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DIALOGOS APOLOGIA DE SOCRATES — CRITAO MENAO — HIPIAS MAIOR e outros VOLUMES | —1I UNIVE RSID¢DE FEDER a: _ BIBLIoTEG, eae DO Par, PLATAO TRaL VOLUMES | II APOLOGIA DE SOCRATES — CRITAO MENAO — HIPIAS MAIOR e outros Traduedo de CARLOS ALBERTO NUNES UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA 1980 ONIVERSIOADE FEDER BIBLIOTE, r ‘CA CENTRag Pelo exame da segunda “‘orelha’’ dos volumes jé publiwuos desta colegéo dos Diélogos, iniciativa da Universidade Federal do Pard, 0 leitor curioso poderé verificar que o “Plano geral da public ‘oi alterado no que diz respeito 4 distribuig&o dos diferentes t/tulos, dentro. dos respectivos volu- mes, O remanejamento dessas unidades foi mais radical depois da incluso dos denominados Didlogos espurios ou duvidosos, que.no comego nao constavam da primitiva relacéo. Em boa hogi.optaram os d&étres da edigfo pela publi- cacao de todo o Corpus platonicum, sem entrar na apreciagao da Tegitimidade de alguns titulos, a fim de pdr nas mos dos estudantes do nosso meio um instrumento de trabalho da maior eficiéncia para se ortentarem-no estudo do pensamento de Platéo. Todavia, essa aparente desordem sé atingiu os escritos de pequeno porte, sem alterar a posi¢o dos Didlogos mais conhecidos e jd definitivamente classificados — segundo acreditamos — por ordem cronolégica do seu aparecimento. Didlogos hd, que andam sempre a0S pares: Sofista- Politico, Timeu e Critias, Parménides-Filebo, e mais“alguns, que nao fora aconselhdvel separar. Por isso mesmo, esses escritos, digamos, fundamentais, ¢ que déo nome aos diferentes volumes jd editados, guardam a seqiiéncia crono- Idgica a que aludimos, com aproximacao razodvel na maioria dos,casos, de acordo com as conclusdes dos platonistas mais conceituados do século passa- do e do presente. Evidentemente, nada disso exime os estudantes e os demais leitores da nossa platoniana de pensar por conta prépria e de organizar para seu uso distribuicdo diferente de tais escrit-s, com retificagGes cab/veis, no decurso de novas leituras dos préprios Didlogos e das conclusies recentes a que chegaram comentaristas autorizados. Mas, essas mudangas s6 so aconselhdveis dentro de determinados grupos, querendo parecer-nos Ue 0 caso de Fedro continua- ré como exemplo isolado da versatilidade de opinides, nisso de mudarem de parecer os criticos de cada geragao, que com igual desenvoltura Ihes atribur- fam o primeiro lugar no tempo, como livro de estréia — genial estréia! —do jovem Aristocles, quando dos seus primeiros passos na carreira de escritor, ainda em vida de Sécrates, ou o ultimo, quase, com meio século de permeio, pouco antes de Leis e ao lado dos denominados Didlogos metafisicos, Parmé- nides e Filebo, para nao perdermos tempo com outras sugestdes impertinentes. Com _pequena oscilacdo da linhadivisoria de cada grupo, geralmente aceita a distribuicio tripartida dos Didlogos, no decurso da longa vida de Plato: os escritos da primeira fase, a contar da sua estréia presumivel — conforme mais para diante explicaremos — como escritor independente, e que vai do ano do julgamento e da morte de Sécrates (399) a data da fundagao da, AL DO PaRG a Academia (387), logo apés o seu regresso da primeira viagem a Sicflia ¢ 8 Magna Grécia. Plato esté com quarenta anos. Sdo dessa fase os escritos denominados socréticos propriamente ditos — depois da estréia feliz com a Apologia — adiante especificados, a partir de Laquete, em que o autor procura continuar na prética o que poderfamos denominar o método pessoal de Sécrates nas suas Conversagées com os atenienses ou com estrangeiros ilustres de passagem por Atenas, e que, de regra, terminavam em aporia, sem chegarem os disputantes a nenhuma conclusdo definitiva, quanto a tese em discusséo. Incluem-se nessa fase os t/tulos constantes dos dois tomos da colecdo, antes de serem reestruturados com a anexacéo dos denominados Didlogos apécrifos ou duvidosos, e também o didlogo Protgoras, que desde o inicio da publicagao, e ao lado do Gérgias, faré parte do terceiro volume. A segunda fase abrange vinte anos de fecunda atividade literéria de Platéo, na diregao da Academia, cujo prestigio se consolidou aos poucos por todo o vasto campo da cultura helénica no apogeu da sua expansio Mmediterrénea. Iniciando-se com o Gorgias, verdadeira carta de alforria de pensador e plataforma pedagdgica da Instituicéo recentemente inaugurada, naquela competicdo de vida e de morte pelo primado da cultura na capital do mundo, abrange esse perfodo os tftulos de maior brilho literério e que, da Antiguidade aos nossos dias, demarcaram a imagem de Platao, tal como se projetou na histéria da cultura do Ovidente: entre outros, os didlogos Fedao, Banquete, A Repiiblica, Fedro e mais alguns. Vai essa fase até a0 ano 367, data da segunda visita de Platao a corte de Dionfsio I!, em Siracusa. Por Ultimo, teremos a terceira fase, com os escritos denominados da velhice, sem nenhuma conotaco depreciativa neste qualificativo e sem Mostras de declfnio ou de cansaco por parte do poeta-pensador, com a reformulagao de suas idéias originais nos dom/nios da ontologia e da polftica tedrica, e que ainda no deram os frutos de esperar para o revigoramento desejdével do pensamento especulativo do nosso século: sio os denominados, grosso modo, Didlogos metafisicos, com o Parménides a encabecar a lista. I Evidentemente, com muita facilidade poderiam ser apontados os Pontos fracos desta classificapo, por quem se deleitasse com discussées middas. Nem é aqui o lugar de descermos a particularidades na andlise estilfstica dos Didlogos, para mostrar como os especialistas chegaram a determinadas concluses, dentro de cada grupo, dos quarente e muitos Didlogos que viriam a constituir 0 Corpus platonicum tradicional (inclu‘dos os denominados esptirios ou duvidosos). Vale apenas como hipdtese de trabalho; sem um roteiro preliminar, ficaria improdutivo qualquer esforco da 6 UNIVERSiDaDE FEDERAL BIBLIOTECA Ceyrp oe PARA NTRAL, nossa parte, para haurirmos dos escritos de Plato os est/mulos de que necessitamos em todo o decurso da nossa formagao. No volume introdutério desta colecao, intitulado Marginalia platonica, jd foi discutida essa questo em seus variados aspectos. Mas, como em tudo, 0 leitor que desejar aprofundar-se no assunto, teré também de ampliar sua bibliogratia especializada. Por enquanto, fiquemos nestas generalidades. E comecemos do comeco, para sabermos como e quando Platéo fez a sua estréia nas lides literdrias, e em que altura dos anos de aprendizado desceu a liga para tomar partido a favor de Sécrates, ou da sua meméria, conforme o tivesse feito ainda em vida do Filésofo ou logo depois da sua condenaciio. Para quem se decide por esta ultima posicéo, da entrada relativamente tardia de Plato em defesa da memdria de Sécrates, serd dif/cil aceitar os argumentos dos defensores da outra tese, com todas as suas incongruéncias. E conhecida a anedota contada por Didgenes Laércio, de haver Sdécrates assistido a leitura do didlogo Liside e de manifestar o seu espanto diante da mentirada que aquele adolescente de génio retrafdo Ihe atribufa gratuitamente. Mas, se é facil pdr de lado alguma anedota de fabricagao tardia, ainda que referendada por graves escritores, mais dif/cil serd para os neéfitos nessas questGes rejeitar 0 parecer de grandes plantonistas do nosso século, quando Nos surpreendem com suas afirmagoes. . . como dizer? : estapafuirdias, Para Wilamowitz — o grande Wilamowitz—Moellendorf * — tanto o didlogo Protdgoras como 0 pequeno Ido e o Hfpias menor sio escritos ‘da mocidade. Com maior dose de bom-senso apontam outros estudiosos a improcedéncia de semelhante tese, que s6 levanta obstéculos no caminho de quem quiser iniciar-se nessas questes. Para comegar, até o ano da condenagdo de Sécrates, @ no come¢o do século subsegiiente, como membro da aristocracia local Platao fazia o servico militar no corpo de cavalaria, sendo pouco provdvel que em toda aquela fase de agitacéo pol/tica, e até mesmo de guerra declarada, dispusesse ele de muitas horas de dcio para suas leituras, ou de ambiente para demoradas conversacées com os rapazes do seu conhecimento, e menos ainda para a redacdo de pecas literdrias do mais fino acabamento. Onde iria encontrar tempo e local para conceber e declamar de viva voz todo 0 Protégoras, téo lardeado de citagdes de poetas e com tanta filosofia? Logo depois da morte de Sécrates, é aceitével a tradiggo que o leva para Mégara, junto de Euclides — fundador da denominada Escola de Mégara — nao propriamente como refugiado politico ou de medo de ser envolvido no processo de asebia que liquidara Sécrates e podia envolver nas malhas da politica os simpatizantes da sua doutrina. E que, com o julgamento de Sécrates, o ar de Atenas se Ihe tornara irrespirdvel, e a democracia vitoriosa, de dorolosa recordacao. Porém, esse ex {lio voluntario nao durou muito tempo.. 7 Certamente, em Mégara associou-se com os rapazes do lugar. Dessa época, porventura, é a redacao dos primeiros escritos, como ensaios no género a que dentro de pouco ele daria tamanho brilho. Mas, depois de algum tanto reconfortado, retornou para Atenas, talvez com o propésito bem delineado de participar dos debates que se travavam em torno da figura de Socrates, e de que todos tinham conhecimento no seu retiro sossegado. E fora de duvida, que no cultivo desse género literério, digo, dos Didlogos socrdticos, Plato teve precursores; nem se compreende que ele procurasse mostrar aos atenienses como Sécrates fora, realmente, em vida, se jé ndo estivesse bem adiantada a campanha difamatéria que os inimigos polfticos de Socrates desencadearam contra sua memiéria. E de admitir-se que no desenvolvimento de certos temas aproveitados nas aulas de retérica: a defesa de Helena ou de outras personagens da lenda, acusaco ou defesa de Sdcrates, aparecessem também “‘obras ‘de fic¢éo”, dirfamos hoje, sob a forma de pequenos didlagos, tendo Sécrates como figura principal. Aproveitando a deixa, iniciou-se Plato No novo género, para logo eclipsar seus precursores menos dotados da bossa de escrever, assim pela brilhantez do estilo, como pelo equilfbrio, em tudo raro, na exposi¢ao do assunto. E que néo fossem difamatérios tais escritos. Os prdprios simpatizantes de Sécrates, que se diziam seus disc/pulos — fauna que Sécrates Jamais reconheceu, pois sempre constituiu uma das constantes de suas declaragées, afirmar alto e bom som que nunca tivera discfpulos nem nunca se apresentara como professor de coisa alguma — os pretensos continuadores de seus ensinamentos sé poderiam apanhar daquela figura exdtica que se apresentava todos os dias na Praca do Mercado o que mais afinasse com suas preferéncias. Foi esse 0 comeco modesto do anedotério socratico, bem intencionado nas suas origens, porventura, mas, em verdade, fruto da imagina¢ao acanhada dos imitadores do Fildsofo de pés descalcos. Dada a disténcia no tempo, que nos separa daqueles acontecimentos, ea caréncia absoluta de informagdes, no que diz respeito as atividades de Platéo no comego da sua carreira de estudioso da filosofia, sé nos é Iicito falar em tese, sem descermos a particularidades, nisso de dispor em ordem cronoldgica seus primeiros escritos, para atribuirmos a este ou aquele titulo a primazia absoluta sobre os demais. Por isso mesmo, nao diremos com o Professor Hermann Gauss, que, ao dar por encerrado 0 seu ex/lio e voltar para Atenas, Platao levava “no bolso”, prontinha para a publicacdo, a Apologia de Sécrates, E forgar um pouco a linguagem figurada e confiar nos seus dotes adivinhatérios de historiador. Dependeria tudo das primeiras provocacées ou pretextos, para ingressar na rinha e tomar parte naqueles debates, com o propésito de restabelecer a verdade histérica, cada vez mais deturpada pelos chamados discipulos de Sécrates. E quem nos diz que nao comeca af mesmo a 8 divergéncia entre, os componentes do grupinho de Mégara? Cada um a seu modo se considerava 0 auténtico continuador dos ensinamentos do Fildsofo, ou da “filosofia” de Sécrates, mas nenhum aceitava in totum a orientagéio de seus vizinhos, Nesse particular, a respeito da publicagéo dos Diélogos, caberia perguntar: a que c/rculo, no comego, em Atenas se ligou Plat&o, para tornar-se conhecido? A quem leu, em primeira mao, antes de envid-las “para o prelo”, suas primicias literdrias? Numa época de inteira liberdade de pensamento, @m que nao se conhecia nem por ouvir dizer aquilo que hoje denominamos censura oficial, e muito menos o mecanismo de repressdo de que dispdem as denominadas nagdes cultas, bastaria atravessar a rua para Sair de uma classe de Ret6rica puramente formal e entrar noutra de orientacdo diversa, sendo mesmo oposta, em que os discursos predominantemente pollticos visavam a critica do passado recente. Nessa altura, a figura de Sdcrates servia de tébua de bater roupa para os tedricos da Politica, por ser ele apontado como o responsdvel das desgragas que se abaterem sobre Atenas, E como quase nada sabemos de tudo isso, qualquer afirmacao mais categérica nesse terreno poderia ser facilmente criticada. Quer Platao dispusesse, desde o inicio, de facilidades, quer encontrasse resisténcia para editar seus livros, 6 fora de divida que tanto a Apologia como os didlogos “socréticos” no sentido corrente foram publicados naquela época com pequenos intervalos. Afinal, num determinado momento ele teria de dar infcio a essas atividades, muito embora no executasse, ponto por ponto, o programa de Mégara, cuidadosamente elaborado com seus comilitdes, no sossego de alguma chdcara dos arredores. Todos eles, cada um a sua maneira, pretendiam restabelecer a imagem deturpada de Sdcrates e apresentar as novas geragdes o retrato auténtico do Fildsofo, quando discreteava com seus concidadaos: em linguagem simples com o homem do povo, artestios de todos os offcios, ou com expressdes castigas e da mais cultivada preciséo, sempre que se defrontava com os pré-homens da Reptiblica, ou mesmo com algum sdbio itinerante, de passagem por Atenas, Considerado 0 assunto desta distancia, nao dispomos de testemunhos escritos que nos revelem o entusiasmo desses conspiradores inexperientes, devendo limjtar-se nossas informagdes a simples conjeturas. Sim; hd um testemunho -precioso, precios(ssimo: 0 do préprio Platéo, pela boca de Sécrates, em certa passagem da Apologia, que deve ser interpretada como a expressdo veraz dos sentimentos daqueles rapazes, ainda com unidade de vistas nos seus conluios inocentes. Quer jé estivesse pronta a Apologia, quando Platao retornou para Atenas, quer fosse redigida pouco depois, nesse* trecho ele nos conservou um retrato fiel do que se conspirava e dos verdadeiros sentimentos daquele pugilo de rapazes, pouco antes de deixarem 9 Mégera para iniciar a campanha projetada. (Em tempo: Antes de passarmos & transcri¢éo do trecho referido, convém lembrar ao leitor inexperiente, que toda a Apologia é supostamente falada por Sécrates, por constar dos seus discursos de defesa perante os 502 componentes do Tribunal de Atenas. 0 verdadeiro redator do escrito nao aparece; da primeira a Ultima palavraé S6crates quem fala). E quando Sécrates se despede “‘dos verdadeiros Juizes”, j4 quase no fim do julgamento, os que Ihe haviam dado voto favordvel, e profetiza aos Jufzes de mentira, “antes de nos separarmos”, o castigo inevitével que atingiria sem falta a eles todos, dentro de pouco tempo. "0 que vos digo, senhores que me mandais matar, 6 que logo apés a minha morte vos atingiré um castigo muito mais grave, por Zeus, do que 0 que me infligistes com esta penslidade. Assim procedestes, imaginando que desse modo vos livrarfeis das inquiricées sobre a vossa conduta; mas, 0 contrério disso, justamente, é o que vai dar-se, posso assegurar-vos. Em muito maior numero seréo vossos inquiridores, que até ao presente, posso assegurar-vos, sem que o percebésseis, eu conseguia sofrear, e que tanto mais molestos héo de ser, quanto mais mogos forem e contra os quais vos indignareis mais ainda.” (Apologia, 39 c-d). No auge do eritusiasmo, aqueles mocos nao viam a hora de comecar a sua doutrinacéo, outros tantos Sécrates que repetiriam em Atenas e alhures a pregacdo livre do Mestre desaparecido, concitando, pelo exemplo, seus compatriotas a ndo cuidarem de mais nada senéo apenas da salvacdo da alma, e a adotarem como lema de suas altas lucubragGes o conselho da Pitia gravado na portada do templo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo, e a desprezarem os bens materiais e o conhecimento da natureza exterior, que a nada conduz, bem como a investigaco dos astros carentes de vida. Mas, ao acordarem para a vida prdtica, tais sonhos se desvaneceram como fumaga tocada pelo vento, acabando todos eles por se convencerem de que a historia ndo se repete e que a Atenas de Sécrates j4 nao existia; desaparecera para sempre e, com ela, as condi¢des ambientais que tornaram possfvel a pregaco publica daquele cidaddo em tudo diferente dos demais, com suas idiossincrasias de pensador independente, sem desfalecimentos nem tergiversagées; até mesmo na prova crucial do seu julgamento perante o Tribunal, Agora a luta se processaria num plano diferente. Para cultuar a memoria de Sécrates, bastaria que cada um se esforcasse em ser verdadeiro a vida inteira e aproveitasse os ensinamentos colhidos na curta convivéncia com 0 Mestre, prometendo a si mesmo manter sempre acesa a chama sagrada do entusiasmo e trabalhar quanto possivel, dentro de suas possibilidades, para transmitir as novas geracdes o que com ele praticara. De volta para Atenas, Plato deveria ter posto em ordem os seus papéis, ou para publicé-los de 10 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL imediato, conforme as circunsténcias, ou manter-se por mais algum tempo nas encolhas, espera de que as coisas tomassem rumo favordvel. mm Hé outra particularidade estilistica que nos leva a rejeitar a idéia de que Plato houvesse escrito ou publicado alguma coisa, ainda em vida de Sécrates, no género a que nos referimos: é que, na sua longa carreira de escritor, ele evitou com o maior cuidado pér em cena os seus contemporaneos vivos, sem abrir excecdo nem. para os alunos da Academia, a que estava ligado por laos afetivos. O Aristételes do didlogo Parménides 6 cuidadosamente identificado como de origem diferente, para nao vir a confundir-se com o distinto aluno de igual nome. Teeteto, também da Academia e matemético dos mais brilhantes do seu tempo, faleceu prematuramente, em conseqiléncia de moléstia numa campanha militar. E 0 que nos conta o proprio Platéo no intréito do Didlogo desse nome. A Tal respeito, nao foi diffcil aos comentadores de hoje localizar no tempo esse escrito de Plato, porque dispunham, segundo acreditavam, de duas datas histdricas bem documentadas: ou a da guerra de Corinto, de 395-4, ou a guerra de Tebes contra Espartae Atenas, do ano de 369. E como a primeira data nos levaria para os Didlogos do inicio das atividades de Plato, que néo suportam qualquer confronto com o Teeteto, naquelas divagagdes sobre a teoria do conhecimento, acordaram a um sé tempo, para admitir que este outro escrito foi redigido ou, pelo menos, concebido logo apés o ano de 369, encabecando, por assim dizer, a série dos Didlogos denominados da velhice, mas, de qualquer forma, muito tempo depois do julgamento de Sécrates. Em principio, a explicapao satisfaz, por excluir 0 Teeteto do grupo dos Didlogos mais simples da primeira fase. O ponto fraco consiste no anacronismo gritante, por parte do autor, de ainda estar vivo Sécrates em 369 @ muito a par, a0 que parece, das mais recentes especulacées filoséficas de Plato. Mas, se considerarmos que nao consta do texto o nome da campanha militar em que Teeteto apanhou disenteria, particularidade de todo em todo irrelevante para a boa exposi¢ao do assunto, teremos de isentar Plato desse pecadilho de forma e aceitar o seu conto como o que realmente 6: uma criagao literéria sem entraves de cronologia, uma vez admitida a Premissa inicial de querer 0 Autor homenagear na sua mais recente producao a Meméria de um distinto aluno da Academia, falecido de pouco. Na realidade, jamais poderia 0 jover Teeteto tomar parte nalgum didlogo “socratico”; pelo simples fato de ainda ser crianga de peito no ano da graca de 399 antes de Cristo, nessa contagem regressiva. Fraquinho fisicamente, como poderia Meter-se em tao altas cavalarias? Mas, decorridos trinta anos, em 369, jé 1 homem feito, depois de cursar a Universidade de Atenas e de se ter imposto em outros centros como mateméatico de valor, nada impedia de prestar-lhe Plato essa homenagem pdstuma, sob a forma de um encontro imaginario com Sécrates, no Elisio ou alhures, onde néo tém cabimento nem sentido tais mesquinharias cronoldgicas. Que o diga Santayana com os seus “’Didlogos no Limbo”, nos quais Demécrito e outros expoentes da sabedoria grega, juntamente com o belo Alcibiades, discutem em boa paz com o “‘Estrangeiro”” ali chegado de pouco: nada menos do que o proprio entrevistador daqueles figurées, de todo deslembrados das exigéncias da Estilfstica deste século, a que emprestamos demasiada importéncia. Impertinéncia, e das grandes, 6 a dos nossos eriticos, com relagdo aos motivos que levaram Teeteto a alistar-se como voluntério, senio mesmo como praca de pré, na guerra de 69: um académico, recém-formado, engajar-se nas tropas de combate, a troco da pitanca, e sujeitar-se aos incémodos e riscos das campanhas? Sobre todos esses pontos, nada podemos adiantar. A menos que esse traco da histéria também seja ficcfo. Havendo Teeteto falecido em conseqiiéncia de moléstia insidiosa ou de algum acidente sem pingo de nobreza, nada mais justo do que embelezar o Autor essa ocorréncia e transformar 0 morto em mais uma v/tima das Nornas ld do Norte, que s6 apanham nos campos de batalha os guerreiros de raga e os mais bem-postos, para gdudio dos coatapuias, que em todas as 6pocas constituem a grande maioria da populagao dos grandes centros e que se apressam em preencher as vagas nos altos escaldes, causa primeira e ultima do declfnio das culturas mais pujantes, do passado e no presente. Impertinéncia, também, 6 dos nossos criticos, que nao fazem nenhuma concesséo aos postulados da imaginagao criadora, e querem tudo muito limpinho e claro na interpretagéo dos Didlogos, como nas suas demonstracGes no quadro-negro, da soma de a+b. O mesmo passa com o sofista Gorgias, émulo de Epiménides na soma de janeiros, cuja longevidade nos é atestada por Suidas, do século |X da nossa era — ou X, nao hé certeza. — Com toda a sua carga de anos, Gérgias jé havia baixado para o reino das sombras, quando da publicagao do didlogo do seu nome, em 387, data da fundacao da Academia. Se tudo isso esté certo, como admitir que Platao abrisse uma Unica excecao para Sdécrates ‘’o homem mais justo do nosso tempo’’, ¢ a quem ele admirava acima de toda medida? Qualquer concessao nesse particular, cons- tituiria falta imperdodvel e quebra do respeito devido. As boas intengées do autor e os discursos postos na boca de Sécrates, ainda em vida do Fildsofo, nao anulariam o perigo de expé-lo aos dictérios do populacho carecente do sentimento de veneracdo e, sobretudo, de acirrar contra ele o animo dos po- liticos, desejosos de apanha-lo para bode expiatério e de jogar-Ihe nas costas ‘toda a sua carga de frustracdes. 12 Nao; 0 caminho teré de ser outro. Nessa questéo intricada da Cronologia dos Didlogos, seré mais aconselhavel aliarmo-nos aos comentadores a antiga — e seréo poucos — olhados com certo desprezo pelos de hoje, que ngo se correm de conciliar imposs(veis: a falta absoluta de tempo do moco Aristocles, no desempenho de suas obrigages, numa época de tamanha inseguranca para todas as classes sociais, e a brilhante producéo literdria desse mesmo conscrito, 0 que sd 6 conceb/vel em perfodos de relativa tranqiiilidade. Observemos de passagem, que Platéo e os demais rapazes da aristocracia ateniense s6 ficaram dispensados do servico militar, cansativo e absorvente, quando da denominada reforma de Iffcrates & frente do Ministério da Guerra, queextinguiu o sistema tradicional das milicias de voluntdrios, para adotar o dos peltastas profissionais, “soldados", no sentido Tigoroso da expresséo. Ficavam, assim, desobrigados de engrossar as: fileiras do exército, nas freqlientes campanhas daquele tempo. E livres para servir a patria de outra maneira, cada qual dentro dé suas possibilidades. Nesta altura, seria natural que Platao ingressasse na politica, como era do seu dever, na qualidade de membro da aristocracia local, e como a todo instante Ihe falavam seus parentes mais chegados, segundo ele proprio Nos conta na preciosa Carta sétima. Ao invés disso, pensador impenitente e poeta de vocagao, soube aproveitar os dcios que lhe proporcionava aquela conjuntura histérica, e preparou-se com a calma muito prépria do seu tem- Peramento para entrar na refrega outra vez recrudescida, a respeito da pre- tensa iconoclastia de Sécrates na questo religiosa e da sua influéncia pre- judicial junto das novas geracdes. Tudo isso, como lutador independente, enquanto no levasse a efeito o plano mais ou menos entrevisto com os olhos da alma, de criar em Atenas uma instituigéo em moldes diferentes das que surgiam por toda a parte, no continente, na Jonia, n‘Africa (Ci- rene) e até no Mar Negro, com Herdclitus Ponticus na tentativa de civilizar os citas, sonho esse que sd muito depois conseguiu realizar, quando de volta de sua primeira viagem por longes terras e de estudar de perto a expe- rigncia bem sucedida dos pitagéricos de Tarento, Ent&o, como hoje, néo inspiravam confianga os pensadores isolados. Até nisso o exemplo de S6- Crates constitufa excecdo. Para poder alguém falar ex-catedra, antes de mais nada precisava apresentar o seu diploma universitério, ou por ha- ver cursatio algum desses estabelecimentos de ensino acreditados, ou por autopromoggo, com a inauguragao do seu proprio Instituto de Ensino e Propaganda, o qual, de regra, recebia 0 nome do escolarca. Vv A esse tempo, j4 se convencera Platdo da inexeqiibilidade dos 18 projetos de Mégara e da necessidade de mudar de rumo. Aristocrata até a medula, nao condizia com o seu génioretrafdo descer todos os dias 4 Praca do Mercado para conversar com a plebe sobre os graves problemas da cidade, a educa¢éio dos mogos e, sobretudo, as intricadas questées da divida publica e as medidas de urgéncia para sustar a bancarrota prestas a estalar. No; 0 caminho teria de ser outro: ambientar-se, primeiro na nova Atenas, humilhada e empobrecida, e acompanhar como espectador os debates dos sofistas recentemente instalados na cidade, para tomar conhecimentg do que ainda restasse, naquele emaranhado de doutrinas antagdnicas, da pregacdo de Sécrates. Naqueles poucos dias de indeciséo e expectativa foram escritos os seus primeiros ensaios, jé entdo reveladores das qualidades estil/sticas do autor, que dentro de pouco tempo o consagrariam como mestre insuperével naquele género. De fato. Quem quer que se aproxime, pela primeira vez, dos Didlogos socréticos, sem idéias preconcebidas, perceberd facilmente 0 intento do autor, de apresentar Sdcrates ao publico ateniense sob perspectiva favorévei, de todo em todo aberrante das caricaturas da Comédia e das diatribes com que Ihe maculavam a meméria seus inimigos pol/ticos, ainda e sempre lembrados das humilhagdes por que passaram naqueles exames publicos da Praga do Mercado; e até mesmo das inculpagdes descabidas dos pretensos discfpulos, que se apresentavam como os Unicos apdstolos autorizados a falar em nome de Sécrates. E muito certo: entao, como hoje, confirma-se o ditado: Deus me livre dos meus amigos de inteligéncia curta, porque dos meus inimigos mais atilados eu saberei fugir. Foi contra esse abuso de confianca dos primeiros disc/pulos de Sécrates que Plato se levantou, para mostrar aos atenienses, nos seus verdadeiros tracos, o imortal reformador dos costumes ¢ inovador da filosofia. Com esse ato piedoso de um moco inexperiente das lutas partiddrias, surgia na literatura da Europa um novo género literério, 0 didlogo socrético propriamente dito, de equil/brio inimitdvel, tanto no fundo como na forma, como nem antes nem depois de Platéo ninguém mais o conseguiu. Com Aristételes 0 didlogo deixa de ser socrético, adotando, daf em diante, essa nova orientacéo todos os seus imitadores. Tais escritos, a saber, os didlogos de Aristoteles e de outros, serviram de modelo em Roma, a partir de Cicero e, por intermédio deste, na Europa nascente, sem que diminu(sse sua influéncia durante o Renascimento, nem mesmo depois de redescobertos e estudados os escritos de Platéo. Nesse particular, compreende-se que depois da morte de Platéo houvesse sido posta de lado a figura de Sdcrates, 0 que, alids, ele jd havia feito em Leis, seu Ultimo trabalho. Conservar Sécrates por mais tempo como dirigente dos debates, equivalia a restringir demais 0 campo dos novos 14 pensadores, como que forgados a parar no tempo com suas criagdes, diante da barreira intransponivel daquela data fatal, da condenagdo de Sécrates. E fora da Grécia, perguntamos, como se passariam as coisas, se tivesse de prevalecer esse critério, no ambiente romano de Cicero ou de Augusto, ou mesmo nas Cortes ilustradas da Europa renascentista, bem como nas Academias mais chegadas ao nosso tempo, com o exemplo de tantos escritores de primeira grandeza, que também experimentaram suas forcas no diffcil género das Conversagées imaginérias? Mas, convém distinguir. Quando dizemos que Platdo, sozinho, explorou em profundidade o género dos Didlogos socrdticos, nao nos feferimos apenas ao fato de haver desaparecido Sécrates do cenério, mas também ao abandono, por parte de Aristételes e seus acompanhantes, do método de Sécrates dialogar, de perguntas curtas, para levar 0 antagonista a concluir por conta prépria e confirmar sua tese predileta, de que saber & recordar. Nisso consistia a maior vitéria de Sécrates; fazendo praca de sua ignorancia em todos os assuntos, levava os indoutos a conclusdes surpreendentes, como no caso bem conhecido do escravo de Mendo, que, sem. nada conhecer de geometria, nem mesmo o nome de semelhante disciplina, resolveu com facilidade 0 denominado teorema de Pitégoras. Como Fenarete, sua mae, Socrates se considerava estéril; no primeiro caso, pela prépria idade. Assim, também, Socrates sabia partejar idéias e trazer para a luz do dia produtos vivos da inteligéncia, tal como Fenarete fazia com as mulheres. Esse método de perguntas e respostas concisas 6 que foi abandonado por Aristételes, passando, entéo, o diretor dos debates — de regra, 0 proprio autor da peca — a apresentar numa exposicdo corrida suas prdprias idgias, A forma dialogada servia apenas de moldura para tais dissertages, mais ou Menos como nos tiltimos trabalhos de Plato, Timeu e Leis,em que, com freqiiéncia, 0 didlogo descamba para 0 mondlogo, por falar 0 tempo todo a personagem principal. Todavia, nada disso quer dizer que, as luzes da Estil(stica, 0 género dos Diélogos se ressentisse depois da morte de Platao. Dentro das novas exigéncias da forma, cada escritor dispunha de um vasto campo para afirmar-se como pensador original e desenvolver com a clareza indispensével o tema de suas prelegées. Em Roma, dentro de pouco, esse género literério alcangaria novamente a perfei¢do na pena magica de Cicero. Por tudo’ isso, se considerarmos apenas 0 que se salvou da literatura grega nos séculos conturbados que antecederam a denominada Idade Média, podemos afirmar que Platéo nao foi apenas o criador do Didlogo socrdtico, mas também o seu mais notavel cultivador na Antiguidade. Explorou o assunto — 0 ensino de Sécrates — em todas as suas possibilidades, nada havendo deixado para Os seus sucessores imediatos. 15 - Aceitas essas premissas, podemos iniciar o estudo dos Didlogos da primeira fase de Plato: E fora de ddvida, que nesse tempo Platéo se considerava um simples discfpulo ou continuador dos ensinamentos de Sécrates; quando muito, seria dotado de maior boa-vontade do que seus correligionérios ou concorrentes naquela competicéo piedosa. Mas, em verdade, no se tratava de reproudzir, simplesmente, as conversagdes de Sécrates, to caracteristicas, nos recontros de todos os dias com seus concidadéos. Qual daqueles moos anotara em seus cadernos de classe, — onde “classe”, para designar local de estudo, teria de abranger a Praca do Mercado, senéo mesmo todos os logradoiros pUblicos de Atenas — os casos engracados ou as expressdes repassadas de ironia, para redigir, posteriormente, ‘em linguagem mais cuidada, a fala de Sécrates, principalmente quando ele dialogava com a gente simples da cidade? A realidade era outra. Nunca ninguém cuidou de “tomar notas” enquanto era tempo, nem nunca existiram apontamentos desse tipo. Os escritos agora entregues & publicidade como supostas reprodugdes das conversas de Sécrates, néo passavam de improvisos mais ou menos felizes daqueles encontros informais, e as Memorabilia ou recordagdes de Sécrates, simples coletaneas de anedotas e de episddios desconexos, transmitidos de uma pessoa para outra, com as inevitéveis deturpagGes desses escritos. E isso. Foi oral, no comeco, a literatura que se formou em torno da figura de Sécrates, merecendo confianca muito relativa os fatos apresentados como auténticos por um que outro dos chamados discfpulos imediatos ou seguidores do Filésofo. O préprio testemunho de Aristdteles so pode ser aceito cum grano salis, pois j4 eram decorridos trinta anos da condenagao de Sécrates, quando ele chegou a Atenas, muito jovem, para matricular-se na Academia. No é de acreditar-se que desde o comeco e ao tomar conhecimento das referéncias contraditérias sobre a vida e a obra de Sdcrates, assim como sobre o rumoroso processo da sua condenacao, Aristételes se esforgasse para documentar-se junto dos mais antigos moradores de Atenas, a fim de expungir o retrato de Sécrates dos tragos deformantes da maledicéncia muito propria de todo conglomerado humano. Além do mais, nao nos esquecamos de que no século I|I os engenhos mais fecundos na invengéo de anedotas depreciativas da meméria de Sécrates, safram precisamente do Liceu, sinal certo de que a reveréncia 4 lembranca do grande morto néo contitufa a ténica das prelecdes do Estagirita. Em falta absoluta de escritos da mao de Sécrates, ou de documentos do processo de sua condenagao — atas, registro do Tribunal, etc. — todas as refe- réncias sobre a sua pessoa ou sua doutrina terao de ser interpretadas de acor- 16 UNIVERSIDaDE FEORI RAL Dy BIBLIOTECA CeNTRay oa do com a credibilidade maior ou menor de testemunhos indiretos, para dedu- zirmos de todos eles 0 retrato falado em pds do qual se afanam nos dois mi- lénios decorridos os amigos da sabedoria. credibilidade maior ou menor de testemunhos indiretos, para deduzirmos de todos eles o retrato falado em pés do qual seafanam nos dois milénios decorridos os amigos da sabedoria. O que semelhante confronto nos ensina é que, dentre os. depoimentos do célebre processo, o de Plato 6 0 Unico de confianga, ou, digamos, o Gnico verdadeiro, por ser fruto de uma dedicag&o sem par na histéria das idéias construtivas do pensamento europeu. Somente um poeta-filésofo, isto 6, um sdbio mimado pelas Musas e dotado de imaginagdo criadora, poderia conseguir o milagre de trabalhar a vida intgira para expor num todo orgénico 0 pensamento de Sécrates, tal como ele proprio o manifestara em vida, com as retificagdes inevitdveis da maneira de ver do seu intérprete dedicado.. Muitos comentadores jé estudaram esse aspecto da questdo; porém Rivaud (Histoire de la Philosophie, |, 148) deu forma elegante ao pensamento: “Le Socrate platonicien est une oeuvre d’art, plus vraie: que la verité accessible aux yeux du vulgaire, et ot quelque infidelité apparente est Signe d'une plus entiére et plus profonde fidelité.”” Para melhor compreendermos essa simbiose filos6fica, comecemos do comeco, a fim de vermos de onde partia Sécrates, depois de convencido da sua misséo divina, para espicacar os atenienses e levé-los a fazer um exame de consciéncia, antes de empreenderem a dificil tarefa de administrar a coisa piblica. Repito: sempre fala pela boca de Socrates o redator dos Didlogos; 0 pensamento é de Sécrates; a forma definitiva, de Plato. Nunca seré demais insistirmos nesse ponto. De modo geral, 0 problema consiste em sabermos surpreender 0 Pensamento de duas mentes aparentadas, que se aliaram na missdo de transformar em homens de verdade o animal politico que desde o incéndio de Trdia se multiplicara por maneira assustadora sobre a face da Terra, com perda parcial de suas qualidades bioldgicas, pélo fato de se tornarem civilizados. ‘Como veremos no decurso desta apresentacéo, a filosofia de Sdcrates — essa 6 a designacéio mais apropriada para o que intentamos desenvolver — 6 essencialmente moral, no especulativa, no sentido das elucubragGes tedricas dos ffsicos da J6nia, para penetrarem no mistério da origem e constituigao do mundo, ou para formularem uma interpretacao racional dos mitos primitivos da comunidade helénica; é essencialmente pratica, educativa. A partir desse ponto € que Plato revela pasmosa identidade com a visio configuradora de Sécrates, ou sua maneira de filosofar. As teses fundamentais que ele pde na boca de “Sécrates”, nesses Didlogos da primeira fase serao amplamente 17 desenvolvidos pela mesma figura representativa nas grandes obras da’ ma- turidade, Reptiblica, Politico, e até mais longe, Timeu € Criticas, em que os atenienses nos sdo apresentados como protétipos do homem grego e salvadores da cultura do Mediterraneo. Ora, 0 que o estudo imparcial desses Didlogos nos revela, digo, os escritos da maturidade e da velhice, é que em todos eles hd muito mais de Plato do que de Sécrates, por ser inevitével que com o correr dos anos, quanto mais se aplicasse Plato na meditacdo desses problemas, mais Clara se delinearia a sua visio do mundo e dos problemas da educa¢éio do homem em particular. E contudo, Plato nao cessou de omitir-se em tudo 0 que escreveu — salvas as excecdes apontadas — sem deixar, até o fim da vida, de atribuira Sécrates a originalidade de suas idéias. Dentro de pouco veremos como he assistia esse direito, quando estudarmos a identidade de sua visio das coisas com a maneira de Sécrates contemplar 0 mundo, e o modo peculiar de analisarem ambos os dados imediatos da consciéncia. Séo duas pessoas a trabalhar na elaboracéo de uma Unica visio global das coisas, original e proprissima. Daf, justificar-se a omissdo do seu nome em todos aqueles escritos, @ a atribuir Platao exclusivamente a Sécrates 0 merecimento de suas criacdes originais, por ser mais do que natural, de necessidade forgosa, que tudo 0 que 0 “Sécrates” dos Didlogos afirma nas obras amadurecidas de Platéo, seu intérprete juramentado, seria dito na ocasiéo oportuna pelo individuo Sécrates em pessoa, se Ihe fosse dado alcancar em longevidade o préprio Gérgias — falecido com 107 anos, nao é isso mesmo? — e se nos decénios sobreexcedentes ao. célebre Processo, se aplicasse no estudo dos seus problemas prediletos: a transcendéncia da idéia do Bem, jd esbogada emi Liside; a impossibilidade de definirmos teoricamente: a consciéncia naquelas tentativas do C4rmides; a posicao privilegiada da Coragem dentro da siste- matica das “Virtudes”, como no Laquete e no Protégoras; além da formu- lagio paradoxal da proposigao téo do gosto de Sdcrates, de que Ninguém pratica voluntariamente o mal, defendida desde a Apologia, e com veemén- cia inexcedfvel no Gérgias, ou seja, na fase de independéncia intelectual de Plato, iniciada com a fundagao da Academia. Em resumo: com referéncia ao contetido, serd to justificado referirmo-nos ao pensamento original de Platéo, como atribu/-los englobadamente a Sdcrates, a tal ponto se identificam os dois pensadores na exposigao de suas idéias. E um caso Unico na histéria, repito, trabalharem harmonicamente duas cabecas na formulacao conceptual de uma viséo do mundo, a um s6 tempo clara e penetrante, sem divergéncias de perspectivas capazes de toldar a limpidez da imagem. Mas, néio nos esquegamos de falar das “Idéias” propriamente ditas, a 18 mais original e fecunda das criagdes dos dois Fildsofos, no domfnio da propria filosofia. Neste cap{tulo das identidades, em que insistimos na semelhanga doutrindria entre Sdcrates e Platao, é um exemplo altamente instrutivo, que nao poderia deixar de ser considerado. VI E isso. Até mesmo as “Idéias’” de Plato, aquilo a que chamamos a “Doutrina das idéias”, provém em linha reta das “Definigdes” de Sécrates, que constituem o ponto alto dos seus ensinamentos, no dizer de Aristételes. De regra, néo nos admiramos quando vemos Sécrates em Cérmides ou no Eutffrone insistir com os meninos para levé-los a definir cada vez melhor a “Virtude” procurada: Que é a Sofronise, em si e por si mesma? Que é a Piedade, nos Diélogosda primeira fase, em que nos defrontamos com o Ateniense tao falado \é fora, quando os seus discursos ainda poderiam ser captados por algum estendgrafo talentoso. Da mesma forma, nao deverfamos espantar-nos tempos depois, quando esse mesmo fildsofo terra-a-terra, essencialmente prdtico, se alga nos véos metafisicos da Repiblica, e melhor ainda: do Fedro e do Banquete, em conversa animada com Diotima, na contemplagao desinteressada das idéias do Bem e da Virtude, do Belo em sie por si mesmo, despojadas dos Ultimos resquiciosdo nosso mundo grosseiro, dos sentidos. 0 ponto esté, em nos colocarmos na posicéo mais favordvel para abrangermos de um s6 lance d’olhos o belo panorama do pensamento de Plato e de Sécrates, pensadores de tao diversificada procedéncia, mas dotados de idéntica viséo das coisas e dos problemas humanos em universal. Platéo tinha perfeito conhecimento desse fato; por isso mesmo, jamais atribuiu a si prdprio a autoria, nao direi: dos seus escritos, mas dos préprios pensamentos. Até mesmo em Leis, em que Sdcrates nao aparece, Platao se faz Tepresentar por Um estrangeiro de Atenas, a tal ponto se habituara a interpretar-suas visdes como leg/timos achados de terceiros. Parece facil colocarmo-nos nessa posicéio privilegiada, para apanharmos néo apenas a génese da revolugdo operada por Socrates na histéria da Filosofia, como também o pensamento de Plato, em meio século de intensa atividade. No pequeno didlogo Critao, recusa-se Sécrates a aceitar 0 plano bem estudado do seu amigo de infancia, no sentido de comprar os. guardas da prisdo e burlar os Jufzes que o condenaram a morte “Meu caro Crit&o, tua dedicacao é inestimavel, no caso de afinar com 0 dever; nao sendo assim, quanto mais extremada, mais condendvel ter de ser. De inicio, 0 que devemos considerar é se podemos ou néo agir dessa maneira. Porque sempre tive por norma nas minhas deliberagdes, nfo agora 19 somente, deixar-me convencer apenas do princfpio que ao exame se me afigure o melhor” (Critfio 46 b). Neste singelo enunciado, verdadeiro programa de trabalho, temos todo o Sécrates em sua longa vida de doutrinador e toda a filosofia de Platao: sempre e em qualquer circunstancia, deixar-se convencer do principio que ao exame rigoroso ‘da consciéncia se Ihe afigurasse o melhor. Mas, é to grande a capacidade configuradora de Platéo, como criador de caracteres e de pensamentos originais nos seus Didjogos, que o comum dos leitores nao percebe a escamoteacdo que ele perpetra a cada instante, e aceita como genuinamente socrética a formulagao de certos conceitos. De fato, 0 didlogo Critdo nao deve ser tratado em pé de igualdade coma Apologia, como sendo 0 relato, ainda mesmo que bastante idealizado, de um acontecimento hist6rico: a visita.do velho Critéo ao seu amigo de infancia, de manhazinha, um dia antes da execucdo de Sdcrates. A Apologia, sim, 6 documento histérico, muito embora entre com boa parte na sua redacao a imaginacéo do Poeta. No outro, de ponta’a ponta o didlogo é criagao livre do autor, simples adendo a segunda edicao da Apologia, considerada agora como obra literdria, com o fito de retocar alguns sendes que escaparam na primitive redagio daquela obra. Em tudo isso, 0 mais interessante 6 que, para o estudioso do nosso tempo néo importa esmiugar a quest&o da autoria de tais ensinamentos, a tal ponto ird ser-nos Util aquele enunciado, como fio condutor no estudo do pensamento de Sécrates e de Plato. Conquanto Sécrates nao fosse dado a essas conversdes introspectivas — 'O pensamento nao ajuda a pensar”, na feliz formulacdo de Goethe — em diferentes ocasides poderia ter alcancado a visio clara do caminho ou método a seguir, quando em didlogos animados expunha a sua maneira de pensar, sendo mesmo o melhor modo de viver a sua filosofia. Para ouvir Sécrates discretear dessa maneira, Platéo nao precisaria esperar pela peniltima visita de Critio ao cércere erigido ali mesmo, ao pé do Tribunal. Ao emprestar agora a Sdcrates esse mesmo pensamento, nada mais fazia do que lembrar-se dos intimeros recontros que tivera com ele e da maneira habitual por que Sdcrates iniciava suas demonstragGes. Realmente, para Sdcrates, tanto como para Plato, néo havia setor do conhecimento que no pudesse ser submetido a uma andlise cuidadosa, para rejeitar as partes fracas e reservar-se a melhor, 0 que pressupée um estado de alerta permanente da Consciéncia. Daf, a observaco de Hegel, na sua Histéria da Filosofia (vol. |!, pag. 75), quando estuda a importancia de Sdcrates na histéria do pensamento da Europa, com desvid-lo da contemplagaéo dos astros para a consideragao exclusiva dos problemas do homem. "“Sécrates ndo despertou a consciéncia com dizer cimplesmente: O homem.é a medida de todas as coisas; porém: 0 homem, como ser pensante, 6 20 a medida de todas as coisas." Se se tivesse atido apenas a primeira parte dessa definic&o, nao passaria de um repetidor canhestro da frase de Protagoras, que ele proprio, por intermédio de Plato, se incumbiria de desmontar no Didlogo do mesmo nome. Conforme vemos da retificagéo de Hegel, desmoralizou a Sof{stica superficial do seu tempo, para alcancar as camadas mais profundas e verdadeiramente criadoras do homem, como ser pensante. De fato, com o pensamento adquire 0 homem um instrumento de trabalho que o coloca acima de toda subjetividade, a saber, o principio normativo de s6 aceitar como valido o que passar no exame rigoroso do entendimento, que nao 6 privativo deste ou daquele individuo, mas do homem em universal. (Aquele felicfssimo enunciado de Hegel pode ser posto em confronto com a formula nao menos apropriada de Chamberlain (H. St.), para separarmos da concep¢do de Kantade Schopenhauer, com respeito a idealidade de nossas representagdes: Kant n&o diz comSchopenhauer: o mundo é minha representacao; porém: meu mundo é representagao. A diferenca é grande). Dado 0 temperamento de Plato, contemplativo, a um tempo, e imaginoso, é facil compreender como atuou sobre a sua pessoa essa revelacdo de Sécrates. Estava decidida a sua vocagao. Que valor poderia ter para o filésofo em embriéo as discérdias dos partidos politicos ou a luta pela escalada do Poder nas diferentes unidades da Hélade, téo rebeldes & disciplina? No acanhado campo das competicées humanas néo hd nada comparavel a liberdade sem barreiras do pensamento, nas suas, viagens de descobrimento por essas regides desconhecidas, e que, afinal, redundam em beneffcio da prépria sociedade de que ele aparentemente se‘desligara. Nesse instante, Plato acordou para a Filosofia, o que o levou a destruir as primicias do seu estro, com a participac§o do deus do fogo, chamado adrede para reconforté-lo naquele ato de rentincia: ‘vern até aqui, caro Hefesto, Plat&o necesita de ti. Nenhum valor poderiam ter aquelas composicées excessivamente “académicas” antes da coisa, diante da possibilidade de dar forma perfeita a suas concep¢ées, naquele esforco original de conhecer-se e de conhecer o mundo. Seguindo nas pegadas de Sécrates, Plato abriu para o pensamento um dom{nio até ent&o inexplorado. E 0 que veremos com clareza crescente, a medida que avancarmos nestas consideracées e no estudo dos escritos da maturidade. Ante’o esp/rito investigador de Platéo, 0 mundo do pensamento se patenteava de stibito sob perspectiva nem’ sequer suspeitada por seus antecessores. Por isso tudo, Sécrates afirmava de si mesmo que nada conhecia, 0 que implicava a liberdade, a qualquer momento, de jogar tudo, de novo, no 21 cadinho das discussées filoséficas, para deter-se apenas diante da obrigacao moral de s6 aproveitar 0 que se revelasse como o melhor e mais vantajoso & andlise rigorosa da sua perquirigéo. A qualquer momento, era permitido fecomecar a prove, a partir de algum ponto menos firme, para nova teformulagao dos conceitos admitidos como verdadeiros até aquela hora. A verdade Gltima de semelhante programa de trabalho é que nao hé para os* homens conhecimento definitivo, devendo ser considerada como ilusdria qualquer afirmagao dogmética nesse sentido. Mas, 0 que estava em jogo naquelas disputas amiudadas nao era a ignorancia de Sécrates neste ou naquele offcio em que o seu interlocutor brilhava, mas a ilusio do saber, de que os atenienses padeciam, e que em prazo curto poderia levar & bancarrota a democracia, sempre que os muito dignos representantes do povo se metessem a legislar sobre assuntos estranhos & sua competéncia. Todavia, entre a sua ignordncia filoséfica e a dos pré-homens da Republica, havia uma diferenca de monta, conforme ele proprio nos explica, depois de encerrar a conversa habitual com qualquer daqueles cidadaos: “Pode bem dar-se que nenhum de nds conheca nada belo nem bom; mas, este indiv/duo, sem saber nada, imagina que sabe, a0 passo: que eu, sem saber, de fato, coisa alguma, nao presumo saber algo” (Apologia, 21d). E 0 que compreenderemos com maior clareza a medida em que avangarmos no nosso estudo. Quando nada, servirdo as presentes consideragdes para datarmos a Apologia e defendermos a sua posicéo de escrito original— a estréia absoluta — de Plato naquela campanha para a reabilitagéo de Sdcrates. Observemos de passagem que, segundo o critério estilistico de Campbell e Lutoslawski, de téo belos resultados para distribuir por grupos os Didlogos, a Apologia se inclui, sem a menor restrig¢ao, no grupo dos primeiros escritos, 0 que em si mesmo é um argumento ponderdvel. No momento, é 0 que mais nos interessa. Foi o primeiro em data, seguido, logo depois, do Critdo, seu companheiro insepardvel. A interdependéncia desses dois escritos é geralmente admitida por quantos se dedicam a tais estudos. Porém foi Grote — n&o na sua obra principal, mas na que dedicou particularmente a “Platao e seus companheiros”, quem primeiro observou que 0 pequeno didlogo Critao constitu’a uma espécie de retifica¢3o da Apologia, por n&o haver neste ultimo trabalho insistido na submissdo total de Sécrates as leis de Atenas. A imagem do inconformado ainda perdurava na tradicao, ja agora reforcada pelos panfletos da incipiente literatura socrética. Urgia, pois, retocar 0 desenho, nos tragos mais rebarbativos sob aquele aspecto, o que foi plenamente conseguido. 2 ORIVERSIDADE FEDERAL BIBLIOTECA CENTRAL vol As conversas de Sdcrates com 0s mesteireiros que se reuniam nos logradouros publicos nao se limitavam a consideracGes gerais sobre as respectivas profissdes. E de supor, que todos eles fossem competentes no e(rculo acanhado de suas especialidades. Tais conversacdes ultrapassavam de muito o que até para os homens representativos de Atenas constitu’a o assunto predileto de suas discussdes. Era preciso aprofundar-se em maiores consideragées, para provar que, néo apenas eles, arteséos conscienciosos em todos os offcios — os andrépodos, isto 6, homem de pés, mas sem sabeca, @ olhados com desprezo pelos aristocratas — como também os mais Ifdimos representantes das classes dirigentes, néo entendiam nada de nada do que dizia respeito aos negdcios da Reptblica, que eles com tamanha inconsciéncia presumiam dirigir. Dessa presun¢do de saber 6 que Sécrates pretendia curé-los, para mostrar a ignorancia dos supostos sdbios em todos os assuntos, que até mesmo no circulo modesto dos seus interesses imediatos procediam as tontas e sem poderem explicar a razdo-de-ser do que faziam. Ora, tais debates eram realizados a vista dos circunstantes, mormente dos filhos-fam(lias sem obrigagdes de monta, que matavam o tempo naqueles torneios incruentos, folgando com os apuros em que se viam os interpelados, nos exames rigorosos a que estavam sendo submetidos, algum vereador ou deputado, verdadeiros ordculos nas suas arengas, sempre que discreteavam Sobre temas da sua inteira. . . incompeténcia. Na vida particular, habilfssimos Marceneiros, quando era preciso consertar as cadeiras do Tribunal; engenheiros nduticos de confianga, na falta de quem soubesse reparar o leme ou a coberta das embarcagGes avariadas; oleiros de toque delicado, na fase de acabamento do gargalo da jarra destinada como prémio nos festivais em curso, e em cujo bojo um dos escribas da comunidade — e néo seriam muitos — riscara com mao firme: Hé de comigo ficar o melhor dangarino da festa. (Tal como lemos numa elegante jarra com a mais antiga inscric&o que se conhece, um hexametro perfeito, em caracteres gregos, datada do século sétimo, e hoje conservada como pega arqueoldgica de valor incalculdvel). Compreende-se, assim, a determinagao de Sécrates de por a provaa incompeténcia dos atenienses, por haver chegado a conclusio de que a democracia sé poderia salvar-se, se cada cidadao se limitasse a produzir no Ambito restrito de suas habilidades, sem se imiscuir em tudo 0 mais que escapasse da sua competéncia. Tanto para Sécrates como para Plato, essa dupla amatia era mais prejudicial para Atenas do que a perda da guerra do Peloponeso. De uma derrota naquelas condigdes, a Cidade poderia restabelecer-se. Porém, implantar a ignordncia no lugar do saber, equivalia a 23 00 PaRg cultivar no préprio cerne da democracia uma doenga insidiosa e cronica, que inutilizava, de principio, qualquer tentativa de restauracao. Como dissemos acima, para surtir o efeito desejado, esse interrogatério sé poderia ser individual e em publico; se o doutrinador falasse para as multiddes, ao terminar a sua arenga ninguém pediria a palavra para confessar-se derrotado no que concerne as suas mais caras conviccdes, desaparecendo aqueles beneméritos cidadaos no anonimato coletivo, e, com cada um deles, a vergonha de haver sido desmoralizado em publico. Por isso mesmo, costumava Socrates perguntar o que thes parecia que fosse, na sua esséncia (ntima, 0 Bem, o Justo, o Belo, a Coragem e as demais “virtudes” da alma, que eles todos citavam a cada instante, como se tais conceitos fossem do conhecimento de todo o mundo e moeda corrente no pars, Essas “virtudes” constituem o assunto dos quatro Didlogos publicados logo depois da Apologia e do Critdo: Laquete, Cérmides, Liside; Eutffrone, respectivamente: sobre a Coragem, a Temperanga, a Amizade e a Piedade. (E também 0 didlogo inédito ““Trans/maco’, que bem mais tarde passaria a ser 0 primeiro livro da Repablica, depois das indispensdveis alteracdes do intrdito, para acomodar-se no plano mais ambicioso da nova obra, gigantesca no tracado e enciclopédica na elaboracao. Durante muitos anos, ficou esquecido no fundo da gaveta, sem que o Autor se decidisse a langd-lo no mercado de livros, para abrir caminho no mundo, por conta prdpria. Foi Ferdinand Diimmler quem a destacou do conjunto da, RepAblica, para emprestar-lhe vida aut6noma, de monografia independente, sobre a Justica, em que Trasimaco Tepresenta a figura principal, Sésia ou dupla de Célicles do Gérgias, e que decerto se antecipou a este, como personagem predileta do seu proprio Criador, sem vir a ficar conhecido aqui fora pelos amigos da Sabedoria. Mas, salta aos alhos que, assim no plano como no acalorado dos debates, encaixa-se perfeitamente naquela série de monografias sobre as Virtudes. Todavia, nas teferéncias a esse Didlogo precisamos cité-lo entre aspas, “Trasimaco”’, para no ser inclufdo, indevidamente, entre as obras editadas pelo autor, com vida independente e de que se tivessem esquecido de catalogar os primeiros editores das Obras Completas de Platao.) A arquitetura esses Didlogos 6 muito simples e, por isso mesmo, diffcil de ser analisada. No volume introdutério desta colecdo o leitor irrequieto encontraré nos respectivos t/tulos informagGes suficientes para conhecer mais de perto tais escritos. 0 que néo quer dizer que 0 esquema de todos seja o mesmo. O oposto disso é que é verdade. Em cada didlogo usa Platéo uma tética diferente, adaptando sempre seu discurso ao grau de compreenséo do interlocutor, ora brando e até mesmo carinhoso com 0 adolescente Cérmides, ora sarcdstico 0 tempo todo, e contundente, com o adivinho Eutifrone, que, por considerar-se conhecedor das coisas terrestres e UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL divinas e capaz de definir 0 que seja a Piedade, movia contra o seu prdprio pai uma aco penal por crime de morte na pessoa de certo escravo da familia, acusado, por sua vez, de crime idéntico. Nesse capitulo das definigdes Sécrates comecava sempre por uma pergunta geral: Que é 2 coragem em si mesma? ou a sofrosine, ou a amizade em si mesma e sem mistura? O curioso em tudo isso é que os interpelados, cada um de per si e sem o conhecimento dos outros casos de interrogatério parecido, respondiam com algum exemplo tirado da sua prépria experiéncia: Acho que piedoso é o que eu faco neste momento, a saber: perseguir os criminosos, tanto de crime de morte como de roubo sacrilego, ou de qualquer outro ato do mesmo género, quer se trate de pai ou de mae, ou de quem quer que seja; no persegui-lo, é ‘mpio. Eutifrone, 5 d—e—). Quase nos mesmos termos define Laquete, general aposentado, o-que seja Coragem: !sso, Sécrates, por Zeus, néo é diffcil de explicar. Como'sabes, indivfduo de coragem é 0 que se decide a nao abandonar seu posto no campo de batalha, a fazer face aos inimigos e a nao fugir. (Laquete,. 190 e). Quando no for 0 caso, como ao definir Virtude, de jogar sobre a mesa o interpelado um enxame da coisa perguntada, todas elas diferentes entre si, e todas bem caracterizadas: So muitas e variadas, pois temos a virtude do homem e a virtude da mulher, como também a virtude dos velhos e das criangas, ad libitum. Ora, se considerarmos que também para Aristdteles a virtude do homem se distingue da virtude da mulher, teremos de concluir que com todo © seu enciclopedismo ele se revelava a cada instante incapaz de acompanhar Platéo nos véos metafisicos, justamente no vasto campo descoberto por ele proprio, e que trata dos problemas considerados depois do estudo da Fisica: meta t8 physik, de tao feliz enunciado. Deste comeco partia Sécrates para esquadrinhar a vida dos seus compatriotas, pondo a nu as suas mazelas e obrigando-os as mais surpreendentes confissées, com o que lucravam fora da conta os bem intencionados, na razdo direta da encabulagdo dos derrotados. E 0 que nos refere Nfcias, em conversa com Laquete, admirado de que o seu amigo Lis‘maco desconhecesse Sécrates, a ponto de ignorar esse traco caracter{stico da sua pessoa. Nicias néo chegava a compreender como Lisfmaco vivia tio afastado da vida da Cidade, absorvido nos seus negdcios particulares, no campo e alhures, a ponto de desconhecer a figura mais interessante de Atenas, cuja fama ultrapassara de muito os muros da Cidade. Nicias — Pelo que vejo, Lisfmaco, 0 que conheces de Sécrates vem apenas do pai dele, sem que nunca tivesses com ele mesmo convivéncia muito estreita, tirante, possivelmente na sua meninice, quando o poderias ter visto em companhia do pai. 25 Lisfmaco — Como assim, Nicias? Nicias — Pois pareces ignorar que quem se aproxima de Sécrates para conversar com ele, 4 maneira de mulheres que confabulam, muito embora se trate no comego de assunto diferente, de tal modo ele o arrasta na conversa, que o obriga a prestar-Ihe contas de si proprio, de que modo vive e que vida levara no passado. Uma vez chegado a esse ponto, no 0 solta Sécrates sem 0 ter examinado a fundo. Eu jé estou acostumado com a maneira dele e sei que todos temos de passar por isso. (Laquete, 187 d — 188 a). Insisto: Laquete é 0 primeiro escrito da série dos Didlogos socraticos, no sentido rigoroso da expresso. Dar, 0 cuidade de Platéo — por saber que falava para um piblico mal informado — de apresentar a figura do Mestre tal como ele vivera nos Ultimos anos, em conversa amigdvel, de sol a sol, nos logradouros pUblicos e em pé de igualdade com os cidad&os mais conceituados de Atenas, como era o caso de Melésias e de Nicias, neste mesmo Didlogo. Melésias era filho de Tucfdides, 0 politico, nao o historiador; e Nicias, de Aristides, cognominado o Justo, filhos de pais ilustres, porém politicamente inexpressivos. E que ambos foram criados ao deus-daré, como bois sem dono, no pasto e sem obrigagdo de prestar conta de seus atos aos familiares de maior respeito. Em nenhum outro Diafogo a apresentacdo de Sécrates é téo demora- da, pois importava colocé-lo sob perspectiva favordvel. Muito diferente era a caricatura de Sécrates que jé despontava no horizonte da historia, com os escritos de Antfstenes ¢ outros. Com muito acerto, o Professor Anténio To- var, da Universidade de Salamanca, faz ressaltar esse contraste, conforme passamos a transcrever: Parece que Platén, hombre rico, de buena familia, que, sin embargo, habia recibido un mensaje a través del descalzo Sécrates, quiere salvar a su maestro del peligro de que quedara en manos de Antistenes. El Séerates de mercado y taller artesano ja debia haber salido a la publicidad; y contra esta figura, en la que se anunciaba el cinismo, el eupdtrida Plat6n iniciaba el intento de rescatarlo, ou uma lucha que es algo més que de temperamientos literarios, y es en cierto modo de clases frente al “bastardo” Antistenes, exclufdo de la ciudadania por ser hijo de una extranjera. ("Un Libro sobre Platon.”’ Coleccién Austral. p. 37 — Espasa-Calpe. Madrid. 1956). A aceitarmos, pois, como verdadeira a data do falecimento de Antfstenes, em 399, trinta dias depois do julgamento de Sécrates, teremos de concordar que a investida iniciada por Platéo contra essa campanha deformadora néo visava:particularmente a pessoa de Antistenes, jé falecido, mas apenas a influéncia nefasta dos seus escritos sobre as novas geracdes, de regra facilmente sugestiondveis. Mas, no que diz respeito ao retrato fisico de Sécrates, néo procurou Plato atenuar os tracos quase caricaturais da sua figura, alvo preferencial dos palhagos da ribalta, com o intuito de 26 desmoralizar a sua pregagao: Dentro dessa norma, Platdo se conservou a vida inteira, tanto nos escritos iniciais como nos da idade madura, parecendo Mesmo que se comprazia na contemplacéo da feidra daquele tipo singular, de todo em todo aberrante do ideal do homem grego: ldbios grossos, nariz achatado, olhar ‘obliqua de touro espicacado; e resisténcia a fadiga, demonstrada de sobejo nas campanhas militares de que participara ("tipo Muscular”, por conseguinte, nada “cerebral”, se quiséssemos enquadré-lo numa tipologia médica dos nossos dias). E mais: a capacidade de concentrar-se, de pé, sem sair do lugar, horas inteiras, ou melhor, até de Manhazinha, na solugao de algum problema intercorrente, e, sobretudo, o costume de beber fora da conta nas festividades em curso, em apostas com os mais resistentes boémios do seu tempo: o belo Alcibrades, 0 cdmico Aristéfanes e outros pandegos do mesmo estilo: tudo isso ¢ muita coisa mais podemos aceitar sem nenhum escripulo, por nos virem de Platio, se considerarmos que este escrevia originariamente para o publico de Atenas, que sem dificuldade apontaria alguma discrep&ncia naquelas teferéncias, tirante os alindamentos inevitéveis em qualquer obra literdria. O mesmo no se poderé dizer de Xenofonte, que falava para os espartanos ou seus simpatizantes, pouco interessado em restabelecer a verdade histdrica sobre o julgamento de Sécrates ou do que se comentasse por toda a Hélade com respeito a0 seu deménio familiar. Qualquer referéncia desse tipo, qué poderia sugerir 4 imaginac&o daqueles soldados profissionais sempre na ativa e permanentemente preocupados com os problemas da tdtica de campanha? Para afagar-lhes 0 amor proprio, bastavam-Ihe os benesses alcancadas com a fama de criadores do “estilo lacénico”, o qual, além de justificar o seu mutismo habitual na presenga de estrangeiros, dispensava-os de medir-se nos torneios oratérios com os demais helenos, nos festivais religiosos ou literérios, de suma importéncia para o prest(gio da pdlis, no vasto circulo de influéncia da Ifngua grega, a despeito das rivalidades politicas entre aquelas etnias aparentadas, Além do mais, nos encontros obrigatérios com os embaixadores das cidades derrotadas, eram dispensdveis os floreios de retorica, para impor aos vencidos a vontade de Esparta. VI Mas, no nos afastemos do nosso tema: o retrato de Socrates-Platéo e @ sua maneira deles, peculiar, de contemplar o mundo. Hé pouco, referima-nos Ge passagem ao “demdnio socrdtico”, sem descermos a particularidades para sua melhor apreciacao. Serd esse o Unico traco especificamente socratico que Plato néo reivindica para si prdprio, ou para sua viséo peculiar, a sua maneira de contemplar o mundo, e a respeito do qual sempre se mostrou reticente. 27 Pelo menos, nas suas explanacdes jamais se valeu de tal recurso, depois de esgotar, em cada caso, o arsenal de argumentos do entendimento discursivo na defesa das teses em debate. Nessas ocasiées, refugiava-se no Mito, com ampla abertura para o transcendente, sempre que no dominio do Logos sentia 0 solo pouco firme. Evidentemente, nao pademos exigir de tais divagacdes mais do que sugestdes satisfatérias, sem esperarmos completa adequagao entre 9 que se passa no mundo da matéria de que também fazemos parte, como um corpo entre muitos — de trés dimensdes, pela antiga geometria — e o destino poetizado das almas, depois de libertadas, com téo diferentes vicissitudes, no milénio de sua peregrinagdo, até retornarem a vida @ recomecarem o ciclo, tal como jé tem acontecido um numero infinito de vezes nos edes sem conta do passado indevassdvel. Era o que ele denominava “uma palavra divina’’, a que recorria, conforme disse, quando chegava ao fim dos seus argumentos de combate, Simias, no Fedo pinta-nos bem essa mudan¢a dé nivel, ao declarar que quando nao dispomos da ajuda das divindades para conduzir-nos na travessia do conhecimento, precisamos arriscar-nos na jangada menos segura de nossas préprias conviccdes, “Neste passo, verio-nos diante do dilema: aprender e descobrir o de que se trata, ou, no caso de néo ser isso possivel, adotar a melhor opiniao ea mais dificil de contestar, e nela instalando-nos a guisa de jangada, procurar fazer a travessia da vida, na hipdtese de nao conseguirmos isso mesmo com maior facilidade e menos perigo numa embarcacao mais firme, ou seja, com alguma palavra divina’’ (Fed&o 85 d). A imagem 6 das mais ricas, muito prépria de um pensador dotado de visio criadora, permanentemente voltada para o mundo de fora. Mas, no caso do que se convencionou chamar “o demdnio de Sécrates’” — expressdo que Plato sempre evitou, referindo-se sempre “ao sinal demonfaco” — a divindade nunca lhe apontava o caminho a seguir em determinadas conjunturas; apenas desaconselhava-o de levar adiante o seu intento, nestas ou naquelas circunsténcias; porém, ao que parece, sem manifestar-se por meio da palavra: Sécrates perdia a fala no mais aceso do discurso, ou se sentia perturbado de algum modo, sinal carto, para bom entendedor, de que o seu génio tutelar ‘nao aprovava nem um pouco o que ele tencionava dizer naquele momento. E a prova mais segura de que em toda a Apologia ele se conduzia como fora de esperar de um homem de bem, temo-la no fato de nao se the ter manifestado esse ser estranho em momento nenhum, desde que ele safra de casa para dirigir-se a0 Tribunal. Em suas préprias palavras: “Com efeito, senhores Jufzes, passa-se comigo algo maravilhoso. Durante toda a minha vida, o sinal costumeiro de meu deménio familiar néo deixou de manifestar-se, muitas vezes, para opor-se-me, até mesmo nas menores coisas, sempre que eu me encontrava na iminéncia de proceder com 28 desacerto. Agora, como vistes, aconteceu isto comigo, que, para muita gente, poderia ser considerado 0 maior dos males, como, de fato, jé tem sido. No entanto, o sinal da divindade néo me advertiu nem quando eu saf hoje de casa, pela manhé, nem quando me dirigia para estre tribunal, nem em qualquer altura de minha defesa, ao preparar-me para dizer alguma coisa, apesar de em muitas outras ocasiées me ter ele cortado o fio do discurso. Hoje, pelo contrério, em toda a marcha do processo nao se opds a nenhum dos meus _atos ou palavras. Como explicar semelhante fato? ” (Apologia 40 ab}. E 0 que ele mesmo nao nos explica, e muito menos o seu disc/pulo dedicado. Ambos nao véo além de generalidades. Essa experiéncia personal/ssima, de si mesma inexplicdvel, é de tedo em todo estranha ao temperamento de Platéo. Mas, também ndo nega; limita-se a reproduzir as feferéncias de Sécrates, que terio de ser verdadeiras nesse ponto, e passa a tratar de outros tépicos, e até com certa sensagio de alivio, por nao ser obrigado @ demorar-se em longas explanagdes. E mais um traco de Sécrates que nao lhe era permitido discutir. Habituara-se a considerd-lo como um ser diferente do comum dos mortais. Nesta altura, vale a pena fazermos uma digresséo pelos dominios da critica, alterando, de algum modo, a ordem dos problemas, para riscarmos, decididamente, da lista dos Didlogos indevidamente atribufdos a Platéo o de nome Tedgenes, em que ‘'Sdécrates”, figura principal da peca, discorre com a maior desenvoltura acerca da “voz” interior, que se fazia “ouvir” nos momentos criticos, para desaconselhé-lo deste ou daquele empreendimento. Aqui temos 0 que procurévamos, e até mais do que esperdvamos encontrar: referéncias muito claras sobre essa estranha ocorréncia. Na portada do primeiro volume desta Colego, nao ficaré descabido tocar, embora de passagem, na célebre questéo dos Didlogos espiirios, para que o leitor inexperiente nesses assuntos tome conhecimento do valor e da extensdo dos problemas que teré de enfrentar na tarefa que se impés, de familiarizar-se com © pensamento de Platéo. Séo apenas sugestdes, para orientagado dos menos entendidos na matéria. Mas, neste caso, como em tudo, a dltima palavra compete ao leitor, depois de voltar repetidas vezes a meditar no assunto, e quando jé estiver em condigées de pensar por conta prépria. Também naa Negamos qque a tese favordvel a aceitagao desse Didlogo encontra defensores acalorados. Em questio de gosto, jamais poderé haver unanimidade de opinides. Retomando o fio da conversa, é fécil verificar que o didlogo Tedgenes nos oferece material espléndido, quase prova de certeza, para Negarmos a sua autenticidade. E que a loquacidade do “Sécrates” da peca difere em toda a linha da parcimOnia do falar do seu homénimo nas demais obras de Plato, sempre que entrava em cena o seu deménio familiar. Agora, 6 29 0 proprio Sécrates quem faz praca dos seus dotes de adivinho, quando enumera os casos tipicos de desgracas ocorridas com quem se negara 8 acatar-lhe as adverténcias, para no levar adiante o projeto iniciado. Séo inGmeros. Em todos os casos, a “voz” se fazia ouvir, para aconselhar 0 amigo a desistir do intento. Deixemos, pois, falar 0 proprio Sdcrates, para vermos até onde ele vai com suas previsdes sinistas. O futuro se incumbiria de confirmar o mau sucesso-de todos aqueles empreendimentos, ou fosse conspiracéio para assassinar algum tirano, vindo a morrer quem pretendia matar o usurpador, ou alguma expedicao militar, da qual ndo regressaria vivo o promotor do movimento. Um exemplo, dentre muitos, para bem caracterizar o estilo do autor desconhecido desse Didlogo. Vejamos como terminou aquele caso interessante. “Porém, na terceira vez, ndo querendo falar-me, saiu as escondidas, aproveitando-se de um momento em que eu estava distrafdo. Foi assim que ele se retirou, para langar-se naquela aventura de que resultaria a sua morte. Eis por queele disse ao irmao 0 que acabei de contar-vos, que marchava para @ morte por me haver desobedecido. Podeis ouvir, também, dos que foram a Sicflia, e sdo em grande nimero, 0 que eu disse a respeito da destruigao do exército, No que se refere ao passado, é fécil conversar com quem estiver a par dos acontecimentos; porém é possivel agora mesmo par o sinal a prova, para ver se merece fé. Na hora em que o formoso Samido partia para a guerra, manifestou-se-me o sinal. Todavia, a estas horas ele se encontra com Trasilo, a caminho de Efeso e da Jonia. Tenho para mim, ou que ele perderd a vida ou que ir acontecer-Ihe alguma desgraca, assim como estou seriamente preocupado com a sorte de todos os expedicionérios (Tedgenes 129 cd). Neste outro exemplo, também quem fala é Socrates, para contar-nos © que ouvira de Aristides filho de Lisimaco filho de Aristides, muito orgulhoso por dar mais uma amostra de quanto aproveitavam certas pessoas com a sua convivéncia, até mesmo sem nada conversarem com ele, pela simples ago do contacto, quando coincidia ficarem juntos no mesmo compartimento. Quem fala agora é 0 interlocutor de Sécrates; porém é deste a exposigaio do caso. 0 que vou contar-te, Socrates, me falou, é algo incrivel, pelos deuses, porém a pura verdade. Conforme sabes muito bem, contigo eu nunca aprendi nada. Todavia, sempre aproyeitava alguma coisa na tua companhia, ainda mesmo que s6 estivéssemos na mesma casa, néo no mesmo quarto; porém, é muito mais, 6 claro, se nos encontréssemos no mesmo compartimento, parecendo-me, ainda, que quando estévamos no mesmo quarto eu aprendia mais se olhava para o teu lado enquanto falavas, sendo enorme a‘diferenca no caso de eu dirigir a vista para outro ponto. Mas aproveitava sobretudo, quando me sentava bem juntinho de ti, num contacto mais (ntimo. Ao passo que agora, acrescentou, toda aquela capacidade se derreteu” (130 de). A hist6ria termina de maneira rid/cula, apresentando Sécrates quela candidato a uma vaga no seu internato ambulante da Praca do Mercado a Curiosa alternativa: ou ficar com ele para aprender muito sem estudar nada, “se for do agrado da divindade”, pela simples ado da sua presenca — e melhor ainda, se ficassem bem juntinhos boa parte do dia — ou procurar um desses professores que se comprometem a transmitir aos seus alunos todos os conhecimentos do vasto campo do saber: Prédico de Céos, Gorgias de Leontino, e Polo de Agrigento, e muitos e muitos outros, gente de tio grandes partes, que nas cidades em que se apresentam persuadem os mogos mais ricos e de maior nobreza a abandonar a companhia de outros sdbios e de procurar a deles. E mais: mediante o depésito de uma quantia avultada, e com. agradecimentos de crescenca. Como vemos por este finzinho, o redator do didlogo Tedgenes, marinheiro de primeira viagem na dif/cil arte de navegar sem bussola, também sabe compilar frases inteiras dos escritos auténticos de Platao. A transcrigdo foi longa, porém necesséria. E, se depois deste exemplo, ainda se mostrasse vacilante o leitor de boa-fé, convidado para manifestar-se acerca da autenticidade desta comédia inofensiva, que Ihe responderfamos? Sim, dar-Ihe-famos aquele conselho de Kant nos Proleg6menos, redigidos precisamente para facilitar a compreenséo dasua obra maior, A Critica da Razo Pura, e no pressuposto de que também viessem a ser classificados como de leitura diffcil: Considerasse que n&o hé necessidade de tanta gente: estudar Filosofia. x Mais interessante seré passarmos a tratar de outro tema — e serd o Gltimo nesta apresentagao dos Diélogos — com relacao ao intricado problema do chamado Ensino esotérico de Plato, ou da doutrina por ele professada intramuros, e a respeito do que nada deixou transpirar nas suas obras conhecidas — é o que dizem — nem nos cursos oficiais da Academia, mas de que teria falado em circulos limitados de iniciados, entre os quais se destacava Arist6teles, 0 Unico, alids, desses ouvintes que pdde ser. oficialmente identificado no tribunal da Histdria, Por isso mesmo, importa consignar desde logo esse dado de grande valor para o julgamento final: Exatamente: 0 caso comeca com Aristételes, ou melhor, com a noticia circunstanciada do seu discfpulo predileto, Aristéxeno de Tarento, que sofreu a maior decepcdo com o falecimento do Estagirita, por n&o haver sido designado no testamento do Fildsofo para suceder-Ihe na 31 diregSo do Liceu. Em vez do seu nome, surgiu o de Teofrasto daquele documento prenhe de esperancas. Como reflexo dessa mégoa, atribui-se a Aristéxeno grande parte do anedotério maledicente acerca de ‘Sécrates e-de seus disc{pulos mais conhecidos. E sabido que o Liceu foi sempre foco de anedotas depreciativas da memdéria de Sécrates. Mas, a verdade 6 que, nesse estilo, ndo chegaram até nds escritos identificéveis como da autoria de Arist6xeno, pois o Tempo se incumbiu de apagar 2 volumosa obra desse aluno brilhante do Liceu. De seus numerosos escritos s6 se salvou a obra Elementos de Harmonia, em trés Livros,e mais um pequeno Tratado sobre a Musica, Era a sua especialidade. Arist6xeno foi principalmente tedrico da Musica e conceituado chefe da Escola do seu nome. Seus disc‘pulos eram conhecidos como Musicistas de ouvido, para distingui-los dos Musicistas por célculo, ou sejam, os que se mantinham fiéis 4 tradi¢fo de Pitégoras, baseada principalmente ha correlagéo dos numeros. E desse autor a noticia adiante transcrita, do Livro segundo dos seus Elementos, em tradugao tao fiel quanto possfvel. “'Aristételes gostava de referir-se a0 que se passara com os ouvintes de uma conferéncia de Platao a respeito do conceito do Bem. Todos-se dirigi- ram ao local anunciado, na expectativa de que o conferencista iria tratar do que inclu{mos englobadamente entre os bens da vida humana, a saber: Rique: za, Satide, Robustez e outros, e certos de que voltariam para casa enriqueci- dos de mais essa maravilhosa aquisi¢ao. Mas, ao verificarem que a palestra gi- rara em torno de Conhecimento, NUmeros, Geometria e Astrologia, .@ da pro- Posigéo de que o conceito do “Limitado” (Peras) 6 um bem,entéo, ao que pa- rece, tudo aquilo se Ihes afigurou um grande paradoxo, passando alguns a re- ferir-se 4 ocorréncia com expressées de pouco caso,-enquanto outros desciam mesmo a criticas mais severas.”* : Eis af uma informago inestimdvel, que nos revela um aspecto desconhecido da vida de Platéo.e nos deixa em condigSes de reconstituir a sua maneira de ensinar — 0 método ou caminho original para a transmisséo do saber — dentro e fora da Academia. Fora da Academia? E 0 que parece: conferéncias a convite de outras entidades culturais, e talvez mesmo cursos de férias num que outro cfrculo de estudiosos, sem contarmos as aulas particulares por ele ministradas a Dido e Dion{sio segundo, naquela tentativa frustra de reformar os costumes de Siracusa, a cidade do luxo e da riqueza, e de instaurar quase nas portas de Cartago a Republica dos seus sonhos. Flagrantes desse tipo, s6 a Comédia também seria capaz de proporcionar-nos, com a sua indefectivel bisbilhotice para devassar a vida alheia e por a nu as fraquezas da sociedade, por tomar como alvo de suas indiretas as principais figuras daquele meio, nas suas mais variadas manifestagdes. Justamente nessa fonte colheu Didgenes Laércio uma 32 ERSID*DE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL informago preciosa, por onde imaginamos a grande repercusséo que teve em todos os cfrculos de Atenas a conferéncia a que se refere aquela transcrigdio, realizada fora da Academia, sobre a natureza do Bem. Como sindnimo de absurdo, completa confuséo ou de palavrério sem sentido, suscitou por toda a parte os mais desencontrados comentdrios. Alids, Arist6xeno foi comedido Nas Suas expresses. O mesmo se diga do poeta cémico Anfiside —e para isso € que Didgenes Laércio vai servir-nos — que nao perdia oportunidade de dar umas cutucadas na gléria de Platao, o qual, decerto, como apaixonado do Teatro, se destacava na platéia com o seu tipo de pensador introvertido, que Pouca ou nenhuma atengdo dava ao mundo dos pequenos nem as intrigas pol/ticas da Cidade. Questo de simpatia, é claro; pois deviam ser amigos. A esse respeito, os leitores do tomo V desta série devem estar lembrados de como Platéo desfilou diante de nés, com o rosto carrancudo, passo lento, a Contemplar o mundo feio e triste, “tal qual um caracol”, disse o poeta, As- sim o via Anffside naquela outra oportunidade. Desta vez, trata-se de uma referéncia de passagemi, sobre 0 que se comentava por toda a parte acerca da natureza do Bem, verdadeiro papao para os meninos grandes, tolice das maiores, é de ver-se, que gente séria néo pode tomar em consideracéio. Comenta 0 caso um escravo da comédia, em conversa com qualquer dos circunstantes. Principia: Td d’agathon ti pot’estin; (Diog. Laert. |II, 27): Perguntas-me o que seja essa Bondade de que ora todos falam? Disso, amigo, Compreendo menos ainda, se poss{vel, que do Bem de Plato, Nao digo nada. Isso, apenas; mas é 0 suficiente para avaliarmos da repercussio dos comentérios sobre a falada conferéncia. Como é sabido, as apreciacoes de Aristételes a respeito do que se convencionou chamar a filosofia de Plato, nao se harmonizam nos pontos essenciais- com os dados fornecidos pelos Didlogos. Para explicar semelhante incongruéncia, recorrem os comentaristas & hipdtese de que Arist6teles tinha em vista traballios inéditos de Platéo, e discrepantes em toda a linha dos ensinamentos ministrados em classe ou publicados nos Didlogos. Ou melhor, 0 que destringaria de vez essa embrulhada: trata-se de um curso particular, no fixado no papel, para um ndmero restrito de ouvintes, de que se teria ocupado Plato na conferéncia peri t’ agathou, Sobre natureza do Bem, cuja realidade nos 6 confirmada por outras fontes. Daf, formarem-se dois partidos, cada qual mais intransigente nos seus pontos de vista. Para nao sobrecarregar esta noticia com a relacdo de nomes sem maior interesse, quando despojados da documentacao competente, 33 limitemo-nos a citar dois autores recentes que, de algum modo, vao & frente dos respectivos movimentos: 0 inglés H. Cherniss e 0 alemao H. J. Kramer, ambos representados com trabalhos originais, transcritos ou traduzidos na (ntegra no volume CLXXXVI da série Wege der Forschung dedicado a essa questo, e sob o titulo: Das Problem der ungeschriebenen Lehre Platons (Wissenschaftliche Buchgeselschaft, Darmstadt, 1972). Os demais componentes desse substancioso volume, conquanto independentes entre si, engrassam as duas correntes mencionadas. No decurso da presente exposicao ainda poderdo ser aproveitadas as opinides deestudiosos de procedéncia diversa. Em resumo: a corrente tradicional, no que respeita a histdria do pensamento de Plato, que teve como ponto de partida os estudos de Schleiermacher, no comeco do século passado, e a que se ligam os principais comentaristas daquele e deste século, empenha-se em estabelecer a cronologia dos Didlogos, como base para o estudo da doutrina. Essa orientagaéo desconhece a hipdtese de qualquer atividade paralela a seqiiéncia natural dos Didlogos, com o aprofundamento paulatino e coerente das questdes ali tratadas, 0 principal trabalho de Cherniss é de 1945: The Riddle of the Early ‘Academy, Berkekey e Los Angeles, reimpressa sem alteracdes em 1962, Nova lorque. Segundo Cherniss, aquela noticia extemporanea resultaria de erro involuntério por parte de Aristételes, enquanto os outros testemunhos se relacionariam com certa conferéncia de Platéo, que nada tem de esotérica nem fora como tal interpretada pelos ouvintes ocasionais. Afinal, Platéo, dado 0 seu prest(gio de diretor da Academia, com tantos livros publicados, de ampla repercusséo em todo o mundo culto, néo podia furtar-se a convites dessa natureza, para tratar em locais diferentes de temas filoséficos, sobre o que, porventura, jé se teriam manifestado, de passagem por Atenas, outros conferencistas. Kramer, pelo contrério, defende com ardor a opinido de Hermann, Trendelemburg e Brandis, do século passado, e em nossos dias retomada por Stenzel e outros, dentre os quais se destaca o italiano M. Gentile, com o seu estudo de 1930: La dottrina platonica delle idee-numeri e Aristoteli (Annali della R. Scuola Normale Superiore di Pisa’, vol. XXX), segundo a qual a verdadeira formulacdo do pensamento de Platéo estaria na obra Peri fagathou, cujo titulo abrangeria também certas questdes tratadas nos Didlogos. Mas, n&o alonguemos além do que fora razodvel a exposicao desses problemas, Nao é possivel descermos a particularidades. Bastard saber que jd ficou revelada acima a palavrinha magica em torno da qual gira a controvérsia, no tftulo do trabalho do professor italiano M. Gentile: idéia-ntimero, conquista da ultima fase do pensamento de Platdo, a0 que nos contam, na 34 sua reformulacdo do conceito da Idéia, e que mais parece parto da inteligéncia de Aristételes do que da de Platao. Achado 0 nome de Aristételes, tornou-se facil encontrar a solugéo procurada. Tudo n&o passou de erro de apreciacdo, ou melhor, de defeito inato da viséo de Aristételes, no que entende com a critica do pensamento dos seus contemporéneos ou antecessores imediatos. A esse respeito, Schopenhauer no seu estudo: Fragmenten zur Geschichte der Philosophie, no usa meias palavras: “Sua Metafisica nao passa, na grande maioria dos ca- sos, de apreciagées desencontradas (ein Hin-und Herreden) de opinides de seus antecessores, que ele apresenta e refuta do seu ponto de vista, partindo quase sempre de frases arrancadas de suas conexées naturais e sem penetrar em absoluto no sentido mais profundo, a maneira de quem fechasse as janelas pelo lado de fora.’ N&o reconhecendo o primado da Etica no exerc/cio da Filosotia, s6 considerava de valor permanente nos ensinamentos de Sdcrates o principio das defini¢ées e a aplicagéo do método indutivo. Para ele, a méxima favorita de Sécrates — em que Plato insiste desde a Apologia—de que ninguém pratica voluntariamente 0 mal, é um contra-senso dos maiores. A esse modo, como em todos os casos, ele se dispensava do trabalho de estudar a filosofia de Sécrates e de Platao, que, muito longe de ser uma construgdo no vazio, de sonhadores alheados do seu tempo, assentava em fundamentos sdlidos da moral e dos costumes, para a formagao do cidadao ideal, os guardas e demais dirigentes da Republica. Nessas conexées, os platonistas ingleses Burnet e Taylor, cujo voto vale por muitos, pois na Inglaterra a tradicao plat6nica sempre se afirmou como uma constante ao longo da sua histéria, jé observaram que onde quer que encontremos alguma referéncia de Platdo aos pensadores da Grécia, é sempre muito mais pertinente e rica de ensinamentos do que as de Aristételes, em todas as suas divagacdes nesse terreno. Nesta altura dos acontecimentos, podemos chamer para depor mais duas autoridades: 0 Professor Enrico Berti, com o seu estudo Una nuova Riconstruzione delle Dottrine non scritte di Platone (‘Giornale di Metafisica”’ XIX — 1964) e o alemao Konrad Gaiser, que se faz representar no volume mencionado da série Wege der Forschung por um dos seus tra- balhos jé publicados, sobre essa questao: Platons Menon und die Akademie, 1964. Alias, o-estudo do Professor Berti é mais uma recensdo dos escritos de Gaiser do que propriamente-trabalho original; mas, como todo estudo bem pensado constitui valiosa contribui¢ao-a_tese em pauta. O propdsito declara- do de Gaiser é reconstituir 0 texto perdido-de-conferéncia de Platio, Peri tagathou, com base nos Didlogos, nas Cartas, nas referéncias de Aristdteles € nos vestigios — ““fragmentos”, conforme se expressou — da tradi¢ao acadé- 35 mica, pela voz das geracdes mais mocas, pois até agora, o que sabiamos dessa palestra filos6fica cifrava-se apenas no que depds o Estagirita ao longo da sua obra. Isso dd o que pensar Mas, em que pese ao valor dessas explanacGes, 86 aproveitaremos por enquanto o parelelo tragado com as Cartas de Plato, cuja autenticidade ainda 6 contestada por alguns retardatérios; todavia, é um fato que a conhecimento dessas cartas se imps desde 0 comego, pela importancia histrica que hes atribu/mos. Mas, quanto 4 conferéncia Sobre a natureza do Bem, argumentam que a doutrina contestada independe da realidade histérica da sua exposi¢ao. O contrério disso é que é a verdade; as luzes da propria Histéria é que importa admitirmos-a existéncia da conferéncia, porque Aristételes a todo instante a ela se reporta, tal como viria a dar-se pouco depois com os Neoplaténicos, que mais nela se firmam do que mesmo nos Didlogos. Nesse particular, hd perfeita analogia com o problema das Cartas atribufdas a Platéo — fala o Professor Enrico Berti —; independente da sua autenticidade, impée-se a leitura de tais documentos, maxime da Carta VII, indispensével para o exato conhecimento da filosofia de Platéo. Mas, diferentemente das Cartas, a conferéncia Sobre a natureza do Bem nao nos foi conservada nem na (ntegra nem de maneira alguma, razéo de sobra para nos empenharmos no restabelecimento do texto primitivo, numa tentativa duplamente vantajosa para os apaixonados desses assuntos (estarfamos, quase, a retificar: numa tentativa desesperada de reconstrugdo, da qual sé poderia resultar algum castelo de areia, incapaz de resistir aos piparotes da garotada). Mas, 0 paralelo néo é perfeito. Com relagao as Cartas, 0 que se punha em diivida era @ autenticidade daqueles documentos, cuja validez, no entanto, fora reconhecida desde o inicio pelos depositérios do-arquivo de Platéo, até que, 2 forca de se tornarem indispensdveis para o estudo de certa fase da histéria da Sicflia, que, sem isso, ficaria desconhecida, senéo mesmo inexistente, acabaram os alfarrabistas mais meticulosos deste século por admitir a sua legitimidade. Admitir, 6 modo de dizer; tantas séo as ressalvas introduzidas nos laudos apresentados, que mais insinuam a sua ilegitimidade do que propriamente a confirmagéo daqueles documentos. E tudo isso, para nao arranharem nem de leve o grande prest/gio dos especialistas na matéria, que jé se haviam manifestado. A rigor, a divida é procedente; mas, o falsdrio que se meteu na vida do Filésofo pouco depois da sua morte, interessado em romancear um episédio insignificante da histéria recente da Sicflia - que bem podia ser eliminado dos compéndios, sem que ninguém o percebesse — procedeu com tanta habilidade e se parecia tanto com Plato, na voz, no porte Sobranceiro e até mesmo no tragado peculiar/ssimo da letra — caligrafia, no mais rigoroso sentido do vocdbulo — que sem o menor escrdpulo podemos 36 emprestar-Ihe 0 mesmo nome do outro — e, por que nao, também, o de Aristocles? — e admitir, ainda por cima, que esse sésia espirituoso houvesse dirigido durante quarenta anos de ininterrupta atividade... a Academia de Plato. Fica, pois, limpa de qualquer mécula a honra dos comentadores que, no presente século e no passado negaram a Plato a autoria daqueles documentos, com uma erudi¢ao das fontes — forcoso serd adimiti-lo, digna de melhor emprego. x Teria graga! Encher com uma obra de ficcSo 0 vazio histérico de uma conferéncia imagindria, s6 para livrar Aristételes da pecha de jurar em falso a cada instante, e os Neoplatonistas dos séculos subseqiientes, de se enamorarem mais dos esgares desse fantasma do que das personagens dos Didlogos. Todavia, tal confronto peca pela base — nunca seré excessivo insistirmos nesse ponto — porque as Cartas sempre existiram, e até mesmo em ndmero excedente das treze espistolas candnicas. (No Platao da edicdo Teubner, de Hermann, o leitor curioso encontraré as epistoles impugnadas desde cedo, 0 que lhe permitiré emitir ju‘zo préprio sobre essa questio interessante), a0 passo que os dizeres da to falada conferéncia desapareceram do espaco geométrico de Euclides sem deixar rastro identificdvel na memoria dos homens, afora as interpretagdes tendenciosas dos sonolentos ouvintes da palestra, que talvez miesmo sO houvessem pago para. dormir durante a conferéncia. Por dltimo, ougamos o parecer do Professor Hemann Gauss, da Universidade de Berna, escalhido como maior cuidado para dizer-nos a derradeira palavra a respeito desta interessant/ssima questo. Esse nome nao é desconhecido dos leitores da nossa Platoniana; mais de uma vez aparece nos presentes comentérios, e muitas deixou de aparecer, por ficar subentendida a Sua presenga na explicacdo de alguma passagem controversa, tudo de acordo, aliés, com o prdprio desejo do citado Professor, com relago a missio educativa dos seus Com entarios Filos6ficos aos Didlogos de Platao, em seis tomos (Berna, 1952 — 1961): de que sd cumpririam cabalmente sua funco de guia para os nedfitos nesses estudos, quando se tornassem desnecessarios para a frui¢éo completa da leitura dos Didlogos, no original, e depois de Ihes haver proporcionado os ensinamentos que fora Ifcito esperar da sua destinagao. Nessa altura dos Cursos, o Autor costuma repetir para os alunos presentes a frase de André Gide em seu livro Nourritures terrestres: “Nathanael , jette le livre/”, para que dat em diante, dispense decididamente as muletas 0 studiosus philosophiae, muito ancho de estar em condigdes de ler 37 sozinho os Didlogos de Platao, em edigdes mais agradaveis a vista do aue as que hé dois ou trés milénios dispunham os “‘académicos” de verdade. O professor Hermann Gauss simplificou por maneira muito interessante a tarefa de destrincar esta meada, pois tal problema, como um segundo né gérdio, s6 permite solugées herdicas. Ndo percamos tempo, terd dito para os seus botdes, com leituras desnecessdrias. Por isso, sem derrubar prateleiras atulhadas de livros, 0 que seria muito facil, destacou o Professor da Universidade de Berna um Gnico representante dos novos criticos de Platao, como seafamasa questéo das ‘Doutrinas secretas de Platéo’’ — dgrapha dégmata — s6 tivesse sido tratada nestes préximos decénios pot um Unico especialista, Paul Wilpert, 0 qual, em verdade, se tem dedicado a tais estudos, mas esté longe de monopolizar para uso proprio todo o mérito da questéo. Sd para o volume antoldgico acima mencionado, da série Wege der Forschung, contribuiu com dois trabalhos, de 1941 e 1953, que o Professor Gauss nao Menciona, porque dispunha de outro escrito do autor, com elementos suficientes para o fim que tinha em vista. Da‘, ter aplicado toda a sua argticia na apreciacdo desse trabalho: Dois escritos da mocidade de Aristételes a respeito da Doutrina das Idéias de Platfo (Regensburgo 1949), cuja segunda metade 6 tomada com a restauracdo dos apontamentos de aula do préprio Aristételes, no tempo em que ele se considerava seguider incondicional dos ensinamentos do Mestre, e que contém — conforme o préprio Wilpert o declara — a simula fidedigna daquelas prelegdes. Com suas proprias palavras “Neste ponto, a obra do Estagirita se nos revela como platonismo do melhor quilate, no caso de ndo tomarmos a expressio no sentido de adesio incondicional 4 doutrina exposta em classe, mas no do esforgo consciente e responsével para a elaboragao de tais problemas.” Evidentemente, sé poderd ser recebido com aplausos tudo o que contribuir para iluminar os dois decénios to pouco conhecidos, em que 0 mogo Aristételes — dos dezessete aos trinta e sete anos — se sentava aos pés” do velho Platéo, 0 ponto alto, sem a menor davida, do pensamento filosdfico da Hélade. S6 por uma faceta é criticdvel a exposic&o de Wilpert: esqueceu-se 0 autor, na sua reconstrucéo das notas de Aristételes, de confrontar os diferentes aspectos da doutrina exposta naquele documento com o que jé conhecfamos pelo texto dos Didlogos. Sé depois de semelhante paralelo é que ficaria capacitado o leitor para concluir pela legitimidade da interpretagao de Aristételes, ou por sua rejeigao. De passagem, atente o leitor ingénuo numa palavrinha da referéncia feita acima, de rafzes latinas e de t&o familiar conotacao, sempre que nos expressamos na nossa lingua materna: Rekonstruktion. Por tal expressdo, verificamos .que nao se trata do encontro casual de alguns inéditos do mogo Aristételes, os originais de seus apontamentos de classe, o que, em qualquer 38 circunstaricia, seria de valor incalculével, mas a tentativa, por parte de um comentador dos nossos dias, de reconstruir — conservemos a expressio original de Wilpert — o texto de certas aulas particulares de Platao, com base em referéncias de Aristételes, exaradas nos seus trabalhos da maturidade e da velhice, do que ele, Aristételes, se lembrasse de quanto ouvira trinta ou quarenta anos antes, quando da sua iniciagao naqueles estudos. Como véem os eitores, 6 uma redagao por tabela tr/plice, base frag/lima para o desmonte do majestoso ediffcio das Idéias de Plato. Se bem considerarmos, ainda nos achamos no mesmo ponto em que deixamos hd pouco o Professor Enrico Berti, na sua tentativa de restabelecer por qualquer prego o texto inexistente de algumas aulas de Platéo, para que o prestigio de Aristételes perante o tribunal da Histéria nao safsse diminufdo. Na apreciagéo suméria acima feita, das idéias de Wilpert, e da sua parcialidade a favor de Aristételes, poderfamos ter economizado papel e tempo, se houvéssemos iniciado o nosso estudo com a mencao do principal titulo do autor, nos dom/nios do Saber, ou seja, o de neo-escoléstico, de formacéo tomista, o que o leva a atribuir a Aristételes muito maior dose de merecimento do que estaréo dispostos a conceder-lhe os platonistas de quatrocentos anos. Esse compromisso de origem jé se trai na pequena citagao de hd pouco, em que Plato se va rebaixado a posicéo de simples precursor de Arist6teles, este, sim, 0 ponto mais alto da filosofia antiga, que desafia impavido, no seu isolamento, qualquer confronto com os demais pensadores de que a'Histéria nos dé conta. De tal altura, para onde quer que nos viremos, teremos sempre de descer. E 0 que eles dizem. E como justifica Wilpert essa idolatria fora de tempo? Uma pequena amostra do seu arrazoado servird, para os que se iniciam nesses estudos, como exemplo tipico do que no devemos fazer para nos aproximarmos de Platao. Como era preciso justificar a conhecida interpretagdo de Aristételes na sua Metaffsica, de que as Idéias, para o Plato da maturidade e da velhice — leia-se: do Parménides e do: Filebo — se transformara em ideia-nimero, de todo em todo ausente dos Didlogos da maturidade, em vez de aceitar a explicacdo mais simples, de que Aristételes nunca chegou a compreender, nos seus fundamentos filoséficos, o que hoje denominamos “a teoria das Idéias de Platéo”, por ser diferente da de Platéo a sua viséo das coisas, ou a sua concep¢go do mundo, arma Wilpert o seguinte raciocinio, muito de acordo com os moldes e as preferéncias do Estagirita: E certo que o Plato da fase mediana, isto 6, dos escritos da maturidade, os mais brilhantes de toda a sua producéo, explicava pelas Idéias o mundo empirico de que temos conhecimento, com admitir que os objetos ocasionais do mundo dos fendmenos, isto é, do mundo tal como nos aparece (phdinomai), s6 adquirem existéncia relativa na medida em que participam das idéias, sempre iguais na 39 sua esséncia. Todavia, nos seus dltimos trabalhos Platéo submeteu a uma crftica rigorosa essa concep¢ao rudimentar, para tirar todo 0 proveito possivel de suas reflexes. Para o Pensador da dltima fase, a Idéia deixou de ser una ‘em si mesma; por entrar em relacdo com outras Idéias, altera-se o contedido légico de cada uma, passando todas elas a.adquirir formas varidveis. Com suas proprias palavras: Considerada em si mesma, cada Idéia ¢ una; mas, as Idéias nunca séo tomadas em si mesmas; a0 lado de cada uma hé outras Idéias de igual categoria, que as determinam ou Ihe séo subordinadas, razéo de: todas elas se nos apresentarem como condicionadas. Em resumo: a Idéia, isoladamente considerada, deixa de ser unidade, por participar de outras idéias, 0 que a transforma num todo organizado (gegliedertes Ganzes), ou seja, uma Unidade sintética. Em resumo: a Idéia virou Namero.” Como querfamos demonstrar; é a férmula triunfal com que terminam suas arrumagées silogisticas os aristotélicos de todos os tempos, para os quais a filosofia deixa de ser vida e visio global das coisas, trabalhadas pelo entendimento, para virar teoremas de légica bem desdobrados no quadro-negro, com suas premissas arrumadinhas, que desembocam na solugéo procurada, ou melhor: conhecida de antemao e que sd esperava a ocasiéo oportuna para ser apresentada. J& vimos acima como Kant desanimou de ser claro para todos os leitores das suas obras da maturidade. Em igual conjuntura, e diante de tamanha incompreensdo por parte até mesmo de leitores qualificados, somos tentados a repetir aquele trocadilho de Kant, mas restringindo desta vez a sua aplicacgdo a uma Gnica pessoa, a respeitdvel figura das comédias do nosso genial Gil Vicente, a que nos dirigirfamos por esta forma: A filosofia de Platao dispensa os bons servigos de Todo-o-mundo, porque néo hd necessidade de todo o mundo debrucar-se sobre esses problemas do conhecimento. No vasto campo da Sabedoria humana hd ocupacdo para todos os paladares, dependendo apenas o acerto da escolha, em cada caso particular, de adquirir, de infcio, essa pessoa, plena consciéncia de suas limitacdes, para todos conseguirem, por esse meio, realizar trabalho perfeito, dentro de sua capacidade. APOLOGIA DE SOCRATES St. 18 7 ONIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL | — Qual tenha sido, Atenienses, a impressio que vos deixaram meus acusadores, n&o saberei dizé-lo. De minha parte, ouvindo-os, cheguei quase a esquecer-me de mim mesmo, tal foi o seu poder de persuasdo. E contudo, por assim dizer, néo empregaram uma sO palavra_verdadeira.“ Mas, em t3o grande ntimero de mentiras, uma, particularmente, me deixou estarrecido: que deverfeis ter cautela para eu nao vos enganar, por Sat mutto hebil oredr 0 fato de nfo se envergonharem de receber imediato desmentido, quando lhes mostrasse que néo sei absolutamente falar bem, é o que neles se me afigurou o cimulo da impudéncia, a menos que chamem de orador elogiiente quem sé diz a verdade. Se é isso 0 que querem significar, concordarei que também sou orador. Mas, quao diferente deles todos! De qualquer forma, como disse, n&o enunciaram uma sé palavra, ou quase nenhuma, verdadeira. De mim, porém, ireis ouvir toda a verdade. No, Atenienses, por Zeus, uma ora¢&o arrebicada como a deles, com palavras e torneios elegantes, porém de perfodos simples e com as expressdes que naturalmente me ocorrerem. Creio ser justo 0 que vou expor; nem deveis esperar de mim coisa diversa. Nao me ficaria bem, senhores, na idade a que cheguei, apresentar-me perante vos como um adolescente que trouxesse o discurso preparado. Por isso mesmo, Atenienses, uma coisa vos peco e suplico instantemente: se me ouvirdes fazer a minha defesa com expressées iguais as que eu costumava empregar na agora, nas bancas dos cambistas — onde, decerto, muitos de vés me ouviram discursar — ou mesmo alhures, nem reveleis admirac3o nem protesteis contra esse fato. O caso é que pela primeira vez compareco a um tribunal, com mais de setenta anos de idade. Sou, por conseguinte, estranho a linguagem aqui empregada. E, do’ mesmo modo que, se eu fosse estrangeiro, me desculparfeis por vos falar no meu dialeto e da maneira por que fora educado, pego-vos aceitar agora — Pparecendo-me justo 0 que postulo — minha maneira de 43 44 falar. Talvez seja pior; talvez melhor; quem sabe? Considerai apenas com a maxima atengao se é justo ou no o que eu disser. Cifra-se nisso 0 mérito do juiz; o do orador consiste apenas em dizer a verdade. ll — Sera de justica, Atenienses, responder em primeiro lugar as acusacdes mais antigas e caluniosas e aos meus primeiros acusadores, para depois tratar das Ultimas e dos mais recentes. Sim, porque desde cedo eu tive junto de vés muitos acusadores, anos seguidos, que nunca diziam nada verdadeiro. Tenho mais medo deles do que de Anito e seus comparsas, ainda que todos sejam perigosos. Porém muito mais perigosos, senhores, eram aqueles, porque vos falavamy quando ainda éreis criangas e me acusavam sem base, levando-vos a acreditar na existéncia de um tal Sécrates, homem sabi que_especulava as coisas do céu_e inv ‘igava_as de debaixo da terra e que conhecia o meio de deixar bons os_argumentos ruins. Os autores de tais boatos, Atenienses, so 0S meus mais temiveis acusadores. Quem os ouvia ficava certo de que as pessoas dadas a semelhantes lucubragées néo acreditavam nos deuses. Além do mais, constituem legiao os detratores que, anos a fio, langaram contra mim suas invectivas, sem contar que vos falavam quando vos encontraveis em idade de acreditar em tudo, por ainda serdes criancas — alguns ja seriam adolescentes — desfechando seus ataques na auséncia do acusado, que nunca teve defensor. O mai: absurdo é que ninguém os conhecia_nem_podia_ nomeé-los, salvo a hipétese de entre eles haver certo fazedor de comédias. Mas os outros, tanto os que por inveja ou maldade vos procuravam persuadir, como os que, por conviccao, chegavam a convencer alguém: com relag&o a esses, sinto-me inteiramente desarmadd. Pois nao me é possivel obrig&-los a comparecer aqui nem refuta-los de algum modo, sendo de necessidade que em defesa propria me bata, por assim dizer, com sombras e” passe a interrogé-las, sem haver quem me responda. Admiti, por conseguinte, como ja disse, que sdo de duas espécies os meus acusadores: os que moveram contra mim este processo, e os mais antigos, de que acabo de ye po? 19. falar, e convencei-vos de que a estes 6 que preciso responder primeiro, pois ouvistes suas acusagdes muito antes e maior nimero de vezes do que as dos mais recentes. . Pois que seja! Forcoso é defender-me, Atenienses, e tentar desfazer 0 falso conceito que hd tanto tempo formastes a meu respeito; e tudo num prazo muito curto. Desejo ser bem sucedido, se advier disso algum proveito para vds e para mim, é, sobretudo, justificar-me plenamente. Sei, no entanto, que nao é facil conseguir esse desiderato, nem me iludo quanto a precariedade da situagao em que me encontro. Serd como for do agrado da divindade; a mim compete apenas obedecer a lei e defender-me. II — Voltemos, assim, para o comego, e vejamos em que se funda a acusact surgiu_a caltiniaa Meu _respeito, que levou Méleto a intentar contra mim este processo, Que a: im_contra_mim_os meus galuniadores? *Como num processo regular, precisarei apresentar-vos 0 teor da acusacio: Sécrates erra por investigar indevidamente o que se passa em baixo da terra e no céu, por deixar bons os arqumentos ruins e também por induzir outros a fazerem a mesma coisa. Cifra-se_mais ou menos nisso a acusacdo. Proposicées, e desse jaez vos mesmos vistes na comédia de Aristofanes, f em que é apresentado um individuo de nome que se gaba de andar pelo ar e enuncia um sem-nimero de tolices, de que eu n’o entendo nem muito nem pouco. Nao me expresso desse modo com a intenco de apoucar essa espécie de conhecimento, caso haja algum sabio que 0 possua — N&o va lembrar-se, agora, Méleto de mover-me outro processo! — mas a verdade, Atenienses, é que nada tenho que ver com tudo isso. Apelo para o testemunho de quase todos vos, e vos concito a vos informardes reciprocamente e a contardes © que em tantas ocasides me ouvistes enunciar. Entre vés ha muitos capazes disso. Dizei, por conseguinte, se, em qualquer tempo, algum de vés me ouviu falar ou muito ou pouco acerca de semelhantes topicos. Por esse exemplo podereis concluir que o mesmo se Passa com tudo o mais que o povo diz a meu respeito. 45 20 b IV — Tudo isso carece de base, como se dé, também, com a afirmacdo, que por certo ja vos chegou aos ouvidos, de que eu procuro ensinar os _outras_e recebo dinheiro em pagamento, o que também nao é verdade. Aliés, considero verdadeira maravilha ser alguém capaz de ensinar outras pessoas, como se da com Gorgias, o Leontino, e Prédico, de Céas, e também Hipias, de Elide. Todos eles, senhores, nas cidades a que chegam tém o dom de persuadir os mocos, que, alias, desfrutam do privilégio de gozar gratuitamente da companhia de qualquer de seus concidadaos, e os convencem a abandonar estes e passar a freqiienta-los mediante pagamento, acrescido dos agradecimentos de que so merecedores. Sim, entre nds encontra-se presentemente um desses sdbios, de Paros, de que tive noticias. Visitei casualmente um individuo que, sozinho, j4 gastou mais dinheiro com os sofistas do que todos os nossos concidadaos tomados em conjunto: Calias, filho de Hipdnico. A esse, como disse, interroguei. E pai de dois filhos. Calias, Ihe disse, se teus dois filhos fossem _potros ou bezerros, S jar deles, mediante pagamento, para deixé-los perfeitos nas See ee evidentemente, alguin tratador de cavalos ou lavrador. Mas, uma vez que sao homens, a quem pretendes confid-los? Quem possui 0 conhecimento_da virtude_peculiar_ao_homem_e-a0_, scidado? Magino que ja refletiste a tal respeito, visto teres dois filhos. HA alguém nessas condi¢des, lhe perguntei, ou néo? — Sem divida, respondeu. — Quem 6? voltei a perguntar; de onde veio e quanto cobra? — E Eveno, de Paros, respondeu; cobra cinco minas. — EntZo, comigo mesmo considerei Eveno um homem feliz, no caso, bem entendido, de possuir semelhante arte e de ensinala por preco tao médico. Eu, também, se a conhecesse, faria alarde disso e me mostraria envaidecido; mas a verdade, Atenienses, é que néo a conhego. V — Talvez me objete algum dos circunstantes: Mas, afinal, Sécrates, qual 6 a tua ocupagao? De onde se originaram as acusacdes que formulam contra ti? Alegas % 21 que nada fazes de mal; porém é evidente que nio fala- riam de ti nem terias a fama que alcangaste, se nada ttivesses feito diferente dos demais. Conta-nos o que se passa, a fim de ndo formarmos ju(zo falso a teu respeito. Acho muito justa a objecdo, e vou tentar Mostrar-vos 0 que deu motivo a essa notoriedade e as caliinias levantadas contra mim. Ouvi-me. E possivel que alguns dentre vés pensem que n&o estou falando sério; mas podeis ter certeza de que s6 vou dizer-vos a verdade. Semelhante fama, Atenienses, no me veio senZo de certa sabedor' jue_me é propria. Que espécie de sabedoria? Possivelmente, uma sabedoria_puramente_ humana, sendo de admitir que, de fato, eu_seja sabio dessa forma. Os outros, sim, a que me referi ha pouco, talvez sejam possuidores de uma sabedoria mais que humana, a respeito da qual n&o sei o que diga, visto no ter chegado a compreendé-la. Mente e me calunia quem disser 0 contrario. Concito-vos, Atenienses, a nao vos exaltardes, ainda mesmo que eu vos pareca exagerado. O que passo a contar no me pertence; vou atribui-lo a quem é merecedor de todo o vosso crédito. Para atestar minha ‘sabedoria.— se é que possuo alguma e de que natureza ela seja — vou trazer-vos 0 testemunho dodeus de Delfos. Decerto conhecestes Querefonte. Foi meu amigo de infancia e também vosso, amigo do, povo ateniense; Participou de vosso recente exflio e retornou convosco para a patria. Sabeis perfeitamente como era Querefonte © como se apaixonava quando empreendia alguma coisa. Assim, de uma _feita, estando em Delfos, atreveu-se a consultar-o-oraculo. Como vos pedi, senhores, no vos exalteis. Perguntou, de fato, se havia alguém mais sébio do que eu. Ora, a Pitia respondeu que ninguém era mais sabio. A esse respeito seu irm&o podera confirmar o que vos digo, visto jé ter ele falecido. VI — Vaede, agora, por que m i esse fato. Vou mostrar-vos de onde se Originou 0 que falam contra mim. Depois de ouvir aquilo, pus-me a refletir a sos comigo: Que quereré . dizer a divinddde e que pretende insinuar? Tenho plena consciéncia de nao ser nem 47 22 48 muito sabio nem pouco. Qual o motivo, ent&o, de haver ela afirmado que eu sou o mais sdbio dos_homens? Mentira, no pode ser; nao condiz_isso_com~a-sua natureza—E assim,—durante muito tempo fiquei sem atinar com o sentido dessas palavras; por fim, bastante contrafeito, passei a investigar 0 caso por este modo: fui ter com um individuo considerado sabio, certo de que: ali ou nenhures conseguiria desmentir o oraculo e declarar-Ihe: Este homem é mais sabio do que eu; no entanto, afirmaste que eu era o mais sébio dos homens. Passei, portanto, a examiné-lo. Ndo ha necessidade de declinar-Ihe 0 nome; era um dos nossos politicos. Mas, ao examina-lo, Atenienses, aconteceu 0 seguinte: no decurso de nossa conversacao, quis parecer-me que ele passava por sébio para muita gente, mas principalmente d_ para ele mesmo, quando, em verdade, estava longe de sé-lo. De seguida, procurei demonstrar-Ihe que ele se considerava sébio sem o ser, do que resultou aticar —contra-mim-seu-dio-e-de-muitas das pessoas presentes. Depois, ao retirar-me, falava a sos comigo: mais sabio do que este homem terei de’ ser, realmente. Pode bem dar-se que, em verdade, nenhum de nds conheca nada belo e bom; mas este individuo, sem saber nada, imagina que sabe, a0 passo que eu, sem saber, de fato, coisa alguma, nao presumo saber algo. Parece, portanto, que nesse pouquinho eu 0 ultrapasso em sabedoria, pois, embora nada saiba, néo .imagino saber alguma coisa. Depois deste procurei outro, que passava por ser mais —~sabio,ainda,_do_que_o_primeiro; porém sempre com e —id@ntico resultado. Desse. modo, tornava-me também a ____odiado por ele e por muitos outros. VIL — Daf por diante prossegui no mesmo compasso, percebendo com pesar e medo que incorria no édio de um sem-nimero de pessoas; mas estava convencido de que era obrigado a pdr o servico divino acima de tudo o mais. Vi-me, portanto, na contingéncia de continuar com o estudo no sentido do oraculo, junto dos que pareciam saber alguma coisa. E, pelo cdo! Atenienses, a verdade precisaré ser dita; aconteceu comigo o seguinte: com rarissimas excegdes, os individuos tidos na mais alta conta foram os que me b Pareceram mais deficientes, quando examinados de acordo com o preceito da divindade, enquanto outros, considerados em geral como inferiores, se me afiguraram de mais claro entendimento. Precisarei relatar-vos toda a minha peregrinagao e os trabalhos por que passei, para chegar & conclusao de que o oraculo era irrefutavel. Depois dos politicos, dirigi-me aos poetas de toda espécie: tragicos, ‘ditimbioos ¢ outros, certo" a6 Us” neste terreno eu teria naturalmente de revelar-me mais ignorante do que todos. Tomando de seus poemas os que me pareciam compostos com mais arte, interrogava-os acerca do sentido de cada um, para, no mesmo passo, aprender com eles alguma coisa. Envergonha-me, senhores, contar-vos a verdade. Contudo, precisara ser dita. Quase todos os circunstantes, por assim dizer, podiam discorrer com mais proficiéncia a respeito de cada poema do que o Préprio autor. Em pouco tempo aprendi com os poetas que nao é por meio da Sal ie eles fazem O que ecie de dom natural e em estat de inspiragdo, como se dé com os adivinhos e os profetas. Estes, também, falam muitas coisas bonitas, mas sem saberem o que dizem. O mesmo me pareceu dar-se com os poetas, tendo-se-me revelado, de igual medo, que, pelo fato de fazerem suas composic&es, em todos os assuntos eles se consideravam os mais sébios dos homens, 0 que, evidentemente, nao eram. Assim, afastava-me também dali com a conviccdo de ser superior a eles tanto quanto o era aos politicos. VIIL — Por dltimo, procurei os artesios. Tinha plena consciéncia de que eu nao sabia, por assim dizer, absolutamente nada, e estava convencido de que eles todos conheciam muitas e belas coisas. Nesse ponto nao me enganara; conheciam, realmente, muitas coisas que eu ignorava, sendo nisso, precisamente, mais sébios do que eu. Contudo, Atenienses, quer parecer-me que esses merit6rios artifices padeciam do mesmo defeito dos poetas: pelo fato de cada um deles conhecer a fundo determinada profisso, julgavam-se também proficientes nas quest6es mais abstrusas, donde estragar esse defeito fundamental de todos a sabedoria de cada um. Dai, ter 49 23 50 perguntado a mim mesmo, com referéncia ao oraculo, 0 que fora preferfvel: ser como era, sem participar da sabedoria e da ignorancia de todos, ou ser como eles, sob ambos os aspectos? A resposta dada a mim mesmo € ao oraculo foi que era melhor ser o que sou realmente. IX — Em conseqiiéncia dessa investigacao, Atenienses, adquiri muitos inimigos da pior e mais perigosa espécie, fonte de toda sorte de caltinias a meu respeito e do qualificativo de sébio que me conferem. la_caso concreto, sempre as pessoas presentes ii inavam_ que eu era entendido no assunto em que penso, senhores, é que em verdade s6 0 deus é sabio, e que_com_esse_oraculo queria ele significar que a sabedoria-humana yale muito pouco e nada, parecendo que ngo se referia particularmente a Socrates e que se serviu_do_meu_nome apenas como exemplo, como s¢_ i : Homens, o mais sabio dentre vos € como Socrates que reconhece ngo_valer, realmente,nada_no ‘terreno da sahedoria,_ Continuo até hoje a andar por toda a parte, obediente & intimacao divina, a examinar e questionar o estrangeiro ou concidadao que se me afigura sdbio. E quando nao me parece que O seja, sempre que ponho em relevo sua ignorancia é para bem servir a divindade. Com. Ai me sobrou tempo para realizar nada de importancia, nem com relagdo aos negdcios da cidade nem com meus assuntos particulares, vivendo, isso_sim, em extrema pobreza, por_ encontrar-me ao servico do deus. X — Além do mais, os mogos que me acompanham espontaneamente por toda a parte — sdo os que dispdem de mais tempo, por pertencerem a familias abastadas — n&o sé se comprazem de me ver examinar tais pessoas, como, por vezes, experimentam fazer a mesma coisa com terceiros, do que resulta descobrirem, segundo creio, um numero infinito de gente dessa marca, que imagina saber alguma coisa, quando, de fato, sabe pouco ou mesmo nada. Ora, esses individuos, assim examinados, zangam-se comigo em vez de se zangarem 24 com eles mesmos e espalham que um celerado de nome ‘ates _anda_a_corromper os mocos. Mas, se alguém Ihes pergunta de que se ocupa é 0 que ensina, ndo tem o que dizer, porque de todo o ignoram. E, para encobrirem sua perplexidade, recorrem a essas imputacées vulgares comumente assacadas contra os amantes da Sabedoria: investigar as coisas do céu e as de debaixo da terra, n&o acreditar na existéncia dos deuses e deixar bom o argumento ruim. Porque _a_verdade, segundo penso, nenhum sé atreve a confessar: que todos fato. nada sabem. E por serem todos ambiciosos, 6 0 que imagino, e arrebatados, e por constituirem multidao, além de se organizarem sob esse aspecto e de serem habeis em persuadir, hd muito encheram-vos os ouvidos com suas assacadilhas a meu respeito. Desses tais é que provém as acusagées de Méleto, Anito e Lico formuladas contra mim: Méleto, infenso 4 minha pessoa por causa dos poetas; Anito, como porta-voz dos artesdos e dos politicos, e Lico, aliado aos oradores. Por isso tudo, como ja observei no comeco, serd de admirar se conseguir em to pouco tempo limpar-vos 0 espirito de uma calinia tao arraigada. Eis ai, Atenienses, a pura verdade, que vosexponhosemomitirnem dissimular sejao que for. Contudo, tenho quase a certeza de que por isso mesmo me torno odiado, prova evidente de que falo a verdade e de ser essa a caldinia levantada contra mim e sua causa exclusiva. E 0 que ireis verificar, decerto, quer estudeis © assunto agora mesmo, quer o facais mais tarde. XI — Sobre as imputagdes de meus primeiros acusadores, baste-vos esta defesa. Contra Méleto, esse homem honesto, amigo da cidade, como ele mesmo se qualifica, e contra os demais acusadores, vou tentar agora responder. Mas, visto tratar-se de novo adversério, facamos como para os primeiros e apresentemos o teor de sua acusacdio. E mais ou menos o seguinte: Sécrates, Bs ele, 6 culpado acreditar_nos deuses que_a_ cidade admite, além de aceitar divindades novas. Eis a acusactio; Passemos agora aexaminar cada uma de suas partes. a examinar cada uma de suas 51 25 52 Acusa-me do crime de corromper os mogos; porém eu, Atenienses, por minha vez, digo que Méleto_é criminoso por estar brincando com coisas sérias e por citar levianamente em justiga outras pesosas, com fingido zelo, a respeito de assunto a que nunca atribuiu a minima importancia. Que tudo se passa desse modo é © que tentarei demonstrar-vos. XI — Aproxima-te, Méleto, e responde: E certo que fazes muito empenho em deixar os mogos téo perfeitos quanto possivel? — Sem divida. —Entdo, declara a estes senhores quem os deixa melhores. E evidente que sabes isso, uma vez que tanto te importa essa questdo. E ja que descobriste quem os corrompe, segundo afirmas, e me trouxeste diante deles para acusar-me: vamos, fala e indica aos presentes quem os deixa melhores. Quem 6? Como vés, Méleto, ficas calado e nao tens o que dizer. Semelhante procedimento n&o te parece vergonhoso e prova suficiente do que afirmei, que nunca te preocupaste com essas questées? Vamos, amigo: quem os deixa melhores? — As leis. — Nao foi isso que te perguntei, meu caro, porém o homem, que tera, naturalmente, para comecar, de conhecer as leis. — Estes aqui, Sdécrates, os juizes. — Que me dizes, Méleto? Estes senhores so capazes de instruir os mogos e de deixé-los melhores? — Sem divida. — Todos eles, porventura, ou apenas uns, e outros nao? — Todos. — Pela deusa Hera, isso 6 que é falar bem! Que numero de benfeitores! E agora me responde: as pessoas que nos escutam, também os deixam melhores, ou nao? — Essas também. — E os membros do conselho? — Também. — Porém Méleto, quem sabe se os cidadaos reunidos em assembléia, os eclesiastas, nao corrompem os mogos? Ou todos eles os deixam melhores? — Esses também. — Ao que parece, todos os Atenienses os deixam bons e nobres, menos eu. Sou o Gnico a corrompé-los. E isso que afirmas? — Exatamente. — Quanta falta de sorte me atribuis! Entao, responde-me ao seguinte: Es de parecer que o mesmo se passa com relaco aos cavalos? Todos os homens os deixam melhores, e um apenas os estraga? Ou sera o contrério disso que acontece: um, apenas, sera capaz de 26 deixd-los melhores, alguns poucos: os tratadores de cavalos, enquanto a maioria dos homens os estraga, sempre que com eles se ocupam ou deles se utilizam? E nao é isso que se dé com os outros animais? Sim, é isso mesmo, quer tu e Anito o admitam, quer o neguem. Seria imensa a felicidade dos mocos, se fosse verdade que apenas uma pessoa os corrompe e o resto dos homens trabalhasse em seu proveito. Mas, com isso, Méleto, s6 demonstraste que nunca te preocupaste com Os Mogos, patenteando-se tua indiferenca com respeito as questdes que te moveram a citar-me em justiga. XIIl — E agora, Méleto, por Zeus, dize-me se é melhor viver entre cidadaos bons ou entre malfeitores? Responde, amigo. N3o é dificil a pergunta. As pessoas ruins ngo fazem sempre mal aos que com elas. convivem, e as honestas, sempre algum bem? — Perfeitamente. — E havera, porventura, quem prefira ser prejudicado a ser beneficiado pelas pessoas do seu meio? Responde, meu caro; a lei ordena que me respondas: ha quem prefira Prejudicar-se? — N&o ha, realmente. — Sendo assim, ao me chamares a este tribunal, por eu corromper os mocos e induzi-los a pratica do crime, pretendes que o faga de nsado_Ou sem o querer? — De caso pensado. — Como assim, Méleto? Es tao mais s4bio na tua idade do que eu na minha, para compreenderes que os individuos maus *: re jusam_algum_dano jue _deles se aproximam, enquanto os bons s6 fazem bem; ao passo que t&o_longe vai_minha_ignorancia, a_ponto de nao minha convivéncia, corro_o perigo de receber algum dano_de sua parte? E é de caso pensado, como afirmas, “que ocasiono tamanho maleficio? Nao, Méleto; jamais. Zs le semelhante coisa, como estou certo_de que a ninguém convenceras. De duas, uma: ou eu_ngo corrompo os mogos, ou, se OS Corrompo, faco-0 involuntariamente. Por isso, em qualquer hipotese estas" mentindo. Se_os corrompo sem o querer, nado manda a lei_trazer_para aqui quem pratica atos involuntarios, e Porém chamé-lo parte para instrui-lo e adverti-lg. E glaro_que, uma vez doutrinado, deixaria de fazer o que 53 54 sO involuntariamente praticara. Porém te le mim_e_fugiste_de_ensinar-me, preferindo_cltar‘me para ende_a_lei manda trazer_os que precisam ser punidos, ‘No quem carece de instrucao. XIV — Nesta altura, Atenienses, conforme disse, j4 deveis estar mais do que convencidos de que Méleto nunca se preocupou com semelhante questao. Nao obstante, declara-nos, Méleto, porque motivo andas a espalhar que eu corrompo os jovens? Segundo a queixa que apresentaste, deve ser por ensiné-los a nao acreditar nos deuses em que a cidade acredita, porém em demonios de nova modalidade. Nao é isso 0 que afirmas: que com essa doutrina eu os corrompo? — Perfeitamente; e insisto no que disse. — Entao, Méleto, por esses mesmos deuses de que estamos tratando, expde com mais clareza teu pensamento, a mim e a estes senhores aqui presentes. Pois néo chego a compreender se afirmas que eu ensino a acreditar em alguns deuses — do que se concluiria, afinal, que acredito na existéncia dos deuses e n&o sou absolutamente ateu nem criminoso dessa espécie, com a diferenca de nao acreditar nos deuses admitidos pela cidade, porém noutros, sendo esse o fundamento de tua queixa: por serem outros — ou se afirmas por maneira categérica que nao acredito absolutamente nos deuses e isso mesmo ensino a outras pessoas? — O que afirmo é que nao acreditas absolutamente na existéncia dos deuses. — O, admiravel Méleto! Como podes dizer semelhante coisa? Entio, no considero deuses nem o sol nem a lua, como 0 admitem os demais homens? — No, senhores, juizes, por Zeus; ele ensina que o sol 6 uma pedra e que a lua é da terra. — E Anaxagoras que imaginas acusar, amigo Méleto. Fazes tao pouco caso dos presentes e os consideras ignorantes a ponto de nao saberem que nos escritos de Anaxagoras de Clazémenas pululam proposicdes desse teor? Assim, aprenderiam os mocos comigo essas nogdes, quando, por uma dracma, quando muito, tém a possibilidade de adquiri-las no teatro, para depois zombarem de Sdcrates, no caso de chamar este para si a paternidade de semelhantes idéias, que, além do mais, séo absurdas. Mas, afinal, por Zeus, o que afirmas 27 ONIVERSIDADE FEDERAL DO Para BIBLIOTECA CENTRAL mesmo é que eu nao acredito em nenhum dos deuses? — Sim, por Zeus; em nenhum, absolutamente. — E incrivel, Méleto; nem tu mesmo das crédito ao que dizes, quero crer. Para mim, Atenienses, este homem é por demais impudente e arrebatado. Foi por orgulho que formulou contra mim sua acusacao, apenas para afrontar-me, numa espécie de bravata juvenil. Dé-me a impressio de haver apresentado um enigma, para experimentar-me: Vejamos se o sébio Sécrates percebe que eu estou brincando e que me contradigo no que afirmo, ou se conseguirei ludibrid-lo e a todos os que me ouvem. Pois quer parecer-me que ele se contradiz na sua acusagao. E como se dissesse: Sécrates é culpado por ngo acreditar nos deuses, mas acredita que existem deuses. Positivamente, tudo isso nao passa de pilhéria. XV — Considerai comigo, senhores, porque acho que ele fala desse modo. Agora, Méleto, responde-nos. E vés, conforme vos pedi no comego, nao vos lembreis de “ tumultuar, no caso de eu desenvolver o argumento pelo meu modo costumeiro. Havera, Méleto, quem acredite na existéncia de coisas humanas, mas nao aceite a existéncia dos homens? Ele que me responda, senhores, em vez de protestar a todo instante. Haveré quem n&o acredite em cavalos, mas admita a existéncia de coisas eqiiestres? Ou em tocadores de flauta, mas apenas na arte dos flautistas? N&o hd, excelente vardo. Se nao te decides a responder, eu mesmo me encarrego de declarar-te isso e a todos os presentes. Entao, pelo menos responde a esta outra pergunta: haveré quem acredite na existéncia de coisas demonfacas, porém nao admita a existéncia de deménios? — Nao ha. — Como te sou obrigado por te haveres resolvido a responder-me, muito embora s6 0 fizesses sob a pressio destes senhores. De qualquer forma, confessas que eu admito a existéncia de coisas demonfacas e que as ensino, pouco importando se sto novas ou antigas; 0 fato é que acredito em coisas demoniacas, sempre de acordo com tua afirmativa, 0 que, alias, asseveraste, sob juramento, em tua acusagio. Ora, se eu acredito em coisas demoniacas, é mais do que forgoso acreditar também na existéncia de demdnios, 3s 28 56 nao é verdade? Sim, é isso mesmo; pois tenho de admitir que concordaste comigo, ja que n&o queres responder. E os demdnios, no os concebemos como sendo deuses ou filhos de deuses? Que dizes a isso: sim ou nao? — De acordo. — Por conseguinte, se eu acredito em deménios, como declaras, e os demdnios, por sua vez, sdo uma espécie de deuses: daf haver eu dito que estavas gracejando e propunhas enigmas, ao afirmares que n&o acredito em deuses e, logo a seguir, que acredito neles, visto acreditar em dem@nios. Ora, se os deménios s8o filhos bastardos dos deuses, conforme dizem, nascidos de ninfas ou de outras mes: quem poderé admitir que existem filhos de deuses, porém que nao ha deuses? Seria tao absurdo como acreditar alguém na existéncia de filhos de cavalos e de jumentas, porém nao. na de cavalos e jumentas. Nao, Méleto; tem de ser isso: foi s6 para experimentar-nos que apresentaste tua acusac3o, ou ent&o por te encontrares em dificuldade para dizer em que eu havia verdadeiramente delinqlido. Mas, conseguires convencer alguém, por menos inteligente que seja, de que haja quem acredite na existéncia de coisas demoniacas e divinas e, a0 mesmo tempo, n&o acredite nem em deménios nem em deuses e em herdis, 6 0 que de nenhum jeito se podera adm XVI — No, Atenienses; para provar que eu n&o cometi crime com referéncia ao que Méleto me acusa, no se faz mister de defesa muito longa; basta a que ja fiz. Quanto ao que vos disse ha pouco, que muita gente me dedica Odio, bem sabeis que é a pura verdade. Isso é& que me condenard, se eu tiver de ser condenado; nao Méleto nem Anito, porém a caldinia e a inveja das multiddes, que j4 causaram a rufna de muitos homens de bem e que ainda hao de causar a de muitos outros, pois é pouco provavel que venham a parar em mim. Talvez alguém me objete: Nao te envergonhas, Socrates, de teres adotado um género de vida que hoje Podera acarretai a morte? Ao que eu daria esta resposta justa: Estas enganado, amigo, se imaginas que, por menos que valha uma pessoa, deve pensar em morrer ou viver, em vez de considerar apenas se procedeu com justiga_ou injustamente em todos os seus atos e se se "~eempartou-cema_homem de bem ou como celerado. De acordo com teu argumento, teriam sido desprez(veis ¢ todos os semideuses que morreram diante dos muros de Tréia, entre os quais se achava o filho de Tétis, que tio longe levou o desprezo do perigo ante a ameaca da desonra. Ao vé-lo impaciente de matar Heitor, sua mae — uma das deusas — Ihe falou mais ou menos nos seguintes termos, segundo penso: Filho, se matares Heitor, em vinganga da morte de teu amigo Patroclo, viras também a morrer, pois logo depois de Heitor, disse ela, 0 Destino te alcancara. Ao ouvir isso, com desprezo d da morte e do perigo e maior receio de viver desonrado se nao vingasse 0 companheiro, respondeu-lhe: Ent&o, que morra logo, depois de castigar o criminoso, para nao ficar junto das naves de proas recurvas como objeto de galhofa e peso indtil sobre a terra. Es de parecer que ele tivesse pensado na morte ou no perigo? Nao, = Atenienses; 0 que acontece é 0 seguinte: Todo homem que escolheu um posto, por consideré-lo o mais honroso, ou que nele tenha sido colocado por seus superiores, af tera de permanecer, segundo penso, na hora do perigo, sem pensar mais na morte ou no que quer que seja do que na desonra. XVII — Fora por demais grave, Atenien: e procedimento, se, tendo permanecido no lugar indicado pelos generais eleitos por vés mesmos para comandar-me, em_Potidéia, Anfipolis e Délio, arriscando-me, como qualquer outro, a morrer: vendo-me, agora, no_posto em que me colocou a divindade, conforme creio e admiti, para dedicar-me exclusivamente 4 _filosofia_e examinar a mim e aos 29 2 outros, 36 de medo da morte ou UO Gus quer que Sa Viesse a detertar-tsto-simm-fore graviseimor é com todo © direito qualquer pessoa poderia processar-me por eu nao acreditar nos deuses, uma vez que desobedecera ao oraculo, revelei medo da morte e me considerara sébio sem que 0 fosse. Porque ter medo da morte, senhores, outra coisa nao é sen&o considerar-se sdbio; equivale a imaginar_alguém que sabe o que ignora. Ninguém sabe o que seja a morte, e, ignorando até mesmo se porventura n&o_sera para os homens o maior dos bens, temem 58 como se soubessem com certeza que é o maior dos males. E como poderé deixar de ser censuravel semelhante ignorancia, isto é, imaginar alguém que sabe © que nao sabe? Neste particular, senhores, é possivel que eu seja diferente da maioria dos homens, e se tivesse de considerar-me excepcional em alguma coisa, seria justamente nisto: como nao conheco suficientemente o que se passa no Hades, também no tenho a ilusdo de conhecer. Porém, cometer qualquer injustica e desobeder a um superior — deus ou. homem — isso sim, sei bem que é mal e vergonhoso. Fugindo, assim, dos males que reconheco como tal, nunca me temerei_nem fugirei dos que n&o sei se talvez nao sejam bens. Por isso, no caso de me absolverdes, sem acompanhardes Anito, quando vos disse que eu nao deveria ter vindo ao tribunal, mas que, uma vez aqui presente, n&o poderfeis deixar de condenar-me, pois, conforme vos asseverou, na hipdtese de me absolverdes, vossos filhos se interessarao pelos ensinamentos de Sécrates, do que resultara todos eles ficarem inteiramente corrompidos; ainda mesmo que me dissésseis: Sdcrates, nao daremos atengSo a Anito; vamos absolver-te, com a condicio de parares com essa investigagdo e n&o te dedicares de hoje em diante & filosofia; porém se fores mais uma vez apanhado nessas praticas, morreras por isso; se me absolvésseis, como vos disse, sob essa condic&o, eu vos falaria nos seguintes termos: Esti os, Atenienses, e a todos prezo, porém sou_mais obediente aos deuses do que a vds, e enquanto_ tiver alento e capacidade, nao deixarei de filosofar e de exortar a qualquer de_vés que eu venha a encontrar, falando-Ihe sempre na minha maneira ‘habitual: Como se da, caro amigo, que, na qualidade de cidad&o de Atenas, a maior e mais famosa cidade, por seu poder e sabedoria, no te envergonhes de sé te preocupares com dinheiro e de como ganhar o mais possivel, e quanto & honra e & fama, a prudéncia e @ verdade, e a maneira de aperfeicoar a alma, disso nao cuidas nem cogitas? E se algum de vos protestar e me disser que cuida, néo o largarei de pronto nem me afasterei dele, mas o interrogarei, examinarei eargiirei a fundo. No caso, porém, de convencer-me de que é carecente de virtude, embora diga o contrario, repreendé-lo-ei por dar pouca importancia ao que é de mais valor e ter em alta estima © que de nada vale. Assim procederei com quantos encontrar: moc¢o ou velho, estrangeiro ou meu concidadao. Sim, primeiro com estes, por me serdes mais préximos pelo sangue. E o que me ordena fazer a divindade, bem o sabeis, estando eu convencido de que nunca nesta cidade vos tocou por sorte maior bem do que 0 servigo por mim a ela prestado. Qutra coisa nao faco, sen3o perambular pela cidade para vos persuadira todos, mogos e velhos, a Nao vos preocupardes como corpo nem com ag, a pordes oO maior empenho no aperftgoamehto ma, insistindo que a virtude mdb € Hoe pete-dinrero-ms 0 © inverso: da virtude é que provém a riqueza e os bens humanos em universal, assim ptiblicos como particulares. Se com semelhantes ensinamentos eu corrompo a mocidade, é que sao, realmente, prejudici Estaré falando 4 toa quem afirmar que eu ensino coisa diferente. Por isso, Atenienses, vos direi: quer obedegais a Anito quer nao; quer me absolvais quer no, ficai certos de que jamais procederei de outra maneira, ainda que tenha de morrer mil vezes. XVIII — N&o vos alvoroceis, Atenienses, mas fazei © que pedi: ouvi-me com atengZo, sem vos insurgirdes contra 0 que eu disser. Estou convencido de que, se me ouvirdes, sO tereis a lucrar. Tanto mais que me Proponho agora tratar de um assunto que decerto ha de Provocar protestos de vossa parte. Contende-vos, por obséquio. Sabeis perfeitamente que, se me condenardes & morte, sendo eu como vos disse, nao me prejudicareis tanto como a vés mesmos. Nem Méleto, nem Anito conseguirao prejudicar-me em nada. No o poderiam, pois nao faz parte, quero crer, da ordem das coisas, ser de algum modo lesado o individuo superior por quem the, é inferior. Sim, podera matar-me, ou exilar-me, ou Privar-me dos direitos civis, o que na sua opinido e de muito mais gente passa por ser um grande mal. Porém de todo diferente é minha maneira de pensar. Maior mal 6 fazer 0 que ele faz agora: procurar matar injustamente 59 31 um homem. Por isso mesmo, Atenienses, estou longe de argumentar no meu préprio interesse, como se poderia imaginar, porém no vosso, para que com minha condenacao nao venhais a pecar contra a dadiva que vos concedeu a divindade. Se me matardes, niio vos sera facil encontrar outro nas mesmas condic®es, por mais risivel que parega, preso & cidade pelo deus como um tavéo a um cavalo grande e generoso, mas que pelo proprio tamanho se revela um tanto lerdo, motivo por que. precisa ser espicacado. Foi para isso, segundo penso, que o deus me ligou a esta cidade, para vos espertar e persuadir, razo de eu nao cessar o dia inteiro de vos admoestar um por um, onde quer que vos encontre, e de insistir com todos. N&o vos sera facil, senhores, encontrar alguém como eu. Por isso, se me aceitardes o conselho, haveis de poupar-me. E possfvel que vos impacienteis, como se dé com os dorminhocos, quando despertados com sacudidelas, convencidos como estais de que podereis continuar a dormir o resto da vida se obedecerdes a Anito e me matardes, a menos que o deus se compadeca de vés outros e mande alguém em meu lugar. Que sou, realmente, um ‘individuo nessas condigdes, entregue a cidade pelo ‘deus, podeis inferir do que se segue: nao condiz com a simples natureza humana descurar-me a esse ponto dos meus préprios interesses e deixd-los em abandono durante tantos anos, para ocupar-me apenas dos vossos, com dirigir-me a cada um de vos em particular como pai ou irmao mais velho, para concitar-vos a vos preocupardes com a virtude. Se disso eu retirasse algum proveito ou exigisse pagamento por minhas admoestagdes, fora até certo ponto compreensivel. No entanto, vos mesmos devereis de ter observado que, apesar da impudéncia dos meus acusadores em me assacarem tantos’ crimes, nado se atreveram em sua desfacatez a apresentar uma Unica testemunha de que em qualquer tempo eu exigisse ou solicitasse pagamento de quem quer que fosse. Penso que, em abono de que vos falo a verdade, serd suficiente a testemunha por mim mesmo convocada: minha pobreza. 32 UNIVERSIDADE FEORRAL DO PARR BIBLIOTECA CENTRAL XIX — Decerto a muita gente pareceré estranho que eU andasse pela cidade e me afanasse em aconselhar particularmente os outros, e nos assuntos publicos nado tivesse animo de freqiientar as assembléias e dar conselhos @ cidade. A razao desse fato, como j4 me ouvistes muitas vezes declarar por toda a parte, a encontrareis em algo divino e demoniaco que se da comigo e a que, por zombaria, o préprio Méleto se referiu em sua acusac&o. Isso comecou desde o meu tempo de menino, uma _ espécie de voz que sé se manifesta para dissuadir-me do que eu esteja com inten¢o de praticar, nunca para levar-me a fazer alguma coisa. Isso é que se opde a que me ocupe com politica. E com toda a razao, quer parecer-me. Pois, como sabeis, Atenienses, se ha muito tempo eu me tivesse ocupado com 0s negécios ptiblicos, ha muito, também, ja teria deixado de existir, sem ter sido de nenhuma utilidade nem para vds nem para mim. Nao vos zangueis por vos dizer a verdade; mas é fato que nao escaparé de morrer quem quer que se vos oponha sem temor ou a qualquer Outra assembléia popular, para impedir que na cidade se Pratiquem injustigas ou inigiiidades. Se quiser viver algum tempo, o paladino da justica tera de conservar-se como particular, sem imiscuir-se na vida da cidade. XX — Em confirmac%o do que vos digo, vou apresentar-vos um argumento decisivo, nao de simples palavras, mas de fatos, como é mais do vosso gosto. Ouvi © que se passou comigo, para vos convencerdes de que 0 medo de morrer nao me leva a fazer a ninguém nenhuma concessio em detrimento da justica, e que, assim Procedendo, eu me expunha a morte certa. Vou falar-vos, porventura, de coisas importunas e Processuais; porém seré tudo verdadeiro. Em toda a minha vida, Atenienses, nunca ocupei nenhum cargo na cidade, a nao ser uma Unica vez o de conselheiro. Ora, aconteceu que nessa ocasiao nossa tribo, de Antiéquide, exercia o pritanato, quando_resolvestes julgar. englobadamente os dez generais que na batalha naval no_recolheram os mortos, deciséo ilegal conta inteira, conforme mais para _diante vos mesmos reconhecestes, Dos pritanes fui eu o tinico a opor-me a que praticasseis 61 62 algo contra a lei, tendo votado contra aquela determinacao. E muito embora os oradores estivessem dispostos a cenunelar-me 2 prenler eons ordenaveis aos berros, achei preferivel Ter todos os riscos ao lado da lei e da justica, a ficar de vosso lado numa deliberacao injusta, de medo de ser preso ou de vir a perecer. © Isso se deu ainda no tempo da democracia. Porém, depois de instaurada a oligarquia, de uma feita os Trinta me mandaram chamar a rotunda com mais quatro, para trazermos de Salamina Leo de Salamina, a fim de ser executado, incumbéncia igual as que haviam dado a muitos outros, pelo desejo de deixar corcesponsaveis nesses grimes © maior numero possivel de pessoas. Nessa ocasiio demonstrei de novo, néo com palavras, mas por atos, que morrer — se a expressio no é um tanto rustica — nao me preocupa no mfnimo, e que meu empenho exclusivo consistia em nao praticar acéo injusta_ou{mpia* Pois aquele Poder, por mais discricionério que se ent&o mostrasse, néo conseguiu atemorizar-me a ponto de levar-me a praticar qualquer ato injusto; assim, quando safmos da rotunda, os outros quatro foram a Salamina e trouxeram preso Leio, seguindo eu diretamente para casa. E esse meu ato sem divida me teria custado a vida, se pouco tempo depois aquele governo nao tivesse sido derrubado. Muitas testemunhas poderao certificar-vos desses fatos. XXI — Acreditais, ento, que eu chegaria a viver tantos anos, se me tivesse ocupado com os negécios piblicos e, como homem de bem, tomasse a defesa da justiga, como é de mister, para antepo-la a tudo o mais? Nem por sombras, Atenienses; homem nenhum o conseguiria. Durante toda a vida fui sempre o mesmo, tanto nas funcdes piiblicas que cheguei a exercer, como nas minhas relacdes particulares; jamais concedi nada a ninguém contrariamente @ justiga, nem mesmo aos que os meus caluniadores denominam meus discipulos. O fato é que nunca ensinei pessoa alguma. Se alguém deseja ouvir-me quando falo ou me encontro no desempenho de minha missdo, quer se trate de moco quer de velho, nao lhe crio dificuldades, como néo repilo os que nao podem pagar, s6 falando para os que estiverem em condigdes de remunerar-me; mas me disponho a responder a todos por igual, assim os ricos como os pobres, ou, se o preferirem, a formular-lhes perguntas, ouvindo eles o que Ihes falo. Se de semelhantes praticas alguém sai melhorado ou prejudicado é 0 que com justica ninguém me pode responsabilizar, pois nunca me comprometi a dar licdes a quem quer que seja,como de fato nunca dei. E se alguém afirmar que aprendeu comigo ou ouviu de mim qualquer coisa em particular, que todos os outros no tivessem ouvido, bem sabeis que esta mentindo. XXII — Ent&o, por que motivo hd tanto tempo algumas pessoas se comprazem em conversar comigo? Ja vo-lo declarei, Atenienses; 0 que vos relatei é a pura verdade: gostavam de ouvir-me, quando eu examinava os que se julgam sabios sem o serem. De fato, é um espetaculo interessante. Trata-se, como disse, de uma obrigacao imposta pela divindade, por meio de oraculos e de sonhos, ou como quer que os. designios divinos se tornem manifestos para os homens. Tudo isso, Atenienses, 6 tao verdadeiro como facil de verificar. Porque se, de fato, eu corrompo algums mogcos, como devo ter corrompido muitos no passado, 0 que cumpria a qualquer deles, uma vez atingida a idade adulta e ao perceber que eu 0 aconselhara para o mal em sua mocidade, era levantar-se imediatamente para acusar-me eexigir que eu fosse castigado. E, no caso de no quererem tomar essa iniciativa, seus familiares, pais eirm&os ou qualquer outro parente, sendo verdade que eu prejudiquei algum membro da familia, lembrados agora desse fato, deveriam exigir a minha punigio. Muitos deles se encontram aqui presentes, conforme verifico, a comegar por Critao, da minha idade e do mesmo demo a que pertenco, pai de Critobulo, que também diviso. ali; depois, Lisdnias, de Esfeto, pai de Esquines, igualmente presente; a seguir, Antifonte, de Cefisia, pai de Epigeno. Outros mais também se acham no recinto, cujos irm&os freqiientavam minha companhia: Nicéstrato, filho de Teosdtides e irmao de Teéddoto — sim, porque Teddoto j4 morreu, nao 63 podendo, por isso mesmo, influencié-lo com pedidos — e também Paralo, filho de Demédoco, de quem Teages era: irmao. Ali esta, ainda, o filho de Aristo, Adimanto, de quem Plat3o é irm&o, aqui presente, bem como Eantodoro, cujo irm’o é Apolodoro, que diviso mais além. Poderia mencionar muitos outros, e no meio de tantos competia a Méleto arrolar como testemunha pelo menos um em sua acusag3o. Se nao Ihe ocorreu fazé-lo, chame um destes agora, que eu cedo meu lugar, caso ele disponha de alguém para esse fim. Mas o que ireis ver, senhores, é justamente 0 contrario disso: todos estéo prontos a ajudar o corruptor de seus familiares e que tanto mal Ihes causou, no dizer de Méleto e de Anito. Compreende-se que 0s mogos corrompidos por mim depusessem a meu favor; mas os que nao o foram e ja sao homens feitos, parentes dos primeiros, por que razéo viriam defender-me, a nao ser por lealdade e justica e por estarem convencidos de que Méleto mente e sd eu falo a verdade? XXIII — Nisto, senhores, cifra-se o que eu tinha a dizer em defesa prépria, e talvez mais alguma coisa desse teor. E possfvel que se indigne algum de vds, ao lembrar-se do que passou em processo de muito menores conseqiiéncias, quando se dirigira, splice, aos juizes, banhado em lagrimas, e levara consigo os filhos pequenos, a fim de comover a todos eles, além de grande ndmero de amigos e familiares, enquanto eu nao faco nada disso, apesar de encontrar-me, como tudo leva a crer, no maximo perigo. Considerando isso agora, talvez sinta 0 amor-préprio ofendido e se irrite comigo, para, num gesto de célera, depor seu voto contra mim. Se houver entre vos quem seja capaz de proceder dessa maneira — 0 que nao creio — mas, admitindo que haja, penso que nestes termos Ihe daria uma resposta razoavel: Eu também, amigo, tenho parentes, pois, como Homero, nao provenho de nenhum carvalho nem da rocha, porém de homens. Por isso mesmo, tenho parentes e filhos, Atenienses, em nimero de trés, sendo um mais grandinho e dois ainda criangas. E contudo, nao mandarei buscar nenhum para concitar-vos a | ; absolver-me. E por que nao faco nada disso? Nao sera Por orgulho, Atenienses, nem por desprezar-vos. Se eu encaro ou no a morte com coragem, é questo muito diferente; mas, no que concerne 4 minha honra, a vossa e a da cidade, nao se me afigura decente proceder dessa maneira na idade a que cheguei e com o nome que tenho, seja ou no seja merecido. O fato é que é opiniao corrente distinguir-se Sécrates em alguma coisa da maioria dos homens. Seria vergonhoso procederem desse modo os que entre vos so tidos como superiores pela sabedoria, pela coragem ou por qualquer outra virtude, tal como jé vi passar-se muitas vezes com pessoas consideradas de valor, e que, ao serem julgadas, se comportavam da maneira mais estranha, pela certeza de que algo muito grave Ihes aconteceria se viessem a morrer, e como se ficassem imortais no caso de nao Ihes tirardes a vida. A meu parecer, com isso eles desonram a cidade, por fazerem crer aos estrangeiros que os mais eminentes Atenienses, escolhidos por seus préprios concidadaos para cargos de direc%o e outras honrarias, n&o diferem em nada das mulheres. Essas coisas, Atenienses, nem ficam bem para os que passamos por ter algum merecimento, nem podem ser aceitas por vos outros, quando postas em pratica. Pelo contrario, Precisareis demonstrar que ha muito maior probabilidade de condenardes os autores de tais dramas lastimosos que expdem a cidade ao ridiculo, do que os que se comportam com decéncia. XXIV — Mas, pondo de parte, senhores, a quest%o da honra, nao me parece decoroso implorar ao juize alcancar absolvigao por meio de stiplicas, em vez de procurar instrui-lo e convencé-lo. O juiz nao é nomeado Para fazer favores com a justi¢a, mas para julgar segundo as leis. Assim, importa que nem nés vos habituemos ao perjuro, nem que vos acomodeis com ele; fora de nossa Parte ofensa para os deuses. Nao espereis, por conseguinte, Atenienses, que eu faca o que nao considero honesto nem justo nem piedoso, maxime, em nome de Zeus, por ter sido acusado de impiedade por Méleto, aqui presente. Pois é evidente que se, Acusta de 65 implorar, eu conseguisse comover-vos € vos levasse a decidir contra vosso proprio juramento, com isso, por um lado, vos ensinaria a no crer na existéncia dos deuses, mas, por outro, com minha propria defesa me acusara de nao acreditar que eles existem. Porém esta muito longe de ser assim. A verdade, Atenienses, é que eu creio neles,como nao o faz nenhum dos meus acusadores, e deixo agora a vos e a divindade decidir como for melhor tanto para mim como para todos vés. e XXV — Se nao me insurjo, Atenienses, pelo fato de me haverdes condenado, é que me sobejam razdes, mas principalmente por nao ter sido inesperado 0 que me aconteceu. Pelo contrario, o que mais me surpreende é 0 ndmero de votos dos dois lados. Nao imaginava que seria tao pequena a diferenga; esperava muito mais. Como se vé, se apenas trinta votos houvessem caido para la, eu teria sido absolvido. Nessas condigées, é Ifcito afirmar que escapei de Méleto, e também, o que é mais do que manifesto para todos: além de escapar, se Anito e Lico no se tivessem apresentado como acusadores, ele teria b de pagar mil dracmas por nao haver alcangado 0 quinto dos sufragios. XXVI — De qualquer forma, este homem pede a minha morte. Pois que seja! E, de meu lado, Atenienses, que pena me imporei? Evidentemente, a que mereco. E qual poderd ser? Qué merego sofrer ou dar em paga por nfo esconder a vida inteira o que sabia e me ter descurado do que a maioria dos homens_tanto-preza:— riquezas, interesses de familia, postos militares, atividades_demagogicas; ‘égos de toda a sorte eas _— conjuracdes politics e os partidos que surgem na c cidade, por julgar-me honesto em demasia para conseguir _a_salvacéo-por_esse_meio? Nao me permiti ingressar num caminho de que nao adviria bem nenhum nem para mim nem para vos; ao invés disso, empenhei-me apenas em proporcionar a cada um de vos © que a meu ver constitui o maior dos beneffcios, procurando convencer cada um a ngo se ocupar com ay) lender Val, 37 seus negocios sem primeiro ocupar-se de si mesmo para tornar-se~eada_vez_melhor e mais prudente, nem dos interesses da cidade em detrimento dela propria; e em tudo o mais seguir a mesma orientacdo. Que penalidade, entéo, merego, por ser como vos disse? Algo bom, Atenienses. se em verdade tiver de ser punido de acordo com meu merecimento. E alguma coisa que convenha a minha pessoa. Qual recompensa convira a um benfeitor pobre que precisa ter livre todo o tempo para vos admoestar? Nao ha nada tao indicado, Atenienses, para um individuo nessas condigdes, do que ser alimentado No Pritaneu, muito mais do que para qualquer de vos que houvesse sido vencedor em Olimpia, com cavalo de corrida ou_em corrida de carro com dois ou quatro cavalos. Semelhante vencedor sé vos proporciona aparéncia de felicidade, ao passo que eu vos deixo realmente felizes, sem contar que ele n&o carece de alimentos, 0 que se da comigo. Se houverdes, portanto, de castigar-me com justi¢a e de acordo com meu mérito, eis a penalidade que me imponho: ser alimentado no Pritaneu. XXVIII Por falar-vos desse modo, talvez imagineis que emprego linguagem idéntica & que Usei quando me referi as stiplicas e exortacdes. Nada disso, Atenienses. O que ha é © seguinte: estou convencido de que nao age deliberadamente quem_comete alguma injustica, porém nao consigo transmitir-vos essa maneira de pensar. Dispomos de muito pouco tempo para este didlogo. Creio, porém, que se entre nds houvesse uma lei como ha noutros lugares, de nao julgar sé num dia os casos de pena de morte, porém em muitos, estou certo de que chegaria a convencer-vos. Mas assim, num prazo tao curto, n’o me é facil limpar-me de uma caltinia desse porte. Consciente, como estou, de nunca haver feito mal a ninguém, muito menos iria prejudicar-me e falar contra mim mesmo, a ponto de declarar que mereco punicgo e até de fixar alguma pena. De que posso temer-me? A punic&o pedida por Méleto e que eu confesso nfo saber se 6 um bem ou um mal? Em vez disso, irei escolher entre varias penalidades qualquer das que eu reputo um grande mal e declarar que a merego? 67 Talvez pena de prisdo? Por que viver no carcere, em permanente sujeicao 4 autoridade dos Onze? Ou multa em dinheiro, com prisdo até poder pagé-la?_ Equivaleria, no meu caso, a pena anterior, pois nao disponho de recursos para comprar a liberdade. Escolherei, ent3o, 0 exilio? Talvez me confirmésseis essa pena. Porém bem grande teria de ser 0 meu *apego a vida, para levar a insensatez ao ponto de nao compreender que se vos outros, Atenienses como eu, nao pudestes suportar meus discursos e a minha maneira de viver, que se vos tornaram incomodos e odiados, a ponto de quererdes desembaragar-vos deles: vou imaginar que estranhos irao suporté-los facilmente? Longe disso, Atenienses. Que bela vida, a minha, desterrado, na idade a que cheguei, a mudar com freqtiéncia de cidade e sempre expulso da Gltima em que estivesse! Sim, porque de uma coisa tenho certeza: para onde quer que me dirija, os mogos irdo escutar-me, tal qual se da entre nés. Se os repelir, eles mesmos obterao dos mais velhos que me expulsem; nao deixando de acolhé-los, o mesmo fargo por amor deles seus pais e familiares. XXVIII — Talvez alguém me observe: Nao poderias viver no exilio, Sécrates, quieto e sem falar? Eis, justamente, o mais dificil de convencer a alguns do vosso meio. Se vos dissesse que isso equivaleria a desobedecer a divindade, motivo por que nao me seria possivel ficar quieto, néo me darfeis crédito, por imaginardes que eu estivesse usando de ironia. Por outro lado, se_afirmar_que—talvez_o_maior-bem_do_homem consista em passar os dias a conv a respeito da virtude-e.de outros temas sobre os quais ja me ouvistes discorrer, exariinando Outras pessoas € a mil SMO, que a vida sem esse exame no vale a pena ser vivida, 6 o— que menos ainda irais seredica No entanto, senhores, é exatamente como digo; a davida é que nao me é possivel convencer-vos. Além do mais, nao costumo considerar-me merecedor de punicao nenhuma. Se dispusesse de recursos, estipularia a multa que eu estivesse em condigdes de pagar; néo me prejudicaria com isso. Mas, dinheiro é 0 que nao tenho, a menos que y vos decidisseis por uma quantia proporcional as minhas posses. Talvez vos possa pagar um: ina: eis a multa que me imponho-Parém PlatZo, equi preset, Ateriensre— também Crit&o, Critobulo e Apolodoro insistem para ~que eu arbitre a multa em trinta minas, ficando eles res- c ponsdveis por esse pagamento. Condeno-me, por conse- guinte, a pagar essa importancia, de que eles vos serao fiadores suficientes. XXIX — N&o se passaré muito tempo, Atenienses, sem que os difamadores gratuitos da cidade vos acusem e incriminem de haver executado Sdcrates, um sabio. Sim, porque me dar&o o nome de sdbio, embora eu o nao seja, s6 para vos diminuirem. Se tivésseis esperado um pouco mais, sem vossa interferéncia tudo se bs solveria por si mesmo. Vede minha idade: tio avancado em anos e ja proximo da morte. Nao digo isso com referéncia a todos, mas apenas aos que me id. condenaram. Para esses tenho ainda a acrescentar: Decerto, senhores, imaginais que eu fui condenado por carecer de argumentos convincentes, no pressuposto de que estivesse decidido a dizer e fazer tudo para ser absolvido. Nada disso! Sim, fui condenado por deficiéncia, porém nao de argumentos, sen&o de audacia e desfagatez, e por nao decidir-me a dizer-vos o que talvez vos fosse mais agradavel ouvir: se me pusesse a e chorar e a lamentar-me, e fazendo e alegando muitas coisas, como vos disse, indignas de minha pessoa, mas a que jd vos habituastes a ouvir com outros réus nas mesmas condigdes. N&o; nem ha pouco achei que a vista do perigo precisasse praticar qualquer baixeza, nem agora me arrependo da maneira por que me conduzi neste processo. Pelo contrario: prefiro mil vezes morrer por me ter defendido como o fiz, a ficar vivo se tivesse falado de outro modo. Porque tanto no tribunal como na guerra, nem eu nem ninguém tem o direito de lancar 39 a mio de todos os recursos para escapar da morte. Muitas vezes, nos combates torna-se manifesto que poderia deixar de morrer quem se resolvesse a jogar longe as 69 70 armas e, suplice, se voltasse para seu perseguidor, e em todos os perigos ha muitas maneiras de evitar a morte para quem nao se corra de fazer ou dizer seja o que for. Porém o diffcil, senhores, nao é fugir da morte; muito mais diffcil é fugir da maldade, porque esta corre mais do que a morte. Agora, também, por tardo e velho, fui apanhado pelo mais lerdo, enquanto meus acusadores, por arrebatados e ageis, 0 foram pelo mais rapido, a maldade. Vou sair daqui julgado por vés como merecedor da pena de morte, enquanto aqueles foram julgados pela Verdade como culpados de maldade e de injustiga. Conformo-me com minha pena, como eles devem conformar-se com a deles. Talvez tudo devesse terminar por essa forma e creio que assim mesmo esta bem. XXX — Desejo profetizar a meus acusadores 0 que viré depois disto, pois me encontro no instante preciso em que os homens sobretudo profetizam, isto é: quando estdo para morrer. O que vos digo, senhores que me mandais matar, 6 que logo apos a minha morte, vos atingira um castigo muito mais grave, por Zeus, do que o que me infligistes com esta pena. Assim procedestes, imaginando que desse modo vos livrarfeis das inquiricdes sobre vosso proceder; mas 0 contrario disso, justamente, 6 0 que vai dar-se, posso assegurar-vos. Em muito maior namero serao vossos inquiridores, que até o presente, sem que o percebésseis, eu conseguia sofrear, e que tanto mais molestos h3o de ser quanto mais. mocos forem e contra os quais vos indignareis mais ainda. Se pensais que, matando alguém, impedis de aparecer quem vos censure por nao viverdes bem, estais muito enganados. Pois essa maneira de livrar-se de censores nem é eficiente nem honrosa. Para qualquer pessoa, 0 modo mais nobre e facil no consiste em incapacitar os outros, mas em esforcar-se para tornar-se homem de bem. E o que profetizo a todos vés que me condenastes, no momento de nos separarmos. XXXI — Com os que me deram seu voto, desejo ainda conversar a respeito do que me aconteceu, enquanto os magistrados esto ocupados e eu ndo vou para o lugar em que terei de morrer. Ficai, senhores, esse UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL tempo comigo; nada nos impede de conversar intimamente, enquanto nos for isso permitido. Como a amigos é que desejo expor-vos 0 significado preciso do que acaba de passar-se. Com efeito, juizes — sim, dar-vos o nome de jufzes é dizer o que realmente sois — passou-se comigo alguma coisa maravilhos9, Durante toda a minha vida o sinal costumeiro de meu demdnio familiar nao deixou de manifestar-se e, muitas vezes, para opor-se-me até mesmo nas menores coisas, sempre que eu me encontrava na iminéncia de proceder com desacerto. Agora, como vistes, aconteceu isto comigo, que para muita gente poderia ser considerado 0 maior dos males, como de fato j4 tem sido. No entanto, o sinal do deus no me advertiu nem quando eu saf hoje de casa, pela manh&, nem quando me dirigia para este tribunal, nem em qualquer altura de minha defesa, ao Preparar-me para dizer alguma coisa, apesar de em muitas outras ocasiées me ter ele cortado o fio do discurso. Hoje, pelo contrario, em toda a marcha do Processo, no se opds a nenhum dos meus atos ou. palavras. Como explicar semelhante fato? Vou dizer-vos. E que, sem divida, foi para bem tudo o que se Passou comigo, nao havendo hipétese de estarmos certos, quando imaginamos ser a morte um grande mal. O que me aconteceu agora vale como argumento decisivo. Nao é possfvel que o sinal costumeiro nao me tivesse contrariado, se o que eu me dispunha a fazer nao fosse bom. XXXII — Consideremos também quantas razdes ‘temos para esperar que a morte seja um bem. Morrer é uma de duas coisas: ou quem morre nada é e careceda menor sensag&o seja do que for, ou ent&o, como se diz, é uma mudanga e a passagem da alma deste lugar para outro. Se se tratar, de fato, da privagao total de sensago, como no sono, quando quem dorme nao é perturbado nem pelos sonhos: terd de ser a morte um ganho maravilhoso. No meu modo de ver, se escolhesse alguém uma noite como essa, de sono tranqiiilo que nenhum sonho perturbasse e a comparasse com as outras Noites e os outros dias de sua vida, para decidir, depois 7 41 72 de madura reflexio, quantas noites e quantos dias ele tivera em toda a vida mais agradaveis do que aquela: ndo direi um simples particular, mas até mesmo o Grande Rei acharia mais facil de conté-las, em confronto com os outros dias e as outras noites. Se a morte for isso, considero-o um grande lucro, porque todo o tempo nao parecerd dessa maneira mais longo do que uma nica noite. Por outro lado, se for a morte o transito daqui para um lugar diferente, sendo certo, como se diz, que todos os mortos Id se retinem: que maior bem poderé haver, senhores juizes? Se ao chegar alguém ao Hades, livre dos que se dizem jufzes, e l4 encontrar os ju(zes verdadeiros, conforme contam, a_ distribuir justiga: Minos e Radamanto, e Eaco e Triptélemo, e tantos outros semideuses que foram justos durante a vida: seria ma essa mudanca? Ou passar a conviver com Orfeu, e Museu, e Hesfodo, e Homero: quanto nao pagar/eis para alcangar tio grande ventura? Eu, pelo menos, desejo morrer mil vezes, se tudo isso for verdade. Como seria admirdvel viver em um lugar onde fossemos encontrar Palamedes e Ajaz Telaménio, e os outros herdis da Antiguidade que pereceram vitimas de julgamento injusto! Comparar minha sorte com a deles, segundo penso, nfo seria pequena satisfagio. Sim, meu maior prazer consistiria em passar todo o tempo a examinar e interrogar os de la, como fiz com os daqui, para ver qual deles é realmente s4bio e qual se considera sébio sem que_o seja. Quanto no daria qualquer pessoa, senhores ju(zes, para examinar ao que levou 0 grande exército para Tréia, ou a Odisseu, ou a Sisifo, ou a tantos outros homens e mulheres que se poderia mencionar? Conviver com eles, conversé-los e examiné-los: que indiscritfvel felicidade! Decerto n3o matam | ninguém por isso, pois, além de serem os que ld demoram mais felizes dos que os daqui, so imortais 0 tempo todo, a ser verdade o que nos contam. XXXIII — Por isso, também vés, senhores juizes, podeis ficar esperancados ante a perspectiva da morte e firmar no espirito a certeza de que para o homem de bem nenhum mal pode acontecer na vida nem na morte, i Pr 42 € que os deuses nao se descuidam de seu destino. O que se deu comigo nao foi obra do acaso; pelo contrario: tornou-se-me evidente que é melhor para mim morrer agora e ficar livre de canseiras. Essa a razao de nao se ter manifestado o sinal, para impedir-me em nada, nem de mostrar-me eu agora aborrecido com meus acusadores e Os que me condenarem, apesar de nao ter sido essa a intengo deles ao me acusarem e condenarem, pois os movia o desejo de prejudicar-me. Isso é que merece censura em todos eles. E, contudo, s6 lhes peco uma coisa: Quando meus filhos crescerem, senhores, castigai-os e importunai-os como eu vos importunei, sempre que os virdes mais preocupados com riquezas ou com seja o que for do que com a virtude; e no caso de imaginarem ser alguma coisa, nao sendo, de fato, coisa alguma, repreendei-os como vos repreendi, por nao cuidarem do que devem e pensarem que tém algum valor, quando, realmente, nada valem. Se assim fizerdes, ter-me-eis tratado com justica, a mim e a meus filhos. : Mas, esté na hora de nos irmos: eu, para morrer; vés, para viver. A quem tocou a melhor parte, é 0 que nenhum de nds pode saber, exceto a divindade. 73 CRITAO Sécrates — Critéo 143 a Sdcrates — Por que vieste a esta hora, Critio? Nao é muito cedo? Crito — Muito. Sécrates — Que horas séo, ao certo? Critéo — A aurora vem raiando. Sécrates — Admira-me que o guarda te tivesse deixado entrar. Critio — Somos conhecidos, Sécrates, por vir eu aqui amide, e também por ja lhe ter feito algumas gentilezas. Sécrates — Chegaste agora, ou j4 faz tempo? Critao — Faz algum tempo. Sécrates — Ent3o, por que nao me acordaste logo e te deixaste ficar af t&o quietinho? Crit&o — Nao, Sécrates, por Zeus; n&o desejava para mim ter de passar acordado muito tempo em tamanha aflico. J4 de outras vezes me admirei de teu sono calmo; de caso pensado nao te despertei, para que ficasses sossegado 0 maior tempo possivel. Alias, ja tive na vida muitas oportunidades de louvar o teu temperamento, nunca, porém, como no presente inforténio, por ver com que placidez e facilidade o suportas. Sécrates — Seria por demais absurdo, Crit&o, na idade a que cheguei, revoltar-me a s6 idéia de que tenho de morrer. Crit%o — Outras pessoas, Sécrates, da mesma idade que a tua, se tém visto também a bragos com idéntico infortinio; a idade, porém, nao os impede de revoltar-se contra a calamidade iminente. Sécrates — E certo. Mas, afinal, por que vieste to cedo? Critdo — Para trazer-te, Sécrates, uma noticia triste e dolorosa; nao para ti, ao que parece; triste e dolorosa para mim e teus amigos, e que pesara, tenho certeza, particularmente sobre mim. Sdcrates — Que noticia? Retornou de Delo o navio, 4 chegada do qual eu deverei morrer? Critdo — Ainda no; porém suponho que chegara 77 78 hoje, segundo informagdes de pessoas que vieram de Sunio e que o deixaram la. Pelo que dizem, espera-se que chegue hoje, sendo por isso forcoso, Sécrates, que amanhi seja 0 teu Gltimo dia. Il— Sécrates — Boa sorte, Critdo! Se for essa a vontade dos deuses, que seja assim mesmo. Contudo, penso que nio vira hoje. Crit&io — De onde te vem essa certeza? Sécrates — Vou dizer-te. Tenho de morrer no dia seguinte ao da chegada do navio. Critdo — Pelo menos, é 0 que dizem as pessoas de autoridade na matéria. Sécrates — Nao creio que o navio chegue no dia entrante, mas amanh. Tiro essa conclusdo de um sonho que tive esta noite, ou mais precisamente, agora mesmo. Talvez tivesses feito bem em nao me acordar. Critéo — Como foi o sonho? Sécrates — Pareceu-me ver que se aproximava de mim uma mulher bela e graciosa, de vestes brancas, que me chamou pelo nome e disse: Sécrates, no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro. Crit&o — Que sonho estranho, Sécrates! Sécrates — Mas muito significativo, Critéo, parece-me. Il — Crit%o — Sim, muito, como se vé. Mas, meu caro Sécrates, ainda é tempo de seguires 0 meu conselho e de te salvares. Porque, se vieres a morrer, nao constituira isso infelicidade apenas para mim. Além de ver-me privado de um amigo nas tuas condicdes, como nunca mais poderei encontrar outro, muita gente que nem a ti nem a mim conhece suficientemente, ha de acreditar que eu poderia ter-te salvado, se me dispusesse a despender algum dinheiro, mas que me descuidei. E que pior fama poderé ter alguém do que a de dar ‘mais valor ao dinheiro do que aos amigos? A maior parte das pessoas nao se convencerd de que tu mesmo te recusaste a sair daqui, apesar de todo o’nosso trabalho nesse sentido. Sécrates — E que nos importa ands, meu caro