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PROCESSOS PSICOLÓGICOS BÁSICOS – CRIATIVIDADE

O ato de criar está presente desde os primórdios da história do Homem. Transformando a natureza, ele
foi formando e transformando a si, atribuindo significados aos seus processos internos e ao mundo ao seu
redor. A criatividade é uma das funções psicológicas superiores, usando um termo de Vygotsky (1989),
eminentemente humana, intimamente relacionada ao desenvolvimento pessoal, social, científico e cultural de
uma sociedade.
Afinal, se o homem não possuísse a capacidade criativa, provavelmente ainda estaríamos longe dos
avanços tecnológicos e dos conhecimentos diversos que marcam a nossa época. Neste sentido, a criatividade
também se articula com o processo de aprendizagem, especialmente, quanto às ideias do novo, da mudança,
do movimento, da dinamicidade, presentes nos atos de aprender e criar.
Quem é criativo?
Grandes pintores, músicos, etc. x reles mortais
A criatividade não é privilégio de uns poucos eleitos. É certo que se expressa em formas e níveis
diferentes, posto que o ser humano é singular; porém, está presente em todas as pessoas, nas mais diversas
profissões e situações do cotidiano.
Contudo, não nos damos conta de quantas estratégias criativas utilizamos no nosso dia--a-dia para lidar
com os problemas com os quais nos defrontamos.
Em que situações você é criativo?
É preciso reconhecer que o conceito de criatividade é amplo, complexo e pluridimensional. Não está conectado
apenas ao ato de produzir algo diferente, inusitado, inovador e original, mas também ao sentir, refletir, intuir,
emocionar, atribuir significado e estabelecer relações. O ato de criar combina vários estilos cognitivos, além
de fluidez, flexibilidade e originalidade.

A complexidade do conceito de criatividade


A criatividade, assim como a inteligência pode ser tomada como um
conceito complexo, difuso, multifacetado e, portanto, difícil de definir.
Algumas definições:
- “Criatividade é a decisão de fazer algo pessoal e valioso para satisfação própria e benefício dos
demais. (...) saber utilizar a informação disponível, tomar decisões, ir além do aprendido, mas, sobretudo,
saber aproveitar qualquer estímulo do meio para solucionar problemas e buscar qualidade de vida” (LA
TORRE, 2003).
- “Criar é basicamente formar. É poder dar forma a algo novo (...) o ato criador abrange, portanto, a
capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar”
(OSTROWER, 1996).
- “A criatividade como define o Webster, é basicamente o processo de fazer, de dar a vida” (MAY,
1982).
- “Capacidade distinta de solução de problema que permite as pessoas ideias, produtos originais que
são adaptáveis (que servem a uma função útil) e plenamente desenvolvidos” (DAVIDOFF, 1983).
Em seu conjunto, deixam entrever a criatividade como processo eminentemente humano, que possui
uma intencionalidade, um caráter transformador, subjetivo, ético, original, social, e emocional.

Etapas do processo de criação


Em 1900 Ribot propôs modelos para os processos de criação. Depois, em 1910, John Dewey também
apresentou estudo nesta direção. Contudo, foi o matemático inglês do século XIX, Henry Poincaré que
estabeleceu os quatro passos básicos para a solução criativa de problemas, que até os dias atuais têm sido
citados pelos autores da área.
Etapas para o ato criativo:
1ª etapa - Preparação: está relacionada à imersão consciente, inicial, que a pessoa faz para encontrar
a solução do problema com o qual se depara. É o momento de ser receptivo e saber ouvir. É a etapa da
mobilização interna para expandir limites e ir além do que já se sabe sobre o tema.
2ª etapa - Incubação: é o momento de amadurecer, de gestar as ideias concebidas na etapa anterior. É
hora de esperar, distanciando-se um pouco da obra, do projeto a ser criado ou do problema a ser solucionado.
3ª etapa - Iluminação (Insight): é o momento em que a resposta para o problema ou para a obra
desejada surge repentinamente. É quando encontramos uma solução ou um caminho. Contudo, ainda estamos
no campo do pensamento e não do ato criativo propriamente dito.
4ª etapa - Aplicação/Verificação: é o momento de dar forma à ideia, transformá-la em uma ação. É
uma etapa que exige grande elaboração, afinal estaremos criando algo para nós e para os outros.

Características de uma pessoa criativa


Pesquisas como as de La Torre (2003) realizadas com pessoas consideradas criativas, informaram que
estas não apresentaram um perfil acentuadamente diferente do resto da população com a qual foram
comparadas.
Esses estudos mostraram não ter sentido falar em uma personalidade criativa, como se isto fosse um
dom, um privilégio de poucos. Contudo, há algumas características da subjetividade dos indivíduos que estão
mais associadas a condutas e ações criativas. Alguns traços pessoais podem facilitar a expressão da
criatividade, imprimindo uma marca que identifica o sujeito que desenvolveu mais intensamente esse
potencial criador. Não podemos esquecer que sendo seres singulares, nós humanos,
nos construímos, de modo particular, na interação com o meio.
De qualquer modo, há algumas características, encontradas em estudos sobre a temática que mais se
aproximam do perfil de uma pessoa criativa: intuitiva, imaginativa, sensível, consciente, independente,
preparado, empreendedor, não convencional, curioso, idealista, persistente, aberto à experiência, adaptável as
mudanças e ao novo, disponível para o encontro com o outro, perspicaz, autônomo, simples, seguro,
despreocupado das normas sociais.
Cada sujeito carrega consigo um universo de características próprias. Tais características nos permitem
delinear melhor o que chamamos de criatividade, entendendo a beleza desse processo psicológico, social e
biológico.

A criatividade e os processos de aprendizagem


Na esfera da criatividade essa afirmação é particularmente relevante, dada a forte capacidade inventiva
e imaginativa da criança, bem como a sua espontaneidade no sentir e expressar- se para o mundo.
A escola tem significativo papel na criação de oportunidades para que os alunos, sejam eles crianças
ou adolescentes, descubram seus próprios caminhos apoiados na mediação e na orientação de colegas e
professores. Muitas vezes o que se tem é justamente o contrário; crianças homogeneizadas, atividades
repetitivas, exigências de respostas copiadas, restrição aos pensamentos inovadores e originais. Por outro lado,
não se pode pensar também que exercitar a criatividade é deixar os alunos à vontade sem nenhum
direcionamento. A criatividade, para potencializar o processo de aprendizagem exige esforço, persistência,
disciplina e trabalho.
É preciso oferecer condições para que o aluno se relacione, crie, invente e sinta prazer em aprender.
Afinal, como vimos nas definições anteriores, criar é um ato intencional, voluntário e carregado de desejo,
mas, para ser mobilizado demanda oportunidades e incentivos.
São elas: estimular e cultivar a autonomia e independência, possibilitar a liberdade de escolha, respeitar
à individualidade das pessoas, enfatizar o prazer e a importância do aprender, em detrimento de notas ou
prêmios, oportunizar experiências que estimulem o ato criativo, oferecer aos alunos exemplos de pessoas
criativas, usar o feedback informativo e incentivar o questionamento, a descoberta e a curiosidade.