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CURVA DE MAGNETIZAÇÃO E LEVANTAMENTO DA CURVA

DE PERDAS DE ORIGEM MAGNÉTICA


Alessandro Silva, Flávio Medeiros, Leonardo Bruno Lopes
Lab. de Conversão de Energia

1 Objetivo A curva que traduz a relação entre a indução


magnética ou densidade de fluxo magnético (B) em
Este relatória se refere às aulas práticas 1 e 2. Tem, função da intensidade do campo (H) é denominada
portanto, dois objetivos principais: Curva de Magnetização do Material ou Curva
Normal de Magnetização. É o lugar geométrico dos
1.Traçar a curva característica de magnetização vértices dos ciclos de histerese do material.
B=f(H) de material ferromagnético e determinar
as perdas por histerese e Foucault. O processo de magnetização e desmagnetização de
2.Visualizar e analisar, com o uso do osciloscópio e um material ferromagnético, numa condição de
de ferramentas computacionais, as curvas ciclo simétrico, envolve energia armazenada e
equivalentes àquelas obtidas anteriormente. energia devolvida que não é totalmente reversível.
Quando o material é magnetizado durante cada meio
ciclo, a energia total armazenada no campo
2 Introdução magnético é maior do que aquela que é devolvida na
desmagnetização. A fim de visualizar o processo de
A maioria dos dispositivos eletromagnéticos utiliza
magnetização e desmagnetização de um material
materiais com propriedades magnéticas. Os efeitos
ferromagnético, é dado um laço de histerese
magnéticos nos materiais têm origem nos
magnética.
movimentos orbitais dos elétrons em tomo do
núcleo e no spin de cada elétron, o que resulta no
momento magnético do átomo.

Devido à simetria da disposição eletrônica o


momento magnético líquido da maioria dos átomos
é zero ou próximo de zero.

Normalmente estes momentos magnéticos recebem


o nome de dipolo magnético do átomo. Ao conjunto
de dipolos magnéticos dos átomos que estão em
perfeito alinhamento constitui-se o domínio
magnético do material. Estes domínios estão
normalmente desordenados e o momento magnético
do material será nulo, a não ser que se aplique um
campo magnético de valor considerável.
Fig 1. Curva de histerese típica
Como resultado de aplicação do campo indutor
sobre o material ocorrem dois efeitos básicos: Uma análise gráfica mostra que a área (Obd)
representa a energia absorvida pelo campo quando
H está aumentando positivamente, e a área (bad)
1. Aumento das dimensões do domínio que estão
representa a energia devolvida quando o campo H
favoravelmente direção do campo magnético
varia de seu valor máximo até zero.
indutor.
2. Desvio angular do conjunto dos dipolos de um
A diferença entre essas duas áreas representa a
domínio tendendo a se alinhar com o sentido do
energia total que não é retornada à fonte; mas
campo magnético externo.
dissipada sob a forma de calor e armazenada no
domínio magnético para realinhamento, em resposta
Este desvio será menor quando B for pequeno
ao campo magnético estar variando de intensidade e
(trecho inicial da curva de magnetização). Se
sentido e energia cinética cedida aos spins dos
aumentarmos o campo até o paralelismo dos dipolos
elétrons.
magnéticos o material estará no estado de saturação.
A energia dissipada sob forma de calor é chamada 3 Metodologia e resultados
de perda por histerese. Assim, a área (Oab)
representa a perda por histerese em meio ciclo de 3.1 Levantamento das curvas de magnetização
variação de H. Portanto, para um ciclo completo de
e de perdas
variação de H, a densidade de energia de perda é
representada pela área do laço de histerese.

Uma outra perda importante ocorre nos materiais


ferromagnéticos sujeitos ao fluxo variando no
tempo. São as perdas por corrente de Foucault.

Se o material é maciço a perda é apreciável por que


a corrente encontra resistência relativamente Fig. 2: Montagem do circuito
pequena. Esta resistência pode ser aumentada
fazendo laminação do núcleo ou acrescentando A montagem ilustrada na Fig 2 foi realizada,
silício ao material; este é o caso de transformadores, utilizando os instrumentos adequados. O varivolt foi
geradores e motores de CA. ajustado de forma que a indicação do amperímetro
fosse zero.
O conjunto das perdas por histerese e por corrente
de Foucault constituem o que é chamado de perdas Em seguida o varivolt foi ajustado para cada valor
nos núcleos dos dispositivos eletromagnéticos que de corrente desejado e anotados os valores de
envolvem o fluxo variando no tempo. Uma maior tensão. À partir dos pares de valores de corrente e
atenção deve ser dada a estas perdas no núcleo tensão pode-se calcular a intensidade de campo
devido ao aquecimento e redução do rendimento magnético (H) e a indução magnética do material
destes dispositivos. (B) por meio das expressões:
Quanto menores forem as perdas PHF menor Ni
quantidade de energia elétrica de entrada será H=  A⋅m
transformada em calor no núcleo. No ensaio a vazio L
esta perda no ferro é indicada no wattímetro com V ef
B max= Wb⋅m2 
bastante precisão, pois a impedância do 4,44⋅f ⋅k⋅N⋅A
transformador a vazio é muito grande, limitando a
corrente a vazio no enrolamento ligado a rede a um Onde:
valor muito pequeno e tornando a perda pelo efeito Bmax, valor máximo da indução magnética
Joule desprezível. Nós dizemos que o transformador atingida pelo material em Wb/m2;
está a vazio quando os terminais do outro N, número de espiras;
enrolamento (secundário) estão abertos. L, comprimento médio do circuito magnético em
m;
O transformador estando ligado a uma fonte CA A, área da seção transversal do núcleo em m2;
fornecerá uma potência elétrica, sendo pane desta f, frequência da rede em Hz;
potência transformada em calor e indicada no Vef, valor eficaz da tensão lida no voltímetro;
wattímetro e a outra transformada em campo k, fator de empilhamento.
magnético de acoplamento entre os dois
enrolamentos. Utilizando os valores de l=2,0 m, A=9,9x10-4 m2,
N=600 e k=0,9 foi possível montar uma tabela com
A corrente a vazio segundo seu efeito pode ser os valores de B e H calculados a partir da tensão e
decomposta em duas componentes. Uma da corrente medidos no experimento. Este dados
componente responsável pelo fluxo mútuo entre os constam da Tabela 1.
enrolamentos chamada IM (corrente de
magnetização) e a outra pelo aquecimento do núcleo Visto que os valores de B e H foram calculados a
chamada IHF (corrente de perdas por Histerese- partir de valores eficazes de tensão e corrente, faz-se
Foucault). necessário multiplicá-los por  2 para obtermos
os valores máximos de B e H com os quais pode-se
traçar a curva de magnetização HxB material do
núcleo.
2
I (A) V (V) H (A/m) B (Wm/m ) Phf (W)
0,00 0 0 0,00 0,00
0,05 82 15 0,58 5,00
0,10 126 30 0,88 10,00
0,15 140 45 0,98 12,00
0,20 148 60 1,04 14,00
0,25 155 75 1,09 15,00
0,30 160 90 1,12 15,60
0,35 165 105 1,16 16,00
0,40 169 120 1,19 18,00
0,50 178 150 1,25 19,40
0,60 185 180 1,30 20,20
0,70 191 210 1,34 21,00
0,80 198 240 1,39 22,80
1,00 208 300 1,46 26,00
1,50 231 450 1,62 32,00
2,00 246 600 1,73 30,00
2,50 254 750 1,78 31,50 Fig. 4: Curva μ x B
2,60 255 780 1,79 31,50
2,70 257 810 1,80 31,50
Tabela 1: Dados medidos e calculados a partir da
montagem

Com os dados da tabela, a curva de magnetização


para o material do núcleo utilizado no transformador
da prática pode ser obtida, bem como o gráfico de μ
em função de B.

Fig. 5: Perdas magnéticas em função de B

3.2 Levantamento da curva de histerese e


observação da não-linearidade do núcleo

Outra forma de verificar a relação não-linear entre


corrente e fluxo magnético no transformador é com
utilização do osciloscópio.

Fig. 3: Curva de magnetização

A curva que relaciona as perdas no núcleo com a


densidade de campo equivalente também pode ser
obtida a partir dos dados experimentais da Tabela 1.
Neste caso, entretanto, foram usados os valores
eficazes de B.
Fig. 6: Segunda montagem
No mesmo gráfico, foi plotada uma curva
diretamente a partir dos dados experimentais da Neste caso, um circuito como o da Fig. 6 foi
tabela e outra, gerada a partir de um polinômio de 3ª montado. O canal 1 do osciloscópio foi conectado
ordem gerado com a função polyfit do Matlab no ponto A de forma a monitor a corrente de
aplicada aos dados experimentais. O resultado pode magnetização, enquanto o canal 2, conectado no
ser visto na Fig. 5. ponto B, monitorava a integral da tensão induzida
no secundário, sendo a operação de integração
realizada pelo capacitor. Como o transformador
estava sem carga (a vazio), as tensões induzidas
eram iguais em ambos os enrolamentos.

As formas de ondas foram observadas e os dados


amostrados do equipamento nas seguintes condições
de tensão aplicada (e consequentemente de corrente
circulante) no primário: i) valor inferior ao nominal,
ii) valor nominal e iii) valor acima do nominal.

Foram plotados, para cada condição de tensão, um


gráfico integral de e e corrente de magnetização
versus tempo, e corrente por integral de e, que é a
curva do ciclo de histerese. O código-fonte do script
Matlab utilizado consta do Anexo 1. Fig. 9: Onda da tensão induzida e da corrente no
primário para uma tensão próxima à nominal
Os dados obtidos foram submetidos a um filtro de
primeira ordem implementado no Matlab com as
funções butter e filter, de modo que os ruídos
pudessem ser, ao menos parcialmente, eliminados.

Fig. 10: Laço de histerese para uma tensão próxima


à nominal

Fig. 7: Onda da tensão induzida e da corrente no


primário para uma tensão inferior à nominal

Fig. 11: Onda da tensão induzida e da corrente no


primário para uma tensão superior à nominal

Fig. 8: Laço de histerese para uma tensão inferior à


nominal
%onda bicuda (corrente)
t=csvread('F0000CH1.CSV',0,0,[0 0 2481 0]);
i=csvread('F0000CH1.CSV',0,1,[0 1 2481 1]);
i=-1*i; % necessário p corrigir erro de ligaçao
i=filter(B,A,i);

%tensao induzida, v

v=csvread('F0000CH2.CSV',0,1,[0 1 2481 1]);


v=v/3; % escala para facilitar a vizualização
v=filter(B,A,v);

plot(t,i, '-r', 'LineWidth',2)


hold on
plot(t,v, '--k','LineWidth',2)
grid on
title('Tensao induzida e corrente', 'FontName',
'Arial','FontSize', 15);
xlabel('Tempo, s', 'FontName', 'Arial',
'FontSize', 13);
Fig. 12: Laço de histerese para uma tensão ylabel('Im, e', 'FontName', 'Arial', 'FontSize',
13);
ligeiramente superior à nominal legend('Im','e');

hold off
4 Conclusões plot(i,v, 'b','LineWidth',1)
title('Tensao induzida x corrente', 'FontName',
Verifica-se com muita clareza o comportamento não 'Arial','FontSize', 15);
xlabel('Im, i', 'FontName', 'Arial', 'FontSize',
linear dos materiais ferromagnéticos em relação à 13);
corrente de magnetização aplicada nas bobinas. ylabel('Tensao, e', 'FontName', 'Arial',
'FontSize', 13);
grid on
Conforme pode ser visto na Fig. 3 a partir de uma
certo ponto, mesmo que a corrente de magnetização %% curva de mi por B
H = csvread('mag.csv',0,0,[0 0 20 0]);
sofra grandes acréscimos, a densidade de fluxo é B = csvread('mag.csv',0,1,[0 1 20 1]);
pouco afetada, levando o núcleo ao estado de
u = B ./ H;
saturação.
plot(H, u, '-r','LineWidth', 2 );
Outra verificação possível a partir dos dados title('\mu x B', 'FontSize', 13);
xlabel('B, Tesla', 'FontSize', 13);
extraídos do osciloscópio e que está de pleno acordo ylabel('\mu', 'FontSize', 13);
com as afirmações teóricas diz respeito à relação grid on;
entre a corrente aplicada e as perdas de energia
ocorridas no transformador. Referências Bibliográficas
Observou-se que, operando nas condições nominais FITZGERALD, A. E.; KIGSLEY, Charles;
ou bem próximo delas, a área sob a curva do laço de UMANS, Stephen D. Máquinas elétricas. 6 ed.
histerese é bem pequena, indicando que também são Bookman, 2006.
baixas as perdas. No entanto, ao se elevar o valor da
tensão (e consequentemente da corrente) no DEL TORO, Vincent. Fundamentos de máquinas
primário, as linhas laterais que delimitam o laço de elétricas. 1 ed. LTC, 1994
histerese se afastam aumentando a área da curva, o
que indica um aumento das perdas no núcleo com o CAMPOS, Frederico F. Introdução ao Matlab. Belo
aumento da corrente aplicada, conforme o esperado. Horizonte, UFMG, fev. 2000.

Anexo 1 TONINI, Adriana Maria; SCHETTINO, Daniela


Neufel. Matlab para Engenharia. 1 ed. Belo
%% curvas de tensao e corrente no tempo Horizonte, UNI-BH, ago. 2002.
clear all
clf

%filtro
[B,A]=butter(1,0.05);