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Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem.

Isto é apenas o começo; agora


não haverá restrição para tudo que intentam fazer” (Gn 11:6)

Nestas férias de julho, eu e minha família viajamos a Europa. Visitamos


Londres, Barcelona, Veneza, Roma e Paris. Em todos esses lugares, conseguimos nos
virar sem dificuldade alguma. E isto por causa do inglês. De fato, talvez a mais
impressionante experiência de nossa viagem tenha sido esta: a de constatar como o
inglês está se tornando – isto se já não se tornou – a língua universal da humanidade.
Dizem por aí que um terço da população mundial fala inglês. Nos grandes
centros europeus, essa proporção deve ser muito maior. Nestes lugares, o falante de
inglês se comunica sem mais. A primeira vez que percebemos isto foi em Barcelona.
Pois em Londres, é claro, não parecia senão natural que as pessoas falassem inglês.
Imaginávamos que em Barcelona, que fica na Espanha, o mesmo não ocorreria. Por
isso, logo no primeiro dia, ao perguntarmos ao caixa de uma lanchonete de esquina
como chegar ao Templo da Sagrada Família, não hesitamos em lançar mão de nosso
sofrível portunhol. O sujeito, percebendo que éramos estrangeiros, respondeu apenas:
“Go straight”. Avistando a Sagrada Família, maravilhamo-nos com a beleza do lugar. E
uma vez lá dentro, a impressão que se tem é a de se estar numa tumultuada Torre de
Babel. Famílias em férias animam o local, cada uma falando uma língua diferente. Só
que diferentemente da Babel bíblica, as pessoas se entendem porque têm o inglês. Por
vezes, uma ou outra mãe me perguntava “Could you take a picture of us?”, para logo
em seguida conversar com seus filhos numa outra língua.
E o inglês não se restringe apenas aos pontos turísticos. Em qualquer lugar que
fossemos, era impossível não ouvi-lo. Até mesmo na França (digo “até mesmo” porque
há um mito de que os franceses não gostam de falar inglês) o inglês era extremamente
presente. Num domingo de manhã, andando de metrô, o pouco francês que se ouve é,
sem exagero, o da mulherzinha que anuncia “Próxima parada, estação...”. De resto, a
língua que predomina é o inglês.
Quer dizer isto que a maioria dos passageiros do metrô parisiense é americana
ou inglesa? De modo algum. Nas grandes metrópoles européias, dos que conversam em
inglês, poucos são falantes nativos. São, na verdade, pessoas do mundo inteiro. E eis aí
outra característica da sociedade européia que salta aos olhos: sua diversidade. Engana-
se quem imagina o europeu típico como um sujeito louro de olhos azuis. A rigor,
imaginar um europeu típico já padece de um equívoco, simplesmente porque não há um
europeu típico. O europeu não tem cara. Os famosos bulevares europeus lembram um
comercial da Benetton: numa atmosfera incrivelmente tolerante, pessoas de diferentes
cores e credos vêm e vão. Uma mulher de minissaia bate papo com outra de burca, um
senhor de quipá pede licença a um jovem de descendência africana – isso é a Europa. E
talvez seja justamente esta tolerância a grande lição que a Europa tem a nos ensinar. No
limite, o que mais caracteriza a Europa não é tanto seu espaço físico quanto este seu
estado de espírito tolerante e open-minded.
Nesse sentido, estudar inglês é preciso. Graças a ele, cada vez mais próximo é o
dia em que todos nós (humanos) falaremos a mesma língua. Isso não é pouca coisa, e
vale a pena perguntar o que a existência de uma língua universal significaria para nós.
Para tanto, atentemos à epígrafe acima. Se ela estiver correta, então é de se esperar que
o inglês como lingua franca nos renda um maior progresso, não só econômico como
também moral. Pois, como tivemos oportunidade de presenciar nesta viagem, ele
possibilita que povos tão diferentes se compreendam. Facilitando a compreensão, ele
evita mal entendidos e nos torna mais civilizados. Afinal, não seria a capacidade de
superar conflitos pela fala o que distingue o homem civilizado do selvagem? Sendo
assim, torçamos, enfim, para que o inglês traga a nossa história dias melhores e mais
prósperos.