidadenãoéumcontêinercomcapacidadeilimitada,umacordo

entreforçasdesiguais;éumauniversalidadebaseadanadivisão.OpresidenteObamaé

frequentementeacusadodedividiropovoamericanoemvezdeuni-loparaencontrar

soluçõesamplas,bipartidárias.Maseseforexatamenteissooqueépositivoarespeito

dele?Emsituaçõesdecriseprofunda,umadivisãoautênticaéurgentementenecessária–

umadivisãoentreosquedesejamsearrastardentrodosvelhosparâmetroseosquetêm

consciênciadamudançanecessária.Essadivisão,enãoacordosoportunistas,éoúnico

caminhoparaseatingiraverdadeiraunidade.

Alémdisso,nãodeveríamostermedodereafirmaroutrasnoçõesqueestãoimplícitas nessadivisão:ódioeviolência.“Apolíticaéoódioorganizadoqueconstituiaunidade.” Essa frase vem de John Jay Chapman (1862-1933), um ativista político e ensaísta americanoquehojeandameioesquecidoequetambémfoidosprimeirosapercebera mentiradacaridade:“Acovardiageraldestaépocacobre-secomailusãodacaridadee pede,emnomedeCristo,quenãosejamferidosossentimentosdeninguém.” 126 Anoção dapolíticacomoódioorganizadoestádistantedaloucuratotalitária–eissuaversão contemporânea:

Asituação,assim,seesclarecenesteponto:temosinimigos.Elesnãosãonecessariamentehostisemrelaçãoanós, podeatéserquedesejemsinceramentenossafelicidade,prosperandoeorgulhososporviveremnomundoque conceberamparanós.Pode-seatédizerqueéexatamenteissoqueelesesperamdenós:confirmarqueomundodeles éomelhordosmundospossíveis–ouomenosruim,adependerdocaso. 127

Umavez,décadasatrás,osliberaisdiziamissosobreoscomunistas–hoje,issovale paraosinimigosdocomunismo.Issoquerdizerquedefendemosumaviolênciacega? Deveríamosdesmistificaroproblemadaviolência,rejeitandoafirmaçõessimplistasde que o comunismo do século XX usou em excesso a violência assassina e de que precisamos ter cuidado para não voltar a cair nessa armadilha. Na verdade, isso é, evidentemente,umahorrívelverdade,masumfocoassimdiretonaviolênciaofuscaa questãosubjacente:oquehouvedeerradocomoprojetodecomunismodoséculoXXem si?Quedebilidadeinerentedesseprojetoforçouoscomunistasnopoder(enãoapenas eles) a recorrerem à violência irrestrita? Em outras palavras, não basta dizer que os comunistas“desconsideraramoproblemadaviolência”:foiumafalhasociopolíticamuito maisprofundaqueosempurrouparaaviolência.(Omesmovaleparaanoçãodequeos comunistas“desconsideraramademocracia”:seuprojetogeraldetransformaçãosocial lhesimpôsessa“desconsideração”.)ARevoluçãoCulturalchinesaserveaquidelição:

destruirvelhosmonumentosprovounãoserumaverdadeiranegaçãodopassado.Foi,em

vezdisso,umaimpotentepassageàl’acte,uma“pantomima”queatestouofracassoem

selivrardopassado.

QuandooescritorromenoPanaitIstrativisitouaUniãoSoviéticanofinaldadécada

de1920,períodoemquetiveraminícioosprimeirosexpurgosejulgamentospolíticos,um

apologista soviético, tentando convencê-lo da necessidade da violência contra seus inimigos,evocouoditado“Nãosepodefazerumaomeletesemquebrarosovos”,aoque Istratisucintamenterespondeu:“Tudobem.Possoverosovos.Ondeestáaomeletede vocês?” 128 Eleestavacerto,masnãoapenasnosentidocomumderejeitaraviolênciacrua, quenãopodeserjustificadaporseusresultados.Overdadeiro“quebrardeovos”nãoéa violência física, mas a intervenção nas relações sociais e ideológicas que, sem necessariamentedestruirnadanemninguém,transformainteiramenteocamposimbólico –como?Paraconcluir,tomemosnossoúltimoexemplodocinema,ofilmegregoStrella,

dePanosKoutras(2009).

DepoisdeserrejeitadopelosórgãosdefinanciamentodoEstadoedesprezadopor todasasprincipaiscompanhiasprodutoras,Koutrasfoiobrigadoaproduziroseufilme sem nenhum apoio financeiro, e assim Strella se tornou uma produção totalmente independentecomquasetodosospapéisdesempenhadospornãoprofissionais.Maso resultadofoiumfilmecultquerecebeunumerososprêmios.Eisahistória:Yiorgosé libertadodaprisãoapóscumprirsentençadecatorzeanosporumassassinatocometidoem suapequenaaldeia.(Eleencontrouoirmãodedezesseteanosenvolvidoemjogossexuais comseufilhodecincoe,numacessoderaiva,omatou.)Durantealongapermanênciana prisão,eleperdeucontatocomofilho,Leonidas,queagoratentaencontrar.Passasua primeiranoitedeliberdadenumhotelbaratodocentrodeAtenas,ondeconheceStrella, umajovemprostitutatransexual.Elespassamanoitejuntoselogoseapaixonam.Yiorgos éaceitopelocírculodeamigostravestisdeStrella,eeleadmirasuapersonificaçãode MariaCallas.EntretantoelelogodescobrequeStrellaé,naverdade,seufilhoLeonidas:

maisainda,elasabiaotempotodoqueYiorgoseraseupai,estavaseguindo-oquandoele

saiudaprisãoeesperouporelenocorredordohotel.Deinícioqueriaapenasvê-lo,mas,

quandoeletentouconquistá-la,deixouascoisasirememfrente.Traumatizado,Yiorgos

fogeeentraemcolapsonervoso,masocasalrestabelececontatoedescobreque,apesarda

impossibilidadedeprosseguiremcomseurelacionamentosexual,osdoispodemcom

efeitocuidarumdooutro.Gradualmente,encontramummodusvivendi,eacenafinaltem

lugarnumacomemoraçãodeAno-Novo:Strella,seusamigoseYiorgostodosjuntosna

casadela,comumacriancinhaqueStrellaresolveadotar,ofilhodeumamigofalecido.A

criançadácorpoaoamordelesetambémaoimpassedeseurelacionamento.

Strella leva a perversão ao seu clímax (ridiculamente sublime): a descoberta traumática se repete. Primeiro, no início do filme, Yiorgos descobre que sua mulher

amada/desejadaéumtransexualeaceitaissosemmaioreshesitações,semnenhumchoque

patético:quandonotaquesuaparceiraéumhomem,estasimplesmentediz:“Soutravesti.

Vocêtemproblemacomisso?”,eelescontinuamsebeijandoeseabraçando.Oquesegue

éadescobertaverdadeiramentetraumáticadequeStrellaéoprópriofilhoqueeleestava

procurandoeque,sabendodisso,oseduziu.Aqui,areaçãodeYiorgoséamesmade

FergusaoveropênisdeDilemTraídospelodesejo:repulsadestrutiva,fuga,vagarpela

cidadeincapazdeenfrentaroquefoidescoberto.Oresultadoétambémsemelhanteaode

Traídospelodesejo:otraumaésuperadopeloamor;surgeumafamíliafelizcomumfilho

pequeno.

ApropagandadofilmedescreveStrellacomo“otipodehistóriacontadaemjantares festivos,umaespéciedelendaurbana”–oquesignificaquenãodevemosinterpretá-loda mesmaformaqueTraídospelodesejo:adescobertadoheróidequeseuamortransexual éseufilhonãoéaconcretizaçãodealgumafantasiainconsciente;suareaçãoderepulsaé verdadeiramente apenas a reação a uma surpresa externa ruim. Em outras palavras,

devemosresistiràtentaçãodemobilizaroaparatopsicanalíticoeinterpretaroincestopai-

filho:nãohánadaainterpretar;asituaçãonofinaldofilmeécompletamentenormal,uma situaçãodegenuínafelicidadefamiliar.Comotal,ofilmeservedetesteparaosdefensores dosvaloresfamiliarescristãos:aceiteessaautênticafamíliadeYiorgos,Strellaeofilho adotivo, ou pare de falar de cristianismo. Afamília que emerge no final do filme é propriamenteumasagradafamília,algocomooDeusPaivivendocomCristoetransando comele,ossupremoscasamentogayeincestopaternal–umatriunfantereelaboraçãoda fantasia. 129 EmseulivroNotasparaumadefiniçãodecultura,T.S.Eliotenfatizouque existemmomentosemqueaúnicaescolhaéaquelaentreaheresiaeadescrença,emquea únicaformademantervivaumareligiãoéfazerumadivisãosectáriaemrelaçãoaoseu corpoprincipal.Exatamenteomesmoserveparaosvaloresfamiliarescristãos:aúnica formadehonrá-loséredefiniroureelaborarafamíliaparaqueelaincluaasituaçãodo finaldeStrellacomoseucasoexemplar.

ESTE,ENTÃO,éofim–elenoslevoudevoltaaocomeço,anossaprimeiradefiniçãode acontecimentocomooatodoreenquadramento,deondeprosseguimosemnossajornada através do acontecimento como queda, do acontecimento como iluminação, dos três acontecimentos filosóficos e dos três aspectos do acontecimento na psicanálise. Após confrontarmosapossibilidadedeanularumacontecimento,alcançamosnossodestino finaldelineandooscontornosdeumacontecimentopolítico. 130 Se,tardedanoite,jána cama,oviajantequeacaboudeterminarsuaviagemestáagradavelmentedeitado,ou cansadodemaisparacontemplaraperspectivadeumacontecimentopolítico,sópossolhe dizer,sinceramente:“Notabene!

Notas

1.Éporissoque,quandoamamos,nosexpomosaoseramadoemtodaanossavulnerabilidade;quandoestamosnus

juntos,umsorrisooucomentáriocínicodoparceiropodetransformarcharmeemridículo.Oamorimplicaconfiança

absoluta:aoamaroutrapessoa,eulhedouopoderdemedestruir,esperando/confiandoqueeleouelanãousaráesse

podercontramim.

2.VerMarcVernet,“FilmNoirontheEdgeofDoom”,emJoanCopjec(org.),ShadesofNoir.Londres:VersoBooks,

1993.

3.StephenHawkingeLeonardMlodinow,TheGrandDesign.NovaYork:Bantam,2010,p.5.

4.Adespeitodoabsurdodetodaessaempreitada,existenelaumabelezatrágica;emseuDecasteloemcastelo,Céline

forneceumaeloquentedescriçãodamisériaeconfusãodavidacotidianaemSigmaringen.

5.ParaumaintroduçãobásicaàobradeLacan,verSlavojŽižek,ComolerLacan.RiodeJaneiro:Zahar,2010.

7.Umaversãomaisespecíficadamesmafórmulapodeserencontradanoschamados“filmesdeóperaparalela”,emque

uma história contemporânea é análoga ao enredo de uma ópera (geralmente uma ópera popular italiana) cuja

montageméopontofocaldoenredodofilme.IlSognodeButterfly,filmeitalianode1939,forneceumaversão

interessantedesseprocedimento:Rosa,quecantanopalconopapeldeCio-CioSan,seapaixonaporumtenor

americanoquevoltaparaosEstadosUnidossemsaberqueelaestágrávida.Quatroanosdepois,agoraricoefamoso,

ecomumaesposaamericana,elevoltaàItália;mas,diferentementedesuacorrelataoperística,Rosanãosesuicida–

emvezdisso,dedicasuavidaaofilhinho.

8.Apersistênciadessafórmuladeproduçãodeumcasalébastantesurpreendente–emArgo(2012),ficamossabendono

inícioqueoagentedaCIAqueorganizaafugadoIraquedeseusfuncionáriosdaembaixadaamericanaescondidos

nacasadoembaixadorcanadenseestáseparadodaesposa,emborasejamuitoligadoaoseufilhopequeno.Nofinal

dofilme,bemnaúltimacena,eleseaproximadacasaemqueviveaesposaelheperguntasepodeentrar;em

silêncio,elaoabraça.Omistériodessacenaéque,umavezqueelaseseguediretamenteaotriunfoprofissionaldo

agente,parecequeaesposadequeeleestavaseparadotomouconhecimento,dealgumaforma,deseuatopatriótico

eheroicoeestáprontaaaceitá-lodevoltaporgratidão–maselanãopodesabercoisaalgumasobreisso,jáquea

participaçãodaCIAnaoperaçãofoisecreta.Alógicasubjacentedofilmeé,portanto,maisumavez,queseu

verdadeironúcleonãoécomosalvarosfuncionáriosamericanosescondidos,masaunificaçãodocasal.

9.EmProcura-seamigoparaofimdomundo,deLoreneScafaria,tambémficamossabendoqueumasteroidequese

aproximadaTerravaiacabarcomtodaavidanoplanetadentrodetrêssemanas;entretanto,emboraacatástrofeseja

realeinevitável,elaaindaservedeveículoparacriarumcasalque,minutosantesdacatástrofe,reconheceseuamor

esedissolvenumabraço.Assim,amensagemdofilmeé:énecessáriaumacatástrofetotalparacriarumcasalde

verdade.

10.Outrodetalhe:quandoaCoisaseaproximadaTerra,nãoapenasocomportamentodosanimaissetornaestranho

(cavalosficamperturbadosetc.),mastambémaatmosferasealtera:porumcurtoperíodo,JustineeClaireficam

suandoetêmdificuldadeemrespirar–ascoordenadasbásicasdanatureza,seuequilíbrio,estãosedesintegrando.

11.NofilmedeBenigni,Guido,umpaijudeu,eseufilhinhoJoshuasãopresospelosalemãeselevadosparaAuschwitz.

AfimdetornaravidanocampodeconcentraçãosuportávelparaJoshua,Guidooconvencedequeocampoéum

jogocomplicadoemqueJoshuadeverealizarastarefasqueGuidolhepassaparaganharempontos;aprimeira

equipeaatingirmilpontosvaiganharumtanque.Elelhedizque,sechorar,queixar-sedequererestarcomamãeou

disserqueestácomfome,elevaiperderpontos,enquantogarotosqueseescondemdosguardasganhampontos

extras.Paraveroquehádeerradocomofilme,deve-sefazerumexperimentomentalsimples:imagine-seomesmo

filmecomumaalteração–nofinal,Guidoficariasabendoque,otempotodo,Joshuatinhaconhecimentodeonde

estava,numcampodeconcentração,esófingiuacreditarnahistóriadeGuidoparalhefacilitaravida.

12.Enãonosesqueçamosdeque,numsentidoqueestálongedeserlouco,masdizrespeitoanossaexperiência

elementarmaisprofunda,Justineestácerta:avidaéumacoisarepulsiva,umobjetoabominávelsaindodesi

mesmo,expelindoumcalorúmido,arrastando-se,fedendo,crescendo.Opróprionascimentodeumserhumanoé

umacontecimentodotipoAlien:umacontecimentomonstruosoemqueumacoisaéejetadadeumcorpo,umcorpo

quesemove,grandeepeludo.Tudoissodeveriadesaparecer.Oespíritoestáacimadavida,éamorteemvida,uma

tentativadeescapardavidaenquantovivo,comoapulsãodemortefreudianaquenãoévida,masumsimples

movimentorepetitivo.

13.UmdetalhedignodenotaemAárvoredavidaéafórmulaqueofilmefornecepararesolveratensãoedipiana:paie

filhosereconciliamquando,depoisdeopaipedirperdãopornãotercumpridocorretamenteseupapelpaterno,o

filhoresponde:“Soutãomauquantovocê.”Essaéafórmulacorretadaidentificaçãopaterna:nãotentomaisme

identificarcomopaicomoideal,identifico-mecomseuprópriofracassoemserumbompai.

15.PeterWesselZapffe,Omdettragiske.Oslo:Denorskebokklubbene,2004,p.147.

16.GiorgioAgamben,Stanzas.Minneapolis:UniversityofMinnesotaPress,1993,p.20.

17.PaulineKael,5001NightsattheMovies.NovaYork:Macmillan,1991,p.107.

18.Semelhante,masnãoigual,éocasododocumentáriodeRaphaelSibonicomumtítulolacaniano,Iln’yapasde

rapportsexuel(2012).Eleémuitomaisqueo“makingof”deumfilmepornô:seguindodeumadistânciamínimaa

filmagemdeumaobradesexopesado,ouseja,recuandoetornandovisíveisosbastidores,ajanelapelaqual

observamosacena,eledessexualizatotalmenteacenainteira,apresentandoaencenaçãodesexopesadocomoum

trabalhoenfadonho,repetitivo:fingirumprazerextático,masturbar-seforadecenaparamanteraereção,fumar

duranteosintervalosetc.

19.RichardBoothby,FreudasaPhilosopher.NovaYork:Routledge,2001,p.275-6.

20.SørenKierkegaard,FearandTrembling/Repetition.Princeton:PrincetonUniversityPress,1985,p.162.Estouem

dívidaparacomMladenDolarporessareferênciaaKierkegaard,HeineeMarx.

21.NissoaposiçãodeStálinpareceambígua:pode-seimaginarumexpurgostalinistacomoumesforçoparaliquidar

todososlimpadoresdechaminésqueperturbamaordemsocialista–masopróprioStálintambémnãofoiosupremo

limpadordechaminés?

22.Tambémnãosedeveesquecerqueumacriadaeumlimpadordechaminésformam,elespróprios,umcasal–

relembremosovelhomitodoslimpadoresdechaminéscomosedutoresdecriadasinocentes.

23.VerWalterBenjamin,“OnLanguageasSuchandontheLanguageofMan”(1916),emOne-WayStreetandOther

Writings.Londres:NewLeftBooks,1919,p.107-23.

24.Noblockbusterde2012FúriadeTitãs,háumafalainteressantequandoumdosdeusesafirmaqueoshumanossão

imortais,jáqueapósamortecontinuamvivendo(emsuaalmaimortalounatradição),enquantoosdeusessão

verdadeirosmortais:quandomorrem,realmentedesaparecem,nadapermanece.AcombinaçãodeHeideggerde

mortaiseimortaisdeveria,assim,sercorrigida:humanosimortaisversusdeusesmortais.

25.Ocristianismo,assim,nosmandainverterostermosdos“doiscorposdorei”:opróprioDeustemdoiscorpos,mas,

nacrucificação,nãoéocorpoterrestrequemorre,enquantoocorposublimepermanececomooEspíritoSanto;o

quemorrenacruzéoprópriocorposublimedeCristo.

26.G.K.Chesterton,Orthodoxy.SãoFrancisco:IgnatiusPress,1995,p.139.

27.Decultufeminarum,seçãoI.I,parte2;cit.dehttp://www.tertullian.org/anf/anf04/anf04-06.htm.

29.Schellingfezumaobservaçãoidênticaaoenfatizaromodocomo,noAntigoImpérioRomano,aascensãodo

cristianismofoiprecedidapeloavançodadecadênciaedacorrupção.

30.G.W.F.Hegel,VorlesungenüberdiePhilosophiederReligionII.Frankfurt:SuhrkampVerlag,1969,p.205.

31.Hegel’sScienceofLogic.AtlanticHighlands:HumanitiesPress,1969,p.402.

32.RayKurzweil,TheSingularityIsNear.NovaYork:PenguinBooks,2006,p.9.

33.BrianGreene,TheElegantUniverse.NovaYork:Norton,1999,p.116-9.

34.Ibid.,p.171.

35.KojinKaratani,HistoryandRepetition.NovaYork:ColumbiaUniversityPress,2011,p.196-7.

36.Ibid.,p.197.

37.AntesdedescartarmosotrabalhodeUsshercomoumacuriosidaderidícula,devemoslembrarque,atéalgunsanos

atrás,aBíbliadisponívelnamaioriadoshotéisincluíaessacronologiadacriação!

38.FrançoisBalmès,Structure,logique,aliénation.Toulouse:Érès,2011,p.16.

39. Baseio-me aqui em “Neurotechnology, Social Control and Revolution”, de Ahmed El Hady, disponível em bigthink.com/ideas/neurotechnology-social-control-and-revolution?page=all.

40.Cit.deAhmedElHady,op.cit.

41.

Ver

42.Otextofoiescritopertodofinaldoanode1925,maspublicadodécadasdepois.Aúnicatraduçãodisponíveléem

alemão:AndreiPlatonov,“DerAnti-sexus”,emBorisGroyseAageHansen-Loeve(orgs.),AmNullpunkt.Frankfurt:

SuhrkampVerlag,2005,p.494-505.Comocuriosidadedeve-seacrescentarque,emagostode2012,umdeputadoda

DumadeMoscou,VladimirPlatonov,tornou-seconhecidocomoo“antissexo”porsustentaraproibiçãodetoda

educaçãoepropagandasexuais(emdetrimentodasaúdeedamoralidadepúblicas)namídiaenasescolasrussas–de

AndreiaVladimir,essaéconcebivelmenteafórmulamaissucintaparaadecadênciadavidapúblicanaRússia.

43.MladenDolar,“TelephoneandPsychoanalysis”.Filozofskivestnik,n.1,2008,p.12(emesloveno).

44.C.E.Elger,A.D.Friederici,C.Koch,H.Luhmann,C.vonderMalsburg,R.Menzel,H.Monyer,F.Rösler,G.Roth,

H. Scheich e W. Singer, “Das Manifest: Elf führende Neurowissenschaftler über Gegenwart und Zukunft der

Hirnforschung”.GehirnundGeist,vol.6,2004,p.17.

45.JürgenHabermas,“Thelanguagegameofresponsibleagencyandtheproblemoffreewill:howcanepistemic

dualismbereconciledwithontologicalmonism?”.PhilosophicalExplorations,vol.10,n.1,marçode2007,p.31.

46.VerThomasMetzinger,BeingNoOne:TheSelf-ModelTheoryofSub​jectivity.Cambridge,Mass.:MITPress,2003.

47.Umsinalclarodessaabordagempragmáticaéopapelqueameditaçãodesempenhanobudismo:enquantono

Ocidenteameditaçãoépercebidacomofundamental(umadastécnicasderelaxamentoparaseatingira“paz

interior”),demodoqueserumbudistaefetivamentesignificapraticarameditação,noOriente,emqueobudismoé

realmenteumaformadevida,somenteumapequenamaioriaseenvolvenessaprática–amaioriaapenassegue

(fingeseguir)asnormaséticasimpostaspelobudismo(gentileza,nãosofreretc.).Mongesquepraticamamplamente

ameditaçãosãoumaespéciede“sujeitosupostomeditar”,umagarantia(àspessoascomuns)dequeailuminaçãoé

possível.

48.VerMichaelJerrysoneMarkJürgensmeyer,BuddhistWarfare.Oxford:OxfordUniversityPress,2010.

49.MarkEpstein,ThoughtswithoutaThinker.NovaYork:BasicBooks,1996,p.83.

50.Ibid.,p.211.

51.OwenFlanagan,TheBoddhisattva’sBrain.BuddhismNaturalized.Cambridge,Mass.:MITPress,2011,p.160.

53.Ibid.,p.234.

55.W.B.Yeats,“HeWishesfortheClothsofHeaven”(1899).

56.ImmanuelKant,“TheConflictofFaculties”,emPoliticalWritings.Cambridge:CambridgeUniversityPress,1991,

p.182.

57.JorgeSemprún,TheLongVoyage.LosAngeles:OverlookTP,2005,p.172.

58.MarcoAurélio,Meditations,B.6,p.13,cit.dehttp://classics.mit.edu/Antoninus/meditations.html.

59.SørenKierkegaard,WorksofLove.NovaYork:HarperTorchbooks,1962,p.114.

60.Tambémsedevenotarque,desdeoinício,opensamentodeDescartestemressonânciaentreasmulheres–“ocogito

nãotemsexo”foiareaçãodeumadasprimeirasleitoras.Apessoaqueprimeiroempregouessepotencialfeminista docartesianismofoiFrançoisPoullaindelaBarre,umseguidordeDescartesque,depoisdesetornarsacerdote, converteu-seaoprotestantismo.Eleaplicouprincípioscartesianosàquestãodossexosedenunciouainjustiçacontra asmulhereseadesigualdadedacondiçãofeminina,defendendoaigualdadesocialentremulheresehomens.Em

1673,elepublicouanonimamenteDel’égalitédesDeuxSexes:Discoursphysiqueetmoraloùl’onvoitl’importance

desedéfairedespréjugés,mostrandoqueadesigualdadeentreossexosnãotemumabasenatural,masprocedede

preconceitosculturais.Eletambémrecomendouqueasmulheresrecebessemumaeducaçãoadequadaequetodasas

carreiraslhesfossemabertas,incluindoascientíficas.

61.G.W.F.Hegel,“Jenaerrealphilosophie”,emFruehepolitischeSysteme.Frankfurt:Ullstein,1974,p.204;cit.de

DonaldPhillipVerene,Hegel’sRecollection.Albany,NY:SUNYPress,1985,p.7-8.TambémnaEnci​clopédia,

Hegelmencionao“abismoquasenoturnodentrodoqualummundodeimagenserepresentaçõesinfinitamente

numerosasépreservadosemestarnaconsciência”(Enciclopédia,par.453).AfontehistóricadeHegeléaquiJacob

Bohme.

62.Hegel,“Jenaerrealphilosophie”,op.cit.

63.VerSigmundFreud,“Psychoanaliticnotesuponanautobiographicalaccountofacaseofparanoia”,emThreeCase

Histories.NovaYork:Touchstone,1996.

64.VerCatherineMalabou,Lesnouveauxblessés.Paris:Bayard,2007.

65.Ibid.,p.315.

66.G.K.Chesterton,TheManWhoWasThursday.Harmondsworth:PenguinBooks,p.44-5.

67.G.K.Chesterton,“ADefenseofDetectiveStories”,emH.Haycraft(org.),TheArtofMysteryStory.NovaYork:

TheUniversalLibrary,1946,p.6.

68.RichardWagner,JesusofNazarethandOtherWritings.Lincoln,Nebr.eLondres:UniversityofNebraskaPress,

1995,p.303.

69.Ludwig Feuerbach (1804-72) foi um filósofo alemão que rejeitava o idealismo de Hegel e defendia a plena afirmaçãodaexistênciacorpóreaesensualhumana;paraele,areligiãoéumafantasiaemqueahumanidadeprojeta suasmelhorescaracterísticas.

70.Wagner,JesusofNazareth,op.cit.,p.303-4.

71.Jean-PierreDupuy,“Quandjemourrai,riendenotreamourn’aurajamaisexisté”,palestranãopublicadarealizada

nocolóquioVertigoetlaPhilosophie,ÉcoleNormaleSupérieure,Paris,14deoutubrode2005.

72.ParaumaelaboraçãomaisdetalhadadessalinhadepensamentodeBergson,verocapítulo9deEmdefesadas

causasperdidas,deSlavojŽižek.SãoPaulo:Boitempo,2011.

74.ÉissoquetalveztorneproblemáticaapráticadecurtassessõesdeanáliseintroduzidaporLacan.Aideiaéclara:

Lacanpercebeuque,nasessãopadrãopsicanalíticadecinquentaminutos,opacienteapenasficarepassandoe repassando coisas, e só nos últimos minutos, quando a sombra do final, de ser interrompido pelo analista, se avizinha,équeeleouelaentraempânicoeproduzalgummaterialvalioso.Daílheveioaideia:porquenãopular simplesmenteolongoperíododetempoperdidoelimitarasessãoaosúltimosminutos,quando,sobapressãodo tempo,realmenteacontecealgumacoisa?Oproblemaaquié:seráquepodemosmesmoterapenasaprodutivaparte

finalsemos45minutosprecedentesdetempoperdido,quefuncionamcomoperíododegestaçãodoconteúdoque

explodenoscincominutosfinais?

75.G.W.H.Hegel,PhilosohiedessubjektivenGeistes.Dordrecht:Riedel,1978,p.6-7.

76.Walter Benjamin (1892-1940) foi um filósofo e teórico das artes alemão que combinava o marxismo com o pensamentomessiânicojudaico.

77.WalterBenjamin,TheArcadesProject.Cambridge,Mass.:BelknapPress,1999,p.482.

78.WalterBenjamin,Illuminations.NovaYork:SchockenBooks,2007,p.254.

79.Entretanto,quandoShakespearefalado“apetitedeumhomemdoente,quedesejamaisdaquiloqueaumentariaseu

tormento”(Coriolano),aambiguidadeéradical:essacaracterizaçãovaletantoparaotormentoautodestrutivocomo

paraadedicaçãoaoDeusquenegligenciaoprópriobem-estardealguém.

80.Asegundapartedoargumentonãoémenosinteressante,comsualinhanietzschianadeargumentação–nemtantoas

duasúltimaslinhas(comseuconhecimentopadrão:omedoofazveroquenãoestáali,ofazconfundirumsimples arbusto à noite com um urso), mas as anteriores, mais precisas: a imaginação substancializa uma propriedade (característica,emoção),imaginandoseuportador,suacausa.

81.VerKarlPopper,ObjectiveKnowledge.Oxford:OxfordUniversityPress,1972.

82.FrançoisBalmès,Structure,logique,aliénation.Toulouse:Érès,2011,p.16.

83.EmmanuelLévinas(1906-95)foiumfilósofofrancêseteólogojudeuqueseconcentrounotemaéticodenossa

responsabilidadeemrelaçãoaoOutro.

84.JürgenHabermas,TheFutureofHumanNature.Cambridge:PolityPress,2003,p.110.

85.JacquesLacan,Écrits.NovaYork:Norton,2007,p.824.[Ed.bras.:Escritos.RiodeJaneiro:Zahar,1998.]

86.OescritoreantropólogofrancêsGeorgesBataille(1897-1962)tratoudostemasdasexualidade,daviolênciaedo

sacrifício.

87.SergueiEisenstein,“TheMilkSeparatorandtheHolyGrail”,emNon-IndifferentNature.Cambridge:Cambridge

UniversityPress,1987.

88.Cit.deRobertService,Lenin.Londres:Macmillan,2000,p.232.

89.TraduzidoporJohnAshbery.

90.KarlMarxeFriedrichEngels,SelectedWorks,vol.1.Moscou:ProgressPublishers,1969,p.83.

91.JamesWilliams,GillesDeleuze’sDifferenceandRepetition:a Critical Introduction and Guide. Edimburgo:

EdinburghUniversityPress,2003,p.94.

92.GillesDeleuze,DifferenceandRepetition.Londres:ContinuumBooks,2001,p.81.

93.Williams,GillesDeleuze,op.cit.,p.96.

94.T.S.Eliot,“TraditionandtheIndividualTalent”,emTheSacredWood:EssaysonPoetryandCriticism.Londres:

Faber&Faber,1997(publicadopelaprimeiravezem1921).

95.JorgeLuisBorges,OtherInquisitions:1937-52.NovaYork:WashingtonSquarePress,1966,p.113.

96.VerPeterHallward,OutofThisWorld.Londres:VersoBooks,2006.

98.Hallward,OutofThisWorld,op.cit.,p.54.

99.Williams,GillesDeleuze,op.cit.,p.109.

100.Ibid.,p.87.

101.JacquesLacan,Encore.NovaYork:Norton,1998,p.144.[Ed.bras.:OSeminário,livro20,Mais,ainda.Riode

Janeiro:Zahar,1985.]

102.Jean-PierreDupuy,Petitemetaphysiquedestsunami.Paris:Seuil,2005,p.19.

104.VerRyszardKapuscinski,Oxádosxás.SãoPaulo:CompanhiadasLetras,2012.

105.VerBenjaminLibet,MindTime.Cambridge,Mass.:HarvardUniversityPress,2005.

106.EmseusemináriosobreWagnernaÉcoleNormaleSupérieuredeParis,14demaiode2005.

107.GillesDeleuze,TheLogicofSense.NovaYork:ColumbiaUniversityPress,1990,p.5.